Cirurgia GeralCirurgia Pediátrica

A sonda que para em doze centímetros

Atresia de esôfago e fístula traqueoesofágica

Reconhecer atresia e possível fístula, proteger o coto proximal contra aspiração e organizar suporte neonatal e transferência sem atrasos.

Fontes deste capítulo

Maternidade Escola Assis Chateaubriand, Complexo Hospitalar da Universidade Federal do Ceará (Ebserh). Protocolo PRO.MED-NEO.007 — Atresia de Esôfago. Versão 2, emissão em 25 de agosto de 2022. Publicado no portal de protocolos e POPs do Ebserh.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal, aprovadas pela Portaria SAS/MS nº 353, de 14 de fevereiro de 2017. Recomendações 199 e 200 (seção 17.2.4.3).

Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Neonatologia. Diretrizes para uso racional de antibióticos em unidades neonatais. Diretriz nº 193, de 6 de março de 2025. Rio de Janeiro: SBP, 2025. ISBN 978-85-88520-60-8.

Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Declaração de Nascido Vivo: manual de instruções para preenchimento. 4. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. 80 p. ISBN 978-65-5993-339-6. Campo 6, Bloco VI e Apêndice E.

01

Responda antes de ler

Entre os antibióticos indicados por documentos brasileiros para o recém-nascido com atresia de esôfago — ampicilina, ampicilina com sulbactam, cefoxitina e cefotaxima —, qual deles consta da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024?

02

O paciente que você vai ver

Onze e vinte da manhã de uma sexta-feira. A maternidade tem quarenta leitos, funciona dentro de um hospital municipal de porte médio, faz cerca de mil e quinhentos partos por ano e tem pediatra de plantão, aparelho de raio-X fixo, laboratório que roda até as dez da noite e nenhum cirurgião pediátrico. O hospital que tem cirurgião pediátrico e unidade neonatal cirúrgica fica a duzentos e dez quilômetros, e o transporte é da regulação estadual. Você é o interno da manhã. O berço 4 do alojamento conjunto tem um recém-nascido de quatro horas e quarenta minutos de vida.

Ele nasceu às seis e quarenta, de parto vaginal, trinta e oito semanas e cinco dias pela primeira ultrassonografia, três mil e cinquenta gramas, Apgar oito e nove. Chorou, corou, foi ao colo da mãe, ficou em contato pele a pele. O exame físico da sala de parto está escrito na folha e não tem nada: fontanelas normotensas, ausculta sem sopro, abdome flácido, ânus pérvio, quadris estáveis, membros simétricos. A mãe é Rebeca Porangatu, vinte e dois anos, primeira gestação, cinco consultas de pré-natal na unidade básica, sorologias todas não reagentes. O pai, Orozimbo Piaçabuçu, dormiu na cadeira ao lado.

O que aconteceu foi na primeira mamada. A técnica de enfermagem, Iduina, tinha ajudado a pega às onze e dez. O bebê sugou duas ou três vezes, engasgou, ficou roxo em volta da boca, tossiu, soltou o peito e escorreu leite pelo canto e pelo nariz. Melhorou sozinho em menos de um minuto, deitado de lado. A mãe está assustada e envergonhada em partes iguais, porque a explicação que já lhe deram duas vezes no corredor é que o leite desceu forte e ela precisa aprender a pega.

Iduina não aceitou essa explicação e é por isso que você foi chamado. Ela diz duas coisas que a folha de evolução não diz. A primeira é que trocou o pano do berço três vezes desde as oito da manhã, porque fica encharcado de saliva — saliva clara, espessa, que volta a acumular no canto da boca minutos depois de aspirada. A segunda é que isso já tinha acontecido às nove e meia, quando ofereceram o peito pela primeira vez, e ninguém registrou porque passou rápido.

Você olha o cartão da gestante enquanto anda até o berço. Há uma ultrassonografia obstétrica de trinta e quatro semanas com uma linha que ninguém sublinhou: líquido amniótico aumentado, maior bolsão de nove centímetros. Não há laudo de morfológico — o exame do segundo trimestre foi pedido e não foi feito, e o campo de observações da última consulta diz apenas retorno em quinze dias.

No berço, o recém-nascido está corado, ativo, com frequência respiratória de sessenta e quatro, tiragem intercostal discreta e saturação de noventa e três por cento em ar ambiente. Há saliva espumosa na boca e uma pequena coluna dela na narina esquerda. O abdome está globoso e timpânico à percussão, o que a folha da sala de parto não descrevia. Não há sopro. Não há dismorfismo evidente. Ele suga a chupeta com força e, quando suga, tosse.

Este capítulo tem uma trava e ela cabe numa frase. Recém-nascido com salivação que não seca, engasgo e cianose na mamada tem atresia de esôfago até prova em contrário, e a prova é passar uma sonda e ver onde ela para — não é esperar o próximo episódio, não é repetir a orientação de pega, não é pedir uma radiografia sozinha e não é oferecer o peito de novo para ver se acontece outra vez. Antes de tudo isso, antes até da sonda, existe um ato que não custa nada e que muda o desfecho: suspender a via oral. Cada mamada oferecida a um esôfago que termina em fundo cego é um episódio de aspiração, e a pneumonia por aspiração é o que mata esses recém-nascidos no Brasil, não a malformação em si.

O que você vai fazer nas próximas quatro horas é curto de listar e difícil de fazer bem: confirmar com a sonda, olhar uma radiografia que responde três perguntas de uma vez, procurar o que costuma vir junto, montar um pacote de cuidados que impeça a saliva de chegar ao pulmão, ligar para a regulação e conversar com duas pessoas que acabaram de ter o primeiro filho e ainda não sabem que ele não vai mamar tão cedo. Nada disso precisa de cirurgião pediátrico dentro do hospital. Tudo isso precisa de você.

03

Quem adoece disso

Vale começar pela régua, porque ela é curta e o aluno precisa saber o tamanho dela antes de confiar. Não existe, no Brasil, protocolo clínico federal nem diretriz terapêutica de alcance nacional dedicada à atresia de esôfago. A doença entra nas normas federais em dois lugares e só neles: no manual da Declaração de Nascido Vivo, que lista os códigos com que ela é registrada, e numa única linha da tabela de profilaxia cirúrgica das diretrizes de antibiótico em unidades neonatais da Sociedade Brasileira de Pediatria, de março de 2025. O documento brasileiro que de fato ensina a conduta hora a hora é um protocolo de serviço — o da Maternidade Escola Assis Chateaubriand, do complexo hospitalar da Universidade Federal do Ceará, versão 2, de agosto de 2022 — e é dele que sai quase toda a operacionalização deste capítulo. Isso não é lacuna do leitor nem do texto: é o estado da normatização brasileira em 2026, e a consequência prática é que o interno vai encontrar condutas diferentes entre serviços sem que nenhuma delas esteja desobedecendo a alguma norma nacional, porque não há norma nacional a obedecer.

No registro, a doença tem três códigos e a diferença entre eles é exatamente a que este capítulo ensina a fazer. Q39.0 é atresia de esôfago sem fístula; Q39.1 é atresia de esôfago com fístula traqueoesofágica; Q39.2 é fístula traqueoesofágica congênita sem atresia. Os três estão no Apêndice E do manual da Declaração de Nascido Vivo, que é a lista oficial do que pode ser descrito no documento. Quem preenche o campo 6 da declaração e descreve a anomalia no campo 41 é o serviço onde o parto aconteceu — ou seja, o seu, mesmo quando a criança vai ser operada a duzentos quilômetros dali.

E aqui aparece um vão no desenho do registro que interessa justamente a esta doença. A instrução do campo 6 manda assinalar a anomalia congênita detectável no momento do nascimento. A atresia de esôfago quase nunca é detectável no momento do nascimento: ela aparece na primeira tentativa de alimentar ou na primeira sonda, horas depois, e o exame físico da sala de parto costuma ser normal — foi normal no berço 4. Os dois exemplos de preenchimento do próprio manual usam anomalias visíveis no exame da sala de parto: fissura labial com polegar duplicado, e perímetro cefálico abaixo de dois desvios-padrão. O manual trata de retificação da declaração, mas trata dela para o nome do recém-nascido e para o responsável legal, e não diz o que fazer quando a anomalia é diagnosticada depois de a declaração já ter sido emitida. Na prática isso empurra a doença para fora da estatística de quem nasceu, e é uma das razões pelas quais não existe um número brasileiro publicado de incidência que se possa citar: o país coleta o dado e não o devolve como taxa.

Sobre o pré-natal existe uma medida brasileira, e ela é específica o bastante para valer a pena. Um estudo de validação conduzido no Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira, em Recife, acompanhou 457 gestantes de risco submetidas a ultrassonografia morfológica entre março de 2002 e março de 2006 e confrontou cada diagnóstico intrauterino com o achado depois do parto. Doze fetos receberam suspeita pré-natal de atresia de esôfago. Sete confirmaram, cinco não confirmaram, e nenhum caso confirmado depois do parto tinha passado despercebido. Sensibilidade de 100%, especificidade de 98%, concordância pelo indicador kappa de 0,73. E o número que importa para a sala de parto: de cada dez suspeitas ultrassonográficas de atresia de esôfago, cerca de seis se confirmam. Foi a anomalia com a menor taxa de confirmação pós-natal de toda a série.

Duas leituras saem daí e as duas mudam o comportamento. A primeira é que a suspeita pré-natal é para ser levada a sério, e não para ser tratada como diagnóstico: quatro em cada dez recém-nascidos que chegam com essa suspeita escrita no encaminhamento vão passar a sonda sem dificuldade e vão mamar. A segunda, e mais importante para quem trabalha longe de um centro de medicina fetal, é que esses números vêm de um serviço de referência que examinou gestantes de alto risco. A ultrassonografia que a maioria das gestantes brasileiras faz não é essa, e um exame sem alteração descrita não exclui nada. O único achado que costuma aparecer no papel do pré-natal comum é o polidrâmnio, e ele estava lá, escrito, no cartão de Rebeca. O exame em si — o que cada ultrassonografia da gestação responde, o que o rastreio morfológico detecta e o que um laudo normal quer dizer — é de O que cada ultrassom responde, da apostila de Obstetrícia, que é a dona do assunto, e é lá que está a regra de que o feto com suspeita de atresia de esôfago deve nascer, sempre que possível, em maternidade com tratamento clínico-cirúrgico neonatal imediato. Este capítulo cede a ela o exame e a decisão de onde nascer, e fica com a parte que aquele capítulo não nomeia: o que o polidrâmnio isolado vale depois que a criança já nasceu, e num hospital sem cirurgião pediátrico — que é justamente a situação que a regra dela existe para evitar e que o berço 4 mostra que acontece assim mesmo.

O que vem junto é a outra metade da epidemiologia e talvez a que mais muda o plano. A atresia de esôfago é a malformação congênita mais comum do esôfago e raramente vem sozinha. O protocolo do serviço cearense registra associação com defeito cardíaco em 35% e com defeito do trato digestório em 15%, sobretudo em prematuros, e nomeia a associação VACTERL — defeitos vertebrais, atresia anal, cardíacos, fístula traqueoesofágica com atresia esofágica, defeitos renais e displasia radial do membro. O número cardíaco não é o mesmo em todas as fontes, e este é o que esta apostila adota. A tabela de Kobinger (Jornal de Pediatria, 2003), que o capítulo Sopro na criança: inocente ou não, da apostila de Cardiologia Pediátrica, usa como probabilidade pré-teste de cardiopatia, registra cardiopatia congênita em 20% das crianças com fístula traqueoesofágica e/ou atresia de esôfago e em 50% das que têm a associação VACTERL. Esta apostila fica com os 35% do protocolo cearense porque ele é o documento escrito para o recém-nascido com atresia de esôfago, e é de 2022, contra uma tabela de revisão de 2003; a escolha é desta apostila, e os 20% ficam registrados aqui com fonte e data. A conduta não depende dela: com 20% ou com 35%, a criança precisa de ecocardiograma antes de ir para a mesa.

Por que a raridade importa tanto na prática: um serviço que faz mil e quinhentos partos por ano não vê esse quadro com frequência suficiente para criar hábito. Ninguém no plantão vai reconhecer o padrão por já ter visto muitos. O reconhecimento vai vir de outro lugar — de alguém ter escrito, em algum lugar da sua cabeça, que saliva que não seca em recém-nascido é sinal e não é normalidade. Neste caso veio de uma técnica de enfermagem que trocou três panos e não aceitou a explicação da pega.

É por isso que este capítulo insiste tanto num gesto de dois minutos. A doença é rara, o diagnóstico é barato, o teste está na gaveta de qualquer posto de enfermagem do país, e o custo de não fazê-lo é uma pneumonia por aspiração que se instala durante as horas em que o bebê continua sendo oferecido ao peito para provar que o problema é a pega.

