Cirurgia GeralUrgência e Emergência Cirúrgica

Apendicite aguda

A banca raramente pergunta se é apendicite. Pergunta qual imagem pedir em quem, o que fazer com o escore que você somou, quanto tempo o paciente pode esperar pela sala — e, cada vez mais, quando o antibiótico pode substituir o bisturi.

Fontes deste capítulo

Ministério da Saúde / CONITEC — Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas (PCDT)

Gomes CA, Sartelli M, Di Saverio S, et al. Acute appendicitis: proposal of a new comprehensive grading system based on clinical, imaging and laparoscopic findings. World J Emerg Surg. 2015;10:60

Lima AP, Vieira FJ, Oliveira GPM, et al. Perfil clínico-epidemiológico da apendicite aguda: análise retrospectiva de 638 casos. Rev Col Bras Cir. 2016;43(4):248-253

Di Saverio S, Podda M, De Simone B, et al. Diagnosis and treatment of acute appendicitis: 2020 update of the WSES Jerusalem guidelines. World J Emerg Surg. 2020;15:27

CODA Collaborative. A Randomized Trial Comparing Antibiotics with Appendectomy for Appendicitis. N Engl J Med. 2020;383(20):1907-1919

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 34 anos com dor em fossa ilíaca direita há 7 dias, febre e massa palpável dolorosa nessa topografia. Encontra-se estável, sem irritação peritoneal difusa. Tomografia de abdome com contraste: coleção organizada de 6 cm adjacente ao ceco, com apêndice espessado no interior do processo inflamatório, sem pneumoperitônio e sem líquido livre difuso. Qual a conduta inicial e o seguimento adequados?

02

Como esse tema cai

Apendicite aguda é a causa mais comum de abdome agudo cirúrgico, e a série brasileira de referência dá a dimensão: de 1048 internações por abdome agudo num pronto-socorro de Juiz de Fora, 638 eram apendicite — 60,88%. Idade média de 32 anos, 65,2% homens, com o adulto jovem concentrando 60% dos casos.

O diagnóstico é clínico, e por isso a prova quase nunca pergunta se é apendicite: pergunta o que fazer com o escore que você somou, qual imagem pedir em quem, quanto o paciente pode esperar pela sala e por quantos dias o antibiótico continua depois da cirurgia. O capítulo percorre essa sequência — migração da dor, sinais semiológicos, escore de Alvarado com os pesos certos, escada de imagem, a linha entre doença não complicada e complicada, e as condutas que dependem dela.

A apendicite não tem protocolo do Ministério da Saúde: a régua é a diretriz de Jerusalém, da World Society of Emergency Surgery, atualizada em 2020 — que tem contribuição brasileira na classificação de gravidade. Fora do recorte: tumores do apêndice, mucocele e apendicite crônica.

03

O que muda decisão

A dor que muda de lugar — e por que isso vale ponto

Tudo começa com obstrução da luz apendicular: hiperplasia linfoide nos menores de 20 anos, fecalito no adulto e no idoso. O apêndice é longo e estreito e obstrui em alça fechada — a mucosa distal segue secretando contra um lúmen bloqueado, a parede distende, a pressão sobe.

A distensão estimula fibras aferentes viscerais que entram na medula em T10, e dor visceral não se localiza: o paciente aponta o umbigo com a mão espalmada e sente náusea. Quando a inflamação atravessa a parede e alcança o peritônio parietal, a inervação passa a somática — dor contínua, apontável com um dedo na fossa ilíaca direita. Essa migração é o achado clínico de maior peso do tema.

A ordem dos sintomas também é informação: dor, depois anorexia e náusea, depois vômito, febre por último. Vômito que precede a dor é a ordem da gastroenterite. O intervalo importa igualmente — perfuração é rara antes de 24 horas de sintomas e comum depois de 48 a 72 horas. A mortalidade geral fica abaixo de 1%, sobe para cerca de 3% na perfuração e chega a 15% quando o perfurado é idoso.

