Saúde Coletiva e Atenção Primária › O SUS por dentro
Por onde o dinheiro entra
Financiamento do SUS combina regras constitucionais e legais próprias de cada esfera, transferências interfederativas e escolhas orçamentárias que condicionam a oferta real.
O caso
Novembro, unidade básica de saúde de um município de doze mil habitantes. A enfermeira avisa que acabaram as tiras de glicemia capilar e que a próxima remessa fica para janeiro. Quem controla diabetes em casa vai passar dois meses sem medir. A técnica comenta, sem levantar a cabeça do computador: todo ano é assim, no fim do ano falta. Na mesma semana, a Secretaria Municipal de Saúde efetua o pagamento de um medicamento oncológico de alto custo para um único paciente, por determinação judicial. O valor daquela compra é maior que o orçamento anual de insumos da unidade inteira.
As duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo, no mesmo município, no mesmo mês. E a estudante que acompanha o estágio faz, em voz alta, as perguntas certas. De onde vem o dinheiro que paga esta unidade? Quem manda o recurso: a prefeitura, o estado, o governo federal? Os três? Em que proporção? Por que falta justamente no fim do ano? Se o dinheiro é anual, por que a falta tem estação certa? Como pode faltar tira de glicemia e existir dinheiro para um remédio caríssimo? Alguém decidiu que um vale mais que o outro?
Nenhuma dessas perguntas é ingênua. As três têm resposta técnica, e as três explicam parte grande do que você vai encontrar na vida profissional. Vamos por partes: de onde vem o dinheiro, como ele chega, e por que ele acaba.
A ideia central
Dinheiro em saúde pública exige três perguntas encadeadas: de onde vem, por quais regras é transferido e como se transforma em oferta. O financiamento do SUS é tripartite, mas as bases de cálculo e os pisos não são idênticos entre as esferas. Estados, Distrito Federal e municípios aplicam mínimos definidos pela Lei Complementar nº 141/2012; o piso federal segue a regra constitucional vigente. Além das transferências entre fundos, cada esfera executa recursos próprios. Por isso, não existe uma única porcentagem que explique toda a conta.
Agora o número que reorganiza a compreensão de qualquer pessoa sobre o sistema brasileiro. O gasto total com saúde no país equivale a 9,8% do produto interno bruto — proporção comparável à de países ricos. A distribuição, porém, é o oposto da de um sistema universal maduro: 44% é público, 29% vem de planos privados e 22% sai diretamente do bolso das famílias (Minho Conill e Giovanella, Gaceta Sanitaria, 2026). Leia de novo: num país que promete atender toda a população pelo sistema público, menos da metade do dinheiro de saúde é público. O restante circula por planos e por pagamento direto, que atendem a uma parcela da população. Os mesmos autores nomeiam a consequência sem rodeio: gasto público menor que o privado é barreira ao princípio do acesso universal.
Esse desequilíbrio ajuda a explicar limites de oferta, mas não permite atribuir automaticamente uma falta específica a uma única causa. Ato 2 — Como chega: transferências fundo a fundo são organizadas por blocos, componentes e finalidades definidos em normas que mudam ao longo do tempo. Na atenção primária, o modelo federal instituído pela Portaria GM/MS nº 3.493/2024 combina componente fixo para equipes, vínculo e acompanhamento territorial, qualidade e incentivos para implantação de programas, serviços, profissionais e outras equipes.
Os recursos não formam um caixa irrestrito: categoria econômica, finalidade, plano de saúde, programação orçamentária e regras do repasse limitam o uso. Isso, porém, não significa que cada rubrica histórica seja um recipiente absolutamente isolado. Diante de uma falta, é preciso verificar a fonte, o bloco, se o recurso é de custeio ou investimento, a dotação, o saldo, a etapa da compra e a possibilidade legal de remanejamento. Saldo em outra finalidade não garante uso imediato, mas a impossibilidade também não deve ser presumida.
Uma série histórica das transferências federais para a atenção básica na Bahia, entre 2008 e 2017, mostrou crescimento real e diferenças por porte municipal (Jesus e colaboradores, Ciência & Saúde Coletiva, 2025). Esse achado descreve o período e o modelo então vigente; não deve ser apresentado como fórmula atual de repasse. A lição que permanece é distributiva: critérios de alocação podem reduzir ou ampliar desigualdades conforme considerem população, vulnerabilidade, estrutura e capacidade de oferta.
