PediatriaNutrologia Pediátrica

A via alimentar na paralisia cerebral: quando a boca deixa de ser segura

Nutrição da criança com paralisia cerebral: disfagia e via alimentar

A balança mente quando a coluna é torta, e o limiar federal que troca a boca pela gastrostomia mudou entre duas tiragens.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Criança de 5 anos com paralisia cerebral e disfagia moderada mantém alimentação exclusivamente por via oral. A mãe relata que cada refeição dura cerca de 55 minutos e que oferece quatro refeições por dia. O peso vem caindo lentamente. Segundo a recomendação numerada das diretrizes da Sociedade Europeia de Gastroenterologia, Hepatologia e Nutrição Pediátrica, qual é o tempo total diário de alimentação oral a partir do qual se deve considerar a via enteral?

02

Como esse tema cai

Este capítulo trata da criança que já tem o diagnóstico neurológico e da decisão que vem depois dele: por onde ela come. Não trata do diagnóstico da paralisia cerebral, da classificação motora nem da reabilitação — trata do que o pediatra faz quando a mãe conta que a refeição demora, que a criança tosse no meio do purê, que o peso não sobe e que a pneumonia voltou pela terceira vez no ano.

Três decisões cabem aqui: reconhecer desnutrição numa criança em que a balança e a fita métrica medem mal; reconhecer que a deglutição deixou de ser segura numa criança que pode ter perdido a tosse; e escolher o momento de trocar a boca por uma sonda, e a sonda por uma gastrostomia.

Ficam de fora a definição, a classificação e o prognóstico motor da paralisia cerebral, que pertencem ao capítulo de paralisia cerebral na apostila de Neurologia Pediátrica. Ficam de fora o refluxo gastroesofágico do lactente hígido e a constipação funcional, que têm dono na apostila de Gastroenterologia Pediátrica — aqui o refluxo entra só como o que decide entre gastrostomia e jejunostomia. E fica de fora a leitura de curvas e escore z da criança sem deficiência, que pertence ao capítulo de acompanhamento do crescimento.

O material é curto: um documento federal, em duas tiragens, e uma diretriz internacional. Eles discordam sobre qual instrumento mede desnutrição nessa criança, sobre quando a sonda entra e sobre qual relógio dispara a decisão. E o documento federal discorda de si mesmo entre as duas tiragens, num número que muda a conduta.

03

O que muda decisão

O nível motor prevê a boca, e a queixa não

Como usar este capítulo: avalie estado nutricional e crescimento, segurança da deglutição, impacto respiratório e capacidade de atender às necessidades por via oral. A escolha entre adaptação da consistência, sonda e gastrostomia decorre dessa sequência e deve preservar alimentação prazerosa quando ela for segura.

A dificuldade para se alimentar é a regra, e não a exceção, na criança com lesão encefálica não progressiva. O documento federal estima que de dezenove a noventa e nove por cento das pessoas com paralisia cerebral tenham alguma dificuldade alimentar, e amarra essa variação enorme ao grau de comprometimento motor: entre os classificados nos níveis quatro e cinco da escala de função motora grossa, noventa e nove por cento apresentaram algum grau de disfagia.

A série que sustenta esse número acompanhou cento e sessenta e seis crianças com comprometimento neurológico e desdobrou a prevalência por gravidade: oito por cento com disfagia leve, setenta e seis por cento com disfagia moderada a grave e quinze por cento com disfagia profunda. Dentro da quase totalidade que tem o problema, portanto, a maior parte o tem em grau que já compromete a segurança da refeição.

A consequência é aritmética. Quando a prevalência beira a totalidade, a ausência de queixa quase não desloca a probabilidade — o que a ausência de queixa mede é o relato da família, e não a deglutição da criança. Por isso a diretriz internacional manda suspeitar de disfunção orofaríngea em todo paciente neurológico, mesmo sem sinal evidente.

Isso muda o que se faz na consulta. Diante de uma criança nos níveis quatro ou cinco, o pediatra não pergunta se há dificuldade para engolir e encerra o assunto quando a mãe responde que não há. Ele mede o tempo de uma refeição, pergunta se a criança tosse ou fica com a voz molhada depois de líquido fino, se engole várias vezes o mesmo bocado, se a comida escapa pelos cantos da boca e quantas internações por infecção respiratória houve no último ano.

E assiste a uma refeição inteira sempre que puder, porque o que se vê e o que se relata raramente coincidem. A diretriz pede exatamente isso: história alimentar desde a lactância somada à avaliação visual direta da refeição, feita por profissional treinado — fonoaudiólogo, em geral, mas também médico, enfermeiro ou nutricionista com treinamento.

A balança mede pouco quando a coluna é torta

O documento federal abre o item de nutrição com uma frase que desarma o reflexo de comparar com a criança sem deficiência: mesmo quando adequadamente nutridas, crianças com paralisia cerebral são menores, por inatividade, forças mecânicas sobre osso e músculo, fatores endócrinos e alta prevalência de prematuridade e baixo peso ao nascer. E conclui que atingir os índices de peso e estatura definidos em populações gerais não deve constituir meta ideal para essa criança.

O problema não é só de meta, é de medida. Contratura de quadril e de joelho, escoliose e impossibilidade de ficar em pé tornam o comprimento uma estimativa ruim, e todo índice com estatura no denominador herda esse erro. A diretriz internacional é explícita: a avaliação nutricional dessas crianças não pode se apoiar só em peso e estatura, e a estatura, quando não puder ser medida, se estima de rotina por altura do joelho ou comprimento da tíbia.

