Fundamentos da Prática ClínicaÉtica, bioética e deontologia

O Código e o estudante

Código de Ética Médica: o que vale para o estudante

Você ainda não responde perante o Conselho — mas quase tudo já se aplica a você

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A cena

Quarto ano, enfermaria cheia. O residente entrega ao estudante uma prancheta e pede que ele colha o consentimento de três pacientes para um procedimento, porque a agenda está atrasada. Depois pede que ele passe a evolução de dois leitos que não acompanhou e que assine como quem examinou.

Mais tarde, o grupo entra em um quarto, sete pessoas, e o professor descobre o abdome da paciente para demonstrar um sinal. Ninguém perguntou a ela se aceitava ser examinada por estudantes, e ninguém disse quem ali era médico e quem não era. A paciente não reclamou — pacientes internados raramente reclamam.

Nenhuma dessas três coisas é permitida, e todas são rotina em algum lugar. E há uma quarta, que é a mais difícil: se o estudante disser não, ele fica com fama de difícil no estágio em que será avaliado por quem pediu.

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De onde vem o sinal

Comece pela pergunta que dá título ao capítulo. O Código de Ética Médica é dirigido ao médico, e o estudante não responde a processo ético-profissional no Conselho porque ainda não tem registro. Isso é verdade — e é a conclusão errada a tirar disso que produz os problemas.

Deveres éticos do estudante em atividades clínicas supervisionadas.
Aprender à beira do leito exige consentimento, limites claros e supervisão compatível com o ato.

O Código alcança o estudante por três caminhos. O primeiro é pelo supervisor: várias obrigações do médico dizem respeito diretamente ao que ele pode ou não pedir ao aluno, e o que é vedado pedir permanece vedado mesmo que o aluno aceite.

O segundo é pela responsabilidade. O Código estabelece que a responsabilidade médica é sempre pessoal e não pode ser presumida. Isso corta nos dois sentidos: ninguém pode presumir que a culpa foi sua por estar ali, e você também não fica coberto só porque alguém mandou. Ordem recebida não transfere responsabilidade por ato que você executou.

O terceiro é pelo futuro. O Código veda atribuir os próprios insucessos a terceiros e a circunstâncias ocasionais, salvo quando isso possa ser devidamente comprovado — e a maneira de não precisar dessa desculpa é aprender a recusar antes, na fase em que recusar ainda é barato.

Vamos às regras que mais importam para quem está em formação. A primeira é sobre delegação: é vedado ao médico delegar a outros profissionais atos ou atribuições exclusivas da profissão médica. Se o ato é exclusivo do médico, ele não pode ser passado a um estudante — e o fato de o estudante ter aceitado não valida a delegação.

A segunda é sobre assumir o que não é seu. É vedado assumir responsabilidade por ato médico que não praticou ou do qual não participou. Evoluir um leito que você não examinou, ou assinar como tendo feito o que não fez, é exatamente essa hipótese — e nesse caso a irregularidade não é apenas do residente que pediu.

A terceira é a que mais deveria mudar a rotina de enfermaria de ensino, e ela é explícita. É vedado ao médico praticar a medicina, no exercício da docência, sem o consentimento do paciente ou de seu representante legal, sem zelar por sua dignidade e privacidade ou discriminando aqueles que negarem o consentimento solicitado.

Leia com cuidado as três partes desse artigo. Primeiro, é preciso consentimento para que a medicina seja praticada em contexto de ensino — o paciente precisa saber que ali há estudantes e aceitar. Segundo, dignidade e privacidade precisam ser preservadas mesmo com o consentimento dado: sete pessoas em volta e o abdome descoberto mais tempo do que o necessário violam a segunda parte ainda que a primeira tenha sido cumprida.

Terceiro, e talvez o mais importante: é vedado discriminar quem negar o consentimento. O paciente pode dizer não ao exame por estudantes, e dizer não não pode custar nada a ele — nem no atendimento, nem no tom com que a equipe volta ao leito.

