Função e Bases Moleculares › Herança e transmissão: o que a família diz antes do exame
Câncer: herdado e adquirido
O sujeito da inferência mudou
O caso
Homem jovem, câncer colorretal. A imuno-histoquímica do tumor volta com perda de MLH1. No corredor, alguém já diz a palavra: Lynch. E a consequência é imediata — irmãos em colonoscopia a partir dos vinte e poucos anos, para o resto da vida.
Só que o exame que gerou essa frase foi feito no tumor. Quando se testou o sangue, não havia variante germinativa. As duas cópias do gene foram perdidas dentro daquela célula, ao longo da vida dele.
A alteração é do tumor. Não é do homem. E não é da família. Os irmãos não precisavam daquela colonoscopia. E isso não é caso raro. Entre pacientes com deficiência de reparo ou instabilidade de microssatélites, até 50% não têm mutação germinativa em genes de reparo, nem mutação em BRAF, nem metilação do promotor de MLH1.
Metade dos laudos que soam hereditários não é explicada pelo teste hereditário. Há um caso que mostra o problema de forma quase experimental. Uma paciente com dois tumores colorretais primários sincrônicos: O de cólon ascendente com reparo deficiente — MLH1 e PMS2 ausentes, MSH2 e MSH6 preservados. O retal com reparo proficiente — as quatro proteínas presentes.
A mesma pessoa. O mesmo dia. Dois status moleculares opostos. Se o achado fosse uma propriedade da paciente, os dois tumores teriam o mesmo resultado. Um laudo de tumor não fala sobre o paciente. Fala sobre um clone de células.
O mecanismo
Este capítulo fecha o bloco com a distinção que organiza toda a genética do câncer, e ela é sobre onde a alteração mora. Uma variante germinativa veio de um gameta. Ela estava no zigoto e, portanto, está em todas as células do corpo — inclusive nas que virarão gametas. É transmissível, e é da linhagem.

Uma variante somática apareceu numa célula durante a vida. Está apenas nas descendentes daquela célula — no tumor. Não está no resto do corpo e não vai para os filhos. Agora o problema clínico: as duas produzem exatamente a mesma imagem no microscópio.
A imuno-histoquímica do tumor mostra que a proteína de reparo sumiu daquelas células. Ela não diz por quê, nem desde quando, nem em quem mais. A perda de MLH1 num tumor é o mesmo achado nos dois mundos.
E há três rotas que chegam a essa mesma fotografia — vale conhecê-las porque cada uma tem uma consequência familiar diferente. Rota 1 — herdada. Uma variante germinativa deixa a pessoa com uma cópia funcionante em todas as células; um evento somático apaga a segunda cópia numa delas, e ali nasce o tumor.
Repare que isso é a lógica de reserva que este bloco já usou: a família herda a fragilidade, não o tumor. Rota 2 — esporádica, e é epigenética. O promotor de MLH1 é hipermetilado numa célula somática, silenciando o gene sem alterar uma letra.
É a mesma química do capítulo anterior — só que aqui a marca não veio de imprinting, e sim de um evento adquirido numa célula do intestino. A mesma ferramenta molecular, outro contexto, outra consequência. Rota 3 — duas mutações somáticas. As duas cópias são perdidas dentro da mesma célula, uma de cada vez, sem nada de herdado. O tumor fica idêntico ao hereditário, e o sangue está limpo.
Essa terceira rota é a que explica os laudos que confundem. E o tamanho dela é grande: até 50% dos casos com deficiência de reparo ou instabilidade de microssatélites não têm variante germinativa, nem BRAF mutado, nem metilação do promotor de MLH1 — o que recebeu o nome de síndrome de Lynch-símile.
Agora a demonstração que transforma isso de argumento em prova. Uma paciente com dois adenocarcinomas colorretais primários sincrônicos, investigada de forma sistemática — imuno-histoquímica, BRAF V600E, sequenciamento germinativo dirigido a genes de reparo, metilação do promotor de MLH1 e fenotipagem dos linfonodos regionais.
O tumor de cólon ascendente: reparo deficiente, MLH1 e PMS2 ausentes, MSH2 e MSH6 preservados, BRAF selvagem, metilação do promotor negativa tanto no tumor quanto no sangue periférico. O tumor retal: reparo proficiente, as quatro proteínas presentes, adjacente a uma lesão serrilhada séssil.
