Cirurgia Geral › Urgência e Emergência Cirúrgica
Diverticulite aguda
A prova raramente pergunta o diagnóstico — ele já vem na tomografia do enunciado. O que ela cobra é a decisão: quem vai para casa, quem interna, quem drena e quem opera.
WSES — 2020 update of the guidelines for the management of acute colonic diverticulitis in the emergency setting (World J Emerg Surg, 2020)
SBCP — Bustamante-Lopez LA, Campos FG. Avanços e mudanças no tratamento da diverticulite (Tópicos em Evidência, Sociedade Brasileira de Coloproctologia)
ASCRS — Clinical Practice Guidelines for the Treatment of Left-Sided Colonic Diverticulitis (Dis Colon Rectum, 2020;63(6):728-747)
Sabiston — Tratado de Cirurgia; Schwartz — Princípios de Cirurgia
Responda antes de ler
Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.
Paciente com diverticulite aguda não complicada será tratado em regime ambulatorial e há indicação de antibiótico. Qual esquema oral é adequado quanto ao espectro?
Como esse tema cai
Diverticulite aparece com regularidade nas provas de acesso direto, e quase sempre no mesmo formato: a tomografia já vem descrita no enunciado. Você não precisa adivinhar o diagnóstico — precisa traduzir o achado tomográfico em estágio, e o estágio em conduta.
O cenário costuma ser pronto-socorro, e a pergunta é operacional: internar ou mandar para casa, antibiótico ou dreno, dreno ou bisturi. Quem decorou a lista de estágios sem saber o que fazer com cada um perde a questão mesmo tendo estudado o tema.
Existe um detalhe que vale saber desde já: este é um tema em que as diretrizes andaram mais rápido que as bancas. Em dois pontos — antibiótico na doença não complicada e colonoscopia de seguimento — o que a literatura recomenda hoje não é o que a maioria das provas ainda cobra. O capítulo marca os dois.
O que muda decisão
O divertículo do cólon é falso — e é por isso que ele perfura
O divertículo colônico não contém todas as camadas da parede. Ele é um pseudodivertículo: apenas mucosa e submucosa herniando para fora, através do ponto exato onde a vasa recta atravessa a camada muscular. É um ponto de fragilidade anatômica, não uma doença da mucosa.
Duas consequências saem direto daí. A primeira: como falta camada muscular no saco, a inflamação evolui para microperfuração, e não para abscesso de mucosa. A parede do divertículo tem duas camadas finas, não cinco. A segunda: os divertículos se alinham em duas fileiras entre as tênias, porque é ali que os vasos penetram — a distribuição segue a vascularização, não é aleatória.
Vale separar três termos que a banca embaralha de propósito. Diverticulose é a presença dos divertículos, achado comum e assintomático que cresce com a idade. Doença diverticular é quando eles dão sintoma. Diverticulite é a inflamação com perfuração. A maioria das pessoas com diverticulose nunca terá diverticulite.

Por que o sigmoide
O sigmoide tem o menor diâmetro do cólon e, pela lei de Laplace, a maior pressão intraluminal para a mesma tensão de parede. No Ocidente, a esmagadora maioria das diverticulites é sigmoidiana.
Em populações asiáticas o padrão se inverte, com predomínio de cólon direito — a ponto de a atualização de 2020 da WSES ter ganhado uma seção própria para diverticulite de cólon direito, justamente por ser mais prevalente que a esquerda em algumas regiões do mundo. Muda também o diferencial: diverticulite direita imita apendicite, e às vezes o diagnóstico só sai na tomografia.
Diverticulite não é infecção primária — é perfuração contida
A sequência é mecânica: fezes obstruem o colo estreito do divertículo, a pressão sobe dentro do saco, a parede fina isquemia e perfura. O que acontece depois da perfuração é o que define tudo — e é isso que as classificações medem.
Se o omento e as alças vizinhas bloqueiam a perfuração, forma-se um flegmão. Se a coleção se organiza, vira abscesso — pericólico se pequeno e adjacente, pélvico ou a distância se maior. Se o bloqueio falha, o conteúdo cai livre na cavidade: purulento quando a perfuração já se fechou, fecal quando o orifício segue aberto.
