PediatriaCardiologia Pediátrica

O roxo que o oxigênio não corrige

Cardiopatias congênitas cianóticas: tetralogia de Fallot e transposição das grandes artérias

Transposição das grandes artérias, tetralogia de Fallot e a cardiopatia que depende do canal: separar a cianose do coração da do pulmão, iniciar a prostaglandina sem esperar o ecocardiograma e tirar a criança da crise hipoxêmica até o cirurgião

Fontes deste capítulo

Afiune JY, Rego MAS, Sadeck LSR et al. Sistematização do atendimento ao recém-nascido com suspeita ou diagnóstico de cardiopatia congênita. Manual de Orientação nº 4. Departamentos Científicos de Cardiologia e de Neonatologia da Sociedade Brasileira de Pediatria, 11 de agosto de 2022

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Atenção à saúde do recém-nascido: guia para os profissionais de saúde. 2. ed. atual. Brasília: Ministério da Saúde, 2014. Volume 3, capítulo 24: Cardiopatias congênitas

Bernoche C, Timerman S, Polastri TF, Giannetti NS, Siqueira AWS, Piscopo A et al. Atualização da Diretriz de Ressuscitação Cardiopulmonar e Cuidados Cardiovasculares de Emergência da Sociedade Brasileira de Cardiologia – 2019. Arq Bras Cardiol. 2019;113(3):449-663. doi:10.5935/abc.20190203

Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024

Alproxy (alprostadil) 500 mcg/mL solução injetável: bula para o profissional de saúde. Opem Representação Importadora Exportadora e Distribuidora Ltda. Registro MS 1.2748.0029. Texto aprovado pela Anvisa em 12/05/2023

01

Responda antes de ler

Recém-nascido de 28 horas, 3,3 kg, nascido a termo, está no alojamento conjunto. O teste do coraçãozinho mostra saturação de 80% na mão direita e 82% no pé. Ele mama, respira 62 vezes por minuto sem tiragem nem gemido, não tem sopro e tem segunda bulha alta. Com oxigênio por cateter nasal por dez minutos, a saturação vai a 83%. O hospital não tem ecocardiograma no fim de semana. Qual é a conduta?

02

O paciente que você vai ver

Domingo de julho, 5h40, maternidade do hospital regional de uma cidade que fica a 380 quilômetros do centro de cirurgia cardíaca pediátrica mais próximo. A técnica de enfermagem bate na porta do conforto médico com a folha do teste do coraçãozinho na mão: Galdino Bortoluzzi, 27 horas de vida, nascido de parto normal com 39 semanas e 3.250 g, Apgar 8 e 9, marcou 81% na mão direita e 83% no pé. Ela já trocou o sensor e repetiu. O pediatra de plantão está na sala de cesárea com um prematuro de 32 semanas e não sai de lá tão cedo.

No alojamento conjunto, Jerônima amamenta. “Ele fica roxinho quando chora, doutor, mas pega bem o peito.” Galdino não tem cara de doente. Mama, chora forte quando você o despe e fica mais roxo — nos lábios, na língua e no leito das unhas, não só nas mãos e nos pés. Respira 64 vezes por minuto, sem tiragem, sem gemido e sem batimento de asa de nariz. O coração bate a 150, a segunda bulha é alta e não há sopro nenhum. Os pulsos são cheios nos quatro membros, o fígado está a 1 cm do rebordo e a temperatura axilar é de 36,8 °C.

O pré-natal teve seis consultas e uma ultrassonografia morfológica registrada como normal. Jerônima tem 26 anos, é o primeiro filho, não teve diabetes nem febre no parto, e a bolsa rompeu três horas antes do nascimento. Nada na história aponta para pulmão doente ou para infecção.

Você pede um cateter nasal de oxigênio a 1 L/min e espera dez minutos com o oxímetro na mão direita. A saturação vai de 81% para 84%. O pai, Armelino, que chegou para a visita das seis, pergunta se não é o frio do quarto.

Três caminhos estão abertos nessa hora, e só um deles protege Galdino. Você pode chamar o teste de duvidoso, repetir em uma hora e voltar a deitar. Pode achar que é pulmão, deixar o oxigênio correndo e pedir a radiografia para quando o técnico chegar, às sete. Ou pode ler o teste pelo que ele é — positivo, num bebê que fica roxo sem esforço que explique a cor e que quase não responde ao oxigênio — e agir antes que o canal arterial termine de fechar.

Este capítulo é sobre essa decisão e as que vêm depois dela: por que o oxigênio mal muda a cor de um coração malformado, quem recebe prostaglandina, em que dose e por qual veia, o que fazer quando ela para a respiração no meio da madrugada, como a transposição das grandes artérias e a tetralogia de Fallot chegam ao plantão, e como tirar um lactente de cinco meses de uma crise hipoxêmica com as mãos, o colo da mãe e poucas seringas.

03

Quem adoece disso

A cardiopatia congênita é a malformação que mais mata no primeiro ano. O manual da Sociedade Brasileira de Pediatria de 2022 dá a ela uma incidência em torno de 9,4 casos por 1.000 nascidos vivos, cerca de 30% de todas as malformações congênitas e de 10% a 15% dos óbitos infantis; em um quarto dos bebês cardiopatas há outra anomalia fora do coração. Numa maternidade que faz 3.000 partos por ano, isso é perto de 28 crianças com algum defeito estrutural — a maioria sem repercussão, algumas poucas que não sobrevivem à primeira semana sem que alguém as reconheça.

O grupo que decide a vida no plantão é pequeno. As cardiopatias que se manifestam no período neonatal ficam, pelo mesmo manual, em torno de 3 por 1.000 nascidos vivos, e são quase sempre graves: chegam como hipóxia, como insuficiência cardíaca ou como baixo débito sistêmico. Dentro delas estão as críticas, as que dependem do canal arterial e precisam de intervenção no primeiro mês. A transposição das grandes artérias é a cardiopatia cianótica mais comum ao nascimento, com 2 a 3 casos por 10.000 nascidos vivos e cerca de 5% de todas as cardiopatias, duas a três vezes mais frequente em meninos, segundo o consenso indiano de 2019.

A geografia agrava o número. O manual da SBP registra que, no Brasil, os centros de cardiologia e cirurgia cardíaca neonatal costumam ficar longe das maternidades, e por isso o tratamento desses bebês depende de três passos feitos em lugares diferentes: reconhecer o recém-nascido cardiopata onde ele nasceu, estabilizá-lo ali mesmo e só então transportá-lo — com urgência e suporte adequado, antes das complicações infecciosas, neurológicas e hemodinâmicas. Quem estabiliza é o pediatra da maternidade, com o interno ao lado. A primeira dose de prostaglandina quase nunca é dada por um cardiologista.

A triagem ajuda e não protege sozinha. A oximetria de pulso da maternidade tem sensibilidade de 76% e especificidade de 99% para cardiopatia crítica, e feita depois de 24 horas de vida dá falso-positivo em 0,05% dos bebês, contra 0,5% quando feita antes. Um em cada quatro recém-nascidos com cardiopatia crítica passa pelo teste com resultado normal — é a razão de o manual lembrar que o teste negativo não exclui a doença. O teste, com as três faixas e a técnica, está em Triagens neonatais: teste do pezinho, orelhinha, olhinho, coraçãozinho e linguinha, na apostila de Puericultura e Desenvolvimento; aqui fica o que se faz quando ele volta positivo, ou quando o bebê volta roxo depois da alta.

Depois da alta, o coração cianótico se esconde entre as doenças respiratórias. A diretriz de ressuscitação da Sociedade Brasileira de Cardiologia de 2019 registra que a hipoxemia responde por 10% a 15% dos atendimentos em emergência pediátrica, dois terços deles por queixas respiratórias como bronquiolite, sibilância e pneumonia — e que essas queixas podem acompanhar ou ser a apresentação de uma cardiopatia congênita. O lactente roxo com chiado entra na fila da nebulização antes de entrar na do ecocardiograma.

A tetralogia de Fallot é a cardiopatia cianótica mais comum no conjunto das idades: 0,4 por 1.000 nascidos vivos e cerca de 5% das cardiopatias no consenso indiano; a diretriz da SBC fala em 10%. Quase dois terços dos recém-nascidos com Fallot não são cianóticos ao nascer, mas aos seis meses mais da metade já tem cianose em repouso, porque a obstrução infundibular piora. As crises hipoxêmicas têm pico entre o segundo e o sexto mês e ficam raras depois dos dois anos; a diretriz brasileira situa a maior frequência entre três meses e dois anos. Sem cirurgia, a sobrevida estimada é de 66% em um ano, 49% em três e 24% em dez. A deleção 22q11 aparece em cerca de 20% dos casos.

Na transposição, a janela é mais curta. Sem tratamento, a expectativa média de vida é de 0,65 ano e a mortalidade no primeiro ano chega perto de 90%; com a cirurgia de troca arterial feita cedo, a sobrevida a longo prazo passa de 90%, com poucas reintervenções. As outras cianóticas são raras uma a uma — a drenagem anômala total das veias pulmonares responde por cerca de 1% das cardiopatias, e o tronco arterial comum por menos de 1%, com deleção 22q11 em perto de 40% —, mas juntas somam o bastante para que todo plantão de maternidade regional veja algumas por ano.

O remédio que segura essas crianças vivas até o cirurgião não está na lista nacional. O alprostadil não consta da Rename 2024; existe no Brasil como produto de uso restrito a hospitais, em ampola de 1 mL com 500 mcg, e é comprado pelo próprio serviço. A cetamina, a fenilefrina, o esmolol e qualquer betabloqueador injetável também não constam. A pergunta de planejamento que este capítulo deixa para o interno é concreta: no hospital onde você dá plantão, onde fica a ampola de prostaglandina às cinco da manhã de um domingo, e quem tem a chave?

04

Por que acontece o que acontece

Tudo começa no parto, e não no defeito. No feto, o pulmão não troca gás: o sangue que o ventrículo direito ejeta vai quase todo pelo canal arterial para a aorta descendente, e o forame oval deixa o sangue da placenta passar do átrio direito ao esquerdo. Ao nascer, o pulmão se expande, a resistência vascular pulmonar cai, o fluxo para o pulmão aumenta e o canal arterial se contrai nas primeiras horas e dias. O manual da SBP de 2022 aponta a queda da resistência pulmonar, o aumento do fluxo pulmonar e o fechamento do canal como os mecanismos que fazem a cardiopatia crítica aparecer nos primeiros dias. É por isso que Galdino nasceu com Apgar 9: enquanto o canal estava largo, a malformação tinha um desvio que a compensava.

O canal que fecha mata de três jeitos, e o manual da SBP organiza as cardiopatias críticas exatamente assim. Na cardiopatia com fluxo pulmonar dependente do canal — atresia pulmonar, estenose pulmonar valvar crítica, Fallot com atresia ou estenose crítica, atresia tricúspide com estenose pulmonar —, o ventrículo direito não consegue mandar sangue ao pulmão, e o único sangue que chega lá vem da aorta pelo canal: quando ele fecha, a oxigenação desaba. Na circulação em paralelo, a transposição, o sangue gira em dois circuitos separados e só se mistura por onde houver comunicação. Na cardiopatia com fluxo sistêmico dependente do canal — hipoplasia do coração esquerdo, coarctação crítica ou interrupção do arco, estenose aórtica crítica —, é o corpo que depende do canal, e o fechamento não traz cianose intensa: traz choque. Um quarto grupo, de mistura (tronco arterial, drenagem anômala total sem obstrução, ventrículo único sem estenose pulmonar), aparece mais tarde, na segunda semana, com pouca cianose e muita taquidispneia.

Na transposição, cada grande artéria nasce do ventrículo errado: a aorta, do direito; a pulmonar, do esquerdo. O sangue venoso volta ao átrio direito, desce ao ventrículo direito e sai de novo pela aorta para o corpo, sem passar pelo pulmão; o sangue oxigenado volta ao átrio esquerdo, desce ao ventrículo esquerdo e sai de novo para o pulmão. Sem mistura, não há sobrevida. O manual da SBP explica por que o canal ajuda mesmo que a transposição não seja, a rigor, canal-dependente: com o canal aberto, chega mais sangue ao pulmão e volta mais sangue ao átrio esquerdo, cuja pressão sobe e empurra sangue oxigenado pelo forame oval para o átrio direito — e é esse sangue que chega à aorta. Se o forame é pequeno, a prostaglandina enche o átrio esquerdo e a mistura não acontece; o que abre a passagem é a atriosseptostomia com cateter-balão, que o manual federal manda fazer em caráter emergencial. Há um segundo relógio: com a queda da resistência pulmonar, o ventrículo esquerdo, que bombeia para um circuito de baixa pressão, perde massa, e o consenso indiano de 2019 pede a cirurgia de troca arterial de preferência nas primeiras três a quatro semanas, antes que ele fique incapaz de sustentar a circulação sistêmica.

