Pediatria › Cardiologia Pediátrica
O bebê que cansa para mamar
Cardiopatias congênitas acianóticas (comunicação interventricular, interatrial e persistência do canal arterial) e insuficiência cardíaca na criança
Comunicação interventricular, comunicação interatrial e canal arterial, da suspeita à cirurgia: reconhecer a insuficiência cardíaca do lactente que se disfarça de bronquiolite, pedir radiografia e ecocardiograma com a pergunta certa, prescrever diurético por quilo com as apresentações do SUS, dar ao lactente as calorias que a mamada não entrega, não perder a janela da correção antes da doença vascular pulmonar e decidir endocardite, nirsevimabe e vacinas na criança cardiopata
Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento Científico de Cardiologia (gestão 2022-2024). Insuficiência cardíaca na criança. Guia Prático de Atualização nº 158. Rio de Janeiro: SBP, 20 de junho de 2024.
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Responda antes de ler
O cardiologista pediátrico indica digoxina 5 mcg/kg/dia, dividida de 12 em 12 horas, para um lactente de 4,5 kg com insuficiência cardíaca. A farmácia dispõe do elixir de digoxina 0,05 mg/mL da Rename 2024. Qual volume deve ser administrado em cada dose?
O paciente que você vai ver
Uma terça-feira de maio, 22h20. Na emergência infantil do único hospital regional, a sala de espera ainda tem seis crianças. A ficha da triagem veio amarela e com três palavras: bronquiolite, segundo episódio. No colo da mãe, enrolada numa manta, Eloá, 3 meses, respira depressa, com a boca entreaberta e as asas do nariz abrindo a cada inspiração. A testa está molhada, embora a sala esteja fria.
Daiane Pastana conta que a filha veio com 39 semanas, parto vaginal sem intercorrência, pesando 3.250 g, e saiu da maternidade no segundo dia com o teste do coraçãozinho normal — está anotado na caderneta. Com um mês e pouco, começou a demorar para mamar: pega o peito com vontade, suga um pouco, solta, respira, volta. Uma mamada que levava 15 minutos passou a levar 40, e no fim a menina dorme exausta e acorda com fome uma hora depois. O suor na cabeça durante a mamada, a mãe atribuiu ao calor do quarto.
Com 6 semanas, na UPA, disseram bronquiolite e mandaram lavar o nariz com soro. Com 2 meses e meio, de novo chiado e cansaço, dessa vez com uma radiografia que ninguém explicou e amoxicilina para pneumonia. Há três dias está resfriada, e desde ontem não termina mamada nenhuma. Não teve febre alta. Molhou quatro fraldas até agora.
Você a pesa: 4.500 gramas. Na caderneta, o ponto dos 2 meses já estava abaixo da linha em que ela nasceu, e o de hoje desce mais uma. Contada durante um minuto inteiro, com a menina quieta no colo, a frequência respiratória é de 72 incursões; a cardíaca, de 176 batimentos; a saturação, 95% em ar ambiente. Há tiragem subcostal discreta e estertores finos nas duas bases. O fígado está a 4 centímetros do rebordo costal direito. A mão espalmada no precórdio sente o coração bater forte; na borda esternal esquerda baixa há um sopro que ocupa a sístole inteira, e a segunda bulha no foco pulmonar é alta. Os pulsos femorais estão presentes e iguais aos braquiais.
Na passagem de plantão ficaram prescritas nebulização com soro fisiológico e a orientação de observar a evolução da bronquiolite. Daiane pergunta se a filha vai ficar internada outra vez e, antes que você responda, se o leite dela é fraco, porque a menina não engorda.
Tudo o que muda o diagnóstico já está na sala, e nada disso é exame: o tempo das mamadas, o suor, a curva de peso, o fígado, o sopro e a segunda bulha. O que este capítulo ensina é transformar esses achados numa hipótese — shunt esquerda-direita grande em insuficiência cardíaca —, num pedido de radiografia e de ecocardiograma com a pergunta certa, numa prescrição por quilo que a farmácia consiga cumprir e numa data de cirurgia marcada antes que o pulmão da Eloá deixe de aceitar a correção.
Quem adoece disso
A cardiopatia congênita é a malformação mais frequente que o interno vai encontrar. O manual da Sociedade Brasileira de Pediatria de 2022 sobre o recém-nascido cardiopata dá uma incidência de 9,4 casos por 1.000 nascidos vivos, estima que o grupo responda por cerca de 30% de todas as malformações congênitas e por 10% a 15% dos óbitos infantis, e lembra que uma em cada quatro crianças cardiopatas tem outra anomalia fora do coração. Numa maternidade com 3.000 partos por ano, são perto de 28 crianças por ano.
Os três defeitos deste capítulo são a maior parte dessa conta. Pelo consenso indiano de 2019 sobre indicação e momento de intervenção, a comunicação interventricular responde por 20% a 30% das cardiopatias congênitas, a comunicação interatrial por 15% a 20% e a persistência do canal arterial por 5% a 10%; o defeito do septo atrioventricular, que entra aqui pela síndrome de Down, por 4% a 5%. Nas 28 crianças daquela maternidade, isso dá algo entre 6 e 8 comunicações interventriculares, entre 4 e 6 interatriais e 1 a 3 canais. A frequência da interventricular sobe muito quando todo recém-nascido faz ecocardiograma, porque aparecem as musculares pequenas que ninguém ouviria.
A maioria desses defeitos é pequena e não precisa de cirurgia. A comunicação interventricular pequena fecha sozinha em mais da metade das crianças até os 5 anos e em mais de 80% até a adolescência. O canal arterial pequeno do bebê nascido a termo pode fechar até os 3 meses; depois do primeiro ano, a chance cai para 0,6% ao ano. A comunicação interatrial que tem mais de 8 milímetros ao nascer raramente fecha, e depois dos 2 ou 3 anos quase nenhuma fecha. É por isso que o destino natural do defeito pequeno é o seguimento, e o do grande é a data de cirurgia.
Os defeitos grandes matam no primeiro ano quando ninguém os corrige. Cerca de 10% das crianças com comunicação interventricular grande morrem no primeiro ano, principalmente de insuficiência cardíaca. O defeito total do septo atrioventricular sem tratamento deixa 54% das crianças vivas aos 6 meses e 35% aos 12. Na série histórica de Paul Wood, de antes da cirurgia de rotina, 52% dos portadores de comunicação interventricular grande desenvolveram doença vascular pulmonar irreversível — em quatro de cada cinco, com início ainda no primeiro ano —, e 79% dos portadores de canal arterial grande tiveram o início da síndrome de Eisenmenger na infância. São números de uma época sem cirurgia; hoje, descrevem a criança que não chega a ela.
Na síndrome de Down, a cardiopatia é regra de metade. As diretrizes do Ministério da Saúde de 2013 escrevem que 50% das crianças com a síndrome têm cardiopatia, mesmo sem sopro audível, e que as mais comuns são a comunicação interatrial, a interventricular e o defeito total do septo atrioventricular; o consenso indiano dá 40% a 45%, com o defeito do septo atrioventricular respondendo por quase metade — e metade dos portadores desse defeito tem síndrome de Down. É também nessas crianças que a doença vascular pulmonar começa mais cedo.
A insuficiência cardíaca da criança é rara no pronto-socorro e grave quando aparece. O guia da Sociedade Brasileira de Pediatria de 2024 cita um estudo norte-americano em que ela respondeu por 0,02% dos atendimentos nas emergências pediátricas, com internação em 60% dos casos e mortalidade de 6%, contra 0,3% das demais crianças atendidas. As cardiopatias congênitas explicam entre metade e 70% dos casos na infância, e as cardiomiopatias, 20% a 30%; entre as congênitas, o grupo mais frequente é justamente o dos defeitos com shunt esquerda-direita grande — comunicação interventricular, defeito do septo atrioventricular e canal arterial.
O canal arterial muda de frequência com a idade gestacional. O manual do Ministério da Saúde de 2014 sobre o recém-nascido pré-termo registra que praticamente todo bebê nascido a termo fecha o canal até o terceiro dia, enquanto ele persiste aberto em 50% a 70% dos nascidos com menos de 30 semanas; o consenso indiano descreve fechamento espontâneo em 35% a 75% dos prematuros ao longo do primeiro ano.
Duas infecções completam o quadro. O vírus sincicial respiratório infecta quase todas as crianças até os 2 anos, e o Ministério da Saúde, na estratégia de 2026, lembra que a morbimortalidade é ainda maior nos prematuros e nas crianças com cardiopatia congênita — é a infecção que descompensa o lactente com shunt grande. A endocardite é rara no defeito pequeno: 1,3 episódio por 1.000 pacientes-ano na comunicação interventricular pequena, ou cerca de 13 episódios em 1.000 crianças acompanhadas por dez anos.
Por que acontece o que acontece
Tudo começa no pulmão, não no buraco. Na vida fetal a resistência vascular pulmonar é alta; ao nascer, com a primeira respiração, ela cai, e continua caindo nas semanas seguintes. O sangue que passa por uma comunicação entre os dois lados do coração vai de onde a resistência é maior para onde é menor, e por isso a mesma comunicação interventricular que quase não desvia sangue no terceiro dia inunda o pulmão no segundo mês. O manual da Sociedade Brasileira de Pediatria sobre o recém-nascido cardiopata e o do Ministério da Saúde sobre o recém-nascido descrevem exatamente essa cronologia: nos defeitos com shunt esquerda-direita grande, os sintomas se acentuam a partir da segunda semana, à medida que a resistência pulmonar cai. Por que o sopro também demora a aparecer está em Sopro cardíaco inocente versus patológico na criança, desta apostila.
O tamanho do defeito decide o que acontece com as pressões. Na comunicação interventricular restritiva, a própria abertura freia o sangue: o ventrículo direito e a artéria pulmonar mantêm pressão normal, o jato atravessa o septo em alta velocidade e o sopro é alto, mas o volume desviado é pequeno. Na não restritiva, a abertura é tão larga quanto o anel da valva aórtica, os dois ventrículos passam a funcionar como uma câmara de pressão única e só a resistência do pulmão limita o fluxo — o sopro pode ser discreto e o volume, enorme. O consenso indiano de 2019 usa essa lógica para classificar: pequena quando o diâmetro é menor que um terço do anel aórtico, com pressões normais e fluxo pulmonar até 1,5 vez o sistêmico; grande quando é igual ou maior que o anel, com pressão pulmonar sistêmica.

O lado que recebe o volume muda de defeito para defeito, e é isso que a radiografia e o eletrocardiograma vão mostrar. Na comunicação interventricular e no canal arterial, o sangue desviado dá a volta pelo pulmão e retorna ao átrio e ao ventrículo esquerdos, que dilatam: sobrecarga de volume do lado esquerdo. Na comunicação interatrial, o desvio acontece entre os átrios e vai para o ventrículo que se enche com mais facilidade, o direito: dilatam o átrio direito, o ventrículo direito e a artéria pulmonar. Como o ventrículo direito do lactente ainda é espesso e pouco complacente, o desvio pela comunicação interatrial cresce devagar, ao longo de meses e anos — e é por isso que ela costuma ser achado de consulta escolar, e que só 8% a 10% dos portadores dão sintomas no primeiro ano. O desdobramento fixo da segunda bulha, consequência dessa sobrecarga, está explicado em Sopro cardíaco inocente versus patológico na criança.
O lactente com shunt grande entra em insuficiência cardíaca de alto débito: o coração bombeia muito, mas boa parte do que bombeia volta ao pulmão sem chegar ao corpo. O pulmão congesto fica rígido, a respiração acelera e o trabalho respiratório sobe; para sustentar o fluxo que chega aos órgãos, o organismo acelera o coração e ativa o sistema nervoso simpático e o sistema renina-angiotensina-aldosterona, retendo sódio e água. Essa ativação neuro-hormonal é a mesma do adulto e está descrita em Insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida (ICFEr), na apostila de Cardiologia. O que é da criança é o preço: para o lactente, mamar é exercício — sugar, engolir e respirar disputam o mesmo fôlego —, o simpático ativado faz suar a testa, e o gasto metabólico alto, somado ao pouco que ele consegue ingerir e à restrição de volume, trava o crescimento. O guia da SBP de 2024 estima em torno de 120 kcal/kg/dia a necessidade desse lactente.
A congestão do lactente se mostra em lugares diferentes da do adulto. O guia da SBP registra que a hepatomegalia é o sinal de congestão sistêmica mais comum no lactente e na criança pequena, enquanto estase jugular, edema periférico, ascite e derrame pleural aparecem sobretudo depois dos 5 anos. No pulmão, a congestão produz taquipneia, estertores e sibilos — o mesmo trio da bronquiolite —, e o pulmão encharcado se infecta e descompensa com qualquer vírus. É assim que o lactente com comunicação interventricular grande acumula dois ou três diagnósticos de bronquiolite antes do primeiro ecocardiograma.