Indicadores continuam participando do cofinanciamento federal da atenção primária por meio do componente de qualidade, mas o desenho atual não se resume ao antigo pagamento por desempenho. Resultados de 2022–2023 pertencem ao modelo anterior e servem como evidência histórica, não como descrição da regra de 2026. Na gestão, indicador baixo deve ser lido junto com cadastro, continuidade, disponibilidade de insumos e barreiras do território; sozinho, ele não distingue falha de processo, problema de registro ou insuficiência material.
Ato 3 — Por que falta: a causa precisa ser demonstrada no caso concreto. Oscilações econômicas municipais podem afetar a despesa em saúde, e um painel de 5.461 municípios entre 2004 e 2017 encontrou associação entre produto local e gasto municipal, maior para saúde e saneamento do que para a despesa total (Arruda e colaboradores, Health Policy and Planning, 2026). Associação agregada não prova que uma falta de novembro decorreu de corte automático nem que saúde seja sempre a primeira área reduzida.
A elasticidade estimada foi maior para saúde e saneamento naquele período e conjunto de municípios. Isso sugere maior sensibilidade ao ciclo econômico, especialmente em contextos de menor renda e cobertura privada, mas não autoriza concluir dependência exclusiva do SUS nem identificar a causa de um desabastecimento individual sem examinar orçamento, compra, estoque, entrega e consumo.
A segunda força é jurídica, e responde à terceira pergunta da cena. Quando o sistema não entrega algo a que a pessoa entende ter direito, ela pode recorrer ao Judiciário — e a decisão judicial cria uma despesa obrigatória, imediata, fora da fila e fora do planejamento. É o que se chama de judicialização da saúde. A magnitude não é pequena e pode ser medida numa condição só. Um levantamento de 3.136 demandas judiciais relacionadas ao tratamento do câncer de próstata no Brasil encontrou que 89% pediam medicamentos, com os inibidores de androgênio respondendo por 78,8% das ações, e estimou o ônus anual dessas demandas sobre o sistema público em R$ 783 milhões, após um crescimento de trinta vezes em quatro anos (Silveira e colaboradores, Einstein, 2025).
Não confunda o mecanismo com julgamento moral do paciente que processa. Do ponto de vista individual, recorrer é racional e legítimo. Do ponto de vista de sistema, cada decisão desloca recurso de uma fila coletiva planejada para uma demanda individual não planejada — e quem fica sem tira de glicemia não tem advogado, não faz barulho e não aparece em processo nenhum. Existe resposta técnica a isso, e ela funciona. Núcleos de apoio técnico ao Judiciário produzem notas com avaliação de tecnologia para instruir a decisão do juiz. Numa avaliação de impacto desses núcleos, a recomendação técnica e a decisão judicial ficaram alinhadas em 76% dos casos, com economia mediana de R$ 10.120 por caso ao ano e total de R$ 111,4 milhões entre 2020 e 2022, com retorno de R$ 1,66 para cada R$ 1 investido (Reis Correia e colaboradores, Einstein, 2025).
A análise de custo das internações psiquiátricas mostra que uma transferência federal pode cobrir apenas parte da despesa direta de um serviço, exigindo participação das demais esferas. Ao voltar à unidade de novembro, portanto, há hipóteses a investigar — programação insuficiente, dotação inadequada, atraso de compra ou entrega, consumo acima do previsto, restrição de aplicação ou pressão de despesas não planejadas. O dado correto não é ‘faltou porque o recurso era carimbado’, mas em qual etapa verificável a oferta deixou de ser produzida.
A pergunta de cabeceira: quando faltar algo no seu serviço, você vai conseguir dizer em qual das três etapas o dinheiro parou — na origem, no caminho ou na saída?


O mecanismo
As perguntas da unidade de novembro, respondidas pelas três etapas do dinheiro.
“De onde vem o dinheiro que paga esta unidade?”
Das três esferas de governo, cada uma com percentual mínimo de receita vinculado por lei. A participação municipal cresceu ao longo das décadas, e é ela que costuma sustentar a atenção primária no dia a dia.
“Por que falta justamente no fim do ano?”
Porque o recurso é carimbado por finalidade, chega ao longo do exercício e não pode migrar livremente entre rubricas. Quando uma delas se esgota, o saldo de outra não a socorre — e o esgotamento tende a se concentrar no fim do ciclo orçamentário.
“Como pode faltar insumo barato e existir dinheiro para medicamento caro?”