As duas réguas convergem no instrumento que sobra. O documento federal aponta a prega cutânea tricipital ou subescapular como o índice antropométrico mais adequado nessa criança, comparável a curvas de referência de crianças saudáveis, e fixa o corte: valor abaixo do décimo percentil indica desnutrição. A diretriz internacional coloca a medida da massa gorda por prega cutânea como componente de rotina da avaliação.

A lista de sinais de alerta da diretriz internacional reúne cinco itens, e basta um: sinais físicos de desnutrição, como úlcera de pressão, problemas de pele e má perfusão periférica; peso para a idade com escore z abaixo de menos dois; prega cutânea tricipital abaixo do décimo percentil para idade e sexo; área de gordura ou de músculo do braço abaixo do décimo percentil; e peso que desacelera ou não progride.

Uma ressalva do próprio texto internacional evita o erro na mão contrária: essa criança acumula gordura mais centralmente, e prega periférica reduzida nem sempre significa reserva baixa. É motivo para somar a área de gordura e de músculo do braço, não para descartar a prega. O pediatra que atende essa criança precisa de fita métrica, adipômetro e curvas de referência de prega — não de uma balança melhor.

Três esquemas de medição isolados: um paquímetro entre a sola do pé e o topo do joelho, uma fita ao longo da perna entre dois pontos e um adipômetro pinçando a prega na face posterior do braço.
Quando a estatura não pode ser medida, as medidas segmentares e a prega cutânea sustentam a avaliação nutricional.

A curva feita para a doença descreve, e não serve de meta

Existem curvas de peso construídas especificamente em crianças com paralisia cerebral, estratificadas pela gravidade funcional e pelo uso ou não de sonda de alimentação. O documento federal as apresenta como material de interesse clínico para quem cuida das crianças com déficit motor avançado, e é fácil entender por quê: pela primeira vez o pediatra vê onde a sua paciente cai entre pares parecidos, em vez de vê-la sempre despencando de uma curva feita para outra população.

A diretriz internacional é direta na direção oposta: não recomenda curvas específicas de paralisia cerebral para identificar desnutrição. E a discordância não é de gosto, é de uso.

A reconciliação está no que cada instrumento mede. A curva específica foi construída sobre crianças com paralisia cerebral como elas de fato crescem — inclusive as desnutridas e as de pior sobrevida, já que mobilidade e capacidade motora oral são os principais preditores de morte nessa população. Ela descreve com honestidade a distribuição observada; usada como alvo, transforma desnutrição prevalente em normalidade estatística.

Daí a divisão de trabalho que o pediatra faz sem contradição: a curva específica serve para conversar com a família e para dimensionar o quanto aquela criança destoa de pares com o mesmo nível motor; a decisão de chamar de desnutrida sai dos sinais de alerta, que não dependem de curva alguma. Uma criança pode estar na mediana da curva específica e ter prega tricipital abaixo do décimo percentil — e é a prega que muda a conduta. Dizer que ela está bem porque está no meio da curva da própria doença é usar uma descrição como se fosse meta, e é a forma mais silenciosa de deixar passar meses de perda ponderal em quem já tem pouca reserva.

O engasgo que sumiu não é engasgo resolvido

Aspiração traqueal, no documento federal, tem definição estreita: passagem do bolo pelas pregas vocais. É o aspecto mais grave da disfagia orofaríngea, e é onde a semiologia mais engana. O mesmo texto registra o motivo, e é uma frase que precisa ser lida devagar: aspiradores crônicos podem dessensibilizar a laringe e deixar de apresentar tosse depois de longo período aspirando.

A leitura clínica disso inverte um raciocínio que o pediatra faz automaticamente. Numa criança sem doença neurológica, engasgo é sinal de aspiração e ausência de engasgo é tranquilizadora. Na criança com comprometimento neurológico grave e história de aspiração prolongada, a ausência de tosse pode ser o estágio seguinte da mesma doença, e não a sua ausência. A pergunta útil deixa de ser se a criança tosse e passa a ser se ela já tossiu, se parou de tossir e quando.

Os sinais que sobram são indiretos e devem ser procurados um a um: sialorreia, tosse, deglutições múltiplas para o mesmo bocado, voz gorgolejante e respiração úmida depois de líquidos, ânsia, escape de alimento pelos lábios, mudança de apetite e refeição que se arrasta. A diretriz internacional associa esse conjunto à disfunção da fase faríngea, que é a de pior prognóstico a longo prazo.

O outro caminho para a infecção respiratória de repetição é o refluxo gastroesofágico, presente em cerca de metade das pessoas com paralisia cerebral e mais frequente quanto maior o comprometimento motor. Diante da mesma pneumonia de repetição há, portanto, dois mecanismos em jogo — o que entra pela boca e desce errado, e o que sobe do estômago —, e eles pedem condutas diferentes.

A conduta imediata do pediatra é conservadora e barata: corrigir a postura da cabeça e do tronco durante a refeição e ajustar a consistência do alimento, medidas que o documento federal registra como capazes de melhorar a eficiência da alimentação. Manter a via oral é a regra na criança com função motora oral adequada e sem risco de aspiração — o que exige ter descartado esse risco, e não presumido.

Videofluoroscopia: o que a beira do leito não alcança

Quando a suspeita passa da fase oral para a faríngea, o exame clínico deixa de bastar. O documento federal registra que a videofluoroscopia da deglutição identificou percentuais de anormalidade superiores aos da avaliação clínica, sobretudo nas fases faríngea e esofágica, menos acessíveis à semiologia. A diretriz internacional recomenda o mesmo exame diante de suspeita de fase faríngea anormal ou de aspiração, e sugere combiná-lo, onde houver, com manometria esofágica de alta resolução. Não é exame de rastreio universal: expõe a criança à radiação e exige colaboração para uma deglutição representativa, e a indicação nasce da história e da observação da refeição, não do nível motor isolado.