Esse ponto tem consequência prática, e a SBCP a destaca: o processo é, no início, mais inflamatório do que infeccioso. É daí que nasce toda a discussão sobre antibiótico que vem adiante.
Entender a sequência resolve a maior parte das questões sem decorar tabela. A pergunta que o enunciado sempre faz, disfarçada, é uma só: o quanto essa perfuração foi contida?

Hinchey é a régua da prova — mas não é a única régua
A classificação de Hinchey nasceu cirúrgica, descrita a partir do achado intraoperatório, e a versão modificada incorporou o que a tomografia enxerga. É ela que as bancas brasileiras cobram, e é por ela que este capítulo organiza a conduta.
Vale saber, porém, que a WSES 2020 é explícita ao dizer que nenhum sistema de classificação demonstrou superioridade sobre os demais, e propõe uma classificação própria, tomográfica, que vai de 0 (não complicada: divertículos, espessamento de parede e infiltração da gordura pericólica) até 4 (líquido difuso com gás a distância), passando por estágios que separam abscesso de até 4 cm dos maiores.
Para a prova, saiba Hinchey. Para não se assustar quando um enunciado ou artigo usar outra régua, saiba que ela existe e que a divisão de fundo é sempre a mesma: flegmão, abscesso pequeno, abscesso grande, peritonite purulenta, peritonite fecal.
Antibioticoterapia: o que cobrir — e a pergunta de se deve cobrir
Comece pelo espectro, que é a parte estável. O alvo é a flora colônica, com dois componentes que nenhum esquema pode deixar de fora: Gram-negativos entéricos, com a Escherichia coli à frente, e anaeróbios, com o Bacteroides fragilis à frente. Alternativa de prova que cubra só um dos dois está errada, e esse é um distrator recorrente.
Na prática, isso significa ciprofloxacino associado a metronidazol ou amoxicilina com clavulanato por via oral no paciente ambulatorial; ceftriaxona com metronidazol por via endovenosa no internado; e escalonamento para piperacilina-tazobactam ou carbapenêmico nos quadros graves ou com exposição prévia a antibiótico. Quando o antibiótico é indicado e o paciente tolera, a WSES recomenda preferir a via oral — recomendação forte, evidência moderada.
Agora a parte que mudou. A WSES 2020 recomenda NÃO usar antibiótico na diverticulite não complicada em pacientes imunocompetentes e sem sinais de inflamação sistêmica. E não é uma sugestão tímida: é recomendação forte com evidência de alta qualidade, sustentada por ensaios randomizados — o de Chabok, com 623 pacientes, não encontrou benefício do antibiótico, e o DIABOLO chegou ao mesmo lugar. O raciocínio é o da seção anterior: no início, o processo é inflamatório antes de ser infeccioso.
E aqui mora a armadilha de prova. A SBCP registra que, na prática brasileira, a antibioticoterapia permanece como padrão na maioria dos contextos, e as bancas seguem essa linha. Ou seja: na vinheta de prova, a alternativa esperada continua sendo tratar com antibiótico. Saiba a recomendação, saiba que ela é forte, e saiba que ela ainda não é o que se cobra — as três coisas ao mesmo tempo.
Sobre duração, um aviso honesto: a WSES não fixa um número de dias. O que existe são os protocolos dos ensaios — o DIABOLO usou dez dias de amoxicilina-clavulanato endovenosa com troca para via oral após 48 horas — e uma tendência geral a cursos mais curtos. Desconfie de material que afirma um número exato como se fosse consenso.
Se em 48 a 72 horas não houver melhora, o passo não é trocar antibiótico às cegas: é repetir a imagem. Falha de tratamento clínico quase sempre significa que existe uma coleção que não estava lá antes, ou que já estava e foi subestimada.
Complicações — o que procurar quando o quadro não fecha
O abscesso é a complicação mais comum e já está dentro do estagiamento. As outras aparecem depois, e cada uma tem um sinal que a denuncia.