Porque a decisão judicial cria despesa obrigatória, imediata e fora do planejamento. Ela não disputa a fila: passa por fora dela. Quem fica sem o insumo barato não tem processo, e por isso não aparece.
“Se o Brasil gasta quase 10% do produto interno bruto com saúde, por que falta?”
Porque menos da metade desse gasto é público. O restante circula por planos privados e por pagamento direto das famílias, atendendo a uma parcela da população, enquanto o sistema público responde por toda ela.
“Por que o município pequeno sente mais o aperto?”
Porque depende quase inteiramente do fundo público e tem menor cobertura privada. Quando a economia local retrai, o corte em saúde é proporcionalmente maior justamente onde não existe alternativa.
“Por que os indicadores de hipertensão e diabetes têm o pior desempenho?”
Porque dependem de acompanhamento contínuo e de insumo permanente. O financiamento por desempenho cobra o resultado do serviço mesmo quando o que faltou foi exatamente aquilo que o repasse deveria ter garantido.
Como se organiza
- Perguntar de qual rubrica vem o que está faltando; Distinguir falta de recurso de falta de recurso naquela rubrica
- Insumo, medicamento, exame e pessoal costumam vir de fontes distintas, e cada falta tem endereço próprio. Município com caixa numa finalidade e vazio em outra é o comportamento esperado do repasse carimbado.
- Situar o gasto público dentro do gasto total; Considerar o ciclo econômico local
- Comparar apenas o percentual do produto interno bruto esconde que menos da metade do gasto brasileiro em saúde é público. Retração no município antecede corte em saúde, com queda proporcionalmente maior que a da despesa total.
- Identificar quem depende exclusivamente do sistema público; Tratar decisão judicial como despesa fora da fila
- Menor renda e menor cobertura privada indicam a população que sente primeiro qualquer redução. Ela é legítima do ponto de vista individual e desloca recurso planejado do ponto de vista coletivo.
- Procurar quem não tem como reivindicar; Ler indicador de desempenho junto com a condição de trabalho
- A falta que ninguém processa é invisível para o orçamento e costuma atingir o cuidado contínuo. Meta não atingida pode medir insumo ausente, e não esforço insuficiente da equipe.
Como raciocinar
Como rastrear o dinheiro de um serviço de saúde, da origem até a falta na prateleira.
- 1
Nomear as três esferas que financiam aquele serviço — Verificar o peso relativo do gasto público no total
União, estado e município, cada uma com percentual mínimo vinculado. Atenção: Atribuir a um único governo a responsabilidade integral pelo custeio. Quanto do gasto em saúde daquele contexto é público e quanto é privado. Atenção: Concluir suficiência a partir do percentual do produto interno bruto isolado. Atenção primária, farmacêutica, média e alta complexidade ou vigilância. Atenção: Tratar o orçamento da saúde como caixa único e fungível. Por habitante, por equipe, por produção ou por desempenho. Atenção: Supor que todo repasse segue a mesma lógica de cálculo.
- 2
Estimar o efeito do porte populacional — Verificar a fração condicionada a indicadores
Componente por habitante favorece proporcionalmente municípios pequenos. Atenção: Comparar valores absolutos entre municípios de portes diferentes. Parte do repasse depende de metas alcançadas no período. Atenção: Ignorar que a meta não atingida reduz o recurso do período seguinte. Indicador de crônica exige insumo contínuo disponível. Atenção: Ler meta não atingida como desempenho ruim da equipe. Rubricas se esgotam ao longo do exercício e a falta tende a se concentrar no fim. Atenção: Interpretar sazonalidade de falta como coincidência.
- 3
Observar a trajetória econômica local — Medir a vulnerabilidade daquela população ao corte
Retração no produto municipal antecede redução do gasto em saúde. Atenção: Analisar o orçamento da saúde isolado da economia do município. Renda baixa e pouca cobertura privada concentram a dependência do sistema público. Atenção: Presumir que o corte se distribui igualmente entre os usuários. Decisões judiciais e determinações externas consomem orçamento previsto para outras finalidades. Atenção: Somar apenas as despesas programadas ao avaliar o orçamento. Notas com avaliação de tecnologia aumentam o alinhamento e reduzem o gasto. Atenção: Tratar a judicialização como fenômeno sem resposta técnica possível.
