Raciocínio Clínico e ExamesDo exame à decisão

Rastreamento não é diagnóstico

Rastreamento começa em pessoas assintomáticas e só beneficia quando toda a cadeia produz mais desfechos bons que danos.

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O caso

Caso 1. Uma senhora de 74 anos, sem queixa nenhuma, faz uma mamografia de rotina. Encontra-se um carcinoma ductal in situ, e ela é tratada. Todo mundo sai da consulta com a mesma impressão: o rastreamento salvou uma vida. Ninguém pode dizer, naquele caso, se salvou — nem naquele caso nem em nenhum caso individual.

Caso 2. Num conjunto de ensaios clínicos de rastreamento de câncer colorretal, dois métodos reduziram a incidência da doença, dois métodos reduziram a mortalidade pela doença — e não foram os mesmos dois. E, nas análises que estimam o efeito do convite à população, nenhuma das estratégias reduziu a mortalidade por todas as causas.

Pare aqui e faça as perguntas que um aluno de primeiro ano tem todo o direito de fazer:

Se o exame encontrou um câncer de verdade, como é que isso pode não ter ajudado a paciente?

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O modelo mental

Detectar mais ou mais cedo não prova redução de mortalidade ou morbidade. Viés de tempo de antecedência, sobrediagnóstico, falsos positivos e complicações da investigação podem ampliar diagnósticos sem melhorar vidas. Critérios de elegibilidade e intervalo são parte da intervenção.

Em cada etapa, separe descrição, inferência e decisão. Essa distinção torna visível onde a evidência termina, onde começa o julgamento e qual dado exigiria revisão.

Rastrear é uma inversão completa da lógica clínica habitual. No consultório, alguém chega com queixa, existe uma probabilidade pré-teste que a história construiu, e o exame move essa probabilidade. No rastreamento, ninguém tem queixa: a probabilidade pré-teste é a prevalência da doença naquela faixa etária, que é baixíssima, e o exame é oferecido a milhares de pessoas que não pediram nada. Todo dano do exame recai sobre gente saudável.

Por isso a régua de julgamento também é outra. Um exame diagnóstico é bom quando muda a decisão de um paciente que já tem um problema. Um programa de rastreamento é bom quando muda o desfecho de uma população que não tinha problema nenhum aparente — e isso é bem mais difícil de conseguir.

Comece separando as três coisas diferentes que um rastreamento pode fazer, porque elas saem idênticas no laudo e diferentes na vida. A primeira é prevenir: encontrar e remover uma lesão precursora, de modo que o câncer não chegue a existir. A segunda é detectar precocemente: encontrar uma doença que já existia e que apareceria com sintoma mais tarde. A terceira é sobrediagnosticar: encontrar uma lesão que nunca teria produzido sintoma durante a vida daquela pessoa.

É possível medir separadamente a prevenção e a detecção precoce, e alguém fez isso. Uma reanálise de três ensaios randomizados de rastreamento por sigmoidoscopia, somando 359.198 participantes, teve exatamente esse objetivo: separar o que foi prevenido do que foi apenas antecipado. No ensaio com o seguimento mais longo, o rastreamento preveniu 64% dos casos incidentes de câncer colorretal distal esperados na ausência de rastreamento, com intervalo de 59% a 69%, ao longo de mediana de 21,3 anos.

E nos períodos entre 10 e 12 anos, a proporção de casos distais detectados precocemente ou prevenidos entre quem aderiu variou de 67%, com intervalo de 61% a 72%, num ensaio, a 80%, com intervalo de 68% a 89%, noutro — com participações aproximadamente iguais de detecção precoce e de prevenção em dois deles. Ou seja: metade do efeito aparente de um rastreamento pode ser antecipação, e só o seguimento longo separa uma coisa da outra.

Agora o caso 2, que é a parte incômoda. Numa metanálise em rede de ensaios randomizados comparando quatro estratégias de rastreamento colorretal em adultos de risco médio, as análises por intenção de rastrear mostraram redução de incidência com colonoscopia, razão de risco de 0,83 e intervalo de 0,72 a 0,96, e com sigmoidoscopia, 0,78 e intervalo de 0,74 a 0,83. Já para mortalidade pela própria doença, reduziram o risco a sigmoidoscopia, 0,74 com intervalo de 0,67 a 0,83, e a pesquisa de sangue oculto por método guaiaco, 0,87 com intervalo de 0,79 a 0,95 — e não a colonoscopia.