Se o fluxo e a pressão altos persistem, o pulmão se defende e se destrói. As arteríolas pulmonares espessam a parede, a resistência vascular pulmonar volta a subir e, no começo, a mudança ainda regride se o defeito for fechado; depois, fica fixa. Enquanto a resistência sobe, o desvio diminui: a criança respira melhor, o fígado recua, a mamada rende mais e o sopro fica mais baixo, porque passa menos sangue — mas a segunda bulha fica mais alta, porque a pressão pulmonar continua elevada. O consenso indiano descreve o que se vê nessa fase: radiografia sem cardiomegalia, com o tronco pulmonar proeminente e a periferia do pulmão pobre em vasos, e eletrocardiograma com hipertrofia do ventrículo direito e desvio do eixo para a direita. Quando a resistência pulmonar ultrapassa a sistêmica, o fluxo se inverte, o sangue sem oxigênio passa para a circulação sistêmica e aparece a cianose: é a síndrome de Eisenmenger, em que fechar o defeito está contraindicado. Na síndrome de Down, as alterações irreversíveis podem começar aos 6 meses; na comunicação interatrial, costumam aparecer só entre os 20 e os 40 anos.
No prematuro, o problema é o canal que não fecha. Na vida fetal, o canal arterial desvia de 60% a 70% do sangue do tronco pulmonar para a aorta descendente; depois do parto, ele se contrai pelo aumento do oxigênio no sangue arterial e pela queda da prostaglandina E2, e a isquemia da própria parede completa o fechamento. O manual do Ministério da Saúde de 2014 explica que, no pré-termo, sobretudo com desconforto respiratório, essa contração inicial é ineficaz e a hipóxia da parede não basta para fechar o vaso; fica um desvio grande da aorta para o pulmão já nos primeiros dias. Quanto maior o diâmetro do canal, menor o fluxo sistêmico no primeiro dia e maior o pulmonar, o que ajuda a explicar a hemorragia pulmonar; o fluxo diastólico reverso na aorta descendente, visto no ecocardiograma, é sangue roubado do intestino e do rim a caminho do pulmão. Indometacina e ibuprofeno, inibidores da ciclo-oxigenase, reduzem a prostaglandina que mantém o canal aberto.
A endocardite procura o jato, não o volume. O jato de alta velocidade de um defeito restritivo lesa o endotélio no ponto em que bate, e é por isso que a comunicação interventricular pequena, que em geral não exige cirurgia, mas precisa de avaliação conforme localização, repercussão e complicações, carrega um risco de endocardite ao longo da vida — 1,3 episódio por 1.000 pacientes-ano, pelo consenso indiano. O outro momento de risco é artificial: o remendo ou a prótese colocados para fechar o defeito, nos meses em que o material ainda não foi recoberto pelo tecido do próprio coração. É essa a lógica da janela de seis meses de profilaxia depois do fechamento que o consenso indiano recomenda — e é exatamente o ponto em que as réguas divergem, como mostra a primeira divergência deste capítulo.

Como se apresenta de verdade
Este capítulo é dono de cada defeito acianótico pelo nome — comunicação interventricular, comunicação interatrial, canal arterial e, pela síndrome de Down, o defeito do septo atrioventricular — e da insuficiência cardíaca na criança, venha ela de um desses defeitos ou não. A ausculta, os focos, as manobras e a régua que separa o sopro inocente do patológico estão em Sopro cardíaco inocente versus patológico na criança, desta apostila, e são usados aqui sem repetição. O teste do coraçãozinho está em Triagens neonatais: teste do pezinho, orelhinha, olhinho, coraçãozinho e linguinha, na apostila de Puericultura e Desenvolvimento, e a cardiopatia crítica do recém-nascido, em Cardiopatias congênitas cianóticas: tetralogia de Fallot e transposição das grandes artérias, nesta apostila. A insuficiência cardíaca do adulto está em Insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida (ICFEr) e em Insuficiência cardíaca aguda descompensada: perfil, gatilho e resposta diurética, na apostila de Cardiologia, que não tratam da criança; este capítulo assume a insuficiência cardíaca na criança.
A prematuridade como entidade — classificação, apneia, retinopatia, Canguru, alta — está em Prematuridade: complicações e classificação por idade gestacional e peso, apneia e retinopatia da prematuridade, na apostila de Neonatologia, que não trata do canal arterial; este capítulo assume o canal arterial do prematuro, quando fechar e com quê, e declara que o assume. A endocardite — diagnóstico, critérios de Duke, tratamento e a profilaxia do adulto — está em Endocardite infecciosa: critérios de Duke e profilaxia, na apostila de Cardiologia; aqui fica só quem, entre as crianças com defeito acianótico, recebe profilaxia. A bronquiolite está em Bronquiolite viral aguda por vírus sincicial respiratório, na apostila de Pneumologia Pediátrica, e o calendário da criança está em Calendário Nacional de Vacinação da criança (PNI) e esquemas por idade, na apostila de Infectologia Pediátrica; aqui ficam o nirsevimabe e as vacinas que a cardiopatia acrescenta. As cardiopatias cianóticas são de Cardiopatias congênitas cianóticas: tetralogia de Fallot e transposição das grandes artérias, nesta apostila.
O lactente com shunt grande: a insuficiência que chega depois da segunda semana
A comunicação interventricular grande, o canal arterial grande e o defeito total do septo atrioventricular costumam dar alta da maternidade sem nenhum sinal: a saturação é normal — o manual da SBP de 2022 registra saturação periférica acima de 95% nesse grupo —, e o teste do coraçãozinho, que procura hipoxemia, passa. Os sintomas aparecem entre a segunda semana e os primeiros meses, à medida que a resistência pulmonar cai.
A história é a da mamada. O manual do Ministério da Saúde sobre o recém-nascido descreve o bebê com shunt grande como aquele que tem taquipneia em repouso que se acentua durante a mamada, sem outros sinais de baixo débito. A mãe conta que a criança solta o peito para respirar, que a mamada ficou longa, que ela dorme cansada e acorda com fome, que a testa sua e que ela não engorda. O guia da SBP de 2024 lista, para o lactente e o pré-escolar, taquipneia, dificuldade alimentar — vômitos, recusa, refluxo — e sudorese excessiva como os sintomas mais frequentes; cianose, palpitações, síncope, edema e ascite são raros nessa idade. Infecção respiratória de repetição e chiado que volta completam a história que costuma chegar com o rótulo de bronquiolite.
O exame confirma o volume. Taquipneia contada em um minuto, tiragem, taquicardia, precórdio hiperdinâmico, segunda bulha alta no foco pulmonar, estertores e sibilos, hepatomegalia — o sinal de congestão sistêmica mais comum no lactente — e, quando o volume que chega ao ventrículo esquerdo é grande, uma terceira bulha. O sopro depende do defeito: holossistólico na borda esternal esquerda baixa na comunicação interventricular, contínuo na região infraclavicular esquerda no canal arterial. Os pulsos femorais precisam ser palpados em toda criança com esse quadro, pelo motivo que o capítulo de sopro explica.
Para graduar o lactente, o guia da SBP usa a classificação de Ross, que se apoia no que a mamada mostra. Na classe I, a criança é assintomática. Na II, há taquipneia e sudorese discretas às mamadas, mas o ganho de peso é adequado. Na III, a taquipneia e a sudorese às mamadas são acentuadas e o ganho de peso é baixo. Na IV, os sinais aparecem em repouso: taquidispneia, retrações, gemido e sudorese. Eloá, com 72 incursões por minuto, mamadas de 40 minutos e peso cruzando linhas para baixo, está na classe III — e caminha para a IV com o resfriado.
O que não pertence a esse quadro é o baixo débito. Taquicardia com pressão baixa, pulsos finos, enchimento capilar lento e alteração do nível de consciência são, pelo guia da SBP, sinais de baixo débito sistêmico, e pedem outro raciocínio: cardiopatia obstrutiva do lado esquerdo, miocardite, arritmia. O lactente com shunt esquerda-direita puro está congesto, quente e bem perfundido.
A comunicação interventricular pequena: o sopro alto na criança que cresce bem
É o defeito que o pediatra da unidade básica mais encontra: um sopro sistólico áspero, às vezes com frêmito, na borda esternal esquerda baixa, num lactente que mama, cresce e respira normalmente. A intensidade do sopro não mede o tamanho do defeito — quem sopra alto é justamente a comunicação restritiva, com jato de alta velocidade.
O ecocardiograma confirma o tipo e o tamanho sem urgência. O consenso indiano de 2019 define a pequena pela ausência de sintomas, pressão pulmonar normal, câmaras esquerdas de tamanho normal e ausência de prolapso de cúspide aórtica, e manda acompanhar anualmente até os 10 anos e depois a cada 2 ou 3 anos. Fechar a comunicação pequena só é indicado em três situações: um episódio de endocardite, prolapso de cúspide aórtica com insuficiência aórtica, ou obstrução progressiva da via de saída do ventrículo direito. As perimembranosas são 80% do total; as musculares, as que mais fecham sozinhas.
A família precisa ouvir três coisas. A criança não tem restrição de atividade, de vacina nem de alimentação. O sopro pode sumir, porque mais da metade dessas comunicações fecha até os 5 anos. E a boca é o cuidado que fica, porque o risco de endocardite acompanha o jato enquanto ele existir.
Entre a pequena e a grande há a moderada: câmaras esquerdas dilatadas, pressão pulmonar entre normal e dois terços da sistêmica, desvio maior que 1,5 vez. Sem sintomas, o consenso indiano indica fechar entre os 2 e os 5 anos; com sintomas controlados por remédio, entre 1 e 2 anos. O que reclassifica qualquer comunicação para cima é o que se vê na consulta: taquipneia, mamada longa, ganho de peso ruim, fígado palpável.
A comunicação interatrial: a que chega na escola
A comunicação interatrial raramente dá sintomas na infância e costuma ser descoberta por um sopro, como registra o consenso indiano. O sopro é sistólico e suave, de ejeção, no foco pulmonar — é o fluxo aumentado passando pela valva pulmonar normal, não o defeito —, e o achado que a denuncia é o desdobramento amplo e fixo da segunda bulha, ensinado em Sopro cardíaco inocente versus patológico na criança. A criança que sobe escada sem cansar e tem esse desdobramento precisa de ecocardiograma do mesmo jeito.
O tipo muda o tratamento. O ostium secundum responde por cerca de 75% dos casos e é o único que pode ser fechado por dispositivo; o ostium primum, 15% a 20%, pertence ao espectro do defeito do septo atrioventricular e é cirúrgico; o seio venoso, 5% a 10%, e o do seio coronário, menos de 1%, também são cirúrgicos. O forame oval patente — pequena passagem na fossa oval, com retalho, sem dilatação das câmaras direitas — é achado normal no recém-nascido e não é cardiopatia: um laudo com essa expressão não gera encaminhamento.
A que merece fechamento é a que sobrecarrega o ventrículo direito. O consenso indiano indica fechar toda comunicação interatrial com desvio esquerda-direita e sobrecarga de volume do ventrículo direito, sem doença vascular pulmonar irreversível, e fixa a idade ideal entre 2 e 4 anos na criança assintomática; quem chega depois dessa idade fecha assim mesmo, enquanto houver sobrecarga e resistência pulmonar operável. Os 8% a 10% que têm insuficiência cardíaca e hipertensão pulmonar no primeiro ano fecham cedo, depois de afastadas lesões associadas.
Deixada aberta, a comunicação interatrial significativa cobra na vida adulta: arritmia atrial depois dos 40 anos, doença vascular pulmonar em 14% das grandes, em geral entre os 20 e os 40 anos, e expectativa de vida reduzida. Fechada na infância, a expectativa de vida é normal.
O canal arterial: o sopro contínuo do termo e o canal do prematuro
No bebê nascido a termo, o canal que continua aberto depois das primeiras semanas dá o sopro contínuo na região infraclavicular esquerda e os pulsos amplos descritos no capítulo de sopro. O consenso indiano separa quatro tamanhos, e a separação tem uma lição: o canal silencioso, visto só no ecocardiograma, não produz sopro nem hipertensão pulmonar e não se fecha; o pequeno tem sopro contínuo ou só sistólico e quase nenhuma sobrecarga; o moderado tem sopro contínuo, alguma sobrecarga esquerda e hipertensão pulmonar leve a moderada; e o grande, com sobrecarga esquerda importante, insuficiência cardíaca e hipertensão pulmonar grave, raramente tem sopro alto ou contínuo. O maior canal pode ter o sopro menos impressionante.
As idades de fechamento seguem o tamanho: o grande ou o moderado com insuficiência cardíaca ou hipertensão pulmonar fecham até os 3 meses; o moderado sem insuficiência, entre 6 meses e 1 ano; o pequeno, entre 12 e 18 meses; o silencioso, nunca. Indometacina, ibuprofeno e paracetamol não se usam no bebê a termo — no consenso indiano, é recomendação classe III.
No prematuro, o exame chega atrasado. O manual do Ministério da Saúde de 2014 lista sopro, impulsões precordiais e pulsos amplos como os sinais do canal, mas avisa que a acurácia deles é muito baixa nos primeiros dias e só chega a cerca de 90% a partir do quinto dia; nos primeiros dias, a pressão pulmonar ainda alta impede a turbulência, e o canal grande pode não soprar. Por isso o manual recomenda não esperar o sopro e fazer o ecocardiograma entre o primeiro e o terceiro dia no nascido com menos de 30 semanas, com desconforto respiratório e em ventilação mecânica.
