Cirurgia Geral › Cirurgia Pediátrica
Invaginação intestinal do lactente
Invaginação/intussuscepção intestinal do lactente
Reconhecer crises intermitentes e letargia, estabilizar e acionar a equipe cedo, usando ultrassom e redução conforme a condição clínica.
Associação Brasileira de Cirurgia Pediátrica; Colégio Brasileiro de Radiologia; Colégio Brasileiro de Cirurgiões. Obstrução Intestinal no Lactente e na Criança Maior: Diagnóstico e Tratamento. Projeto Diretrizes — Associação Médica Brasileira e Conselho Federal de Medicina. Elaboração final: 31 de janeiro de 2005.
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Responda antes de ler
Lactente de 7 meses, previamente hígido, é levado ao pronto-socorro pela terceira vez em 26 horas. A mãe descreve episódios de choro intenso que começam e param de repente, com as pernas encolhidas e palidez, durando cerca de três minutos e repetindo-se a cada 15 a 40 minutos. Nas primeiras horas, entre os episódios, ele voltava a brincar; desde a noite passada, entre os episódios ele fica mole e sonolento. Vomitou várias vezes. Neste momento, no consultório, a criança está calma no colo, com o abdome flácido e indolor à palpação superficial. Qual é a leitura correta desse conjunto?
O paciente que você vai ver
Benício tem sete meses e 8 quilos. Chega ao pronto-socorro às duas da manhã no colo do pai, e é a terceira vez em vinte e seis horas que essa família atravessa a porta de um serviço de saúde. Na primeira, ontem de manhã, saiu com diagnóstico de cólica e uma receita de simeticona. Na segunda, à tarde, com diagnóstico de virose e orientação de soro caseiro. Agora o pai não pediu senha: entrou dizendo que o filho “não está mais chorando direito”.
A mãe conta o que aconteceu desde ontem, e conta bem. Benício estava perfeito. Mamou, brincou, dormiu a sesta. Às nove da manhã começou a gritar de repente, encolheu as pernas contra a barriga, ficou vermelho e depois branco. Durou uns três minutos. Passou. Ele voltou a brincar. Quarenta minutos depois, de novo: o mesmo grito, as mesmas pernas encolhidas, a mesma palidez. Vomitou o leite. Foi assim o dia inteiro. À noite as crises continuaram iguais, mas o que mudou foi o intervalo: em vez de voltar a brincar, ele passou a ficar mole, quieto, de olho semiaberto, sem interesse em nada. O último vômito foi esverdeado. E há uma hora, ao trocar a fralda, saiu pouca coisa: uma gosma com sangue escuro, que a mãe descreve como geleia.
O que está escrito nas duas passagens anteriores é o retrato do problema. Da primeira consulta consta: “choro, abdome flácido e indolor à palpação, ativo e reativo, sem sinais de alarme”. Da segunda: “vômitos, hidratado, abdome sem visceromegalias, orientado retorno se piora”. As duas descrições estão corretas. Foram feitas por médicos atentos, que examinaram a criança com cuidado. E as duas examinaram Benício no intervalo — porque é no intervalo que a criança está calma o bastante para ser examinada, e é exatamente no intervalo que o abdome de quem tem invaginação pode estar flácido e indolor.
Agora, às duas da manhã, o exame é outro. Benício está hipotônico no colo, pálido, sem sorriso social, com olhar que não acompanha. A frequência cardíaca é 168, o enchimento capilar é de três segundos, as extremidades estão frias. O abdome está discretamente distendido; à palpação profunda no quadrante superior direito há uma massa alongada, firme, mal delimitada, e a fossa ilíaca direita parece vazia. No toque retal, o dedo sai com muco sanguinolento. Enquanto o exame acontece, Benício acorda gritando, encolhe as pernas, endurece a barriga por dois minutos e volta a apagar.
Nada nessa história é raro, obscuro ou dependente de exame sofisticado. A doença de Benício tem um padrão que a distingue de qualquer outra coisa que faça um lactente chorar, e o padrão estava disponível desde a primeira consulta: crises de dor bem delimitadas, com começo e fim súbitos, separadas por intervalos — e um intervalo que foi piorando de “volta a brincar” para “fica mole”. O sangue nas fezes, que finalmente convenceu a família a voltar, é o achado mais tardio de todos, e o que menos informação nova traz: quando ele aparece, a mucosa do segmento invaginado já está isquêmica.
Nos próximos vinte minutos alguém vai decidir três coisas por Benício: se pede uma ultrassonografia de abdome agora ou espera amanhecer, se liga para o cirurgião pediátrico antes ou depois do exame, e se coloca ou não uma sonda e um acesso enquanto o exame não sai. Dessas três decisões depende se Benício vai passar por um enema de vinte minutos e mamar de manhã, ou por uma laparotomia com ressecção de íleo terminal. As duas coisas acontecem no Brasil todo dia, com a mesma doença, e a diferença entre elas quase nunca é o cirurgião: é quantas horas se passaram antes de alguém dizer a palavra invaginação.
Quem adoece disso
A invaginação intestinal é a causa mais frequente de obstrução intestinal no segundo semestre de vida. O pico está entre o quinto e o nono mês; a série nacional brasileira, montada em 53 hospitais sentinela de sete estados, encontrou a faixa de quatro a sete meses como a mais acometida, com idade mediana de seis meses e média de 5,8 meses. Cerca de 65% dos casos ocorrem abaixo de um ano de idade, e há predomínio masculino — 57% dos 401 casos investigados naquela série, 59,7% dos 1.102 casos do período mais longo. A consequência clínica é direta: em lactente entre quatro e nove meses com choro paroxístico, a invaginação não é hipótese remota que se lembra depois de excluir tudo. É a primeira causa cirúrgica da lista, e o diagnóstico que precisa ser afastado antes de a criança ir para casa.
A incidência publicada varia de 1,5 a 4,3 casos por 1.000 recém-nascidos nas casuísticas internacionais. Os dados brasileiros de internação são muito menores: entre 2000 e 2010, o Sistema de Informações Hospitalares registrou 2.183 internações por invaginação em menores de um ano nas 27 unidades federadas — média de 198 casos por ano —, o que dá coeficiente médio de incidência de 0,61 por 10.000 nascidos vivos. Um serviço de porte médio, portanto, vê poucos casos por ano, e um interno pode terminar o estágio de pediatria sem ver nenhum. Essa raridade aparente é parte do problema: a doença é rara o suficiente para não estar na cabeça de quem atende, e frequente o suficiente para aparecer no seu plantão.
O número que define o capítulo não é o de incidência. É o de atraso. Naquela mesma série nacional, 230 das 401 crianças — 57,4% — passaram por dois ou mais atendimentos médicos até o diagnóstico ser feito; 93 delas passaram por três a seis. E 148 crianças, 36,9% do total, só foram diagnosticadas e tratadas depois de 48 horas de evolução. A invaginação não costuma chegar tarde por distância, ambulância ou falta de leito. Chega tarde porque foi vista, examinada e liberada — com o nome de cólica, virose ou gastroenterite.
O preço desse atraso está na proporção de crianças que precisou de cirurgia. Das 401, apenas 19 — 4,7% — foram resolvidas sem operação: 11 por enema orientado por radiografia e 8 por enema orientado por ultrassom. As outras 382, ou 95,3%, foram operadas, e em 186 delas, 46,4% do total, foi preciso ressecar intestino. Em serviços que recebem a criança cedo e têm rotina de redução por enema, a proporção se inverte: mais de 90% das crianças são reduzidas sem bisturi. A diferença entre 4,7% e 90% não é de tecnologia — enema de ar e ultrassonografia existem em qualquer hospital com serviço de radiologia. É de horas.
E o desfecho acompanha. Naquelas 401 crianças houve 18 óbitos, 4,5% — e, entre os que morreram, o intervalo médio entre o início dos sintomas e o tratamento foi de 4,4 dias, contra 2,4 dias no conjunto; todos os 18 foram tratados cirurgicamente. O cruzamento dos sistemas nacionais de internação e de mortalidade no mesmo período dá taxa de letalidade média de 10,8% em menores de um ano — 235 óbitos para 2.183 internações —, com forte variação entre regiões: 5,6% no Sudeste e 21,6% no Norte. As duas medidas contam a mesma história por caminhos diferentes: uma criança morre de invaginação no Brasil quando a invaginação demora a ser dita em voz alta, e morre mais longe dos centros que reduzem por enema.
Um dado epidemiológico muda a conduta e vale ser sabido de cor: há sazonalidade discreta, com mais casos entre julho e setembro no acumulado nacional, no rastro dos picos de infecção viral. Isso não serve para excluir invaginação em janeiro. Serve para lembrar que a invaginação do lactente costuma vir depois de um quadro viral banal — e que a criança que estava com virose e piorou é justamente a que precisa da ultrassonografia.