Corte do abdome inferior direito com ceco, íleo terminal e apêndice inflamado; uma névoa difusa marca a região periumbilical e uma mancha menor e mais intensa marca a fossa ilíaca direita.
A dor começa difusa e periumbilical, por distensão visceral, e só se localiza na fossa ilíaca direita quando a inflamação alcança o peritônio parietal. Essa migração é o achado clínico de maior peso do tema.

Os sinais com nome próprio (e o que cada um está testando)

O ponto de McBurney fica na união do terço lateral com os dois terços mediais da linha traçada da espinha ilíaca anterossuperior direita até a cicatriz umbilical. Dor à palpação desse ponto é o achado isolado mais valioso do exame — e um dos dois únicos itens do Alvarado que valem dois pontos.

O sinal de Blumberg é a descompressão brusca dolorosa localizada, e testa irritação do peritônio parietal naquele ponto. O de Rovsing é a dor referida na fossa ilíaca direita ao se comprimir a esquerda, pelo deslocamento de gás no cólon. O de Dunphy é a dor provocada pela tosse. O de Lenander é a temperatura retal excedendo a axilar em pelo menos um grau — pouco usado hoje, mas ainda cobrado por nome em prova brasileira.

Dois sinais localizam o apêndice, e é aí que o exame explica por que dois pacientes com a mesma doença parecem diferentes. O sinal do psoas — dor à extensão passiva da coxa direita, ou à flexão do quadril contra resistência — aponta apêndice RETROCECAL, apoiado sobre o psoas ilíaco e escondido atrás do ceco, que funciona como anteparo: dá dor no flanco e na região lombar, palpação anterior pobre e pouca defesa. O sinal do obturador, dor à rotação interna do quadril direito fletido, aponta apêndice PÉLVICO, que irrita bexiga e reto e produz disúria, tenesmo e dor ao toque. Exame frustro não exclui apendicite — obriga a procurar a posição atípica.

Defesa involuntária e rigidez de parede saem do território da apendicite simples e entram no da perfuração com peritonite: é a diferença entre um abdome que dói e um que se protege.

Nenhum sinal confirma sozinho — eles somam, e é por isso que existem escores. Um passo, porém, vem antes de tudo na mulher em idade fértil: beta-hCG. Gravidez ectópica rota se apresenta como dor em fossa ilíaca com defesa e mata rápido; doença inflamatória pélvica, torção e ruptura de cisto ovariano completam os diferenciais que mais custam ponto. Em criança, adenite mesentérica após infecção de vias aéreas; em qualquer idade, divertículo de Meckel, ileíte terminal da doença de Crohn, diverticulite de cólon direito e cólica nefrética à direita.

Diagrama composto com um ceco central e quatro posições possíveis do apêndice: retrocecal, pélvica, subcecal e retroileal, cada uma em tom diferente.
A posição do apêndice explica por que o exame físico varia tanto: o retrocecal dá dor lombar e sinal do psoas, o pélvico dá sintomas urinários e dor ao toque, e o retroileal pode poupar a palpação superficial.

Laboratório: o que ele decide e o que ele não decide

Leucocitose com neutrofilia e proteína C reativa elevada são marcadores de inflamação, não de apendicite. Entram nos escores porque somam, não porque decidam. Leucograma normal nas primeiras horas não exclui nada — a proteína C reativa sobe ainda mais tarde —, e leucocitose isolada sem quadro compatível não indica cirurgia.

Beta-hCG em toda mulher em idade fértil, antes da imagem: o resultado muda qual exame você pede e qual diagnóstico você persegue. Pedir tomografia antes do beta-hCG é o tipo de erro que a prova adora, porque parece diligência.

O sumário de urina merece cuidado. Leucocitúria e hematúria discretas são frequentes na apendicite, sobretudo quando o apêndice é pélvico e irrita ureter ou bexiga. Trocar o diagnóstico por infecção urinária por causa disso é armadilha clássica: piúria franca com bacteriúria é uma coisa; alterações discretas em quadro de dor migratória são outra.