03

A pergunta central

Uma pergunta explícita delimita o que o dado pode e não pode decidir.

  • Há evidência de benefício líquido para esta população e capacidade de confirmar, tratar e acompanhar resultados?

    Detectar mais ou mais cedo não prova redução de mortalidade ou morbidade. Viés de tempo de antecedência, sobrediagnóstico, falsos positivos e complicações da investigação podem ampliar diagnósticos sem melhorar vidas. Critérios de elegibilidade e intervalo são parte da intervenção.

  • O que muda quando ninguém tem queixa?

    A probabilidade pré-teste cai à prevalência da população.

  • Quantas coisas o rastreamento pode achar?

    Três: lesão precursora, doença antecipada e lesão indolente.

  • O laudo separa as três?

    Não: só o desfecho medido numa população separa.

04

Aplicação passo a passo

Transforme cada dado em uma decisão contingente. O objetivo é deixar explícitos probabilidade, benefício, dano, preferência e próximo passo.

  1. 1

    Reconhecer a inversão do rastreamento

    Ninguém tem queixa e o exame é oferecido.

    Erro comum: Aplicar ao rastreamento a régua do exame diagnóstico.

  2. 2

    Nomear a detecção precoce

    Encontrar doença existente antes do sintoma.

    Erro comum: Supor que antecipar sempre melhora o desfecho.

  3. 3

    Aceitar que o laudo não separa as três

    As três produzem exatamente o mesmo resultado escrito.

    Erro comum: Tentar decidir isso no caso individual.

  4. 4

    Ler o desfecho de incidência

    Razão de risco de 0,83 e 0,78 por intenção de rastrear.

    Erro comum: Ler queda de incidência como queda de mortalidade.

  5. 5

    Preferir intenção de rastrear

    Estima o efeito do convite na população real.

    Erro comum: Divulgar o efeito medido só entre quem aderiu.

  6. 6

    Ver a estimativa mudar com o desenho

    De 27% com dois anos a 20% com 25 anos de seguimento.

    Erro comum: Citar um percentil isolado da faixa de 20% a 91%.

  7. 7

    Estimar o benefício líquido

    395 anos de vida ajustados por 10.000 rastreados.

    Erro comum: Concluir sobre custo quando o intervalo cruza o zero.

  8. 8

    Fechar pela pergunta de cabeceira

    Muda o desfecho ou apenas adianta o diagnóstico.

    Erro comum: Justificar o programa apenas por detectar mais.

05

Exemplo resolvido

Volte ao caso e aplique o modelo sem pular da seta do laudo para a conclusão. O ponto de controle é: Há evidência de benefício líquido para esta população e capacidade de confirmar, tratar e acompanhar resultados?

Pergunta do casoPeça que respondeResposta em uma linha
Achar câncer não ajudou?SobrediagnósticoParte do que se acha nunca daria sintoma
Dá para saber no caso dela?Nível de análiseNão: a resposta existe só na população
Por que a mortalidade total não cai?Tamanho do efeitoMortes pela doença são fração pequena do total
Quem reduz incidência reduz morte?Desfechos distintosNão necessariamente: ali foram métodos diferentes
Por que a análise dos aderentes é melhor?Viés de seleçãoQuem adere difere de quem não adere

