Fundamentos da Prática Clínica › Psicologia médica e comunicação
Comunicar erro e evento adverso
O paciente quer quatro coisas; o médico costuma entregar uma
A cena
A dose foi trocada. O paciente recebeu dez vezes o previsto, passou mal, precisou de monitorização e ficou mais dois dias internado. Nada irreversível aconteceu, e o quadro está estável.
À tarde, a família pergunta o que houve. O plantonista responde que o paciente apresentou uma reação, que isso às vezes acontece, que a equipe agiu rápido e que ele está bem agora. Cada frase é verdadeira. Junto, o conjunto é uma omissão — porque a pergunta era o que houve, e a resposta não contém a informação de que houve um erro.
Duas semanas depois, alguém da família tem acesso ao prontuário e vê a prescrição. A partir dali, o que era um erro de dose com desfecho favorável vira outra coisa: um erro que a equipe escondeu. E é essa segunda versão, não a primeira, que costuma virar processo.
De onde vem o sinal
Comunicar erro é a situação em que o interesse imediato de quem fala e o dever de quem cuida apontam para lados opostos, e por isso ela precisa de método — a boa intenção não sobrevive ao susto.

O que o paciente quer nessa hora já foi levantado com cuidado. Em 13 grupos focais reunindo 52 pacientes e 46 médicos, os pacientes queriam quatro coisas: saber o que aconteceu, por que aconteceu, como as consequências serão mitigadas e como a repetição será evitada. Somavam a isso o desejo de apoio emocional e de um pedido de desculpas.
E o que os médicos fazem, no mesmo estudo: eles revelavam o evento adverso, mas frequentemente evitavam dizer que houve um erro, por que ele aconteceu e como a repetição seria evitada. Três das quatro coisas pedidas ficam de fora, e a que sobra é justamente a menos informativa.
Essa é a manobra central deste capítulo, e vale nomeá-la para reconhecê-la em si mesmo: contar o evento sem nomear o erro. Dizer que o paciente teve uma reação, que houve uma intercorrência, que ele apresentou uma complicação. Nada disso é mentira, e é exatamente por isso que funciona tão bem como esconderijo. A conclusão dos autores é direta: os médicos podem não estar fornecendo nem a informação nem o apoio emocional que os pacientes buscam.
O motivo mais alegado para omitir é o medo de processo. Sobre isso existe uma evidência conhecida, e ela precisa ser lida com honestidade. A Universidade de Michigan implantou, a partir de 2001, um programa de revelação integral com oferta de compensação. Comparando 1995 a 2007, a taxa média mensal de novas reclamações caiu de 7,03 para 4,52 por 100 mil atendimentos, e a de processos judiciais caiu de 2,13 para 0,75 por 100 mil. O tempo mediano até a resolução caiu de 1,36 para 0,95 ano, e os custos caíram em torno de 60%.
A ressalva é obrigatória: trata-se de estudo retrospectivo do tipo antes-depois, em uma única instituição, ao longo de doze anos. Esse desenho não separa o efeito do programa de tendências gerais do período — mudanças na legislação local, no comportamento dos escritórios de advocacia ou no volume de litígio no país inteiro. O que o estudo autoriza a dizer é que revelar não fez as reclamações explodirem naquele hospital. Não autoriza prometer a nenhum estudante que contar a verdade o protege de processo.
No Brasil, o dever de informar não está em um artigo único chamado revelação de erro — é preciso saber disso para não citar errado. Ele se compõe de peças do Código de Ética Médica: o Art. 34 veda deixar de informar ao paciente o diagnóstico, o prognóstico, os riscos e os objetivos do tratamento; o Art. 80 veda expedir documento médico que não corresponda à verdade; o Art. 87 exige prontuário legível, preenchido em cada avaliação em ordem cronológica, com data, hora e assinatura; e o Art. 1º, que abre o capítulo de responsabilidade profissional, veda causar dano ao paciente por ação ou omissão, registrando que a responsabilidade médica é sempre pessoal e não pode ser presumida.
Esse último detalhe — responsabilidade pessoal e não presumida — tem consequência prática imediata na hora de falar: você responde pelo que fez, e não é papel seu atribuir culpa a colega nenhum em frente à família. Descrever o fato é obrigação; apontar o responsável é conclusão de apuração, que tem outro rito e outra hora.