O oxigênio mal muda a cor de um coração cianótico por uma razão simples. Na doença do pulmão, parte dos alvéolos ventila mal, e oferecer mais oxigênio corrige boa parte da mistura. Na cardiopatia cianótica, o sangue escuro não passa pelo pulmão — atravessa o coração direto para a aorta, ou gira no circuito errado —, e enriquecer o ar de alvéolos que o sangue não visita não muda nada. É o princípio do teste de hiperóxia, cujos cortes estão em Desconforto respiratório do recém-nascido: doença da membrana hialina, taquipneia transitória e aspiração meconial, na apostila de Neonatologia; na beira do berço, a mesma lógica aparece como a saturação que sobe três ou quatro pontos com oxigênio. Nas lesões com fluxo sistêmico dependente do canal, o oxigênio faz pior que nada: dilata os vasos pulmonares, desvia mais sangue para o pulmão e rouba o que ia para o corpo, e por isso o manual da SBP manda evitá-lo nesse grupo.

A prostaglandina E1 relaxa a musculatura lisa do canal arterial. O efeito é maior nos primeiros dias e vai caindo: o manual da SBP diz que se reduz até o fim do primeiro mês, e o guia federal de 2014 que a resposta é insatisfatória depois da quarta semana e que o remédio não reabre um canal já totalmente fechado. A resposta vem rápido — melhora da saturação ou dos sinais de baixo débito em 15 a 30 minutos, pela SBP; a bula registra abertura entre 30 minutos e 3 horas, com aumento médio de 20 a 30 mmHg na pressão parcial de oxigênio. O preço também vem rápido: a apneia e a hipotensão são os efeitos adversos mais frequentes, mais comuns em doses altas, e a bula registra a apneia sobretudo no recém-nascido cianótico com menos de 2 kg e nas primeiras horas de infusão. Febre, irritabilidade, edema de mãos e pés e exantema completam a lista.

Esquema de dois ventrículos com CIV ampla, aorta sobre a comunicação, saída pulmonar estreita e parede do ventrículo direito espessada; setas qualitativas mostram fluxo para as saídas.
O esquema reúne CIV, obstrução da saída direita, aorta cavalgante e hipertrofia do ventrículo direito. Quanto maior a limitação ao fluxo pulmonar, maior pode ser o desvio do VD para a aorta. Os átrios foram omitidos para destacar essas relações; cores e espessuras não medem saturação ou gravidade.

A tetralogia de Fallot tem quatro nomes e um defeito só. O septo de saída, que separa as vias de saída dos dois ventrículos, se desvia para a frente: estreita o infundíbulo do ventrículo direito, abre uma comunicação interventricular desalinhada e deixa a aorta cavalgando os dois ventrículos; a hipertrofia do ventrículo direito é a consequência de bombear contra a obstrução. O que decide a cor é o grau de obstrução. Com obstrução leve, a resistência à saída do ventrículo direito é menor que a da aorta, o desvio pela comunicação vai da esquerda para a direita e o bebê é rosado — o Fallot que chega à puericultura por um sopro. Com obstrução acentuada, o desvio se inverte e a criança é cianótica; com atresia, o pulmão só recebe sangue pelo canal. E a obstrução não fica parada: a hipertrofia infundibular progride, e é por isso que quase dois terços nascem sem cianose e mais da metade está cianótica aos seis meses.

A crise hipoxêmica é um ciclo que se alimenta. Um gatilho — choro, mamada, evacuação, febre, desidratação, o susto de acordar — faz cair a resistência vascular sistêmica ou contrair o infundíbulo; mais sangue escuro atravessa a comunicação para a aorta; a hipoxemia e a acidose fazem a criança respirar fundo e rápido; a hiperpneia aumenta o retorno venoso e o consumo de oxigênio, e o ciclo gira de novo. A diretriz da SBC de 2019 descreve crises de 15 a 60 minutos, com cianose crescente, taquipneia e agitação que evoluem para flacidez, sonolência, convulsão, coma e morte. O sopro do Fallot é o ruído do sangue passando pela via de saída estreita; quando o infundíbulo fecha na crise, passa menos sangue e o sopro fica mais baixo — por isso o sopro que some no meio da crise é sinal de gravidade, e não de melhora. Cada medida do tratamento corta um elo: a posição genupeitoral e o vasoconstritor aumentam a resistência sistêmica e empurram o sangue de volta para o pulmão; a morfina seda e reduz a hiperpneia; o volume enche o ventrículo direito e alarga a via de saída; o betabloqueador relaxa o infundíbulo; o bicarbonato quebra a acidose que mantém a respiração acelerada.

Dois painéis funcionais: transposição com aorta saindo do VD e artéria pulmonar do VE, circuitos paralelos e comunicações atrial e ductal; Fallot com saída direita obstruída e desvio através da CIV para a aorta.
Na transposição, as conexões ventriculoarteriais criam circuitos em paralelo; comunicações permitem mistura, que pode ser insuficiente se houver restrição atrial. No Fallot, a obstrução da saída direita reduz o fluxo pulmonar e favorece desvio para a aorta. O diagrama compara mecanismos e não representa um exame de imagem.
05

Como se apresenta de verdade

Este capítulo é dono do recém-nascido cianótico pelo coração — da cianose que não sobe com oxigênio ao teste do coraçãozinho positivo que chega ao plantão —, da cardiopatia dependente do canal arterial com a prostaglandina inteira (indicação, dose por peso, via, apneia e transporte), da transposição das grandes artérias, da tetralogia de Fallot e da crise hipoxêmica. Das outras cianóticas — atresia pulmonar, atresia tricúspide, drenagem anômala total das veias pulmonares, tronco arterial comum — fica com o reconhecimento e o primeiro gesto. E assume duas partes que não tinham dono no nível: a cardiopatia crítica que se manifesta por choque na primeira semana, na parte que decide na urgência, e quem, entre as crianças com cardiopatia cianótica, recebe profilaxia de endocardite.

O teste do coraçãozinho — as faixas, a técnica e a lógica pré e pós-ductal — está em Triagens neonatais: teste do pezinho, orelhinha, olhinho, coraçãozinho e linguinha, na apostila de Puericultura e Desenvolvimento. O sopro e a ausculta estão em Sopro cardíaco inocente versus patológico na criança, e os defeitos acianóticos, a insuficiência cardíaca, as idades de correção deles, a profilaxia depois de correção com material protético e o nirsevimabe da cardiopatia com repercussão, em Cardiopatias congênitas acianóticas (comunicação interventricular, interatrial e persistência do canal arterial) e insuficiência cardíaca na criança, as duas nesta apostila. O recém-nascido cianótico que chega pelo desconforto respiratório, o teste de hiperóxia e a hipertensão pulmonar persistente vêm de Desconforto respiratório do recém-nascido: doença da membrana hialina, taquipneia transitória e aspiração meconial; a reanimação e o cateterismo venoso umbilical de urgência, de Reanimação neonatal em sala de parto (fluxograma da SBP); a infecção, de Sepse neonatal precoce e tardia: fatores de risco e manejo — os três na apostila de Neonatologia. O rastreio pré-natal está em Rastreio de anomalias e ultrassonografia obstétrica (translucência nucal, morfológico), na apostila de Obstetrícia, e o diagnóstico e o tratamento da endocardite, em Endocardite infecciosa: critérios de Duke e profilaxia, na apostila de Cardiologia.

O recém-nascido que fica roxo: quando o coração entra na frente

O guia federal de 2014 nomeia os dois sinais que mais cedo denunciam a cardiopatia grave, sobretudo a dependente do canal: frequência respiratória acima de 60 por minuto em repouso e saturação abaixo de 90% medida depois de 24 horas de vida. Qualquer um dos dois pede investigação antes da alta, mesmo que o bebê pareça bem. A cor que importa é a das mucosas — lábios, língua, gengiva — e não a das mãos e dos pés; a distinção entre cianose central e periférica, com o limiar de hemoglobina reduzida que a torna visível, está no capítulo de desconforto respiratório do recém-nascido.

A cianose do coração tem um desenho próprio: é intensa e vem com pouco esforço. No quadro do manual da SBP, as lesões com fluxo pulmonar dependente do canal aparecem com cianose acentuada, saturação abaixo de 85% e taquidispneia discreta; a transposição, com cianose acentuada e taquidispneia moderada. O bebê do pulmão doente geme, retrai, bate asa de nariz e melhora com oxigênio; o bebê do coração malformado respira rápido e quieto, mama, fica mais roxo quando chora e mal responde ao cateter nasal. A radiografia sem velamento completa o desenho.

O teste do coraçãozinho positivo que chega ao plantão já não é triagem. Pelo manual da SBP, saturação de 89% ou menos na mão direita ou no pé é teste positivo: o recém-nascido é reavaliado de forma minuciosa pelo pediatra, recebe avaliação cardiológica e ecocardiograma para confirmar o diagnóstico, e não deveria ter alta antes disso. Repetir em uma hora é conduta do teste duvidoso, não do positivo. E há uma consequência que o interno esquece: o teste foi desenhado para o bebê de 35 semanas ou mais, assintomático, no alojamento conjunto. O recém-nascido que já está roxo, taquipneico ou mamando mal não é caso de triagem — é paciente, e a saturação medida nele entra direto no raciocínio clínico.

O dia em que a cor aparece orienta a lista. No mesmo quadro, as cardiopatias com fluxo pulmonar ou sistêmico dependente do canal e a transposição começam na primeira semana; as de mistura — tronco arterial, drenagem anômala total sem obstrução, ventrículo único sem estenose pulmonar — na segunda, com cianose discreta e taquidispneia acentuada, porque é quando a resistência pulmonar já caiu e o pulmão se inunda.

Transposição das grandes artérias: o bebê mais roxo e mais tranquilo do berçário

A transposição se anuncia no primeiro dia. O manual da SBP descreve cianose precoce com taquipneia e algum desconforto, exame sem sopro e segunda bulha alta no foco pulmonar, e radiografia com área cardíaca normal ou pouco aumentada e trama vascular aumentada. No consenso indiano, 70% são transposições simples — sem outro defeito além de comunicação interatrial, canal arterial ou comunicação interventricular pequena —, em que a cianose domina e não há sopro na maioria; a radiografia pode ser inteiramente normal ou mostrar o coração ovalado deitado sobre o diafragma, com pedículo estreito. Galdino é esse retrato: roxo, calmo, sem sopro, com segunda bulha alta.

O diferencial que mais confunde é a hipertensão pulmonar persistente do recém-nascido, que o manual da SBP descreve como clinicamente muito parecida. As duas deixam o bebê cianótico e sem sopro; o guia federal manda suspeitar de hipertensão pulmonar quando a PO2 pré-ductal supera a pós-ductal em mais de 20 mmHg, e quem separa de fato é o ecocardiograma. O manejo da hipertensão pulmonar é do capítulo de desconforto respiratório do recém-nascido; a regra comum às duas é não perder tempo com a dúvida quando o bebê piora.

A transposição com comunicação interventricular grande mistura melhor e costuma ser menos cianótica; a dupla via de saída do ventrículo direito com comunicação subpulmonar se comporta como transposição e entra no mesmo grupo do manual. O consenso indiano registra que a transposição é duas a três vezes mais frequente em meninos e mais comum em filhos de mãe com diabetes, desnutrição ou consumo de álcool. Uma ultrassonografia morfológica registrada como normal não tira a transposição da lista; o que o rastreio pré-natal alcança, e quando indicar o ecocardiograma fetal, está no capítulo de rastreio de anomalias da apostila de Obstetrícia.

Quando o pulmão depende do canal: atresia pulmonar, estenose crítica e o Fallot extremo

Neste grupo, o ventrículo direito não entrega sangue ao pulmão, e o canal arterial faz esse trabalho às avessas, da aorta para a artéria pulmonar. O manual da SBP lista a atresia pulmonar com septo íntegro, a hipoplasia do coração direito, a estenose pulmonar valvar crítica, a atresia pulmonar com comunicação interventricular, a tetralogia de Fallot com atresia pulmonar ou estenose pulmonar crítica, o ventrículo único com atresia ou estenose crítica — a atresia tricúspide é o exemplo — e a anomalia de Ebstein.

O retrato é o da criança que piora à medida que o canal fecha, entre o segundo e o sétimo dia: cianose acentuada, saturação abaixo de 85%, pouca taquidispneia, oxigênio por máscara ou mesmo por cânula traqueal que não melhora significativamente a saturação — é o que ajuda a separar da doença do pulmão, pelo mesmo manual —, e radiografia com trama vascular pulmonar reduzida, sem velamento, com ou sem cardiomegalia. Se o teste do coraçãozinho foi feito com o canal ainda largo, pode ter saído normal, e o bebê volta para casa para ficar roxo na primeira semana.

