Cirurgia GeralCirurgia Pediátrica

A bolsa vazia e o caroço que vai e volta

Hérnia inguinal, hidrocele e criptorquidia na infância

Distinguir hérnia, hidrocele e testículo não descido, reconhecer urgência e garantir encaminhamento e acompanhamento na idade apropriada.

Fontes deste capítulo

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL, Faculdade de Medicina, Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia, TelessaúdeRS-UFRGS; RIO GRANDE DO SUL, Secretaria da Saúde. Protocolos de encaminhamento para Urologia Pediátrica. Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS, 2020. 15 p. Elaborado em 9 de março de 2020; publicado ad referendum conforme resolução CIB/RS 764/2014.

RADMAYR C (Chair), BOGAERT G (Vice-chair), BUJONS A, BURGU B, CASTAGNETTI M, 'T HOEN LA, O'KELLY F, PAKKASJÄRVI NA, QUAEDACKERS J, RAWASHDEH YFH, SILAY MS. EAU Guidelines on Paediatric Urology. Arnhem: European Association of Urology, 2026. Limited update March 2026. Compilação: EAU Guidelines, Edn. presented at the EAU Annual Congress; ISBN da coletânea de 2024: 978-94-92671-23-3.

GABRIEL E. Hérnia inguinal na infância. Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões. 2001;28(6):444-451. Artigo de atualização. Recebido em 23/08/2001, aceito para publicação em 16/10/2001.

HIP TRIAL INVESTIGATORS; BLAKELY ML, KRZYZANIAK A, DASSINGER MS, PEDROZA C, WEITKAMP JH, GOSAIN A e cols. Effect of Early vs Late Inguinal Hernia Repair on Serious Adverse Event Rates in Preterm Infants: A Randomized Clinical Trial. JAMA. 2024;331(12):1035-1044. DOI 10.1001/jama.2024.2302. Registro ClinicalTrials.gov NCT01678638.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Caderneta da Criança: Passaporte da Cidadania — Menino. 7ª ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 112 p. Versão eletrônica.

01

Responda antes de ler

Consulta de puericultura numa unidade básica. Lactente de 4 meses, nascido a termo, hígido, ganhando peso. A mãe conta que aparece um caroço na virilha esquerda quando ele chora e que some sozinho depois. Ao exame, com a criança tranquila, a região inguinal é normal; ao contê-la pelos braços, surge tumefação inguinoescrotal macia que você reduz com dois dedos. Os dois testículos estão na bolsa. O que você faz?

02

O paciente que você vai ver

Sete e cinquenta da manhã de uma terça-feira. A unidade básica fica no fim de uma rua que vira barro quando chove, atende catorze mil pessoas e tem duas equipes de saúde da família. Hoje é dia de puericultura na sala 2, e você é o interno escalado com a Marulina Xiquexique, médica de família que trabalha aqui há nove anos e que, às sete e cinquenta, já está de jaleco com a agenda impressa na mão.

São dezessete nomes. A agenda de puericultura costuma ser assim: peso, comprimento, perímetro cefálico, vacina, marco de desenvolvimento, orientação, próxima consulta. O que muda hoje é que três fichas trazem alguma coisa escrita à mão pela auxiliar no campo da queixa, e as três estão na mesma região do corpo.

A primeira diz: “mãe refere caroço na virilha quando ele chora”. É o Josefino Arataca, quatro meses, primeira consulta nesta unidade porque a família mudou de bairro há três semanas. A segunda diz: “bolsa escrotal aumentada à direita desde o nascimento — mãe pergunta se precisa operar”. É o Raimundino Gravatá, nove meses. A terceira diz: “pediatra anterior anotou testículo não descido — trouxe a caderneta”. É o Panteleão Itacoatiara, catorze meses.

A Marulina vira a agenda para você e diz uma coisa que vale o resto do dia: “Três queixas na mesma região, três decisões diferentes. Uma delas é para operar sem demora, outra é para esperar, e a terceira tem prazo. Se você tratar as três do mesmo jeito, vai errar duas.”

Você examina o Josefino primeiro. A mãe, a Micaela, desamarra o macacão e você faz o que quase ninguém faz numa consulta de puericultura: tira a fralda. A bolsa escrotal está normal, os dois testículos estão lá. À esquerda, na região inguinal, não há nada visível com a criança quietinha no colo. Você põe a mão, o menino se irrita com o toque frio, chora — e aparece. Uma tumefação alongada, macia, que some quando ele para de chorar. Você a empurra com dois dedos e ela desaparece com um borborigmo. A Micaela diz: “é isso mesmo, aparece quando ele faz força e some sozinho, por isso eu pensei que não fosse nada”.

O Raimundino tem a bolsa direita do tamanho de um ovo de codorna, lisa, indolor, e o testículo não se palpa bem porque a coleção está na frente dele. Você encosta a lanterna do celular na pele e a bolsa acende inteira, vermelha e translúcida. A mãe conta que de manhã, quando ele acorda, a bolsa é quase normal, e que ao fim da tarde ela fica assim. Ao empurrar de leve, o volume diminui, e o escroto volta a encher em alguns minutos quando ele senta.

O Panteleão está com a caderneta na mão da mãe. Na página da consulta do segundo mês há um campo impresso com a palavra criptorquidia e uma marcação de “sim”. Nas páginas seguintes — quarto mês, sexto mês, nono mês, doze meses — não há campo nenhum para isso, e ninguém escreveu nada. A bolsa esquerda dele é menor, mais lisa, e o testículo esquerdo não está lá. Você desliza os dedos pelo canal inguinal e sente um caroço que rola sob a mão. Consegue trazê-lo até a metade da bolsa, mas assim que você solta ele sobe de volta como um elástico. O menino tem catorze meses.

Às nove e vinte, quando a Marulina está terminando o encaminhamento do Panteleão, a auxiliar abre a porta sem bater. “Doutora, a mãe do menino de quatro meses voltou. Ele começou a chorar no corredor e não para.”

É o Josefino. Ele saiu daqui há uma hora com o pedido de encaminhamento na mão. Agora está no colo da Micaela, encolhido, chorando um choro diferente do choro de fome, com as pernas dobradas sobre a barriga. Vomitou uma vez no corredor, e o vômito ficou na roupa da mãe: leite coalhado, esverdeado nas bordas. Você desamarra o macacão de novo. Do lado esquerdo, na virilha, agora há um abaulamento tenso, do tamanho de uma ameixa, que se estende para a raiz da bolsa. Está duro. Está quente. Quando você encosta, ele grita.

Você tenta empurrar como empurrou de manhã e não vai. A massa não se move. O abdome começa a distender. E você percebe, ao mesmo tempo, duas coisas: que a criança que estava aqui há uma hora com um problema eletivo agora tem um problema de horas, e que a unidade onde vocês estão não tem centro cirúrgico, não tem cirurgião pediátrico, e fica a cinquenta e um quilômetros do hospital que tem.

Este capítulo é sobre as quatro coisas que passam pelo mesmo canal — a hérnia, a hidrocele, o cisto do cordão e o testículo que não desceu — e sobre por que elas exigem condutas opostas. É sobre um exame que custa dez segundos e que quase ninguém faz porque a criança não é despida. É sobre por que a regra do adulto, aquela em que a hérnia pouco sintomática pode ser observada, não se transfere para o lactente. E é sobre um prazo que, quando passa, não volta.

03

Quem adoece disso

Vale começar pelo tamanho do problema, que é o que explica estas quatro coisas caberem num único capítulo de internato: a correção da hérnia inguinal é a operação mais comum da infância. Não é a mais grave nem a mais difícil — é a mais frequente, e é por isso que o interno a encontra em qualquer serviço que atenda criança, esteja ele na atenção primária, no pronto-socorro ou na enfermaria.

A hérnia inguinal ocorre em 1% a 2% dos recém-nascidos a termo, com predomínio masculino que vai de quatro para um até dez para um, e a distribuição por lado, no texto brasileiro de atualização sobre o tema, é de cerca de 60% à direita, 25% à esquerda e 15% bilateral. Nas crianças de muito baixo peso o predomínio masculino se inverte e a hérnia passa a ser mais frequente no sexo feminino — um detalhe que raramente é lembrado e que muda a probabilidade a priori diante de uma menina prematura com massa inguinal.

O prematuro é outra população. O manual brasileiro de seguimento do recém-nascido de alto risco registra hérnia inguinal em 5% dos pré-termos com peso ao nascer abaixo de 1.500 g e em cerca de 30% dos que nasceram com menos de 1.000 g, mais frequente ainda nos pequenos para a idade gestacional e no sexo masculino. É uma frequência de outra ordem de grandeza, e ela vem junto com o segundo achado do mesmo manual: a distopia testicular acomete 33% dos pré-termos. Quem cuida de egresso de unidade neonatal está diante de uma população em que quase um terço dos meninos tem o testículo fora do lugar e uma fração relevante tem hérnia — e as duas coisas são procuradas pelo mesmo gesto.

A irredutibilidade é a complicação que organiza toda a conduta, e a sua frequência é o argumento que separa a criança do adulto. Nos bebês abaixo de três meses, a incidência de encarceramento relatada chega a 28,3%: quase uma em cada quatro hérnias diagnosticadas nessa faixa fica presa em algum momento. O capítulo Invaginação intestinal do lactente, na posição 1 desta mesma apostila, mede o outro lado da mesma moeda — a hérnia encarcerada é a maior responsável por obstrução intestinal no primeiro semestre de vida, e 70% dos encarceramentos ocorrem abaixo de um ano. Os dois números dizem a mesma coisa por caminhos diferentes: o risco é alto e é inversamente proporcional à idade.

A criptorquidia tem números próprios e bem estabelecidos. A diretriz europeia de urologia pediátrica, em sua atualização limitada de março de 2026, dá incidência de 1,0% a 4,6% nos recém-nascidos a termo e de 1,1% a 45% nos pré-termos, faixa larguíssima porque depende inteiramente da idade gestacional. Depois da descida espontânea que acontece nos primeiros meses, cerca de 1,0% de todos os meninos nascidos a termo ainda têm o testículo fora da bolsa ao completar um ano. O acometimento é bilateral em até 30% dos casos. Aproximadamente 80% dos testículos não descidos são palpáveis; entre os 20% não palpáveis, a maior parte está dentro do abdome, no canal ou espiando o anel interno, uma parcela é atrófica e uma parcela simplesmente não existe.

O conduto peritoniovaginal, que é a peça anatômica comum às quatro apresentações, é pérvio em 80% a 94% dos recém-nascidos e permanece pérvio em 20% dos adultos. Isso significa duas coisas ao mesmo tempo, e as duas importam: quase todo recém-nascido tem a via aberta, e a maioria esmagadora nunca terá hérnia nenhuma. Persistência do conduto e doença não são a mesma coisa. É por isso que operar o lado que não tem sintoma é uma decisão difícil, e não uma decisão óbvia.

A hidrocele fecha sozinha, e há números para isso. A mesma diretriz europeia registra 92% de resolução abaixo de um ano de idade e 43% acima de três anos — a taxa cai com a idade, mas não cai a zero, e é isso que torna a escolha de um prazo uma decisão e não uma dedução. Na hidrocele adquirida, não comunicante, a chance de resolução espontânea é de 75% e o período de observação recomendado é de seis a nove meses.

### Onde essas crianças deveriam ser encontradas, e o que o instrumento nacional pergunta

A porta de entrada dessas quatro condições é a consulta de rotina, não o pronto-socorro. Quem faz o exame é quem pesa e mede a criança todo mês no primeiro semestre. Vale, portanto, olhar o instrumento que organiza essa consulta no Brasil — e o resultado dessa conferência é o achado epidemiológico mais desconfortável deste capítulo.

A Caderneta da Criança — Passaporte da Cidadania, versão menino, 7ª edição de 2024, do Ministério da Saúde, tem 112 páginas e organiza as consultas recomendadas do nascimento aos nove anos. A palavra criptorquidia aparece nela exatamente uma vez: na lista de sinais de alerta da consulta do segundo mês. A expressão hérnia inguinal aparece exatamente uma vez: na lista de sinais de alerta da consulta do quarto mês. As palavras testículo, escroto, escrotal, bolsa escrotal e genital não aparecem nenhuma vez em todo o documento. Conferi a 3ª edição, de 2021, e ela traz exatamente a mesma distribuição — não é novidade da edição atual nem descuido de uma tiragem.

O problema não é a existência dos dois campos; é o calendário deles. O protocolo brasileiro que governa o encaminhamento manda encaminhar o testículo retido depois dos quatro meses de idade, ou de idade corrigida no prematuro. A caderneta pergunta por criptorquidia aos dois meses — dois meses antes de a regra disparar, numa idade em que a descida espontânea ainda é esperada e em que a resposta “sim” não decide nada — e não volta a perguntar nunca mais. A consulta do quarto mês, que é justamente a do prazo, tem campo para hérnia e não tem campo para criptorquidia. Quem seguir a caderneta ao pé da letra faz a pergunta certa na idade errada e não a repete na idade certa.

### Qual régua o Brasil usa — e o que ele não tem

Declare isto no atendimento, porque muda o que você pode citar quando alguém discordar: não existe diretriz brasileira de sociedade sobre hérnia inguinal, hidrocele ou criptorquidia na criança. O que existe no país são documentos de regulação de acesso, que dizem quem entra em fila e com que prioridade, e não dizem como se opera nem quando.

São três, e vale saber o que cada um cobre. O primeiro é o Protocolo de encaminhamento para Urologia Pediátrica, do TelessaúdeRS-UFRGS com a Secretaria Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul, elaborado em 9 de março de 2020 — o único documento brasileiro em uso que fixa prazos para o testículo retido e para a hidrocele. O segundo é o anexo de cirurgia pediátrica dos Protocolos de Acesso Ambulatorial: Consultas Especializadas do Ministério da Saúde, de 2015, construído sobre a prática dos hospitais federais do Rio de Janeiro, que lista hérnia inguinal, hidrocele, fimose e criptorquidia como motivos de encaminhamento em “todos os casos”. O terceiro é a Carteira de Serviços da Atenção Primária à Saúde, que arrola “hérnia inguinal e hidrocele, testículo retido” entre os problemas do recém-nascido e do lactente que a atenção primária deve identificar e manejar.

