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Rastrear uma população não é diagnosticar uma pessoa
Rastreamento oferece uma sequência organizada a pessoas assintomáticas; diagnóstico investiga uma necessidade individual, e ambos exigem confirmação, seguimento e balanço explícito entre benefício e dano.
O caso
Duas mulheres de 54 anos fazem mamografia na mesma semana, no mesmo aparelho, com a mesma técnica. A primeira, dona Cleide, procurou o serviço porque sentiu um nódulo endurecido na mama esquerda há três semanas. Ela tem uma queixa, e o exame vai ajudar a esclarecê-la. A segunda, dona Fátima, não sente nada. Foi chamada por uma carta do programa de rastreamento, que a convidou a comparecer. Ela estava bem, está bem, e provavelmente continuará bem. O exame é o mesmo. A situação clínica, não. E a diferença entre as duas é o assunto deste capítulo — porque o que se faz com dona Fátima obedece a uma lógica completamente distinta.
Repare no detalhe que inverte tudo: dona Cleide procurou o sistema; dona Fátima foi procurada por ele. Quando o serviço convida uma pessoa saudável para um exame, ele assume uma responsabilidade que não tem quando alguém chega com uma queixa. As três perguntas que aparecem são as deste capítulo. Se o exame é o mesmo, por que a lógica seria diferente? Um nódulo é um nódulo. Rastrear pode fazer mal? Como um exame pode prejudicar quem está bem? Por que não rastrear todo mundo para tudo? Se detectar cedo é bom, quanto mais, melhor.
As respostas explicam por que rastreamento é uma das decisões mais delicadas da saúde pública — e por que ele exige critérios que nenhum exame diagnóstico exige.
A ideia central
Três coisas mudam quando se passa da investigação diagnóstica para o rastreamento: quem procura quem, quais danos entram na conta, e como se sabe se o programa funcionou. Ato 1 — Quem convida assume a responsabilidade. Em investigação diagnóstica, alguém tem uma queixa e procura ajuda. O balanço é favorável quase por definição: a pessoa já está incomodada, já tem probabilidade elevada de doença, e o exame vai reduzir sua incerteza. Em rastreamento, o sistema convida pessoas assintomáticas. A maioria delas não tem a doença, não tinha nenhum problema antes do convite, e só pode sair dessa história igual ou pior. É por isso que a exigência de evidência é maior — e não menor — do que para um exame diagnóstico.
Daí a existência de critérios clássicos para decidir se vale a pena rastrear uma condição, formulados originalmente por Wilson e Jungner. Em resumo: a doença precisa ser importante e ter fase silenciosa detectável; deve existir tratamento que funcione melhor quando aplicado cedo; o teste precisa ser aceitável, com desempenho conhecido; e o programa inteiro — inclusive o que se faz com os resultados alterados — precisa estar disponível e ser sustentável. Repare no que esses critérios exigem além do teste: caminho completo. Rastrear sem ter para onde encaminhar quem tem resultado alterado é gerar ansiedade sem gerar benefício. Ato 2 — Os danos próprios do rastreamento. Aqui está a resposta à segunda pergunta da cena. Rastrear tem quatro danos característicos, e todos recaem sobre gente que estava bem.
O primeiro é o falso-positivo. Como a maioria dos rastreados não tem a doença, mesmo um teste muito específico produz muitos resultados alterados em pessoas sadias — você já viu essa aritmética no capítulo de valor preditivo. Cada falso-positivo gera ansiedade, exames adicionais e, às vezes, procedimentos invasivos. O segundo é a cascata diagnóstica: um achado incidental leva a outro exame, que leva a outro, com riscos acumulados ao longo do caminho. O terceiro, e o mais difícil de enxergar, é o sobrediagnóstico: encontrar uma doença real que nunca teria causado sintoma nem morte se não tivesse sido procurada. O paciente passa a ser tratado — com cirurgia, radiação ou medicamento — sem chance de se beneficiar, porque não havia o que evitar.
O quarto é o sobretratamento que decorre dos anteriores, e ele tem correção possível. Quando uma entidade de comportamento indolente foi retirada da categoria de malignidade, o risco estimado de câncer em nódulos tireoidianos indeterminados caiu de 15,6% para 12,5% numa categoria e de 48,7% para 41,4% em outra — mudança que altera indicação cirúrgica sem que nenhuma lesão tenha mudado (De Luca e colaboradores, Cancers, 2026).
