Cirurgia GeralCirurgia Pediátrica

A cor do vômito e a fralda que não sujou

Doença de Hirschsprung e obstrução neonatal

Distinguir a urgência do vômito bilioso da investigação de obstrução distal e Hirschsprung, estabilizando e acionando a equipe desde a suspeita.

Fontes deste capítulo

Rossi D, Irvine W, Löf Granström A, Mutanen A, Bakx R, Bjørnland K, et al. Updated European Reference Network for rare Inherited and Congenital Digestive and Gastrointestinal Anomalies guidelines for the management of rectosigmoid Hirschsprung's disease 2025. Journal of Pediatric Gastroenterology and Nutrition. 2026;83(1):185-207. DOI 10.1002/jpn3.70442.

Kyrklund K, Sloots CEJ, de Blaauw I, Bjørnland K, Rolle U, Cavalieri D, et al. ERNICA guidelines for the management of rectosigmoid Hirschsprung's disease. Orphanet Journal of Rare Diseases. 2020;15(1):164. DOI 10.1186/s13023-020-01362-3.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento Científico de Gastroenterologia, gestão 2022-2024. Guia Prático de Orientação: Constipação intestinal. Nº 144, 04 de abril de 2024. Relatores: Mário César Vieira e Gabriela Guimarães Vieira. 11 páginas.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais - Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 252 p. ISBN 978-65-5993-710-3.

Mattioli G, Gallo E, Wong MCY, Marzoli A, Pongiglione M, Calevo MG, et al. Diagnostic accuracy of upper gastrointestinal series in children with suspected intestinal malrotation. Updates in Surgery. 2024;76(1):201-208. DOI 10.1007/s13304-023-01559-8.

01

Responda antes de ler

Você é o interno de um hospital regional sem cirurgião pediátrico e vai transferir, por transporte terrestre de duas horas, um recém-nascido de 3,2 kg com suspeita de má rotação com volvo do intestino médio. O bebê está em jejum, com sonda gástrica aberta, acesso venoso e uma expansão de 32 mL de cloreto de sódio a 0,9% já realizada. Qual conjunto de medidas imediatamente anteriores ao embarque é o correto?

02

O paciente que você vai ver

Quatro e dez da manhã, alojamento conjunto de um hospital regional de cento e vinte leitos, o tipo de serviço que tem pediatra de plantão, tem aparelho de raio-X, tem laboratório que roda a noite inteira e não tem cirurgião pediátrico nem hoje nem em nenhum outro dia. O hospital com cirurgião pediátrico fica a cento e sessenta quilômetros, e a ambulância que faz esse trajeto pertence à regulação estadual e não ao hospital. Você é o interno da noite. A técnica de enfermagem não bate na porta do posto: entra e diz o berço.

"Doutor, o nove. Vomitou verde."

O berço nove tem uma etiqueta com o nome Cleto e o nome da mãe, Nilcelia Amoreira. Nasceu anteontem à noite, de parto vaginal, trinta e oito semanas e quatro dias, 3.180 gramas, Apgar nove e dez, bolsa rota de duas horas, mãe sem intercorrência no pré-natal e com sete consultas registradas na caderneta. Tem, agora, vinte e sete horas de vida. Na folha de evolução da tarde alguém escreveu, com letra apressada, "mamando bem, sem intercorrências", e riscou o campo do primeiro mecônio porque não havia o que anotar.

Ao lado do berço, sobre o lençol, há uma fralda aberta. O que está nela não é leite regurgitado nem é branco: é uma mancha de uns cinco centímetros, amarelo-esverdeada, com uma borda mais escura onde secou. A mãe está sentada na cama, acordada, e diz que ele mamou às duas, dormiu, e vomitou pouco antes de a técnica passar. Diz também, sem que você pergunte, a frase que você vai ouvir de novo no resto da sua vida profissional: "ele ainda não fez cocô, doutor. Desde que nasceu. Isso é normal?"

Você olha o bebê. Ele está corado, quente, acordado, chorando um choro que não é fraco. E o abdome, que numa criança de dois dias deveria ser plano ou levemente cheio, está estufado — não muito, mas o suficiente para que a pele acima do umbigo esteja lisa e brilhante, e para que dê para ver, quando ele chora, o desenho de uma alça que se levanta e desaparece.

Existem, neste berço, duas perguntas, e elas não têm a mesma pressa. A primeira é a cor do vômito, e ela pergunta se há alguma coisa torcendo agora, com o intestino ainda vivo e um relógio correndo. A segunda é a fralda que não sujou, e ela pergunta se este intestino tem gânglio até embaixo — uma pergunta que vai ser respondida em dias, por um patologista, e não por você esta noite. Errar qual delas é urgente é o erro que este capítulo existe para impedir.

Nas próximas horas você vai fazer coisas que não precisam de cirurgião e não precisam de laudo: vai olhar o períneo daquela criança com uma lanterna, vai passar uma sonda e deixá-la aberta, vai pedir uma radiografia simples de abdome sabendo de antemão as duas coisas que ela não vai responder, vai calcular um volume, vai medir uma temperatura que ninguém lembra de medir, e vai fazer um telefonema em que a primeira frase decide o resto. Nenhum desses atos é técnica de cirurgião. Todos são do interno, e nenhum deles espera o amanhecer.

E vai fazer uma coisa a mais, que é a menos ensinada de todas: vai escrever. Porque quando a ambulância chegar, e ela vai chegar depois de o quadro ter mudado, o que a equipe de destino vai ter para reconstruir a noite não é a sua memória nem a sua voz ao telefone. É o que está no papel — a hora do primeiro vômito, a cor dele, o perímetro abdominal medido com fita e não com a mão, o que saiu pela sonda em mililitros, se saiu mecônio depois do toque e como ele saiu.

03

Quem adoece disso

A doença de Hirschsprung tem prevalência de um caso em cada cinco mil nascimentos, com predomínio masculino de quatro para um na forma retossigmoide, que é a mais comum. Em oitenta a oitenta e cinco por cento dos pacientes a ausência de gânglios se limita ao reto e ao sigmoide; nos quinze a vinte por cento restantes ela sobe acima da junção retossigmoide, e é essa minoria que dá o trabalho — porque é nela que a lavagem retal falha, que o enema engana e que o segmento doente é mais longo do que o cirurgião esperava. Cerca de noventa por cento dos casos se apresentam ainda no período neonatal.

Num hospital de porte médio isso significa uma coisa desconfortável de aceitar: você vai ver poucos. Se o serviço faz mil e quinhentos partos por ano, a conta dá um caso a cada três anos e pouco. A doença é rara o bastante para que a maioria dos plantonistas nunca tenha visto uma, e frequente o bastante para que, ao longo de uma carreira, quase todo médico que trabalha com recém-nascido encontre pelo menos um — quase sempre sem esperar, quase sempre de madrugada, quase sempre no serviço que não tem cirurgião pediátrico. É por isso que o que se treina aqui não é o diagnóstico: é o reconhecimento e a primeira hora.

A tríade clássica descrita pela diretriz europeia corrente é atraso na eliminação do mecônio, distensão abdominal e vômito bilioso. Nos pacientes com a doença, a distensão abdominal aparece em mais de noventa por cento, o vômito em mais de oitenta e cinco por cento — podendo ser bilioso — e a falha em eliminar mecônio nas primeiras vinte e quatro horas de vida em mais de sessenta por cento. Leia essa última cifra com cuidado, porque ela é a que mais engana: quatro em cada dez recém-nascidos com a doença eliminam mecônio dentro do primeiro dia. O mecônio que sai não afasta nada.

A prematuridade é rara nesta doença e vem aumentando. Numa revisão sistemática de 4.127 lactentes diagnosticados entre 1964 e 2013, apenas cinco por cento eram prematuros; entre os nascidos nos anos mais recentes da série, a proporção subiu para catorze por cento. A apresentação depois dos três anos de idade é incomum. Entre quatro e trinta por cento dos pacientes têm um transtorno do desenvolvimento ou uma síndrome associada — e a associação com trissomia do 21 importa duas vezes, porque muda o limiar para investigar e porque é um dos fatores que predispõem à enterocolite.

A enterocolite associada à doença é a complicação grave mais frequente, e cerca de trinta por cento dos pacientes têm pelo menos um episódio depois da cirurgia definitiva. Esse número, no entanto, descreve o paciente já operado e acompanhado por um serviço especializado — que não é o paciente deste capítulo. O recém-nascido do berço nove, se tiver a doença, não foi operado, não foi diagnosticado e não está sendo acompanhado por ninguém; se ele fizer enterocolite, vai fazer antes de qualquer diagnóstico, e quem vai receber esse quadro é o plantão geral. É a leitura deste capítulo, e não uma afirmação das diretrizes: os documentos internacionais descrevem a enterocolite predominantemente como complicação pós-operatória, e o interno brasileiro a encontra predominantemente como forma de apresentação.

Do lado brasileiro, o que existe é menos do que se gostaria e precisa ser dito com todas as letras. Não há registro nacional de doença de Hirschsprung, não há protocolo do Ministério da Saúde sobre obstrução intestinal neonatal, e os quatro volumes do guia federal de atenção ao recém-nascido não tratam de distensão abdominal, de vômito bilioso nem de obstrução — o volume que se ocupa dos problemas do recém-nascido cobre respiratório, cardiocirculatório, metabólico, neurológico, ortopédico e dermatológico, e o abdome cirúrgico não está lá. O documento brasileiro mais recente que diz por escrito o que fazer diante do bebê que atrasou o mecônio é um guia prático de constipação intestinal da Sociedade Brasileira de Pediatria, de abril de 2024, escrito por gastroenterologistas pediátricos e não por cirurgiões, e que trata a doença de Hirschsprung como um diagnóstico diferencial de constipação — o que ela é no consultório e não é no berçário.

Esse guia dá números que dizem, por contraste, por que o berçário é outro território. A constipação intestinal funcional responde por noventa e cinco por cento dos casos de constipação na infância, com prevalência populacional agrupada estimada em nove vírgula cinco por cento no mundo; em dezessete a quarenta por cento dos pacientes os sintomas começam no primeiro ano de vida. A pseudoconstipação do lactente em aleitamento materno, que assusta muito e não é doença, tem prevalência estimada de cinco vírgula um por cento no primeiro semestre; e uma pesquisa em consultórios pediátricos brasileiros encontrou disquesia do lactente em três vírgula nove por cento. Ou seja: quase tudo que chega com a queixa "não evacua" é benigno — em criança maior. Antes do primeiro mês, a estatística se inverte, e é isso que o mesmo guia registra ao colocar o início dos sintomas no primeiro mês de vida entre os sinais de alarme.

Uma última cifra, que muda a expectativa da noite: a lavagem retal com solução fisiológica descomprime efetivamente o intestino em cerca de setenta e cinco por cento dos pacientes com a doença. Isso quer dizer duas coisas ao mesmo tempo. Que um gesto simples, disponível em qualquer hospital, resolve a obstrução funcional de três em cada quatro crianças enquanto a biópsia não sai — e que um em cada quatro não responde, e esse um costuma ser justamente o de segmento longo, o que precisa de estomia e o que não pode esperar a fila do transporte.

04

Por que acontece o que acontece

Duas doenças diferentes produzem, no mesmo berçário e às vezes na mesma noite, um abdome distendido e um vômito verde. Uma delas obstrui porque um pedaço do intestino não sabe relaxar; a outra obstrui porque o intestino inteiro girou em torno do próprio pedículo e está estrangulando a artéria que o alimenta. A primeira tem semanas. A segunda tem horas. Nenhum sinal de beira de leito separa as duas com segurança, e é por isso que a ordem dos atos desta noite é governada pela segunda, mesmo quando a primeira é mais provável.

Entender o mecanismo aqui não é ornamento: cada uma das regras práticas do capítulo — por que a biópsia é feita dois centímetros acima da linha pectínea e não rente ao ânus, por que o segmento estreito é o doente, por que a lavagem retal resolve a obstrução sem cortar nada, por que uma diarreia explosiva numa criança que não evacuava é péssima notícia, e por que o vômito bilioso é cirúrgico enquanto o não bilioso não é — sai diretamente de um dos parágrafos abaixo.

Ilustração de cólon com segmento proximal dilatado e transição para reto distal mais estreito, mantendo o canal anal aberto.
O padrão de dilatação proximal e segmento distal mais estreito ajuda a compreender a obstrução funcional da doença de Hirschsprung. A extensão e a aparência da transição variam. Este desenho não substitui a investigação e a confirmação histológica da aganglionose.

O intestino é colonizado de cima para baixo, e a doença é onde a colonização parou

O sistema nervoso do intestino não nasce no intestino. Ele chega de fora, na forma de células da crista neural que entram pela extremidade alta do tubo digestivo, no início da vida embrionária, e migram no sentido da boca para o ânus, colonizando a parede à medida que avançam. Quando a migração se completa, há gânglios em toda a extensão, do esôfago ao canal anal. Quando ela para antes do fim, o trecho que ficou para trás fica sem gânglios.

Duas consequências saem daí, e as duas são operacionais. A primeira: o segmento agangliônico é sempre o mais distal e é sempre contínuo com o ânus — a doença não pula pedaços e não aparece no meio do cólon deixando um trecho normal abaixo. É por isso que uma biópsia colhida logo acima do ânus responde a pergunta: se ali houver gânglios, não há doença acima. A segunda: quanto mais cedo a migração parou, mais longo é o segmento doente. Retossigmoide em oitenta a oitenta e cinco por cento dos casos significa que, na grande maioria, a parada foi tardia e o trecho doente é curto.

Na parede agangliônica não faltam apenas os gânglios. Faltam os dois plexos — o submucoso e o mientérico — e, no lugar deles, há troncos nervosos extrínsecos hipertrofiados, que vêm de fora e não formam circuito local. É essa hipertrofia que produz o aumento da atividade da acetilcolinesterase que o patologista usa como pista, e é a ausência de células ganglionares que a imuno-histoquímica de calretinina revela como negatividade. Enxergar uma única célula ganglionar na coloração de rotina já exclui a doença naquele ponto.

O segmento estreito é o doente — e essa inversão engana quem olha a imagem pela primeira vez

O reflexo de quem vê a imagem é apontar a alça dilatada e dizer "é aqui". É exatamente o contrário. A alça dilatada está cheia porque está funcionando: ela empurra contra uma porta que não abre, hipertrofia com o esforço e dilata com o que não passa. O trecho estreito, colapsado, aparentemente inocente, é o doente — ele é estreito justamente porque não tem quem mande relaxar, e permanece num tônus contínuo.

Entre os dois há uma zona de transição, em forma de funil, onde o calibre cai. No enema contrastado, essa mudança de calibre sugere onde está o limite histológico — sugere, não prova. E ela é menos confiável quanto mais proximal: acima da junção retossigmoide, a mudança de calibre prevê mal o nível da doença, e é aí que se deve pensar em segmento longo.