Por fim, o lugar do estudante. Você não conduz sozinho a revelação de um erro. O que se espera é que você comunique imediatamente ao supervisor o que percebeu, cuide do paciente, registre o que observou de forma fiel e participe da conversa quando o responsável pelo caso a conduzir. Silenciar por medo de estar enganado é o único caminho que não se justifica.
O que perguntar
Nesta conversa o médico fala mais do que pergunta — mas estas perguntas mudam o que ela produz.
“O que a senhora já foi informada até agora?”
Descobre o que já circulou e evita contradizer o colega anterior sem saber. Versões divergentes destroem a confiança mais que o próprio erro.
“O senhor quer que alguém da família esteja presente nesta conversa?”
Notícia difícil ouvida sozinho obriga a pessoa a repetir depois o que mal conseguiu processar.
“O que a senhora quer entender sobre o que aconteceu?”
Deixa a família guiar a profundidade, em vez de o médico escolher onde parar de explicar.
“Como isso afetou o senhor? O que está sendo mais difícil?”
Abre espaço para o dano que não está no prontuário: susto, perda de confiança, dias de trabalho perdidos.
“Tem alguma coisa que a gente possa fazer agora para ajudar?”
Transforma o pedido de desculpas em reparação concreta — que é o que o paciente pede quando fala em mitigar consequências.
“Ficou claro o que vamos fazer daqui para frente? Quando a senhora quer que a gente converse de novo?”
Fecha com plano e continuidade. Conversa de erro sem retorno marcado comunica que o assunto está encerrado por decisão da equipe.
Antes de encostar
- Cuidar do paciente primeiro
- A prioridade clínica antecede a conversa: estabilizar, corrigir o que for corrigível, monitorar. Só depois se organiza a comunicação.
- Comunicar ao supervisor e à instituição antes
- Erro tem rito institucional — núcleo de segurança do paciente, chefia, às vezes jurídico. Conversar antes evita versões divergentes e protege o paciente de informação pela metade.
- Apurar o que se sabe e o que ainda não se sabe
- Separe fato verificado de hipótese. Levar hipótese como certeza obriga a desdizer depois, o que custa mais do que ter dito 'ainda não sabemos'.
- Definir quem conduz a conversa
- Em geral o médico responsável pelo caso. O estudante participa e observa; não conduz sozinho.
- Reservar lugar e tempo
- Sala fechada, sem interrupção, todos sentados. Conversa de erro em corredor multiplica o dano.
- Preparar-se para a raiva
- Ela é resposta esperada e legítima. Quem entra sem contar com isso tende a endurecer o tom no primeiro confronto.
A técnica
A sequência entrega as quatro coisas que o paciente pede, na ordem em que elas fazem sentido.
- 1
Estabilizar e mitigar antes de conversar
O primeiro dever depois do erro é clínico: reduzir o dano e monitorar. A conversa vem em seguida, e não no lugar disso.
Erro comum: Ir falar com a família antes de resolver o que ainda dá para resolver.
- 2
Acionar supervisor e instituição
Comunique a chefia e o núcleo de segurança do paciente. Erro tem rito, e a conversa com a família faz parte dele — não é iniciativa isolada.
Erro comum: Resolver sozinho por vergonha. É o que produz versões divergentes e transforma erro em encobrimento.
- 3
Dizer que houve um erro, com a palavra
Este é o passo que a evidência mostra ser omitido. Revelar o evento sem nomear o erro é a manobra mais comum e a que mais custa depois.
Erro comum: Dizer que houve uma reação, uma intercorrência, uma complicação. Verdadeiro, incompleto, e lido como encobrimento quando a família descobre.
- 4
Explicar o que aconteceu e por quê
Em linguagem simples, com o que se sabe. Onde não se sabe, diga que ainda está em apuração e quando haverá resposta.
Erro comum: Especular sobre a causa para preencher o silêncio, e ter que desdizer depois.
- 5
Pedir desculpas pelo dano
Sentir muito pelo que a pessoa passou é reconhecimento do sofrimento e cabe sempre. É uma das coisas que os pacientes explicitamente pedem.
Erro comum: Substituir por 'lamento que a senhora se sinta assim', que devolve o problema para quem sofreu o dano.
