PediatriaNutrologia Pediátrica

Alta demais para ser hormônio

Obesidade infantil e prevenção do sobrepeso na infância

Avaliar a trajetória de crescimento, reconhecer causas e comorbidades e construir com a família um plano de cuidado sem estigma, com metas possíveis, seguimento e encaminhamento quando necessário.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde; Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Instrutivo para o cuidado da criança e do adolescente com sobrepeso e obesidade no âmbito da Atenção Primária à Saúde [recurso eletrônico]. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. 201 p. ISBN 978-65-5993-163-7.

Brasil. Ministério da Saúde. Caderneta da Criança: Passaporte da Cidadania. 7. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. Versão eletrônica.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Guia alimentar para a população brasileira. 2. ed., 1. reimpr. Brasília: Ministério da Saúde, 2014. 156 p. ISBN 978-85-334-2176-9.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Departamento de Promoção da Saúde. Guia alimentar para crianças brasileiras menores de 2 anos. Brasília: Ministério da Saúde, 2019. 265 p. ISBN 978-85-334-2737-2.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento Científico de Nutrologia. Obesidade na infância e adolescência: manual de orientação. 3. ed. rev. e ampl. São Paulo: SBP, 2019. 236 p. ISBN 978-85-88520-32-5.

01

Responda antes de ler

Menina de 8 anos é trazida à unidade básica depois de um bilhete da escola sobre o peso. Na caderneta, o índice de massa corporal para a idade está entre as linhas +2 e +3 do gráfico de 5 a 10 anos e vem subindo há dois anos; a estatura corre acima da linha +1, com velocidade de crescimento normal. Desenvolvimento adequado, sem medicamentos, pressão arterial abaixo do percentil 90 medida com manguito adequado. A mãe pede exame de tireoide. Qual é a conduta mais adequada na atenção primária?

02

O paciente que você vai ver

Quinta-feira, duas e quinze da tarde, sala 3 de uma unidade de saúde da família que divide o muro com a escola municipal do bairro. A agenda da tarde é de demanda programada, e o nome que vem a seguir chegou por um caminho que a unidade conhece bem: o bilhete da escola. Na semana passada, a equipe do Programa Saúde na Escola pesou e mediu as turmas do terceiro ano, e a professora de Vinicia Cadete, 8 anos e 4 meses, mandou para casa um papel dobrado em quatro pedindo que a família procurasse o posto. Dorotea, a mãe, entra segurando o papel como quem segura uma multa. Vinicia entra atrás dela, de uniforme, e para perto da porta. Você é o interno da tarde; a preceptora atende na sala ao lado e deixou combinado que você a chama antes de fechar qualquer conduta.

A enfermeira já fez o que faz sempre: pesou sem sapato, com a roupa leve do uniforme, mediu no estadiômetro de parede e anotou na caderneta. Quarenta e dois quilos, um metro e trinta e cinco e meio. A caderneta de Vinicia está bem cuidada, e isso muda tudo: há duas medidas anteriores registradas na página do crescimento, aos 6 anos (26 quilos, 121,5 centímetros) e aos 7 (31,5 quilos, 128 centímetros). Você faz a conta que ninguém fez no papel da escola — o índice de massa corporal de hoje é 22,9 — e marca os três pontos no gráfico de 5 a 10 anos das meninas. Aos 6 anos o ponto estava pouco acima da linha do escore +1. Aos 7, mais perto da linha +2. Hoje ele passou da +2 e ficou no meio do caminho para a +3. No gráfico de estatura, ao lado, os três pontos correm paralelos, um pouco acima da linha +1: Vinicia é das mais altas da turma, e sempre foi.

A pressão foi medida na triagem com o manguito que estava na bandeja da sala de crianças: 124 por 82. Você olha o braço de Vinicia e o manguito, e a borsa não dá a volta — cobre bem menos da circunferência do braço. Pede o manguito do tamanho seguinte, espera a menina sentar com as costas apoiadas e os pés no chão, e mede de novo, duas vezes: 104 por 64 e 102 por 66. A primeira medida não era da criança; era do manguito. Enquanto você anota, Dorotea fala baixo, sem que ninguém tenha perguntado: ela come pouco, doutor, come menos que o irmão, eu não entendo. E emenda a pergunta que trouxe pronta de casa: não é a tireoide? A minha irmã tem tireoide, e ela ficou assim.

Você deixa a pergunta no ar por um minuto e volta à menina, que ainda não disse uma palavra. Pergunta do que ela gosta de brincar. Ela diz que de desenhar. Pergunta da escola, e quem responde é a mãe: ela não quer mais ir na educação física, pede para ficar na biblioteca, e semana passada chegou chorando porque um menino chamou ela de um nome que ela não quis repetir. Vinicia olha para o chão. A tarde, conta Dorotea, é na casa da vizinha, que cuida de quatro crianças do prédio; a mãe trabalha de caixa no supermercado e chega às oito. Na casa da vizinha tem televisão ligada o tempo todo e tem refrigerante, porque é o que tem gelado. Em casa, à noite, é o que der: a mãe chega cansada, e o pacote de biscoito resolve o jantar de quem já está dormindo no sofá.

A preceptora entra para ver o caso e olha o gráfico antes de olhar para a mãe. Pergunta a você duas coisas, e só duas: como está a estatura, e se a velocidade caiu. Você mostra os três pontos paralelos acima da linha +1 e diz que a menina cresceu sete centímetros e meio em dezesseis meses. Ela devolve a frase que dá nome a este capítulo — alta demais para ser hormônio — e explica para a mãe, sem pressa, por que a tireoide, na criança, costuma fazer o contrário: freia a altura enquanto o peso sobe. Vinicia está crescendo bem. O que está subindo depressa demais é outra coisa, e tem a ver com o dia dela, não com uma glândula. Dorotea não parece aliviada. Parece com mais medo, porque se não é doença, pensa ela, é culpa.

É exatamente aí que a consulta pode dar errado de três jeitos diferentes, e os três são comuns. Dá errado se você pedir a dosagem de hormônio tireoidiano para acalmar a mãe, porque o exame normal vai confirmar para a família que não há nada a fazer. Dá errado se você imprimir uma dieta de restrição, pesar a menina de novo na frente da mãe e marcar retorno em seis meses, porque Vinicia vai aprender que o problema é ela e a família vai sumir. E dá errado se você disser que é só uma fase, porque a linha de 16 meses de subida não é fase. O que este capítulo ensina é o que fica entre esses três erros: classificar pela curva certa para a idade, separar em minutos a obesidade comum da que é sintoma de outra doença, pedir só os exames que mudam a conduta, conversar sem vergonha e montar, com quem cozinha, quem compra e quem liga a televisão, um plano que a casa consiga cumprir — e acompanhar a linha até ela mudar de direção.

03

Quem adoece disso

Vinicia não é exceção na agenda. Entre as crianças e os adolescentes pesados e medidos na atenção primária do Sistema Único de Saúde em 2019, os registros do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional reunidos pelo Instrutivo do Ministério da Saúde de 2022 mostram excesso de peso — a soma de sobrepeso e obesidade — em 14,8% dos menores de 5 anos, em 28,1% das crianças de 5 a 9 anos e em 27,9% dos adolescentes. A obesidade, sozinha, aparecia em 7,0%, 13,2% e 9,7% dessas faixas. Projetados para o país inteiro, os números do mesmo documento chegam a cerca de 6,2 milhões de crianças menores de 10 anos com excesso de peso, 2,9 milhões delas com obesidade, e a 9,7 milhões de adolescentes com excesso de peso, 3,4 milhões com obesidade. Uma ressalva de leitura: esses registros contam quem foi medido na unidade, não uma amostra desenhada para representar a população, e a criança que nunca é pesada não entra na conta.

A tendência é o que transforma o número em problema de saúde pública. Pela Pesquisa de Orçamentos Familiares, citada pelo mesmo Instrutivo, a obesidade entre os meninos de 5 a 9 anos passou de 2,9% em 1974-1975 para 16,6% em 2008-2009, e entre as meninas da mesma idade, de 1,8% para 11,8%. Entre os adolescentes, o excesso de peso dos meninos foi de 3,7% para 21,7% — quase seis vezes — e o das meninas, de 7,6% para 19,4%, duas vezes e meia. Nos menores de 5 anos, a Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde de 2006 encontrou 7,3% com excesso de peso, e a série que vai de 1989 a 2006 registra aumento de 160% no período. O capítulo A linha, não o ponto, na apostila de Puericultura e Desenvolvimento, traz o dado mais recente do estudo nacional de alimentação infantil sobre essa faixa: quase 30% dos menores de 5 anos acima do escore +1 do índice de massa corporal, com pico entre 12 e 23 meses — antes, portanto, de qualquer conversa sobre tratamento.

Quem lê esses números precisa de um cuidado que a própria classificação impõe. A palavra sobrepeso não quer dizer a mesma coisa antes e depois dos 5 anos: no menor de 5, sobrepeso é o índice acima do escore +2, e obesidade, acima de +3; a partir dos 5, o sobrepeso começa em +1, a obesidade em +2 e a obesidade grave em +3. Uma menina de 4 anos e uma de 6 com o mesmo escore +2,5 entram em categorias com nomes diferentes — sobrepeso a primeira, obesidade a segunda. Por isso as prevalências de obesidade de menores de 5 e de maiores de 5 não se comparam diretamente, e por isso o excesso de peso, que soma as duas classes, é o indicador que atravessa as idades sem trocar de régua.

O que a obesidade faz ainda na infância também tem número, e os números vêm do manual da Sociedade Brasileira de Pediatria de 2019 e da diretriz brasileira de dislipidemias de 2025. Entre crianças e adolescentes obesos, a intolerância à glicose é descrita em 7% a 25% e o diabetes tipo 2 em 0,5% a 4%; a hipertensão arterial, entre os jovens com sobrepeso e obesidade, varia de 3,8% a 24,8% conforme o estudo, e sobe com o índice de massa corporal. A doença hepática gordurosa não alcoólica é a causa mais comum de doença do fígado na infância. Cerca de 10% das crianças e dos adolescentes com obesidade têm apneia do sono clinicamente significativa, e o risco cresce com a gravidade da obesidade. No Estudo de Riscos Cardiovasculares em Adolescentes, feito em 2013 e 2014 com mais de 38 mil adolescentes de 12 a 17 anos das capitais, um em cada cinco tinha colesterol total de 170 mg/dL ou mais, com prevalência maior entre as meninas.

E a obesidade da criança tende a ficar. O texto de justificativa que acompanha a resolução do Conselho Federal de Medicina de 2025 sobre cirurgia bariátrica registra que ela continua na vida adulta em cerca de 60% dos casos, e que as doenças que a acompanham, quando começam cedo, tendem a ser mais agressivas e de tratamento mais difícil — doença cardiovascular, diabetes, apneia, hipertensão e dislipidemia. O Instrutivo acrescenta a associação com morte prematura e incapacidade na idade adulta. A epidemiologia do adulto, com a medida e o peso da doença crônica na população brasileira, é do capítulo Obesidade e síndrome metabólica, na apostila de Endocrinologia; o que interessa aqui é a janela: a criança ainda cresce, e cada centímetro de estatura ganho com o peso parado é índice de massa corporal que desce sem que ela precise emagrecer.

Por que tanta criança, em tão pouco tempo? Não por mutação genética, que não muda em quatro décadas. O Instrutivo chama de ambiente obesogênico o conjunto que promove ou facilita escolhas alimentares não saudáveis e comportamento sedentário, e afirma que é esse ambiente — e não os genes — o principal elemento do aumento da prevalência nas populações: políticas de agricultura, transporte, planejamento urbano, processamento e comercialização de alimentos, e não apenas o comportamento das crianças e de seus pais. No plano da criança, o mesmo documento destaca três fatores: a ausência ou a curta duração do aleitamento materno, o consumo excessivo de alimentos ultraprocessados densos em energia, gordura, açúcar e sódio, e a combinação de inatividade física, excesso de comportamento sedentário e sono inadequado. A atividade física, além disso, cai de forma desigual na adolescência: na pesquisa nacional com escolares de 2015, 44% dos meninos e pouco mais de 25% das meninas faziam 300 minutos ou mais por semana.

Resta o dado mais incômodo, e ele é de serviço, não de população. O Instrutivo ilustra, no anexo sobre as curvas, três crianças acompanhadas na mesma unidade: uma com sete marcações no gráfico, que cresceu no próprio canal; uma com quatro marcações espaçadas, que passou de eutrófica a sobrepeso e obesidade entre os 3 e os 5 anos sem que ninguém percebesse a tempo; e uma com apenas duas marcações em cinco anos, a primeira perto do baixo peso e a última na obesidade, embora a criança tivesse frequentado a unidade no período. A oportunidade de identificar existe em toda vinda à unidade — consulta de crescimento, acompanhamento das condicionalidades do Bolsa Família, busca ativa do agente comunitário, avaliação do Programa Saúde na Escola —, e o excesso de peso mais leve responde melhor quanto mais cedo começa o cuidado. A criança que chega com obesidade quase sempre passou antes pela sala de alguém, e o ponto não foi marcado.

04

Por que acontece o que acontece

O que é igual no adulto não se repete aqui. O balanço energético positivo sustentado, a herança poligênica que dá a cada pessoa uma suscetibilidade diferente ao mesmo ambiente e a regulação do apetite pelo hipotálamo estão no capítulo Obesidade e síndrome metabólica, na apostila de Endocrinologia, e valem para a criança. Este capítulo fica com o que a infância muda nesse mecanismo: um organismo que ainda cresce e ainda vai passar pela puberdade, um cardápio que é decidido por outra pessoa, um apetite que ainda está sendo educado e uma curva que registra, ponto a ponto, a história de cada um desses fatores.