Nenhum dos três é uma diretriz clínica. O texto brasileiro mais completo especificamente sobre hérnia inguinal na infância publicado em revista cirúrgica nacional é um artigo de atualização da Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, de novembro-dezembro de 2001 — vinte e cinco anos atrás. Ele continua sendo excelente clinicamente, e este capítulo o usa; mas um texto de 2001 não sabe do que se descobriu depois, e você verá adiante exatamente onde ele envelheceu.

Do outro lado, as duas grandes réguas de hérnia inguinal disponíveis excluem a criança por escrito. As Orientações da Sociedade Brasileira de Hérnia, de 2019 — a única régua nacional de sociedade sobre hérnia — declaram na introdução que tratam das hérnias inguinocrurais em adultos; conferi o texto inteiro e as palavras criança, pediátrico, infância e lactente não aparecem uma única vez nele. As International guidelines for groin hernia management do grupo HerniaSurge, de 2018, dizem com todas as letras que hérnias femorais não são consideradas na revisão, nem as hérnias inguinais em crianças, exceto por menção breve. Ou seja: as duas fontes que o interno abriria primeiro, por reflexo, não têm autoridade nenhuma sobre o paciente deste capítulo.

O que sobra, e é o que este capítulo usa, é a literatura pediátrica: a diretriz europeia de urologia pediátrica de março de 2026 para o testículo e para a hidrocele, o ensaio clínico randomizado multicêntrico de 2024 sobre o momento do reparo no prematuro, a metanálise de 2025 que o atualiza — de autoria brasileira, aliás —, o manual de seguimento do recém-nascido de alto risco da Sociedade Brasileira de Pediatria, de 2024, e o artigo brasileiro de 2001 para a técnica e para o manejo do encarceramento.

### A consequência prática de não haver régua nacional

Quando não há diretriz brasileira, o documento que efetivamente governa a vida do paciente é o de regulação — e ele foi escrito para gerir fila, não para tratar doença. Isso produz um efeito concreto que você vai encontrar: o anexo de cirurgia pediátrica dos protocolos do Ministério da Saúde de 2015 exige, para todos os casos de hérnia inguinal, hidrocele e criptorquidia, hemograma completo, glicemia de jejum, coagulograma com tempo de protrombina e tempo de tromboplastina parcial ativada, ureia, creatinina, fator Rh, grupo sanguíneo e exame de urina. É a bateria fixa, pedida para uma criança hígida de quatro meses, num documento nacional. O capítulo A avaliação pré-operatória, da apostila Pré e Pós-operatório, demonstra em detalhe por que a bateria fixa erra nos dois sentidos ao mesmo tempo, e aponta os testes de coagulação como campeões de pedido sem indicação nos dados brasileiros. Aquele capítulo é inteiramente adulto — as réguas dele são de risco cardiovascular, idade acima de 65 anos e capacidade funcional. Este capítulo assume, portanto, o mínimo pré-operatório da criança hígida, e declara adiante o que assumiu.

04

Por que acontece o que acontece

Tudo neste capítulo sai de uma única estrutura embrionária. O testículo começa a vida dentro do abdome e desce, no terço final da gestação, até a bolsa escrotal. À frente dele vai um divertículo do peritônio, o conduto peritoniovaginal — também chamado processo vaginal —, que abre caminho pelo canal inguinal como um dedo de luva empurrado por dentro. Na menina não há testículo para descer, mas o mesmo divertículo acompanha o ligamento redondo pelo canal inguinal até os grandes lábios, e recebe outro nome: canal de Nuck.

Esse conduto deve se fechar. A obliteração acontece normalmente entre a 36ª e a 40ª semana de gestação, e é essa data que explica quase toda a epidemiologia do capítulo. O prematuro nasce antes de o processo terminar, e nasce, portanto, com a via aberta — daí a frequência de hérnia inguinal subir de 1% a 2% no recém-nascido a termo para cerca de 30% no que nasceu com menos de 1.000 g. Não é uma doença diferente; é o mesmo evento fisiológico interrompido mais cedo.

O que sobra aberto define o que a criança terá, e a variável é o calibre. Se o conduto permanece largo o bastante para deixar passar uma víscera, é hérnia. Se apenas a parte proximal ficou estreita, deixando passar líquido peritoneal mas não alça, é hidrocele comunicante: a bolsa enche e esvazia conforme a postura e o esforço. Se a obliteração ocorreu nas duas pontas mas deixou uma dilatação no meio do trajeto, separada da vaginal, é cisto do cordão — na menina, cisto de Nuck. As três formas podem coexistir na mesma criança. E vale guardar a formulação exata do artigo brasileiro de 2001, porque ela evita um erro de raciocínio comum: a persistência do conduto é uma hérnia apenas em potencial. Ter a via aberta e ter a doença não são a mesma coisa, e a prova disso está nos números — o conduto é pérvio em 80% a 94% dos recém-nascidos, e a esmagadora maioria deles nunca terá hérnia alguma.

Daí decorre a diferença que separa este capítulo do capítulo da hérnia do adulto. Na criança a hérnia é quase sempre indireta, porque ela é um defeito de fechamento, não um defeito de parede. O capítulo A virilha se examina de pé, da apostila Cirurgia do Aparelho Digestivo, descreve a hérnia direta do adulto como doença de parede envelhecida, com a fáscia transversal frouxa empurrada medialmente aos vasos epigástricos. Esse mecanismo praticamente não existe no lactente. A consequência é cirúrgica e o interno precisa dela para conversar com a família: a operação da criança é a ligadura alta do conduto, feita por uma incisão de cerca de três centímetros na prega inguinal, sem tela e sem reconstrução da parede posterior. Hérnia direta e hérnia femoral são raras na infância, e a tela — que é o centro da discussão no adulto — não entra aqui.

O encarceramento é frequente e rápido no lactente por três razões que se somam. O anel é estreito em relação ao conteúdo; a criança pequena passa uma fração grande do dia com a pressão intra-abdominal elevada, porque chorar é exatamente isso; e, uma vez presa, a alça edemacia dentro de um anel que não cede. O artigo brasileiro de 2001 registra o desfecho dessa combinação com uma frase que não se deve suavizar: nas crianças, a maioria das hérnias encarceradas evolui rapidamente para o estrangulamento quando não tratadas de imediato, e as alterações isquêmicas progressivas culminam em gangrena e perfuração do intestino herniado.

E há um segundo órgão em risco, que é a diferença anatômica mais importante entre a criança e o adulto. No menino, os vasos espermáticos e o canal deferente atravessam o mesmo anel que está comprimindo a alça. A víscera encarcerada comprime o pedículo do testículo antes de sofrer ela própria, de modo que o encarceramento ameaça a gônada mesmo quando o intestino ainda está viável. Puri e colaboradores, citados no artigo brasileiro, acrescentam uma nuance que muda a conduta: acreditam que a alta incidência de atrofia testicular relatada na literatura seja em boa parte consequência da operação feita durante o encarceramento, e não do episódio em si — o que é um argumento a favor de reduzir primeiro e operar com o campo desinchado, e não de correr para a mesa quando a redução é possível.

O testículo retrátil engana por um mecanismo puramente muscular. O cremáster é hiperativo entre aproximadamente os dois e os sete anos, e responde ao frio e ao toque puxando o testículo para cima, ao longo do trajeto normal de descida. Uma sala fria, uma mão gelada e uma criança chorando produzem, juntas, uma bolsa vazia num menino cujo testículo desceu perfeitamente. É por isso que o exame errado fabrica diagnóstico: a manobra que separa o retrátil do retido não é olhar, é fatigar o músculo — trazer o testículo à bolsa e segurá-lo lá por um minuto. Vale registrar o outro lado, que a diretriz europeia sublinha na sua atualização de março de 2026: retrátil não é sinônimo de normal para sempre. O testículo retrátil carrega risco de ascensão secundária de até 33%, e por isso a recomendação é de controles anuais até a puberdade — ele é acompanhado, não simplesmente dispensado.

A janela da criptorquidia se fecha por histologia, e é isso que transforma uma malformação silenciosa numa decisão com prazo. O testículo que fica fora da bolsa amadurece num ambiente térmico e hormonal errado, e o exame histológico dos testículos não descidos já mostra, entre os doze e os dezoito meses, perda progressiva de células germinativas e de células de Leydig. É por isso que a diretriz europeia manda começar o tratamento aos seis meses e concluí-lo até os doze, ou no máximo até os dezoito. Sobre o risco de tumor, o capítulo Do testículo, ou do lado dele, da apostila Urologia, é o dono da discussão no adulto e registra o essencial: o risco não vem só da posição, porque o testículo contralateral, que desceu normalmente, também está acima da média — a falha de descida e a predisposição ao tumor podem ser duas expressões do mesmo defeito de desenvolvimento. Corrigir a posição reduz o risco e, sobretudo, torna a gônada palpável e examinável pelo resto da vida, o que é benefício diagnóstico por si só.

Quatro esquemas com hérnia inguinal, hidrocele comunicante, cisto de cordão e testículo não descido.
A persistência do conduto peritoneovaginal pode permitir passagem de conteúdo abdominal ou líquido, conforme sua comunicação. O cisto de cordão é uma coleção localizada. O testículo não descido ilustra uma alteração da descida testicular, distinta dessas comunicações. A urgência depende do quadro clínico, não apenas do calibre desenhado.
05

Como se apresenta de verdade

Cinco quadros chegam pela mesma queixa — “um caroço na virilha”, “a bolsa está grande”, “falta um testículo” — e três deles têm conduta oposta à dos outros dois. Leia as seções abaixo como uma sequência de reconhecimentos: em cada uma há uma frase da mãe, ou um achado de exame, que muda o que acontece nas próximas horas.

A tumefação que aparece e some: a hérnia

O quadro clássico é uma tumoração na região inguinal, ou inguinoescrotal, que aparece ou aumenta com o esforço — chorar, tossir, evacuar, ficar de pé — e que desaparece quando a criança relaxa. Pode estar presente desde o nascimento ou surgir a qualquer momento, com preferência pelos primeiros meses e anos de vida. A palavra que a família costuma usar é “caroço”, e a frase que fecha o diagnóstico é “aparece quando ele faz força e some sozinho”.

O problema prático é que a hérnia quase nunca está lá na hora da consulta. A criança está quieta, no colo, quentinha, e a virilha está normal. O artigo brasileiro de 2001 lista os artifícios que funcionam e vale seguir a ordem deles: pedir à criança maior que tussa ou sopre contra a própria mão sem deixar o ar escapar; segurar o lactente pelos braços, de costas para o abdome do pai ou da mãe, o que aumenta a pressão abdominal sem fazer chorar; ou mantê-lo sobre a mesa de exame com os membros contidos. Se ainda assim nada aparecer, existe o achado indireto: o espessamento do cordão espermático, sentido ao deslizar o indicador e o médio sobre ele, com a sensação característica de duas lâminas de seda roçando uma na outra. É o sinal da seda, e ele é o que o protocolo brasileiro de encaminhamento cita como evidência de exame físico para hérnia inguinal.

Aqui entra uma decisão que o interno precisa saber tomar e que costuma surpreendê-lo. Se não houver certeza da hérnia ao exame, pode-se repetir a avaliação em outra ocasião — mas, considerando o risco de protelar o tratamento, é legítimo indicar a operação com base na informação transmitida pelo pediatra ou pelos pais, se ela parecer confiável. Uma história bem contada de tumefação que vai e vem tem peso próprio. Não é a mesma lógica do adulto, em que a dúvida manda pedir ultrassom e esperar; aqui a dúvida pesa contra a espera.

Um detalhe que evita um erro caro: sempre que a tumoração inguinal estiver presente, confirme que o testículo daquele lado está na bolsa. Um testículo retrátil alojado no canal, ou um testículo retido, produz um abaulamento inguinal que já foi confundido com hérnia mais de uma vez — e a conduta das duas coisas é diferente.

A bolsa que enche e esvazia: hidrocele e cisto do cordão

A hidrocele e o cisto do cordão são massas irredutíveis — e é justamente isso que confunde, porque irredutível soa como encarcerado. A diferença é que elas não doem, não têm sinal nenhum de sofrimento, a criança está bem, e o volume varia ao longo do dia sem que ninguém empurre nada. O quadro clássico da hidrocele comunicante é o do Raimundino da cena de abertura: quase inaparente quando a criança acorda, crescendo com as horas de pé e de esforço, máxima ao fim da tarde.

A distinção topográfica entre as duas é simples e vale decorar. Na hidrocele há uma tumoração intraescrotal que engloba o testículo — você não consegue palpar a gônada bem porque ela está dentro da coleção. No cisto do cordão, a massa é palpável na região inguinal ou na bolsa, mas separadamente do testículo: é um nódulo cístico, móvel, indolor, bem delimitado, com testículo normal ao lado.

A hidrocele não comunicante tem outra história: volume invariável, ou com redução gradual ao longo dos meses, sem a oscilação diária. Ela pode ser congênita, mas com frequência é adquirida, por desequilíbrio entre secreção e absorção de líquido linfático, e aparece depois de trauma menor, de torção testicular, de epididimite ou de cirurgia. Hidrocele que surge depois dos primeiros meses ou anos de vida merece uma linha de cautela do artigo brasileiro: pode haver afecção testicular subjacente. É a mesma armadilha que o capítulo Do testículo, ou do lado dele descreve no adulto jovem — a coleção transilumina, impede a palpação da glândula, e o achado “hidrocele” encerra a consulta sem que ninguém tenha tocado o testículo.

Há uma forma rara que vale reconhecer para não confundir com massa abdominal: a hidrocele abdominoescrotal, ou em ampulheta, em que a coleção escrotal, em geral volumosa, se prolonga pelo anel inguinal para dentro do abdome inferior. O sinal que a denuncia à beira do leito é que a tumoração abdominal aumenta quando se comprime a porção escrotal, porque o líquido é empurrado para dentro. Ela é confirmada por ultrassonografia.

A bolsa vazia: criptorquidia, retrátil, ectópico e ascendente

A definição operacional que o protocolo brasileiro usa é datada e prática: criptorquidia é um ou dois testículos que não desceram espontaneamente para a bolsa escrotal até os quatro meses de idade. Os testículos criptorquídicos podem ser palpáveis ou impalpáveis, estar ausentes ou em localizações anômalas.

