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Antebraço e mão
O túnel do carpo é rígido e todo mundo tem um
O caso
Costureira de 54 anos acorda todas as noites com a mão direita dormente e precisa sacudi-la para melhorar. Nos últimos meses passou a derrubar objetos pequenos: agulha, botão, moeda. Ao comparar as duas mãos sob a luz, a eminência tenar direita está visivelmente mais achatada que a esquerda.
O exame de condução nervosa mostra lentificação do nervo mediano na altura do punho. O diagnóstico parece fechado, e é. Mas há um dado que desestabiliza a leitura ingênua desse exame.
No estudo populacional que mediu a frequência dessa síndrome numa região inteira, os pesquisadores examinaram também um grupo de pessoas que não relatavam sintoma nenhum. Dessas 125 pessoas, 23 tinham neuropatia do mediano no túnel do carpo à eletrofisiologia — 18,4%. Quase uma em cada cinco.
Ou seja: o exame que confirma o diagnóstico está alterado em quase 20% de quem não tem queixa. Isso não é falha do exame nem coincidência estatística — é consequência da forma. O túnel do carpo é um canal rígido que todo mundo tem, e a compressão de um nervo dentro dele é um contínuo, não um interruptor. Este capítulo termina quando ficar claro por que a mão pagou esse preço para ganhar precisão.
Da origem ao mapa do corpo
Ato 1 — Embriologia.
A placa da mão, os raios digitais e a apoptose interdigital produzem os dedos; rotação e migração muscular explicam a disposição final dos compartimentos.
Ato 2 — Histologia.
Retináculos, bainhas sinoviais, polias e aponeuroses permitem deslizamento eficiente de tendões em espaço restrito e condicionam tenossinovites e aderências.
Ato 3 — Anatomia.
Rádio, ulna, carpo, túneis e arcos da mão organizam vasos, nervos e tendões; cada déficit deve ser localizado antes ou depois do punho.
O membro superior existe para posicionar a mão, e a mão existe para manipular. Isso impõe uma exigência de projeto que nenhuma outra região do corpo tem: precisão com pouca massa. Uma mão com toda a musculatura necessária dentro dela seria grossa, pesada e desajeitada — exatamente o oposto do que se quer de um instrumento de manipulação fina.
A solução foi deslocar a força para longe. A maior parte dos músculos que movem os dedos fica no antebraço, e a força chega até a mão por tendões longos. Dentro da mão ficam apenas os músculos intrínsecos, pequenos, responsáveis pelos ajustes finos e pela oposição do polegar.
Essa escolha resolve o problema do volume e cria dois novos. O primeiro é o atrito: tendões longos que deslizam muitos centímetros a cada movimento precisam de lubrificação e de contenção. O segundo é a passagem: tudo o que vem do antebraço tem de atravessar o punho, uma região estreita, junto com os nervos e vasos que vão para a mão.
O atrito é resolvido pelas bainhas sinoviais, que são cilindros de membrana sinovial em torno dos tendões, com uma camada visceral aderida ao tendão, uma parietal externa e um filme de líquido entre elas. É a mesma solução da articulação sinovial, aplicada a uma superfície que desliza em linha reta em vez de girar.
A contenção é resolvida pelos retináculos, faixas de tecido fibroso denso que atravessam o punho e mantêm os tendões junto ao osso. Sem eles, os tendões flexores se afastariam do punho a cada contração, como a corda de um arco — e perderiam quase toda a eficiência.
Aqui está o ponto que organiza todo o capítulo: a solução do arco de corda cria um compartimento fechado. Um retináculo firme, apoiado em osso, forma um canal de paredes rígidas. E dentro de um canal rígido, tudo o que passa junto compartilha o mesmo espaço — inclusive os nervos.
Antes de chegar ao punho, vale ver como o antebraço se organiza. Ele tem dois ossos, e essa é a chave da pronossupinação: o rádio gira em torno da ulna, que permanece relativamente parada, o que permite virar a palma para cima e para baixo sem mover o ombro. Um antebraço de osso único não teria esse movimento.
Entre os dois ossos corre a membrana interóssea, cujas fibras principais descem do rádio para a ulna em sentido oblíquo. Essa direção não é decorativa: ela transfere para a ulna parte da carga que chega ao rádio pelo punho, distribuindo a força axial entre os dois ossos. Forma resolvendo transmissão de carga, mais uma vez.