Uma armadilha de leitura mora no próprio manual. Na Tabela 1, a tetralogia de Fallot aparece sem qualificação entre as cardiopatias com fluxo pulmonar canal-dependente, com início na primeira semana e prostaglandina como tratamento inicial; no texto, só a tetralogia com atresia pulmonar ou com estenose pulmonar crítica pertence ao grupo. A maior parte dos recém-nascidos com Fallot não depende do canal, satura acima de 90% e não recebe prostaglandina — a nota do critério faz a conta do erro.

O choque da primeira semana: quando é o corpo que depende do canal

Hipoplasia do coração esquerdo, coarctação crítica ou interrupção do arco aórtico, estenose aórtica crítica e ventrículo único com coarctação formam o grupo em que o corpo recebe sangue pelo canal. A criança nasce bem e, pelo manual da SBP, piora na primeira semana com taquidispneia acentuada, cianose discreta — saturação entre 85% e 95% — e sinais de baixo débito: pele marmórea, enchimento capilar lento, pulsos fracos, oligúria, acidose. A radiografia mostra trama vascular aumentada, pelo guia federal. O sopro e a palpação dos pulsos femorais, que denunciam a coarctação na puericultura, estão no capítulo do sopro nesta apostila.

Essa criança chega ao pronto-socorro com cara de sepse, e as duas coisas se tratam juntas. O guia federal manda seguir o atendimento habitual do choque do recém-nascido e, se não houver boa resposta às medidas iniciais, iniciar prostaglandina E1 imediatamente, mesmo antes da confirmação diagnóstica; o manual da SBP põe o baixo débito ou choque não responsivo entre as duas indicações do remédio. Neste grupo, o oxigênio se evita. A investigação e o antibiótico da sepse seguem o capítulo de sepse neonatal; o que este capítulo acrescenta é que a falta de resposta ao volume e ao antibiótico, num bebê que nasceu bem e tem menos de um mês, é motivo para abrir a ampola de prostaglandina antes do ecocardiograma.

Tetralogia de Fallot: o sopro vem antes, a cianose vem com os meses e a crise vem com o choro

O Fallot que não depende do canal costuma chegar pela puericultura, como um sopro sistólico que o pediatra ouve nas primeiras semanas — a caracterização desse sopro está no capítulo do sopro, nesta apostila. O consenso indiano manda medir a saturação por oximetria em toda consulta de seguimento e lembra que a anemia disfarça a cianose: o lactente pálido parece menos roxo do que está. O eletrocardiograma mostra desvio do eixo para a direita, hipertrofia do ventrículo direito e troca brusca da onda R dominante em V1 para o padrão rS em V2; a radiografia, coração de tamanho normal com a ponta levantada, a concavidade no lugar do tronco pulmonar e trama vascular reduzida — o coração em bota. O arco aórtico à direita aparece em 20% a 30%.

A crise hipoxêmica tem uma sequência que se reconhece da porta. A criança acorda, chora, mama ou evacua, fica cada vez mais roxa e passa a respirar fundo e rápido, sem tiragem, agitada e inconsolável; o sopro que estava na caderneta fica mais baixo ou some. Pela diretriz da SBC de 2019, a crise dura de 15 a 60 minutos e evolui para flacidez, hipotonia, sonolência, convulsão, coma e morte. O que parece birra, cólica ou convulsão num lactente com Fallot é crise até prova em contrário, e a primeira crise obriga a rever o plano cirúrgico — o consenso indiano indica paliação ou correção sem esperar a idade eletiva no menor de seis meses com cianose importante ou com crises apesar do tratamento.

A deleção 22q11 aparece em cerca de 20% das tetralogias, pelo consenso indiano, e muda cuidados que vão além do coração; o pedido da investigação genética é do cardiologista pediátrico, e o interno só precisa lembrar que ela existe. A hemoglobina da criança cianótica não se lê pela tabela da idade: o mesmo consenso pede manter a hemoglobina acima de 14 g/dL, com ferro oral ou transfusão, porque a criança dessaturada precisa de mais hemoglobina para levar o mesmo oxigênio. A investigação e a dose de ferro seguem Anemia ferropriva na infância: rastreio, diagnóstico e tratamento, na apostila de Hematologia Pediátrica — o alvo é que muda.

Este capítulo assume quem, entre as crianças com cardiopatia cianótica, recebe profilaxia de endocardite, porque o capítulo das acianóticas se restringe a elas e o de endocardite, na apostila de Cardiologia, remete a régua da criança ao capítulo das acianóticas. Aqui as duas diretrizes brasileiras concordam: a atualização de valvopatias da SBC de 2020 põe a cardiopatia congênita não reparada entre as condições de risco elevado, e a diretriz perioperatória de 2024 lista a cianogênica não corrigida entre as que recebem profilaxia. A criança com Fallot ou outra cianótica ainda não operada recebe antibiótico antes de procedimento dentário: amoxicilina 50 mg/kg em dose única, uma hora antes, sem passar de 2 g — na suspensão de 50 mg/mL da Rename, 1 mL por quilo. A janela depois da correção com material protético é a que o capítulo das acianóticas adota; alergia à penicilina e procedimentos fora da boca seguem o capítulo de endocardite.

As outras cianóticas: reconhecer e dar o primeiro passo

A atresia tricúspide é o exemplo que o manual da SBP dá de ventrículo único com fluxo pulmonar dependente do canal: sem via de entrada no ventrículo direito, todo o sangue venoso atravessa o forame para o lado esquerdo, e o pulmão depende do canal ou de uma comunicação interventricular. O primeiro gesto é o da cardiopatia canal-dependente — prostaglandina e transferência —, e o caminho cirúrgico é o do ventrículo único, em etapas que o interno só precisa saber nomear: um desvio sistêmico-pulmonar ou stent de canal no começo, as cirurgias de Glenn e de Fontan depois.

A drenagem anômala total das veias pulmonares tem duas caras. Na forma obstruída, uma lesão de mistura com obstrução do retorno venoso pulmonar, distinta dos circuitos em paralelo da transposição, o recém-nascido fica muito cianótico e taquipneico nas primeiras horas, com trama pulmonar aumentada na radiografia, e parece doença pulmonar grave; o obstáculo está nas veias pulmonares e não no canal, e a declaração da American Heart Association de 2018 a trata como intervenção cirúrgica urgente, com suporte respiratório e cardíaco até a sala. A forma sem obstrução é de mistura: segunda semana, cianose discreta, taquidispneia acentuada, tratamento inicial com diurético e suporte ventilatório, pelo mesmo manual. A comunicação interatrial é obrigatória para a sobrevida, e a atriosseptostomia pode estabilizar quando ela é restritiva.

O tronco arterial comum — um único vaso saindo do coração e dando origem às coronárias, às pulmonares e à aorta — também é de mistura: segunda semana, pouca cianose, insuficiência cardíaca que se trata com diurético e suporte, deleção 22q11 em perto de 40%. A anomalia de Ebstein grave do recém-nascido entra na lista das canal-dependentes pulmonares. Para todas, o gesto do plantão é o mesmo: reconhecer que é coração, decidir se depende do canal e ligar para o centro de referência.

Os nomes das cirurgias que a família vai ouvir cabem numa frase cada. Atriosseptostomia com balão: cateter que rasga o septo interatrial para misturar o sangue. Troca arterial, a operação de Jatene: as grandes artérias e as coronárias trocam de lugar nas primeiras semanas de vida. Desvio sistêmico-pulmonar ou stent de canal: uma ponte que garante sangue ao pulmão enquanto a criança cresce. Correção total do Fallot: fechar a comunicação e alargar a via de saída do ventrículo direito. Glenn e Fontan: ligar as veias cavas direto às artérias pulmonares, para que o único ventrículo trabalhe só para o corpo.

06

Como fechar o diagnóstico

Nenhum exame desta seção autoriza esperar. O manual da SBP e o guia federal dizem a mesma coisa com palavras diferentes: nada do primeiro tratamento de um recém-nascido com suspeita de cardiopatia crítica, e muito menos a prostaglandina E1, espera o ecocardiograma. A investigação responde qual cardiopatia é, quanto a hipoxemia já custou e para onde a criança vai; se há cardiopatia a ponto de tratar, quem responde é a cabeceira.

A saturação na mão direita e no pé, e o que fazer com o número

A mão direita mede o sangue que sai da aorta antes do canal; o pé, o que passa depois dele. A lógica das duas medidas no bebê saudável está no capítulo das triagens neonatais; no bebê cianótico, ela vira pista. Saturação baixa e parecida nas duas aponta para o problema dentro do coração — mistura, circuito em paralelo ou pulmão que depende do canal. Diferença grande entre elas aponta para sangue atravessando o canal em direção à aorta descendente, como na hipertensão pulmonar persistente ou na lesão do arco aórtico.

O número também orienta o oxigênio. Pelo manual da SBP, o recém-nascido cardiopata recebe oxigênio quando a saturação está abaixo de 80% e deixa de recebê-lo quando passa de 90%. Nas lesões com fluxo pulmonar dependente do canal e na transposição, que costumam chegar abaixo de 80%, o oxigênio por cateter, capacete ou ventilação é permitido e ajuda um pouco no transporte de oxigênio aos tecidos; nas lesões com fluxo sistêmico dependente do canal, que chegam com saturação de 85% a 95%, ele se evita.

O oxigênio como pergunta: a saturação que não sobe

A forma mais simples de perguntar ao coração é oferecer oxigênio e olhar o oxímetro. O manual da SBP descreve que, nas cardiopatias com fluxo pulmonar dependente do canal, o oxigênio por máscara, ou mesmo depois da intubação, não melhora significativamente a saturação — e que é isso que ajuda a separar essas crianças das doenças ventilatórias do período neonatal. Os três pontos que a saturação de Galdino ganhou em dez minutos de cateter são exatamente essa resposta.

O teste de hiperóxia formaliza a pergunta com gasometria arterial. O guia federal de 2014 oferece oxigênio a 100% e colhe a PO2 no membro superior direito e num membro inferior: acima de 250 mmHg, diminui a probabilidade de uma causa com grande desvio direita-esquerda, mas não se excluem todas as cardiopatias críticas, especialmente as de obstrução sistêmica; abaixo de 100 mmHg, é provável cardiopatia cianótica crítica com fluxo pulmonar dependente do canal ou circulação em paralelo; entre 100 e 250 mmHg, é possível cardiopatia com mistura. O teste negativo, pelo mesmo guia, indica prostaglandina até o diagnóstico anatômico. A técnica e a leitura na doença pulmonar estão no capítulo de desconforto respiratório do recém-nascido. Uma cautela que junta duas frases do manual da SBP: no bebê em choque com suspeita de lesão do arco, em quem o oxigênio se evita, não se abre oxigênio a 100% para fazer teste.

Radiografia de tórax: o tamanho do coração e a quantidade de sangue no pulmão

O guia federal ensina a olhar duas coisas. A área cardíaca aumentada sugere cardiopatia, mas a normal não a exclui. A trama vascular pulmonar orienta o grupo: diminuída, sugere fluxo pulmonar dependente do canal; aumentada, sugere fluxo sistêmico dependente do canal, mistura ou desvio da esquerda para a direita. O pulmão sem velamento num bebê muito cianótico é, por si, a pista de que o problema não está no parênquima.

Algumas silhuetas ajudam. Na transposição, a radiografia pode ser inteiramente normal ou mostrar o coração ovalado deitado, com pedículo estreito e trama aumentada; no Fallot, coração de tamanho normal com a ponta levantada, concavidade no lugar do tronco pulmonar e trama reduzida, às vezes com arco aórtico à direita — as duas descrições são do consenso indiano. Na drenagem anômala obstruída, a trama aumentada num bebê muito cianótico engana como doença pulmonar. Depois do cateterismo umbilical, a mesma radiografia confere a posição da ponta do cateter por onde a prostaglandina vai correr.

Gasometria, lactato e glicemia: quanto a hipoxemia já custou

A gasometria arterial ou venosa com lactato mede o que a falta de oxigênio fez aos tecidos, e muda decisões. O consenso indiano manda iniciar a prostaglandina na transposição quando a saturação está abaixo de 75% ou há acidose lática, e considera desejável saturação acima de 70% quando não há acidose nem outro sinal de hipóxia tecidual. A bula do alprostadil registra risco maior de efeitos sobre o sistema nervoso central com pH de 7,1 ou menos. Um lactato que sobe entre duas gasometrias num bebê já em prostaglandina é sinal de que o remédio não bastou — seja porque o canal não reabriu, seja porque a mistura atrial está restrita.