A mesma inversão explica o toque retal. Numa criança com retenção fecal funcional, o reto está dilatado e cheio de fezes. Na doença de Hirschsprung, o canal anal e o reto são estreitos e quase sempre vazios, porque as fezes estão retidas acima do reto — e é justamente por isso que esforço intenso para evacuar e escape fecal, que são a marca da constipação funcional, são raros na doença. O dedo que entra num reto vazio numa criança que não evacua há dias está dando uma informação, não deixando de dar.

Por que a biópsia sobe dois centímetros: o reto normal também é pobre de gânglios lá embaixo

Existe, no reto distal normal de qualquer pessoa, uma faixa fisiologicamente agangliônica e hipogangliônica, logo acima da linha pectínea. Ela não é doença: é anatomia. Um fragmento colhido dentro dessa faixa vem sem gânglios mesmo num intestino perfeitamente normal, e um patologista que receba esse fragmento sem saber de onde veio vai laudar ausência de células ganglionares.

Daí sai uma regra que parece burocrática e é diagnóstica: as biópsias devem ser colhidas da parede posterior ou lateral do reto, no mínimo dois centímetros acima da linha pectínea, ou três centímetros da margem anal, e precisam conter submucosa em quantidade representativa. Uma biópsia aberta costuma dar tecido suficiente numa amostra; com a biópsia por sucção, recomendam-se duas a três.

A consequência para você, que não vai colher a biópsia, é o que se escreve no encaminhamento. Um falso-positivo aqui não é um exame ruim que se repete: é uma criança que vai para uma cirurgia de rebaixamento sem ter a doença. É por isso que a diretriz europeia insiste que o diagnóstico seja confirmado por histologia representativa antes da cirurgia definitiva, e que casos duvidosos sejam levados a um patologista experiente, com consulta externa quando necessário.

A obstrução é funcional — e é por isso que uma sonda de borracha resolve o que nenhum bisturi precisaria resolver hoje

Não há estenose mecânica na doença de Hirschsprung. A luz do segmento doente é anatomicamente patente; o que falta é o comando para que ele relaxe quando a onda peristáltica chega de cima. O resultado funcional é o mesmo de uma porta trancada, e a manometria mede a tranca: o reflexo inibitório retoanal, que normalmente relaxa o esfíncter interno quando o reto distende, está ausente.

Como a obstrução é de tônus e não de calibre, um tubo macio atravessa o segmento e abre o caminho. Foi o que a técnica de enfermagem viu quando o dedo saiu do ânus: descarga explosiva de gás e fezes, que é um dos itens de maior peso no escore de enterocolite justamente porque marca a pressão que estava represada. E é o que sustenta a conduta de espera: lavagens retais com solução fisiológica, uma a três vezes ao dia, descomprimem o intestino e permitem alimentar por via enteral enquanto o resultado da biópsia não sai, com os pais treinados para continuá-las em casa até a cirurgia.

Descomprimir não é curar, e há uma fronteira precisa nisso. Se as lavagens não descomprimem o suficiente, se houver enterocolite que não responde ao tratamento não operatório, ou se houver perfuração intestinal, a indicação passa a ser estomia — e o nível empírico mais seguro é o íleo distal, pela probabilidade de que a doença esteja confinada ao cólon.

Da estase à enterocolite: por que a diarreia, aqui, é a má notícia

O conteúdo que fica parado acima de um segmento que não abre não fica inerte. A estase permite crescimento bacteriano, a distensão prolongada compromete a barreira da mucosa e o que estava dentro da luz começa a atravessar a parede. O quadro que resulta disso não se parece com constipação: parece infecção, e é. Distensão, febre, prostração, má perfusão — e diarreia.

É essa diarreia que produz o erro clínico mais caro deste capítulo. Uma criança que não evacuava e passa a evacuar líquido, explosivo e de cheiro fétido parece, para quem chega agora, uma criança que melhorou ou uma criança com gastroenterite. Não é nenhuma das duas: nesta doença, esses são exatamente os itens de maior pontuação do escore usado para suspeitar de enterocolite — diarreia com fezes explosivas vale dois pontos, diarreia com fezes de cheiro fétido vale dois, e descarga explosiva de gás e fezes ao toque retal vale mais dois.

A tendência à enterocolite diminui com o tempo, e a maioria dos episódios acontece nos primeiros anos após a cirurgia de rebaixamento. Predispõem a ela a história familiar da doença, o segmento longo, a trissomia do 21 e episódios prévios de enterocolite. Nada disso, note, ajuda no berço nove: o recém-nascido ainda não operado não tem episódio prévio, não tem cirurgia atrás dele e pode não ter história familiar nenhuma.

A outra família: o intestino que gira em torno da própria artéria

A má rotação intestinal não é uma doença de parede nem de inervação: é de posição. Durante a vida fetal, o intestino médio hernia para fora do abdome, gira no sentido anti-horário em torno do eixo da artéria mesentérica superior e volta, fixando-se por uma raiz de mesentério larga, que vai do ângulo duodenojejunal, no quadrante superior esquerdo, ao ceco, no inferior direito. Quando essa sequência se altera, a raiz do mesentério fica curta e estreita, e o intestino médio inteiro passa a pender de um pedículo fino que contém a sua única artéria.

Um pedículo estreito torce. E, ao torcer, não fecha primeiro a luz: fecha primeiro o retorno venoso e depois o fluxo arterial do território inteiro da mesentérica superior — do duodeno distal ao cólon transverso proximal. É por isso que o relógio aqui é vascular e não obstrutivo, e é por isso que o bebê pode estar, na primeira hora, com abdome quase normal: ainda não distendeu, porque o que está acontecendo é isquemia, não acúmulo. Quando a distensão e a dor evidente chegam, uma parte do intestino já morreu.

Uma distinção que o cirurgião faz e que vale saber: nem toda anomalia de rotação corre o mesmo risco. Quando a alça cecocólica retorna ao abdome antes do intestino médio, resulta uma não rotação, geralmente associada a um mesentério de base larga — e essa configuração, por definição, não está sob risco de volvo do intestino médio. O risco mora na base estreita, não no achado radiológico de "intestino fora do lugar". Some-se a isso a obstrução extrínseca que as bridas peritoneais do ceco malposicionado fazem sobre o duodeno, e você tem as duas maneiras pelas quais a má rotação se apresenta: a que estrangula, que é a emergência, e a que apenas obstrui, que é a que se opera com data marcada.

05

Como se apresenta de verdade

Obstrução neonatal quase nunca chega com a palavra obstrução escrita na ficha. Chega como "vomitou", como "não faz cocô", como "a barriga está dura", como "não pega o peito direito" — e chega dentro de um alojamento conjunto onde noventa e cinco por cento dos bebês estão bem e onde a norma da casa é dar alta em quarenta e oito horas. O que separa o caso da estatística não é um sinal raro: é ter três perguntas na cabeça e fazê-las na ordem certa.

As três são: de que cor é o vômito, já saiu mecônio e como está o ânus. Nenhuma exige aparelho. As duas primeiras se respondem perguntando; a terceira, com uma lanterna e trinta segundos.

A trava: vômito bilioso em recém-nascido é má rotação com volvo até prova em contrário

Escreva isto como regra e não como lembrete, porque é a única frase deste capítulo que, isolada, salva um intestino: vômito verde ou amarelo-esverdeado em recém-nascido é má rotação intestinal com volvo do intestino médio enquanto não houver exame que derrube a hipótese — e esse exame tem hora marcada. Não é um diferencial entre outros. É a hipótese de trabalho até que um exame a derrube.

A razão é aritmética, não retórica. A bile entra no tubo digestivo pela papila duodenal; um vômito com bile significa, portanto, que o conteúdo veio de baixo dela, isto é, que a obstrução está abaixo da papila. Isso exclui de saída o que obstrui acima — a estenose hipertrófica de piloro, cujo vômito é por definição não bilioso, e cuja abordagem pertence ao capítulo Ele vomita, e continua com fome, desta mesma apostila. E deixa em pé, entre as causas abaixo da papila, uma que necrosa o intestino inteiro em horas.

A pegadinha é o oposto do que a intuição sugere: nas primeiras horas, o volvo do intestino médio pode ter o abdome menos distendido do que uma obstrução baixa banal. O que está acontecendo é isquemia de um pedículo torcido, e isquemia não enche a barriga — enche o intestino de sangue e o bebê de acidose. Um abdome pouco distendido, portanto, não tranquiliza ninguém aqui; um abdome que ficou distendido, doloroso e com a parede avermelhada ou arroxeada já é tarde.

Falta dizer o erro simétrico, e ele existe: nem todo vômito verde é volvo. Atresias, íleo meconial, doença de Hirschsprung de segmento longo e íleo funcional da sepse também dão vômito bilioso. A trava não afirma que é volvo — afirma que se age como se fosse, até que a imagem diga que não é. Agir como se fosse custa uma sonda, um acesso e um telefonema. Não agir custa um intestino curto para o resto da vida.

O mecônio que não veio: dois prazos, dois documentos, e o que fazer entre eles

O prazo do mecônio é o exemplo mais limpo, neste capítulo, de duas réguas em vigor discordando. A diretriz europeia corrente coloca na tríade clássica da doença de Hirschsprung o atraso na eliminação do mecônio acima de vinte e quatro horas no recém-nascido a termo. O guia prático brasileiro de constipação intestinal, de abril de 2024, lista entre os sinais de alarme para causa orgânica o atraso na eliminação de mecônio por mais de quarenta e oito horas após o nascimento. Vinte e quatro contra quarenta e oito.

Nenhum dos dois está errado dentro do seu contexto, e é justamente isso que faz a diferença importar. O documento europeu está dizendo quando indicar biópsia retal numa criança já suspeita; o documento brasileiro está dizendo quando parar de tratar constipação como funcional num consultório. O bebê do berço nove não está em nenhum dos dois contextos: ele está com vinte e sete horas de vida, sem mecônio e com vômito bilioso — e aí o prazo do mecônio não decide nada, porque a cor do vômito já decidiu.

O que fazer entre os dois prazos, então, é o que se resolve na prática. Recém-nascido a termo que passou de vinte e quatro horas sem mecônio e está bem, mamando, com abdome plano e ânus normal: isso é observação ativa com hora marcada, exame do períneo documentado e reavaliação, não é alta com orientação. Passou de quarenta e oito horas, ou apareceu qualquer uma das outras companhias — distensão, vômito de qualquer cor, recusa alimentar, queda do estado geral, febre, baixo ganho de peso —, e a investigação deixa de ser opcional pelas duas réguas ao mesmo tempo.

Vale registrar o que o guia brasileiro põe na mesma lista de alarme, porque é uma lista boa e curta: atraso na eliminação de mecônio, início dos sintomas no primeiro mês de vida, sintomas extraintestinais (vômitos biliosos, febre, queda do estado geral), baixo ganho de peso e estatura, alterações ao exame neurológico ou da coluna lombar, sangue nas fezes, tufo de pelos na região sacral e fístulas perineais. Quatro desses oito itens se acham com a criança despida e uma lanterna.

Alta ou baixa: o que a distensão, o vômito e o ânus dizem sobre a altura

Antes de nomear a doença, vale localizar o andar, porque o andar muda a pressa e muda o exame que se pede. Obstrução alta — duodeno e jejuno proximal — vomita cedo, vomita muito, vomita bile se estiver abaixo da papila, e distende pouco ou nada, porque há pouco intestino acima do ponto obstruído para acumular. Obstrução baixa — íleo distal, cólon, reto — distende muito, distende o abdome todo, demora mais para vomitar e, quando vomita, o conteúdo já é fecaloide.

O vômito diz a altura pelo tempo e pela cor; a distensão diz pela extensão. E há um terceiro dado que quase ninguém coleta: a eliminação de gases e de mecônio depois de uma manipulação. Numa obstrução mecânica completa, nada sai; numa doença de Hirschsprung, a passagem de uma sonda retal costuma produzir descarga explosiva de gás e fezes — o que é sinal, e não alívio.

O ânus fecha o raciocínio, e é a parte do exame que mais se pula. Um ânus que não existe no lugar certo, um ânus de calibre puntiforme, um orifício deslocado para a frente, uma fístula que verte mecônio no períneo, na vulva ou na rafe escrotal: qualquer um desses achados encerra a discussão sobre causa e transfere o caso inteiro para a cirurgia. Nenhum capítulo deste nível trata da malformação anorretal, e este capítulo assume, por isso, o seu reconhecimento e a primeira conduta — que é jejum, sonda, ausência de qualquer tentativa de dilatação e telefonema.

Um alerta sobre o que a idade faz com essa leitura: no prematuro, todas essas fronteiras ficam borradas. A distensão pode ser de íleo funcional, o resíduo gástrico esverdeado pode ser de imaturidade motora, e a doença que mais se parece com obstrução baixa naquele bebê talvez seja enterocolite necrosante e não Hirschsprung. Isso não muda a primeira conduta — muda quem você chama primeiro.

A enterocolite: o quadro que mata, e como ele chega vestido de outra coisa

A enterocolite associada à doença de Hirschsprung é a razão pela qual esta doença ainda mata. Ela se suspeita, pela diretriz europeia corrente, na presença de diarreia com fezes explosivas e de cheiro fétido, ou por mais de quatro pontos no escore de itens de Pastor — um escore de dezesseis linhas em que os pesos maiores estão exatamente nos achados que o interno pode colher sem exame nenhum.

A soma dos itens de história e exame físico basta para ultrapassar o corte: diarreia com fezes explosivas vale dois, diarreia com fezes fétidas vale dois, descarga explosiva de gás e fezes ao toque retal vale dois, abdome distendido vale dois. Quatro achados de beira de leito somam oito pontos num escore cujo corte operacional são cinco. Some febre, letargia, má perfusão, leucocitose e desvio à esquerda, e o quadro é o de uma sepse abdominal — que é o que ele é.

O erro de leitura que custa vidas está descrito no parágrafo do mecanismo e merece ser repetido aqui em forma clínica: a criança que não evacuava passou a evacuar, e passou a evacuar líquido, muito e fedido. Para quem chega no meio, isso parece melhora, ou parece gastroenterite, ou parece que a lavagem funcionou. Nesta doença, é o contrário — é o sinal de que o intestino parado infectou.

A diretriz europeia é explícita quanto ao limiar de internação: em suspeita de enterocolite, o limiar deve ser baixo. Sintomas leves, sem distúrbio hidroeletrolítico e com marcadores inflamatórios normais, podem ser tratados ambulatorialmente com hidratação oral, com ou sem metronidazol oral, e lavagens retais — mas com internação imediata se não melhorar, e com o desfecho acompanhado. Todos os demais internam. E a idade abaixo de um ano baixa ainda mais o limiar. O recém-nascido do berço nove está, portanto, sempre no grupo que interna.

A mesma doença aos três meses e aos três anos: o outro modo de chegar

Nem toda doença de Hirschsprung se apresenta no berçário — cerca de noventa por cento se apresenta, o que deixa uma em cada dez para chegar depois, e essa é a que costuma acumular consultas antes do diagnóstico. A criança tem constipação que começou no primeiro mês de vida, distensão abdominal desproporcional, ganho de peso ruim, e uma história de que "só evacua com estímulo".