E o sequenciamento germinativo sem variantes patogênicas. Dois tumores, na mesma pessoa, no mesmo tempo, com status opostos. Isso encerra a discussão sobre o nível do achado: ele é do clone. E o estudo foi além, de um jeito que muda a conduta. Os linfonodos regionais metastáticos mostraram fenótipo proficiente — compatível com o tumor retal, indicando maior potencial metastático da lesão retal.
A metástase também tem endereço. Não foi "a paciente" que metastatizou: foi um dos dois clones — e saber qual orientou o tratamento. Não houve recorrência nem metástase em 24 meses. E isso não é peculiaridade de um caso: registra-se heterogeneidade de expressão das proteínas de reparo, de status de instabilidade e de metilação do promotor entre tumores de sítios diferentes no mesmo paciente.
Agora a lição, e ela é a mais geral deste bloco. Todo resultado responde a uma pergunta sobre um sujeito determinado. O laudo do tumor fala de um clone de células. O laudo do sangue fala da pessoa — e, através dela, da família.
Confundir os dois é promover o sujeito da frase sem trocar a evidência. De "este clone perdeu MLH1" para "esta família tem Lynch" há uma escada inteira: célula → clone → órgão → indivíduo → linhagem. E o erro custa nos dois sentidos.
Promovendo demais: uma família inteira entra em vigilância intensiva por décadas por causa de um evento que aconteceu numa única célula de uma pessoa. Rebaixando demais: assumir que é somático sem testar deixa uma família de risco real sem proteção.
Nenhum dos dois erros é conservador. Os dois são erros de nível. E aqui vem a complicação honesta, que impede a lição de virar simplismo. "Não achamos variante germinativa" não é o mesmo que "não há variante germinativa".
A resposta negativa tem o mesmo endereço que a pergunta: ela vale para os genes que foram olhados. Quando se ampliou a busca — sequenciamento de exoma germinativo em 102 participantes com Lynch-símile —, apareceram nove variantes raras de perda de função em genes de reparo de DNA, três delas em helicases da família RecQ, e os pacientes mostraram maior carga mutacional em genes de reparo em vários fenótipos de câncer.
E a funcionalidade foi testada, não apenas anotada: células com essas variantes tiveram expressão reduzida de gene e proteína e aumento da fosforilação de H2AX após irradiação, indicando reparo prejudicado. Isso é o padrão que este bloco vem exigindo: não basta encontrar a variante — é preciso mostrar que ela faz o que se diz que faz.
E clinicamente esses pacientes desenvolvem câncer colorretal mais cedo, têm história familiar mais forte e respondem melhor à imunoterapia que os casos esporádicos. Ou seja: o painel negativo devolve o sujeito ao clone; a história familiar continua sendo um dado independente que pode devolvê-lo à linhagem. Uma coisa não anula a outra — elas são evidências de níveis diferentes.
E até a camada somática carrega informação sobre a rota: comparando 49 tumores de Lynch ou Lynch-símile com 96 esporádicos com instabilidade alta, encontraram-se 11 regiões gênicas significativamente enriquecidas nos primeiros, com um painel de variantes atingindo área sob a curva de 0,85.
Repare no que isso é e no que não é: uma inferência sobre o tumor que levanta uma hipótese sobre a pessoa. Levantar hipótese não é substituir o teste germinativo. Por fim, o que fecha o capítulo de forma construtiva.
Cada nível tem a sua utilidade — e o achado somático, que não serve para a família, serve para o tratamento. Um homem de 39 anos com adenocarcinoma de esôfago cervical irressecável e reparo deficiente por mutação somática dupla de MLH1 foi tratado com quimioterapia, imunoterapia e radioterapia de alta dose, e alcançou remissão completa, sem evidência de recorrência ao longo de três anos.
O mesmo achado que era irrelevante para os irmãos foi decisivo para ele. O nível certo não é o mais alto nem o mais baixo: é o que responde à pergunta que se está fazendo.
E vale lembrar o custo de não testar: mesmo com recomendação de testagem universal em todos os cânceres colorretais recém-diagnosticados, os casos com deficiência de reparo permanecem subdiagnosticados e subtratados. A pergunta que fica: de quem é esta alteração — daquele clone, daquele paciente, ou daquela família?