Na crise hipoxêmica, a gasometria mostra a acidose metabólica que alimenta a hiperpneia, e é ela que indica o bicarbonato. Mas a punção arterial agita a criança, e agitação piora a crise: a amostra entra depois da posição, do oxigênio e da morfina, não antes. A glicemia capilar se mede em todo recém-nascido que chega cianótico ou em choque, porque hipoglicemia também muda a cor e a consciência.

Eletrocardiograma: pouco no recém-nascido, bastante no Fallot

No recém-nascido cianótico, o eletrocardiograma raramente decide, e pode enganar: na estenose pulmonar crítica com cavidade do ventrículo direito pequena, o consenso indiano registra eixo normal e predomínio do ventrículo esquerdo — o contrário do que o nome da doença sugere.

No Fallot, ele é típico, pelo mesmo consenso: desvio do eixo para a direita, hipertrofia do ventrículo direito e troca brusca da onda R dominante em V1 para o padrão rS em V2. Depois da correção, mais de 90% dos operados têm bloqueio de ramo direito, e o interno que vê esse traçado numa criança com cicatriz de esternotomia está diante do esperado, não de uma complicação nova.

O ecocardiograma: quem faz, quando e com que pergunta

Pelo manual da SBP, quem dá o diagnóstico definitivo é o ecocardiograma com Doppler colorido: ele mostra a anatomia, a função, o canal arterial, a circulação de transição e a pressão pulmonar, e pode ser feito na própria unidade neonatal. O manual admite que o primeiro exame seja feito pelo neonatologista treinado em ecocardiografia funcional e confirmado depois por quem tem habilitação em ecocardiografia pediátrica. Quase nenhum hospital regional tem esse exame às cinco da manhã de domingo — e é exatamente por isso que a prostaglandina não o espera.

O pedido tem de levar a pergunta que muda a conduta. Na transposição, o consenso indiano lista o que o exame precisa responder: a relação das grandes artérias com os ventrículos, o local e a adequação da mistura — o tamanho da comunicação interatrial, da interventricular e do canal —, os defeitos associados, como obstrução da via de saída do ventrículo esquerdo e coarctação, os anéis valvares e a origem das coronárias, e se o ventrículo esquerdo aguenta a circulação sistêmica depois da troca arterial. No Fallot, o local e o grau da obstrução da via de saída do ventrículo direito, o tamanho da valva e dos ramos pulmonares, a posição da comunicação e as anomalias de coronária que atrapalham a correção. Em todo cianótico no primeiro mês, uma pergunta vem antes das outras: o canal está aberto, e o septo interatrial é restritivo?

07

Fluxo, tabelas e contas das cardiopatias cianóticas, da prostaglandina e da crise hipoxêmica

O fluxo vai do recém-nascido roxo ao transporte e do lactente em crise ao plano cirúrgico. As tabelas põem as cianóticas lado a lado, fazem as contas da prostaglandina e das drogas da crise contra as apresentações que existem e juntam os prazos. As notas registram, com a conta, os erros de fonte que mudam o que se faz.

  1. 1Recém-nascido com cianose central, saturação abaixo de 90% depois de 24 horas ou frequência respiratória acima de 60 em repouso: não é triagem, é paciente — examinar, monitorar, medir a glicemia e não dar alta.
  2. 2Teste do coraçãozinho com 89% ou menos na mão direita ou no pé: positivo, não se repete como duvidoso; avaliação cardiológica e ecocardiograma antes de qualquer alta.
  3. 3Desconforto proporcional à cor, com gemido e tiragem, e melhora clara com oxigênio: seguir o capítulo de desconforto respiratório do recém-nascido, com o coração ainda na lista.
  4. 4Cianose intensa com pouco esforço, pequena resposta ao oxigênio e radiografia sem doença pulmonar proporcional aumentam a suspeita de cardiopatia crítica. A resposta ao oxigênio não confirma nem exclui a etiologia: doença pulmonar, hipertensão pulmonar persistente e sepse continuam no diferencial, com ecocardiograma e estabilização em paralelo.
  5. 5Choque na primeira semana num bebê que nasceu bem, sobretudo com pulsos femorais reduzidos: suspeitar de fluxo sistêmico dependente do canal e iniciar estabilização e prostaglandina com a equipe. Evitar hiperóxia e oxigênio a 100% apenas para normalizar a saturação; oferecer suporte respiratório e oxigênio titulado se necessário, com alvo definido pela fisiologia e perfusão.
  6. 6Na suspeita de dependência do canal, iniciar prostaglandina E1 sem esperar o ecocardiograma: a referência inicial adotada é 0,01 mcg/kg/min em infusão contínua, com supervisão neonatal/cardiológica. Usar acesso seguro e monitorizado; se o central não estiver pronto, o periférico disponível pode iniciar o tratamento enquanto se organiza acesso mais estável. A demora pelo cateter não pode ser a demora da medicação.
  7. 7Antes de ligar a bomba: material de intubação no berço, monitor com alarme de apneia e acesso fixado e testado.
  8. 8Reavaliar em 15 a 30 minutos: saturação, perfusão, pulsos, lactato. Sem resposta, subir em degraus até 0,05 mcg/kg/min, o teto da SBP; acima dele, só com o cardiologista pediátrico na linha.
  9. 9Apneia na prostaglandina: estimular e ventilar com bolsa e máscara; se repete, ou se há transporte longo pela frente, intubar antes de sair.
  10. 10Oxigênio e ventilação: definir alvo de saturação com a equipe segundo anatomia presumida, equilíbrio dos fluxos e perfusão. Os números de 80%, 85–90% e 90% citados pelo manual não constituem uma regra universal para toda cianose. Evitar hiperóxia em circulação suscetível a hiperfluxo pulmonar; não tolerar deterioração, acidose ou hipoxemia grave apenas para obedecer a um número.
  11. 11Regulação e centro de referência na primeira hora: peso, saturações antes e depois da prostaglandina, dose em mcg/kg/min e em mL/h, acesso, via aérea, gasometria e radiografia.
  12. 12Transposição que não passa de 70% a 75% ou mantém acidose apesar da prostaglandina: forame restritivo até prova em contrário — ecocardiograma para o septo e atriosseptostomia de emergência, e o transporte deixa de ser eletivo.
  13. 13Transferência urgente para centro capaz de tratar a lesão, organizada desde o reconhecimento e realizada assim que houver condições de transporte com suporte adequado. Não aguardar sete dias por ter obtido melhora inicial. O momento da cirurgia, como a troca arterial nas primeiras semanas, é decidido pelo centro e não define prazo para iniciar a transferência.
  14. 14Lactente com Fallot que chora, fica cada vez mais roxo e respira fundo sem tiragem: crise hipoxêmica — colo da mãe em posição genupeitoral, ambiente calmo, oxigênio que não agite.
  15. 15Se a crise hipoxêmica não melhorar prontamente, chamar equipe experiente, monitorizar e administrar medicação conforme protocolo: morfina 0,1 mg/kg IM ou IV é a referência adotada. Avaliar hidratação e perfusão antes de SF 10 a 20 mL/kg, reavaliando após a administração. Colher gasometria quando viável; bicarbonato não é reflexo de qualquer acidose e fica reservado à decisão especializada em acidose metabólica importante persistente após suporte ventilatório e circulatório.
  16. 16Crise que não cede: vasoconstritor (noradrenalina, na falta da fenilefrina), betabloqueador venoso onde houver, sedação e intubação — e cirurgia ou intervenção de emergência pela regulação.
  17. 17Depois da primeira crise: propranolol oral, hemoglobina acima de 14 g/dL e contato no mesmo dia com o centro — o menor de seis meses com cianose importante ou crises apesar do tratamento não espera a idade eletiva.

As cianóticas lado a lado: quando aparecem, o que se vê e o primeiro gesto

CardiopatiaQuando aparece e comoRadiografiaPrimeiro gesto no plantão
Transposição das grandes artériasPrimeiro dia; cianose acentuada, taquipneia moderada, sem sopro, segunda bulha altaNormal ou coração ovalado deitado, com pedículo estreito; trama aumentadaProstaglandina E1; forame restritivo sem resposta pede atriosseptostomia de emergência
Fluxo pulmonar dependente do canal: atresia pulmonar, estenose pulmonar crítica, Fallot com atresia ou estenose crítica, atresia tricúspide com estenose, Ebstein gravePrimeira semana, com o fechamento do canal; saturação abaixo de 85%, pouca taquidispneia, oxigênio que não melhoraTrama reduzida, sem velamento, com ou sem cardiomegaliaProstaglandina E1; oxigênio titulado ao alvo individual e à perfusão; transferência urgente
Fluxo sistêmico dependente do canal: hipoplasia do coração esquerdo, coarctação crítica, interrupção do arco, estenose aórtica críticaPrimeira semana; baixo débito ou choque, saturação de 85% a 95%, taquidispneia acentuadaTrama aumentadaEstabilizar e iniciar prostaglandina E1 na suspeita de dependência do canal; evitar hiperóxia, titular suporte; transferência urgente
Tetralogia de Fallot sem atresiaSopro nas primeiras semanas; cianose que cresce com os meses; crises com pico entre o 2º e o 6º mêsCoração em bota, concavidade do tronco pulmonar, trama reduzida; arco à direita em 20% a 30%Sem prostaglandina se satura bem; oximetria em toda consulta; cirurgia eletiva ou antecipada pela crise
Drenagem anômala total das veias pulmonares, forma obstruídaPrimeiras horas; cianose e taquipneia intensas que imitam doença pulmonar graveTrama aumentadaSuporte respiratório e cardíaco e cirurgia urgente: o obstáculo não está no canal
Lesões de mistura: tronco arterial, drenagem anômala sem obstrução, ventrículo único sem estenose pulmonarSegunda semana; cianose discreta, taquidispneia acentuada, insuficiência cardíacaTrama aumentadaDiurético e suporte ventilatório; ecocardiograma e encaminhamento

Prostaglandina E1 (alprostadil 500 mcg/mL, 1 ampola diluída em SF 0,9% até 250 mL ou até 100 mL) num recém-nascido de 3,25 kg

Dose (mcg/kg/min)Microgramas por horaA 2 mcg/mL (250 mL): mL/hA 5 mcg/mL (100 mL): mL/hOnde a dose está na régua
0,011,950,980,39Dose inicial da SBP de 2022 e do guia federal de 2014
0,023,901,950,78Primeiro degrau quando não há resposta em 15 a 30 minutos
0,035,852,931,17Acima desta dose, apneia e hipotensão mais frequentes, pela SBP
0,059,754,881,95Teto da SBP; limiar de apneia do guia federal; início mais baixo da bula e da AHA para abrir o canal
0,119,509,753,90Teto do guia federal de 2014; início mais alto da bula; acima daqui, só a bula, até 0,4

A crise hipoxêmica num lactente de 6,4 kg: dose, conta e o que a Rename 2024 tem

MedidaDose e fonteConta para 6,4 kgApresentação na Rename 2024
Morfina0,1 mg/kg IM ou IV (SBC 2019)0,64 mg: 1 mL da ampola de 10 mg + 9 mL de SF 0,9% = 1 mg/mL; aspirar 0,64 mLSulfato de morfina 10 mg/mL injetável
Soro fisiológico10 a 20 mL/kg em bolus (consenso indiano 2019)64 a 128 mLCloreto de sódio 0,9%
Bicarbonato: decisão especializada em acidose metabólica importante persistente após suporte adequado1 a 2 mEq/kg IV lento, diluído (consenso indiano 2019; AHA 2018)1 mEq/kg = 6,4 mEq = 6,4 mL a 8,4% + 6,4 mL de água para injeção = 12,8 mL a 4,2%Bicarbonato de sódio 8,4% (1 mEq/mL)
Fenilefrina5 a 20 mcg/kg a cada 10 a 15 minutos (SBC 2019); infusão de 0,1 a 0,5 mcg/kg/min (AHA 2018)32 a 128 mcg por bolusNão consta
Noradrenalina0,05 a 2 mcg/kg/min em infusão contínua (SBC 2019)A 0,05: 19,2 mcg/h; numa solução de 20 mcg/mL, 0,96 mL/hHemitartarato de norepinefrina 2 mg/mL
Metoprolol venoso0,05 a 0,1 mg/kg (SBC 2019)0,32 a 0,64 mgNão consta forma injetável; só comprimidos
Cetamina0,25 a 1 mg/kg em bolus, na crise refratária (consenso indiano 2019)1,6 a 6,4 mgNão consta
Propranolol oral, depois da crise1 a 4 mg/kg/dia em 2 a 3 tomadas (consenso indiano 2019)1 mg/kg/dia = 6,4 mg/dia, cerca de 2 mg de 8/8 h; teto da faixa, 25,6 mg/diaComprimidos de 10 e 40 mg; não há solução oral na lista