Imagem: a escada que a diretriz desenha

Em adultos, a WSES 2020 recomenda a ultrassonografia à beira do leito como ferramenta de primeira linha (forte, 1B). Os achados que interessam: apêndice não compressível, diâmetro maior que 6 milímetros, dor à compressão com o transdutor, apendicolito e líquido ou borramento da gordura periapendicular.

Aqui mora uma armadilha que custa questão: apêndice não visualizado é exame INCONCLUSIVO, não exame negativo. A ultrassonografia é operador-dependente. Com suspeita clínica intermediária ou alta e apêndice não visualizado, o passo seguinte é tomografia ou observação com reavaliação — nunca alta.

Quando a tomografia é necessária, a diretriz é específica quanto ao protocolo: contrastada de BAIXA dose, preferida à de dose padrão (forte, 1A) — mesma acurácia, menos radiação. E há um atalho legítimo: em paciente de alto risco pelo escore e com menos de 40 anos, a tomografia pode ser dispensada, indo direto à laparoscopia diagnóstica e terapêutica. Em crianças, ultrassonografia primeiro (fraca, 2B) e ressonância preferida à tomografia como segunda linha; na gestante, ultrassonografia com compressão gradual (fraca, 2C) e ressonância quando ela é inconclusiva (fraca, 2B).

Combinar escore com ultrassonografia melhora a acurácia, reduz a necessidade de tomografia e derruba a apendicectomia negativa — a diretriz cita 1,6% de exploração negativa com a estratégia de escore contra 3,2% sem ela.

Não complicada e complicada: a linha que decide tudo

A classificação de gravidade que a WSES adota é de autoria brasileira: Carlos Augusto Gomes, da Universidade Federal de Juiz de Fora, publicada no World Journal of Emergency Surgery em 2015, combinando achados clínicos, de imagem e de laparoscopia.

Do lado NÃO complicado ficam o grau 0, apêndice macroscopicamente normal, e o grau 1, apêndice inflamado — hiperemia, edema, eventualmente fibrina, com pouco ou nenhum líquido pericólico. Do lado complicado: grau 2A é necrose segmentar e 2B é necrose da base, na inserção cecal, que exige sutura ou grampeador e muda a técnica na hora. O grau 3 é a doença bloqueada — 3A é o fleimão ou plastrão, massa inflamatória sem abscesso; 3B é abscesso menor que 5 centímetros; 3C é abscesso de 5 centímetros ou mais. O grau 4 é a perfuração com peritonite difusa.

Essa linha determina quatro decisões: se o tratamento não operatório pode sequer ser discutido, se o paciente precisa de drenagem antes ou em vez da cirurgia, por quantos dias o antibiótico continua depois, e que experiência cirúrgica a operação vai exigir. Quando a prova entrega o achado intraoperatório ou o laudo da tomografia, é essa classificação que ela está pedindo — mesmo sem nomeá-la. E ela tem consequência mensurável: na série brasileira de 638 casos, a internação média foi de 7 dias no conjunto e de 12,4 dias em quem chegou já perfurado.

Operar: via, janela e antibiótico

A apendicectomia laparoscópica é a via preferida sobre a aberta (forte, 1A): menos dor, menos infecção de sítio cirúrgico, internação mais curta, retorno ao trabalho mais rápido. E a técnica convencional de três portais é preferida ao portal único, também com recomendação forte 1A.

A janela é o ponto que mais gente erra por excesso de zelo. A diretriz recomenda programar a apendicectomia laparoscópica para a próxima lista cirúrgica disponível dentro de 24 horas (forte, 1B) e recomenda CONTRA atrasar além de 24 horas contadas da ADMISSÃO (forte, 1B). Um atraso curto é seguro no paciente estável com doença não complicada: 24 horas é teto, não meta. Em crianças a régua aperta — não passar de 24 horas, e apendicectomia precoce em até 8 horas quando a apendicite é complicada (fraca, 2C).