A regulação começa no tecido adiposo. A leptina, secretada pelos adipócitos em proporção à massa de gordura, age no hipotálamo inibindo a ingestão e estimulando o gasto de energia; a insulina participa do mesmo sinal. O manual da Sociedade Brasileira de Pediatria descreve o paradoxo que interessa na clínica: a criança com obesidade tem leptina alta, e não baixa, o que indica perda de sensibilidade ao hormônio — por dificuldade de transporte através da barreira hematoencefálica ou pela hiperinsulinemia crônica bloqueando a transdução do sinal. A deficiência verdadeira de leptina, as mutações do seu receptor, da pró-opiomelanocortina, da pró-hormônio convertase 1 e do receptor de melanocortina tipo 4 existem e estão na lista de causas genéticas do Instrutivo, mas são raras. Na síndrome de Prader-Willi, a grelina, que aumenta antes das refeições e estimula o apetite, está elevada, o que ajuda a explicar a hiperfagia acentuada. Nessas crianças a fome é o sintoma, e a família costuma dizê-lo com essas palavras.

Na imensa maioria das crianças, porém, o sinal hipotalâmico funciona e é vencido pelo prato. O Guia Alimentar para a População Brasileira explica por que o ultraprocessado pesa mais do que as calorias que carrega: pela formulação e pela apresentação, tende a ser consumido em excesso e a tomar o lugar dos alimentos in natura e das preparações culinárias. A bebida adoçada é o exemplo mais eficiente, porque entrega açúcar sem ocupar espaço de refeição. Antes dos 2 anos, o Guia para crianças dessa idade acrescenta o mecanismo do paladar: acostumar a criança ao sabor muito doce estimula o consumo de alimentos e bebidas com açúcar e adoçante, e o hábito tende a durar a vida toda. E acrescenta o mecanismo da saciedade, que é aprendido: a criança mostra quando está satisfeita — vira o rosto, fecha a boca, empurra o alimento —, e a família que insiste, promete sobremesa para quem raspar o prato ou come com a televisão ligada ensina a comer por outro sinal que não a fome.

O movimento e o sono entram no mesmo circuito. O comportamento sedentário não é só ausência de exercício: é o tempo sentado, deitado ou contido — na cadeirinha e no carrinho, no caso da criança pequena —, em que o gasto de energia não sobe acima do repouso, e a tela é o seu marcador mais fácil de medir. Refeição diante da tela soma distração à ingestão. O manual da Sociedade Brasileira de Pediatria registra que há evidência de que o sono curto ou fragmentado favorece a obesidade e que a apneia obstrutiva do sono se associa a menor sensibilidade à insulina no adolescente, independentemente do peso. O circuito se fecha nos dois sentidos: a criança que dorme mal come e se move pior, e a obesidade piora o sono.

O crescimento é o que torna a criança diferente do adulto, e é daqui que sai o título deste capítulo. Na fase que antecede o estirão, meninos e meninas ganham peso mais depressa — o Instrutivo chama isso de repleção, uma reserva de energia para o crescimento puberal —, e o acompanhamento na curva serve para garantir o ganho suficiente sem deixar que ele se torne excessivo. A criança com obesidade comum tende a antecipar o crescimento linear: fica mais alta que os pares, com a idade óssea adiantada. A pubarca precoce isolada, associada ao excesso de peso, não compromete a estatura final e, pelo Instrutivo, não precisa de tratamento. As causas endócrinas da lista do Instrutivo — hipotireoidismo, excesso de glicocorticoide, deficiência de hormônio de crescimento — costumam fazer o desenho oposto, e o capítulo Baixa estatura e puberdade tardia, na apostila de Endocrinologia Pediátrica, descreve o do hipotireoidismo adquirido: a estatura desacelera enquanto o peso fica parado ou aumenta. Por isso a criança pesada e alta, crescendo no próprio canal, raramente tem uma doença hormonal, e a criança pesada e baixa, ou a que perde velocidade de crescimento, tem de ser investigada.

Por baixo das comorbidades está a resistência à insulina. O tecido que capta menos glicose sob a mesma insulina obriga o pâncreas a produzir mais, e o hiperinsulinismo precede o diabetes tipo 2 por anos. Clinicamente, o manual da Sociedade Brasileira de Pediatria descreve a criança com resistência insulínica como obesa, com gordura de predomínio visceral, alta estatura e acantose nigricans — a pele escurecida e aveludada das dobras do pescoço e das axilas. Nascer pequeno para a idade gestacional, a pubarca precoce e a síndrome dos ovários policísticos entram no mesmo grupo. Há uma armadilha fisiológica: a puberdade reduz a sensibilidade à insulina já no estágio 2 de Tanner, que só se recupera no estágio 5, e as meninas são mais resistentes que os meninos com a mesma adiposidade. Somada à falta de pontos de corte validados, essa variação faz o mesmo manual concluir que não se justifica pesquisar resistência insulínica na criança com dosagem de insulina ou índice calculado — o tratamento seria o mesmo de qualquer forma.

A mesma resistência explica o desenho lipídico e o fígado. Com mais ácidos graxos livres chegando ao fígado, a produção de lipoproteína de muito baixa densidade aumenta, os triglicérides sobem, as partículas de LDL ficam pequenas e densas e o HDL cai. O LDL e o colesterol total, na obesidade, costumam ficar dentro do desejável. Na prática, o perfil da criança obesa é triglicéride alto com HDL baixo; um LDL muito elevado não é a assinatura da obesidade e aponta para outra doença, a hipercolesterolemia familiar, que a diretriz de dislipidemias de 2025 suspeita na criança com LDL acima de 190 mg/dL, ou acima de 160 com história familiar. No fígado, a gordura acumulada evolui, em parte das crianças, de esteatose a esteato-hepatite e fibrose, e a transaminase é um marcador imperfeito: no estudo citado pela Sociedade Brasileira de Pediatria, 12% das crianças e adolescentes obesos com fibrose na biópsia tinham ALT normal.

O último mecanismo não é bioquímico e é o que mais sabota o tratamento. O Instrutivo descreve o estigma de peso — a atribuição automática de preguiça, gula e falta de força de vontade à pessoa com excesso de peso — e suas consequências: sofrimento mental, isolamento, evasão escolar e dificuldade de procurar o serviço de saúde. A criança que é chamada por um apelido na aula de educação física para de fazer educação física; a que é repreendida à mesa aprende a comer escondido; a família que se sente acusada na consulta não volta. Ao mesmo tempo, os pais moldam o que a criança come, quanto se move e como dorme — pelo próprio exemplo e pelo que deixam disponível dentro de casa —, e essa influência diminui com a idade, quando a escola, os amigos e o bairro passam a pesar mais. É esse o motivo de o tratamento ser da casa inteira, e não da criança: o mecanismo que produziu a linha que sobe mora na rotina da família.

05

Como se apresenta de verdade

A criança com excesso de peso quase nunca chega com a queixa de peso. Chega com o bilhete da escola, com a mancha escura no pescoço que a avó acha que é sujeira, com o joelho que dói no futebol, com o ronco que acorda a casa, com o choro depois da aula de educação física — ou chega para a vacina, e ninguém marca o ponto na curva. Os seis retratos abaixo são os que o interno encontra na atenção primária, e a ordem deles é a ordem das perguntas: é a obesidade comum ou é sintoma de outra doença; em que idade a classificação está sendo feita; o que a obesidade já fez; o que muda no adolescente; e o que não aparece na balança.

A criança alta e pesada: a obesidade comum

É a Vinicia da cena, e é a maioria. O índice de massa corporal para a idade subiu ao longo de meses ou anos, às vezes com um marco que a família identifica — a mudança de escola, a separação dos pais, o período em que a criança ficou mais em casa, a entrada da mãe num emprego com horário que não fecha com o da criança. A estatura corre no próprio canal, em geral acima da mediana, e a velocidade de crescimento é normal para a idade. O desenvolvimento neuropsicomotor é normal, não há traços dismórficos, e o apetite, na descrição da família, é igual ao dos irmãos. Frases como ela come pouco ou é de família não descartam nada nem confirmam nada: o dia de ontem, reconstruído refeição a refeição e bebida a bebida, é que mostra onde está a energia.

No exame, a obesidade comum costuma trazer estrias claras ou rosadas de distensão, às vezes a acantose nigricans nas dobras do pescoço e das axilas, e, na criança maior, sinais que confundem quem não os espera. A pubarca precoce isolada se associa ao excesso de peso e, pelo Instrutivo do Ministério da Saúde, não compromete a estatura final nem pede tratamento. Na menina com sobrepeso, o tecido adiposo que se acumula na região mamária simula o broto mamário — a lipomastia —, e a diferença entre ela e a telarca verdadeira, com o que fazer em cada caso, é do capítulo Puberdade precoce e distúrbios do desenvolvimento sexual, na apostila de Ginecologia. No menino, o Instrutivo inclui a ginecomastia entre as repercussões endócrinas da obesidade.

O que caracteriza este retrato, e o que o interno deve escrever no prontuário com todas as letras, é a combinação: excesso de peso com estatura normal ou alta e velocidade de crescimento preservada, sem atraso do desenvolvimento, sem dismorfia e sem medicamento que engorde. É a combinação que autoriza a chamar a obesidade de comum e a não pedir dosagem hormonal — e ela precisa ser verificada em cada criança, não presumida.

A criança pesada e baixa: quando o peso é sintoma

O manual da Sociedade Brasileira de Pediatria resume a regra em uma frase: a obesidade de origem alimentar e de estilo de vida costuma deixar a criança mais alta para a idade, e a criança obesa e baixa pode ter causa endócrina ou genética. O sinal de alerta não é só a estatura abaixo da linha −2; é a linha da estatura que atravessa escores para baixo, ou que fica horizontal, enquanto a do índice de massa corporal sobe. É o desenho que o capítulo Baixa estatura e puberdade tardia, na apostila de Endocrinologia Pediátrica, descreve para o hipotireoidismo adquirido — o crescimento em altura perde velocidade e o peso fica parado ou aumenta —, e aquele capítulo é o dono da investigação que vem depois, incluindo a confirmação com TSH e tiroxina livre e a carta de encaminhamento.

A lista de causas secundárias do Instrutivo organiza o raciocínio em seis grupos. Endócrinas: hipotireoidismo, excesso de glicocorticoide, deficiência de hormônio de crescimento e pseudo-hipoparatireoidismo. Genéticas monogênicas: deficiências de leptina, do receptor de leptina, da pró-opiomelanocortina, da pró-hormônio convertase 1 e do receptor de melanocortina tipo 4. Síndromes: Prader-Willi, Bardet-Biedl, Cohen, Alström, osteodistrofia hereditária de Albright, Beckwith-Wiedemann e Carpenter. Hipotalâmicas: tumor, pós-operatório ou radioterapia do sistema nervoso central, como no craniofaringioma, e a síndrome ROHHAD. Neurológicas: lesões, tumores e malformações cerebrais. E psicológicas: depressão, compulsão alimentar periódica e bulimia.

Na prática da unidade, a suspeita nasce de poucos achados. Estrias violáceas, acne e outros sinais de hipercortisolismo, que o Instrutivo manda procurar no exame, sobretudo na criança que recebeu corticoide sistêmico repetido. Atraso do desenvolvimento neuropsicomotor, que o manual da Sociedade Brasileira de Pediatria manda afastar junto com a velocidade de crescimento. Traços dismórficos. No adolescente, genitália que não desenvolve na idade esperada, situação em que o Instrutivo lembra hipotireoidismo, hipogonadismo e síndromes genéticas. Uma fome que a família descreve como desproporcional, que não cede depois de comer. E, sempre, a pergunta pelo remédio: o Instrutivo lista antidepressivos tricíclicos, glicocorticoides, antipsicóticos, antiepilépticos e sulfonilureias entre os medicamentos que induzem ganho de peso — o adolescente que começou a ganhar peso depois de iniciar um antipsicótico tem uma causa na receita, e a conduta começa por conversar com quem a prescreveu, não por suspender por conta própria.

Nenhum desses achados é dosado por rotina, e a maioria das crianças obesas não tem nenhum. A criança que tem um deles sai do fluxo da obesidade comum: a causa secundária é, pelo Instrutivo, critério de encaminhamento para a atenção especializada, e o cuidado da alimentação, do movimento e do sono continua na unidade enquanto isso.

O lactente e a criança pequena: o risco que ainda não é doença

Antes dos 5 anos, a classificação usa três nomes para o excesso: risco de sobrepeso (índice acima do escore +1 até +2), sobrepeso (acima de +2 até +3) e obesidade (acima de +3). Obesidade grave não existe nessa faixa. O Instrutivo separa ainda dois momentos: até os 2 anos, com o crescimento rápido e os hábitos em formação, o investimento é na prevenção — aleitamento materno até 2 anos ou mais, exclusivo até os 6 meses, e alimentos in natura ou minimamente processados a partir dos 6 meses; depois dos 2 anos, quando a velocidade de crescimento diminui e o traçado da curva fica mais fiel, passa-se a falar de atenção e cuidado da obesidade. Não é contradição com a classificação, que existe desde o nascimento; é cronologia — o nome do ponto é o mesmo, a resposta de cada idade é outra.

O retrato típico é o da criança pequena cuja linha começou a subir entre o primeiro e o terceiro ano, com a bebida adoçada entrando cedo — o suco de caixinha, o refresco em pó, o achocolatado —, a mamadeira de leite com açúcar ou achocolatado antes de dormir, o biscoito como lanche de todos os dias e a tela ligada durante as refeições. O Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos manda não oferecer açúcar nem preparações e produtos com açúcar até os 2 anos e não recomenda adoçante para crianças; o Instrutivo não recomenda nenhuma tela antes dos 2 anos. A criança raramente tem outra queixa, e a família raramente vê problema: a criança pequena e gordinha ainda é, para muita gente, a criança saudável.

O que o interno faz com o risco de sobrepeso não está escrito em nenhum dos estratos do Instrutivo, que começam no sobrepeso. Esta apostila adota, como leitura própria, a conduta do estrato de peso adequado com vigilância mais curta: a linha marcada e mostrada à família, a revisão da alimentação e da tela, e o retorno antes do intervalo de rotina para ver a inclinação — sem exames, porque o rastreio laboratorial do Instrutivo começa no sobrepeso e o perfil lipídico, pela Sociedade Brasileira de Pediatria, não se faz antes dos 2 anos. O aleitamento é do capítulo Aleitamento materno exclusivo até 6 meses, e a alimentação complementar é do capítulo O que não escorre da colher, ambos nesta apostila; a leitura da curva — paralela, cruzando, horizontal — é do capítulo A linha, não o ponto, em Puericultura e Desenvolvimento.