Os músculos do antebraço se distribuem em dois compartimentos. O anterior contém os flexores dos dedos e os pronadores, inervados pelo mediano — com exceção do flexor ulnar do carpo e de metade do flexor profundo dos dedos, que são do ulnar. O posterior contém os extensores, inervados pelo radial e seu ramo interósseo posterior.
Quando esses tendões chegam ao punho, encontram o túnel do carpo. O assoalho e as paredes são formados pelos ossos do carpo, que não estão dispostos num plano: eles formam um arco côncavo para a frente. O teto é o retináculo dos flexores, uma lâmina fibrosa espessa que se prende às bordas desse arco, fechando o canal.
Dentro do túnel passam nove tendões e um nervo: os quatro tendões do flexor superficial dos dedos, os quatro do flexor profundo, o do flexor longo do polegar e o nervo mediano. Nada mais. E as paredes são osso de um lado e ligamento denso do outro — nenhuma delas cede.
A consequência é aritmética simples. Se o conteúdo aumenta — por edema, por espessamento das bainhas sinoviais, por retenção de líquido — ou se o continente diminui, a pressão sobe. E entre dez estruturas dentro de um canal rígido, a que sofre primeiro é a mais macia e a menos tolerante à isquemia: o nervo.
A estrutura do nervo periférico explica por que ele é o elo frágil. Os axônios ficam em fascículos envolvidos pelo perineuro, que forma uma barreira; o endoneuro ocupa o espaço interno e o epineuro envolve o conjunto. A pressão externa comprime primeiro os vasos que correm nesses envoltórios, e a isquemia do nervo produz sintomas antes de qualquer dano estrutural.
Isso explica o padrão da queixa: sintomas noturnos, que despertam o paciente e melhoram ao sacudir a mão. À noite não há movimento, a posição do punho tende a se manter flexionada ou estendida por horas e a drenagem venosa piora; sacudir a mão restaura o fluxo. É um sintoma vascular, e não uma peculiaridade inexplicada.
Um detalhe anatômico permite uma verificação elegante no exame. O ramo cutâneo palmar do nervo mediano nasce antes do túnel e passa por cima do retináculo, não por dentro dele. Ele inerva a pele da região tenar. Numa compressão dentro do túnel, portanto, a sensibilidade da eminência tenar tende a ser poupada, ainda que os dedos estejam dormentes.
Já a fraqueza segue outro ramo. O ramo recorrente do mediano sai depois do túnel e inerva os músculos tenares, responsáveis pela oposição do polegar. Comprometimento prolongado produz fraqueza de oposição e, com o tempo, atrofia da eminência tenar — o achado que a costureira da cena tem.
E a perda de precisão dela tem endereço morfológico exato: a oposição do polegar é o movimento que permite pinçar um objeto pequeno contra a polpa dos outros dedos. É a manobra que separa a mão humana de qualquer outra, e ela depende de músculos que ficam dentro da mão, comandados por um nervo que atravessou um túnel rígido oito centímetros antes.
Vale mapear os outros dois nervos, porque a divisão de território na mão é limpa e permite localizar lesões. O ulnar entra na mão por outro canal, o canal ulnar do punho, e inerva a maioria dos músculos intrínsecos — interósseos, hipotenares e os dois lumbricais mediais — além da sensibilidade do quinto dedo e da metade medial do quarto.
O radial não inerva nenhum músculo intrínseco da mão: sua função motora se esgota nos extensores do antebraço, e na mão ele fica apenas com a sensibilidade de parte do dorso, especialmente da região entre polegar e indicador. Por isso a lesão do radial produz queda do punho sem atrofia de mão.
A divisão de trabalho entre os intrínsecos é o que dá à mão sua qualidade. Os interósseos afastam e aproximam os dedos e, junto com os lumbricais, flexionam as articulações da base dos dedos enquanto estendem as das pontas — o gesto de segurar uma folha de papel plana. Perder essa coordenação transforma a mão numa garra, com os dedos em posição fixa.
Falta um ponto de vulnerabilidade próprio do carpo. O escafoide tem uma vascularização de sentido retrógrado: os vasos entram por sua porção distal e caminham para trás, em direção ao polo proximal. Uma fratura no meio do osso interrompe esse fluxo e pode deixar o fragmento proximal sem suprimento — o mesmo problema que reaparecerá no colo do fêmur.