Quatro situações diferentes se escondem sob a mesma bolsa vazia, e elas não se manejam igual. O testículo retido verdadeiro está no trajeto normal de descida, parado a caminho — em geral no canal, onde pode ou não ser palpável. O testículo ectópico está fora do trajeto normal e fora da bolsa; a posição aberrante mais comum é a bolsa inguinal superficial, mas ele já foi encontrado em posição femoral, perineal, púbica, peniana e até contralateral. Ectópico não desce sozinho, e por isso a diretriz europeia é categórica: exige intervenção cirúrgica, em qualquer idade. O testículo retrátil desceu normalmente e volta a subir por hiperatividade do cremáster; é de tamanho e consistência normais, e pode ser trazido à bolsa e mantido lá, pelo menos temporariamente. O testículo ascendente é o que estava na bolsa e subiu depois — se a família conta que o testículo já foi visto ou palpado lá e hoje não está, isso é ascensão, e o protocolo brasileiro manda encaminhar em qualquer idade. A diretriz europeia registra prevalência de ascensão entre 1% e 2% num estudo populacional, e acrescenta o que faz dela mais que uma curiosidade: as alterações histológicas do testículo ascendido espelham as da criptorquidia congênita, de modo que ele também compromete o potencial de fertilidade, ainda que em menor grau.

Há uma quinta situação, e ela é história e não exame: cirurgia inguinal prévia. Testículo não descido que aparece depois de uma herniorrafia é criptorquidia iatrogênica, por aprisionamento na cicatriz — uma das complicações da própria operação deste capítulo. Pergunte por cirurgia inguinal anterior sempre que encontrar bolsa vazia numa criança que não a tinha.

Entre os testículos não palpáveis, a diretriz europeia distribui assim: a maioria está dentro do abdome, no canal ou espiando o anel interno; uma parcela é atrófica ou rudimentar; e uma parcela simplesmente não existe. Monorquidia é identificada em até 4% dos meninos com testículo não descido, e anorquidia — ausência bilateral — em menos de 1%. O mecanismo mais provável da ausência é a atrofia após torção intrauterina, o chamado testículo evanescente. Isso importa para a conversa com os pais: a exploração pode terminar sem encontrar gônada nenhuma, e isso precisa ser dito antes, não depois.

A hérnia que não reduz: encarceramento e estrangulamento

A hérnia encarcerada se apresenta como uma massa irredutível, firme e hipersensível no canal inguinal, que pode se estender para a bolsa escrotal. A criança fica irrequieta, pode vomitar, recusa alimento e chora continuamente. É o Josefino do fim da cena de abertura: uma hora antes havia um abaulamento macio que sumia sozinho; agora há uma ameixa dura, quente, que não se move.

Com o aparecimento das alterações isquêmicas o quadro muda de patamar, e os sinais são estes: a dor se intensifica, o vômito se torna bilioso ou mesmo fecaloide, a massa fica ainda mais sensível, aparecem edema e vermelhidão da pele local, febre e evidência de obstrução intestinal. Esse conjunto é o estrangulamento, e ele muda a conduta — como você verá no bloco de conduta, ele é a única situação em que não se tenta reduzir.

Duas formas particularmente perigosas merecem nome próprio porque podem não obstruir. Na hérnia de Richter, apenas uma parte da circunferência do intestino fica aprisionada no saco; na hérnia de Littré, o que está preso é um divertículo de Meckel. Nas duas, o trânsito intestinal pode seguir normal, e por isso a ausência de vômito e de distensão não tranquiliza ninguém: a alça pode necrosar com a criança evacuando.

O grande impostor, e o motivo pelo qual esta seção existe num capítulo eletivo, está descrito no capítulo Invaginação intestinal do lactente: a hérnia encarcerada produz exatamente o mesmo quadro da invaginação — choro, vômito, pernas encolhidas — e não aparece na ultrassonografia de abdome de rotina, porque o achado está fora do campo habitual. A defesa custa dez segundos e não tem substituto por imagem: despir a criança e examinar as duas regiões inguinais e a bolsa escrotal antes do abdome.

A menina, e o que muda nela

Na menina, a massa inguinal ou labial pode conter ovário e trompa, além de intestino. Uma gônada pode permanecer aparentemente pouco dolorosa, mas a ausência de vômitos, distensão ou alteração da pele não comprova perfusão normal. Massa irredutível exige avaliação cirúrgica pronta; ultrassom com Doppler pode ajudar quando não atrasa o cuidado.

Torção e comprometimento vascular do conteúdo são riscos relevantes. Não se deve ensinar que o ovário tolera compressão ou que há uma duração garantidamente segura. A equipe decide redução, imagem e cirurgia pelo exame, perfusão e recursos, com maior urgência diante de dor, edema, sinais sistêmicos ou suspeita de isquemia.

Há um segundo motivo, mais raro e mais grave, para não tratar hérnia em menina como rotina. A hérnia inguinal é uma das apresentações mais comuns de estados intersexuais com genitália externa normal ou quase normal. O exemplo clássico é a síndrome de insensibilidade completa aos andrógenos, com fenótipo feminino e testículo dentro do saco herniário; o outro é a síndrome de persistência mülleriana, com fenótipo masculino e estruturas femininas encontradas junto ao testículo. O artigo brasileiro descreve a conduta transoperatória — abrir o saco e procurar a trompa; não a encontrando, procurar uma gônada que se diferencia do ovário pela consistência e pelo epidídimo — mas a decisão que interessa ao interno vem antes da mesa: massa inguinal palpável em menina é um dos critérios nacionais de suspeita de anomalia da diferenciação sexual, e essa investigação tem dono próprio, o capítulo Antes do tempo, e fora do roteiro, da apostila Ginecologia.

Na menina a cirurgia também é um pouco diferente e vale saber para conversar: começa pela secção do ligamento redondo distalmente ao saco, e havendo deslizamento da trompa ou do ovário a conduta mais simples é ligar o saco distalmente à estrutura envolvida e sepultá-lo na cavidade com sutura em bolsa.

O que não é nada disso

Nem todo abaulamento inguinal de criança é hérnia, e nem toda bolsa aumentada é hidrocele. A adenopatia inguinal é firme, móvel, não reduz, não tem impulso ao esforço, e costuma ter porta de entrada na perna ou no pé daquele lado. A varicocele aparece no adolescente, é palpável acima e ao redor do testículo, muda com a postura e não transilumina.

O diferencial que corre contra o relógio é o escroto agudo, e ele tem dono: o capítulo Escroto agudo, da apostila Urologia, é o dono da torção testicular, da torção de apêndice testicular, da epididimite e da dor escrotal aguda em geral. Aquele capítulo já registra a hérnia inguinoescrotal encarcerada no seu diferencial, com a instrução correta: procure o pedículo indo até o canal inguinal, a impossibilidade de reduzir e sinais de obstrução intestinal. Este capítulo fecha o par pelo outro lado — a massa que desce pelo canal e não reduz é minha; o testículo que gira, dói e sobe é dele.

Duas armadilhas de sentido inverso completam o quadro. A primeira: o cisto de cordão de aparecimento súbito pode ser indistinguível de encarceramento, e o artigo brasileiro é honesto sobre isso — nem sempre a diferenciação é possível, e o paciente deve ser explorado cirurgicamente. A segunda: numa criança obesa a tumoração pode não ser palpável, e o diagnóstico já foi feito pelo achado de nível líquido na área inguinal ou na bolsa numa radiografia pedida por suspeita de obstrução intestinal.

Fechando a seção, um alerta que não é diferencial, é contexto: criança pequena com lesão em região genital, com história que não explica o achado ou que muda a cada vez que é contada, exige que a violência entre na lista. A identificação e a notificação são do capítulo Violência e maus-tratos infantis, da apostila Emergências Pediátricas, que é o dono do assunto. Este capítulo apenas o nomeia para que a lembrança exista no momento em que a criança está despida à sua frente — que é exatamente o momento em que ela seria vista.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação das apresentações habituais e isoladas de hérnia inguinal, hidrocele e criptorquidia é principalmente clínica; exames de sangue não são pedidos de rotina. A exceção importa: testículos bilateralmente não palpáveis, especialmente no recém-nascido, ou sinais de diferença do desenvolvimento sexual exigem avaliação especializada urgente, que pode incluir investigação hormonal e laboratorial. Imagem tem indicações específicas e não deve atrasar o encaminhamento. Na avaliação habitual, o preparo da criança e a técnica do exame físico continuam sendo centrais.

Prepare o exame antes de encostar na criança

Três condições precedem qualquer manobra, e as três são sobre temperatura e calma, não sobre técnica. A sala precisa estar aquecida, porque o frio aciona o cremáster e sobe o testículo. A sua mão precisa estar quente, pelo mesmo motivo, e aquecê-la esfregando uma na outra antes de tocar custa cinco segundos. E a criança precisa estar calma: o choro faz duas coisas contraditórias ao mesmo tempo — aumenta a pressão abdominal, o que ajuda a revelar a hérnia, e contrai o cremáster, o que atrapalha o exame do testículo. Por isso a ordem importa: procure primeiro o testículo, com a criança quieta; depois provoque o esforço, para procurar a hérnia.

Examine com privacidade, boa luz e a criança confortável, retirando a fralda quando necessário para expor as duas virilhas e a bolsa escrotal. Inclua essas regiões no exame do lactente com dor abdominal, pois uma hérnia pode explicar o quadro e passar despercebida se a avaliação se limitar ao abdome. A sequência do exame depende da condição clínica e da tolerância da criança; não há obrigação universal de examinar a região inguinoescrotal antes do abdome. Na consulta de rotina, complete a avaliação genital de forma cuidadosa, sem omiti-la por estar coberta pela fralda.

A posição depende do que você procura. Deitado de costas é a posição básica e resolve a maioria dos casos. Para o testículo que não aparece deitado, mude a posição: a diretriz europeia registra que um testículo não palpável em decúbito dorsal pode se tornar palpável com manobras de posição — de pernas abertas em rã, ou sentado de pernas cruzadas —, e acrescenta, na redação de março de 2026, o que isso significa: tornar-se palpável ao mudar de posição é sinal de testículo retrátil. A criança maior colabora se você transformar a manobra numa brincadeira. Para a hérnia da criança que já anda, o esforço é obtido em pé, tossindo ou soprando contra a própria mão sem deixar o ar escapar.

Um item de segurança e de cuidado que não é opcional: explique à criança maior o que você vai fazer antes de fazer, e faça na frente do acompanhante. O exame genital de criança é um procedimento que se anuncia.

A manobra que separa o retrátil do retido

Esta é a manobra mais importante do capítulo, porque é a que evita indicar cirurgia em criança que não precisa e a que evita perder prazo em criança que precisa. O protocolo brasileiro de urologia pediátrica a descreve com um cronômetro dentro, e o cronômetro é o ponto.

Comece acima e desça. Deslize os dedos ao longo do canal inguinal em direção ao púbis, com alguma pressão, ordenhando o trajeto de cima para baixo; a diretriz europeia sugere lubrificante para reduzir o atrito da pele. O testículo alojado no canal se denuncia por uma sensação característica: ele escapa e salta sob os seus dedos, como um caroço que rola. Quando encontrá-lo, conduza-o até a bolsa escrotal com a outra mão.

Chegando à bolsa, segure-o lá por um minuto inteiro. É esse minuto que fatiga o cremáster e desfaz a ilusão. A leitura é binária e não admite meio-termo: se o testículo não puder ser posicionado na bolsa, ou se retornar imediatamente à posição alta assim que você soltar, trata-se de testículo criptorquídico. Se ele permanecer na bolsa, trata-se de testículo retrátil.

Registre o resultado em palavras, não em rótulo. “Testículo esquerdo palpável no canal inguinal, trazido até o terço médio da bolsa, retornando imediatamente à posição alta após um minuto de contenção; testículo direito tópico, de tamanho normal” é uma frase que o cirurgião pediátrico consegue usar. “Criptorquidia à esquerda” não diz se alguém fatigou o cremáster.

Um último cuidado: no menino cuja hérnia está aparente, confirme que o testículo daquele lado está na bolsa no mesmo momento em que a tumoração está presente. É a instrução expressa do artigo brasileiro e serve para afastar a possibilidade de que o abaulamento que você está chamando de hérnia seja, na verdade, o testículo retrátil alojado no canal.

Transiluminação: a pergunta que ela resolve, e as duas que ela não resolve

A transiluminação resolve em segundos a pergunta “isto é líquido?”, e para isso ela é excelente. Uma lanterna encostada na pele da bolsa, com a sala escurecida, faz uma hidrocele acender inteira, homogênea e translúcida. Nas hidroceles o aumento é liso e em geral indolor. Não é preciso equipamento: a lanterna do telefone celular serve.

O que ela não responde é igualmente importante, e a diretriz europeia registra as duas exceções que transformam esse exame numa armadilha quando ele é usado sozinho: alça intestinal cheia de líquido também transilumina, e alguns tumores pré-púberes também transiluminam. Ou seja: transiluminação positiva não exclui hérnia nem exclui tumor. Ela diz que há líquido ali; não diz que é só líquido.

O teste que acrescenta informação de verdade é combinar a transiluminação com a compressão. O protocolo brasileiro descreve: quando se consegue esvaziar a hidrocele com delicada compressão do escroto, confirmada pela transiluminação, provavelmente há comunicação entre o saco escrotal e a cavidade peritoneal. A hidrocele que esvazia comunica; a que não esvazia e vem reduzindo de tamanho ao longo dos meses é não comunicante.

E a pergunta que nenhuma lanterna responde: onde está o testículo? Se a coleção impede a palpação da glândula, ou se o testículo palpável parecer aumentado ou de forma irregular, a coleção deixou de ser o diagnóstico e passou a ser o obstáculo entre você e o diagnóstico. Nessa situação, e só nela, a ultrassonografia escrotal entra.

Imagem: uma proibição explícita e duas indicações estreitas

Comece pela frase mais curta e mais útil do protocolo brasileiro de urologia pediátrica, que abre o capítulo das patologias escrotais benignas: não é necessário nenhum exame de imagem na avaliação da criptorquidia. É uma frase declarativa, em documento em uso no país, e ela poupa fila, poupa deslocamento e poupa tempo de janela.