O que a obesidade já fez: pele, fígado, sono, ossos e cabeça

A acantose nigricans é a pele escurecida, espessada e aveludada das dobras — nuca, laterais do pescoço, axilas —, e o manual da Sociedade Brasileira de Pediatria a associa à resistência à insulina. A família costuma achar que é falta de banho. Na mesma pele aparecem intertrigo, furunculose e hidradenite supurativa, com nódulos inflamados nas axilas e virilhas, além das estrias.

Nuca e lateral do pescoço de um adolescente com obesidade, com uma faixa de pele escurecida, espessa e aveludada acompanhando as dobras.
Acantose nigricans: escurecimento com espessamento aveludado nas dobras do pescoço. É um achado associado à resistência à insulina e deve integrar a avaliação clínica e metabólica; sua presença isolada não estabelece o diagnóstico de diabetes.

O fígado adoece calado. A doença hepática gordurosa não alcoólica da criança é, na maioria, assintomática; algumas têm dor no quadrante superior direito, hepatomegalia ou mal-estar inespecífico, e os sinais de doença hepática avançada são raros. A alteração que aparece é laboratorial — transaminases, sobretudo a ALT, fosfatase alcalina e gama-glutamiltransferase —, e mesmo ela é imperfeita. O capítulo Doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA), na apostila de Gastroenterologia, declara que a doença na criança segue outras réguas e não tem capítulo no nível: este capítulo assume o rastreio e o primeiro passo diante da transaminase alterada, e deixa o diagnóstico histológico e o tratamento específico para o gastroenterologista ou hepatologista pediátrico. A colelitíase também tem na obesidade a sua causa mais comum na criança sem outra condição predisponente, com dor epigástrica ou no hipocôndrio direito e intolerância a gordura.

O sono é contado pela família, não pela criança. O Instrutivo manda perguntar por dificuldade respiratória durante o sono, sonolência durante o dia e déficit de atenção, que podem ser sinais de apneia; ronco na maioria das noites, respiração difícil e pausas são o quadro. O capítulo Apneia obstrutiva do sono, na apostila de Pneumologia, assume o reconhecimento e o encaminhamento da criança que ronca, com o exame e os cortes que são próprios dela, e registra que a cirurgia das amígdalas e adenoides falha mais na criança obesa.

Os ossos carregam o peso na fase em que ainda crescem. O manual da Sociedade Brasileira de Pediatria lista epifisiólise proximal do fêmur, tíbia vara (doença de Blount), geno valgo, dor musculoesquelética e mais fraturas. A epifisiólise é a que não pode esperar: adolescente obeso com dor no quadril, na virilha, na coxa ou no joelho, sem trauma, mancando. O capítulo Quadril na infância (epifisiólise e sinovite transitória), na apostila de Ortopedia, é o dono da conduta, e a regra dele é de comportamento: radiografia de bacia em anteroposterior e em perfil de rã no mesmo pedido da radiografia do joelho, e o pé sem apoio desde a unidade.

E a cabeça. A hipertensão intracraniana idiopática é mais frequente na criança e no adolescente com obesidade, e o risco sobe com a gravidade; o manual da Sociedade Brasileira de Pediatria descreve cefaleia com náusea, vômito, dor retro-ocular, perda visual e diplopia, com papiledema no exame. O perfil e o que fecha o diagnóstico estão no capítulo Cefaleia no pronto-socorro: reconhecer a secundária, na apostila de Síndromes do Paciente na Emergência. A asma, por fim, é mais frequente na criança obesa, sobretudo na não atópica, responde menos ao broncodilatador e piora no exercício — o que complica justamente a parte do tratamento que pede movimento.

O adolescente: glicose, ciclo, puberdade e a pressa por uma solução

Glicerio Seabra tem 14 anos e 2 meses e vem com o pai, Parmenio, por uma dor no joelho direito que começou há três semanas no futebol da escola e que o faz mancar no fim do dia. Pesa 98 kg e mede 1,66 m: índice de massa corporal de 35,6, escore-z +3,32 — obesidade grave —, com estatura na mediana. Tem acantose na nuca e nas axilas, ronca todas as noites com pausas que a mãe já viu, dorme na primeira aula e deixou a educação física por causa dos apelidos. É o adolescente que reúne quase tudo o que este bloco descreve, e a ordem de cuidar dele não é a ordem em que as queixas foram ditas: o joelho que manca vai primeiro, no mesmo dia, porque pode ser o quadril.

No adolescente, o quadro metabólico aparece inteiro. O diabetes tipo 2 começa na puberdade, com obesidade, acantose e história familiar, e pode abrir com cetoacidose — o manual da Sociedade Brasileira de Pediatria descreve a dificuldade de diferenciá-lo do tipo 1 nessa situação, e o capítulo Diabetes mellitus tipo 1 e cetoacidose diabética na criança, na apostila de Endocrinologia Pediátrica, é o dono da criança em cetoacidose e da dúvida entre os dois tipos. O diabetes tipo 2 do adolescente, depois do diagnóstico, não tem capítulo no nível; este capítulo assume o rastreio e a porta de saída, e registra o que o manual da Sociedade Brasileira de Pediatria diz sobre a doença nessa idade: evolui mais depressa e de forma mais agressiva que no adulto, com lesão renal e ocular em poucos anos.

Na menina, o Instrutivo manda procurar os sinais de hiperandrogenismo — acne, hirsutismo — e as alterações do ciclo menstrual que sugerem a síndrome dos ovários policísticos, assunto do capítulo Síndrome dos ovários policísticos (SOP): critérios de Rotterdam e manejo, na apostila de Ginecologia. A menarca merece uma frase à parte, porque um documento de uso corrente a escreve errado: o excesso de peso pode adiantar a menarca, mas ela continua vindo cerca de dois anos depois da telarca, e a menina obesa com menarca antes dos 10 anos teve telarca antes dos 8 — que é o corte que o capítulo Puberdade precoce e distúrbios do desenvolvimento sexual, na apostila de Ginecologia, usa para encaminhar. A menarca muda também a meta: o Instrutivo registra que, nesse momento, a adolescente pode ter alcançado cerca de 95,5% da estatura final, e a margem de corrigir o índice só com o crescimento acabou.

O adolescente com obesidade grave costuma chegar pedindo uma solução rápida, e duas estão no noticiário. A cirurgia bariátrica no adolescente tem critério próprio — pela resolução do Conselho Federal de Medicina de 2025, a partir dos 16 anos aplicam-se os mesmos critérios usados no adulto e, entre 14 e 16 anos, só em casos excepcionais de obesidade grave com índice acima de 40 e complicações com risco de vida —, e a indicação, o que a norma federal exige do serviço público e a divergência entre as duas sobre idade óssea são do capítulo Cirurgia bariátrica e obesidade mórbida (indicações), na apostila de Cirurgia do Aparelho Digestivo. O medicamento antiobesidade é decisão da atenção especializada, caso a caso: nenhum deles consta da Rename 2024 — orlistate, sibutramina, liraglutida e semaglutida não estão no elenco —, e o retrato de registro sanitário que o manual da Sociedade Brasileira de Pediatria fez em 2019 é datado; o que vale no dia da decisão é a bula vigente do produto. A oferta pública, fora da Rename, depende de protocolo estadual: o repositório da Secretaria de Estado da Saúde de Goiás registra um protocolo complementar para o tratamento medicamentoso da obesidade de 12 a 21 anos, com semaglutida como opção terapêutica na versão de março de 2026 — e o que vale num estado não vale no vizinho. Nenhum dos dois é conduta de atenção primária, e nenhum dos dois dispensa o que a unidade faz.

O que não aparece na balança: humor, bullying, violência e o comer

As consequências psicológicas vêm antes das metabólicas e são as que a criança sente. O manual da Sociedade Brasileira de Pediatria lista baixa autoestima, isolamento, imagem corporal alterada, baixo desempenho escolar, ansiedade e depressão, com risco que aumenta com a idade e é maior nas meninas; o Instrutivo acrescenta o bullying e manda perguntar pela interação com crianças da mesma idade e pela vontade de não ir à escola. A criança que para de fazer educação física, que pede para ficar na biblioteca no recreio, que não quer ir ao aniversário do colega, está dando a informação que o índice não dá.

O comer tem dois lados que a consulta precisa ver. Um é causa: o Instrutivo inclui a compulsão alimentar periódica e a bulimia entre as causas psicológicas de obesidade, e manda investigar transtornos alimentares, anorexia e bulimia incluídas, na avaliação inicial. O outro é consequência do próprio cuidado mal conduzido: a restrição imposta, a pesagem cobrada e o comentário à mesa ensinam a comer escondido. Comer escondido, compulsão com perda de controle, vômito provocado, jejum prolongado ou pavor de ganhar peso mudam o problema de lugar, e a régua do adolescente com transtorno alimentar é do capítulo Transtornos alimentares: anorexia nervosa, bulimia e compulsão alimentar, na apostila de Psiquiatria.

O exame físico inclui o que ninguém veio mostrar. O Instrutivo manda observar sinais de automutilação e de violência — hematomas e traumas —, e o adolescente com excesso de peso vítima de bullying é um adolescente em risco. Diante do achado, a identificação, a notificação e o Conselho Tutelar seguem o capítulo Violência e maus-tratos infantis: identificação e notificação compulsória (ECA), na apostila de Emergências Pediátricas. Aquele capítulo lista a obesidade sem doença de base entre os sinais que podem acompanhar a negligência — ao lado da vacina atrasada sem motivo, da criança que só é vista no pronto-socorro e do doente crônico que some do seguimento. O sinal é o conjunto: o excesso de peso sozinho não é maus-tratos, e tratá-lo como tal é o estigma com carimbo.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação da criança com excesso de peso tem três perguntas, e cada exame tem de responder a uma delas. Qual é a classe, lida na curva certa para a idade? É obesidade comum ou sintoma de outra doença? O que a obesidade já fez que muda o cuidado? O Instrutivo do Ministério da Saúde de 2022 responde às três com instrumentos baratos — balança, estadiômetro, caderneta, manguito, uma anamnese bem feita e três exames de sangue —, e o que fica fora dessa lista precisa de uma razão escrita no prontuário.

Medir, calcular, marcar e mostrar

A técnica de pesar e medir — sem sapato, com roupa leve, estadiômetro de parede, a idade exata em anos e meses — e a leitura do traçado são do capítulo A linha, não o ponto, na apostila de Puericultura e Desenvolvimento. Daqui em diante, o que importa é o índice: peso em quilos dividido pelo quadrado da estatura em metros, marcado no gráfico de índice de massa corporal para a idade do sexo da criança, na Caderneta da Criança até os 10 anos e na do Adolescente dos 10 aos 19. O Instrutivo é taxativo sobre um erro que ainda aparece: os cortes do adulto, 25 e 30 kg/m², não se aplicam a criança nem a adolescente. Um índice de 22,9, que no adulto seria peso normal, é obesidade numa menina de 8 anos.

Quando a unidade usa a tabela de índice por idade em vez do gráfico, a idade entra arredondada para baixo — ano inteiro ou ano e meio, conforme a coluna. O gráfico resolve melhor duas coisas que a tabela não resolve. A primeira é a inclinação: o Instrutivo manda olhar não só a mudança de classe, mas a velocidade de ganho, a subida da linha, antes mesmo de ela chegar ao corte de sobrepeso. A segunda é a conversa: marcar o ponto junto com a criança ou o adolescente e com a família, explicando a trajetória, é recomendação do mesmo documento — a linha desenhada na frente da família convence mais do que o número dito em voz alta, e é menos acusatória do que qualquer adjetivo.

Os dados vão para três lugares: a caderneta, o prontuário e o sistema de informação da atenção primária, com o módulo do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional. O manual da Sociedade Brasileira de Pediatria acrescenta a circunferência abdominal, medida na metade da distância entre a última costela fixa e a borda superior da crista ilíaca, e a relação entre cintura e estatura, considerada adequada até 0,5 — uma medida a mais de adiposidade central, que ajuda a acompanhar e não substitui a curva.

A história: quando começou, qual remédio, quem é a família e como foi o dia de ontem

A primeira consulta, pelo Instrutivo, é mais longa que as outras, e tem de caber nela a pergunta que separa: quando começou o ganho de peso excessivo, e como evoluiu. Um ganho que começa nos primeiros anos, com fome desproporcional e atraso do desenvolvimento, conta outra história que o de uma criança que engordou nos dois anos em que a rotina da casa mudou. Na mesma consulta entram os tratamentos que a família já tentou, o uso de medicamentos que aumentam o peso, a prematuridade, a história do aleitamento materno e da introdução alimentar, o desenvolvimento neurológico e a interação com outras crianças — incluindo a vontade de não ir à escola.

A história familiar é de parentes de primeiro grau: obesidade, diabetes, hipertensão, doença cardiovascular e dislipidemia, e o Instrutivo sugere montar o genograma quando possível. Serve a duas coisas. Estima o risco da criança e aponta para a hipercolesterolemia familiar quando há colesterol muito alto ou doença coronariana precoce na família. E mostra à equipe que o hábito que se quer mudar não é da criança: é desta apostila, e muitas vezes da geração anterior.

O dia de ontem se reconstrói com os marcadores de consumo alimentar do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional, que o Instrutivo reproduz. Para a criança de 2 anos ou mais e para o adolescente, as perguntas são sobre o dia anterior: comeu feijão? fruta fresca, sem contar suco? verdura ou legume? hambúrguer ou embutido? bebeu bebida adoçada — refrigerante, suco de caixinha, suco em pó, água de coco de caixinha, xarope de guaraná ou groselha, suco de fruta com açúcar? comeu macarrão instantâneo, salgadinho de pacote ou biscoito salgado? biscoito recheado, doce ou guloseima? E, para todas as idades a partir dos 6 meses: quais refeições faz no dia, se come assistindo à televisão ou mexendo no celular, e o que come na escola — a merenda, a lancheira de casa ou a cantina.