Os prazos que o plantão precisa saber

O quêPrazoFonte
Resposta à prostaglandinaMelhora em 15 a 30 minutos; abertura do canal entre 30 minutos e 3 horasManual da SBP 2022; bula do alprostadil
Efeito da prostaglandina sobre o canalPode manter ou reabrir canal com constrição funcional; resposta cai com idade e fechamento anatômico. Não postergar tentativa indicada por presumir fechamento completoManual da SBP 2022; guia federal 2014
Transferência do recém-nascido estabilizadoUrgente, com estabilização e transporte coordenados desde o reconhecimento; melhora inicial não autoriza esperar sete diasSíntese clínica da estabilização e regulação; distinguir do prazo descrito no manual SBP 2022
Atriosseptostomia na transposição com forame restritivo que não responde à prostaglandinaEmergência; mais bem-sucedida abaixo de 6 semanas de vidaGuia federal 2014; consenso indiano 2019
Troca arterial na transposiçãoDe preferência nas primeiras 3 a 4 semanasConsenso indiano 2019
Crises hipoxêmicas do FallotPico do 2º ao 6º mês, maior frequência de 3 meses a 2 anos; cada crise dura de 15 a 60 minutosConsenso indiano 2019; SBC 2019
Correção total do Fallot estável e pouco cianóticoEntre 6 e 12 meses, ou antes pela política do serviçoConsenso indiano 2019
Fallot com crises apesar do tratamento, antes dos 6 mesesPaliação ou correção sem esperar a idade eletivaConsenso indiano 2019
Profilaxia de endocardite na criança cianótica não operadaDose única 1 hora antes do procedimento dentárioSBC 2020 e 2024

Passagem para o centro de cardiologia: informações que mudam a recepção

InformaçãoComo registrar
Fisiologia suspeitaFluxo pulmonar, sistêmico ou mistura; incluir diagnóstico alternativo relevante
EvoluçãoSaturação pré e pós-ductal, perfusão, pressão, lactato e resposta às intervenções
ProstaglandinaPeso usado, concentração, mcg/kg/min, mL/h, horário inicial, acesso e intercorrências
Via aérea e transporteApneias, suporte atual, equipe/equipamentos, reserva de medicação e plano de perda do acesso
Próximo procedimentoNecessidade de ecocardiograma imediato, septostomia ou avaliação cirúrgica; destino e médico receptor

Tetralogia de Fallot, manual da SBP de 2022, Tabela 1 × item 1.1: a tabela lista “Tetralogia de Fallot”, sem qualificação, entre as cardiopatias com fluxo pulmonar canal-dependente — início na primeira semana, saturação abaixo de 85% e prostaglandina E1 como tratamento inicial —, enquanto o item 1.1 do mesmo manual lista só a “Tetralogia de Fallot com atresia pulmonar ou com estenose pulmonar crítica”. A conta da consequência: quase dois terços dos recém-nascidos com Fallot não são cianóticos ao nascer, pelo consenso indiano; lidos pela tabela, recebem uma infusão cuja apneia a bula registra em 10% a 12% das crianças com cardiopatia congênita, e uma transferência de que não precisam. Vale o texto: prostaglandina só no Fallot com hipoxemia que não responde ao oxigênio.

Bicarbonato de sódio, declaração da American Heart Association de 2018, tabela de drogas: manda usar no recém-nascido a solução a 4,2% e a grafa como “0,5 mEq/L”. A concentração certa é 0,5 mEq/mL — o bicarbonato a 8,4% da Rename tem 1 mEq/mL, e diluí-lo pela metade dá 0,5 mEq/mL. O erro é de fator 1.000: para 1 mEq/kg num recém-nascido de 3 kg, os 3 mEq são 6 mL da solução a 4,2%; pela unidade impressa, seriam 6 litros. Prescreva em mEq e em mL, com a concentração em mEq/mL.

Fenilefrina na crise refratária do Fallot, consenso indiano de 2019: infusão de 2 a 5 µg/kg/min, sem bolus. A AHA de 2018 dá bolus de 5 a 20 µg/kg e infusão de 0,1 a 0,5 µg/kg/min, e a SBC de 2019 dá o mesmo bolus. O piso da faixa indiana é 4 vezes o teto americano (2 ÷ 0,5) e o teto indiano é 50 vezes o piso americano (5 ÷ 0,1); num lactente de 6,4 kg, 2 µg/kg/min são 768 µg por hora, contra 192 µg por hora no teto da AHA. A fenilefrina não consta da Rename; onde o hospital a tiver, a infusão segue a faixa da AHA, e este capítulo não usa a linha do consenso indiano.

08

A conduta, hora a hora

A conduta acompanha Galdino, 3.250 g, do teste positivo das 5h40 de domingo até a sala de hemodinâmica do centro de referência. As doses são por quilo, com a conta em mililitros para o peso dele. A prostaglandina segue o manual da SBP de 2022 — a divergência com o guia federal e com a bula está no bloco de divergências —, e a apresentação é a da bula do alprostadil, porque o remédio não está na Rename 2024 e chega à maternidade pela compra do próprio hospital.

O papel do interno numa maternidade regional é o que o manual da SBP dá ao pediatra da assistência neonatal: instituir as medidas de estabilização até que o recém-nascido chegue ao centro terciário. Ninguém espera que ele intube um recém-nascido sozinho ou passe um cateter umbilical sem supervisão. Espera-se que ele não perca a hora, que prepare o que o neonatologista vai usar, que saiba a dose e que escreva o pedido de vaga com o que o cardiologista do outro lado vai perguntar.

  1. Domingo, 5h45 — 27 horas de vida: confirmar ao lado do berço, e não repetir o teste

    Você não chama o resultado de duvidoso. Galdino tem 81% na mão direita e 83% no pé, cianose de mucosas, taquipneia sem esforço e segunda bulha alta sem sopro: é um paciente, e não um exame de triagem que precisa de reteste. Ele sai do alojamento conjunto para um berço aquecido na unidade de cuidados intermediários, com oxímetro contínuo e monitor com alarme de apneia, e a glicemia capilar dá 68 mg/dL. Os dez minutos de cateter nasal já responderam à pergunta que importava: três pontos de saturação, a resposta de um coração com sangue escuro que não passa pelo pulmão. Como a saturação está acima de 80%, o oxigênio não fica correndo por hábito — o alvo será definido com a equipe pela fisiologia suspeita, perfusão e resposta, evitando hiperóxia. A alta prevista para a tarde é suspensa. Você liga para o pediatra na sala de cesárea e resume em uma frase: “recém-nascido de 27 horas com cianose central, 81% que não sobe com oxigênio, sem desconforto e sem sopro; penso em cardiopatia crítica e vou preparar a prostaglandina”.

    Prescrição
    • Transferir para berço aquecido na unidade de cuidados intermediários, com oxímetro contínuo e monitor com alarme de apneia
    • Glicemia capilar agora
    • Oxigênio titulado se necessário, com alvo definido junto à equipe; não perseguir saturação normal com hiperóxia nem atrasar suporte na deterioração.
    • Suspender a alta e comunicar o pediatra de plantão
  2. 5h55 — gasometria, radiografia e a leitura do que o oxigênio mostrou

    Enquanto o pediatra termina a cesárea, você colhe gasometria arterial da radial direita, com lactato: pH 7,31, PaO2 de 39 mmHg, PaCO2 de 38 mmHg, excesso de base de −5 e lactato de 3,1 mmol/L. Não é o teste de hiperóxia formal, que exige oxigênio a 100% e duas amostras, mas uma PaO2 abaixo de 40 mmHg num bebê que acabou de receber oxigênio conta a mesma história: pelo guia federal, PO2 abaixo de 100 mmHg sob oxigênio a 100% aponta cardiopatia cianótica crítica com fluxo pulmonar dependente do canal ou circulação em paralelo. A radiografia no leito mostra área cardíaca no limite, pedículo estreito, trama vascular normal a aumentada e nenhum velamento — o pulmão está limpo, e a trama que não é pobre afasta o grupo da atresia pulmonar e aproxima a transposição. A mãe não teve febre, a bolsa rompeu três horas antes do parto e o bebê está em bom estado: a avaliação do risco de infecção segue o capítulo de sepse neonatal e não atrasa nada do que vem a seguir.

    Prescrição
    • Gasometria arterial com lactato, da radial direita
    • Radiografia de tórax no leito
    • Hemograma e eletrólitos na mesma coleta
  3. 6h10 — prostaglandina antes do ecocardiograma, com acesso seguro

    O pediatra chega, examina, concorda e confirma o que você já sabia: não há ecocardiografista no hospital no domingo, e o manual da SBP não deixa esperar. O acesso periférico já disponível permite iniciar a infusão monitorizada sem esperar o procedimento central. Em paralelo, o neonatologista prepara o cateter umbilical com técnica estéril e confirma sua posição antes do uso como acesso central, seguindo o protocolo da unidade. A troca de via é coordenada para evitar interrupção da prostaglandina. A farmácia libera a ampola de alprostadil de 500 mcg/mL. Pela bula, 1 mL diluído em soro fisiológico até 250 mL dá 2 mcg/mL. A dose inicial da SBP é 0,01 mcg/kg/min: 3,25 kg × 0,01 × 60 = 1,95 mcg por hora, que a 2 mcg/mL são 0,98 mL/h; programar 1 mL/h dá 0,010 mcg/kg/min. Você escreve a dose nas duas unidades, em mcg/kg/min e em mL/h, e pede que a enfermeira confira a conta em voz alta antes de ligar a bomba. Dois detalhes vão para a prescrição porque a bula os exige: a solução preparada vale 24 horas, e a ampola fica na geladeira. O terceiro é seu: a 2 mcg/mL, a dose de 0,05 correria 117 mL por dia, 36 mL/kg/dia só de prostaglandina — se a dose precisar subir, peça a solução a 5 mcg/mL para não afogar o balanço hídrico.

    Prescrição
    • Iniciar pelo acesso venoso seguro disponível; organizar cateter venoso umbilical com o neonatologista, confirmar posição e transferir a infusão sem interrupção.
    • Alprostadil 500 mcg/mL: 1 ampola (1 mL) em SF 0,9% até 250 mL = 2 mcg/mL; preparar nova solução a cada 24 horas
    • Infundir 1 mL/h em bomba de infusão (0,01 mcg/kg/min para 3,25 kg), contínuo, sem interrupção
    • Material de intubação neonatal e bolsa-máscara no berço
    • Temperatura axilar de 1/1 h nas primeiras 6 horas
  4. 6h40 — a regulação: pedir a vaga certa com a informação certa

    A vaga é pedida na primeira hora, e não depois do ecocardiograma que não virá. O pedido vai à central de regulação e fala a língua do cardiologista que vai recebê-lo: idade em horas, peso, saturação na mão e no pé antes e depois da prostaglandina, a dose em mcg/kg/min e em mL/h, o acesso, a via aérea, a gasometria e a descrição da radiografia. A hipótese precisa estar escrita — cardiopatia crítica com circulação em paralelo, provável transposição —, porque ela muda o destino e o prazo: o manual da SBP fala em transferir o bebê estabilizado com urgência assim que houver condições adequadas de transporte, sem utilizar sete dias como espera permitida, mas a transposição com forame restritivo pode precisar de atriosseptostomia em caráter emergencial, pelo guia federal, e só o centro com cardiologia intervencionista a faz. O pedido de vaga para Galdino é de centro com hemodinâmica e cirurgia cardíaca neonatal, com prioridade de urgência.

    Prescrição
    • Solicitar transferência para centro com cardiologia intervencionista e cirurgia cardíaca neonatal, com prioridade de urgência
    • Resumo com peso, idade em horas, saturações antes e depois da prostaglandina, dose em mcg/kg/min e mL/h, acesso, via aérea, gasometria e radiografia
    • Registrar a hipótese: cardiopatia crítica com circulação em paralelo, provável transposição das grandes artérias
  5. 6h35 às 7h05 — os primeiros 30 minutos de prostaglandina: ler a resposta

    Aos 25 minutos de infusão, a saturação está em 86% na mão direita e 88% no pé, a perfusão é boa e Galdino dorme. É a resposta que o manual da SBP espera entre 15 e 30 minutos. A dose não sobe: a SBP manda aumentar gradativamente conforme a resposta, e a bula manda manter a menor dose eficaz. Se a saturação tivesse ficado parada, o degrau seguinte seria 0,02 mcg/kg/min, 2 mL/h nessa solução, com nova leitura em 15 a 30 minutos, até o teto de 0,05 — 4,9 mL/h, ou 1,95 mL/h na solução a 5 mcg/mL. Na segunda gasometria, duas horas depois, o lactato caiu para 2,2 mmol/L. Você anota uma ressalva que vai no resumo: na transposição, uma boa resposta inicial não garante que a mistura atrial vá bastar nos dias seguintes.