A diretriz europeia explica por quê, e o argumento é de desempenho, não de custo: nenhum método de imagem determina com certeza se o testículo existe ou não. A ultrassonografia não tem sensibilidade nem especificidade para detectar o testículo com confiança ou para estabelecer a ausência ou a presença de um testículo intra-abdominal, e a ressonância magnética não resolve o problema. O uso de imagem no testículo não descido fica restrito a cenários específicos e selecionados — o exemplo dado é a identificação de estruturas müllerianas quando há suspeita de anomalia da diferenciação sexual. A consequência prática é dura e liberta o interno de uma indecisão: pedir ultrassom não muda a conduta do testículo não palpável, porque o passo seguinte é o mesmo com ou sem laudo. A própria diretriz lembra que parte dos testículos ditos não palpáveis se torna palpável sob anestesia geral — ou seja, a classificação que decide o procedimento se completa na sala, e não no laudo.

A ultrassonografia tem, sim, duas indicações claras neste capítulo, e as duas são escrotais, não inguinais. A primeira: dúvida sobre o caráter de uma massa intraescrotal, ou impossibilidade de palpar o testículo por trás de uma coleção — aqui o método tem sensibilidade próxima de 100% para detectar lesões intraescrotais. A segunda: confirmação da hidrocele abdominoescrotal, quando a compressão da porção escrotal aumenta a massa abdominal. O Doppler ajuda a separar hidrocele de varicocele e de torção, lembrando que essas condições podem vir acompanhadas de hidrocele.

Sobre a hérnia propriamente dita, o capítulo A virilha se examina de pé já registra o que a ultrassonografia inguinal faz e não faz no adulto, e a lição transfere-se em parte: o desempenho depende de quem faz e de a manobra dinâmica ser executada. Na criança, porém, ela quase nunca é necessária, porque a história de tumefação que aparece e some, somada ao sinal da seda, basta — e a dúvida, aqui, pesa a favor de operar, não a favor de investigar.

O testículo não se palpa. E agora?

Primeiro, mude a posição e repita: sentado, de cócoras, com a criança calma e a sala quente. Depois, procure fora do trajeto — bolsa inguinal superficial, região femoral, períneo, base do pênis, e o lado oposto. Testículo ectópico é palpável em posição inesperada, e quem só procura no canal não o encontra.

Segundo, examine o testículo contralateral e anote o tamanho dele. A diretriz europeia registra que hipertrofia compensatória do lado normal sugere ausência ou atrofia do testículo do outro lado — e, na mesma frase, adverte que esse sinal não é específico o bastante para dispensar a exploração cirúrgica. Serve para conversar com a família, não para decidir.

Terceiro, e este é o ponto de bifurcação: testículo não palpável dos dois lados no recém-nascido não é criptorquidia bilateral até prova em contrário — é suspeita de anomalia da diferenciação sexual, e é urgente. O protocolo brasileiro de urologia pediátrica coloca essa situação entre as condições de encaminhamento para emergência, ao lado da suspeita de torção testicular, quando se trata de recém-nascido nos primeiros dias de vida que não tenha sido investigado na maternidade. Os critérios nacionais de suspeita são: testículos não palpáveis bilateralmente; testículo não palpável, uni ou bilateral, associado a hipospádia ou a micropênis; hipospádia perineal isolada; clitoromegalia; fusão labial posterior; e massa inguinal ou labial.

A razão de a pressa existir não é a gônada: é metabólica. A causa que transforma isso em emergência é a hiperplasia adrenal congênita clássica, cuja forma perdedora de sal descompensa nos primeiros dias a semanas de vida. Este capítulo não abre esse assunto e o cede por inteiro ao capítulo Antes do tempo, e fora do roteiro, da apostila Ginecologia, que é o dono dos distúrbios do desenvolvimento sexual e da genitália atípica, e que traz o que se colhe, em que intervalo se repete e quem se aciona. O que este capítulo assume é a metade que lhe cabe: reconhecer, no exame da virilha, que a bolsa vazia dos dois lados no recém-nascido não entra na fila eletiva do testículo retido.

Quarto, fora do recém-nascido, o testículo não palpável unilateral e isolado segue o caminho normal do capítulo: encaminhamento a urologia pediátrica ou cirurgia pediátrica, sem imagem, dentro do prazo. A definição de onde ele está é da laparoscopia ou da exploração cirúrgica, com a criança anestesiada.

O que se escreve no encaminhamento

O encaminhamento é o exame complementar mais importante deste capítulo, porque é ele que decide se a criança chega antes ou depois do prazo. O protocolo brasileiro define o conteúdo descritivo mínimo para as patologias escrotais benignas, e vale segui-lo item por item: sinais e sintomas, incluindo dor ou sensação de peso escrotal; se o volume escrotal é variável ou estável; se o testículo é palpável na bolsa ou apenas após tração manual; alterações no volume testicular; palpação de varicocele; presença de hérnia inguinal; atrofia de bolsa escrotal; e a presença de qualquer critério de anomalia da diferenciação sexual. Acrescente a ecografia de bolsa escrotal, com data, se ela tiver sido realizada — o protocolo pede o resultado quando existe, e é explícito em dizer que a ausência de exames não impede a solicitação de consulta especializada em locais sem esses recursos.

Escreva a idade em meses e, no prematuro, a idade corrigida — porque o prazo do testículo retido é contado em idade corrigida, e uma guia que diz apenas “lactente” obriga o regulador a adivinhar.

Escreva o que você fez no exame, e não só o que achou. “Testículo mantido na bolsa por um minuto, retornou imediatamente” é informação; “criptorquidia” é rótulo. E escreva a data em que a família foi orientada, porque em criptorquidia a data de entrada na fila é o dado que determina se a janela será cumprida.

Um detalhe de encaminhamento que o protocolo separa e que costuma ser confundido: hidrocele isolada vai para urologia pediátrica quando persiste depois dos doze meses; hidrocele associada a hérnia inguinal, em qualquer idade, vai para cirurgia pediátrica. Não é a mesma fila e não é o mesmo prazo. Se você tem as duas coisas na mesma criança, o encaminhamento é o da hérnia, e ele não espera.

07

O fluxo da virilha da criança, as réguas de prazo e o que foi conferido

Exame e trajetória distinguem os percursos; uma massa irredutível em lactente exige avaliação pronta mesmo quando ainda não há sinais sistêmicos. O interno identifica, comunica e acompanha, e a equipe decide redução, operação e tempo seguro.

  1. 1Examinar as duas virilhas e os testículos com ambiente aquecido, conforto e explicação aos responsáveis; localizar a massa e sua relação com testículo, esforço e posição.
  2. 2Massa dolorosa/irredutível, vômitos, alterações de pele ou deterioração exigem avaliação cirúrgica urgente, com jejum, analgesia e suporte em paralelo ao contato.
  3. 3Redução manual só em caso selecionado por equipe habilitada, com monitorização e analgesia/sedação apropriada, sem força, tentativas repetidas por inércia ou espera obrigatória de uma hora.
  4. 4Após redução, observar dor, abdome e perfusão e combinar correção definitiva e local de acompanhamento; no lactente do caso, manter observação hospitalar e plano cirúrgico.
  5. 5Hérnia redutível merece encaminhamento para correção, com urgência individualizada por idade e risco. Hidrocele isolada pode ser observada no primeiro ano; dúvida diagnóstica, hérnia associada ou sintomas mudam a decisão.
  6. 6Testículo não descido persistente aos seis meses de idade corrigida exige via especializada já organizada, para orquidopexia idealmente entre 6 e 12 meses, até 18 meses no máximo; ultrassom não deve atrasar encaminhamento.
  7. 7Testículo retrátil pede acompanhamento periódico até a puberdade por risco de ascensão. Testículos bilateralmente não palpáveis ou sinais de diferença do desenvolvimento sexual exigem avaliação específica, urgente quando houver risco endócrino neonatal.

A trava: na criança, hérnia inguinal não se observa

A conduta expectante que a diretriz brasileira admite para o homem idoso, frágil, com hérnia pouco sintomática, não se transfere para a criança — e a razão não é o incômodo, é a taxa de encarceramento, que chega a 28,3% abaixo dos três meses de idade e é inversamente proporcional à idade. Some-se a isso a diferença anatômica: no menino, o cordão espermático atravessa o mesmo anel que comprime a alça, de modo que o encarceramento ameaça a gônada antes mesmo de ameaçar o intestino. Guarde também de onde a regra NÃO vem: as Orientações da Sociedade Brasileira de Hérnia, de 2019, tratam explicitamente de adultos e não mencionam criança uma única vez; as diretrizes internacionais do HerniaSurge, de 2018, dizem por escrito que hérnias inguinais em crianças não são consideradas na revisão. Citar qualquer uma delas para justificar espera numa criança é citar um documento que declara não falar sobre ela.

As cinco coisas do mesmo canal — o que separa uma da outra à beira do leito

O que se observaHérnia inguinalHidrocele comunicanteCisto do cordãoCriptorquidiaTestículo retrátil
Onde está a massaRegião inguinal ou inguinoescrotal, descendo pelo canalIntraescrotal, envolvendo o testículoInguinal ou escrotal, separada do testículoNão há massa — há uma bolsa vaziaNão há massa — o testículo está no canal
Muda com o esforçoAparece ou aumenta ao chorar, tossir, evacuarAumenta ao longo do dia e com o ortostatismoFixa ou pouco variávelNão se aplicaSobe com o frio e com o toque
Reduz à compressãoSim, e volta com o esforçoEsvazia com compressão delicada — é o que prova a comunicaçãoNão reduzNão se aplicaTraz-se à bolsa e volta ao soltar
TransiluminaNão, salvo alça cheia de líquidoSim, homogêneaSim, delimitada e separada da gônadaNão se aplicaNão se aplica
Testículo palpávelSim, e deve ser conferido no mesmo momentoDifícil — a coleção está na frente deleSim, normal, ao lado do cistoNão na bolsa; palpável no canal em cerca de 80%Sim, de tamanho e consistência normais
Prova de um minuto na bolsaNão se aplicaNão se aplicaNão se aplicaNão fica: volta imediatamente à posição altaFica na bolsa depois de fatigar o cremáster
O que se fazOpera — indicação cirúrgica ao diagnósticoObserva até 12 meses; opera se persistir ou se houver hérniaObserva; opera se persistir, crescer ou vier com hérniaEncaminha após os 4 meses; trata dos 6 aos 12-18 mesesNão opera; acompanha, porque até um terço ascende
Se você errar para menosEncarceramento, necrose de alça e, no menino, de gônadaOperação desnecessária numa coleção que fecharia sozinhaOperação desnecessária, ou tumor não visto sob a coleçãoPerda de células germinativas e de Leydig; janela fechadaOrquidopexia sem indicação em testículo normal

Os prazos, e de quem é cada porta — régua brasileira de encaminhamento e régua clínica de tratamento

SituaçãoPrazo e condutaPara quem vaiDe onde vem o prazo
Hérnia inguinal em criança, redutívelIndicação cirúrgica ao diagnóstico; não se observaCirurgia pediátricaRev Col Bras Cir 2001: não se resolve espontaneamente e corre risco de encarceramento. Protocolos de Acesso Ambulatorial do MS, 2015: todos os casos
Hérnia inguinal irredutível, sem estrangulamentoRedução com sedação; operação em 24 a 48 horas, no mesmo internamentoEmergência, e depois cirurgia pediátricaRev Col Bras Cir 2001: não protelar mais que isso para evitar recidiva do encarceramento
Hérnia com estrangulamento ou obstrução intestinalOperação sem tentativa prévia de redução, assim que estabilizadoEmergência cirúrgicaRev Col Bras Cir 2001
Hidrocele isoladaObservação; encaminhar se persistir depois dos 12 meses de idadeUrologia pediátricaTelessaúdeRS-UFRGS, 2020
Hidrocele associada a hérnia inguinalEncaminhar em qualquer idade — o prazo é o da hérniaCirurgia pediátricaTelessaúdeRS-UFRGS, 2020
Hidrocele adquirida, não comunicanteExpectante por 6 a 9 meses — 75% resolvemAcompanhamentoEAU Paediatric Urology, março de 2026
Testículo retido, palpável ou impalpávelEncaminhar após os 4 meses de idade, ou idade corrigida no prematuroUrologia pediátricaTelessaúdeRS-UFRGS, 2020
Testículo ectópico, ausente ou ascendenteEncaminhar em qualquer idadeUrologia pediátricaTelessaúdeRS-UFRGS, 2020
Tratamento da criptorquidiaComeçar aos 6 meses; concluir até 12 meses, no máximo 18Cirurgia — orquidopexia; terapia hormonal não é recomendadaEAU Paediatric Urology, março de 2026
Dúvida entre retrátil e criptorquidiaEncaminhar — a dúvida é motivo declarado de encaminhamentoUrologia pediátricaTelessaúdeRS-UFRGS, 2020
Testículos não palpáveis bilateralmente no recém-nascidoEmergência, se não investigado na maternidadeEmergência; depois urologia pediátrica E endocrinologia pediátricaTelessaúdeRS-UFRGS, 2020, quadro 1
Hérnia inguinal no prematuro internadoMomento em disputa — ver bloco de divergênciasCirurgia pediátrica, com a equipe neonatalSBP 2024 e ensaio HIP, JAMA 2024, discordam

Analgesia do pós-operatório: de mg/kg a mL na seringa, num lactente de 10 kg (recalculado contra as apresentações da Rename 2024)

Fármaco e apresentação da Rename 2024Dose por quiloDose para 10 kgVolume a aspirarO que conferir antes
Dipirona 500 mg/mL solução injetável — componente Básico15 mg/kg/dose, teto de 25 mg/kg/dose150 mg por dose; teto 250 mg0,30 mL; no teto, 0,50 mLVolume abaixo de meio mililitro: aspire com seringa de 1 mL, não de 5 mL
Dipirona 500 mg/mL solução oral — componente Básico15 mg/kg/dose, teto de 25 mg/kg/dose150 mg por dose0,30 mLA Rename dá a concentração por mililitro e NÃO dá gotas por mililitro; o número de gotas depende do frasco e sai da bula do produto dispensado
Paracetamol 200 mg/mL solução oral — componente Básico15 mg/kg/dose150 mg por dose0,75 mLNão há apresentação injetável de paracetamol na Rename 2024
Ibuprofeno 50 mg/mL suspensão oral — componente Básico10 mg/kg/dose100 mg por dose2,0 mLAnti-inflamatório em criança operada: confira jejum, hidratação e função renal antes
Sulfato de morfina 10 mg/mL solução injetável — componente Especializado0,05 a 0,1 mg/kg/dose0,5 a 1,0 mg por dose0,05 a 0,10 mL da ampola — 5% a 10% delaVolume impossível de aspirar com segurança: dilua 1 mL em 9 mL de água para injeção, obtenha 1 mg/mL, e a dose passa a 0,5 a 1,0 mL
Cefazolina — profilaxia cirúrgicaNão se aplicaNão se aplicaNão se aplicaNÃO CONSTA da Rename 2024; herniorrafia inguinal eletiva é cirurgia limpa e não pede profilaxia de rotina

Idade, achado e encaminhamento

AchadoQuando encaminharO que acompanhar
Hérnia redutívelAo diagnóstico; prazo operatório pela equipeIrredutibilidade, dor, vômitos e acesso à urgência
Hérnia agudamente irredutível ou provável ovário no sacoAvaliação cirúrgica pronta, no mesmo dia; imediata se sofrimentoDor, pele, abdome e condição geral, sem redução forçada
Hidrocele isolada sem sinal de hérniaObservação inicial; rever persistência e diagnóstico após primeiro anoVolume, sintomas e possibilidade de palpar o testículo
Testículo não descidoOrganizar referência antes de seis meses corrigidosCirurgia entre 6–12 meses, até 18 no máximo, conforme equipe
Testículo retrátilSeguimento periódico até puberdadeAscensão ou perda da permanência escrotal muda a conduta

As edições da Caderneta da Criança consultadas registram alertas de criptorquidia e hérnia em consultas específicas, sem constituir um calendário completo de avaliação genital. Examine e registre posição testicular e massas ao longo do seguimento. A ausência de um campo na caderneta não dispensa reavaliação nem o encaminhamento no prazo do percurso.