O antibiótico tem três regras, todas recomendações fortes. Dose ÚNICA pré-operatória de amplo espectro para todo mundo (1A). Na apendicite não complicada, nada de antibiótico no pós-operatório (1A) — é a alternativa que mais gente marca errado. Na complicada do adulto, não prolongar além de 3 a 5 dias (1A), com controle de foco adequado como premissa. Na criança com doença complicada, troca precoce para via oral após 48 horas e duração total menor que 7 dias (1B).

Os detalhes técnicos que caem seguem o mesmo espírito de fazer menos: aspiração isolada da cavidade, sem irrigação, na complicada (forte, 1B); recomendação CONTRA dreno após apendicectomia por apendicite complicada em adultos (forte, 1B); ligadura simples do coto em vez de invaginação (forte, 1A), com endoloop, fio ou clipe polimérico (forte, 1B); e protetor plástico de ferida na cirurgia aberta (forte, 1B).

Na gestante, a laparoscopia é sugerida como preferida à cirurgia aberta onde há experiência com a técnica (fraca, 2B), e o tratamento não operatório é desaconselhado (fraca, 2C). Em obesos, idosos e pacientes de alto risco, a via laparoscópica também é sugerida (fraca, 2B).

Plastrão e abscesso: quando a resposta é não operar agora

Um subgrupo chega tarde, com cinco a sete dias de dor, febre e massa palpável e dolorosa na fossa ilíaca direita: o organismo bloqueou a perfuração com epíplon e alças, formando fleimão ou abscesso. Esse paciente não é candidato à apendicectomia de urgência — operar um plastrão maduro na fase aguda aumenta muito a chance de terminar em ressecção ileocecal, que é exatamente o que se quer evitar. A WSES sugere tratamento não operatório com antibiótico e, quando disponível, drenagem percutânea (fraca, 2B), reservando a cirurgia a quem falha; se operado, o acesso laparoscópico é o sugerido onde há experiência avançada (fraca, 2B).

Sobre o seguimento há duas recomendações que se confundem com facilidade, e a prova gosta de cruzá-las. A primeira: recomendação CONTRA a apendicectomia de intervalo de rotina depois de tratamento não operatório bem-sucedido em adultos jovens, com menos de 40 anos, e em crianças (forte, 1B) — a recorrência fica entre 12% e 24%, e a indicação se reserva a quem volta a ter sintomas. A segunda: em pacientes com 40 anos ou mais, a diretriz sugere colonoscopia e tomografia de intervalo com contraste em dose plena (fraca, 2C), porque neoplasia de ceco ou de apêndice se apresenta exatamente assim.

As duas respondem a perguntas diferentes: a primeira é sobre operar, a segunda sobre investigar. Um paciente de 55 anos com abscesso tratado clinicamente precisa de colonoscopia — e isso não significa que precise de apendicectomia de intervalo.

04

Escore de Alvarado: o que ele decide e o que ele não decide

O Alvarado, ou MANTRELS, é a régua ordinal que as bancas brasileiras mais cobram pelo nome. Ele é bom para EXCLUIR e ruim para CONFIRMAR — e a diretriz internacional diz isso com todas as letras. Saber somar não basta: o que a prova testa é a faixa.

  1. 1Some os oito itens: máximo de 10 pontos, com dois itens valendo 2 — dor à palpação da fossa ilíaca direita e leucocitose — e os outros seis valendo 1.
  2. 2Abaixo de 5 pontos: sensibilidade de cerca de 99% para EXCLUIR, segundo a WSES. É o uso legítimo do escore — liberar com segurança e orientação de retorno.
  3. 3De 5 a 6 pontos: o escore não decide. É a faixa da imagem e da observação com reavaliação seriada.
  4. 4De 7 para cima no homem e de 9 para cima na mulher, a razão de verossimilhança positiva é comparável à da tomografia. O corte é mais alto na mulher porque os diferenciais ginecológicos inflam a pontuação.
  5. 5A WSES sugere CONTRA usar o Alvarado para confirmar o diagnóstico (fraca, 2B) e recomenda no lugar os escores AIR e AAS (forte, 1A) — além de sugerir contra diagnosticar por escore isolado, seja qual for (fraca, 2C).

