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Cirurgia GeralCirurgia Torácica

A mesma sombra, no mesmo lugar

Câncer de pulmão (não-pequenas células, estadiamento, ressecabilidade)

Do terceiro antibiótico ao dia em que se decide se opera: como o câncer de pulmão chega, o que a histologia governa, e por que ressecável não é operável

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Portaria SAS/MS nº 957, de 26 de setembro de 2014. Aprova as Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Câncer de Pulmão. Brasília: Ministério da Saúde; 2014. 28 p.

Brasil. Lei nº 12.732, de 22 de novembro de 2012. Dispõe sobre o primeiro tratamento de paciente com neoplasia maligna comprovada e estabelece prazo para seu início. Texto compilado, com as alterações das Leis nº 13.685/2018, nº 13.896/2019 e nº 15.233/2025.

Brasil. Lei nº 14.758, de 19 de dezembro de 2023. Institui a Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer no âmbito do SUS e o Programa Nacional de Navegação da Pessoa com Diagnóstico de Câncer; e altera a Lei nº 8.080, de 19 de setembro de 1990. Texto compilado, com a alteração da Lei nº 15.385, de 2026.

Instituto Nacional de Câncer. Estimativa 2026: incidência de câncer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA; 2026. 168 p. ISBN 978-65-88517-50-5 (versão impressa); ISBN 978-65-88517-52-9 (versão eletrônica).

Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde; 2024.

01

Responda antes de ler

Um interno consulta a Rename e não encontra nela determinado antineoplásico citado em uma diretriz do Ministério da Saúde. Conclui que o medicamento não pode ser oferecido pelo SUS. Qual interpretação corrige esse raciocínio?

02

O paciente que você vai ver

Sete e quarenta de uma terça-feira, na enfermaria de clínica médica de um hospital de porte médio que atende sete municípios. Alcimar Pirambu tem 63 anos, foi torneiro mecânico numa oficina de retífica por vinte e dois anos e está internado desde domingo com o mesmo diagnóstico que o trouxe em março e em junho: pneumonia da base direita. Está melhor, sem febre há dois dias, comendo, e a residente já falou em alta para quinta-feira. Na pasta, presas por um clipe, estão as três radiografias das três internações.

É o interno quem tem tempo de fazer o que ninguém fez: pôr os três filmes lado a lado no negatoscópio. A opacidade de março, a de junho e a de agora estão no mesmo lugar — mesmo terço, mesmo contorno, e a de agosto um pouco maior que a de março. Entre elas há dois períodos em que Alcimar esteve sem sintoma e recebeu alta com a palavra melhorado escrita no sumário. Três pneumonias no mesmo lobo, em cinco meses, num homem de 63 anos que fumou quarenta anos, não são três pneumonias. É uma coisa só, com três infecções por cima.

O resto da história estava disponível o tempo inteiro e ninguém somou. Alcimar perdeu onze quilos desde o começo do ano, o que ele atribui a ter parado de beber. Tosse todo dia há uns oito meses, mas ele tosse desde sempre, então a mudança passou despercebida — o que mudou foi que a tosse ficou seca e passou a acordá-lo. Duas vezes escarrou raiado de sangue, e nas duas vezes achou que era da tosse forte e não contou a ninguém, porque ninguém perguntou.

A palavra que falta na papeleta é a que o interno vai ter de escrever. Pneumonia que recorre no mesmo lugar em adulto tabagista tem uma explicação mecânica antes de ter uma explicação microbiológica: alguma coisa está obstruindo o brônquio daquele segmento, e o que a obstrução produz é uma pneumonia que responde ao antibiótico, melhora, e volta assim que o antibiótico acaba, porque a causa nunca foi tratada. É o padrão que se chama pneumonia obstrutiva, e o antibiótico funciona nele — funciona bem o bastante para esconder o problema por meses.

Vale medir o que se perdeu. Entre a primeira internação e hoje passaram-se cinco meses, três cursos de antibiótico, duas altas e nenhuma pergunta nova. Ninguém errou de forma escandalosa: cada internação, tomada isoladamente, foi bem conduzida. O erro não está em nenhuma das três — está no fato de que ninguém olhou as três juntas, e é por isso que este capítulo começa aqui e não no consultório do cirurgião torácico. O tempo perdido no câncer de pulmão quase nunca se perde por ignorância de conduta; perde-se por falta de comparação.

Há também o que vai acontecer com Alcimar nas próximas semanas, e que muda o que se diz a ele hoje. Se a hipótese estiver certa, ele vai atravessar uma tomografia, uma broncoscopia, uma espera de laudo, uma consulta em serviço que fica a cento e quarenta quilômetros, e talvez uma cirurgia — e cada uma dessas etapas é um lugar onde ele pode sumir do sistema. O paciente com câncer de pulmão não se perde no diagnóstico; perde-se no intervalo entre uma etapa e a seguinte, e o intervalo é administrativo, não clínico.

Duas perguntas governam tudo o que vem depois, e o interno precisa saber que são duas e não uma. A primeira é se o tumor pode ser retirado — se a extensão anatômica da doença permite uma ressecção completa. A segunda é se este paciente aguenta a operação que retiraria esse tumor — se sobra pulmão e sobra reserva. A primeira pergunta é sobre a doença e chama-se ressecabilidade; a segunda é sobre a pessoa e chama-se operabilidade. Elas são respondidas por exames diferentes, por gente diferente, e podem discordar: existe tumor operável em paciente que não é, e existe paciente em ótimas condições cujo tumor não sai.

A investigação de Alcimar reúne quatro decisões: reconhecer a suspeita de câncer, obter material adequado, definir a extensão da doença e avaliar as possibilidades de tratamento. Ao longo do capítulo, acompanhe também as complicações que exigem atendimento urgente. O seguimento do nódulo indeterminado está em “O achado que ninguém foi procurar”, nesta apostila.

03

Quem adoece disso

Para cada ano do triênio de 2026 a 2028, o Instituto Nacional de Câncer estima 35.380 casos novos de câncer de traqueia, brônquio e pulmão no Brasil, com risco estimado de 16,51 casos por 100 mil habitantes. São 18.730 casos entre homens, com risco de 17,95 por 100 mil, e 16.650 entre mulheres, com risco de 15,14 por 100 mil. Excluídos os tumores de pele não melanoma, é o quarto câncer mais incidente do país.

O número que pesa na decisão, porém, não é o de casos novos: é o de mortes. Em 2023 ocorreram no Brasil 31.237 óbitos por câncer de traqueia, brônquio e pulmão — 16.758 entre homens, 16,23 por 100 mil, e 14.479 entre mulheres, 13,35 por 100 mil. Contra 35.380 casos novos por ano, isso põe o número de mortes em torno de 88% do número de casos. Cuidado com a leitura: casos e óbitos são de anos diferentes e de denominadores diferentes, e essa razão não é letalidade. Mas ela é suficiente para a única conclusão que o interno precisa tirar — nesta doença, quem entra pela porta errada não tem uma segunda chance depois.

A geografia importa porque muda a probabilidade que o interno deveria carregar na cabeça. As taxas mais altas estão no Sul e no Sudeste, para os dois sexos. Entre homens, o câncer de pulmão é a terceira neoplasia mais frequente no Sul, com 30,02 por 100 mil homens, no Sudeste, com 19,07, no Centro-Oeste, com 16,49, e no Norte, com 9,70, e a quarta no Nordeste, com 12,83. Entre mulheres, é a terceira no Sul, com 22,35, e no Sudeste, com 16,74, a quarta no Centro-Oeste e no Norte, e a quinta no Nordeste. A diferença entre 30 e 9,7 por 100 mil homens é de mais de três vezes, e ela vem de uma história de tabagismo que também é regional.

O tabagismo é o fator dominante e não há segundo lugar próximo. A norma federal brasileira sobre a doença, a Portaria SAS/MS nº 957, de 26 de setembro de 2014, abre dizendo que em 90% dos casos diagnosticados a doença está associada ao tabagismo, que o fumante tem risco dez vezes maior que o não fumante, e que esse risco depende da quantidade consumida, da duração do hábito e da idade em que se começou. A mesma norma afirma, na mesma página, que a cessação do tabagismo a qualquer tempo reduz o risco de desenvolver câncer de pulmão — a qualquer tempo, inclusive depois dos sessenta, inclusive depois de quarenta anos fumando.

Há uma segunda lista de causas que o interno brasileiro esquece porque ninguém pergunta. A Estimativa 2026 enumera os agentes classificados como carcinógenos humanos com evidência suficiente para câncer de pulmão: amianto, sílica cristalina, compostos de arsênio, cádmio, cromo VI, berílio, níquel, fuligem, alcatrão de hulha, emissões de motores a diesel, poeiras de carvão, processos de coque, fundições de ferro e aço, mineração de hematita, produção de alumínio e de borracha, fumos de solda, radônio, radiação ionizante e poluição do ar ambiente. E registra que muitos desses agentes têm efeito sinérgico com o tabagismo — não somam, multiplicam.

Isso tem consequência prática imediata e uma fronteira. A pergunta em que o senhor trabalha, e trabalhou, precisa ser feita a todo paciente com suspeita de câncer de pulmão, porque muda o diferencial e porque, se a exposição for ocupacional, aciona obrigações do serviço que não são clínicas. A anamnese ocupacional, o nexo causal e a comunicação de acidente de trabalho são de Nexo causal, CAT e doenças ocupacionais relacionadas ao trabalho, e a leitura ocupacional do pulmão é de PAIR e pneumoconioses, os dois na apostila Medicina do Trabalho; este capítulo faz a pergunta e cede a eles o que se faz com a resposta.

O perfil de quem adoece está mudando de um jeito que engana. A Estimativa 2026 registra que as taxas em homens vêm caindo em vários países, refletindo a queda do tabagismo iniciada décadas atrás, enquanto as taxas em mulheres continuam subindo, aproximando-se ou já superando as dos homens nas faixas etárias mais jovens. No Brasil, os 16.650 casos estimados em mulheres estão a menos de 12% dos 18.730 estimados em homens. A consequência para o plantão é direta: mulher com tosse que mudou não é caso de menor probabilidade, e nunca ter fumado não exclui a doença.

Só que a probabilidade brasileira tem um complicador que a literatura importada não tem. Aqui, uma imagem pulmonar suspeita convive com tuberculose e com micoses endêmicas, e essas hipóteses não são exóticas nem raras — são o diferencial de todo dia. O diagnóstico, o esquema e o tratamento da tuberculose são de Tuberculose: a pergunta que ninguém faz, na apostila Infectologia, e este capítulo cede a ele a doença; o que fica aqui é a consequência de método, que aparece de novo mais adiante: no Brasil, exame de imagem funcional captante não fecha diagnóstico de câncer, e imagem que sugere tuberculose não afasta câncer num fumante de longa data.

A doença chega tarde, e o quanto ela chega tarde tem número brasileiro. As Recomendações para o rastreamento do câncer de pulmão no Brasil, publicadas em 2024 pelas sociedades brasileiras de cirurgia torácica, de pneumologia e de radiologia, registram que apenas cerca de 15% dos pacientes são diagnosticados em estágios iniciais. Quinze por cento é o tamanho do problema deste capítulo: não é que falte tratamento para a doença localizada, é que a doença raramente é encontrada enquanto localizada — e quando é, quase sempre foi por acaso.

Sobre rastrear, o Brasil está num impasse que o interno precisa conhecer porque ele aparece na conversa com o paciente. A norma federal de 2014 diz, com todas as letras, que mesmo para fumantes não se recomenda rastreamento radiológico de assintomáticos; a recomendação das sociedades, de 2024, propõe o rastreamento por tomografia de baixa dose. As duas são brasileiras, as duas estão de pé, e nenhuma delas foi revogada pela outra. O impasse está desdobrado no bloco de divergências. A doutrina de rastreamento em si — o que é rastrear, o que distingue rastreamento de diagnóstico precoce, e por que rastrear pode fazer mal — é de O nível não está no exame, na apostila Medicina Preventiva e Saúde Coletiva, e este capítulo cede a ele o assunto.

Por fim, uma nota de expectativa que muda o tom da conversa com a família. Os números de sobrevida que a norma brasileira cita são de 2014 e descrevem um mundo anterior à imunoterapia e ao tratamento dirigido por alteração molecular: sobrevida cumulativa em cinco anos entre 13% e 21% em países desenvolvidos e entre 7% e 10% nos países em desenvolvimento. Repetir esses números hoje, no leito, como se descrevessem o prognóstico de Alcimar, é um erro nos dois sentidos — subestima o que existe para a doença avançada com alteração molecular tratável e superestima o que existe quando o paciente chega funcionalmente arrasado. O que o interno diz sobre prognóstico é assunto de Conversa sobre prognóstico e incerteza, na apostila Comunicação, Ética e Segurança na Prática, e este capítulo cede a ele a técnica.

04

Por que acontece o que acontece

Este bloco é curto e entra só o que faz um critério do capítulo ter sentido. Quatro coisas precisam de mecanismo: por que a mesma sombra volta no mesmo lugar, por que a separação entre pequenas e não-pequenas células governa todo o resto, por que o tumor produz síndromes que chegam pela porta da emergência, e por que a cadeia de linfonodos do mediastino decide se alguém opera.

A pneumonia que recorre no mesmo lugar tem explicação mecânica. O brônquio de um segmento pulmonar é um tubo, e a secreção que se produz atrás dele precisa sair por ele. Um tumor que cresce na parede brônquica estreita esse tubo; a secreção represa, coloniza e infecta. O antibiótico trata a infecção represada, o paciente melhora e recebe alta — e a estenose continua exatamente onde estava, produzindo o próximo episódio. É por isso que a resposta ao antibiótico não tranquiliza neste cenário: a resposta é esperada, e é justamente ela que produz a falsa sensação de problema resolvido.

A mesma geometria explica por que o tumor central e o tumor periférico se comportam como duas doenças diferentes na porta de entrada. O que cresce perto do hilo encosta cedo em brônquio, em vaso e em nervo, e por isso dá sintoma cedo: tosse que muda, sangue no escarro, pneumonia obstrutiva, rouquidão. O que cresce na periferia pode alcançar tamanho considerável sem tocar em nada que doa ou obstrua, e por isso chega calado — como achado de imagem, ou já com sintoma de metástase. Tumor periférico grande e assintomático não é tumor de bom comportamento; é tumor que teve espaço para crescer sem avisar.

A distinção entre carcinoma de pequenas células e carcinomas de células não pequenas é a bifurcação que governa tudo, e a razão é biológica antes de ser terapêutica. A norma brasileira descreve o carcinoma de pequenas células como doença de evolução clínica mais agressiva, com propensão precoce a originar metástases à distância, e por isso mesmo determina que o tratamento cirúrgico não é recomendado nesse tipo. A consequência é radical: no de pequenas células, a pergunta sobre ressecabilidade praticamente não se coloca, e a extensão da doença é classificada em localizada e extensa, e não pelo mesmo raciocínio anatômico detalhado.