Três perguntas completam a anamnese de estilo de vida, e cada uma tem resposta em número. Quanto tempo de tela por dia, sem contar tarefa escolar, e em que horários? Quanto tempo de atividade física, e de que tipo — incluindo brincadeira ativa e deslocamento a pé ou de bicicleta? Quantas horas de sono, em que horário a criança deita e acorda na semana e no fim de semana, se ronca, se acorda muitas vezes, se está sonolenta ou desatenta de dia? E, sem pressa, as perguntas de saúde mental: humor, autoestima, apelidos e exclusão por causa do peso, comer escondido, perda de controle, vômito ou jejum. Com o adolescente, parte dessas perguntas se faz a sós.

O exame físico dirigido

A pressão arterial se mede em toda consulta da criança obesa a partir dos 3 anos, pelo manual da Sociedade Brasileira de Pediatria; a Caderneta da Criança torna a medida obrigatória nas consultas de rotina a partir dessa idade e manda medir com mais frequência conforme o grau de sobrepeso ou obesidade. O erro técnico mais comum nessa criança é o manguito: o braço mais largo pede manguito maior, sob pena de a pressão sair superestimada, e o manual dá a proporção — a bolsa inflável com comprimento de 80% a 100% da circunferência do braço e largura de 40%. Se a medida vier no percentil 90 ou acima, o mesmo documento manda fazer mais duas medidas no mesmo atendimento e usar a média. A técnica completa e a tabela de percentis por sexo, idade e estatura estão no capítulo Glomerulonefrite difusa aguda pós-estreptocócica, na apostila de Nefrologia Pediátrica — com uma ressalva de leitura: o quadro de técnica do manual de obesidade da Sociedade Brasileira de Pediatria troca a sistólica pela diastólica, e o primeiro som ouvido é a sistólica.

O resto do exame é o que o Instrutivo lista, e cada achado tem destino. Frequência cardíaca. Acantose nigricans na nuca, no pescoço e nas axilas. Estrias violáceas, acne e outros sinais de hipercortisolismo. Na adolescente, acne, hirsutismo e a pergunta pelo ciclo. Traços dismórficos. O estadiamento puberal de Tanner — mamas e pelos na menina, testículos e pelos no menino —, feito em local reservado, explicando antes como o exame será e garantindo ao adolescente o direito de decidir se quer ou não um responsável presente; a autoavaliação por pranchas é alternativa aceita pelo mesmo documento. E sinais de automutilação ou de violência, como hematomas e marcas de trauma.

Dois achados mudam a hora da conduta. A marcha: o adolescente obeso que manca, ou que conta dor na virilha, na coxa ou no joelho sem trauma, sai com o pedido de radiografia de bacia e sem apoiar o pé, pelo capítulo Quadril na infância (epifisiólise e sinovite transitória), na apostila de Ortopedia. E a cabeça: cefaleia progressiva com alteração visual pede fundo de olho à procura de papiledema, e o raciocínio é o do capítulo Cefaleia no pronto-socorro: reconhecer a secundária.

Os exames que entram: glicemia, lipídeos e fígado

O Instrutivo pede, para a criança e o adolescente a partir do sobrepeso, três exames além da pressão: glicemia de jejum, perfil lipídico — colesterol total e frações e triglicérides — e enzimas hepáticas. É tudo. A diretriz brasileira de dislipidemias de 2025 converge por outro caminho: rastreia o perfil lipídico de todas as crianças entre 9 e 11 anos e entre 17 e 21, e das que têm fator de risco — sobrepeso e obesidade entre eles — entre 2 e 8 e entre 12 e 16 anos. Antes dos 2 anos, pelo manual da Sociedade Brasileira de Pediatria, não se faz perfil lipídico.

O jejum é o ponto em que os documentos brigam, e a briga tem solução prática. O manual da Sociedade Brasileira de Pediatria de 2019 pede 12 horas de jejum para o perfil lipídico; a diretriz de dislipidemias de 2025 pede de 8 a 9 horas na seção da criança e, na seção de coleta, considera aceitável colher sem jejum na avaliação inicial, em particular em crianças. Como a glicemia é de jejum de qualquer forma, a coleta dos três exames na mesma manhã, no mesmo jejum da glicemia, resolve o pedido sem obrigar a criança a ficar 12 horas sem comer. O laboratório informa no laudo se houve jejum, e o triglicéride é o valor que mais muda com a refeição.

A hemoglobina glicada é aceita pelo manual da Sociedade Brasileira de Pediatria como triagem, junto com a glicemia, e o mesmo manual adverte que as duas têm taxas altas de falso positivo e de falso negativo e que o uso da glicada no adolescente ainda é controverso. Esta apostila fica com a glicemia de jejum do Instrutivo como exame de rastreio na atenção primária. A glicada não é erro; o que não pode acontecer é um resultado limítrofe de qualquer um dos dois virar diagnóstico sem o passo seguinte.

Os exames que não entram de rotina — e o dia em que entram

TSH e tiroxina livre não fazem parte do rastreio da criança obesa. Entram quando a estatura está baixa ou a velocidade de crescimento caiu, quando há sinais clínicos de hipotireoidismo, ou quando o adolescente não progride na puberdade — e aí a investigação é do capítulo Baixa estatura e puberdade tardia, na apostila de Endocrinologia Pediátrica. Pedido para acalmar a família da criança alta que cresce bem, o exame normal não tranquiliza: confirma, para quem já achava, que o problema era de glândula e que a glândula está bem.

Insulina de jejum e índices calculados de resistência à insulina ficam fora. O manual da Sociedade Brasileira de Pediatria registra mais de 140 definições diferentes de resistência insulínica na literatura pediátrica, prevalências de 5,5% a 72,3% na mesma população conforme o corte escolhido e a variação fisiológica da puberdade — e conclui que não se justifica pesquisá-la na infância, porque a conduta seria a mesma mudança de estilo de vida.

A ultrassonografia de abdome é a divergência do capítulo. O manual da Sociedade Brasileira de Pediatria de 2019 manda fazê-la em toda criança com sobrepeso e obesidade; o Instrutivo do Ministério da Saúde de 2022 rastreia o fígado com enzimas hepáticas. Esta apostila adota o Instrutivo, pelo degrau da data e da natureza da régua, e o raciocínio completo está no bloco de divergências. A ultrassonografia entra quando há sintoma que ela responda — dor biliar, hepatomegalia — e na investigação da transaminase alterada, a pedido de quem a conduz.

Cortisol, idade óssea, testes genéticos e polissonografia não são pedidos de rotina na unidade. O cortisol entra com sinais de hipercortisolismo; a idade óssea e os testes genéticos, na mão de quem investiga a baixa estatura e a síndrome; a polissonografia, no encaminhamento da criança que ronca, pelo capítulo Apneia obstrutiva do sono, na apostila de Pneumologia. Pedir tudo não protege a criança: gera resultado limítrofe, fila e a sensação de que o cuidado é o exame.

O exame alterado: o próximo passo de cada um

Glicemia de jejum de 100 a 125 mg/dL, ou hemoglobina glicada de 5,7% a 6,4%, sugere pré-diabetes, e o manual da Sociedade Brasileira de Pediatria torna obrigatório o teste de tolerância à glicose. O diabetes se define, pelos critérios que o mesmo manual reproduz, por glicemia de jejum de 126 mg/dL ou mais em duas ocasiões, glicemia de 200 mg/dL ou mais duas horas após a sobrecarga oral de glicose, ou glicemia de 200 ou mais em qualquer horário com sintomas — poliúria, polidipsia, emagrecimento. A criança ou o adolescente com diabetes vai para a atenção especializada; com vômito, respiração rápida ou desidratação, vai no mesmo dia, pelo capítulo Diabetes mellitus tipo 1 e cetoacidose diabética na criança, porque o tipo 2 também abre em cetoacidose.

O perfil lipídico se lê pela tabela que esta apostila adota — a do painel de 2011, reproduzida no manual da Sociedade Brasileira de Pediatria e detalhada no critério. Triglicéride alto e HDL baixo são a assinatura da obesidade, e a resposta é o mesmo tratamento de estilo de vida, com nova dosagem em quatro a seis meses, intervalo que o manual dá para o exame que não normalizou. LDL acima de 190 mg/dL, ou acima de 160 com história familiar positiva, não é a assinatura da obesidade: a diretriz de dislipidemias de 2025 põe essa criança sob suspeita de hipercolesterolemia familiar, e ela vai ao especialista.

Transaminase alterada pede primeiro a pergunta pelo valor. Com ALT acima de duas vezes o limite superior do laboratório, o manual da Sociedade Brasileira de Pediatria, seguindo o roteiro de Huang e colaboradores, de 2013, manda triar hepatites virais B e C, doença de Wilson, deficiência de alfa-1-antitripsina e hepatite autoimune, e perguntar por fármaco hepatotóxico, como valproato e tetraciclina. ALT que se mantém acima de duas vezes o limite por mais de seis meses, com ou sem perda de peso, é indicação de biópsia pelo mesmo documento — e, portanto, de gastroenterologista ou hepatologista pediátrico. Elevação menor que essa volta a ser dosada no seguimento, com o tratamento em curso.

A pressão no percentil 90 ou acima, confirmada pela média das medidas repetidas, volta a ser medida nas consultas seguintes; hipertensão, pelo manual da Sociedade Brasileira de Pediatria, é a pressão acima do percentil 95 em três medidas, para sexo, idade e estatura. A hipertensão confirmada da criança obesa não tem capítulo próprio no nível: este capítulo assume a confirmação e o encaminhamento, e o tratamento farmacológico e a investigação de causa secundária ficam com o especialista.

07

Da curva à decisão: a classe pela idade, a doença por trás, o rastreio e o estrato

Leia o IMC na curva de idade e sexo e compare sua trajetória com a estatura. Depois procure repercussões clínicas, fatores associados e condições que exigem investigação ou encaminhamento. A organização do cuidado na atenção primária segue o Instrutivo do Ministério da Saúde; terapias especializadas dependem de idade, gravidade, indicação e avaliação própria. As tabelas apoiam a consulta, mas a classe de IMC não resume a saúde da criança.

  1. 1Pese e meça sem sapato, calcule o índice de massa corporal (peso em quilos dividido pelo quadrado da estatura em metros) e marque-o no gráfico de índice para a idade do sexo da criança. Nunca use os cortes do adulto, 25 e 30.
  2. 2Dê o nome da classe pela faixa etária. Menor de 5 anos: risco de sobrepeso acima do escore +1, sobrepeso acima de +2, obesidade acima de +3. De 5 a 19 anos: sobrepeso acima de +1, obesidade acima de +2, obesidade grave acima de +3.
  3. 3Leia a linha, não só o ponto: índice que atravessa escores para cima é problema mesmo antes do corte, e a meta do tratamento se escreve como mudança de inclinação.
  4. 4Olhe a estatura na mesma consulta. Estatura acima ou em torno da mediana, crescendo no próprio canal: compatível com obesidade comum. Estatura baixa, ou linha da estatura caindo ou horizontal enquanto o índice sobe: investigue causa endócrina ou genética pelo capítulo Baixa estatura e puberdade tardia.
  5. 5Procure os outros sinais de causa secundária: atraso do desenvolvimento, dismorfias, fome desproporcional, estrias violáceas e sinais de hipercortisolismo, genitália que não desenvolve no adolescente, lesão ou cirurgia do sistema nervoso central — e o medicamento: tricíclico, glicocorticoide, antipsicótico, antiepiléptico, sulfonilureia. Qualquer causa secundária é critério de encaminhamento.
  6. 6Examine o que decide a hora: dor no quadril, na virilha, na coxa ou no joelho com claudicação no adolescente obeso é radiografia de bacia e pé sem apoio, pelo capítulo de epifisiólise; cefaleia com alteração visual é fundo de olho; glicemia muito alta com vômito ou respiração rápida é cetoacidose até prova em contrário e vai no mesmo dia.
  7. 7Meça a pressão a partir dos 3 anos em toda consulta, com manguito de largura de 40% e comprimento de 80% a 100% da circunferência do braço; no percentil 90 ou acima, repita duas vezes e use a média.
  8. 8A partir do sobrepeso, peça glicemia de jejum, perfil lipídico (a partir dos 2 anos) e enzimas hepáticas, na mesma manhã e no mesmo jejum. Não peça de rotina TSH, insulina, índice de resistência insulínica nem ultrassonografia de abdome.
  9. 9Estratifique pelo Instrutivo: peso adequado; sobrepeso; sobrepeso com comorbidade ou obesidade sem comorbidade; obesidade com comorbidade ou obesidade grave com ou sem comorbidade. Comorbidade, para o estrato, é alteração de glicemia, de pressão ou de perfil lipídico.
  10. 10Monte o cuidado com a família: metas pactuadas, poucas e mensuráveis; alimentação pelos Guias Alimentares; atividade física, tela e sono pelas faixas de idade; saúde mental; consultas e atividades coletivas no calendário de 24 meses; projeto terapêutico singular a partir do sobrepeso com comorbidade.
  11. 11Encaminhe à atenção especializada a causa secundária, a obesidade grave com comorbidades e o caso acompanhado por 2 anos na atenção primária sem atingir os desfechos — e mantenha o cuidado da unidade enquanto isso. Remédio e cirurgia do adolescente são decisão de especialista e têm régua própria.