04

Por que acontece o que acontece

A interrupção do esôfago permite acúmulo de saliva no coto proximal, com risco de aspiração; uma fístula distal pode ainda permitir passagem de ar da via aérea ao estômago. Esses mecanismos explicam posição, drenagem e cuidado com pressão positiva. Sua necessidade deve ser julgada pela respiração: insuflação desnecessária é evitada, mas ventilação vital não é proibida.

Um tubo que se dividiu mal

Na quarta e na quinta semanas de gestação, o intestino anterior primitivo se separa em dois canais: à frente, a traqueia; atrás, o esôfago. Quando essa separação falha, sobram duas assinaturas que aparecem juntas com mais frequência do que separadas: o esôfago fica interrompido, e permanece uma comunicação onde deveria ter havido parede entre os dois tubos. Interrupção é a atresia; comunicação é a fístula traqueoesofágica. Nada disso é herdado de um jeito simples, nada disso foi causado por algo que a mãe fez ou deixou de fazer, e essa segunda frase precisa ser dita em voz alta para a família mais de uma vez.

O coto superior termina em fundo cego, em geral na altura da segunda ou terceira vértebra torácica — perto o bastante da boca para que uma sonda pare cedo, e é por isso que a sonda que para em torno de dez a doze centímetros é achado, e não acidente de técnica. Esse fundo cego funciona como um copo. Tudo o que a criança produz de saliva cai nele, ele enche, e quando enche transborda. O transbordamento não vai para o estômago: vai para a laringe. Essa é a primeira via de aspiração, e ela funciona sem que ninguém ofereça nada por via oral — é por isso que a criança já estava molhando o pano de saliva antes da primeira mamada.

A fístula distal, que é uma rua de mão dupla

No arranjo mais comum, a parte de baixo do esôfago não termina num coto isolado: ela nasce da parede posterior da traqueia, perto da carina, e desce até o estômago. Isso cria uma comunicação aberta entre a via aérea e o tubo digestivo, e o que atravessa essa comunicação anda nos dois sentidos, em momentos diferentes, com consequências opostas.

De cima para baixo passa ar. Cada incursão respiratória empurra um pouco de ar traqueal para dentro do esôfago distal e daí para o estômago, e o estômago vai inflando ao longo das horas. Estômago inflado empurra o diafragma para cima, reduz o volume que o pulmão consegue ocupar e piora exatamente a mecânica respiratória que a aspiração já comprometeu. Foi isso que deixou o abdome do berço 4 globoso e timpânico quatro horas depois de um exame de sala de parto que descrevia abdome flácido: a distensão não estava lá ao nascer porque ela leva horas para se formar.

De baixo para cima passa suco gástrico. O conteúdo ácido sobe pelo esôfago distal, entra na traqueia pela fístula e chega aos brônquios. Essa é a segunda via de aspiração, e é a mais destrutiva das duas: saliva aspirada causa obstrução e atelectasia; ácido aspirado causa pneumonite química, que é lesão de parênquima e não se resolve aspirando de novo. Um recém-nascido com atresia e fístula distal, deitado na horizontal e sem sonda no coto, está sendo agredido pelos dois lados ao mesmo tempo.

Pressão positiva pode insuflar o estômago através da fístula, piorando ventilação e risco de aspiração. Por isso, evitar suporte não invasivo desnecessário e pedir cedo operador habilitado. Em apneia ou insuficiência ventilatória, a prioridade continua sendo ventilar e oxigenar, com a técnica mais segura disponível e planejamento de intubação; uma advertência anatômica não pode virar proibição de reanimação.

Por que a cabeceira elevada e a aspiração contínua não são conforto

As duas medidas de posicionamento atacam uma via de aspiração cada. A cabeceira elevada em trinta a quarenta e cinco graus usa a gravidade contra o refluxo que sobe pela fístula: quanto mais vertical o eixo, mais difícil para o conteúdo gástrico vencer o trajeto até a traqueia. A aspiração contínua do coto proximal esvazia o copo antes que ele transborde, e por isso tem de ser contínua e não intermitente — aspirar de meia em meia hora deixa vinte e nove minutos de copo cheio. Nenhuma das duas trata a doença. As duas juntas compram o tempo que separa o berço 4 da mesa de cirurgia, e esse tempo se mede em horas de ambulância.

Há um detalhe de posição que confunde e vale explicitar: no recém-nascido já intubado, o decúbito e a inclinação passam a ser decididos pela equipe que ventila, porque o tubo protege a via aérea por cima mas não fecha a fístula por baixo. O protocolo brasileiro reserva a cabeceira elevada com aspiração contínua para o recém-nascido que não está intubado.

Cena simulada de berço aquecido vazio, com superfície firme inclinada em plano único, grades elevadas e equipamento de aspiração preparado ao lado.
Imagem simulada de preparação do ambiente neonatal para cuidado supervisionado na suspeita de atresia esofágica. O equipamento está preparado, sem conexão a um paciente. O desenho não ensina a introdução da sonda, não define pressão de aspiração e não constitui orientação de posicionamento para sono domiciliar.

O que o ar no abdome informa

Ausência de gás abdominal favorece atresia sem fístula distal patente, mas não demonstra ausência de toda comunicação: fístula pequena ou obstruída pode não produzir o padrão esperado. A anatomia definitiva depende da avaliação especializada, e a proteção contra aspiração permanece necessária.

Isso separa os casos em dois grupos de conduta, e não apenas de nomenclatura. Com fístula distal, o estômago é alcançável pelo ar e pelo ácido, a criança tende a distender e a piorar a ventilação, e o urgente é impedir o ar de entrar e o ácido de subir. Sem fístula distal, o abdome permanece escavado, não há refluxo ácido pela via aérea, e o problema muda de figura: os dois cotos costumam estar longe um do outro, a junção imediata muitas vezes não é possível, e a criança pode precisar de uma via de alimentação no estômago enquanto se espera o esôfago crescer. O primeiro grupo tem um problema respiratório com prazo de horas; o segundo tem um problema nutricional com prazo de semanas.

O mesmo raciocínio explica por que a ultrassonografia pré-natal confirma tão pouco. A suspeita se apoia em polidrâmnio, que aparece porque o feto não deglute o líquido amniótico, e em bolha gástrica pequena ou ausente. Mas o arranjo mais comum tem fístula distal — e a fístula distal enche o estômago fetal de líquido pela traqueia. A bolha gástrica está lá, de tamanho quase normal, exatamente no tipo de atresia que responde pela maioria dos casos. Sobra o polidrâmnio, que é inespecífico e tem dezenas de outras causas. Não é acaso que essa tenha sido a anomalia menos confirmada da série do Recife: o sinal mais objetivo falta justamente onde a doença é mais frequente.

05

Como se apresenta de verdade

Esta doença não chega com o nome escrito na ficha. Chega como engasgo, como saliva, como uma mãe que está sendo corrigida na técnica da mamada, e às vezes como um recém-nascido que já está taquipneico sem que ninguém tenha entendido por quê. O que segue são os seis modos pelos quais ela se apresenta no alojamento conjunto brasileiro, na ordem em que costumam aparecer.

Vale um aviso de calibragem antes: nenhum desses achados é sensível o bastante para excluir a doença quando está ausente, e nenhum é específico o bastante para fechá-la quando está presente. Todos eles servem para uma coisa só, que é decidir passar a sonda.

Engasgou mamando — por que isso é achado e não normalidade

Recém-nascido se engasga. É verdade, acontece, e a maior parte das vezes é descoordenação transitória entre sucção, deglutição e respiração, ou fluxo de leite forte demais para um bebê que ainda está aprendendo. O problema é que essa explicação virou a resposta padrão do corredor e passou a cobrir tudo, inclusive o que não cobre.

Quatro coisas separam o engasgo comum do engasgo que exige sonda. Cianose durante o episódio, e não apenas tosse. Repetição na segunda oferta, e não um episódio isolado. Retorno pelas narinas de leite ou de saliva, que denuncia que o conteúdo não desceu e refluiu por cima. E salivação abundante entre as mamadas, que é o achado que não depende de ninguém ter oferecido nada. Um só desses já basta para suspender a via oral e passar a sonda. Os quatro juntos, como no berço 4, tornam qualquer outra hipótese improvável.

Há um erro de raciocínio que este parágrafo existe para desmontar. Oferecer o peito de novo para ver se acontece outra vez não é um teste diagnóstico: é uma repetição do dano. Cada tentativa é uma oportunidade de aspiração, e o resultado que se obtém — engasgou de novo, ou não engasgou desta vez — não muda a conduta, porque a conduta é passar a sonda nos dois casos.

A salivação que não seca

É o sinal mais precoce, o mais fácil de documentar e o mais fácil de ignorar, porque saliva em recém-nascido não assusta ninguém. O padrão que importa é a recorrência: saliva clara e espessa que se acumula no canto da boca ou na narina, que é aspirada ou enxugada, e que volta a acumular em minutos. Em serviço nenhum isso é medido. O que se mede é indireto e é bom: quantas vezes o pano ou a fralda sob a cabeça foi trocado por estar encharcado, e em quanto tempo.

Esse achado tem um valor operacional que nenhum outro tem: ele existe antes da primeira mamada. Um recém-nascido que saliva assim ainda não aspirou nada de leite, e é a única janela em que se pode fazer o diagnóstico sem que a criança tenha pago por ele. Quem trabalha em alojamento conjunto deve tratar a frase da técnica de enfermagem — 'esse bebê baba demais' — como pedido de avaliação médica, e não como comentário.

O abdome que muda de forma nas primeiras horas

Este é o achado que mais informa e o que menos se procura, porque exige comparar dois exames. O abdome do recém-nascido com atresia e fístula distal vai ficando globoso e timpânico ao longo das horas, à medida que o ar respirado atravessa a fístula e enche o estômago. O abdome do recém-nascido com atresia sem fístula distal fica escavado, porque nada entra por cima e nada entra por baixo.

O que dá valor a esse achado é a diferença entre o exame da sala de parto e o exame de agora. Um abdome descrito como flácido às sete da manhã e encontrado globoso e timpânico às onze e vinte diz mais do que qualquer um dos dois isolados. É um argumento a favor de escrever o exame abdominal com uma palavra a mais na folha da sala de parto — não porque o abdome do recém-nascido normal seja interessante, mas porque ele é a linha de base do único que vai interessar.

Cuidado com a armadilha inversa: distensão abdominal em recém-nascido tem muitas causas, e a maior parte delas é obstrução mais baixa. Quando o quadro é distensão com vômito, com atraso de mecônio ou com vômito bilioso, o mapa a seguir é o de A cor do vômito e a fralda que não sujou, desta apostila, que é o dono da obstrução neonatal e da radiografia que a decifra. O que traz o caso para cá é a combinação de distensão com saliva e engasgo — obstrução em cima, não embaixo.

O que o exame da sala de parto não pega, e o que ele deveria pegar

É esperado que o exame do nascimento seja normal, e é importante dizer isso ao aluno para que ele não conclua que alguém falhou. A atresia de esôfago não tem sinal externo. O que o exame da sala de parto pode e deve pegar é outra coisa: as malformações que costumam vir junto, e que dão a pista quando estão presentes.

Cinco lugares merecem um olhar dirigido em qualquer recém-nascido que gerou suspeita de atresia: o ânus — presente, no lugar, pérvio; os membros superiores, com atenção ao lado do rádio e ao polegar, que podem faltar ou ser duplicados; a coluna, procurando assimetria, escoliose ou tufo piloso; o precórdio, procurando sopro, e sabendo que a ausência de sopro não exclui cardiopatia no recém-nascido; e o abdome e a diurese, pela associação renal. São os componentes da associação VACTERL, e o achado de qualquer um deles num bebê que saliva torna a suspeita muito mais forte.

Duas fronteiras aqui. O sopro do recém-nascido e o que ele significa são de Sopro na criança: inocente ou não, da apostila de Cardiologia Pediátrica; este capítulo pede o ecocardiograma e diz por quê, mas não ensina a interpretar sopro. E o exame do períneo e do ânus, com a lanterna, é ensinado em detalhe em A cor do vômito e a fralda que não sujou — aqui ele entra como item de uma lista de rastreio, não como técnica.

Os tipos, na medida do interno

O protocolo brasileiro consultado usa a classificação de Gross, com cinco letras. Vale saber de quem é e de quando: é a classificação anatômica que a cirurgia pediátrica herdou dos anos 1950, e o protocolo cearense de 2022 a reproduz sem mudar as letras. O que muda a conduta não são as cinco letras: são duas perguntas.

