Cirurgia Geral › Cirurgia Pediátrica
O que está fora não volta pela sua mão
Defeitos da parede abdominal (gastrosquise, onfalocele)
Distinguir gastrosquise e onfalocele, proteger vísceras e temperatura, repor perdas pela resposta e organizar cuidado neonatal e cirúrgico.
Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares. Complexo Hospitalar da Universidade Federal do Ceará. Maternidade Escola Assis Chateaubriand. Protocolo PRO.MED-NEO.068 — Defeitos da parede abdominal: gastrosquise e onfalocele. Versão 1, emissão 24/12/2021.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Departamento de Ações Programáticas. Manual de gestação de alto risco. Brasília: Ministério da Saúde, 2022.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Guia de vigilância em saúde. 6. ed. rev. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. Volume 1, capítulo de vigilância de anomalias congênitas ao nascimento.
Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares. Hospital Universitário da Universidade Federal da Grande Dourados. Protocolo PRT.CCIRAS.015 — Profilaxia antimicrobiana em cirurgias. Versão 6, emissão 27/02/2026, publicado pela Resolução nº 32, de 27 de fevereiro de 2026.
Brasil. Ministério da Saúde. Gabinete do Ministro. Portaria GM/MS nº 8.041, de 25 de setembro de 2025, republicada no Diário Oficial da União de 21 de janeiro de 2026, edição 14, seção 1, página 78. Altera a Portaria de Consolidação GM/MS nº 4/2017 e define o Regulamento Técnico do Sistema Nacional de Transplantes.
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2023 (edição 2024).
Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. Ultrassonografia morfológica do segundo trimestre. Femina. 2025;53(6):821-30. Protocolo Febrasgo de Obstetrícia nº 43.
Brasil. Ministério da Saúde. Manual de instruções para preenchimento da Declaração de Nascido Vivo. Brasília: Ministério da Saúde, 2022.
Sociedade Brasileira de Pediatria. Programa de Reanimação Neonatal. Reanimação do recém-nascido ≥ 34 semanas em sala de parto: diretrizes 2022 (e edição de 2026). Reanimação do recém-nascido < 34 semanas em sala de parto: diretrizes 2022.
ERNICA. Catálogo de diretrizes — onfalocele, 2026. [Acessar fonte](https://www.ern-ernica.eu/guidelines)
Responda antes de ler
Recém-nascido de 38 semanas, 3.010 g, com bloco de vísceras exposto na linha média do abdome. Não há membrana íntegra recobrindo, mas há restos de uma membrana fina e translúcida esgarçada nas bordas, e o cordão umbilical emerge do alto do próprio bloco herniado, preso a esse remanescente. Entre as vísceras expostas há uma massa lisa, avermelhada e volumosa. Qual é o diagnóstico e o que o sustenta?
O paciente que você vai ver
Cinco e dez da manhã de uma terça-feira, centro obstétrico do hospital do município, setenta leitos ao todo, numa cidade que não chega a quarenta e três mil pessoas e recebe encaminhamento de outras quatro menores ainda. O hospital tem duas salas de parto, um berçário com quatro incubadoras, laboratório que funciona das sete às dezenove e um aparelho de raio-X que precisa de técnico chamado por telefone. Não tem cirurgião pediátrico. Não tem unidade de terapia intensiva neonatal. As duas coisas existem juntas num único hospital estadual, cento e noventa quilômetros adiante, e a vaga lá se pede pela central de regulação.
Você é o interno da escala noturna e está no centro obstétrico porque a obstetra pediu uma mão: a Elidia Ibiraba tem dezenove anos, está com trinta e seis semanas e quatro dias pela última ultrassonografia, e entrou em trabalho de parto sozinha, de madrugada, depois de vir de moto do distrito onde mora. O cartão de pré-natal dela tem sete consultas e dois ultrassons. O segundo, feito às vinte e duas semanas numa clínica conveniada, tem uma linha no fim do laudo que ninguém circulou: alças intestinais fetais visualizadas fora da cavidade abdominal, à direita da inserção do cordão, sem membrana de revestimento aparente. Abaixo, o carimbo do médico examinador e a data. Nenhum encaminhamento anexado. Nenhuma anotação da unidade básica sobre o achado.
Elidia sabe que "tinha uma coisa na barriga do bebê". Foi o que disseram a ela na clínica, e ela repetiu na unidade básica na consulta seguinte, e a resposta que recebeu — ela lembra da frase inteira — foi que iam ver isso no próximo ultrassom. O próximo ultrassom não aconteceu porque a vaga era em outro município e ela não conseguiu o transporte. Ela chegou hoje achando que ia ter o filho e ir para casa em dois dias.
O parto é rápido. Às cinco e vinte e dois nasce um menino de 2.180 gramas, que chora, mexe os quatro membros e fica rosado em poucos segundos. E tem, saindo por uma abertura de uns três centímetros à direita do cordão umbilical, um bloco de alças intestinais que não está coberto por nada. As alças são espessas, opacas, meio esverdeadas, aderidas umas às outras, e continuam saindo enquanto a obstetra segura a criança. O cordão está inserido em lugar normal, ao lado do defeito, e é ele que a obstetra clampeia enquanto olha para você.
O que acontece nos noventa segundos seguintes decide muita coisa, e quase tudo o que o seu corpo quer fazer nesses noventa segundos está errado. A mão quer empurrar as alças para dentro, porque parecem estar do lado de fora por acidente e o buraco parece pequeno demais para elas. A memória quer pedir compressa embebida em soro morno, porque foi assim que você viu numa foto de livro e porque cobrir com pano molhado parece cuidado. A pressa quer levar a criança para o berçário no colo, rápido, para que alguém que entenda resolva. As três coisas fazem mal, e a terceira é a única que faz mal devagar.
Esta é a trava do capítulo, e ela é contraintuitiva, então vai dita com todas as letras: as vísceras expostas não se devolvem à cavidade e não se envolvem em compressa molhada encharcada. Elas se envolvem em saco plástico estéril, secas por fora, e o bebê é posicionado, aquecido, sondado e hidratado — nessa ordem de urgência e ao mesmo tempo. O que mata esse recém-nascido antes de qualquer cirurgião chegar não é o intestino estar fora. É a água e o calor que ele perde pela superfície do intestino enquanto todo mundo procura um telefone.
Enquanto você pensa, a obstetra faz a pergunta que abre o resto do plantão: "a gente enrola em quê?" É uma pergunta boa, é a pergunta certa, e a resposta não está em nenhum manual que exista dentro deste hospital. Você tem, na sala, campos estéreis, compressas, luvas, um saco plástico transparente de coleta de urina ainda lacrado, sondas orogástricas nos calibres 6, 8 e 10, soro fisiológico, uma incubadora de transporte que funciona e um telefone da central de regulação que atende. Com isso dá para fazer quase tudo o que precisa ser feito nesta hora.
Este capítulo é sobre esses noventa segundos e sobre as setenta e duas horas que vêm depois deles. Ele separa gastrosquise de onfalocele pelo que se vê da porta, explica por que essa distinção muda o plano inteiro e não só o nome, atravessa a decisão de fechar de uma vez ou por etapas, e chega no que ninguém conta para a mãe na primeira conversa: que a parte difícil dessa doença não é a operação, é o mês e meio depois dela, esperando um intestino voltar a funcionar.
Quem adoece disso
Gastrosquise e onfalocele são os dois defeitos de parede abdominal mais comuns, e o protocolo brasileiro que este capítulo usa como régua registra prevalência de 3 a 4 casos para cada 10.000 nascimentos, contando nascidos vivos, natimortos, óbitos fetais e interrupções de gestação num mesmo denominador. Vale ler essa frase com cuidado antes de repeti-la: ela está no plural — "suas prevalências" — e dá uma única faixa para duas doenças de epidemiologia diferente, sem dizer se os 3 a 4 são de cada uma ou das duas somadas. É o tipo de número que se cita com a ressalva junto, e a auditoria deste capítulo devolve a ressalva no lugar em que ela pesa.
O que se sabe com mais firmeza é o perfil de quem tem cada uma, e ele é tão diferente entre as duas que serve de pista antes mesmo do exame. A gastrosquise é a doença da mãe muito jovem: a chance é maior em filhos de mães com menos de vinte anos, e o próprio protocolo levanta a hipótese de que a associação venha do estilo de vida que costuma acompanhar essa faixa — tabagismo, uso de drogas, consumo de álcool, índice de massa corporal baixo e maior frequência de infecção urinária. A incidência é igual em fetos masculinos e femininos. A causa continua desconhecida, e a correlação com amioplasia e com esquizencefalia ou porencefalia sugere origem vascular, o que é hipótese e está escrito como hipótese.
A Elidia tem dezenove anos, veio de moto do distrito, fez sete consultas de pré-natal e não conseguiu o ultrassom de reavaliação por falta de transporte. Não é coincidência narrativa: é o perfil descrito no documento, e a leitura correta desse perfil não é buscar culpa na mãe. É reconhecer que a doença se concentra na população com menos acesso, o que significa que o diagnóstico pré-natal falha mais exatamente onde a consequência de falhar é maior — a criança nasce longe do cirurgião.
A onfalocele tem outro retrato. Só cerca de um terço dos casos ocorre de forma isolada; nos outros dois terços há outras anomalias associadas, com destaque para as cardíacas e para os defeitos de tubo neural, e com incidência alta de aneuploidia, especialmente as trissomias do 13 e do 18. Um terço mais dois terços fecha o inteiro, e essa conferência elementar bate — vale registrar, porque nem todas as contas deste capítulo bateram.
Há uma inversão pedagógica escondida aí, e ela é o oposto do que a intuição diz. Na onfalocele, os defeitos pequenos, sobretudo os de localização central, são os que têm MAIOR associação com outras anomalias e com alterações cromossômicas. Ou seja: a onfalocele que parece mais simples de operar é, com mais frequência, a que traz o problema que decide o prognóstico — e ele não está na parede, está no coração ou no cariótipo. Quem olha o tamanho do defeito para estimar gravidade estima ao contrário.
Na gastrosquise, o que decide o prognóstico é o intestino, e ele se divide em dois grupos que o pré-natal quase nunca separa. A gastrosquise simples é a que não tem atresia, estenose, perfuração, necrose, malrotação nem volvo. A complexa tem alguma dessas coisas, e chega a um quarto dos casos. As crianças com a forma complexa têm mais complicações gastrointestinais, respiratórias e infecciosas. Como a distinção geralmente não é possível antes do nascimento, todo plano feito no pré-natal é um plano provisório, e o interno que atende o parto não sabe em qual dos dois grupos o seu paciente está.
As sequelas frequentes da gastrosquise têm números amplos e vale conhecê-los pela ordem de grandeza, não pela casa decimal: restrição de crescimento em 30% a 60% dos casos, prematuridade em 30% a 50%, óbito fetal em 3% a 6%. O menino da Elidia nasceu com 2.180 gramas às trinta e seis semanas e quatro dias: cabe nas duas primeiras faixas, e não é exceção nenhuma. Repare no efeito prático desses números — a régua brasileira recomenda deixar a gestação chegar às trinta e oito semanas, e entre um terço e metade desses bebês nasce antes disso de qualquer jeito. A meta é uma meta, não uma expectativa.
A última linha da epidemiologia é a que não está em livro de doença nenhum, e é a que decide o desfecho no Brasil: o determinante mais forte não é a anatomia do defeito, é a distância entre a sala de parto e o centro cirúrgico neonatal. Essa é leitura deste capítulo, não citação — nenhum dos documentos brasileiros abertos aqui mede essa distância. Mas o país tem uma régua para ela, e ela é obstétrica: o capítulo O que cada ultrassom responde, da apostila de Obstetrícia, é o dono da decisão de onde essa criança nasce e traz do manual federal de gestação de alto risco a lista das condições que devem nascer em maternidade com tratamento clínico-cirúrgico neonatal. A gastrosquise está nela. Quando o encaminhamento não acontece, como não aconteceu aqui, a doença muda de gravidade sem mudar de anatomia.
Por que acontece o que acontece
As duas doenças parecem a mesma coisa da porta e não são a mesma coisa em lugar nenhum — nem na embriologia, nem no que se vê, nem no que se faz, nem no que se diz para a família. A separação começa na sexta semana de gestação e termina no ambulatório de seguimento cinco anos depois, e o interno que entender por que elas se separam nunca mais vai precisar decorar a lista de diferenças.
Gastrosquise é um defeito geralmente paraumbilical direito, com cordão separado e vísceras expostas sem saco; sua origem embrionária tem hipóteses concorrentes e não deve ser apresentada como um único mecanismo comprovado. Na onfalocele, a herniação está na inserção do cordão e costuma ter membrana, que pode se romper. Localização, inserção, integridade do saco e conteúdo orientam o reconhecimento, as associações e o cuidado inicial.