Nos carcinomas de células não pequenas, doença localizada pode receber tratamento com intenção curativa, incluindo cirurgia quando extensão e condição funcional permitem. Histologia e estadiamento se complementam: a imagem pode orientar o melhor alvo antes da primeira biópsia, enquanto o tipo tumoral modifica exames e tratamento. Pequenas células costuma seguir outra estratégia, embora casos muito iniciais selecionados possam ter discussão cirúrgica especializada. Não transformar essas diferenças em proibição de investigar extensão antes do primeiro laudo.

As síndromes que chegam na porta se explicam por vizinhança anatômica, e é isso que as torna previsíveis. A veia cava superior é um vaso de parede fina, de baixa pressão, que corre no mediastino ao lado de linfonodos e do brônquio principal direito: massa que cresce ali comprime, e o sangue da cabeça, do pescoço e dos membros superiores tem de encontrar outro caminho. O nervo laríngeo recorrente esquerdo desce ao pescoço passando por baixo do arco aórtico, à esquerda: tumor ou linfonodo naquele ponto o interrompe, e a corda vocal daquele lado para. O plexo braquial e a cadeia simpática cervical passam no ápice pulmonar: tumor de ápice dói no ombro e no braço antes de aparecer no pulmão.

A hipercalcemia da malignidade tem dois mecanismos, e distingui-los importa porque o segundo é lento e o primeiro pode ser rápido. Ela pode vir da produção, pelo tumor, de uma substância que age como o hormônio da paratireoide sobre o osso e o rim, mais típica do subtipo escamoso — e nesse caso o cálcio sobe sem que exista metástase óssea nenhuma. Ou pode vir de destruição óssea local por metástase. O quadro clínico é o mesmo e é traiçoeiro: confusão, náusea, constipação, poliúria e desidratação, num paciente em quem tudo isso já seria atribuível ao câncer, ao opioide ou à idade. O cálcio alto num paciente com câncer é uma emergência metabólica que se corrige, e não um marcador passivo de doença avançada.

O comprometimento linfonodal integra a extensão da doença e pode modificar o tratamento, mas a disseminação não segue uma escada obrigatória em todos os pacientes. Descrever estações, lado e achados de imagem e escolher amostra quando o resultado muda a conduta. Captação no PET-CT e aumento de tamanho não provam metástase; infecções e inflamação podem produzir achados semelhantes. EBUS/EUS e, em situações selecionadas, técnicas cirúrgicas permitem esclarecer o mediastino. A decisão final é multidisciplinar.

05

Como se apresenta de verdade

O câncer de pulmão quase nunca chega com o nome na porta. Ele chega como uma tosse que existe há anos e mudou de caráter, como uma pneumonia que responde ao antibiótico e volta, como um emagrecimento atribuído a outra coisa, como uma dor no ombro que passou pelo ortopedista, como um inchaço de rosto que apareceu de um dia para o outro — ou como uma linha no fim de um laudo pedido por outro motivo. Nenhuma dessas portas tem a palavra câncer escrita nela.

O que segue são as seis formas de chegada que o interno brasileiro precisa reconhecer, na ordem em que elas gastam ou poupam tempo. As três primeiras são as que roubam meses. As três últimas são as que roubam horas — e uma delas roubará a sua noite de plantão.

1. A tosse que mudou e a pneumonia que volta no mesmo lugar

A apresentação mais comum é também a mais fácil de perder, porque cada peça isolada é banal. Tosse crônica num fumante de longa data é o estado basal, não o sintoma; o que importa não é a tosse, é a mudança dela. Mudou o padrão — ficou seca onde era produtiva, ou o contrário; passou a acordar o paciente; mudou o horário; ficou mais forte; ganhou um chiado localizado que antes não havia. A pergunta útil na anamnese não é o senhor tosse, é o que mudou na sua tosse, e desde quando.

A segunda peça é a pneumonia que recorre no mesmo território. Um episódio de pneumonia num adulto fumante é um episódio de pneumonia. Dois episódios no mesmo lobo, com intervalo de semanas a meses, é outra doença até que se demonstre o contrário — e o que demonstra o contrário não é a melhora com antibiótico, porque essa melhora é justamente o que se espera de uma infecção represada atrás de uma obstrução. Uma pneumonia que melhora e volta no mesmo lugar é o padrão de um brônquio estreitado, e não o de um paciente com azar.

A terceira peça é a que quebra o ciclo, e ela é barata: comparar imagens. Nenhum exame novo tem o poder de decisão de pôr as radiografias das internações anteriores lado a lado com a de hoje. Isso responde três perguntas de uma vez — a opacidade é a mesma? está no mesmo lugar? está maior? — e é isso, e não a tomografia isolada, que transforma três pneumonias em uma suspeita. Se o exame antigo não está no sistema, pergunte ao paciente por radiografias de admissão em emprego, de exame periódico e de pré-operatório antigo: são datadas, existem, e quase nunca são lembradas.

O quanto se perde é mensurável e é a razão de ser deste bloco. Cada ciclo — piora, procura de serviço, antibiótico, melhora, alta — consome de três a seis semanas, e é preciso que ele se repita para que alguém desconfie. Dois ciclos são dois a três meses; três ciclos, como no caso de Alcimar, são cinco. Nesse intervalo o tumor não fica parado, e a diferença entre um estádio que se opera e um que não se opera pode caber inteira nesses meses.

Há uma armadilha final nesta porta, e ela é brasileira. Quando o quadro não responde bem ao antibiótico, o reflexo correto num país com tuberculose é pensar em tuberculose — e ele é correto. O erro é tratar a hipótese como excludente: iniciar o esquema para tuberculose num fumante de sessenta e três anos e considerar a investigação encerrada. As duas coisas convivem, e convivem com frequência suficiente para que a regra prática seja simples: começar o tratamento da tuberculose quando indicado não dispensa reavaliar a imagem no fim dele. A doença, seu diagnóstico e seu esquema são de Tuberculose: a pergunta que ninguém faz, na apostila Infectologia.

Homem idoso sentado à beira do leito de enfermaria, com as mãos nos joelhos, olhando para a janela; envelope pardo fechado sobre o colchão ao lado.
O cuidado do paciente com suspeita ou diagnóstico de câncer de pulmão exige continuidade entre investigação, estadiamento, decisão terapêutica e acompanhamento. Conferir encaminhamentos, resultados pendentes e o responsável pela próxima etapa ajuda a evitar perdas de seguimento e atrasos desnecessários. Cena clínica sintética.

2. Sangue no escarro, dor e o emagrecimento que ninguém somou

Escarro raiado de sangue tem um problema de comunicação antes de ter um problema clínico: o paciente frequentemente não o relata porque não o considera relevante, e o médico não o descobre porque pergunta sobre tosse e não sobre escarro. A pergunta precisa ser feita com essas palavras — o senhor já viu sangue no que escarra, mesmo pouquinho, mesmo uma vez —, e a resposta muda a probabilidade de forma desproporcional ao volume. Não é preciso hemoptise volumosa: a raia de sangue repetida num fumante de longa data já obriga a investigar.

A dor torácica do câncer de pulmão não é a dor que o interno aprendeu a reconhecer. Ela costuma ser surda, contínua, mal localizada, sem relação com esforço e sem alívio com repouso, e piora ao longo de semanas em vez de minutos. Quando a dor é bem localizada na parede torácica e piora com a respiração ou com a palpação daquele ponto, o significado muda: sugere invasão de pleura parietal, de arco costal ou de parede — o que interessa porque é exatamente o tipo de extensão que a decisão cirúrgica precisa saber.

A dor de ombro merece parágrafo próprio porque tem um caminho previsível de erro. Tumor do ápice pulmonar dói no ombro, na escápula e na face interna do braço, porque cresce contra o plexo braquial, e não dói no peito. O paciente vai ao ortopedista, recebe diagnóstico de tendinite ou de dor cervical, faz fisioterapia por meses e só chega ao pulmão quando aparece fraqueza da mão, pálpebra caída e pupila menor do mesmo lado. Dor de ombro que não melhora com tratamento adequado, num fumante, pede radiografia de tórax com atenção específica aos ápices — que é a região mais frequentemente sobreposta e mais frequentemente ignorada do exame.

Perda de peso é o achado que sempre existe no prontuário e quase nunca está somado. Ela raramente é a queixa; aparece quando se pergunta, ou quando se compara o peso de hoje com o de uma consulta antiga. Vale insistir num ponto de método: o paciente costuma ter uma explicação pronta e plausível para o emagrecimento — parou de beber, mudou a comida, está trabalhando mais —, e essa explicação satisfaz a conversa e encerra a investigação. Explicação plausível não é diagnóstico; onze quilos em oito meses num homem de sessenta e três anos que fuma pedem uma causa demonstrada, não uma causa razoável.

O quarto elemento é a fadiga, e ela é o único que o interno pode medir de forma útil sem exame nenhum. A pergunta não é o senhor está cansado, é o que o senhor deixou de fazer. Deixou de subir a escada de casa? Deixou de trabalhar meio período? Passa quantas horas do dia deitado? Essa resposta é a base da avaliação de capacidade funcional que, mais adiante, vai governar se este paciente pode receber tratamento sistêmico — e ela se colhe na primeira conversa, de graça, sem pedir nada.

3. O achado de imagem, e onde termina o capítulo do nódulo

Uma parte dos casos chega sem sintoma nenhum: uma opacidade vista numa tomografia de abdome que incluiu as bases pulmonares, numa angiotomografia pedida por outra suspeita, numa radiografia de pré-operatório. Essa porta é a única com prognóstico melhor que a média, porque é a que pode encontrar a doença ainda localizada — e é também a que mais se perde por motivo administrativo, porque o achado não dói e não gera pressão.

Uma lesão focal indeterminada exige estimar a probabilidade de malignidade e escolher entre acompanhamento, amostragem e ressecção. Esse percurso está em “O achado que ninguém foi procurar”. Aqui, o foco é a lesão que exige investigação oncológica e estadiamento, além do câncer já diagnosticado.

Massa não é nódulo, e a distinção tem consequência de conduta. A convenção radiológica separa as duas pelo diâmetro de três centímetros. Abaixo disso, a lesão entra na lógica de probabilidade e seguimento do capítulo vizinho; acima disso, a probabilidade de malignidade é alta o bastante para que a pergunta deixe de ser se investiga e passe a ser como se obtém tecido e em que ordem — que é a pergunta deste capítulo. O interno não precisa medir o milímetro: precisa saber que os dois caminhos existem e que o laudo que não informa o tamanho não permitiu a escolha entre eles. A leitura sistemática do filme, com o que ela vê e o que ela não pode ver, é de Radiografia de tórax: leitura sistemática à beira do leito, na apostila Interpretação de Exames à Beira do Leito.

Um cenário desta porta é peculiar e vale ser nomeado, porque desfaz o próprio capítulo: o paciente com câncer já conhecido em outro órgão. Uma lesão pulmonar nova nesse paciente não é câncer de pulmão até prova em contrário — pode ser metástase da doença que ele já tem, o que é um problema diferente, com estadiamento diferente e decisão pertencente ao serviço que já o acompanha. A pergunta o senhor já teve câncer antes, e de quê, muda a natureza do problema mais que qualquer exame de imagem.

4. Síndrome de veia cava superior: o inchaço que assusta mais do que mata

Esta apresentação chega pela porta da emergência e assusta a equipe inteira, e por isso o interno precisa saber onde ela se encaixa e onde não se encaixa. O paciente aparece com edema de face e de pescoço, mais evidente ao acordar, com sensação de cabeça cheia e de pressão que piora quando se inclina para frente ou se deita, com veias dilatadas e visíveis no pescoço e na parede do tórax, e frequentemente com edema dos membros superiores. Pode haver tosse, rouquidão e sensação de falta de ar. O paciente costuma dizer que a camisa apertou no colarinho.

Nenhum capítulo do nível do internato assume a síndrome de veia cava superior, e por isso ela fica aqui, declaradamente assumida. A lógica é a de uma obstrução venosa progressiva num vaso de baixa pressão: o sangue da metade superior do corpo perde o caminho de volta e precisa achar rotas colaterais, que é exatamente o que as veias visíveis na parede do tórax representam. Como o desenvolvimento dessas colaterais leva tempo, a instalação lenta é bem tolerada — e é essa a regra que salva o interno de uma conduta apressada.

A classificação que decide a noite é entre urgência e emergência, e ela não se faz pelo tamanho do inchaço. É emergência, com conduta imediata, quando existe comprometimento de via aérea — estridor, dificuldade real para respirar, edema de laringe —, quando existe alteração do nível de consciência ou sinal de edema cerebral, ou quando há instabilidade hemodinâmica. Fora dessas três situações, e elas são a minoria, a síndrome é urgência: exige investigação em horas a poucos dias, num paciente monitorado e com a cabeceira elevada, mas não exige tratar antes de saber do que se trata.

A distinção importa por uma razão concreta e contraintuitiva: quando a síndrome é o primeiro sinal da doença, correr para tratar antes de obter tecido pode custar o diagnóstico. Irradiar ou tratar às cegas uma massa mediastinal altera a lesão e pode inviabilizar a biópsia — e o tipo histológico governa o tratamento inteiro, inclusive a chance de cura em alguns tumores mediastinais que não são câncer de pulmão. A regra prática, portanto, é dupla: proteger a via aérea e o nível de consciência agora, obter tecido antes de tratar sempre que o quadro permita esperar.

O que o interno faz enquanto isso é pouco e é útil: cabeceira elevada, oxigênio se houver hipoxemia, evitar punção venosa em membro superior do lado acometido — porque o retorno já está comprometido e o acesso funciona mal —, e comunicar imediatamente ao staff. O corticosteroide entra na conversa e é assunto de julgamento clínico: alivia sintoma em parte dos casos, mas pode atrapalhar o diagnóstico se o tumor for de estirpe linfoide. Não é decisão de interno, e não é decisão de plantão sem discussão. A prescrição de suporte, com as apresentações reais, está na tabela de conversão do bloco de critério.

5. Rouquidão, compressão medular e as outras chegadas por fora do pulmão

Rouquidão nova e persistente em fumante é um sinal que costuma ser tratado como sintoma de garganta e é, com frequência, sintoma de mediastino. O nervo que comanda a corda vocal esquerda faz um trajeto longo, descendo ao tórax e voltando ao pescoço por baixo do arco da aorta, e tumor ou linfonodo naquele ponto o interrompe. A voz fica soprosa e fraca, o paciente cansa ao falar, e engasgos com líquido podem aparecer. Este capítulo assume a leitura da rouquidão como sinal de doença torácica, porque não há dono dela no nível: a regra que fica é que rouquidão de mais de três semanas em fumante pede exame de tórax, não apenas exame de garganta.

Duas fronteiras precisam ser ditas aqui. A avaliação da laringe e das cordas vocais em si, e a investigação do câncer das vias aerodigestivas superiores, são de Ninguém olha a boca, na apostila Cirurgia de Cabeça e Pescoço — que é também o capítulo a procurar por outra razão importante: quem fuma e bebe tem risco somado para tumores da boca, da faringe, da laringe e do esôfago, e um segundo tumor primário nesses territórios é achado suficientemente frequente para que a boca e a garganta sejam examinadas em todo paciente com câncer de pulmão associado ao tabaco.