Reunindo antes do teste empírico: a mão comprou precisão colocando os motores longe; isso exigiu tendões longos com bainhas e retináculos; retináculos criam canais rígidos; num canal rígido o nervo é o que sofre primeiro; e a compressão do mediano no túnel do carpo é a consequência mais comum dessa cadeia. A forma prevê que a compressão seja frequente e gradual.
Um estudo populacional testou isso numa região do sul da Suécia com 170 mil habitantes. Foram enviados questionários a 3.000 pessoas de 25 a 74 anos, com 83% de resposta (2.466 pessoas). Dessas, 354 relataram dor, dormência ou formigamento no território do mediano na mão — 14,4% (IC 95% 13,0% a 15,8%).
Ao examinar clinicamente e submeter à eletrofisiologia quem tinha sintomas, os números caíram bastante: síndrome clinicamente definida em 3,8% (3,1% a 4,6%), neuropatia do mediano à eletrofisiologia em 4,9% (4,1% a 5,8%) e confirmação pelos dois critérios em 2,7% (2,1% a 3,4%). Sintoma na mão é comum; a síndrome definida por critérios é bem menos.
E então vem o achado que dá título ao capítulo. Os pesquisadores examinaram também uma amostra de pessoas que não relatavam sintomas. Entre 125 controles examinados, 23 tinham neuropatia do mediano no túnel do carpo à eletrofisiologia: 18,4% (IC 95% 12,0% a 26,3%).

O que a forma explica
Seis perguntas que localizam a lesão da mão no nervo certo e no ponto certo do trajeto.
“Quais dedos estão dormentes, e o polegar está incluído?”
O território é a primeira triagem: mediano pega polegar, indicador, médio e metade do anular; ulnar pega o mínimo e a outra metade do anular.
“Os sintomas são noturnos e melhoram ao sacudir a mão?”
É o padrão de isquemia do nervo dentro de um canal rígido. Sacudir restaura o fluxo, o que explica o alívio característico.
“A pele da eminência tenar está com sensibilidade preservada?”
O ramo cutâneo palmar do mediano nasce antes do túnel e passa por cima do retináculo. Numa compressão dentro do canal, essa área tende a ser poupada.
“Há atrofia da eminência tenar ou fraqueza de oposição do polegar?”
É o comprometimento do ramo recorrente, que sai após o túnel. Indica compressão prolongada, e explica a perda de pinça fina.
“Houve queda com a mão espalmada e dor na tabaqueira anatômica?”
O escafoide tem vascularização retrógrada. Uma fratura no meio pode deixar o polo proximal sem suprimento, mesmo com radiografia inicial normal.
“Há dor desproporcional e piora ao alongar passivamente os dedos após trauma no antebraço?”
Compartimento fechado sob pressão crescente. É a mesma lógica do túnel, aplicada a um compartimento muscular inteiro.
Como se orientar
- Aceitar que os motores da mão ficam no antebraço
- Precisão exigiu massa pequena. A força vem de longe por tendões longos, e é isso que cria bainhas, retináculos e canais.
- Ler retináculo como parede, não como faixa
- Ele impede que o tendão se afaste do osso como corda de arco. O preço é fechar um compartimento de paredes rígidas.
- Saber que dentro de canal rígido o nervo sofre primeiro
- É a estrutura mais macia e menos tolerante à isquemia. A pressão comprime os vasos dos envoltórios antes de lesar o axônio.
- Ter o mapa sensitivo dos três nervos na cabeça
- Mediano, ulnar e radial dividem a mão de modo previsível. Sem esse mapa, dormência de mão vira queixa vaga.
- Distinguir achado de exame de doença
- Lentificação do mediano existe em 18,4% de pessoas sem sintoma. O exame descreve o nervo; quem define a síndrome é o conjunto.
- Lembrar da vascularização retrógrada do escafoide
- Os vasos entram distalmente e caminham para trás. Fratura no meio ameaça o polo proximal, e a radiografia inicial pode ser normal.
A leitura
Ler antebraço e mão como um sistema que trocou massa por precisão — e mapear os pedágios que essa troca impôs.
- 1
Localizar os motores no antebraço e os ajustes na mão
A maior parte da força vem de músculos do antebraço, por tendões longos. Dentro da mão ficam só os intrínsecos, pequenos, do ajuste fino e da oposição.