Ato 3 — Por que o rastreamento parece melhor do que é, e como se avalia de verdade. Existem dois vieses que inflam sistematicamente o benefício aparente de qualquer programa de rastreamento, e você precisa reconhecê-los de olhos fechados. O viés de antecipação é o seguinte: ao diagnosticar mais cedo, aumenta-se o tempo entre o diagnóstico e a morte, ainda que a data da morte não mude. A sobrevida em cinco anos melhora sem que ninguém tenha vivido um dia a mais. O viés de duração é mais sutil: doenças de evolução lenta permanecem mais tempo na fase silenciosa e, por isso, têm mais chance de serem capturadas por um exame de rotina. O rastreamento colhe preferencialmente os casos de melhor prognóstico, e o conjunto detectado parece ter evolução mais favorável do que a doença realmente tem.
A consequência prática dos dois é a mesma e vale memorizar: sobrevida não avalia programa de rastreamento; mortalidade avalia. É exatamente esse o motivo pelo qual comitês nacionais insistem que desfechos substitutos não bastam para decidir sobre rastreamento (Batson e colaboradores, BMJ, 2026). Um dado que ilustra o fenômeno da migração de estágio: num registro nacional de câncer, a proporção de diagnósticos em estágio localizado subiu de 45,6% em 2005 para 51,8% em 2023, e a sobrevida relativa em cinco anos foi de 73,7% no conjunto e 92,7% nos casos localizados (Park e colaboradores, Cancer Research and Treatment, 2026). Parte da melhora da sobrevida do conjunto vem da mudança de composição, e não do tratamento.
Feita a avaliação corretamente, o balanço costuma ser positivo e menor do que se imagina, e depende fortemente das premissas. Numa modelagem baseada em dados de um programa nacional de rastreamento mamográfico, o ganho líquido foi de 6.819 anos de vida ajustados por qualidade por 100 mil mulheres; sob premissas otimistas — 40% de redução de mortalidade e 15% de sobrediagnóstico — o ganho subia a 7.444; sob premissas pessimistas — 20% de redução e 50% de sobrediagnóstico — caía para 2.446 por 100 mil (Groeneweg e colaboradores, International Journal of Cancer, 2026). Note que o ganho permanece positivo nos três cenários e varia por um fator de três. É por isso que discussões sobre rastreamento são tão ásperas: pessoas razoáveis discordam sobre as premissas, não sobre a aritmética.
A terceira pergunta da cena — por que não rastrear todo mundo para tudo — encontra resposta na regra de elegibilidade. Numa comparação de modelos sobre critérios de rastreamento de câncer de pulmão, um critério baseado em 35 anos de exposição alcançou mortes evitadas e anos de vida ganhos comparáveis às diretrizes vigentes, enquanto um critério mais amplo, de 20 anos, exigiu substancialmente mais exames para ganho apenas modesto — ou seja, menos benefício por exame realizado (Cao e colaboradores, Journal of the National Cancer Institute, 2026). Ampliar indiscriminadamente aumenta danos, custo e falso-positivos mais rápido do que aumenta benefício. Definir bem quem é elegível é parte do desenho do programa, e não detalhe burocrático.
Por fim, dois lembretes operacionais dos capítulos anteriores. Primeiro: o indicador de cobertura precisa de denominador correto — corrigir por histerectomia elevou a participação estimada de 57,3% para 60,4% e deslocou a faixa etária de maior participação (Paudel e colaboradores, BMC Women's Health, 2026). Segundo: mesmo com programa consolidado, a incidência varia muito entre regiões — de 4,3 a 14,8 por 100 mil entre estados na comparação de Amboree e colaboradores (JNCI Cancer Spectrum, 2026) —, o que mostra que ter programa não é o mesmo que ter programa funcionando em toda parte. Voltemos às duas mulheres. Dona Cleide tem queixa: investiga-se até esclarecer, e o balanço é favorável. Dona Fátima foi convidada: o serviço precisa ter certeza de que o convite faz mais bem do que mal, precisa explicar o que pode acontecer, e precisa garantir o caminho completo caso o exame venha alterado.
A pergunta de cabeceira: do próximo exame que você pedir, o paciente tinha queixa — ou foi você quem propôs procurar?



O mecanismo
As perguntas das duas mamografias, respondidas pela diferença entre procurar e ser procurado.
“Se o exame é o mesmo, por que a lógica é diferente?”