O ecocardiograma responde a três perguntas. O diâmetro, medido na extremidade pulmonar do canal: acima de 2 milímetros, ou de 1,5 milímetro por quilo de peso, o manual considera canal de grande calibre. O sentido do fluxo: esquerda-direita exclusivo é o do canal com repercussão; bidirecional ou direita-esquerda indica hipertensão pulmonar acentuada, e aí fechar o canal está contraindicado. E o fluxo diastólico reverso na aorta descendente, que marca o roubo de sangue sistêmico. Radiografia e eletrocardiograma, pelo manual, não fazem o diagnóstico.
O defeito do septo atrioventricular e a criança com síndrome de Down
As diretrizes do Ministério da Saúde para a pessoa com síndrome de Down mandam pedir ecocardiograma ao nascimento para toda criança com a síndrome, porque metade tem cardiopatia mesmo sem sopro; se o exame é normal, não precisa ser repetido, e a criança com cardiopatia segue com cardiologista. O teste do coraçãozinho normal não substitui esse exame, e o sopro ausente também não.
O defeito total do septo atrioventricular é uma comunicação grande com três componentes: uma abertura entre os átrios na parte baixa do septo (o ostium primum), uma abertura entre os ventrículos na via de entrada e uma valva atrioventricular única, comum aos dois lados, que pode vazar. A fisiologia é a de um shunt esquerda-direita enorme somado à insuficiência valvar: insuficiência cardíaca nas primeiras semanas, ganho de peso ruim, infecções respiratórias. A forma parcial evolui bem mais devagar: pelo consenso indiano, metade dos portadores chega aos 20 anos sem correção.
O que muda na síndrome de Down é o relógio. A doença vascular pulmonar aparece mais cedo e mais grave, com alterações irreversíveis possíveis desde os 6 meses. O consenso indiano fixa a correção completa do defeito total até os 3 meses quando a insuficiência cardíaca está controlada, e o quanto antes quando não está; a forma parcial estável, com pressão pulmonar normal, corrige entre os 2 e os 3 anos; e a criança que chega depois dos 6 meses com hipertensão pulmonar vai para um centro de referência avaliar se ainda é operável. Na prática do interno, isso quer dizer que o lactente com Down e sinais de insuficiência cardíaca não sai com retorno para daqui a dois meses.
Os demais agravos da síndrome — tireoide, audição, visão, desenvolvimento — e o acompanhamento na caderneta pertencem à puericultura, e os marcos do desenvolvimento estão em Marcos do desenvolvimento neuropsicomotor e sinais de alerta por faixa etária, na apostila de Puericultura e Desenvolvimento.
Quando a insuficiência não vem de um defeito: miocardite, cardiomiopatia e arritmia
Entre um quinto e um terço das crianças com insuficiência cardíaca não têm defeito estrutural: o guia da SBP atribui 20% a 30% dos casos às cardiomiopatias — primárias, em geral genéticas ou de erro inato do metabolismo, dilatadas, não compactadas, hipertróficas ou restritivas — e às secundárias: infecção (HIV, doença de Chagas, febre reumática, sepse), miocardite viral aguda, anemia falciforme, toxicidade de quimioterapia, doença de Kawasaki e arritmias graves, como a taquicardia supraventricular ou ventricular incessante e o bloqueio atrioventricular total. Tireotoxicose, grandes fístulas arteriovenosas e doença renal crônica também podem se apresentar assim.
O que muda o raciocínio na porta é o que falta e o que sobra. Falta o sopro de shunt, falta a história de mamada difícil desde as primeiras semanas; sobram um lactente ou uma criança que estava bem, um ritmo de galope, sinais de baixo débito e, na radiografia, cardiomegalia com congestão venosa em vez de trama arterial aumentada. O guia da SBP ilustra a arritmia com um lactente em insuficiência crônica e frequência em torno de 200 batimentos por minuto, com onda P negativa em DII e aVF antes de cada QRS — taquicardia atrial ectópica.
Para essas crianças, este capítulo assume o reconhecimento e o destino: ecocardiograma no mesmo dia, monitorização e transferência para quem tem terapia intensiva pediátrica e cardiologista, sem expansão de volume às cegas. A doença de Kawasaki está em Doença de Kawasaki: critérios diagnósticos e tratamento, na apostila de Infectologia Pediátrica; a febre reumática, em Febre reumática e cardiopatia reumática crônica, e as cardiomiopatias do adulto, em Cardiomiopatias: hipertrófica, dilatada e restritiva, ambas na apostila de Cardiologia. O tratamento da taquicardia supraventricular da criança não tem capítulo neste nível; o que decide na porta — reconhecer a frequência que nenhuma febre explica e chamar quem trata — fica aqui.
Como fechar o diagnóstico
A insuficiência cardíaca da criança é diagnóstico clínico, feito com o que se contou e palpou. Os exames respondem a outras perguntas: qual é a causa, quanto sangue está sendo desviado, de que lado está a sobrecarga, se a pressão pulmonar já subiu e o que a prescrição vai mexer no sangue. O guia da SBP de 2024 é a régua brasileira desta parte, e o consenso indiano de 2019 descreve o que cada defeito mostra em cada exame.
A radiografia de tórax: tamanho do coração e tipo de trama
A radiografia de tórax ajuda a avaliar área cardíaca, vascularização pulmonar e congestão. Cardiomegalia apoia a hipótese no contexto adequado, mas sua ausência não exclui insuficiência cardíaca. Considere técnica, idade e quadro clínico; o ecocardiograma caracteriza a anatomia e a função.
Cada defeito tem sua radiografia. Na comunicação interventricular pequena, ela pode ser normal; na significativa, há cardiomegalia proporcional ao desvio, trama aumentada e arco da pulmonar proeminente. Na comunicação interatrial, crescem o átrio e o ventrículo direitos e o tronco pulmonar, com trama aumentada. No canal arterial grande, cardiomegalia, trama aumentada e aorta ascendente proeminente. E o sinal que ninguém deve perder: coração que não é grande, com tronco pulmonar saliente e periferia pobre em vasos, num lactente que tinha shunt grande — é a resistência pulmonar subindo, não a doença melhorando.
No lactente que chega chiando, a radiografia também separa o que a ausculta não separa: pneumonia com consolidação localizada de um lado, congestão com coração grande e trama difusa de outro. A radiografia da Eloá aos 2 meses e meio, que ninguém explicou, provavelmente já mostrava a cardiomegalia. No prematuro, o manual do Ministério da Saúde lembra que a radiografia não faz o diagnóstico do canal arterial, embora ajude a medir o edema pulmonar.
O eletrocardiograma: de que lado está a sobrecarga
O eletrocardiograma não diagnostica o defeito, mas diz qual ventrículo está trabalhando a mais e mostra o ritmo. Pelo consenso indiano, a comunicação interventricular com desvio significativo e o canal arterial grande mostram sobrecarga de volume do ventrículo esquerdo — ondas R altas e T apiculadas nas derivações inferiores e laterais, com q proeminente em V5 e V6 — e sobrecarga atrial esquerda; alguns casos de comunicação interventricular têm complexos RS amplos e equidifásicos nas precordiais médias, sinal de sobrecarga dos dois ventrículos. Na comunicação interventricular pequena e no canal pequeno, o traçado costuma ser normal.
A comunicação interatrial mostra o outro lado: sobrecarga de volume do ventrículo direito, com bloqueio incompleto do ramo direito, e sobrecarga atrial direita; nas grandes, pode aparecer a onda R entalhada nas derivações inferiores. A hipertrofia do ventrículo direito com desvio do eixo para a direita, num lactente com comunicação interventricular grande, é o traçado da resistência pulmonar alta.
É no eletrocardiograma que se reconhece a insuficiência que não vem de defeito: o guia da SBP ilustra a taquicardia atrial ectópica de um lactente com frequência em torno de 200 batimentos por minuto e onda P negativa em DII e aVF antes do QRS. Criança com insuficiência cardíaca e ritmo que não é sinusal sai do pronto-socorro com esse traçado anexado ao pedido de transferência.
O ecocardiograma: a pergunta que vai escrita no pedido
O guia da SBP chama o ecocardiograma de indispensável e manda fazê-lo com a maior brevidade possível na criança com sintomas de insuficiência cardíaca, antes de tudo para afastar doença estrutural. É ele que dá nome ao defeito, mede o tamanho, conta quantos são, estima a pressão pulmonar, mede as câmaras e a função e procura o que complica.
Pedido sem pergunta volta com laudo sem resposta. No lactente com suspeita de comunicação interventricular, escreva o que precisa voltar medido: tipo e localização, diâmetro em relação ao anel aórtico, pressão estimada do ventrículo direito, dilatação das câmaras esquerdas, prolapso de cúspide aórtica com insuficiência, outros defeitos. Na comunicação interatrial: tipo, tamanho, bordas — que decidem se cabe dispositivo — e dilatação das câmaras direitas. No canal arterial: diâmetro, sentido do fluxo, tamanho do átrio e do ventrículo esquerdos e pressão pulmonar; no prematuro, também o fluxo diastólico na aorta descendente. Na síndrome de Down: se há defeito do septo atrioventricular e em que forma, e se a valva comum vaza.
Na insuficiência sem defeito, as perguntas mudam: diâmetros e fração de ejeção do ventrículo esquerdo, função diastólica, insuficiência mitral, função e pressão do ventrículo direito e, sempre, a origem das coronárias — que o guia da SBP manda olhar na avaliação inicial. Quando a cidade não tem ecocardiograma, o que fazer para não perder a criança que não pode esperar está em Sopro cardíaco inocente versus patológico na criança, que assume essa parte: para o lactente em insuficiência cardíaca, a resposta é a transferência, não a fila.
O laboratório que muda a prescrição
Antes do primeiro diurético, colha sódio, potássio, cloro, cálcio e magnésio, ureia e creatinina. O guia da SBP explica o motivo: distúrbio eletrolítico causa arritmia e piora a função cardíaca, a hiponatremia é frequente na insuficiência grave pela expansão de volume, e diurético e inibidor da enzima conversora mexem no sódio, no potássio e no cloro — o que se vai prescrever precisa de um valor de partida. Na criança grave, gasometria e lactato medem a perfusão e a ventilação.
O hemograma entra porque a anemia agrava a insuficiência cardíaca, e o guia recomenda procurá-la periodicamente e tratá-la, com ferro por via oral ou, na ferropenia importante, endovenoso. A investigação e a dose do ferro na criança estão em Anemia ferropriva na infância: rastreio, diagnóstico e tratamento, na apostila de Hematologia Pediátrica.
Os peptídeos natriuréticos entram onde existirem. O guia da SBP prefere o NT-proBNP ao BNP — meia-vida maior, mais estável, menos influenciado pela função renal —, diz que ele ajuda a separar doença cardíaca de doença pulmonar na emergência pediátrica, que acompanha a intensidade dos sintomas e da disfunção e que cai depressa quando a criança melhora. Não substitui o ecocardiograma e não autoriza esperar por ele.
O vírus, a febre e a pneumonia no lactente cardiopata
O lactente com shunt grande raramente chega por causa do coração: chega por causa do resfriado que o descompensou. A infecção respiratória aumenta o trabalho respiratório, a febre aumenta o consumo de oxigênio e a mamada, que já não bastava, para. É por isso que a pergunta da porta não é bronquiolite ou coração, e sim o que o vírus encontrou.
Três achados desempatam: hepatomegalia verdadeira, que a bronquiolite não produz; mamada difícil e ganho de peso ruim desde antes do resfriado; e sopro com segunda bulha alta. O capítulo de bronquiolite, que é dono da doença e da indicação de pesquisa viral, lista os mesmos sinais como pista de insuficiência cardíaca por cardiopatia congênita, e lembra que volume que ajuda o desidratado afunda o cardiopata.
Pneumonia bacteriana e congestão coexistem, e a radiografia é quem separa a consolidação da congestão. O que não se faz é tratar congestão com antibiótico, nebulização ou expansão de volume, nem suspender o diurético porque apareceu febre.
A balança e a mamada como exames
No lactente com insuficiência cardíaca, peso é sinal vital. Pese todos os dias na mesma balança, sem roupa e antes da mesma mamada; no ambulatório, a cada consulta, com o ponto marcado na curva da caderneta — a leitura das curvas está em Acompanhamento do crescimento: curvas da OMS, peso, estatura e perímetro cefálico, na apostila de Puericultura e Desenvolvimento. Ganho de peso ruim com diurético em dose plena é critério de gravidade, não detalhe nutricional.
A mamada também se mede. Registre quanto tempo leva, quantas vezes a criança solta o peito para respirar, quantos mililitros toma quando é mamadeira, e quantas fraldas molha — pesar a fralda dá a diurese. Com esses números, a conta de calorias deixa de ser estimativa: 120 kcal por quilo por dia, num lactente de 4,5 kg, são 540 kcal, e o bloco de conduta mostra por que o peito sozinho, com essa fadiga, não chega lá.
Quando a criança tem desnutrição grave instalada, o manejo nutricional do desnutrido está em Desnutrição energético-proteica: marasmo e kwashiorkor, manejo do desnutrido grave, na apostila de Nutrologia Pediátrica; aqui fica a dieta do lactente cardiopata que ainda está a tempo.