Erro comum: Procurar na mão a origem de toda a força que ela produz. A mão é um efetuador; a potência chega de fora.
- 2
Identificar bainha sinovial e retináculo como duas soluções distintas
A bainha resolve atrito, com camadas visceral e parietal e líquido entre elas. O retináculo resolve o afastamento do tendão, prendendo-o ao osso.
Erro comum: Tratar os dois como uma coisa só. Um lubrifica, o outro contém — e é o segundo que cria compartimento fechado.
- 3
Explicar a pronossupinação pelos dois ossos
O rádio gira em torno da ulna, que permanece relativamente parada. É por ter dois ossos que o antebraço vira a palma sem mover o ombro.
Erro comum: Atribuir a pronossupinação ao punho. O movimento acontece entre rádio e ulna, nas articulações radiulnares proximal e distal.
- 4
Ler a direção das fibras da membrana interóssea
Elas descem do rádio para a ulna em sentido oblíquo, transferindo para a ulna parte da carga que chega ao rádio pelo punho.
Erro comum: Vê-la apenas como septo separador. A direção das fibras é uma solução de distribuição de carga entre os dois ossos.
- 5
Separar os dois compartimentos do antebraço pela inervação
Anterior: flexores e pronadores, pelo mediano, com o flexor ulnar do carpo e metade do flexor profundo pelo ulnar. Posterior: extensores, pelo radial.
Erro comum: Decorar cada músculo isoladamente. O padrão compartimento-nervo-função é o mesmo do braço e se repetirá na coxa e na perna.

O mesmo padrão do braço: compartimento, nervo, função. E a fáscia que delimita cada compartimento é pouco distensível — a mesma propriedade que torna o túnel do carpo um problema. - 6
Montar o túnel do carpo peça por peça
Assoalho e paredes formados pelos ossos do carpo em arco côncavo anteriormente; teto formado pelo retináculo dos flexores. Dentro: nove tendões e o nervo mediano.
Erro comum: Imaginar o carpo como uma fileira plana de ossos. É o arco que cria o canal, e é o retináculo que o fecha.
- 7
Deduzir quem sofre primeiro quando a pressão sobe
Paredes de osso e teto de ligamento denso não cedem. Aumento de conteúdo ou redução do continente eleva a pressão, e o nervo é o mais macio e o menos tolerante à isquemia.
Erro comum: Procurar uma causa única e dramática. Trata-se de aritmética de espaço, e o processo costuma ser gradual.
- 8
Explicar o sintoma noturno pela circulação do nervo
Sem movimento, com o punho parado numa posição por horas, a drenagem venosa piora e o nervo fica isquêmico. Sacudir a mão restaura o fluxo e alivia.
Erro comum: Tratar o despertar noturno como detalhe da história. É a assinatura vascular do problema, e distingue de outras causas de dormência.
- 9
Usar a sensibilidade tenar como verificação anatômica
O ramo cutâneo palmar do mediano nasce antes do túnel e passa por cima do retináculo. Numa compressão dentro do canal, essa pele tende a ser poupada.
Erro comum: Esperar dormência em todo o território do mediano. O ramo que inerva a pele tenar não entra no túnel.

A pele da eminência tenar é inervada por um ramo que nasce antes do túnel e passa por cima do retináculo. Sensibilidade tenar preservada com dedos dormentes localiza a compressão dentro do canal. - 10
Ligar atrofia tenar à perda de precisão
O ramo recorrente do mediano sai após o túnel e inerva os músculos tenares. Sem oposição do polegar, a pinça fina se perde, e objetos pequenos escapam.
Erro comum: Registrar a atrofia como achado estético. Ela traduz perda do movimento que define funcionalmente a mão humana.
- 11
Mapear os intrínsecos pelo nervo e prever a garra
O ulnar inerva interósseos, hipotenares e os dois lumbricais mediais; o mediano, os tenares e os dois lumbricais laterais; o radial, nenhum intrínseco.
Erro comum: Esperar atrofia de mão na lesão do radial. Ele se esgota nos extensores do antebraço, e produz queda do punho sem atrofia intrínseca.
- 12
Reconhecer o escafoide como osso de vascularização retrógrada
Os vasos entram pela porção distal e caminham em direção ao polo proximal. Fratura no meio interrompe esse fluxo e ameaça o fragmento proximal.
Erro comum: Encerrar o caso com radiografia inicial normal em dor na tabaqueira anatômica. A fratura pode não aparecer de início, e o risco vascular é real.