É aqui que a diretriz internacional produz uma tensão interna que vale conhecer. Ela define deglutição insegura de forma operacional, para dirigir o fluxo da decisão, e a definição exige duas coisas ao mesmo tempo: história de pneumonia aspirativa — tratada com antibiótico ou com internação por infecção respiratória — e evidência objetiva de aspiração ou penetração na videofluoroscopia com contraste.

A exigência simultânea tem consequência aritmética. Uma criança com penetração laríngea documentada e sem nenhuma pneumonia registrada não preenche o rótulo, embora tenha o achado que o rótulo existe para capturar — e o critério que falta é justamente o evento que se queria evitar. Como o mesmo documento manda suspeitar de disfunção em todos, e o federal avisa que o aspirador crônico perde a tosse, o rótulo espera por um desfecho que a doença produz em silêncio.

O modo honesto de usar essas duas peças é não tratar a definição como gatilho único. Ela existe para padronizar quem entra no braço mais grave do fluxo, e a diretriz oferece, ao lado dela, um critério de oportunidade que não depende de pneumonia nenhuma: alimentação oral insegura ou ineficiente já basta para indicar a via enteral. O pediatra que tem uma videofluoroscopia com penetração nas mãos age por esse segundo critério, sem esperar a infecção que completaria o rótulo.

O relógio da refeição: três números para o mesmo limiar

O tempo que a criança leva para comer é um dos poucos números que a família mede sozinha, e virou critério formal. A recomendação numerada da diretriz internacional é curta: considerar alimentação enteral quando o tempo de alimentação oral passa de três horas por dia.

O corpo do mesmo documento, poucas linhas antes, dá outros dois números. Diz que se considera excessivo um tempo total diário entre três e seis horas, ou mais de trinta minutos por refeição; e diz, em seguida, que a própria sociedade define tempo de alimentação acima de quatro a seis horas por dia como uma das condições para considerar suporte nutricional enteral. São três réguas para a mesma decisão, no mesmo documento, com o mesmo sujeito.

A aritmética mostra o tamanho do desacordo. Numa criança que faz cinco refeições por dia, trinta minutos por refeição dão duas horas e meia diárias; a régua de três horas por dia dá trinta e seis minutos por refeição; e a de quatro a seis horas dá entre quarenta e oito e setenta e dois minutos por refeição. Quem leva quarenta e cinco minutos em cada uma das cinco soma três horas e quarenta e cinco minutos: cruza a recomendação e não cruza a definição do corpo.

Não é caso de escolher o número mais simpático. A recomendação numerada é o que a diretriz assume como sua, com nível de evidência baixo e força fraca declarados ali mesmo; os outros números são o que a literatura revisada registra. E o tempo não decide sozinho: a sentença anterior autoriza manter a via oral quando ela é nutricionalmente suficiente, segura, sem sofrimento e com tempo não prolongado — quatro condições, das quais o relógio é uma.

Traduzindo para a consulta: o pediatra cronometra uma refeição real, multiplica pelo número de refeições do dia e compara com três horas, sabendo que abaixo disso o tempo ainda pode ser proibitivo se o ganho de peso não vem, se a criança sofre em cada colherada ou se a refeição consome o tempo que seria da reabilitação e do sono. Uma família que passa cinco horas por dia alimentando uma criança não tem o que discutir sobre percentis.

Seis semanas ou seis meses: o número federal que mudou de tiragem

Decidida a via enteral, resta o dispositivo. Sonda orogástrica ou nasogástrica é pouco invasiva e serve para períodos curtos; o uso prolongado facilita otite, sinusite, ulceração esofágica e perfuração gástrica ou intestinal. A pergunta prática é uma só: a partir de quando o dispositivo temporário deixa de ser aceitável e a gastrostomia passa a ser o caminho.

O documento federal responde a essa pergunta duas vezes, com números diferentes, em duas tiragens da mesma edição. A tiragem impressa em dois mil e treze recomenda a gastrostomia diante da perspectiva de necessidade prolongada acima de seis meses de via alternativa à oral. A tiragem impressa em dois mil e quatorze, com trinta mil exemplares, recomenda a gastrostomia diante da perspectiva de necessidade prolongada acima de seis semanas. O texto do parágrafo é o mesmo palavra por palavra em torno do número.

As duas tiragens concordam num ponto que resolve a questão: ambas dizem que a sonda oro ou nasogástrica serve para períodos curtos, em geral no máximo seis semanas. Com esse teto fixo, o número de seis meses abre um buraco dentro do próprio parágrafo. A criança que precisará da via alternativa por três meses já passou do prazo em que a sonda é aceitável e não alcançou o prazo em que a gastrostomia é recomendada — cerca de dezenove semanas em que o texto não autoriza continuar nem trocar.

A leitura de dois mil e quatorze fecha o buraco de forma exata: o teto da sonda e o piso da gastrostomia passam a ser o mesmo marco, e a decisão vira contínua. A tiragem anterior traz, além disso, sinais de impressão pré-final na própria abertura — ano de catalogação anterior ao da capa, marcação de reserva no lugar do número de registro e código de classificação de outra área. Não são duas escolas em disputa, e sim um número corrigido; mas as duas versões seguem circulando em repositórios de universidade.

O que o pediatra leva para a beira do leito é a pergunta prognóstica, não o número decorado: por quanto tempo esta criança dependerá de via alternativa? Se a estimativa é de algumas semanas, sonda; se a estimativa ultrapassa seis semanas, a conversa sobre gastrostomia começa agora, e não depois da próxima pneumonia.

A sonda entra antes ou depois de a criança emagrecer

Escolhido o dispositivo, sobra a pergunta do momento — e é nela que os dois documentos apontam para lados opostos, com a mesma criança à frente.