Fluxo, tabelas e contas das cardiopatias acianóticas e da insuficiência cardíaca na criança
O fluxo vai do lactente que cansa para mamar até a alta com data de cirurgia, nirsevimabe e vacinas. As tabelas põem os defeitos lado a lado, fazem as contas por quilo com o que a Rename 2024 tem, listam o que a cardiopatia acrescenta ao calendário e comparam as duas réguas do canal arterial do prematuro. As notas registram os erros de fonte que mudariam a prescrição.
- 1Lactente com taquipneia, mamada longa, sudorese e ganho de peso ruim: conte a frequência respiratória em um minuto, palpe o fígado, ausculte o precórdio e palpe os pulsos femorais antes de aceitar bronquiolite.
- 2Hepatomegalia, sopro ou segunda bulha alta nesse quadro: hipótese de insuficiência cardíaca por shunt esquerda-direita. Suspenda nebulização sem indicação e não expanda volume.
- 3Taquicardia com pressão baixa, pulsos finos, enchimento capilar lento ou alteração de consciência: não é shunt puro. Monitor, acesso, ecocardiograma no mesmo dia e transferência para terapia intensiva pediátrica.
- 4Avaliação inicial: colher eletrólitos e função renal e solicitar radiografia e ECG conforme o quadro, preferencialmente com medidas basais. Congestão grave ou instabilidade exige tratamento e suporte em paralelo, sem aguardar a conclusão de todos os exames.
- 5Congestão com perfusão preservada: considerar furosemida 1 mg/kg EV (faixa inicial citada de 0,5 a 2 mg/kg/dose) sob supervisão e reavaliar em horas. O guia da SBP apresenta oferta hídrica em torno de 60% da basal na fase aguda; individualize segundo congestão, pressão, perfusão, diurese, sódio, função renal e aporte nutricional, sem transformar esse percentual em regra para toda cardiopatia.
- 6Ecocardiograma com a pergunta escrita: tipo, tamanho em relação ao anel aórtico, pressão do ventrículo direito, câmaras, prolapso de cúspide, outros defeitos.
- 7Comunicação interventricular grande: cirurgia o quanto antes se a insuficiência ou o baixo ganho não cedem ao tratamento; até os 6 meses se cedem. Defeito total do septo atrioventricular: até os 3 meses se controlado. Canal grande ou moderado com insuficiência ou hipertensão pulmonar: fechar até os 3 meses.
- 8Comunicação interventricular pequena, comunicação interatrial sem sobrecarga e canal silencioso: seguimento, sem restrição de atividade, sem cirurgia e sem antibiótico profilático.
- 9Comunicação interatrial com sobrecarga do ventrículo direito: fechamento eletivo entre 2 e 4 anos, ou quando a criança chegar, enquanto a resistência pulmonar for operável.
- 10Criança com shunt grande que melhora sem cirurgia — menos taquipneia, sopro mais baixo, segunda bulha mais alta, radiografia sem cardiomegalia: resistência pulmonar subindo. Ecocardiograma e cardiologista na mesma semana.
- 11Síndrome de Down: ecocardiograma ao nascer em toda criança, com ou sem sopro. Com defeito do septo atrioventricular e insuficiência, encaminhamento que cabe dentro dos 3 primeiros meses.
- 12Alta: receita em miligramas e mililitros da preparação que a família vai levar, peso semanal, sinais de retorno e data de avaliação cirúrgica escrita no resumo.
- 13Profilaxia contra VSR: verificar cardiopatia com repercussão hemodinâmica, faixa etária elegível, sazonalidade, doses anteriores e instrução vigente do programa. Na primeira sazonalidade, a dose de nirsevimabe é 50 mg se peso menor que 5 kg e 100 mg se 5 kg ou mais. Não extrapole esse esquema automaticamente a toda criança menor de 24 meses ou à segunda sazonalidade; confira o capítulo de imunização e a orientação operacional atual.
- 14Vacinas: calendário em dia; influenza a partir dos 6 meses; pneumocócica 20-valente e componente pertussis acelular pela rede de imunobiológicos especiais.
- 15Endocardite: defeito acianótico não corrigido não recebe antibiótico antes do dentista; nos 6 meses depois do fechamento com remendo ou dispositivo, esta apostila adota amoxicilina 50 mg/kg (até 2 g) em dose única 1 hora antes. Higiene oral sempre.
- 16Prematuro com canal acima de 2 mm ou de 1,5 mm/kg, fluxo esquerda-direita e roubo diastólico: esta apostila adota tratar quando há repercussão clínica, sem profilaxia, conferindo antes as contraindicações do inibidor da ciclo-oxigenase.
Os defeitos lado a lado: o que chama a atenção, como evoluem sem intervenção e quando fechar
| Defeito e tamanho | O que chama a atenção | Evolução sem intervenção | Quando fechar, pelo consenso indiano de 2019 |
|---|---|---|---|
| Comunicação interventricular pequena | Sopro holossistólico alto na borda esternal esquerda baixa numa criança que cresce bem | Mais da metade fecha até os 5 anos e mais de 80% até a adolescência; endocardite em 1,3 por 1.000 pacientes-ano | Só com endocardite, prolapso de cúspide com insuficiência aórtica ou obstrução progressiva da via de saída do ventrículo direito; seguimento anual até os 10 anos |
| Comunicação interventricular moderada | Câmaras esquerdas dilatadas, pressão pulmonar entre normal e dois terços da sistêmica | Pode diminuir; sintomas variam | Entre 2 e 5 anos se não há sintomas; entre 1 e 2 anos se os sintomas cedem ao tratamento |
| Comunicação interventricular grande | Insuficiência cardíaca a partir da segunda semana, pressão pulmonar sistêmica | 10% morrem no primeiro ano; a doença vascular pulmonar começa ainda no primeiro ano na maioria dos que a desenvolvem | O quanto antes se a insuficiência ou o baixo ganho não cedem; até os 6 meses se cedem |
| Comunicação interatrial ostium secundum com sobrecarga do ventrículo direito | Sopro de ejeção suave no foco pulmonar e desdobramento fixo da segunda bulha, sem sintomas | Raramente fecha se tem mais de 8 mm ao nascer ou depois dos 2 a 3 anos; arritmia atrial depois dos 40 e doença vascular pulmonar em 14% das grandes | Entre 2 e 4 anos na criança assintomática; cedo nos 8% a 10% sintomáticos no primeiro ano; depois disso, enquanto operável |
| Canal arterial do bebê a termo | Sopro contínuo infraclavicular esquerdo e pulsos amplos; o canal grande, com hipertensão pulmonar, pode não ter sopro contínuo | O pequeno pode fechar até os 3 meses; depois do primeiro ano, 0,6% ao ano | Grande ou moderado com insuficiência ou hipertensão pulmonar: até os 3 meses; moderado sem insuficiência: 6 a 12 meses; pequeno: 12 a 18 meses; silencioso: não fechar |
| Defeito total do septo atrioventricular | Insuficiência cardíaca nas primeiras semanas; metade dos portadores tem síndrome de Down, e a cardiopatia pode não soprar | 54% vivos aos 6 meses e 35% aos 12; na síndrome de Down, doença vascular irreversível possível desde os 6 meses | Correção completa até os 3 meses se a insuficiência está controlada; o quanto antes se não está |
Contas por peso com as apresentações da Rename 2024
| Prescrição | Conta no peso | O que a Rename 2024 tem | O que a conta obriga |
|---|---|---|---|
| Furosemida EV 1 mg/kg/dose (faixa de 0,5 a 2 mg/kg/dose) | Eloá, 4,5 kg: 4,5 mg = 0,45 mL | Solução injetável de 10 mg/mL, Componente Básico | Seringa de 1 mL; teto do dia pelo texto do guia da SBP, 6 a 8 mg/kg/dia = 27 a 36 mg |
| Furosemida VO 1 mg/kg/dose de 12 em 12 horas | 4,5 mg por dose = 9 mg/dia = 2 mg/kg/dia; teto de 4 mg/kg/dia = 18 mg | Comprimido de 40 mg; nenhuma forma líquida oral | 4,5 mg é um nono do comprimido e não se obtém partindo: a farmácia prepara a forma oral, e a receita diz miligramas e mililitros da preparação entregue |
| Espironolactona 1 mg/kg/dia (teto de 3 mg/kg/dia, sem passar da dose do adulto) | 4,5 mg/dia; teto de 13,5 mg/dia | Comprimidos de 25 e de 100 mg; nenhuma suspensão | Mesma preparação oral; a partir de 16,7 kg, o teto por quilo ultrapassa os 50 mg/dia da dose-alvo do adulto |
| Captopril 0,5 mg/kg/dia de 8 em 8 horas, teto de 2 a 3 mg/kg/dia, quando o cardiologista indicar | 0,75 mg por dose; teto de 9 a 13,5 mg/dia | Comprimido de 25 mg | 0,75 mg são 3% do comprimido: só em preparação oral; iniciar com potássio e creatinina conhecidos |
| Digoxina 5 a 10 mcg/kg/dia de 12 em 12 horas, só com indicação do especialista | 11,25 a 22,5 mcg por dose = 0,23 a 0,45 mL do elixir | Elixir de 0,05 mg/mL e comprimido de 0,25 mg | A unidade é micrograma; a tabela do guia da SBP escreve miligrama, e a diferença é de mil vezes (ver notas) |
| Nirsevimabe na primeira sazonalidade | Eloá, 4,5 kg: 50 mg; com 5 kg ou mais, 100 mg; nas sazonalidades seguintes, 200 mg | Não consta da Rename 2024: vem do Programa Nacional de Imunizações | Indicação escrita no encaminhamento, com a cardiopatia e o remédio que a criança usa, para a rede de imunobiológicos especiais |
| Amoxicilina 50 mg/kg em dose única 1 hora antes do procedimento dentário (adulto: 2 g) | Ágatha, 18 kg: 900 mg = 18 mL | Suspensão oral de 50 mg/mL; cápsula e comprimido de 500 mg | Só nos 6 meses depois do fechamento com remendo ou dispositivo, pela régua que esta apostila adota |
| Ibuprofeno para o canal do prematuro: 10 mg/kg e depois 5 mg/kg de 24 em 24 horas, duas doses | Prematuro de 900 g: 9 mg = 0,18 mL; depois 4,5 mg = 0,09 mL | Só a suspensão oral de 50 mg/mL; nenhum ibuprofeno injetável, e a indometacina não consta | Via enteral só com trânsito e absorção intestinais adequados, como admite o manual do MS de 2014; volume medido em seringa de 1 mL |
O que a cardiopatia acrescenta ao calendário da criança
| Imunobiológico | Quem recebe por causa do coração | Quando e quanto | Régua |
|---|---|---|---|
| Nirsevimabe | Menor de 24 meses com cardiopatia congênita com repercussão hemodinâmica: remédio para insuficiência cardíaca e indicação cirúrgica, hipertensão pulmonar moderada a grave ou remédio contínuo. Não recebe: comunicação interatrial ostium secundum, comunicação interventricular pequena, canal leve, lesão corrigida sem remédio | De fevereiro a agosto; 50 mg abaixo de 5 kg e 100 mg a partir de 5 kg; na segunda sazonalidade, 200 mg, só se a repercussão e o remédio continuam | Estratégia de imunização contra o VSR, MS, 2026, Quadro 5 |
| Nirsevimabe na síndrome de Down | Toda criança com síndrome de Down menor de 24 meses, com ou sem cardiopatia | Mesmo período e mesmas doses | Estratégia de imunização contra o VSR, MS, 2026, Quadro 4 |
| Influenza trivalente inativada | Na rotina, dos 6 meses aos 5 anos, 11 meses e 29 dias; depois disso, pela cardiopatia crônica | Conferir volume da apresentação utilizada e esquema de primovacinação no calendário vigente; não aplicar corte universal de volume por idade. | Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação, 2026; Manual dos CRIE, 2023 |
| Pneumocócica 20-valente | Cardiopatia crônica, na rede de imunobiológicos especiais | Esquema pela idade e pelas doses já recebidas; sem vacina anterior, entre 2 e 6 meses, 3 doses e reforço | Nota Técnica nº 52/2026 |
| Pertussis acelular (penta ou hexa acelular) | Cardiopatia em criança com risco de descompensação precipitada por febre | No lugar da pentavalente de células inteiras, pela rede de referência, sem atrasar as outras vacinas | Manual dos CRIE, 2023 |
O canal arterial do prematuro nas duas réguas, e o que esta apostila adota
| Ponto | Manual do Ministério da Saúde, 2014 | Consenso indiano, 2019 | Esta apostila |
|---|---|---|---|
| Quem tratar | Todo pré-termo com menos de 32 semanas e canal com repercussão ao ecocardiograma até o 3º dia, mesmo sem sinais clínicos | O prematuro em insuficiência cardíaca; os canais pequenos podem fechar sozinhos | Tratar quando há repercussão clínica, com o ecocardiograma confirmando o canal grande |
| Profilaxia nas primeiras 24 horas | Indometacina no menor de 28 semanas com canal de grande calibre | Não recomendada (classe III) | Não fazer |
| Fármacos | Indometacina 0,2 mg/kg de 12 em 12 horas, 3 doses, como primeira opção pelo custo; ibuprofeno 10 mg/kg e depois 5 mg/kg de 24 em 24 horas, 2 doses | Indometacina, ibuprofeno ou paracetamol | Ibuprofeno pela Rename; indometacina e ibuprofeno injetável conforme o que o hospital dispõe |
| Via | Endovenosa preferida; enteral onde não houver apresentação parenteral e o trânsito for adequado | Endovenosa ou oral | Enteral com a suspensão da Rename quando não houver a injetável |
| Contraindicações | Hemorragia nas últimas 24 horas, plaquetas abaixo de 50.000/mm³, creatinina acima de 1,8 mg/dL, bilirrubina acima de 12 mg/dL, enterocolite necrosante, cardiopatia canal-dependente | Não detalha | As do manual de 2014, conferidas antes de cada dose |
| Falha | Até dois ciclos; depois, cirurgia | Pelo menos dois ciclos antes da cirurgia | Dois ciclos e, falhando, cirurgia |
Da anatomia à repercussão clínica
| Lesão | Fluxo e sobrecarga predominantes | O que muda no seguimento |
|---|---|---|
| CIV grande | Shunt esquerda-direita aumenta após queda da resistência pulmonar; sobrecarga pulmonar e esquerda | Mamadas, crescimento, congestão e pressão pulmonar definem urgência |
| CIA | Shunt atrial com sobrecarga de átrio e ventrículo direitos | Pode ser pouco sintomática; B2 fixa e dilatação direita sustentam investigação |
| PCA | Fluxo da aorta para artéria pulmonar; repercussão depende de tamanho e resistências | Integrar eco, perfusão e clínica; no prematuro, usar critérios próprios |
| Defeito atrioventricular completo | Shunt em mais de um nível e possível regurgitação valvar | Pesquisar em síndrome de Down; planejar avaliação e correção precoces |
Oferta hídrica: qual dado muda a próxima prescrição?