As três coisas que um rastreamento encontra

O que foi encontradoO que acontece sem o rastreamentoEfeito no desfecho
Lesão precursoraProgrediria a câncerPrevenção: o câncer não chega a existir
Doença já existente, tratável antesApareceria com sintoma mais tardeBenefício, quando o tratamento precoce muda o curso
Doença já existente, curso inalterávelApareceria e evoluiria igualAntecipação sem benefício, com mais tempo de doente
Lesão indolenteNunca daria sintomaSobrediagnóstico: dano sem benefício possível
  • A ausência de redução de mortalidade por todas as causas não é prova de que o rastreamento não funciona: mortes pela doença rastreada são uma fração pequena do total, e detectar diferença nesse desfecho exigiria estudos muito maiores. A leitura correta é a mais modesta: reduziu morte por aquela doença e não se demonstrou redução de morte por qualquer causa.
  • Estimativas de sobrediagnóstico que variam de 20% a 91% para a mesma doença estão descrevendo, em boa parte, o desenho do estudo — tempo de seguimento, idade de início, intervalo entre exames e adesão. Comparar percentuais sem essas quatro informações compara coisas diferentes.
Comparação entre análise por intenção de rastrear e por protocolo, com os efeitos maiores e o alerta de viés na segunda.
O número mais bonito do estudo é o menos confiável: restringir a análise a quem aderiu reintroduz exatamente a seleção que a randomização tinha eliminado.
Duas janelas de seguimento com barras empilhadas separando casos prevenidos de casos detectados precocemente.
Em janela curta, prevenção e antecipação aparecem juntas; com vinte anos de seguimento, dá para dizer quanto foi cada uma.
Seis condições de um programa de rastreamento com destaque para a exigência de mudar o desfecho, e a evidência típica ao lado.
A terceira condição é a que separa um programa de rastreamento de um programa de detecção: encontrar antes só vale se a antecipação mudar o que acontece depois.
Três linhas do tempo com o mesmo laudo positivo: prevenção, detecção precoce com e sem benefício, e sobrediagnóstico.
O laudo não distingue as três: quem distingue é o desfecho medido numa população, e nunca o caso individual.
Valor central de 20 por cento de sobrediagnóstico com quatro eixos mostrando como seguimento, idade, intervalo e adesão o alteram.
Quando a mesma doença rende estimativas de 20 a 91 por cento, o número está descrevendo o desenho do estudo tanto quanto a biologia.
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Limites e armadilhas

Aplicar ao rastreamento a régua do exame diagnóstico
Ali ninguém tem queixa e o dano recai sobre saudáveis.
Esperar valor preditivo positivo alto
A prevalência baixa da população derruba o preditivo.
Chamar de detecção precoce o que foi prevenção
Remover precursor impede o câncer de existir.
Supor que antecipar sempre melhora
Antecipação sem benefício é mais tempo de doente.
Tratar todo achado como doença evitada
Parte do que se acha nunca daria sintoma.
Tentar decidir isso no caso individual
A distinção só existe no nível da população.
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Regra prática para o atendimento

Feche o raciocínio em voz alta e deixe um plano que outra pessoa consiga revisar.

  1. 01Aplique recomendação atual à pessoa elegível, explique benefícios e danos absolutos e garanta a cadeia após resultado anormal.
  2. 02Reconhecer que rastrear é oferecer a quem não tem queixa
  3. 03Nomear o sobrediagnóstico
  4. 04Ler o desfecho de mortalidade pela doença
  5. 05Verificar o tempo de seguimento da estimativa
  6. 06Fechar pela pergunta sobre mudança de desfecho
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Questões (10)

Sorteando as questões…
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Ponte para o atendimento

No caso vinculado, declare a probabilidade inicial e a decisão pendente antes de pedir qualquer exame. Para cada resultado, atualize a hipótese, confronte benefício e dano, explore valores do paciente e escolha agir, observar ou investigar.

Termine com diagnóstico de trabalho, grau de incerteza, responsável, prazo, resultados pendentes e sinais de alarme.

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Revisão espaçada

7 dias

Quais são as três coisas que um exame de rastreamento pode encontrar, e por que elas aparecem iguais no laudo? Por que a análise por intenção de rastrear é preferível à análise restrita a quem completou o rastreamento? Por que estimativas de sobrediagnóstico exigem seguimento longo?

30 dias

Explique os dois casos de abertura por inteiro: por que não se pode afirmar que o rastreamento salvou a vida daquela paciente de 74 anos, e por que um conjunto de ensaios pode mostrar redução de incidência com um método, redução de mortalidade pela doença com outro e nenhuma redução de mortalidade total. Na resposta, quantifique o sobrediagnóstico com comparador e certeza declarados.

Rastreamento não é diagnóstico — Ciclo básico | OsceLabs