O mesmo escore, dois nomes: a classe do índice de massa corporal para a idade e o que ela dispara na unidade (Caderneta da Criança 2024; Instrutivo MS 2022)

Escore-z do índice para a idadeMenor de 5 anosDe 5 a 19 anosO que a classe dispara na atenção primária
De −2 até +1EutrofiaEutrofiaAcompanhamento do crescimento e orientação de rotina sobre alimentação, movimento, tela e sono
Acima de +1 até +2Risco de sobrepesoSobrepesoMenor de 5: vigilância com retorno mais curto e revisão de hábitos, sem exames (leitura desta apostila). A partir de 5: estrato de sobrepeso, com pressão, glicemia, lipídeos e enzimas hepáticas
Acima de +2 até +3SobrepesoObesidadeMenor de 5: estrato de sobrepeso, lipídeos só a partir de 2 anos. A partir de 5: estrato de obesidade, definido pelos exames como com ou sem comorbidade
Acima de +3ObesidadeObesidade graveMenor de 5: estrato de obesidade. A partir de 5: estrato mais alto, qualquer que seja o resultado dos exames

Exemplos de IMC e interpretação nas curvas de crescimento

Criança e idadePeso e estaturaÍndice (kg/m²)Linhas +1 / +2 / +3 nessa idadeEscore-z do índice e classeEscore-z da estatura
Vinicia, 6 anos26,0 kg; 121,5 cm17,617,0 / 19,2 / 22,1+1,30 — sobrepeso+1,25
Vinicia, 7 anos31,5 kg; 128,0 cm19,217,3 / 19,8 / 23,3+1,80 — sobrepeso+1,32
Vinicia, 8 anos e 4 meses42,0 kg; 135,5 cm22,917,9 / 20,9 / 25,3+2,51 — obesidade+1,18
Edmundo, 6 anos21,5 kg; 114,5 cm16,416,8 / 18,5 / 20,7+0,77 — eutrofia−0,29
Edmundo, 7 anos e 6 meses28,5 kg; 117,0 cm20,817,2 / 19,3 / 22,1+2,57 — obesidade−1,38
Glicerio, 14 anos e 2 meses98,0 kg; 166,0 cm35,621,9 / 26,1 / 33,3+3,32 — obesidade grave+0,22
Colombina, 2 anos e 1 mês12,4 kg; 87,0 cm16,417,1 / 18,7 / 20,6+0,53 — eutrofia+0,12
Colombina, 3 anos16,0 kg; 95,0 cm17,716,8 / 18,4 / 20,3+1,59 — risco de sobrepeso−0,02
Colombina, 4 anos e 2 meses20,8 kg; 103,5 cm19,416,8 / 18,6 / 20,7+2,43 — sobrepeso−0,09
Uma menina de 5 anos e 2 meses com o mesmo índice de Colombina19,416,9 / 18,9 / 21,4+2,23 — obesidade
Velocidade de crescimento de Vinicia, dos 7 anos aos 8 anos e 4 meses128,0 → 135,5 cm em 16 meses5,6 cm/ano
Velocidade de crescimento de Edmundo, dos 6 anos aos 7 anos e 6 meses114,5 → 117,0 cm em 18 meses1,7 cm/ano

Exames de rastreio: para quem, o que é alterado e o próximo passo (Instrutivo MS 2022; SBP 2019; diretriz de dislipidemias 2025)

ExamePara quem e quandoAlteradoPróximo passo
Pressão arterialToda consulta a partir de 3 anos, com manguito adequado ao braçoPercentil 90 ou acima, pela média de medidas repetidas; hipertensão acima do percentil 95 em três medidasRepetir nas consultas seguintes; hipertensão confirmada vai ao especialista; tabela e técnica no capítulo de glomerulonefrite pós-estreptocócica
Glicemia de jejumA partir do sobrepeso, colhida com os outros exames100 a 125 mg/dL; diabetes com 126 ou mais em duas ocasiões, ou 200 ou mais após sobrecarga, ou 200 ou mais com sintomasTeste de tolerância à glicose; diabetes vai ao especialista, e no mesmo dia se houver vômito, desidratação ou respiração rápida
Perfil lipídico (tabela do painel de 2011)A partir do sobrepeso e dos 2 anosColesterol total 170 a 199 limítrofe, 200 ou mais elevado; LDL 110 a 129 limítrofe, 130 ou mais elevado; não-HDL 120 a 144 limítrofe, 145 ou mais elevado; triglicérides de 0 a 9 anos 75 a 99 limítrofe, 100 ou mais elevado, e de 10 a 19 anos 90 a 129 limítrofe, 130 ou mais elevado; HDL 40 a 45 limítrofe, abaixo de 40 baixo (valores em mg/dL)Tratamento de estilo de vida e nova dosagem em 4 a 6 meses; LDL acima de 190, ou acima de 160 com história familiar, é suspeita de hipercolesterolemia familiar e vai ao especialista
ALT e ASTA partir do sobrepesoAcima do limite superior do laboratório; acima de duas vezes esse limiteAté duas vezes: repetir no seguimento. Acima de duas vezes: hepatites B e C, doença de Wilson, alfa-1-antitripsina, hepatite autoimune e fármacos; persistindo por mais de 6 meses, gastroenterologista ou hepatologista pediátrico

Os quatro estratos do Instrutivo e o que cada um recebe

EstratoQuem entraO que a unidade fazQuando sai para a atenção especializada
Peso adequadoEutrofia; por leitura desta apostila, também o risco de sobrepeso do menor de 5 anos, com retorno mais curtoCrescimento e índice acompanhados; avaliação e orientação de alimentação, atividade física, comportamento sedentário, sono e saúde mentalNão se aplica
SobrepesoSobrepeso sem alteração de glicemia, pressão ou lipídeosO anterior, mais metas pactuadas, atividades coletivas e o rastreio de pressão, glicemia, lipídeos e enzimas hepáticasCausa secundária
Sobrepeso com comorbidade, ou obesidade sem comorbidadeA maior parte das crianças com obesidade, segundo o InstrutivoO anterior, mais consultas individuais, cuidado multidisciplinar, projeto terapêutico singular e avaliação da necessidade de especialistaCausa secundária; 2 anos na atenção primária sem atingir os desfechos
Obesidade com comorbidade, ou obesidade grave com ou sem comorbidadeObesidade com glicemia, pressão ou lipídeos alterados; qualquer obesidade graveO mesmo cuidado multicomponente, com acompanhamento mais próximoObesidade grave com comorbidades; causa secundária; 2 anos sem atingir os desfechos

Metas para combinar e rever com a família

DomínioExemplo de meta negociávelComo acompanhar
AlimentaçãoOrganizar uma refeição diária com atenção e alimentos disponíveisO que foi possível, dificuldades e aceitação
MovimentoRetomar uma brincadeira ou atividade de que a criança gostePrazer, participação, dor e tolerância
SonoCriar uma rotina viável de horários e reduzir interferênciasSonolência, ronco e descanso
Bem-estarIdentificar bullying e combinar apoio na escola e em casaSegurança, humor e participação
Saúde clínicaAcompanhar crescimento e comorbidades identificadasTrajetória, pressão e exames pertinentes

A nomenclatura depende da idade: consulte a curva correspondente e inclua obesidade grave quando o corte se aplicar. Use a trajetória e as comorbidades para decidir a intensidade do cuidado.

Na medida auscultatória, o primeiro som corresponde à pressão sistólica e o desaparecimento à diastólica. Escolha manguito adequado, posicionamento e técnica; um resultado alterado precisa de confirmação e interpretação pediátrica.

Manual de obesidade da Sociedade Brasileira de Pediatria de 2019, seção 6.3, tabela 2 (p. 63), valores atribuídos à I Diretriz de Prevenção da Aterosclerose na Infância de 2005: colesterol total limítrofe de 150 a 169 e elevado 'acima de 170'; LDL e triglicérides limítrofes de 100 a 129 e elevados 'acima de 130'. Conta: 170 mg/dL de colesterol e 130 mg/dL de LDL ou triglicérides, exatos, não pertencem a classe nenhuma — e 130 é justamente o LDL que separa o limítrofe do elevado na outra tabela da mesma seção. A escolha entre as duas tabelas está nas divergências.

Obesidade pode se associar a mudanças no desenvolvimento puberal, mas não torna habitual nem dispensa investigação de sinais precoces. Use cronologia de telarca, menarca e crescimento para decidir a avaliação.

Diretriz Brasileira de Dislipidemias de 2025: a recomendação de coleta (seção 3, recomendação forte) considera aceitável colher o perfil lipídico sem jejum na avaliação inicial, 'em particular em populações selecionadas, como crianças e idosos'; a seção da criança (9.10.1) diz que, em crianças e adolescentes, 'a análise deve ser feita após jejum de 8 a 9 horas', e o rastreamento universal (9.10.2) é 'preferencialmente em jejum'. O manual da Sociedade Brasileira de Pediatria de 2019 pede 12 horas. Conta: três instruções — nenhum jejum, 8 a 9 horas e 12 horas — para o mesmo pedido, duas delas no mesmo documento. Na atenção primária, colher o perfil na mesma manhã e no mesmo jejum da glicemia torna a divergência irrelevante para a criança; o laudo informa o jejum.

08

A conduta, hora a hora

Vinicia será acompanhada ao longo de dois anos, com encontros mais próximos no início e ajustes conforme risco, resposta e possibilidades da família. O calendário descrito é uma forma de organizar continuidade, não uma exigência de esperar o mês previsto se houver piora. Contatos intermediários podem ajudar a rever barreiras e sustentar mudanças.

O plano inicial deste caso reúne alimentação, movimento, sono e suporte familiar. Quando houver indicação de farmacoterapia ou avaliação cirúrgica, o cuidado especializado se soma ao acompanhamento; não elimina essas medidas nem justifica uma proibição geral de medicamentos. O interno deve reconhecer a necessidade de encaminhar, apresentar riscos e manter a coordenação do cuidado.

A meta ponderal depende de idade, crescimento, gravidade e comorbidades. Em parte das crianças, reduzir a velocidade de ganho excessivo durante o crescimento já representa progresso. Em outras, é necessário um plano específico de redução de peso com equipe capacitada. Em todos os casos, sono, capacidade de brincar, participação, bem-estar e saúde metabólica também são desfechos.

  1. Consulta 1, minutos 0 a 10 — antes de falar em peso: a licença, a curva e as palavras

    O primeiro gesto é falar com a criança, e não sobre ela. Você se apresenta a Vinicia, pergunta se pode conversar com ela e com a mãe sobre como ela está crescendo, e vira a caderneta para as duas. Liga os três pontos do gráfico de índice de massa corporal com a caneta, devagar, e mostra a linha: aos 6 anos um pouco acima da faixa esperada, aos 7 mais acima, hoje mais ainda. Mostra o gráfico de estatura ao lado — ela cresce bem, no próprio caminho — e diz a frase da preceptora de outro jeito: a altura dela está ótima; o que subiu depressa foi o peso para a altura. O Instrutivo pede que a equipe se posicione sem preconceito em todas as etapas e que o cuidado fale de saúde e qualidade de vida, e não de estética, para proteger a imagem corporal, a autoestima e o comportamento alimentar futuro. Na prática, isso é um vocabulário: índice acima do esperado, linha que está subindo, disposição, fôlego para brincar. Ficam fora da sala gorda, gordinha, regime, dieta, fechar a boca e qualquer comparação com o irmão.

    Prescrição
    • Linha dos três pontos de índice de massa corporal ligada na caderneta e mostrada à criança e à mãe
    • Registro no prontuário e no sistema de informação: obesidade, escore-z do índice +2,51; estatura +1,18; velocidade de crescimento de 5,6 cm por ano
    • Vocabulário combinado com a equipe para esta família: índice acima do esperado para a idade, linha subindo, saúde e disposição — sem apelido, sem dieta, sem culpa
  2. Consulta 1, minutos 10 a 25 — o dia de ontem, o remédio, o sono e a escola

    A anamnese segue a lista do Instrutivo e os marcadores de consumo do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional, e a família de Vinicia responde com a franqueza de quem percebeu que não vai ser julgada. Ontem ela comeu feijão só no almoço da escola; fruta, nenhuma; na casa da vizinha tomou dois copos de refrigerante e comeu biscoito recheado; na lancheira levou suco de caixinha; jantou biscoito com achocolatado no sofá, diante da televisão. Faz duas refeições com tela todos os dias. A televisão e o tablet somam cerca de quatro horas por dia fora da escola. Não pratica atividade física fora do recreio e deixou a educação física há dois meses. Deita às onze, acorda às seis e meia, não ronca, não acorda à noite. Não usa medicamento. Nasceu a termo, mamou no peito até os 5 meses. Desenvolvimento sem atraso. Na história familiar de primeiro grau, a mãe tem obesidade e o pai tem diabetes tipo 2; o avô materno teve infarto aos 52 anos. Perguntada a sós por um minuto, Vinicia conta o apelido que ouve na escola e diz que não come escondido, não vomita e não fica sem comer de propósito.

    Prescrição
    • Marcadores de consumo alimentar do SISVAN aplicados e registrados
    • Tempo de tela, tempo de atividade física e horário de sono anotados em horas por dia
    • Genograma de primeiro grau com obesidade, diabetes, hipertensão, doença cardiovascular e dislipidemia
    • Perguntas sobre apelidos, exclusão, comer escondido, vômito e jejum feitas e registradas
  3. Consulta 1, minutos 25 a 35 — o exame que separa e os três exames que entram

    No exame, a pressão já foi corrigida pelo manguito certo: 104 por 64 e 102 por 66 mmHg, abaixo do percentil 90 para a idade, o sexo e a estatura. Frequência cardíaca normal. Acantose discreta na nuca, estrias claras nos flancos, sem estrias violáceas, sem acne. Mamas e pelos no estágio 1 de Tanner, compatível com a idade — o exame da mama foi explicado antes e feito com a mãe na sala. Sem dismorfias, marcha normal, sem dor à mobilização dos quadris, sem marcas de violência. A combinação está completa — excesso de peso, estatura alta no próprio canal, velocidade normal, desenvolvimento normal, nenhum remédio —, e ela autoriza a chamar a obesidade de comum. Os exames são os do Instrutivo, colhidos na mesma manhã. A mãe pergunta de novo pela tireoide, e você explica que o exame não vai ser pedido e por quê: a doença da tireoide, na criança, costuma frear a altura, e a altura de Vinicia está crescendo bem; um exame normal hoje só serviria para dizer que não há nada a fazer, e há.