Quando o sangue entra pela ponta de baixo e sobe, uma fratura no meio deixa o topo sem suprimento. O mesmo problema reaparece no colo do fêmur.
Normal e alterado
- Eminências tenar e hipotenar simétricas, com volume comparável entre as mãos.
- Oposição do polegar completa, com a polpa alcançando a polpa dos demais dedos.
- Sensibilidade preservada e simétrica nos territórios de mediano, ulnar e radial.
- Pronossupinação completa, com o rádio girando em torno da ulna.
- Tendões flexores mantidos junto ao punho durante a flexão, sem afastamento em corda de arco.
- Extensão de punho e dedos preservada, refletindo integridade do nervo radial.
- Dormência noturna nos três primeiros dedos e metade do anular, com alívio ao sacudir a mão
- Padrão de compressão do mediano dentro do túnel do carpo. O alívio ao sacudir é assinatura de isquemia do nervo dentro de canal rígido.
- Sensibilidade preservada na eminência tenar com dedos dormentes
- Localiza a compressão dentro do túnel: o ramo cutâneo palmar nasce antes dele e passa por cima do retináculo.
- Atrofia da eminência tenar com fraqueza de oposição do polegar
- Comprometimento do ramo recorrente do mediano, que sai após o túnel. Indica compressão prolongada e explica a perda de pinça fina.
- Condução lentificada do mediano em pessoa sem sintomas
- Ocorre em 18,4% dos controles sem queixa. O exame descreve o estado do nervo dentro de um canal que todo mundo tem; ele não define, sozinho, a síndrome.
- Dormência do quinto dedo e da metade medial do anular, com fraqueza de afastar os dedos
- Território e função do nervo ulnar, que inerva os interósseos. A distribuição localiza o nervo antes de qualquer exame complementar.
- Queda do punho sem atrofia dos músculos da mão
- Lesão do nervo radial: sua função motora se esgota nos extensores do antebraço, e ele não inerva nenhum músculo intrínseco da mão.
- Dor na tabaqueira anatômica após queda com a mão espalmada, com radiografia inicial normal
- Suspeita de fratura de escafoide. Pela vascularização retrógrada, o polo proximal pode perder suprimento, e o traço pode não aparecer de início.
- Dor desproporcional ao trauma no antebraço, com piora ao alongar passivamente os dedos
- Pressão crescente dentro de compartimento fechado por fáscia pouco distensível. É a mesma aritmética do túnel, aplicada a um compartimento muscular inteiro.
Por que isso importa
A mão é o órgão de manipulação, e manipular exige precisão com pouca massa. Se todos os músculos que movem os dedos ficassem dentro dela, ela seria grossa e desajeitada. A solução foi deslocar os motores para o antebraço e transmitir a força por tendões longos.
Toda solução cobra. Tendões longos deslizando muitos centímetros produzem atrito, resolvido por bainhas sinoviais, e tendem a se afastar do osso como corda de arco durante a contração, o que é resolvido por retináculos que os prendem ao punho.
E aqui está a cadeia inteira deste capítulo em uma frase: prender tendões ao osso com uma faixa fibrosa firme cria um compartimento de paredes rígidas. O túnel do carpo é o exemplo mais bem acabado disso — assoalho e paredes de osso dispostos em arco, teto de ligamento denso.
Dentro desse canal passam nove tendões e o nervo mediano. Nenhuma parede cede. Se o conteúdo aumenta ou o continente diminui, a pressão sobe, e a estrutura que sofre primeiro é a mais macia e a menos tolerante à isquemia. O nervo não está ali por acidente de trajeto: ele está ali porque não havia outro caminho.
A estrutura interna do nervo periférico completa a explicação. A pressão externa comprime primeiro os vasos que correm nos envoltórios, e a isquemia produz sintomas antes de qualquer lesão estrutural. É por isso que os sintomas são intermitentes no início, e é por isso que eles são noturnos e melhoram ao sacudir a mão.
Se essa leitura estiver certa, duas previsões decorrem dela. A primeira: a compressão do mediano no punho deve ser comum, porque o canal existe em todo mundo e é apertado por construção. A segunda: sendo um contínuo de pressão e não um evento, deve haver muita gente com o nervo já um pouco comprometido e nenhuma queixa.