Porque muda quem procura quem. Na investigação a pessoa tem queixa e probabilidade elevada de doença; no rastreamento o serviço convida gente saudável, que só pode sair da história igual ou pior.
“Rastrear pode fazer mal?”
Pode, por quatro caminhos: falso-positivo com ansiedade e exames adicionais, cascata diagnóstica, sobrediagnóstico de doença que nunca causaria sintoma, e o sobretratamento que decorre deles.
“Por que não rastrear todo mundo para tudo?”
Porque ampliar indiscriminadamente aumenta danos, custo e falso-positivos mais rápido que benefício. Num modelo de rastreamento pulmonar, um critério mais amplo exigiu muito mais exames para ganho apenas modesto.
“Por que a sobrevida não serve para avaliar rastreamento?”
Por dois vieses: a antecipação alonga o intervalo entre diagnóstico e morte sem adiar a morte, e a duração faz o programa capturar preferencialmente os casos de evolução lenta. O desfecho válido é a mortalidade.
“O benefício do rastreamento é grande?”
É positivo e menor do que se imagina, e depende das premissas. No mesmo modelo, o ganho variou de 2.446 a 7.444 anos de vida ajustados por qualidade por 100 mil mulheres conforme as suposições adotadas.
“Basta ter o exame disponível para rastrear?”
Não. É preciso ter o caminho completo — confirmação, tratamento e seguimento — para quem tiver resultado alterado. Rastrear sem esse caminho gera ansiedade sem gerar benefício.
Como se organiza
- Distinguir investigação de rastreamento antes de pedir o exame; Verificar se existe caminho completo para o resultado alterado
- A existência de queixa muda inteiramente o balanço entre benefício e dano. Confirmação, tratamento e seguimento precisam estar disponíveis.
- Estimar quantos falso-positivos o exame produzirá; Considerar o sobrediagnóstico como dano real
- Em população majoritariamente sadia, mesmo teste específico gera muitos alterados sem doença. Doença encontrada que nunca causaria sintoma leva a tratamento sem chance de benefício.
- Avaliar programas por mortalidade, nunca por sobrevida; Verificar a regra de elegibilidade adotada
- Antecipação e duração inflam a sobrevida sem que ninguém viva mais. Critério mais amplo costuma render menos benefício por exame realizado.
- Explicar ao paciente que o exame pode trazer problemas; Conferir o denominador do indicador de cobertura
- Quem é convidado tem direito de saber o que pode acontecer se o resultado vier alterado. Incluir quem não pode ser rastreado subestima a cobertura e distorce a faixa prioritária.
Como raciocinar
Como decidir e conduzir um rastreamento sem transformar pessoa saudável em paciente.
- 1
Verificar se há queixa ou achado prévio — Confirmar que a condição tem fase silenciosa detectável
Presença de sintoma define investigação diagnóstica, não rastreamento. Atenção: Chamar de rastreamento a investigação de uma queixa existente. Sem janela pré-clínica não há o que rastrear. Atenção: Rastrear doença de início abrupto e curso rápido. Detectar cedo só ajuda se mudar o desfecho. Atenção: Antecipar diagnóstico sem alterar o curso da doença. Sensibilidade e especificidade medidas em quem será rastreado. Atenção: Transportar acurácia obtida em população sintomática.
- 2
Estimar o valor preditivo positivo esperado — Quantificar os falso-positivos previstos
Ele depende da prevalência na população convidada. Atenção: Interpretar resultado alterado como diagnóstico. Número absoluto por mil pessoas rastreadas. Atenção: Apresentar apenas o benefício ao convidar. Fração dos casos detectados que nunca causaria sintoma. Atenção: Assumir que todo caso detectado é caso evitado. Exame confirmatório, tratamento e seguimento acessíveis. Atenção: Iniciar rastreamento sem retaguarda para o alterado.
- 3
Definir a população elegível por risco — Definir o intervalo entre exames
Idade, exposição e fatores que elevam a probabilidade. Atenção: Ampliar a elegibilidade sem avaliar o ganho por exame. Ele decorre da velocidade de progressão da doença. Atenção: Repetir exames em intervalo menor que o justificável. Em números naturais e no mesmo horizonte de tempo. Atenção: Convidar sem informar a possibilidade de resultado falso-positivo. O que foi explicado e o que a pessoa decidiu. Atenção: Tratar a recusa informada como falha de adesão.