    Prescrição
    • Manter alprostadil a 0,01 mcg/kg/min (1 mL/h)
    • Saturação pré e pós-ductal, frequência respiratória e perfusão a cada 15 minutos na primeira hora, depois de 1/1 h
    • Nova gasometria com lactato em 2 horas
    • Sem resposta em 15 a 30 minutos: 0,02 mcg/kg/min (2 mL/h), reavaliando a cada degrau, até 0,05 mcg/kg/min (4,9 mL/h)
  6. 9h20 — a apneia

    O alarme dispara: pausa de 25 segundos, saturação a 58% e frequência cardíaca de 90. Você estimula, ventila com bolsa e máscara, e em 40 segundos Galdino volta a respirar e a saturar 85%. É o efeito adverso mais frequente da prostaglandina, e a bula o descreve justamente no recém-nascido cianótico, nas primeiras horas de infusão. A resposta não é desligar a bomba: o canal fecharia em minutos, e a dose já é a menor da faixa. Às 9h50 vem a segunda pausa. O neonatologista decide intubar antes do transporte, e as três fontes que tratam do assunto convergem para essa decisão: a bula manda considerar a intubação antes do transporte quando a redução da dose não é tolerada; o manual da SBP diz que pode ser mais seguro transportar em ventilação mecânica o bebê com desconforto; a AHA de 2018 lembra que a intubação eletiva de um bebê estável aumenta as complicações do transporte — e Galdino deixou de ser um bebê estável às 9h20. A técnica e o material da intubação estão no capítulo de reanimação neonatal. Na ventilação, o alvo do manual da SBP é saturação entre 85% e 90%, sem parâmetros exagerados.

    Prescrição
    • Estimular e ventilar com bolsa e máscara ao primeiro sinal de apneia
    • Intubação traqueal pelo neonatologista antes do transporte, com a prostaglandina mantida
    • Ventilação mecânica com parâmetros e alvo de saturação definidos pela equipe segundo fisiologia e perfusão; evitar hiperóxia, hipocapnia e pressão excessiva.
    • Não reduzir nem suspender a prostaglandina por causa da apneia
  7. 13h00 — o transporte de 380 km

    A vaga saiu às 11h30, e a equipe de transporte neonatal chega às 13h. O manual da SBP diz onde o transporte mata: acesso venoso e via aérea que se perdem no caminho, e prostaglandina que para. Por isso, antes de a incubadora sair, você confere com a equipe o cateter umbilical fixado, um acesso periférico de reserva, a cânula fixada e com a posição anotada, a bomba com bateria carregada e uma segunda seringa de alprostadil aspirada da mesma solução, e o monitor com eletrocardiograma, oximetria e capnografia. O alvo de saturação do caminho é combinado entre as equipes, como pede o manual. Jerônima está no primeiro dia de pós-parto e não vai na ambulância; a equipe combina com a família quem acompanha e como ela chega ao centro, e você entrega o resumo, a radiografia, as gasometrias e a prescrição em mãos.

    Prescrição
    • Transporte em incubadora com ventilador neonatal e monitor com eletrocardiograma, oximetria e capnografia
    • Alprostadil em bomba com bateria e uma segunda seringa aspirada da mesma solução, a 1 mL/h
    • Dois acessos fixados: cateter venoso umbilical e periférico de reserva
    • Alvo de saturação do transporte combinado com a equipe de destino antes da saída
    • Resumo clínico, radiografia, gasometrias e prescrição entregues à equipe
  8. Segunda, 3h — no centro de referência: a mistura que não bastou

    Galdino chega bem na noite de domingo. De madrugada, a saturação cai para 68%, o lactato sobe para 4,5 mmol/L e a prostaglandina já está em 0,02 mcg/kg/min. O ecocardiograma confirma transposição das grandes artérias com septo ventricular íntegro, canal arterial aberto e forame oval restritivo — o cenário exato em que o guia federal manda fazer a atriosseptostomia de forma emergencial e o consenso indiano a indica com classe I: saturação baixa apesar da prostaglandina, com comunicação interatrial restritiva. A septostomia com balão é feita ali mesmo, guiada por ecocardiograma, e a saturação sobe para 84%. A troca arterial fica marcada para o décimo dia de vida, dentro da janela de três a quatro semanas antes que o ventrículo esquerdo perca a capacidade de sustentar a circulação sistêmica. Na quinta, o telefonema de contrarreferência chega à maternidade regional, e o que ele devolve ao interno é uma conta de tempo: 25 minutos entre o teste positivo e a primeira gota de prostaglandina.

    Prescrição
    • Atriosseptostomia com balão guiada por ecocardiograma no centro de referência
    • Troca arterial programada dentro das primeiras três a quatro semanas de vida
    • Relatório de contrarreferência para a maternidade de origem e para a unidade básica da família
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Como saber se está funcionando

Reavaliar o recém-nascido em prostaglandina é vigiar duas coisas ao mesmo tempo: se o canal abriu e se o remédio está cobrando o seu preço. Na criança que saiu de uma crise hipoxêmica, é vigiar a próxima crise. Os parâmetros abaixo valem para o berçário, para a ambulância e para as primeiras 24 horas depois da crise.

Saturação na mão direita e no péA cada 15 minutos na primeira hora de prostaglandina e a cada degrau de dose; depois, de hora em hora

Esperado: Tendência compatível com o alvo individual e melhora de perfusão, consciência e lactato. Uma saturação dentro de faixa tolerada não compensa acidose ou baixo débito; na transposição, hipoxemia/acidose persistentes apesar de prostaglandina exigem avaliação urgente da mistura atrial.

Se não melhora: Conferir primeiro se a infusão está correndo e se o acesso funciona; depois, subir em degraus até 0,05 mcg/kg/min. Transposição que não passa de 70% a 75% ou mantém acidose: forame restritivo até prova em contrário e atriosseptostomia de emergência pela regulação.

Respiração e apneiaMonitor com alarme contínuo desde o início da infusão; atenção redobrada nas primeiras horas, no bebê com menos de 2 kg e acima de 0,03 mcg/kg/min

Esperado: Sem pausas; frequência respiratória estável

Se não melhora: Estimular e ventilar com bolsa e máscara; apneia que se repete, ou transporte longo pela frente, pede intubação antes de sair — sem desligar a prostaglandina.

Pressão arterial, pulsos femorais e perfusãoDe hora em hora; no bebê com fluxo sistêmico dependente do canal, a cada 15 minutos na primeira hora

Esperado: Pulsos femorais palpáveis, enchimento capilar rápido, diurese presente, pressão estável

Se não melhora: Hipotensão é efeito da prostaglandina, mais comum em dose alta: rever a dose e tratar o choque pelo protocolo neonatal. No grupo sistêmico, pulsos que não voltam depois de 30 minutos pedem o degrau seguinte da dose e o cardiologista na linha.

Gasometria e lactatoNa chegada, 2 horas depois e a cada mudança clínica

Esperado: Lactato em queda e pH acima de 7,1

Se não melhora: Lactato que sobe com saturação baixa: canal que não abriu ou mistura insuficiente. Com pH de 7,1 ou menos, a bula registra risco maior de efeitos da prostaglandina sobre o sistema nervoso central: corrigir a causa e comunicar o centro de referência.

TemperaturaDe hora em hora nas primeiras 6 horas de infusão, depois a cada 4 horas

Esperado: Afebril

Se não melhora: A febre é efeito conhecido da prostaglandina, mas o recém-nascido febril segue o capítulo de sepse neonatal até que a infecção seja afastada; a febre não se atribui ao remédio sem avaliação.

A infusão e o acessoA cada hora e antes de cada deslocamento: bomba ligada, bateria, volume na seringa, linha sem dobra, refluxo no cateter

Esperado: Volume infundido igual ao programado

Se não melhora: A perda do acesso fecha o canal em minutos, pelo manual da SBP: novo acesso imediatamente e prostaglandina retomada na mesma dose, sem esperar a piora.

A criança depois da crise hipoxêmicaA cada 15 minutos na primeira hora e de hora em hora nas 24 horas seguintes

Esperado: Saturação de volta ao basal registrado na caderneta, sopro audível de novo, criança desperta e tranquila, sem acidose na gasometria de controle

Se não melhora: Crise que volta ou saturação abaixo do basal: repetir as medidas, chamar o cardiologista pediátrico e pedir intervenção ou cirurgia de emergência pela regulação.

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Onde o erro machuca

Tratar como pulmão o recém-nascido roxo que respira quieto

O dano: Oxigênio correndo, radiografia para mais tarde e antibiótico, enquanto o canal fecha; o bebê que parecia estável chega à hipóxia grave e à acidose em horas.

Como pegar a tempo: Compare a cor com o esforço e ofereça oxigênio olhando o oxímetro: cianose intensa com pouco esforço e saturação que ganha só alguns pontos é coração até prova em contrário.

Esperar o ecocardiograma, ou a vaga, para iniciar a prostaglandina

O dano: O canal fecha no intervalo, e o guia federal lembra que a prostaglandina não dilata o canal depois do fechamento total; o bebê chega ao centro em choque, ou não chega.

Como pegar a tempo: Com a hipótese clínica de cardiopatia crítica dependente do canal, prostaglandina já, como pedem a SBP e o guia federal; o ecocardiograma e a vaga correm em paralelo.

Repetir o teste do coraçãozinho positivo como se fosse duvidoso e dar alta

O dano: O bebê com 89% ou menos vai para casa com o canal ainda aberto e volta roxo, ou em choque, antes do fim da primeira semana.

Como pegar a tempo: Teste positivo pede reavaliação minuciosa, avaliação cardiológica e ecocardiograma antes da alta, pelo manual da SBP; o reteste em uma hora é só do resultado duvidoso.

Deixar a prostaglandina parar — acesso perdido, seringa vazia, bomba sem bateria no transporte

O dano: O canal volta a fechar em poucos minutos e a piora é abrupta; na estrada, sem acesso, é a situação que o manual da SBP chama de consequência catastrófica.

Como pegar a tempo: Garantir infusão contínua em acesso seguro, fixado, testado e monitorizado, com plano de resgate se houver perda. Organizar acesso central com equipe capacitada, sem atrasar o início pelo periférico disponível. Na transferência entre bombas ou acessos, conferir concentração, dose e fluxo e evitar interrupções.

Desligar a prostaglandina por causa da apneia

O dano: Troca-se um problema de via aérea, que se resolve com ventilação, pelo fechamento do canal, que não se resolve no plantão.

Como pegar a tempo: Apneia se trata com estímulo, ventilação e, se repetir ou houver transporte, intubação; a prostaglandina continua na menor dose eficaz.

Chamar de birra, cólica ou convulsão a crise do lactente com Fallot — e devolvê-lo à fila comum da cirurgia depois dela

O dano: A crise dura até uma hora e pode terminar em convulsão, coma e morte, pela diretriz da SBC; e o menor de seis meses que tem crises apesar do tratamento, pelo consenso indiano, já não é candidato à espera da idade eletiva.

Como pegar a tempo: Em todo lactente com Fallot que chora e fica cada vez mais roxo, colo da mãe em posição genupeitoral e morfina; depois da primeira crise, propranolol e contato direto com o centro para antecipar a cirurgia.

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O que dizer ao paciente e à família

A família de Galdino está na maternidade desde a primeira hora, com a mãe no primeiro dia de pós-parto. Cada fala vem acompanhada do que não dizer, porque a frase errada nessas horas fica na memória da família por anos. As duas últimas falas são com Lázara, mãe de Quirino, o lactente com Fallot do caso resolvido, na alta depois da crise.

O vocabulário muda de família para família, mas três coisas não mudam: dizer o que se sabe e o que ainda falta confirmar, dizer o próximo passo concreto, e nunca deixar que a família descubra um risco pelo alarme do monitor.

Explicar a Jerônima e a Armelino, na primeira hora, por que Galdino foi para o berço aquecido

“Jerônima, Armelino, o Galdino fica roxo porque parte do sangue dele não está passando pelo pulmão para pegar oxigênio. O jeito calmo como ele respira e o fato de o oxigênio quase não mudar a cor me fazem pensar que o problema está no coração, e não no pulmão. Isso nem sempre aparece no pré-natal, e não é nada que vocês fizeram. Ele vai receber agora um remédio na veia que mantém aberto um vasinho que todo bebê tem ao nascer e que fecha nos primeiros dias; enquanto esse vaso estiver aberto, o sangue dele se mistura melhor.”

Não diga: “É só um sopro, coisa simples.” Galdino não tem sopro, e a cardiopatia que se suspeita não é simples; a tranquilização falsa desmorona na hora da transferência e leva junto a confiança da família.