0 a 4

Improvável. Alta com orientação de retorno, sem imagem obrigatória.

5 a 6

Possível. Ultrassonografia, e observação com reavaliação seriada se ela for inconclusiva.

7 a 8

Provável no homem; na mulher ainda pede imagem.

9 a 10

Muito provável. Com menos de 40 anos, pode ir direto à laparoscopia.

Item (MANTRELS)O que contaPontos
M — Migração da dorDor que começou periumbilical e migrou para a fossa ilíaca direita1
A — AnorexiaPerda de apetite desde o início do quadro1
N — Náusea ou vômitoPresente, e depois da dor1
T — Dor à palpação da fossa ilíaca direitaSensibilidade localizada no quadrante inferior direito2
R — Descompressão dolorosaSinal de Blumberg presente1
E — Elevação da temperaturaFebre — o limiar da descrição original é 37,3 °C1
L — LeucocitoseLeucócitos acima de 10.000/mm³2
S — Desvio à esquerdaNeutrófilos acima de 75%1
TotalDois itens valem 2, seis valem 110

O AIR, escore que a diretriz recomenda no lugar do Alvarado, vai de 0 a 12 e pesa a INTENSIDADE dos achados em vez de tratá-los como sim ou não: vômito 1; dor em fossa ilíaca direita 1; defesa ou descompressão dolorosa leve 1, média 2, forte 3; temperatura de 38,5 °C ou mais 1; neutrófilos de 70 a 84% valem 1 e 85% ou mais valem 2; leucócitos de 10,0 a 14,9 mil valem 1 e 15,0 mil ou mais valem 2; proteína C reativa de 10 a 49 mg/L vale 1 e 50 mg/L ou mais vale 2. Faixas: 0 a 4 baixa probabilidade, 5 a 8 indeterminada, 9 a 12 alta. A WSES registra sensibilidade de 92% e especificidade de 63%.

O AAS, Adult Appendicitis Score, é o outro recomendado: abaixo de 11 pontos, baixa probabilidade; 16 pontos ou mais, alta probabilidade, com 93% de especificidade.

Por que o Alvarado sobrevive na prova brasileira mesmo rebaixado pela diretriz: comparações diretas favorecem o AIR (área sob a curva de 0,901 contra 0,821), mas o Alvarado é o único dos três que dispensa proteína C reativa, o que o mantém aplicável na primeira hora e em serviço sem laboratório completo. Saiba somá-lo — só não aceite alternativa dizendo que ele CONFIRMA o diagnóstico.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Antibiótico isolado ou apendicectomia na apendicite não complicada

A diretriz internacional admite a conversa

A WSES 2020 recomenda DISCUTIR o tratamento não operatório com antibiótico como alternativa segura à cirurgia em adultos com apendicite não complicada — recomendação forte, evidência 1A —, com a obrigação embutida de informar ao paciente que a recorrência chega a 39% em cinco anos. O regime começa endovenoso e troca para via oral (forte, 1B). O CODA, maior ensaio do tema, randomizou 1552 adultos em 25 centros dos Estados Unidos e mostrou não inferioridade do antibiótico no estado geral de saúde em 30 dias; ainda assim, 29% do braço antibiótico tinha sido operado em 90 dias. O APPAC, com 530 finlandeses e tomografia confirmando doença não complicada, chegou a 39,1% de recorrência em cinco anos e, aos dez anos, a 44,3% de apendicectomia acumulada — com bem menos complicações no braço antibiótico, 8,5% contra 27,4%.