A primeira pergunta é se há fístula distal, e ela é respondida pelo ar no abdome. O tipo C — atresia com fístula distal — responde por 85% a 90% dos casos segundo o protocolo, e é o que se deve assumir enquanto não há radiografia. Os tipos A e B, que não têm fístula distal, cursam com ausência de ar em alça intestinal; o tipo A, sem fístula nenhuma, fica em 5% a 7%.

A segunda pergunta é se há atresia, e ela separa um caso que não pertence a esta cena. O tipo E é a fístula traqueoesofágica isolada, sem atresia: o esôfago é contínuo, a sonda passa até o estômago sem dificuldade, a criança consegue mamar, e o que ela apresenta é tosse com a alimentação, engasgos de repetição e pneumonias que voltam ao longo de meses. O protocolo o registra em 2% a 6%. Este é o tipo que não se diagnostica na maternidade e que costuma chegar como criança com pneumonia de repetição — e é a razão pela qual sonda que passa não encerra a investigação de quem engasga toda vez que come.

Em números redondos, para o dia a dia: nove em cada dez têm fístula distal e abdome com ar; um em cada vinte não tem fístula nenhuma e abdome sem ar; e um número pequeno tem fístula sem atresia, chega tarde e não é problema da sala de parto.

O que mais engasga no berçário

Três hipóteses disputam com a atresia e vale saber por que nenhuma delas dispensa a sonda. A descoordenação da sucção, que é o diagnóstico do corredor, não produz salivação abundante entre as mamadas nem distensão abdominal progressiva. A cardiopatia congênita produz cianose e taquipneia, mas a cianose da cardiopatia não é sincronizada com a oferta do peito e não vem com leite pelo nariz. A atresia de coanas produz desconforto que melhora quando a criança chora e piora quando ela fecha a boca — o inverso do que acontece aqui — e é excluída pela mesma sonda, passada pelas narinas.

A quarta hipótese não disputa: soma. Aspiração já instalada, com roncos disseminados, estertores subcrepitantes e piora da saturação, é uma complicação da atresia e não uma alternativa a ela, e a sua presença aumenta a urgência do transporte em vez de mudar o diagnóstico.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação inteira desta doença cabe em dois exames, e os dois estão dentro do hospital que não tem cirurgião pediátrico. Uma sonda e uma radiografia respondem se há atresia, onde ela para, se há fístula distal, se já há pneumonia e se há malformação vertebral aparente. Tudo o que vem depois disso é preparo para a cirurgia e não diagnóstico.

A ordem importa e é contraintuitiva para quem aprendeu que exame vem antes de conduta: aqui a suspensão da via oral precede o primeiro exame, porque ela não depende do resultado de nada e porque o dano que ela evita acontece justamente durante o tempo que o exame leva.

A sonda — o teste que fecha o caso

Passa-se uma sonda pela boca ou pela narina e observa-se onde ela para. No recém-nascido com atresia, ela para em torno de dez a doze centímetros, e não avança mais. A instrução do protocolo brasileiro é explícita em três pontos: usar sonda calibrosa, do calibre 8, porque sondas mais finas enrolam dentro do coto e produzem leitura falsa; não forçar; e medir o comprimento efetivamente introduzido em vez de anotar apenas passou ou não passou.

Esse terceiro ponto merece um parágrafo próprio porque é onde o teste é traído. Uma sonda fina que se enrola no fundo cego pode aceitar vinte centímetros de comprimento sem que a ponta tenha saído do lugar, e quem estiver segurando vai concluir que passou. Anotar o número em centímetros — e conferir esse número contra o que aparece na radiografia — é o que transforma o gesto em exame. A técnica da sondagem e a confirmação de que uma sonda está onde se pensa que está são de O que confirma, e o que só parece confirmar, da apostila de Procedimentos e Vias de Acesso, que é o dono do assunto e ensina a distinguir o que realmente confirma posição do que apenas parece confirmar. O que é deste capítulo é o significado da sonda que para: nesta cena, ela não é um acesso, é o diagnóstico.

A conduta depois do teste não espera imagem. Sonda que parou significa via oral suspensa em definitivo, sonda mantida no coto sob aspiração, e telefonema iniciado. A radiografia vem para responder as outras perguntas, não para autorizar essas três.

A régua nacional diz para não sondar — e não contradiz o que está acima

Existe uma recomendação brasileira sobre exatamente este gesto, e o aluno vai encontrá-la, então convém explicar antes que ele a encontre sozinho. As Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal, aprovadas pela Portaria SAS/MS nº 353, de 14 de fevereiro de 2017, trazem duas recomendações numeradas na seção de intervenções de rotina no recém-nascido. A de número 199 desaconselha a aspiração orofaríngea e nasofaríngea sistemática. A de número 200 diz, com essas palavras, que não se recomenda realizar a passagem sistemática de sonda nasogástrica nem retal para descartar atresias no recém-nascido saudável.

As duas palavras em destaque são a chave, e elas estão no texto da própria recomendação, não numa interpretação de leitura. O que a diretriz proíbe é o rastreamento universal: sondar todo recém-nascido de rotina, sadio, sem sintoma, como parte do cuidado padrão do pós-parto imediato. O que este capítulo manda fazer é o oposto do rastreamento — é o teste diagnóstico num recém-nascido sintomático, e um recém-nascido que engasgou com cianose e saliva pelas narinas deixou de ser saudável às onze e dez da manhã.

Vale registrar de onde vem a justificativa da recomendação 200, porque ela é mais frágil do que parece. O anexo brasileiro adota a posição das diretrizes espanholas, cujos autores declararam não ter encontrado evidência sobre o tema e argumentaram que existiriam outros sinais de alarme capazes de levantar a suspeita de atresia de esôfago. Quais sejam esses sinais, o documento brasileiro não diz em nenhum ponto. Este capítulo os diz, porque alguém precisa: salivação que não seca, engasgo com cianose, retorno de leite pelas narinas e distensão abdominal progressiva. Sem essa lista, a recomendação de não sondar de rotina fica sem a contrapartida que a torna segura.

A radiografia com a sonda no lugar

O exame é uma radiografia panorâmica, incluindo tórax e abdome no mesmo filme, feita com a sonda posicionada e mantida no coto. Não é radiografia de tórax: cortar o abdome é perder metade da informação. Ela responde quatro perguntas de uma vez.

Primeira, onde a sonda parou: ela aparece enrolada ou detida no fundo cego, e o coto costuma estar distendido pelo ar, desenhando uma coluna aérea que serve de contraste natural — motivo pelo qual não é preciso injetar nada para ver o fundo cego. Segunda, se há ar abaixo do diafragma: ar no estômago e nas alças significa fístula distal; ausência completa de ar significa atresia sem fístula distal. Terceira, se já há pneumonia: infiltrado, sobretudo em lobo superior direito, muda a urgência e muda o antibiótico. Quarta, o que mais aparece de graça: malformação vertebral, silhueta cardíaca alterada, alças anormais que sugerem outra atresia associada mais abaixo.

A leitura sistemática do filme de tórax é de Radiografia de tórax, da apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito, e a leitura do abdome do recém-nascido — quantas alças, onde, ar no reto, dupla bolha — é de A cor do vômito e a fralda que não sujou, desta apostila. Aqui só se pede uma coisa a mais do que aqueles capítulos ensinam: que a sonda esteja dentro do paciente na hora do disparo. Radiografia feita depois de retirar a sonda perde o achado principal.

Por que não se usa contraste de rotina

Porque o risco é grande e o ganho é quase nenhum. O contraste é despejado dentro de um fundo cego que já está cheio de saliva e que transborda para a laringe — é assim que ele chega ao pulmão. Contraste iodado aspirado produz pneumonite química num pulmão que muitas vezes já foi agredido pela saliva e pelo ácido; contraste baritado aspirado é pior ainda, porque o bário não é reabsorvido e permanece no parênquima. E o ganho é pequeno porque a pergunta que o contraste responderia — onde termina o coto — já foi respondida pela sonda que parou e pela coluna de ar do próprio coto.

Isso não quer dizer que ele nunca seja usado. O protocolo brasileiro descreve a técnica com cuidado incomum, e a descrição é uma aula sobre o que se teme: preencher todo o trajeto da sonda com contraste antes de introduzi-la, para não injetar ar; posicionar a sonda no coto proximal por via oral sem desconectar da seringa; injetar 0,5 mL, um volume pequeno o bastante para caber no coto e não transbordar; fazer a radiografia com o recém-nascido inclinado em no mínimo 45 graus; e, imediatamente depois do disparo, aspirar e retirar a sonda sob aspiração contínua. Cada um desses cinco passos existe para impedir que o contraste vá parar no pulmão.

Há uma lacuna real no documento e é honesto apontá-la: ele apresenta o diagnóstico sem contraste e o diagnóstico com contraste como duas seções de igual peso e não escreve em nenhum ponto qual é a indicação para passar de uma para a outra. Quem lê o protocolo de cabo a rabo não encontra a frase que diz quando o contraste é necessário. Na prática, e enquanto essa frase não existir, a decisão de usar contraste pertence à equipe cirúrgica que vai operar, não ao serviço que está estabilizando — e o interno que está no hospital sem cirurgião pediátrico não tem razão nenhuma para tomá-la sozinho.

O que mais se pede antes de a criança viajar

O protocolo brasileiro lista, na conduta pré-operatória, um conjunto pequeno e de resultado rápido: hemograma, coagulograma, ureia, creatinina, sódio, potássio, cálcio, glicemia e gasometria arterial; radiografia panorâmica; ecocardiograma sempre antes da cirurgia; ultrassonografia de abdome total; e eletrocardiograma.

Dois desses merecem justificativa porque parecem exagero num bebê que precisa viajar. O ecocardiograma não é para diagnosticar cardiopatia por curiosidade: é para saber duas coisas que mudam a operação. A primeira é se existe cardiopatia grave, que muda o risco e a ordem das intervenções. A segunda é a posição do arco aórtico, porque o lado do arco determina de que lado do tórax o cirurgião entra — informação que não se descobre no meio da toracotomia. A ultrassonografia de abdome procura a malformação renal da associação VACTERL, que é frequente e silenciosa.

Se o serviço de origem não tem ecocardiografista — e o do berço 4 não tem — isso não é motivo para segurar a criança. É motivo para escrever, na guia de transferência, que o exame não foi feito e precisa ser feito antes da cirurgia. Segurar um recém-nascido com atresia de esôfago esperando ecocardiograma num hospital sem cirurgião pediátrico troca um risco pequeno por um grande.

O que não se pede

Contraste baritado, nunca. O bário aspirado permanece no pulmão e não há como retirá-lo. Quando há indicação de contraste, ele é iodado e em volume mínimo.

Endoscopia digestiva alta e tomografia não fazem parte do diagnóstico nesta fase e não devem atrasar a transferência. A broncoscopia, quando indicada para localizar a fístula, é decisão e ato da equipe cirúrgica no serviço de destino.

E não se pede repetição da mamada para confirmar. Esse é o exame que este capítulo mais insiste em proibir, porque ele é gratuito, disponível, tentador e é o único da lista que agride o paciente sem produzir informação nova.

07

Decidir pela sonda, decidir pelo ar no abdome, e conferir as contas dos documentos

Salivação, engasgo e dificuldade de progressão da sonda exigem interromper alimentação e proteger a respiração. A equipe neonatal/cirúrgica orienta dispositivo, aspiração e transporte; evitar insuflação gástrica não significa negar ventilação necessária.

  1. 1Interromper alimentação na suspeita e chamar ajuda, mantendo temperatura, glicemia e avaliação respiratória/circulatória.
  2. 2Profissional treinado introduz sonda radiopaca apropriada sem forçar; comprimento sugere o problema, mas não é corte universal. Não repetir passagens traumáticas para atingir um número.
  3. 3Radiografia de tórax e abdome com a sonda orienta o coto e o gás distal, sem contraste de rotina; o padrão sugere anatomia, mas ausência de gás não exclui absolutamente fístula pequena ou obstruída.
  4. 4Manter cabeceira elevada e drenagem eficaz do coto, preferencialmente por dispositivo de duplo lúmen apropriado e baixa pressão regulada conforme protocolo, com conferência da patência e posicionamento.
  5. 5Evitar CPAP ou máscara desnecessários que possam distender o estômago pela fístula. Se houver apneia ou ventilação inadequada, oferecer suporte ventilatório imediato pela equipe e planejar via aérea definitiva; não esperar sufocar para respeitar uma proibição.
  6. 6Procurar malformações associadas e organizar exames sem retardar transferência necessária. Registrar o que está demonstrado e o que continua suspeito.
  7. 7Transferir com suporte testado, plano para secreções e deterioração, informações clínicas e acesso às imagens. Ausência de fístula distal não torna o problema apenas nutricional ou dispensa vigilância respiratória.