O documento federal escreve que a colocação de tubos para alimentação é necessária em crianças desnutridas, e trata a nutrição enteral como resposta a um estado nutricional já deteriorado. A diretriz internacional recomenda o contrário na ordem do tempo: usar alimentação enteral por sonda nos casos de alimentação oral insegura ou ineficiente, preferencialmente antes que a desnutrição se instale.

A diferença não é retórica. Pela leitura federal, o gatilho é um achado antropométrico; pela leitura internacional, o gatilho é funcional — a boca não é segura, ou não é eficiente — e o estado nutricional é o desfecho que se quer evitar, não o critério de entrada. Numa criança com pouca reserva de gordura e de músculo, esperar o critério antropométrico significa gastar o pouco que existe antes de agir.

Há uma razão para a cautela do lado federal, e ela também está escrita: iniciar nutrição enteral é decisão difícil para a família, que muitas vezes entende a sonda como fracasso da própria capacidade de alimentar a criança. Isso é problema de conversa, não de indicação, e a diretriz internacional o trata assim, ao pedir que pais e cuidadores estejam sempre envolvidos na decisão, sobretudo quando se fala de gastrostomia.

Existe ainda o risco do excesso oposto, no mesmo documento: passar da alimentação oral difícil para a enteral farta desloca o balanço energético e favorece acúmulo de gordura em quem não anda. Indicar cedo não significa ofertar muito — significa trocar a via antes da perda e ajustar o volume pelo peso e pela massa gorda no seguimento.

A conduta que sai daí é simples de enunciar e difícil de sustentar: diante de deglutição insegura ou ineficiente, a via enteral se discute com a família na consulta em que o problema é reconhecido, e não naquela em que a prega cutânea finalmente cruzou o décimo percentil.

O que corre pela sonda muda com o peso que a criança já recuperou

A estimativa de necessidade energética começa, na diretriz internacional, de forma deliberadamente banal: usar as referências dietéticas da criança com desenvolvimento típico e, a partir daí, monitorar peso e massa gorda como indicador da necessidade real. O mesmo vale para proteína e para micronutrientes, com acréscimo proteico reservado a situações específicas, como úlcera de pressão ou criança com necessidade calórica muito baixa.

A razão de não haver fórmula fechada está no que determina o gasto. O maior preditor da necessidade energética é a massa livre de gordura, seguida da capacidade de deambular — duas coisas que variam enormemente entre crianças de mesma idade e mesmo peso quando há comprometimento neurológico. Por isso a régua é o seguimento, e não a conta inicial.

A escolha do produto segue faixas etárias e situações. Para a criança maior de um ano, fórmula polimérica padrão com fibra, na densidade de uma quilocaloria por mililitro. Quando há má tolerância ao volume, fórmula de alta densidade, com uma quilocaloria e meia por mililitro, também com fibra e com hidratação vigiada de perto. No lactente, leite humano, fórmula infantil padrão ou fórmula infantil de maior densidade, conforme a indicação clínica.

Há uma quarta situação, e ela é a que mais se esquece: depois da reabilitação nutricional, na criança que não anda, a recomendação é manter fórmula pobre em gordura e em calorias, rica em fibra e completa em micronutrientes. O objetivo mudou — não se trata mais de recuperar peso, e sim de manter um estado nutricional adequado num organismo com gasto baixo, sem transformar a sonda em fonte de obesidade.

Duas escolhas finas completam o quadro. Diante de refluxo ou ânsia, vale testar fórmula à base de proteína do soro do leite, que esvazia o estômago mais rápido do que a de caseína — observação que o documento federal também registra. E dieta liquidificada de alimentos caseiros pede cautela expressa, por adequação nutricional e por segurança microbiológica. Com necessidade calórica alta ou má tolerância a volume, combina-se infusão contínua noturna com bolus durante o dia.

A gastrostomia não é a operação do refluxo

Para alimentação por sonda de longo prazo, a via preferida de acesso intragástrico é a gastrostomia, e a instalação endoscópica é minimamente invasiva, com o dispositivo utilizável poucas horas depois. Complicações existem e são de estoma: infecção da ferida, vazamento e saída acidental do tubo. A gastrostomia cirúrgica fica reservada às crianças com contraindicação à via endoscópica.

O ponto que separa quem estudou de quem chutou é o refluxo. O documento federal registra que a fundoplicatura é necessária em oito a vinte e cinco por cento dos pacientes com paralisia cerebral, e é fácil ler isso como convite a operar o refluxo junto com a gastrostomia. A diretriz internacional recomenda o oposto: não fazer antirrefluxo de rotina junto da gastrostomia, porque acrescenta morbidade significativa.

As duas afirmações convivem sem contradição porque falam de coisas diferentes. Uma diz quantos pacientes acabam precisando de fundoplicatura em algum momento; a outra diz que essa necessidade deve ser demonstrada, e não presumida no ato de instalar a sonda. A sequência separa as duas decisões: instala-se a gastrostomia; trata-se o refluxo com inibidor de bomba de prótons e ajuste de dieta; reavalia-se; e a fundoplicatura entra quando o tratamento clínico otimizado falha, precedida de endoscopia digestiva alta com biópsias.

Quando o refluxo não se controla e a aspiração continua, a saída não é necessariamente operar: a alimentação por via jejunal é sugerida nos casos de aspiração por doença do refluxo, vômito refratário, ânsia e distensão. A desconexão esofagogástrica com reconstrução em ípsilon, alternativa à cirurgia antirrefluxo, fica restrita a casos selecionados.