As faixas de localização do testículo não palpável na diretriz não formam uma distribuição percentual exata quando somadas. O capítulo descreve as possibilidades: intra-abdominal, canalicular, próximo ao anel, atrófico ou ausente. A investigação deve localizar ou esclarecer o testículo, sem inferir o diagnóstico por essas proporções.

Conduto contralateral pérvio e hérnia metacrônica são desfechos diferentes. O par de frequências e o NNT de 18 citados provêm de análises distintas; um não se calcula diretamente a partir do outro. A decisão sobre o lado contralateral exige avaliar benefício, riscos e plano de seguimento.

A estimativa de ausência testicular em até 4% é coerente com as proporções gerais apresentadas, mas não localiza o testículo de uma criança. Registre palpabilidade, lado e achados prévios e encaminhe conforme o percurso, sem usar a frequência populacional para concluir ausência.

O artigo brasileiro antigo reúne taxas de hérnia metacrônica de séries diferentes, que não podem ser combinadas com uma distribuição por lado de outra população. O ponto clínico é que conduto pérvio não implica hérnia futura em todos. A avaliação contralateral deve ser discutida com a família pela equipe.

No ensaio HIP, a diferença bruta de eventos e a estimativa ajustada não são iguais porque resultam de métodos diferentes. O estudo comparou estratégias de tempo cirúrgico em prematuros com seguimento organizado. A aplicação exige considerar reserva respiratória, risco de encarceramento e possibilidade real de retorno.

As séries citadas incluem populações de tamanhos e características distintos, como prematuros e nascidos a termo. As somas de participantes são consistentes, mas isso não torna seus resultados diretamente intercambiáveis. Mantenha seleção e período ao discutir frequência ou risco.

Analgesia e eventual profilaxia precisam de indicação pediátrica, dose por peso e apresentação conferida. A Rename citada não é inventário hospitalar. Confirme disponibilidade e protocolo com a equipe, evitando adaptar comprimidos ou soluções de adulto apenas porque aparecem na lista.

A bateria administrativa de exames do protocolo antigo não substitui avaliação pré-anestésica individual. O percurso da criança hígida começa por história e exame, incluindo sangramento pessoal e familiar, prematuridade e apneia. Exames adicionais dependem dos achados, procedimento e equipe, sem transportar automaticamente o protocolo adulto.

O protocolo pediátrico de encaminhamento identificado nas fontes é de 2020. Sua distribuição no canal oficial informa a versão consultada, sem comprovar revisão recente de todas as recomendações. Registre o prazo e o fluxo usados e mantenha avaliação clínica durante a espera.

08

A conduta, hora a hora

A linha do tempo abaixo tem duas vias. A de cima é a do Josefino, que chegou eletivo pela manhã e virou urgência às nove e vinte — e ela é a que o interno precisa saber executar de cor, porque acontece com a criança na sua frente e com o cirurgião a cinquenta quilômetros. A de baixo, nos dois últimos marcos, é a via eletiva: a hérnia redutível, a hidrocele e o testículo retido, que são a maioria absoluta dos casos e cujo desfecho depende do que está escrito na guia.

  1. Minuto zero — reconhecer que o roteiro mudou

    A massa inguinal que uma hora atrás reduzia e agora está dura, quente e hipersensível numa criança que chora e vomita é hérnia encarcerada até prova em contrário. Pare o roteiro eletivo. Antes de qualquer outra coisa, faça o exame que decide a via: procure vômito bilioso ou fecaloide, edema e vermelhidão da pele sobre a massa, febre, distensão abdominal e parada de eliminação de gases e fezes. Esse conjunto é estrangulamento, e ele proíbe a tentativa de redução. A ausência dele autoriza tentar. Anote a hora em que a mãe percebeu que a massa parou de reduzir e a hora do seu exame: as duas datas serão a primeira pergunta do cirurgião.

    Prescrição
    • Jejum imediato, inclusive para leite materno, a partir do momento em que a hipótese é hérnia encarcerada
    • Nada de compressa quente, nada de banho morno, nada de manobra de redução na unidade sem monitorização — a redução é procedimento hospitalar
    • Registrar no prontuário: hora do início da irredutibilidade, hora do exame, presença ou ausência de cada um dos cinco sinais de estrangulamento
  2. Desde o reconhecimento — analgesia, acesso e contato em paralelo

    Dor não é dado diagnóstico a preservar, e criança com dor não relaxa a parede — o que torna a redução mais difícil, e não mais fácil. Prescreva e administre. O Josefino tem quatro meses e 6,5 kg, e as contas ficam assim: dipirona 15 mg/kg por dose dá 97,5 mg, que são 0,20 mL da solução injetável de 500 mg/mL, com teto de 25 mg/kg por dose, ou 162,5 mg, que são 0,33 mL. Se a dor for intensa, morfina 0,05 a 0,1 mg/kg por dose dá 0,33 a 0,65 mg — e aqui está o detalhe que evita erro de diluição: essa dose corresponde a 0,03 a 0,07 mL da ampola de 10 mg/mL, volume que não se aspira com segurança em seringa nenhuma. Dilua 1 mL da ampola em 9 mL de água para injeção, obtenha 1 mg/mL, e a dose passa a 0,33 a 0,65 mL. As doses por quilo são as mesmas que o capítulo Invaginação intestinal do lactente já mediu em protocolo hospitalar brasileiro; a conversão para mililitro foi refeita aqui contra as apresentações da Rename 2024. Enquanto a analgesia corre, obtenha acesso venoso e ligue — para o cirurgião pediátrico, se houver, ou para a regulação, se não houver. A hipótese escrita na guia é hérnia inguinal encarcerada, e não abdome agudo.

    Prescrição
    • Dipirona 15 mg/kg/dose por via endovenosa, teto de 25 mg/kg/dose — 0,20 mL da solução de 500 mg/mL num lactente de 6,5 kg
    • Dor intensa: morfina 0,05 a 0,1 mg/kg/dose endovenosa, SEMPRE diluída a 1 mg/mL — 0,33 a 0,65 mL da diluição num lactente de 6,5 kg
    • Acesso venoso periférico; hidratação de manutenção conforme o capítulo Hidratação venosa: manutenção e reposição
    • Telefonema com três informações: idade e peso, hora em que a massa deixou de reduzir, presença ou ausência de sinais de estrangulamento
  3. Ainda na primeira hora — a decisão que precede a redução

    Há uma regra que o interno precisa saber antes de ver alguém tentando a manobra, porque ela é o oposto do reflexo. Diante de evidência de estrangulamento ou de obstrução intestinal, o paciente é operado sem tentativa prévia de redução, assim que estiver clinicamente estabilizado. O motivo é simples e grave: reduzir uma alça inviável devolve intestino necrosado para dentro do abdome, e o que era uma operação inguinal vira uma peritonite com laparotomia. A formulação do artigo brasileiro é para decorar — nunca se deve tentar reduzir o conteúdo herniário sem a certeza de sua vitalidade. Se a criança não tem sinais de estrangulamento, siga para a redução; se tem, a conduta é estabilizar e operar.

    Prescrição
    • Com estrangulamento: jejum, acesso, analgesia, reposição volêmica se houver má perfusão, e comunicação imediata com o centro cirúrgico
    • Sem estrangulamento: seguir para a tentativa de redução, em ambiente com recurso
    • Em qualquer dos dois: a criança NÃO vai para casa e NÃO é reavaliada em ambulatório no dia seguinte
  4. Redução selecionada — equipe habilitada, sem espera programada ou força

    A equipe avalia se é seguro tentar redução, considerando tempo, conteúdo provável, dor e sinais de comprometimento. Analgesia e eventual sedação exigem monitorização e capacidade de resgate. A manobra deve ser delicada e limitada; não aguardar uma hora por regra nem repetir tentativas diante de resistência ou dor persistente. Falha ou suspeita de isquemia pede operação, e sucesso aparente exige reavaliação.

    Prescrição
    • Sedação em ambiente hospitalar, com acesso venoso, monitor cardíaco, oxímetro e material de intubação prontos
    • Posição e medidas de conforto conforme equipe e condição respiratória; não impor uma hora de espera em Trendelenburg.
    • Tentativa delicada por operador habilitado após seleção; interromper com resistência, dor desproporcional ou piora, sem séries repetidas por rotina.
    • Interromper e chamar o cirurgião diante de dor desproporcional, de resistência que não cede ou de qualquer sinal novo de estrangulamento
  5. Reduziu — e é aqui que quase todo mundo erra: a criança fica

    Este é o marco que dá nome à trava deste capítulo. A redução bem-sucedida resolve a urgência e não resolve a doença: o conduto continua aberto, o anel continua estreito, e o que acabou de acontecer vai acontecer de novo. A regra brasileira é explícita e tem prazo dos dois lados — se a redução for conseguida, a operação será feita eletivamente após 24 a 48 horas, quando houver menos edema e o manejo do saco herniário for mais fácil; e não se deve protelar mais do que isso, para evitar a recidiva do encarceramento. Ou seja: a janela não é aberta nem indefinida. Mandar a criança para casa com um pedido de consulta ambulatorial é trocar uma operação de 24 horas por um segundo encarceramento em casa, longe do hospital. Explique isso à família com essas palavras: a redução mudou o dia da cirurgia, não a necessidade dela.

    Prescrição
    • Internação; jejum e hidratação de manutenção mantidos
    • Operação programada para 24 a 48 horas depois da redução, no mesmo internamento
    • Reexame da região inguinal a cada plantão até a cirurgia, procurando reencarceramento
    • Se a criança se reduziu espontaneamente já anestesiada, antes da incisão, a operação prossegue do mesmo jeito
  6. Não reduziu, ou estrangulou — a mesa agora

    Falharam as tentativas de redução, o paciente é operado. O acesso é o habitual, com incisão um pouco maior que na eletiva; o canal é aberto, o saco exposto e incisado para avaliar o conteúdo. Se a víscera estiver viável, ela volta para o abdome e a operação se completa pela ligadura alta do saco. Às vezes é necessário ampliar o orifício profundo, tanto para reduzir quanto para exteriorizar as alças o suficiente para conferir o intestino proximal e distal ao segmento preso. Conteúdo de vitalidade duvidosa recebe compressas mornas por alguns minutos; se não melhorar, é ressecado. O que o interno leva desse marco não é a técnica, é o motivo de a operação ser mais difícil no lactente: o saco é edemaciado, se esgarça com facilidade, e os vasos espermáticos e o canal deferente ficam mais vulneráveis — razão pela qual a operação da hérnia da criança não se faz sem material adequado e equipe treinada.

    Prescrição
    • Estabilização primeiro: acesso, analgesia, correção volêmica e eletrolítica antes de descer
    • Sonda gástrica se houver vômito repetido ou distensão com obstrução
    • Herniorrafia inguinal eletiva é cirurgia limpa e não pede antibiótico de rotina; a decisão muda se houver ressecção intestinal
    • Conferir e registrar a posição do testículo daquele lado ao fim da operação
  7. Depois da operação — a alta, e o que muda no ex-prematuro

    A tendência é operar a hérnia em regime ambulatorial: a criança interna, opera e tem alta no mesmo dia, com vantagens psicológicas e econômicas. Há uma exceção que o interno precisa reconhecer antes de assinar a alta, porque ela é de segurança respiratória e não de conforto: a criança com história de prematuridade e de crises de apneia ou bradicardia necessita de observação pós-operatória mais prolongada. Em alguns casos de ex-prematuros com alto risco de apneia, a anestesia geral pode ser substituída por raquianestesia. Pergunte, portanto, sempre, e antes: com quantas semanas nasceu, quanto pesou, ficou em unidade neonatal, teve apneia. As complicações que se explicam à família são hidrocele residual na parte distal do conduto, que costuma se absorver mas pode demorar; hematoma escrotal; e, mais raramente, lesão do deferente ou dos vasos espermáticos e criptorquidia iatrogênica, se o testículo não ficar bem posicionado no fundo da bolsa. Vale ter o número da lesão do deferente na ponta da língua, porque é a pergunta que o pai faz: as diretrizes internacionais de hérnia inguinocrural estimam-na em 0,3% nos adultos e entre 0,8% e 2,0% nas crianças — é pequena, é real, e varia inversamente com a experiência de quem opera. A recidiva é bem menos frequente que no adulto.