- 6
Dizer como as consequências serão mitigadas
O que será feito agora: exames, tempo adicional de internação, acompanhamento, custos. É a terceira coisa que o paciente pede.
Erro comum: Encerrar no pedido de desculpas. Desculpa sem reparação soa como formalidade.
- 7
Dizer como a repetição será evitada
A quarta coisa pedida, e a mais esquecida. Informe que o caso será analisado pelo serviço e o que já mudou, se algo já mudou.
Erro comum: Prometer mudança que não depende de você. Diga o que será encaminhado, não o que você garante.
- 8
Não atribuir culpa a outro profissional
A responsabilidade médica é pessoal e não pode ser presumida. Descreva o fato; apontar o responsável é conclusão de apuração, com outro rito.
Erro comum: Dizer à família que o erro foi de outro. Fragiliza a equipe, antecipa conclusão e não ajuda o paciente.
- 9
Registrar de forma fiel e imediata
O prontuário deve conter o que aconteceu, quando, o que foi feito e o que foi comunicado. Registro legível, cronológico, com data, hora e assinatura.
Erro comum: Corrigir, apagar ou reescrever registro anterior. Além de vedado, converte um erro assistencial em falsidade documental.
- 10
Notificar o incidente pelo canal do serviço
A notificação institucional é o que permite ao sistema aprender. Ela é distinta da conversa com o paciente e não substitui nenhuma das duas.
Erro comum: Achar que conversar com a família encerra o assunto.
- 11
Marcar retorno e manter a porta aberta
Diga quando vocês voltarão a conversar e quem procurar. Perguntas aparecem depois, quando o susto passa.
Erro comum: Encerrar como assunto resolvido. A família fica com as perguntas e sem interlocutor.
- 12
Cuidar de quem errou
Quem comete um erro grave costuma ficar abalado a ponto de errar de novo. Isso é assunto do próximo capítulo, e faz parte do manejo do evento.
Erro comum: Tratar o profissional envolvido com ironia ou isolá-lo, o que empurra a próxima omissão.
Achados, limites e forma de registro
- A palavra erro foi dita, e não substituída por intercorrência ou reação.
- As quatro informações pedidas foram entregues: o que houve, por quê, como se mitiga, como se evita a repetição.
- Houve pedido de desculpas pelo dano, e não pelo modo como a pessoa se sente.
- O que ainda não se sabe foi apresentado como não sabido, com prazo para resposta.
- O prontuário registra o fato, a conduta e o que foi comunicado, sem rasura.
- O incidente foi notificado pelo canal institucional e há retorno marcado.
- Exemplo de registro: evento reconhecido; cuidado imediato e consequências explicados; fatos conhecidos separados das causas ainda em análise; prometida atualização em prazo definido.
- Exemplo de registro: dano clínico estabilizado e incidente notificado pelo canal institucional; fatos conhecidos, incertezas e medidas imediatas foram comunicados ao paciente, sem especulação ou atribuição prematura de culpa; nova conversa e responsável pelo retorno definidos.
- A conversa descreve o evento sem nomear o erro
- É o padrão medido, e o mais custoso: verdadeiro, incompleto e lido como encobrimento quando a família tem acesso ao prontuário.
- A família recebeu versões diferentes de profissionais diferentes
- Falha de alinhamento antes da conversa. Divergência de versão destrói a confiança mais rápido que o erro em si.
- O prontuário foi alterado depois do evento
- Situação grave, que muda a natureza do problema. Registro que não corresponde à verdade é vedado, e converte erro assistencial em outra coisa.
- O médico atribui o erro a outro profissional diante da família
- Antecipa conclusão de apuração e ignora que a responsabilidade é pessoal e não presumida. Não ajuda o paciente e fragiliza a equipe.
- A família reage com raiva intensa
- Resposta esperada, não sinal de que a conversa foi mal conduzida. O passo é acolher, não se defender.
- Houve desculpas mas nada foi oferecido de concreto
- Falta a mitigação, que é uma das quatro coisas pedidas. Desculpa sem reparação é lida como formalidade.
- O profissional envolvido evita o paciente nos dias seguintes
- Reação humana e prejudicial: aumenta a sensação de abandono e alimenta a interpretação de encobrimento.
