Fundamentos da Prática Clínica › Semiologia: o encontro clínico
Nível de consciência e escala de Glasgow
Nível de consciência e escala de coma de Glasgow
A avaliação que decide via aérea, tomografia e transferência. Três parâmetros, e a disciplina de sempre pontuar a melhor resposta.
A cena
Duas da manhã, sala de emergência. Homem trazido após queda, cheiro de álcool, olhos fechados. O residente grita o nome, ele não responde; aperta o trapézio e ele abre os olhos, resmunga palavras desconexas e afasta a mão do examinador.
O interno anota Glasgow 8 e pede intubação. O preceptor pede para refazer: olhos abrindo à dor são 2, palavras desconexas são 3, localizar o estímulo é 5. Total 10 — e a conduta muda.
A diferença entre 8 e 10 aqui não é acadêmica: ela muda a estratificação de gravidade e a urgência da avaliação da via aérea. Nenhum dos dois números, isoladamente, decide intubação; tendência do escore, causa do rebaixamento, ventilação e reflexos protetores também precisam ser avaliados. A escala é simples de aplicar e fácil de aplicar errado, e é justamente por orientar decisões que a técnica importa tanto.
De onde vem o sinal
Consciência tem dois componentes, e eles se avaliam de formas diferentes. O nível — estar desperto — depende do sistema reticular ativador ascendente, no tronco encefálico. O conteúdo — saber quem é, onde está, o que aconteceu — depende dos hemisférios cerebrais. Um paciente pode estar desperto com conteúdo gravemente alterado, como no delirium; ou ter conteúdo preservado e nível rebaixado, como na sonolência inicial.
A escala de Glasgow descreve três respostas independentes: abertura ocular, resposta verbal e resposta motora. A soma vai de 3 a 15 — e nunca de 0, porque cada componente começa em 1. Escore 3 significa ausência das três respostas observáveis nas condições daquele exame; não significa morte e não diagnostica morte encefálica.
Duas regras dão sentido ao número. A primeira: pontua-se sempre a melhor resposta observada. Se um lado tem hemiplegia e o outro localiza a dor, vale o lado que localiza — a escala mede o cérebro, não o membro. A segunda: registra-se sempre a decomposição, não só a soma. Um paciente com O4 V1 M6 e outro com O1 V4 M6 somam 11 e têm problemas completamente diferentes.
Entre as três respostas, a motora é a que mais carrega valor prognóstico e a que mais discrimina gravidade — é também a que permanece avaliável quando o paciente está intubado e a verbal se perde.
Por fim, a escala foi criada para trauma cranioencefálico e é nesse contexto que sua validação é mais robusta. Ela é usada largamente fora dele, o que é razoável, mas com a ressalva de que álcool, sedativos, hipoglicemia e distúrbios metabólicos rebaixam o escore sem que haja lesão estrutural — e essas causas se corrigem.

O que perguntar
A avaliação de consciência tem anamnese própria, quase sempre colhida de acompanhante ou socorrista.
“Como ele estava antes? Conversava normalmente?”
Estabelece o basal. Rebaixamento em quem já tinha demência avançada significa outra coisa que em quem estava lúcido.
“Isso começou de repente ou foi piorando aos poucos?”
Instalação súbita sugere evento vascular ou trauma; instalação flutuante ao longo de horas a dias sugere delirium ou causa metabólica.
“Ele usa alguma medicação? Bebeu? Usou alguma outra substância?”
Álcool, benzodiazepínico e opioide rebaixam o escore sem lesão estrutural — e são reversíveis.
“É diabético? Usa insulina?”
Hipoglicemia é a causa mais rapidamente reversível de rebaixamento e a primeira a ser afastada. Glicemia capilar em todo rebaixamento.
“Houve trauma? Bateu a cabeça, mesmo que parecesse leve?”
Muda a indicação de tomografia e a interpretação da escala.
“Teve movimento anormal, olhos revirados, perda de urina?”