Há uma associação conhecida entre vacina de rotavírus e invaginação, e ela precisa ser dita com números para não virar boato de consultório. A primeira vacina licenciada, retirada do mercado em 1999, produziu excesso claro de casos. Com as vacinas atuais, a vigilância pós-comercialização no México e no Brasil identificou um caso adicional a cada 51.000 a 68.000 lactentes vacinados, com o sinal brasileiro concentrado na primeira semana após a segunda dose — enquanto a mesma vacinação evitava, nos dois países, cerca de 80.000 hospitalizações e 1.300 mortes por ano. Uma série de vigilância brasileira publicada em 2016 não encontrou aumento do número de casos de intussuscepção em 2007 e 2008 em relação à média anual dos anos anteriores. O balanço é favorável à vacinação por margem larga, e a orientação correta à família é essa, sem rodeio.
Três consequências práticas saem daí, e nenhuma delas é deixar de vacinar. Primeira: história prévia de intussuscepção é contraindicação formal às doses seguintes da vacina de rotavírus, e isso precisa estar escrito no relatório de alta e dito à família — malformação intestinal não corrigida e imunodeficiência entram na mesma lista. Segunda: invaginação em criança vacinada recentemente é evento adverso pós-vacinação e deve ser notificada, o que não tem nada a ver com culpar a vacina. Terceira: as faixas etárias das duas doses foram ampliadas pelo Programa Nacional de Imunizações, de modo que hoje se encontra lactente vacinado mais velho do que os textos antigos supunham — as idades e os intervalos vigentes estão no capítulo do Calendário Nacional de Vacinação desta coleção, e é lá que se confere antes de orientar.
Por que acontece o que acontece
Toda a clínica da invaginação sai de um único evento mecânico, e vale a pena entendê-lo antes de decorar sinal nenhum: um segmento de intestino entra dentro do segmento seguinte, como o dedo de uma luva que se dobra para dentro. O segmento que entra chama-se intussuscepto; o que recebe, intussuscipiente. Junto com a alça entra o mesentério dela — e é o mesentério arrastado para dentro, comprimido entre duas camadas de parede intestinal, que transforma um problema de trânsito em um problema de circulação. A partir daí, cada sinal que a criança apresenta tem endereço: a dor vem da peristalse contra o obstáculo, a palidez vem da descarga autonômica, a geleia de framboesa vem da mucosa isquêmica, e o abdome distendido vem da obstrução já instalada.

1. Por que quase sempre no íleo terminal, e quase sempre entre quatro e nove meses
Aproximadamente 90% das invaginações do lactente são ileocólicas — o íleo terminal entra pela válvula ileocecal e progride para dentro do ceco e do cólon ascendente. As casuísticas de imagem colocam esse tipo entre 75% e 95% do total. Não é acaso topográfico: a válvula ileocecal é uma transição abrupta de calibre e de complacência, com uma alça delgada, móvel e de mesentério longo desembocando num cólon fixo e largo. Basta que a onda peristáltica encontre, na parede do íleo terminal, um ponto mais rígido do que o resto para que esse ponto seja empurrado para a frente e leve a parede junto.
O que fornece esse ponto mais rígido, na esmagadora maioria dos lactentes, não é tumor nem malformação: é tecido linfoide. As placas de Peyer do íleo terminal são abundantes nessa idade e hipertrofiam com qualquer estímulo antigênico — uma gastroenterite viral, uma infecção de vias aéreas, a introdução de alimentos novos. A placa hipertrofiada faz um relevo na parede, a peristalse o empurra, e o segmento se invagina. Por isso a doença tem pico exatamente na janela em que o tecido linfoide intestinal está em plena expansão e a criança está sendo exposta a antígenos novos em série: entre o quarto e o nono mês.
Duas consequências práticas saem daí. A primeira é que, nessa faixa etária, mais de 90% das invaginações não têm ponto de partida patológico identificável — são chamadas idiopáticas, e a hipertrofia linfoide é a explicação. A segunda é que a história de virose recente, longe de tranquilizar, é fator de risco: a criança que teve diarreia semana passada e agora chora em crises tem exatamente o antecedente que produz a placa de Peyer aumentada.
2. Por que a dor vem em crises — e por que o intervalo é bom
Este é o mecanismo que o capítulo inteiro existe para gravar, porque é dele que sai o erro diagnóstico. A dor da invaginação não é contínua porque a peristalse não é contínua. O intestino proximal, encontrando um obstáculo, responde com ondas peristálticas vigorosas que tentam vencê-lo. Cada onda comprime o intussuscepto, traciona o mesentério aprisionado e distende a parede da alça acima da obstrução. Isso produz dor visceral intensa, de dois a cinco minutos. Terminada a onda, o intestino relaxa, a tração no mesentério cede, e a dor desaparece por completo.
O resultado é uma curva de dor com vales verdadeiros. Entre uma crise e outra o lactente pode mamar, sorrir, dormir e ser examinado com o abdome flácido e indolor. O intervalo típico entre as crises é de dez a trinta minutos no começo, e vai encurtando conforme a obstrução se fecha. Nenhuma outra causa comum de choro no lactente produz esse desenho: a cólica do lactente não tem começo e fim tão abruptos nem palidez, a otite dói de forma mais constante e piora deitado, a gastroenterite tem desconforto difuso relacionado às evacuações, e o refluxo dói ligado às mamadas.
O intervalo bom, portanto, não é sinal de que a criança está bem. É a assinatura da doença. Quem examina o lactente no vale da curva e registra abdome flácido, criança ativa e reativa, não errou o exame — examinou no momento errado do ciclo. A única defesa contra isso é escrever a história em vez de escrever o exame: se a mãe descreve crises com começo e fim súbitos, separadas por minutos de normalidade, o padrão já está feito, e nenhum exame físico normal o desfaz.
3. Por que a criança fica pálida e prostrada entre as crises
O segundo mecanismo é o mais mal explicado da pediatria de urgência, e é justamente o que separa a invaginação de todas as outras causas de choro. Conforme o quadro avança, o intervalo deixa de ser um vale de normalidade e passa a ser um vale de depressão: a criança não volta a brincar, ela apaga. Fica hipotônica, pálida, com olhar parado, difícil de despertar. Muitas famílias descrevem isso como sono, e muitos plantonistas registram como criança calma.
Dois processos somam-se para produzir esse estado. O primeiro é autonômico: a dor visceral intensa e a tração mesentérica disparam descarga vagal maciça, com palidez, sudorese, bradicardia relativa e sonolência — o mesmo mecanismo de uma síncope vasovagal, só que repetido a cada crise. O segundo é sistêmico: a alça isquêmica começa a permitir translocação bacteriana e absorção de produtos inflamatórios, e a criança entra num estado tóxico incipiente antes de qualquer febre. Some-se a isso a desidratação dos vômitos e o sequestro de líquido para a luz intestinal obstruída, e o resultado é um lactente que parece deprimido no sistema nervoso central.
A consequência clínica é dura e precisa ser dita sem meio-termo: em lactente, letargia entre crises de choro não é sono, não é cansaço de tanto chorar e não é efeito de medicação. É sinal de gravidade. E existe uma armadilha temível embutida aqui — parte das invaginações se apresenta com letargia como sintoma dominante, com pouca ou nenhuma dor observada, e essas crianças são investigadas para sepse, meningite e intoxicação enquanto o intestino morre.
4. O relógio da alça: de congestão venosa a necrose
A partir do momento em que o mesentério é aprisionado, a sequência vascular é previsível. O primeiro sistema a ceder é o de menor pressão: as veias mesentéricas são comprimidas, o retorno venoso cai e a parede do intussuscepto ingurgita. Esse edema é o que se enxerga na ultrassonografia como um anel espesso e hipoecoico ao redor de um centro ecogênico — a imagem em alvo no corte transversal, em pseudo-rim no corte longitudinal.
O edema é um processo que se retroalimenta: quanto mais a parede incha, mais aperta o mesentério, mais o retorno venoso cai, mais ela incha. É por isso que a invaginação não se desfaz sozinha depois de algumas horas e é por isso que a redução por enema fica progressivamente mais difícil — não porque o intestino esteja mais grudado, mas porque o volume do intussuscepto cresceu e a pressão necessária para empurrá-lo de volta aumentou.
Quando a pressão intramural ultrapassa a pressão de perfusão arterial, o fluxo arterial cessa. A mucosa é a camada mais sensível à isquemia e é a primeira a descamar: sai muco misturado a sangue — a chamada geleia de framboesa, que é literalmente mucosa intestinal isquêmica sendo eliminada. Depois vem a necrose transmural e a perfuração, com peritonite e choque séptico. Em obstrução com sofrimento de alça, a gangrena pode se instalar em poucas horas.
Esse relógio explica por que a mesma doença tem dois desfechos tão diferentes. A criança que chega em seis horas tem alça edemaciada e reduzível por uma coluna de líquido ou de ar; a que chega em setenta e duas tem alça necrosada, e nenhuma pressão de enema desfaz isso — só o bisturi, e frequentemente com ressecção. A série nacional brasileira registrou intervalo médio entre sintoma e tratamento de 1,7 dia nas crianças resolvidas por enema, 2,1 dias nas operadas sem ressecção e 3,3 dias nas operadas com ressecção. O tempo é o próprio tratamento.
5. Por que uma coluna de líquido ou de ar desfaz a invaginação
A redução não cirúrgica não é um truque: é o mesmo mecanismo que criou o problema, aplicado ao contrário. Introduz-se uma sonda no reto, veda-se o ânus e enche-se o cólon com soro fisiológico morno ou com ar sob pressão controlada. A pressão distribui-se por toda a superfície do ápice do intussuscepto e o empurra retrogradamente, desfazendo a invaginação da mesma forma que a peristalse a fez — só que no sentido inverso, e com uma força distribuída, e não pontual.