O que isso quer dizer
O estudo que estrutura este capítulo ouviu os dois lados em 13 grupos focais, com 52 pacientes e 46 médicos, em contextos acadêmicos e comunitários. Os pacientes foram consistentes sobre o que queriam: informação sobre o que aconteceu, por que aconteceu, como as consequências seriam mitigadas e como a repetição seria evitada — mais apoio emocional e um pedido de desculpas.
Os médicos, por sua vez, revelavam o evento adverso, mas frequentemente evitavam afirmar que houve um erro, por que ele ocorreu e como a repetição seria evitada. Coloque as duas listas lado a lado e o descompasso é gritante: das quatro informações pedidas, três costumam faltar. A conclusão dos autores não poupa: os médicos podem não estar fornecendo a informação nem o apoio emocional que os pacientes buscam.
Vale insistir no mecanismo, porque ele é sutil e quase todo mundo o pratica sem perceber. Ninguém mente. Diz-se que houve uma reação, uma intercorrência, uma complicação — todas afirmações verdadeiras. O que se omite é a categoria do fato. E a omissão de categoria é justamente o que a família identifica depois, quando lê o prontuário, e o que converte um erro com desfecho favorável em um erro escondido.
Sobre a razão mais alegada para calar, o medo do processo, existe o dado de Michigan. Depois da implantação de um programa de revelação integral com oferta de compensação, a taxa média mensal de novas reclamações caiu de 7,03 para 4,52 por 100 mil atendimentos (razão de taxas 0,64) e a de processos judiciais caiu de 2,13 para 0,75 por 100 mil (razão 0,35). O tempo mediano da reclamação até a resolução caiu de 1,36 para 0,95 ano, e as taxas médias mensais de custo caíram para cerca de 40% das anteriores em responsabilidade total, compensação ao paciente e custos jurídicos.
Agora a parte que costuma ser cortada quando esse estudo é citado em aula. O desenho é retrospectivo, do tipo antes-depois, em uma única instituição, cobrindo 1995 a 2007. Não há grupo de comparação, e doze anos são tempo suficiente para que mudanças de legislação, de jurisprudência e de comportamento do mercado de litígio expliquem parte ou toda a queda. Um desenho assim não estabelece causalidade.
A afirmação que a evidência sustenta é, portanto, mais modesta e ainda assim útil: em uma grande instituição que passou a revelar erros e oferecer compensação, o litígio não aumentou — caiu. Isso desarma o argumento de que revelar necessariamente multiplica processos. O que essa evidência não faz é garantir proteção jurídica a ninguém, e prometer isso a um estudante seria repetir, na sala de aula, o mesmo erro de omitir a categoria do fato.
No Brasil, quem procurar no Código de Ética Médica um artigo intitulado revelação de erro não vai encontrar, e é importante saber disso para citar com precisão. O dever se monta a partir de peças. O Art. 34 veda deixar de informar ao paciente o diagnóstico, o prognóstico, os riscos e os objetivos do tratamento, ressalvando o caso em que a comunicação direta possa provocar dano, quando então se comunica ao representante legal. O Art. 80 veda expedir documento médico que não corresponda à verdade. O Art. 87 exige prontuário legível, preenchido em cada avaliação em ordem cronológica, com data, hora, assinatura e registro do médico.
E o Art. 1º, que abre o capítulo de responsabilidade profissional, veda causar dano ao paciente por ação ou omissão caracterizável como imperícia, imprudência ou negligência, acrescentando em parágrafo único que a responsabilidade médica é sempre pessoal e não pode ser presumida. Essa frase tem uso imediato na conversa difícil: ela é a razão pela qual descrever o fato é obrigação sua e atribuir culpa a um colega, diante da família, não é.
Encerrando com o que interessa a quem está começando: o estudante não conduz a revelação sozinho. O que se espera dele é comunicar o que percebeu ao supervisor imediatamente, cuidar do paciente, registrar com fidelidade o que observou e participar da conversa conduzida pelo responsável. Entre errar ao apontar algo que talvez não fosse erro e calar sobre algo que era, apenas o segundo é indefensável.