Sugere crise convulsiva e o estado pós-ictal — que rebaixa o nível transitoriamente.
“Está com febre? Queixou-se de dor de cabeça ou rigidez de nuca?”
Aponta para infecção do sistema nervoso central, que muda a urgência inteira.
Antes de encostar
- Glicemia capilar primeiro
- Em todo rebaixamento de consciência, meça a glicemia antes de qualquer outra coisa. É a causa mais rápida de reverter e a mais barata de afastar.
- Segurança antes do estímulo
- Em trauma, mantenha a proteção da coluna cervical durante toda a avaliação. A escala não justifica mobilizar o pescoço.
- Estímulo padronizado
- Comece pela voz em tom normal, depois voz alta, depois estímulo físico padronizado central — pressão no trapézio ou incisura supraorbitária. Padronizar é o que torna a reavaliação comparável.
- Estímulo central, não periférico
- Comprimir o leito ungueal pode gerar reflexo medular de retirada e ser confundido com resposta motora. Para diferenciar localização de retirada, o estímulo tem que ser central.
- Registrar os fatores que interferem
- Anote se o paciente está intubado, sedado, com edema palpebral, afásico ou sob efeito de álcool — sem isso, o escore não é interpretável por quem ler.
- Reavaliar e comparar
- Um Glasgow isolado vale menos que a tendência. Registre horário em cada avaliação: queda de 2 pontos é evento clínico, mesmo dentro de faixas 'aceitáveis'.
A técnica
Avalie na ordem: observe o que já existe espontaneamente, depois estimule por voz, depois por dor.
- 1
Observar antes de estimular
Chegue e olhe: os olhos estão abertos? Ele fala espontaneamente? Movimenta os quatro membros? Boa parte da pontuação se obtém sem tocar no paciente.
Erro comum: Ir direto ao estímulo físico padronizado. Se ele já abre os olhos sozinho, isso já é 4 — e a dor foi desnecessária.
- 2
Abertura ocular (1 a 4)
4 espontânea; 3 ao chamado verbal; 2 ao estímulo físico padronizado; 1 ausente. Se houver edema palpebral impedindo a abertura, registre como não avaliável em vez de pontuar 1.
Erro comum: Pontuar 1 em olho que não abre por edema. Isso rebaixa artificialmente o escore e pode motivar intubação desnecessária.
- 3
Resposta verbal (1 a 5)
5 orientado (sabe quem é, onde está, que dia é); 4 confuso (frases coerentes, conteúdo desorientado); 3 palavras desconexas; 2 sons incompreensíveis; 1 ausente. Paciente intubado: registre V com a marcação de não avaliável.
Erro comum: Confundir confuso com desconexo. Confuso monta frases; desconexo emite palavras soltas sem construção.
- 4
Resposta motora (1 a 6)
6 obedece a comandos; 5 localiza a dor (leva a mão ao estímulo); 4 retirada inespecífica; 3 flexão anormal (decorticação); 2 extensão anormal (descerebração); 1 ausente.
Erro comum: Chamar retirada de localização. Localizar é mover a mão EM DIREÇÃO ao estímulo, cruzando a linha média se preciso; retirada é apenas afastar o membro.
- 5
Pontuar a melhor resposta
Se os lados diferem, vale o melhor. A escala mede o encéfalo — o membro plégico informa sobre a lesão focal, não sobre o nível de consciência.
Erro comum: Pontuar o lado pior por parecer mais 'grave'. Isso subestima o nível e distorce a decisão.
- 6
Somar e decompor
Registre sempre no formato O_V_M_ e a soma: por exemplo, O3 V4 M6 = 13. A decomposição é o que permite comparar avaliações e perceber para onde o paciente está indo.
Erro comum: Anotar só a soma. Dois pacientes com 11 podem ter quadros opostos, e a evolução fica ilegível.
- 7
Avaliar as pupilas junto
Tamanho, simetria e reatividade à luz. Anisocoria com rebaixamento sugere herniação — é a informação que a escala não captura e que muda a conduta imediatamente.