Dois dados do exame separam essa criança da constipação funcional, e os dois estão no guia brasileiro de 2024. O primeiro: esforço intenso para evacuar e incontinência fecal são raramente observados na doença de Hirschsprung, porque as fezes ficam retidas acima do reto. O segundo: o canal anal e o reto são estreitos e quase sempre vazios na doença, enquanto na constipação funcional com retenção o reto costuma estar dilatado e cheio de fezes. Constipação funcional suja a calcinha; Hirschsprung, não.

O mesmo guia coloca o toque retal no seu lugar, e vale seguir a régua brasileira aqui: não há evidência para recomendá-lo em todos os pacientes com constipação, especialmente em maiores de um ano sem sinais de alarme; ele pode ser recomendado quando há suspeita de fecaloma, sinais de alarme ou suspeita de causa orgânica; e não deve ser realizado quando há suspeita de violência sexual, situação que exige avaliação multiprofissional e cuja condução pertence ao capítulo Violência e maus-tratos infantis, da apostila de Emergências Pediátricas. Traduzindo para o caso: a criança com sinais de alarme é exatamente aquela em que o toque é recomendado — e é por isso que ele entra aqui e não entra na consulta de rotina.

A apresentação depois dos três anos de idade é incomum, e a que aparece nessa faixa costuma ser de segmento ultracurto ou já vem com o rótulo errado colado há anos. Aqui a manometria anorretal ganha papel, e a diretriz europeia registra que a ausência do reflexo inibitório retoanal é uma das situações em que se deve considerar biópsia retal para excluir a doença — junto com a constipação de início precoce associada a déficit de crescimento e com a criança maior com constipação persistente ou sintomas de distúrbio motor mais generalizado.

O que este capítulo assume, e o que ele entrega a quem é dono

Este capítulo assume o manejo completo da má rotação intestinal com volvo do intestino médio, e o assume por escrito para fechar uma transferência que já estava anunciada em dois lugares. O capítulo Ele vomita, e continua com fome, desta mesma apostila, assumiu provisoriamente a parte que decide na urgência e registrou que "o manejo completo pertence a um futuro capítulo de má rotação e volvo do intestino médio, nesta mesma apostila": este é esse capítulo. E o capítulo Cinco relógios diferentes, da apostila de Urgência e Emergência Cirúrgica, remete a má rotação com volvo e a enterocolite necrosante à apostila de Cirurgia Pediátrica citando o capítulo de invaginação intestinal do lactente — que não é dono de nenhuma das duas, porque trata o vômito bilioso como sinal de alarme e critério para passar sonda, e não como doença que ensina a conduzir. A remissão passa a ser para cá, pelo nome: Doença de Hirschsprung e obstrução neonatal.

Assume também, e declara que assume: o mapa da obstrução neonatal por altura e por sinal, com o reconhecimento e a primeira conduta das atresias, do íleo e da rolha meconial e da malformação anorretal; a leitura da radiografia simples de abdome do recém-nascido; e o reconhecimento, a diferenciação e a primeira hora da enterocolite necrosante. Este último por um motivo explícito e verificado: o capítulo Começar sem saber, parar sem prova, da apostila de Neonatologia, escreve que a enterocolite necrosante como entidade "não tem capítulo neste nível e não é assumida aqui" e a mantém apenas como diferencial a afastar. A apostila de Neonatologia tem quatro capítulos — reanimação em sala de parto, sepse neonatal, infecções congênitas e icterícia — e nenhum deles é de obstrução. O estadiamento completo e a decisão cirúrgica da enterocolite necrosante são do capítulo Enterocolite necrosante do recém-nascido, nesta apostila, que os assumiu depois; aqui ficam o reconhecimento e a primeira hora.

Entrega a quem é dono, e a fronteira se diz nos dois sentidos com as mesmas palavras. A invaginação intestinal do lactente é do capítulo Invaginação intestinal do lactente, desta apostila, e a fronteira é a idade somada ao padrão: invaginação se concentra entre os quatro meses e os dois anos e dói em crises com intervalos de calma; obstrução neonatal aparece nos primeiros dias e não tem crises. A estenose hipertrófica de piloro é do capítulo Ele vomita, e continua com fome, e a fronteira é a cor: aquele vômito é, por definição, não bilioso, e o bebê continua com fome. A obstrução intestinal do adulto é do capítulo A pergunta não é se obstruiu, da apostila de Urgência e Emergência Cirúrgica.

Desse capítulo de adulto, o que atravessa é a pergunta que governa o plantão — não é o diagnóstico da obstrução, é saber se a alça ainda está viva — e ela vale aqui inteira. O que não atravessa é quase todo o resto: no abdome virgem de um recém-nascido não existe brida; a distinção entre delgado e cólon pela radiografia, que no adulto se faz pelas pregas conniventes e pelas haustrações, não se faz no recém-nascido; e as réguas de gravidade construídas em adultos não têm valor validado nessa idade. A desidratação e os planos A, B e C são do capítulo Diarreia e desidratação na criança, da apostila de Gastroenterologia Pediátrica — com uma ressalva que este capítulo faz e sustenta: o recém-nascido com suspeita de obstrução não entra em plano A nem em plano B, porque a via oral está proibida, e a reposição dele é venosa desde o primeiro mililitro. A leitura do distúrbio acidobásico é do capítulo Gasometria arterial; o acompanhamento da curva de peso é de A linha, não o ponto, da apostila de Puericultura e Desenvolvimento; a icterícia prolongada é de A hora antes da cor; o teste do pezinho é de As cinco triagens neonatais, e o hipotireoidismo congênito que ele rastreia, de O pezinho voltou alterado, na apostila de Endocrinologia Pediátrica; e o esquema antimicrobiano empírico da sepse neonatal, com a decisão de quando parar, é de Começar sem saber, parar sem prova.

06

Como fechar o diagnóstico

Há quatro exames neste capítulo e eles respondem quatro perguntas diferentes, em quatro prazos diferentes. A radiografia simples responde "tem obstrução, e em que andar" em minutos. O estudo contrastado do trato digestivo alto — ou a ultrassonografia, onde há quem a faça — responde "o intestino está torcido" em horas. O enema contrastado sugere "até onde vai o segmento doente" em dias. E a biópsia retal responde "é doença de Hirschsprung" — só ela, e depois de todas as outras.

Errar essa ordem é o defeito de investigação mais comum aqui, e ele tem duas formas. A primeira é pedir o enema antes de afastar volvo, num bebê que precisava de bloco e não de sala de raio-X. A segunda é esperar a biópsia para começar a tratar, num bebê que já estava em enterocolite. Nenhum exame deste capítulo adia jejum, sonda aberta, volume e telefonema.

A radiografia simples de abdome: cinco coisas que ela responde e três que ela não responde

A radiografia pode orientar o padrão de obstrução, mas não é condição para o primeiro telefonema. Solicitar exame apropriado enquanto se faz suporte e se aciona a equipe; a persistência de suspeita de volvo com filme normal exige avaliação definitiva urgente, não espera de rotina por nova radiografia.

O que ela responde. Primeiro, se há distensão de alças e quantas: poucas alças dilatadas na parte alta indicam obstrução alta; muitas alças dilatadas espalhadas pelo abdome indicam obstrução baixa. Segundo, o padrão específico da atresia duodenal, com o estômago e o bulbo duodenal dilatados e cheios de ar e nada distal — a imagem que se descreve como duas bolhas. Terceiro, se há ar distal, no reto: a sua ausência num bebê com horas de vida e distensão pesa a favor de obstrução completa, e esse achado é um dos itens do escore de enterocolite quando vem acompanhado de interrupção abrupta do calibre no retossigmoide. Quarto, pneumatose intestinal — ar dentro da parede do intestino, que não é normal em lugar nenhum e que num prematuro distendido significa enterocolite necrosante até prova em contrário. Quinto, pneumoperitônio, que encerra a discussão e antecipa tudo.

O que ela não responde, e é aqui que ela engana. Primeiro: no recém-nascido, ela não distingue intestino delgado de intestino grosso. As pregas conniventes e as haustrações, que separam os dois no adulto e que o capítulo A pergunta não é se obstruiu ensina a procurar, ainda não estão formadas o bastante para isso. Uma alça dilatada num recém-nascido é uma alça dilatada — sem endereço. Segundo: uma radiografia normal, ou quase normal, não afasta má rotação com volvo. Nas primeiras horas o abdome pode ter gás distribuído de maneira quase banal, porque a lesão em curso é isquêmica e ainda não acumulou nada. Terceiro: ela não vê zona de transição e não diagnostica doença de Hirschsprung. Sugerir obstrução distal é o máximo que ela faz.

Uma nota de método, e ela é do capítulo Radiografia de tórax, da apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito, que é dono do modo de ler um filme e a quem este capítulo cede o assunto: julgue o filme antes de interpretá-lo. Um filme de berçário às quatro da manhã é feito com aparelho portátil, com a criança chorando, muitas vezes sem que ninguém segure os braços, e o que parece um achado é, com frequência, a rotação. A leitura sistemática do abdome do recém-nascido, essa sim, não tem dono no nível e é assumida aqui.

O exame que responde a pergunta do volvo — e a conta que ele custa em tempo

A pergunta da má rotação é anatômica e tem um alvo: onde está a junção duodenojejunal. Se ela estiver à esquerda da coluna e na altura do bulbo duodenal, a rotação foi normal; se estiver deslocada para a direita ou para baixo, há má rotação. O exame clássico para isso é o estudo contrastado do trato gastrintestinal superior, e é ele que o capítulo Ele vomita, e continua com fome já indicava, por escrito, para a suspeita persistente de má rotação.

Vale saber o quanto esse exame acerta, porque a resposta desmancha a palavra padrão-ouro. Numa série de um único centro terciário italiano com casos operados entre 2007 e 2020, a posição anormal da junção duodenojejunal foi o parâmetro mais confiável e mais legível — sensibilidade de 0,88, especificidade de 0,54, concordância entre leitores de 83%. Especificidade de 0,54 quer dizer que quase metade das crianças sem a doença tem esse parâmetro lido como alterado. Já as projeções em perfil, que muitos serviços fazem por hábito para ver a terceira porção do duodeno, saíram com sensibilidade de 0,80, especificidade de 0,33, valor preditivo positivo de 0,85 e valor preditivo negativo de 0,25 — e os autores concluem, com todas as letras, que essa incidência não ajudou e sim enganou.

A ultrassonografia é a alternativa que vem ganhando terreno, e o argumento a favor dela é forte: numa metanálise de dezessete estudos e 2.257 participantes, a sensibilidade agregada foi de 94% e a especificidade de 100% para o diagnóstico de má rotação com ou sem volvo, com certeza moderada. Há, porém, um detalhe do próprio resumo dessa metanálise que quase nunca é citado junto e que muda o uso: a acurácia foi melhor na má rotação NÃO complicada por volvo. Ou seja, o exame é mais confiável exatamente na situação que não é emergência, e menos na que é. Isso não desqualifica a ultrassonografia — recomenda cautela com o resultado negativo no bebê grave.

E há a conta que ninguém coloca no papel: o tempo. Nenhum dos dois exames existe às quatro da manhã na maioria dos hospitais que atendem parto no Brasil. O contraste precisa de radiologista disponível; a ultrassonografia de alças precisa de radiologista com prática pediátrica, que é mais raro ainda. Se o exame só sai às oito, a pergunta prática não é qual dos dois é melhor: é se este bebê pode esperar quatro horas. E se ele tem vômito bilioso e qualquer sinal de mau estado, a resposta é não, e o telefonema para o cirurgião pediátrico antecede o exame em vez de depender dele — porque uma laparotomia exploradora num volvo suspeito é decisão defensável, e um intestino morto não é.

O enema contrastado: o que ele mostra, por que sem preparo, e a pergunta que ele não responde

O enema contrastado procura a mudança de calibre entre o cólon dilatado acima e o segmento estreito abaixo, e essa mudança sugere onde está a transição histológica. É informação de planejamento cirúrgico, e é assim que os dois documentos a tratam. A diretriz europeia diz que estudos contrastados são ferramentas complementares no preparo pré-operatório e que não substituem a avaliação histológica para confirmar o diagnóstico. O guia brasileiro de 2024 diz que o enema opaco pode ser feito nos casos suspeitos, que não exclui a necessidade de biópsia retal ou de manometria anorretal, e que tem mais importância na avaliação da extensão do segmento agangliônico antes da abordagem cirúrgica.

O guia brasileiro acrescenta um detalhe técnico entre parênteses que vale mais do que parece: o enema opaco deve ser feito sem preparo. A razão é simples — lavar o cólon antes esvazia a alça dilatada, apaga o contraste de calibre e destrói justamente o achado que se foi buscar. Um enema com preparo num suspeito de Hirschsprung é um exame desperdiçado e uma criança irradiada à toa.

A confiabilidade do achado cai com a altura, e isso importa para o um em cada cinco pacientes com doença acima do retossigmoide. Acima da junção retossigmoide, a mudança de calibre prevê pior o nível da doença, e é nessa situação que se deve considerar segmento longo e biópsias de mapeamento em diferentes níveis do cólon. As imagens mais demonstrativas costumam ser as obtidas logo depois de o contraste ser evacuado.

Uma advertência de disponibilidade que não é detalhe brasileiro menor: nenhum meio de contraste radiológico consta da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024. Não consta sulfato de bário, não consta iohexol, não consta diatrizoato, não consta ioversol — a busca foi feita por termo exato sobre o texto normalizado, e todos deram zero. Isso não significa que o hospital não tenha contraste: significa que ele não vem pelo elenco nacional, e sim por compra local, o que explica por que o exame que decide a conduta deste capítulo é justamente o que falta no hospital pequeno. A conclusão prática é desconfortável e é a mesma dos dois exames anteriores: quando o exame não existe onde a criança está, o exame vira transporte.

A biópsia retal: o único exame que fecha, e as três coisas que decidem se ela vai prestar

O diagnóstico da doença de Hirschsprung deve se basear em histologia retal representativa, e deve ser confirmado antes da cirurgia de rebaixamento. Essa frase é a primeira recomendação da diretriz europeia corrente, e ela atravessou a atualização de 2025 sem uma palavra alterada. Nem o enema, nem a manometria, nem a radiografia diagnosticam a doença.

Três decisões técnicas separam uma biópsia que responde de uma que não responde, e vale conhecê-las mesmo sem colher nenhuma, porque é o que você vai escrever no encaminhamento. Onde: parede posterior ou lateral do reto, no mínimo dois centímetros acima da linha pectínea ou três centímetros da margem anal — mais baixo do que isso cai na zona fisiologicamente pobre de gânglios e produz falso-positivo. Quanto: com submucosa em quantidade representativa; uma biópsia aberta costuma bastar, mas com a biópsia por sucção recomendam-se duas a três amostras. Quem lê: um patologista experiente, com consulta externa nos casos duvidosos — a diretriz é explícita nisso porque o diagnóstico se faz demonstrando uma ausência, e ausência é o achado mais fácil de errar.