Um aviso do próprio documento internacional evita a promessa fácil à família: alimentar por gastrostomia pode reduzir a aspiração e, ao mesmo tempo, agravar o refluxo, e o efeito de somar um procedimento antirrefluxo é pouco conhecido. O que se promete é o que o documento federal atribui ao procedimento — ganho de peso, melhora respiratória e neurológica e devolução do tempo que a família gasta alimentando a criança —, e não o fim das pneumonias.

O osso que quebra e a sede que ninguém ouve

A criança com comprometimento neurológico grave tem osso ruim: densidade mineral óssea com escore z abaixo de menos dois em mais de setenta por cento, e incidência anual de fratura de quatro por cento. O déficit não é homogêneo — é muito mais profundo no fêmur distal do que na coluna lombar, e é no fêmur distal que a fratura acontece.

Isso muda o exame que se pede. A densitometria costuma ser feita em coluna lombar e quadril, e na criança com contratura de flexão de quadril sobra só a coluna; mas há dados mostrando que a densidade da coluna lombar não prediz o risco de fratura aqui, enquanto a do fêmur distal lateral se correlaciona com a história de fraturas. É esse o sítio recomendado para quem tem imobilização crônica.

Os determinantes se somam na mesma criança: pouca deambulação, dificuldade alimentar, fratura prévia, uso de anticonvulsivante e massa gorda baixa. O documento federal acrescenta um item que parece paradoxal e não é: entre os fatores de risco para fratura estão índices elevados de gordura corporal e o uso de gastrostomia. A gastrostomia não fragiliza o osso — ela marca a criança que já tinha disfunção motora oral grave e imobilidade, e ganho de gordura sem ganho de músculo não protege esqueleto nenhum.

As carências são frequentes e nomeadas: ferro, zinco, cobre, vitamina D, carnitina, folato e vitamina B doze, com prevalências de dez a cinquenta e cinco por cento. Os fatores associados dizem onde olhar: anticonvulsivante e pouca exposição solar. Daí a recomendação de incluir vitamina D, ferro, cálcio e fósforo na avaliação nutricional de rotina.

Falta o que menos se pergunta. A criança com comprometimento neurológico está sob risco de desidratação por motivos que se acumulam — não consegue comunicar sede, perde líquido por sialorreia e engole líquido fino com insegurança, que é justamente a consistência mais aspirada. A diretriz pede atenção explícita ao estado de hidratação, e o alerta vale em dobro quando se troca para fórmula de alta densidade calórica, que entrega mais energia em menos água.

O seguimento tem periodicidade escrita: antropometria pelo menos a cada seis meses e micronutrientes uma vez por ano. O documento federal manda acompanhar crescimento e estado nutricional na atenção básica, mas não fixa intervalo — e é a diretriz internacional que dá o número que se agenda na consulta.

04

O que se mede, o que acende e quem escreve

A tabela põe lado a lado os instrumentos que decidem nessa criança. As três primeiras linhas são consenso entre o documento federal e a diretriz internacional; a quarta e a quinta são onde eles divergem; as duas últimas são os relógios que disparam a mudança de via — e são relógios diferentes, porque medem coisas diferentes.

Três réguas para o mesmo relógio

Trinta minutos por refeição, três horas por dia e quatro a seis horas por dia estão no mesmo documento. Em cinco refeições diárias, viram duas horas e meia, três horas e quatro a seis horas — e a criança de quarenta e cinco minutos por refeição cruza uma linha e não cruza a outra.

O teto da sonda e o piso da gastrostomia

Nas duas tiragens a sonda vai até seis semanas. Na tiragem de 2014 a gastrostomia começa em seis semanas e os marcos se encontram; na de 2013 ela começa em 6 meses, e sobra a faixa hachurada — cerca de dezenove semanas em que o texto não autoriza continuar nem trocar.

A prega diz o que a balança não diz

Contratura e escoliose estragam a estatura, e todo índice que a usa no denominador herda o erro. Prega tricipital abaixo do percentil 10 fecha desnutrição sozinha; estatura, quando não pode ser medida, se estima por altura do joelho ou comprimento da tíbia.

Instrumentos, cortes e quem os escreve

O que se medeCorte que acendeQuem escreveO que muda
Prega cutânea tricipital (ou subescapular)Abaixo do percentil 10 para idade e sexoMinistério da Saúde (2014) e ESPGHAN (2017)Fecha desnutrição sozinha; é o índice que as duas réguas aceitam na criança que não fica em pé
Peso para a idadeEscore z abaixo de −2ESPGHAN (2017)Entra na lista de sinais de alerta, mas não é exigido: basta um dos cinco
Área de gordura ou de músculo do braçoAbaixo do percentil 10ESPGHAN (2017)Complementa a prega quando há dúvida — a gordura se acumula mais centralmente nessa criança
Estatura quando não pode ser medidaEstimativa por altura do joelho ou comprimento da tíbiaESPGHAN (2017); o documento federal não descreve a manobraRecupera a régua vertical sem depender de deitar a criança reta
Curva de crescimento específica de paralisia cerebralMinistério da Saúde apresenta como de interesse clínico; ESPGHAN não recomenda para identificar desnutriçãoServe para situar a criança entre pares; não serve como meta a atingir
Tempo total de alimentação por via oralAcima de 3 h/dia (recomendação numerada); 4 a 6 h/dia no corpo do texto; >30 min por refeição na literatura citadaESPGHAN (2017)Gatilho para considerar a via enteral — junto de suficiência, segurança e sofrimento
Duração prevista da via alternativa à oralAcima de 6 semanas (tiragem de 2014); acima de 6 meses (tiragem de 2013)Ministério da SaúdeGatilho para trocar a sonda pela gastrostomia; a sonda tem teto de 6 semanas nas duas tiragens