Predisposição hereditária e transformação somática pertencem à mesma história, mas não são equivalentes. Uma variante germinativa pode colocar todas as células um passo mais perto de perder controle, enquanto alterações adquiridas selecionadas em um clone completam diferentes trajetórias. O modelo dos dois eventos explica bem alguns genes supressores, porém não é regra literal para todo gene ou tumor. Resultado germinativo deve ser interpretado com penetrância e história familiar; resultado tumoral pode orientar o clone sem provar que a alteração foi herdada.
O que o mecanismo explica
Seis perguntas que devolvem o sujeito a cada achado.
“Qual a diferença entre variante germinativa e somática?”
A germinativa está em todas as células e é transmissível; a somática está só nas descendentes daquela célula.
“A imuno-histoquímica do tumor distingue as duas?”
Não: a perda da proteína de reparo produz a mesma imagem nos dois casos.
“Quais são as rotas para o mesmo achado?”
Variante herdada com segundo evento somático, hipermetilação do promotor, ou duas mutações somáticas.
“Qual o tamanho do problema?”
Até 50% dos casos com deficiência de reparo não têm variante germinativa, BRAF mutado nem metilação do promotor.
“Como se prova que o achado é do clone?”
Dois tumores sincrônicos na mesma paciente tiveram status de reparo opostos.
“Painel germinativo negativo encerra a discussão familiar?”
Não: o negativo vale para os genes testados, e o exoma revelou variantes em outros genes de reparo.
Como se orientar
- Perguntar onde a alteração mora
- Em todas as células ou apenas nas descendentes de uma.
- Não ler o tumor como se fosse o paciente
- A imuno-histoquímica descreve um clone de células.
- Conhecer as três rotas
- Herdada com segundo evento, metilação do promotor, ou duas mutações somáticas.
- Testar o sangue antes de rotular a família
- Metade dos laudos que soam hereditários não é explicada pelo teste hereditário.
- Aceitar heterogeneidade entre lesões
- Sítios diferentes no mesmo paciente podem ter status diferentes.
- Fenotipar o linfonodo quando há duas lesões
- Ele indica de qual clone veio a metástase.
- Ler o negativo com o endereço da pergunta
- Vale para os genes que foram olhados.
- Usar cada nível para o que ele serve
- O somático orienta tratamento; o germinativo orienta a família.
O raciocínio
Da localização da alteração à identificação do sujeito de cada inferência.
- 1
Definir germinativa
Veio de um gameta, está em todas as células e é transmissível aos filhos.
Erro comum: Chamar de hereditária qualquer alteração encontrada num exame genético.
- 2
Definir somática
Apareceu numa célula durante a vida e está apenas nas suas descendentes.
Erro comum: Supor que toda alteração de gene de reparo é transmissível.
- 3
Reconhecer a ambiguidade da lâmina
A perda da proteína de reparo no tumor produz a mesma imagem nas duas situações.
Erro comum: Tratar a imuno-histoquímica como teste de herança.
- 4
Descrever a rota herdada
Uma cópia alterada em todas as células e um evento somático apagando a segunda numa delas.
Erro comum: Imaginar que o tumor em si é herdado.
- 5
Descrever a rota epigenética
Hipermetilação do promotor silencia o gene numa célula somática, sem alterar uma letra.
Erro comum: Procurar variante de sequência quando o gene foi silenciado por marca.
- 6
Descrever a rota duplamente somática
As duas cópias são perdidas dentro da mesma célula, com sangue limpo.
Erro comum: Excluir essa possibilidade antes de testar o sangue.
- 7
Dimensionar
Até 50% dos casos com deficiência de reparo ou instabilidade não têm variante germinativa, BRAF mutado nem metilação do promotor.
Erro comum: Assumir que o achado tumoral implica síndrome hereditária.
- 8
Ler a prova dos tumores sincrônicos
Cólon ascendente com reparo deficiente e reto com reparo proficiente na mesma paciente, com germinativo negativo.
Erro comum: Generalizar o status de uma lesão para todas as lesões do paciente.
- 9
Ler o linfonodo
Os linfonodos regionais metastáticos tinham fenótipo proficiente, compatível com o tumor retal, indicando maior potencial metastático dessa lesão.