As frases que decidem, e o que se faz com cada uma

"O leite dela desce forte, é só a pega." — pode ser verdade em geral e é a hipótese errada neste bebê; olhe você mesmo o pano sob a cabeça e conte quantas vezes foi trocado. "Ele engasgou e ficou roxinho, mas passou rápido." — cianose com a mamada é achado: via oral suspensa e sonda, agora. "Esse bebê baba demais." — dito por técnica de enfermagem, é pedido de avaliação médica, não comentário de corredor. "O ultrassom estava normal." — a ultrassonografia comum não exclui, e no tipo mais frequente a bolha gástrica aparece normal porque a fístula distal enche o estômago. "O líquido estava aumentado." — polidrâmnio no cartão é o único sinal pré-natal que a maioria das gestantes brasileiras chega tendo; procure essa linha antes de descartar a hipótese. "A sonda passou." — pergunte quantos centímetros e com que calibre: sonda fina enrola e aceita comprimento sem avançar. "Ele está pior, vou ambuzar." — pare: pressão positiva insufla o estômago pela fístula; oxigênio sem pressão, cabeceira, aspiração conferida, e intubação se o desconforto for significativo.

Os cinco tipos, e as duas perguntas que realmente mudam a conduta

Tipo (classificação de Gross)O que éAr abaixo do diafragmaO que muda na sua conduta
C — atresia com fístula distal (85% a 90%)Coto proximal cego; esôfago inferior nasce da traqueia e desce ao estômagoPresente, e o abdome vai ficando globoso ao longo das horasProteção contra aspiração, cabeceira e drenagem eficaz são urgentes. Evitar pressão positiva desnecessária, sem proibir suporte ventilatório vital.
A — atresia sem fístula (5% a 7%)Dois cotos isolados, sem comunicação com a via aéreaAusente; abdome escavadoNão há refluxo ácido pela via aérea e a distensão não ocorre. Os cotos costumam estar distantes, a junção imediata muitas vezes não é possível, e a criança pode precisar de via de alimentação no estômago por semanas
B — atresia com fístula proximal (raro, sem percentual no protocolo)Coto superior comunica-se com a traqueia; esôfago inferior isoladoAusenteComporta-se como o tipo A quanto ao abdome, mas a saliva do coto tem caminho direto para a via aérea, o que torna a aspiração contínua ainda mais crítica
D — atresia com fístula proximal e distal (raro, sem percentual no protocolo)Comunicação nos dois cotosPresenteSoma os problemas de C e de B; nada muda na conduta do serviço de origem, que é a mesma do tipo C
E — fístula sem atresia (2% a 6%)Esôfago contínuo, com comunicação em H para a traqueiaPresente e normalA sonda passa. Não se diagnostica na maternidade: chega como criança com tosse ao comer, engasgos de repetição e pneumonias recorrentes. É a razão pela qual sonda que passa não encerra a investigação de quem engasga toda vez que come

Tabela de conversão para o recém-nascido desta cena, de 3.050 gramas, recalculada contra apresentação real

O que se instalaRégua usadaA contaO que se pendura ou se aspira
Soro de manutenção com glicose a 10%, taxa de infusão de glicose de 5 mg/kg/minAlvo usual de 4 a 6 mg/kg/min no recém-nascido em jejum5 × 144 ÷ 10 = 72 mL/kg/dia; 72 × 3,05 = 219,6 mL/dia; ÷ 24 = 9,15 mL/h9 mL/h em bomba de infusão. Conferência pelo caminho inverso: 9 mL/h × 24 ÷ 3,05 = 70,8 mL/kg/dia; × 10 ÷ 144 = 4,9 mg/kg/min
Expansão com cloreto de sódio a 0,9%, se houver má perfusão (não é o caso deste bebê)10 mL/kg por alíquota10 × 3,05 = 30,5 mL30 mL em 20 a 30 minutos, reavaliando ao fim de cada alíquota
Cefotaxima, se o serviço de destino pedir antibiótico antes do embarque50 mg/kg/dose, tabela de doses neonatais da SBP 2025 para peso acima de 2.000 g50 × 3,05 = 152,5 mg, arredondados para 150 mgFrasco de 500 mg (a apresentação da Rename 2024) diluído em 5 mL dá 100 mg/mL: aspirar 1,5 mL. Sobram 350 mg no frasco, que não se guardam para a próxima dose
Gentamicina, se o esquema de sepse neonatal for iniciado4 mg/kg a cada 24 h para idade gestacional de 35 semanas ou mais, tabela da SBP 20254 × 3,05 = 12,2 mg, arredondados para 12 mgAmpola de 40 mg/mL daria 0,3 mL, que não se mede com segurança: diluir 1 mL da ampola em 9 mL para obter 4 mg/mL e aspirar 3 mL
Aspiração contínua do coto proximalPressão de aspiração conforme dispositivo e protocolo neonatal, em sistema regulado e conferido; não valor universal para qualquer montagem60 × 0,7356 = 44,1 mmHg; 80 × 0,7356 = 58,8 mmHgConferir unidade, regulador, patência e retorno. Conversão numérica correta não torna segura uma montagem inadequada.
Contraste iodado, quando indicado pela equipe cirúrgica0,5 mL, volume fixo do protocolo brasileiro0,5 ÷ 3,05 = 0,16 mL/kg neste bebêÉ volume fixo e não por peso; num recém-nascido de 1.500 g corresponderia a 0,33 mL/kg, o dobro por quilo. O protocolo não faz essa ressalva

O elenco: o que os documentos indicam e o que o SUS fornece

ItemDocumento brasileiro que o indicaConsta da Rename 2024?Consequência prática
CefotaximaProtocolo do serviço cearense, primeira opção no pré-operatório sem sinais de infecçãoSim: cefotaxima sódica 500 mg, pó para solução injetável, Componente Básico, com marcador de alertaÉ a única das quatro opções de antibiótico deste capítulo que o SUS fornece pelo elenco nacional
Ampicilina com sulbactamProtocolo cearense e tabela de profilaxia cirúrgica da SBP 2025Não consta em nenhuma apresentaçãoRecomendado pelos dois documentos e fora do elenco nacional; a disponibilidade depende de padronização local
CefoxitinaTabela de profilaxia cirúrgica da SBP 2025, alternativa para atresia de esôfagoNão consta em nenhuma apresentaçãoMesma situação: recomendação sem correspondência no elenco nacional
Ampicilina isoladaProtocolo cearense, para o recém-nascido com sinais de infecção, associada a gentamicinaNão consta em nenhuma apresentaçãoAusência já medida por outro capítulo desta apostila e reconfirmada aqui no texto bruto
Gentamicina injetávelProtocolo cearense e esquema empírico de sepse precoce da SBP 2025Só nas apresentações oftálmicas: pomada e solução a 5 mg/g e 5 mg/mLA forma injetável, que é a usada aqui, não está no elenco nacional
Contraste radiológicoProtocolo cearense, para o estudo contrastado do cotoNenhum meio de contraste radiológico constaReforça, por outro caminho, a conduta de não usar contraste no serviço de origem
RanitidinaProtocolo cearense, nos cuidados pós-operatórios para refluxoNão consta em nenhuma apresentaçãoMedicamento retirado do mercado brasileiro em 2020 e prescrito num protocolo de 2022 — ver a nota de auditoria abaixo

Suspeita pré-natal e confirmação pós-natal. Na série do Recife citada, 7 de 12 suspeitas ultrassonográficas de atresia de esôfago foram confirmadas, correspondendo a valor preditivo positivo de 58,3%. Os sete casos confirmados foram reconhecidos no pré-natal, mas esse número pequeno limita a generalização da sensibilidade observada. Para a passagem de caso, registrar a suspeita, o serviço que a formulou e os achados disponíveis; a proporção da série não confirma nem afasta o diagnóstico de um recém-nascido individual.

Ressalva incompleta na tabela de profilaxia. A linha de atresia de esôfago nas diretrizes neonatais da SBP de 2025 traz dois asteriscos sem definição correspondente na versão consultada. Ela apresenta ampicilina-sulbactam ou cefoxitina, mas a nota ausente impede recuperar integralmente as condições dessa recomendação. Não completar o rodapé por analogia com outras cirurgias: confirmar o esquema com a equipe operadora e a comissão de controle de infecção, registrando a orientação recebida e distinguindo profilaxia de tratamento de infecção.

Duração da profilaxia. A linha específica de atresia de esôfago na tabela da SBP indica 24 horas, em concordância com a orientação geral do texto. Outras linhas da mesma tabela apresentam 24 a 48 horas para procedimentos diferentes. Esses intervalos não devem ser transferidos automaticamente para a atresia. Na prescrição e na passagem de caso, identificar procedimento, finalidade do antibiótico e momento previsto para reavaliação; infecção instalada exige avaliação própria, sem ser tratada como mera extensão da profilaxia.

Classificação da ferida e infecção prévia. O documento classifica a correção de atresia de esôfago como cirurgia limpa-contaminada, segundo a definição de acesso controlado aos tratos envolvidos sem contaminação identificada. Essa classificação descreve o procedimento e não exclui pneumonia aspirativa preexistente. Portanto, separar no raciocínio a prevenção de infecção do sítio cirúrgico e o tratamento de uma infecção já presente. A criança pode precisar de avaliação para ambos, por indicações que devem aparecer claramente na discussão com a equipe.

Leitura da classificação de risco. O quadro de Spitz reproduzido no protocolo apresenta uma linha de peso que deixa combinações de cardiopatia e peso sem enquadramento claro. Não utilizá-lo literalmente para classificar o recém-nascido ou atribuir uma probabilidade individual de sobrevida. A contribuição preservada para este capítulo é a importância de dois eixos: baixo peso e cardiopatia grave. Informar peso, idade gestacional, avaliação cardíaca disponível e condição clínica; o enquadramento prognóstico deve ser confirmado pela equipe especializada na referência apropriada.

Frequência dos tipos anatômicos. O protocolo apresenta faixas de 5% a 7% para o tipo A, 85% a 90% para o tipo C e 2% a 6% para o tipo E. Seus limites superiores não representam uma distribuição única que possa ser somada, e os tipos B e D não recebem estimativa no quadro. O dado útil é o predomínio do tipo C. A frequência populacional orienta a hipótese inicial, mas a anatomia de cada criança depende da investigação.

Prescrição antiga no seguimento. A menção a ranitidina no protocolo de 2022 já está sinalizada como superada no material de referência deste capítulo. A presença de um medicamento em um documento antigo não autoriza reproduzi-lo na prescrição neonatal. Da mesma forma, localizar omeprazol em cápsulas no elenco nacional não estabelece substituição, dose ou formulação adequadas para o recém-nascido. O manejo do refluxo após a correção pertence ao seguimento especializado, com conferência de indicação, apresentação e preparo junto à equipe e à farmácia.

Data da referência. A versão consultada do protocolo foi emitida em agosto de 2022 e previa revisão em agosto de 2024. Essa informação identifica a edição utilizada; não demonstra que todas as suas prescrições permanecem atualizadas, nem que exista ou inexista uma edição posterior. Usar o documento para compreender o percurso assistencial e confrontar os detalhes operacionais com a orientação do serviço que recebe a criança, sobretudo medicamentos, dispositivos de aspiração e cuidados pós-operatórios.

Indicação do contraste. O protocolo descreve exames sem e com contraste, mas não explicita um critério de transição entre eles. Descrever uma técnica não equivale a indicá-la para todos os pacientes. No percurso deste capítulo, a radiografia com a sonda orienta a investigação inicial, e não há contraste de rotina no serviço de origem. Se a equipe especializada considerar necessário um estudo adicional, esclarecer a pergunta diagnóstica, quem realizará o exame e em que local, considerando o risco de aspiração.

Escolha do antimicrobiano. O protocolo de 2022 cita cefotaxima ou ampicilina-sulbactam; a diretriz da SBP de 2025 cita ampicilina-sulbactam ou cefoxitina e recomenda parcimônia com cefalosporinas de gerações mais amplas. A decisão exige finalidade definida, contexto neonatal e padronização do serviço operador. A consulta à Rename registrada no material informa o elenco pesquisado, mas não determina o estoque hospitalar nem resolve sozinha a escolha. Confirmar disponibilidade e esquema com a farmácia e a equipe responsável, sem transformar ausência no elenco em impossibilidade de fornecimento.

Registro da malformação. O manual da Declaração de Nascido Vivo citado distingue Q39.0, atresia sem fístula; Q39.1, atresia com fístula traqueoesofágica; e Q39.2, fístula sem atresia. Registrar na evolução a suspeita ou confirmação, o horário e a anatomia efetivamente demonstrada, sem antecipar uma classificação ainda desconhecida. Se o diagnóstico ocorrer depois da emissão da declaração, consultar o setor responsável sobre o procedimento de atualização. O registro clínico e a comunicação administrativa precisam ser acompanhados; um não garante automaticamente a conclusão do outro.