- 4
Garantir o retorno do resultado — Conduzir o alterado sem alarme desproporcional
Inclusive dos exames normais, com data do próximo. Atenção: Deixar o resultado sem comunicação e sem seguimento. A maioria dos alterados não terá a doença. Atenção: Comunicar resultado alterado como se fosse diagnóstico. Comparação de mortalidade entre rastreados e não rastreados. Atenção: Usar sobrevida ou número de casos detectados como prova de sucesso. Ambos inflam o benefício aparente do programa. Atenção: Concluir eficácia a partir de melhora de sobrevida.
- 5
Verificar a cobertura com denominador correto — Monitorar equidade da cobertura
Excluir quem não pode apresentar o desfecho. Atenção: Cobrar meta calculada sobre população inelegível. Quem está deixando de ser alcançado pelo convite. Atenção: Avaliar apenas a cobertura média do território. Novas evidências alteram o balanço entre benefício e dano. Atenção: Manter rastreamento por inércia institucional. Convite sistemático com busca ativa difere de exame pedido na consulta. Atenção: Supor que o oportunístico produz os mesmos resultados do organizado.
O esperado e os alertas
- A distinção entre investigação diagnóstica e rastreamento está clara antes da solicitação do exame.
- O programa dispõe do caminho completo — confirmação, tratamento e seguimento — para o resultado alterado.
- O convidado recebe informação sobre benefício e sobre danos possíveis antes de decidir.
- A avaliação do programa é feita por mortalidade, e não por sobrevida ou número de casos detectados.
- Exame de rastreamento oferecido a paciente com queixa relacionada
- Confusão entre rastreamento e investigação; a pessoa com sintoma exige esclarecimento diagnóstico, com outra lógica de decisão.
- Programa iniciado sem retaguarda para resultados alterados
- Geração de ansiedade sem benefício: rastrear exige o caminho completo, e não apenas o teste disponível.
- Resultado alterado comunicado como diagnóstico
- Desconsideração do valor preditivo positivo: em população majoritariamente sadia, a maioria dos alterados não tem a doença.
- Sucesso do programa medido por número de casos detectados
- Indicador enganoso: detectar mais pode significar sobrediagnóstico, e não vidas salvas.
- Melhora de sobrevida apresentada como prova de eficácia do rastreamento
- Viés de antecipação e de duração; sobrevida melhora sem que a data do óbito mude.
- Ampliação da elegibilidade sem cálculo de ganho por exame
- Aumento de danos, custo e falso-positivos mais rápido que o aumento de benefício.
- Diagnóstico de lesão indolente seguido de tratamento agressivo
- Sobrediagnóstico convertido em sobretratamento, com dano em quem não tinha o que evitar.
- Cobertura calculada sobre população que inclui quem não pode ser rastreado
- Indicador subestimado e faixa etária prioritária deslocada por artefato de denominador.
Por que isso importa
Rastreamento começa antes de existir uma queixa e, por isso, expõe muitas pessoas saudáveis a resultados, confirmações e seguimento. No caso, não pergunte apenas se há um teste disponível: verifique população-alvo, intervalo, qualidade, tratamento efetivo, capacidade de completar o percurso e danos como falso-positivo, falso-negativo e sobrediagnóstico. Decisão individual fora de um programa ainda exige probabilidade pré-teste e preferência informada.