Erro comum: Atribuir a metástase ao paciente em vez de a um clone identificável.
- 10
Aceitar a heterogeneidade
Há heterogeneidade de expressão, de instabilidade e de metilação entre tumores de sítios diferentes no mesmo paciente.
Erro comum: Fazer perfil molecular de uma lesão e extrapolar para as demais.
- 11
Nomear a escada
Célula, clone, órgão, indivíduo e linhagem são níveis distintos de sujeito.
Erro comum: Trocar de nível sem trocar de evidência.
- 12
Medir o custo de promover demais
Uma família inteira em vigilância por décadas por um evento ocorrido numa célula.
Erro comum: Rotular a família a partir do laudo do tumor.
- 13
Medir o custo de rebaixar demais
Assumir origem somática sem testar deixa família de risco real desprotegida.
Erro comum: Confundir prudência com omissão de teste.
- 14
Ler o negativo corretamente
Não achamos não é o mesmo que não há: o negativo vale para os genes testados.
Erro comum: Encerrar a investigação familiar com painel restrito negativo.
- 15
Ampliar a busca quando indicado
Exoma germinativo em 102 participantes revelou nove variantes raras de perda de função em genes de reparo, três em helicases RecQ.
Erro comum: Restringir a busca aos genes clássicos diante de história familiar forte.
- 16
Exigir verificação funcional
Células com essas variantes mostraram expressão reduzida e aumento da fosforilação de H2AX após irradiação.
Erro comum: Aceitar a anotação da variante sem demonstração de efeito.
- 17
Usar a história familiar como evidência própria
Esses pacientes desenvolvem câncer mais cedo, têm história familiar mais forte e respondem melhor à imunoterapia que os esporádicos.
Erro comum: Deixar a história familiar ser anulada por um painel negativo.
- 18
Ler a camada somática pelo que ela é
Onze regiões gênicas enriquecidas discriminaram 49 tumores de Lynch ou Lynch-símile de 96 esporádicos, com área sob a curva de 0,85.
Erro comum: Substituir o teste germinativo por assinatura somática.
- 19
Aproveitar o nível somático para tratar
Adenocarcinoma irressecável com deficiência por mutação somática dupla alcançou remissão completa sem recorrência ao longo de três anos.
Erro comum: Descartar o achado somático como irrelevante por não afetar a família.
- 20
Testar todo mundo
Apesar da recomendação de testagem universal nos cânceres colorretais recém-diagnosticados, os casos com deficiência de reparo seguem subdiagnosticados e subtratados.
Erro comum: Reservar a testagem aos casos com história familiar chamativa.
Esperado e alterado
- Expressão preservada das quatro proteínas de reparo no tumor.
- Ausência de variante patogênica no sequenciamento germinativo.
- Concordância de fenótipo entre tumor primário e linfonodo do mesmo clone.
- Promotor de MLH1 não metilado em tecido normal.
- Perda de MLH1 e PMS2 na imuno-histoquímica do tumor
- Deficiência de reparo naquele clone, sem informar a origem germinativa ou somática.
- Sequenciamento germinativo negativo com tumor deficiente
- Compatível com Lynch-símile, incluindo a rota de duas mutações somáticas.
- Até 50% dos casos sem variante germinativa, BRAF ou metilação
- Metade dos laudos com aparência hereditária não é explicada pelo teste hereditário.
- Dois tumores sincrônicos com status de reparo opostos
- O achado molecular é propriedade do clone, não do paciente.
- Linfonodo metastático com fenótipo do tumor retal
- Identifica qual clone metastatizou e orienta a decisão terapêutica.
- Nove variantes raras de perda de função no exoma germinativo
- O negativo do painel restrito não excluía predisposição hereditária.
- Aumento da fosforilação de H2AX após irradiação
- Demonstração funcional de reparo prejudicado, além da anotação da variante.
- Assinatura somática discriminando com área sob a curva de 0,85
- Levanta hipótese sobre a rota, sem substituir o teste germinativo.
Por que isso importa
Uma variante germinativa veio de um gameta: está em todas as células, inclusive nas que virarão gametas — é transmissível e é da linhagem. Uma variante somática apareceu numa célula durante a vida: está apenas nas descendentes dela, no tumor, e não vai para os filhos.