WSES 2020, recomendação 2.1.1 (forte, 1A); CODA Collaborative, N Engl J Med 2020;383:1907-1919; Salminen et al., JAMA 2018;320:1259-1265 e JAMA 2026;335(12):1041-1049

A prova brasileira ainda espera cirurgia

A apendicectomia segue como conduta padrão nas bancas nacionais e no pronto-socorro brasileiro, e isso não é atraso: a própria diretriz formula a recomendação como DISCUTIR a opção, não como substituir a cirurgia. O tratamento não operatório tem pré-requisitos que não se podem presumir em qualquer serviço — tomografia confirmando doença não complicada, ausência de apendicolito e garantia de reavaliação. A literatura brasileira trata a apendicectomia como tratamento de escolha porque, além de resolver a doença, ela dá o diagnóstico definitivo.

Lima AP et al., Rev Col Bras Cir 2016;43(4):248-253, que descreve a apendicectomia como tratamento de escolha; e a própria WSES 2020, cuja recomendação 2.1.1 é de discutir a alternativa, não de substituir a cirurgia

Na prova

O tratamento não operatório só entra em cena quando o enunciado constrói o cenário completo dos ensaios: tomografia confirmando apendicite NÃO complicada, ausência de apendicolito, paciente estável e, em geral, menção explícita ao CODA, ao APPAC ou à ideia de tratamento conservador — sinais de que a questão está no corpo internacional, que mesmo assim formula a recomendação como DISCUTIR a alternativa com o paciente (informando recorrência de até 39% em cinco anos), não como substituir a cirurgia. Enunciado seco de pronto-socorro, sem esse recorte, vive no padrão nacional, em que a apendicectomia segue como conduta de referência — e a distância não é atraso: o manejo com antibiótico pressupõe tomografia disponível e reavaliação garantida, condições que não se podem presumir em qualquer serviço brasileiro, além de a cirurgia entregar o diagnóstico definitivo. Apendicolito na imagem desfaz a divergência: no CODA, esse subgrupo teve 20% de complicações com antibiótico contra 3,6% com cirurgia, e 41% acabaram operados em 90 dias — os dois corpos convergem para operar. Alternativa de antibiótico isolado num enunciado que nem descreveu a tomografia é distrator em qualquer dos mundos.

Apendicectomia imediata ou programada para a próxima lista dentro de 24 horas

A diretriz permite esperar até 24 horas

A WSES recomenda programar a apendicectomia laparoscópica para a próxima lista disponível dentro de 24 horas (forte, 1B) e recomenda contra atrasar além de 24 horas da admissão (forte, 1B). O raciocínio: atraso hospitalar curto, no paciente estável com doença não complicada e sob antibiótico e analgesia, não aumenta desfecho adverso — ultrapassar as 24 horas aumenta. Na prática, isso libera o serviço de operar de madrugada com equipe reduzida.

WSES 2020, recomendações 3.1 e 3.2 (ambas fortes, 1B)

O ensino cirúrgico clássico trata como urgência imediata

A tradição cirúrgica brasileira ensina apendicectomia precoce como regra, apoiada na progressão da doença: a operação é tecnicamente fácil nas primeiras 24 horas, torna-se mais complexa sobretudo depois das 48 horas, e a partir do terceiro dia a frequência de complicações muda a própria forma de tratar — de apendicectomia simples para drenagens percutâneas e, no extremo, ressecção do cólon direito.