- 4
Identificar quem perdeu recurso sem reivindicar — Comparar o custo real do serviço com o repasse recebido
O cuidado contínuo e o insumo barato costumam ser os deslocados. Atenção: Avaliar o efeito da decisão só pelo paciente que a obteve. A diferença mostra quem está de fato sustentando aquela oferta. Atenção: Supor que o repasse federal cobre a maior parte do custo assistencial. Pessoal, estrutura e apoio pesam tanto quanto o insumo assistencial. Atenção: Contabilizar apenas o que é visível à beira do leito. Origem, caminho até o fundo local ou saída para a ponta. Atenção: Encerrar a análise na palavra desfinanciamento.
- 5
Formular a pergunta certa ao gestor — Ajustar a conduta clínica ao que existe agora
Qual rubrica, qual saldo, qual prazo de reposição daquele item. Atenção: Reclamar da falta sem especificar o que se pergunta. Escolher o esquema sustentável com o insumo disponível naquele período. Atenção: Prescrever o ideal indisponível e registrar má adesão depois. O registro transforma escassez em dado, e dado em argumento. Atenção: Resolver informalmente e deixar o problema sem rastro. Não interromper por conta própria e retornar ao serviço. Atenção: Deixar a pessoa decidir sozinha diante da falta.
O esperado e os alertas
- O insumo de uso contínuo está disponível ao longo de todo o exercício, sem sazonalidade de falta.
- As três esferas cumprem as regras de aplicação mínima e financiamento que lhes são próprias.
- As despesas obrigatórias fora do planejamento representam fração pequena do orçamento executado.
- As metas de indicadores de doença crônica são perseguidas com o insumo necessário disponível.
- Falta de insumo básico com sazonalidade previsível no fim do ano
- A falta pode decorrer de programação, dotação, compra, entrega ou restrição de aplicação; saldo em outra finalidade não garante uso imediato.
- Gasto público representando menos da metade do gasto total em saúde do país
- Desequilíbrio estrutural: o setor público responde por toda a população com menos recursos do que circulam no setor privado.
- Queda do gasto municipal em saúde acompanhando retração econômica local
- Comportamento pró-cíclico, com elasticidade maior que a da despesa total do município.
- Município de baixa renda e baixa cobertura privada sofrendo corte proporcionalmente maior
- A redução recai justamente sobre a população sem alternativa ao sistema público.
- Despesa judicial de alto valor executada fora da fila planejada
- Deslocamento de recurso coletivo para demanda individual, com custo silencioso em quem não reivindica.
- Crescimento acelerado de ações judiciais concentradas em poucos medicamentos
- Pressão financeira concentrada, previsível e passível de resposta técnica prévia.
- Transferência federal cobrindo fração pequena do custo direto de um serviço
- A conta real está sendo sustentada por outra esfera de governo, com risco à continuidade da oferta.
- Meta de indicador de crônica não atingida em serviço sem insumo disponível
- O indicador está medindo a falta, e não o esforço da equipe; punir o serviço agrava o problema que ele mede.
Por que isso importa
Financiamento não é um detalhe posterior ao cuidado: define equipe, transporte, insumo, leito e tempo de espera. A análise correta separa os pisos e regras de aplicação de cada esfera, as transferências e a execução local, sem supor uma única porcentagem para todos. No caso, siga o recurso até a oferta concreta e identifique onde planejamento, repasse ou execução deixou de produzir acesso.