Onde a decisão muda de mão: da boca à sonda, e da sonda ao estoma

SituaçãoConduta recomendadaFonte
Função motora oral adequada, sem risco de aspiraçãoManter via oral; corrigir postura da cabeça e ajustar consistênciaMinistério da Saúde (2014)
Alimentação oral insegura ou ineficienteIniciar alimentação enteral por sonda, de preferência antes de instalar desnutriçãoESPGHAN (2017), sentença 25
Necessidade prevista de via alternativa acima de 6 semanasGastrostomia (preferencialmente endoscópica)Ministério da Saúde (2014); ESPGHAN sentença 23
Refluxo com aspiração, vômito refratário, ânsia ou distensãoVia jejunalESPGHAN (2017), sentença 24
Refluxo não controlado com terapia clínica otimizadaFundoplicatura, precedida de endoscopia com biópsiasESPGHAN (2017), sentenças 26 e 28
Instalação de gastrostomia endoscópicaNão associar procedimento antirrefluxo de rotinaESPGHAN (2017), sentença 27

Deglutição insegura, na definição operacional da diretriz internacional, exige duas coisas ao mesmo tempo: história de pneumonia aspirativa (tratada com antibiótico ou com internação) E evidência objetiva de aspiração ou penetração na videofluoroscopia com contraste. Penetração documentada sem pneumonia prévia não preenche o rótulo — e continua sendo motivo para indicar via enteral pelo critério de alimentação oral insegura ou ineficiente.

Os dois relógios da tabela não competem: o tempo de refeição decide se a boca ainda dá conta; a duração prevista da via alternativa decide qual dispositivo usar depois que a boca já não dá. Enunciado que mistura os dois costuma estar testando exatamente essa separação.

O documento federal não fixa periodicidade de reavaliação nutricional nem descreve medidas segmentares de estatura; quem dá o intervalo (antropometria a cada 6 meses, micronutrientes ao ano) e as manobras (altura do joelho, comprimento da tíbia) é a diretriz internacional.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

A curva de crescimento específica da paralisia cerebral serve para identificar desnutrição

Apresenta como material de interesse clínico

De interesse clínico para os profissionais que cuidam de crianças com paralisia cerebral com níveis avançados de déficit motor, são as muito recentemente publicadas curvas de referência de peso em crianças com paralisia cerebral, estratificadas de acordo com a gravidade funcional pelo GMFCS E & R e o uso ou não de tubos de alimentação.

Brasil. Ministério da Saúde. Diretrizes de Atenção à Pessoa com Paralisia Cerebral, 2014, item 7.1.6

Não recomenda para identificar desnutrição

ESPGHAN WG does not recommend the use of CP-specific growth charts to identify undernutrition.

ESPGHAN Guidelines, J Pediatr Gastroenterol Nutr 2017;65(2):242-264, sentença 3b

Na prova

A régua específica descreve a distribuição observada numa população que inclui as crianças desnutridas e as de pior sobrevida; usada como alvo, transforma desnutrição prevalente em normalidade estatística. Enunciado que descreve uma criança dentro da curva específica e com prega tricipital abaixo do percentil 10 está testando essa separação — o achado que decide é a prega. Enunciado que pede onde a criança se situa entre pares com o mesmo nível motor está trabalhando na leitura federal, e aí a curva específica é o instrumento certo. Recorte internacional costuma vir com a lista dos cinco sinais de alerta escrita por extenso.

O momento de indicar a sonda: antes ou depois de a desnutrição se instalar

Depois: a sonda responde ao estado nutricional já deteriorado

A colocação de tubos para alimentação é necessária em crianças desnutridas, mas não há melhora nos seus índices antropométricos com a ingestão de quantidades e composições adequadas por via oral.

Brasil. Ministério da Saúde. Diretrizes de Atenção à Pessoa com Paralisia Cerebral, 2014, subitem 7.1.6.1

Antes: o gatilho é funcional, não antropométrico

ESPGHAN WG recommends using enteral tube feeding in cases of unsafe or inefficient oral feeding, preferably before the development of undernutrition.

ESPGHAN Guidelines, J Pediatr Gastroenterol Nutr 2017;65(2):242-264, sentença 25

Na prova

Enunciado que entrega uma criança com deglutição insegura documentada, peso ainda preservado e a pergunta 'qual a conduta' está pedindo a leitura internacional: a via enteral entra pela insegurança da via oral, sem esperar o critério antropométrico. Enunciado que descreve desnutrição já instalada e falha da otimização oral converge nas duas leituras e não separa nada. A pista de recorte é o adjetivo: 'insegura ou ineficiente' é vocabulário da diretriz internacional; 'criança desnutrida' é vocabulário do documento federal.

O relógio que autoriza trocar a via: tempo de refeição ou duração prevista da sonda

Tempo diário gasto comendo pela boca

ESPGHAN WG recommends considering use of enteral feeding if total oral feeding time exceeds 3 hours per day.

ESPGHAN Guidelines, J Pediatr Gastroenterol Nutr 2017;65(2):242-264, sentença 20 (nível de evidência baixo, força fraca)

O mesmo documento, no corpo do texto, com outros dois números

Usually, total feeding time during the day of between 3 and 6 hours or >30 minutes per feed is considered as excessive. ESPGHAN defines a feeding time >4 to 6 h/day as one of the conditions for considering enteral nutrition support.

ESPGHAN Guidelines, J Pediatr Gastroenterol Nutr 2017;65(2):242-264, seção sobre alimentação oral

Duração prevista da via alternativa, não tempo de refeição

O procedimento de gastrostomia é recomendado diante da perspectiva da necessidade prolongada, acima de seis semanas, de uso de via alternativa à oral.