Avisar, antes de ligar a bomba, que o remédio pode fazer o bebê parar de respirar

“Esse remédio tem um efeito que eu preciso contar antes: em alguns bebês, ele faz a respiração parar por alguns segundos. Por isso o Galdino fica no monitor, com alguém olhando, e com o material para ajudar a respirar do lado do berço. Se acontecer, a gente estimula, ajuda com a máscara e, se precisar, coloca um tubo para ele respirar pelo aparelho durante a viagem. Não quer dizer que o coração piorou; é o preço do remédio que está segurando ele.”

Não diga: Começar a infusão sem avisar e deixar a família descobrir a apneia pelo alarme — a cena de um bebê sendo ventilado sem explicação prévia vira, para ela, a prova de que algo deu errado.

Explicar a transferência de 380 km e quem vai junto

“O tratamento do coração do Galdino é feito num hospital com cirurgia cardíaca de recém-nascido, e o mais perto fica na capital. A vaga já foi pedida, como urgência. Ele vai numa ambulância com equipe e aparelhos de UTI, com o remédio correndo o tempo todo. Jerônima, você acabou de ter bebê e precisa ser avaliada antes de viajar; enquanto isso, a enfermagem te ajuda a tirar o leite e guardar. Armelino, a assistente social vai ver com vocês como chegar lá.”

Não diga: “Não sei quando sai a vaga, depende do sistema.” A frase é verdadeira e não serve para nada: a família precisa saber o que já foi feito, o que falta e qual é o próximo passo dela.

Responder a “ele vai precisar operar?” quando a hipótese é transposição

“Se o exame do coração confirmar o que eu penso, as duas artérias grandes do coração dele saíram trocadas de lugar. Isso tem cirurgia, feita nas primeiras semanas de vida, trocando as artérias de posição. Antes dela, pode ser que a equipe precise abrir, com um cateter, uma passagem entre as duas câmaras de cima do coração, para o sangue se misturar melhor. Quem confirma e explica cada passo é a cardiologia de lá; o que eu posso dizer é que, com a cirurgia feita no tempo certo, a grande maioria dessas crianças cresce e leva a vida.”

Não diga: Dar a mortalidade sem tratamento — perto de 90% no primeiro ano — como resposta à pergunta. O número é o da criança que não é tratada, e Galdino está sendo.

Jerônima pergunta se foi alguma coisa que ela fez na gravidez

“Não. Na maioria das vezes, a cardiopatia do bebê acontece sem nenhuma causa que a mãe pudesse ter evitado. O que a equipe de cardiologia vai fazer é examinar o Galdino inteiro, porque às vezes o coração vem junto com outras alterações, e conversar com vocês sobre uma próxima gravidez, com o exame do coração do bebê ainda na barriga.”

Não diga: Listar fatores de risco — diabetes, álcool, desnutrição — como se explicassem este caso: a mãe ouve acusação, e nenhum deles aparece na história dela.

Na alta de Quirino depois da crise, ensinar Lázara a reconhecer a crise e o que fazer

“Lázara, o que o Quirino teve hoje se chama crise de falta de oxigênio, e pode voltar até a cirurgia. Se ele chorar e for ficando cada vez mais roxo, respirando fundo e rápido, pegue ele no colo, dobre os joelhos dele contra a barriga, fale baixo com ele e venha para o pronto-socorro na hora — não espere passar. O remédio novo, o propranolol, é para diminuir essas crises: são 2 mL de 8 em 8 horas, com a seringa que a farmácia vai te dar, sem pular dose. E se ele tiver febre, vômito ou diarreia, traga antes, porque quando ele perde água a crise vem mais fácil.”

Não diga: “Isso é normal no Fallot.” A crise é emergência, e a família que ouve “normal” espera em casa a criança ficar mole.

Lázara pergunta por que a cirurgia não pode mais esperar a idade que tinham combinado

“Porque a crise de hoje mudou o plano. O que estava programado era operar o Quirino mais velho, se ele continuasse bem. Uma crise como a de hoje mostra que a passagem do sangue para o pulmão está estreita demais, e os cardiologistas consideram operar antes, ou fazer uma cirurgia menor que garante sangue ao pulmão até a correção completa. Eu já liguei para o centro e mandei o relatório da crise. A próxima consulta com eles não é mais de rotina.”

Não diga: “Agora é aguardar a fila.” A fila da cirurgia eletiva não é o lugar de uma criança de cinco meses que teve crise, e a família precisa sair sabendo que o pedido mudou de prioridade.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Prostaglandina E1 no recém-nascido: começar em 0,01 e subir até 0,05, ou começar em 0,05 a 0,1?

Começar em 0,01 e subir até 0,05 mcg/kg/min — Sociedade Brasileira de Pediatria, Manual de Orientação nº 4, 2022

Dose inicial de 0,01 mcg/kg/min, aumentada gradativamente até 0,05 conforme a resposta clínica, esperada em 15 a 30 minutos; apneia e hipotensão sobretudo acima de 0,03 mcg/kg/min.

Afiune JY, Rego MAS, Sadeck LSR et al. Sistematização do atendimento ao recém-nascido com suspeita ou diagnóstico de cardiopatia congênita. SBP, Manual de Orientação nº 4, 11/08/2022

Começar em 0,01 e subir até 0,1 mcg/kg/min — Ministério da Saúde, Atenção à saúde do recém-nascido, volume 3, 2014

Dose inicial de 0,01 µg/kg/min, que pode chegar a 0,1 quando não há resposta adequada; boa resposta esperada em 30 a 60 minutos; apneia e hipotensão sobretudo acima de 0,05 µg/kg/min.

Brasil. Ministério da Saúde. Atenção à saúde do recém-nascido: guia para os profissionais de saúde. 2. ed. atual., 2014, v. 3, item 24.4.3

Começar em 0,05 a 0,1 e reduzir à menor dose eficaz, com teto de 0,4 — bula do alprostadil (posologia de 2020); American Heart Association, 2018

A bula inicia com 0,05 a 0,1 µg/kg/min, reduz para 0,01 a 0,025 depois do efeito e admite até 0,4 quando 0,05 a 0,1 não bastou, com efeitos colaterais sérios frequentes. A declaração da AHA usa 0,05 a 0,1 para abrir o canal e doses menores para mantê-lo, e associa doses abaixo de 0,015 a menos apneia no transporte.

Bula do Alproxy (alprostadil 500 mcg/mL), posologia alterada em 14/02/2020; Marino BS et al. Circulation. 2018;137(22):e691-e782

Como decidir

O escopo não desempata: os três documentos brasileiros foram escritos para o mesmo recém-nascido com cardiopatia dependente do canal. Decide o segundo degrau, a data. O manual da SBP de 2022 é mais novo que a posologia da bula, de 2020, e que o guia federal, de 2014; a declaração americana, de 2018, só entraria onde a régua brasileira calasse, e aqui ela fala. Esta apostila adota a SBP: comece em 0,01 mcg/kg/min, reavalie em 15 a 30 minutos e, sem resposta, suba em degraus até 0,05, com o material de intubação no berço desde a primeira gota. Acima de 0,05, o bebê à sua frente sai da régua mais nova e entra na da bula, que vai até 0,4 com efeitos sérios frequentes: essa decisão se toma com o cardiologista pediátrico na linha, e não sozinho no plantão. O lado perdedor ensina uma coisa útil — a bula e a AHA começam alto porque pensam no canal que precisa ser reaberto —, e é por isso que a subida em degraus não pode ser lenta: cada degrau espera 15 a 30 minutos, não uma manhã.

Todo recém-nascido com suspeita de transposição recebe prostaglandina, ou só o que satura abaixo de 75% ou tem acidose?

Prostaglandina na suspeita clínica, com hipoxemia que não responde ao oxigênio, sem corte numérico — SBP, 2022; Ministério da Saúde, 2014

O manual da SBP indica a prostaglandina de imediato na hipoxemia persistente e não responsiva ao oxigênio das cardiopatias com circulação em paralelo, sem esperar o ecocardiograma, e o fluxograma do manual inclui a transposição entre as que a iniciam; o guia federal a indica nas cardiopatias com circulação em paralelo.

SBP, Manual de Orientação nº 4, 2022; Ministério da Saúde, Atenção à saúde do recém-nascido, v. 3, 2014, item 24.4.3

Prostaglandina se a saturação estiver abaixo de 75% ou houver acidose lática — consenso indiano, 2019

Na estabilização pré-cirúrgica da transposição, o consenso considera desejável saturação acima de 70% quando não há acidose nem outro sinal de hipóxia tecidual, e manda iniciar a prostaglandina logo após o parto se a saturação estiver abaixo de 75% e/ou houver acidose lática.

Saxena A, Relan J, Agarwal R, et al. Ann Pediatr Cardiol. 2019;12(3):254-286

Como decidir

Decide o primeiro degrau, o escopo. O consenso indiano foi escrito para indicar o momento da intervenção a partir de centros com cardiologia pediátrica, onde o ecocardiograma e a septostomia estão a um corredor de distância; o manual da SBP foi escrito para o recém-nascido que está na maternidade, longe do centro, antes do diagnóstico anatômico e antes de um transporte — que é o bebê à frente do interno. Esta apostila adota a SBP: o recém-nascido com cianose que não responde ao oxigênio e hipótese de circulação em paralelo recebe prostaglandina já, mesmo saturando 81%, como Galdino. O corte indiano não some: ajuda depois, no centro de referência, a decidir quem continua na infusão e quem vai à septostomia, e ajuda o interno a entender que uma transposição já em prostaglandina que satura 72% sem acidose não pede, por esse número sozinho, que a dose suba sem parar — pede a pergunta sobre o septo interatrial.

Prostaglandina só por acesso venoso profundo, ou pelo acesso que já existe enquanto o profundo não fica pronto?

Acesso venoso profundo, preferencialmente central; periférico não recomendado — SBP, 2022; Ministério da Saúde, 2014

Os dois documentos recomendam infundir a prostaglandina por acesso venoso profundo, preferencialmente central, e não recomendam o periférico, porque a perda temporária do acesso interrompe a infusão e o canal pode voltar a fechar em minutos, com consequências catastróficas. Os mesmos documentos mandam iniciar o remédio de imediato.

SBP, Manual de Orientação nº 4, 2022; Ministério da Saúde, Atenção à saúde do recém-nascido, v. 3, 2014, item 24.4.3.2

Infusão intravenosa ou intraóssea — American Heart Association, 2018; veia grande, preferencialmente — bula do alprostadil

A tabela de drogas da declaração da AHA lista a prostaglandina E1 em infusão intravenosa ou intraóssea, tanto para abrir quanto para manter o canal. A bula prefere a infusão contínua em veia grande, com bomba, sem proibir outra via.

Marino BS et al. Circulation. 2018;137(22):e691-e782; bula do Alproxy (alprostadil 500 mcg/mL)

Como decidir

O acesso central oferece maior estabilidade e deve ser organizado com equipe capacitada, mas a suspeita de dependência do canal exige tratamento imediato. A referência da AHA admite infusão intravenosa ou intraóssea; portanto, iniciar pelo periférico disponível, bem fixado, testado e vigiado, é uma alternativa enquanto se obtém acesso mais estável. Usar bomba, alarmes, plano para perda de acesso e conferência da concentração na transferência. A prostaglandina pode reabrir um canal funcionalmente constrito, mas a resposta se torna menos provável com fechamento anatômico; isso reforça a urgência e não justifica esperar nem descartar tentativa indicada pela equipe.

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O raciocínio, em voz alta

Quirino Gameleiro, 5 meses e 6,4 kg, tem tetralogia de Fallot diagnosticada aos 2 meses, quando o pediatra da unidade básica ouviu um sopro na consulta de puericultura. O ecocardiograma mostrou comunicação interventricular ampla, aorta cavalgando e estenose infundibular e valvar pulmonar; a saturação basal anotada na caderneta é de 88%, e a correção estava marcada para depois dos 6 meses, no centro de referência da capital. Às 7h10 de uma quarta-feira, Lázara chega com ele no colo à UPA: acordou, chorou para mamar, “foi ficando roxo escuro e começou a respirar fundo”, há vinte minutos. Na sala de emergência, ele está agitado e inconsolável, com cianose intensa de lábios e unhas, frequência respiratória de 70 com respiração profunda e sem tiragem, frequência cardíaca de 176, saturação de 58% e enchimento capilar de 3 segundos. O sopro sistólico que a caderneta descreve como rude está fraco. Teve diarreia ontem, com seis evacuações, e mamou pouco. Não tem acesso venoso.