O intestino que passa meses num banho químico
Na gastrosquise, a alça fica meses mergulhada em líquido amniótico, e o líquido amniótico é uma solução irritante para a serosa. O protocolo brasileiro registra isso de forma direta: a lavagem intraoperatória das alças com soro fisiológico existe para remoção mecânica do líquido amniótico, e o documento chama a substância pelo nome — solução irritante. Some-se a isso o comprometimento do suprimento vascular mesentérico no anel estreito por onde tudo passa, e o produto é uma parede intestinal espessa, opaca, esverdeada e aderida, que a literatura cirúrgica chama de casca.
Esse é o dado que explica a parte do tratamento que ninguém antecipa. A casca não some quando o cirurgião devolve a alça para dentro. O intestino continua inflamado, continua sem peristalse útil, e continua assim por semanas. Por isso o íleo adinâmico prolongado é regra e não complicação, por isso o resíduo gástrico se mantém alto e volumoso, e por isso a nutrição parenteral entra no primeiro dia de vida e não no dia em que "não deu certo" alimentar. Quem opera a gastrosquise resolve a parede; o intestino resolve sozinho, no tempo dele, e o tempo dele é longo.
Por que a perda insensível mata primeiro — e por que a compressa molhada acelera
Aqui está a física do capítulo, e ela é simples o bastante para ser lembrada na sala de parto. Um recém-nascido já tem a maior razão entre superfície corporal e massa de toda a vida humana. Ponha para fora, nessa criança, uma massa de alças úmidas, quentes, sem pele, sem camada córnea, sem controle vasomotor e sem controle sudoríparo, e você criou uma superfície de água livre à temperatura corporal exposta ao ar da sala de parto. A água dessa superfície evapora, e a evaporação não é só perda de água: cada grama de água que evapora carrega consigo cerca de 0,58 kcal de calor latente. Perder água e perder calor, nesse bebê, são o mesmo evento acontecendo uma vez, não dois eventos somados.
É por isso que a compressa embebida em soro morno é o erro mais bem-intencionado da medicina neonatal. Ela não é uma barreira: é um pavio. Ela oferece mais superfície molhada do que a própria alça, e continua evaporando enquanto o pano estiver úmido, esfriando o bebê mais rápido do que a exposição seca esfriaria. Quando seca, adere à serosa e arranca serosa na retirada. O saco plástico estéril faz o contrário e faz uma coisa só: ele é uma barreira de vapor. Ao interromper a evaporação, interrompe as duas perdas ao mesmo tempo e mantém, ao redor das alças, um microclima saturado. O protocolo brasileiro diz exatamente isso, nessas duas funções, quando manda envolver as alças em saco plástico estéril para controlar temperatura e hidratação.
A segunda perda é invisível e não tem cheiro de emergência. A parede intestinal inflamada e o mesentério sequestram plasma, e a luz do intestino se enche. Esse é o terceiro espaço, e ele drena a volemia de uma criança que não sangra, não vomita e fica rosada por um tempo bom antes de descompensar. É a razão de iniciar e monitorar suporte hídrico precocemente, ajustado às perdas e à perfusão, em vez de esperar taquicardia. Quem espera o sinal para começar a repor está repondo com atraso estrutural, porque o sinal em recém-nascido chega tarde e chega junto. Essas perdas variam; o incremento de 50% não deve ser imposto como regra universal, especialmente ao comparar gastrosquise exposta e onfalocele com membrana íntegra.
E a hipotermia não é um desconforto: é um preparo pré-operatório ao contrário. O bebê frio consome mais oxigênio para gerar calor, acidifica, aumenta a resistência vascular pulmonar e coagula pior. Vai para uma anestesia geral em poucas horas com três desvantagens que ninguém precisava ter criado. A hora em que se decide isso é a hora do nascimento, e a medida do sucesso é banal: temperatura axilar aferida no quinto minuto de vida, como o protocolo determina, e normotermia mantida daí em diante.
Gás, torção e o buraco que é pequeno demais
Três mecanismos mecânicos explicam quase todas as ordens estranhas deste capítulo. O primeiro é o gás: ventilação com pressão positiva por balão e máscara empurra ar para o estômago e para as alças, e alça distendida não volta para uma cavidade que já era pequena. Daí sai a orientação de evitar ventilação prolongada com balão e máscara, a de manter sonda orogástrica aberta com saco coletor — aberta, não pinçada, porque a função dela é deixar sair, não medir —, e a proibição explícita de CPAP no pré-operatório. Suporte respiratório existe, e se guia pela condição clínica; o que não se faz é insuflar o tubo digestivo por conveniência.
O segundo é a torção. Todo o intestino médio está pendurado num único pedículo vascular que atravessa um orifício de poucos centímetros. Se as alças se dobrarem sobre o próprio mesentério dentro do saco, o que se produz é isquemia de tudo o que está fora, de uma vez. Por isso o curativo posiciona e não comprime, por isso o protocolo pede atenção explícita ao posicionamento das alças dentro do saco plástico para evitar torção, e por isso o decúbito lateral direito é preferido — o documento justifica pela melhora do retorno venoso, e a posição também acomoda o bloco herniado sem tracionar o pedículo.
O terceiro é o tamanho da casa. A cavidade abdominal desse bebê nunca cresceu para caber o que está do lado de fora; ela cresceu para caber o que ficou dentro. Empurrar tudo de volta à força não devolve um órgão ao lugar — cria uma cavidade sob pressão. A pressão intra-abdominal alta comprime a veia cava e derruba o retorno venoso e o débito cardíaco, empurra o diafragma e inviabiliza a ventilação, comprime as veias renais e fecha a diurese, e estrangula justamente os vasos do intestino que se acabou de salvar. Esse é o motivo de existir o fechamento estadiado com silo: não é uma técnica de segunda escolha, é a solução para um problema de volume que a anatomia impôs. E é o motivo pelo qual a primeira mão a tocar essa criança não é a que empurra.
Como se apresenta de verdade
Do outro lado da porta do centro obstétrico, o diagnóstico é de inspeção e leva menos de dez segundos. Não há exame que o antecipe naquele momento, não há laudo que o corrija, e o que os dez segundos decidem não é o nome da doença: é o plano inteiro. Uma das duas é um problema de parede num bebê que, fora isso, costuma ser normal. A outra é a ponta visível de um bebê que pode ter três outras coisas, e a mais perigosa delas está no coração.
Este bloco descreve o que se vê e o que se pergunta imediatamente depois. A régua descritiva é dupla, e vale saber que as duas descrições brasileiras não foram escritas para o mesmo leitor: o protocolo hospitalar de defeitos da parede abdominal escreve para quem vai operar, e o Guia de Vigilância em Saúde escreve para quem vai contar. Elas divergem em pontos que importam, e é o cruzamento delas — não cada uma sozinha — que ensina a olhar.
Três coisas, na ordem: o cordão, o saco, o conteúdo
A primeira pergunta não é sobre o intestino. É sobre onde está o cordão umbilical em relação ao buraco, porque é aí que a embriologia deixou a assinatura. Na gastrosquise o cordão está inserido em posição normal e o defeito está ao lado dele, quase sempre à direita, e os dois são coisas separadas, com pele íntegra entre uma e outra. Na onfalocele não há dois lugares: a herniação acontece no próprio nível da inserção umbilical, e o cordão sai da cúpula do que está herniado. Quem procura a relação entre o cordão e o defeito já respondeu antes de olhar mais nada.
A segunda pergunta é sobre o saco. Na gastrosquise não há membrana, e não é que ela tenha se rompido: nunca existiu. O conteúdo herniou direto para a cavidade amniótica e passou a gestação inteira em contato com o líquido. Na onfalocele há membranas amnioperitoneais envolvendo o conteúdo, e o cordão umbilical se implanta nelas.
A terceira é sobre o que está dentro. Na gastrosquise, em regra, é intestino, e o defeito é pequeno — tipicamente de dois a cinco centímetros. Na onfalocele o fígado está herniado em até 80% dos casos, e o fígado é o achado que muda a conversa, porque órgão sólido dentro do saco significa cavidade abdominal que não cresceu para recebê-lo de volta.
Um alerta de leitura sobre o tamanho, e ele é do próprio documento: o protocolo brasileiro descreve a gastrosquise como um defeito de dois a cinco centímetros e classifica a onfalocele gigante justamente pelo limiar de mais de cinco centímetros. São dois números que quase se encostam e medem coisas diferentes — um é o buraco na parede, o outro é o tamanho da massa herniada em relação ao abdome do feto. Confundi-los faz alguém chamar de gigante o que é pequeno.

Quando o saco falha como critério — e o documento brasileiro que avisa
A regra do saco é boa e é ensinada em todo lugar, e tem exatamente uma exceção, que é a que custa mais caro. A onfalocele pode se romper, antes do parto ou durante ele. Quando se rompe, o que se vê da porta é víscera exposta sem membrana nenhuma, e a memória do plantonista responde gastrosquise.
Quem diz isso com todas as letras não é o protocolo cirúrgico: é o Guia de Vigilância em Saúde, na definição oficial brasileira do código Q79.2. Ela descreve a onfalocele como herniação do conteúdo abdominal através da inserção umbilical coberta por uma membrana que pode ou não estar intacta, e acrescenta que, estando rompida, o defeito é extenso e pode haver saída de órgãos ocos e sólidos. É a régua da notificação compulsória dizendo que o achado que separa as duas doenças à beira do leito pode simplesmente não estar lá.
Sobra o cordão, e ele não falha. Na onfalocele rota o defeito continua no nível da inserção umbilical, com o cordão nascendo do remanescente da membrana; na gastrosquise o cordão continua lateral ao defeito, com pele entre os dois. Se houver fígado no bloco herniado, a resposta fica ainda mais firme: na gastrosquise a saída do fígado é possível, mas incomum, e na onfalocele é a regra em até 80%.
Isso não é sutileza acadêmica. É a diferença entre chamar o ecocardiograma hoje e não chamar, entre pedir parecer da genética e não pedir, entre dizer à mãe que o problema é a parede e dizer que ainda não se sabe. E há uma boa notícia embutida: a conduta dos primeiros minutos é a mesma nas duas — proteger, aquecer, sondar, hidratar. Ninguém precisa acertar o nome nos primeiros noventa segundos para acertar a mão.
A onfalocele nunca vem sozinha, e a inversão que engana
Só cerca de um terço das onfaloceles é isolada. Nos outros dois terços há outras anomalias, e o protocolo brasileiro nomeia duas famílias: as cardíacas e os defeitos do tubo neural. Some-se a isso uma alta incidência de aneuploidia cromossômica, com destaque para as trissomias do 13 e do 18. O plano que sai daí não é cirúrgico — é de investigação, e começa antes de a criança ir para a mesa.
A gastrosquise tem o retrato oposto. O mesmo documento a descreve como geralmente isolada, com apenas 15% associados a outras anomalias, e pouco associada a síndromes genéticas, incluindo as cromossomopatias. Não é que a gastrosquise seja simples: é que o problema dela está no intestino que se vê, e não num órgão que ainda não se examinou. Guarde os dois números — 15% na gastrosquise, dois terços na onfalocele —, porque eles são a razão de o ecocardiograma correr numa e não na outra.
E agora a inversão, que é o achado mais contraintuitivo desta doença. Na onfalocele, os defeitos pequenos, em especial os de localização central, têm MAIOR associação com outras anomalias e com anormalidades cromossômicas. A onfalocele que dá menos trabalho ao cirurgião é a que traz, com mais frequência, o problema que decide o prognóstico. Quem estima gravidade pelo tamanho do defeito estima ao contrário — e quem se tranquiliza porque o defeito é pequeno está tranquilo pelo motivo errado.
Pequena, gigante, e o que cai entre as duas
O protocolo brasileiro divide a onfalocele em pequena e gigante, e vale ler a definição inteira antes de usá-la. Pequenas são as que contêm somente alças intestinais e não fígado. Gigantes são as que contêm mais de 75% do fígado, ou têm grande tamanho — o documento oferece mais de cinco centímetros —, ou são grandes proporcionalmente ao abdome fetal, o que ele próprio reconhece ser variável.
A conferência dessa definição não fecha, e a falha é fácil de exibir: uma onfalocele que contém metade do fígado e mede quatro centímetros não é pequena, porque tem fígado, e não é gigante, porque não passa de 75% nem dos cinco centímetros. Ela não pertence a nenhuma das duas classes que o documento oferece. A conta está registrada, com números, na conferência das fontes deste capítulo.