Brasil. Ministério da Saúde. Diretrizes de Atenção à Pessoa com Paralisia Cerebral, 2014, subitem 7.1.6.1

Na prova

As duas primeiras posições são o mesmo documento contra si mesmo, e a numerada é a que a diretriz assume: 3 horas por dia. A terceira mede outra coisa — quanto tempo o dispositivo vai ficar —, e por isso não compete com as outras duas: uma decide se a boca sai de cena, a outra decide qual dispositivo entra. Enunciado que dá o tempo de cada refeição e o número de refeições quer a multiplicação; enunciado que dá um prognóstico de dependência em semanas ou meses quer o limiar federal.

06

Caso resolvido

Menina de 5 anos com paralisia cerebral espástica bilateral, nível cinco na escala de função motora grossa, em uso de anticonvulsivante, acompanhada na unidade básica. A mãe conta que a criança nunca engasgou e que come bem, mas que cada refeição leva cerca de 50 minutos e que ela oferece cinco refeições por dia. Nos últimos doze meses houve duas internações por infecção respiratória tratadas com antibiótico. Não fica em pé; há contratura em flexão de quadris e joelhos e escoliose. O peso é de 13,2 kg, com escore z de peso para a idade de −1,8. A medida do comprimento é considerada não confiável pela equipe. A prega cutânea tricipital está no percentil 5 para idade e sexo. A videofluoroscopia da deglutição, solicitada na consulta anterior, mostrou penetração laríngea e aspiração com líquido fino, sem alteração com consistência espessada.
o que a ausência de engasgo vale aqui
Quase nada. Em crianças de nível quatro e cinco, noventa e nove por cento têm algum grau de disfagia, e o documento federal registra que o aspirador crônico dessensibiliza a laringe e deixa de tossir. Com duas internações respiratórias no ano e aspiração documentada com líquido fino, a ausência de tosse é achado esperado da doença avançada, não sinal de segurança.
ela é desnutrida
É. O peso para a idade em −1,8 não cruza o corte de −2, e a estatura não é confiável — mas basta um dos sinais de alerta, e a prega cutânea tricipital no percentil 5 está abaixo do percentil 10, que é o corte que o documento federal e a diretriz internacional compartilham. Ler só a balança teria deixado essa criança de fora.
a deglutição é insegura pela definição
Sim, e por dois critérios simultâneos: há evidência objetiva de aspiração na videofluoroscopia com contraste e há história de infecção respiratória tratada com antibiótico e internação. A definição operacional exige as duas coisas, e as duas estão presentes.
o relógio da refeição
Cinquenta minutos em cada uma das cinco refeições somam quatro horas e dez minutos por dia. Isso ultrapassa a recomendação numerada de três horas por dia e entra também na faixa de quatro a seis horas citada no corpo do documento — ou seja, aqui as três réguas concordam, e o tempo deixa de ser questão discutível.
via enteral, e qual dispositivo
Via enteral indicada: alimentação oral insegura e ineficiente, com desnutrição já presente. O dispositivo se decide pelo prognóstico de dependência, não pela gravidade do dia: aspiração de líquido fino sem correção com espessamento, em criança de nível cinco, não é quadro de semanas. Prevista necessidade acima de seis semanas, indica-se gastrostomia, preferencialmente endoscópica, sem procedimento antirrefluxo associado no mesmo tempo.
o que corre pela sonda
Fórmula polimérica padrão, com fibra, adequada à idade, na densidade de uma quilocaloria por mililitro, com estimativa calórica pelas referências da criança com desenvolvimento típico e ajuste pelo peso e pela massa gorda no seguimento. Se houver má tolerância a volume, densidade de uma quilocaloria e meia por mililitro, com vigilância redobrada da hidratação. Combinação de infusão contínua noturna com bolus diurno se a necessidade calórica for alta.
o que se pede e o que se agenda
Vitamina D, ferro, cálcio e fósforo na avaliação nutricional, com atenção ao anticonvulsivante em uso. Densitometria de fêmur distal lateral, e não de coluna lombar isolada, pela imobilização crônica. Antropometria com prega cutânea pelo menos a cada seis meses e micronutrientes uma vez ao ano. E a conversa com a família sobre a gastrostomia começa nesta consulta, com a mãe dentro da decisão.
o que não se promete
Que as pneumonias acabem. A gastrostomia pode reduzir aspiração e agravar refluxo, e o efeito de somar cirurgia antirrefluxo a ela é pouco conhecido. O que se promete e se mede é ganho de peso, melhora das condições respiratórias e neurológicas e devolução de quatro horas do dia para a criança e para a família.
07