    Prescrição
    • Antes da alta, pergunte idade gestacional ao nascer, peso ao nascer, internação neonatal e história de apneia ou bradicardia
    • Ex-prematuro com risco de apneia: observação monitorizada prolongada; a via anestésica é decisão do anestesista, e a raquianestesia é alternativa reconhecida
    • Orientação escrita de retorno: dor que não cede, vômito, febre, abaulamento novo na virilha ou no escroto
    • Registrar a posição dos dois testículos na alta — é o único momento em que isso é fácil de conferir
  8. A via eletiva — a hérnia que reduz, a hidrocele e o testículo retido

    A maioria das crianças deste capítulo nunca chega à urgência, e o que decide o desfecho delas é a guia. A hérnia redutível tem indicação cirúrgica ao diagnóstico e vai para cirurgia pediátrica sem período de observação: não se resolve espontaneamente e corre risco de encarceramento, principalmente nos primeiros meses de vida. A hidrocele isolada é observada e só é encaminhada se persistir depois dos doze meses; a hidrocele associada a hérnia é encaminhada em qualquer idade, e o prazo passa a ser o da hérnia. O cisto de cordão segue a mesma lógica da hidrocele, com uma ressalva: se aparecer depois dos primeiros meses ou anos de vida, ou se houver hérnia junto, opera-se quando do diagnóstico, porque a coleção de aparecimento tardio pode esconder uma afecção testicular. O testículo retido, palpável ou impalpável, é encaminhado após os quatro meses de idade — ou de idade corrigida, no prematuro —, sem exame de imagem nenhum; o ectópico, o ausente e o ascendente vão em qualquer idade; e a própria dúvida entre retrátil e criptorquidia é motivo declarado de encaminhamento. Uma combinação vale ser lembrada porque muda a ordem das coisas: criança com criptorquidia que apresenta hérnia clinicamente aparente é operada assim que o problema é constatado, sem esperar a idade habitual da orquidopexia — prevalece a indicação de operar logo a hérnia, e sempre que possível o testículo é levado à bolsa no mesmo ato cirúrgico.

    Prescrição
    • Hérnia redutível: encaminhamento para cirurgia pediátrica ao diagnóstico, com a palavra hérnia escrita na guia — não observação
    • Hidrocele isolada: reavaliar aos 12 meses; encaminhar se persistir. Com hérnia: encaminhar já
    • Testículo retido: encaminhar após os 4 meses (idade corrigida no prematuro), sem pedir ultrassom
    • Escrever na guia se o testículo é palpável na bolsa ou só após tração manual, e se o volume escrotal é variável ou estável
    • Criptorquidia com hérnia aparente: opera a hérnia logo, e desce o testículo no mesmo ato
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Como saber se está funcionando

Reavaliar aqui tem três horizontes que quase nunca são o mesmo profissional. Nas primeiras horas, o parâmetro é a víscera presa. Nos primeiros dias, é a ferida e o testículo. E nos meses seguintes, é o calendário — e é neste último que o cuidado se perde no Brasil, porque a criança sai da consulta com uma guia e ninguém combina quem confere se ela foi usada.

Redutibilidade da massa inguinal, após redução bem-sucedidaA cada plantão, até a operação — que é em 24 a 48 horas

Esperado: Virilha plana ou com abaulamento macio e redutível, criança confortável, aceitando dieta quando liberada

Se não melhora: Massa que volta a ficar tensa, dura ou dolorosa é reencarceramento: reavalie os sinais de estrangulamento e antecipe a cirurgia. Não repita a taxe sem o cirurgião

Sinais de estrangulamento, na criança que aguarda a operação ou o transporteContinuamente nas primeiras horas; reexame formal a cada duas a quatro horas

Esperado: Ausência de vômito bilioso, de distensão, de febre e de alteração da pele sobre a massa

Se não melhora: Qualquer um deles muda a hipótese e a velocidade: comunique o cirurgião e reclassifique como emergência cirúrgica

Posição e tamanho do testículo do lado operadoAo fim da operação, na alta, e na consulta de revisão

Esperado: Testículo no fundo da bolsa, de tamanho comparável ao contralateral

Se não melhora: Testículo alto ou fora da bolsa depois da cirurgia é criptorquidia iatrogênica e exige orquidopexia; testículo que diminui de tamanho depois da operação sugere lesão vascular do cordão. As duas coisas voltam ao cirurgião

Volume da hidrocele em observaçãoNas consultas de rotina da puericultura, com data anotada, e formalmente aos 12 meses

Esperado: Redução gradual do volume ao longo dos meses — 92% resolvem abaixo de um ano

Se não melhora: Persistência depois dos 12 meses é o gatilho de encaminhamento. Aumento súbito, dor, ou impossibilidade de palpar o testículo por trás da coleção mudam a pergunta: pede ultrassonografia escrotal, e não mais observação

Aparecimento de hérnia sobre uma hidrocele em observaçãoA cada consulta, com a criança despida

Esperado: Coleção estável ou diminuindo, sem tumefação que apareça ao esforço e sem massa redutível

Se não melhora: Tumefação que reduz, ou variação diária acentuada com espessamento do cordão, significa conduto largo: sai da observação e entra na fila cirúrgica, em qualquer idade

A guia de encaminhamento do testículo retido foi efetivamente usadaAos 4 meses se emitida antes, e depois a cada consulta de rotina até a criança ser vista pelo especialista

Esperado: Consulta marcada e realizada com folga para operar entre os 6 e os 12 meses, no máximo 18

Se não melhora: Fila que não anda é problema clínico, não administrativo, porque a perda de células germinativas não espera a regulação. Refaça o contato, registre a data de cada tentativa e escreva na guia a idade-limite do tratamento — é a informação que prioriza

Testículo retrátil em acompanhamentoAnualmente, com a manobra de um minuto refeita e o resultado escrito

Esperado: Testículo que continua podendo ser trazido à bolsa e mantido lá

Se não melhora: Testículo que deixou de ficar na bolsa ascendeu — e isso acontece em até um terço dos retráteis. Ele passa a ser testículo não descido adquirido e é encaminhado em qualquer idade

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Onde o erro machuca

Terminar a consulta de puericultura com a fralda fechada

O dano: É o erro que produz todos os outros deste capítulo, porque nenhum dos cinco diagnósticos existe sem o exame. A criptorquidia não dói, não incomoda e não muda o crescimento — ela só é encontrada por quem olha. E a hérnia encarcerada, que é a maior responsável por obstrução intestinal no primeiro semestre de vida, não aparece na ultrassonografia de abdome de rotina, porque o achado está fora do campo do exame. O desfecho de uma hérnia encarcerada não reconhecida é necrose de alça e, no menino, de gônada.

Como pegar a tempo: Regra fixa, sem exceção de rotina nem de pressa: toda criança examinada tem a fralda aberta e as duas virilhas e a bolsa escrotal expostas. No lactente com dor abdominal, choro inconsolável ou vômito, isso vem ANTES do abdome. Custa dez segundos e não tem substituto por imagem.

Aplicar à criança a régua do adulto e propor observar uma hérnia pouco sintomática

O dano: Transforma uma operação eletiva de pequeno porte numa urgência com risco para a alça e para o testículo. A incidência de encarceramento chega a 28,3% abaixo dos três meses de idade, e 70% dos encarceramentos acontecem no primeiro ano de vida — é o oposto exato do adulto, em que o risco é baixo e a espera é defensável. Pior: a criança que espera costuma voltar pelo pronto-socorro, à noite, longe do serviço que a acompanhava.

Como pegar a tempo: Diga a frase inteira quando escrever a guia: em criança, hérnia inguinal tem indicação cirúrgica ao diagnóstico. E saiba de onde a regra do adulto vem para não a citar por engano — as Orientações da Sociedade Brasileira de Hérnia de 2019 tratam de adultos e não mencionam criança nenhuma vez, e as diretrizes internacionais do HerniaSurge de 2018 declaram por escrito que crianças não são consideradas.

Concluir criptorquidia — ou descartá-la — com a criança com frio, chorando, e sem fatigar o cremáster

O dano: Erra nos dois sentidos, e os dois custam caro. Para mais, indica investigação e cirurgia num menino cujo testículo desceu perfeitamente e apenas subiu com o frio e com o toque. Para menos, devolve para casa, com a palavra retrátil escrita na ficha, um testículo que na verdade está retido — e a janela de tratamento, que se fecha entre os doze e os dezoito meses, corre enquanto ninguém procura.

Como pegar a tempo: Aqueça a sala e aqueça a mão. Examine com a criança calma, ANTES de provocar o choro para procurar a hérnia. Ordenhe o canal de cima para baixo, traga o testículo à bolsa e segure-o lá por um minuto inteiro. Se ficar, é retrátil; se voltar de imediato ou não chegar, é criptorquidia. Se não achar deitado, repita sentado ou de cócoras. Escreva a manobra no prontuário, não só o rótulo.

Reduzir a hérnia encarcerada e mandar a criança para casa com pedido de consulta ambulatorial

O dano: A redução resolve a urgência e não resolve a doença: o conduto continua aberto e o anel continua estreito. A criança volta a encarcerar, agora em casa, à noite, e o segundo episódio pode não reduzir. Perde-se, além disso, a única janela em que a operação é fácil — o intervalo em que o edema já cedeu e o saco ainda não voltou a inflamar.

Como pegar a tempo: Interne. A regra brasileira tem prazo dos dois lados: a operação é feita eletivamente 24 a 48 horas depois da redução, e não se deve protelar mais do que isso, justamente para evitar a recidiva do encarceramento. Explique à família com essas palavras — a redução mudou o dia da cirurgia, não a necessidade dela.

Pedir ultrassonografia para investigar testículo não palpável

O dano: Gasta uma fila e não muda nada. Nenhum método de imagem determina com certeza se o testículo existe ou não: a ultrassonografia não tem sensibilidade para detectar o testículo com confiança nem para estabelecer a ausência de um testículo intra-abdominal, e a ressonância não resolve isso. O passo seguinte é o mesmo com ou sem laudo — a classificação em palpável ou não palpável é confirmada com a criança já anestesiada, como primeiro passo do procedimento. O custo real é o tempo, e tempo aqui é célula germinativa.

Como pegar a tempo: Cite o protocolo brasileiro, que é declarativo: não é necessário nenhum exame de imagem na avaliação da criptorquidia. Reserve a ultrassonografia escrotal para o que ela responde bem — dúvida sobre o caráter de uma massa intraescrotal, testículo que não se palpa por trás de uma coleção, e confirmação de hidrocele abdominoescrotal.

Tratar bolsa escrotal vazia dos dois lados no recém-nascido como fila eletiva de criptorquidia

O dano: Troca uma emergência metabólica por uma consulta com meses de espera. Testículos não palpáveis bilateralmente estão na lista nacional de critérios de suspeita de anomalia da diferenciação sexual, e a causa que dá pressa não é a gônada: é a hiperplasia adrenal congênita clássica na forma perdedora de sal, que descompensa nos primeiros dias a semanas de vida. O mesmo vale para testículo não palpável, uni ou bilateral, associado a hipospádia ou a micropênis.

Como pegar a tempo: No recém-nascido, conte os testículos e olhe o pênis e o períneo no mesmo movimento. Bolsa vazia dos dois lados, ou bolsa vazia com hipospádia ou micropênis, nos primeiros dias de vida e sem investigação na maternidade, é encaminhamento para emergência — o protocolo brasileiro a classifica ao lado da suspeita de torção testicular. A investigação em si é do capítulo Antes do tempo, e fora do roteiro, da apostila Ginecologia.

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O que dizer ao paciente e à família

Quatro conversas deste capítulo são difíceis pelo mesmo motivo: a família está diante de uma criança que não parece doente. Ela mama, dorme, ganha peso e não chora. Convencer alguém a operar um bebê saudável, ou a não operar um bebê que tem um caroço visível, exige dizer por que — e o porquê é diferente em cada caso. O que vem abaixo é para ser dito em voz alta, com a criança no colo — não é texto de prontuário.

Explicar por que a hérnia da criança opera e a do avô pode esperar

“A hérnia dele não é a mesma coisa que a do senhor seu pai. Na criança é um canalzinho que devia ter fechado antes de nascer e não fechou — não é fraqueza da barriga, é um caminho aberto. E esse caminho é estreito: quando uma alça do intestino desce por ele e fica presa, ela aperta. Nos bebês pequenos isso acontece com frequência, e quanto menor o bebê, mais fácil acontece. A operação é pequena, e é só amarrar esse caminho. O que é grande é o problema que ela evita.”

Não diga: Evite dizer que é uma cirurgia simples e parar por aí, e evite dizer que “toda hérnia opera”, que é falso no adulto e o pai pode conferir. Evite também prometer que a cirurgia sai no mesmo dia: quem marca é a regulação, e o compromisso que não se cumpre gasta exatamente a confiança de que você vai precisar na conversa seguinte.

Explicar por que a hidrocele espera, quando a família veio pedindo cirurgia

“Essa bolsa cheia de água é diferente do caroço da hérnia. O canal aqui é fino demais para o intestino passar: só passa líquido. E, na maioria das crianças, ele fecha sozinho no primeiro ano — mais de nove em cada dez. Por isso a gente espera, e a espera não é abandono: eu vou olhar em toda consulta e, se ele não tiver fechado quando ele fizer um ano, encaminho para o cirurgião. O que muda a conversa antes disso é aparecer um caroço que some quando ele deita, ou a bolsa doer, ou eu não conseguir sentir o testículo por trás da água. Aí eu já encaminho.”

Não diga: Não diga “é normal” nem “não é nada” — é uma condição com nome, com acompanhamento e com prazo, e chamá-la de nada é o que faz a família não voltar. Não prometa que vai fechar: diga a proporção.

A janela da criptorquidia, sem prometer o que não se pode prometer

“O testículo dele parou no caminho e não chegou na bolsa. Isso não dói e não atrapalha agora, mas tem prazo: o lugar certo é mais fresco, e ficar fora do lugar por muito tempo estraga as células que fabricam o esperma. Por isso o tratamento começa aos seis meses e deve estar terminado no primeiro ano, no máximo até um ano e meio. A operação coloca o testículo no lugar. Ela reduz o risco de problema no futuro e, uma coisa que vale por si só, deixa o testículo do lado de fora, onde dá para examinar a vida inteira. O que ela não faz é garantir que ele vai ter filhos, nem eliminar o risco de tumor — inclusive porque o outro testículo, que desceu certo, também merece atenção quando ele for adulto.”

Não diga: Não prometa fertilidade normal e não prometa que a cirurgia elimina o risco de câncer. Não use a palavra câncer como argumento de pressa sem explicar em seguida que o risco continua existindo depois da cirurgia — senão a família ouve a metade que assusta e perde a metade que orienta. A conversa do risco no adulto é do capítulo Do testículo, ou do lado dele.