A fístula é a que mais cai. A colovesical é a mais frequente da doença diverticular: o sigmoide inflamado adere à cúpula da bexiga e abre um trajeto entre as duas luzes. O paciente relata pneumatúria e fecalúria, e costuma ter infecções urinárias de repetição que não cedem. Predomina em homens, porque na mulher o útero se interpõe entre as duas estruturas — em mulher com fístula colovesical, procure histerectomia prévia na história. A colovaginal vem em seguida, justamente nas histerectomizadas, e se manifesta como saída de fezes ou gases pela vagina.
A estenose é consequência de episódios repetidos: a fibrose vai estreitando a luz até dar quadro obstrutivo, em geral parcial e de instalação lenta. Aqui existe uma armadilha séria — estenose por diverticulite e estenose por neoplasia se parecem na imagem e na clínica, e a investigação endoscópica não é opcional.
Um ponto que a banca adora e o aluno confunde: a hemorragia diverticular é uma entidade separada, não é complicação da diverticulite. O sangramento vem da vasa recta erodida no colo do divertículo, é indolor, volumoso e autolimitado na maioria dos casos — e tem predileção pelo cólon direito, ao contrário da diverticulite. Diverticulite que sangra muito deve levantar suspeita de outro diagnóstico.
Depois que o agudo passa: colonoscopia e cirurgia eletiva
Este é o segundo ponto em que a diretriz e a prova divergem, e vale ler com atenção.
Após episódio COMPLICADO — abscesso, por exemplo — a colonoscopia de intervalo está indicada, em torno de 4 a 6 semanas pela WSES e cerca de 6 semanas pela ASCRS. O objetivo é excluir neoplasia colorretal, que pode se apresentar exatamente como diverticulite complicada. O prazo existe por segurança: insuflar sobre parede recém-inflamada é o que se quer evitar.
Após episódio NÃO complicado, a WSES não recomenda colonoscopia de rotina — recomendação de força fraca, evidência moderada. O motivo é o número: o risco de malignidade após diverticulite não complicada é de cerca de 1,16%, próximo demais do risco da população geral para justificar endoscopia em todo mundo. A conduta passa a ser o rastreamento habitual por idade, com colonoscopia reservada a quem tem achado atípico na imagem, sintoma de alarme como afilamento de fezes ou sangramento, ou recuperação clínica fora do esperado.
Material mais antigo — e boa parte das bancas — ainda ensina colonoscopia para todos, em 6 a 8 semanas. Numa prova, essa costuma ser a alternativa marcada como correta. Vale ter os dois na cabeça e escolher pelo que o enunciado sinaliza.
Sobre a sigmoidectomia eletiva, a mudança é mais consolidada e já chegou às provas: a decisão é individualizada, pelos fatores do paciente, e não pela contagem de episódios. A regra antiga de operar após o segundo episódio foi abandonada. Pesam a gravidade dos quadros, sintomas persistentes, complicações como fístula ou estenose e, com destaque na WSES, a imunossupressão. Os números ajudam a entender por que a régua mudou: a recorrência após um episódio não complicado fica entre 1,7% e 11,2% em cinco anos, e menos de 5% das recorrências vêm complicadas.
Do achado à conduta
Antes de estagiar, o caminho até a tomografia:
- 1Dor em fossa ilíaca esquerda, febre e leucocitose em adulto — suspeita clínica.
- 2Tomografia de abdome e pelve com contraste é o exame de escolha (WSES 2020): sensibilidade em torno de 95% e especificidade 96%, contra 90% e 90% da ultrassonografia. Confirma, estagia e descarta diferenciais na mesma aquisição.
- 3Ultrassonografia é aceitável como primeiro passo em serviço com operador experiente, dentro de abordagem escalonada — mas não substitui a tomografia na dúvida.
- 4Colonoscopia e enema opaco não entram na fase aguda: insuflar sobre parede recém-perfurada converte microperfuração em perfuração livre.
- 5Classificar e tratar pelo estágio.
0
Diverticulite não complicada. Espessamento parietal e infiltração da gordura, sem coleção.
Ia
Flegmão pericólico. Inflamação difusa na gordura, sem abscesso organizado.
Ib
Abscesso pericólico, adjacente ao segmento acometido.