E as duas produzem exatamente a mesma imagem no microscópio. A imuno-histoquímica mostra que a proteína de reparo sumiu daquelas células — não diz por quê, nem desde quando, nem em quem mais. Três rotas chegam à mesma fotografia. Herdada: uma cópia alterada em todas as células mais um evento somático apagando a segunda — a família herda a fragilidade, não o tumor. Epigenética: hipermetilação do promotor de MLH1 numa célula somática, silenciando o gene sem alterar uma letra — a mesma química do imprinting, aqui como evento adquirido. Duplamente somática: as duas cópias perdidas dentro da mesma célula, com o sangue limpo.
E a terceira rota é grande: até 50% dos casos com deficiência de reparo ou instabilidade de microssatélites não têm variante germinativa, nem BRAF mutado, nem metilação do promotor — a chamada síndrome de Lynch-símile. Metade dos laudos que soam hereditários não é explicada pelo teste hereditário.
A prova de que o achado é do clone veio quase experimental: uma paciente com dois adenocarcinomas colorretais primários sincrônicos — cólon ascendente com reparo deficiente (MLH1 e PMS2 ausentes, MSH2 e MSH6 preservados, BRAF selvagem, metilação do promotor negativa no tumor e no sangue), reto com reparo proficiente (as quatro presentes), e sequenciamento germinativo sem variantes patogênicas.
Mesma pessoa, mesmo tempo, status opostos. Se o achado fosse propriedade da paciente, os dois seriam iguais. E o estudo foi além: os linfonodos regionais metastáticos tinham fenótipo proficiente, compatível com o tumor retal, indicando maior potencial metastático dessa lesão e orientando o tratamento — sem recorrência em 24 meses. A metástase também tem endereço: não foi a paciente que metastatizou, foi um dos dois clones.
A lição geral: todo resultado responde a uma pergunta sobre um sujeito determinado. O laudo do tumor fala de um clone; o do sangue fala da pessoa e, por ela, da família. Confundir os dois é promover o sujeito da frase sem trocar a evidência — de "este clone perdeu MLH1" para "esta família tem Lynch" há uma escada: célula → clone → órgão → indivíduo → linhagem.
E o erro custa nos dois sentidos. Promovendo demais, uma família inteira entra em vigilância por décadas por um evento ocorrido numa única célula. Rebaixando demais, assumir origem somática sem testar deixa uma família de risco real sem proteção. Nenhum dos dois é conservador: os dois são erros de nível.
E a complicação honesta: "não achamos variante germinativa" não é "não há variante germinativa". O negativo tem o mesmo endereço que a pergunta — vale para os genes que foram olhados. Ampliando a busca — exoma germinativo em 102 participantes —, apareceram nove variantes raras de perda de função em genes de reparo, três em helicases da família RecQ, com maior carga mutacional em genes de reparo. E a função foi testada, não apenas anotada: células com essas variantes tiveram expressão reduzida de gene e proteína e aumento da fosforilação de H2AX após irradiação, indicando reparo prejudicado. Não basta encontrar a variante — é preciso mostrar que ela faz o que se diz que faz.
Clinicamente, esses pacientes desenvolvem câncer colorretal mais cedo, têm história familiar mais forte e respondem melhor à imunoterapia que os esporádicos. O painel negativo devolve o sujeito ao clone; a história familiar continua sendo evidência de outro nível, que pode devolvê-lo à linhagem.
Até a camada somática informa a rota: comparando 49 tumores de Lynch ou Lynch-símile com 96 esporádicos com instabilidade alta, 11 regiões gênicas significativamente enriquecidas, com painel atingindo área sob a curva de 0,85. É uma inferência sobre o tumor que levanta hipótese sobre a pessoa — e levantar hipótese não é substituir o teste germinativo.
Cada nível tem a sua utilidade. Um homem de 39 anos com adenocarcinoma de esôfago cervical irressecável, com deficiência por mutação somática dupla de MLH1, tratado com quimioterapia, imunoterapia e radioterapia de alta dose, alcançou remissão completa sem recorrência ao longo de três anos. O mesmo achado que era irrelevante para os irmãos foi decisivo para ele.