Dor nas costas que muda de caráter, que acorda o paciente à noite, que não melhora com repouso, e sobretudo dor associada a fraqueza de membros inferiores, alteração de sensibilidade ou dificuldade para urinar, é a apresentação de compressão medular metastática. O interno precisa reconhecê-la em segundos e não precisa manejá-la: o diagnóstico e o tratamento dessa síndrome são de A lombalgia que era outra coisa, na apostila Neurocirurgia, e este capítulo cede a ele o assunto inteiro. O que fica aqui é a obrigação de suspeitar: num paciente com câncer de pulmão, dor lombar ou dorsal nova é compressão medular até que se demonstre o contrário, e a janela para preservar a marcha se mede em horas.

Cefaleia progressiva, crise convulsiva nova, déficit focal ou mudança de comportamento exigem investigação de possível metástase cerebral e de outros diagnósticos. A ausência de sintomas, porém, não exclui indicação de imagem no estadiamento. Conforme NICE NG122, em carcinoma de células não pequenas tratado com intenção curativa, estágio II pode exigir TC cerebral com contraste e estágio III, RM; a equipe integra estágio, modalidade disponível e protocolo. Na doença de pequenas células, a avaliação cerebral tem papel próprio no estadiamento.

Há ainda um grupo de manifestações que não vem de invasão nem de metástase, e sim de substâncias produzidas pelo tumor. Baqueteamento digital, dor e inchaço em punhos e tornozelos por acometimento do periósteo dos ossos longos, quadros neurológicos de instalação subaguda sem lesão que os explique, e alterações endócrinas como retenção de água com sódio baixo ou síndrome de excesso de corticosteroide são exemplos. O interno não precisa memorizar a lista; precisa saber que ela existe e que um achado sistêmico inexplicado num fumante de longa data é razão suficiente para olhar o tórax.

6. Hipercalcemia e derrame pleural: as duas que mudam a noite ou mudam o estádio

A hipercalcemia da malignidade é a complicação que o interno mais deixa passar, porque ela não se apresenta como doença: apresenta-se como piora geral. Confusão, sonolência, náusea, vômito, constipação, sede, urina em excesso e desidratação — cada um desses sintomas, isoladamente, num paciente com câncer, tem três explicações mais óbvias do que o cálcio. Nenhum capítulo do nível assume a hipercalcemia da malignidade, e este capítulo a assume: a regra prática é que confusão nova em paciente com câncer conhecido obriga a dosar cálcio junto com os outros exames, e não depois deles.

Duas armadilhas de interpretação valem por si. A primeira é que ela pode ocorrer sem nenhuma metástase óssea, quando o tumor produz uma substância que age como o hormônio da paratireoide — de modo que a ausência de lesão óssea no exame de imagem não afasta a hipótese. A segunda é a correção pela albumina: o paciente com câncer avançado costuma ter albumina baixa, e albumina baixa reduz o cálcio total sem reduzir o cálcio que age. Um cálcio total no limite superior num paciente com albumina de dois e pouco é, na prática, um cálcio alto. Não corrigir é como ler febre num termômetro descalibrado.

O tratamento inicial é volume, e o interno sabe fazê-lo: a desidratação é parte do mecanismo, e a reposição com soro fisiológico, ajustada à função cardíaca e renal, é a primeira e mais importante medida. O diurético de alça não é medida de primeira linha e não deve ser usado antes de o paciente estar reidratado, porque piora a desidratação que causou o problema; ele entra quando há sobrecarga de volume. O bisfosfonato entra em seguida, com efeito que leva dois a quatro dias, e a discussão sobre como ele chega ao paciente no SUS está no bloco de critério — porque a resposta surpreende.

O derrame pleural muda o estádio, e não apenas o conforto. A norma brasileira, ao definir a extensão do carcinoma de pequenas células, registra que a presença de derrame pleural do mesmo lado dá prognóstico intermediário entre a doença localizada e a doença extensa — o que é a formulação de 2014 de uma ideia que continua valendo: líquido na pleura ao lado do tumor é sinal de que a doença passou de um compartimento para outro. No carcinoma de células não pequenas, derrame com células malignas comprovadas retira, na esmagadora maioria das vezes, a possibilidade de ressecção com intenção curativa.

Daí a regra que fecha esta seção e a fronteira que ela obriga. Derrame num paciente com suspeita ou diagnóstico de câncer de pulmão precisa ser puncionado, e precisa ser puncionado antes de ser atribuído ao câncer: nem todo derrame nesse paciente é neoplásico, e chamar de metástase o que era empiema troca um problema tratável por um prognóstico errado. A punção, a análise do líquido, a drenagem e o manejo do derrame neoplásico de repetição são de O líquido já está no frasco, nesta mesma apostila, que é dono do assunto; este capítulo cede a ele o procedimento e fica com o que o resultado decide sobre o estádio.

Uma última porta, mais rara, com dono declarado: derrame no pericárdio. Ele produz falta de ar desproporcional ao exame do pulmão, veias do pescoço cheias, pressão que cai na inspiração e pode evoluir para instabilidade. A pericardite e o tamponamento, inclusive o de causa neoplásica, são de Pericardite aguda e tamponamento cardíaco, na apostila Cardiologia, e este capítulo cede a ele o manejo. O que fica aqui é a obrigação de lembrar: paciente com câncer de pulmão que piora a dispneia sem piorar a ausculta pulmonar tem coração a ser investigado.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação do câncer de pulmão tem uma ordem, e a ordem é a parte que o interno erra. Quase ninguém erra qual exame existe; erra-se qual vem primeiro, e o resultado é uma cascata cara que atrasa a única decisão que importava. Este bloco põe a sequência de pé: primeiro se sabe que existe uma lesão e onde ela está, depois se obtém tecido, depois se descobre até onde a doença foi, e só então se pergunta se este paciente aguenta o tratamento que a doença pediria.

Há uma frase que resume o bloco inteiro e vale ser guardada antes dos detalhes: nenhum exame de imagem faz diagnóstico de câncer de pulmão. Imagem levanta suspeita, mede extensão e escolhe alvo. Diagnóstico é célula, e a norma brasileira é literal ao dizer que o diagnóstico definitivo é firmado pelo exame histopatológico ou citológico de espécime tumoral.

1. Coordenar caracterização, tecido e estadiamento

Diagnóstico e estadiamento devem ser planejados juntos para obter informação útil com menor risco. TC contrastada de tórax, incluindo fígado, suprarrenais e pescoço inferior conforme protocolo, ajuda a escolher o alvo antes da biópsia. PET-CT e amostragem de linfonodos podem orientar a melhor via quando o resultado modifica tratamento; não existe uma proibição geral de estadiar antes da lâmina.

A radiografia de tórax é o exame que abre a porta na maioria dos serviços brasileiros, e é preciso saber exatamente o que ela pode e o que ela não pode. Ela vê massa, atelectasia, alargamento do mediastino, derrame, elevação de uma cúpula diafragmática e lesão de arco costal. Ela não vê lesão pequena escondida atrás do coração, das cúpulas ou dos arcos, não caracteriza densidade e não estadia nada. Radiografia normal em paciente com sintoma persistente não afasta câncer de pulmão, e essa é a única frase sobre radiografia que o interno tem obrigação de nunca esquecer. O método de leitura do filme é de Radiografia de tórax: leitura sistemática à beira do leito, na apostila Interpretação de Exames à Beira do Leito.

A tomografia de tórax é o exame que organiza a investigação, e o pedido precisa dizer o que se procura. Um pedido genérico produz um laudo genérico; um pedido que informa a suspeita, o lado, o terço, o achado da radiografia e a carga tabágica produz um laudo que responde às perguntas certas. Vale escrever no pedido, com essas palavras, a suspeita de neoplasia — porque é ela que faz o radiologista descrever mediastino, linfonodos e relação com estruturas vizinhas, e não apenas a lesão.

A norma brasileira é específica quanto ao que o estadiamento inicial exige, e o detalhe do abdome superior costuma ser esquecido: uma vez confirmada a malignidade e o tipo histológico, procede-se ao estadiamento clínico por tomografia de tórax e de abdome superior, com contraste. Abdome superior entra porque fígado e suprarrenais são destinos frequentes de metástase e ficam no campo do mesmo exame — pedir só o tórax significa, na prática, ter de pedir outro exame depois e perder mais uma fila.

Os exames de sangue não fazem diagnóstico e não estadiam, mas decidem coisas. Hemograma, função renal, eletrólitos com cálcio, função hepática e albumina compõem a base: o cálcio pela hipercalcemia, a albumina porque corrige o cálcio e porque descreve o estado nutricional, a função renal porque limita contraste e limita tratamento. Marcadores tumorais séricos não têm papel no diagnóstico nem no acompanhamento desta doença — a norma brasileira exclui explicitamente marcadores tumorais, citologia de escarro, broncoscopia e imagem funcional do acompanhamento pós-tratamento.

Um ponto de ordem que evita retrabalho: sempre que o paciente tiver derrame pleural, ele é a fonte de material mais barata e mais rápida que existe, e ele responde a duas perguntas ao mesmo tempo — dá diagnóstico se houver célula maligna, e muda o estádio se houver. Puncionar o derrame antes de agendar procedimento mais invasivo é boa sequência, não atalho. A punção e a análise do líquido são de O líquido já está no frasco, nesta mesma apostila.

2. Como se obtém tecido, e por que a via escolhida importa

Obter tecido é o passo que define o caso, e a escolha da via não é indiferente. A norma brasileira lista as vias possíveis: broncoscopia, mediastinoscopia, biópsia pleural e biópsia pleuropulmonar a céu aberto ou por vídeo — e acrescenta que, eventualmente, o diagnóstico será feito no estudo da peça cirúrgica. A citologia de escarro não é recomendada de rotina, embora possa ser útil em tumor de localização central.

A regra que organiza a escolha é uma só, e o interno pode carregá-la para qualquer serviço: escolha a via que responde ao maior número de perguntas com o menor número de procedimentos. Se o paciente tem uma massa central e linfonodos mediastinais aumentados, o procedimento que amostra o mediastino dá diagnóstico e estadiamento de uma vez; se tem uma lesão periférica isolada e mediastino limpo, a punção da própria lesão basta. Escolher a via mais fácil, e depois precisar de uma segunda para estadiar, custa semanas e uma vaga.

A broncoscopia é a via natural do tumor central — o que é visível pelo brônquio pode ser biopsiado por ele, com bom rendimento, e o exame ainda descreve a extensão endobrônquica, que interessa ao cirurgião. Seu rendimento cai bastante nas lesões periféricas pequenas, que o aparelho não alcança. A punção transtorácica guiada por imagem é a via natural da lesão periférica; sua complicação mais frequente é o pneumotórax, que na maioria das vezes não exige drenagem, e o paciente precisa ser avisado dessa possibilidade antes de assinar.

A necessidade de amostrar mediastino depende de tamanho, captação, localização do tumor e probabilidade clínica, além do efeito sobre o tratamento. EBUS-TBNA/EUS são frequentemente as primeiras técnicas invasivas para linfonodos suspeitos. Resultado negativo pode exigir estadiamento cirúrgico se a suspeita permanecer. Não usar 16 mm como limiar universal nem exigir cirurgia como primeira amostra de todo linfonodo aumentado.

Quantidade de material importa mais hoje do que importava quando a norma foi escrita, e isso muda o que se pede. Uma citologia que diga apenas células malignas compatíveis com carcinoma já não basta na maioria dos serviços, porque o tratamento depende do subtipo e, no adenocarcinoma, de estudo molecular — e estudo molecular exige tecido, não apenas células soltas. Na prática, isso significa que vale a pena discutir com quem faz o procedimento se a amostra pretendida é suficiente, antes e não depois. Amostra insuficiente é o motivo mais evitável de repetir um procedimento invasivo.

Por fim, o registro. O resultado de um procedimento diagnóstico precisa entrar no prontuário com data, via, lado, achado e o nome de quem vai receber o laudo — porque é a partir do laudo que os prazos legais começam a correr, e porque é nesse ponto que o paciente mais se perde. O que se escreve e o que não se escreve no prontuário é assunto de O documento que você mais escreve, na apostila Comunicação, Ética e Segurança na Prática.

3. Histologia e biomarcadores: o que muda no tratamento

A primeira divisão é entre carcinoma de pequenas células e carcinomas de células não pequenas, e a norma brasileira dá as proporções: o primeiro grupo corresponde a cerca de 15% dos casos e o segundo, que agrega os demais tipos, a cerca de 85%. Sob o segundo rótulo ficam o carcinoma epidermoide, o adenocarcinoma, o carcinoma de grandes células, o adenoescamoso e o indiferenciado. Os tumores carcinoides são um grupo à parte, enquadrados entre os cânceres neuroendócrinos.

Carcinoma de pequenas células tem propensão à disseminação precoce e, em geral, tratamento sistêmico com radioterapia conforme extensão. Cirurgia não é a regra, mas pode integrar casos iniciais muito selecionados, como cT1–2N0M0, após estadiamento e discussão multidisciplinar. Em células não pequenas, modalidades locais e sistêmicas também se combinam conforme estádio e biologia; não presumir que toda doença localizada terá a mesma operação.

Em células não pequenas, subtipagem e biomarcadores pertinentes podem mudar escolhas sistêmicas e perioperatórias. Planejar material suficiente para histologia, testes moleculares e expressão de PD-L1 quando indicados, conforme equipe e acesso. O interno não precisa memorizar todos os fármacos para reconhecer que uma amostra insuficiente atrasa decisões e pode exigir novo procedimento.

Documentos de períodos diferentes descrevem opções terapêuticas diferentes. Para compreender a proposta feita ao paciente, relacione o subtipo e os resultados moleculares à conduta discutida pela equipe, identificando o protocolo usado pelo serviço.

A seleção de exames não depende apenas da divisão em dois grupos. Histologia, estádio clínico, sintomas e intenção terapêutica orientam PET-CT, encéfalo e investigação óssea. A NICE NG122 contempla imagem cerebral em estádios II/III de células não pequenas candidatos a tratamento curativo mesmo sem sintomas, com modalidade conforme situação. Não repetir a regra de 2014 que limitava esse exame a pequenas células ou sintomas.

Vale delimitar o que este capítulo deliberadamente deixa de fora. O tratamento sistêmico do câncer de pulmão — qual esquema, em que linha, com que critério de troca — não é conduta de interno e não está aqui. O que está aqui é o suficiente para conversar com o paciente sem mentir, para reconhecer quando o tratamento precisa parar, e para não pedir exame que ninguém vai usar.

4. O estadiamento, a régua que o Brasil usa, e a edição que a norma não nomeia

O estadiamento tem uma finalidade só, e vale repeti-la porque ela se perde no meio da sopa de letras: descobrir se a doença está confinada a um território que pode ser retirado inteiro, ou se ela já passou dele. Todo o resto é detalhe técnico dessa pergunta. O sistema internacional que descreve isso combina três eixos — a extensão do tumor primário, o acometimento de linfonodos e a presença de metástase à distância — e agrupa as combinações em estágios que orientam o tratamento.