O foco aqui é a conversa com paciente e família: cuidado imediato, fatos conhecidos, incerteza, pesar e atualização. Notificação interna, análise de barreiras e prevenção de recorrência pertencem ao eixo de Segurança do Paciente; comunicar não substitui investigar, e investigar não autoriza silêncio.
Comunicar dano não exige aguardar certeza causal, mas exige distinguir fatos, hipóteses e investigação. Primeiro vem a segurança clínica; depois transparência tempestiva, pedido de desculpas compatível com o conhecido, continuidade e análise sistêmica, sem culpar indivíduos ou alterar registros.
| Sinal | Medida | Valor | Fonte |
|---|---|---|---|
| O que os pacientes desejam saber após um erro | 13 grupos focais com 52 pacientes e 46 médicos, em contextos acadêmicos e comunitários. Estudo qualitativo: descreve estrutura de expectativa, não frequência populacional. | Quatro informações: o que aconteceu, por que aconteceu, como as consequências serão mitigadas e como a repetição será evitada — somadas a apoio emocional e pedido de desculpas | Gallagher TH, Waterman AD, Ebers AG, Fraser VJ, Levinson W. Patients' and physicians' attitudes regarding the disclosure of medical errors. JAMA. 2003;289(8):1001-7. doi:10.1001/jama.289.8.1001 |
| O que os médicos efetivamente comunicam | Mesmo estudo. Nomeia a manobra central: revelar o evento sem nomear o erro, usando termos verdadeiros como reação ou intercorrência. | Revelavam o evento adverso, mas frequentemente evitavam afirmar que houve um erro, por que ele aconteceu e como a repetição seria evitada — três das quatro informações pedidas | Gallagher TH, Waterman AD, Ebers AG, Fraser VJ, Levinson W. Patients' and physicians' attitudes regarding the disclosure of medical errors. JAMA. 2003;289(8):1001-7. doi:10.1001/jama.289.8.1001 |
| Reclamações e processos após um programa de revelação com oferta de compensação | Análise retrospectiva antes-depois em centro único (Universidade de Michigan), 1995-2007, sem grupo de comparação. Não estabelece causalidade — mudanças legislativas e de mercado no período não podem ser descartadas. | Novas reclamações caíram de 7,03 para 4,52 por 100 mil atendimentos/mês (razão de taxas 0,64); processos judiciais caíram de 2,13 para 0,75 por 100 mil (razão 0,35); tempo mediano até resolução caiu de 1,36 para 0,95 ano | Kachalia A, Kaufman SR, Boothman R, et al. Liability claims and costs before and after implementation of a medical error disclosure program. Ann Intern Med. 2010;153(4):213-21. doi:10.7326/0003-4819-153-4-201008170-00002 |
| Custos de responsabilidade no mesmo programa | Mesmo estudo e mesma limitação de desenho. Sustenta que revelar não fez o litígio explodir naquela instituição — não garante proteção jurídica individual. | Taxas médias mensais de custo caíram para cerca de 40% das anteriores: responsabilidade total (razão 0,41), compensação ao paciente (0,41) e custos jurídicos não relacionados a compensação (0,39) | Kachalia A, Kaufman SR, Boothman R, et al. Liability claims and costs before and after implementation of a medical error disclosure program. Ann Intern Med. 2010;153(4):213-21. doi:10.7326/0003-4819-153-4-201008170-00002 |
As quatro perguntas do paciente e o que costuma faltar
Antes de encerrar a conversa, confira se as quatro foram respondidas — a evidência diz que três costumam ficar de fora.
| O que o paciente quer saber | Entregue com frequência? | Como responder |
|---|---|---|
| O que aconteceu | Sim — mas como evento, não como erro | Nomear o erro com a palavra, sem substituí-la por intercorrência ou reação |
| Por que aconteceu | Frequentemente omitido | Dizer o que se sabe; onde não se sabe, dizer que está em apuração e quando haverá resposta |
| Como as consequências serão mitigadas | Parcialmente | Detalhar o que será feito agora: exames, acompanhamento, tempo, custos |
| Como a repetição será evitada | Frequentemente omitido | Informar que o caso será analisado pelo serviço e o que já mudou — sem prometer o que não depende de você |
| Apoio emocional e desculpas | Insuficiente | Sentir muito pelo dano; nunca 'lamento que a senhora se sinta assim' |
- No Brasil não existe um artigo do Código de Ética chamado revelação de erro: o dever se monta com os Arts. 34, 80, 87 e 1º.