O vão não é acadêmico, porque a classe governa a conduta cirúrgica no mesmo documento: defeitos pequenos podem ser reparados nas primeiras 24 a 72 horas de vida, e as gigantes recebem silo ou epitelização da membrana com correção tardia da hérnia. Quem cai no vão fica sem prazo e sem técnica prescritos, e o serviço decide por analogia. Este capítulo não escolhe por ele: a escolha é clínica e está entre as questões que ficaram para decisão médica.
A gastrosquise tem a sua própria divisão, e ela é de outra natureza: simples, quando não há atresia, estenose, perfuração, necrose, malrotação nem volvo; complexa, quando há alguma dessas. Até um quarto delas é complexa, e essas crianças têm mais complicações gastrointestinais, respiratórias e infecciosas. O documento é honesto sobre o limite dessa classificação: no pré-natal a distinção frequentemente não é possível. Ela se descobre na mesa, ou nas semanas seguintes, quando o intestino não funciona.
O que a criança do outro leito tem, e não é isto
Duas coisas se parecem com onfalocele pequena e não são. A primeira é a hérnia de cordão umbilical, em que a alça hernia para dentro da geleia de Wharton por um anel muito estreito, com o cordão implantado normalmente na pele. A segunda é a hérnia umbilical do lactente, coberta por pele, que aparece depois das primeiras semanas, sai e volta quando a criança chora e não é doença de recém-nascido exposto. Nenhuma das duas se comporta como o que este capítulo descreve.
Vale registrar uma fronteira aberta, e ela é achado, não descuido: a hérnia umbilical da criança não tem dono declarado neste nível. O capítulo A bolsa vazia e o caroço que vai e volta, da apostila de Cirurgia Pediátrica, é o dono da hérnia inguinal, da hidrocele e da criptorquidia, e é lá que está o risco pré-operatório da criança hígida — mas ele não assume a umbilical, e diz de si mesmo que a hérnia da criança é defeito de fechamento e não defeito de parede. Este capítulo, então, fica só com o que precisa para não confundir: a umbilical é coberta por pele e não é urgência; o que está exposto no berço não é ela.
Do lado grave ficam os defeitos maiores dos quais a onfalocele é apenas um componente, com anomalias de linha média que se estendem para cima ou para baixo do umbigo. Diante de uma onfalocele, portanto, o exame não termina no abdome: ele sobe até o esterno e desce até o períneo. O que muda com cada achado — cardiopatia, defeito de tubo neural, malformação urológica — é assunto dos donos de cada um deles, e este capítulo lhes cede a decisão terapêutica, ficando com a obrigação de procurar.
E há a lista que não se investiga aqui porque já tem dono: vômito bilioso, distensão que aparece depois e fralda que não suja pertencem ao capítulo A cor do vômito e a fralda que não sujou, da mesma apostila de Cirurgia Pediátrica, dono da obstrução neonatal e da radiografia do recém-nascido. Diante de uma parede aberta não há dúvida diagnóstica a resolver com imagem: a doença está do lado de fora, visível, e o relógio já começou.
Como fechar o diagnóstico
Existe uma investigação que deveria ter acontecido meses atrás, outra que não existe porque não há o que investigar, e uma terceira que começa quando a criança estiver quente, sondada e com veia. Confundir a ordem das três é o que faz alguém pedir radiografia de abdome para um bebê cujo abdome está do lado de fora.
A regra deste bloco é simples: na sala de parto não se pede exame, mede-se temperatura. Depois de estabilizado, pede-se aquilo que muda o plano — e o que muda o plano, na onfalocele, quase nunca está no abdome.
O que já devia ter acontecido antes de nascer
O protocolo brasileiro descreve o caminho: quase todos os casos de gastrosquise se associam a aumento da alfafetoproteína sérica materna, achado que também ocorre em outras anomalias fetais, inclusive na onfalocele, e que indica exame ultrassonográfico minucioso à procura de anormalidades anatômicas. A maioria dos casos pode ser detectada ao ultrassom no fim do primeiro trimestre, entre 11 e 14 semanas, e certamente no segundo.
O que o ultrassom mostra na gastrosquise é um defeito paraumbilical, relativamente pequeno, de dois a cinco centímetros, geralmente à direita da linha média, com a inserção do cordão adjacente, separada do defeito e normal. Em regra só o intestino está herniado, mas pode sair também fígado e estômago; e o estômago, mesmo intra-abdominal, costuma estar mal posicionado. O intestino perde a cobertura de membrana e flutua livremente no líquido amniótico. Em até 25% dos casos encontram-se anomalias gastrointestinais associadas — malrotação, atresia, estenose, perfuração, necrose, volvo.
Tudo isso é descrição de laudo, e a técnica, o desempenho e a interpretação do exame não são deste capítulo: o dono do ultrassom obstétrico é O que cada ultrassom responde, da apostila de Obstetrícia, e é ele também quem decide onde essa criança nasce. Este capítulo cede a ele o rastreio, o exame morfológico, o procedimento invasivo de diagnóstico pré-natal e a decisão de local de parto, e fica com o que acontece depois que a decisão falhou ou nunca foi tomada.
Fica, porém, um registro que é achado e não lacuna. A lista federal das condições que devem nascer em maternidade com tratamento clínico-cirúrgico neonatal imediato, tal como o capítulo vizinho a transcreve do manual de gestação de alto risco, nomeia a gastrosquise e não nomeia a onfalocele. É uma assimetria com defesa possível dos dois lados — o saco protege a víscera e compra tempo, o que enfraquece a urgência cirúrgica; mas é justamente a onfalocele que tem dois terços de anomalias associadas, e a cardiopatia não espera. Este capítulo não resolve a assimetria; ele a aponta.
E o momento do parto, quando o pré-natal funciona, tem número: com crescimento fetal, doppler de artéria umbilical e cerebral média e volume de líquido amniótico normais, não há orientação de antecipar, e o parto deve ser idealmente realizado a partir de 38 semanas na gastrosquise e de 39 na onfalocele. A via de parto e o momento são decisão obstétrica, e sobre isso o protocolo não deixa margem: não há indicação formal de parto prematuro nem de cesárea — com a ressalva, que ele próprio faz, de que na onfalocele gigante haveria recomendação de cesárea pelo risco de distócia, rotura, infecção e hemorragia.
Na sala de parto, o exame é a inspeção e o número é a temperatura
Não há laboratório, não há imagem e não há escore que mude o que se faz nos primeiros noventa segundos. O que existe é uma inspeção — cordão, saco, conteúdo — e uma medida: temperatura axilar no quinto minuto de vida, que o protocolo determina expressamente, com a ordem de manter normotermia daí em diante.
Aferir essa temperatura não é burocracia de registro. É o único indicador precoce de que a barreira de vapor está funcionando, e é o número que, baixo, obriga a rever o curativo, a fonte de calor e o tempo que a criança está exposta. Um bebê protegido corretamente chega ao quinto minuto normotérmico; um bebê enrolado em compressa molhada chega frio, e o frio dele é a medida do erro.
O suporte respiratório se guia por avaliação clínica — o protocolo cita o boletim de Silverman-Andersen —, e não por gasometria de rotina. A sequência da reanimação em si, os passos e os prazos da sala de parto pertencem ao capítulo Reanimação neonatal em sala de parto, da apostila de Neonatologia, que é o dono desse fluxo; o protocolo aqui apenas manda segui-lo e acrescenta uma restrição própria, que é a de evitar ventilação com pressão positiva prolongada por balão e máscara para não distender alça.
Duas coisas que a sala de parto costuma fazer ficam prejudicadas na gastrosquise, e é o próprio documento que diz: o contato pele a pele e a amamentação, porque é preciso proteger as alças de maneira asséptica e não permitir perda de calor e umidade. Isso não é detalhe de conforto — é a primeira perda que essa família vai sofrer, e alguém precisa dizer isso em voz alta para a mãe, na hora, e não deixar que ela conclua sozinha que o filho lhe foi tirado. Se a vitalidade é boa, o clampeamento tardio do cordão continua indicado, e o cordão se corta a pelo menos dez centímetros da base, para dar ao cirurgião material de manuseio depois.
Depois de estabilizado: o exame que decide o prognóstico não é do abdome
A lista do protocolo para o pré-operatório na unidade de terapia intensiva neonatal é curta e tem uma prioridade dentro dela: ecocardiograma com doppler, ultrassonografia abdominal e ultrassonografia de vias urinárias, especialmente nos pacientes com onfalocele.
A ênfase está no lugar certo. Numa doença cuja lesão visível é abdominal, o exame que mais muda o desfecho é o do coração — porque em dois terços das onfaloceles há outra anomalia, e a cardíaca encabeça a lista. Uma cardiopatia congênita não reconhecida transforma uma anestesia geral programada num evento de risco muito diferente, e a informação chega tarde demais se o pedido esperar o pós-operatório.
A leitura do sopro e a estratificação da criança com suspeita de cardiopatia pertencem ao capítulo Sopro na criança, da apostila de Cardiologia Pediátrica; este capítulo cede a ele a interpretação e fica com a obrigação de pedir. E há um limite honesto a declarar: o recém-nascido com cardiopatia estrutural definida não tem, neste nível, um capítulo que ensine o manejo dela. A conduta cardiológica desse bebê é decisão do serviço, e este capítulo não a inventa.
A ultrassonografia abdominal e a de vias urinárias entram pelo mesmo motivo: procurar o que não se vê. Nenhuma delas atrasa a cirurgia da gastrosquise, e nenhuma delas se pede antes de a criança estar aquecida e com acesso. Exame não é prioridade sobre normotermia.
Cariótipo e genética: quem pede, quando, e por que este capítulo assume
O protocolo brasileiro dá três gatilhos, e vale decorá-los porque são operacionais. Primeiro: onfalocele diagnosticada no ultrassom obstétrico exige verificar se foi oferecido diagnóstico pré-natal por amniocentese ou cordocentese; se não foi, solicita-se avaliação da genética clínica, que orientará os exames complementares. Segundo: em recém-nascido com anomalias congênitas múltiplas, seja na gastrosquise ou na onfalocele, e nos dismorfismos craniofaciais, solicita-se parecer da genética. Terceiro, e é o que muda a ordem das coisas: em recém-nascido com anomalias congênitas múltiplas e/ou em estado grave, colhe-se o cariótipo antes da avaliação clínica pelo geneticista.
Esse terceiro item é uma inversão deliberada da rotina de parecer, e a razão é sombria e prática: se a criança morrer antes de o geneticista chegar, a amostra some com ela, e a família perde o diagnóstico que orientaria a próxima gestação. Colher antes não é atropelar o especialista — é preservar a única janela que existe.
Aqui este capítulo assume, e declara que assume. Não há apostila de Genética Médica neste nível, e nenhum capítulo do Internato é dono do cariótipo, do aconselhamento genético ou das trissomias do 13 e do 18 como entidades. O rastreio pré-natal de aneuploidia e o procedimento invasivo têm dono e ficam com ele — são de O que cada ultrassom responde, da apostila de Obstetrícia. Mas o que se faz com o recém-nascido já nascido, quem se aciona e quando se colhe não têm dono em lugar nenhum, e ceder isso a uma porta fechada deixaria o assunto órfão. Fica, portanto, aqui, limitado ao que o protocolo prescreve.
Um cuidado de linguagem, e ele vale para toda a equipe: cariótipo colhido não é diagnóstico dado. Enquanto o resultado não volta, nada se diz à família sobre síndrome, e nada se escreve em prontuário como se estivesse estabelecido. O que se diz é que se está procurando, e por quê.
O exame que não se pede, e a notificação que não se esquece
Radiografia de abdome não faz parte da avaliação inicial do defeito de parede, e vale entender por quê: a pergunta que ela responde — há obstrução, há pneumoperitônio, há ar onde não devia — não é a pergunta que se tem. O diagnóstico já está feito a olho nu, e o que decide a conduta das próximas horas é temperatura, volemia e perfusão das alças, nenhum dos três visível em radiografia. Quando a pergunta muda e passa a ser obstrutiva, o dono é o capítulo A cor do vômito e a fralda que não sujou, da apostila de Cirurgia Pediátrica, e é lá que está o que a radiografia do recém-nascido responde e o que ela não responde.
Gasometria, hemograma, eletrólitos e glicemia entram como o pré-operatório de qualquer neonato que vai à anestesia geral em poucas horas, e não como investigação do defeito. Vale um lembrete de calibração: a maior parte do que se ajusta nesse bebê é volume e temperatura, não resultado de exame.