Sobre as colorações, o que muda a leitura no recém-nascido: a presença de qualquer número de células ganglionares na coloração de rotina já exclui a doença. Se elas não são vistas, a diretriz recomenda avaliação adicional antes de firmar o diagnóstico, com calretinina ou periferina — e diz por quê: no prematuro, as células ganglionares são pequenas e mal visualizadas na coloração comum. Na doença, a atividade da acetilcolinesterase está aumentada e a calretinina é negativa. A ausência de reação de acetilcolinesterase, isoladamente, não exclui a doença em neonatos muito jovens.

Biópsia por sucção e biópsia aberta são igualmente acuradas quando fornecem submucosa suficiente, e a diretriz manda escolher o método menos invasivo que seja factível naquele serviço — o que, na prática brasileira, quase sempre significa esperar pelo serviço que tem a pinça de sucção e o patologista, e não improvisar.

O laboratório da primeira hora: o que muda a conduta hoje

O laboratório aqui não faz diagnóstico; ele mede o estrago e a compatibilidade com o transporte. Peça hemograma, gasometria com lactato, glicemia, sódio, potássio, cálcio e função renal, e uma proteína C reativa como primeiro ponto de uma série — não como resultado isolado, porque ela sobe tarde. Hemocultura antes do antibiótico, se você for começar antibiótico.

Dois resultados mudam a noite. Acidose metabólica com lactato subindo, num recém-nascido com vômito bilioso, é isquemia intestinal até prova em contrário e transforma o transporte de urgente em emergente. E leucocitose com desvio à esquerda soma dois pontos no escore de enterocolite, um para cada, o que num quadro já pontuado pelo exame físico costuma ser o que faz a soma cruzar o corte.

Um erro de expectativa que vale desfazer: o recém-nascido pode estar isquêmico com hemograma normal e com lactato ainda baixo, porque a resposta dele é lenta e o volume circulante é pequeno. Um laboratório tranquilizador num bebê com vômito verde não desfaz a trava — apenas informa que ele ainda aguenta o trajeto.

A leitura fina do distúrbio acidobásico — qual é o distúrbio primário, se há compensação, qual é o ânion-gap — é do capítulo Gasometria arterial, da apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito, e este capítulo cede a ele o assunto. O que fica aqui é só o gatilho: acidose que piora entre duas coletas é motivo para ligar de novo.

O que não se pede — e por quê

Não se pede manometria anorretal no recém-nascido para decidir a noite. Ela tem papel na criança maior com sintomas sugestivos e na constipação refratária, e a ausência do reflexo inibitório retoanal é motivo para considerar biópsia; mas ela não é exame de plantão, é difícil de interpretar nos primeiros dias de vida e não muda nenhuma das decisões desta madrugada.

Não se pede tomografia. O que ela acrescentaria em relação ao contrastado não justifica a dose de radiação numa criança de dias, e o tempo de sala não existe.

Não se pede estudo contrastado alto num bebê que está vomitando muito e com nível de consciência alterado, sem via aérea protegida e sem sonda aspirando o estômago antes: dar contraste a um estômago cheio num bebê que vomita é acrescentar risco de aspiração ao que já se tem.

E não se pede radiografia de abdome em ortostatismo num recém-nascido pelo simples motivo de que ele não fica em pé — a incidência que substitui, quando se quer procurar ar livre, é o decúbito lateral esquerdo com raio horizontal, que põe o ar livre entre o fígado e a parede. Vale pedir só quando a resposta muda alguma coisa; se já há indicação cirúrgica pelo quadro, o ar livre não acrescenta e o filme atrasa.

07

Separar o que torce do que não abre, e agir pelo que torce enquanto a dúvida existe

São dois percursos que podem se sobrepor: suspeita de isquemia/volvo pede ação urgente; Hirschsprung exige confirmação histológica e descompressão especializada. O estado clínico define a prioridade, e exames não atrasam suporte ou contato.

  1. 1Vômito verde no recém-nascido exige avaliação cirúrgica urgente para excluir obstrução, especialmente má rotação com volvo; não esperar distensão, sangue ou radiografia anormal.
  2. 2Manter jejum, obter acesso, controlar glicemia e temperatura e descomprimir o estômago, com suporte conforme perfusão. Acionar neonatologia, cirurgia e regulação em paralelo.
  3. 3Examinar períneo e abdome e registrar eliminação de mecônio; anomalia anorretal não deve ser dilatada às cegas e não encerra a busca de malformações associadas.
  4. 4No estável, escolher rapidamente o exame que responde à suspeita: radiografia orienta padrões, mas não exclui volvo; estudo contrastado alto ou ultrassom especializado podem ser necessários. Piora ou peritonite exigem decisão cirúrgica sem espera por exames sequenciais.
  5. 5Na suspeita de Hirschsprung estável, discutir biópsia retal adequada e descompressão com a equipe. Irrigação retal é procedimento orientado e ensinado por profissionais habilitados, sem força ou improviso de volume.
  6. 6Distensão com diarreia, letargia, febre ou hipoperfusão pode ser enterocolite associada: internar este recém-nascido, tratar prontamente, discutir irrigação e eventual intervenção; não esperar biópsia ou escore completo.
  7. 7Reavaliar abdome, perfusão, perdas e diurese e transferir com suporte e informação objetiva. Jejum durante a obstrução aguda não significa proibir toda alimentação futura no paciente adequadamente descomprimido e liberado pela equipe.

As quatro frases que mudam a noite inteira

"O vômito é verde." — a hipótese passa a ser volvo do intestino médio, e o telefonema antecede o exame. "Ainda não fez cocô, desde que nasceu." — o relógio do mecônio começou a contar e ninguém anotou a hora zero; anote agora e conte a partir do nascimento, não da sua chegada. "Agora ele está evacuando bastante, líquido e fedido." — nesta doença isso não é melhora, é o quadro de enterocolite se abrindo, e são quatro pontos do escore só nessa frase. "Saiu um jato de gás e fezes quando passei o dedo." — é sinal diagnóstico e são mais dois pontos, não é alívio; registre e não repita o toque por curiosidade.

O mapa da obstrução neonatal por altura: o que cada quadro faz com o vômito, com o abdome e com o filme

QuadroQuando costuma aparecerVômito e abdomeO que a radiografia simples mostraO que decide
Má rotação com volvo do intestino médioQualquer momento; a maioria no primeiro mês, e pode ser a primeira semanaVômito bilioso, muitas vezes antes de o abdome distender; abdome inicialmente pouco alterado, depois distendido, doloroso, com parede arroxeadaPode ser normal ou quase normal nas primeiras horas; depois estômago e duodeno dilatados com pouco gás distalNão é exame: é o telefonema. Contrastado alto ou ultrassonografia se saírem rápido; laparotomia exploradora é decisão defensável na suspeita com bebê mal
Atresia duodenalPrimeiras horas a primeiro diaVômito precoce e abundante, bilioso se abaixo da papila; abdome plano ou apenas com epigástrio cheioDuas bolhas — estômago e bulbo duodenal dilatados e cheios de ar — com ausência de gás distalA radiografia já basta para o encaminhamento; associação com trissomia do 21 pede avaliação cardíaca
Atresia jejunoilealPrimeiro ao segundo diaVômito bilioso; distensão que aumenta com as horas; pode não sair mecônio ou sair pouco e claroVárias alças dilatadas com níveis, tanto mais numerosas quanto mais distal a atresia, e ausência de gás abaixo do pontoEncaminhamento cirúrgico; a contagem de alças estima a altura
Íleo meconial e rolha meconialPrimeiro ao terceiro diaDistensão importante; vômito mais tardio; ausência de mecônio ou eliminação de tampão espessoAlças dilatadas de calibre irregular, aspecto de vidro fosco ou bolhas de sabão na fossa ilíaca direita, poucos níveisEnema contrastado pode ser diagnóstico e terapêutico; íleo meconial obriga a investigar fibrose cística
Doença de HirschsprungPrimeiras 24 a 48 horas, e às vezes só semanas depoisDistensão progressiva; vômito que pode ser bilioso e é mais tardio; ausência ou atraso do mecônio; descarga explosiva ao toqueAlças dilatadas difusas com padrão de obstrução distal; pode haver interrupção de calibre no retossigmoide com ausência de ar distalSó a biópsia retal fecha. O enema sugere a extensão e é feito sem preparo; a lavagem retal é o que resolve a noite
Malformação anorretalAo primeiro exame do períneo, se alguém olharDistensão que aumenta; mecônio que não sai por baixo ou que aparece em fístula perineal, vulvar ou escrotalAlças dilatadas com obstrução distal; não é a radiografia que faz o diagnóstico, é a lanternaInspeção do períneo. Jejum, sonda, nenhuma tentativa de dilatação, transferência; investigar malformações associadas
Enterocolite necrosanteMais no prematuro alimentado; segunda semana em dianteDistensão, resíduo gástrico esverdeado, intolerância alimentar nova, sangue nas fezes, deterioração sistêmicaPneumatose intestinal, gás no sistema porta, alça fixa em filmes seriados, pneumoperitônio se perfurouJejum, sonda, antibiótico e cirurgia se perfurou. Não tem capítulo dono neste nível; o reconhecimento e a primeira hora são assumidos aqui

O escore de enterocolite lido pelo lugar onde o achado é colhido — e o que cada peso está dizendo

AchadoOnde se colhePesoPor que ele pesa isso
Diarreia com fezes explosivasPerguntando à mãe ou olhando a fralda2É a descompressão súbita de um intestino que estava represado, e não trânsito acelerado — o oposto do que a palavra diarreia sugere
Diarreia com fezes de cheiro fétidoPerguntando ou pelo cheiro no berço2Traduz supercrescimento bacteriano acima do segmento parado, que é o mecanismo da enterocolite
Descarga explosiva de gás e fezes ao toque retalNo exame, e uma vez só2É o gradiente de pressão contra um segmento que não relaxa, medido com o dedo; vale tanto quanto os dois anteriores
Abdome distendidoNo exame, com fita métrica e não com a mão2Quantifica o volume retido; medido em série, é o parâmetro que diz se a lavagem está funcionando
Diarreia com sangueOlhando a fralda1Marca lesão de mucosa e aproxima o quadro da enterocolite necrosante como diferencial
Episódio prévio de enterocoliteNa história1Fator de risco reconhecido; vale zero de informação no recém-nascido ainda não diagnosticado
FebreTermômetro axilar1No recém-nascido a hipotermia diz o mesmo e não pontua no escore — é uma das limitações dele nesta idade
LetargiaObservando antes de tocar1É o sinal que a mãe nota primeiro e que a evolução escrita registra por último
Má perfusão periféricaEnchimento capilar e extremidades1Hipotensão é achado tardio no recém-nascido; a perfusão cai antes
Múltiplos níveis hidroaéreosRadiografia1Confirma obstrução, não a causa
Alças dilatadasRadiografia1Idem; soma com o anterior e é fácil de superestimar num filme mal inspirado
Aspecto serrilhado da mucosaRadiografia1Sugere edema de mucosa, que é a enterocolite vista de fora
Interrupção de calibre no retossigmoide sem ar distalRadiografia1É o achado mais específico da doença de base no filme simples
Pneumatose intestinalRadiografia1Ar dentro da parede; pesa 1 no escore, mas na prática antecipa a conversa com o cirurgião
LeucocitoseHemograma1Pode faltar no recém-nascido grave; leucopenia não pontua e é pior
Desvio à esquerdaHemograma1Somado ao anterior, é o par laboratorial que costuma fazer a soma cruzar o corte

Tabela de conversão para um recém-nascido de 3,2 kg — o que existe no elenco do SUS e quanto cada mililitro entrega (recalculada em Python contra a apresentação real)

Apresentação, como consta da Rename 2024O que 1 mL ou 1 frasco contémConta para 3,2 kgArmadilha
Cloreto de sódio 9 mg/mL (0,9%), solução injetável — Básico0,154 mEq de sódio por mLExpansão de 10 mL/kg = 32 mL, que entregam 4,9 mEq de sódio; 20 mL/kg = 64 mL. Uma bolsa de 250 mL cobre quase 8 expansões de 10 mL/kgVolume pequeno em seringa é mais seguro que bolsa em bomba mal programada. 32 mL cabem em duas seringas de 20 mL
Cloreto de sódio 200 mg/mL (20%), solução injetável — Básico3,4 mEq de sódio por mLÉ concentrado de correção, não de expansão: 1 mL puro em 3,2 kg é mais de 1 mEq/kg de sódio de uma vezAmpola parecida com a de água destilada em muitas bandejas. Nunca em bolus, nunca sem diluir
Cloreto de potássio 191 mg/mL (19,1%), solução injetável — Básico2,56 mEq de potássio por mL0,4 mL bastam para 1 mEq/kg diluído nas 24 horasNão entra antes de haver diurese. Em obstrução neonatal o potássio só depois de o bebê urinar
Solução de Ringer com lactato, solução injetável — BásicoSódio, potássio e cálcio já misturadosAlternativa isotônica à expansão; mesmo volume de 10 mL/kg = 32 mLContém potássio: não é a escolha antes da primeira diurese
Benzoilmetronidazol 40 mg/mL, suspensão oral — Básico40 mg de benzoilmetronidazol por mL, equivalentes a 25 mg de metronidazol por mL; frasco de 100 mL = 2.500 mg de metronidazolCada mL entrega 25 mg de metronidazol. Se a prescrição pedir 7,5 mg/kg/dose, são 24 mg = 0,96 mL; 10 mg/kg/dose são 32 mg = 1,28 mL; 15 mg/kg/dose são 48 mg = 1,92 mLÉ a única apresentação oral de metronidazol do elenco, e a bula a rotula para uso pediátrico acima de 1 ano. Prescrever em miligramas sem dizer de qual sal erra o volume por um fator de 1,6
Metronidazol 250 mg e 400 mg, comprimido — Básico250 ou 400 mg por comprimidoNão há como fracionar isso para 3,2 kg com segurançaNão existe metronidazol injetável na Rename 2024. A busca por termo exato sobre o texto normalizado devolve apenas gel vaginal, dois comprimidos e a suspensão de benzoilmetronidazol
Sulfato de amicacina 250 mg/mL, solução injetável — Estratégico250 mg por mLUma dose de 15 mg/kg são 48 mg, que são 0,192 mL — menos de dois décimos de mililitro sem diluirVolume abaixo do que uma seringa de 1 mL mede com confiança. Diluir e usar seringa de 1 mL graduada em centésimos, ou errar a dose
Cefotaxima sódica 500 mg, pó para solução injetável — Básico, classificação Alerta500 mg no frasco; reconstituído em 5 mL fica com 100 mg/mL50 mg/kg são 160 mg = 1,60 mL da solução a 100 mg/mL; sobram 340 mg no frascoO volume de reconstituição não vem impresso na Rename — confira o do fabricante antes de calcular, porque a conta muda inteira
Ceftriaxona 250, 500 e 1.000 mg, pó para solução injetável — Básico, classificação Alerta250, 500 ou 1.000 mg por frascoExiste no elenco, mas é a cefalosporina que não se usa no recém-nascido com bilirrubina alta nem junto com solução contendo cálcioTer no armário não é indicação. A escolha do esquema no recém-nascido é do capítulo Começar sem saber, parar sem prova
Toxina botulínica A 100 U e 500 U, pó para solução injetável — Especializado100 ou 500 unidades por frascoNão é conduta de plantão nem deste capítulo: entra no seguimento pós-operatório, em centro especializadoConsta do elenco, mas pelo Componente Especializado e para outras indicações; a injeção intraesfincteriana da diretriz europeia não é uma indicação prevista ali

Dois percursos, prioridades distintas

SituaçãoPrioridadePapel do interno
Vômito bilioso, com ou sem filme alteradoAvaliação urgente de obstrução/volvo e perfusãoReconhecer, manter suporte, comunicar e organizar exames/destino sem atraso
Atraso de mecônio com suspeita de Hirschsprung, estávelAvaliação especializada, descompressão indicada e biópsiaRegistrar evolução e auxiliar cuidados orientados, sem toque ou irrigação repetidos por rotina
Suspeita de enterocolite associadaSuporte, antimicrobiano e avaliação cirúrgicaReconhecer deterioração antes de escore completo e acompanhar resposta

A atualização ERNICA identificada como de 2025 e publicada em 2026 mantém as recomendações centrais usadas aqui: histologia retal representativa, atenção ao atraso de mecônio no recém-nascido a termo e manejo de enterocolite. Outros itens foram revistos, incluindo recomendações contra dilatações preventivas rotineiras e contra toxina botulínica para prevenir enterocolite. Diferencie prevenção e tratamento de situações selecionadas.