- Responsabilidade médica é pessoal e não pode ser presumida — por isso descrever o fato é obrigação, e apontar culpado diante da família não é.
Erros que custam o achado
- Contar o evento sem nomear o erro
- A manobra medida no estudo: dizer reação, intercorrência ou complicação. Nenhuma é mentira, e é por isso que funciona como esconderijo — até a família ler o prontuário.
- Prometer que revelar protege de processo
- O dado de Michigan é antes-depois em centro único, sem grupo de comparação, ao longo de doze anos. Ele desarma o medo de que revelar multiplique processos; não garante proteção a ninguém.
- Especular sobre a causa para preencher o silêncio
- Hipótese apresentada como certeza obriga a desdizer depois, e desdizer custa mais caro que ter dito que ainda não se sabe.
- Atribuir o erro a outro profissional diante da família
- Antecipa conclusão de apuração e ignora que a responsabilidade é pessoal e não presumida. Fragiliza a equipe e não beneficia o paciente.
- Alterar, apagar ou reescrever o prontuário
- Vedado expedir documento que não corresponda à verdade, e o prontuário deve ser cronológico com data, hora e assinatura. Alterar converte erro assistencial em falsidade documental.
- Pedir desculpas pela forma como o outro se sente
- 'Lamento que a senhora se sinta assim' devolve o problema a quem sofreu o dano. O reconhecimento é do dano, não da reação a ele.
- Encerrar no pedido de desculpas
- Faltam a mitigação e a prevenção, que são duas das quatro coisas pedidas. Desculpa sem reparação concreta é lida como formalidade.
- Deixar a família com versões divergentes
- Alinhar antes com supervisor e equipe é parte do preparo. Divergência de versão destrói a confiança mais rápido do que o próprio erro.
- Achar que a conversa encerra o assunto
- A notificação institucional do incidente é outro ato, e é ela que permite ao serviço aprender. Uma não substitui a outra.
- Evitar o paciente nos dias seguintes
- Reação humana e prejudicial: aumenta a sensação de abandono e reforça a leitura de encobrimento, justamente quando a presença importa mais.
- Calar por não ter certeza de que houve erro
- Entre apontar algo que talvez não fosse erro e silenciar sobre algo que era, só o segundo é indefensável. Comunicar ao supervisor é o passo, não concluir sozinho.
Roteiro da estação
Do evento à notificação, passando pela conversa.
- 01Estabilizar o paciente e mitigar o dano possível
- 02Comunicar imediatamente supervisor e chefia
- 03Separar o que se sabe do que ainda está em apuração
- 04Definir quem conduz a conversa e alinhar a versão com a equipe
- 05Reservar sala, tempo e perguntar quem o paciente quer presente
- 06Perguntar o que a família já foi informada
- 07Dizer que houve um erro, com a palavra
- 08Explicar o que aconteceu e por quê, no que se sabe
- 09Pedir desculpas pelo dano
- 10Detalhar como as consequências serão mitigadas
- 11Informar como o caso será analisado para evitar repetição
- 12Acolher a raiva sem se defender
- 13Registrar no prontuário o fato, a conduta e o que foi comunicado, sem rasura
- 14Notificar o incidente pelo canal institucional
- 15Marcar retorno e dizer quem procurar
- 16Cuidar também do profissional envolvido
Teste-se
Agora faça no paciente
Homem de 72 anos está na enfermaria e, à beira do leito, a primeira coisa que você ouve é: "Doutor, a moça da enfermagem falou que a injeção que me deram hoje de tarde não era a minha. Eu suei frio, tremi todo e fiquei zonzo. O que foi que aconteceu comigo?" Agora é sua vez: conduza a anamnese, examine e monte o seu raciocínio.
Revisão espaçada
Quais são as quatro informações que o paciente quer após um erro, e quais três costumam ser omitidas? O que significa 'contar o evento sem nomear o erro'?
O programa de Michigan reduziu reclamações de 7,03 para 4,52 por 100 mil atendimentos. Explique por que esse estudo NÃO permite prometer que revelar protege de processo — e quais artigos do Código de Ética Médica compõem o dever de informar no Brasil.