Registre a edição da classificação ao lado do estádio e preserve os achados que o sustentam. Ao comparar documentos, confira se utilizaram a mesma edição antes de interpretar uma diferença como mudança da doença.

Isso tem três consequências práticas, e as três são do interno. A primeira: quando você lê um laudo ou um relatório que diz estádio, precisa saber por qual edição aquele número foi calculado, porque o mesmo tumor pode receber rótulos diferentes em edições diferentes, e o rótulo governa a decisão. A segunda: quando você escreve, escreva a edição junto do estádio, sempre. A terceira, e a mais importante: quando você compara o estádio de hoje com o de um relatório de dois anos atrás, e eles diferem, a primeira hipótese não é que a doença mudou — é que a régua mudou.

A investigação inclui TC contrastada adequada e avaliação dirigida de possível disseminação. PET-CT pode esclarecer extensão e selecionar alvo quando há proposta curativa ou dúvida relevante. Imagem de encéfalo e osso depende da histologia, estádio e sintomas; PET-CT não substitui adequadamente avaliação cerebral quando indicada. Confirmar achados isolados que retirariam uma opção curativa quando isso for viável e modificar a decisão.

O exame de imagem funcional — a tomografia por emissão de pósitrons combinada à tomografia — tem, na norma brasileira, uma indicação estreita e bem justificada: o estadiamento clínico do carcinoma de células não pequenas potencialmente ressecável. A razão declarada é que ele tem maior sensibilidade que a tomografia para acometimento de linfonodos do mediastino e do hilo, permitindo maior acurácia no diagnóstico da doença localizada. A leitura operacional é direta: o exame existe para tentar evitar uma toracotomia inútil, e não para todo paciente com câncer de pulmão.

Planeje o estadiamento junto da obtenção de tecido. A imagem pode ajudar a escolher um alvo que esclareça diagnóstico e extensão com menor risco, evitando repetir procedimentos por falta de planejamento.

5. O mediastino num país com tuberculose

Esta seção é curta e é a mais brasileira do capítulo. Um linfonodo do mediastino que capta no exame funcional pode estar captando por câncer ou por inflamação, e num país com a incidência de tuberculose que o Brasil tem, a segunda hipótese é comum o bastante para não ser desprezada. O mesmo vale para as micoses endêmicas. Um exame captante, aqui, desloca probabilidade — não fecha diagnóstico.

A amostragem deve esclarecer o achado mediastinal que modifica a proposta terapêutica. A escolha da via, detalhada na seção de obtenção de tecido, considera acessibilidade e rendimento. O tamanho isolado não substitui a avaliação conjunta da imagem e da probabilidade clínica.

Vale destrinchar o que essa regra faz nos dois sentidos, porque o interno costuma entender só metade. No sentido do falso-positivo, ela protege o paciente de perder a cirurgia por causa de um linfonodo inflamatório que brilhou no exame: se a única coisa que o afasta da operação é a imagem, e não a célula, é preciso ir buscar a célula. No sentido do falso-negativo, ela lembra que mediastino que não brilha em paciente com tumor grande ou central não é garantia de mediastino limpo — e é por isso que a decisão cirúrgica não se toma sobre imagem isolada.

Isso liga diretamente ao diferencial que domina a prática brasileira. Uma imagem pulmonar com cavitação, um infiltrado de ápice, linfonodos calcificados, história de contato: tudo isso empurra para tuberculose, e empurrar para tuberculose é correto. O que não é correto é tratar as duas hipóteses como mutuamente exclusivas num fumante de longa data com perda de peso. A doença, seu esquema e sua condução são de Tuberculose: a pergunta que ninguém faz, na apostila Infectologia; o que fica aqui é a regra de método — no Brasil, imagem não decide entre as duas, e quem decide é a lâmina.

Doenças intersticiais podem coexistir com câncer de pulmão, participar do diferencial de imagem e reduzir a reserva funcional para ressecção. Sua investigação e seu tratamento estão em “Nódulo pulmonar e doenças intersticiais”, na apostila de Pneumologia.

6. A avaliação funcional: por que ressecável não é operável

Chega-se ao ponto em que o capítulo se resolve. Depois que a doença foi mapeada e alguém disse que o tumor sai, sobra a segunda pergunta, que é sobre a pessoa: retirar esse pedaço de pulmão deixa este paciente vivo e respirando depois? Um tumor pode ser perfeitamente ressecável — anatomicamente removível com margem — num paciente que não é operável, porque não sobra reserva pulmonar ou cardíaca para atravessar a operação e o pós-operatório. As duas respostas vêm de exames diferentes e de profissionais diferentes, e a segunda é a que o interno vê ser esquecida.

O que se mede é, em ordem de facilidade: o que o paciente consegue fazer, quanto ar ele move, quanto gás ele troca, e quanto esforço ele aguenta. O primeiro item não precisa de aparelho nenhum e é o que o interno colhe: o que este paciente faz num dia comum, quantos lances de escada sobe, quanto anda sem parar, quantas horas passa deitado. A norma brasileira usa uma escala de capacidade funcional — a escala de Zubrod, também chamada de escala do grupo cooperativo oncológico oriental — e a usa para uma decisão dura: recomenda que a quimioterapia paliativa de primeira linha seja indicada a doentes com capacidade funcional 0, 1 ou 2, e que a segunda e a terceira linhas sejam realizadas apenas com capacidade funcional 0 ou 1.

Essa escala vale a pena ser entendida em vez de decorada, porque ela transforma uma impressão em decisão. Ela vai de zero, o paciente totalmente ativo e sem restrição, até quatro, o paciente completamente incapaz de se cuidar e confinado ao leito, passando por graus intermediários definidos por quanto do dia a pessoa passa fora da cama e quanto de trabalho leve ela ainda faz. É uma medida do que a pessoa faz, não do que ela sente — e é por isso que a pergunta certa na anamnese é o que o senhor deixou de fazer, e não como o senhor está.

A escala de desempenho e os testes pulmonares respondem a perguntas diferentes. A primeira descreve a capacidade funcional global; os testes caracterizam ventilação, troca gasosa e tolerância ao esforço. A ausência de um limiar no documento citado não substitui a avaliação funcional do candidato à ressecção.

O documento de função pulmonar citado relaciona função normal ou comprometimento leve à possibilidade de ressecção e recomenda teste de exercício para estimar melhor a reserva e o risco nos pacientes com comprometimento moderado ou elevado. A aplicação dos critérios deve ser discutida com a equipe que planeja a operação.

Fica então a régua prática que este capítulo assume e declara como sua. Espirometria e capacidade de difusão são o par mínimo antes de qualquer ressecção pulmonar, porque medem coisas diferentes e um resultado normal em uma não substitui a outra — há paciente que move ar e não troca gás, e ele é o que mais surpreende no pós-operatório. Quando qualquer um dos dois resulta comprometido, ou quando o paciente é limitado no dia a dia, a avaliação sobe para o teste de exercício. E vale lembrar que o mesmo paciente costuma ter doença pulmonar obstrutiva crônica associada, cujo diagnóstico e manejo são de Duas doenças com a mesma sigla, na apostila Pneumologia.

Duas coisas mais, que não são pulmão e derrubam operação. A primeira é o coração: quem fumou quarenta anos tem doença coronariana até prova em contrário, e a avaliação de risco cardíaco perioperatório faz parte da resposta sobre operabilidade. A segunda é a cessação do tabagismo — que não é conselho moral, é medida perioperatória com efeito próprio, e está detalhada no bloco de conduta. Um paciente que continua fumando até a véspera tem mais complicação respiratória depois, e essa é uma das poucas variáveis que ainda dá para mudar entre o diagnóstico e a operação.

07

O que decide, o que não decide, e as contas que foram conferidas nos documentos oficiais

O objetivo do internato é reconhecer suspeita, investigar com coordenação, identificar urgências, avaliar condição funcional e apoiar decisões compartilhadas. Histologia, extensão e reserva clínica respondem a perguntas diferentes e podem ser estudadas em paralelo. Comparações legais, códigos e descrições históricas de estadiamento ficam como aprofundamento; não substituem a avaliação clínica atual.

  1. 1Reconheça sinais persistentes ou progressivos: hemoptise, perda ponderal, rouquidão, tosse modificada ou pneumonia recorrente no mesmo território. Melhora com antibiótico não exclui obstrução subjacente.
  2. 2Avalie gravidade primeiro: sangramento com repercussão, via aérea, síndrome de cava com comprometimento, déficit neurológico/medular e alterações metabólicas pedem resposta urgente.
  3. 3Recuperar imagens e obter radiografia/TC necessária em paralelo. Radiografia normal não encerra suspeita persistente; não atrasar caracterização pelo arquivo.
  4. 4Planejar TC contrastada e amostra com a equipe, escolhendo local que esclareça diagnóstico e extensão com risco aceitável. Uma metástase acessível ou linfonodo pode ser alvo melhor que o tumor pulmonar.
  5. 5Garantir material adequado para histologia, subtipagem e biomarcadores pertinentes. O laboratório e a equipe precisam saber quais decisões dependem daquela amostra.
  6. 6Estadiar conforme histologia, extensão provável, sintomas e intenção terapêutica. Imagem cerebral pode estar indicada em células não pequenas mesmo sem sintomas; não restringi-la apenas por uma regra antiga.
  7. 7No mediastino suspeito, considerar EBUS/EUS e necessidade de confirmação cirúrgica seletiva. Captação em PET pode refletir granulomatose; tamanho pequeno também não exclui metástase.
  8. 8Distinguir ressecabilidade anatômica de capacidade de tolerar o tratamento. Avaliar espirometria, DLCO, função prevista após ressecção, exercício, coração, fragilidade e estado nutricional.
  9. 9Cirurgia, radioterapia, tratamento sistêmico e combinações dependem do conjunto. Pequenas células costuma receber tratamento sistêmico/radioterapia, mas casos iniciais muito selecionados podem ter cirurgia após estadiamento adequado.
  10. 10Controlar sintomas e oferecer suporte desde a investigação: dor, dispneia, nutrição, mobilidade, cessação do tabagismo e preferências. Cuidado paliativo pode coexistir com tratamento curativo.
  11. 11Encaminhar sem esperar concluir toda a sequência local. Definir responsável, próximo exame, prazo clínico e plano se o acesso atrasar; limites administrativos não são metas para aguardar.
  12. 12Na alta, confirmar que o paciente entende a hipótese, o plano e os sinais de retorno. Registrar incertezas e decisões, sem anunciar diagnóstico antes de evidência adequada.

Ressecabilidade, operabilidade e preferência do paciente

PerguntaSobre o quêRespondida comO que a resposta muda
O tumor sai inteiro? (ressecabilidade)A extensão anatômica da doença: até onde ela foi, e se existe um plano em que se possa retirá-la com margemTomografia de tórax e abdome superior com contraste; imagem funcional no carcinoma de células não pequenas potencialmente ressecável; amostragem do mediastino quando há linfonodo aumentado; punção do derrame quando existeSe a resposta é não, a cirurgia sai da mesa e o caminho passa a ser radioterapia, tratamento sistêmico ou a combinação dos dois. É decisão do cirurgião torácico com a equipe, nunca do plantão
Este paciente aguenta a operação? (operabilidade)A reserva da pessoa: quanto pulmão sobra, quanto gás ela troca, quanto esforço aguenta, e o que o coração suportaEspirometria e capacidade de difusão como par mínimo; teste de exercício quando qualquer um dos dois for limítrofe ou o paciente for limitado no dia a dia; avaliação de risco cardíaco; escala de capacidade funcionalSe a resposta é não, o mesmo tumor ressecável passa a ser tratado sem cirurgia. Nenhum documento brasileiro em vigor fixa valor de corte para esta resposta — ver as notas
Existe uma terceira pergunta, e ela é do pacienteO que ele quer, o que ele entendeu, e o que ele está disposto a atravessarConversa, com tempo e com alguém da família presente, registrada no prontuárioMuda tudo, e é a única resposta que não se obtém por exame. A técnica dessa conversa é de Comunicação de más notícias e de Conversa sobre prognóstico e incerteza, na apostila Comunicação, Ética e Segurança na Prática
O erro clássico do internoTratar as duas primeiras como uma só, e concluir que quem tem tumor pequeno operaNada: é erro de raciocínio, não de exameProduz duas falas erradas ao paciente — prometer cirurgia a quem não tem reserva, e desanimar quem tem tumor avançado mas alternativa de tratamento

Exames: utilidade, limites e aplicação

ExameRespondeLimitesAplicação no percurso
Radiografia de tóraxMassa, atelectasia, alargamento do mediastino, derrame, elevação de cúpula, lesão de arco costal — e, comparada com filme antigo, se a lesão é novaLesão pequena atrás do coração, das cúpulas e dos arcos; densidade; estádio. Exame normal não afasta a doençaNão a menciona como exame de estadiamento; menciona-a, junto da tomografia de baixa dose, no que desaconselha para rastreamento de assintomáticos
Tomografia de tórax e abdome superior com contrasteTamanho e relações do tumor, linfonodos por tamanho, derrame, e as metástases de fígado e suprarrenal que ficam no mesmo campoSe o linfonodo aumentado tem tumor dentro; se o linfonodo normal está limpo; diagnósticoÉ o exame de estadiamento clínico determinado para todos, depois de confirmada a malignidade e o tipo histopatológico
Tomografia por emissão de pósitrons combinadaAtividade metabólica de linfonodos e de lesões à distância, com sensibilidade maior que a da tomografia para mediastino e hiloDiagnóstico. E, num país endêmico, não separa com segurança o linfonodo neoplásico do inflamatórioIndicada para o estadiamento do carcinoma de células não pequenas potencialmente ressecável. A norma registra desempenho inferior em área endêmica para tuberculose
Mediastinoscopia cervical ou toracoscopiaA célula do linfonodo mediastinal — o único dado que decide a operação com segurançaNada que o cirurgião não tenha ido buscar: amostra o que foi alcançadoIntegrar tamanho, captação, localização e efeito sobre o tratamento. Considerar EBUS/EUS para a primeira amostra e estadiamento cirúrgico se persistir suspeita após resultado negativo ou insuficiente.
Cintilografia óssea com tecnécioFocos de remodelação óssea em todo o esqueleto, com boa sensibilidadeNão distingue metástase de doença degenerativa ou de trauma — a norma registra elevada taxa de falso-positivoAvaliação óssea dirigida pelo contexto; PET-CT e outras imagens podem já responder parte da pergunta. Achado isolado que muda intenção de tratamento pode exigir confirmação.
Imagem do sistema nervoso centralMetástase encefálicaPode identificar metástase assintomática quando indicada pelo estádio/intenção terapêutica; PET-CT não substitui toda avaliação cerebral.Indicação conforme histologia, estádio e sintomas. Em células não pequenas potencialmente tratável com intenção curativa, alguns estádios justificam imagem mesmo sem sintomas neurológicos.