A nota do escore na atualização apresenta remissão a uma referência que não trata de acurácia, enquanto a tabela principal remete a outro trabalho. Ao discutir desempenho, identifique o estudo de origem e o instrumento usado. A numeração editorial não deve substituir a avaliação clínica da criança.

O texto atualizado e a tabela herdada apresentam faixas diferentes de resposta à toxina botulínica. Elas não devem ser usadas como previsão individual nem confundidas com indicação preventiva. A decisão especializada depende de sintomas, investigação e objetivo do tratamento.

Os 16 itens reproduzidos na tabela somam 20 pontos. O corte mais baixo apresentado procura melhorar sensibilidade em relação ao corte histórico. Use o escore como apoio ao reconhecimento e registre seus componentes; suspeita de enterocolite grave não deve aguardar que uma pontuação seja completada.

O resumo do artigo original menciona 18 itens, enquanto a tabela da diretriz reproduz 16. Também há diferença de redação no limite do corte histórico. A consulta limitada ao resumo não resolve a origem dessas diferenças. Identifique a versão do instrumento e evite intercambiar pontos de corte entre tabelas sem conferir sua composição.

Na bula citada, a faixa de evento raro perdeu a fração em “1/1.000”. A redação deve ser lida no contexto das demais categorias de frequência, sem interpretar “até 1.000” literalmente. Esse erro tipográfico não altera a necessidade de monitorar reações na criança tratada.

A suspensão descrita contém 40 mg/mL de benzoilmetronidazol, equivalentes a 25 mg/mL de metronidazol. Calcule o volume pelo componente em que a dose foi prescrita. Meio mililitro fornece 20 mg do benzoilmetronidazol e 12,5 mg de metronidazol; misturar essas referências gera diferença de 60% no volume calculado.

A formulação oral citada tem restrição etária em bula, enquanto a diretriz discute enterocolite também em lactentes. A equipe deve definir indicação, via e apresentação adequadas à idade e gravidade. Criança pequena ou com deterioração exige limiar baixo para avaliação hospitalar, sem adaptar automaticamente um esquema ambulatorial.

Confirme disponibilidade hospitalar de antibióticos e meios de contraste. A lista da Rename citada não representa todo o abastecimento de neonatologia e radiologia. Não substitua um esquema por outro apenas porque uma apresentação aparece no elenco; coordene o plano com pediatria, cirurgia e farmácia.

Os valores preditivos do estudo de contrastado alto vêm de uma série selecionada, com alta proporção de doença. Eles não podem ser transferidos diretamente para todos os recém-nascidos. Interprete resultado negativo com quadro clínico e qualidade técnica, especialmente diante de vômito bilioso ou deterioração.

A bula consultada apresenta datas diferentes de versão, texto padrão e histórico de alteração. Identifique o produto e a versão efetivamente utilizada ao conferir dose e apresentação. A data impressa no rodapé, isoladamente, não resolve a sequência das mudanças.

A diretriz anterior foi desenvolvida em 2018 e publicada em 2020. A atualização usa as duas datas em contextos diferentes. Na referência, indique o ano de publicação e a edição para que o leitor encontre o documento correto, sem tratar a diferença como duas diretrizes independentes.

Os limiares de 24 e 48 horas para mecônio pertencem a perguntas diferentes: suspeita de Hirschsprung no recém-nascido e sinais de alarme na avaliação de constipação. Sintomas associados e condição geral têm prioridade. Vômito bilioso, distensão ou recusa alimentar exigem avaliação sem aguardar qualquer desses limites.

O percurso de suspeita de Hirschsprung exige confirmação por histologia retal representativa. Enema e manometria podem contribuir para a investigação, mas não substituem automaticamente uma biópsia adequada antes do tratamento definitivo. Idade, finalidade do exame e qualidade da amostra devem acompanhar a interpretação.

O volume neonatal federal e o guia de constipação consultados têm escopos limitados para obstrução neonatal. A falta de um algoritmo completo nessas fontes não demonstra ausência de cuidado aplicável. O capítulo organiza reconhecimento, suporte e contato precoce com cirurgia pediátrica pelas referências apresentadas.

As taxas de enterocolite citadas se referem principalmente a pacientes acompanhados após cirurgia. Enterocolite também pode integrar a apresentação diagnóstica, mas as fontes consultadas não quantificam sua predominância no contexto brasileiro. Mantenha a suspeita nos dois momentos e não transfira o percentual de uma população para outra.

A diretriz de manejo não funciona como formulário de doses e volumes. Irrigação retal, reposição e antimicrobianos precisam de prescrição pediátrica específica, com peso, idade, via e monitorização. Combine o protocolo com a equipe que acompanhará a criança e registre os parâmetros, sem inventar um volume a partir de uma recomendação geral.

08

A conduta, hora a hora

A linha do tempo desta noite tem uma particularidade que convém dizer antes de começar: quase nada do que a resolve depende de saber o diagnóstico. Jejum, sonda aberta, volume, calor, glicemia, exame do períneo e telefonema são os mesmos atos para volvo, para atresia, para Hirschsprung e para malformação anorretal. O que muda entre eles é a pressa do transporte e o conteúdo da ligação — não a sequência.

A segunda particularidade é menos confortável. Nenhuma das duas edições da diretriz europeia que sustentam este capítulo contém um único mililitro ou miligrama por quilo: elas mandam fazer lavagem retal, reposição venosa, antibiótico intravenoso de amplo espectro e metronidazol oral sem dizer quanto de nada. Isso não é descuido de leitura — é uma característica do documento, e significa que o volume da lavagem e a dose do antibiótico vêm do serviço que vai receber a criança, e devem ser combinados no telefonema em vez de arbitrados por você. Onde este capítulo dá número, o número vem de outro lugar e está identificado.

Marcos abaixo escritos para o recém-nascido Cleto, 3.180 gramas ao nascer, 3,2 kg agora, 27 horas de vida, vômito bilioso e mecônio ausente, num hospital sem cirurgião pediátrico. Se o seu bebê pesar outra coisa, refaça as contas — não arredonde as minhas.

  1. Minuto 0 — despir, pesar, e olhar o períneo antes de formular hipótese

    Reconhecer gravidade e iniciar contato com a equipe enquanto se examina o recém-nascido, pesa, mede temperatura e inspeciona o períneo. A fralda e o abdome precisam ser vistos, mas nenhuma ordem fixa deve atrasar ajuda diante de vômito bilioso ou hipoperfusão. Registrar idade em horas e início dos sintomas, manter jejum e organizar acesso e descompressão.

    Prescrição
    • Jejum absoluto a partir de agora, incluindo leite materno; dizer isso à mãe com a razão junto, e não como ordem seca
    • Despir por completo e inspecionar o períneo com lanterna: presença, posição e calibre do ânus, fístulas, mecônio no períneo
    • Pesar sem roupa, anotar em gramas com o horário — 3,2 kg neste caso
    • Medir o perímetro abdominal com fita métrica na altura do umbigo e anotar; é o parâmetro que vai ser comparado daqui a duas horas
    • Anotar a hora do nascimento como hora zero da contagem do mecônio, e a hora e a cor do primeiro vômito
    • Medir temperatura axilar: recém-nascido despido esfria em minutos, e hipotermia agrava acidose
  2. Minuto 5 — sonda gástrica, aberta e medida

    A sonda gástrica é o gesto mais subestimado desta lista e o que dá mais retorno por minuto investido. Ela faz três coisas ao mesmo tempo: descomprime o estômago, o que reduz o risco de aspiração num bebê que está vomitando; mede, o que transforma "vomitou de novo" em um número por hora; e mostra a cor, que é o dado que sustentou toda a hipótese. Deixe-a aberta em drenagem livre num frasco abaixo do nível da criança, e não em aspiração intermitente improvisada. Aspire suavemente só para conferir permeabilidade.

    Prescrição
    • Sonda gástrica do maior calibre que a narina ou a boca comporte, fixada com cuidado na pele fina do recém-nascido
    • Drenagem livre em frasco abaixo do nível do bebê, nunca fechada, nunca clampeada "para ver se ele aguenta"
    • Anotar o débito em mililitros a cada hora e a cor de cada saída — bilioso, fecaloide ou claro
    • Somar o débito da sonda à conta de perdas; o que sai por ali sai do volume circulante e precisa ser reposto
    • Não instilar nada pela sonda, inclusive água, enquanto a hipótese de obstrução estiver de pé
  3. Minuto 10 — acesso, expansão, glicemia e calor

    O recém-nascido obstruído perde volume três vezes: pelo que vomita, pelo que fica sequestrado dentro das alças distendidas e pelo que evapora de uma parede fina exposta. Ele chega com sinais discretos e descompensa de uma vez. A classificação formal do grau de desidratação e os planos A, B e C são do capítulo Diarreia e desidratação na criança, da apostila de Gastroenterologia Pediátrica, e este capítulo cede a ele o assunto com uma ressalva explícita: aqui não existe plano A nem plano B, porque a via oral está proibida. A reposição é venosa desde o primeiro mililitro.

    Prescrição
    • Acesso venoso periférico calibroso e fixado; se duas tentativas falharem em bebê com má perfusão, a próxima via é a intraóssea
    • Colher no mesmo acesso: hemograma, gasometria com lactato, glicemia, sódio, potássio, cálcio, função renal e proteína C reativa como primeiro ponto de série
    • Hemocultura antes do antibiótico, se antibiótico for entrar
    • Expansão com cloreto de sódio a 0,9%: 10 mL/kg, que para 3,2 kg são 32 mL, em 20 a 30 minutos, reavaliando ao fim — não em bolus rápido de adulto
    • Repetir a expansão só se persistirem sinais de má perfusão; anotar cada alíquota com horário
    • Glicemia capilar agora e a cada duas horas: recém-nascido em jejum sem infusão de glicose hipoglicemia rápido
    • Berço aquecido, touca, campos secos: hipotermia piora acidose, coagulação e perfusão, e é a perda mais evitável da noite
    • Potássio só depois de haver diurese documentada — pesar fralda e anotar a hora da primeira micção
  4. Desde o reconhecimento — contato cirúrgico e regulação em paralelo ao suporte

    Este é o ato de maior alavancagem da noite, e ele falha por motivo linguístico e não médico. Quem começa dizendo "tenho um bebê aqui que não está evacuando" recebe uma orientação de constipação; quem começa dizendo "recém-nascido de 27 horas com vômito bilioso" recebe um cirurgião acordando. As duas frases descrevem a mesma criança. Diga a hipótese antes do relato, diga o que já fez, diga o que você não tem, e peça uma decisão explícita — não um conselho. E ligue antes de os exames ficarem prontos, porque quem vai receber a criança precisa reservar sala, não precisa do seu laudo.

    Prescrição
    • Abrir com a hipótese: recém-nascido a termo, tantas horas de vida, vômito bilioso, mecônio ausente, suspeita de má rotação com volvo
    • Dizer o que já está feito: jejum, sonda aberta com tanto de débito, acesso, expansão de tanto, temperatura, glicemia
    • Dizer o que o hospital NÃO tem: cirurgião pediátrico, contraste, radiologista de plantão, ultrassonografia de alças
    • Pedir decisão nominal: transferir agora ou fazer exame antes; e se transferir, para qual serviço e com qual transporte
    • Acionar a regulação na mesma hora, não depois; anotar o número do chamado e o horário
    • Anotar nome, especialidade e horário de cada pessoa com quem falou — é isso que reconstrói a noite depois
    • Se a suspeita é volvo e o bebê está mal, dizer a frase inteira: que o intestino pode estar isquêmico e que a espera tem custo por hora
  5. Minuto 30 — a radiografia, e o que fazer com cada padrão

    Com a criança já em jejum, com sonda e com acesso, a radiografia deixa de ser atraso e passa a ser conteúdo do telefonema seguinte. Peça em decúbito dorsal, incluindo do diafragma ao períneo, e leia-a com a ordem que o capítulo Radiografia de tórax ensina para qualquer filme: julgue o filme antes de interpretá-lo. Depois responda cinco perguntas nesta ordem: há ar livre, há pneumatose, quantas alças estão dilatadas, há ar no reto, e o padrão é de duas bolhas.

    Prescrição
    • Ar livre: cirurgia, e a transferência passa a ser emergente; não peça mais nada
    • Pneumatose intestinal, sobretudo em prematuro alimentado: enterocolite necrosante — jejum já feito, sonda já feita, antibiótico combinado com quem vai receber
    • Duas bolhas com ausência de gás distal: atresia duodenal; o encaminhamento já pode ser feito com esse achado e vale investigar cardiopatia associada
    • Poucas alças altas dilatadas: obstrução alta — a suspeita de volvo permanece de pé e a pressa não diminui
    • Muitas alças dilatadas difusas com pouco ou nenhum ar distal: obstrução baixa; aqui entram Hirschsprung, atresia distal e íleo meconial
    • Radiografia normal não exclui volvo. Discutir imediatamente exame definitivo apropriado ou transferência/intervenção conforme a condição; não adotar repetição do filme em duas horas como próximo passo obrigatório.
  6. Hora 1 — a lavagem retal, quando a hipótese é Hirschsprung e não há gravidade

    Na hipótese de Hirschsprung, a descompressão por irrigação retal pode permitir estabilização enquanto se organiza confirmação histológica. Indicação, técnica, calibre e volumes são definidos pela equipe especializada e executados por profissional treinado; o interno auxilia sob supervisão. Não forçar resistência. Enterocolite também pode requerer irrigação, mas o bebê grave precisa simultaneamente de suporte, antibiótico e avaliação cirúrgica, sem transformar a manobra em substituto do tratamento.