| Achado | Pergunta clínica | Próximo passo |
|---|---|---|
| Menos congestão, boa perfusão e diurese | O limite hídrico ainda é necessário e permite nutrição? | Rever oferta e via; manter acompanhamento de peso e sintomas |
| Oligúria, creatinina maior ou hipotensão | Há hipovolemia, baixo débito ou congestão renal? | Reexaminar antes de repetir diurético ou expandir; pedir ajuda |
| Sódio ou potássio alterados | Qual a gravidade e a relação com medicamentos e balanço? | Rever doses, perdas e necessidade de correção monitorizada |
| Peso sem ganho após descongestão | O aporte está chegando e a lesão segue descompensada? | Revisar nutrição e antecipar discussão cardiológica |
Digoxina, guia da SBP de 2024, Tabela 6: a tabela de medicações da insuficiência cardíaca crônica escreve dose inicial de 5 mg/kg/dia e dose máxima de 10 mg/kg/dia, de 12 em 12 horas. O texto corrido do mesmo guia dá 5 a 10 mcg/kg/dia, com nível sérico de 0,5 a 0,9 ng/mL — a tabela troca micrograma por miligrama, fator de 1.000. Num lactente de 4,5 kg, a tabela prescreveria 22,5 a 45 mg por dia, o que corresponde a 450 a 900 mL por dia do elixir de 0,05 mg/mL da Rename, ou 90 a 180 comprimidos de 0,25 mg; o texto dá 22,5 a 45 mcg por dia, 0,23 a 0,45 mL do elixir por dose. Vale o texto. Toda prescrição de digoxina na criança se escreve em microgramas, com a conta em mililitros ao lado.
Furosemida, guia da SBP de 2024, tabela contra texto nas duas fases. Na insuficiência crônica, o texto dá de 1 a 4 mg/kg/dia por via oral; a Tabela 6 dá 1 a 2 mg/kg/dose de 1 a 4 vezes ao dia, o que chega a 8 mg/kg/dia, o dobro. Na aguda, o texto dá 0,5 a 2 mg/kg/dose podendo chegar a 6 a 8 mg/kg/dia; a Tabela 5 permite 0,5 a 2 mg/kg/dose de 2 a 6 vezes ao dia, até 12 mg/kg/dia, de 1,5 a 2 vezes o teto do texto. Num lactente de 4,5 kg, o teto oral é 18 mg/dia pelo texto e 36 mg/dia pela tabela; o endovenoso, 27 a 36 mg/dia pelo texto e 54 mg/dia pela tabela. Este capítulo usa os tetos do texto, que são os menores e os que o próprio guia explica.
Espironolactona, guia da SBP de 2024, Tabela 6: dose máxima de 3 mg/kg/dia, sem a ressalva de não ultrapassar a dose do adulto. A Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca de 2018 fixa a dose-alvo do adulto em 25 a 50 mg uma vez ao dia. A partir de 16,7 kg, o teto por quilo passa de 50 mg: uma criança de 25 kg chegaria a 75 mg/dia, 1,5 vez a dose-alvo do adulto, e uma de 30 kg a 90 mg/dia. Na criança maior, o teto é o menor dos dois.
Nutrição, guia da SBP de 2024: “em crianças maiores e adolescentes, a cota calórica geralmente recomendada é de 25 a 30 kcal/kg/dia” — valor de adulto. O Manual de terapia nutricional na atenção especializada hospitalar do Ministério da Saúde, de 2016, dá 70 a 90 kcal/kg/dia dos 7 aos 12 anos e 35 a 70 acima dos 12 na criança gravemente enferma, e, pela regra de Holliday-Segar, 1.500 kcal mais 20 kcal por quilo acima de 20 kg. Para um escolar de 9 anos e 28 kg, o guia daria 700 a 840 kcal/dia, contra 1.660 kcal/dia por Holliday-Segar — 42% a 51% — e 1.960 a 2.520 kcal/dia pela tabela por idade — 28% a 43%. O lactente, para quem o guia dá 120 kcal/kg/dia, não é afetado; a criança maior com cardiomiopatia seria posta em jejum parcial.
Nirsevimabe, Estratégia de imunização contra o vírus sincicial respiratório do Ministério da Saúde, 1ª edição revisada de 2026: o Quadro 4 e as notas do fluxograma de elegibilidade listam “cardiopatia congênita” sem qualificação, e a Nota Técnica nº 109/2025 faz o mesmo; o Quadro 5 do mesmo guia exige repercussão hemodinâmica — remédio para insuficiência cardíaca com indicação cirúrgica, hipertensão pulmonar moderada a grave ou remédio contínuo — e exclui expressamente a comunicação interatrial ostium secundum, a comunicação interventricular pequena, as estenoses leves, o canal leve, a lesão corrigida sem remédio e a cardiopatia leve sem tratamento. Um lactente de 4 meses e 4,8 kg com comunicação interventricular pequena, em abril, recebe 50 mg pelo Quadro 4 e pelo fluxograma e não é indicado pelo Quadro 5. A nota técnica ainda escreve “até 24 meses”, e o guia, “idade inferior a 24 meses (até 1 ano, 11 meses e 29 dias)”: a criança de exatamente 24 meses entra por uma e não pela outra. Este capítulo segue o Quadro 5 e a idade do guia, pela terceira divergência.
Diretrizes de atenção à pessoa com síndrome de Down, Ministério da Saúde, 2013: “aos cardiopatas congênitos com peso de nascimento menor ou igual a 2.500 g recomenda-se o uso de anticorpo monoclonal contra o vírus sincicial respiratório”. O critério está superado pela Estratégia de 2026, que inclui toda criança com síndrome de Down menor de 24 meses na sazonalidade e a cardiopatia com repercussão hemodinâmica sem corte de peso ao nascer. Um lactente com Down e defeito total do septo atrioventricular em uso de diurético, nascido com 3.100 g, fica de fora pela frase de 2013 e dentro pela régua de 2026 por dois critérios. As duas são normas do mesmo ministério; vence a de 2026, pelo escopo — foi escrita para a imunização contra o vírus — e pela data.
As janelas de correção na tabela e no fluxo são referências do consenso identificado, não prazos universais nem períodos seguros de espera. Insuficiência não controlada, baixo ganho, hipertensão pulmonar ou mudança de perfusão antecipam contato com cardiologia. Quem ultrapassou uma idade de referência precisa de avaliação de operabilidade, sem concluir irreversibilidade apenas pelo calendário.
A conduta, hora a hora
A conduta acompanha Eloá, 3 meses e 4,5 kg, da descompensação à recuperação. O Guia Prático de Atualização da SBP, Insuficiência Cardíaca na Criança, de junho de 2024, fundamenta a abordagem da congestão e a monitorização do tratamento. As idades de intervenção citadas a partir do consenso indiano de 2019 são referências para discutir o encaminhamento; a equipe cardiológica define o momento pela anatomia, repercussão, resistência vascular pulmonar, resposta clínica e recursos disponíveis. A profilaxia contra VSR segue a indicação e a sazonalidade do programa vigente. No internato, cada decisão deve ligar um achado clínico a uma medida, um parâmetro de resposta e uma responsabilidade de seguimento.
Duas ideias governam cada marco. O remédio da insuficiência cardíaca compra tempo; quem trata a comunicação grande é a cirurgia, e por isso nenhuma prescrição sai sem a data do passo seguinte. E toda dose de lactente se escreve três vezes — em mg/kg, em miligramas e em mililitros da preparação que a família vai levar —, porque é na terceira que os erros aparecem.
Terça, 22h30 — os primeiros 20 minutos: trocar o diagnóstico antes de trocar a prescrição
Você suspende a nebulização, que não tem indicação para o que Eloá tem, e diz a Daiane, sem rodeio, que a respiração rápida da filha parece vir do coração e não só do resfriado. A menina fica no colo, recostada, com monitor e oximetria. A saturação é de 95%: não há motivo para oxigênio agora, e se ele entrar é para manter acima de 92%, não para chegar a 100% — oxigênio dilata a circulação pulmonar e aumenta o desvio. O acesso venoso serve para colher sangue e dar diurético; soro de manutenção, nesta noite, só pioraria a congestão. Colhidos os exames, a radiografia vai ser feita no leito, porque a sala de raio X fica a dois corredores e a criança não precisa gastar fôlego no caminho. A mãe pode continuar oferecendo o peito, em mamadas curtas: se Eloá não conseguir sugar sem se cansar, o leite ordenhado vai por sonda.
Prescrição- Suspender a nebulização com soro fisiológico
- Cabeceira elevada, monitor cardíaco e oximetria de pulso contínuos
- Oxigênio somente se saturação abaixo de 92%, com alvo acima de 92%
- Acesso venoso periférico salinizado, sem soro de manutenção
- Hemograma, sódio, potássio, cloro, cálcio, magnésio, ureia, creatinina e glicemia
- Radiografia de tórax no leito e eletrocardiograma de 12 derivações
- Peso diário na mesma balança, sem roupa, e diurese por pesagem de fraldas
Terça, 23h10 — a radiografia confirma a congestão e entra o diurético
A radiografia mostra cardiomegalia e aumento da vascularização pulmonar, sem consolidação, e o ECG mostra taquicardia sinusal e sobrecarga ventricular esquerda. Eloá está congesta e bem perfundida; com o pediatra, você indica furosemida inicial de 1 mg/kg: 4,5 mg, equivalentes a 0,45 mL da apresentação de 10 mg/mL, com preparo e administração conforme protocolo. A basal de referência é 450 mL/dia; 60% correspondem a 270 mL/dia, incluindo leite, medicamentos e diluentes. Para esta fase aguda, a equipe escolhe esse limite inicial e programa reavaliação em horas, sem aplicá-lo automaticamente a outras crianças. O volume restringido pode comprometer a ingestão calórica: a nutrição é planejada desde o início, juntamente com a segurança da via alimentar. Perfusão, diurese, sódio, creatinina, peso e congestão orientarão a liberação ou a revisão da oferta; não se espera 24 a 48 horas por rotina para reconsiderá-la.
Prescrição- Furosemida 10 mg/mL: 0,45 mL (4,5 mg = 1 mg/kg) EV agora
- Oferta hídrica inicial proposta para Eloá: até 270 mL/24 h, contando leite, medicamentos e diluentes; revisar nas próximas horas conforme perfusão, diurese, congestão, sódio e função renal.
- Definir com pediatria e nutrição a via e o fracionamento do leite materno dentro da oferta escolhida. Mamadas curtas apenas se esforço respiratório e coordenação permitirem alimentação segura; dificuldade importante exige reavaliar suporte e via, sem insistir no peito.
- Reavaliar diurese, frequência respiratória, fígado e estertores em 2 horas
- Ecocardiograma para a manhã, com a pergunta escrita no pedido
Quarta, 6h — a madrugada respondeu ao diurético?
Quatro fraldas pesadas, bem mais molhadas que as da véspera. O peso caiu para 4.420 g, a frequência respiratória está em 58, o fígado recuou para 3 cm e os estertores diminuíram. Os exames da noite trazem sódio de 134 mEq/L, potássio de 3,9 mEq/L, creatinina normal para a idade e hemoglobina de 11,2 g/dL. A resposta é a esperada: mantém-se a furosemida de 12 em 12 horas, num total de 2 mg/kg/dia, bem abaixo do teto de 6 a 8 mg/kg/dia que o texto do guia admite na fase aguda — o teto da tabela do mesmo guia é outro, e a nota do bloco de critério explica por que não se usa. Se a diurese não tivesse vindo, o passo seria subir a dose até 2 mg/kg antes de pensar em associar tiazídico. A hemoglobina entra no registro como valor de partida: anemia que aparecer no seguimento piora a insuficiência cardíaca e tem de ser procurada, como o guia da SBP recomenda.