Freitas RG et al., Apendicite aguda, Rev HUPE (UERJ) 2009;8(1):38-51

Na prova

As duas posições convergem no essencial — 24 horas é teto, não meta, e o relógio corre desde a ADMISSÃO —, então a divergência real é de ênfase, e o enunciado revela qual ênfase está sendo cobrada. Vocabulário de 'próxima lista disponível', paciente estável sob antibiótico e analgesia, discussão de logística de centro cirúrgico: é a WSES 2020, que respalda programar dentro de 24 horas (forte, 1B) e se posiciona contra ultrapassá-las. Enunciado que enfatiza a progressão da doença — operação tecnicamente fácil nas primeiras 24 horas, mais complexa após 48, complicações mudando a própria forma de tratar a partir do terceiro dia — fala a língua do ensino cirúrgico clássico brasileiro, da urgência imediata. Perfuração, peritonite difusa ou instabilidade encerram a divergência nos dois corpos: cirurgia imediata.

06

Caso resolvido

Homem de 24 anos, previamente hígido, chega ao pronto-socorro com dor abdominal há 20 horas. Começou periumbilical, em cólica e mal localizada, e nas últimas 8 horas se fixou na fossa ilíaca direita, tornando-se contínua. Refere perda de apetite desde o início e dois episódios de vômito que começaram depois da dor. Ao exame: temperatura axilar 37,8 °C, PA 124 × 78 mmHg, FC 96 bpm. Dor à palpação do ponto de McBurney, descompressão brusca dolorosa localizada e sinal de Rovsing positivo, sem defesa involuntária e sem irritação peritoneal difusa. Leucócitos 14.800/mm³ com 84% de neutrófilos. Ultrassonografia: apêndice não compressível de 9 mm, com líquido periapendicular discreto e sem coleções organizadas.
achado
A dor migrou — periumbilical primeiro, fossa ilíaca direita depois. É a transição da dor visceral para a somática, e o achado de maior peso do tema. Repare também que o vômito veio DEPOIS da dor: o inverso puxaria para gastroenterite.
escore
Alvarado: migração 1, anorexia 1, náusea e vômito 1, dor em fossa ilíaca direita 2, descompressão dolorosa 1, febre 1, leucocitose 2, desvio à esquerda 1. Total de 10 — probabilidade altíssima.
imagem
A ultrassonografia já resolveu: apêndice não compressível de 9 mm com líquido periapendicular, sem coleção nem plastrão. É NÃO complicada. Tomografia não acrescentaria — e a diretriz admite ir direto à laparoscopia em alto risco com menos de 40 anos.
conduta
Apendicectomia laparoscópica (forte, 1A), programada para a próxima lista disponível dentro de 24 horas, com dose ÚNICA de antibiótico de amplo espectro na indução anestésica.
pós-operatório
Nenhum antibiótico depois: na apendicite não complicada a diretriz recomenda CONTRA mantê-lo (1A). É a alternativa que mais gente marca errado no tema.
07