    Prescrição
    • Pressão arterial com manguito de largura de 40% e comprimento de 80% a 100% da circunferência do braço, duas medidas: 104 por 64 e 102 por 66 mmHg
    • Glicemia de jejum, colesterol total e frações, triglicérides, ALT e AST, colhidos na mesma manhã e no mesmo jejum
    • Sem TSH, tiroxina livre, insulina, índice de resistência insulínica ou ultrassonografia de abdome — motivo registrado: estatura alta no próprio canal e velocidade de crescimento normal
  4. Consulta 1, minutos 35 a 45 — duas metas que a casa consegue cumprir

    O Instrutivo pede metas específicas, relevantes, com prazo, alcançáveis e sustentáveis, negociadas com a criança e com quem cuida dela, e lembra que abordagens impositivas e restritivas têm alta taxa de abandono. Com duas metas se começa; com dez, não se começa. Dorotea escolhe a da bebida, porque é a que ela consegue controlar — na lancheira e na conversa com a vizinha. Vinicia escolhe a do jantar, com uma condição: poder desenhar à mesa depois de comer. Nenhum alimento é proibido, e a família ouve isso com surpresa; o Instrutivo diz que os ultraprocessados não devem fazer parte do consumo diário, não que estão banidos da vida da criança. A mudança vale para a casa inteira, e o irmão também toma água. Não há dieta impressa. O diário de metas do anexo do Instrutivo vai para a porta da geladeira, e quem marca o dia cumprido é a própria Vinicia. Sobre a escola, a mãe concorda que a equipe converse com a coordenação pelo Programa Saúde na Escola, sem expor a filha.

    Prescrição
    • Meta 1, escrita e combinada: água no lugar de refrigerante, suco de caixinha e suco em pó, em casa, na lancheira e na casa da vizinha, a partir de amanhã
    • Meta 2, escrita e combinada: jantar à mesa, com a televisão desligada, em pelo menos quatro noites por semana
    • Cinco refeições por dia em horários regulares, sem proibir alimento e sem dieta impressa
    • Diário de metas na geladeira, marcado pela criança com a mãe
    • Retorno em 30 dias com os exames; contato com a escola pelo Programa Saúde na Escola, com a concordância da mãe
  5. Mês 1 — os exames, o estrato e o que não muda por causa dele

    Glicemia de jejum de 88 mg/dL. Colesterol total de 168, LDL de 102, HDL de 41 e triglicérides de 124 mg/dL. ALT de 22 e AST de 24 U/L, dentro do limite do laboratório. Pela tabela que esta apostila adota, o triglicéride está elevado para a faixa de 0 a 9 anos e o HDL está limítrofe; colesterol total e LDL estão aceitáveis. Há, portanto, comorbidade lipídica, e Vinicia passa ao estrato de obesidade com comorbidade. O estrato não é passaporte para o especialista: ela não tem obesidade grave, não tem causa secundária e não completou dois anos sem resposta. O que o estrato muda é a intensidade do cuidado na própria unidade — projeto terapêutico singular, cuidado multiprofissional, atividade coletiva. Peso de 42,0 kg e estatura de 135,8 cm: índice de 22,8, escore-z +2,46. A meta da bebida foi cumprida em cinco de sete dias; a do jantar, em duas noites por semana. O reforço é pelo que foi feito, e a meta do jantar é mantida sem sermão.

    Prescrição
    • Estrato registrado: obesidade com comorbidade (triglicérides 124 mg/dL, elevado para 0 a 9 anos; HDL 41 mg/dL, limítrofe)
    • Projeto terapêutico singular discutido com a equipe multiprofissional disponível no território
    • Inserção na atividade coletiva para crianças e famílias oferecida pela unidade
    • Perfil lipídico repetido em 6 meses
    • Meta 3, negociada com a Vinicia: celular e tablet fora do quarto à noite
  6. Meses 2, 3 e 5 — reforço, ajuste e o movimento que volta

    Cada encontro, individual ou coletivo, repete a mesma estrutura do Instrutivo: peso e estatura, comparação com a medida anterior, retomada das metas, reforço positivo independentemente da adesão, e decisão — se cumpriu, avança; se não cumpriu, retoma, entende o obstáculo e muda a estratégia. O movimento entra pelo plano de ação do mesmo documento. Primeiro, trocar parte do tempo de tela por brincadeira ativa, de intensidade leve, todos os dias, para não gerar rejeição. Depois, atividade aeróbica moderada — caminhar rápido, dançar, andar de bicicleta — começando com 30 minutos por dia na primeira semana e somando 10 minutos por semana até 60, inteiros ou em blocos. Só então a intensidade sobe e entra, em três dias da semana, o exercício que fortalece músculos e ossos, de preferência sem alto impacto nas articulações, como natação e bicicleta. Vinicia volta à educação física no mês 3, depois da conversa da equipe com a escola. A tela recreativa desce para até 2 horas por dia e desliga uma hora antes de dormir; o horário de deitar passa para as nove e meia.

    Prescrição
    • Peso, estatura e índice a cada encontro, comparados com os anteriores e marcados na curva
    • Atividade física em degraus: brincadeira ativa diária; depois 30 minutos por dia de atividade moderada, mais 10 minutos a cada semana até 60; depois fortalecimento três vezes por semana, sem alto impacto
    • Tela recreativa até 2 horas por dia, desligada 1 hora antes de dormir
    • Horário fixo de deitar e acordar, também no fim de semana
  7. Mês 6 — a primeira leitura da inclinação

    Peso de 42,5 kg e estatura de 138,2 cm: índice de 22,3 e escore-z +2,23. Em seis meses, Vinicia ganhou meio quilo e cresceu 2,7 centímetros, e a linha do índice, que subia havia dois anos, dobrou para baixo. É o desfecho que o Instrutivo espera, e é invisível para a família se ninguém mostrar a curva: Dorotea chega dizendo que a filha não emagreceu nada. Você mostra a linha ligada ponto a ponto desde os 6 anos, e a conversa muda de assunto. O perfil lipídico repetido traz triglicérides de 96 e HDL de 44 mg/dL, ainda limítrofes, e volta a ser dosado em quatro a seis meses, prazo do manual da Sociedade Brasileira de Pediatria para o exame que continua alterado. A meta da bebida virou hábito e sai do diário; entra no lugar dela a fruta inteira no lanche da tarde, em vez do biscoito.

    Prescrição
    • Índice de 22,3 e escore-z +2,23 registrados e mostrados na curva à família
    • Triglicérides e HDL repetidos em 4 a 6 meses, enquanto não normalizarem
    • Meta cumprida retirada do diário; nova meta: fruta inteira no lanche da tarde
  8. Meses 12 a 24 — a reavaliação global, a alta do plano e a porta que continua aberta

    No mês 12, a reavaliação individual encontra 43,5 kg e 141,0 cm: índice de 21,9 e escore-z +2,01. A classe ainda é obesidade, por um centésimo, e isso ensina o que a família precisa ouvir: o nome da classe demora a mudar, e a inclinação é o resultado que conta. No mês 18, o escore é +1,82, sobrepeso. No mês 24, com 10 anos e 4 meses, Vinicia pesa 46,0 kg e mede 146,5 cm: índice de 21,4, escore-z +1,64, triglicérides de 82 e HDL de 47 mg/dL, aceitáveis. Ela ganhou 4 quilos e cresceu 11 centímetros em dois anos. A avaliação global usa a lista de desfechos do Instrutivo — menos ultraprocessado e bebida adoçada, mais água e fruta, menos refeição diante da tela, mais refeição em família, sono melhor, tempo ativo no lugar do sedentário, boa relação com a imagem corporal, menor velocidade de ganho de peso e melhora das comorbidades —, e o plano de 24 meses recebe alta. A curva passa para a Caderneta do Adolescente, a puberdade vem aí com a repleção que antecede o estirão, e as consultas de rotina continuam medindo. Se os desfechos não tivessem vindo em dois anos, o caminho seria o encaminhamento à atenção especializada, com o cuidado da unidade mantido.

    Prescrição
    • Reavaliação global no mês 12 e no mês 24, com a lista de desfechos do Instrutivo lida com a família
    • Mês 24: índice 21,4 e escore-z +1,64, triglicérides e HDL aceitáveis — alta do plano de 24 meses e retorno ao calendário de rotina, com a curva na Caderneta do Adolescente
    • Sem os desfechos em 2 anos, encaminhamento à atenção especializada, mantido o cuidado da unidade
09

Como saber se está funcionando

Reavaliar a criança com obesidade é medir o que o tratamento promete mudar, no intervalo em que a mudança é possível de ver. O manual da Sociedade Brasileira de Pediatria pede peso, estatura e índice mensalmente ou, no máximo, a cada três meses, e os exames que não normalizaram a cada quatro a seis meses; o calendário de 24 meses do Instrutivo do Ministério da Saúde cabe dentro dessa régua. O parâmetro principal não é o peso: é a inclinação da linha do índice de massa corporal para a idade, lida junto com a linha da estatura.

Reconheça avanços e reveja o plano sem culpa. Diante de pouca resposta, explore acesso a alimentos, sono, rotina, sofrimento emocional, medicamentos, intensidade do apoio e possíveis condições associadas. Negocie metas que caibam na vida da família e antecipe encaminhamento quando a situação exigir; baixa resposta não prova falta de esforço.

Inclinação da linha do índice de massa corporal para a idadeEm todo encontro; leitura formal nos meses 6, 12 e 24

Esperado: Linha que para de subir e, com o crescimento, desce em direção à faixa de normalidade; na adolescente que terminou a maturação, peso estabilizado e redução gradual

Se não melhora: Rever as metas com a família, encurtar o intervalo com contatos entre as consultas e procurar causa secundária que tenha passado; 2 anos na atenção primária sem os desfechos são critério de encaminhamento

Estatura e velocidade de crescimentoA cada 3 a 6 meses

Esperado: Linha da estatura no próprio canal, com velocidade normal para a idade e o estágio puberal

Se não melhora: Estatura que atravessa escores para baixo ou fica horizontal com o peso subindo é sinal de causa endócrina: investigação pelo capítulo Baixa estatura e puberdade tardia, na apostila de Endocrinologia Pediátrica

Pressão arterialEm toda consulta a partir de 3 anos, com manguito adequado ao braço

Esperado: Abaixo do percentil 90 para sexo, idade e estatura

Se não melhora: No percentil 90 ou acima, repetir duas vezes e usar a média; acima do percentil 95 em três medidas é hipertensão e vai ao especialista, com o cuidado mantido na unidade

Glicemia, perfil lipídico e enzimas hepáticas que vieram alteradosOs alterados, a cada 4 a 6 meses até normalizar; os normais não têm intervalo nas fontes, e esta apostila os repete na reavaliação anual, ou antes se a classe piorar

Esperado: Triglicérides e HDL voltando à faixa aceitável; glicemia e transaminases normais

Se não melhora: Glicemia de jejum de 100 a 125 pede teste de tolerância à glicose; ALT acima de duas vezes o limite por mais de 6 meses vai ao gastroenterologista ou hepatologista pediátrico; LDL acima de 190, ou de 160 com história familiar, é suspeita de hipercolesterolemia familiar

Metas pactuadas e marcadores de consumoEm todo encontro, pelo diário da família e pelos marcadores de consumo do dia anterior

Esperado: Menos bebida adoçada e ultraprocessado, mais água, fruta e feijão, menos refeição diante da tela, mais refeição em família

Se não melhora: Descobrir o obstáculo antes de repetir a orientação — quem cuida da criança à tarde, o que há em casa, o dinheiro, o horário — e trocar a meta por uma menor que a família consiga cumprir

Movimento, tela e sonoEm todo encontro, em horas e minutos por dia

Esperado: Atividade física na faixa da idade (60 minutos por dia de moderada a vigorosa a partir de 6 anos, com fortalecimento três vezes por semana); tela recreativa dentro do limite da idade; sono em horário regular, sem sonolência diurna

Se não melhora: Voltar ao degrau anterior do plano de atividade física; ronco com pausas ou sonolência diurna é encaminhamento pelo capítulo Apneia obstrutiva do sono; dor articular ao exercício pede exame do quadril e do joelho antes de insistir

Saúde mental, imagem corporal, bullying e comportamento alimentarEm todo encontro, com parte da conversa a sós a partir da criança maior

Esperado: Criança que volta à escola e à educação física, fala do corpo sem vergonha e come sem esconder

Se não melhora: Tristeza persistente, isolamento ou recusa escolar pedem avaliação de saúde mental; comer escondido com perda de controle, vômito provocado, jejum ou pavor de engordar mudam o problema de lugar — régua do capítulo Transtornos alimentares, na apostila de Psiquiatria; marcas de violência seguem o capítulo de violência e maus-tratos

10

Onde o erro machuca

Classificar a criança pelos cortes do adulto, ou dar a uma idade o nome de classe da outra

O dano: Um índice de 22,9 kg/m², normal num adulto, é obesidade numa menina de 8 anos, e quem o lê pela régua do adulto manda a família embora tranquila. No sentido oposto, chamar de obesidade o escore +2,4 de uma menina de 4 anos, que é sobrepeso, muda o estrato, a conversa com a família e os exames pedidos — e o mesmo índice de 19,4, numa menina de 5 anos e 2 meses, já é obesidade, com escore +2,23, porque a régua mudou aos 5 anos e não a criança.

Como pegar a tempo: Marque o índice no gráfico do sexo e da faixa etária da criança e dê o nome pela idade: antes dos 5 anos, risco de sobrepeso, sobrepeso e obesidade acima de +1, +2 e +3; de 5 a 19 anos, sobrepeso, obesidade e obesidade grave nos mesmos escores. Escreva no prontuário o escore-z, não só a classe.

Esperar a criança cruzar o corte para começar a cuidar

O dano: A linha que sobe de +1 para +2 em um ano e meio já é o problema, e cada consulta em que o ponto não é marcado é uma consulta perdida. O Instrutivo do Ministério da Saúde mostra, no anexo sobre as curvas, a criança que passou de eutrófica a obesa entre os 3 e os 5 anos porque as medidas eram espaçadas demais, e registra que o excesso de peso mais leve responde melhor quando o cuidado começa cedo.

Como pegar a tempo: Pese, meça e marque em toda vinda da criança à unidade, ligue o ponto ao anterior e leia a inclinação. Linha atravessando escores para cima pede revisão de hábitos e retorno mais curto, mesmo antes do corte.

Pedir TSH, insulina e ultrassonografia para toda criança obesa — e não olhar a estatura

O dano: O TSH normal da criança alta que cresce bem convence a família de que não há nada a fazer; a insulina e o índice de resistência não têm corte validado e variam com a puberdade; a ultrassonografia de rotina gera fila e achado sem conduta. Enquanto isso, o dado que de fato separa a doença endócrina — a estatura baixa ou a velocidade de crescimento caindo — fica sem ser lido, porque o olhar foi para o laboratório e não para a curva.