Prescrição- Furosemida 10 mg/mL: 0,45 mL (4,5 mg) EV de 12 em 12 horas
- Sódio, potássio e creatinina na manhã seguinte
- Hemograma periódico no seguimento, para procurar anemia
- Manter oferta hídrica restrita até o ecocardiograma e a reavaliação da tarde
Quarta, 11h — o ecocardiograma dá nome, tamanho e prazo
O laudo responde à pergunta do pedido: comunicação interventricular perimembranosa de 7 mm, com anel aórtico de 7 mm — não restritiva —, átrio e ventrículo esquerdos dilatados, pressão sistólica do ventrículo direito estimada próxima da sistêmica, função ventricular normal, sem prolapso de cúspide nem insuficiência aórtica, canal arterial fechado e um forame oval pequeno, sem significado. Pela classificação do consenso indiano, é uma comunicação grande. O prazo vem da mesma régua: se a insuficiência cardíaca e o baixo ganho cederem ao tratamento, a correção deve acontecer até os 6 meses; se não cederem, o quanto antes. Eloá tem 3 meses, e a pressão pulmonar já é sistêmica. O prazo real é de semanas, e a regulação precisa ler isso no pedido, não descobrir.
Prescrição- Solicitação de avaliação por cardiologia pediátrica e cirurgia cardíaca, com o laudo do ecocardiograma anexado
- No campo de justificativa: lactente de 3 meses e 4,5 kg, CIV perimembranosa não restritiva, pressão de VD próxima da sistêmica, insuficiência cardíaca Ross III com baixo ganho, correção indicada até os 6 meses
- Anotar no prontuário data, hora e protocolo da solicitação
- Discutir por telefone com o cardiologista pediátrico de referência a necessidade de inibidor da enzima conversora antes da cirurgia
Quinta — da veia para a boca: a receita que a farmácia consegue cumprir
Com 36 horas de estabilidade, o diurético passa para a boca. A furosemida oral fica em 1 mg/kg por dose de 12 em 12 horas — 4,5 mg por dose, 9 mg por dia, 2 mg/kg/dia, dentro da faixa de 1 a 4 mg/kg/dia do texto do guia. Aqui a Rename muda a conduta: a furosemida do SUS por via oral só existe em comprimido de 40 mg, e 4,5 mg são um nono dele — ninguém parte comprimido em nove. O mesmo vale para a espironolactona, que a Rename traz em comprimidos de 25 e 100 mg, e para o captopril, em comprimido de 25 mg. A farmácia do hospital prepara as formas orais e informa a concentração; a receita traz os miligramas e os mililitros daquela preparação, e a família sai com a seringa dosadora marcada. A espironolactona entra em 1 mg/kg/dia, 4,5 mg uma vez ao dia. O inibidor da enzima conversora fica para o cardiologista: o guia da SBP o recomenda na disfunção sistólica do ventrículo esquerdo, que Eloá não tem, e o consenso indiano o inclui entre os remédios que controlam a insuficiência da comunicação grande; se entrar, entra em dose baixa, com potássio e creatinina conhecidos — captopril 0,5 mg/kg/dia seriam 0,75 mg por dose de 8 em 8 horas. A digoxina não entra; se o especialista a indicar, a prescrição se escreve em microgramas.
Prescrição- Furosemida 1 mg/kg/dose = 4,5 mg VO de 12 em 12 horas, em preparação oral da farmácia, com mg e mL da concentração entregue
- Espironolactona 1 mg/kg/dia = 4,5 mg VO uma vez ao dia, em preparação oral da farmácia
- Suspender a furosemida EV a partir da primeira dose oral
- Sódio, potássio e creatinina 48 a 72 horas depois da troca
- Inibidor da enzima conversora e digoxina somente por decisão do cardiologista pediátrico; digoxina, se indicada, em microgramas por quilo
Quinta, 15h — as calorias que a mamada não entrega
Daiane pergunta novamente se o leite é fraco. Não é: Eloá se cansa para mamar e suas necessidades estão aumentadas. A meta de referência de 120 kcal/kg/dia corresponde a 540 kcal para 4,5 kg, mas deve ser ajustada pela equipe conforme fase clínica, crescimento e tolerância. Na fórmula padrão de 67 kcal/dL, seriam cerca de 806 mL/dia, volume que evidencia o conflito entre calorias e congestão. O plano nutricional precisa resolver esse conflito sem diluir ou concentrar a fórmula por conta própria. Preservar leite materno, fracionar a oferta e, quando indicada, usar fortificação ou preparação com maior densidade energética exige prescrição específica do produto, preparo, calorias, proteínas, volume e via. Não se transfere uma receita de uma medida em 25 mL ou de óleo vegetal de um manual do prematuro para qualquer fórmula e lactente cardiopata: os produtos e as necessidades diferem. A nutricionista e o pediatra verificam aporte, carga de solutos, tolerância e ganho de peso. Se o esforço impedir ingestão segura ou suficiente, discutem suporte enteral e a necessidade de antecipar a correção da lesão.
Prescrição- Meta calórica de 540 kcal/dia (120 kcal/kg/dia), recalculada a cada novo peso
- Leite materno em mamadas curtas e frequentes; complemento por sonda do volume que ela não completa sugando
- Se necessário, complemento ou fortificação com prescrição conjunta de pediatria e nutrição: produto identificado, modo de preparo específico, densidade energética, volume diário e via; orientar a família e conferir o preparo.
- Registro diário de volume ingerido, tempo de mamada e peso
Sexta — antes da alta: o vírus, as vacinas e a boca
É maio, dentro da sazonalidade do vírus sincicial respiratório. Eloá tem cardiopatia congênita com repercussão hemodinâmica pelo critério do Quadro 5 da estratégia do Ministério da Saúde — usa remédio para insuficiência cardíaca e tem indicação cirúrgica — e pesa menos de 5 kg: recebe 50 mg de nirsevimabe antes da alta. A caderneta mostra as vacinas dos 2 meses em dia. Para os 4 meses, o Manual dos CRIE prevê o componente pertussis acelular para a criança com cardiopatia em risco de descompensação precipitada por febre, e a pneumocócica 20-valente entra pela cardiopatia crônica, na rede de imunobiológicos especiais, pela nota técnica de 2026. A influenza fica marcada para os 6 meses, em duas doses de volume conforme produto e calendário vigente com 30 dias de intervalo, porque será a primeira vez. Antibiótico antes de dentista ela não vai precisar enquanto a comunicação estiver aberta; o que se orienta é limpar a gengiva e, com os dentes, escovar. A família sai com os sinais de retorno escritos e com a consulta de peso na unidade básica marcada.
Prescrição- Nirsevimabe 50 mg IM (menos de 5 kg, primeira sazonalidade), com a indicação escrita: CIV grande em uso de diurético e com indicação cirúrgica
- Encaminhamento à rede de imunobiológicos especiais: pentavalente com pertussis acelular aos 4 meses e pneumocócica 20-valente pela cardiopatia crônica
- Influenza a partir dos 6 meses: conferir esquema de primovacinação e intervalo no calendário vigente; volume da dose conforme produto utilizado e orientação do programa, sem assumir 0,25 mL para toda criança pequena.
- Sem antibiótico profilático para endocardite; higiene da gengiva e, depois, dos dentes
- Peso na unidade básica em 7 dias; retorno imediato se piorar o cansaço, cair a diurese, surgir cianose ou recusar mamadas
Seis semanas depois — a consulta em que ela parece melhor
Eloá tem 4 meses e meio e 5,1 kg, e a mãe está contente: a filha respira mais devagar e mama mais rápido. A cirurgia ainda não tem data. Você conta 44 incursões por minuto e acha o fígado a 1 cm — e ausculta um sopro mais baixo que o da internação, com a segunda bulha mais alta. A saturação, que era de 95%, está em 93%. Esse conjunto não é cura: é o desvio diminuindo porque a resistência pulmonar está subindo, a janela de correção começando a fechar. O consenso indiano fixa a correção da comunicação grande controlada até os 6 meses e manda para um centro de referência a criança com suspeita de doença vascular pulmonar e operabilidade duvidosa; Eloá está a seis semanas desse limite. Você recalcula as doses para o peso novo, pede ecocardiograma com a pergunta certa e reabre a solicitação com a palavra que faltava.
Prescrição- Ecocardiograma em até 7 dias: o desvio diminuiu por aumento da resistência pulmonar? Pressão do VD, sentido do fluxo pela CIV, função do VD
- Nova solicitação à regulação: CIV grande com sinais de resistência pulmonar em ascensão, 4 meses e meio, correção indicada até os 6 meses
- Furosemida 5 mg VO de 12 em 12 horas e espironolactona 5 mg VO uma vez ao dia (1 mg/kg para 5,1 kg), com mL da preparação
- Registrar saturação, segunda bulha, intensidade do sopro e fígado em todas as consultas até a cirurgia
Como saber se está funcionando
Reavaliar o lactente com shunt grande é medir cinco coisas que mudam em escalas de tempo diferentes: a congestão, que responde ao diurético em horas; os eletrólitos, que o diurético mexe em dias; o peso, que só conta a verdade em semanas; a perfusão, que não pode piorar nunca; e a janela da correção, que se fecha em meses sem fazer barulho.
O parâmetro mais traiçoeiro é o último. A criança que respira melhor sem ter sido operada pode estar melhorando porque o diurético e a dieta funcionaram — ou porque o pulmão começou a resistir ao fluxo. As duas melhoras parecem iguais na queixa da mãe e se separam no estetoscópio e no oxímetro.
Esperado: Queda progressiva nas primeiras 24 a 48 horas de diurético, com tiragem desaparecendo e mamadas mais longas sem pausa
Se não melhora: Rever a dose de furosemida dentro da faixa de até 2 mg/kg/dose, repetir a radiografia e procurar infecção; se aparecerem sinais de baixo débito, terapia intensiva pediátrica
Esperado: Diurese maior nas horas seguintes à furosemida; queda discreta de peso nos primeiros dias, pela água, e depois ganho acompanhando a curva da caderneta
Se não melhora: Oligúria com creatinina em elevação pode refletir hipovolemia por tratamento, baixo débito, congestão renal ou outra lesão renal: reexaminar pressão, perfusão, balanço e congestão antes de aumentar ou reduzir o diurético. Peso sem ganho após descongestão exige revisar aporte, tolerância e repercussão cardíaca com nutrição e cardiologia.
Esperado: Recuo acompanhando a diurese
Se não melhora: Fígado que não recua é congestão que persiste: dose, restrição hídrica e adesão à preparação oral precisam ser revistas
Esperado: Valores estáveis dentro da faixa normal para a idade
Se não melhora: Interpretar sódio, potássio e creatinina com o balanço e o exame. Hipocalemia exige avaliar magnitude, sintomas e ECG, corrigir quando indicado e rever perdas e doses; não acrescentar espironolactona automaticamente. Hipercalemia, arritmia, queda de perfusão ou piora renal relevante exigem avaliação imediata e revisão das medicações.
Esperado: Mamadas mais curtas e completas, suor menor, passagem da classe III para a II
Se não melhora: Criança que segue na classe III com diurético em dose adequada tem insuficiência que não cede ao tratamento: pelo consenso indiano, correção o quanto antes, e o pedido de regulação precisa dizer isso
Esperado: Sopro e segunda bulha iguais aos da internação e saturação estável acima de 95%
Se não melhora: Sopro mais baixo, segunda bulha mais alta e saturação caindo, com a criança respirando melhor, é resistência pulmonar subindo: ecocardiograma em até uma semana e nova solicitação com essa frase
Esperado: Resfriado sem aumento da frequência respiratória nem do fígado
Se não melhora: Reavaliar como descompensação: manter o diurético, não expandir volume, radiografia para separar consolidação de congestão, e internar mais cedo do que se internaria uma criança sem cardiopatia
Onde o erro machuca
O dano: Nebulização e lavagem nasal enquanto a congestão progride. A criança chega ao ecocardiograma no terceiro diagnóstico de bronquiolite, com pressão pulmonar sistêmica e semanas a menos de janela para a correção.
Como pegar a tempo: Em todo lactente que chia, pergunte pela mamada de antes do resfriado, palpe o fígado, ausculte a segunda bulha e marque o peso na curva. Hepatomegalia verdadeira, sopro ou ganho ruim desde antes do vírus pedem radiografia e ecocardiograma.
O dano: Comunicação interventricular grande, canal grande e defeito do septo atrioventricular têm saturação normal; o teste, que procura hipoxemia, passa, e a vigilância afrouxa justamente na criança que vai descompensar depois da segunda semana.
Como pegar a tempo: O teste faz a triagem da cardiopatia crítica que dessatura. Sopro, taquipneia, mamada difícil e síndrome de Down continuam pedindo avaliação cardiológica e ecocardiograma, com teste normal ou sem ele.
O dano: A tabela de medicações crônicas escreve digoxina em mg/kg: num lactente de 4,5 kg, seriam 22,5 mg por dia, mil vezes a dose, 450 mL do elixir. A mesma tabela permite furosemida no dobro do teto do texto e espironolactona acima da dose do adulto na criança maior.
Como pegar a tempo: Digoxina sempre em microgramas, com a conta em mililitros ao lado; furosemida pelos tetos do texto; e toda dose por quilo conferida contra a dose do adulto antes de assinar.