Três coisas seguem daí. A primeira é que o procedimento é aferido, não improvisado: quem reduz acompanha a coluna em tempo real por ultrassom ou por fluoroscopia e vê o ápice recuar até o ceco. A segunda é que a redução só é considerada completa quando o líquido ou o ar refluem para o íleo terminal através da válvula ileocecal — sem esse refluxo, a redução é parcial e a invaginação vai voltar. A terceira é que existe uma pressão máxima tolerada pela parede, e ultrapassá-la significa perfurar: por isso o procedimento tem teto de pressão, teto de tentativas e teto de tempo por tentativa.
E há uma consequência que muda a organização do serviço: se o intestino está necrosado, o mesmo gradiente de pressão que reduziria uma alça viável perfura uma alça morta. É daí que saem as contraindicações formais ao enema, e é por isso que o exame clínico do abdome, feito por quem está com a criança, tem poder de veto sobre o procedimento do radiologista.
Como se apresenta de verdade
A invaginação tem uma apresentação típica muito bem descrita e uma coleção de apresentações atípicas que respondem pela maior parte dos atrasos. A forma típica é reconhecível por qualquer médico que já tenha ouvido a descrição uma vez; o problema é que ela não chega pronta. Chega em pedaços, distribuída ao longo de horas, e cada pedaço isolado tem explicação banal.
A regra que organiza este bloco é uma só: o que faz o diagnóstico não é nenhum achado isolado, é o desenho temporal. Crises de dor com começo e fim súbitos, separadas por intervalos, num lactente que estava bem — e um intervalo que vai deixando de ser normal. Quem procura esse desenho acerta cedo. Quem espera a soma dos três achados clássicos acerta tarde.
1. A forma típica, e como ela realmente soa no relato da família
O quadro clássico é o de um lactente saudável que subitamente grita, dobra as pernas sobre o abdome e vomita. O vômito inicial é reflexo, não obstrutivo — a criança vomita porque dói, não porque o intestino está cheio. A dor retorna em episódios que se tornam periódicos. Nos intervalos, a criança fica quieta e, com a evolução, apática, pálida e sonolenta. Os vômitos, que começaram alimentares, tornam-se biliosos. As fezes tornam-se vermelho-escuras e mucoides, com aspecto gelatinoso.
Na boca da família, isso quase nunca vem com essas palavras. Vem como: ele chora de repente e para de repente; ele fica branco quando chora; ele encolhe as perninhas; ele chorou, vomitou e dormiu; ele está diferente. Vale aprender a traduzir. Chora de repente e para de repente é dor paroxística. Fica branco é descarga vagal. Encolhe as perninhas é dor visceral abdominal. Está diferente é o achado mais importante da anamnese pediátrica, e nunca deve ser transformado em criança calma no prontuário.
Três perguntas colhem o padrão em menos de um minuto, e valem mais do que qualquer exame complementar pedido antes delas. Primeira: entre uma crise e outra, ele fica normal ou fica mole? Segunda: quanto tempo dura cada crise e quanto tempo dura o intervalo? Terceira: desde que isso começou, o intervalo melhorou, ficou igual ou piorou? A resposta ficou mole e piorou fecha a indicação de ultrassonografia, mesmo com abdome normal ao exame.

2. Por que a tríade clássica não serve de gatilho
A tríade clássica — dor abdominal em cólica, fezes em geleia de framboesa e massa abdominal palpável — é o que quase todo estudante decora, e é péssima como critério de decisão. As casuísticas de imagem registram a tríade completa em menos de 50% das crianças com invaginação. A série nacional brasileira, que revisou os prontuários de 401 lactentes, encontrou a tríade presente em 28% dos casos. Isso significa que, em cerca de sete de cada dez crianças, esperar a tríade é esperar em vão — e o que se ganha esperando é necrose.
Os componentes isolados também enganam, cada um do seu jeito. A dor falta ou não é percebida em cerca de 20% dos pacientes, especialmente nos lactentes muito pequenos e nos que já entraram em estado tóxico. A massa abdominal palpável, descrita como salsicha no quadrante superior direito com fossa ilíaca direita vazia — o sinal de Dance —, é citada em textos clássicos como presente em até 85% dos casos, número apoiado em opinião de especialista e não em série; a literatura brasileira mais recente registra frequências muito menores, com 48% numa revisão e uma frequência minoritária no levantamento nacional, onde massa abdominal aparece entre os achados menos anotados nos prontuários. A leitura correta é: massa palpável, quando presente, é achado forte; ausência de massa não vale nada como argumento para liberar a criança.
O terceiro componente merece um parágrafo próprio, porque é o mais mal usado. Fezes em geleia de framboesa não são o gatilho diagnóstico: são o sinal de que a mucosa já está isquêmica e descamando. Na série nacional, sangue nas fezes foi registrado em 326 das 401 crianças, 81,3% — mas essa é uma coorte de crianças internadas, quase todas tarde, e a alta frequência do achado mede o atraso, não a sensibilidade precoce do sinal. Sangue ao toque retal apareceu em 148 crianças, 36,9%. Nas casuísticas de imagem, a geleia costuma surgir nas primeiras 24 horas do quadro — ou seja, depois de várias crises. Quem usa sangue nas fezes como critério para pedir a ultrassonografia está usando um relógio que já bateu.
3. As formas que não se parecem com o livro
A invaginação letárgica é a mais perigosa. A criança chega hipotônica, sonolenta, difícil de despertar, às vezes com sinais vitais alterados e sem dor evidente — o quadro que dispara investigação de sepse, meningite ou intoxicação. Duas defesas: incluir invaginação na lista de todo lactente com rebaixamento inexplicado, e palpar o abdome de verdade, com a criança relaxada, procurando massa no quadrante superior direito. O toque retal, nesse cenário, é barato e pode entregar o diagnóstico em segundos. Apesar de descrito nessa discussão, o toque retal não é obrigatório nem substitui ultrassom e avaliação clínica; reservar para indicação específica.
A invaginação sem dor entre crises que já não são percebidas acontece na fase tardia: a peristalse se exauriu, a alça acima está distendida e atônica, e a criança para de fazer as crises. O médico que chega nesse momento vê um lactente prostrado, com abdome distendido e vômitos biliosos — obstrução instalada, sem o padrão intermitente que teria feito o diagnóstico doze horas antes. A ausência de crises, aqui, não afasta: agrava.
A invaginação que se apresenta como diarreia com sangue é diagnóstico diferencial de disenteria, e o erro custa caro nos dois sentidos. O que separa: na disenteria o volume de fezes é maior, há febre e a evolução é de horas a dias sem crises paroxísticas; na invaginação a eliminação é escassa, mucoide, com sangue escuro, e vem depois de crises de dor. Diante da dúvida, a ultrassonografia decide em minutos e não custa quase nada.
A invaginação do lactente pequeno, abaixo de três meses, é incomum e obriga a procurar causa anatômica. A invaginação da criança acima de dois anos, e sobretudo acima de cinco, também: nessa faixa, mais de metade dos casos tem ponto de partida patológico. E existe uma forma pós-operatória, que aparece nas primeiras duas semanas após laparotomia, costuma ser ileoileal e se disfarça de íleo prolongado — a criança que operou e não retoma o trânsito, com dor em cólica, precisa de ultrassonografia antes de receber mais um dia de conduta expectante.
4. Quando não é idiopática: o ponto de partida patológico
Na faixa clássica, mais de 90% das invaginações não têm lesão orgânica identificável. Fora dela, a regra inverte-se: acima dos cinco anos, mais da metade das invaginações é causada por um ponto de partida, e uma revisão recente estima essa proporção em 36% nessa faixa etária. Isso muda a conduta de forma concreta — em criança maior, a redução por enema resolve o episódio, mas não resolve a causa, e a investigação da causa é obrigatória.
As lesões que servem de ponto de partida em criança são bem conhecidas. Divertículo de Meckel é a mais frequente entre as causas identificáveis; pólipos intraluminais, duplicação intestinal, hemangiomas e, em criança maior, linfoma do íleo terminal completam a lista das causas estruturais. Entre as causas sistêmicas, duas são obrigatórias na anamnese: a púrpura de Henoch-Schönlein, cujo hematoma da parede intestinal funciona como ponto de partida e cuja invaginação costuma ser ileoileal — assunto de Púrpura de Henoch-Schönlein (vasculite por IgA), na apostila de Hematologia Pediátrica —, e a fibrose cística, em que fezes espessas aderidas à mucosa fazem o mesmo papel.
Existem bandeiras que obrigam a procurar ponto de partida, e elas estão reunidas na tabela do bloco de fluxos e critérios: idade fora da faixa de três meses a três anos, topografia ileoileal, recidivas repetidas, doença de base que produza lesão de parede e massa focal no ápice à ultrassonografia. Nenhuma delas contraindica a tentativa de redução por enema no episódio agudo — todas mudam o que se combina para depois, que é investigação dirigida, e não alta com orientação genérica.