E há uma obrigação que não é clínica e que o interno esquece: gastrosquise e onfalocele são anomalias congênitas de notificação compulsória. O Guia de Vigilância em Saúde as lista entre as anomalias prioritárias para vigilância ao nascimento, com códigos próprios — Q79.2 para exonfalia ou onfalocele, Q79.3 para gastrosquise —, e é explícito ao lembrar que toda e qualquer anomalia congênita do capítulo XVII da CID-10, mais o código D18.0, é de notificação compulsória no Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos, não apenas as da lista prioritária. O caminho dessa notificação é a Declaração de Nascido Vivo.
O preenchimento da Declaração de Nascido Vivo e o funcionamento do Sinasc são do capítulo A ficha que ninguém devolve, da apostila de Medicina Preventiva e Saúde Coletiva, dono dos sistemas de informação em saúde, e este capítulo cede a ele o fluxo do documento. O que fica aqui é o gatilho: quem viu o defeito é quem tem de garantir que ele foi registrado, porque o campo de anomalia congênita da Declaração é preenchido no hospital e ninguém o corrige depois.
As três decisões que se tomam olhando, e as contas que não fecham nos documentos
Primeiro manter funções vitais, proteger vísceras sem torção/compressão e evitar hipotermia e perdas. A técnica de fechamento depende da anatomia e da tolerância fisiológica, e a equipe deve ser acionada desde o nascimento.
- 1Seguir reanimação neonatal indicada, com atenção ao cordão e ao defeito; suporte vital não é adiado pela malformação.
- 2Identificar cordão, saco e conteúdo. Proteger gastrosquise com cobertura plástica estéril apropriada, sustentando as alças sem torcer ou comprimir o mesentério; preservar membrana da onfalocele com cobertura não aderente indicada.
- 3Manter jejum e descompressão gástrica, normotermia, glicemia e acesso, com equipe neonatal e cirúrgica envolvida precocemente.
- 4Calcular manutenção, déficit e perdas medidas e titular pela perfusão, diurese, eletrólitos e balanço. Um acréscimo fixo de 50% é exemplo de protocolo, não necessidade idêntica em todos os defeitos.
- 5Avaliar anomalias associadas, especialmente na onfalocele, sem retardar transporte necessário. Conversar com a família sobre o que está conhecido e o que falta definir.
- 6Não tentar redução manual no serviço de origem. Fechamento primário, silo ou tratamento em etapas são escolhidos pela equipe conforme anatomia, pressão e repercussão respiratória/circulatória.
- 7Após o fechamento, acompanhar perfusão, ventilação, função intestinal, nutrição, dor e complicações; progressão alimentar e duração de antibiótico dependem do procedimento e da evolução.
A conta da cota hídrica, e por que ela não sai de uma tabela
O protocolo brasileiro não dá uma cota em mililitros: dá um multiplicador — a hidratação deve ser 50% superior à basal, e o sódio começa no primeiro dia de vida. A basal é a da rotina de neonatologia do serviço, e não está neste documento. O efeito do multiplicador, porém, é fácil de ver neste bebê de 2.180 g: uma basal de 60 mL/kg/dia vira 90 e dá 196 mL por dia, cerca de 8,2 mL por hora; uma de 80 vira 120 e dá 262 mL, cerca de 10,9 mL por hora; uma de 100 vira 150 e dá 327 mL, cerca de 13,6 mL por hora. A diferença entre a primeira e a terceira é de 131 mL por dia na mesma criança — motivo bastante para escrever no prontuário qual basal se adotou, em vez de escrever apenas que se seguiu o protocolo. A porcentagem descrita é referência do protocolo citado; na prática, ajustar ao tipo de defeito, perdas e resposta, sem multiplicador universal. O multiplicador descreve o documento, não uma prescrição obrigatória: a orientação adotada neste percurso é individualizar e ajustar pela resposta.
O que separa as duas na porta, e o que cada diferença obriga
| O que se olha | Gastrosquise | Onfalocele | O que muda no plano |
|---|---|---|---|
| Posição do cordão | Inserido em lugar normal, na pele, com o defeito ao lado — quase sempre à direita | A herniação é no próprio nível da inserção; o cordão sai do alto do que está herniado | É o único critério que continua respondendo quando a membrana se rompeu |
| Saco | Nunca existiu: o conteúdo herniou direto na cavidade amniótica | Membranas amnioperitoneais, que podem estar íntegras ou rotas | Sem saco, a perda de água e de calor é imediata e a proteção é a prioridade absoluta |
| Conteúdo | Em regra intestino; saída de fígado e estômago é possível, mas incomum | Fígado herniado em até 80% | Órgão sólido fora significa cavidade que não cresceu para recebê-lo: aumenta a chance de fechamento por etapas |
| Tamanho do defeito | Pequeno, tipicamente 2 a 5 cm | Variável; acima de 5 cm entra no critério de gigante | São medidas de coisas diferentes — buraco na parede contra massa herniada. Não se comparam |
| Anomalias associadas | Geralmente isolada: 15% | Dois terços, com destaque para as cardíacas e os defeitos de tubo neural | Na onfalocele o exame que decide o prognóstico é o ecocardiograma, não o do abdome |
| Cromossomopatia | Pouco associada, incluindo as síndromes genéticas | Alta incidência de aneuploidia, sobretudo trissomias do 13 e do 18 | Onfalocele sem diagnóstico pré-natal invasivo aciona a genética clínica |
| Efeito do tamanho sobre a gravidade | Defeito pequeno não protege: o que decide é o intestino, e até 25% são complexas | Invertido — os defeitos pequenos, sobretudo centrais, são os de MAIOR associação | Estimar gravidade pelo tamanho do defeito erra nos dois sentidos, e na onfalocele erra ao contrário |
| Cirurgião pediátrico na sala de parto | Necessário | O protocolo diz expressamente que não é necessário | Muda quem se chama à uma da manhã, e quanto tempo se espera antes de agir |
| Curativo | Alças envolvidas em saco plástico estéril, com atenção ao posicionamento para não torcer sobre o mesentério | Curativo simples | A membrana já faz, na onfalocele, o que o saco plástico faz na gastrosquise |
| Idade gestacional ideal do parto | A partir de 38 semanas, se crescimento, doppler e líquido normais | A partir de 39 semanas, nas mesmas condições | É meta obstétrica, não expectativa: 30% a 50% das gastrosquises nascem prematuras de qualquer modo |
Os primeiros noventa minutos: o ato, o motivo e o que não se faz
| Quando | O que se faz | Por quê | O que NÃO se faz |
|---|---|---|---|
| Ao nascer | Reanimação pelo fluxo da Sociedade Brasileira de Pediatria; se boa vitalidade, clampeamento tardio | A criança é um recém-nascido antes de ser um defeito de parede | Não se atropela a reanimação para cuidar da alça, nem o contrário |
| Primeiro minuto | Manuseio asséptico e antissepsia das alças expostas, seja parto normal ou cesárea | A superfície exposta é uma porta de entrada contínua enquanto estiver aberta | Não se toca a alça sem técnica asséptica porque a criança 'ainda vai para o berçário' |
| Primeiro minuto | Envolver as alças em saco plástico estéril, secas por fora, posicionadas sem dobra sobre o mesentério | Barreira de vapor: interrompe de uma vez a perda de água e a de calor, que são o mesmo evento | Não se devolve víscera à cavidade e não se usa compressa embebida encharcada |
| Corte do cordão | Cortar a pelo menos 10 cm da base | Sobra de cordão é material de manuseio para o cirurgião depois | Não se clampeia rente, por hábito de sala de parto |
| Até o quinto minuto | Sonda orogástrica nº 8 ou 10, aspirar o conteúdo e instalar saco coletor | Estômago e alça distendidos não voltam para uma cavidade que já era pequena | Não se pinça a sonda: a função dela é deixar sair, não medir |
| Quinto minuto | Medir a temperatura axilar e manter normotermia daí em diante | É o indicador precoce de que a barreira está funcionando | Não se adia a medida porque 'a criança parece bem' |
| Assim que possível | Acesso venoso, suporte hídrico individualizado com glicemia e perdas acompanhadas, e antimicrobiano conforme indicação/protocolo | O terceiro espaço drena a volemia antes de qualquer sinal aparecer | Não se espera taquicardia para começar a repor |
| Suporte respiratório | Guiado pela condição clínica, pelo boletim de Silverman-Andersen; oxigênio em capacete ou ventilação mecânica se preciso | Suporte existe e é legítimo; o que se evita é insuflar o tubo digestivo | Ventilação prolongada com balão e máscara, e CPAP no pré-operatório, que o protocolo veta |
| Transporte | Sonda aberta, decúbito lateral direito, atenção ao posicionamento das alças dentro do saco | O decúbito melhora o retorno venoso e acomoda o bloco sem tracionar o pedículo | Não se transporta no colo, e não se transporta sem incubadora se a cirurgia não for imediata |
Do miligrama ao mililitro num recém-nascido de 2.180 g — e o que o SUS fornece
| Fármaco e régua | Dose por tomada | Dose diária | Consta da Rename 2024? | O que isso significa na prática |
|---|---|---|---|---|
| Cefoxitina — protocolo de profilaxia de 2026, linha específica do defeito de parede, 100 mg/kg a cada 8 h | 218 mg | 654 mg (300 mg/kg/dia) | Não consta, em nenhuma apresentação | É a droga que a única linha brasileira publicada indica para esta cirurgia, e não há apresentação de elenco para converter em mililitro |
| Cefazolina + metronidazol — a alternativa que o mesmo protocolo dá na falta de cefoxitina; 20 mg/kg a cada 8 h e 7,5 mg/kg a cada 12 h | 43,6 mg e 16,4 mg | 130,8 mg e 32,7 mg | Cefazolina não consta; metronidazol só em comprimido, suspensão oral e gel vaginal | A rota de fuga também não está no elenco, e a forma injetável do metronidazol não existe na Rename |
| Clindamicina + aminoglicosídeo — a segunda alternativa do mesmo protocolo; clindamicina 5 mg/kg a cada 8 h | 10,9 mg | 32,7 mg | Só cápsula de 150 e 300 mg e apresentações tópicas | Não há apresentação injetável de clindamicina no elenco, e cápsula não se administra a um neonato em jejum |
| Amicacina, o aminoglicosídeo da mesma alternativa; 15 mg/kg a cada 24 h para 35 semanas ou mais | 32,7 mg | 32,7 mg | Sim — sulfato de amicacina 250 mg/mL, solução injetável, Componente Estratégico | É o único componente de toda a linha que o SUS fornece; 32,7 mg em 250 mg/mL dá 0,13 mL, volume que não se mede em seringa comum e exige diluição |
| Gentamicina, o outro aminoglicosídeo, e o do protocolo de 2021; 4 mg/kg a cada 24 h para 35 semanas ou mais | 8,7 mg | 8,7 mg | Só apresentação oftálmica | A dupla que o protocolo de 2021 prescreve na sala de parto não tem, no elenco, forma sistêmica |
| Ampicilina, a outra metade da dupla de 2021; 25 mg/kg a cada 8 h na faixa deste bebê | 54,5 mg | 163,5 mg | Não consta, em nenhuma apresentação | Medida por capítulos irmãos desta apostila e reconferida aqui pelo índice do elenco |
| Sulfadiazina de prata, para epitelização da membrana na onfalocele gigante | Uso tópico | Uso tópico | Sim — creme a 10 mg/g (1%), Componente Básico | É o único fármaco deste capítulo que o SUS fornece na apresentação exata que o protocolo prescreve |
Reconhecimento e cuidado inicial
| Achado | Gastrosquise | Onfalocele |
|---|---|---|
| Relação com o cordão | Defeito em geral à direita, cordão separado | Defeito na inserção do cordão |
| Membrana | Ausente | Geralmente presente; pode romper |
| Prioridade local | Proteger alças, evitar torção, calor e perdas | Preservar saco, proteger sem compressão e avaliar conteúdo |
| Associações e seguimento | Avaliar atresia e condição intestinal | Pesquisar malformações cardíacas e outras associações |
| Decisão de fechamento | Tolerância fisiológica e anatomia pela equipe | Tamanho, conteúdo, pulmão e associações pela equipe |
Tabela de gentamicina com faixas sobrepostas. Na versão 6 do protocolo de profilaxia citado, o primeiro estrato aparece como idade gestacional maior ou igual a 29 semanas e se sobrepõe aos seguintes, produzindo esquemas diferentes para o mesmo recém-nascido. A inconsistência impede escolher uma linha por simples leitura do quadro. Confirmar dose e intervalo na referência neonatal adotada pelo serviço, com a equipe e a farmácia; considerar idade gestacional, idade pós-natal e função renal.
Cefoxitina: dose por tomada ou dose diária. A tabela neonatal consultada registra 100 mg/kg a cada oito horas, sem a estratificação usada para outros fármacos. O material já identifica essa linha como pendência de conferência. A comparação entre tabelas não basta para estabelecer uma dose substituta. Não transcrever o valor como prescrição validada: esclarecer unidade, intervalo e população na fonte farmacológica do serviço e registrar a orientação da equipe responsável.