| Sinal | Medida | Valor | Fonte |
|---|---|---|---|
| Composição do gasto total com saúde no Brasil | Revisão sobre a história e os desafios do sistema brasileiro, que identifica o subfinanciamento público como obstáculo desde a criação do SUS e registra a Estratégia Saúde da Família presente em 5.570 municípios, com 53 mil equipes e 280 mil agentes comunitários | Gasto total equivalente a 9,8% do produto interno bruto, sendo 44% público, 29% de planos privados e 22% de gasto direto das famílias | Minho Conill E, Giovanella L. Brazil's Unified Health System: history and challenges. Gaceta Sanitaria. 2026;40(Suppl 2). PMID 41740218; doi 10.1016/j.gaceta.2026.102573 |
| Sensibilidade do gasto municipal em saúde ao ciclo econômico local | Painel longitudinal com efeitos fixos em 5.461 municípios brasileiros, 2004–2017; municípios de menor renda per capita e menor cobertura de plano privado mostraram-se mais vulneráveis aos cortes | Aumento de 1% no produto interno bruto per capita municipal associou-se a 0,06% (IC 95% 0,04–0,09) a mais na despesa municipal total e a 0,12% (IC 95% 0,06–0,18) a mais na despesa com saúde e saneamento | Arruda H, Codazzi K, Rocha R, Suhrcke M, Hone T. Macroeconomic fluctuations and the prioritization of healthcare funding by local governments. Health Policy and Planning. 2026. PMID 41906640; doi 10.1093/heapol/czag043 |
| Transferência federal para a atenção básica e efeito do porte do município | Série histórica descritiva das transferências federais do bloco da atenção básica aos municípios da Bahia, 2008–2017, estratificada por porte populacional | Aumento de 14,3% em valores reais no período, com repasse per capita em municípios de pequeno porte passando de R$ 124,32 por habitante ao ano em 2008 para R$ 143,36 em 2017 | Jesus AS, Aquino R, Vilasbôas ALQ. Financing of primary care in the municipalities of the state of Bahia, Brazil. Ciência & Saúde Coletiva. 2025. PMID 40471605; doi 10.1590/1413-812320242911.12592023 |
| Cobertura da transferência federal sobre o custo real de um serviço hospitalar | Análise transversal de custo de 421 internações psiquiátricas em hospital geral, no ano de 2023 | Transferências federais cobriram 12% da despesa direta; custo anual de R$ 13.984.390,24 e custo médio por internação de R$ 33.217,08, com 44,6% de custos diretos e 55,4% de indiretos | de Freitas RA, Nepomuceno V, da Silva AG, Baldaçara L. The funding of hospital beds allocated to the care of psychiatric patients in a general hospital located in Palmas, Tocantins. Revista Brasileira de Psiquiatria. 2026. PMID 42412980; doi 10.47626/1516-4446-2026-4868 |
| Magnitude financeira da judicialização em uma única condição | Análise de 3.136 demandas judiciais relacionadas ao tratamento do câncer de próstata no Brasil | 89% das ações pediam medicamentos, com inibidores de androgênio em 78,8% delas; ônus anual estimado de R$ 783 milhões sobre o sistema público, após crescimento de trinta vezes em quatro anos | Silveira MAD, Ricomini CO, Silva RCD, et al. Judicial demands for prostate cancer treatment in Brazil. Einstein (São Paulo). 2025. PMID 41092154; doi 10.31744/einstein_journal/2025gs1301 |
| Efeito do apoio técnico às decisões judiciais em saúde | Avaliação de impacto das notas técnicas emitidas por núcleos de apoio técnico ao Judiciário | Alinhamento entre recomendação técnica e decisão judicial em 76% dos casos; economia mediana de R$ 10.120 por caso ao ano e total de R$ 111,4 milhões entre 2020 e 2022, com retorno de R$ 1,66 por real investido | Reis Correia L, Nascimento de Paula LG, Trecenti J, Daleffi da Silva B. Impact evaluation of technical notes issued by NATJUS on healthcare judicialization. Einstein (São Paulo). 2025. PMID 40531782; doi 10.31744/einstein_journal/2025gs0766 |
Síntese para comparar
As perguntas da cena, o mecanismo que responde e a resposta em uma linha.
| Pergunta da cena | Mecanismo | Resposta em uma linha |
|---|---|---|
| De onde vem o dinheiro? | Financiamento tripartite vinculado | As três esferas financiam, segundo bases e pisos legais próprios |
| Por que falta no fim do ano? | Transferência vinculada a blocos e regras de aplicação | Rubrica esgotada não é socorrida pelo saldo de outra |
| Por que sobra para o caro e falta o barato? | Despesa judicial obrigatória | A decisão judicial passa por fora da fila planejada |
| Por que o município pequeno sofre mais? | Gasto público pró-cíclico | Corte maior onde a dependência do sistema público é total |
| Por que a meta não é atingida? | Componente de qualidade | O indicador pode estar medindo a falta de insumo, não o esforço |
As três etapas do dinheiro e onde ele costuma parar
| Etapa | O que acontece nela | Sinal de que parou aqui |
|---|---|---|
| Origem | Bases de cálculo, pisos legais e recursos próprios das três esferas | Gasto público pequeno diante do que o sistema promete cobrir |
| Caminho | Transferência entre fundos, carimbada por finalidade e critério de cálculo | Saldo numa rubrica ao lado de falta em outra |
| Saída | Execução na ponta, disputada por despesas obrigatórias imprevistas | Insumo básico em falta enquanto despesa judicial é executada |
Critérios de cálculo do repasse e o que cada um favorece
| Critério | Como se calcula | Efeito prático |
|---|---|---|
| Por habitante | Valor multiplicado pela população adscrita | Favorece proporcionalmente municípios pequenos |
| Por equipe | Incentivo por equipe habilitada e em funcionamento | Estimula manter a equipe completa |
| Por produção | Vinculado ao serviço efetivamente registrado | Depende de registro correto do que foi feito |
| Por desempenho | Condicionado a indicadores pactuados | Pode punir o serviço que já está sem insumo |
Armadilhas reais
- Dizer apenas que faltou verba; Tratar o orçamento da saúde como caixa único; Comparar o gasto brasileiro sem separar público de privado
- Sem nomear fonte, bloco, categoria econômica, saldo e etapa da compra, a frase não permite agir. O recurso tem regras de aplicação, mas a possibilidade de remanejamento precisa ser verificada, não presumida.