Depois de reduzir a hérnia encarcerada, quando a família quer ir embora

“Consegui empurrar de volta e ele já está melhor — o senhor viu que ele parou de chorar. Só que o caminho continua aberto do mesmo jeito, e o que aconteceu hoje pode acontecer de novo a qualquer momento, inclusive em casa, de madrugada. Por isso ele não vai para casa: ele fica internado e opera em um ou dois dias, quando o inchaço tiver passado e a cirurgia ficar mais segura. A gente não está adiando; a gente está escolhendo o melhor dia, e esse dia é esta semana.”

Não diga: Não diga “deu tudo certo” sem a frase seguinte, porque a família ouve alta. Não ofereça retorno ambulatorial como alternativa à internação — não é uma escolha do mesmo tamanho, e apresentá-la como escolha é o que faz a criança voltar encarcerada.

Antes da exploração do testículo que não se palpa, quando ele pode não existir

“Eu examinei com calma e não consegui achar o testículo desse lado. Isso pode significar três coisas: ele está lá dentro, mais alto do que a mão alcança; ele é muito pequeno; ou ele não se formou, o que às vezes acontece porque o testículo torceu ainda na barriga e desapareceu. Nenhum exame de imagem responde isso com segurança — quem responde é a cirurgia, olhando por dentro. Estou dizendo isso agora porque prefiro que o senhor saiba antes: pode ser que o cirurgião entre e não encontre nada. O outro testículo, sozinho, costuma dar conta.”

Não diga: Não peça ultrassom para “ver se está lá”, e não deixe essa conversa para o dia da cirurgia. Não afirme que a hipertrofia do testículo do outro lado prova ausência — ela sugere, mas não é específica o bastante para dispensar a exploração.

Quando o testículo é retrátil e a família quer operar mesmo assim

“O testículo dele desceu certo. O que acontece é que tem um músculo que puxa ele para cima quando sente frio ou quando alguém encosta — por isso a bolsa às vezes parece vazia, e no banho quente ele aparece. Eu acabei de trazer o testículo para baixo e segurei um minuto: ele ficou. Isso é retrátil, e retrátil não opera. Mas também não é para esquecer: em uma parte dessas crianças o testículo acaba subindo de vez com o tempo. Por isso eu quero ver ele todo ano, e quero que a senhora me procure se em algum momento o testículo não aparecer mais nem no banho quente.”

Não diga: Não dispense a criança dizendo “é normal, pode ir”. Sem o retorno combinado, o testículo ascendente vira criptorquidia descoberta tarde, e a família se lembrará de que alguém disse que era normal.

A conversa que não é com a família — o que se escreve para quem regula a fila

Escreva a guia como quem sabe que ela vai ser lida por alguém que nunca viu a criança: idade em meses, e idade corrigida se for prematuro; se o volume escrotal é variável ou estável; se o testículo é palpável na bolsa ou apenas após tração manual; se há hérnia inguinal presente; e o que você fez no exame — “mantido na bolsa por um minuto, retornou imediatamente”. Em criptorquidia, escreva também a idade-limite do tratamento, porque é ela que prioriza: “tratamento deve estar concluído até os 12 meses, no máximo 18”. Um regulador que lê isso entende por que a consulta de um bebê de cinco meses não pode ser marcada para daqui a um ano.

Não diga: Evite a guia com uma palavra só — “criptorquidia”, “hérnia” — porque ela não permite priorizar nada. Evite segurar o encaminhamento esperando o resultado de um exame: o protocolo brasileiro diz expressamente que os exames não são obrigatórios em locais sem esses recursos e não impedem a solicitação de consulta especializada.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

No prematuro internado, a hérnia se opera antes ou depois da alta da unidade neonatal?

Antes da alta, para não mandar para casa uma hérnia que pode encarcerar

É a posição do documento brasileiro de referência para essa população. O Manual de seguimento do recém-nascido de alto risco da Sociedade Brasileira de Pediatria, de 2024, registra que nos pré-termos estáveis a correção cirúrgica é realizada antes da alta, para evitar o risco de encarceramento em casa, admitindo intervenção pós-alta apenas em alguns recém-nascidos com displasia broncopulmonar, quando a situação respiratória melhorar, e desde que os pais sejam bem instruídos sobre os sinais de alerta e sobre a necessidade de readmissão. O artigo brasileiro de 2001 descreve a mesma tendência e acrescenta o critério de peso então usado, de pelo menos 1.800 g. O argumento é de acesso e de logística tanto quanto de risco: a família mora longe, o serviço é referência regional, e a hérnia que encarcera em casa chega tarde.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Neonatologia — Manual de seguimento do recém-nascido de alto risco, 2024; e Rev Col Bras Cir 2001;28(6):444-451

Depois da alta, porque o reparo precoce produz mais eventos adversos graves

É o resultado do único ensaio clínico randomizado feito para responder exatamente essa pergunta. O HIP Trial, publicado no JAMA em março de 2024, randomizou 338 prematuros com hérnia inguinal diagnosticada durante a internação inicial, em 39 hospitais dos Estados Unidos, entre setembro de 2013 e abril de 2021, para reparo antes da alta ou depois da alta e após as 55 semanas de idade pós-menstrual. Entre os 308 com dados completos, 44 de 159 do braço precoce (28%) e 27 de 149 do tardio (18%) tiveram pelo menos um evento adverso grave, com diferença de risco de -7,9 pontos percentuais e probabilidade posterior de benefício do reparo tardio de 97%. Nos subgrupos previamente definidos, a probabilidade de benefício subiu para 99% entre os nascidos com menos de 28 semanas e entre os que tinham displasia broncopulmonar. Seis lactentes do braço tardio encarceraram enquanto esperavam, e nenhum deles precisou de operação de urgência. A metanálise de 2025, de autoria brasileira, reuniu 1.207 pacientes de oito estudos e não encontrou associação entre reparo precoce e encarceramento, mas encontrou risco maior de recidiva com o reparo precoce.

HIP Trial Investigators, Blakely ML e cols. JAMA 2024;331(12):1035-1044; Provinciatto H e cols. J Neonatal Perinatal Med 2025;18(1):3-8

Como decidir

Discuta o momento do reparo no prematuro com neonatologia e cirurgia. Considere doença pulmonar, maturidade, complicações da hérnia e as condições do adiamento: família orientada, transporte, retorno e vaga planejada. O benefício observado no ensaio depende de seguimento organizado; adiar sem esse plano não reproduz a estratégia estudada.

A hidrocele isolada: até que idade se espera antes de encaminhar?

Doze meses, como corte fixo de encaminhamento

É o que a única régua brasileira em uso determina. O Protocolo de encaminhamento para Urologia Pediátrica do TelessaúdeRS-UFRGS com a Secretaria Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul, de 9 de março de 2020, encaminha a hidrocele não associada a hérnia ou a outra patologia escrotal quando ela persiste em crianças com mais de 12 meses de idade. O corte é operacional: dá um número para a atenção primária, é fácil de auditar e evita que a criança fique em observação indefinida com ninguém responsável pelo prazo.

TelessaúdeRS-UFRGS e SES/RS — Protocolos de encaminhamento para Urologia Pediátrica, 9 de março de 2020

Doze meses como início da conversa, não como corte, porque a resolução continua depois

É a leitura da diretriz europeia de urologia pediátrica, na atualização limitada de março de 2026. Ela recomenda observação na maioria dos lactentes ao menos nos primeiros doze meses, pela tendência à resolução espontânea, e publica os números que impedem transformar isso num corte: 92% de resolução abaixo de um ano de idade e ainda 43% acima de três anos. A observação inicial, diz o texto, oferece pouco risco, porque a progressão para hérnia é rara. Na hidrocele adquirida, não comunicante, a chance de resolução espontânea é de 75% e o manejo expectante recomendado é de seis a nove meses. O artigo brasileiro de 2001 já registrava o mesmo desconforto ao dizer que há muita discordância quanto ao tempo de espera, com opiniões variando de seis meses a dois anos, e propunha decidir pelo volume, pela redução gradual e, principalmente, pela variação diária.

EAU Guidelines on Paediatric Urology, atualização limitada de março de 2026; Rev Col Bras Cir 2001;28(6):444-451

Como decidir

Avalie variação do volume, tendência de resolução e palpação do testículo, além da idade. Suspeita de comunicação, massa que impede avaliação testicular ou achado atípico exige investigação e discussão especializada. Observação deve incluir exame de referência e retorno; coleção não deve ocultar outra doença.

Explorar o lado que não tem hérnia?

Explorar seletivamente, por critérios de idade, lado e sexo, para evitar uma segunda anestesia

É a posição descrita e defendida no artigo brasileiro de atualização de 2001, que reproduz os critérios de Scherer e Grosfeld: explorar os dois lados em todos os meninos com menos de um ano, nos pacientes com condições associadas que aumentem o risco de hérnia, nos meninos com menos de dois anos que se apresentem com hérnia à esquerda, e em todas as meninas, independentemente da idade. O argumento não é só anatômico — o artigo o formula em termos sociais, e vale citá-lo porque é raro vê-lo escrito: será que os pais vão poder operar o filho novamente? Problemas sociais, dependência de plano de saúde que pode não estar em vigor quando a outra hérnia aparecer, e a possibilidade de a segunda hérnia se manifestar já como encarceramento pesam a favor de explorar quando há equipe treinada.

Rev Col Bras Cir 2001;28(6):444-451, citando Scherer LR e Grosfeld JL, Pediatr Clin North Am 1993;40(6):1123-1131

Não explorar de rotina, porque conduto pérvio não é hérnia e a maioria das explorações seria desnecessária

É a posição que os números sustentam, e o próprio artigo de 2001 a expõe com honestidade ao registrar que a persistência do conduto é uma hérnia apenas em potencial, e que autópsias mostram muitos adultos com conduto pérvio que nunca tiveram hérnia. A diretriz europeia de março de 2026 publica a distância entre as duas coisas: a incidência de conduto contralateral pérvio é de 63%, contra 8% de crianças que desenvolvem hérnia metacrônica. A mesma diretriz registra que uma metanálise recente encontrou evidência insuficiente para recomendar a correção laparoscópica do conduto contralateral na hérnia inguinal, e que a hidrocele sequer foi avaliada; e cita, de uma revisão sistemática, um número necessário para tratar de 18 para prevenir uma hérnia metacrônica — dezessete crianças operadas do lado que não tinha doença para cada uma que se beneficia. As desvantagens são concretas: prolongamento do tempo anestésico e cirúrgico, risco de lesão das estruturas do cordão, e intervenções desnecessárias.

EAU Guidelines on Paediatric Urology, atualização limitada de março de 2026; e o próprio Rev Col Bras Cir 2001;28(6):444-451

Olhar antes de decidir: inspecionar o anel contralateral por laparoscopia durante a operação

É a terceira via, e ela desloca a pergunta de quem explorar para quem olhar. A ótica é introduzida pelo próprio saco herniário que está sendo operado, ou por pequena incisão infraumbilical, e inspeciona o anel profundo do lado oposto. O artigo de 2001 relata a série de Caussin, que comparou a inspeção laparoscópica com os critérios que o serviço usava antes — exploração aberta de rotina em meninos abaixo de um ano e em meninas abaixo de cinco: o exame teria mudado a conduta em 35% a 44% dos casos, evitando entre 55% e 65% de operações que teriam sido feitas desnecessariamente e indicando o procedimento em 20% a 36% de pacientes que não teriam sido operados. Exige, em contrapartida, pessoal e material especializados, prolonga o tempo cirúrgico e acrescenta custo.

Rev Col Bras Cir 2001;28(6):444-451, citando a série de Caussin; e a revisão de Morgado M e Holland AJF, J Paediatr Child Health 2024;60(11):648-653, que conclui não ser possível recomendação clara sobre exploração contralateral

Como decidir

A equipe deve discutir previamente com a família a possibilidade de avaliar ou tratar o lado contralateral. Explique que encontrar um conduto pérvio não garante hérnia futura e que a decisão pondera nova anestesia, risco de intervenção desnecessária e seguimento. Registre o que foi combinado e o que foi realizado.

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O raciocínio, em voz alta

Terça-feira, dez e dez da manhã, mesma unidade básica da cena de abertura. Panteleão Itacoatiara, catorze meses, 10 kg, trazido pela mãe para a consulta de rotina. Ela traz a caderneta e uma frase pronta: “o pediatra do posto antigo falou que faltava um testículo, mas disse que ia descer”. Na caderneta, na página da consulta do 2º mês, o campo “criptorquidia” está marcado com um sim. Nas páginas do 4º, do 6º, do 9º e do 12º mês não há campo para isso e ninguém escreveu nada. Nascido a termo, 3.100 g, sem intercorrências. Sem cirurgias. Sem hipospádia. A sala está fria porque o ar-condicionado do corredor sopra para dentro.

  1. Antes de examinar, arrumo a sala

    Fecho a porta, desligo o ventilador, esfrego as mãos uma na outra até esquentarem. Isso não é gentileza: o cremáster é hiperativo nesta faixa etária, e frio e toque frio sobem o testículo. Se eu examinar agora, com a mão gelada, tenho boa chance de fabricar uma criptorquidia bilateral em um menino que não tem nenhuma.

  2. Despir, e olhar antes de tocar

    Tiro a fralda com o menino deitado no colo da mãe, sobre a maca. Antes de encostar, olho: a bolsa direita tem contorno normal; a esquerda é visivelmente menor, mais lisa, com menos rugas — o escroto que nunca recebeu testículo não desenvolve as pregas do mesmo jeito. Pênis normal, meato no lugar, sem hipospádia. Não há abaulamento inguinal em nenhum dos lados com ele quieto.

  3. Procuro o testículo onde ele está, e não onde ele deveria estar

    Testículo direito tópico, no fundo da bolsa, de tamanho normal. Do lado esquerdo a bolsa está vazia. Ponho os dedos acima do canal inguinal esquerdo, junto à espinha ilíaca, e ordenho de cima para baixo em direção ao púbis, com alguma pressão. Na metade do trajeto sinto um caroço que escapa e salta sob os dedos — é ele. Está no canal, é palpável. Não preciso procurar em posição ectópica, mas confiro mesmo assim a região femoral e o períneo, porque se eu não tivesse achado é lá que ele poderia estar.