O nível certo não é o mais alto nem o mais baixo: é o que responde à pergunta que se está fazendo. E o custo de não testar é real: mesmo com testagem universal recomendada em todos os cânceres colorretais recém-diagnosticados, os casos com deficiência de reparo seguem subdiagnosticados e subtratados. De quem é esta alteração — daquele clone, daquele paciente, ou daquela família?
| Sinal | Medida | Valor | Fonte |
|---|---|---|---|
| Proporção sem explicação germinativa nem esporádica clássica | Relato de quatro casos com revisão de literatura (E7, índice de síntese, com casos humanos descritos). | Entre os cânceres colorretais com deficiência de reparo de erros de pareamento ou instabilidade de microssatélites, até 50% não têm mutação germinativa nos genes de reparo, nem BRAF mutado, nem metilação do promotor de MLH1: é a síndrome de Lynch-símile, em que as mutações aparecem no tumor e não no tecido normal. | Pathological diagnosis experience and literature review of four cases suspected Lynch-like syndrome. Front Oncol. 2025. doi:10.3389/fonc.2025.1608253 |
| Status de reparo discordante entre dois tumores do mesmo paciente | Relato de caso com caracterização molecular lesão a lesão e fenotipagem de linfonodo regional (E3, descritivo humano). | Em paciente de 67 anos com 2 adenocarcinomas colorretais sincrônicos, o tumor do cólon ascendente tinha reparo deficiente, com perda de MLH1 e PMS2, e o retal reparo proficiente, sem variante germinativa nem metilação de MLH1; a discordância entre tumores do mesmo paciente orientou a conduta, sem recorrência em 24 meses. | Case Report: Synchronous colorectal adenocarcinomas with discordant mismatch repair status: a case of Lynch-like syndrome and serrated pathway association. Front Oncol. 2026. doi:10.3389/fonc.2026.1770875 |
| Predisposição germinativa fora dos genes clássicos | Sequenciamento germinativo humano combinado a verificação funcional em modelos celulares (E3 combinado a E4). | No exoma germinativo de 102 pacientes com síndrome de Lynch-símile, foram identificadas 9 variantes raras de perda de função em genes de reparo de DNA, 3 delas em helicases da família RecQ, com reparo prejudicado in vitro; esses pacientes adoecem mais cedo, têm história familiar mais forte e respondem melhor à imunoterapia. | RecQ DNA helicases germline variants in Lynch-like syndrome. Genet Med Open. 2026. doi:10.1016/j.gimo.2026.104400 |
| Assinatura somática que distingue as rotas | Estudo de sequenciamento de exoma completo com análise pareada tumor-normal (E3, descritivo humano). | No exoma de 49 tumores colorretais de síndrome de Lynch ou Lynch-símile contra 96 esporádicos com instabilidade de microssatélites alta, 11 regiões gênicas apareceram enriquecidas nos hereditários, e um painel baseado nelas separou os grupos com área sob a curva de 0,85. | Identification of the Lynch syndrome and Lynch-like syndrome specific somatic mutations in microsatellite instability-high colorectal cancer cases. Surg Today. 2026. doi:10.1007/s00595-025-03212-w |
| Utilidade terapêutica do achado somático | Relato de caso (E3, descritivo humano), num subtipo descrito pelos autores como extremamente raro e sem dados de grandes ensaios randomizados. | Homem de 39 anos com adenocarcinoma de esôfago cervical localmente avançado e irressecável, com reparo de erros de pareamento deficiente causado por mutação somática dupla do gene MLH1, tratado com quimioterapia e imunoterapia combinadas a radioterapia de alta dose, alcançou remissão completa sem evidência de recorrência ao longo de três anos após o diagnóstico inicial | Case Report: Successful treatment of mismatch repair-deficient cervical esophageal adenocarcinoma with immune checkpoint inhibition. Front Oncol. 2026. doi:10.3389/fonc.2026.1826912 |
| Lacuna entre recomendação e prática | Revisão de prevenção, diagnóstico, tratamento e manejo (E7, índice de síntese). | Apesar da recomendação de testagem universal em todos os cânceres colorretais recém-diagnosticados, os casos com deficiência de reparo de erros de pareamento ainda são em geral subdiagnosticados e subtratados na prática clínica atual, num grupo que abrange formas hereditárias, formas esporádicas e a síndrome de Lynch-símile, descrita como tendo características tanto hereditárias quanto esporádicas | Colorectal cancers associated with mismatch repair deficiency. Front Med. 2025. doi:10.3389/fmed.2025.1649565 |
Esquemas e tabelas
Três rotas para o mesmo laudo e uma escada de sujeitos.