II
Abscesso pélvico, retroperitoneal ou a distância.
III
Peritonite purulenta generalizada. Pus livre na cavidade, sem fezes.
IV
Peritonite fecal generalizada. Orifício aberto, fezes livres na cavidade.
| Estágio | O que a TC mostra | Conduta | Base |
|---|---|---|---|
| 0 / Ia | Espessamento parietal e infiltração da gordura, sem coleção | Tratamento clínico. Ambulatorial em selecionados — sem comorbidade significativa, tolerando líquidos por via oral, com reavaliação em 7 dias. A taxa de falha do manejo ambulatorial é de cerca de 4,3%. | WSES 2B |
| Ib pequeno | Abscesso de até 4 a 5 cm | Antibiótico, sem dreno — tentativa inicial de tratamento não operatório. Cerca de 20% falham e acabam precisando de drenagem. | WSES 2C |
| Ib grande / II | Abscesso de 4 a 5 cm ou maior, pélvico ou a distância | Drenagem percutânea combinada com antibiótico. Evita a cirurgia de urgência e permite operar depois, em condições melhores, se necessário. | WSES 2C |
| III | Pneumoperitônio e líquido livre purulento | Cirurgia. Lavagem laparoscópica NÃO é primeira linha — as meta-análises mostram mais reoperação. Paciente crítico ou com múltiplas comorbidades: Hartmann. Estável e sem comorbidade: ressecção com anastomose primária, com ou sem ileostomia. | WSES 2A / 2B |
| IV | Pneumoperitônio volumoso e líquido livre com conteúdo fecal | Cirurgia de urgência. Contaminação fecal maciça com instabilidade é o cenário clássico do Hartmann. | WSES 2B |
Sobre a escolha entre Hartmann e anastomose primária no paciente estável, o ensaio LADIES deu o número que mudou a conversa: sobrevida livre de estoma em 12 meses de 94,6% com anastomose primária contra 71,7% com Hartmann. Isso não transforma o Hartmann em erro — ele segue indicado no paciente crítico —, mas explica por que a anastomose ganhou espaço em quem chega estável.
Onde as fontes divergem
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.
A diretriz internacional diz
Não usar antibiótico em pacientes imunocompetentes e sem sinais de inflamação sistêmica. É recomendação FORTE, com evidência de ALTA qualidade — não é sugestão. Sustenta-se em ensaios randomizados: o de Chabok, com 623 pacientes, não encontrou benefício, e o DIABOLO chegou ao mesmo resultado. O raciocínio é fisiopatológico: no início, o processo é mais inflamatório que infeccioso.
WSES 2020 — recomendação 1A (forte, evidência alta)
A prática brasileira mantém
A antibioticoterapia segue como padrão na maioria dos contextos nacionais, e é o que as bancas cobram. Não é atraso puro: pesa a heterogeneidade de acesso a reavaliação em 7 dias e a tomografia de controle, que é o que torna seguro tratar sem antibiótico.
SBCP — Bustamante-Lopez & Campos, Tópicos em Evidência
Na prova
O desenho do enunciado entrega o recorte. Quando cita nominalmente a WSES ou constrói o paciente exato da recomendação — imunocompetente, sem sinais de inflamação sistêmica — e oferece a omissão do antibiótico entre as alternativas, a questão está no corpo internacional, que traz recomendação forte com evidência alta (ensaios de Chabok e DIABOLO). Enunciado genérico de pronto-socorro, sem esse recorte, foi escrito dentro do padrão nacional de antibioticoterapia — e a distância brasileira não é atraso puro: conduzir sem antibiótico pressupõe reavaliação garantida em 7 dias e tomografia de controle, estrutura que não está disponível em qualquer serviço. As alternativas também denunciam o mundo da questão: se 'conduzir sem antibiótico' nem aparece, ela vive no ensino clássico; se aparece qualificada ('paciente selecionado, imunocompetente'), o examinador conhece a diretriz e provavelmente está testando justamente essa seleção.