    Prescrição
    • Sonda retal MACIA, introduzida com lubrificante, sem forçar contra resistência — a manobra é de descompressão e não de dilatação
    • Solução fisiológica a 0,9% morna; a diretriz não publica volume nenhum, então o volume por vez deve ser combinado com o serviço que vai acompanhar a criança e registrado por escrito
    • Frequência: uma a três vezes ao dia enquanto se aguarda; duas a três vezes ao dia se o quadro for de enterocolite, até o bebê estar bem para alta
    • Registrar sempre o que saiu: gás, mecônio, fezes líquidas, e se a saída foi explosiva
    • Medir o perímetro abdominal antes e depois de cada lavagem; é a medida objetiva de que ela está funcionando
    • Falha de descompressão, enterocolite refratária, deterioração ou perfuração exigem decisão cirúrgica urgente. Tipo e nível de estomia dependem da anatomia e, quando possível, de confirmação de intestino ganglionado; o interno não escolhe nível empírico sozinho.
  7. Hora 1 a 2 — antibiótico: quando entra, e o que existe no armário brasileiro

    Antibiótico não é rotina em obstrução neonatal, e é obrigatório em três situações: suspeita de enterocolite associada, suspeita de enterocolite necrosante, e suspeita de isquemia ou perfuração. A diretriz europeia manda tratar a enterocolite com reposição venosa, antibiótico intravenoso de amplo espectro e lavagens retais, trocando para metronidazol oral quando houver melhora clínica suficiente — e não publica nenhuma dose. A escolha do esquema empírico no recém-nascido, com a decisão de quando parar, é do capítulo Começar sem saber, parar sem prova, da apostila de Neonatologia, e este capítulo cede a ele o assunto. O que fica aqui é a checagem do armário, que muda a conversa com a farmácia.

    Prescrição
    • Colher hemocultura antes da primeira dose se isso não atrasar tratamento urgente; ausência de coleta prévia não impede reavaliar e descalonar posteriormente pelo conjunto clínico.
    • Cobertura de gram-negativos e de anaeróbios é o que a situação pede; o esquema nominal vem do serviço de referência ou do capítulo de sepse neonatal
    • Confira o que existe: metronidazol INJETÁVEL não consta da Rename 2024; ampicilina não consta; gentamicina consta só em apresentações oftálmicas
    • Selecionar esquema neonatal pelo foco, idade gestacional e pós-natal, função renal e protocolo com a equipe. Uma lista de apresentações não autoriza escolher ceftriaxona no recém-nascido: há restrições relevantes, especialmente com hiperbilirrubinemia ou cálcio intravenoso.
    • Cuidado de diluição no recém-nascido: uma dose de 15 mg/kg de amicacina em 3,2 kg são 48 mg, que são 0,192 mL da solução pura — volume abaixo do que a maioria das seringas mede com confiança; diluir e usar seringa graduada em centésimos
    • Se for prescrever metronidazol oral no seguimento, escrever a dose em metronidazol e o volume em mililitros da suspensão, porque 1 mL entrega 25 mg de metronidazol e não 40
  8. Hora 2 até a ambulância — o transporte, e o papel que vai junto

    A transferência não começa quando a ambulância chega: começa agora, e o que se faz nas horas de espera decide como a criança chega. Um recém-nascido transportado hipotérmico, hipoglicêmico, com sonda fechada e sem registro do que saiu por ela chega pior do que saiu, e a equipe de destino perde tempo refazendo o que já tinha sido feito. Escreva a evolução como se quem vai lê-la não pudesse te ligar — porque, às três da manhã e a cento e sessenta quilômetros, é exatamente esse o caso.

    Prescrição
    • Manter jejum, sonda aberta e infusão venosa durante todo o trajeto; sonda clampeada para o transporte é erro comum e caro
    • Aquecer ativamente: incubadora de transporte se houver, touca e campos secos sempre; medir a temperatura imediatamente antes de embarcar e anotar
    • Glicemia imediatamente antes do embarque; corrigir antes de sair e não durante o trajeto
    • Enviar cópia da radiografia — imagem no celular serve — e os resultados laboratoriais impressos, com os horários de coleta
    • Enviar uma folha com: hora do nascimento, hora e cor do primeiro vômito, perímetro abdominal seriado com horários, débito da sonda por hora, se saiu mecônio e como, volumes infundidos com horários, temperatura e glicemia seriadas, e o registro nominal de cada telefonema
    • Conversar com a mãe antes de a ambulância chegar, com a criança ainda na frente dela: o que se sabe, o que não se sabe, para onde vai, quem vai receber e como ela chega lá
    • Se a mãe não puder acompanhar o transporte, garantir por escrito o nome e o telefone do serviço de destino nas mãos dela, e não só no prontuário
09

Como saber se está funcionando

A reavaliação aqui tem uma função diferente da de quase todo capítulo de urgência. Você não está esperando melhora para dar alta: está medindo, hora a hora, se o intestino ainda está vivo e se a criança aguenta o trajeto. Todos os parâmetros abaixo são de beira de leito, todos cabem numa folha e nenhum depende do hospital ter alguma coisa que o seu não tem.

Uma regra vale para todos: medida sem horário não serve. Duas medidas do mesmo parâmetro, com horários anotados, valem mais que um exame caro — e é a diferença entre elas, e não o valor isolado, que decide se você liga de novo.

Perímetro abdominal, com fita métricaNa admissão, depois de cada lavagem retal, e de 2 em 2 horas enquanto aguarda transporte

Esperado: Estável ou diminuindo depois da sonda e da lavagem. Medir sempre na mesma altura, marcada com caneta na pele, e de preferência pela mesma pessoa

Se não melhora: Aumento progressivo apesar de sonda aberta e lavagem significa que a descompressão não está funcionando — e a diretriz é explícita: se as lavagens não descomprimem o suficiente, a indicação passa a ser estomia. Ligue de novo antes de o abdome ficar tenso

Débito e cor do que sai pela sonda gástricaA cada hora, anotando volume em mililitros e cor

Esperado: Débito que diminui e conteúdo que clareia é a única boa notícia mecânica desta noite

Se não melhora: Débito que aumenta ou vira fecaloide indica obstrução mais distal ou piora. Débito alto some do balanço se ninguém o repuser: some ao cálculo de perdas e reponha volume por volume com solução isotônica

Eliminação de mecônio e de gases, e o modo como saiuContinuamente, e obrigatoriamente depois de toque retal ou de lavagem

Esperado: Saída de mecônio depois da manobra, com melhora da distensão, é o comportamento típico da obstrução funcional da doença de Hirschsprung

Se não melhora: Nada sai depois de sonda retal bem posicionada: pense em obstrução mecânica completa acima, e não em Hirschsprung. Sai jato explosivo de gás e fezes: é sinal, vale dois pontos no escore de enterocolite e não é motivo para repetir o toque

Temperatura axilarNa admissão, a cada hora, e obrigatoriamente imediatamente antes do embarque

Esperado: Normotermia. É o parâmetro mais fácil de manter e o mais frequentemente perdido, porque o bebê fica despido para exame e ninguém o cobre de volta

Se não melhora: Hipotermia num recém-nascido não é conforto: piora a acidose, a coagulação e a perfusão, e transforma um transporte tranquilo num transporte de risco. Aqueça ATIVAMENTE antes de sair; corrigir na estrada não funciona

Perfusão periférica, frequência cardíaca e diureseA cada avaliação; diurese pesando a fralda e anotando o horário de cada micção

Esperado: Extremidades quentes, enchimento capilar rápido, frequência estável, e primeira micção documentada — que é o que libera pôr potássio na infusão

Se não melhora: Hipotensão é achado tardio no recém-nascido: a má perfusão vem antes e é o que se acompanha. Piora da perfusão depois de expansão adequada, com abdome distendido e vômito bilioso, é isquemia intestinal até prova em contrário e muda o transporte de urgente para emergente

Glicemia capilarNa admissão, a cada 2 horas em jejum, e imediatamente antes do embarque

Esperado: Estável, com o bebê recebendo glicose na infusão de manutenção

Se não melhora: Recém-nascido em jejum sem aporte de glicose hipoglicemia rápido, e hipoglicemia produz letargia — que é exatamente um dos itens do escore de enterocolite. Confundir hipoglicemia com deterioração séptica leva a decisões erradas nas duas direções

Gasometria com lactato, em sérieNa admissão e a cada 2 a 4 horas, ou antes se o quadro mudar

Esperado: Acidose que corrige com volume e calor. Um lactato normal na primeira coleta não afasta nada — só informa que ele ainda aguenta

Se não melhora: Lactato subindo entre duas coletas, num bebê com vômito bilioso, é o achado que faz a ligação seguinte. A leitura fina do distúrbio — qual é o primário, se há compensação, qual é o ânion-gap — é do capítulo Gasometria arterial, da apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito; o que fica aqui é o gatilho

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Onde o erro machuca

Aceitar a descrição do vômito em vez de olhar a fralda

O dano: É o erro que abre a porta para todos os outros, porque ele acontece no minuto zero e contamina o resto. "Golfou", "vomitou o leite", "regurgitou" e "vomitou amarelo" saem da mesma boca e descrevem coisas diferentes; leite coalhado é branco-amarelado e bile é verde-amarelada, e a distinção entre os dois, feita de memória e às quatro da manhã, é ruim. Um vômito bilioso lido como leite regurgitado transforma um volvo em observação, e o intervalo entre a torção e a cirurgia é medido em horas de intestino.

Como pegar a tempo: Olhe a fralda ou o pano você mesmo, com luz, antes de escrever qualquer coisa. Se já foi trocado, peça para guardarem o próximo. E registre a cor com a palavra que você viu, não com a que te disseram — a evolução escrita é o que o cirurgião do outro hospital vai ler.

Deixar de despir a criança e de examinar o períneo

O dano: A malformação anorretal é o único diagnóstico deste capítulo que se faz com uma lanterna e trinta segundos, e é o que mais passa despercebido — porque o exame do recém-nascido no alojamento conjunto é feito com a fralda no lugar, com o bebê no colo da mãe, e porque "ânus pérvio" costuma ser um campo preenchido de rotina na admissão sem ninguém ter olhado. Uma criança com fístula perineal elimina algum mecônio e parece resolvida, enquanto continua obstruída. Quatro dos oito sinais de alarme do guia brasileiro se encontram com a criança despida.

Como pegar a tempo: Fralda fora, luz, e quatro perguntas: existe ânus, está no lugar, tem calibre, há fístula vertendo mecônio no períneo, na vulva ou na rafe escrotal. Escreva o que viu, não a palavra pérvio. E nunca tente dilatar um ânus estreito — a dilatação de uma malformação é lesão, não tratamento.

Ler a diarreia como melhora, ou como gastroenterite

O dano: É o erro que mata nesta doença. A criança que não evacuava passa a evacuar líquido, muito e fétido, e a equipe registra "evacuou bem" e relaxa — ou registra "diarreia" e trata desidratação por via oral. Nenhuma das duas leituras enxerga o que está acontecendo: a estase acima do segmento parado permitiu supercrescimento bacteriano e a barreira da mucosa falhou. Só as fezes explosivas, o cheiro fétido, a descarga ao toque e a distensão somam oito pontos num escore cujo corte operacional são cinco.

Como pegar a tempo: Numa criança com suspeita ou diagnóstico de doença de Hirschsprung, diarreia é enterocolite até prova em contrário. Some os itens do escore em vez de julgar pela impressão, interne — abaixo de um ano o limiar é mais baixo ainda —, e comece reposição venosa, antibiótico intravenoso e lavagens retais duas a três vezes ao dia. Não trate por via oral e não mande para casa.

Esperar o exame para começar a conduta, e esperar o resultado para tratar

O dano: Dois erros com a mesma forma. O primeiro adia jejum, sonda, volume e telefonema até a radiografia ficar pronta ou até o radiologista chegar — e num volvo isso custa a diferença entre ressecar vinte centímetros e ressecar o intestino médio inteiro. O segundo espera a biópsia retal para tratar uma criança que já está em enterocolite, como se o rótulo histológico fosse pré-requisito de antibiótico. Uma radiografia normal, além disso, não afasta volvo: nas primeiras horas o abdome pode estar quase banal porque a lesão em curso é isquêmica e ainda não acumulou nada.

Como pegar a tempo: Jejum, sonda aberta, acesso, volume, calor e telefonema não dependem de exame nenhum e não esperam. O exame muda o conteúdo do telefonema seguinte, não a conduta do primeiro. E a frase que abre a ligação é a hipótese, não o relato: "recém-nascido com vômito bilioso" acorda um cirurgião; "bebê que não está evacuando" recebe orientação de constipação.

Prescrever metronidazol em miligramas sem dizer de qual sal, e sem checar se a apresentação existe

O dano: A única apresentação oral de metronidazol da Rename 2024 é a suspensão de benzoilmetronidazol de 40 mg/mL, cujo mililitro entrega 25 mg de metronidazol — não 40. Uma prescrição escrita em miligramas sem especificar o sal pode ser dispensada pelas duas leituras, e o fator entre elas é 1,6. A mesma bula ilustra a armadilha ao escrever uma dose como "20 mg (0,5 mL)/kg" sem dizer de qual sal são os 20 miligramas. Some-se que não existe metronidazol injetável no elenco nacional, e que a bula da suspensão traz impresso "uso pediátrico acima de 1 ano de idade" — justamente a faixa que a diretriz europeia quer tratar.

Como pegar a tempo: Escreva a dose em metronidazol E o volume em mililitros da suspensão, com a concentração ao lado. Antes de prescrever, confirme na farmácia o que existe: se o serviço vai precisar de antianaeróbio intravenoso, isso é compra local e precisa ser resolvido antes de a criança piorar, não depois.

Transportar sem aquecer, sem glicose, com a sonda fechada e sem papel

O dano: É o erro que desfaz tudo o que foi bem feito nas quatro horas anteriores. Um recém-nascido embarcado hipotérmico chega mais acidótico do que saiu; embarcado sem aporte de glicose chega letárgico e é lido como sepse; embarcado com a sonda clampeada "para não sujar a ambulância" chega com o estômago cheio e risco de aspiração. E, sem o papel, a equipe de destino refaz do zero um raciocínio que já estava pronto — inclusive repetindo exames e perdendo a hora em que o vômito virou verde, que é o dado mais valioso da noite.