| Rota | Sangue | Consequência para a família |
|---|---|---|
| Germinativa com segundo evento | Variante presente | Vigilância indicada |
| Metilação do promotor | Sem variante | Sem implicação familiar |
| Duas mutações somáticas | Sem variante | Sem implicação familiar direta |
| Variante em outro gene de reparo | Só aparece em busca ampliada | Reabre a discussão |
A escada do sujeito
| Nível | Exame que fala dele |
|---|---|
| Clone | Imuno-histoquímica e sequenciamento do tumor |
| Indivíduo | Sequenciamento germinativo |
| Linhagem | Germinativo mais história familiar |
Para que serve cada nível
| Nível | Uso |
|---|---|
| Somático | Escolha de tratamento no paciente |
| Germinativo | Vigilância e aconselhamento da família |
| História familiar | Evidência independente do painel |
- Perfil molecular de uma lesão não vale para outra lesão do mesmo paciente.
- Negativo de painel restrito não exclui predisposição hereditária.
Onde se erra
- Chamar de hereditária toda alteração genética achada
- A do tumor pode ter surgido em vida numa única célula.
- Tratar a imuno-histoquímica como teste de herança
- A imagem é a mesma nas duas origens.
- Esquecer a rota epigenética
- Hipermetilação do promotor silencia sem alterar a sequência.
- Excluir a rota duplamente somática
- Ela responde por boa parte dos casos com sangue limpo.
- Rotular a família pelo laudo do tumor
- Até metade não é explicada pelo teste hereditário.
- Extrapolar o perfil de uma lesão
- Tumores de sítios diferentes podem ter status opostos.
- Atribuir a metástase ao paciente
- O linfonodo identifica de qual clone ela veio.
- Trocar de nível sem trocar de evidência
- Clone, indivíduo e linhagem são sujeitos distintos.
- Achar que rebaixar é conservador
- Assumir somático sem testar desprotege família de risco.
- Ler não achamos como não há
- O negativo vale para os genes testados.
- Restringir a busca diante de história familiar forte
- O exoma revelou variantes fora dos genes clássicos.
- Aceitar a variante sem demonstração funcional
- Foi preciso mostrar reparo prejudicado após irradiação.
- Substituir o germinativo por assinatura somática
- Ela levanta hipótese, não conclui sobre a linhagem.
- Descartar o achado somático como irrelevante
- Ele orientou tratamento com remissão completa em três anos.
- Reservar a testagem a quem tem história chamativa
- A recomendação é universal, e ainda assim há subdiagnóstico.
Roteiro do raciocínio
Da localização da alteração à identificação do sujeito de cada inferência.
- 01Definir variante germinativa
- 02Definir variante somática
- 03Reconhecer a ambiguidade da lâmina
- 04Descrever a rota herdada
- 05Descrever a rota epigenética
- 06Descrever a rota duplamente somática
- 07Dimensionar a proporção sem explicação clássica
- 08Ler a prova dos tumores sincrônicos
- 09Ler o fenótipo do linfonodo
- 10Aceitar heterogeneidade entre sítios
- 11Nomear a escada de sujeitos
- 12Medir o custo de promover demais
- 13Medir o custo de rebaixar demais
- 14Ler o resultado negativo com endereço
- 15Ampliar a busca quando indicado
- 16Exigir verificação funcional da variante
- 17Usar a história familiar como evidência própria
- 18Aproveitar o nível somático para tratar
Teste-se
Leve para o paciente
Homem de 47 anos chega ao ambulatório e a primeira coisa que você ouve é: "Doutor(a), eu operei o intestino faz um mês e meio e trouxe esse papel do exame, que falaram que deu uma proteína faltando; eu queria saber se isso é de família e se os meus irmãos precisam fazer…" Agora é sua vez: conduza a anamnese, examine e monte o seu raciocínio.
Revisão espaçada
Qual a diferença entre germinativo e somático? Por que a imuno-histoquímica não distingue? Como dois tumores da mesma paciente podem ter status opostos?
Explique a escada célula-clone-indivíduo-linhagem e por que promover ou rebaixar o sujeito da inferência custa caro nos dois sentidos.