A diretriz internacional diz
Não realizar colonoscopia de rotina após diverticulite não complicada. O risco de neoplasia colorretal nesse cenário é de cerca de 1,16%, próximo demais do risco da população geral para justificar endoscopia em todos. Fica o rastreamento habitual por idade, com colonoscopia reservada a achado atípico na imagem, sintoma de alarme ou recuperação fora do esperado.
WSES 2020 — recomendação fraca, evidência moderada (2B)
O material clássico e as bancas mantêm
Colonoscopia para todos os episódios, em 6 a 8 semanas, sem distinguir complicado de não complicado. É o que a maioria dos livros e provas ainda ensina.
Prática consolidada anterior a 2020; enunciados de banca
Na prova
Separe o cenário antes de tudo: no episódio COMPLICADO — abscesso, por exemplo — não há divergência, e a colonoscopia está indicada em 4 a 6 semanas pela WSES e cerca de 6 semanas pela ASCRS. A divergência vive só no NÃO complicado, e aí a idade do material da questão denuncia o recorte: enunciado apoiado no ensino clássico trabalha colonoscopia para todos em 6 a 8 semanas; questão que cite a WSES 2020, traga o risco de neoplasia de cerca de 1,16% ou frise 'TC típica e boa evolução' está no corpo novo, que reserva o exame a achado atípico na imagem, sintoma de alarme ou recuperação fora do esperado, mantendo o rastreamento habitual por idade. As alternativas ajudam: uma opção condicional ('colonoscopia apenas se...') só existe no mundo pós-2020; se todas as opções apenas variam o prazo do exame, a questão foi escrita no mundo clássico.
Caso resolvido
- achado
- Existe coleção organizada, não apenas infiltração da gordura. Isso já tira o caso do território clínico puro.
- localização
- A coleção é pélvica, não pericólica adjacente — desloca de Ib para II.
- tamanho
- Seis centímetros ultrapassa o limiar de 4 a 5 cm em que a WSES admite tentar antibiótico isolado.
- exame
- A irritação peritoneal é localizada. Não há peritonite difusa nem pneumoperitônio, então não é III nem IV.
- estágio
- Hinchey II.
- conduta
- Internação, antibioticoterapia endovenosa cobrindo Gram-negativos e anaeróbios, e drenagem percutânea guiada por tomografia. Cirurgia de urgência não está indicada num paciente estável cuja coleção é drenável.
- seguimento
- Episódio complicado — aqui a colonoscopia de intervalo ESTÁ indicada, em 4 a 6 semanas, para excluir neoplasia. E a sigmoidectomia eletiva entra em discussão, pesando os fatores dele e não a contagem de episódios.
Agora feche você
- achado
- Pneumoperitônio volumoso com líquido livre de conteúdo fecal — o bloqueio da perfuração falhou por completo.
- exame
- Peritonite difusa com instabilidade hemodinâmica.
- estágio
- …
- conduta
- …
Onde a banca derruba
- 1Pedir colonoscopia na fase aguda É o erro mais caro do tema. A insuflação sobre uma parede recém-perfurada converte microperfuração em perfuração livre. Depois do episódio, sim — na fase aguda, nunca.
- 2Achar que colonoscopia de seguimento é sempre obrigatória Depois de episódio complicado, está indicada, em 4 a 6 semanas. Depois de não complicado, a WSES não recomenda de rotina — o risco de malignidade é de cerca de 1,16%. Muitas bancas ainda cobram 'sempre, em 6 a 8 semanas': leia o que o enunciado sinaliza.
- 3Drenar abscesso pequeno Coleção de até 4 a 5 cm merece tentativa de tratamento não operatório com antibiótico. O distrator 'drenagem percutânea' parece sofisticado e está errado — ainda que cerca de 20% desses casos acabem precisando de dreno depois.
- 4Esquema antibiótico que cobre só metade da flora Toda alternativa precisa cobrir Gram-negativo entérico e anaeróbio. Quinolona isolada ou cefalosporina isolada deixam o Bacteroides descoberto.
- 5Oferecer lavagem laparoscópica como primeira linha na peritonite purulenta Ela chegou a ser proposta para Hinchey III, mas a WSES 2020 não a considera primeira linha: as meta-análises mostraram mais necessidade de reoperação.