O dano: O volume que ajuda o desidratado afunda o cardiopata: o edema pulmonar piora, a frequência respiratória sobe e a criança da enfermaria vai para a ventilação mecânica.
Como pegar a tempo: Diferenciar congestão de hipovolemia ou baixo débito. Evitar expansão automática no lactente congesto; decidir diurético e oferta hídrica com o supervisor e reavaliar perfusão, pressão, diurese, eletrólitos, função renal e nutrição. O exemplo de 60% é uma opção da fase aguda, não uma prescrição para toda criança com cardiopatia.
O dano: A melhora é o desvio diminuindo porque a resistência pulmonar subiu. Sem ninguém notar, a criança chega à cirurgia com doença vascular irreversível — ou não chega, porque a síndrome de Eisenmenger contraindica fechar o defeito.
Como pegar a tempo: Compare sopro, segunda bulha e saturação com a consulta anterior. Sopro mais baixo com segunda bulha mais alta e saturação caindo é alarme: ecocardiograma e nova solicitação na mesma semana.
O dano: A família sai com remédio e sem data; a solicitação para cirurgia vai sem justificativa de urgência; a sazonalidade do vírus passa sem anticorpo, e a próxima infecção interna a criança em pior estado.
Como pegar a tempo: Resumo de alta com o prazo de correção pelo tamanho do defeito, a solicitação protocolada, o nirsevimabe aplicado ou encaminhado com a indicação escrita entre fevereiro e agosto, e o retorno de peso marcado.
O que dizer ao paciente e à família
A família está na sala desde a primeira hora, e cada fala do tratamento passa por ela: é Daiane quem vai dar o diurético de 12 em 12 horas, contar as fraldas, ordenhar o leite e reparar, seis semanas depois, se a filha melhorou por bom motivo. Jefferson chega na manhã seguinte, depois do turno. Os dois precisam sair sabendo três coisas: o que a filha tem, por que os remédios não são o tratamento definitivo e qual é o prazo.
As falas abaixo não são roteiro para decorar. Mostram o nível de franqueza que o assunto pede — a palavra cirurgia dita no primeiro dia, a palavra prazo dita com número — e o que costuma escapar quando quem fala está com pressa ou com medo de assustar.
Explicar à mãe, na primeira hora, por que não é só bronquiolite
““Daiane, a respiração rápida da Eloá, o suor quando mama e o fígado aumentado apontam para o coração. Escutei um sopro que combina com uma comunicação entre as câmaras do coração, e isso faz o pulmão receber sangue demais. O resfriado piorou uma coisa que já estava ali. Agora vou pedir uma radiografia, dar um remédio que tira o excesso de água do pulmão e deixar o exame do coração pedido para amanhã cedo.””
Não diga: “Na UPA erraram o diagnóstico.” Culpar quem atendeu antes não ajuda a mãe e desmonta a confiança dela no posto que vai acompanhar a filha até a cirurgia.
A mãe pergunta se o leite dela é fraco
““O seu leite não é fraco. A Eloá gasta muita energia para respirar e cansa antes de mamar o que precisa. O peito continua sendo o alimento dela: vamos fazer mamadas mais curtas e completar pela sonda o que ela não conseguir sugar. Se precisar de reforço, a nutricionista calcula. Tirar o leite para ela também é tratamento.””
Não diga: “Vamos ter que trocar o peito pela fórmula.” A troca não resolve o cansaço, tira da mãe o papel que ela quer ter e dá a entender que o problema era o leite.
Contar o resultado do ecocardiograma e a necessidade de cirurgia
““O exame confirmou uma comunicação grande entre os dois ventrículos, do tamanho da saída da aorta. Uma comunicação desse tamanho não costuma fechar sozinha. O tratamento definitivo é uma cirurgia que fecha a abertura com um remendo, e ela precisa acontecer antes dos 6 meses, porque o pulmão não aguenta muito tempo esse excesso de sangue. Os remédios servem para ela chegar bem até lá.””
Não diga: “Muitas fecham sozinhas, vamos acompanhar.” É verdade para a comunicação pequena e é a frase que faz a família perder a janela da grande.
O pai pergunta se não é melhor esperar a filha crescer para operar
““Jefferson, é uma pergunta justa. Esperar parece mais seguro, mas aqui o tempo joga contra: com sangue demais e pressão alta, os vasos do pulmão engrossam, e a partir de um ponto essa mudança não volta e a cirurgia deixa de ser possível. Por isso a data importa mais do que o peso. As equipes de cirurgia cardíaca infantil operam bebês do tamanho dela.””
Não diga: “Se esperar, ela morre.” A ameaça paralisa em vez de explicar, e a família que só ouviu o medo não entende por que deve cobrar a data.
Ensinar os remédios da alta
““Este frasco é o remédio que tira o excesso de água. A dose é esta marca na seringa, de 12 em 12 horas: às 8 da manhã e às 8 da noite. Este outro é uma vez por dia, de manhã. Os dois são preparados pela farmácia porque não existe comprimido pequeno o bastante para ela. Se ela vomitar logo depois de tomar, não repita por conta própria: anote a hora e fale com a unidade.””
Não diga: “Dê meia colherinha duas vezes ao dia.” Colher não mede dose de lactente, e a família vai repetir a medida errada por semanas.
Explicar o nirsevimabe e as vacinas antes da alta
““Antes de ir embora, ela vai tomar uma injeção de anticorpo que protege contra o vírus que mais interna bebês com problema no coração nesta época do ano. Não é vacina e não substitui as vacinas: a dos 4 meses vai ser feita no centro de referência, numa versão que dá menos febre, e a da gripe começa aos 6 meses, em duas doses.””
Não diga: “Essa é a vacina da bronquiolite, então ela está protegida.” A família relaxa com resfriado em casa e deixa de voltar cedo quando a filha piora.
A mãe se culpa por não ter percebido antes
““Daiane, você percebeu. Você reparou que ela demorava para mamar, que suava e que não engordava, e trouxe. Esses sinais se confundem com resfriado até para quem trabalha com criança todos os dias. O que importa agora é que o diagnóstico foi feito a tempo de operar.””
Não diga: “Se tivesse trazido antes, não teria chegado a esse ponto.” Não é verdade para quem trouxe três vezes, e a culpa não ajuda ninguém a dar remédio às 8 da noite.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Toda cardiopatia congênita não reparada, parcialmente corrigida ou corrigida com material protético — SBC, Atualização das Diretrizes Brasileiras de Valvopatias, 2020
A nota do quadro de indicações chama de risco elevado para endocardite grave a cardiopatia congênita não reparada, corrigida parcialmente ou corrigida com material protético, sem restringir à forma cianogênica e sem prazo. Lida ao pé da letra, a criança com comunicação interventricular pequena recebe amoxicilina antes de toda extração dentária, e a que fechou a comunicação interatrial com dispositivo, para sempre.
Tarasoutchi F, et al. Atualização das Diretrizes Brasileiras de Valvopatias – 2020. Arq Bras Cardiol. 2020;115(4):720-775, Quadros 77 e 78.
Só a cardiopatia cianogênica — SBC, Diretriz de Avaliação Cardiovascular Perioperatória, 2024
A Tabela 14 lista, na cardiopatia congênita, só a cianogênica: não corrigida, corrigida com material protético nos primeiros seis meses e corrigida com lesão residual; o defeito septal corrigido está entre os que não recebem. Pela letra, nenhuma criança com defeito acianótico recebe profilaxia, nem nos meses que se seguem ao dispositivo.
Gualandro DM, et al. Diretriz de Avaliação Cardiovascular Perioperatória da Sociedade Brasileira de Cardiologia – 2024. Arq Bras Cardiol. 2024;121(9):e20240590, seção 4.4, Tabela 14.
Seis meses depois do fechamento cirúrgico ou por dispositivo — consenso indiano de cardiopatias congênitas, 2019
Nas seções de comunicação interatrial, comunicação interventricular e canal arterial, recomenda profilaxia de endocardite por seis meses depois do fechamento, cirúrgico ou por dispositivo, e boa higiene oral para todos, antes e depois desse período.
Saxena A, et al. Indian guidelines for indications and timing of intervention for common congenital heart diseases. Ann Pediatr Cardiol. 2019;12(3):254-286.
Decide o primeiro degrau, o escopo. Das três réguas, só o consenso indiano foi escrito para a criança com cardiopatia congênita; as duas brasileiras são listas gerais de profilaxia, uma dentro de uma diretriz de valvopatias e outra dentro de uma de avaliação perioperatória. Esta apostila adota a régua pediátrica nos dois momentos em que ela fala. Antes do fechamento, a criança com comunicação interventricular pequena, comunicação interatrial ou canal arterial não recebe antibiótico antes do dentista: o consenso prevê só higiene oral, a diretriz brasileira mais nova concorda, e a de 2020, que diria o contrário, perde também pela data. Nos seis meses depois do fechamento com remendo ou dispositivo, recebe: amoxicilina 50 mg/kg, até 2 g, em dose única uma hora antes — para Ágatha, de 18 kg, 900 mg, 18 mL da suspensão de 50 mg/mL. Nesse ponto, a Tabela 14 de 2024 fica vencida pelo escopo, com um reforço que é leitura desta apostila: a janela de seis meses existe por causa do material implantado, e restringi-la à forma cianogênica deixa de fora justamente os defeitos que mais recebem dispositivo. Depois dos seis meses, com o defeito fechado e sem lesão residual, ninguém recebe. A lesão residual junto ao remendo, fora dessa janela, o consenso não nomeia; entre as brasileiras, a data decide pela de 2024, e a criança é discutida com o cardiologista que a acompanha. Alergia à penicilina e procedimentos fora da boca seguem Endocardite infecciosa: critérios de Duke e profilaxia, na apostila de Cardiologia.
Tratar todo pré-termo com menos de 32 semanas e canal com repercussão até o 3º dia, mesmo sem sinais; indometacina profilática abaixo de 28 semanas — Ministério da Saúde, 2014
O capítulo do canal arterial manda tratar todo recém-nascido com menos de 32 semanas cujo ecocardiograma, até o terceiro dia, mostre canal acima de 2 mm ou de 1,5 mm/kg com fluxo esquerda-direita, mesmo sem sinais clínicos; indica tratamento nas primeiras 24 horas, com indometacina, no menor de 28 semanas com canal de grande calibre; e sugere a indometacina endovenosa como primeira opção pelo custo do ibuprofeno endovenoso. O mesmo capítulo registra que, depois de 35 anos de estudos, ainda há dúvida sobre o papel do canal nas complicações que o tratamento quer evitar.
Brasil. Ministério da Saúde. Atenção à saúde do recém-nascido: guia para os profissionais de saúde, 2ª ed. atual., 2014, volume 4, capítulo 38.
Intervir quando há insuficiência cardíaca; profilaxia não recomendada — consenso indiano, 2019
Na seção do prematuro, recomenda intervir se a criança está em insuficiência cardíaca, lembrando que os canais pequenos podem fechar sozinhos; aprova indometacina, ibuprofeno ou paracetamol, por via endovenosa ou oral, com pelo menos dois ciclos antes da cirurgia; e classifica como não recomendada, classe III, a indometacina ou o ibuprofeno profiláticos.
Saxena A, et al. Indian guidelines for indications and timing of intervention for common congenital heart diseases. Ann Pediatr Cardiol. 2019;12(3):254-286, seção do canal arterial no prematuro.
Primeiro a pergunta de cronologia: as duas réguas concordam no prematuro com canal grande e sinais clínicos — tratar com inibidor da ciclo-oxigenase, até dois ciclos, cirurgia se falhar. A divergência real está no prematuro sem sinais, com canal grande no ecocardiograma dos primeiros dias, e na profilaxia. Ali decide o segundo degrau. O escopo empata, porque as duas foram escritas para o prematuro com canal aberto — o manual, num volume inteiro sobre o pré-termo; o consenso, numa seção própria —, e a data favorece o consenso de 2019 sobre o manual de 2014, que já registrava a dúvida sobre o benefício. Esta apostila adota tratar o canal que dá sinal clínico — insuficiência cardíaca, na palavra do consenso — e não fazer profilaxia. Na UTI neonatal, a decisão é da equipe, com o ecocardiograma; o que o interno leva para a beira do leito é a conferência antes de cada dose: as contraindicações do manual de 2014 — sangramento nas últimas 24 horas, plaquetas abaixo de 50.000/mm³, creatinina acima de 1,8 mg/dL, bilirrubina acima de 12 mg/dL, enterocolite necrosante, cardiopatia canal-dependente — e o fato de que a Rename 2024 só tem o ibuprofeno em suspensão oral, que o manual admite por via enteral quando o trânsito intestinal permite.
Cardiopatia congênita, sem qualificação — Nota Técnica nº 109/2025 e Quadro 4 da Estratégia de 2026, Ministério da Saúde
A nota técnica indica o nirsevimabe para crianças de até 24 meses com cardiopatia congênita, entre outras comorbidades, e o Quadro 4 da estratégia, com as notas do fluxograma de elegibilidade, repete “cardiopatia congênita” sem exigir repercussão. Pela letra, a comunicação interventricular pequena, sem remédio nenhum, recebe o anticorpo na sazonalidade.