Uma nota de contexto que o interno costuma ouvir errado. Cirurgia não é indicada só porque a criança recidivou: a maior revisão disponível mostra que a presença de ponto de partida não é mais frequente em quem recidiva do que em quem tem o primeiro episódio, e que 2.607 de 2.965 recidivas — 87,9% — foram resolvidas sem operação. Recidiva se trata como episódio novo. O que muda a conduta é a idade, a topografia e o achado de imagem, não a contagem de episódios.
5. A régua que separa gastroenterite de invaginação
Esta é a confusão que produz o atraso, e ela merece critérios escritos, porque as duas doenças compartilham vômito, choro e sangue nas fezes. A gastroenterite tem a diarreia como sintoma dominante: fezes líquidas em volume, várias vezes, com desconforto abdominal difuso ligado às evacuações e sem paroxismos delimitados. O lactente com gastroenterite piora de forma contínua ou melhora de forma contínua; ele não oscila entre normal e gritando a cada vinte minutos. A avaliação e o manejo desse quadro estão no capítulo de diarreia aguda e desidratação desta coleção, e a classificação de desidratação de lá vale integralmente aqui.
A invaginação tem a dor como sintoma dominante e a eliminação intestinal como sintoma escasso: sai pouco, e o que sai é muco com sangue, não fezes líquidas em volume. O vômito evolui de alimentar para bilioso — e vômito bilioso em lactente é obstrução até prova em contrário, nunca gastroenterite. Na série nacional brasileira, mais da metade das crianças com invaginação apresentou vômitos biliosos.
Três reguladores fecham a régua, e são eles que devem ser escritos no prontuário. Primeiro, o padrão: paroxismos delimitados com intervalos definem invaginação; desconforto contínuo ou ligado às evacuações define gastroenterite. Segundo, o estado no intervalo: criança que fica mole, pálida e prostrada entre as crises não tem gastroenterite não complicada, tem outra coisa. Terceiro, a trajetória: gastroenterite que melhora com hidratação e depois piora com dor em crises é invaginação até que uma ultrassonografia diga o contrário.
E há a armadilha inversa, que é real: a invaginação frequentemente vem depois de uma gastroenterite viral, porque foi a virose que hipertrofiou a placa de Peyer. As duas coisas podem coexistir no mesmo lactente na mesma semana. Ter diagnóstico de gastroenterite feito ontem não é argumento contra invaginação hoje; é, se alguma coisa, argumento a favor de olhar com mais cuidado.
6. O que fazer com a criança que chora e não tem nada disso
Nem todo lactente que chora tem invaginação, e o capítulo perderia utilidade se produzisse uma ultrassonografia para cada choro. A cólica do lactente é definida há quase setenta anos pela regra dos três: choro inconsolável, inquietação ou irritabilidade por pelo menos três horas ao dia, em três dias da semana, com duração superior a três semanas. Ela é autolimitada e desaparece com o amadurecimento do sistema digestivo nos primeiros meses de vida, e o pediatra que a diagnostica tem por obrigação afastar outras causas de choro inconsolável.
Colocadas lado a lado, as duas entidades quase não se sobrepõem: a cólica é um padrão que dura semanas, com crises em horários previsíveis, num bebê que ganha peso e está perfeitamente normal fora delas; a invaginação é um evento agudo que começou hoje, num bebê que estava bem até uma hora determinada, com crises acompanhadas de palidez e vômito e um intervalo que piora ao longo do dia.
Quatro achados retiram a criança do território da cólica e a colocam no da urgência cirúrgica: início abrupto num lactente previamente bem, sobretudo acima de quatro meses; palidez ou hipotonia durante ou depois das crises; vômito, ainda mais se bilioso; e qualquer sangue nas fezes. Um só desses basta. Nenhum deles é compatível com cólica do lactente, e nenhum deles se resolve com simeticona.
Como fechar o diagnóstico
A invaginação é uma das poucas urgências pediátricas em que o exame de imagem certo, feito na hora certa, é ao mesmo tempo o diagnóstico e o tratamento. Isso torna a sequência de investigação curta e implacável: existe um exame que decide, existe um exame que só serve para uma pergunta específica, e existe uma lista de exames que atrasam.
A pergunta que o interno precisa responder não é qual exame é o melhor. É este: com o que eu tenho neste plantão, qual é a via mais rápida entre a suspeita e alguém enchendo o cólon dessa criança?
Ultrassonografia como exame inicial, sem atrasar o tratamento da instabilidade
A ultrassonografia de abdome é o exame de escolha para o diagnóstico de invaginação, e a régua brasileira diz isso desde 2005, com grau B de recomendação. As casuísticas de imagem reportam sensibilidade de 98% a 100% e especificidade de 88% a 100%. Não há exame melhor disponível, não há exame mais rápido, não há exame mais barato e não há exame mais seguro em lactente. Uma ultrassonografia negativa, feita por examinador com treino, praticamente exclui o diagnóstico.
O que se procura é uma imagem que qualquer médico consegue reconhecer quando o examinador aponta na tela: no corte transversal, um anel hipoecoico espesso — a parede edemaciada — em volta de um centro ecogênico, a chamada imagem em alvo; no corte longitudinal, a mesma estrutura vista de lado, a imagem em pseudo-rim. A lesão fica quase sempre no quadrante superior direito ou no epigástrio, no trajeto do cólon ascendente e transverso.
Três informações adicionais o laudo deve trazer, porque mudam a conduta e o interno deve pedir explicitamente. A primeira é a topografia: ileocólica, que é a regra e a que responde bem ao enema, ou ileoileal, que é menos frequente, pode reduzir sozinha e obriga a pensar em ponto de partida. A segunda é a presença de massa focal no ápice, que é o achado que sugere ponto de partida patológico. A terceira é o fluxo ao Doppler na parede: presença de fluxo sugere alça viável e boa chance de redução; ausência de fluxo se associa a menor taxa de redução, mas não é contraindicação absoluta ao enema — e a presença de fluxo tampouco exclui necrose. Nenhuma dessas três informações é motivo para adiar o telefonema ao cirurgião.
A ultrassonografia é operador-dependente, e isso é uma objeção honesta. A resposta prática é: em serviço sem radiologista de plantão, o exame ainda assim é a primeira linha, porque o achado de invaginação é dos mais reconhecíveis da ultrassonografia abdominal, e porque a alternativa não é um exame melhor — é esperar amanhecer. Se houver plantonista com treino em ultrassonografia à beira do leito, a suspeita alta justifica o exame imediato, com confirmação formal depois.
2. Onde a radiografia entra — e onde ela mente
A radiografia simples de abdome não faz e não exclui o diagnóstico de invaginação. Em cerca de metade dos casos ela mostra alguma coisa: massa opacificada represando os gases no cólon transverso, distensão de alças com níveis hidroaéreos, escassez de gás na fossa ilíaca direita. Uma revisão de imagem registra identificação correta em torno de 45% das crianças avaliadas, e radiografia normal em 25% dos casos. Traduzindo: se você pedir radiografia e ela vier normal, você não aprendeu nada e perdeu tempo.
Há uma pergunta, e só uma, para a qual a radiografia é o exame certo: existe pneumoperitônio? Ar livre na cavidade indica perfuração, contraindica a redução por enema e transforma o caso em cirurgia imediata. A incidência que responde a essa pergunta é a que muita gente esquece de pedir — decúbito com raios horizontais ou, se a criança tolerar, ortostática — porque em decúbito dorsal simples o ar livre se distribui na frente das alças e passa despercebido.
A conduta que sai daí é clara. Criança estável, sem sinais de peritonite: ultrassonografia direto, sem radiografia prévia. Criança com abdome distendido, doloroso à descompressão, com defesa involuntária ou em mau estado geral: radiografia procurando ar livre, ao mesmo tempo em que se aciona o cirurgião — nesse cenário a radiografia não atrasa nada, porque decide se o caminho é sala de exame ou sala de cirurgia.
É por isso que, na série nacional brasileira, mais de um terço das crianças foi tratada sem nunca ter passado pelo exame que faz o diagnóstico: 24,4% fizeram apenas radiografia simples e 13% não fizeram exame de imagem algum.
3. O que não pedir, e o preço de pedir
Tomografia de abdome não é exame de primeira linha para invaginação em lactente, e pedi-la como primeiro exame é erro de três custos somados. Custo de tempo: tomografia em lactente exige sedação, transporte, jejum e disponibilidade de equipe, e o tempo consumido é exatamente o que separa enema de laparotomia. Custo de radiação: a dose de uma tomografia abdominal em lactente é ordens de grandeza maior que a de uma radiografia, num paciente cuja expectativa de vida amplifica o risco. Custo de decisão: a tomografia diagnostica invaginação com aparência praticamente patognomônica, mas ela responde a uma pergunta que a ultrassonografia já tinha respondido de graça.
A tomografia tem lugar, e vale saber qual, para não confundir com nunca. Ela entra na criança maior com suspeita de ponto de partida e ultrassonografia inconclusiva, na investigação de massa abdominal e nos raros casos em que o diagnóstico permanece incerto depois de uma ultrassonografia de boa qualidade. Sempre depois, nunca antes.