- 6Indicar cirurgia eletiva pela contagem de episódios 'Após o segundo episódio, sigmoidectomia' era a regra antiga. A decisão é pelos fatores do paciente — gravidade, sintomas persistentes, fístula, estenose, imunossupressão.
- 7Tratar III e IV como a mesma coisa Purulenta e fecal separam quem pode receber anastomose primária de quem sai com Hartmann.
- 8Ignorar o imunossuprimido Diabético, transplantado, em corticoide ou em quimioterapia pode ter perfuração livre com abdome pouco impressionante e febre discreta. O exame físico engana, e a tomografia decide.
- 9Confundir hemorragia diverticular com diverticulite São entidades diferentes. A hemorragia é indolor, volumosa e predomina no cólon direito; a diverticulite dói e predomina no sigmoide.
O alvo é a flora colônica, que exige cobertura simultânea de Gram-negativos entéricos (Escherichia coli à frente) e anaeróbios (Bacteroides fragilis à frente). Ciprofloxacino cobre o Gram-negativo mas deixa o anaeróbio descoberto, então precisa do metronidazol ao lado — a monoterapia equivalente seria amoxicilina com clavulanato. Cefalexina (B) não tem espectro adequado, e nitrofurantoína (E) concentra-se na urina e não trata infecção intra-abdominal. Quando o paciente tolera, a via oral é a preferida pela WSES 2020.
Recuperação
Responda as 7 e o gabarito abre no fim, com o comentário de cada uma.
Homem de 59 anos refere, há três semanas, saída de ar e material fecaloide pela urina, com episódios repetidos de infecção urinária. Relata quadro de dor em fossa ilíaca esquerda com febre há dois meses, tratado clinicamente. Qual a principal hipótese?
Homem de 59 anos refere, há três semanas, saída de ar e material fecaloide pela urina, com episódios repetidos de infecção urinária. Relata quadro de dor em fossa ilíaca esquerda com febre há dois meses, tratado clinicamente. Qual a principal hipótese?
Pneumatúria e fecalúria após episódio de diverticulite formam o quadro clássico de fístula colovesical — a fístula mais comum da doença diverticular, entre sigmoide e cúpula vesical. É mais frequente em homens porque, na mulher, o útero se interpõe entre as duas estruturas; em mulher com esse quadro, procure histerectomia prévia na história.
Mulher de 58 anos procura o pronto-socorro com dor em fossa ilíaca esquerda há três dias, de piora progressiva, associada a febre aferida de 38,2 °C e alteração do hábito intestinal. Ao exame: abdome doloroso à palpação profunda em quadrante inferior esquerdo, sem descompressão brusca dolorosa e sem defesa. PA 128 × 78 mmHg, FC 92 bpm. Leucócitos 14.500/mm³. A tomografia de abdome com contraste mostra espessamento da parede do sigmoide e densificação da gordura pericólica, sem coleções organizadas e sem pneumoperitônio. A paciente aceita dieta por via oral, não tem comorbidade relevante e mora acompanhada. Qual a conduta?
A tomografia descreve espessamento parietal e infiltração da gordura sem coleção e sem pneumoperitônio: diverticulite não complicada. A paciente está estável, sem irritação peritoneal, tolera via oral, não tem comorbidade relevante e tem suporte em casa — preenche os critérios de manejo ambulatorial descritos pela WSES 2020, com reavaliação em 7 dias e taxa de falha em torno de 4,3%. Colonoscopia agora (B) é o erro clássico: insuflar sobre parede recém-perfurada converte microperfuração em perfuração livre. Drenagem (D) exige coleção, que não existe aqui. Cirurgia de urgência (E) exige peritonite. E ressecção na mesma internação (A) transforma um quadro que resolve clinicamente em uma laparotomia.
Segundo a atualização de 2020 das diretrizes da WSES, qual a recomendação sobre antibioticoterapia na diverticulite aguda NÃO complicada?