Prazos de acesso: o que registrar e acompanhar

PrazoO que ele cobreA partir de que ato ele correOnde está
30 diasOs exames necessários à elucidação diagnóstica, quando a principal hipótese diagnóstica é a de neoplasia malignaDa solicitação fundamentada do médico responsável — ou seja, o relógio só começa quando alguém escreve o pedido dizendo por quê. Pedido sem justificativa escrita não dispara o prazo§ 3º do art. 2º, incluído pela Lei nº 13.896, de 30 de outubro de 2019, com vigência 180 dias após a publicação
60 diasO primeiro tratamento da neoplasia maligna no SUS, ou prazo menor conforme a necessidade terapêutica registrada em prontuárioDo dia em que for firmado o diagnóstico em laudo patológico. Não é da consulta, não é da suspeita, não é do encaminhamento: é da data do laudoCaput do art. 2º da Lei nº 12.732, de 22 de novembro de 2012
O que conta como tratamento iniciadoSomente a realização de terapia cirúrgica, ou o início de radioterapia, ou o início de quimioterapia, conforme a necessidade do casoConsulta com o oncologista, agendamento e abertura de processo não cumprem o prazo — e é exatamente assim que o prazo é dado por cumprido na prática§ 1º do art. 2º da Lei nº 12.732/2012
O que mais a lei garante e ninguém cobraTratamento privilegiado e gratuito quanto ao acesso à prescrição e à dispensação de analgésicos opiáceos para as manifestações dolorosas da neoplasia; e notificação e registro compulsórios das neoplasiasO acesso ao opiáceo é direito desde o diagnóstico, e não uma concessão do fim da vida. O registro compulsório vale para serviço público e privado§ 2º do art. 2º; e art. 4º-A, incluído pela Lei nº 13.685, de 2018

Apresentações de suporte: leitura da dose e do volume

Apresentação como consta da Rename 2024Dose de referênciaQuanto isso éPor qual porta chega
Dexametasona 4 mg/mL solução injetável4 mg / 8 mg / 10 mg / 16 mg1,0 mL / 2,0 mL / 2,5 mL / 4,0 mL. O volume da ampola varia entre fabricantes: confira o rótulo antes de calcular quantas ampolas, porque a concentração é que está fixada aqui, não o volumeComponente Básico — é o corticosteroide injetável que existe na farmácia da unidade e da enfermaria
Dexametasona 4 mg comprimido4 mg / 8 mg / 16 mg1 / 2 / 4 comprimidosComponente Básico
Cloreto de sódio 9 mg/mL (0,9%) solução injetávelReidratação da hipercalcemia: infusão contínua ajustada à função cardíaca e renal, reavaliada de hora em horaA própria Rename declara a equivalência: 0,154 mEq/mL. Cada 1.000 mL levam 154 mEq de sódio — número que precisa ser somado ao balanço de quem tem insuficiência cardíacaComponente Básico
Furosemida 10 mg/mL solução injetável20 mg / 40 mg2 mL / 4 mLComponente Básico. Não é medida de primeira linha na hipercalcemia e não se usa antes de o paciente estar reidratado: entra quando há sobrecarga de volume
Ácido zoledrônico 5 mg/100 mL solução para infusãoA bolsa inteira contém 5 mgA concentração é 0,05 mg/mL, o que a própria Rename confirma na tabela de documento norteador. Para os 4 mg da dose oncológica usual seriam 80 mL dos 100 mL da bolsa — o que mostra que esta não é a apresentação pensada para essa indicaçãoComponente Especializado, com PCDT de Doença de Paget e PCDT de Osteoporose como documentos norteadores. Nenhum protocolo oncológico — ver as notas
Pamidronato dissódico 60 mg pó para solução injetável60 mg por frascoPó a reconstituir e diluir conforme o rótulo; o frasco inteiro é a apresentaçãoComponente Especializado, com PCDT de Osteoporose como documento norteador
Sulfato de morfina 10 mg/mL solução injetável1 mg / 2 mg / 3 mg / 5 mg0,10 mL / 0,20 mL / 0,30 mL / 0,50 mL. O erro que mata neste item é aspirar 1 mL achando que é 1 mg: 1 mL desta apresentação são 10 mgComponente Especializado. Existem também comprimidos de 10 e 30 mg, solução oral de 10 mg/mL e cápsulas de liberação prolongada de 30, 60 e 100 mg
Fosfato de codeína 3 mg/mL solução oral15 mg / 30 mg5 mL / 10 mL. Existe também comprimido de 30 e de 60 mgComponente Especializado

Leitura do diagnóstico. Diferencie carcinoma de pequenas células de carcinoma de células não pequenas pelo nome completo. As abreviaturas variam nos documentos citados; confira o grupo histológico a que a recomendação se refere antes de interpretar uma sigla. A identificação correta do subtipo conecta o laudo à discussão terapêutica.

Registro do estádio. Escreva a edição da classificação ao lado do estádio. Ao comparar registros antigos e atuais, confira primeiro se foram calculados pela mesma edição: uma mudança de rótulo pode refletir mudança da classificação, e não progressão. Preserve no resumo os achados anatômicos que sustentam o registro, para que a equipe consiga reconstruir a avaliação.

Reserva funcional. Ressecabilidade descreve a possibilidade anatômica de retirar a doença; operabilidade descreve a capacidade do paciente de tolerar a operação. A escala de desempenho caracteriza a pessoa, mas não substitui espirometria, difusão e eventual teste de exercício. As perguntas, os exames e suas consequências estão reunidos na primeira tabela.

Rastreamento e investigação. A discussão sobre examinar pessoas assintomáticas não se aplica ao paciente com tosse persistente, hemoptise, perda de peso ou pneumonia recorrente. Nesse paciente, a pergunta já é diagnóstica. Para discutir rastreamento, considere também como serão esclarecidos e acompanhados os achados; o exame isolado não encerra o cuidado.

Leitura dos números. A estimativa apresentada é de 35.380 casos novos anuais para 2026–2028; os 31.237 óbitos citados correspondem a 2023. Dividir esses totais não calcula letalidade: são períodos e populações diferentes. Incidência, mortalidade e prognóstico individual respondem a perguntas distintas e não devem ser intercambiados na conversa com o paciente.

Comparação entre estimativas. Alterações nas taxas podem refletir mudanças nos casos estimados, nos denominadores populacionais e no método. Entre as edições citadas, os casos aumentaram 8,66% e a taxa, 9,63%; a diferença não representa, por si só, aumento adicional de doença. Use cada edição com seu período e método, sem transformar a comparação em uma previsão para Alcimar.

Acesso ao tratamento. A ausência de um antineoplásico na Rename não significa ausência de cuidado oncológico no SUS. O percurso descrito passa pelo hospital habilitado, responsável pela organização do tratamento e pela aquisição dos medicamentos conforme seu funcionamento. Oriente o paciente sobre o serviço de referência e quem acompanhará o encaminhamento, em vez de prometer retirada na farmácia da unidade.

Medicamento, indicação e apresentação. Um fármaco pode constar de uma lista para uma indicação diferente daquela discutida no plantão. Na hipercalcemia da malignidade, o acesso ao bisfosfonato deve ser organizado com o hospital responsável. A presença de uma apresentação em protocolo de osteoporose não define automaticamente a apresentação ou a via de acesso para o cuidado oncológico.

Leitura da concentração. A apresentação de ácido zoledrônico de 5 mg/100 mL corresponde a 0,05 mg/mL. Diferencie concentração, conteúdo total e dose de referência; o fato de uma conversão aritmética estar correta não transforma a apresentação de uma indicação na escolha para outra. A tabela mantém esses dados separados para facilitar a leitura da prescrição.

Balanço de sódio. O cloreto de sódio a 0,9% contém 154 mEq de sódio por litro. Esse aporte integra o balanço durante a reidratação, especialmente quando há limitação cardíaca ou renal. A concentração descrita na ampola ou bolsa e o volume administrado precisam ser lidos juntos.

Acompanhamento dos prazos. A tabela reúne os prazos e seus marcos: solicitação médica fundamentada para investigação e laudo patológico para início do tratamento. Registre essas datas e o responsável por acompanhar o percurso. Agendamento e consulta não equivalem a tratamento iniciado. Os prazos organizam o acesso e devem ser lidos junto da necessidade terapêutica registrada para o paciente.

08

A conduta, hora a hora

O que segue é a linha do tempo de Alcimar Pirambu, o paciente da abertura, do momento em que o interno põe as três radiografias lado a lado até o dia em que duas perguntas são respondidas por gente que não é ele. Quase nada aqui é procedimento; quase tudo é ordem, escrita e prazo — que é exatamente o que decide o desfecho nesta doença.

Vale dizer de saída o que o interno faz e o que ele não faz. Ele não indica cirurgia, não escolhe esquema de tratamento, não estadia sozinho e não dá prognóstico. Ele levanta a suspeita na hora certa, pede na ordem certa, escreve o que faz o relógio legal começar a correr, conversa sem mentir, e impede que o paciente desapareça entre uma etapa e a outra. É pouco no papel e é a maior parte do que se perde na prática.

  1. Terça, sete e quarenta — antes da visita

    Ponha os três filmes lado a lado antes de qualquer outra coisa e responda a três perguntas: é a mesma opacidade, está no mesmo lugar, está maior. Se as respostas forem sim, sim e sim, o diagnóstico de trabalho deixa de ser pneumonia de repetição e passa a ser obstrução brônquica a esclarecer. Depois, refaça a anamnese com quatro perguntas que ninguém fez: o que mudou na sua tosse e desde quando; o senhor já viu sangue no que escarra, mesmo pouco, mesmo uma vez; quanto peso perdeu e desde quando; e em que o senhor trabalha, e trabalhou. Alcimar responde a todas, e três das quatro respostas empurram na mesma direção. Escreva isso na evolução com essas palavras, porque é essa frase escrita que autoriza tudo o que vem depois — inclusive a discordância de quem vier atrás.

    Prescrição
    • Evolução médica: registrar comparação de imagens com data de cada exame, opacidade persistente e progressiva em lobo inferior direito em três internações (março, junho e agosto), carga tabágica de 40 maços-ano, perda ponderal de 11 kg em 8 meses e hemoptise referida em duas ocasiões.
    • Suspender a alta programada e comunicar ao staff antes da visita — não depois.
    • Manter dieta e medicações em curso; nada do que vem a seguir exige jejum imediato.
  2. Terça, ainda pela manhã — os pedidos, e como se escrevem

    Alcimar precisa de TC contrastada que caracterize a obstrução e permita planejar investigação, com avaliação de tórax e territórios relevantes ao estadiamento. Recuperar exames antigos acrescenta contexto, sem retardar esse pedido. Registrar perda de peso, hemoptise, recorrência no mesmo local e estado funcional torna a hipótese compreensível. Discutir desde já encaminhamento e estratégia de tecido: localização central pode favorecer broncoscopia, linfonodos podem ser acessíveis por EBUS/EUS e outros sítios podem oferecer diagnóstico e estádio juntos. Não é preciso esperar terminar todos os exames para a equipe especializada participar.

    Prescrição
    • Tomografia computadorizada de tórax e de abdome superior, com contraste iodado, com indicação escrita: suspeita de neoplasia pulmonar; opacidade persistente em lobo inferior direito em três exames (março, junho e agosto); ex-tabagista de 40 maços-ano; avaliar mediastino, linfonodos e relação com estruturas vizinhas.
    • Hemograma completo, ureia, creatinina, sódio, potássio, cálcio total, albumina, transaminases, fosfatase alcalina e bilirrubinas.
    • Solicitação fundamentada registrada em prontuário e datada — é dela que corre o prazo de 30 dias do § 3º do art. 2º da Lei nº 12.732/2012.
    • Não solicitar marcadores tumorais séricos nem citologia de escarro de rotina.
  3. Terça, à tarde — a conversa que não espera a certeza

    Alcimar vai perceber que alguma coisa mudou, porque a alta sumiu e apareceram exames. O silêncio, aqui, é pior que a notícia: o paciente preenche o vazio com a pior hipótese e sem os dados que a qualificam. Diga o que se sabe, o que não se sabe, e qual é o próximo passo com data. Não prometa que não é nada e não anuncie câncer antes de ter lâmina — as duas coisas destroem confiança por caminhos opostos. Chame alguém da família se ele quiser, e pergunte quem ele quer que saiba. A técnica dessa conversa é de Comunicação de más notícias e de Conversa sobre prognóstico e incerteza, na apostila Comunicação, Ética e Segurança na Prática; o que fica aqui é a obrigação de tê-la hoje e não na semana que vem.

    Prescrição
    • Registrar em prontuário quem estava presente, o que foi dito e o que o paciente pediu para saber ou para não saber.
    • Perguntar e registrar quem é o interlocutor da família, com telefone que atenda.
    • Não usar a palavra câncer como diagnóstico antes do resultado histopatológico; usar suspeita, e explicar o que a suspeita significa.
  4. Quarta — o resultado da tomografia, e a escolha da via

    Os linfonodos mediastinais de Alcimar, medindo até 18 mm, são suspeitos e precisam ser integrados ao estadiamento. Tamanho não confirma metástase e não impõe uma via cirúrgica de amostragem. A equipe define PET-CT quando indicado e planeja tecido que possa informar diagnóstico e estágio, frequentemente por EBUS/EUS nas cadeias acessíveis. Se a amostra for negativa ou inadequada e a suspeita continuar relevante, discutir avaliação adicional. Levar para a reunião clínica a estação linfonodal, a qualidade da amostra e o efeito possível do resultado sobre o tratamento.

    Prescrição
    • Broncoscopia com biópsia da lesão endobrônquica, com pedido de material suficiente para estudo histopatológico e, no caso de adenocarcinoma, para estudo molecular.
    • Registrar no pedido: linfonodo mediastinal ipsilateral de 18 mm — avaliar possibilidade de amostrar mediastino no mesmo tempo.
    • Consentimento informado assinado, com registro do que foi explicado sobre risco de sangramento e de pneumotórax.
    • Jejum conforme rotina do serviço para o procedimento; suspender nada mais do que a rotina exigir.
  5. Quinta — a alta que não pode ser uma alta comum

    Se o procedimento não for feito durante a internação, Alcimar vai para casa — e é aqui que a maioria dos pacientes com câncer de pulmão se perde. Uma alta comum devolve à rua um homem com uma suspeita e nenhuma data. A alta deste paciente precisa carregar cinco coisas escritas em linguagem que ele leia: o nome do exame que falta, a data e o lugar, quem o receberá, o que fazer se a data não vier, e quais sintomas o trazem de volta antes da data. Isso é o que a Lei nº 14.758/2023 chama de superar barreira, e a barreira aqui é estrutural e de acesso, não clínica.