Seriografia gastrintestinal com contraste por via oral é contraindicada na grande maioria dos quadros de obstrução intestinal na criança. Não faça, e não deixe fazer: o contraste ingerido não atravessa a obstrução, aumenta o risco de vômito e broncoaspiração e suja o campo do enema que vem depois. O contraste da invaginação entra pelo ânus, não pela boca.
Exames laboratoriais não fazem o diagnóstico e não devem atrasar nada. Hemograma e eletrólitos servem para medir o comprometimento metabólico antes da conduta definitiva — que é exatamente como a diretriz brasileira os posiciona: avaliação da extensão do comprometimento, feita depois do diagnóstico clínico de obstrução, não antes dele. Glicemia capilar vale em toda criança prostrada. Nenhum exame de sangue tem sensibilidade ou especificidade que justifique esperá-lo antes de ligar para o cirurgião.
Por fim, a conduta que mais atrasa e que ninguém chama de exame: observar mais um pouco. Reavaliar em duas horas é razoável na criança com dor abdominal indiferenciada e exame normal. Não é razoável no lactente com crises paroxísticas e intervalo de prostração — aí a reavaliação de duas horas é duas horas de isquemia.
4. O diferencial, resolvido pelo mesmo exame
A ultrassonografia que confirma invaginação é a mesma que afasta boa parte do diferencial, e é por isso que a lista de diagnósticos alternativos não precisa de bloco próprio. A estenose hipertrófica de piloro — tema de capítulo próprio desta apostila — dá vômitos em jato não biliosos em lactente de três a oito semanas, sem crises de dor e sem sangue, e sua imagem é o canal pilórico alongado e espessado, que o mesmo aparelho encontra na mesma sessão. A distinção temporal ajuda: piloro vomita há dias e não dói; invaginação dói em crises e vomita depois.
A doença de Hirschsprung, também tema próprio, aparece como constipação desde o período neonatal, com retardo na eliminação de mecônio e distensão progressiva, e não como crises paroxísticas em criança previamente normal. A enterocolite associada a ela é grave e febril, com diarreia explosiva ao toque retal — quadro clínico bem diferente do sangue escuro escasso da invaginação.
A hérnia inguinal encarcerada é a grande impostora e a única que a ultrassonografia de abdome pode não pegar, porque o achado está fora do campo habitual. A criança chora, vomita e encolhe as pernas exatamente como na invaginação, e a defesa custa dez segundos: despir e examinar as duas regiões inguinais e a bolsa escrotal. O escroto agudo tem capítulo próprio nesta coleção.
A apendicite aguda entra no diferencial da criança maior, não do lactente, e está no capítulo próprio desta coleção; abaixo de dois anos ela é rara e costuma chegar perfurada. A gastroenterite foi separada no bloco anterior. A obstrução por bridas, em criança com laparotomia prévia, tem o paralelo bem descrito no capítulo de obstrução intestinal do adulto — mesma fisiologia, doses e volumes diferentes. E, quando a história não fecha com o exame, quando os relatos mudam entre acompanhantes ou quando há lesões inexplicadas, o capítulo de violência e maus-tratos infantis desta coleção passa a ser leitura obrigatória, e não delicadeza opcional.
Um diferencial merece parágrafo próprio porque é o mais perigoso na sala: a criança séptica. Lactente prostrado, taquicárdico, com má perfusão e abdome distendido pode ser invaginação com alça necrosada, e pode ser sepse de outro foco. Não é preciso escolher: as duas conduzem ao mesmo pacote inicial de estabilização, e a ultrassonografia demora minutos. O raciocínio de sepse está no capítulo próprio desta coleção; o que muda aqui é que existe um foco cirúrgico buscável em cinco minutos.
5. O que existe no SUS, e o caminho real do plantão
Ultrassonografia de abdome existe em praticamente todo hospital brasileiro com pronto-socorro. Radiografia simples também. O que muitas vezes não existe às três da manhã é o radiologista disposto a realizar a redução, e é aí que o caminho se decide. Vale mapear isso antes de precisar: em que hospital da sua região se faz redução de invaginação, com que método, em que horário, e qual é o telefone.
O que o serviço que reduz precisa ter, e que costuma existir onde há cirurgia pediátrica: aparelho de ultrassonografia ou fluoroscopia, material para o enema, e — a parte que mais se esquece — equipe cirúrgica e anestésica de prontidão durante o procedimento, porque a complicação do enema é a perfuração, que exige laparotomia imediata. Serviço sem cirurgião disponível não deve tentar reduzir.
Quando o hospital não tem quem reduza, a conduta correta não é tentar improvisar nem esperar amanhecer: é diagnosticar, estabilizar e transferir com o telefonema já dado. O tempo total até a redução é o que importa, e a criança que sai às quatro da manhã chega às cinco e reduz às seis tem prognóstico completamente diferente da que espera a visita das oito.
E existe um cenário em que o exame não pode ser esperado. Criança com peritonite, pneumoperitônio ou choque não tem investigação: tem estabilização e sala de cirurgia. Não se transfere criança em choque para fazer ultrassonografia em outro serviço, e não se atrasa laparotomia para completar imagem.
Reconhecer o padrão, escolher o exame, decidir quem reduz e o que se faz antes
A suspeita nasce do padrão e da evolução, mesmo sem a tríade clássica. Estabilização, analgesia, avaliação cirúrgica e organização da imagem ocorrem em paralelo; o exame não deve atrasar tratamento da criança instável.
- 1Reconhecer crises de dor, palidez, vômitos ou letargia inexplicada; bem-estar entre crises e ausência de sangue nas fezes não excluem invaginação.
- 2Avaliar perfusão, consciência, glicemia e abdome; manter jejum, obter acesso e oferecer suporte e analgesia conforme o quadro, com supervisão.
- 3Acionar equipe pediátrica/cirúrgica desde a suspeita e preparar transferência se os recursos locais forem insuficientes, sem esperar confirmação para iniciar contato.
- 4Ultrassom é o exame inicial preferido no paciente que pode ser investigado. Instabilidade, peritonite ou perfuração exigem prioridade de ressuscitação e avaliação operatória; imagem só se não atrasar.
- 5Examinar abdome e virilhas e inspecionar fralda e períneo. Toque retal não é rotina obrigatória; selecionar sua indicação, sem repetir para demonstrar um sinal clássico.
- 6Redução por enema exige equipe experiente, suporte e retaguarda cirúrgica; choque, peritonite e perfuração contraindicam o procedimento. Não aguardar completar jejum eletivo para resolver emergência.
- 7Após redução confirmada, observar evolução, tolerância alimentar e risco de recorrência; duração da observação e alta são decisões da equipe, com acesso a retorno e orientações claras.
Alça viável — a janela em que o enema resolve
Poucas horas de evolução. A parede do intussuscepto está apenas congesta, o mesentério aprisionado ainda recebe fluxo, e o anel hipoecoico na ultrassonografia é fino. A criança tem crises bem delimitadas e volta ao normal no intervalo. A redução por enema tem alta chance de sucesso e a alça retorna íntegra. É nesta faixa que o desfecho de todo o capítulo é decidido, e ela dura horas, não dias.
Congestão e edema — reduz, mas cada hora cobra
Meio a um dia de evolução. O edema da parede engrossou o anel, o volume do intussuscepto cresceu e a pressão necessária para empurrá-lo de volta aumentou. O intervalo entre as crises deixou de ser normal: a criança fica pálida e prostrada. A redução por enema ainda é a primeira escolha e ainda funciona na maioria, mas exige mais tentativas, falha com mais frequência e recidiva um pouco mais.
Isquemia e necrose — o enema deixa de ser opção
Evolução longa, abdome distendido e doloroso, defesa involuntária, sangue nas fezes, criança em mau estado geral ou em choque. A parede perdeu perfusão arterial e a mucosa está descamando. A mesma pressão que reduziria uma alça viável perfura uma alça morta: choque hipovolêmico, sinais de peritonite e perfuração são contraindicações formais ao enema. O caminho é estabilização e centro cirúrgico.