Erro comum: Avaliar Glasgow sem pupilas. As duas juntas informam muito mais que qualquer uma isolada.
- 8
Interpretar com a causa em mente
Antes de atribuir o rebaixamento a lesão estrutural, afaste hipoglicemia, hipóxia, intoxicação, distúrbio hidroeletrolítico e estado pós-ictal — todos reversíveis.
Erro comum: Atribuir rebaixamento ao álcool em paciente traumatizado. É a armadilha clássica que atrasa o diagnóstico de hematoma.
Padrão esperado, alterações e registro
- Glasgow 15 (O4 V5 M6): desperto, orientado no tempo e no espaço, obedecendo a comandos.
- Pupilas isocóricas e fotorreagentes.
- Escore estável em reavaliações sucessivas.
- Exemplo de registro: 14h10 — E3 V4 M6; pupilas isocóricas e fotorreagentes; sem sedação recente; reavaliar após estabilização. Se algum componente não for testável, registrar NT e o motivo sem calcular total enganoso.
- Glasgow ≤ 8
- Faixa classicamente associada a incapacidade de proteger a via aérea — é o limiar tradicional de consideração de intubação. A decisão, porém, é clínica e leva em conta tendência, causa e reflexos protetores.
- Queda de 2 ou mais pontos entre avaliações
- Deterioração neurológica, mesmo dentro de faixas aparentemente confortáveis. É evento clínico e exige reavaliação imediata da causa.
- Flexão anormal (decorticação, M3)
- Lesão acima do núcleo rubro — hemisférica difusa ou diencefálica. Sinal de gravidade.
- Extensão anormal (descerebração, M2)
- Lesão mais baixa, em tronco. Pior prognóstico que a decorticação, e sinal de deterioração quando surge em quem antes flexionava.
- Anisocoria com rebaixamento do nível
- Sugere herniação uncal com compressão do III nervo. Emergência neurocirúrgica — e é achado que a escala sozinha não captura.
- Glasgow rebaixado com glicemia capilar baixa
- Hipoglicemia até prova em contrário. Causa reversível em minutos, e a primeira a ser afastada em qualquer rebaixamento.
- Nível preservado com conteúdo alterado e flutuante
- Padrão de delirium: o paciente está desperto, mas desorientado e com atenção flutuante. A escala de Glasgow captura mal esse quadro.
O que isso quer dizer
A escala de Glasgow é usada para decidir condutas concretas: proteção de via aérea, indicação de imagem, transferência e monitorização. Sua reprodutibilidade é boa quando aplicada com técnica padronizada, e cai bastante quando cada examinador estimula de um jeito — daí a insistência em estímulo central padronizado e em registrar a decomposição.
A resposta motora é o componente de maior valor discriminante e prognóstico, e é a que resiste quando a verbal se perde no paciente intubado. Por isso, na prática, muita gente acompanha o M com atenção especial ao longo do tempo.
O limiar de 8 pontos merece precisão: ele é um marcador tradicional de risco de perda de proteção de via aérea, amplamente usado, mas não é uma regra automática de intubação. A decisão considera a tendência do escore, a causa do rebaixamento — se reversível em minutos, como hipoglicemia ou opioide — e a presença de reflexos protetores.
Sobre limites: a escala foi desenvolvida e validada primariamente em trauma cranioencefálico, e seu desempenho é menos estudado em causas metabólicas e tóxicas, onde o escore rebaixado não indica lesão estrutural. Ela também avalia mal o paciente afásico, o intubado e o sedado, e não captura o delirium. Escalas como o FOUR score foram propostas para contornar parte dessas limitações, sobretudo em terapia intensiva.
Quando um componente da Glasgow não pode ser avaliado por intubação, edema palpebral ou outra barreira, a orientação oficial é registrá-lo como NT e não divulgar um total que sugira resposta pior do que a realmente observada.