    Prescrição
    • Sumário de alta com: diagnóstico de trabalho, os três exames comparados com suas datas, o exame pendente, a data e o local do procedimento e o nome do serviço de destino.
    • Telefone do serviço e do interlocutor da família registrados nos dois lados — no sumário e no prontuário.
    • Sinais de alarme escritos para o paciente: inchaço de rosto e pescoço ao acordar, falta de ar nova, dor nas costas com fraqueza nas pernas, confusão, hemoptise volumosa.
    • Retorno agendado antes da alta, com data, e não orientação de procurar a unidade.
    • Adesivo de nicotina 21 mg, um por dia, iniciado hoje — cessação é medida perioperatória, não conselho.
  6. O dia do laudo — o relógio legal começa aqui

    O laudo de Alcimar orienta a subtipagem e o planejamento, mas parte do mapa anatômico já foi obtida para escolher a amostra. Revisar qualidade do tecido e necessidade de biomarcadores, completar estadiamento que terá efeito sobre tratamento e verificar acesso à equipe multidisciplinar. Não limitar automaticamente imagem de encéfalo ou avaliação mediastinal por critérios antigos. A necessidade depende da extensão, histologia e intenção terapêutica. Registrar data do diagnóstico e prioridade, mantendo cuidado clínico e acompanhamento da execução do plano.

    Prescrição
    • Registrar em prontuário, em campo destacado: data do laudo histopatológico e início da contagem do prazo de 60 dias da Lei nº 12.732/2012.
    • Encaminhamento a serviço habilitado em oncologia com radioterapia, com o laudo anexado e a data do laudo no corpo do encaminhamento.
    • Definir imagem de encéfalo, osso e PET-CT conforme histologia, estádio clínico, sintomas e intenção terapêutica com a equipe; não usar ausência de sintoma como exclusão universal.
    • Prosseguir o estadiamento conforme a conduta do serviço de destino, incluindo a amostragem do linfonodo mediastinal de 18 mm.
  7. Antes da decisão cirúrgica — as duas perguntas, com nome e sobrenome

    Na reunião em que o caso é discutido, as duas perguntas aparecem separadas, e é a hora de o interno entender por quê. A primeira é sobre o tumor: com o linfonodo mediastinal amostrado, sabe-se se a doença passou do hilo para o mediastino, e é isso que decide se uma ressecção completa é possível. A segunda é sobre Alcimar: com espirometria e capacidade de difusão em mãos, sabe-se quanto pulmão sobra depois de retirar o lobo. As duas podem discordar, e é normal que discordem. Nenhum documento brasileiro em vigor fixa o valor de corte da segunda — o que existe é um texto do Projeto Diretrizes, de 2001, que nomeia os exames e deixa o número a quem opera.

    Prescrição
    • Espirometria completa com prova broncodilatadora e medida da capacidade de difusão do monóxido de carbono, com indicação escrita de avaliação pré-ressecção pulmonar.
    • Teste de exercício cardiopulmonar se qualquer um dos dois resultar limítrofe, ou se o paciente for limitado nas atividades do dia a dia.
    • Avaliação de risco cardíaco perioperatório — quarenta anos de tabagismo tornam doença coronariana hipótese até prova em contrário.
    • Registrar a capacidade funcional pela escala de Zubrod na evolução, com a descrição do que o paciente faz num dia comum e não apenas o número.
  8. O tempo todo, em paralelo — o que não espera o estadiamento

    Quatro coisas correm desde o primeiro dia e não dependem de saber o estádio. A cessação do tabagismo, porque a própria norma federal diz que a redução do risco ocorre a qualquer tempo e porque quem para antes da cirurgia tem menos complicação respiratória depois; a técnica da intervenção é de Pare de fumar não é conduta, na apostila Medicina Preventiva e Saúde Coletiva, e o que fica aqui é a indicação e o momento. O controle de sintoma e o cuidado paliativo desde o diagnóstico, que a Lei nº 14.758/2023 manda estar disponível em todos os níveis de atenção — o manejo da dor oncológica é de Cuidados paliativos e dor oncológica, na apostila Geriatria. A busca ativa de quem some entre uma etapa e outra. E a conversa que se repete, porque uma conversa só nunca basta.

    Prescrição
    • Terapia de reposição de nicotina disponível no SUS: adesivo transdérmico de 7, 14 ou 21 mg, goma de mascar ou pastilha de 2 mg, e cloridrato de bupropiona 150 mg de liberação prolongada — todos constam da Rename 2024. A vareniclina não consta.
    • Analgesia escalonada com o que existe no elenco: fosfato de codeína em comprimido de 30 ou 60 mg ou solução oral de 3 mg/mL, e sulfato de morfina em comprimido, solução oral, solução injetável ou cápsula de liberação prolongada.
    • Registrar no prontuário que o acesso a analgésico opiáceo para dor de neoplasia maligna é direito expresso no § 2º do art. 2º da Lei nº 12.732/2012, desde o diagnóstico.
    • Combinar quem liga para o paciente se ele faltar — e registrar o nome dessa pessoa.
09

Como saber se está funcionando

Reavaliar, aqui, quase nunca é medir um sinal vital. É conferir se uma etapa aconteceu, se um prazo está correndo e se o paciente ainda está no sistema. Os parâmetros abaixo são o que o interno olha entre uma etapa e outra — e a maioria deles não precisa do paciente na frente para ser conferida.

Uma advertência de leitura: neste capítulo, não melhorar quase sempre significa não andou, e não significa piorou clinicamente. A doença que se perde por atraso não dá sinal de que está se perdendo.

O exame pendente foi feito, ou só foi pedidoA cada revisão do caso, e obrigatoriamente antes de qualquer alta

Esperado: O exame tem data, local e nome de quem o receberá, e alguém do serviço sabe dizer em que ponto da fila ele está. Se a hipótese principal é neoplasia maligna e há solicitação fundamentada registrada, o prazo do § 3º do art. 2º da Lei nº 12.732/2012 é de 30 dias.

Se não melhora: Se o exame não tem data, o problema não é do paciente, é do serviço, e precisa ser escalonado por escrito hoje — não na próxima consulta. Registre a data do pedido, a data de hoje e o número de dias decorridos na evolução: é esse registro que transforma uma reclamação em cobrança de prazo legal. Se a barreira é de transporte, de horário ou de dinheiro, ela é barreira nos termos do § 3º do art. 13 da Lei nº 14.758/2023, e resolvê-la é parte do cuidado, não favor.

O relógio dos 60 dias, e onde ele começouDo dia do laudo histopatológico em diante, conferido semanalmente

Esperado: A data do laudo está registrada em campo destacado do prontuário e no encaminhamento, e o primeiro tratamento — cirurgia, ou início de radioterapia, ou início de quimioterapia — está agendado dentro dos 60 dias.

Se não melhora: Consulta agendada com o oncologista não cumpre o prazo, e é o modo mais comum de dar por cumprido o que não foi. Se a data marcada para o primeiro tratamento cai fora dos 60 dias, isso precisa aparecer por escrito no prontuário e ser comunicado a quem regula o acesso no serviço. O descumprimento sujeita os gestores responsáveis a penalidades administrativas pelo art. 3º da Lei nº 12.732/2012 — o que o interno faz com essa informação é registrá-la e escaloná-la, não brandi-la contra colegas.

Peso, e o que ele diz sobre a operação que se planejaEm toda consulta, com a balança, e não pela impressão do paciente

Esperado: Peso estável ou em recuperação depois de iniciado o suporte nutricional. Perda continuada durante a investigação é sinal de doença ativa e também de reserva que está sendo gasta antes da operação.

Se não melhora: Perda progressiva muda duas coisas ao mesmo tempo: piora a capacidade funcional que decide se há tratamento sistêmico, e piora a reserva que decide se há cirurgia. Peça avaliação nutricional — a Lei nº 14.758/2023, no art. 8º, garante cuidado multidisciplinar com nutrição entre as áreas nominadas —, procure causa tratável somada (dor não controlada, náusea, disfagia, depressão, boca dolorida) e reavalie se algum sintoma está limitando a ingestão por motivo que se corrige.

Capacidade funcional pela escala de Zubrod, descrita e não só numeradaNa admissão e a cada mudança clínica, sempre com a descrição do que o paciente faz num dia comum

Esperado: Estabilidade ou melhora. A norma federal recomenda a quimioterapia paliativa de primeira linha para capacidade funcional 0, 1 ou 2, e a segunda e a terceira linhas apenas para 0 ou 1 — o número decide o acesso ao tratamento.

Se não melhora: Queda de capacidade funcional durante a espera é a perda mais silenciosa desta doença: o paciente atravessa a fila e chega fora da janela em que o tratamento seria oferecido. Antes de aceitar a queda como progressão, procure o que se corrige — anemia, dor, derrame pleural que se drena, hipercalcemia, depressão, sedação por opioide mal ajustado. E registre a descrição, não só o número, para que quem vier depois possa comparar.

Cálcio, corrigido pela albuminaNa admissão, e sempre que houver confusão, sonolência, náusea, constipação ou desidratação novas

Esperado: Cálcio dentro da faixa após correção pela albumina. Em paciente com albumina baixa, um cálcio total no limite superior já é um cálcio alto na prática.

Se não melhora: Cálcio alto com sintoma é emergência metabólica que se corrige, e não marcador passivo de doença avançada. A primeira medida é volume, com soro fisiológico ajustado à função cardíaca e renal — lembrando que cada litro carrega 154 mEq de sódio. O diurético de alça não é primeira linha e não se usa antes da reidratação. O bisfosfonato leva dois a quatro dias para agir e, no SUS, não vem pela farmácia do Componente Especializado: vem pelo hospital habilitado, pelo motivo detalhado nas notas de critério.

Sintomas que interrompem a filaEm toda avaliação, e ensinados ao paciente e à família por escrito

Esperado: Ausência de edema de face ao acordar, de dor dorsal com fraqueza de pernas, de confusão nova, de rouquidão nova e de dispneia que piora sem piorar a ausculta.

Se não melhora: Cada um desses tem um destino próprio e nenhum deles espera a consulta marcada. Edema de face com estridor, rebaixamento ou instabilidade é emergência; sem isso, é urgência que exige investigação em horas a poucos dias, e obter tecido antes de tratar. Dor dorsal com déficit é compressão medular até prova em contrário, e o manejo é de A lombalgia que era outra coisa, na apostila Neurocirurgia. Dispneia que piora com ausculta inalterada obriga a olhar o coração, e a pericardite e o tamponamento são de Pericardite aguda e tamponamento cardíaco, na apostila Cardiologia.

O paciente continua fumandoEm toda consulta, perguntado sem julgamento e registrado

Esperado: Redução ou cessação, com terapia de reposição de nicotina em uso — adesivo, goma ou pastilha —, associada ou não a bupropiona, todos disponíveis no elenco do SUS.

Se não melhora: Recaída é parte do processo e não é motivo para retirar o apoio. Reavalie dose e forma da reposição, pergunte o que aconteceu na recaída e ofereça de novo. Vale insistir por uma razão concreta e não moral: a cessação antes da cirurgia reduz complicação respiratória depois, e é uma das poucas variáveis de risco que ainda dá para mudar entre o diagnóstico e a operação. A técnica da intervenção é de Pare de fumar não é conduta, na apostila Medicina Preventiva e Saúde Coletiva.

10

Onde o erro machuca

Tratar a terceira pneumonia no mesmo lugar como a terceira pneumonia

O dano: É o defeito que mais custa tempo neste capítulo, e ele é fácil de cometer porque cada internação, isolada, foi bem conduzida. O paciente recebe antibiótico, melhora — porque a infecção represada de fato responde —, e a melhora confirma o diagnóstico errado. Entre um ciclo e o seguinte passam três a seis semanas, e são precisos dois ou três ciclos para alguém desconfiar: no caso de Alcimar, cinco meses. Nesse intervalo o tumor não fica parado, e a diferença entre um estádio que se opera e um que não se opera pode caber inteira aí. Ninguém erra de forma escandalosa; o erro está em não olhar as três internações juntas.

Como pegar a tempo: Fixe a regra pelo território e não pelo número: pneumonia que recorre no mesmo lobo, num adulto que fuma ou fumou, é obstrução brônquica até prova em contrário. E ponha em prática a única medida que quebra o ciclo — comparar imagens. Antes de pedir qualquer exame novo, procure radiografias e tomografias anteriores no sistema, e pergunte ao paciente por exames de admissão em emprego, exames periódicos e pré-operatórios antigos, que são datados e quase nunca lembrados. Uma boa resposta ao antibiótico nesse cenário não tranquiliza: é o que se espera, e é exatamente o que esconde o problema.

Pedir a bateria de estadiamento antes de ter a lâmina

O dano: Produz um gasto que não volta e um atraso que ninguém contabiliza. Cintilografia óssea, imagem de encéfalo e imagem funcional são pedidos em bloco, ocupam três filas diferentes, e quando o resultado histológico chega, metade deles não era indicada para aquele tipo. Pior: a cintilografia tem alta taxa de falso-positivo por doença degenerativa e por trauma, de modo que o exame desnecessário frequentemente gera um segundo exame para esclarecer o achado do primeiro, num paciente que ainda não tem diagnóstico. E o exame de imagem funcional pedido em área endêmica para tuberculose acrescenta um resultado que não decide nada sozinho.

Como pegar a tempo: Coordenar confirmação tecidual e estadiamento. A TC com contraste costuma anteceder a biópsia para definir o alvo mais informativo e seguro; PET-CT e outros exames podem fazer parte desse planejamento. Imagem cerebral não depende apenas de sintomas: indicação e modalidade também variam com histologia, estágio e intenção terapêutica. Não atrasar toda avaliação de extensão até chegar um primeiro resultado citológico.

Confundir ressecável com operável, e prometer cirurgia por causa do tamanho do tumor

O dano: O dano é uma conversa errada, e conversa errada nesta doença custa confiança que não se recupera. O interno olha um tumor pequeno e periférico, conclui que sai, e diz ao paciente e à família que a cirurgia resolve — e semanas depois alguém explica que a espirometria e a difusão não permitem retirar aquele lobo. A família ouve isso como recuo, ou como fila, ou como descaso. O erro corre também no sentido oposto: dizer que não há o que fazer diante de um tumor localmente avançado, quando existe tratamento com intenção curativa que não passa pela sala de cirurgia.

Como pegar a tempo: Separe as duas perguntas desde a primeira conversa e nomeie as duas em voz alta: uma é sobre o tumor e a outra é sobre o senhor. Diga que a primeira é respondida por exames de imagem e por amostra do mediastino, e a segunda por exames de sopro e por avaliação do coração, e que as duas podem dar respostas diferentes. Quando não souber, diga que não sabe e diga quando vai saber. E lembre-se de que não operar não significa não tratar: radioterapia e tratamento sistêmico, isolados ou combinados, são caminho com intenção curativa em parte dos casos.

Ler o exame de imagem funcional como se ele fechasse diagnóstico no Brasil

O dano: O dano tem duas direções e a brasileira é a mais grave. Um linfonodo mediastinal captante num paciente com tuberculose, paracoccidioidomicose ou histoplasmose produz o mesmo padrão de um linfonodo tomado por tumor, e concluir doença avançada a partir dele retira da cirurgia um paciente que era operável. No sentido oposto, mediastino que não capta em paciente com tumor grande ou central não garante mediastino limpo, e a falsa segurança leva à toracotomia que a própria norma queria evitar. Nos dois casos, uma decisão de cirurgia foi tomada sobre brilho e não sobre célula.