Sondagem de rotina e investigação dirigida. A recomendação nacional citada desaconselha passagem sistemática de sonda para rastrear atresias no recém-nascido saudável. Ela não elimina a investigação de salivação persistente, engasgo, cianose ou dificuldade de alimentação. Nessa situação, seguir o fluxo de avaliação com profissional treinado e sem forçar a sonda. No recém-nascido assintomático com suspeita pré-natal, discutir o plano antes da oferta alimentar com a equipe neonatal, levando o laudo e as condições locais de observação em conta.

Cardiopatias associadas. As fontes citadas apresentam estimativas de 35% no protocolo neonatal de 2022 e 20% em uma tabela pediátrica de 2003. O capítulo mantém a origem de cada número: eles não devem ser combinados em uma estimativa única nem escolhidos apenas pela data de publicação. A diferença não altera o ponto assistencial comum às referências: investigar cardiopatia associada e organizar a avaliação cardíaca no planejamento cirúrgico. Na comunicação com a família, a frequência populacional não substitui o resultado do exame da criança.

Unidade e dispositivo de aspiração. O protocolo consultado registra 60 a 80 cmH2O, equivalentes a aproximadamente 44 a 59 mmHg. A conversão ilustra por que repetir o mesmo número em vacuômetros com unidades diferentes pode alterar a sucção aplicada. Essa faixa documental não substitui a regulagem indicada para o dispositivo utilizado. Seguir o fluxo principal: drenagem do coto por sistema apropriado, pressão regulada pela equipe, conferência de patência e posicionamento e verificação da unidade exibida antes do transporte.

Conferência da infusão de glicose. No exemplo do capítulo, uma taxa de 5 mg/kg/min com solução glicosada a 10% corresponde a 72 mL/kg/dia. Para 3,05 kg, são 219,6 mL/dia ou 9,15 mL/h. Com arredondamento para 9 mL/h, a oferta calculada é cerca de 4,9 mg/kg/min. Registrar concentração, peso usado no cálculo, volume horário e taxa resultante permite conferir a bomba. O exemplo aritmético não dispensa acompanhar glicemia e balanço hídrico para ajustar a prescrição à evolução.

08

A conduta, hora a hora

A linha do tempo desta manhã tem uma característica que vale dizer antes de começar: nenhum dos oito marcos abaixo exige cirurgião pediátrico, aparelho que este hospital não tenha, ou decisão que o interno não possa tomar com o pediatra do plantão. O que eles exigem é ordem. Feita na ordem certa, essa sequência entrega ao serviço de destino um recém-nascido que não aspirou mais nada desde as onze e vinte. Feita fora de ordem, ela entrega o mesmo bebê com pneumonia.

Os horários são os desta cena e servem de escala, não de meta. Em serviço com radiografia mais lenta ou com regulação mais demorada, o que não pode escorregar são os três primeiros marcos, porque só eles interrompem o dano em curso. Radiografia, exames e telefonema toleram meia hora a mais; via oral suspensa, sonda e aspiração não toleram nenhuma.

Uma advertência sobre o item que costuma ser feito por reflexo e que aqui é o mais perigoso: se este bebê piorar do ponto de vista respiratório, o impulso treinado — pegar o balão e a máscara — é o impulso errado. Ventilação com pressão positiva insufla o estômago pela fístula e piora a mecânica que se queria melhorar. A conduta é oxigênio suplementar sem pressão, cabeceira elevada, aspiração do coto conferida, e intubação se o desconforto for significativo. O manejo da via aérea do recém-nascido é de Reanimação neonatal em sala de parto, da apostila de Neonatologia; resta a estas páginas justificar por que, nesta criança, a etapa de sempre passa a ser contraindicada.

  1. 11h20 — Via oral suspensa, antes de qualquer outra coisa

    Este é o único ato da lista que não depende de exame, de telefonema nem de confirmação, e é o que separa o desfecho bom do ruim. Enquanto a hipótese estiver de pé, nada entra pela boca: nem leite materno, nem fórmula, nem água, nem chá, nem soro glicosado, nem a chupeta molhada em leite que a avó ofereceu no corredor. A conversa com a mãe acontece agora e junto com a razão — suspender a mamada sem explicar por quê produz uma família que oferece o peito escondido, e isso acontece de verdade em alojamento conjunto. Registre a hora exata da suspensão: ela é o marco zero da contagem que o serviço de destino vai querer.

    Prescrição
    • Jejum absoluto por via oral a partir de agora, incluindo leite materno ordenhado
    • Retirar a chupeta e qualquer objeto que a família molhe em leite; avisar acompanhante e visita, não só a mãe
    • Escrever na evolução a hora da suspensão e a frase que foi dita à mãe
    • Orientar a ordenha das mamas para manter a lactação, e guardar o leite refrigerado e identificado — a criança vai precisar dele depois
    • Não instilar nada pela sonda, nem água, nem medicamento, em nenhum momento
  2. 11h25 — A sonda, medida e mantida

    Sonda calibrosa, do calibre 8, pela boca ou pela narina, passada sem forçar. Anote em centímetros o comprimento efetivamente introduzido antes de a sonda parar, e não apenas passou ou não passou. Parou em torno de dez a doze centímetros: o caso está fechado do ponto de vista da decisão, e nada do que vier depois vai reabri-lo. Passou até o estômago com facilidade e com aspirado gástrico compatível: a atresia com coto proximal está afastada, mas fístula sem atresia continua possível se os engasgos se repetirem, e isso vai para a evolução por escrito. Sonda que enrola e aceita comprimento demais é leitura falsa e pede repetição com sonda mais calibrosa.

    Prescrição
    • Sonda calibre 8, oro ou nasogástrica, introduzida sem forçar; sonda mais fina enrola no coto e falseia a leitura
    • Registrar o comprimento introduzido em centímetros e a hora, na evolução e na guia de transferência
    • Manter a sonda no coto — não retirar depois do teste; ela é o instrumento da aspiração contínua e o marcador da radiografia
    • Se passou até o estômago: aspirar e descrever o conteúdo, e manter a via oral suspensa até a reavaliação
  3. 11h35 — O pacote antiaspiração: posição, aspiração contínua, decúbito

    Aqui se monta o arranjo que vai segurar esta criança pelas próximas horas de espera e de estrada. Cabeceira elevada em trinta a quarenta e cinco graus, para dificultar que o conteúdo gástrico suba pela fístula. Aspiração contínua do coto proximal, e não intermitente, para esvaziar o fundo cego antes que ele transborde. O protocolo brasileiro descreve dois arranjos conforme a saliva: para saliva fluida, uma sonda mais fina introduzida dentro da sonda calibre 8 e conectada à aspiração; para saliva espessa, um cateter de duplo lúmen, com um lúmen na aspiração e o outro gotejando soro fisiológico para não deixar a ponta entupir. Se o serviço não tem cateter de duplo lúmen — e o do berço 4 não tem —, o arranjo simples com duas sondas resolve, e é o que se instala.

    Prescrição
    • Cabeceira elevada a 30-45 graus, mantida também durante o transporte; conferir a inclinação depois de cada manipulação
    • Drenagem do coto proximal com dispositivo apropriado, preferencialmente Replogle de duplo lúmen, em baixa pressão regulada conforme fabricante e protocolo neonatal; conferir unidades, funcionamento e posicionamento com a equipe.
    • Não improvisar uma sonda dentro de outra sem sistema validado. Se o dispositivo apropriado estiver indisponível, a equipe define aspiração alternativa frequente e transferência, com vigilância contínua.
    • Irrigação para manter patência apenas conforme protocolo específico, em volume e frequência prescritos e com retorno conferido; não iniciar gotejamento contínuo improvisado de 15–20 mL/h no coto.
    • Conferir a patência da aspiração de hora em hora e registrar; sonda entupida é aspiração desligada sem ninguém saber
    • O objetivo é evitar acúmulo de secreções. Aspiração intermitente espaçada não equivale à drenagem contínua eficaz; quando necessária por falta de dispositivo, a alternativa deve ser definida e vigiada pela equipe, sem deixar a criança sem proteção.
  4. 11h50 — Calor, acesso venoso e soro de manutenção

    Normotermia entre 36,5 e 37,4 graus, medida e registrada — recém-nascido despido para exame e para radiografia esfria depressa, e hipotermia piora tudo o que vem depois. Acesso venoso periférico calibroso e bem fixado, com coleta no mesmo punho. Este bebê não está desidratado nem mal perfundido, então não há indicação de expansão; se houvesse, seriam 10 mL/kg de cloreto de sódio a 0,9%, o que para 3,05 kg dá 30 mL em vinte a trinta minutos, com reavaliação ao fim. O que ele precisa é de soro de manutenção com aporte de glicose, porque está em jejum desde as onze e vinte e vai continuar por muitas horas.

    Prescrição
    • Manter normotermia entre 36,5 e 37,4 graus; medir e anotar a temperatura axilar de hora em hora
    • Acesso venoso periférico calibroso e fixado; colher no mesmo acesso hemograma, gasometria, glicemia, ureia, creatinina, sódio, potássio e cálcio, e coagulograma
    • Soro de manutenção com glicose a 10% para taxa de infusão de glicose de 5 mg/kg/min: 72 mL/kg/dia, o que para 3,05 kg dá 220 mL/dia, ou 9 mL/h em bomba
    • Conferir a conta pelo caminho inverso antes de instalar: 9 mL/h de glicose a 10% em 3,05 kg devolvem taxa de 5 mg/kg/min
    • Glicemia capilar a cada 2 horas nas primeiras 6 horas de jejum e antes de embarcar na ambulância
    • Se houver má perfusão: cloreto de sódio a 0,9%, 10 mL/kg — 30 mL neste bebê — em 20 a 30 minutos, e reavaliar antes de repetir
  5. 12h10 — Radiografia panorâmica, com a sonda dentro

    Uma única radiografia, incluindo tórax e abdome no mesmo filme, com a sonda posicionada. Ela vai responder onde a sonda parou, se há ar abaixo do diafragma, se já há infiltrado e se aparece malformação vertebral. Não retire a sonda para o exame e não peça radiografia de tórax isolada — cortar o abdome custa a informação que decide o tipo. Contraste não entra nesta etapa: a coluna de ar do próprio coto já desenha o fundo cego, e contraste despejado num coto cheio de saliva transborda para a laringe.

    Prescrição
    • Radiografia panorâmica de tórax e abdome, em decúbito dorsal, com a sonda mantida no coto proximal
    • Não administrar contraste; a indicação de estudo contrastado, quando existir, é da equipe cirúrgica de destino
    • Ler e registrar as quatro respostas: onde a sonda parou, se há ar no trato gastrointestinal, se há infiltrado pulmonar, se há malformação vertebral
    • Manter cabeceira elevada e aspiração ligada durante o transporte até a sala de raio-X e durante o exame
    • Guardar a imagem em mídia ou garantir acesso remoto para o serviço de destino; laudo verbal por telefone não substitui a imagem
  6. 12h30 — Procurar o que vem junto, e decidir sobre antibiótico

    Exame dirigido às cinco áreas da associação VACTERL: ânus, membros superiores com atenção ao rádio e ao polegar, coluna, precórdio e diurese. Peça ecocardiograma e ultrassonografia de abdome; se o serviço não os tem, escreva na guia que faltam e por quê, em vez de segurar a criança para consegui-los. Sobre antibiótico, é preciso separar duas coisas que se confundem. Profilaxia cirúrgica é ato do serviço que opera, administrado trinta minutos antes da incisão, e não do serviço que transfere. Tratamento de pneumonia aspirativa instalada, ou de risco infeccioso materno, é decisão clínica de agora — e aí a régua não é a tabela de profilaxia, é a de sepse neonatal, que é de Começar sem saber, parar sem prova, da apostila de Neonatologia, dona do assunto e do esquema.

    Prescrição
    • Exame dirigido e registrado das cinco áreas: ânus pérvio e no lugar, membros superiores e polegares, coluna, ausculta precordial, diurese nas primeiras horas
    • Solicitar ecocardiograma e ultrassonografia de abdome total; se indisponíveis no serviço, registrar na guia que precisam ser feitos antes da cirurgia
    • Não iniciar profilaxia cirúrgica no hospital de origem: ela é administrada 30 minutos antes da incisão, no serviço que opera
    • Havendo infiltrado na radiografia, febre, ou fator de risco infeccioso materno: colher hemocultura e iniciar antibiótico pelo esquema de sepse neonatal do serviço, deixando registrada a indicação
    • Escrever explicitamente na guia se antibiótico foi ou não iniciado, qual, em que dose e a que horas — para o serviço de destino não repetir nem interromper às cegas
  7. Desde a suspeita — contato; atualizar depois dos exames e intervenções

    São duas ligações e elas têm conteúdos diferentes. A da regulação abre a vaga e o transporte, e precisa de idade, peso, diagnóstico, estado respiratório e a informação de que a criança está em jejum com aspiração contínua instalada. A do cirurgião pediátrico do serviço de destino é clínica: o que a sonda mostrou, o que a radiografia mostrou, se há ar no abdome, se há infiltrado, o que já foi feito e o que falta. Registre nome, horário e conteúdo de cada uma. A mecânica da regulação, os critérios de vaga e o que fazer quando a vaga não sai são de O paciente que some no caminho, da apostila de Medicina Preventiva e Saúde Coletiva, que é a dona da regulação e da transferência; o que é deste capítulo é o conteúdo clínico que precisa atravessar a linha.