Um estudo populacional testou as duas. Numa região do sul da Suécia com 170 mil habitantes, foram enviados questionários a uma amostra de 3.000 pessoas de 25 a 74 anos, com resposta de 83% — 2.466 pessoas, 46% homens. Quem relatou sintomas no território do mediano foi convocado para exame clínico e eletrofisiológico dois meses depois.
A primeira previsão se confirmou de modo até surpreendente: 354 pessoas (14,4%; IC 95% 13,0% a 15,8%) relataram dor, dormência ou formigamento no território do mediano nas mãos. Uma em cada sete pessoas da população geral tem esse sintoma.
Mas os critérios mais estritos reduzem bastante esse número. Ao exame clínico, 94 pessoas tinham síndrome clinicamente definida: 3,8% (3,1% a 4,6%). À eletrofisiologia, 120 tinham neuropatia do mediano no túnel: 4,9% (4,1% a 5,8%). E preenchendo os dois critérios ao mesmo tempo, 66 pessoas: 2,7% (2,1% a 3,4%).
Já esse escalonamento ensina algo. Sintoma na mão é comum, síndrome definida por critérios é bem menos comum, e a definição usada muda o número por um fator de cinco. Uma prevalência não é uma propriedade da doença: é uma propriedade da doença mais o critério com que ela foi definida.
A segunda previsão é a que dá título ao capítulo. Entre 125 pessoas que não relatavam sintomas e foram examinadas como controles, 23 tinham neuropatia do mediano no túnel do carpo à eletrofisiologia: 18,4% (IC 95% 12,0% a 26,3%). Quase uma em cada cinco.
Esse resultado é exatamente o esperado a partir da forma. Se a compressão acontece dentro de um canal rígido que todo mundo tem, e se ela é gradual, então deve existir uma faixa larga de pessoas com o nervo mensuravelmente afetado e ainda sem sintoma. O achado não contradiz o exame; ele descreve o que o exame mede.
A consequência prática é a mesma lição que reaparecerá no capítulo da coluna: o exame descreve uma estrutura, não decide um diagnóstico. Uma condução lentificada em alguém sem queixa é a descrição correta de um nervo que passa apertado. Ela só vira síndrome quando o quadro clínico a acompanha.
As limitações do estudo precisam ser declaradas. É um levantamento de 1997 numa região do sul da Suécia, com pessoas de 25 a 74 anos, feito por questionário postal seguido de exame — de modo que a prevalência de sintomas depende de quem respondeu e de como a pergunta foi formulada. Dos respondentes com sintomas, 81% compareceram ao exame, e o grupo de controles examinados tinha 125 pessoas.
Esse último ponto merece atenção: 23 casos entre 125 controles produzem um intervalo de confiança de 12,0% a 26,3% — largo. O que se pode afirmar com segurança é que a proporção de assintomáticos com alteração eletrofisiológica é substancial, e não que ela seja exatamente 18,4% em qualquer população.
Também vale registrar o que o estudo não mede: ele descreve uma população de um país e de um período, não um serviço de referência, e não separa ocupações. Prevalências mais altas já foram descritas em ocupações específicas, o que não contradiz o achado — apenas mostra que a exposição mecânica desloca a distribuição dentro do mesmo mecanismo.
Voltando à mão da cena, o restante do quadro tem endereço anatômico exato. A dormência que poupa a pele da eminência tenar localiza a compressão dentro do túnel, porque o ramo cutâneo palmar nasce antes dele e passa por cima do retináculo. É uma verificação que o exame físico faz sem nenhum equipamento.
E a queixa de derrubar objetos pequenos tem endereço próprio. O ramo recorrente do mediano sai depois do túnel e comanda os músculos tenares, responsáveis pela oposição do polegar — o movimento que permite pinçar contra a polpa dos outros dedos. Perder oposição é perder a função que caracteriza a mão humana.
Duas outras consequências da mesma arquitetura fecham o capítulo. Os compartimentos do antebraço são delimitados por fáscia pouco distensível, o que reproduz a aritmética do túnel numa escala maior: aumento de volume dentro de um compartimento fechado eleva a pressão e ameaça músculo e nervo, com dor desproporcional e piora ao alongar passivamente os dedos.
E o escafoide repete um problema já visto: vascularização de sentido retrógrado, com os vasos entrando pela porção distal. Uma fratura no meio do osso interrompe o suprimento do fragmento proximal, o que transforma dor na tabaqueira anatômica após queda com a mão espalmada num achado que não se encerra com uma radiografia inicial normal.