Recomendação e limite da evidência. A tabela de profilaxia apresenta cefoxitina por 48 horas para defeitos da parede abdominal, enquanto seu rodapé reconhece a limitação dos estudos sobre profilaxia até a correção. Essa ressalva deve acompanhar a leitura da linha. A padronização local orienta o esquema, com reavaliação pela evolução e pelo procedimento; sinais de infecção exigem investigação e decisão terapêutica próprias, sem serem tratados apenas como motivo para prolongar profilaxia.
Frequências com definições pouco claras. O protocolo cita 15% de outras anomalias e até 25% de alterações gastrointestinais ou gastrosquise complexa, sem tornar inteiramente comparáveis esses grupos. Não somar os números nem convertê-los em uma probabilidade individual. O ponto assistencial é examinar a integridade, a perfusão e as condições das alças, mantendo a possibilidade de atresia, estenose, perfuração ou outras complicações mesmo quando o estudo pré-natal não as demonstrou.
Tamanho e conteúdo da onfalocele. Os limites de pequena e gigante apresentados no protocolo deixam situações intermediárias sem enquadramento inequívoco. Por isso, registrar tamanho do defeito, conteúdo, presença de fígado, integridade da membrana e repercussão clínica é mais útil que forçar um rótulo. O planejamento do fechamento considera a relação entre vísceras e cavidade abdominal e a tolerância respiratória e circulatória, com decisão da equipe cirúrgica.
Descrição clínica e codificação. As definições resumidas de gastrosquise e onfalocele nas fontes de vigilância não descrevem todas as apresentações anatômicas mencionadas no protocolo cirúrgico. Diante de uma apresentação incomum, registrar posição do cordão, presença de membrana e órgãos exteriorizados, além do diagnóstico discutido com a equipe. Confirmar o código e o preenchimento da declaração com o setor responsável, sem alterar a descrição clínica para fazê-la caber em uma frase do manual.
Descompressão gástrica. O protocolo citado utiliza sondas nº 8 ou 10 e detalha o calibre conforme o peso; no exemplo de 2.180 g, descreve nº 10. Esse dado deve ser lido no contexto do dispositivo e da rotina neonatal do serviço. Além do calibre, conferir posicionamento, permeabilidade, modo de drenagem e volume eliminado. Registrar as perdas ajuda a equipe a ajustar o balanço hídrico durante a estabilização e o transporte.
Disponibilidade de medicamentos e nutrição. A busca na Rename registrada no material encontrou diferenças entre os esquemas hospitalares citados e as apresentações listadas no elenco. Esse resultado não equivale a uma auditoria de estoque ou de fornecimento hospitalar. Antes da prescrição e da transferência, confirmar com a farmácia os antimicrobianos, apresentações e preparos disponíveis. A nutrição parenteral também exige organização própria; sua ausência em uma lista de medicamentos não demonstra indisponibilidade assistencial.
Seguimento da falência intestinal. A norma de transplantes citada no capítulo inclui gastrosquise entre as causas de falência intestinal em crianças avaliadas para transplante intestinal. Esse registro contextualiza uma possibilidade do seguimento especializado; não implica indicação pelo diagnóstico isolado do defeito de parede. No cuidado inicial, a informação útil é preservar as condições das alças e organizar continuidade cirúrgica e nutricional. A avaliação para transplante depende da evolução e dos critérios aplicados pelo serviço responsável.
Edição utilizada. O protocolo de defeitos da parede abdominal consultado é de 2021 e previa revisão em 2023. Esses dados identificam a referência disponível no material, sem comprovar sua atualização atual. Os princípios de proteção das vísceras, estabilização e encaminhamento devem ser articulados com o fluxo principal do capítulo; detalhes de reanimação, medicamentos e suporte neonatal precisam seguir a orientação adotada pela equipe assistente.
A conduta, hora a hora
O que segue é o plantão do filho da Elidia, do minuto zero à alta, com o que se faz e com a razão de cada coisa. Ele nasceu num hospital que não tem cirurgião pediátrico nem terapia intensiva neonatal, o que é a situação em que a maior parte dos internos brasileiros vai encontrar esta doença. Quase tudo o que decide o desfecho é feito por gente que não vai operar.
Duas observações antes de começar. A primeira: a ordem dos marcos é cronológica, mas os quatro primeiros acontecem quase ao mesmo tempo, com mãos diferentes. Ninguém termina a proteção para só então pensar em temperatura. A segunda: as doses e os esquemas abaixo são os que os documentos brasileiros trazem, e duas dessas linhas estão sob ressalva — a divergência entre os dois protocolos sobre qual antibiótico usar, e a conta da cefoxitina neonatal que não se comporta como as suas vizinhas. As duas estão registradas na conferência das fontes, e nenhuma se resolve na sala de parto.
Minuto 0 a 1 — a criança nasce
O primeiro ato não é examinar o defeito: é reanimar, se for preciso, pelo fluxo da Sociedade Brasileira de Pediatria, que é o dono desse passo e mora no capítulo Reanimação neonatal em sala de parto, da apostila de Neonatologia. Se a criança tem boa vitalidade — respirando ou chorando, com tônus em flexão —, o clampeamento tardio do cordão continua indicado. Na gastrosquise, porém, o contato pele a pele e a amamentação em sala de parto ficam prejudicados, e o protocolo brasileiro diz isso expressamente: é necessário proteger as alças de maneira asséptica e não permitir perda de calor e umidade. O cordão se corta a pelo menos dez centímetros da base, para dar material de manuseio ao cirurgião depois. E há uma regra de convocação que quase ninguém sabe: na gastrosquise o cirurgião pediátrico é necessário na sala de parto; na onfalocele, o protocolo diz que não é.
Prescrição- Reanimação conforme o fluxo vigente da Sociedade Brasileira de Pediatria, sem atalho por causa do defeito
- Clampeamento tardio se boa vitalidade; cortar o cordão a ≥ 10 cm da base
- Manuseio asséptico do recém-nascido desde o primeiro toque, em parto normal ou cesárea
- Dizer em voz alta à mãe que o pele a pele vai ficar para depois, e por quê
Minuto 1 a 3 — a proteção, e é aqui que o capítulo se decide
As vísceras expostas não se devolvem à cavidade. Elas se envolvem em saco plástico estéril, com as alças posicionadas de modo a não se dobrarem sobre o próprio mesentério, e depois se faz o curativo que sustenta essa posição. O saco plástico é uma barreira de vapor: interrompe de uma vez a evaporação e a perda de calor, que na criança exposta são o mesmo evento. Compressa embebida em soro, mesmo morno, faz o contrário — oferece mais superfície molhada do que a própria alça, evapora enquanto estiver úmida e adere à serosa quando seca. Na onfalocele, com a membrana íntegra, o protocolo pede apenas curativo simples: o saco já faz o trabalho que o plástico faria. Não existe, aqui, nada de improviso indigno: um saco coletor estéril ainda lacrado é material de sala de parto e serve.
Prescrição- Gastrosquise: envolver as alças em saco plástico estéril, secas por fora, sem compressão
- Posicionar as alças dentro do saco de modo a evitar torção sobre o mesentério, e fixar essa posição com curativo
- Onfalocele com membrana íntegra: curativo simples, sem tentar reduzir nada
- Não devolver víscera à cavidade, não envolver em compressa encharcada e não comprimir o bloco herniado
Minuto 3 a 5 — a sonda e o termômetro
Duas medidas pequenas que sustentam tudo o que vem depois. A sonda orogástrica descomprime o estômago e impede que a alça continue distendendo: passa-se sonda nº 8 ou 10 — nº 8 abaixo de 1.500 g, nº 10 nos maiores, e o filho da Elidia, com 2.180 g, é nº 10 —, aspira-se o conteúdo gástrico e instala-se saco coletor. A sonda fica aberta, não pinçada: a função dela é deixar sair, e quem a fecha para medir resíduo de hora em hora está devolvendo à alça exatamente o que tirou. E ao quinto minuto de vida se mede a temperatura axilar, com a ordem, escrita no protocolo, de manter normotermia daí em diante. Esse número é a única medida precoce de que a barreira está funcionando.
Prescrição- Sonda orogástrica nº 10 neste bebê (nº 8 se < 1.500 g), aspirar o conteúdo e instalar saco coletor
- Manter a sonda ABERTA, em drenagem, do nascimento até o pós-operatório
- Temperatura axilar aferida no 5º minuto de vida, registrada, e normotermia mantida daí em diante
- Fonte de calor e incubadora ligadas antes de a criança sair da mesa
Minuto 5 a 30 — veia, volume e o antibiótico
Acesso venoso periférico assim que possível, para hidratação e antibiótico. O plano hídrico começa cedo e deve ser individualizado; o acréscimo de 50% é um exemplo do protocolo citado, não uma necessidade idêntica em todos os casos: a parede intestinal inflamada e o mesentério sequestram plasma, a luz do intestino se enche, e esse terceiro espaço drena a volemia de um bebê que não sangra, não vomita e fica rosado por um tempo bom antes de descompensar. O sódio, diz o protocolo, começa no primeiro dia de vida — o que contraria o costume neonatal de esperar a contração do extracelular, e por isso está registrado entre as divergências. Quanto ao antibiótico, os dois documentos brasileiros discordam, e a discordância é do capítulo, não do interno: o protocolo de 2021 manda amplo espectro com ampicilina e gentamicina; o protocolo de profilaxia de 2026 classifica o defeito de parede como cirurgia contaminada e manda cefoxitina por 48 horas, com uma nota de rodapé admitindo que não há estudo controlado sustentando a indicação. Prescreva o que a comissão de infecção do seu serviço padronizou, e escreva no prontuário qual régua seguiu.
Prescrição- Acesso venoso periférico; se a via for demorar, avisar quem vai transportar
- Plano de fluidos por manutenção, déficit e perdas, ajustado por perfusão, diurese, peso, eletrólitos e balanço; não aplicar 50% acima da basal automaticamente a todo recém-nascido.
- Sódio no primeiro dia de vida, conforme o protocolo — e ver a divergência registrada neste capítulo
- Antibiótico conforme a padronização do serviço, com a régua citada no prontuário; reavaliar a manutenção diariamente
- Reposição volêmica ativa até a correção cirúrgica, porque a perda por resíduo gástrico é de grande volume
Minuto 30 à saída — regulação e transporte
Se a cirurgia não vai acontecer aqui, o telefone é o próximo procedimento, e ele é tão terapêutico quanto o saco plástico. A criança viaja em incubadora de transporte, com a sonda aberta, em decúbito lateral direito — o protocolo justifica a posição pela melhora do retorno venoso, e ela também acomoda o bloco herniado sem tracionar o pedículo. Durante todo o percurso alguém tem de estar olhando o posicionamento das alças dentro do saco, porque a torção sobre o mesentério isquemia de uma vez tudo o que está fora. Ventilação mecânica se indica pela condição clínica, e não por precaução: o protocolo lembra que ela pode reduzir o débito cardíaco e a circulação mesentérica. A organização da transferência, a regulação e a contrarreferência pertencem ao capítulo O paciente que some no caminho, da apostila de Medicina Preventiva e Saúde Coletiva, e este capítulo cede a ele o desenho da rede, ficando com o que se prepara antes de o transporte sair.
Prescrição- Acionar a central de regulação com o diagnóstico dito pelo nome, o peso e a idade gestacional
- Incubadora de transporte aquecida, sonda orogástrica aberta, decúbito lateral direito
- Conferir o posicionamento das alças dentro do saco antes de sair e durante o trajeto
- Suporte ventilatório conforme necessidade, evitando insuflação digestiva desnecessária. Apneia ou falha ventilatória exigem ventilação imediata e avaliação de via aérea pela equipe, sem proibição absoluta de suporte vital.
- Enviar cópia do cartão de pré-natal e do laudo do ultrassom junto com a criança
Chegada à terapia intensiva neonatal — o pré-operatório
Aqui a lista fica curta e repetitiva de propósito, porque repetição é o que mantém um bebê vivo: decúbito lateral direito preferencial, saco plástico com curativo protegendo as alças, manuseio sempre com técnica asséptica, sonda calibrosa aberta, suporte respiratório por capacete ou ventilação mecânica se necessário — e não fazer CPAP, que é uma proibição explícita do protocolo, porque insuflar o tubo digestivo é a última coisa que se quer numa criança que precisa caber de volta na própria barriga. A cota hídrica é revista pela perfusão, diurese, glicemia, peso, eletrólitos e perdas, sem manter um acréscimo fixo automaticamente. Os aminoácidos da nutrição parenteral começam no primeiro dia de vida, e não no dia em que a alimentação enteral falhou. E é aqui que se pedem o ecocardiograma com doppler e as ultrassonografias abdominal e de vias urinárias, especialmente na onfalocele.