    Prescrição
    • Ligar para a regulação estadual e registrar nome do regulador, horário e número do chamado
    • Ligar para o cirurgião pediátrico do serviço de destino e passar: sonda parou em quantos centímetros, se há ar abaixo do diafragma, se há infiltrado, peso, idade em horas, temperatura, glicemia, e o que já está instalado
    • Perguntar explicitamente duas coisas: se o serviço quer o ecocardiograma feito antes do embarque, e se quer algum antibiótico iniciado agora
    • Anotar a resposta com a hora e o nome de quem respondeu — é o que protege o paciente e o interno quando a conduta for questionada depois
    • Não desligar sem ter combinado quem liga de novo, e em quanto tempo, se a vaga não sair
  8. 14h10 — O transporte, e o que não se faz na estrada

    A ambulância é o trecho em que tudo o que foi montado nas últimas três horas pode se desfazer sem que ninguém perceba, porque o bebê vai embrulhado, num veículo em movimento, com uma equipe que não o acompanhou desde o começo. Duas coisas viajam com ele e valem mais que o resto: a aspiração ligada e a cabeceira elevada. Duas coisas viajam no papel: o que foi feito com hora, e o que não foi feito e por quê.

    Prescrição
    • Aspiração contínua mantida durante todo o trajeto, com fonte de vácuo do próprio veículo conferida antes de sair
    • Cabeceira elevada a 30-45 graus fixada de modo que não se desfaça com o movimento
    • Incubadora de transporte aquecida e temperatura conferida antes do embarque e na chegada
    • Nada por via oral em nenhuma circunstância durante o trajeto, incluindo chupeta molhada para acalmar
    • Se houver deterioração, conferir coto, oxigenação e ventilação e acionar equipe capaz de manejar via aérea. Ventilar imediatamente quando necessário, minimizando insuflação gástrica e planejando intubação por operador habilitado; não manter apenas oxigênio em paciente que não ventila.
    • Guia com: hora da suspensão da via oral, comprimento da sonda, achados da radiografia, exames colhidos e pendentes, antibiótico sim ou não, temperatura e glicemia seriadas, telefone do plantão de origem
    • Cartão da gestante ou cópia da ultrassonografia com o polidrâmnio, se existir, dentro do envelope
09

Como saber se está funcionando

Reavaliar, aqui, serve a um propósito que não é o habitual em urgência. Ninguém está à espera de melhora clínica — a doença dele não melhora com nada do que você tem. Está vigiando se as três coisas que você montou continuam funcionando enquanto o relógio da transferência corre, e está procurando o único evento que muda a urgência do transporte, que é a aspiração se instalando.

Por isso quase todos os parâmetros abaixo são de processo e não de doença: eles perguntam se a aspiração está ligada, se a cabeceira continua elevada, se o jejum foi mantido de fato. Num alojamento conjunto movimentado, com troca de plantão no meio, é exatamente isso que se desfaz — e se desfaz em silêncio.

Patência e débito da aspiração contínua do cotoDe hora em hora, e sempre depois de qualquer manipulação, banho, pesagem ou transporte interno

Esperado: Sistema aspirando, com saliva chegando ao frasco, e boca seca ou quase seca ao exame. Anotar o volume aspirado por hora

Se não melhora: Boca voltando a encher com o sistema supostamente ligado significa sonda entupida, vácuo desconectado ou sonda deslocada — nesta ordem de frequência. Desconecte, teste o vácuo num copo de água, troque a sonda interna se necessário. Não presuma que está funcionando porque o aparelho está ligado

Saturação de oxigênio e necessidade de suplementaçãoContínua se houver monitor; a cada 30 minutos se a aferição for pontual

Esperado: Estável ou melhorando depois que a aspiração foi instalada e a cabeceira elevada. Neste bebê, 93% em ar ambiente às 11h20

Se não melhora: Queda progressiva ou necessidade crescente de oxigênio significa aspiração acontecendo agora. Confira a aspiração e a cabeceira antes de aumentar o oxigênio, ligue de novo para a regulação informando a piora, e lembre que a resposta a esta piora não é pressão positiva sob máscara

Frequência respiratória e esforçoDe hora em hora, contada por um minuto inteiro, com o bebê tranquilo

Esperado: Taquipneia leve pode persistir; o que se vigia é a tendência. Neste bebê, 64 incursões por minuto com tiragem discreta às 11h20

Se não melhora: Aumento do esforço com tiragem intercostal marcada, gemido ou batimento de asa nasal muda a categoria do transporte: passa a ser prioridade, e a intubação antes do embarque entra em discussão com o serviço de destino

Perímetro abdominal, com fita métrica e marca a caneta na peleNa primeira avaliação, e depois de 2 em 2 horas até o embarque

Esperado: Estável. A distensão que já existe não vai regredir, porque o ar continua entrando pela fístula a cada incursão respiratória

Se não melhora: Aumento rápido, abdome tenso e brilhante, ou piora respiratória junto com a distensão levantam a hipótese de o estômago estar se distendendo além do tolerável. Informe imediatamente ao serviço de destino: é uma das poucas situações em que a descompressão gástrica passa a ser tema de discussão urgente com o cirurgião

Temperatura axilarDe hora em hora, e sempre antes e depois de ir à sala de raio-X

Esperado: Entre 36,5 e 37,4 graus

Se não melhora: Abaixo de 36,5: aquecer ativamente e procurar a causa no processo — bebê despido para exame, incubadora fria, transporte interno sem cobertura. Hipotermia antes de uma viagem de duas horas é problema que se resolve antes de embarcar, não durante

Glicemia capilarA cada 2 horas nas primeiras 6 horas de jejum, e obrigatoriamente antes do embarque

Esperado: Estável dentro da faixa do serviço, com o soro de manutenção correndo na taxa calculada

Se não melhora: Valores em queda com o soro correndo pedem conferência da conta e da bomba antes de qualquer outra hipótese: taxa de infusão de glicose mal calculada e bomba programada em mililitros errados são as duas causas de longe mais comuns

Manutenção efetiva do jejumA cada passagem de plantão, a cada troca de acompanhante, e antes do embarque

Esperado: Nada por via oral desde a hora registrada. Confirmar perguntando à mãe e ao acompanhante, não olhando a prescrição

Se não melhora: Se alguém ofereceu peito, chupeta molhada ou água — e isso acontece, sobretudo depois da troca de plantão e quando a explicação não foi dada à família inteira —, registre a hora, reavalie o estado respiratório e recomece a explicação com quem estiver no quarto agora

10

Onde o erro machuca

Aceitar a explicação da pega e oferecer o peito de novo

O dano: É o erro que produz a pneumonia por aspiração, e ele tem uma lógica que soa correta: se não se sabe se foi engasgo comum ou não, testa-se. Só que este teste é a própria agressão. Cada nova mamada é um novo episódio de leite chegando à laringe de um esôfago que termina em fundo cego, e o resultado obtido — engasgou de novo, ou não engasgou desta vez — não muda a conduta seguinte, porque a conduta seguinte é passar a sonda nos dois casos. Um teste que não muda conduta e que causa dano não é teste.

Como pegar a tempo: Suspenda a via oral e passe a sonda. A sonda é o teste barato, disponível e sem dano, e responde melhor do que a mamada. E diga à mãe, antes de sair do quarto, a frase completa: que não é a técnica dela, que existe uma suspeita, e que ela vai ordenhar para guardar o leite.

Usar sonda fina e concluir que passou

O dano: Sonda de calibre pequeno é macia, enrola dentro do coto proximal e aceita comprimento que não corresponde a avanço nenhum. Quem estiver segurando vê vinte centímetros entrarem e conclui que chegou ao estômago. O diagnóstico é descartado, a criança volta a mamar, e a próxima vez que alguém desconfiar vai ser depois da pneumonia. O protocolo brasileiro dá a instrução exata — usar sonda calibre 8 — justamente porque sondas menores enrolam.

Como pegar a tempo: Use sonda calibrosa, anote em centímetros o que entrou, e confirme na radiografia onde a ponta está. Aspirado gástrico compatível é argumento a favor; comprimento introduzido, sozinho, não é. A técnica de confirmação de posição de sonda está em O que confirma, e o que só parece confirmar, da apostila de Procedimentos e Vias de Acesso.

Ventilar sob máscara com balão porque o bebê piorou

O dano: É o reflexo mais bem treinado da pediatria e é o que faz mal neste bebê específico. O gás empurrado encontra a fístula, que é um tubo aberto para um estômago complacente, e boa parte dele vai por ali. O estômago infla, o diafragma sobe, a ventilação piora — e quem está ventilando aumenta a pressão porque o paciente piorou, o que infla mais o estômago. Em casos extremos o estômago rompe, e aí o quadro deixa de ser reversível com o que existe num hospital sem cirurgião pediátrico.

Como pegar a tempo: Diante de piora respiratória: oxigênio suplementar sem pressão, conferir a aspiração e a cabeceira, e intubar se o desconforto for significativo. Escreva no leito, em papel visível, que este recém-nascido não deve receber ventilação sob máscara sem indicação discutida — a equipe que entra às sete da noite não vai ter lido a evolução inteira.

Pedir contraste para confirmar

O dano: O contraste é despejado num fundo cego já cheio de saliva, transborda para a laringe e chega ao pulmão. Iodado produz pneumonite química; baritado é pior, porque não é reabsorvido e permanece no parênquima. E o custo é pago por uma informação que já se tinha: a sonda que parou e a coluna de ar do próprio coto na radiografia já responderam onde o esôfago termina.

Como pegar a tempo: Não peça contraste no serviço de origem. Se em algum momento houver indicação de estudo contrastado, ela pertence à equipe cirúrgica que vai operar, e será feita com técnica específica — volume mínimo, sonda pré-preenchida, inclinação e aspiração imediata depois do disparo.

Segurar a criança esperando ecocardiograma que o serviço não tem

O dano: O ecocardiograma antes da cirurgia é recomendação correta e o protocolo brasileiro a escreve com a palavra sempre. Só que ela se dirige ao serviço que opera, e lida como se fosse pré-requisito do transporte, transforma uma boa prática em atraso. Uma criança com atresia de esôfago parada num hospital sem cirurgião pediátrico, esperando um exame que aquele hospital não faz, está trocando um risco pequeno e adiável por um risco grande e imediato.

Como pegar a tempo: Transfira e escreva na guia o que falta: ecocardiograma não realizado, motivo, e a informação de que o arco aórtico não foi avaliado. O que atrasa transferência é a lista de exames pendentes tratada como lista de bloqueios.

Passar o caso pelo telefone sem o número da sonda e sem o ar do abdome

O dano: São as duas informações que o cirurgião pediátrico usa para montar a cabeça dele antes de a criança chegar: onde a sonda parou dá a altura do coto, e a presença ou ausência de ar abaixo do diafragma diz se há fístula distal — o que separa um problema respiratório com prazo de horas de um problema nutricional com prazo de semanas. Um telefonema que diz apenas recém-nascido com suspeita de atresia obriga o outro lado a recomeçar do zero quando a ambulância chegar.

Como pegar a tempo: Antes de discar, escreva num papel as sete linhas que vão ser ditas: idade em horas, peso, comprimento da sonda em centímetros, ar no abdome sim ou não, infiltrado sim ou não, o que já está instalado, e o que ficou pendente. Leia o papel. Anote a resposta com nome e hora.

11

O que dizer ao paciente e à família

A conversa desta manhã tem uma dificuldade específica que a distingue de quase toda má notícia de enfermaria: ela é dada a duas pessoas que ainda estão no primeiro dia da coisa mais feliz que já lhes aconteceu, num quarto onde há outras mães amamentando, e sobre um bebê que está ali, à vista, corado e ativo. Não há nada de visivelmente errado com ele. Tudo o que sustenta o que você vai dizer é uma sonda que parou e uma radiografia que a mãe não sabe ler.