Reunindo: a mão trocou massa por precisão; a troca exigiu tendões longos, bainhas e retináculos; retináculos criam canais rígidos; canais rígidos comprimem nervos de modo gradual; e é por isso que a compressão é comum, que os sintomas são noturnos e vasculares, e que quase uma em cada cinco pessoas sem queixa já tem o nervo mensuravelmente afetado.
O caso clínico deve ser resolvido por território motor, sensitivo e trajeto do nervo, não pela memorização isolada do nome de uma manobra.
| Sinal | Medida | Valor | Fonte |
|---|---|---|---|
| Sintomas no território do nervo mediano na população geral | Questionário postal enviado a amostra estratificada de 3.000 pessoas de 25 a 74 anos numa região do sul da Suécia em 1997, com resposta de 83%. A prevalência de sintoma depende da formulação da pergunta e de quem respondeu, e o dado é de uma população e de um período específicos. | 354 de 2.466 respondentes relataram dor, dormência ou formigamento no território do mediano nas mãos: 14,4% (IC 95% 13,0% a 15,8%) | Atroshi I, Gummesson C, Johnsson R, Ornstein E, Ranstam J, Rosén I. Prevalence of carpal tunnel syndrome in a general population. JAMA. 1999;282(2):153-8. doi:10.1001/jama.282.2.153 |
| Prevalência conforme o critério usado para definir a síndrome | Mesma amostra. Dos respondentes sintomáticos, 81% compareceram ao exame clínico e eletrofisiológico. A variação por um fator de cinco entre sintoma relatado e confirmação dupla mostra que a prevalência depende do critério adotado. | Síndrome clinicamente definida ao exame: 3,8% (IC 95% 3,1% a 4,6%). Neuropatia do mediano no túnel à eletrofisiologia: 4,9% (4,1% a 5,8%). Confirmação pelos dois critérios simultaneamente: 2,7% (2,1% a 3,4%) | Atroshi I, Gummesson C, Johnsson R, Ornstein E, Ranstam J, Rosén I. Prevalence of carpal tunnel syndrome in a general population. JAMA. 1999;282(2):153-8. doi:10.1001/jama.282.2.153 |
| Alteração eletrofisiológica do mediano em pessoas sem sintomas | Amostra de respondentes que não relatavam sintomas no território do mediano, submetidos ao mesmo protocolo de exame. O intervalo de confiança é largo por causa do número de controles examinados; sustenta que a proporção é substancial, sem fixar um valor preciso para outras populações. | 23 de 125 controles assintomáticos examinados tinham neuropatia do mediano no túnel do carpo à eletrofisiologia: 18,4% (IC 95% 12,0% a 26,3%) | Atroshi I, Gummesson C, Johnsson R, Ornstein E, Ranstam J, Rosén I. Prevalence of carpal tunnel syndrome in a general population. JAMA. 1999;282(2):153-8. doi:10.1001/jama.282.2.153 |
Os três nervos da mão, lado a lado
Mediano, ulnar e radial dividem a mão de modo previsível. Com esse mapa, dormência de mão deixa de ser queixa vaga e vira localização.
| Aspecto | Mediano | Ulnar | Radial |
|---|---|---|---|
| Ponto de estreitamento típico | Túnel do carpo, no punho | Cotovelo e canal ulnar, no punho | Sulco do nervo radial, na diáfise do úmero |
| Sensibilidade na mão | Polegar, indicador, médio e metade lateral do anular | Mínimo e metade medial do anular | Parte do dorso, sobretudo entre polegar e indicador |
| Músculos intrínsecos que inerva | Tenares e dois lumbricais laterais | Interósseos, hipotenares e dois lumbricais mediais | Nenhum |
| Função motora perdida | Oposição do polegar e pinça fina | Afastar e aproximar os dedos; coordenação dos intrínsecos | Extensão de punho e dedos |
| Sinal visível de lesão prolongada | Atrofia da eminência tenar | Atrofia dos interósseos e mão em garra | Queda do punho, sem atrofia de mão |
| Padrão típico do sintoma | Noturno, alivia ao sacudir a mão | Piora ao apoiar o cotovelo ou flexioná-lo por tempo | Aparece após fratura ou compressão no braço |
- A pele da eminência tenar é inervada por ramo que nasce antes do túnel e passa por cima do retináculo: sensibilidade tenar preservada com dedos dormentes localiza a compressão dentro do canal.