Prescrição- Decúbito lateral direito; saco plástico e curativo mantidos e revistos a cada manuseio
- Plano de fluidos por manutenção, déficit e perdas, ajustado por perfusão, diurese, peso, eletrólitos e balanço; não aplicar 50% acima da basal automaticamente a todo recém-nascido.
- Aminoácidos na nutrição parenteral no primeiro dia de vida
- Escolher suporte respiratório pela fisiologia e pela malformação com neonatologia; evitar distensão digestiva e reconhecer quando intubação e ventilação invasiva são necessárias.
- Ecocardiograma com doppler, ultrassonografia abdominal e de vias urinárias
- Cariótipo antes do parecer da genética se houver anomalias múltiplas ou estado grave
A cirurgia — o que o interno precisa entender, sem descrever o ato
A decisão que governa tudo não é de técnica, é de volume: cabe ou não cabe. A cavidade abdominal desse bebê nunca cresceu para receber o que está fora dela, e forçar a redução não devolve órgão ao lugar — cria uma cavidade sob pressão, que comprime a veia cava e derruba o retorno venoso e o débito cardíaco, empurra o diafragma e inviabiliza a ventilação, fecha a diurese e estrangula os vasos do intestino que se acabou de salvar. Quando a tensão da parede não permite a redução primária, usa-se o silo, que permite redução gradual conforme as condições clínicas e das alças; o protocolo descreve o silo montado com saco plástico de videolaparoscopia e sonda retal ou tubo traqueal como anel de fixação. Fechamento estadiado não é técnica de segunda escolha: é a resposta a um problema de volume que a anatomia impôs. Na onfalocele, a decisão depende das comorbidades e do tamanho do defeito — defeitos pequenos podem ser reparados nas primeiras 24 a 72 horas de vida; as gigantes recebem silo ou epitelização da membrana com solução tópica, com correção tardia da hérnia. A síndrome compartimental abdominal do adulto tem dono próprio, o capítulo Cirurgia de controle de danos e tríade letal, da apostila de Trauma, e a fisiologia é a mesma; o que não transpõe é o resto — ali o abdome se abre porque o doente está em choque e a cirurgia precisa parar, e aqui ele não se fecha porque a casa é pequena demais, num bebê que pode estar hemodinamicamente bem.
Prescrição- Entender que o critério de fechamento primário é a pressão intra-abdominal resultante, não a habilidade do cirurgião
- Onfalocele pequena: reparo nas primeiras 24 a 72 horas de vida
- Onfalocele gigante: silo ou epitelização da membrana, com correção tardia da hérnia
- Manter o antibiótico enquanto houver silo, porque ele aumenta o risco de infecção
Do pós-operatório à alta — as seis semanas que ninguém antecipa
A operação resolve a parede; o intestino resolve sozinho, no tempo dele, e o tempo dele é longo. O íleo adinâmico prolongado é regra e não complicação, principalmente na gastrosquise, e produz resíduo gástrico elevado, que se drena por sonda e cujo volume se repõe. A nutrição parenteral entra precoce e pede acesso venoso seguro, de preferência cateter central de inserção periférica. A dieta trófica começa em 10 mL/kg quando o resíduo estiver amarelo ou salivar e houver ruídos hidroaéreos por 24 horas, e progride lentamente conforme a aceitação. A primeira escolha é sempre leite humano, preferencialmente cru, e o objetivo declarado no protocolo é a alta em aleitamento materno exclusivo — o que significa que a lactação precisa ser sustentada desde o primeiro dia, num hospital onde o bebê não mama. Analgesia com escala de dor e opioide quando necessário; curarizantes se avaliam nos pacientes com silo e nos de fechamento primário. Nos que estão com silo, a redução é diária ou conforme as condições, e a síndrome compartimental se vigia pela diurese, pelos parâmetros ventilatórios e pela perfusão de órgãos: quando aparece, é emergência cirúrgica. O antibiótico se reavalia todo dia — quem reduziu as alças facilmente e cuja mãe não tinha risco infeccioso pode ter o antibiótico suspenso no pós-operatório. E há o acolhimento, que o protocolo lista como conduta e não como gentileza: livre acesso à unidade, inclusão dos pais nos cuidados, contato pele a pele e estímulo à lactação.
Prescrição- Nutrição parenteral precoce, com cateter central de inserção periférica
- Sonda aberta com reposição do volume drenado enquanto o resíduo for alto
- Dieta trófica 10 mL/kg quando o resíduo for amarelo ou salivar e houver ruídos por 24 h; progredir devagar
- Leite humano, preferencialmente cru, com a meta de alta em aleitamento materno exclusivo
- Analgesia com escala de dor; opioide quando necessário
- Reavaliar o antibiótico diariamente; manter enquanto houver silo
- Livre acesso dos pais à unidade, inclusão nos cuidados e estímulo à lactação desde o primeiro dia
Como saber se está funcionando
Esta doença quase não avisa. O bebê que está perdendo água e calor fica rosado, quieto e aparentemente bem por um tempo bom, e o que muda primeiro não é a frequência cardíaca: é a temperatura e o volume que sai pela sonda. Por isso a reavaliação aqui é de números pequenos, medidos com frequência, e não de impressão à beira do leito.
Os parâmetros abaixo valem do nascimento à alta, com pesos diferentes em cada fase. Nos primeiros minutos, temperatura e posição das alças são tudo. Depois da cirurgia, o eixo se desloca para a pressão dentro da barriga e para o intestino que precisa voltar a funcionar.
Esperado: Normotermia mantida, sem oscilação para baixo após cada manuseio
Se não melhora: Revise a barreira antes de aumentar a fonte de calor: procure pano úmido em contato com a criança, saco plástico frouxo ou aberto, e tempo de exposição durante os procedimentos. O bebê frio consome mais oxigênio, acidifica, aumenta a resistência vascular pulmonar e coagula pior — chega à anestesia com três desvantagens evitáveis.
Esperado: Alças acomodadas sem dobra sobre o mesentério, coloração mantida, sem tensão do curativo
Se não melhora: Mudança de cor ou de turgor do bloco herniado é isquemia até prova em contrário, e a causa mais comum é torção sobre o pedículo, não trombose. Reposicione sem comprimir e chame o cirurgião — todo o intestino médio está pendurado num único pedículo que atravessa um orifício de poucos centímetros.
Esperado: Volume que diminui ao longo dos dias, e aspecto que evolui de esverdeado para amarelo ou salivar
Se não melhora: Débito gástrico elevado pode refletir o íleo esperado, mas aumento novo ou persistente também exige avaliar obstrução, perfusão, infecção e tolerância à dieta. Conferir permeabilidade e repor perdas conforme o plano; não fechar a sonda para esconder o débito nem atribuir toda piora a avanço rápido da dieta.
Esperado: Fluxo urinário estável, sem queda súbita após redução do silo ou após o fechamento da parede
Se não melhora: Queda de diurese depois de uma redução é o primeiro dos três sinais que o protocolo nomeia para a síndrome compartimental abdominal, ao lado do aumento dos parâmetros ventilatórios e da alteração da perfusão de órgãos. Não é para observar mais um turno: o documento a classifica como emergência cirúrgica.
Esperado: Pressões estáveis, sem necessidade crescente para o mesmo volume
Se não melhora: Piora ventilatória após redução é a barriga empurrando o diafragma, não pulmão adoecendo. A conduta é cirúrgica, não respiratória — aumentar parâmetro para vencer uma cavidade sob pressão trata o sintoma e esconde a causa.
Esperado: Perfusão e diurese adequadas, balanço compatível e ausência de sobrecarga com plano titulado; uma cota fixa acima da basal não prova reposição correta.
Se não melhora: Expansões repetidas exigem reavaliar perdas, prescrição realmente infundida, perfusão, infecção, função cardíaca e possível comprometimento por fechamento/tensão abdominal. Não atribuir toda instabilidade apenas a manutenção subestimada.
Esperado: Suspensão no pós-operatório do bebê que reduziu as alças facilmente e cuja mãe não tinha risco infeccioso
Se não melhora: Manter enquanto houver silo, porque o silo aumenta o risco de infecção. Fora disso, antibiótico que ninguém reavalia vira antibiótico que ninguém para: a régua da escolha, do descalonamento e da duração é do capítulo O antibiótico que ninguém para, da apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado.
Onde o erro machuca
O dano: Não devolve órgão ao lugar: cria uma cavidade sob pressão numa barriga que nunca cresceu para receber aquele volume. A pressão intra-abdominal alta comprime a veia cava e derruba o retorno venoso e o débito cardíaco, empurra o diafragma e inviabiliza a ventilação, fecha as veias renais e estrangula os vasos do próprio intestino que se queria salvar. E, com o bloco reduzido à força e o abdome fechado por fora, o dano fica invisível até a criança parar de urinar.
Como pegar a tempo: Trate o buraco como o tamanho da casa, não como um acidente a corrigir com a mão. A redução é decisão cirúrgica, tomada com a criança anestesiada e com a possibilidade de montar um silo se não couber. A primeira mão a tocar essa criança não é a que empurra: é a que protege.
O dano: É o erro mais bem-intencionado da medicina neonatal e ele acelera exatamente o que se quer impedir. A compressa não é barreira: é pavio. Oferece mais superfície molhada do que a própria alça e continua evaporando enquanto estiver úmida, esfriando o bebê mais rápido do que a exposição seca esfriaria — e cada grama de água evaporada leva junto cerca de 0,58 kcal. Quando seca, adere à serosa e arranca serosa na retirada.
Como pegar a tempo: Saco plástico estéril, alça seca por fora, barreira de vapor. Se a única coisa disponível for um saco coletor estéril ainda lacrado, ele serve — e serve melhor do que a compressa mais bonita do carro de curativo.
O dano: A sonda existe para deixar sair. Fechada, ela devolve à alça o volume que acabou de drenar e mantém a distensão que impede a redução; ausente, deixa o estômago encher de ar e de secreção enquanto se espera transporte. Nos dois casos o resultado é o mesmo: alça distendida não volta para uma cavidade pequena, e a cirurgia começa pior do que começaria.
Como pegar a tempo: Sonda nº 8 abaixo de 1.500 g e nº 10 nos maiores, aspirada de início e mantida ABERTA com saco coletor, do nascimento ao pós-operatório. O volume drenado se registra por turno e se repõe — medir é consequência da drenagem, não motivo para interrompê-la.
O dano: Os dois empurram ar para o estômago e para as alças. O protocolo brasileiro veta os dois pelo mesmo motivo, e o CPAP com uma proibição explícita: insuflar o tubo digestivo de uma criança que precisa caber de volta na própria barriga é trabalhar contra a cirurgia que se vai fazer em horas. A ventilação mecânica, por sua vez, pode reduzir o débito cardíaco e a circulação mesentérica, e por isso se indica pela condição clínica e não por precaução.
Como pegar a tempo: Suporte respiratório guiado pela avaliação clínica, com capacete ou ventilação mecânica quando indicado. Se a criança precisa de pressão positiva para viver, ela recebe — o que não se faz é insuflar por conveniência de rotina.
O dano: A perda aqui é dupla e nenhuma das duas se vê. A evaporação pela superfície exposta leva água e calor no mesmo evento; o terceiro espaço — parede intestinal inflamada, mesentério edemaciado, luz cheia — drena a volemia de um bebê que não sangra nem vomita. Recém-nascido descompensa tarde e descompensa junto: quando a taquicardia aparece, a reposição já está estruturalmente atrasada, e ainda há a perda de grande volume pelo resíduo gástrico.
Como pegar a tempo: Prever perdas aumentadas na gastrosquise e titular reposição com vigilância. Manutenção, déficit e perdas devem estar explícitos; expansão ou aumento de cota não substituem reavaliação nem são iguais na onfalocele íntegra.
O dano: Em dois terços dos casos há outra anomalia, com destaque para as cardíacas e os defeitos de tubo neural, e alta incidência de aneuploidia — sobretudo trissomias do 13 e do 18. Levar essa criança à anestesia geral sem ecocardiograma é descobrir a cardiopatia no pior momento possível. E há a inversão que engana: os defeitos pequenos, especialmente os centrais, são os de MAIOR associação, de modo que a onfalocele que parece mais fácil é a que tem mais chance de trazer o problema que decide o prognóstico.
Como pegar a tempo: Diante de uma onfalocele, o exame que decide o prognóstico não é do abdome: ecocardiograma com doppler, ultrassonografia abdominal e de vias urinárias, e parecer da genética se não houve diagnóstico pré-natal invasivo — com cariótipo colhido ANTES do parecer se houver anomalias múltiplas ou estado grave, porque a amostra some com a criança.