A WSES 2020 recomenda não usar antibiótico na diverticulite não complicada em imunocompetentes sem inflamação sistêmica — recomendação forte com evidência de alta qualidade, sustentada por ensaios randomizados (Chabok, com 623 pacientes, e DIABOLO). A lógica é que, no início, o processo é mais inflamatório que infeccioso. Quando o antibiótico é indicado e o paciente tolera, a própria diretriz prefere a via oral, o que derruba a alternativa C. Atenção prática: na prova brasileira a alternativa esperada com frequência ainda é tratar com antibiótico, alinhada ao que a SBCP descreve como padrão nacional — vale saber a recomendação e saber que ela ainda não é o que se cobra na maioria das bancas.
Paciente de 68 anos internada por diverticulite aguda apresenta, ao terceiro dia de antibioticoterapia endovenosa, manutenção da febre e piora da dor. Nova tomografia demonstra coleção pericólica de 3 cm, sem líquido livre e sem pneumoperitônio. Encontra-se estável, com abdome doloroso localizadamente e sem peritonite difusa. Qual a conduta?
Coleção de 3 cm está abaixo do limiar de 4 a 5 cm em que a WSES indica drenagem percutânea; a recomendação nesse tamanho é tentativa inicial de tratamento não operatório com antibiótico, e a paciente segue estável e sem peritonite. Vale saber que cerca de 20% desses casos acabam falhando e precisando de dreno — o que justifica reavaliar com imagem, e não simplesmente esperar. Cirurgia (A, E) exige peritonite ou instabilidade. A lavagem laparoscópica (B) não é primeira linha nem se aplica a abscesso pequeno. Colonoscopia na fase aguda (D) é contraindicada.
Sobre a anatomia do divertículo colônico, assinale a alternativa correta:
O divertículo colônico é falso: apenas mucosa e submucosa escapam pelo ponto de fraqueza onde a vasa recta atravessa a camada muscular, o que explica a parede fina e a tendência à perfuração. A distribuição segue os vasos, em duas fileiras entre as tênias, então E é falsa. O sigmoide predomina por ter o menor diâmetro e a maior pressão intraluminal, e não o ceco (C).
Mulher de 63 anos chega ao pronto-socorro com dor abdominal difusa há oito horas. PA 92 × 58 mmHg, FC 118 bpm, abdome com descompressão brusca dolorosa generalizada. Tomografia: pneumoperitônio e líquido livre difuso de aspecto purulento, sem conteúdo fecal identificável, junto a sigmoide espessado com divertículos. Qual o estágio e a conduta inicial?
Peritonite generalizada com líquido purulento livre, sem conteúdo fecal, define Hinchey III. A conduta é ressuscitação seguida de cirurgia. Nesta paciente hipotensa e taquicárdica, o Hartmann é a escolha mais segura — a WSES reserva a anastomose primária para o paciente clinicamente estável e sem comorbidade. A lavagem laparoscópica, que já foi proposta para esse cenário, não é considerada primeira linha desde 2020. Drenagem percutânea (A) não trata peritonite difusa.
Paciente de 61 anos tratado por diverticulite aguda complicada com abscesso pélvico, drenado por via percutânea, recebe alta assintomático. Não possui colonoscopia recente. Qual a conduta de seguimento mais adequada?
Após episódio COMPLICADO, a colonoscopia de intervalo está indicada — em torno de 4 a 6 semanas pela WSES, cerca de 6 semanas pela ASCRS — porque neoplasia colorretal pode se apresentar exatamente como diverticulite complicada. O prazo evita insuflar sobre parede recém-inflamada, o que derruba B. Repare no contraste: após episódio NÃO complicado a WSES não recomenda colonoscopia de rotina, já que o risco de malignidade fica em torno de 1,16%. A sigmoidectomia eletiva pode ser discutida, mas depois da investigação endoscópica e pelos fatores do paciente, nunca no lugar dela (E).
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em 7 dias
A régua de Hinchey inteira, de 0 a IV, e os dois limiares que decidem: 4 a 5 cm para drenar, peritonite difusa para operar. Junto, o par que todo esquema antibiótico precisa cobrir.
em 30 dias
Os dois pontos em que diretriz e banca divergem — antibiótico na não complicada e colonoscopia de seguimento — mais as complicações tardias: fístula colovesical, estenose e a separação entre diverticulite e hemorragia diverticular.
Agora atenda
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