- Alteração eletrofisiológica do mediano ocorreu em 18,4% de pessoas sem sintoma — o exame descreve o nervo dentro de um canal que todos têm, e não define sozinho a síndrome.
Onde se erra
- Tratar exame de condução alterado como sinônimo de doença
- Ele estava alterado em 18,4% dos controles sem queixa. O exame descreve o nervo; a síndrome exige o quadro clínico junto.
- Procurar na mão a origem da força que ela produz
- A maior parte dos motores está no antebraço. A mão é o efetuador, e é essa separação que criou tendões longos e canais apertados.
- Ler retináculo apenas como faixa de contenção
- Ele fecha um compartimento de paredes rígidas. É o preço estrutural de impedir que o tendão se afaste do osso em corda de arco.
- Esperar dormência em todo o território do mediano
- A pele da eminência tenar é inervada por ramo que passa por cima do retináculo. Sua preservação é achado esperado, não contradição.
- Registrar atrofia tenar como achado apenas estético
- Ela traduz perda da oposição do polegar, que é o movimento responsável pela pinça fina. É perda de função, não de aparência.
- Esperar atrofia de mão na lesão do nervo radial
- Ele não inerva nenhum músculo intrínseco. Produz queda do punho, com a musculatura da mão preservada.
- Atribuir a pronossupinação ao punho
- O movimento ocorre entre rádio e ulna, nas articulações radiulnares. Ter dois ossos é a condição de virar a palma sem mover o ombro.
- Ver a membrana interóssea apenas como septo
- A direção oblíqua das fibras transfere para a ulna parte da carga que chega ao rádio. É solução de distribuição de força.
- Encerrar o caso com radiografia inicial normal na dor da tabaqueira
- A fratura do escafoide pode não aparecer de início, e a vascularização retrógrada põe o polo proximal em risco.
- Desprezar dor desproporcional após trauma de antebraço
- Fáscia pouco distensível reproduz a aritmética do túnel numa escala maior. Piora ao alongar passivamente os dedos é achado que exige avaliação imediata.
- Tratar prevalência como propriedade fixa da doença
- No mesmo estudo, o número variou por um fator de cinco conforme o critério: 14,4% de sintoma, 3,8% de síndrome clínica, 2,7% com dupla confirmação.
- Generalizar os 18,4% como valor exato para qualquer população
- São 23 casos em 125 controles, com intervalo de 12,0% a 26,3%. O que se sustenta é que a proporção é substancial, não que seja precisamente esse número.
Roteiro de leitura
Percorra o capítulo em três escalas: origem, tecido e relações anatômicas; use a síntese clínica para reuni-las.
- 01Localizar os motores no antebraço e os ajustes finos na mão
- 02Identificar bainha sinovial e retináculo como soluções distintas
- 03Explicar a pronossupinação pelos dois ossos do antebraço
- 04Ler a direção das fibras da membrana interóssea
- 05Separar os dois compartimentos do antebraço pela inervação
- 06Montar o túnel do carpo peça por peça
- 07Deduzir quem sofre primeiro quando a pressão sobe
- 08Explicar o sintoma noturno pela circulação do nervo
- 09Usar a sensibilidade tenar como verificação anatômica
- 10Ligar atrofia tenar à perda de pinça fina
- 11Mapear os intrínsecos pelo nervo que os inerva
- 12Reconhecer o escafoide como osso de vascularização retrógrada
Teste-se
Leve para o paciente
Mulher de 48 anos chega ao ambulatório e a primeira coisa que você ouve é: "Doutor, minha mão direita adormece de madrugada e eu acordo tendo que sacudir a mão." Agora é sua vez: conduza a anamnese, examine e monte o seu raciocínio.
Revisão espaçada
Quantas estruturas passam dentro do túnel do carpo, e quais são suas paredes? Por que a sensibilidade da eminência tenar tende a ser poupada na compressão do mediano? Qual nervo não inerva nenhum músculo intrínseco da mão?
Explique por que 18,4% de pessoas sem sintomas tinham alteração eletrofisiológica do mediano, partindo da forma do túnel do carpo. Depois diga o que muda na interpretação de um exame de condução nervosa quando se sabe disso — e por que o intervalo de 12,0% a 26,3% importa.