Escala de coma de Glasgow
Pontue sempre a MELHOR resposta e registre a decomposição, não só a soma.
| Pontos | Abertura ocular | Resposta verbal | Resposta motora |
|---|---|---|---|
| 6 | — | — | Obedece a comandos |
| 5 | — | Orientado | Localiza a dor |
| 4 | Espontânea | Confuso | Retirada inespecífica |
| 3 | Ao chamado verbal | Palavras desconexas | Flexão anormal (decorticação) |
| 2 | À dor | Sons incompreensíveis | Extensão anormal (descerebração) |
| 1 | Ausente | Ausente | Ausente |
- Mínimo 3, máximo 15 — nunca zero, porque cada componente começa em 1.
- Intubado, olho edemaciado ou afásico: registre o componente como não avaliável em vez de pontuar 1.
- Faixas usuais de gravidade no trauma: leve 13-15, moderado 9-12, grave 3-8.
Erros que custam o achado
- Confundir retirada com localização
- É o erro que mais desloca o escore. Localizar (5) é levar a mão em direção ao estímulo; retirada (4) é apenas afastar o membro. Um ponto aqui muda a faixa de gravidade.
- Estímulo doloroso periférico
- Comprimir o leito ungueal pode desencadear reflexo medular de retirada, que não informa sobre o encéfalo. Use estímulo central: trapézio ou incisura supraorbitária.
- Pontuar 1 o que não é avaliável
- Paciente intubado não tem V1 — tem V não avaliável. Olho fechado por edema não é O1. Pontuar como ausente rebaixa artificialmente e pode gerar conduta invasiva desnecessária.
- Anotar só a soma
- O3V4M6 e O1V4M6 podem somar próximo e significam coisas distintas. Sem decomposição, ninguém consegue acompanhar a evolução.
- Pontuar o lado pior
- Em hemiplegia, vale a melhor resposta. O membro plégico fala sobre a lesão focal, não sobre o nível de consciência.
- Atribuir tudo ao álcool
- Traumatizado etilizado com Glasgow rebaixado é hematoma até prova em contrário. Foi assim que muito diagnóstico se perdeu na madrugada.
- Esquecer a glicemia
- Rebaixamento sem glicemia capilar aferida é avaliação incompleta. É a causa mais rápida de reverter e a mais barata de afastar.
- Avaliar Glasgow sem pupilas
- Anisocoria com rebaixamento sugere herniação e muda a conduta na hora — e é informação que a escala, sozinha, não carrega.
Roteiro da estação
A avaliação do nível de consciência, do que se observa ao registro.
- 01Garantir segurança e, em trauma, manter proteção da coluna cervical
- 02Aferir glicemia capilar em todo rebaixamento
- 03Observar abertura ocular, fala e movimentação espontâneas antes de estimular
- 04Estimular por voz em tom normal e, se necessário, em voz alta
- 05Aplicar estímulo físico padronizado CENTRAL quando não houver resposta à voz
- 06Pontuar abertura ocular (1 a 4)
- 07Pontuar resposta verbal (1 a 5), avaliando orientação no tempo e no espaço
- 08Pontuar resposta motora (1 a 6), distinguindo localização de retirada
- 09Considerar sempre a MELHOR resposta observada
- 10Avaliar pupilas: tamanho, simetria e reatividade
- 11Registrar no formato O_V_M_ com a soma e o horário
- 12Anotar fatores que limitam a avaliação (intubação, sedação, edema, afasia, álcool)
- 13Reavaliar periodicamente e comparar com o registro anterior
Teste-se
Agora faça no paciente
Homem de 63 anos dá entrada no pronto atendimento e a primeira coisa que você ouve é: "Hmm… ai…" Agora é sua vez: conduza a anamnese, examine e monte o seu raciocínio.
Revisão espaçada
Qual a diferença entre localizar a dor e retirada inespecífica, e por que ela importa? Por que o estímulo deve ser central?
Paciente intubado, sedado, abre os olhos ao chamado e obedece a comandos. Como você registra o Glasgow dele e por quê?