- Atribuir a um único governo a responsabilidade pelo custeio; Ignorar a economia local ao analisar o orçamento; Supor que o corte atinge todos igualmente
- O financiamento é tripartite, com participação municipal crescente. Retração no produto municipal antecede corte em saúde, com elasticidade maior que a da despesa total. Ele pesa mais onde a renda é menor e a cobertura privada é rara.
- Julgar moralmente o paciente que aciona a Justiça; Tratar a judicialização como fenômeno sem solução; Avaliar o efeito da decisão judicial só pelo paciente atendido
- Recorrer é racional no plano individual; o problema é de sistema e tem resposta técnica. Apoio técnico às decisões aumenta o alinhamento e reduz o gasto de forma mensurável. O custo aparece em quem perdeu recurso sem ter como reivindicar.
- Ler meta não atingida como desempenho ruim da equipe; Supor que o repasse federal cobre a maior parte do custo; Contabilizar só o custo visível à beira do leito
- Indicador de crônica sem insumo disponível mede a falta, não o esforço. Em serviços de custo alto ele pode cobrir fração pequena da despesa direta. Custos indiretos podem superar os diretos e sustentam a operação inteira.
- Prescrever o ideal indisponível e registrar má adesão depois; Resolver a falta informalmente sem deixar registro
- A escolha terapêutica precisa considerar o que existe agora naquele serviço. Escassez sem registro não vira dado, e sem dado ninguém corrige a compra.
Roteiro executável
Como rastrear o dinheiro, da origem até a prateleira vazia.
- 01Nomear as três esferas que financiam aquele serviço Verificar quanto do gasto em saúde ali é público Identificar a rubrica de origem do item que faltou
- 02Checar o critério de cálculo daquele repasse Estimar o efeito do porte populacional no valor recebido Verificar qual fração do repasse depende de indicadores
- 03Confrontar a meta com a condição material de alcançá-la Situar em que ponto do exercício orçamentário se está Observar a trajetória econômica recente do município
- 04Medir a dependência daquela população do sistema público Levantar as despesas obrigatórias fora do planejamento Verificar se há apoio técnico às decisões judiciais
- 05Identificar quem perdeu recurso sem reivindicar Comparar o custo real do serviço com o repasse recebido Separar custo direto de custo indireto
- 06Dizer em qual etapa o dinheiro parou Ajustar a conduta ao insumo efetivamente disponível Registrar a falta e orientar o paciente sobre o que fazer
Questões (10)
Ponte para a pessoa e o território
No caso vinculado, localize a necessidade, o território e o ponto da rede capaz de responder agora. Nomeie a responsabilidade de cada equipe, comunique gravidade e pergunta clínica, confirme o recebimento e combine quem seguirá responsável até a próxima transição. Explique à pessoa o percurso possível e as alternativas se a barreira persistir.
Revisão espaçada
Quais são as três esferas que financiam o SUS e por que os percentuais mínimos são vinculados por lei? O que significa dizer que o repasse chega carimbado, e que consequência isso tem para a falta de insumo? E por que o gasto municipal em saúde cai mais que a despesa total quando a economia local retrai?
Reconstrua a unidade de novembro do começo ao fim: diga de onde vinha o dinheiro daquele serviço, por qual critério ele foi calculado, em que momento do exercício a rubrica se esgotou, qual despesa obrigatória fora do planejamento consumiu orçamento no mesmo período, e por que o município pequeno sentiu mais o aperto. Depois formule, com as palavras que você usaria de fato, a pergunta que faria ao gestor local — especificando rubrica, saldo e prazo de reposição — e a orientação que daria ao paciente que ficou sem o insumo.