Como pegar a tempo: Leia a estatura e a velocidade na mesma consulta em que lê o índice. A partir do sobrepeso, peça só glicemia de jejum, perfil lipídico e enzimas hepáticas. TSH e tiroxina livre entram com baixa estatura, desaceleração do crescimento ou sinais clínicos, e a investigação segue o capítulo Baixa estatura e puberdade tardia.

Imprimir uma dieta restritiva e proibir alimentos para a criança, sem mudar a casa

O dano: O Instrutivo registra que abordagens impositivas e restritivas têm alta taxa de abandono. A criança que tem o prato vigiado enquanto o irmão toma refrigerante aprende que o problema é ela, passa a comer escondido e pode desenvolver um comportamento alimentar pior que o excesso de peso. A família que não consegue cumprir a dieta some da unidade.

Como pegar a tempo: Negocie duas ou três metas com quem compra, cozinha e cuida da criança, e aplique-as à casa inteira. Nenhum alimento proibido; ultraprocessado fora do consumo diário; água no lugar da bebida adoçada; refeição à mesa sem tela. Troque a meta cumprida por outra nova, e a descumprida por uma menor.

Falar do peso com estigma — o apelido, a comparação, a pesagem comentada, a culpa na mãe

O dano: O estigma, descrito pelo Instrutivo, produz sofrimento mental, isolamento, evasão escolar e dificuldade de procurar o serviço de saúde. A criança envergonhada na consulta não volta; a mãe acusada deixa de contar o que acontece em casa; e o profissional perde justamente a informação que o tratamento precisa.

Como pegar a tempo: Fale com a criança antes de falar sobre ela, peça licença para tratar do crescimento, mostre a curva e use um vocabulário de saúde e disposição, não de estética. Faça o reforço positivo em toda consulta, tenha havido adesão ou não. Com o adolescente, parte da conversa é a sós.

Medir a pressão da criança obesa com o manguito da bandeja — ou deixar de medir porque ele não serve

O dano: O manguito estreito superestima a pressão, e a criança ganha um rótulo de hipertensa e um encaminhamento que não precisava; na unidade em que o manguito certo não existe, a pressão simplesmente deixa de ser medida em quem mais tem risco de hipertensão. O quadro de técnica do manual de obesidade da Sociedade Brasileira de Pediatria ainda troca a sistólica pela diastólica, e quem o segue anota a pressão invertida.

Como pegar a tempo: Escolha o manguito pelo braço: bolsa com largura de 40% e comprimento de 80% a 100% da circunferência. No percentil 90 ou acima, repita duas vezes e use a média. O primeiro som é a sistólica. A tabela por idade, sexo e estatura está no capítulo Glomerulonefrite difusa aguda pós-estreptocócica, na apostila de Nefrologia Pediátrica.

11

O que dizer ao paciente e à família

As conversas deste capítulo são o tratamento, e não a moldura dele. O Instrutivo do Ministério da Saúde de 2022 indica a entrevista motivacional como uma das estratégias centrais: perguntas abertas e escuta reflexiva, nenhuma censura, acusação ou tom de alerta; ajudar a criança ou o adolescente a enxergar a distância entre os hábitos de hoje e o que quer para si; não tentar consertar cada problema quando a pessoa está ambivalente; e apoiar-se nos sucessos anteriores para que a família se sinta capaz. Para a criança menor de 5 anos, a orientação vai para os pais e cuidadores; a criança maior e o adolescente são, pelo mesmo documento, agentes ativos do próprio cuidado.

No adolescente, a regra do Instrutivo é clara e cabe numa frase dita no início: a partir dos 12 anos ele tem direito de ser atendido sozinho, e o que diz na consulta fica em sigilo, que só se quebra com a concordância dele ou quando houver dano à saúde dele ou de terceiros. A criança menor de 12 anos que chega sozinha não tem o atendimento negado, e a equipe procura envolver a família. As sete falas abaixo são com a mãe e a filha da cena, com o adolescente e o pai de outro caso do capítulo, e com a avó que cuida da menina do caso resolvido.

Abrir o assunto com Dorotea e Vinicia, com a caderneta aberta na mesa

Vinicia, posso mostrar para você e para a sua mãe um desenho que a gente faz com as suas medidas? Olha esta linha: é a sua altura, e ela está subindo direitinho, no caminho dela. Você está crescendo muito bem. Esta outra linha mostra o peso para a altura. Aos 6 anos estava aqui, e agora está aqui em cima, subindo mais depressa que a altura. Isso não é culpa de ninguém. É o jeito de o corpo contar como está sendo o dia a dia. E tem uma parte boa: como você está crescendo, dá para essa linha parar de subir sem ninguém passar fome e sem dieta.

Não diga: Dizer que a menina está gorda, que precisa fechar a boca ou que vai ficar diabética se continuar assim.

Dorotea diz que a filha come pouco e que o peso é de família

Eu acredito na senhora, dona Dorotea, e pode ser que ela coma pouco no prato mesmo. Às vezes o que pesa não está no prato: está no copo, no pacote, no que se come diante da televisão sem perceber. Por isso eu queria reconstruir com a senhora o dia de ontem, do café da manhã até a hora de dormir, sem julgar nada. E a família conta, sim. Se a senhora e o pai têm facilidade de ganhar peso, a Vinicia também tem, e é por isso que a mudança precisa ser da casa inteira, e não só do prato dela.

Não diga: Contestar a mãe dizendo que ninguém engorda comendo pouco, ou aceitar o é de família como razão para não fazer nada.

Dorotea pede o exame de tireoide

Eu entendo o pedido e vou explicar por que não vou pedir hoje. Quando a tireoide para de funcionar na criança, a altura costuma frear: ela cresce devagar enquanto o peso sobe. A Vinicia está fazendo o contrário, é das mais altas da turma e cresce no ritmo certo. Então eu vou pedir os três exames que mostram se o peso já mexeu no açúcar, na gordura do sangue e no fígado. E, se a altura dela parar de subir em algum momento, a tireoide volta para a lista na mesma hora.

Não diga: Pedir o TSH para encerrar a conversa: o resultado normal vira, para a família, a prova de que não há nada a fazer.

Glicerio, 14 anos, a sós, depois que o pai sai da sala

Glicerio, aqui dentro a conversa é sua. O que você disser aqui fica entre nós dois. Seu pai só fica sabendo se você concordar, ou se for alguma coisa que ponha em risco a sua saúde ou a de outra pessoa, e nesse caso eu te aviso antes. Você me falou do joelho e do ronco, e eu vou cuidar dos dois. Queria saber também como é na escola: alguém pega no seu pé por causa do corpo? Você tem vontade de ir? E quando você come, tem vez que parece que não consegue parar?

Não diga: Atender o adolescente só com o pai na sala, ou prometer um sigilo sem limite nenhum, que a própria regra não garante.

Glicerio pede a injeção para emagrecer que viu na internet

Eu sei de qual injeção você está falando, e não vou fingir que ela não existe. Remédio para obesidade na sua idade é decisão do especialista, com exame, com critério e com acompanhamento de perto; não é um remédio que a unidade básica prescreve, e nenhum deles está na lista nacional de medicamentos do SUS. Eu vou te encaminhar para o especialista, porque o seu caso tem critério para isso. E vou ser honesto com você: remédio nenhum segura resultado se o resto não mudar. A gente começa hoje pelo que está na sua mão, e o especialista decide o resto.

Não diga: Dizer que remédio para emagrecer é coisa de quem não tem força de vontade, ou prescrever por conta própria o que viu funcionar em adulto.

Parmenio, o pai de Glicerio, diz que o filho só vai emagrecer no sacrifício

Seu Parmenio, a sua preocupação é certa: o Glicerio precisa de cuidado, e agora. Mas sacrifício, nessa idade, costuma virar comer escondido e desistir. O que funciona é a casa ajudar sem vigiar: água e fruta à mão, refrigerante fora da geladeira, jantar junto com a televisão desligada, caminhar junto. Ele está numa idade em que o que o senhor faz ensina mais do que o que o senhor diz. E uma coisa que ajuda muito: não comentar o peso dele à mesa, nem na frente de ninguém.

Não diga: Concordar com a restrição dura, ou transformar o pai em fiscal do prato do filho.

Zulmira, a avó que cuida de Colombina, conta da mamadeira de achocolatado na hora de dormir

Dona Zulmira, a senhora cuida dela todos os dias, e o carinho aparece. Eu sei que a mamadeira com achocolatado é o que faz a Colombina dormir. Só que ela soma açúcar toda noite, e o doce acostuma o paladar a pedir mais doce. A gente pode trocar aos poucos: primeiro tira o achocolatado e fica o leite; depois o leite passa para o copo, no jantar; e a hora de dormir fica com o banho, a história, o colo e a luz baixa. Por onde a senhora acha que dá para começar?

Não diga: Culpar a avó pelo peso da criança, ou mandar tirar a mamadeira de uma vez sem combinar com quem cuida.

12

Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Rastrear o fígado da criança com excesso de peso: enzimas hepáticas, ou ultrassonografia para todas?

Enzimas hepáticas no rastreio, sem ultrassonografia — Ministério da Saúde, Instrutivo para o cuidado da criança e do adolescente com sobrepeso e obesidade na APS (2022)

Entre os exames recomendados para rastrear comorbidades na criança e no adolescente com obesidade, o Instrutivo lista glicemia de jejum, colesterol total e frações, triglicérides e enzimas hepáticas; nos estratos de cuidado, a partir do sobrepeso, repete a lista como pressão arterial, glicemia de jejum, perfil lipídico e marcadores hepáticos. A ultrassonografia não faz parte do rastreio.

Brasil. Ministério da Saúde; Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Instrutivo para o cuidado da criança e do adolescente com sobrepeso e obesidade no âmbito da Atenção Primária à Saúde, 2022, capítulo 3 (p. 48-52).

Ultrassonografia hepática para toda criança com sobrepeso e obesidade — Sociedade Brasileira de Pediatria, manual de orientação (2019)

A seção de doença gordurosa do fígado afirma que todas as crianças com sobrepeso e obesidade devem fazer avaliação da função hepática, perfil lipídico e ultrassonografia hepática, porque a ALT isolada não seria bom indicador. O mesmo manual registra que a ultrassonografia perde sensibilidade e especificidade na obesidade grave e não diferencia esteatose de esteato-hepatite; a figura da mesma seção começa o fluxo nas crianças com risco de síndrome metabólica, e o capítulo de comorbidades organiza a avaliação a partir do valor da ALT.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Obesidade na infância e adolescência: manual de orientação, 3. ed., 2019, capítulo 6 (p. 49) e seção 6.4 (p. 65-67).

Como decidir

Esta apostila adota o Instrutivo. Degrau 1, escopo: os dois textos miram a mesma criança, a que tem excesso de peso, e o Instrutivo foi feito para a atenção primária, onde ela é atendida — empate no escopo. Degrau 2, data: o Instrutivo, de 2022, é mais novo que o manual, de 2019, e decide. O degrau 3 aponta para o mesmo lado, norma federal sobre documento de sociedade, e a coerência interna reforça: o manual manda o exame para todas num parágrafo e, na figura da mesma seção, só para quem tem risco de síndrome metabólica. Para o paciente à sua frente: peça ALT e AST no rastreio; acima de duas vezes o limite do laboratório, faça a triagem de outras causas e encaminhe se persistir; a ultrassonografia entra com sintoma que ela responda, como a dor biliar, ou a pedido de quem conduz a investigação da transaminase. O que se aceita com essa escolha é que a enzima normal não exclui gordura no fígado — e essa gordura, encontrada, não mudaria o tratamento, que é o mesmo cuidado de estilo de vida.

Qual tabela lê o perfil lipídico da criança: os valores de 2005 ou os do painel de 2011?

Valores da I Diretriz de Prevenção da Aterosclerose na Infância e na Adolescência (2005), que o manual da Sociedade Brasileira de Pediatria de 2019 apresenta como recomendação da SBC e da SBP

Colesterol total desejável abaixo de 150, limítrofe de 150 a 169 e elevado acima de 170 mg/dL; LDL desejável abaixo de 100, limítrofe de 100 a 129 e elevado acima de 130; HDL desejável acima de 45; triglicérides desejáveis abaixo de 100, limítrofes de 100 a 129 e elevados acima de 130, com um único corte para todas as idades a partir dos 2 anos.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Obesidade na infância e adolescência: manual de orientação, 3. ed., 2019, seção 6.3, tabela 2 (p. 63), citando Giuliano ICB et al., Arq Bras Cardiol 2005.

Valores do painel de especialistas de 2011, reproduzidos na mesma seção do manual da Sociedade Brasileira de Pediatria (2019)

Colesterol total aceitável abaixo de 170, limítrofe de 170 a 199 e elevado a partir de 200 mg/dL; LDL abaixo de 110, de 110 a 129 e a partir de 130; não-HDL abaixo de 120, de 120 a 144 e a partir de 145; triglicérides de 0 a 9 anos abaixo de 75, de 75 a 99 e a partir de 100, e de 10 a 19 anos abaixo de 90, de 90 a 129 e a partir de 130; HDL acima de 45, de 40 a 45 e abaixo de 40. O rastreamento por idade que acompanha a tabela é o mesmo que a diretriz brasileira de dislipidemias de 2025 adota.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Obesidade na infância e adolescência: manual de orientação, 3. ed., 2019, seção 6.3, tabela 1 (p. 62), citando o painel da Academia Americana de Pediatria de 2011; Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose – 2025, seção 9.10.2.

Como decidir

Esta apostila adota a tabela do painel de 2011. Degrau 1, escopo: empate — as duas tabelas estão no mesmo documento, para a mesma criança. Degrau 2, data: a tabela de 2011 é seis anos mais nova que a de 2005, e decide. O degrau 4 reforça: na transcrição do manual, a tabela de 2005 deixa 170 mg/dL de colesterol e 130 mg/dL de LDL ou triglicérides sem classe nenhuma, e a de 2011 não tem buraco. A diretriz brasileira de dislipidemias de 2025 não traz tabela pediátrica própria, mas conversa com o painel de 2011: repete as faixas de idade do rastreamento, estendendo a última até 21 anos, e usa 170 mg/dL de colesterol como corte ao descrever os adolescentes do estudo ERICA. Para o paciente à sua frente: Vinicia, com colesterol total de 168 e LDL de 102, é aceitável pela tabela adotada e limítrofe pela outra; o triglicéride de 124 é elevado numa e limítrofe na outra. A conduta dela não muda, porque o tratamento de estilo de vida já está em curso; o que muda é a clareza do registro — uma comorbidade escrita, e não três valores limítrofes — e quem usar a tabela antiga precisa saber que a está usando.