O que dizer ao paciente e à família
Elidia tem dezenove anos, veio de moto do distrito onde mora e acabou de ver o filho nascer com o intestino do lado de fora. Ela ouviu, meses atrás, que tinha uma coisa na barriga do bebê, contou isso na unidade básica e recebeu como resposta que iam ver no próximo ultrassom — que nunca aconteceu, porque a vaga era em outro município e ela não conseguiu o transporte. Nada nessa sequência é culpa dela, e a primeira obrigação de quem for falar é não deixar a frase sair torta.
A técnica da má notícia e a conversa sobre prognóstico incerto pertencem aos capítulos Comunicação de más notícias e O que se diz quando não se sabe, da apostila de Comunicação, Ética e Segurança na Prática, e é lá que estão a sequência, o cenário e o manejo do silêncio. Este capítulo fica com o conteúdo: o que é verdade nesta doença, o que ainda não se sabe, e o que não se promete.
Três coisas atravessam todas as falas abaixo. A primeira: o que assusta na foto não é o que decide o prognóstico. A segunda: a parte difícil não é a operação, é o mês e meio depois dela. A terceira: essa mãe vai ficar semanas num hospital longe de casa, sem o filho no colo, e a lactação que se pede a ela desde o primeiro dia é um trabalho, não um detalhe.
Nos primeiros minutos, ainda na sala de parto, enquanto a equipe protege as alças
“"Ele nasceu bem, chorou e está se mexendo. Ele tem um defeito na parede da barriga, e parte do intestino está do lado de fora. Isso a gente já sabia que podia acontecer, pelo ultrassom que a senhora fez. Agora eu preciso proteger esse intestino e manter ele quentinho, e por isso não vou poder colocar ele no seu colo agora. Não é porque ele está mal. É porque o que mais faz mal a ele neste momento é esfriar."”
Não diga: Não diga 'está tudo bem' diante de uma víscera exposta — ela está olhando. E não desapareça com a criança sem explicar por que o colo vai ficar para depois: a mãe que não recebe a explicação conclui sozinha, e o que ela conclui é que o filho foi tirado dela.
Quando ela pergunta se foi alguma coisa que ela fez
“"Não. A causa disso não é conhecida, e não tem nada a ver com o que a senhora fez ou deixou de fazer durante a gestação. É um defeito de fechamento que acontece por volta da sexta semana, quando muita gente ainda nem sabe que está grávida. Eu sei que a senhora vai voltar nessa pergunta várias vezes nas próximas semanas, e a resposta vai continuar sendo essa."”
Não diga: Não recite a lista de fatores associados — tabagismo, álcool, drogas, índice de massa corporal baixo — como resposta a essa pergunta. Ela é uma associação epidemiológica de população, não uma explicação do caso dela, e usada nessa hora funciona como acusação. Se houver algo a tratar, trata-se depois, com outro nome e em outra conversa.
Quando ela pergunta se foi por causa do ultrassom que ninguém explicou
“"A senhora fez o que era para fazer: fez o ultrassom, contou o que ouviu e voltou à unidade. O encaminhamento que devia ter sido feito não foi, e o transporte que a senhora precisava não existiu. Isso é uma falha do serviço, não da senhora. Vou registrar isso no prontuário, porque precisa ficar escrito."”
Não diga: Não minimize com 'de qualquer jeito daria no mesmo' — pode não dar, e ela vai descobrir. E não transforme a conversa numa denúncia da colega da unidade básica na frente da paciente: registre o fato, não a acusação.
Ao explicar por que a criança vai ser transferida
“"Este hospital não tem cirurgião de criança nem terapia intensiva para recém-nascido, e ele precisa dos dois. Já acionei a regulação. Ele vai numa incubadora, com uma equipe junto, e vou mandar cópia do seu cartão e do laudo do ultrassom com ele. Assim que houver vaga para a senhora ir junto, ou logo depois, a senhora precisa estar lá — ele vai ficar semanas internado, e a senhora faz parte do tratamento."”
Não diga: Não prometa horário de saída de ambulância nem vaga que você não controla. E não deixe a mãe descobrir depois que ela poderia ter ido junto: diga o que se sabe e o que ainda não se sabe, com essas palavras.
Ao explicar o que a operação resolve e o que ela não resolve
“"A cirurgia fecha a barriga. Ela não faz o intestino voltar a funcionar — isso o intestino faz sozinho, no tempo dele, e esse tempo costuma ser de semanas. Nesse período ele vai se alimentar pela veia, com uma sonda no estômago para não acumular, e a gente vai tentar o leite aos poucos, começando com muito pouco. Quando eu disser que ele não pode mamar ainda, não é recuo: é o esperado."”
Não diga: Não dê alta prevista em dias. E não deixe a família achar que resíduo alto, sonda que continua e dieta suspensa são complicações — na gastrosquise o íleo prolongado é regra, e a família que não sabe disso vive cada suspensão como uma recaída.
Quando a criança tem onfalocele e ainda não se sabe o resto
“"O que a senhora está vendo é a parte que dá para operar. O que eu preciso saber agora é se tem alguma outra coisa junto, principalmente no coração — porque nesse tipo de defeito isso é comum. Vou pedir um ecocardiograma e alguns exames, e vou pedir a avaliação de um médico geneticista. Resposta eu ainda não tenho, e não vou inventar nenhuma; no momento em que ela chegar, a senhora fica sabendo junto comigo."”
Não diga: Não fale em síndrome, em trissomia nem em número de cromossomo antes de ter resultado. Cariótipo colhido não é diagnóstico dado, e um nome dito cedo demais não sai mais da cabeça da família, nem do prontuário.
No primeiro dia da internação, sobre o leite
“"Ele não vai mamar por enquanto, mas o leite da senhora é a primeira escolha quando ele puder comer, e ele só vai existir se a senhora começar a tirar agora. Vou pedir para alguém da equipe ensinar hoje ainda, e a senhora vai ter acesso livre à unidade para ficar com ele, tocar nele e participar dos cuidados. Isso não é visita — é parte do tratamento dele."”
Não diga: Não peça 'ordenha' sem oferecer quem ensine, horário e lugar. Pedir a uma mãe que sustente a lactação por semanas, longe de casa e sem apoio prático, é pedir o que não se pode entregar — e depois cobrar dela o resultado.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Amplo espectro desde a sala de parto
Providenciar acesso venoso para ofertar hidratação e antibióticos de amplo espectro — ampicilina mais gentamicina — assim que possível, ainda entre as primeiras medidas na sala de parto, antes mesmo do transporte.
PRO.MED-NEO.068 — Defeitos da parede abdominal: gastrosquise e onfalocele, versão 1, emissão 24/12/2021, item 4.1.9.
Profilaxia cirúrgica de cirurgia contaminada, por 48 horas
Defeitos de parede abdominal, onfalocele e gastrosquise, classificam-se como cirurgia contaminada e recebem cefoxitina por 48 horas; na falta de cefoxitina, cefazolina mais metronidazol. A duração é a da profilaxia, não a de um tratamento.
PRT.CCIRAS.015 — Profilaxia antimicrobiana em cirurgias, versão 6, emissão 27/02/2026, publicada pela Resolução nº 32/2026, tabela de cirurgias em neonatologia.
Não há evidência que sustente qualquer das duas até a correção
Nota de rodapé pendurada nessa mesma linha: não há estudos controlados que indiquem a necessidade ou não de uso profilático de antimicrobianos até a correção cirúrgica; havendo sinais sistêmicos ou locais de infecção, inicia-se antibioticoterapia após coleta de culturas de sítios estéreis.
PRT.CCIRAS.015, versão 6, nota 3 da tabela de cirurgias em neonatologia.
Alinhar o antimicrobiano com a equipe neonatal, a cirurgia e a comissão de controle de infecção do serviço de destino. Registrar finalidade, dose, horário de início e reavaliação prevista. A manutenção depende do procedimento e da evolução, incluindo eventual uso de silo. Se surgirem sinais de infecção, discutir investigação e tratamento, mantendo clara a mudança de finalidade da prescrição.
Começa no primeiro dia
Cota hídrica 50% maior que a habitual, e iniciar sódio no primeiro dia de vida, entre as medidas de pré-operatório na terapia intensiva neonatal. A justificativa implícita está no item seguinte do mesmo protocolo: há perda de resíduo gástrico de grande volume, com necessidade de reposição volêmica até a correção cirúrgica.
PRO.MED-NEO.068, versão 1, itens 4.3.6 e 4.3.7.
A rotina neonatal geral espera a contração do extracelular
A prática corrente em neonatologia é adiar a oferta de sódio nos primeiros dias, até que ocorra a contração fisiológica do compartimento extracelular e a diurese se estabeleça, para não somar sódio a uma criança que ainda está eliminando o excesso com que nasceu. Nenhum dos documentos brasileiros abertos por este capítulo escreve essa regra — ela é a rotina que o protocolo contraria sem citar.
Rotina de neonatologia; não localizada em documento brasileiro publicado entre as fontes deste capítulo, e por isso registrada aqui como posição sem lastro documental citável.
Calcular manutenção, déficit e perdas medidas, com reavaliação de perfusão, diurese, peso, eletrólitos e drenagem gástrica. A gastrosquise pode acrescentar perdas importantes, mas um aumento fixo do volume basal não corresponde à necessidade de todas as crianças. Deixar a conta explícita na prescrição e na passagem de caso para permitir ajustes conforme a resposta.
Cirurgia logo após o nascimento é a primeira opção
Na gastrosquise, a primeira opção da instituição é realizar o procedimento cirúrgico logo após o parto; e, no planejamento com a equipe multidisciplinar, pondera-se um parto abdominal programado em momento oportuno justamente para viabilizar isso. Só se não for realizada cirurgia imediata é que se transporta o recém-nascido em incubadora.
PRO.MED-NEO.068, versão 1, itens 4.1.10 e 4.1.11, e o parágrafo sobre planejamento do atendimento imediato.
O que existe fora de um serviço com essa estrutura é a estabilização
A conduta que o mesmo protocolo descreve para quem não opera de imediato é inteira e detalhada: proteção com saco plástico, sonda aberta, normotermia aferida, cota hídrica aumentada, decúbito lateral direito, transporte em incubadora e pré-operatório na terapia intensiva neonatal com aminoácidos no primeiro dia. É a via que a maioria dos recém-nascidos brasileiros percorre, porque a maioria não nasce onde há cirurgião pediátrico de plantão.
PRO.MED-NEO.068, versão 1, itens 4.1 a 4.3, lidos como o percurso completo do recém-nascido não operado de imediato.
Acionar precocemente o serviço cirúrgico e estabilizar a criança enquanto se organiza o tratamento. No hospital de origem, proteger as vísceras e não tentar redução manual. A equipe especializada escolhe fechamento primário, silo ou tratamento em etapas conforme a anatomia e a tolerância fisiológica. A disponibilidade local participa do planejamento, mas não substitui a avaliação respiratória, circulatória e das alças.
O raciocínio, em voz alta
Cinco e vinte e dois da manhã. O filho da Elidia Ibiraba nasceu com 2.180 gramas, 36 semanas e 4 dias, chorou, mexeu os quatro membros e ficou rosado. Por uma abertura de cerca de três centímetros à direita do cordão umbilical sai um bloco de alças espessas, opacas, esverdeadas e aderidas, sem membrana nenhuma. O cordão está inserido em posição normal, na pele, ao lado do defeito. O hospital tem duas salas de parto, quatro incubadoras, uma incubadora de transporte que funciona, sondas orogástricas nos calibres 6, 8 e 10, soro fisiológico, um saco plástico estéril de coleta de urina ainda lacrado e um telefone da central de regulação que atende. Não tem cirurgião pediátrico nem terapia intensiva neonatal. O hospital estadual que tem os dois fica a 190 quilômetros. Você é o interno de plantão e a obstetra pergunta: a gente enrola em quê?
Diga o nome antes de fazer qualquer coisa
Cordão na pele, em posição normal, com o defeito ao lado e pele íntegra entre os dois, e nenhuma membrana: é gastrosquise. A distinção importa aqui por dois motivos práticos — na gastrosquise o cirurgião pediátrico é necessário na sala de parto, e as alças precisam de saco plástico, ao passo que a onfalocele receberia curativo simples. Como não há cirurgião neste hospital, a segunda metade da conclusão vira o plano inteiro: proteger e transferir.