Brasil. Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 109/2025-CGICI/DPNI/SVSA/MS, item 3.1; Estratégia de imunização contra o vírus sincicial respiratório para crianças prematuras e com comorbidades, 1ª ed. rev., 2026, Quadro 4 e fluxograma.
Cardiopatia congênita com repercussão hemodinâmica — Quadro 5 da Estratégia de 2026, Ministério da Saúde
O quadro de critérios de inclusão e exclusão define a cardiopatia que dá direito ao nirsevimabe: a que usa remédio para insuficiência cardíaca e tem indicação cirúrgica, a hipertensão pulmonar moderada a grave e a que exige remédio contínuo específico. Exclui a doença sem repercussão — comunicação interatrial ostium secundum, comunicação interventricular pequena, estenoses leves, canal leve —, a lesão corrigida sem remédio e a cardiopatia leve sem tratamento; na segunda sazonalidade, só se continuam a repercussão e o remédio.
Brasil. Ministério da Saúde. Estratégia de imunização contra o vírus sincicial respiratório para crianças prematuras e com comorbidades: anticorpo monoclonal, 1ª ed. rev., 2026, Quadro 5.
Decide o primeiro degrau, o escopo. Os textos são do mesmo departamento do Ministério da Saúde, mas só o Quadro 5 foi escrito para decidir a indicação de uma criança — o próprio guia o apresenta como a síntese dos critérios para a tomada de decisão —; o Quadro 4 define o grupo em linhas gerais, e a nota técnica trata das maternidades e do registro. A data confirma: o guia de 2026 é posterior à nota de 2025. Esta apostila adota o Quadro 5 e a idade do guia, abaixo de 24 meses. Eloá, com comunicação grande, diurético e indicação cirúrgica, recebe; a criança com comunicação interventricular pequena e sem remédio não recebe pela cardiopatia. Duas situações mudam a resposta à beira do leito: a criança com síndrome de Down entra pela síndrome, com ou sem cardiopatia, e a nascida prematura com menos de 6 meses entra pela prematuridade, durante todo o ano. Na dúvida sobre a repercussão, a pergunta que resolve é se a criança usa remédio para o coração ou tem cirurgia indicada.
O raciocínio, em voz alta
Ágatha Campello, 5 anos, 18 kg e 108 cm, é trazida pela mãe, Kátia, à unidade básica para o atestado de saúde da matrícula escolar. Nunca internou, corre com os primos sem parar, vacinas em dia. Peso e estatura seguem o mesmo canal da caderneta desde bebê. Na ausculta há um sopro sistólico suave, de ejeção, no foco pulmonar, e a segunda bulha tem um desdobramento que não varia com a respiração. Pulsos normais nos quatro membros, fígado não palpável, pressão arterial normal para a idade. A mãe lembra que, aos 2 anos, um médico falou de sopro e disse que era inocente.
o achado que decide
O sopro é o menos importante. Sopro de ejeção suave no foco pulmonar cabe na régua de inocência; o desdobramento amplo e fixo da segunda bulha, não. Pela regra ensinada em Sopro cardíaco inocente versus patológico na criança, desdobramento fixo manda encaminhar por suspeita de comunicação interatrial, mesmo com criança assintomática e sopro discreto — e o rótulo de inocente dado aos 2 anos não vale para o exame de hoje. Eu registro o achado por extenso e digo à mãe que vou pedir exames porque encontrei um sinal que precisa ser esclarecido.
o que pedir e com que pergunta
Peço eletrocardiograma, radiografia de tórax e ecocardiograma. Espero no eletrocardiograma bloqueio incompleto do ramo direito e sobrecarga atrial direita, e na radiografia átrio e ventrículo direitos aumentados, tronco pulmonar proeminente e trama aumentada, porque a sobrecarga da comunicação interatrial é do lado direito. No pedido do ecocardiograma escrevo a pergunta: tipo de comunicação interatrial, diâmetro, bordas e dilatação das câmaras direitas. Volta assim: comunicação interatrial tipo ostium secundum de 14 mm, bordas de 6 mm ou mais, átrio e ventrículo direitos dilatados, pressão sistólica do ventrículo direito estimada normal.
o tamanho e a idade
A comunicação é grande e sobrecarrega o ventrículo direito. Não vai fechar sozinha: pelo consenso indiano, a que tem mais de 8 mm raramente fecha, e depois dos 2 a 3 anos quase nenhuma fecha. O mesmo consenso indica fechar toda comunicação interatrial com sobrecarga do ventrículo direito e sem doença vascular pulmonar irreversível, com idade ideal entre 2 e 4 anos na criança assintomática. Ágatha tem 5 anos: passou da idade ideal, e a recomendação para quem chega depois é fechar eletivamente enquanto houver desvio com sobrecarga e resistência pulmonar operável, o que a pressão normal do ventrículo direito sugere.
dispositivo ou cirurgia
Ostium secundum é o único tipo que admite dispositivo por cateterismo. O consenso desaconselha o dispositivo quando as bordas têm menos de 5 mm, quando a criança pesa menos de 15 kg ou quando a comunicação passa de 20 mm por metro quadrado de superfície corporal. Faço a conta: pela fórmula de Mosteller, a raiz de 108 vezes 18 dividido por 3.600 dá 0,73 m²; 14 mm divididos por 0,73 m² são 19 mm/m², logo abaixo do limite. Bordas de 6 mm e 18 kg também cabem. Ágatha é candidata a dispositivo; quem decide, com o ecocardiograma transesofágico, é a equipe de hemodinâmica.
o que muda na vida dela até lá
Nada que a mãe precise vigiar em casa. Não há restrição de atividade física nem de escola. Não recebe antibiótico antes do dentista enquanto a comunicação estiver aberta, pela régua que esta apostila adota na primeira divergência; a escovação e a revisão odontológica, sim. As vacinas seguem o calendário — aos 5 anos, a influenza ainda é de rotina. O encaminhamento para a cardiologia pediátrica é eletivo, mas sai com data e com o laudo anexado, e não com um retorno vago.
o que a família precisa ouvir
Explico a Kátia que a filha tem uma abertura entre as duas câmaras de cima do coração, que ela não causa sintoma agora e que, deixada aberta, cobra na vida adulta, com arritmia e aumento da pressão no pulmão — o consenso indiano registra doença vascular pulmonar em 14% das comunicações grandes, em geral entre os 20 e os 40 anos. Digo também a parte boa, que é da mesma fonte: fechada na infância, a expectativa de vida é normal. E que o médico de 3 anos atrás não errou por maldade — esse é o achado que mais engana.
depois do dispositivo: o AAS e a conta que não fecha
Quatro meses depois, Ágatha volta com o dispositivo implantado e a receita da hemodinâmica. O consenso indiano prevê ácido acetilsalicílico de 3 a 5 mg/kg/dia por 6 meses depois de dispositivo de até 30 mm: para 18 kg, 54 a 90 mg/dia. A Rename tem comprimido de 100 mg. Meio comprimido, 50 mg, dá 2,8 mg/kg — abaixo da faixa; um inteiro, 100 mg, dá 5,6 mg/kg — acima. A escolha é de quem prescreveu, e eu confiro que a receita diga qual. Com AAS contínuo, o Manual dos CRIE indica a vacina influenza, e a interação com a vacina de varicela está em Doença de Kawasaki: critérios diagnósticos e tratamento, na apostila de Infectologia Pediátrica.
a janela de seis meses e o seguimento
Nos seis meses depois do implante, a mãe marca uma extração de dente de leite com cárie. Pela régua adotada, Ágatha recebe amoxicilina 50 mg/kg em dose única uma hora antes: 900 mg, abaixo do teto de 2 g, que são 18 mL da suspensão de 50 mg/mL. Passados os seis meses, com o dispositivo sem vazamento, a profilaxia acaba e fica só a higiene oral. O ecocardiograma de controle segue o consenso: na alta, com 1 mês, 6 meses e 1 ano, e depois a cada 3 a 5 anos.
Faça você
Caio Gamboa, 2 meses e meio, 4,2 kg, nasceu a termo com 3.050 g e diagnóstico clínico de síndrome de Down; o cariótipo foi colhido. Teve alta da maternidade com 48 horas e o teste do coraçãozinho normal, com a orientação de fazer ecocardiograma “depois”, que ainda não foi marcado. Em março, a mãe, Esther, o traz ao pronto-socorro porque ele respira rápido desde a semana passada e sua muito ao mamar. Frequência respiratória de 64 em um minuto, cardíaca de 170, saturação de 96%, fígado a 3 cm do rebordo costal, segunda bulha alta e um sopro sistólico discreto. A radiografia mostra coração aumentado e trama vascular aumentada.
o exame que faltou e a urgência dele
Decida qual exame precisava ter sido feito ao nascimento, o que ele provavelmente vai mostrar e com que urgência deve ser feito agora.
o prazo que a síndrome encurta
Se o ecocardiograma confirmar defeito total do septo atrioventricular com insuficiência cardíaca, decida o prazo de correção e por que a síndrome de Down muda esse prazo.
as doses de hoje
Calcule a furosemida endovenosa inicial em miligramas e mililitros e decida se Caio recebe nirsevimabe, por qual critério e em que dose.
o que Esther precisa ouvir
Decida o que dizer hoje sobre o coração, a cirurgia e as vacinas, e o que deixar para a puericultura.
Ver como fecharíamos
O exame que faltou é o ecocardiograma. As diretrizes do Ministério da Saúde para a pessoa com síndrome de Down mandam pedi-lo ao nascimento para toda criança com a síndrome, porque metade tem cardiopatia mesmo sem sopro, e o teste do coraçãozinho normal não o substitui. Com taquipneia, sudorese às mamadas, hepatomegalia, segunda bulha alta e radiografia de hiperfluxo, Caio está em insuficiência cardíaca por shunt esquerda-direita, e o defeito mais provável é o total do septo atrioventricular: o ecocardiograma é para hoje, ou para o primeiro horário, com internação. Confirmado o defeito, o consenso indiano fixa a correção completa até os 3 meses se a insuficiência estiver controlada, e o quanto antes se não estiver. Caio tem 2 meses e meio: o encaminhamento à cirurgia cardíaca é desta semana. A síndrome encurta o prazo porque a doença vascular pulmonar começa mais cedo e pode ficar irreversível a partir dos 6 meses. A furosemida inicial é de 1 mg/kg: 4,2 mg, que na ampola de 10 mg/mL são 0,42 mL. Março está dentro da sazonalidade, e Caio recebe nirsevimabe por dois critérios da estratégia de 2026 — a síndrome de Down, que dá direito por si, e a cardiopatia com repercussão, assim que estiver em uso de remédio e com indicação cirúrgica —; com 4,2 kg, a dose é de 50 mg. A frase das diretrizes de 2013 que restringia o anticorpo aos cardiopatas nascidos com até 2.500 g está superada. Aos 4 meses, o componente pertussis acelular vem pela rede de referência, a pneumocócica 20-valente entra pela cardiopatia crônica e pela trissomia, e a influenza começa aos 6 meses. Para Esther, a conversa de hoje tem a palavra cirurgia e a palavra semanas; tireoide, desenvolvimento e os demais agravos da síndrome ficam com a puericultura, em Marcos do desenvolvimento neuropsicomotor e sinais de alerta por faixa etária.
A conta se faz em microgramas: 5 mcg × 4,5 kg = 22,5 mcg por dia, divididos em duas tomadas de 11,25 mcg. O elixir tem 0,05 mg/mL, que são 50 mcg/mL, e 11,25 ÷ 50 = 0,225 mL por dose, medidos em seringa de 1 mL. Dar 0,45 mL a cada tomada dobra a dose do dia; 225 mL é o volume que resultaria de ler a dose em miligramas por quilo, como faz por erro a tabela de medicações crônicas do guia da SBP de 2024 — mil vezes a dose.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Reconstrua o caso de um lactente com taquipneia, sudorese às mamadas, hepatomegalia e baixo ganho. Explique o fluxo do defeito suspeito, diferencie congestão de baixo débito e escreva medidas iniciais com reavaliação. Calcule uma dose de furosemida e o volume total proposto, mas justifique por quais dados você os modificaria. Consulte fontes e discuta com o preceptor a função renal, o aporte nutricional e a prioridade do ecocardiograma. Use a tabela de imunização para checar elegibilidade e sazonalidade, em vez de memorizar uma dose fora do contexto.
Em 30 dias
Acompanhe, sob supervisão, a trajetória de uma criança com cardiopatia: sintomas, mamadas, curva, exame, ecocardiograma, medicações, nutrição e plano de intervenção. Compare o que foi planejado com o que ocorreu e identifique barreiras concretas para a família. Se a respiração melhorar sem correção, explique como distinguir descongestão de aumento da resistência pulmonar e o que precisa ser reavaliado. Apresente ao preceptor uma passagem de caso com o próximo passo, responsável e data definida.
Agora atenda
Agora atenda: Dante Raposo, 10 meses, trazido pela avó à unidade básica porque vive resfriado e não ganha peso, com um sopro contínuo abaixo da clavícula esquerda e pulsos amplos. Decida o que o sopro e os pulsos dizem, quais exames pedir e com que pergunta, qual o prazo de fechamento do canal pelo tamanho, se ele recebe nirsevimabe e antibiótico antes do dentista, e o que explicar à avó sobre a fila da cirurgia.