A técnica de dar má notícia — quem convocar, onde sentar, como abrir, o que fazer com o silêncio — não é deste capítulo: é de Comunicação de más notícias, da apostila de Comunicação, Ética e Segurança na Prática. O modo de falar de prognóstico quando ainda não se sabe o desfecho é de O que se diz quando não se sabe, do mesmo grupo. Aqui está o conteúdo: o que precisa ser dito sobre esta doença, com que palavras, e o que não pode ser dito nesta manhã porque ainda não se sabe.

Um princípio governa as sete falas abaixo. Você é o serviço que descobre, não o que trata. Toda promessa sobre cirurgia, sobre tempo de internação e sobre resultado pertence à equipe que vai operar, e uma frase generosa dita aqui vira, duas semanas depois, uma família que acha que foi enganada. O que você tem para oferecer é outra coisa e não é pouco: explicar o que está acontecendo, dizer o que já foi feito, e dizer com honestidade o que ainda não se sabe.

A mãe pergunta se foi ela que fez alguma coisa errada, ou se foi a pega

"Não foi a senhora e não foi a pega. O que está acontecendo com ele começou muito antes de a senhora dar o peito, ainda no começo da gravidez, quando o tubo que leva a comida até o estômago estava se formando. Não tem nada a ver com o que a senhora comeu, com o que fez ou deixou de fazer, e não tem nada a ver com a amamentação. Vou explicar o que a gente encontrou."

Não diga: "Vamos ver isso depois, agora o importante é o bebê." — a pergunta da culpa não some por ser adiada; ela cresce. Se não for respondida agora, ela volta em forma de mãe que não pergunta mais nada.

Por que ele não pode mais mamar

"Porque o caminho do leite está interrompido. O tubo que sai da boca dele termina no meio, antes de chegar ao estômago, e o leite não tem para onde ir — ele volta e vai para o pulmão. Foi isso que fez ele engasgar e ficar roxinho. Cada vez que ele mama, mesmo pouquinho, um pouco desce para o pulmão errado, e é isso que a gente precisa impedir a partir de agora. Não é para sempre. É até ele ser operado."

Não diga: "Ele está de jejum." — dito assim, sem a razão, produz a mãe que oferece o peito escondida quando o plantão troca, e ela terá agido com toda a razão do mundo, porque ninguém explicou.

O que ele tem, dito de um jeito que se possa repetir para a família

"Ele nasceu com uma parte do esôfago que não se formou. Esôfago é o tubo que liga a boca ao estômago. Na maioria dos casos, como parece ser o dele, o pedaço de baixo desse tubo está grudado no cano do pulmão, e é por isso que a barriga dele está inchada de ar. Isso tem nome, chama atresia de esôfago, e tem cirurgia. Não é câncer, não é uma doença que ele pegou, e não é uma coisa que vai piorando: é uma peça que ficou faltando, e a cirurgia liga as duas pontas."

Não diga: Desenhar no papel sem perguntar se a família quer o desenho, e usar as palavras fístula, coto e anastomose sem traduzir — elas voltam distorcidas na conversa com a avó pelo telefone.

O pai pergunta se vai precisar de cirurgia e quando

"Vai precisar de cirurgia, sim, e ela é feita por um cirurgião de criança, que não existe neste hospital. Por isso ele vai para outro serviço hoje. Quando exatamente a cirurgia vai ser, quem decide é a equipe de lá, e é uma boa notícia que não seja hoje de manhã: a cirurgia é feita depois que ele estiver estável e depois de um exame do coração, porque isso torna a operação mais segura. Não é uma cirurgia de emergência de correr para a sala agora. É uma cirurgia que precisa de preparo."

Não diga: "Vai ser operado hoje ainda." ou "É uma cirurgia simples." — as duas são promessas que quem transfere não pode fazer, e as duas são desmentidas pelo serviço de destino no mesmo dia.

Por que ele tem que ir para outra cidade, e se a mãe pode ir junto

"Ele precisa de um cirurgião de criança e de uma unidade que cuide de recém-nascido operado, e isso fica em outro município. A transferência já foi pedida e eu já falei com o cirurgião de lá pelo telefone. Sobre a senhora ir junto: a lei garante acompanhante, e eu vou pedir isso na hora de fechar o transporte. Se a ambulância não puder levar a senhora agora, a gente organiza o caminho e o telefone do setor onde ele vai ficar, para que ela não fique sem notícia nenhuma."

Não diga: Prometer o lugar na ambulância antes de confirmá-lo com quem monta o transporte. E deixar a família sair sem um número de telefone e um nome — a mecânica da regulação está em O paciente que some no caminho, da apostila de Medicina Preventiva e Saúde Coletiva, e o desaparecimento no caminho é problema conhecido.

A mãe pergunta se ele vai ficar bom e se vai comer normal

"A maior parte dessas crianças opera, come e cresce. Não vou dizer à senhora que vai ser fácil, porque não vai: é comum precisar de mais de um procedimento ao longo do primeiro ano, é comum ter refluxo, e algumas crianças ficam com tosse e engasgo por um tempo depois. O que decide bastante o caminho é o peso dele, que é bom, e se o coração tem algum problema junto, que é o que a gente vai descobrir com o exame de lá. Hoje eu não sei responder tudo. O que eu sei responder eu já respondi, e o que eu não sei eu vou dizer que não sei em vez de inventar."

Não diga: "Fica tudo bem, isso é operação de rotina." — é a frase que a família cobra literalmente na primeira complicação. E o oposto também: enumerar todas as complicações possíveis na primeira conversa, o que não informa e paralisa.

A mãe pergunta o que fazer com o leite dela

"Seu leite vai ser necessário, e é uma das poucas coisas que a senhora pode fazer por ele hoje. Ele vai ficar sem mamar no peito até depois da cirurgia, mas se a senhora ordenhar de três em três horas o leite continua vindo, e ele vai receber esse leite quando puder receber. A enfermagem vai ensinar a ordenha e a gente guarda o que sair, identificado com o nome da senhora. Não é para amanhã: é para começar hoje ainda, porque leite que para de ser retirado seca."

Não diga: Não falar da lactação. É a omissão mais frequente nesta cena e a mais cara: uma semana de jejum sem ordenha resolve a questão do aleitamento de um jeito que ninguém decidiu.

12

Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Qual antibiótico usar na profilaxia da correção de atresia de esôfago

Cefotaxima ou ampicilina com sulbactam, iniciadas ainda no pré-operatório no recém-nascido nascido no hospital e sem sinais de infecção, mantidas por 24 horas após o procedimento.

Protocolo PRO.MED-NEO.007 da Maternidade Escola Assis Chateaubriand (Ebserh/UFC), versão 2, emitida em 25 de agosto de 2022.

Ampicilina-sulbactam ou cefoxitina, administradas 30 minutos antes da incisão e mantidas por 24 horas, num documento que pede, algumas páginas antes, que se evite o uso empírico de cefalosporinas de terceira e quarta gerações — e que nomeia a cefotaxima entre os antibióticos hidrolisados pelas betalactamases de espectro estendido.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Neonatologia, Diretriz nº 193, de 6 de março de 2025, Tabela 4.

Como decidir

Distinguir profilaxia da operação e tratamento de possível infecção neonatal. No contato com o serviço de destino, informar sinais clínicos, exames, antibióticos já administrados e horários; confirmar se há indicação de iniciar tratamento antes do transporte. A profilaxia deve ser coordenada com o procedimento pela equipe operadora. A escolha considera a orientação da comissão de controle de infecção e a disponibilidade hospitalar, sem usar a Rename como prova de estoque. Registrar esquema, finalidade e momento de reavaliação.

Passar sonda no recém-nascido para procurar atresia: rastreamento ou teste diagnóstico

Não se recomenda a passagem sistemática de sonda nasogástrica nem retal para descartar atresias no recém-nascido saudável, na esteira das diretrizes espanholas, cujos autores não encontraram evidência de benefício e argumentaram existirem outros sinais de alarme capazes de levantar a suspeita.

Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal, recomendação 200, aprovadas pela Portaria SAS/MS nº 353, de 14 de fevereiro de 2017.

O insucesso na passagem de sonda nasogástrica calibre 8, ou a sonda que não avança mais que 10 a 12 centímetros, é apresentado como o achado inicial de história e exame físico que define a suspeita — sem qualquer ressalva de que o recém-nascido deva estar sintomático para que a sonda seja passada.

Protocolo PRO.MED-NEO.007 da Maternidade Escola Assis Chateaubriand (Ebserh/UFC), versão 2, de 25 de agosto de 2022, seção 5.

Como decidir

Na criança sintomática, interromper a alimentação e realizar investigação dirigida conforme o fluxo; a recomendação contra rastreamento sistemático de recém-nascidos saudáveis não se aplica automaticamente a ela. Se houver apenas suspeita pré-natal, discutir o laudo com a equipe neonatal e definir avaliação e observação antes da primeira oferta. A sondagem, quando indicada, deve ser feita por profissional treinado, com material apropriado e sem passagens forçadas ou repetidas para atingir um comprimento predeterminado.

Quando usar contraste no diagnóstico da atresia de esôfago

Descreve o estudo contrastado como uma das duas modalidades de diagnóstico radiológico neonatal, com técnica detalhada em cinco passos — sonda pré-preenchida, 0,5 mL de contraste iodado, inclinação de no mínimo 45 graus, aspiração e retirada imediatas — e não estabelece em nenhum ponto a indicação para preferi-lo ao estudo sem contraste.

Protocolo PRO.MED-NEO.007 da Maternidade Escola Assis Chateaubriand (Ebserh/UFC), versão 2, de 25 de agosto de 2022, seções 6.1 e 6.2.

A radiografia panorâmica sem contraste é apresentada, no mesmo documento, como suficiente para observar a sonda parando no fundo cego da coluna de ar esofágica, a presença de pneumonia, o ar no trato gastrointestinal e as malformações vertebrais associadas — ou seja, para responder todas as perguntas que mudam a conduta do serviço que não opera.

Protocolo PRO.MED-NEO.007 da Maternidade Escola Assis Chateaubriand (Ebserh/UFC), versão 2, de 25 de agosto de 2022, seção 6.1.

Como decidir

Usar a pergunta clínica para decidir a necessidade de exame adicional. A dificuldade de progressão da sonda e a radiografia orientam as primeiras medidas e a transferência. Não acrescentar contraste de rotina no serviço de origem: a decisão pertence à equipe especializada, considerando o que o resultado mudaria e o risco de aspiração. Se o serviço de destino solicitar o estudo, registrar indicação, local de realização e responsável, sem atrasar suporte ou transporte necessários.

13

O raciocínio, em voz alta

Duas e quarenta da manhã de uma terça-feira, mesma maternidade, outro plantão. O berço 2 tem um recém-nascido de três horas de vida, filho de Bertulina Paranapiacaba, de trinta e seis semanas e cinco dias, dois mil e cem gramas, nascido de parto vaginal sem intercorrência. Ele ainda não recebeu nada por via oral porque a mãe estava cansada e a primeira mamada ficou para depois do descanso. A enfermeira chamou por outro motivo: o bebê está com secreção espumosa saindo pela boca e pelas narinas, que ela já aspirou duas vezes e que voltou nas duas. Ao exame, corado, ativo, frequência respiratória de cinquenta e dois, saturação de noventa e seis por cento em ar ambiente, abdome plano e macio, e um sopro sistólico de intensidade dois em seis no bordo esternal esquerdo.

  1. primeiro, reconhecer que o achado chegou antes do sintoma

    Este recém-nascido não engasgou, não cianosou e não recebeu nada por via oral — e é exatamente por isso que ele é o caso bom. A salivação espumosa que retorna depois de aspirada existe independentemente de alimentação, porque ela vem do coto que enche e transborda. Aqui o diagnóstico pode ser feito antes de a criança pagar por ele. A primeira decisão, tomada agora e não depois do exame, é que a primeira mamada não vai acontecer.

  2. segundo, a sonda, com o calibre certo e o número anotado

    Sonda calibre 8, sem forçar. Ela para com onze centímetros introduzidos. Anota-se o número, e não a palavra. O caso está fechado do ponto de vista da decisão: via oral suspensa em definitivo, sonda mantida no coto, aspiração contínua instalada, cabeceira a trinta graus, e o telefone na mão. Nada disso espera radiografia.

  3. terceiro, a radiografia panorâmica — e o achado que muda a história

    Filme único de tórax e abdome, com a sonda dentro. A sonda aparece detida no fundo cego, com a coluna de ar do coto desenhada. Não há infiltrado. E não há ar nenhum abaixo do diafragma: nem bolha gástrica, nem gás nas alças. O abdome plano do exame físico ganha explicação.

  4. quarto, ler o que a ausência de ar informa

    Ausência de ar abaixo do diafragma significa ausência de fístula distal. Este não é o tipo mais comum: é o arranjo que responde por algo entre cinco e sete por cento dos casos, com dois cotos isolados. As consequências práticas são três. Não há refluxo ácido pela via aérea, então uma das duas vias de aspiração não existe. A barriga não vai distender, então o parâmetro do perímetro abdominal perde valor aqui. E os cotos costumam estar longe um do outro, o que significa que a junção imediata pode não ser possível e que a criança pode precisar de uma via de alimentação no estômago por semanas.