  4. A prova do minuto

    Com a mão de cima conduzo o testículo para baixo, e com a outra o recebo na bolsa. Ele chega — chega até o terço médio, com alguma tensão. Seguro. Olho o relógio da parede e conto sessenta segundos inteiros, sem soltar, com o menino distraído pelo celular da mãe. Ao soltar, ele volta imediatamente para a posição alta, como um elástico. Isso encerra a dúvida: não é retrátil. Testículo retrátil, depois de um minuto de contenção, fica onde foi posto. Este não ficou.

  5. Confiro a idade contra a régua, e não contra a expectativa da mãe

    A frase “vai descer” tem prazo de validade, e ele já passou duas vezes. A definição brasileira em uso diz criptorquidia é o testículo que não desceu espontaneamente até os quatro meses de idade, e o protocolo manda encaminhar o testículo retido, palpável ou impalpável, após os quatro meses. Ele tem catorze. Além disso, a régua clínica de tratamento diz que a orquidopexia deve começar aos seis meses e estar concluída até os doze, no máximo até os dezoito, porque a partir daí a perda de células germinativas e de Leydig já é demonstrável. Ou seja: não só passou da idade de encaminhar, como estamos dentro dos últimos quatro meses da janela de tratamento. Isso muda o tom da guia.

  6. O exame que eu não vou pedir

    A tentação aqui é pedir uma ultrassonografia de bolsa escrotal “para documentar” e mandar a família voltar com o resultado. Não peço, por duas razões escritas. O protocolo brasileiro é declarativo: não é necessário nenhum exame de imagem na avaliação da criptorquidia. E a diretriz europeia explica: nenhum método de imagem determina com certeza se o testículo existe ou não, e parte dos testículos ditos não palpáveis só se torna palpável com a criança já anestesiada. Pedir o exame não mudaria o que eu vou escrever nem o que o cirurgião vai fazer — mudaria só a data em que a criança entra na fila. E fila, aqui, é o inimigo.

  7. Escrevo a guia como quem sabe que ela vai ser lida por quem nunca viu o menino

    “Panteleão, 14 meses, 10 kg, nascido a termo. Testículo direito tópico e de tamanho normal. Testículo esquerdo não palpável na bolsa; palpável no canal inguinal esquerdo, conduzido até o terço médio da bolsa e mantido sob contenção por um minuto, com retorno imediato à posição alta ao ser solto — descartado testículo retrátil. Sem hipospádia, sem micropênis, sem cirurgia inguinal prévia, sem massa inguinal. Encaminho a urologia ou cirurgia pediátrica por criptorquidia esquerda palpável, conforme protocolo de encaminhamento (testículo retido após os quatro meses). Registro que o tratamento deve estar concluído até os 12 meses de idade, no máximo até os 18, e que a criança já tem 14 — a consulta tem prioridade sobre a data de emissão. Não solicitada imagem: não é necessária na avaliação da criptorquidia.”

  8. O que eu combino com a mãe antes de ela sair, e o que eu marco na minha agenda

    Digo a ela, com estas palavras, que o testículo não vai mais descer sozinho, que a operação tem prazo, e que o prazo é agora. Explico o alcance da cirurgia e o limite dele: ela coloca o testículo no lugar, reduz o risco futuro e deixa a gônada examinável para o resto da vida, mas não garante fertilidade nem elimina o risco de tumor. E faço a parte que a caderneta não faz: marco retorno em sessenta dias só para conferir se a consulta com o especialista foi marcada, porque fila que não anda, aqui, é problema clínico e não administrativo. Se ela não tiver sido marcada, eu refaço o contato e registro a data de cada tentativa na ficha.

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Faça você

Sábado, 16h40, unidade de pronto atendimento de porte médio, sem cirurgião pediátrico e sem centro cirúrgico infantil; o hospital com cirurgia pediátrica fica a oitenta e dois quilômetros. Samuela Carnaubal, sete meses, 7,5 kg, trazida pela avó porque “apareceu uma bolinha na virilha e não some”. A avó conta que percebeu ontem, dando banho, e que a bolinha continua igual hoje — não cresceu, não diminuiu. A menina está no colo, sorrindo, mamou há uma hora e não vomitou. Sem febre. Ao exame: na região inguinal direita há uma massa ovalada de cerca de dois centímetros, firme, móvel, que NÃO reduz à compressão delicada e que não dói ao toque — a menina não muda de expressão quando você a palpa. Não transilumina. O abdome está flácido, indolor, com ruídos presentes. A genitália externa é de aspecto feminino, sem clitoromegalia e sem fusão labial posterior.

  1. Primeiro: isto é urgência ou não é?

    Você tem uma massa inguinal irredutível numa lactente. A palavra irredutível puxa o reflexo do encarceramento — e é aqui que o caso decide se você aprendeu o capítulo. Liste, um a um, os sinais que definem estrangulamento e confira cada um contra o que está escrito na vinheta. Depois, liste as três hipóteses que produzem massa inguinal irredutível e indolor numa menina desta idade e diga o que separa uma da outra ao exame.

  2. Segundo: o que muda por ela ser menina

    Duas coisas mudam, e elas apontam para direções diferentes. Uma delas diz respeito ao órgão que mais frequentemente ocupa o saco herniário na menina e ao tipo de risco que ele corre — que não é o mesmo risco do intestino. A outra é uma suspeita que a massa inguinal em menina levanta por si só, e que tem encaminhamento próprio no protocolo brasileiro. Diga quais são as duas e o que você procuraria no exame para sustentar ou afastar cada uma.

  3. Terceiro: o que você faz nas próximas quatro horas, num serviço a oitenta e dois quilômetros do cirurgião

    Decida três coisas e escreva o motivo de cada uma. A menina come ou fica em jejum? Você tenta reduzir a massa? E ela vai para casa com um pedido de consulta, é transferida hoje, ou é transferida amanhã de manhã? Escreva também, em duas linhas, o que você diria à avó — que está tranquila, porque a neta está sorrindo.

  4. Continuidade do caso e prática do internato

    Retome Josefino e compare sua urgência com a via eletiva da hidrocele e da criptorquidia: o mesmo local anatômico abriga decisões diferentes.

  5. Questão integrativa 1

    A analgesia deve esperar o cirurgião atender?

  6. Questão integrativa 2

    Há obrigação de esperar uma hora antes da redução?

  7. Questão integrativa 3

    Massa indolor irredutível em menina é garantidamente segura?

  8. Questão integrativa 4

    Redução encerra o tratamento da hérnia?

  9. Questão integrativa 5

    Quando a criptorquidia persistente deve estar encaminhada?

  10. Questão integrativa 6

    Testículo retrátil recebe alta definitiva?

Ver como fecharíamos

Não há sinais clínicos evidentes de estrangulamento neste exame: não há vômito bilioso ou fecaloide, não há distensão, não há febre, não há alteração da pele sobre a massa e não há parada de eliminação — o abdome está flácido com ruídos presentes e a criança aceitou mamada há uma hora. Esses achados não demonstram sofrimento atual, mas não o excluem nem permitem classificar uma possível hérnia ovariana irredutível como sem risco. As três hipóteses de massa inguinal irredutível e indolor nessa idade são: hérnia com ovário encarcerado, cisto de cordão (na menina, cisto de Nuck) e adenopatia inguinal. Separam-se assim: a adenopatia é firme, móvel, sem impulso ao esforço, e costuma ter porta de entrada na perna ou no pé daquele lado, que você deve procurar; o cisto é cístico, bem delimitado, móvel e transilumina; e o ovário encarcerado é firme, ovalado, não transilumina, e é justamente o achado que a literatura descreve como palpável durante dias ou semanas sem evidência de sofrimento. A ausência de transiluminação e a ausência de porta de entrada nos membros inferiores apontam para o ovário. O que muda por ela ser menina é duplo. Primeiro, o ovário encarcerado pode ter comprometimento vascular, especialmente por torção do pedículo, que pode acontecer a qualquer momento e sem aviso — a ausência de sinais atuais não informa por quanto tempo a gônada ficará viável. Por isso se discute prontamente com cirurgia pediátrica, sem usar divergência documental para esperar em casa. Segundo, massa inguinal ou labial em menina é um dos critérios nacionais de suspeita de anomalia da diferenciação sexual, porque a hérnia inguinal é uma das apresentações mais comuns de estados intersexuais com genitália externa de aspecto normal — o exemplo clássico é a insensibilidade completa aos andrógenos, em que a gônada dentro do saco é um testículo. Você procura clitoromegalia, fusão labial posterior e outras alterações genitais, e aqui não as encontra; isso reduz a probabilidade, mas não a zera, e a hipótese deve estar escrita na guia porque quem opera vai abrir o saco e olhar. Nas próximas quatro horas: jejum, sim, desde já, porque a criança pode ir para a mesa e porque a redução exige sedação. Você NÃO tenta reduzir na unidade — não porque a manobra seja proibida, mas porque ela se faz em ambiente hospitalar com acesso venoso, monitor cardíaco, oxímetro e material de intubação disponíveis, e porque no ovário encarcerado a redução não é o objetivo: o objetivo é a operação. E ela não vai para casa com um pedido de consulta: massa inguinal irredutível em lactente é transferência para o serviço com cirurgia pediátrica, hoje, com a hipótese escrita — hérnia inguinal direita irredutível, provável ovário encarcerado, sem sinais de estrangulamento, a afastar anomalia da diferenciação sexual. À avó: “ela parece estável agora, mas essa massa precisa de avaliação hoje porque ainda não podemos garantir que seu conteúdo esteja sem risco. Mas essa bolinha é uma parte de dentro da barriga dela que desceu por um caminho que devia estar fechado, e enquanto estiver ali pode torcer sem aviso. Por isso a gente não espera em casa: ela vai hoje para o hospital que tem cirurgião de criança, e a senhora vai junto.” Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não. Analgesia, suporte e contato ocorrem em paralelo, sob supervisão. 2. Não. A decisão depende de gravidade e equipe; resistência ou piora impede insistir. 3. Não. Pode conter ovário e apresentar comprometimento; precisa de avaliação pronta, mesmo sem sinais clássicos. 4. Não. Reavaliar sucesso e conteúdo, observar e garantir plano de correção definitiva. 5. Até seis meses corrigidos, organizando correção idealmente até 12 meses, no máximo 18; não esperar ultrassom para referenciar. 6. Não. Acompanhar até a puberdade porque pode ascender, passando a exigir outro manejo.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Trata-se de hérnia inguinal indireta do lactente, por persistência do conduto peritoniovaginal. A conduta correta é encaminhar para cirurgia pediátrica com indicação registrada, porque em criança a hérnia inguinal tem indicação cirúrgica ao diagnóstico: ela não se resolve espontaneamente e o risco de encarceramento é alto e inversamente proporcional à idade, chegando a 28,3% abaixo dos três meses. A conduta expectante que a diretriz brasileira admite é do homem idoso e frágil, e as duas grandes réguas de hérnia — as Orientações da Sociedade Brasileira de Hérnia, de 2019, e as diretrizes internacionais do HerniaSurge, de 2018 — declaram por escrito que tratam de adultos. Imagem não é necessária diante de história típica com exame confirmatório, e faixa de contenção não tem lugar nenhum aqui.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Sem consultar o capítulo: (1) descreva a manobra que separa testículo retrátil de testículo criptorquídico, incluindo as duas condições da sala e o tempo exato de contenção, e diga qual é a leitura de cada um dos dois resultados possíveis; (2) diga em que idade se encaminha o testículo retido no Brasil, em que idade a diretriz clínica manda começar o tratamento e em que idade ele deve estar concluído, com o limite máximo; (3) liste os cinco sinais que caracterizam estrangulamento numa hérnia inguinal encarcerada de criança e diga o que a presença deles proíbe; (4) diga em quantas horas se opera a criança cuja hérnia encarcerada foi reduzida com sucesso, e por que não se protela mais que isso; (5) enuncie, numa frase, a razão pela qual a hérnia inguinal da criança não se observa, e cite os dois documentos de hérnia que NÃO se aplicam a ela; (6) diga a única situação da bolsa escrotal do recém-nascido que é encaminhamento para emergência e por qual motivo — que não é gonadal.

Em 30 dias

Retenção de longo prazo, tudo de cabeça: (1) reconstrua a tabela das cinco coisas que passam pelo mesmo canal — hérnia, hidrocele comunicante, cisto do cordão, criptorquidia e testículo retrátil — com localização, variação ao esforço e ao longo do dia, redutibilidade, transiluminação, palpabilidade do testículo e conduta; (2) explique por que a diferença entre hérnia, hidrocele comunicante e cisto do cordão é de calibre e não de natureza, e por que isso implica que uma delas opera e as outras esperam; (3) converta, para um lactente de 6,5 kg, dipirona 15 mg/kg em mililitros da solução injetável de 500 mg/mL, e morfina 0,1 mg/kg em mililitros da ampola de 10 mg/mL, dizendo o que se faz quando o volume calculado é impossível de aspirar; (4) reconstrua as duas posições sobre o momento do reparo da hérnia no prematuro internado, com o documento e o ano de cada uma, e diga as três perguntas que decidem para o paciente à frente; (5) diga por que não se pede ultrassonografia para investigar testículo não palpável, começando pelo desempenho do método e terminando pelo momento em que a classificação é confirmada; (6) explique, para uma família, por que o testículo retrátil não opera mas volta em um ano; (7) diga o que a Caderneta da Criança pergunta sobre criptorquidia, em que consulta, e por que esse calendário não conversa com o prazo do protocolo de encaminhamento.

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Agora atenda

Sábado à tarde, unidade de pronto atendimento; você está de plantão e o serviço com cirurgia pediátrica fica a oitenta quilômetros daqui. Entra no colo do pai um lactente de quatro meses que chora sem parar há duas horas, vomitou duas vezes e recusou o peito. A triagem escreveu “cólica”. O abdome está distendido. Você tem dez segundos e uma fralda para abrir. Colha a história com atenção ao que mudou nas últimas horas, dispa a criança e examine as duas regiões inguinais e a bolsa escrotal antes do abdome, decida se há sinais de estrangulamento antes de encostar na massa, escolha entre tentar reduzir e não tentar, prescreva a analgesia com a dose calculada para o peso e convertida em mililitros, diga o que você informa no telefonema para a regulação — e explique ao pai, com as suas palavras, por que a criança não vai para casa mesmo se a massa voltar para dentro.

Hérnia inguinal, hidrocele e criptorquidia na infância – A bolsa vazia e o caroço que vai e volta — Internato | OsceLabs