Repare no que isso implica logicamente sobre a apresentação. Não existe consentimento para participação de estudantes se o paciente não sabe que há estudantes ali. Dizer o próprio nome e a própria condição — sou estudante de medicina do quarto ano — não é humildade opcional, é o que torna possível o consentimento que o artigo exige.

Há ainda a regra sobre sigilo, que menciona o aluno de forma expressa: é vedado ao médico deixar de orientar seus auxiliares e alunos a respeitar o sigilo profissional e zelar para que seja por eles mantido. O estudante está dentro do dever de sigilo por via da responsabilidade de quem o supervisiona — o que significa que a conversa no elevador também é problema seu.

E há a regra de autoria, útil desde a primeira iniciação científica: é vedado publicar em seu nome trabalho científico do qual não tenha participado, atribuir a si mesmo autoria exclusiva de trabalho realizado por subordinados ou outros profissionais mesmo quando executados sob sua orientação, e omitir do artigo o nome de quem dele tenha participado. A regra protege o estudante nas duas direções: contra ter o próprio trabalho apropriado e contra assinar o que não fez.

Falta a parte mais difícil, que é o custo de dizer não. Ela precisa ser tratada com números, porque romantizar a formação médica não ajuda ninguém. Uma revisão sistemática com meta-análise de 51 estudos encontrou que 59,4% dos estudantes e residentes de medicina relataram ter sofrido ao menos uma forma de assédio ou discriminação durante o treinamento (IC 95% 52,0% a 66,7%). O assédio verbal foi a forma mais citada (prevalência de 63,0%; IC 95% 54,8% a 71,2%).

A fonte mais citada foram os próprios médicos responsáveis pelo ensino, com 34,4%, seguidos pelos pacientes ou seus familiares, com 21,9%. E os autores registram que a prevalência não diminuiu ao longo do tempo, recomendando tanto a criação de políticas quanto a mudança de cultura nas instituições acadêmicas.

Esses números têm uma função precisa neste capítulo. Eles explicam por que a recusa é difícil sem transformar isso em fraqueza de caráter de quem não recusou: o ambiente em que o estudante deve dizer não é um ambiente em que a maioria já relatou humilhação, e em que quem mais humilha é quem avalia. Reconhecer isso é o que permite planejar a recusa em vez de esperar coragem espontânea no momento errado.

Vale a ressalva de escopo: são estudos majoritariamente transversais, com prevalências autorrelatadas e definições variáveis de assédio entre eles, o que explica intervalos amplos. A conclusão robusta não é o valor exato, e sim que a experiência é majoritária e não vem caindo.

03

O que perguntar

Duas coisas a perguntar ao paciente, e quatro a si mesmo antes de aceitar uma tarefa.

  • Sou estudante de medicina do quarto ano. A senhora aceita que eu examine junto com a equipe?

    Sem saber que há estudante, não há consentimento para a prática de medicina em contexto de ensino — e o artigo exige esse consentimento.

  • A senhora prefere que eu não participe? Isso não muda nada no seu atendimento.

    É vedado discriminar quem nega o consentimento. Dizer isso em voz alta é o que torna a recusa possível para alguém internado e dependente da equipe.

  • [A si mesmo] Isto é um ato exclusivo do médico?

    É vedado delegar atos ou atribuições exclusivas da profissão médica — e a aceitação do estudante não valida a delegação.

  • [A si mesmo] Eu saberia explicar isto ao paciente e conduzir o que vier depois?

    Critério prático de competência. Colher consentimento de procedimento que não se sabe explicar é o exemplo mais comum dessa falha.

  • [A si mesmo] Estou prestes a registrar como meu um ato que não pratiquei?

    É vedado assumir responsabilidade por ato médico que não praticou ou do qual não participou — inclui evoluir leito que não examinou.

  • [A si mesmo] Se isso der errado, eu conseguiria explicar por que aceitei?

    A responsabilidade é pessoal e não presumida, e é vedado atribuir insucessos a terceiros salvo quando comprovável. A ordem recebida não é explicação suficiente.

04

Antes de encostar

Saber o que é atribuição exclusiva do médico
Conhecer a fronteira antes de ser convidado a cruzá-la é o que permite recusar sem parecer arbitrário — e sem depender de julgar no susto.
Ensaiar a frase de apresentação
Nome e condição, em uma frase curta e natural. Quem não ensaiou tende a omitir por pressa ou constrangimento, e a omissão inviabiliza o consentimento.
Ensaiar a recusa
Uma formulação curta que não acusa ninguém: 'não me sinto seguro para isso, posso acompanhar?'. Recusa improvisada sob pressão costuma virar aceitação.
Saber a quem recorrer
Preceptor, coordenação do internato, ouvidoria, comissão de ética. Descobrir o canal durante o problema é descobrir tarde.
Conhecer as regras da instituição sobre participação de estudantes
Muitos serviços têm norma sobre o que o aluno pode fazer e sob qual supervisão. Ela é o seu respaldo mais imediato.
Registrar o que aconteceu, para si
Anotar data, situação e quem estava presente é o que transforma uma impressão em relato utilizável, caso a situação se repita.
05

A técnica

Como se apresentar, o que aceitar, como recusar e o que fazer diante do assédio.

  1. 1

    Apresentar-se pelo nome e pela condição

    Sou estudante de medicina, tal ano. Sem isso não existe consentimento informado para a prática de medicina em contexto de ensino, que o Código exige.

    Erro comum: Deixar que o paciente presuma que você é médico, por omissão ou por jaleco.

  2. 2

    Pedir consentimento para participar

    Perguntar se ele aceita ser examinado ou acompanhado por estudantes, e aceitar a resposta. O consentimento é do paciente, não do preceptor.

    Erro comum: Entrar com o grupo e começar o exame porque a equipe entrou.

  3. 3

    Deixar explícito que recusar não custa nada

    É vedado discriminar quem nega o consentimento. Dizer isso em voz alta é o que torna a recusa real para alguém internado e dependente.

    Erro comum: Perguntar de um jeito que só comporta o sim, na frente de sete pessoas.

  4. 4

    Preservar dignidade e privacidade mesmo com consentimento

    Expor o mínimo necessário, pelo tempo necessário, com o menor número de pessoas possível. A segunda parte do artigo não é dispensada pela primeira.

    Erro comum: Tratar o consentimento como autorização para exposição prolongada diante do grupo inteiro.

  5. 5

    Recusar ato exclusivo do médico

    É vedado delegar atos ou atribuições exclusivas da profissão médica, e aceitar não valida a delegação. A recusa protege o paciente e você.

    Erro comum: Aceitar porque quem pediu é quem vai avaliar você.

  6. 6

    Não registrar como seu o que você não fez

    É vedado assumir responsabilidade por ato médico que não praticou. Evoluir leito não examinado e assinar por outro entram aqui.

    Erro comum: Passar evolução de leito que não viu para adiantar a visita.

  7. 7

    Recusar de forma curta e sem confronto

    Uma frase que nomeia o limite e oferece alternativa: não me sinto seguro para fazer isso sozinho, posso acompanhar? Recusa curta é mais difícil de contestar que justificativa longa.

    Erro comum: Argumentar em público sobre o Código, o que transforma um limite pessoal em disputa de autoridade.

  8. 8

    Pedir supervisão em vez de simplesmente negar

    Oferecer a versão supervisionada da tarefa costuma resolver: o serviço continua andando e o limite é respeitado.

    Erro comum: Transformar toda tarefa nova em recusa, o que impede aprender.

  9. 9

    Escalar quando a pressão persistir

    Preceptor, coordenação, ouvidoria, comissão de ética. A prevalência de assédio na formação é majoritária e não caiu com o tempo — o canal existe porque o problema é estrutural.