| O que se observa | Invaginação intestinal | Cólica do lactente | Gastroenterite aguda | Hérnia inguinal encarcerada |
|---|---|---|---|---|
| Idade típica | 4 a 9 meses (faixa de 3 meses a 3 anos) | Primeiros meses de vida, autolimitada | Qualquer idade | Primeiro semestre em 70% dos encarceramentos |
| Padrão do choro | Crises de 2 a 5 minutos, início e fim súbitos, intervalos de 10 a 30 minutos que vão encurtando | Crises repetidas por semanas, em horários previsíveis, sem palidez | Desconforto difuso, ligado às evacuações, sem paroxismos delimitados | Choro contínuo e irritabilidade, com dor local |
| Como está no intervalo | Começa normal e vira mole, pálido, prostrado — é o sinal mais importante | Perfeitamente normal, mama bem, ganha peso | Igual a si mesmo, ou pior de forma contínua | Desconfortável de forma contínua |
| Vômito | Reflexo no início; torna-se bilioso — bilioso é obstrução até prova em contrário | Ausente ou golfada pós-mamada | Presente, alimentar, junto da diarreia | Presente, pode ser bilioso |
| Eliminação intestinal | Escassa, muco com sangue escuro (geleia de framboesa) — achado TARDIO | Normal | Fezes líquidas em volume, várias vezes | Parada de eliminação de gases e fezes |
| Abdome | Pode estar flácido no intervalo; massa alongada no quadrante superior direito com fossa ilíaca direita vazia quando presente | Flácido, indolor | Flácido ou levemente doloroso, ruídos aumentados | Distensão conforme a duração; tumefação inguinoescrotal tensa e dolorosa |
| Exame que decide | Ultrassonografia de abdome | Nenhum — diagnóstico clínico, depois de afastar outras causas | Nenhum na maioria; classificação de desidratação à beira do leito | Exame físico da região inguinal e escrotal, despindo a criança |
| Se você errar para menos | Necrose de alça, ressecção, óbito | Família passa mais um mês difícil | Desidratação não tratada | Necrose de alça e de gônada |
O que cada exame responde — e o que ele não conclui
| Exame | Pergunta que responde | Quando pedir | O que ele NÃO conclui |
|---|---|---|---|
| Ultrassonografia de abdome | Existe invaginação? Onde? Há massa focal no ápice? Há fluxo na parede? | Em toda suspeita, imediatamente — é a primeira linha | Não diz se a alça está necrosada: fluxo presente não exclui necrose, e fluxo ausente não proíbe o enema |
| Radiografia simples de abdome, com incidência que mostre ar livre | Existe pneumoperitônio? Existe padrão de obstrução? | Quando há sinais de peritonite, mau estado geral ou distensão importante | Não exclui invaginação: é normal em cerca de 25% dos casos e identifica corretamente cerca de 45% |
| Tomografia de abdome | Existe lesão estrutural servindo de ponto de partida? | Só depois de ultrassonografia inconclusiva, sobretudo em criança maior | Não é exame de triagem: custa tempo, sedação e radiação num diagnóstico que a ultrassonografia já faz |
| Hemograma, eletrólitos, glicemia | Qual é a extensão do comprometimento metabólico? | Depois do diagnóstico clínico, junto do preparo — nunca antes de acionar o cirurgião | Não confirma nem afasta invaginação; não há valor laboratorial que autorize alta |
| Enema com contraste ou com ar | É diagnóstico e é tratamento ao mesmo tempo | Depois da ultrassonografia, com cirurgião de prontidão e sem contraindicação | Redução incompleta, sem refluxo para o íleo terminal, não resolve: a invaginação volta |
Contraindicações à redução por enema, e o que fazer em cada uma
| Situação | Por que contraindica | Conduta |
|---|---|---|
| Choque hipovolêmico | A criança não tolera o procedimento e o quadro indica alça comprometida | Estabilizar com cristaloide, acionar cirurgião e anestesista, centro cirúrgico |
| Sinais de peritonite (defesa involuntária, descompressão dolorosa, abdome em tábua) | Indica perfuração ou necrose transmural; a pressão do enema completa a ruptura | Laparotomia; antibiótico conforme o protocolo do serviço, na indução anestésica |
| Pneumoperitônio na radiografia | Perfuração já ocorrida | Centro cirúrgico imediato; não repetir imagem |
| Falha documentada de redução | A alça não recuou apesar de tentativas dentro do teto de pressão e de tempo | Cirurgia — redução manual e ressecção apenas se houver necrose inequívoca |
| Serviço sem equipe cirúrgica disponível durante o procedimento | A complicação do enema é perfuração, que exige laparotomia em minutos | Não tentar reduzir; estabilizar e transferir com contato prévio |
Preparo antes de reduzir ou de transferir — o que se faz e o que NÃO se faz
| Item | Faz | Não faz |
|---|---|---|
| Via oral | Jejum absoluto a partir da suspeita, inclusive leite materno | Não oferecer soro oral, leite, chá ou fórmula para acalmar a criança |
| Acesso venoso | Punção periférica assim que a suspeita é levantada, antes de a criança piorar | Não adiar a punção por achar que a criança vai reduzir e ir embora |
| Fluido | Manutenção isotônica pelo peso; expansão só se houver má perfusão (volumes na conduta) | Não fazer bolus reflexo em criança bem perfundida e sem hipotensão — apenas manutenção |
| Sonda nasogástrica | Calibrosa e aberta se houver vômito bilioso, distensão ou obstrução instalada | Não passar sonda em criança com poucas horas de sintoma, sem distensão e sem vômito bilioso, apenas por rotina |
| Analgesia | Prescrever e administrar — o diagnóstico já está feito por imagem | Não segurar analgesia esperando o cirurgião examinar |
| Contraste | O contraste da invaginação entra pelo ânus, no serviço que reduz | Não prescrever contraste por via oral; seriografia alta é contraindicada na obstrução |
| Antibiótico | Na indução anestésica de quem vai operar, e como terapia na peritonite estabelecida | Não iniciar antibiótico de rotina na criança que vai apenas para redução por enema |
| Comunicação | Telefonar ao serviço que recebe e ao cirurgião antes de transferir | Não mandar ambulância sem contato e sem laudo da ultrassonografia junto |
Volume de manutenção isotônica e doses por peso — três lactentes
| Peso | Manutenção (Holliday e Segar) | Velocidade | Dipirona 15 mg/kg (500 mg/mL) | Morfina 0,05 a 0,1 mg/kg (diluição 1 mg/mL) | Expansão 10 a 20 mL/kg |
|---|---|---|---|---|---|
| 6 kg (≈ 5 meses) | 600 mL/dia | 25 mL/h | 90 mg = 0,18 mL, diluir antes de infundir | 0,3 a 0,6 mg = 0,3 a 0,6 mL | 60 a 120 mL (teto de 40 mL/kg = 240 mL sem UTI pediátrica) |
| 8 kg (≈ 7 meses) | 800 mL/dia | 33 mL/h | 120 mg = 0,24 mL, diluir antes de infundir | 0,4 a 0,8 mg = 0,4 a 0,8 mL | 80 a 160 mL (teto de 40 mL/kg = 320 mL sem UTI pediátrica) |
| 12 kg (≈ 2 anos) | 1.100 mL/dia | 46 mL/h | 180 mg = 0,36 mL, diluir antes de infundir | 0,6 a 1,2 mg = 0,6 a 1,2 mL | 120 a 240 mL (teto de 40 mL/kg = 480 mL sem UTI pediátrica) |
Sucesso, perfuração e recidiva por método de redução
| Método | Sucesso | Perfuração | Recidiva | Radiação |
|---|---|---|---|---|
| Hidrostático guiado por ultrassom (soro) | 1.072 de 1.119 = 95,8% | 4 de 1.119 = 0,36% | 104 de 1.119 = 9,3% | Nenhuma |
| Pneumático guiado por fluoroscopia (ar) | 936 de 1.005 = 93,1% | 3 de 1.005 = 0,30% | 107 de 1.005 = 10,7% | Exposição fluoroscópica |
| Enema com bário (histórico) | 53% a 85%, com a maioria dos autores relatando 70% a 85% | Contaminação peritoneal maior em caso de perfuração | 12,7% na metanálise de 69 estudos | Exposição fluoroscópica |
| Enema com ar (faixa da literatura) | 27% a 96%, com muitos autores acima de 90% | Menor contaminação peritoneal | 8,5% na metanálise de 69 estudos | Exposição fluoroscópica |
Bandeiras que obrigam a procurar ponto de partida patológico
| Bandeira | Por quê | O que muda |
|---|---|---|
| Idade abaixo de 3 meses ou acima de 3 anos | Fora da janela da hipertrofia linfoide fisiológica | Investigação dirigida depois do episódio agudo, mesmo que o enema tenha resolvido |
| Acima de 5 anos | Mais da metade tem lesão orgânica; uma revisão estima 36% nessa faixa | Imagem adicional e avaliação por cirurgia pediátrica programada |
| Invaginação ileoileal ou de delgado isolada | Topografia atípica, associada a lesão de parede | Pode reduzir sozinha; obriga a investigar causa |
| Massa focal no ápice à ultrassonografia | É o achado direto do ponto de partida | Informar no pedido e no telefonema; muda o planejamento cirúrgico |
| Doença de base conhecida | Púrpura de Henoch-Schönlein e fibrose cística produzem ponto de partida | A doença de base entra na conduta; ver os capítulos próprios |
| Invaginação nas duas semanas após laparotomia | Forma pós-operatória, costuma ser ileoileal | Não tratar como íleo prolongado: pedir ultrassonografia |
Vômito bilioso no lactente exige investigação urgente de obstrução intestinal. Não o atribua a gastroenterite sem avaliar essa possibilidade e a condição geral.
Massa no quadrante superior direito com fossa ilíaca direita vazia constitui o sinal de Dance. Sua ausência não exclui invaginação nem autoriza alta diante de história sugestiva.
A equipe deve confirmar redução completa pelos critérios da técnica usada. No enema contrastado descrito, o refluxo para o íleo terminal é um dos achados de confirmação. Redução parcial mantém a necessidade de tratamento e vigilância.
Choque hipovolêmico, peritonite e perfuração contraindicam a tentativa de redução por enema no percurso apresentado. A estabilização e a avaliação cirúrgica devem ocorrer imediatamente.
A maioria das invaginações do lactente é ileocólica e não tem ponto de partida identificável. Fora da idade habitual ou em apresentação atípica, aumente a atenção a uma causa estrutural.