Reanime primeiro, defeito depois
A criança chorou, tem tônus em flexão e está rosada: boa vitalidade, clampeamento tardio indicado. O cordão se corta a pelo menos dez centímetros da base, e não rente, para o cirurgião ter material de manuseio. Nada disso se atropela por causa do intestino, e nada do intestino se adia por causa disso — são mãos diferentes trabalhando ao mesmo tempo.
Responda a pergunta da obstetra
Saco plástico estéril. O de coleta de urina lacrado serve, e é o material certo, não o improviso: ele é uma barreira de vapor, e barreira de vapor é exatamente o que se precisa. As alças vão para dentro dele secas por fora, posicionadas de modo a não se dobrarem sobre o próprio mesentério, e um curativo sustenta essa posição sem comprimir. A compressa embebida em soro morno, que é o que a memória pede, seria pavio: mais superfície molhada evaporando, mais frio, e serosa arrancada quando o pano secar e for retirado.
Passe a sonda e meça a temperatura
2.180 gramas: sonda orogástrica nº 10. Aspirar o conteúdo gástrico, instalar saco coletor e deixar ABERTA. Ao quinto minuto de vida, temperatura axilar aferida e registrada, com normotermia mantida daí em diante. Se a temperatura estiver caindo, o problema não é a fonte de calor: é pano úmido em contato, saco frouxo ou tempo de exposição, e é isso que se corrige.
Veia, volume e antibiótico
Acesso venoso periférico, plano hídrico individualizado, com basal e perdas documentadas e reavaliação definida, sódio no primeiro dia conforme o protocolo, e antibiótico segundo a padronização do serviço que vai receber a criança, com a régua citada. Não espere taquicardia para repor: o terceiro espaço já está drenando a volemia enquanto o bebê continua rosado. O incremento percentual do exemplo deve ser titulado; não substitui manutenção, déficit, perdas e resposta individual, sobretudo se a fisiologia se modificar.
O telefone é procedimento
Central de regulação, com o diagnóstico dito pelo nome, o peso e a idade gestacional. Enquanto a vaga não sai, a criança fica sob fonte de calor, com a sonda aberta e o posicionamento das alças conferido. Cópia do cartão de pré-natal e do laudo do ultrassom de 22 semanas vão junto com ela — o laudo que ninguém circulou é agora a peça que explica tudo à equipe que recebe.
Transporte
Incubadora de transporte aquecida, sonda aberta, decúbito lateral direito. Alguém confere o posicionamento das alças antes de sair e durante o trajeto, porque todo o intestino médio está pendurado num único pedículo que atravessa um orifício de poucos centímetros: uma torção isquemia tudo de uma vez. Suporte respiratório pela clínica; sem CPAP, e sem ventilação prolongada com balão e máscara.
O que não se faz, e o que se diz
Não se empurra a alça para dentro — isso não devolve órgão ao lugar, cria cavidade sob pressão. Não se envolve em compressa encharcada. Não se leva a criança no colo, correndo, para o berçário. E se diz à Elidia, em voz alta e antes que ela pergunte, que o colo vai ficar para depois porque o que mais faz mal ao filho dela agora é esfriar — e que nada disso é culpa dela.
O que vem depois, e por que se conta agora
Na chegada: decúbito lateral direito, saco e curativo mantidos, sonda calibrosa aberta, cota ajustada à perfusão, diurese e balanço, aminoácidos na nutrição parenteral no primeiro dia, ecocardiograma com doppler e ultrassonografias abdominal e de vias urinárias. A cirurgia fecha a parede; o intestino leva semanas para funcionar, e o íleo prolongado é regra, não recaída. Dizer isso à mãe hoje evita que ela viva cada dieta suspensa como uma piora. E fica a estatística que ninguém conta na primeira conversa: até um quarto das gastrosquises é complexa, com atresia, estenose, perfuração, necrose, malrotação ou volvo, e o pré-natal quase nunca separa os dois grupos. Reavaliar a cota pela perfusão, diurese e perdas reais; não perpetuar 50% acima apenas porque essa era a prescrição inicial.
Faça você
Dez e quarenta da noite, maternidade de um hospital regional. Nasce, de parto vaginal, a filha de Lázara Pau-Ferro, 38 semanas, 3.010 gramas, chorando. Ao secar a criança, a enfermeira mostra a você um bloco de vísceras exposto na linha média do abdome, sem membrana visível, com o que parecem ser alças e uma massa lisa, avermelhada e volumosa. O plantonista que passa pela porta diz "gastrosquise, põe no saco e chama a regulação". Lázara fez pré-natal em outro município e não trouxe laudo de ultrassom. Você olha de novo antes de concordar: no bloco herniado há restos de uma membrana fina e translúcida, esgarçada nas bordas, e o cordão umbilical não está na pele ao lado do defeito — ele emerge do alto do próprio bloco, preso ao remanescente dessa membrana.
1
Diga qual dos dois achados decide o diagnóstico aqui, e por que o outro achado — a ausência de membrana íntegra — não decide.
2
Nomeie o documento brasileiro que sustenta essa leitura e diga o que exatamente ele admite sobre a membrana.
3
Diga qual é a massa lisa, avermelhada e volumosa, e o que a presença dela muda no planejamento cirúrgico.
4
Liste os exames que essa criança precisa e que o filho da Elidia não precisaria com a mesma urgência, e diga qual deles decide o prognóstico.
5
Diga se você chama a genética, com que gatilho, e o que se colhe antes do parecer — e por quê.
6
Diga o que muda, e o que não muda, na conduta dos primeiros noventa segundos em relação ao caso da gastrosquise.
Continuidade do caso e prática do internato
Compare a proteção e as perdas das duas crianças, mantendo o mesmo objetivo: chegar à equipe de referência com vísceras protegidas e fisiologia acompanhada.
Questão integrativa 1
A presença de saco exclui gastrosquise e confirma todo o diagnóstico?
Questão integrativa 2
O interno pode devolver as alças para facilitar o transporte?
Questão integrativa 3
Todo bebê recebe automaticamente 50% a mais de manutenção?
Questão integrativa 4
Falta de saco é apenas diferença de aparência?
Questão integrativa 5
Qual dado pode impedir fechamento primário?
Questão integrativa 6
A alta termina o cuidado?
Ver como fecharíamos
O que decide é o cordão umbilical, e não a membrana. Ele emerge do alto do bloco herniado, o que significa que a herniação acontece no nível da inserção umbilical: é onfalocele. Na gastrosquise o cordão está inserido em posição normal, na pele, com o defeito ao lado — quase sempre à direita — e uma faixa de pele íntegra entre os dois. A ausência de membrana íntegra não decide nada aqui porque a onfalocele pode se romper: a definição oficial brasileira do código Q79.2, no Guia de Vigilância em Saúde, 6ª edição revisada de 2024, descreve a onfalocele como herniação através da inserção umbilical coberta por uma membrana que pode ou não estar intacta, e acrescenta que, estando rompida, o defeito é extenso e pode haver saída de órgãos ocos e sólidos. É a régua da notificação compulsória dizendo que o achado mais lembrado à beira do leito pode simplesmente não estar lá. A massa lisa, avermelhada e volumosa é o fígado, herniado — o que ocorre em até 80% das onfaloceles e é incomum na gastrosquise. Fígado fora significa cavidade abdominal que não cresceu para recebê-lo de volta, e portanto chance maior de que o fechamento não seja primário: onfalocele com mais de 75% do fígado, ou de grande tamanho, é gigante pelo protocolo brasileiro, e as gigantes recebem silo ou epitelização da membrana com correção tardia da hérnia, ao passo que os defeitos pequenos podem ser reparados nas primeiras 24 a 72 horas de vida. Os exames que esta criança precisa com urgência que a outra não precisaria são o ecocardiograma com doppler e as ultrassonografias abdominal e de vias urinárias — o protocolo pede os três, especialmente nos pacientes com onfalocele —, e quem decide o prognóstico é o ecocardiograma: em dois terços das onfaloceles há outra anomalia, com destaque para as cardíacas e os defeitos de tubo neural, contra 15% na gastrosquise. Sim, chama-se a genética: o gatilho aqui é onfalocele sem diagnóstico pré-natal por amniocentese ou cordocentese, e Lázara não trouxe laudo nenhum, de modo que se assume que não houve. Havendo anomalias congênitas múltiplas ou estado grave, colhe-se o cariótipo ANTES da avaliação clínica pelo geneticista — porque, se a criança morrer antes do parecer, a amostra some com ela e a família perde o diagnóstico que orientaria a próxima gestação. Nos primeiros noventa segundos, o que NÃO muda é quase tudo: reanimação pelo fluxo da Sociedade Brasileira de Pediatria, manuseio asséptico, sonda orogástrica aberta com saco coletor, temperatura axilar no quinto minuto com normotermia mantida, acesso venoso com plano hídrico ajustado à manutenção, déficit e perdas, com reavaliação, evitar insuflação digestiva desnecessária, sem atrasar ventilação vital com balão e máscara. O que muda são duas coisas: o curativo — na onfalocele com membrana o protocolo pede curativo simples, mas aqui a membrana está rota e há víscera exposta, de modo que a proteção volta a ser a da víscera exposta —, e a convocação, porque na onfalocele o protocolo diz expressamente que o cirurgião pediátrico não é necessário na sala de parto. E vale notar, para não errar a régua: o plantonista da porta não estava sendo desleixado. Ele aplicou a regra que todo mundo aprende — sem saco, é gastrosquise —, e essa regra tem exatamente uma exceção, que é esta. Questões integrativas — respostas comentadas 1. É um achado importante, mas examinar inserção do cordão, conteúdo e possível ruptura; a classificação exige o conjunto. 2. Não. Proteger e sustentar sem torção ou compressão; redução e fechamento são decisões da equipe. 3. Não. Ajustar manutenção, déficit e perdas à perfusão, diurese, eletrólitos e tipo de defeito. 4. Não. Exposição modifica perdas, inflamação e proteção necessária, ajudando a orientar o suporte. 5. Repercussão da redução sobre pressão, ventilação e perfusão, além da anatomia; não é apenas habilidade técnica. 6. Não. Acompanhar crescimento, alimentação, função intestinal, ferida e complicações, com família orientada e retorno definido.
O critério que decide é a relação entre o cordão e o defeito, e não a presença do saco. Na gastrosquise o cordão está inserido em posição normal, na pele, com o defeito ao lado — quase sempre à direita — e uma faixa de pele íntegra separando os dois; aqui o cordão emerge do alto do bloco, o que significa herniação no próprio nível da inserção umbilical. A ausência de membrana íntegra não afasta a onfalocele porque ela pode se romper: a definição oficial brasileira do código Q79.2, no Guia de Vigilância em Saúde de 2024, descreve a onfalocele como herniação através da inserção umbilical coberta por uma membrana que pode ou não estar intacta, e diz que, rompida, o defeito é extenso e pode haver saída de órgãos ocos e sólidos. A massa lisa e avermelhada é o fígado, herniado em até 80% das onfaloceles e incomum na gastrosquise, o que reforça o diagnóstico. A hérnia de cordão umbilical se dá por anel muito estreito, com o cordão implantado normalmente na pele. Acertar isso muda o plano inteiro: onfalocele obriga a procurar outras anomalias, com o ecocardiograma à frente.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Feche os olhos e responda em voz alta: onde está o cordão em cada uma das duas, e por que o cordão continua respondendo quando o saco se rompeu? Depois recite os quatro atos dos primeiros cinco minutos na ordem em que suas mãos os fariam — proteger com saco plástico estéril sem devolver víscera, cortar o cordão longe da base, passar sonda nº 8 ou 10 e deixá-la ABERTA, medir a temperatura axilar no quinto minuto — e diga, sem consultar, por que a compressa embebida em soro morno piora em vez de ajudar.
Em 30 dias
Refaça sem olhar as três contas que os documentos não fecham: por que 25% de anomalias gastrointestinais associadas não cabem dentro de 15% de anomalias associadas na mesma gastrosquise; por que uma onfalocele com metade do fígado e quatro centímetros não é pequena nem gigante; e por que um recém-nascido de 36 semanas satisfaz duas linhas incompatíveis do quadro de gentamicina do protocolo de 2026. Depois responda ao que decide o prognóstico em cada doença: na gastrosquise, o intestino, com até um quarto de formas complexas que o pré-natal não separa; na onfalocele, o que está fora do abdome, com dois terços de anomalias associadas e a inversão de que os defeitos pequenos e centrais são os de maior risco. E termine dizendo em uma frase o que a mãe precisa ouvir na primeira conversa e o que não precisa.
Agora atenda
Você é o interno de plantão num hospital sem cirurgião pediátrico e a criança acaba de nascer com o intestino exposto. Treine os noventa segundos: o que suas mãos fazem primeiro, o que elas não podem fazer por mais que queiram, e o que você diz à mãe antes que ela pergunte.