Agora feche você

Mulher de 63 anos, diabética, com dor em fossa ilíaca direita há 6 dias. Hoje apresenta febre de 38,5 °C e massa palpável dolorosa na fossa ilíaca direita. PA 118 × 72 mmHg, FC 98 bpm, abdome sem irritação peritoneal difusa e sem defesa generalizada. Leucócitos 17.400/mm³, proteína C reativa 190 mg/L. Tomografia de abdome com contraste: coleção organizada de 6 cm na fossa ilíaca direita, adjacente a apêndice espessado, sem pneumoperitônio e sem líquido livre difuso.
achado
Seis dias de evolução, massa palpável e coleção organizada de 6 cm. O quadro está bloqueado — não é apendicite aguda simples que chegou cedo.
exame
Sem peritonite difusa e sem instabilidade hemodinâmica. O bloqueio funcionou, e é isso que abre a porta para não operar agora.
classificação
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Pedir imagem antes do beta-hCG na mulher em idade fértil Gravidez ectópica rota se apresenta como dor em fossa ilíaca com defesa e mata rápido. O beta-hCG vem antes da tomografia, sempre — e o resultado muda qual exame de imagem você pede.
  2. 2Ler apêndice não visualizado como ultrassonografia negativa É exame INCONCLUSIVO, não exame negativo. A ultrassonografia é operador-dependente. Com suspeita clínica intermediária ou alta, o passo seguinte é tomografia de baixa dose ou observação com reavaliação — nunca alta.
  3. 3Manter antibiótico no pós-operatório da apendicite não complicada A diretriz recomenda CONTRA, com evidência 1A. Dose única na indução e acabou. Na complicada, de 3 a 5 dias, não mais que isso. É o erro mais frequente do tema em prova e no plantão.
  4. 4Descartar apendicite no idoso porque o abdome está pouco doloroso O idoso tem apresentação frustra e chega mais tarde. A mortalidade da perfuração no idoso chega a 15%, contra menos de 1% no quadro geral. Abdome pobre em paciente idoso com febre e leucocitose pede mais investigação, não menos.
  5. 5Pedir tomografia na gestante com ultrassonografia inconclusiva A escada é ultrassonografia com compressão gradual e depois ressonância magnética. E, se você pensou em tratar a gestante só com antibiótico para evitar a cirurgia, a diretriz sugere contra o tratamento não operatório na gestação.
  6. 6Colocar dreno e lavar a cavidade na apendicite complicada do adulto As duas coisas têm recomendação forte contra: nada de dreno (1B) e aspiração isolada em vez de irrigação (1B). O distrator parece cuidadoso e está errado.
  7. 7Aceitar vômito que precede a dor como apendicite Na apendicite a dor vem primeiro, e o vômito depois. Quando o enunciado inverte a ordem de propósito, ele está sinalizando outro diagnóstico — na maioria das vezes, gastroenterite.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Trata-se de abscesso apendicular em paciente estável e com o processo bloqueado. A WSES 2020 sugere tratamento NÃO operatório com antibiótico e, quando disponível, drenagem percutânea (fraca, 2B) — abordar cirurgicamente um plastrão maduro na fase aguda aumenta a chance de terminar em ressecção ileocecal, justamente o que se quer evitar. Sobre o seguimento, a diretriz recomenda CONTRA a apendicectomia de intervalo de rotina após tratamento não operatório bem-sucedido em adultos jovens, com menos de 40 anos, e em crianças (forte, 1B): a recorrência fica entre 12% e 24%, e a indicação se reserva a quem volta a ter sintomas. Com 34 anos ele não entra na outra recomendação, a de colonoscopia e tomografia de intervalo em dose plena, sugerida acima dos 40 anos (fraca, 2C) pelo risco de neoplasia. Colonoscopia na fase aguda é erro à parte. E dreno na apendicite complicada do adulto tem recomendação forte contra (1B), assim como a lavagem da cavidade, substituída por aspiração isolada (forte, 1B).

09

Recuperação

Responda as 7 e o gabarito abre no fim, com o comentário de cada uma.

Questão 1 de 7

Homem de 38 anos com apendicite aguda confirmada por tomografia, sem sinais de perfuração, abscesso ou peritonite. A tomografia mostra apendicolito de 8 mm na base do apêndice. O paciente relata forte preferência por evitar a cirurgia e pergunta se pode ser tratado apenas com antibiótico. Qual a orientação mais adequada?

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10

Plano de revisão

em 7 dias

Os oito itens do Alvarado com os pesos certos — dor em fossa ilíaca direita e leucocitose valem 2, os outros seis valem 1 — e as faixas: abaixo de 5 exclui, 5 a 6 pede imagem, 7 no homem e 9 na mulher se aproximam do valor da tomografia. Junto, a escada de imagem.

em 30 dias

As três regras de antibiótico que dependem da linha entre não complicada e complicada — dose única sem manutenção, 3 a 5 dias no adulto complicado, menos de 7 dias na criança — mais o teto de 24 horas até a cirurgia. E o que fazer depois do abscesso tratado clinicamente: investigar com colonoscopia acima dos 40 anos não é o mesmo que operar de intervalo.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Dor abdominal que migrou para a fossa ilíaca direita em homem de 22 anos — pronto-socorro — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

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