A conduta, hora a hora
A linha do tempo desta doença é curta e não perdoa. Da suspeita à redução deveriam correr horas, não turnos, e cada marco abaixo existe para não deixar o relógio andar sozinho. Os cálculos estão feitos para Benício, o lactente de 8 quilos da abertura; a régua por quilo está ao lado de cada dose, para você refazer a conta com o peso que tiver na sua frente.
Duas advertências antes de começar. A primeira: a criança instável não tem linha do tempo — ela tem estabilização, exame do abdome e telefone para o cirurgião, e este bloco só volta a valer depois disso. A segunda: peso aferido, anotado com o horário, é a primeira medida terapêutica, porque toda dose e todo volume saem dele. Peso estimado por idade não serve para prescrever.
Toda dose abaixo vem da fonte que a sustenta, e nenhuma delas é para ser lembrada de cabeça no plantão: são para ser conferidas na hora, com o peso na mão.
Minuto 0 — dizer a palavra invaginação em voz alta
O primeiro ato terapêutico não é uma prescrição: é uma frase na anamnese. Diante de um lactente que chora em crises, pergunte à família como ele fica ENTRE as crises e se isso mudou ao longo das horas. Se a resposta for que ficava normal e agora fica mole, a suspeita está feita e nenhum exame físico normal a desfaz. Registre a frase no prontuário com essas palavras — é ela que protege a criança na próxima passagem, se houver uma. Pergunte também há quantas horas começou: o número que vai determinar o desfecho é esse, e ele precisa estar escrito. Meça sinais vitais completos, com temperatura e frequência respiratória, e pese a criança.
Prescrição- Pesar e anotar com o horário — todas as doses e volumes derivam desse número
- Sinais vitais completos, incluindo temperatura e frequência respiratória, e glicemia capilar se houver prostração
- Jejum absoluto a partir de agora, inclusive leite materno — a criança pode ir para redução ou para cirurgia nas próximas horas
- Registrar no prontuário, literalmente: padrão da dor (duração da crise e do intervalo), estado da criança no intervalo, e há quantas horas começou
Minuto 5 — o exame que muda a urgência, feito na ordem certa
Examinar abdome e as duas virilhas, observando dor, massa, distensão e sinais de peritonite, além de perfusão e consciência. Inspecionar fralda e períneo; o toque retal citado em documentos históricos não precisa ser feito em toda criança. Se houver indicação específica, será delicado, explicado e supervisionado. Acionar a equipe desde a suspeita; deterioração ou peritonite tornam essa comunicação imediata e a investigação passa a obedecer à urgência clínica.
Prescrição- Exame das regiões inguinais e da bolsa escrotal com a criança despida — descartar hérnia encarcerada
- Palpação abdominal profunda no intervalo entre as crises, procurando massa e fossa ilíaca direita vazia
- Inspecionar fralda e períneo; reservar toque retal para indicação clínica específica, com profissional habilitado, sem repetição rotineira.
- Se houver peritonite, pneumoperitônio suspeito, má perfusão ou rebaixamento: acionar cirurgião pediátrico AGORA, antes de qualquer exame de imagem
Minuto 15 — o preparo que corre junto com o pedido de imagem
Tudo o que vem abaixo é feito enquanto a ultrassonografia é providenciada, nunca depois dela. O acesso venoso é o item que mais se adia e mais faz falta: punção em lactente prostrado e mal perfundido às quatro da manhã é infinitamente mais difícil do que na criança que ainda está compensada. O fluido de manutenção é isotônico — a solução hipotônica clássica aumenta risco de hiponatremia iatrogênica, e a recomendação brasileira é sódio próximo de 136 mEq/L. Sonda nasogástrica não é rotina em todo caso: entra quando há vômito bilioso, distensão ou obstrução instalada, e nesse cenário ela alivia a distensão, reduz risco de broncoaspiração na indução anestésica e melhora a ventilação. E analgesia se prescreve: o diagnóstico será feito por imagem, não pela cara de dor da criança.
Prescrição- Acesso venoso periférico calibroso — puncionar agora, com a criança ainda compensada
- Manutenção isotônica pela fórmula de Holliday e Segar: até 10 kg, 100 mL/kg/dia. Para 8 kg = 800 mL/dia = 33 mL/h, com sódio a 136 mEq/L (SPSP nº 78, 2016)
- Ajustar manutenção à doença, glicemia, perdas, perfusão e risco de sobrecarga. Restrição de manutenção em alguns pacientes graves não substitui a ressuscitação de hipoperfusão nem a reposição de perdas.
- Dipirona 15 mg/kg/dose por via endovenosa, a cada 6 horas, teto de 25 mg/kg/dose. Para 8 kg = 120 mg; apresentação de 500 mg/mL, ou seja 0,24 mL — diluir em água para injeção ou soro fisiológico antes de infundir (HC-UFTM/EBSERH, PRT.UTIPN.002 v3, 2025)
- Dor intensa não controlada: morfina 0,05 a 0,1 mg/kg/dose por via endovenosa. Para 8 kg = 0,4 a 0,8 mg; diluir 1 mL da ampola de 10 mg/mL em 9 mL de soro fisiológico (fica 1 mg/mL) e administrar 0,4 a 0,8 mL. Faixa da fonte vai até 0,2 mg/kg/dose, com teto absoluto de 15 mg (HC-UFTM/EBSERH, PRT.UTIPN.002 v3, 2025)
- Sonda nasogástrica calibrosa, aberta em drenagem, SE houver vômito bilioso, distensão abdominal ou obstrução instalada
- Hemograma, sódio, potássio, ureia, creatinina e glicemia — colhidos no mesmo acesso, sem atrasar a imagem
- Manter o jejum absoluto e comunicar a família por que a criança não vai mamar
Desde a suspeita — imagem e contato com a equipe em paralelo
Pedir ultrassom com suspeita e tempo de evolução, descrevendo gravidade e solicitando topografia, possível ponto de partida e avaliação da parede. O contato cirúrgico começa enquanto o exame é organizado. Na criança instável ou com peritonite, exames não devem atrasar ressuscitação, decisão operatória ou transferência. Ultrassom negativo com suspeita persistente exige reavaliação, incluindo qualidade do exame e possibilidade de repetição especializada.
Prescrição- Ultrassonografia de abdome total, com urgência, especificando no pedido: topografia da invaginação, massa focal no ápice e fluxo ao Doppler na parede
- Radiografia de abdome com incidência capaz de mostrar ar livre APENAS se houver sinais de peritonite, mau estado geral ou distensão importante
- Iniciar contato pediátrico/cirúrgico desde a suspeita e atualizar com resultado, peso, evolução, perfusão e exame do abdome.
- Não prescrever contraste por via oral e não solicitar seriografia gastrintestinal alta
Hora 1 a 2 — a redução por imagem: quem faz, o que precisa estar pronto
A redução não cirúrgica é o tratamento da maioria das invaginações do lactente, e quem a realiza é o radiologista ou o cirurgião pediátrico com treino no procedimento, na sala de imagem — não o plantonista do pronto-socorro. Uma sonda é introduzida no reto, o ânus é vedado, e o cólon é enchido com soro fisiológico morno sob controle ultrassonográfico ou com ar sob controle fluoroscópico e manômetro. O operador acompanha o ápice recuando em tempo real. A redução só é considerada completa quando há refluxo do meio para o íleo terminal através da válvula ileocecal. O interno não faz o procedimento, mas é dele a responsabilidade por garantir que as três condições estejam satisfeitas antes de a criança descer: acesso venoso funcionando, criança estabilizada e equipe cirúrgica e anestésica de prontidão, porque a complicação temida é a perfuração, que exige laparotomia em minutos.
Prescrição- Conferir acesso, ressuscitação, analgesia, risco de aspiração, monitorização e disponibilidade de equipe habilitada; jejum eletivo incompleto não deve atrasar emergência, exigindo plano anestésico apropriado.
- Confirmar a ausência das três contraindicações formais: choque hipovolêmico, sinais de peritonite e perfuração intestinal
- Manter a manutenção isotônica correndo durante o procedimento; não suspender o acesso
- Analgesia ou sedação conforme a rotina do serviço que reduz — na prática internacional, dois terços dos centros europeus usam sedação ou analgesia no procedimento
- Registrar no prontuário o horário de início do quadro, o horário do diagnóstico e o horário do procedimento — os três intervalos são o indicador de qualidade desta doença
Hora 1 a 2, cenário alternativo — o serviço não reduz: transferir bem
A maior parte dos hospitais brasileiros que recebe esse lactente não realiza redução por enema. Isso não é falha do plantonista e não muda o dever: diagnosticar, estabilizar e transferir com o caminho já aberto. Transferência sem telefonema prévio é transferência que espera na porta do serviço receptor, e essa espera é a diferença entre enema e ressecção. O que vai junto com a criança importa: laudo da ultrassonografia, peso aferido, horário de início dos sintomas, o que já foi feito e a que horas. O que não vai junto é a via oral liberada.