Como pegar a tempo: Antes de embarcar: temperatura medida e corrigida, glicemia medida e corrigida, sonda aberta, infusão correndo. E uma folha com hora do nascimento, hora e cor do primeiro vômito, perímetros abdominais seriados com horários, débito da sonda por hora, o que saiu de mecônio e como, volumes infundidos, e o registro nominal e horário de cada telefonema. Escreva como se quem vai ler não pudesse te ligar — porque não vai poder.

11

O que dizer ao paciente e à família

Três conversas acontecem nesta noite e elas têm públicos com necessidades opostas. A mãe precisa de honestidade sobre a incerteza sem perder a sensação de que alguém está no comando. O cirurgião do outro hospital precisa de uma frase que o faça levantar da cadeira nos primeiros cinco segundos. A regulação precisa de categoria e de prioridade, não de história clínica.

Há uma coisa em comum entre as três: nenhuma delas melhora com a palavra "provavelmente não é nada". Ela é dita por gentileza e é o que mais atrapalha depois, porque transforma a piora seguinte em quebra de confiança e faz a família chegar ao destino achando que o hospital de origem errou.

E uma advertência sobre um vocabulário específico: evite dizer "doença de Hirschsprung" à família enquanto a biópsia não existir. Nomear uma doença rara que ainda não foi confirmada faz a família procurar o nome na internet naquela mesma noite e encontrar a cirurgia, a colostomia e o prognóstico — antes de qualquer médico ter conversado com ela sobre isso.

A mãe pergunta se é normal o bebê não ter feito cocô desde que nasceu

"Não é. A maioria dos bebês faz nas primeiras horas, e o seu já passou de um dia. Isso pode ter várias explicações, e algumas são simples — mas junto com o vômito esverdeado que ele teve, é motivo para eu investigar agora e não amanhã. Vou examiná-lo por inteiro, vou passar uma sondinha pelo nariz para aliviar o estômago dele, vou pedir uma radiografia e vou falar com o cirurgião de criança. Ele vai ficar sem mamar por enquanto, e eu vou te explicar por quê."

Não diga: "Alguns bebês demoram mesmo, vamos observar." — é verdade em geral e é falso neste bebê, e é a frase que produz a alta que volta em choque.

Explicar por que o bebê vai ficar sem mamar

"Eu preciso que ele fique sem mamar por um tempo, e não é porque o leite faz mal: é porque, se houver alguma coisa entupindo o intestino dele, o leite vai parar em cima do problema e ele vai vomitar de novo, e vomitar com o bebê deitado é perigoso. Enquanto isso ele vai receber soro pela veia, que dá o líquido e o açúcar de que ele precisa. E eu quero que você continue tirando leite, mesmo com ele sem mamar — a gente guarda, e assim seu leite não seca durante essa fase."

Não diga: "Suspende a mamada." dita como ordem, sem razão e sem plano para o leite — é o que faz a mãe voltar a oferecer o peito escondida, e o que mais atrapalha a amamentação depois.

A primeira frase da ligação para o cirurgião pediátrico, às quatro da manhã

"Doutor, recém-nascido a termo, 27 horas de vida, 3,2 quilos, com VÔMITO BILIOSO e sem eliminação de mecônio desde o nascimento. Estou tratando como má rotação com volvo até prova em contrário. Já está em jejum, com sonda gástrica aberta drenando bilioso, acesso, uma expansão de 32 mililitros feita e aquecido. Não temos cirurgião pediátrico, nem contraste, nem radiologista de plantão. Preciso que o senhor me diga uma coisa: eu transfiro agora ou eu faço algum exame antes?"

Não diga: "Tenho um bebezinho aqui que está com a barriguinha estufada e não está evacuando, será que o senhor pode dar uma olhada de manhã?" — descreve a mesma criança e produz uma resposta completamente diferente.

O chamado para a regulação de transporte

"Solicito transferência de recém-nascido de 27 horas com suspeita de abdome agudo obstrutivo e possível isquemia intestinal, para serviço com cirurgia pediátrica. Prioridade máxima, com necessidade de transporte neonatal aquecido. Já falei com o cirurgião do serviço de destino, doutor fulano, às 4h35, e ele aceita o caso. Peso 3,2 quilos, em jejum, com sonda aberta e acesso periférico."

Não diga: Descrever a evolução clínica inteira para a regulação. Quem atende o chamado precisa de categoria, prioridade, destino já aceito e requisitos do transporte — a história vai no papel que segue com a criança.

Contar à mãe que o bebê vai ser transferido para outra cidade

"Ele vai precisar ir para o hospital de [cidade], porque lá tem cirurgião de criança e aqui não tem. Isso não é porque ele piorou agora: é porque o que ele pode ter só se resolve lá, e quanto antes ele chegar, melhor. A ambulância é preparada para bebê, com aquecimento, e ele vai com soro e com a sondinha. Eu vou escrever tudo o que aconteceu aqui desde a noite passada e mandar junto. O nome do médico que vai receber ele é [nome], e eu vou deixar o telefone do hospital escrito na sua mão, não só no papel dele."

Não diga: "Vamos mandar ele para um hospital maior porque aqui não tem estrutura." — a frase é verdadeira e soa como abandono; a versão que funciona nomeia o que existe lá, quem vai receber e o que vai junto.

Pedir à equipe de enfermagem que anote, quando o plantão está cheio

"Eu preciso de três números de hora em hora, e nada mais: quanto saiu pela sonda, quanto está o perímetro abdominal na marca que eu fiz na barriga, e a temperatura. Se sair mecônio, quero saber a hora e se saiu com força. Não é burocracia — quando a ambulância chegar, isso aqui é o que vai dizer ao cirurgião se piorou ou não, e é a única coisa que ele vai ter para comparar."

Não diga: Pedir "controle rigoroso" sem dizer o quê, com que frequência e para quê. Pedido vago numa noite cheia vira anotação de fim de plantão, feita de memória.

A família de uma criança já com diagnóstico confirmado pergunta o que vem agora

"O diagnóstico está fechado pela biópsia, e o tratamento definitivo é uma cirurgia — mas ela não é hoje nem esta semana. Até lá, a gente resolve o problema com uma lavagem pelo ânus, feita com soro morno e uma sondinha macia, uma a três vezes por dia. Ela funciona na grande maioria das crianças e permite que ele coma normalmente. Vocês vão ser treinados para fazer isso em casa, e eu preciso que vocês voltem imediatamente se ele começar a ter diarreia com cheiro forte, febre, barriga inchada ou ficar molinho — isso não é melhora, é a complicação que a gente mais teme, e ela tem tratamento quando chega cedo."

Não diga: Entregar o treinamento da lavagem sem entregar, na mesma conversa, os sinais de enterocolite. Uma família que aprendeu só a técnica vai interpretar a diarreia como sucesso da lavagem.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Quantas horas sem mecônio já são alarme: 24 ou 48?

24 horas, e a partir daí já se pensa em biópsia

A diretriz europeia corrente de doença de Hirschsprung, na atualização publicada em 2026 e que carregou esta recomendação sem alteração desde a edição de 2020, define a tríade clássica que indica biópsia retal como atraso na eliminação do mecônio acima de 24 horas no recém-nascido a termo, distensão abdominal e vômito bilioso. O mesmo documento registra que a falha em eliminar mecônio nas primeiras 24 horas ocorre em mais de 60% dos pacientes com a doença — o que quer dizer, lido ao contrário, que quase 40% eliminam dentro do primeiro dia.

ERNICA, atualização de 2025, publicada em J Pediatr Gastroenterol Nutr 2026;83(1):185-207, on-line em 30/04/2026; recomendação idêntica à de Orphanet J Rare Dis 2020;15:164

48 horas, e antes disso é observação

O guia prático brasileiro de constipação intestinal, do Departamento Científico de Gastroenterologia da Sociedade Brasileira de Pediatria, lista entre os sinais e sintomas de alarme para causas orgânicas o atraso na eliminação de mecônio por mais de 48 horas após o nascimento — ao lado do início dos sintomas no primeiro mês de vida, de sintomas extraintestinais como vômitos biliosos, febre e queda do estado geral, de baixo ganho de peso e estatura, de alterações neurológicas ou da coluna lombar, de sangue nas fezes, de tufo de pelos sacral e de fístulas perineais.

SBP, Departamento Científico de Gastroenterologia (gestão 2022-2024), Guia Prático de Orientação: Constipação intestinal, nº 144, 04/04/2024

Como decidir

Avalie eliminação de mecônio junto a alimentação, distensão, vômitos, exame perineal e estado geral. No recém-nascido bem após 24 horas, organize reavaliação documentada antes da alta. Sintomas associados exigem investigação imediata conforme o percurso, e atraso além de 48 horas reforça o alerta das duas fontes.

O que fecha o diagnóstico de doença de Hirschsprung: só a biópsia, ou a manometria também serve?

Só histologia retal representativa fecha

A primeira recomendação da diretriz europeia corrente é que o diagnóstico se baseie em histologia retal representativa e seja confirmado antes da cirurgia de rebaixamento. O documento vai além e compara explicitamente: a sensibilidade e a especificidade de outros métodos, incluindo manometria anorretal e enema contrastado, são inferiores às de uma biópsia adequada, particularmente em lactentes jovens. No arranjo europeu, a ausência do reflexo inibitório retoanal na manometria é uma das situações em que se deve CONSIDERAR biópsia — isto é, a manometria indica o exame que decide, e não decide.

ERNICA, atualização de 2025 (J Pediatr Gastroenterol Nutr 2026;83(1):185-207), recomendação marcada como não revisada e mantida da edição de 2020

Biópsia retal ou manometria anorretal

O guia brasileiro de 2024 escreve que o enema opaco, sem preparo, pode ser realizado nos casos suspeitos de doença de Hirschsprung, mas não exclui a necessidade de realização de biópsia retal OU de manometria anorretal, tendo mais importância na avaliação da extensão do segmento agangliônico antes da abordagem cirúrgica. A conjunção alternativa põe os dois exames no mesmo degrau. O mesmo documento indica a manometria anorretal principalmente na constipação refratária, para avaliar a presença do reflexo inibitório retoanal, e diz que ela também pode ser recomendada em crianças maiores com sintomas sugestivos da doença.

SBP, Guia Prático de Orientação: Constipação intestinal, nº 144, 04/04/2024

Como decidir

Defina a finalidade do exame. Na suspeita neonatal ou do lactente e antes de rebaixamento, a confirmação exige histologia adequada. Na criança maior com constipação refratária, a manometria pode orientar investigação e necessidade de biópsia. Resultado, idade e qualidade técnica precisam ser interpretados pela equipe especializada.

Na suspeita de má rotação, o primeiro exame é o contrastado alto ou a ultrassonografia?

Contrastado alto, e ele é o padrão declarado

A série italiana publicada em 2024 trata o estudo contrastado do trato gastrintestinal superior como o procedimento diagnóstico padrão-ouro, ainda que registre um grau variável de falha na literatura. Ela mede: a posição anormal da junção duodenojejunal foi o parâmetro mais confiável e mais legível, com sensibilidade de 0,88, especificidade de 0,54 e concordância entre leitores de 83%, e as incidências em ântero-posterior foram as significativas. E conclui que a incidência em perfil, com sensibilidade de 0,80, especificidade de 0,33, valor preditivo positivo de 0,85 e valor preditivo negativo de 0,25, não ajudou e sim enganou.

Mattioli G et al., Updates in Surgery 2024;76(1):201-208, série de centro terciário único, casos operados entre 2007 e 2020

Ultrassonografia, e há caso forte para pô-la em primeira linha

A metanálise de 17 estudos e 2.257 participantes estimou, para a ultrassonografia no diagnóstico de má rotação com ou sem volvo em crianças e adolescentes, sensibilidade agregada de 94% (intervalo de confiança de 95%: 89% a 97%) e especificidade agregada de 100% (97% a 100%), com certeza moderada, e os autores concluem que existe caso forte para usá-la como teste de primeira linha. A mesma análise registra, na análise de subgrupo e na meta-regressão, melhor acurácia diagnóstica na má rotação NÃO complicada por volvo, na população neonatal e com administração de líquido entérico antes do exame.

Nguyen HN et al., Archives of Disease in Childhood 2021;106(12):1171-1178 — capítulo consultou apenas o resumo publicado, e não afirma nada além do que ele diz

Como decidir

Escolha a investigação com cirurgia e radiologia conforme suspeita, condição clínica e disponibilidade imediata. Não aguarde até o dia seguinte por um exame se a criança precisa de referência urgente. Ultrassom negativo não encerra a avaliação de lactente com vômito bilioso e mau estado; exames complementam, sem substituir, a reavaliação e o acionamento.

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O raciocínio, em voz alta

Dez e quarenta da noite de um sábado, pronto-socorro pediátrico de um hospital municipal. Salomea tem três meses e nove dias e pesa 4,9 quilos — nasceu com 3,4 e a curva da caderneta subiu pouco e depois achatou. A mãe, Dativa Uruburetama, conta que a menina "nunca foi de fazer cocô sozinha": desde a maternidade evacua a cada três ou quatro dias, e só depois que a avó passa o termômetro ou introduz a ponta de um supositório. Há dois dias isso mudou. Salomea começou a evacuar sozinha, muito, líquido, e a mãe diz que "o cheiro tomou conta da casa". Hoje ficou quieta, mamou pouco, e a barriga, que sempre foi grande, ficou dura. Na triagem: temperatura axilar 38,4 °C, frequência cardíaca 178, enchimento capilar de três segundos. Ela está deitada na maca, acordada, olhando para o teto, e não chora quando você a descobre. O abdome é globoso, timpânico, tenso, com alças visíveis. O plantonista da pediatria está na sala de estabilização com outra criança há quarenta minutos, e a ficha da triagem diz, em letra de forma: DIARREIA AGUDA — AVALIAR DESIDRATAÇÃO.

  1. primeiro, desconfiar do rótulo que veio na ficha

    A triagem escreveu diarreia aguda, e ela tem razão sobre o sintoma e está errada sobre a doença. Diarreia numa criança que nunca evacuou sozinha não é diarreia: é uma criança que estava obstruída e passou a esvaziar. O dado que reorganiza tudo já foi dito pela mãe na primeira frase e costuma ser ouvido como contexto — "nunca foi de fazer cocô sozinha", desde a maternidade. Constipação que começa no primeiro mês de vida é um dos sinais de alarme do guia brasileiro, e é o que tira esta criança do balcão da gastroenterite.

  2. somar o escore em voz alta, em vez de julgar pela impressão

    Some os itens em vez de decidir pela cara da criança. Diarreia com fezes explosivas: dois. Diarreia com cheiro fétido: dois. Abdome distendido: dois. Febre: um. Letargia: um. Má perfusão periférica: um. São nove pontos antes de qualquer exame, num escore de vinte pontos cujo corte operacional é cinco — e ainda faltam a radiografia e o hemograma. O diagnóstico de trabalho passa a ser enterocolite associada à doença de Hirschsprung, com a doença de base ainda não diagnosticada aos três meses de vida.