Quanto tempo de tela para a criança de 2 a 5 anos com excesso de peso: até 1 hora ou até 2 horas por dia?

Nenhuma tela antes dos 2 anos e até 1 hora por dia de 2 a 5 anos — Ministério da Saúde, Instrutivo (2022)

Crianças de 0 a 2 anos não devem ser expostas a telas nem ficar mais de uma hora seguida em atividade de baixo gasto energético ou com os movimentos contidos, exceto dormindo; de 2 a 5 anos, a mesma regra do movimento e tempo de tela de no máximo 1 hora; crianças maiores e adolescentes, tela recreativa de até 2 horas, sem contar a tarefa escolar.

Brasil. Ministério da Saúde; Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Instrutivo para o cuidado da criança e do adolescente com sobrepeso e obesidade no âmbito da Atenção Primária à Saúde, 2022, capítulo 6, comportamento sedentário (p. 109).

Até 2 horas por dia para maiores de 2 anos — Sociedade Brasileira de Pediatria, manual de orientação (2019)

O capítulo de tratamento dietoterápico recomenda que o tempo diante de televisão, tablets e computadores não ultrapasse 2 horas por dia para maiores de 2 anos. O mesmo capítulo, ao descrever o segundo estágio do tratamento, prescreve 1 hora ou menos de televisão e dispositivos.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Obesidade na infância e adolescência: manual de orientação, 3. ed., 2019, capítulo 7 (p. 94-95).

Como decidir

Esta apostila adota o Instrutivo: até 1 hora de tela por dia de 2 a 5 anos. Degrau 1, escopo: empate — os dois documentos tratam da criança com excesso de peso. Degrau 2, data: 2022 decide sobre 2019. O manual, além disso, dá as duas respostas no mesmo capítulo — 2 horas na recomendação geral, 1 hora ou menos no estágio de tratamento —, e a leitura mais restrita dele coincide com a do documento mais novo. Para o paciente à sua frente: Colombina, de 4 anos, que passa três horas por dia com desenho animado no celular da avó, tem como meta chegar a uma hora, em degraus, com o celular fora das refeições e longe da hora de dormir; a partir dos 6 anos, a régua passa a ser de até 2 horas de tela recreativa.

13

O raciocínio, em voz alta

Colombina Jandaia, 4 anos e 2 meses, chega à unidade com a avó, Zulmira, que cuida dela durante o dia enquanto a mãe trabalha. A creche pediu a caderneta atualizada; a última consulta de crescimento foi aos 3 anos. Hoje ela pesa 20,8 kg e mede 103,5 cm. Na caderneta: aos 2 anos e 1 mês, 12,4 kg e 87,0 cm; aos 3 anos, 16,0 kg e 95,0 cm. A avó conta que Colombina come bem na creche, toma duas mamadeiras de leite com achocolatado à noite — uma para dormir e outra de madrugada —, leva suco de caixinha e biscoito recheado para o lanche da tarde e fica cerca de três horas por dia vendo desenho animado no celular. Brinca na pracinha nos fins de semana. Dorme das nove e meia às sete, não ronca. Desenvolvimento adequado para a idade, sem medicamentos. A avó tem diabetes tipo 2 e a mãe tem obesidade. No exame, sem acantose, sem dismorfias; pressão arterial de 96 por 58 mmHg em duas medidas com manguito adequado ao braço, abaixo do percentil 90.

  1. A classe, pela idade

    Índice de massa corporal de 20,8 dividido por 1,035 ao quadrado: 19,4 kg/m². No gráfico de 2 a 5 anos das meninas, o ponto fica entre as linhas +2 e +3 — escore-z +2,43 pelas tabelas da OMS. Antes dos 5 anos, isso é sobrepeso, e não obesidade: a obesidade dessa faixa começa acima de +3, e obesidade grave não existe antes dos 5. O registro no prontuário leva a classe e o número. A família ouvirá a mesma coisa daqui a um ano com outro nome se nada mudar: o mesmo índice de 19,4 numa menina de 5 anos e 2 meses dá escore +2,23, que já é obesidade, porque a régua troca aos 5 anos.

  2. A linha, não o ponto

    Aos 2 anos e 1 mês, escore +0,53, eutrofia. Aos 3 anos, +1,59, risco de sobrepeso — e ninguém chamou a atenção para isso. Hoje, +2,43. Em pouco mais de dois anos a linha atravessou duas linhas de escore para cima. Esse traçado é o dado mais importante da consulta, e é o que se mostra à avó: a caderneta aberta, os três pontos ligados, a linha da estatura ao lado para comparar.

  3. Obesidade comum ou sintoma de outra doença

    A estatura está na mediana (escore −0,09) e cresceu 8,5 cm em 14 meses, cerca de 7,3 cm por ano, velocidade normal para a idade. O desenvolvimento é adequado, não há dismorfias, a fome não é desproporcional e não há medicamento. É excesso de peso comum, e não há indicação de TSH nem de nenhum exame hormonal. A história alimentar explica a linha sem precisar de outra hipótese: duas mamadeiras com achocolatado por noite, bebida adoçada e biscoito recheado todas as tardes, três horas de tela.

  4. O que rastrear, e o que não

    A pressão já foi medida com o manguito certo, como a Caderneta manda a partir dos 3 anos. Pelo Instrutivo do Ministério da Saúde, a partir do sobrepeso entram glicemia de jejum, perfil lipídico e enzimas hepáticas; o perfil lipídico, com 4 anos, também está no rastreamento seletivo que a diretriz de dislipidemias de 2025 indica entre 2 e 8 anos para quem tem sobrepeso. Os três exames saem na mesma manhã, no mesmo jejum. Não entram ultrassonografia, insulina nem TSH. No retorno: glicemia de 84 mg/dL; colesterol total de 158, LDL de 96, HDL de 48 e triglicérides de 68 mg/dL, todos aceitáveis pela tabela do painel de 2011; ALT de 18 U/L.

  5. O estrato e o que ele recebe

    Sobrepeso sem comorbidade: o segundo estrato do Instrutivo. Colombina fica na unidade, com acompanhamento do crescimento e do índice, avaliação e orientação de alimentação, movimento, tela e sono, metas pactuadas e convite para a atividade coletiva de famílias. Não há critério de encaminhamento — nenhuma causa secundária, nenhuma obesidade grave — e não há, nessa idade e nessa classe, nenhuma indicação de restrição alimentar: o que se muda é o que entra em casa e o que acontece à noite.

  6. As metas, com quem cuida

    Quem cozinha, compra e decide durante o dia é a avó, e as metas são negociadas com ela, não com a mãe ausente. Duas metas, escritas: primeira, a mamadeira da noite perde o achocolatado nesta semana e, em seguida, o leite passa para o copo no jantar, com a hora de dormir entregue a uma rotina de banho, história e luz baixa; segunda, água no lugar do suco de caixinha e fruta inteira no lanche da tarde. Nada é proibido e ninguém fala em dieta. A tela entra no retorno seguinte, como terceira meta, com o alvo que esta apostila adota para 2 a 5 anos: até 1 hora por dia, fora das refeições e longe da hora de dormir.

  7. O movimento na idade dela

    De 3 a 5 anos, o Instrutivo pede pelo menos 3 horas de atividade física por dia, de qualquer intensidade, com no mínimo 1 hora moderada a vigorosa, e que a criança não fique mais de uma hora seguida parada ou contida, exceto dormindo. Na prática de Colombina, isso é brincadeira: a pracinha passa a ser diária, a creche é informada de que o recreio ao ar livre é parte do cuidado, e o desenho animado de três horas é o tempo de onde o movimento vai sair.

  8. O retorno e o que se espera ver

    Retorno em um mês para a leitura das metas, e depois o calendário do Instrutivo, com peso, estatura e índice marcados a cada encontro. O que se espera não é que Colombina perca peso: é que ela continue crescendo cerca de 7 cm por ano com o peso subindo menos, e que a linha do índice pare de subir e dobre para baixo. Se a linha cruzar +3 antes dos 5 anos, a classe passa a obesidade e o estrato sobe. Se aos 5 anos o escore ainda estiver acima de +2, a avó vai ouvir a palavra obesidade — e precisa saber, desde hoje, que a troca do nome nesse aniversário é da régua, e que o que conta é a direção da linha.

14

Faça você

Edmundo Firmino, 7 anos e 6 meses, vem com a mãe, que está preocupada porque ele engordou muito no último ano e porque a professora disse que ele anda lento, com sono na sala e com a letra pior. A mãe acha que é a comida da avó, que mima o neto. Ele não usa nenhum medicamento e nunca recebeu corticoide oral ou injetável. Na caderneta, aos 6 anos: 21,5 kg e 114,5 cm. Hoje: 28,5 kg e 117,0 cm. A mãe conta ainda que ele vai ao banheiro a cada três ou quatro dias e reclama de frio quando os irmãos estão de camiseta. No exame, pele seca, sem estrias violáceas, sem acantose, sem dismorfias; pressão de 98 por 60 mmHg com manguito adequado; genitália infantil, compatível com a idade; desenvolvimento sem atraso até aqui.

  1. Calcule e classifique

    Calcule o índice de massa corporal de hoje e o de 6 anos, dê a classe de cada um pela faixa etária e diga o que aconteceu com a linha do índice em 18 meses.

  2. Leia a outra linha

    Calcule quantos centímetros Edmundo cresceu em 18 meses e quanto isso dá por ano. Diga se a combinação das duas linhas se parece com a de Vinicia ou com o desenho oposto, e o que esse desenho sugere.

  3. Decida o que muda hoje

    Escreva quais exames você pede, incluindo o que ficaria fora na criança obesa que cresce bem, e se Edmundo sai ou não do fluxo da obesidade comum. Diga por qual critério do Instrutivo e para qual capítulo vai a investigação.

  4. Explique à mãe

    Escreva, em três frases, o que você diz à mãe sobre a hipótese, sobre a comida da avó e sobre o que continua valendo em casa enquanto a investigação anda.

Ver como fecharíamos

Hoje: 28,5 dividido por 1,17 ao quadrado dá 20,8 kg/m², escore-z +2,57, obesidade para um menino de 7 anos e meio. Aos 6 anos: 16,4 kg/m², escore +0,77, eutrofia. Em 18 meses, a linha do índice atravessou quase dois escores para cima. A estatura foi de 114,5 para 117,0 cm: 2,5 cm em 18 meses, cerca de 1,7 cm por ano, e o escore da estatura caiu de −0,29 para −1,38. É o desenho oposto ao de Vinicia — o peso sobe enquanto o crescimento quase para —, que o capítulo Baixa estatura e puberdade tardia, na apostila de Endocrinologia Pediátrica, descreve para o hipotireoidismo adquirido; lentidão, sonolência, constipação, intolerância ao frio e pele seca completam a suspeita. Edmundo sai do fluxo da obesidade comum. Pedem-se hoje TSH e tiroxina livre, exames que ficariam fora numa criança obesa que cresce bem, além da glicemia de jejum, do perfil lipídico e das enzimas hepáticas do rastreio do Instrutivo. A suspeita de causa secundária é, pelo Instrutivo, critério de encaminhamento à atenção especializada, e a investigação segue o capítulo de baixa estatura, com a carta levando idade, peso, estatura, as duas medidas com as datas e a velocidade calculada. À mãe: o ganho de peso de Edmundo pode ser sinal de uma glândula que está funcionando devagar, porque ele engordou justamente quando parou de crescer, e isso se investiga com exame de sangue e com o especialista; a comida da avó não explica uma criança que para de crescer, e ninguém precisa ser culpado; enquanto isso, as mudanças da casa — água no lugar da bebida adoçada, refeição sem tela, brincadeira ativa — continuam valendo para ele e para os irmãos, qualquer que seja o resultado.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

De 5 a 19 anos, o índice acima de +2 e até +3 é obesidade. Excesso de peso com estatura alta, velocidade de crescimento normal, desenvolvimento normal e sem medicamento compõe a obesidade comum, e o hormônio da tireoide, quando falta na criança, freia a estatura. O Instrutivo do Ministério da Saúde de 2022 pede, a partir do sobrepeso, glicemia de jejum, perfil lipídico e enzimas hepáticas, e o cuidado se faz na atenção primária, com metas negociadas com a família.

15

Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
16

Plano de revisão

Em 7 dias

Compare crianças de quatro e seis anos com o mesmo escore de IMC e explique a classificação. Leia a trajetória da estatura antes de decidir investigação endócrina. Proponha avaliação de comorbidades conforme idade, risco e achados. Negocie duas metas familiares possíveis e defina o que acompanhar além do peso. Identifique situações de encaminhamento e explique por que tratamento especializado pode coexistir com cuidado na atenção primária.

Em 30 dias

Retome um caso e verifique o que mudou em sono, alimentação, movimento, participação e sofrimento relacionado ao peso. Compare isso com crescimento, pressão e exames indicados. Ajuste metas a partir das dificuldades relatadas, sem atribuir o resultado à força de vontade. Faça uma passagem com trajetória, comorbidades, plano já tentado, resposta e motivo de eventual encaminhamento.

17

Agora atenda

Agora atenda: Ivo Mocambinho, 10 anos, chega à unidade com a mãe, Aureliana, depois que a avaliação do Programa Saúde na Escola mandou para casa um bilhete sobre o peso dele. Calcule e marque o índice de massa corporal na curva da idade, leia a estatura na mesma consulta, pergunte pelo remédio, pelo sono e pela escola, meça a pressão com o manguito certo, decida quais exames entram e quais não entram, e saia da consulta com duas metas negociadas com quem cuida dele — sem uma palavra de vergonha.

Obesidade infantil e prevenção do sobrepeso na infância – Alta demais para ser hormônio — Internato | OsceLabs