Prescrição- Telefonar ao serviço receptor ANTES de acionar o transporte; anotar nome de quem aceitou e horário
- Manter jejum absoluto durante todo o transporte, inclusive leite materno
- Acesso venoso pérvio e fixado, com manutenção isotônica correndo
- Sonda nasogástrica aberta se houver vômito bilioso ou distensão — reduz risco de broncoaspiração no trajeto
- Analgesia administrada antes de embarcar, não prescrita para o caminho
- Enviar cópia do laudo da ultrassonografia, peso, horário de início dos sintomas e resumo do que foi feito
- Na má perfusão, administrar cristaloide isotônico em alíquotas de 10–20 mL/kg com reavaliação frequente. Necessidade de repetição ou resposta inadequada exige ajuda, busca de complicação e escalonamento; não transformar 40 mL/kg em teto universal de toda ressuscitação.
- Sem hipotensão e sem má perfusão, NÃO fazer bolus: apenas manutenção (SBP, Documento Científico, 2021)
Hora 2 a 6 — a redução deu certo: as primeiras horas depois
Melhora da dor e do estado geral após o procedimento é favorável, mas não substitui a confirmação de redução completa pelo operador. A observação verifica recorrência, perfuração, perfusão e tolerância à alimentação. Alguns serviços internam; em crianças selecionadas, a equipe pode considerar alimentação e alta após observação mais curta. A decisão depende de evolução e capacidade da família de retornar, sem regra universal de alta só no dia seguinte.
Prescrição- Observação com exame e sinais vitais seriados; frequência, duração e eventual internação conforme gravidade, procedimento, evolução e acesso a retorno.
- Reintroduzir alimentação após avaliação da equipe e período apropriado de observação; não impor jejum de 4–6 horas ou internação de 24 horas a todo caso reduzido e estável.
- Manter o acesso venoso e a manutenção isotônica até a criança aceitar bem por via oral
- Analgesia conforme necessidade: dipirona 15 mg/kg/dose EV a cada 6 horas, teto de 25 mg/kg/dose (HC-UFTM/EBSERH, 2025)
- Retirar a sonda nasogástrica quando cessarem o débito bilioso e a distensão
- Nova ultrassonografia imediata se voltarem crises de dor, vômitos ou distensão — recidiva se trata como episódio novo
- Não prescrever antibiótico de rotina para a criança que reduziu por enema e está bem
Hora 2 em diante, cenário alternativo — falha ou contraindicação: o centro cirúrgico
A cirurgia está indicada quando há falha da redução por enema e nas contraindicações ao procedimento. Na sala, a manobra correta é a compressão sobre a cabeça da invaginação, empurrando a alça invaginada para fora da invaginante — e não tracioná-la, o que rasga. A ressecção intestinal deve ser feita apenas quando houver evidência inequívoca de necrose; nas demais circunstâncias vale a pena insistir na redução manual. Depois de reduzida, as alças são palpadas com cuidado, porque em cerca de 10% dos operados encontra-se uma causa orgânica que precisa ser tratada no mesmo tempo. O antibiótico entra na indução anestésica, entre zero e 60 minutos antes da incisão, e a contaminação acidental da cavidade por conteúdo intestinal não é motivo para prolongar a profilaxia além de 24 horas.
Prescrição- Na operação de intestino obstruído, selecionar profilaxia com cobertura apropriada, incluindo anaeróbios. Exemplo ASHP para este lactente não neonatal: cefazolina 30 mg/kg IV associada a metronidazol 15 mg/kg IV na janela pré-incisão, respeitando limites adultos, função renal e protocolo do serviço.
- Para 8 kg, o exemplo corresponde a cefazolina 240 mg e metronidazol 120 mg. Conferir concentração do produto, diluição, tempo de infusão e dose real com dupla checagem antes da administração.
- Se cefazolina estiver contraindicada, discutir alternativa apropriada à alergia e à flora. A dose pediátrica de clindamicina no esquema ASHP é 10 mg/kg, não 20 mg/kg por reflexo; associar cobertura para gram-negativos quando indicada, conforme protocolo.
- Redose depende da droga, duração e perdas: cefazolina geralmente após 4 horas e clindamicina após 6 horas quando aplicável. Cefazolina isolada não cobre adequadamente anaeróbios de intestino obstruído.
- Sonda nasogástrica aberta antes da indução anestésica, para reduzir o risco de aspiração
- Reposição volêmica com cristaloide antes da indução, guiada por perfusão e diurese
- Não prolongar a profilaxia além de 24 horas por contaminação acidental da cavidade; peritonite estabelecida é tratamento, não profilaxia, e a duração é decidida pelo achado cirúrgico
Dia 1 a 3 — pós-operatório e retomada do trânsito
O acompanhamento do pós-operatório é o mesmo de qualquer laparotomia em lactente: dor controlada, hidratação venosa até a retomada do trânsito, sonda enquanto houver débito bilioso, e vigilância para as duas complicações que importam — deiscência de anastomose, quando houve ressecção, e recidiva da invaginação. A recidiva pós-operatória tem uma armadilha própria: costuma ser ileoileal, ocorre nas duas primeiras semanas e se disfarça de íleo prolongado. Criança operada que não retoma o trânsito e volta a fazer dor em cólica precisa de ultrassonografia, não de mais um dia de espera.
Prescrição- Analgesia regular, não conforme necessidade: dipirona 15 mg/kg/dose EV a cada 6 horas, com morfina 0,05 a 0,1 mg/kg/dose EV de resgate (HC-UFTM/EBSERH, 2025)
- Manutenção isotônica pelo peso até a retomada da via oral; reavaliar o volume diariamente
- Sonda nasogástrica aberta enquanto houver débito bilioso ou distensão; retirar e testar via oral quando cessar
- Dieta reintroduzida com leite materno ou fórmula em pequenas ofertas assim que houver ruídos hidroaéreos, aceitação e ausência de distensão
- Ultrassonografia de abdome se houver dor em cólica, vômitos ou ausência de retomada do trânsito — não presumir íleo prolongado
- Registrar o achado intraoperatório e se houve ou não ponto de partida, porque isso determina o seguimento
Alta — o que a família leva escrito, e o que ela precisa ter ouvido
A alta acontece quando a criança está alimentando-se bem, sem dor, com trânsito estabelecido e com exame abdominal documentado como normal. A conversa tem um único conteúdo obrigatório, e as palavras estão no bloco de comunicação: a invaginação pode voltar, volta em cerca de 7% a 12% dos casos e concentra-se nas primeiras 48 a 72 horas — e quase toda recidiva se resolve de novo sem cirurgia, desde que a família reconheça e volte rápido.
Prescrição- Orientação escrita e lida em voz alta com a família: voltar imediatamente se houver crises de choro com palidez, vômito, sangue nas fezes ou criança mole entre as crises
- Retorno agendado em 48 a 72 horas, presencial, no serviço que tratou — janela em que se concentra a recidiva
- Relatório de alta com o diagnóstico por extenso, o método de redução usado, o achado sobre ponto de partida e a orientação de retorno
- Registrar no relatório de alta, por escrito, que a criança teve invaginação intestinal e que isso contraindica as doses seguintes da vacina de rotavírus; orientar a família a apresentar o relatório na unidade de saúde
- Se a invaginação ocorreu após dose recente de vacina de rotavírus, notificar como evento adverso pós-vacinação pelo fluxo da vigilância local
- Se houver bandeira de ponto de partida — idade fora da faixa, topografia ileoileal, massa focal, doença de base —, agendar a investigação antes de a criança sair, e não deixar para o retorno
- Analgesia domiciliar apenas se necessária; nada de antiespasmódico, e nenhuma orientação que sugira que dor em crise em casa é para observar
Como saber se está funcionando
Nesta doença, o parâmetro mais sensível de resposta não sai de exame nenhum: é o comportamento do lactente. Criança que reduziu para de fazer crises e relaxa; criança que não reduziu continua fazendo crises, mesmo que a imagem tenha sido descrita como sucesso. Quem acompanha precisa saber exatamente o que esperar, em quanto tempo, e o que fazer quando não vem.
A vigilância tem duas janelas distintas, e confundi-las é erro comum. A primeira são as horas imediatas depois da redução, quando se procura complicação do procedimento — perfuração, redução incompleta. A segunda são as 48 a 72 horas seguintes, quando se procura recidiva. As duas exigem conduta diferente.
Esperado: Cessam. A criança para de gritar em ciclos, relaxa o abdome e adormece de forma tranquila, não prostrada. É a melhor evidência de sucesso que existe, e é clínica.
Se não melhora: Crise que retorna depois de redução descrita como bem-sucedida significa redução incompleta ou recidiva precoce. Peça nova ultrassonografia imediatamente e comunique o cirurgião — não medique a dor e reavalie de manhã.
Esperado: O intervalo volta a ser normal: a criança interage, acompanha com o olhar, reclama do exame, aceita colo. Voltar a se irritar com o estetoscópio é melhora, não piora.
Se não melhora: Prostração que persiste depois de redução bem-sucedida e de hidratação adequada não é o efeito da noite maldormida. Obriga a checar glicemia, sódio e perfusão, e a reconsiderar duas coisas: redução incompleta e outro diagnóstico simultâneo.
Esperado: O soro ou o ar atravessa a válvula ileocecal e refluí alguns centímetros para o íleo terminal. Sem isso, a redução é parcial.
Se não melhora: Ausência de refluxo obriga a considerar forma irredutível. