Função e Bases Moleculares › Sistemas integrados I: entregar oxigênio ao tecido
Mecânica ventilatória: pico e platô
Uma grandeza definida sob uma condição, medida fora dela
O caso
Asmático ventilado. O alarme de pressão dispara. Pico de 55. O reflexo é reduzir o volume corrente — o pulmão parece rígido. Platô de 22. O pulmão não está rígido coisa nenhuma. A diferença entre os dois números é 33 — e é toda de resistência.
E há um terceiro achado na tela: o fluxo expiratório não retorna a zero antes do próximo ciclo. O paciente não termina de soltar o ar que recebeu. Pico e platô não são duas versões do mesmo número: são respostas a perguntas diferentes.
O pico pergunta quanto custa empurrar o gás para dentro. O platô pergunta quanto o pulmão ficou distendido. E é a distensão que lesa o alvéolo, não o custo de empurrar. Só que há um detalhe que quase ninguém enuncia, e ele é o assunto deste capítulo.
O platô não é um instante do ciclo: é o resultado de uma manobra. Ele existe sob uma condição — fluxo zero e pressão equilibrada. E o monitor escreve "platô" no visor tenha essa condição sido cumprida ou não.
O mecanismo
Comece pelo que o ventilador precisa vencer para colocar gás dentro do tórax, porque são duas coisas, e não uma. A primeira é a resistência das vias aéreas. Ela só existe enquanto há fluxo. Parou o fluxo, some a resistência da conta.

A segunda é a elastância do sistema respiratório — a tendência do pulmão e da caixa a voltarem ao repouso. Ela depende do volume que já entrou, não da velocidade com que entrou. Agora as duas medidas.
O pico é registrado enquanto o gás está correndo. Ele soma as duas parcelas: o custo de vencer a resistência mais o custo de distender. O platô é registrado depois de parar o fluxo e esperar a pressão equilibrar. Sem fluxo, a parcela resistiva desaparece — o que sobra é a distensão.
E daí sai a leitura mais útil da beira do leito: pico menos platô é a componente resistiva. Cinquenta e cinco menos vinte e dois é trinta e três. Isso é broncoespasmo, secreção, tubo estreito ou mordido — não pulmão rígido.
E a consequência prática é grande: reduzir volume corrente por causa de um pico alto, com platô normal, é tratar o número errado. A pressão que distende o alvéolo é a de platô. É ela que entra no cálculo de lesão induzida pela ventilação.
Agora o ponto central do capítulo. O platô é uma grandeza definida por uma condição. Não é "a pressão no fim da inspiração": é a pressão quando o fluxo é zero e o sistema equilibrou.
Se a pausa for curta demais, a pressão ainda está caindo, e o número lido é maior que o platô verdadeiro. Se o paciente fizer esforço durante a pausa, o número não é do sistema passivo — é do sistema mais o paciente.
Nos dois casos o visor mostra a mesma etiqueta. E isso não é uma preocupação teórica. Ao construir uma ferramenta automatizada para auditar a manobra, os autores registram que as manobras manuais de pausa inspiratória para medida do platô sofrem de variabilidade significativa e que nenhuma ferramenta objetiva de avaliação existia.
Repare no que a ferramenta precisou classificar: eventos em manobras candidatas a confiáveis, manobras não confiáveis e eventos que nem são manobra de pausa — e, entre as candidatas, separar as com tempo de sustentação igual ou maior que 2 segundos das com tempo abaixo do limiar.
Existe, portanto, uma categoria inteira de números registrados como platô que não cumpriam a condição de platô. E, até então, não havia como saber quais. Essa é a lição, na forma geral: uma grandeza definida sob uma condição, medida fora dela, continua sendo anotada com o mesmo nome.
O rótulo sobrevive à condição. E, sobrevivendo, o número entra no prontuário, na evolução, no cálculo e na decisão — sem qualquer marca de que a condição falhou. É um parente próximo do zero convencionado do primeiro capítulo desta apostila. Lá, o número dependia de uma referência que ninguém registrava. Aqui, depende de uma manobra que ninguém audita.
Nos dois casos, o que falta no prontuário não é o valor: é a condição em que ele foi obtido. E há uma reviravolta: a condição de medida não é inerte — ela é, ela mesma, uma variável clínica.
Num ensaio randomizado com 36 pacientes operados em posição prona, comparando pausa inspiratória individualizada guiada pela pressão de distensão com pausa fixa de 10% do tempo inspiratório: O grupo com pausa individualizada teve aumento significativo da complacência do sistema respiratório e melhora da oxigenação, com redução significativa da pressão de platô e da pressão de distensão.
Mudar a duração da manobra mudou o número medido E a mecânica do paciente. E noutro estudo, com 18 adultos em cirurgia robótica submetidos consecutivamente a pausas de 30%, 40% e 10%: a pausa de 10% associou-se a maior espaço morto fisiológico — 210 mL contra 197 e 196,8 mL antes do pneumoperitônio, e 212 contra 202 mL depois.
A manobra de medir participa do que está sendo medido. Isso não é artefato: é fisiologia — e é preciso decidir a pausa, não herdá-la do ajuste de fábrica. Agora a segunda camada do problema, que é onde ele fica perigoso.
A grandeza que orienta a ventilação protetora não é o platô sozinho: é a pressão de distensão — platô menos pressão expiratória final. Ou seja: uma grandeza derivada, que herda as condições das duas medidas que a compõem.
E, no paciente obstruído, a pressão expiratória que importa não é a ajustada no ventilador: é a total. A auto-PEEP é a pressão positiva que resta ao fim da expiração quando a exalação é incompleta e há aprisionamento aéreo — descrita em doença obstrutiva, frequências altas ou volumes correntes excessivos — e ela aumenta o trabalho respiratório e prejudica a hemodinâmica.
Repare que isso reencontra o capítulo do retorno venoso: o ar aprisionado eleva a pressão em volta do coração e fecha o gradiente de retorno. O mesmo paciente que não solta o ar é o que fica hipotenso.
E a auto-PEEP não aparece sozinha: exige uma pausa expiratória para ser medida. Se ela existe e você usa a pressão ajustada no cálculo, a pressão de distensão que você anota fica maior que a real — porque você subtraiu um número menor do que deveria.
Um erro de condição na primeira medida, outro na segunda, e a grandeza derivada carrega os dois. O mecanismo do aprisionamento aparece com clareza num modelo físico de via aérea adulta impressa em três dimensões, comparando via aérea normal com estenose circunferencial fixa de 90%:
A pressão expiratória final intrínseca foi consistentemente mais alta na via aérea estreitada e foi amplificada pelo aumento da pressão e da frequência, com acúmulo progressivo de pressão em alta frequência, e volume corrente caindo com o aumento da frequência.
Sendo modelo físico de bancada, isso licencia a direção do efeito, não a magnitude no paciente — mas a direção é exatamente a que a beira do leito precisa: aumentar a frequência num obstruído piora o aprisionamento.
E há um exemplo clínico que mostra por que ler o platô isolado engana. Naquele mesmo estudo com 18 pacientes, após recrutamento com pressão expiratória individualizada, a pressão de distensão caiu de 7 para 5 cmH2O — apesar de a pressão expiratória ter subido de 5 para 12 e de a pressão de platô ter subido de 12 para 17.
Quem olhasse só o platô concluiria piora. Quem olhou a diferença viu melhora. Dois números, duas perguntas — outra vez. A conduta que decorre disso é simples e quase nunca é feita: anote a condição junto com o valor.
Pausa de pelo menos 2 segundos, sem esforço do paciente, com fluxo em zero. E, se há sinal de aprisionamento, pausa expiratória para obter a pressão total antes de calcular a distensão. A pergunta que fica: este número foi obtido na condição em que ele é definido?
Pressões de pico e de platô só são comparáveis quando fluxo, volume, PEEP e esforço do paciente são conhecidos. O pico inclui componentes resistivo e elástico; o platô aproxima a pressão alveolar durante pausa inspiratória com fluxo zero e sem esforço. Auto-PEEP requer pausa expiratória e tempo suficiente, enquanto pressão de distensão depende da validade dessas condições e não separa pulmão de parede torácica. Uma medida tecnicamente correta pode, ainda assim, ocultar heterogeneidade regional.
O que o mecanismo explica
Seis perguntas diante de uma pressão alta no ventilador.
“O que o pico mede?”
A soma do custo de vencer a resistência com o custo de distender, enquanto há fluxo.
“O que o platô mede?”
Apenas a distensão, porque com fluxo zero a parcela resistiva desaparece.
“O que significa pico alto com platô normal?”
Componente resistiva elevada: broncoespasmo, secreção ou tubo obstruído, não pulmão rígido.
“Quando o número exibido não é platô?”
Quando a pausa é curta demais ou o paciente faz esforço durante a manobra.
“Por que a pressão de distensão pode ser calculada errado?”
Ela é derivada de duas medidas, e a pressão expiratória total exige pausa expiratória.
“Por que o obstruído fica hipotenso?”
O ar aprisionado eleva a pressão em volta do coração e fecha o gradiente de retorno.
Como se orientar
- Separar resistência de elastância
- Uma depende do fluxo; a outra, do volume.
- Calcular pico menos platô
- A diferença é a componente resistiva.
- Tratar o número certo
- A distensão lesa o alvéolo, não o custo de empurrar.
- Tratar o platô como manobra
- Ele exige fluxo zero e pressão equilibrada.
- Exigir tempo de sustentação
- Abaixo de 2 segundos o valor lido não é platô.
- Checar esforço do paciente
- Com esforço, a medida não é do sistema passivo.
- Medir a pressão expiratória total
- Com aprisionamento, exige pausa expiratória.
- Anotar a condição junto do valor
- O prontuário precisa registrar como o número foi obtido.
O raciocínio
Da resistência e da elastância à condição em que cada número é definido.
- 1
Nomear as duas oposições
Resistência das vias aéreas e elastância do sistema respiratório.
Erro comum: Tratar pressão de via aérea como grandeza única.
- 2
Ligar resistência ao fluxo
Ela só existe enquanto há gás correndo.
Erro comum: Esperar componente resistiva com fluxo parado.
- 3
Ligar elastância ao volume
Depende de quanto entrou, não da velocidade com que entrou.
Erro comum: Confundir pressão alta com pulmão necessariamente rígido.
- 4
Definir o pico
Registrado com fluxo, soma as duas parcelas.
Erro comum: Usar o pico para julgar distensão alveolar.
- 5
Definir o platô
Registrado após parar o fluxo e equilibrar a pressão, reflete a distensão.
Erro comum: Ler a pressão do fim da inspiração sem pausa e chamá-la de platô.
- 6
Calcular a diferença
Pico menos platô é a componente resistiva.
Erro comum: Ignorar a diferença e reagir apenas ao alarme.
- 7
Aplicar ao caso obstrutivo
Pico de 55 com platô de 22 indica resistência muito elevada.
Erro comum: Reduzir volume corrente por pico alto com platô normal.
- 8
Enunciar a condição do platô
Fluxo zero e pressão equilibrada, obtidos por manobra.
Erro comum: Tratar o platô como um instante do ciclo.
- 9
Identificar a pausa insuficiente
Abaixo do limiar de sustentação, a pressão ainda cai e o valor lido é maior que o platô.
Erro comum: Aceitar qualquer número exibido como platô.
- 10
Identificar o esforço do paciente
Oscilações durante a pausa indicam que a medida não é do sistema passivo.
Erro comum: Medir mecânica passiva em paciente com esforço ativo.
- 11
Reconhecer a variabilidade documentada
As manobras manuais têm variabilidade significativa e não havia ferramenta objetiva de avaliação.
Erro comum: Supor que a manobra é padronizada na prática.
- 12
Enunciar a lição
Grandeza definida sob condição, medida fora dela, mantém o mesmo nome.
Erro comum: Confiar no rótulo do visor como garantia de condição.
- 13
Notar que a condição não é inerte
Pausa individualizada aumentou complacência e reduziu platô e pressão de distensão.
Erro comum: Tratar a duração da pausa como detalhe técnico.
- 14
Ler o efeito sobre o espaço morto
Pausa de 10% associou-se a maior espaço morto que pausas de 30% e 40%.
Erro comum: Herdar a pausa do ajuste de fábrica.
- 15
Passar à grandeza derivada
Pressão de distensão é platô menos pressão expiratória final.
Erro comum: Calcular sem verificar as condições das duas parcelas.
- 16
Procurar aprisionamento
Fluxo expiratório que não retorna a zero indica exalação incompleta.
Erro comum: Ignorar a curva de fluxo ao interpretar pressões.
- 17
Medir a pressão expiratória total
A auto-PEEP exige pausa expiratória e altera o cálculo da distensão.
Erro comum: Usar a pressão ajustada quando há aprisionamento.
- 18
Ligar ao retorno venoso
O ar aprisionado aumenta o trabalho respiratório e prejudica a hemodinâmica.
Erro comum: Tratar hipotensão do obstruído sem revisar a ventilação.
- 19
Ler o modelo de bancada
Com estenose de 90%, a pressão intrínseca foi mais alta e amplificada por pressão e frequência.
Erro comum: Aumentar a frequência num obstruído esperando melhorar a ventilação.
- 20
Comparar platô e pressão de distensão
A distensão caiu de 7 para 5 enquanto o platô subiu de 12 para 17.
Erro comum: Concluir piora a partir do platô isolado.
Esperado e alterado
- Diferença pequena entre pressão de pico e de platô.
- Fluxo expiratório retornando a zero antes do próximo ciclo.
- Pausa inspiratória com pressão estabilizada por tempo suficiente.
- Pressão expiratória total igual à ajustada no ventilador.
- Pico de 55 com platô de 22
- Componente resistiva de 33: obstrução, e não pulmão rígido.
- Fluxo expiratório que não retorna a zero
- Exalação incompleta com aprisionamento aéreo e auto-PEEP.
- Pausa com tempo de sustentação abaixo de 2 segundos
- Pressão ainda em queda: o valor lido é maior que o platô verdadeiro.
- Oscilações de pressão durante a pausa
- Esforço do paciente: a medida não representa o sistema passivo.
- Pausa fixa de 10% do tempo inspiratório
- Associada a maior espaço morto fisiológico que pausas de 30% e 40%.
- Pressão de distensão calculada com pressão ajustada
- Superestima a distensão real quando existe auto-PEEP.
- Pressão intrínseca amplificada por frequência em via estreitada
- Aumentar a frequência agrava o aprisionamento.
- Platô subindo com pressão de distensão caindo
- Melhora mecânica que o platô isolado não mostra.
Por que isso importa
O ventilador vence duas coisas: a resistência das vias aéreas, que só existe enquanto há fluxo, e a elastância do sistema, que depende do volume que entrou. O pico é registrado com o gás correndo e soma as duas parcelas. O platô é registrado depois de parar o fluxo e esperar a pressão equilibrar — sem fluxo, a parcela resistiva some, e o que resta é a distensão.
Pico menos platô é a componente resistiva. Cinquenta e cinco menos vinte e dois é trinta e três: broncoespasmo, secreção ou tubo obstruído — não pulmão rígido. Reduzir volume corrente por um pico alto com platô normal é tratar o número errado.
A pressão que distende o alvéolo é a de platô — e é ela que entra na conta de lesão induzida pela ventilação. Agora o ponto central: o platô é uma grandeza definida por uma condição — fluxo zero e pressão equilibrada. Não é um instante do ciclo: é o resultado de uma manobra.
Se a pausa for curta demais, a pressão ainda está caindo e o número lido é maior que o platô verdadeiro. Se o paciente fizer esforço, o número é do sistema mais o paciente. E o visor mostra a mesma etiqueta nos dois casos.
Isso está documentado: as manobras manuais de pausa inspiratória sofrem de variabilidade significativa e nenhuma ferramenta objetiva de avaliação existia. A ferramenta construída precisou classificar manobras candidatas a confiáveis, manobras não confiáveis e eventos que nem são manobra, e separar as com tempo de sustentação igual ou maior que 2 segundos das abaixo do limiar.
Existe uma categoria inteira de números registrados como platô que não cumpriam a condição — e não havia como saber quais. A lição: uma grandeza definida sob uma condição, medida fora dela, continua sendo anotada com o mesmo nome. O rótulo sobrevive à condição — e o número entra no prontuário, no cálculo e na decisão sem marca de que a condição falhou.
É parente do zero convencionado do primeiro capítulo desta apostila: lá faltava a referência, aqui falta a auditoria da manobra. Nos dois casos, o que falta no prontuário não é o valor: é a condição em que ele foi obtido.
E a condição não é inerte. Num ensaio randomizado com 36 pacientes em posição prona, a pausa individualizada guiada pela pressão de distensão, comparada à pausa fixa de 10%, produziu aumento significativo da complacência, melhora da oxigenação e redução da pressão de platô e da pressão de distensão. E, em 18 adultos, a pausa de 10% associou-se a maior espaço morto — 210 mL contra 197 e 196,8 mL.
A manobra de medir participa do que está sendo medido: é preciso decidir a pausa, não herdá-la do ajuste de fábrica. Segunda camada: a grandeza que orienta a ventilação protetora é derivada — pressão de distensão é platô menos pressão expiratória final — e herda as condições das duas medidas.
E, no obstruído, a pressão expiratória que importa é a total. A auto-PEEP é a pressão que resta quando a exalação é incompleta e há aprisionamento, descrita em doença obstrutiva, frequências altas ou volumes excessivos, e ela aumenta o trabalho respiratório e prejudica a hemodinâmica — o mesmo paciente que não solta o ar é o que fica hipotenso.
Se há auto-PEEP e você usa a pressão ajustada, a pressão de distensão anotada fica maior que a real, porque subtraiu um número menor do que deveria. Um erro de condição na primeira medida, outro na segunda, e a derivada carrega os dois.
Num modelo físico de via aérea com estenose circunferencial fixa de 90%, a pressão expiratória intrínseca foi consistentemente mais alta na via estreitada e amplificada pelo aumento da pressão e da frequência, com volume corrente caindo com o aumento da frequência. Sendo bancada, licencia a direção, não a magnitude — e a direção é a que interessa: aumentar a frequência num obstruído piora o aprisionamento.
E há o exemplo que mostra por que ler o platô isolado engana: após recrutamento com pressão expiratória individualizada, a pressão de distensão caiu de 7 para 5 — apesar de a pressão expiratória subir de 5 para 12 e o platô subir de 12 para 17. Quem olhasse só o platô concluiria piora.
A conduta: anote a condição junto do valor. Pausa de pelo menos 2 segundos, sem esforço, com fluxo em zero; e, havendo aprisionamento, pausa expiratória para a pressão total antes de calcular a distensão. Este número foi obtido na condição em que ele é definido?
| Sinal | Medida | Valor | Fonte |
|---|---|---|---|
| Variabilidade e categorias de falha da manobra de platô | Estudo metodológico com rede neural convolucional aplicada a curvas de pressão, fluxo e volume de ventilação invasiva (E3, descritivo humano, sobre qualidade de medida). | A pausa inspiratória feita à mão para medir a pressão de platô varia muito entre operadores; um classificador automático separou manobras confiáveis, manobras falhas e eventos que nem são pausa com escores F1 de 0,92 a 0,99, e detectou com 100% de sensibilidade as pausas curtas demais, abaixo dos 2 segundos necessários. | Deep learning based automated assessment of end-inspiratory pause maneuver reliability in invasive mechanical ventilation. Physiol Meas. 2026. doi:10.1088/1361-6579/ae5e16 |
| A duração da pausa altera a mecânica medida | Ensaio clínico randomizado com desfechos de mecânica respiratória e de troca gasosa (E1, humano com desfecho medido). | Em ensaio randomizado com 36 pacientes operados de coluna em posição prona, individualizar a duração da pausa inspiratória pela pressão de distensão, em vez de fixá-la em 10% do tempo inspiratório, aumentou a complacência e a oxigenação e reduziu as pressões de platô e de distensão: a pausa não é detalhe da medida. | Effect of individualized end-inspiratory pause guided by driving pressure on respiratory mechanics during prone spinal surgery: a randomized controlled trial. Front Med. 2025. doi:10.3389/fmed.2025.1537788 |
| Pausa curta, espaço morto maior, e platô que sobe com distensão que cai | Estudo prospectivo pareado com medidas repetidas no mesmo paciente (E2, fisiológico humano in vivo). | Em 18 adultos sob cirurgia robótica, a pausa inspiratória de 10% do tempo elevou o espaço morto para 210 mL, contra cerca de 197 mL com pausas de 30% e 40%; o recrutamento com pressão expiratória individualizada subiu o platô de 12 para 17 cmH2O e baixou a distensão de 7 para 5: platô alto não é sinônimo de pulmão distendido. | Influence of the end inspiratory pause on ventilatory efficiency and respiratory mechanics in patients undergoing robotic surgery under a tailored open lung approach: a prospective-paired study. Anaesthesiol Intensive Ther. 2025. doi:10.5114/ait/209514 |
| Aprisionamento amplificado por pressão e frequência na via estreitada | Estudo experimental em modelo físico de bancada (E5, modelo não humano): licencia a DIREÇÃO do efeito, não a magnitude aplicada a pessoas. | Em modelo impresso de via aérea adulta com estenose de 90%, sob ventilação a jato a pressão motriz comandou pressão de via aérea, volume corrente e fluxo; na via estreitada a pressão expiratória final intrínseca foi sempre maior e crescia com pressão e frequência, enquanto o volume corrente caía: subir a frequência aprisiona ar em vez de ventilar. | Jet ventilation in severe airway stenosis: how pressure and frequency shape airway pressure and ventilation. BMC Anesthesiol. 2026. doi:10.1186/s12871-026-04075-5 |
Esquemas e tabelas
Duas medidas, duas perguntas e as condições que cada uma exige.
| Pico | Platô | |
|---|---|---|
| Momento da medida | Com fluxo correndo | Com fluxo em zero |
| O que inclui | Resistência mais distensão | Apenas distensão |
| Pergunta que responde | Quanto custa empurrar | Quanto o pulmão distendeu |
| Condição exigida | Nenhuma manobra | Pausa com pressão equilibrada |
Quando o valor exibido não é platô
| Situação | Efeito sobre o número |
|---|---|
| Pausa abaixo do limiar de sustentação | Valor maior que o platô verdadeiro |
| Esforço do paciente na pausa | Medida não representa o sistema passivo |
| Ausência de manobra | Não é platô, apesar do rótulo |
Condições herdadas pela pressão de distensão
| Parcela | Condição exigida |
|---|---|
| Pressão de platô | Pausa inspiratória adequada |
| Pressão expiratória total | Pausa expiratória quando há aprisionamento |
| Consequência do erro | Distensão calculada maior que a real |
- A duração da pausa altera complacência medida, platô, distensão e espaço morto.
- Pressão de platô pode subir enquanto a pressão de distensão cai.
Onde se erra
- Tratar pressão de via aérea como grandeza única
- Há uma parcela resistiva e uma elástica.
- Confundir pico alto com pulmão rígido
- O platô é que informa distensão.
- Reduzir volume corrente por pico alto
- Com platô normal, o problema é resistência.
- Tratar o platô como um instante do ciclo
- Ele é o resultado de uma manobra sob condição.
- Aceitar qualquer valor exibido como platô
- Pausa curta produz número maior que o verdadeiro.
- Medir mecânica passiva com esforço do paciente
- A medida passa a incluir o paciente.
- Supor que a manobra é padronizada
- A variabilidade das pausas manuais é significativa.
- Confiar no rótulo do visor
- O rótulo sobrevive à falha da condição.
- Tratar a duração da pausa como detalhe
- Ela alterou complacência, platô, distensão e espaço morto.
- Calcular distensão sem checar as parcelas
- A derivada herda as condições das duas medidas.
- Ignorar a curva de fluxo
- Fluxo que não zera indica aprisionamento.
- Usar a pressão ajustada com auto-PEEP
- A distensão calculada fica maior que a real.
- Aumentar a frequência no obstruído
- A pressão intrínseca é amplificada por pressão e frequência.
- Concluir piora pelo platô isolado
- A distensão caiu enquanto o platô subiu.
Roteiro do raciocínio
Da resistência e da elastância à auditoria da condição de medida.
- 01Nomear as duas oposições ao gás
- 02Ligar resistência ao fluxo
- 03Ligar elastância ao volume
- 04Definir o pico
- 05Definir o platô
- 06Calcular a componente resistiva
- 07Aplicar ao caso obstrutivo
- 08Enunciar a condição do platô
- 09Identificar pausa insuficiente
- 10Identificar esforço do paciente
- 11Reconhecer a variabilidade documentada
- 12Enunciar a lição do rótulo que sobrevive
- 13Notar que a condição não é inerte
- 14Ler o efeito da pausa sobre o espaço morto
- 15Passar à grandeza derivada
- 16Procurar aprisionamento na curva de fluxo
- 17Medir a pressão expiratória total
- 18Comparar platô e pressão de distensão
Teste-se
Leve para o paciente
Homem de 60 anos está na UTI e, à beira do leito, a primeira coisa que você ouve é: "Paciente intubado na UTI, com a pressão caindo apesar do aumento da droga vasoativa nas últimas horas." Agora é sua vez: conduza a anamnese, examine e monte o seu raciocínio.
Revisão espaçada
O que significa pico alto com platô normal? Que condição define o platô? Por que a curva de fluxo expiratório importa?
Explique por que uma grandeza definida sob condição continua sendo anotada com o mesmo nome quando a condição falha — e como isso contamina a pressão de distensão.