| Sinal | Medida | Valor | Fonte |
|---|---|---|---|
| Balanço líquido do rastreamento sob diferentes premissas | Modelagem baseada em dados de programa nacional de rastreamento mamográfico, mulheres de 50 a 69 anos com rastreamento bienal e seguimento até os 85 anos, com dados de 1996 a 2020 | Ganho de 6.819 anos de vida ajustados por qualidade por 100 mil mulheres no modelo de referência; 7.444 por 100 mil sob premissa de 40% de redução de mortalidade e 15% de sobrediagnóstico; e 2.446 por 100 mil sob premissa de 20% de redução e 50% de sobrediagnóstico | Groeneweg R, van Ravesteyn NT, Kregting LM, et al. Quality-adjusted life years in the presence and absence of organized mammographic screening using data from BreastScreen Norway. International Journal of Cancer. 2026;158(10). PMID 41387215; doi 10.1002/ijc.70272 |
| Efeito da regra de elegibilidade sobre o ganho por exame realizado | Estudo comparativo com três modelos de simulação de rede de intervenção e vigilância em câncer, aplicados a coortes de nascimento de 1960 e 1970 | Critério baseado em 35 anos de exposição alcançou mortes evitadas e anos de vida ganhos comparáveis às diretrizes vigentes; critério mais amplo, de 20 anos, exigiu substancialmente mais rastreamentos com ganho adicional apenas modesto, resultando em menor benefício por exame | Cao P, de Nijs K, Lee J, et al. Performance of smoking duration-based lung cancer screening eligibility criteria: a comparative modeling study. Journal of the National Cancer Institute. 2026;118(6). PMID 41578016; doi 10.1093/jnci/djag018 |
| Reclassificação que reduz risco estimado e exposição a sobretratamento | Coorte cirúrgica de nódulos tireoidianos indeterminados com reclassificação segundo a nova categoria diagnóstica | Risco estimado de malignidade caindo de 15,6% para 12,5% numa categoria de nódulo indeterminado e de 48,7% para 41,4% em outra, após exclusão de entidade de comportamento indolente da categoria de malignidade | De Luca P, Chiappino G, de Campora L, et al. Risk stratification of indeterminate thyroid nodules (TIR3A vs. TIR3B): impact of NIFTP reclassification in a surgical cohort. Cancers. 2026. PMID 42122277; doi 10.3390/cancers18091481 |
| Migração de estágio e seu efeito sobre a sobrevida do conjunto | Sistema nacional de registro de câncer com 288.613 casos novos e 85.271 óbitos no ano analisado, com seguimento até dezembro de 2024 | Proporção de diagnósticos em estágio localizado subindo de 45,6% em 2005 para 51,8% em 2023; sobrevida relativa em cinco anos de 73,7% no conjunto e de 92,7% nos casos em estágio localizado | Park EH, Jung KW, Choi SH, et al. Cancer statistics in Korea: incidence, mortality, survival, and prevalence in 2023. Cancer Research and Treatment. 2026. PMID 41881851; doi 10.4143/crt.2026.298 |
| Denominador correto no indicador de cobertura de rastreamento | Análise de base populacional com 1.324.927 mulheres de 25 a 66 anos | Participação estimada passando de 57,3% para 60,4% após correção do denominador por histerectomia, com deslocamento da faixa etária de maior participação de 30 a 39 anos para 40 a 59 anos | Paudel YR, et al. Reduced age-wise disparity in estimated cervical cancer screening participation rates after applying hysterectomy correction. BMC Women's Health. 2026. PMID 41888774 |
| Variação regional persistente apesar de programa consolidado | Comparação entre os 50 estados norte-americanos com dados de 2021, usando incidência corrigida por histerectomia | Incidência corrigida variando de 4,3 por 100 mil no estado mais próximo da eliminação a 14,8 no de maior taxa, com dois outros estados acima de 13 por 100 mil; na maioria dos estados, incidência e mortalidade não mudaram entre os períodos 2007–2011 e 2017–2021 | Amboree TL, et al. The cervical cancer divide: state variation in incidence, mortality, and progress toward elimination in the United States. JNCI Cancer Spectrum. 2026. PMID 41581143 |
Síntese para comparar
As perguntas das duas mamografias, o mecanismo que responde e a resposta em uma linha.
| Pergunta da cena | Mecanismo | Resposta em uma linha |
|---|---|---|
| Se o exame é o mesmo, por que a lógica muda? | Quem procura quem | No rastreamento é o serviço que convida quem está bem |
| Rastrear pode fazer mal? | Danos próprios | Falso-positivo, cascata, sobrediagnóstico e sobretratamento |
| Por que não rastrear todo mundo? | Ganho por exame | Ampliar aumenta dano e custo mais que benefício |
| Por que sobrevida não serve? | Antecipação e duração | Ela melhora sem ninguém viver mais |
| O benefício é grande? | Sensibilidade às premissas | Positivo, e variando por um fator de três |
Investigação diagnóstica versus rastreamento
| Aspecto | Investigação | Rastreamento |
|---|---|---|
| Quem inicia | O paciente, com queixa | O serviço, por convite |
| Probabilidade de doença | Elevada pela apresentação clínica | Baixa, por definição da população |
| Consequência do falso-positivo | Diluída pela suspeita prévia | Recai sobre quem estava bem |
| Exigência de evidência | Menor: há sintoma a esclarecer | Maior: é preciso provar que o convite ajuda |
| Desfecho que avalia | Esclarecimento diagnóstico | Mortalidade da população-alvo |
Critérios clássicos para decidir se vale rastrear
| Critério | Pergunta correspondente | Falha típica |
|---|---|---|
| Importância da condição | A doença é frequente ou grave o bastante? | Rastrear condição de baixo impacto |
| Fase silenciosa detectável | Existe janela antes dos sintomas? | Rastrear doença de início abrupto |
| Tratamento precoce eficaz | Tratar cedo muda o desfecho? | Antecipar diagnóstico sem alterar o curso |
| Teste aceitável e conhecido | Desempenho medido na população-alvo? | Usar acurácia obtida em quem tem sintoma |
| Caminho completo disponível | Há confirmação, tratamento e seguimento? | Rastrear sem retaguarda para o alterado |
| Sustentabilidade | O programa se mantém ao longo do tempo? | Campanha pontual sem continuidade |
Armadilhas reais
- Chamar de rastreamento a investigação de uma queixa; Iniciar rastreamento sem retaguarda; Comunicar resultado alterado como diagnóstico
- A presença de sintoma muda a probabilidade prévia e todo o balanço da decisão. Sem confirmação e tratamento acessíveis, o programa gera ansiedade sem benefício. Em população majoritariamente sadia, a maioria dos alterados não tem a doença.