Agora feche você

Menino de 3 anos com encefalopatia crônica não progressiva, nível motor quatro, acompanhado na atenção primária. Aceita bem alimentos pastosos, tosse ocasionalmente com água, e a mãe descreve refeições de cerca de 25 minutos, quatro vezes ao dia. Nunca teve pneumonia nem internação por infecção respiratória. Peso para a idade em escore z de −1,2; prega cutânea tricipital no percentil 25; ganho de peso mantido nos últimos seis meses. Uma videofluoroscopia feita há um mês, pedida por causa da tosse com líquidos, mostrou penetração laríngea com líquido fino, sem penetração com líquido espessado e sem aspiração em nenhuma consistência.
1
Diga se esta criança preenche algum dos cinco sinais de alerta de desnutrição e justifique com os cortes, um a um.
2
Diga se a deglutição é insegura pela definição operacional da diretriz internacional, e explique qual dos dois critérios está presente e qual não está.
3
Faça a conta do tempo de refeição e diga em que lado de cada uma das três réguas do documento internacional esta criança cai.
4
Decida a conduta alimentar de agora, escolhendo entre manter a via oral com ajustes, iniciar sonda ou indicar gastrostomia — e diga o que faria mudar essa decisão na próxima consulta.
5
Diga o que se agenda: quais dosagens, qual sítio de densitometria se houver indicação e com que periodicidade a antropometria se repete.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Tranquilizar-se porque a criança não engasga Numa população em que quase todas as crianças de nível motor quatro ou cinco têm algum grau de disfagia, a ausência de queixa quase não desloca a probabilidade. Pior: o documento federal registra que o aspirador crônico pode dessensibilizar a laringe e parar de tossir. Ausência de tosse, nessa criança, pode ser evolução da doença e não a sua ausência.
  2. 2Usar a curva específica de paralisia cerebral como meta a atingir Ela descreve como essas crianças de fato crescem, incluindo as desnutridas e as de pior sobrevida. Serve para situar a criança entre pares; quem identifica desnutrição são os sinais de alerta, e a prega tricipital abaixo do percentil 10 fecha o diagnóstico mesmo com a criança na mediana da curva específica.
  3. 3Esperar a antropometria despencar para propor a sonda A recomendação internacional coloca a via enteral na alimentação oral insegura ou ineficiente, de preferência antes de a desnutrição se instalar. Em criança com reserva pequena, esperar o critério antropométrico é gastar o que resta antes de agir — e a conversa difícil com a família não é indicação clínica.
  4. 4Aplicar o limiar de seis meses para indicar gastrostomia Esse número está na tiragem anterior do documento federal e não se sustenta dentro do próprio parágrafo, que limita a sonda a seis semanas nas duas tiragens. A tiragem de 2014, com trinta mil exemplares e registro completo, traz seis semanas — e é a leitura em que as duas frases se encaixam.
  5. 5Associar fundoplicatura à gastrostomia de rotina A recomendação é explícita em não realizar procedimento antirrefluxo no mesmo tempo da gastrostomia, por morbidade acrescida. A fundoplicatura entra depois, se o tratamento clínico otimizado falhar, precedida de endoscopia com biópsias. Que 8% a 25% acabem precisando não autoriza operar todos de uma vez.
  6. 6Prometer à família que a gastrostomia acaba com as pneumonias O que os documentos atribuem ao procedimento é ganho de peso, melhora das condições respiratórias e neurológicas e redução do tempo gasto alimentando a criança. A própria diretriz avisa que a gastrostomia pode reduzir aspiração e agravar o refluxo, e que o efeito de somar cirurgia antirrefluxo a ela é pouco conhecido.
  7. 7Manter a fórmula de recuperação depois que a criança recuperou Na criança imóvel, terminada a reabilitação nutricional, a recomendação vira fórmula pobre em gordura e calorias, rica em fibra e completa em micronutrientes. Passar da desnutrição para o excesso de gordura numa criança que não anda é iatrogenia previsível — e piora o osso, não melhora.
  8. 8Pedir densitometria de coluna lombar e sossegar com o resultado A densidade da coluna lombar não prediz risco de fratura nessa população; o sítio que se correlaciona com história de fratura é o fêmur distal lateral, recomendado para quem tem imobilização crônica. Coluna normal em criança que não anda não descarta osso frágil.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

A recomendação numerada da diretriz internacional manda considerar alimentação enteral quando o tempo total de alimentação por via oral ultrapassa três horas por dia, com nível de evidência baixo e força fraca declarados. O corpo do mesmo documento cita outros números — tempo diário entre três e seis horas, mais de trinta minutos por refeição, e uma definição de quatro a seis horas por dia —, o que exige saber qual das frases o documento assume como sua. A criança do enunciado soma cerca de três horas e quarenta minutos, cruzando a recomendação numerada. O tempo, porém, é uma de quatro condições: a via oral só se mantém se for nutricionalmente suficiente, segura, sem sofrimento e não prolongada.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

Quer treinar mais nesse tema? Estas questões vêm do nosso banco — lá tem milhares, com simulado, maratona e estatística de acerto por área.

Criar conta grátis e continuar →
10

Plano de revisão

em 7 dias

Escreva de memória os cinco sinais de alerta de desnutrição da diretriz internacional, com os cortes, e marque qual deles o documento federal também adota. Em seguida escreva os dois relógios lado a lado — tempo de refeição e duração prevista da via alternativa — e diga o que cada um decide. Termine escrevendo a definição operacional de deglutição insegura e apontando qual dos dois critérios dela é o evento que se queria evitar.

em 30 dias

Pegue uma criança de quatro anos com paralisia cerebral de nível motor cinco, sem pneumonia registrada, com penetração laríngea na videofluoroscopia, peso para a idade em escore z de menos um e meio, prega tricipital no percentil 5, e refeições de quarenta minutos, cinco vezes ao dia. Decida em voz alta: ela é desnutrida? A deglutição é insegura pela definição? A via enteral está indicada, e por qual critério? Se estiver, sonda ou gastrostomia, e com que número na mão? Depois refaça a mesma decisão trocando a prega para o percentil 40 e as refeições para vinte minutos, e diga o que muda e o que não muda.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Você atende na unidade básica uma criança de 5 anos com paralisia cerebral de nível motor cinco. A mãe diz que ela nunca engasga, mas que cada refeição leva quase uma hora, cinco vezes ao dia, e que houve duas internações por infecção respiratória no último ano. A criança não fica em pé, tem escoliose e contraturas, e o comprimento não é confiável. Conduza a consulta: reconheça o estado nutricional com os instrumentos que funcionam nessa criança, decida se a via oral ainda é segura, escolha o dispositivo se for o caso e converse com a mãe sobre o que a mudança de via promete e o que não promete. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Nutrição da criança com paralisia cerebral – A via alimentar na paralisia cerebral: quando a boca deixa de ser segura — Preparatório para provas | OsceLabs