Como pegar a tempo: Linfonodos suspeitos por tamanho, morfologia ou captação pedem estadiamento adequado quando o resultado modifica a conduta. EBUS/EUS costuma ser opção inicial de amostragem em contextos indicados; resultado negativo com alta suspeita pode exigir avaliação cirúrgica. Não adotar 16 mm como gatilho universal de mediastinoscopia nem excluir cirurgia apenas pela imagem.

Dar alta com uma suspeita e sem uma data

O dano: É a morte administrativa da investigação, e ela não dói nem sangra, por isso ninguém a percebe. O paciente sai com um papel dizendo que precisa fazer tomografia, ou broncoscopia, ou consultar o oncologista, e sem local, sem data e sem nome de quem o espera. Ele tenta, esbarra numa fila, numa passagem de ônibus, num horário incompatível com o trabalho, e some. Volta meses depois pelo pronto-socorro, com síndrome de veia cava superior ou com derrame, e agora as duas perguntas já têm resposta e a resposta é não. A doença não avisou que estava se perdendo.

Como pegar a tempo: Nenhuma alta de paciente com suspeita de câncer de pulmão sai sem cinco linhas escritas em linguagem que ele leia: o nome do exame que falta, a data e o lugar, quem vai recebê-lo, o que fazer se a data não vier, e quais sintomas o trazem de volta antes da data. Registre no prontuário o interlocutor da família e um telefone que atenda. E combine, com nome, quem liga se o paciente faltar: a Lei nº 14.758/2023 institui a navegação da pessoa com diagnóstico de câncer como busca ativa e acompanhamento individual, e define barreira em termos que incluem o econômico, o estrutural e o de acesso.

Atribuir ao câncer a confusão, a dispneia ou o derrame sem procurar a causa que se corrige

O dano: Produz o pior dos dois mundos: o paciente é rotulado como em progressão, o tratamento é reduzido ou suspenso, e a causa real seguia tratável. Confusão nova em paciente com câncer tem uma lista curta de causas corrigíveis — hipercalcemia, infecção, retenção urinária, fecaloma, opioide mal ajustado — e a hipercalcemia é a que mais escapa, porque pode existir sem nenhuma metástase óssea e porque o cálcio total engana quando a albumina está baixa. Derrame atribuído ao câncer sem punção troca um empiema tratável por um prognóstico errado.

Como pegar a tempo: Diante de piora, faça a pergunta invertida: o que aqui se corrige. Dose cálcio e albumina juntos, e corrija o cálcio pela albumina antes de interpretá-lo. Puncione o derrame antes de atribuí-lo à doença — a punção, a análise do líquido e a drenagem são de O líquido já está no frasco, nesta mesma apostila. E lembre que suspender tratamento em nome de um rótulo contraria a própria Lei nº 14.758/2023, que determina o cuidado paliativo ao lado do tratamento da doença, e não no lugar dele.

11

O que dizer ao paciente e à família

Este capítulo tem mais conversa do que procedimento, e é por isso que o bloco é longo. A doença chega devagar, atravessa muitas etapas e muitas pessoas, e em quase todas elas o paciente decide se continua vindo com base no que ouviu da última vez. A técnica de dar má notícia é de Comunicação de más notícias e a de sustentar incerteza é de Conversa sobre prognóstico e incerteza, as duas na apostila Comunicação, Ética e Segurança na Prática; o que fica aqui é o conteúdo — o que precisa ser dito, com que palavras, e o que não pode ser prometido.

Uma regra atravessa as sete falas: informe o que já se sabe, admita o que ainda não se sabe, e marque a data em que se saberá mais. As três partes juntas. Faltando a terceira, o paciente ouve abandono; faltando a segunda, ele ouve certeza que não existe.

Suspender a alta que já tinha sido anunciada, sem ter diagnóstico

Seu Alcimar, o senhor melhorou da infecção, isso é verdade e continua valendo. Mas eu comparei o raio X de hoje com os de março e de junho, e a sombra no pulmão direito está no mesmo lugar nos três, e um pouco maior agora. Isso é diferente de três infecções seguidas por azar, e me faz querer entender por que ela não sai. Por isso pedi uma tomografia e uns exames de sangue, e por isso vou segurar a alta até ter esse resultado. Ainda não tenho o nome disso, e não vou inventar um hoje. O que eu sei é que ficar sem investigar seria pior.

Não diga: Dizer que é só para tirar uma dúvida ou que é rotina, o que faz o paciente descobrir sozinho depois que não era. Evite também o outro extremo, que é antecipar a palavra câncer sem lâmina — o paciente passa dias com a certeza errada e, se não for, você já gastou o crédito de dizer coisas graves.

A pergunta feita no corredor: é câncer, doutor?

É uma das possibilidades, e é a que estamos investigando primeiro, porque é a que não pode esperar. Existem outras, e algumas são tratáveis com comprimido — tuberculose é uma delas, e no Brasil ela é comum. Eu não vou saber qual é olhando a imagem: para saber, é preciso tirar um pedacinho e olhar no microscópio, e é isso que a gente vai fazer. O senhor prefere que eu converse com alguém da família junto?

Não diga: Responder com números de probabilidade que você não tem — nem oitenta por cento nem provavelmente não. E evite a fuga elegante de dizer que só o especialista pode responder: o paciente ouve isso como desconversa, e a pergunta volta com mais medo na próxima vez.

Dar o resultado do laudo histopatológico

O resultado chegou e eu prefiro que o senhor ouça de mim. É um câncer de pulmão, do tipo que a gente chama de células não pequenas. Vou explicar o que isso muda, porque muda muita coisa a favor: é o tipo em que a cirurgia entra na conversa, se os exames mostrarem que a doença está limitada a um lugar de onde ela possa ser tirada inteira. Ainda faltam exames para saber isso, e eles têm prazo em lei. Hoje eu queria que o senhor saísse daqui sabendo três coisas: o que é, que existe um caminho, e quando a gente se fala de novo.

Não diga: Entregar o laudo em pé, num corredor, ou por telefone quando dava para ser presencial. Evite também despejar o estadiamento inteiro na mesma conversa — o paciente para de ouvir depois da palavra câncer, e o resto precisa de outro dia. E não diga pegamos no começo antes de o estadiamento existir.

Explicar por que ele vai fazer exames de sopro antes de saber se opera

Tem duas perguntas diferentes aqui, e elas não são a mesma. A primeira é se esse tumor sai — isso quem responde são as imagens e uma amostra dos gânglios do meio do peito. A segunda é se o senhor aguenta a operação que tiraria esse tumor, porque a gente vai retirar um pedaço do pulmão e o que sobra precisa dar conta. Essa segunda pergunta quem responde são os exames de sopro e a avaliação do coração. Pode acontecer de a primeira dar sim e a segunda dar não, e é justamente por isso que eu peço as duas ao mesmo tempo, em vez de esperar.

Não diga: Dizer que é só um exame de rotina antes da cirurgia, o que transforma a segunda pergunta em burocracia e deixa o paciente despreparado se a resposta for não. Evite também prometer a cirurgia por causa do tamanho do tumor: o tamanho é uma parte pequena da primeira pergunta e nenhuma parte da segunda.

A filha pergunta quanto tempo o pai tem

Eu entendo por que a senhora precisa dessa resposta, e vou ser honesto: eu não tenho um número, e quem lhe der um número exato hoje vai estar chutando. O que existe são faixas, e elas dependem de coisas que ainda não sabemos — até onde a doença foi e como ele vai responder ao tratamento. O que eu posso lhe dizer com segurança é o que vem nas próximas duas semanas, quem vai ver o seu pai e quando a senhora terá notícia. E posso lhe prometer uma coisa: quando eu souber mais, a senhora vai saber junto, e não vai precisar arrancar de mim.

Não diga: Dar um prazo em meses para encerrar a conversa. E evitar o oposto, que é o vamos ficar otimistas: a família ouve isso como recusa a falar, e passa a buscar a informação por fora, com quem tem menos dados e menos compromisso. A técnica de sustentar incerteza sem mentir é de Conversa sobre prognóstico e incerteza, na apostila Comunicação, Ética e Segurança na Prática.

O paciente diz que continua fumando, e diz com vergonha

Seu Alcimar, eu não vou brigar com o senhor por causa disso, e não é para se envergonhar comigo. Vou explicar por que eu insisto, e não é moral: parar agora muda o que acontece depois da cirurgia — quem para antes tem menos problema de pulmão no pós-operatório. E o risco cai a partir do momento em que se para, em qualquer idade. O SUS tem adesivo, goma e pastilha de nicotina, e tem um comprimido que ajuda; eu já posso começar hoje. Se o senhor recair, quero que me conte, porque recaída faz parte e a gente ajusta.

Não diga: Transformar a conversa em cobrança, e sobretudo transformar o cigarro em explicação para tudo o que der errado depois. Evite também prometer o que o elenco não tem: a vareniclina não consta da Rename 2024, e prometer o que a farmácia não entrega custa a confiança inteira. A técnica da intervenção no tabagismo é de Pare de fumar não é conduta, na apostila Medicina Preventiva e Saúde Coletiva.

Apresentar o cuidado paliativo sem que a família ouça que se desistiu

Eu vou pedir que uma equipe entre junto com a gente, e ela cuida de uma coisa que o tratamento do tumor não cuida: dor, falta de ar, apetite, sono, e o que a família está segurando. Isso não substitui o tratamento, entra ao lado dele — a lei que organiza o cuidado do câncer no Brasil manda que esse cuidado esteja disponível desde o diagnóstico, em todos os níveis de atenção, e não no fim. Se o senhor tiver dor, tem remédio forte para isso, e o acesso a ele é um direito escrito na lei desde o diagnóstico, não uma coisa que se dá no fim.

Não diga: Introduzir o assunto no dia de uma má notícia, o que faz as duas coisas colarem para sempre na cabeça da família. E evitar a palavra paliativo sem explicar o que ela quer dizer — para a maioria das pessoas ela significa acabou. O cuidado de fim de vida propriamente dito é de Ninguém disse que era hoje e o manejo da dor oncológica é de Cuidados paliativos e dor oncológica, nas apostilas Comunicação, Ética e Segurança na Prática e Geriatria.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Rastreamento: indicação e continuidade do cuidado

Diretriz federal citada

A diretriz federal citada desaconselha o rastreamento radiológico de assintomáticos. Sua discussão se concentra em população elegível, periodicidade e condições de implementação no Brasil. Isso não se confunde com investigar sintomas suspeitos.

Brasil. Ministério da Saúde. Portaria SAS/MS nº 957, de 26 de setembro de 2014, seção 4. Norma não revogada, e o arquivo que o Ministério serve hoje na sua página de protocolos clínicos e diretrizes terapêuticas sob o verbete câncer de pulmão.

Recomendações das sociedades

As recomendações das sociedades brasileiras de 2024 apoiam rastreamento por tomografia de baixa dose em população selecionada. Consideram a necessidade de critérios para os achados e o efeito da tuberculose e das micoses endêmicas na interpretação.

Sociedade Brasileira de Cirurgia Torácica; Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia; Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem. Recomendações para o rastreamento do câncer de pulmão no Brasil. J Bras Pneumol. 2024;50(1):e20230233.

Como decidir

Para o paciente à sua frente, a divergência quase nunca precisa ser resolvida, e reconhecer isso é o que evita paralisia. Se ele tem sintoma — tosse que mudou, hemoptise, perda de peso, pneumonia que recorre —, nada disto se aplica: ele não é candidato a rastreamento, é candidato a investigação diagnóstica, e as duas réguas concordam integralmente sobre o que fazer com ele. A divergência só morde no assintomático que pergunta se deve fazer o exame, e aí o que o interno faz é três coisas concretas. Primeira: dizer a verdade, que existe recomendação das sociedades brasileiras a favor e que o programa público não existe, de modo que na rede pública o exame não está disponível como rastreamento. Segunda: não pedir tomografia de baixa dose como rastreamento pelo SUS em nome próprio, porque não há programa que a sustente nem estrutura para seguir o que ela achar — e achado sem seguimento produz dano, não benefício. Terceira, e é a que muda desfecho de verdade: oferecer a cessação do tabagismo, que está disponível no elenco do SUS, tem efeito medido e não depende de nenhuma das duas posições. A doutrina de rastreamento, com seus critérios e suas armadilhas, é de O nível não está no exame, na apostila Medicina Preventiva e Saúde Coletiva.

Estadiamento: tornar comparáveis os registros

Interpretação de registros anteriores

As opções de tratamento dos documentos citados são organizadas por estádio. Para interpretar um registro antigo, é necessário conhecer a classificação usada e os achados que sustentaram o rótulo. A mesma anatomia pode receber denominações diferentes entre edições.

Brasil. Ministério da Saúde. Portaria SAS/MS nº 957/2014 — corpo do texto, que menciona a classificação por três eixos sem qualificar a edição, e referência 4 da lista bibliográfica, um artigo de 2009 sobre o sistema revisado. A palavra edição não aparece no documento.

Registro no serviço atual

O protocolo institucional orienta o registro e a decisão do serviço. A equipe precisa explicitar a edição usada e esclarecer diferenças entre documentos, especialmente quando o estádio interfere na autorização de procedimentos.

Brasil. Ministério da Saúde. Portaria SAS/MS nº 957/2014 — trecho da introdução do anexo que determina que os hospitais credenciados em oncologia disponham de protocolo clínico institucional complementar, adequado às diretrizes, para orientar a tomada de decisão. E Lei nº 12.732/2012, parágrafo único do art. 1º, que manda rever, republicar e atualizar a padronização de terapias do câncer sempre que necessário para adequá-la ao conhecimento científico.

Como decidir

O interno não decide qual edição o serviço adota — isso é decisão da instituição —, mas decide três coisas que evitam o dano concreto desta divergência, e as três são de escrita. Primeira: nunca escreva um estádio sem escrever ao lado por qual edição ele foi calculado. Um estádio sem edição é um número sem unidade, e quem ler daqui a dois anos não terá como saber. Segunda: quando encontrar dois estádios diferentes para o mesmo paciente em documentos de datas diferentes, a primeira hipótese é que a régua mudou, e não que a doença mudou — confira a edição antes de concluir progressão, porque essa conclusão errada muda tratamento. Terceira: quando o rótulo de estágio for o que decide se um procedimento é autorizado, pergunte explicitamente a quem regula qual régua o serviço usa, e registre a resposta no prontuário. Se depois disso ainda houver dúvida sobre qual edição aplicar a um paciente concreto, a pergunta é do staff e do serviço de oncologia, não do plantão.

Mediastino: quando o resultado da amostra muda o tratamento

Medida anatômica

O documento citado descreve um gatilho de tamanho para abordagem do mediastino. Essa informação pertence ao contexto daquela recomendação e não substitui a avaliação conjunta da imagem, da probabilidade clínica e do efeito do resultado sobre a proposta terapêutica.