  1. o que é

    É crise hipoxêmica. Nada no quadro é de broncoespasmo — não há sibilo nem tiragem — nem de convulsão: é a sequência que a diretriz da SBC de 2019 descreve, com cianose crescente, taquipneia e agitação. O sopro fraco é o dado que mais pesa: o infundíbulo fechou, passa menos sangue pela via de saída do ventrículo direito e mais sangue escuro atravessa a comunicação para a aorta. A diarreia da véspera é o gatilho provável, porque o lactente que perdeu líquido enche menos o ventrículo direito, e a via de saída estreita se fecha com mais facilidade. Tudo o que se fizer agora serve para inverter esse desvio.

  2. a primeira coisa, sem agulha

    Quirino vai para o colo de Lázara, com os joelhos dobrados contra o peito — a posição genupeitoral que a diretriz brasileira usa para aumentar a resistência vascular sistêmica e empurrar o sangue de volta para o pulmão. A sala fica quieta e ninguém tenta puncionar veia nesse momento, porque a agitação alimenta a crise. O oxigênio entra da forma que ele aceita, como pede a diretriz: uma máscara segurada perto do rosto, no colo da mãe, e não uma máscara presa que ele arranca chorando. O oxímetro fica no pé.

  3. a morfina, e por que intramuscular

    Em três minutos, a saturação sobe para 62%, e ele continua respirando fundo. A Tabela 12.3 da diretriz da SBC dá morfina 0,1 mg/kg e admite a via intramuscular, a que dispensa o acesso agora: 6,4 kg × 0,1 = 0,64 mg. A ampola da Rename tem 10 mg/mL, e 0,064 mL não se mede com segurança; 1 mL da ampola em 9 mL de soro fisiológico dá 1 mg/mL, e a dose são 0,64 mL, no vasto lateral da coxa. A morfina seda e reduz a hiperpneia que mantém o ciclo; em dez minutos, Quirino está mais calmo e a saturação chega a 71%. O risco dela é a depressão respiratória, e o oxímetro e os olhos de alguém ficam nele.

  4. o volume

    Com ele calmo, a punção venosa deixa de ser gatilho, e o acesso sai na primeira tentativa. O consenso indiano de 2019 pede soro fisiológico em bolus de 10 a 20 mL/kg; a diretriz brasileira fala em adequação da volemia, e Quirino chegou desidratado. São 64 mL no primeiro bolus, com mais 64 mL se a perfusão e a saturação ainda pedirem. O volume enche o ventrículo direito e alarga a via de saída; numa criança que perdeu líquido na véspera, é a medida que mais rende depois da posição.

  5. a gasometria e o bicarbonato

    A gasometria venosa colhida no mesmo acesso mostra pH 7,19, bicarbonato de 13 mEq/L e excesso de base de −12: acidose metabólica, a que alimenta a hiperpneia. O consenso indiano indica bicarbonato de 1 a 2 mEq/kg, diluído, e a AHA de 2018, de 1 a 2 mEq/kg em infusão lenta, ajustado ao déficit de base. Com 1 mEq/kg: 6,4 mEq, que são 6,4 mL do bicarbonato a 8,4% da Rename, diluídos em 6,4 mL de água para injeção — 12,8 mL a 4,2%, em infusão lenta, por uma linha que não recebe cálcio, com o qual ele precipita. Aos 25 minutos da chegada, a saturação está em 80%.

  6. se a crise não cedesse: o que o especialista acrescenta

    Se a saturação tivesse parado abaixo de 70% depois da posição, da morfina, do volume e do bicarbonato, o passo seguinte seria aumentar a resistência sistêmica com droga. A fenilefrina, que a SBC e a AHA dão em bolus de 5 a 20 mcg/kg — 32 a 128 mcg para Quirino —, não consta da Rename. A mesma tabela da SBC oferece a noradrenalina em infusão de 0,05 a 2 mcg/kg/min, e ela consta: a 0,05, são 19,2 mcg por hora, que numa solução de 20 mcg/mL correm a 0,96 mL/h, por acesso seguro e com monitorização. O metoprolol venoso que a SBC lista não tem forma injetável na Rename, e a cetamina que o consenso indiano usa na crise refratária também não consta. A crise que não cede com isso pede intubação, anestesia e intervenção ou cirurgia de emergência — e o pedido vai à regulação na mesma hora em que a noradrenalina é preparada, não depois.

  7. depois da crise, o plano muda

    Quirino sai da crise com saturação de 86%, perto do basal, e o sopro volta a ser rude. A crise obriga a rever o plano cirúrgico: o consenso indiano indica paliação — desvio sistêmico-pulmonar, stent de canal ou da via de saída, valvoplastia — ou correção total, conforme a anatomia e a experiência do serviço, no menor de seis meses com cianose importante ou com crises apesar do tratamento, e Quirino, com cinco meses e a primeira crise, está na porta desse critério. Quem decide se antecipa é o centro, com a anatomia na mão; o que cabe ao plantão é que o centro saiba hoje — por telefone, com relatório escrito, e não pela fila da consulta. O mesmo consenso manda propranolol oral na maior dose tolerada, habitualmente de 1 a 4 mg/kg/dia em duas a três tomadas: começando por 1 mg/kg/dia, são 6,4 mg por dia, cerca de 2 mg de 8 em 8 horas, com o teto da faixa em 25,6 mg por dia. A Rename só tem comprimidos de 10 e 40 mg; a dose do lactente pede solução preparada pela farmácia a partir do comprimido, e a prescrição sai em miligramas e em mililitros — a 1 mg/mL, 2 mL de 8 em 8 horas.

  8. o que vai para casa com a mãe

    A hemoglobina de Quirino é 11,8 g/dL. Num lactente sem cardiopatia, seria um número para investigar sem pressa; numa criança cianótica, está abaixo dos 14 g/dL que o consenso indiano pede manter, e a investigação e o ferro seguem o capítulo de anemia ferropriva da apostila de Hematologia Pediátrica, com esse alvo anotado no pedido. Lázara sai sabendo reconhecer a crise, pôr o filho na posição e vir na hora, dar o propranolol sem pular dose e trazer cedo a febre, o vômito e a diarreia. Leva também a regra do dentista: enquanto não for operado, Quirino recebe amoxicilina 50 mg/kg — 320 mg, 6,4 mL da suspensão de 50 mg/mL — uma hora antes de procedimento dentário. A elegibilidade ao nirsevimabe na sazonalidade segue o quadro da estratégia do Ministério da Saúde que o capítulo das acianóticas ensina.

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Faça você

Jacinta Ribeirinho, 12 dias e 3,1 kg, nasceu a termo com 3.200 g e teve alta com 30 horas; o teste do coraçãozinho foi feito com 20 horas de vida e anotado como normal, 95% na mão direita e 96% no pé. Ontem à noite, a avó, Cleonilda, achou a boca dela roxa; hoje ela mama pouco e dorme muito. No pronto atendimento do hospital de pequeno porte da cidade, sem UTI neonatal, Jacinta está com saturação de 68% em ar ambiente e 71% com oxigênio por cateter, frequência respiratória de 56 sem tiragem, frequência cardíaca de 168, pulsos femorais palpáveis, sem febre e com glicemia de 74 mg/dL. Não há sopro nítido. A radiografia mostra pulmões sem velamento e pouco vascularizados. Um acesso periférico já foi puncionado no dorso da mão; o coto umbilical caiu no quinto dia, e ninguém no plantão já cateterizou a veia umbilical de um bebê dessa idade.

  1. o teste que não protegeu

    Diga o que o teste normal feito com 20 horas de vida significa hoje e por que ele não afasta cardiopatia crítica.

  2. coração ou pulmão

    Com os dados da vinheta, decida entre doença pulmonar e cardiopatia e diga em que grupo fisiopatológico Jacinta se encaixa.

  3. a prostaglandina num hospital sem acesso profundo

    Decida se a prostaglandina começa agora, por qual acesso, em que dose e a quantos mL/h, e o que precisa estar pronto antes de ligar a bomba.

  4. a vaga e o relógio

    Decida o que pedir à regulação e explique por que o décimo segundo dia de vida torna o pedido mais urgente.

Ver como fecharíamos

O teste de 20 horas foi feito antes da janela de 24 a 48 horas que o manual da SBP recomenda, e com o canal ainda aberto: a saturação normal naquele momento não afasta a cardiopatia que só aparece quando o canal fecha, e o próprio manual lembra que o teste negativo não exclui cardiopatia congênita — com sensibilidade de 76%, uma em cada quatro cardiopatias críticas passa por ele. Jacinta tem cianose intensa com pouco esforço, oxigênio que acrescenta três pontos, pulmão sem velamento e com pouca trama, e pulsos femorais presentes: é cardiopatia com fluxo pulmonar dependente do canal — atresia pulmonar, estenose pulmonar crítica ou um Fallot extremo — até prova em contrário, e o canal está fechando. A prostaglandina começa agora, sem ecocardiograma, porque nem o manual da SBP nem o guia federal deixam esperar. Pela divergência sobre o acesso, esta apostila adota iniciar pelo periférico que já está na veia, fixado e vigiado, enquanto se busca o acesso profundo — aos 12 dias, o cateterismo umbilical deixou de ser o caminho simples, e esperar a via central pode agravar a hipoperfusão ou a hipoxemia; se o periférico falhar, o intraósseo. A dose é a inicial da SBP, 0,01 mcg/kg/min: 3,1 × 0,01 × 60 = 1,86 mcg por hora, que numa solução a 2 mcg/mL correm a 0,93 mL/h. Antes de ligar a bomba: material de intubação e bolsa-máscara no leito, monitor com alarme de apneia, um segundo acesso e a ampola na mão — o alprostadil não está na Rename, e se o hospital não o tiver, a regulação precisa saber disso na primeira frase. Com saturação abaixo de 80%, o oxigênio fica, sabendo que ajuda pouco. Reavaliar em 15 a 30 minutos e subir em degraus até 0,05 se não houver resposta. O pedido de vaga é de urgência, para centro com cardiologia intervencionista e cirurgia cardíaca neonatal, com as saturações, a dose em mcg/kg/min e em mL/h, o acesso e a via aérea. E o relógio: o efeito da prostaglandina se reduz até o fim do primeiro mês, pela SBP, e a resposta é insatisfatória depois da quarta semana, pelo guia federal — aos 12 dias, cada dia de espera gasta uma janela que não volta.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

O teste francamente alterado e a cianose desproporcional ao esforço exigem estabilização e investigação de cardiopatia crítica, sem esperar o ecocardiograma de segunda-feira. A pequena resposta ao oxigênio é uma pista, não confirmação etiológica. Na suspeita de dependência do canal, iniciar prostaglandina E1 com a equipe, monitorização e material para ventilação, usando acesso seguro disponível enquanto se organiza acesso mais estável. Acionar regulação em paralelo. Um resultado positivo não deve ser tratado como teste duvidoso nem permitir alta; manter também o diferencial pulmonar e infeccioso.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Simule com o preceptor dois cenários: recém-nascido cianótico com provável dependência do canal e lactente com Fallot em crise. Explique a anatomia e a fisiologia presumidas, as limitações da resposta ao oxigênio e o motivo de cada medida. Consulte a tabela para conferir concentração, dose e fluxo, faça dupla checagem e ensaie uma passagem telefônica com reavaliação e plano de transporte. Depois acrescente apneia, piora do lactato ou perda do acesso e diga como o plano muda. O objetivo é reconhecer deterioração, pedir ajuda e executar com segurança.

Em 30 dias

Nos próximos 30 dias, em cada plantão de maternidade ou de pronto-socorro infantil, descubra e anote três coisas: onde fica a ampola de alprostadil e quem a libera à noite; se o serviço tem protocolo escrito de diluição e quem confere a conta; e qual é o caminho da regulação até o centro de referência de cardiologia pediátrica da sua região. A cada teste do coraçãozinho positivo ou recém-nascido cianótico que cruzar o seu caminho, registre a hora do primeiro sinal, a hora da primeira dose de prostaglandina e a hora da vaga. A cada criança com Fallot na puericultura, confira se a saturação basal está anotada na caderneta, se a família sabe reconhecer uma crise e o que fazer, e se a hemoglobina foi lida com o alvo da criança cianótica.

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Agora atenda

Agora atenda: Cleto Gavião, 14 meses e 9,2 kg, trazido pelo pai, Raimundino, à unidade básica porque cansa ao brincar e se agacha para descansar; tem tetralogia de Fallot diagnosticada aos 3 meses e perdeu as duas últimas consultas no centro de referência por falta de transporte. Chega com saturação de 82% e hemoglobina de 12,6 g/dL. Decida o que a saturação e o cansaço dizem, se ele corre risco de crise e o que o pai precisa saber fazer em casa, como ler a hemoglobina de uma criança cianótica, se ele recebe antibiótico antes do dentista, e como fazer o caminho da cirurgia voltar a andar.

Cardiopatias congênitas cianóticas – O roxo que o oxigênio não corrige — Internato | OsceLabs