  3. o exame que confirma a hipótese de base, e a única vez que ele se faz

    Descubra a criança por inteiro e examine o períneo: o ânus está no lugar e tem calibre normal. Agora o toque retal, uma vez só. Nesta criança ele está indicado exatamente pela régua brasileira — há sinais de alarme e suspeita de causa orgânica —, e a informação que ele dá é dupla. Primeiro, o reto está estreito e vazio, que é o oposto da constipação funcional com retenção, em que o reto está dilatado e cheio de fezes. Segundo: ao retirar o dedo, sai uma descarga explosiva de gás e fezes líquidas fétidas. Mais dois pontos. Onze de vinte, e você ainda não pediu nada.

  4. o que não fazer imediatamente depois desse achado

    A descarga alivia a distensão e é tentador repetir o toque para "esvaziar mais". Não repita. O toque diagnóstico se faz uma vez, registra-se o que saiu e como saiu, e a descompressão continuada passa a ser feita por sonda retal macia com solução fisiológica, que é o método com indicação na diretriz. E não interprete o alívio como resolução: o que está adoecendo esta criança agora não é o volume retido, é a infecção que o volume retido produziu.

  5. a conduta imediata, que não espera exame nenhum

    Jejum. Acesso venoso e coleta de hemograma, gasometria com lactato, glicemia, eletrólitos, função renal, proteína C reativa como primeiro ponto de série, e hemocultura antes da primeira dose de antibiótico. Expansão com cloreto de sódio a 0,9%: para 4,9 quilos, 49 mililitros em 20 a 30 minutos, com reavaliação ao fim. Sonda gástrica aberta, pela distensão e pelo risco de vômito. Antibiótico intravenoso de amplo espectro cobrindo gram-negativos e anaeróbios, com o esquema definido pelo serviço — a diretriz manda o antibiótico e não publica dose. Aquecimento e glicemia seriada. Internação: nesta idade a diretriz é explícita, o limiar é baixo e abaixo de um ano é mais baixo ainda.

  6. a radiografia, e o que procurar nela agora

    Radiografia simples de abdome em decúbito dorsal, do diafragma ao períneo. Você procura cinco coisas e cada uma pontua ou muda a conduta: níveis hidroaéreos múltiplos, alças dilatadas, aspecto serrilhado da mucosa, interrupção do calibre no retossigmoide com ausência de ar distal, e pneumatose. Salomea tem alças difusamente dilatadas, níveis múltiplos e uma transição de calibre visível no retossigmoide. Mais três pontos, e um achado que aponta a doença de base. Não há pneumatose e não há ar livre — o que não tranquiliza, apenas informa que ainda não perfurou.

  7. as lavagens retais, agora com outra frequência

    Sonda retal macia, lubrificada, com solução fisiológica morna, sem forçar contra resistência. Na suspeita de doença de Hirschsprung sem enterocolite, a frequência recomendada é de uma a três vezes ao dia, até a cirurgia; em enterocolite, são duas a três vezes ao dia até a criança estar bem para alta. Meça o perímetro abdominal antes e depois de cada uma, na mesma marca, e registre o que saiu. Se a lavagem não descomprimir, se a enterocolite não responder ao tratamento não operatório, ou se houver perfuração, a indicação passa a ser estomia — e o nível empírico mais seguro é o íleo distal.

  8. o que se diz à mãe, e o que ainda não se diz

    Diga o que está acontecendo agora: que a menina tem uma infecção grave no intestino, que ela vai internar, que vai receber antibiótico na veia e ficar sem mamar por um tempo, e que a diarreia dos últimos dois dias não era melhora — era o começo disso. Diga também que há uma doença por baixo, que explica por que ela nunca evacuou sozinha, e que essa doença tem tratamento definitivo. Não a nomeie ainda: o nome vem depois da biópsia, e uma família que ouve o nome hoje vai encontrar a palavra colostomia na internet esta noite, antes de qualquer médico ter conversado com ela sobre isso.

  9. o encaminhamento, e as três linhas que ele precisa ter

    A criança precisa de serviço com cirurgia pediátrica, patologista e capacidade de fazer biópsia retal — e a diretriz europeia é clara em que a cirurgia definitiva deve acontecer em centro com pelo menos dois cirurgiões colorretais pediátricos, patologia, radiologia e terapia intensiva neonatal. Escreva no encaminhamento três coisas que ninguém escreve: que a constipação começou no primeiro mês de vida; que o toque retal produziu descarga explosiva de gás e fezes; e que a radiografia mostra transição de calibre no retossigmoide. Essas três linhas encurtam a investigação do outro lado em dias, e são exatamente as que se perdem quando o encaminhamento diz apenas "gastroenterite e desidratação, encaminho para avaliação".

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Faça você

Três e vinte da manhã, alojamento conjunto de um hospital de porte médio que faz mil e duzentos partos por ano e não tem cirurgião pediátrico. Martiniano tem 30 horas de vida, nasceu de 39 semanas com 3.410 gramas, parto vaginal sem intercorrência, Apgar 9 e 10. Você é o interno da noite. A técnica te chama porque o bebê vomitou duas vezes nas últimas duas horas, e a segunda "veio amarelada". Você olha o pano: está manchado de amarelo-esverdeado. A mãe diz que ele mamou bem até a tarde, e que ainda não sujou nenhuma fralda de cocô desde que nasceu — só de xixi. Ao exame, Martiniano está corado, ativo, com choro forte, temperatura 36,8 °C, e o abdome está discretamente distendido, mole, sem massas, com ruídos presentes. O períneo, que você examina com lanterna, tem ânus presente, no lugar, de calibre normal, sem fístula. Você pede uma radiografia simples de abdome. O plantonista da pediatria olha o filme de longe e diz: "gás bem distribuído até o reto, não tem nível, não tem bolha, tá tranquilo. Deixa ele mamar e a gente reavalia às sete".

  1. 1. O que você faz com a frase do plantonista, e por quê

    Decida se a radiografia descrita muda ou não a sua conduta, e escreva a razão em uma frase. Se você acha que ela tranquiliza, diga qual dos achados dela afasta o diagnóstico que te preocupa. Se você acha que não tranquiliza, diga por que um exame normal não fecha a porta.

  2. 2. As quatro ordens que você dá antes de qualquer outra coisa

    Escreva as quatro condutas que entram agora, nesta ordem, e que não dependem de exame nenhum nem da opinião de ninguém. Para cada uma, escreva o motivo em cinco palavras.

  3. 3. A primeira frase da ligação

    Escreva, palavra por palavra, a frase com que você abre o telefonema para o cirurgião pediátrico do hospital de referência às três e meia da manhã. Depois escreva a versão que você NÃO deve usar, para saber a diferença.

  4. 4. Os números do bebê

    Martiniano pesa 3.410 gramas. Calcule o volume de uma expansão de 10 mL/kg com cloreto de sódio a 0,9% e quanto de sódio ela entrega, sabendo que a apresentação do elenco tem 0,154 mEq por mililitro. Depois diga qual é a única razão pela qual você adiaria o potássio na infusão de manutenção.

  5. 5. O que você escreve na evolução, e o que faltaria se você não escrevesse

    Liste os oito dados que precisam estar registrados quando a ambulância chegar, e diga, para cada um, o que a equipe de destino perde se ele faltar.

  6. Continuidade do caso e prática do internato

    Na criança com vômito verde e filme pouco expressivo, a informação decisiva continua sendo a suspeita de obstrução com risco de isquemia.

  7. Questão integrativa 1

    Radiografia quase normal permite observar vômito bilioso até amanhecer?

  8. Questão integrativa 2

    O primeiro contato depende de ter todos os exames?

  9. Questão integrativa 3

    Atraso de mecônio confirma Hirschsprung?

  10. Questão integrativa 4

    Irrigação retal pode ser improvisada pelo interno?

  11. Questão integrativa 5

    Enterocolite precisa esperar biópsia positiva?

  12. Questão integrativa 6

    Qual dado não pode faltar na transferência?

Ver como fecharíamos

1. A radiografia não tranquiliza e não muda nada. Uma radiografia normal ou quase normal NÃO afasta má rotação com volvo do intestino médio: nas primeiras horas a lesão em curso é isquêmica, não acumulativa, e o gás ainda pode estar distribuído de maneira quase banal enquanto o pedículo está torcido. O filme responde "há obstrução visível?" e a pergunta desta noite é "há intestino torcendo?" — perguntas diferentes. Some-se que, no recém-nascido, a radiografia simples nem sequer distingue delgado de grosso, porque as pregas conniventes e as haustrações ainda não estão formadas o bastante. O que decide aqui é a cor do vômito, e ela já decidiu: vômito bilioso em recém-nascido é má rotação com volvo até prova em contrário, e a prova é urgente. 2. Jejum absoluto, incluindo leite materno — porque leite em cima de obstrução vira vômito e vômito em bebê deitado vira aspiração. Sonda gástrica calibrosa, aberta em drenagem livre e medida em mililitros por hora — porque descomprime, mede e mostra a cor. Acesso venoso com coleta (hemograma, gasometria com lactato, glicemia, eletrólitos, função renal) e expansão com cloreto de sódio a 0,9% — porque ele perde volume por três vias e chega compensado até deixar de estar. Aquecimento ativo e glicemia capilar — porque hipotermia piora acidose e hipoglicemia imita deterioração. O telefonema começa em paralelo a essas medidas, desde o reconhecimento da suspeita. Nada disso pode ser adiado até as sete horas, e a proposta de "deixar mamar e reavaliar" precisa ser recusada com a razão dita em voz alta. 3. A frase é: "Doutor, recém-nascido a termo, 30 horas de vida, 3,4 quilos, com VÔMITO BILIOSO e sem eliminação de mecônio desde o nascimento. Estou tratando como má rotação com volvo até prova em contrário. Já está em jejum, com sonda aberta drenando bilioso, acesso e expansão feita. Aqui não temos cirurgião pediátrico, nem contraste, nem radiologista de plantão. Preciso saber: transfiro agora ou faço algum exame antes?" A versão a NÃO usar é: "tenho um bebezinho com a barriguinha estufada que não está evacuando, o senhor pode dar uma olhada de manhã?" — descreve a mesma criança e produz uma resposta completamente diferente. 4. Expansão de 10 mL/kg para 3,410 kg = 34,1 mL, arredondados para 34 mL. Sódio entregue: 34 mL x 0,154 mEq/mL = 5,24 mEq. A única razão para adiar o potássio é não haver diurese documentada: potássio só entra depois de a criança ter urinado, e por isso se pesa a fralda e se anota o horário da primeira micção. Pela mesma razão, a solução de Ringer com lactato — que já traz potássio na composição — não é a primeira escolha antes da primeira diurese. 5. Hora do nascimento, que é a hora zero do relógio do mecônio, e sem ela ninguém sabe há quanto tempo ele não evacua. Hora e cor do primeiro vômito, que é o dado que sustenta a hipótese inteira. Perímetro abdominal medido com fita na mesma marca, em série e com horários, sem o qual não há como saber se piorou. Débito da sonda por hora e a cor de cada saída, sem o qual o balanço hídrico está errado. Se saiu mecônio e como saiu, porque descarga explosiva é sinal e não alívio. Temperatura e glicemia com horários, porque hipotermia e hipoglicemia na chegada são atribuídas ao transporte quando na verdade vieram de antes. Volumes infundidos com horários, sem os quais a equipe de destino repete expansões já feitas. E o registro nominal e horário de cada telefonema, que é o que reconstrói a noite quando alguém perguntar por que a criança demorou a chegar. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não. Ela não exclui volvo; a avaliação cirúrgica e a investigação definitiva são urgentes. 2. Não. Informar suspeita e condição atual e atualizar depois; suporte e comunicação são paralelos. 3. Não. Há outros diagnósticos, e confirmação requer amostra retal adequada interpretada por equipe experiente. 4. Não. Exige indicação, técnica e parâmetros definidos pela equipe; resistência ou piora impõem interrupção e reavaliação. 5. Não. Diante de suspeita clínica, iniciar tratamento e suporte e chamar a equipe. 6. Idade em horas, cor e início do vômito, mecônio, exame/perfusão e evolução, perdas, glicemia, volumes e intervenções com horários.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

O transporte é a etapa em que se desfaz o que foi bem feito nas horas anteriores, e três perdas explicam quase todos os casos que chegam piores do que saíram. A primeira é térmica: recém-nascido despito para exame e não coberto de volta esfria depressa, e hipotermia agrava acidose, coagulação e perfusão — por isso a temperatura se mede e se corrige antes de embarcar, não na estrada. A segunda é metabólica: em jejum e sem aporte de glicose, o recém-nascido hipoglicemia rápido, e a letargia resultante é lida no destino como deterioração séptica. A terceira é documental: a equipe que recebe reconstrói a noite pelo papel, e o dado mais valioso — a hora exata em que o vômito virou bilioso — é justamente o que se perde quando não está escrito. Clampear a sonda para o trajeto devolve ao estômago o conteúdo que se estava drenando e acrescenta risco de aspiração num bebê que já vomitou. Oferecer leite contraria o jejum, que existe pelo mesmo motivo. Suspender a infusão remove a única fonte de volume e de glicose durante duas horas de estrada. E adiar a transferência até o exame da manhã é o erro central deste capítulo: quando o exame não existe onde a criança está, o exame vira transporte, e na suspeita de volvo o custo da espera se mede em intestino.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Sem consultar, recite a trava deste capítulo com as palavras exatas e diga qual é a base anatômica dela em uma frase. Depois liste as três coisas que a radiografia simples de abdome do recém-nascido NÃO responde, e explique por que uma delas é a razão de a trava não ser desfeita por um filme normal. Termine com uma conta: para um recém-nascido de 3,2 kg, o volume de uma expansão de 10 mL/kg com cloreto de sódio a 0,9%, quantos miliequivalentes de sódio ela entrega a 0,154 mEq por mililitro, e quantos mililitros da suspensão de benzoilmetronidazol de 40 mg/mL seriam necessários se a prescrição pedisse 10 mg/kg/dose escritos em metronidazol — dizendo, em voz alta, por que os 40 do rótulo não são os 40 da conta.

Em 30 dias

Reconstrua duas situações: recém-nascido com vômito bilioso e risco de volvo; e criança estável com suspeita de Hirschsprung. Explique o que é comum no suporte, quais exames respondem a cada pergunta e por que contato, estabilização e organização do destino são paralelos.

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Agora atenda

Quatro e dez da manhã, alojamento conjunto de um hospital regional sem cirurgião pediátrico. A técnica de enfermagem te chama no berço nove: recém-nascido a termo, 27 horas de vida, 3,2 quilos, que vomitou e a fralda ao lado do berço está manchada de amarelo-esverdeado. A mãe diz que ele ainda não sujou nenhuma fralda de cocô desde que nasceu. O bebê está corado e chorando forte, e o abdome está discretamente distendido. O hospital com cirurgião de criança fica a cento e sessenta quilômetros. Conduza.

Doença de Hirschsprung e obstrução neonatal – A cor do vômito e a fralda que não sujou — Internato | OsceLabs