Brasil. Ministério da Saúde. Portaria SAS/MS nº 957/2014, seção 4: se há linfonodos mediastinais aumentados à tomografia, com dezesseis milímetros ou mais, faz-se necessária a abordagem cirúrgica complementar, por mediastinoscopia cervical ou toracoscopia, para minimizar a indicação de toracotomias desnecessárias.

Natureza do achado

Um linfonodo com captação aumentada pode ser inflamatório, inclusive em contexto de tuberculose. Quando o achado muda a proposta de tratamento, esclarecer sua natureza evita atribuir à neoplasia uma alteração que pode ter outra causa.

Brasil. Ministério da Saúde. Portaria SAS/MS nº 957/2014, mesma seção 4, que declara como justificativa que o desempenho do exame de imagem funcional é inferior para doentes em áreas endêmicas para tuberculose.

Como decidir

Amostragem é particularmente útil quando o resultado mediastinal muda a proposta terapêutica. Integrar TC, PET-CT, acessibilidade e qualidade do material; EBUS/EUS pode ser a primeira via, com estadiamento cirúrgico selecionado após resultado negativo ou insuficiente e suspeita persistente. Tuberculose e outras causas inflamatórias podem simular comprometimento tumoral. Nem toda doença mediastinal implica a mesma estratégia: decisão final depende da extensão, histologia, condição funcional e discussão multidisciplinar, não de um corte isolado de tamanho.

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O raciocínio, em voz alta

Pascoalina Jaburu tem 74 anos, mora sozinha num sobrado com escada, e chegou ao ambulatório encaminhada pela unidade básica com uma tomografia na mão. Fumou dos dezoito aos cinquenta e nove, cerca de vinte e cinco maços-ano, e parou há quinze anos. Tem doença pulmonar obstrutiva crônica em acompanhamento, usa broncodilatador de longa duração, e teve duas exacerbações no último ano. A tomografia foi pedida por causa de tosse com piora nos últimos quatro meses e mostra massa de três centímetros e meio no lobo superior esquerdo, periférica, sem contato com o mediastino, sem derrame, com linfonodos mediastinais todos abaixo de dez milímetros. Fígado e suprarrenais livres. A punção transtorácica já foi feita: adenocarcinoma. Ela chega ansiosa e com uma pergunta pronta: quando é a cirurgia. Na anamnese, o que ela conta é que parou de subir a escada de casa há uns oito meses e dorme na sala; sai de casa uma vez por semana, com a vizinha, e precisa parar duas vezes no caminho até a padaria, que fica a um quarteirão.

  1. o que o caso já respondeu, e o que ele não respondeu

    O adenocarcinoma e a imagem inicial sugerem uma possibilidade de tratamento local, mas linfonodos abaixo de 16 mm não garantem mediastino negativo. A equipe completa estadiamento pertinente e decide se precisa de amostra nodal conforme localização, PET-CT e risco. Em paralelo, avalia reserva respiratória e funcional: uma lesão ressecável não significa que aquela pessoa tolere a ressecção planejada.

  2. o dado mais importante da consulta veio da anamnese, e não da tomografia

    Parou de subir a escada há oito meses. Dorme na sala porque o quarto é em cima. Para duas vezes num quarteirão. Isso não é um detalhe social: é a medida bruta da reserva funcional desta senhora, colhida de graça, e é o primeiro sinal de que a segunda pergunta pode dar não. A pergunta que produziu esse dado não foi a senhora está cansada — foi o que a senhora deixou de fazer. Registre a descrição no prontuário junto com o número da escala de capacidade funcional, porque a descrição é o que permite a quem vier depois comparar.

  3. os exames que respondem à segunda pergunta, e por que são dois e não um

    Espirometria completa e medida da capacidade de difusão do monóxido de carbono são o par mínimo antes de qualquer ressecção pulmonar, e medem coisas diferentes: uma diz quanto ar ela move, a outra quanto gás ela troca. Existe paciente que move ar e não troca gás, e é ele que surpreende no pós-operatório. Se qualquer um dos dois resultar limítrofe — ou, como aqui, se a limitação no dia a dia já for evidente —, a avaliação sobe para o teste de exercício cardiopulmonar, que estima a reserva cardiocirculatória com maior precisão. É exatamente essa a sequência que o documento brasileiro do Projeto Diretrizes descreve, sem fixar valor de corte.

  4. o que mais precisa ser respondido antes de decidir

    A avaliação de risco cardíaco perioperatório, porque quem fumou vinte e cinco maços-ano tem doença coronariana até prova em contrário. E a otimização da própria doença pulmonar obstrutiva crônica: duas exacerbações no último ano é doença mal controlada, e ajustar o tratamento antes da operação muda o risco cirúrgico e muda a espirometria que se vai medir. O diagnóstico e o manejo da doença obstrutiva são de Duas doenças com a mesma sigla, na apostila Pneumologia.

  5. o desfecho, e por que ele não é um fracasso

    A espirometria e a difusão vêm bastante reduzidas, e o teste de exercício confirma reserva insuficiente para a lobectomia. O tumor é ressecável e a paciente não é operável — que é exatamente a situação que dá nome a este capítulo. Isso não a deixa sem tratamento com intenção curativa: a norma federal brasileira prevê, para o estágio I, a radioterapia torácica radical para doentes com contraindicação médica à cirurgia, e descreve a irradiação ablativa estereotática como modalidade indicada a doentes em estádio I sem condições clínicas para a cirurgia. Deixar de operar não é deixar de tratar.

  6. o que se diz a ela, e com que palavras

    Ela chegou perguntando quando é a cirurgia, e vai ouvir que não vai haver cirurgia — se isso for dito sem as duas perguntas separadas, ela ouvirá que desistiram dela. Diga que o tumor está num lugar de onde sairia, e que o problema não é o tumor, é o pulmão que sobraria. Diga que existe um tratamento que mira o mesmo alvo sem abrir o tórax, e que ele é oferecido justamente a quem está nessa situação. E diga por que os exames de sopro foram pedidos antes: eles não eram burocracia, eram a segunda pergunta.

  7. o relógio legal, no caso dela

    O laudo da punção já existe, e é a data dele que dispara o prazo de sessenta dias do caput do artigo 2º da Lei nº 12.732/2012 para o início do primeiro tratamento. Aqui o primeiro tratamento será radioterapia, e o § 1º é explícito: o prazo se cumpre com o início da radioterapia, não com a consulta que a agenda. Registre a data do laudo em campo destacado, no prontuário e no encaminhamento, e confira o intervalo a cada semana.

  8. o que corre em paralelo desde hoje

    Controle de sintoma e apoio, que a Lei nº 14.758/2023 manda estar disponíveis em todos os níveis de atenção e desde o diagnóstico. Avaliação nutricional, que o artigo 8º da mesma lei inclui no cuidado multidisciplinar garantido. E a logística concreta: ela mora sozinha, num sobrado com escada, e a radioterapia é diária por várias semanas — transporte, acompanhante e o que fazer se ela faltar precisam ter nome e telefone antes de a primeira sessão ser marcada. É isso que a lei chama de superar barreira, e a barreira aqui é de acesso, não de doença.

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Faça você

Duas e vinte da manhã de um sábado, unidade de pronto atendimento de porte III. Pancracio Escadinha tem 66 anos, é aposentado da construção civil, fuma desde os quinze e continua fumando. Chegou trazido pela filha, Eusebia, porque acordou com o rosto inchado e não conseguiu calçar o anel no dedo. Ele diz que há umas três semanas a camisa vem apertando no colarinho e que dorme com dois travesseiros porque deitado fica com a cabeça pesada. Ao exame: consciente, orientado, falando frases inteiras, com edema de face e de pálpebras, pletora facial, veias dilatadas e visíveis no pescoço e na parede anterior do tórax, e edema dos dois membros superiores. Pressão arterial 138 por 84, frequência cardíaca 96, frequência respiratória 20, saturação 94% em ar ambiente, sem estridor e sem tiragem. A ausculta pulmonar tem murmúrio reduzido no terço superior direito. Ele perdeu sete quilos em quatro meses e tosse há bastante tempo, mas não sabe dizer desde quando mudou. Eusebia pergunta se é alergia. O médico plantonista está com outro paciente na sala vermelha e pede que você comece.

  1. 1.

    Diga qual é a síndrome e por que os quatro achados — edema de face, pletora, veias colaterais visíveis no tórax e edema dos membros superiores — pertencem a um mesmo mecanismo. Explique também por que a piora ao deitar e ao inclinar-se para frente faz parte do quadro.

  2. 2.

    Classifique: isto é emergência ou urgência? Nomeie explicitamente os três achados que, se estivessem presentes, mudariam a classificação — e diga se algum deles está presente em Pancracio.

  3. 3.

    Escreva as medidas de suporte que você toma agora, na madrugada, e justifique cada uma. Inclua uma medida de acesso venoso que é específica deste quadro e que a maioria dos internos não conhece.

  4. 4.

    Explique por que correr para tratar antes de obter tecido pode custar o diagnóstico, e o que isso muda na sua conduta esta noite.

  5. 5.

    Defina a investigação que pode esclarecer obstrução venosa e orientar amostra sem atraso desnecessário. Em quais circunstâncias a radiografia seria útil e quando a TC contrastada pode ser obtida diretamente?

  6. 6.

    Diga o que você fala para Eusebia, que perguntou se é alergia, e o que você não promete.

  7. 7.

    Registre prioridade clínica, próximo passo e responsável. Explique por que prazos legais não autorizam aguardar semanas diante de síndrome compressiva que pode piorar.

  8. Continuidade do caso e prática do internato

    Alcimar acompanha reconhecimento e investigação; o caso resolvido acrescenta a decisão funcional, e Pancracio representa uma apresentação compressiva cuja prioridade pode mudar rapidamente.

  9. Questão integrativa 1

    Alcimar melhorou com antibiótico. Por que ainda investigar a opacidade recorrente?

  10. Questão integrativa 2

    É sempre necessário obter lâmina antes de qualquer estadiamento?

  11. Questão integrativa 3

    Linfonodo de 12 mm dispensa investigação porque está abaixo de 16?

  12. Questão integrativa 4

    Espirometria razoável, sozinha, libera ressecção pulmonar?

  13. Questão integrativa 5

    Pancracio desenvolve estridor enquanto aguarda biópsia. A equipe espera o tecido?

  14. Questão integrativa 6

    Que cuidado começa antes de definir tratamento antitumoral?

Ver como fecharíamos

Pancracio tem quadro compatível com síndrome de veia cava superior, mas imagem deve esclarecer obstrução, compressão externa e/ou trombose. O retorno venoso comprometido explica edema superior, pletora e circulação colateral; a duração não permite garantir que a evolução continuará lenta. Ele não apresenta comprometimento respiratório, neurológico ou hemodinâmico grave descrito, porém precisa de avaliação prioritária e monitorização. Cabeceira elevada se tolerada, oxigênio se indicado, analgesia e comunicação imediata ao médico responsável. Acesso venoso deve considerar retorno comprometido; em obstrução importante, a equipe pode preferir acesso em território inferior. Não sugerir que o “outro braço” necessariamente contorna uma obstrução central. TC com contraste esclarece lesão e vaso e pode ser solicitada diretamente se disponível e segura, sem exigir radiografia prévia como barreira. Buscar um alvo de amostra com a equipe, preservando material para diagnóstico. No paciente estável, obter tecido antes de radioterapia/tratamento antitumoral costuma ser importante, sobretudo se houver hipótese de linfoma. Corticoide não é rotina autônoma e pode alterar o rendimento da biópsia. Se surgirem estridor, edema cerebral/rebaixamento ou instabilidade, priorizar estabilização e intervenção urgente, que pode incluir tratamento endovascular ou outras medidas especializadas antes da confirmação. Não transformar a obtenção de tecido em condição para salvar uma via aérea ameaçada. Explicar a Eusebia que o padrão sugere dificuldade de retorno do sangue por um vaso do tórax e que a causa ainda precisa ser esclarecida, incluindo trombose e tumor. Informar onde ficará, quais exames/consultas estão previstos e quando haverá nova avaliação. Registrar datas e garantir seguimento; o prazo clínico de hoje prevalece sobre uma espera administrativa. Questões integrativas — respostas comentadas 1. A infecção pode ocorrer distalmente a uma obstrução. Melhora trata parte do quadro, mas recorrência no mesmo local, perda de peso e hemoptise mantêm suspeita. 2. Não. TC e exames selecionados podem orientar um alvo que dê diagnóstico e estádio juntos. Planejar a sequência evita procedimentos repetidos e informação sem efeito sobre a decisão. 3. Não. Tamanho é um dado; captação, tumor central, outros achados e efeito no tratamento podem indicar amostra. EBUS/EUS frequentemente precedem estadiamento cirúrgico. 4. Não. Integrar DLCO, função prevista após a ressecção, capacidade de exercício, coração, fragilidade e preferências. Ressecabilidade anatômica e tolerância fisiológica são perguntas diferentes. 5. Não. Comprometimento de via aérea muda para atendimento emergente; estabilização e intervenção especializada podem preceder diagnóstico definitivo. 6. Controle de dor e dispneia, nutrição, mobilidade, cessação do tabaco, apoio e comunicação. Acompanhar acesso e preferências faz parte do cuidado desde a suspeita.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

A Rename isoladamente não descreve todos os fluxos de acesso ao tratamento oncológico. A assistência ocorre nos serviços habilitados e depende das indicações, protocolos e regras específicas de financiamento e aquisição. Não é correto afirmar que todos os antineoplásicos são adquiridos exclusivamente pelo hospital, nem limitar a aquisição centralizada a talidomida e imatinibe. O AF-Onco, instituído em 2025 e regulamentado por atos posteriores, organiza diferentes modalidades de aquisição e fornecimento, incluindo compra centralizada pela União. Para avaliar um medicamento específico, consultar as normas vigentes, o elenco correspondente e o serviço responsável. Ausência na Rename não comprova indisponibilidade, assim como presença em uma diretriz não garante estoque imediato em qualquer unidade.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Explique por que a melhora da pneumonia de Alcimar não encerra o caso. Mostre como imagem e tecido podem ser coordenados e diferencie ressecabilidade, reserva funcional e decisão terapêutica compartilhada.

Em 30 dias

Apresente Alcimar com problema, extensão conhecida, diagnóstico, função e próximos passos. Discuta como o alvo da amostra e o estadiamento mudam o tratamento. Compare com Pancracio e identifique quais sinais interrompem a investigação eletiva para atendimento imediato.

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Agora atenda

Você é o interno da enfermaria numa terça-feira de manhã, e o paciente do leito 7 tem alta marcada para quinta. É a terceira internação dele em cinco meses pelo mesmo motivo, e as três radiografias estão na pasta. Nada nele está agudo: ele está sem febre, comendo e vestido. O que decide o desfecho deste caso não é uma conduta de emergência — é a ordem em que você faz quatro perguntas e a decisão de comparar três imagens antes de pedir a quarta. Atenda, e repare em quantas vezes a resposta certa é segurar a mão em vez de pedir mais um exame.

Câncer de pulmão – A mesma sombra, no mesmo lugar — Internato | OsceLabs