    Erro comum: Absorver sozinho e concluir que é assim mesmo.

  10. 10

    Registrar o ocorrido para si

    Data, situação, presentes e o que foi pedido. Relato específico é o que permite agir depois; impressão genérica não sustenta nada.

    Erro comum: Confiar na memória e descobrir isso quando precisar relatar.

  11. 11

    Guardar sigilo como se já fosse médico

    O Código obriga o médico a orientar seus alunos quanto ao sigilo e a zelar para que o mantenham. O dever chega a você por essa via.

    Erro comum: Achar que a conversa no corredor e o grupo de mensagens não são problema seu porque você ainda não tem registro.

  12. 12

    Ser honesto em autoria desde a iniciação científica

    É vedado publicar trabalho do qual não se participou, atribuir a si autoria exclusiva de trabalho de outros e omitir quem participou.

    Erro comum: Aceitar autoria de cortesia — que também é o mecanismo pelo qual o trabalho de estudantes é apagado.

06

Achados, limites e forma de registro

Normal
  • O paciente sabe quem na sala é médico e quem é estudante.
  • Houve pedido de consentimento para participação de estudantes, e a recusa foi possível sem custo.
  • A exposição do paciente foi a mínima necessária, pelo tempo necessário.
  • O estudante executa o que domina, sob supervisão adequada, e registra apenas o que fez.
  • Existe canal conhecido para relatar situações de constrangimento, e ele é usado.
  • Autoria de trabalhos reflete quem participou.
  • Exemplo de registro educacional: estudante apresentou-se como estudante, explicou sua função e obteve concordância para participar; realizou atividade compatível com competência, sob supervisão identificada, preservando sigilo e sem usar acesso clínico para curiosidade.
Grupo entra no quarto e inicia o exame sem apresentação
Sem saber que há estudantes, o paciente não pôde consentir — e o Código exige consentimento para a prática de medicina em contexto de ensino.
Paciente recusa e a equipe muda de tom com ele
É expressamente vedado discriminar quem nega o consentimento. A recusa só é real se não custar nada.
Estudante colhendo consentimento de procedimento que não sabe explicar
Duas falhas: delegação de tarefa que exige domínio do procedimento e consentimento obtido sem esclarecimento válido.
Estudante evoluindo leito que não examinou
É vedado assumir responsabilidade por ato médico que não praticou ou do qual não participou.
Ordem que ultrapassa a competência do aluno, dada por quem o avalia
A hierarquia é justamente o que torna a recusa cara — e é o cenário descrito na literatura, em que a fonte mais citada de assédio são os próprios responsáveis pelo ensino.
Humilhação pública tratada como método de ensino
Assédio verbal foi a forma mais relatada, com prevalência de 63,0%. Chamar isso de tradição não muda a natureza da conduta.
Estudante conclui que 'é assim mesmo' e não relata
É o mecanismo pelo qual a prevalência não caiu ao longo do tempo. O canal institucional existe porque o problema é estrutural, não individual.
Autoria de trabalho científico que não corresponde a quem participou
É vedado publicar trabalho do qual não se participou, atribuir a si autoria exclusiva do trabalho de outros e omitir quem participou.
07

O que isso quer dizer

A resposta curta à pergunta do título é: o estudante não responde perante o Conselho, e quase todo o resto se aplica a ele. Vale entender por quais vias. A primeira via é a do supervisor. Várias vedações do Código descrevem o que o médico não pode pedir — e a que mais alcança o dia a dia do internato é a que veda delegar a outros profissionais atos ou atribuições exclusivas da profissão médica. O consentimento do estudante não valida uma delegação vedada, do mesmo modo que o consentimento do paciente não valida ato que a norma proíbe.

A segunda via é a da responsabilidade. O Código estabelece que a responsabilidade médica é sempre pessoal e não pode ser presumida, veda deixar de assumir a responsabilidade de ato profissional praticado ou indicado, e veda assumir responsabilidade por ato que não se praticou. Traduzindo para a enfermaria: o que você fez é seu, o que você não fez não é seu, e a ordem de quem está acima não converte uma coisa na outra.

A terceira via é o artigo escrito para o contexto de ensino, que merece ser conhecido palavra por palavra. É vedado ao médico praticar a medicina, no exercício da docência, sem o consentimento do paciente ou de seu representante legal, sem zelar por sua dignidade e privacidade ou discriminando aqueles que negarem o consentimento solicitado.

São três obrigações em uma frase. Consentimento para que a prática de ensino ocorra. Dignidade e privacidade preservadas mesmo depois do consentimento — o que limita quantas pessoas entram, quanto se expõe e por quanto tempo. E proibição de discriminar quem recusa, que é a parte que dá realidade à primeira: consentimento obtido de alguém que teme represália não é consentimento.

Desse artigo decorre logicamente o dever de se apresentar. Não há como consentir com a participação de estudantes sem saber que há estudantes. Dizer nome e condição não é modéstia — é a condição de possibilidade do consentimento que a norma exige.

Há também a regra que menciona o aluno de forma expressa, no capítulo do sigilo: é vedado ao médico deixar de orientar seus auxiliares e alunos a respeitar o sigilo profissional e zelar para que seja por eles mantido. O estudante está dentro do dever, alcançado pela responsabilidade de quem supervisiona.

E há a regra de autoria, que costuma aparecer cedo na vida acadêmica: é vedado publicar em seu nome trabalho científico do qual não tenha participado, atribuir a si autoria exclusiva de trabalho realizado por subordinados ou outros profissionais, ainda que executados sob sua orientação, e omitir do artigo o nome de quem dele participou. Ela protege o estudante das duas formas de abuso mais comuns: ter o trabalho apropriado e ser convidado a assinar o que não fez.

Falta então o assunto que torna tudo isso difícil na prática, e ele tem medida. Uma revisão sistemática com meta-análise de 51 estudos encontrou que 59,4% dos estudantes e residentes de medicina relataram ao menos uma forma de assédio ou discriminação durante a formação (IC 95% 52,0% a 66,7%).

O assédio verbal foi a forma mais citada, com prevalência de 63,0% (IC 95% 54,8% a 71,2%). A fonte mais citada foram os médicos responsáveis pelo ensino, com 34,4%, seguidos por pacientes ou familiares, com 21,9%. E os autores destacam que a prevalência não diminuiu ao longo do tempo, recomendando políticas institucionais e mudança de cultura.

Esse último ponto é o que dá ao capítulo o seu tom. A dificuldade de recusar uma tarefa indevida não é fraqueza individual: ela ocorre em um ambiente em que a maioria já relatou assédio e em que a fonte mais frequente é justamente quem avalia. Tratar a recusa como simples questão de coragem ignora a estrutura que a torna cara.

A consequência prática é que a recusa precisa ser preparada, e não improvisada. Uma frase curta ensaiada antes, uma alternativa oferecida — posso acompanhar, você supervisiona? —, e o conhecimento prévio de para quem escalar. Quem chega ao momento sem nada disso tende a aceitar e a se recriminar depois.

Cabe a ressalva metodológica: os estudos incluídos são majoritariamente transversais, com prevalências autorrelatadas e definições variáveis do que conta como assédio, o que explica os intervalos de confiança amplos. O que a evidência sustenta com segurança não é o valor exato, e sim que a experiência é majoritária e não vem diminuindo.

Encerrando a apostila, vale amarrar. Os capítulos anteriores trataram de princípios que colidem, de consentimento que não acontece, de sigilo que vaza no elevador, de capacidade que ninguém avalia, de fim de vida discutido tarde demais e de conflitos de interesse que começam com um almoço. Este trata de quem está aprendendo tudo isso dentro de uma hierarquia. A regra que resume os sete é curta: o que você faz é seu, o paciente precisa saber quem você é, e nenhuma ordem torna certo o que era errado.

Estudante não herda autorização do supervisor para examinar, acessar prontuário ou realizar procedimento. Deve identificar seu papel, obter concordância, atuar dentro da competência e sob supervisão; avaliação acadêmica, hierarquia ou oportunidade de aprender não anulam direitos do paciente.

SinalMedidaValorFonte
Prevalência de assédio ou discriminação na formação médicaMeta-análise de 51 estudos, dentro de revisão sistemática com 57 estudos transversais e 2 de coorte. Prevalências autorrelatadas, com definições variáveis de assédio entre os estudos.59,4% dos estudantes e residentes relataram ao menos uma forma de assédio ou discriminação durante o treinamento (IC 95% 52,0% a 66,7%)Fnais N, Soobiah C, Chen MH, et al. Harassment and discrimination in medical training: a systematic review and meta-analysis. Acad Med. 2014;89(5):817-27. doi:10.1097/acm.0000000000000200
Forma mais frequente de assédio relatadaMesma revisão sistemática. É a forma mais comumente citada entre as modalidades avaliadas.Assédio verbal, com prevalência de 63,0% (IC 95% 54,8% a 71,2%)Fnais N, Soobiah C, Chen MH, et al. Harassment and discrimination in medical training: a systematic review and meta-analysis. Acad Med. 2014;89(5):817-27. doi:10.1097/acm.0000000000000200
Fontes mais citadas de assédio e discriminaçãoMesma revisão. Explica por que a recusa de uma tarefa indevida é custosa: a fonte mais frequente é também quem avalia o estudante.Os médicos responsáveis pelo ensino foram a fonte mais citada (34,4%), seguidos por pacientes ou seus familiares (21,9%)Fnais N, Soobiah C, Chen MH, et al. Harassment and discrimination in medical training: a systematic review and meta-analysis. Acad Med. 2014;89(5):817-27. doi:10.1097/acm.0000000000000200
Tendência ao longo do tempoMesma revisão. Sustenta que se trata de problema estrutural, e não de episódios isolados dependentes de indivíduos.A prevalência não declinou ao longo do tempo, e os autores recomendam tanto a elaboração de políticas quanto a mudança cultural nas instituições acadêmicasFnais N, Soobiah C, Chen MH, et al. Harassment and discrimination in medical training: a systematic review and meta-analysis. Acad Med. 2014;89(5):817-27. doi:10.1097/acm.0000000000000200
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O que o estudante pode, o que não pode e por quê

A fronteira é definida por regras escritas, e não pelo costume do serviço.

SituaçãoPode?Regra que se aplica
Examinar paciente sem se apresentarNãoSem saber que há estudante, o paciente não pôde consentir com a prática de ensino
Examinar após consentimento, com supervisãoSimConsentimento obtido, dignidade e privacidade preservadas
Insistir quando o paciente recusaNãoÉ vedado discriminar quem nega o consentimento solicitado
Executar ato exclusivo do médicoNãoÉ vedado ao médico delegar atos ou atribuições exclusivas da profissão
Evoluir leito que não examinouNãoÉ vedado assumir responsabilidade por ato médico que não praticou
Colher consentimento de procedimento que não sabe explicarNãoEsclarecimento cabe a quem domina procedimento, riscos e alternativas
Comentar caso em elevador ou grupo de mensagensNãoO médico deve orientar seus alunos quanto ao sigilo e zelar para que o mantenham
Assinar artigo de que não participouNãoÉ vedado publicar trabalho do qual não se participou
  • A responsabilidade médica é pessoal e não pode ser presumida — ordem recebida não transfere responsabilidade por ato executado.
  • 59,4% dos estudantes e residentes relataram assédio ou discriminação, e a fonte mais citada foi quem ensina. Por isso a recusa se prepara antes.
09

Erros que custam o achado

Concluir que o Código não se aplica porque não há registro
Ele alcança o estudante pelo supervisor, pela responsabilidade pessoal do que se executa e por artigos escritos para o contexto de ensino.
Entrar no quarto sem se apresentar
Não há consentimento para participação de estudantes sem que o paciente saiba que há estudantes. A apresentação é condição do consentimento, não cortesia.
Perguntar de um jeito que só comporta o sim
Pergunta feita diante do grupo, por quem cuida do paciente internado, não produz recusa possível. É vedado discriminar quem nega o consentimento.
Tratar o consentimento como autorização ilimitada
Dignidade e privacidade são obrigação separada: expor o mínimo, pelo tempo necessário, com o menor número de pessoas.
Aceitar ato exclusivo do médico porque quem pediu avalia você
A delegação é vedada e a aceitação não a valida. A hierarquia explica a dificuldade, mas não altera a regra.
Evoluir leito que não examinou
É vedado assumir responsabilidade por ato médico que não praticou ou do qual não participou — e aqui a irregularidade passa a ser também sua.
Colher consentimento de procedimento que não sabe explicar
O esclarecimento cabe a quem domina o procedimento, os riscos e as alternativas. A tarefa transfere a assinatura, não a competência.
Contar com coragem espontânea no momento
A recusa se prepara: uma frase curta, uma alternativa supervisionada e o canal para escalar. Quem chega sem nada disso costuma aceitar.
Transformar a recusa em debate público sobre o Código
Frase curta que nomeia o limite e oferece alternativa é mais eficaz do que argumentação em público, que vira disputa de autoridade.
Recusar tudo o que é novo
O erro simétrico: o limite é a competência supervisionada, não a ausência de exposição. Pedir supervisão resolve a maior parte dos casos.
Concluir que 'é assim mesmo' diante de humilhação
Assédio verbal foi relatado com prevalência de 63,0% e a prevalência total não caiu ao longo do tempo — o que descreve um problema estrutural, não um destino.
Aceitar autoria de cortesia
É vedado publicar trabalho do qual não se participou. E o mesmo artigo proíbe omitir quem participou — que é como o trabalho de estudante costuma desaparecer.
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Roteiro da estação

Do primeiro contato com o paciente até o relato de uma situação indevida.

  1. 01Apresentar-se pelo nome e pela condição de estudante
  2. 02Pedir consentimento para participar do atendimento
  3. 03Dizer explicitamente que recusar não muda nada no cuidado
  4. 04Expor o mínimo necessário, pelo tempo necessário
  5. 05Verificar se a tarefa pedida é ato exclusivo do médico
  6. 06Verificar se você saberia explicar e conduzir o que vem depois
  7. 07Recusar com frase curta e oferecer a versão supervisionada
  8. 08Registrar apenas o que você mesmo fez
  9. 09Guardar sigilo em corredor, elevador e mensagens
  10. 10Escalar ao preceptor, coordenação ou ouvidoria se a pressão persistir
  11. 11Anotar data, situação e presentes quando algo indevido ocorrer
  12. 12Recusar autoria de trabalho de que não participou
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Teste-se

Sorteando as questões…
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Agora faça no paciente

Homem de 70 anos está na enfermaria e, à beira do leito, a primeira coisa que você ouve é: "Doutor, voltei a ter febre à noite e o curativo da barriga está molhando de novo; e minha filha quer saber por que agora só entram aqui de avental e luva." Agora é sua vez: conduza a anamnese, examine e monte o seu raciocínio.

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Revisão espaçada

7 dias

Quais são as três obrigações contidas no artigo que trata da prática de medicina no exercício da docência? Por que se apresentar como estudante é condição do consentimento?

30 dias

59,4% dos estudantes e residentes relataram assédio ou discriminação, e a fonte mais citada foi quem ensina. Explique como esse dado muda a forma de preparar uma recusa — e por que 'a responsabilidade é pessoal e não presumida' corta nos dois sentidos para o estudante.

Código de Ética Médica – O Código e o estudante — Ciclo básico | OsceLabs