- Usar número de casos detectados como medida de sucesso; Apresentar melhora de sobrevida como prova de eficácia; Ignorar o sobrediagnóstico na conta
- Detectar mais pode significar sobrediagnóstico, e não vidas salvas. Antecipação e duração inflam a sobrevida sem adiar nenhuma morte. Ele transforma pessoa saudável em paciente tratado sem chance de benefício.
- Ampliar a elegibilidade sem calcular o ganho por exame; Transportar a acurácia obtida em população sintomática; Convidar sem informar a possibilidade de falso-positivo
- Critério mais amplo costuma render menos benefício e mais dano. O desempenho do teste muda quando aplicado a quem não tem queixa. Quem é chamado tem direito de saber o que pode acontecer depois.
- Tratar recusa informada como falha de adesão; Deixar de comunicar resultados normais; Repetir exames em intervalo menor que o justificável
- Diante de benefício pequeno por pessoa, recusar é decisão legítima. O ciclo do rastreamento inclui devolver o resultado e marcar o próximo. O intervalo decorre da velocidade de progressão da doença.
- Avaliar cobertura apenas pela média do território; Manter programa por inércia institucional
- Ela esconde quem está deixando sistematicamente de ser alcançado. Novas evidências mudam o balanço, e a indicação precisa ser revista.
Roteiro executável
Da distinção inicial à avaliação do programa por mortalidade.
- 01Verificar se há queixa ou achado prévio Confirmar a existência de fase silenciosa detectável Confirmar que o tratamento precoce muda o desfecho
- 02Verificar o desempenho do teste na população-alvo Estimar o valor preditivo positivo esperado Quantificar os falso-positivos previstos
- 03Estimar o sobrediagnóstico esperado Verificar a disponibilidade do caminho completo Definir a população elegível por risco
- 04Definir o intervalo entre exames Explicar benefício e dano ao convidado Registrar a decisão compartilhada
- 05Garantir o retorno de todos os resultados Conduzir o alterado sem alarme desproporcional Avaliar o programa por mortalidade
- 06Considerar antecipação e duração na leitura dos dados Verificar cobertura com denominador correto e com recorte de equidade Rever periodicamente a indicação do programa
Questões (10)
Ponte para a pessoa e o território
No caso vinculado, defina primeiro população, risco basal e desfecho que se pretende evitar. Separe recomendação populacional de necessidade diagnóstica individual, apresente benefício e dano em medidas compreensíveis e combine o que fazer com cada resultado. Se a melhor decisão for não intervir agora, registre sinais de alarme e prazo de reavaliação.
Revisão espaçada
O que muda entre investigação diagnóstica e rastreamento, e por que a exigência de evidência é maior no segundo? Quais são os quatro danos próprios do rastreamento? E por que a sobrevida não pode ser usada para avaliar um programa de rastreamento?
Retome as duas mulheres da cena e conduza cada situação: explique por que a mamografia de dona Cleide é investigação e a de dona Fátima é rastreamento, e o que muda na exigência de evidência, no balanço de danos e na conversa. Depois percorra os critérios clássicos para decidir se vale rastrear uma condição, aplique-os a um exemplo concreto e explique, com os dois vieses, por que um programa pode parecer eficaz na sobrevida e não reduzir mortalidade nenhuma.