  5. quinto, entender que o prazo mudou de natureza, não de urgência

    Sem fístula distal, o problema respiratório é menos agudo — e é tentador concluir que a transferência pode esperar a manhã. Não pode, por dois motivos. A saliva continua transbordando para a laringe, e a via de aspiração de cima é justamente a que permanece aberta neste tipo. E a decisão cirúrgica é mais complexa, não menos: quem vai operar precisa de tempo para planejar, não de um bebê chegando com pressa depois de doze horas perdidas.

  6. sexto, o sopro, que aqui não é detalhe

    Sopro sistólico neste recém-nascido, com esta malformação, não é para ser observado. Ele entra na guia de transferência com essas palavras e reforça o pedido de ecocardiograma antes da cirurgia — que já era recomendação, e que agora tem achado clínico atrás. A interpretação do sopro em si é de Sopro na criança: inocente ou não, da apostila de Cardiologia Pediátrica, e o que este capítulo faz é não deixá-lo passar como achado sem consequência.

  7. sétimo, o quadro de risco que não classifica este bebê

    Vale ver o quadro de risco de Spitz que o protocolo brasileiro reproduz e perceber que ele não classifica esta criança. O quadro, como impresso, tem grupo I acima de 1.500 g sem malformação cardíaca grave, grupo II igual a 1.500 g com malformação cardíaca grave e grupo III abaixo de 1.500 g com malformação cardíaca grave. Um bebê de 2.100 g com cardiopatia grave — se o ecocardiograma confirmar uma — não cabe em nenhum dos três. O que o quadro ensina bem continua valendo e é o que se usa: peso baixo e cardiopatia grave são os dois eixos que pioram o prognóstico, e nenhum dos dois muda o que se faz nesta madrugada.

  8. oitavo, o que se prescreve enquanto se espera

    A equipe organiza drenagem eficaz do coto com dispositivo apropriado e baixa pressão regulada, conferindo posição e patência antes da transferência. Não improviso cateter dentro de outro nem infusão contínua no coto; se faltar Replogle, combino alternativa e vigilância com neonatologia. Cabeceira, temperatura, glicemia e suporte respiratório seguem monitorados, com plano explícito para deterioração.

  9. nono, o telefonema e a conversa

    Ao cirurgião: sonda parou em onze centímetros, ausência total de ar abaixo do diafragma, sem infiltrado, 2.100 g, três horas de vida, sopro presente, jejum desde as duas e quarenta, aspiração e cabeceira instaladas, ecocardiograma indisponível aqui. À mãe, que ainda não deu de mamar nenhuma vez: que o filho tem uma parte do esôfago que não se formou, que por isso não vai poder mamar até ser operado, que ela deve começar a ordenhar hoje, e que o coração dele vai ser examinado no outro serviço — dito nessa ordem, e com a pergunta da culpa respondida antes de ela ser feita.

14

Faça você

Sete e cinquenta da manhã de um domingo, mesma maternidade. Chega ao alojamento conjunto, vindo de um hospital de pequeno porte a quarenta quilômetros, um recém-nascido de dez horas de vida, filho de Ludovina Tucuruí, a termo, três mil e duzentos gramas. Na guia vem escrito, à mão: 'RN com suspeita pré-natal de atresia de esôfago (USG 32 semanas: polidrâmnio, bolha gástrica pequena). Encaminho para avaliação.' O bebê está corado, ativo, sem desconforto, com saturação de noventa e sete por cento em ar ambiente, abdome levemente globoso e timpânico, sem sopro. A mãe informa que ele mamou duas vezes durante a noite, no hospital de origem, e que engasgou 'só um pouquinho' na segunda. O pediatra do serviço de origem passou sonda antes de encaminhar e anotou na guia: 'sonda gástrica nº 6 passada sem dificuldade, 22 cm.'

  1. 1. Decida se a sonda anotada na guia descarta a hipótese, e escreva a razão em uma frase

    Se você acha que descarta, diga qual característica dessa sondagem sustenta a conclusão. Se você acha que não descarta, diga exatamente o que há de errado no registro — e o que você faria diferente antes de aceitar o resultado.

  2. 2. Decida o que fazer com a próxima mamada, e quando

    A criança já mamou duas vezes e está bem. Diga se você libera a terceira mamada, se suspende a via oral, ou se condiciona a decisão a alguma coisa — e diga a qual. Se você suspender, escreva a frase que vai dizer à mãe, que passou a noite alimentando o filho e agora vai ouvir que não pode.

  3. 3. Liste os três achados do exame e da história que mais pesam na sua decisão, em ordem

    Há informações que apontam para lados opostos nesta vinheta. Escolha as três que mais pesam, diga para que lado cada uma aponta, e diga qual delas você mandaria conferir primeiro se pudesse conferir só uma.

  4. 4. Diga o que a suspeita pré-natal escrita na guia vale, em números, e o que você faz com ela

    Existe um dado brasileiro sobre quanto vale a suspeita ultrassonográfica de atresia de esôfago. Diga qual é a ordem de grandeza, diga em que tipo de serviço ele foi medido, e diga se isso torna a suspeita desta guia mais forte ou mais fraca do que aquela medida.

  5. 5. Escreva a evolução de quatro linhas que fica no prontuário deste domingo

    Independentemente da conduta que você escolher, alguém vai ler essa evolução às sete da noite. Escreva o que precisa estar nela para que o plantão seguinte não recomece do zero nem repita o que já foi feito.

  6. Continuidade do caso e prática do internato

    Siga o recém-nascido desde a interrupção da mamada até o transporte: suporte eficaz importa mais que executar uma lista em horários fixos.

  7. Questão integrativa 1

    Doze centímetros é um corte diagnóstico universal?

  8. Questão integrativa 2

    Ausência de gás garante que não existe fístula?

  9. Questão integrativa 3

    Qual é o objetivo da aspiração do coto?

  10. Questão integrativa 4

    Pode-se improvisar infusão contínua de soro no coto para desentupir?

  11. Questão integrativa 5

    Apneia deve ser conduzida só com oxigênio para não insuflar o estômago?

  12. Questão integrativa 6

    O ecocardiograma indisponível pode segurar a transferência?

Ver como fecharíamos

1. A sondagem anotada na guia não descarta nada, e há dois defeitos no registro. O primeiro é o calibre: sonda nº 6 é fina, enrola dentro do coto proximal e aceita comprimento sem que a ponta avance — o protocolo brasileiro manda usar calibre 8 exatamente por isso. O segundo é que não há nenhuma menção a aspirado gástrico: 22 cm de sonda introduzidos, sozinhos, não provam que a ponta está no estômago. A conduta é repetir com sonda calibre 8, anotar o comprimento, aspirar e descrever o conteúdo, e confirmar a posição na radiografia. A técnica de confirmação de posição está em O que confirma, e o que só parece confirmar, da apostila de Procedimentos e Vias de Acesso. 2. Via oral suspensa agora, antes da repetição da sonda e antes de qualquer exame. O argumento de que a criança mamou duas vezes e está bem não é tranquilizador: engasgo na segunda mamada é o padrão de repetição que define a suspeita, e cada nova oferta é uma nova chance de aspiração. Oferecer o peito de novo para ver o que acontece não é teste diagnóstico — é repetição do dano, e não muda a conduta seguinte em nenhum dos dois resultados possíveis. À mãe, a frase precisa dizer três coisas na mesma respiração: que ela não fez nada errado alimentando o filho durante a noite, que existe uma suspeita que precisa ser confirmada ou afastada antes da próxima mamada, e que ela deve começar a ordenhar hoje para não perder o leite. 3. Os três que mais pesam, e eles apontam para lados diferentes. A favor da hipótese: o abdome globoso e timpânico numa criança de dez horas de vida — se houver atresia com fístula distal, é assim que a barriga fica, e este é o achado mais objetivo da vinheta. Ainda a favor: o engasgo na segunda mamada, que é repetição e não episódio isolado. Contra a hipótese: as duas mamadas completadas sem desconforto respiratório e a saturação de 97%. O que se manda conferir primeiro é a sonda, com o calibre certo — porque é o único dos três que muda de categoria em dois minutos, e porque um abdome globoso tem muitas outras causas em recém-nascido, das quais a mais provável é obstrução mais baixa, assunto de A cor do vômito e a fralda que não sujou, desta apostila. 4. O dado brasileiro vem de um estudo de validação com 457 gestantes de risco num centro de referência em medicina fetal de Pernambuco: de doze suspeitas ultrassonográficas de atresia de esôfago, sete se confirmaram depois do parto — cerca de seis em cada dez, o pior desempenho de toda a série. Duas leituras. A primeira: quatro em cada dez recém-nascidos que chegam com essa suspeita escrita não têm a doença, então a guia não fecha o diagnóstico e não dispensa a sonda. A segunda, e é a que importa aqui: aqueles 58% foram medidos em serviço de referência, com gestantes de alto risco e ultrassonografistas especializados. A ultrassonografia de 32 semanas de um hospital de pequeno porte não é aquele exame, e a suspeita desta guia vale, portanto, menos que os 58% medidos — o que não a torna desprezível, porque o único achado que a maioria das gestantes brasileiras leva no cartão é justamente o polidrâmnio, e ele está lá. 5. A evolução de domingo precisa conter, no mínimo: a hora exata da suspensão da via oral; o calibre e o comprimento da sonda repassada, com a descrição do aspirado; o que a radiografia panorâmica mostrou, nomeadamente se há ou não ar abaixo do diafragma; se foi feito contato com regulação e com cirurgião pediátrico, com nome e hora; e o que ficou pendente e por quê. Se a sonda passou francamente até o estômago com aspirado gástrico compatível, a evolução tem de dizer mais uma coisa, e é a que salva o próximo plantão: que atresia com coto proximal foi afastada, mas que fístula sem atresia não foi, e que qualquer novo episódio de engasgo com a alimentação reabre a investigação. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não. Comprimento depende do tamanho e da via; resistência pede interromper e confirmar posição sem força. 2. Não. Favorece ausência de fístula distal patente, mas comunicações pequenas ou obstruídas podem não gerar gás. 3. Evitar acúmulo e aspiração de secreções, usando dispositivo e pressão apropriados, com verificação de patência. 4. Não. Irrigação exige protocolo, volume e retorno controlados; uma montagem inadequada pode aumentar aspiração. 5. Não. Ventilação vital é imediata, com equipe habilitada e estratégia para reduzir insuflação e obter via aérea segura. 6. Não por rotina. Registrar a pendência e organizar sua realização no centro apropriado, conforme urgência e equipe.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Entre as alternativas, a Rename 2024 lista cefotaxima sódica 500 mg em pó para solução injetável no Componente Básico, na categoria Alerta da classificação AWaRe. Essa é uma questão de consulta ao elenco nacional, não uma recomendação de antibiótico empírico para qualquer recém-nascido. A escolha clínica depende da indicação, microbiologia, protocolos e avaliação da equipe neonatal. Não constar desse elenco não demonstra que um antibiótico seja indisponível em todos os hospitais do SUS: listas e aquisições institucionais ou locais também devem ser conferidas.

15

Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
16

Plano de revisão

Em 7 dias

De memória, enuncie a frase que tranca este capítulo — o que basta para suspeitar, e qual é a prova — e nomeie o ato que vem antes até dela. Depois responda três coisas em voz alta: em quantos centímetros a sonda costuma parar e qual calibre se usa; o que a presença de ar abaixo do diafragma informa sobre a anatomia; e por que ventilar sob máscara neste recém-nascido piora o que se queria melhorar.

Em 30 dias

Reconstrua a manhã inteira para um colega, das onze e vinte ao embarque na ambulância, narrando cada marco com a sua justificativa — e sem omitir o que fica proibido em cada um deles. Depois explique a ele por que a régua nacional recomenda não passar sonda de rotina no recém-nascido e por que isso não contradiz nada do que você acabou de descrever. Termine com a conversa: o que se diz à mãe sobre a culpa, sobre o jejum e sobre o leite dela, nessa ordem.

17

Agora atenda

Onze e vinte da manhã, alojamento conjunto de maternidade que não conta com cirurgia pediátrica. Você é chamado ao berço 4 pela enfermagem: recém-nascido a termo, quatro horas e quarenta minutos de vida, 3.050 g, que engasgou e ficou cianótico na primeira mamada e cujo pano sob a cabeça já foi trocado três vezes por estar encharcado de saliva.

Atresia de esôfago e fístula traqueoesofágica – A sonda que para em doze centímetros — Internato | OsceLabs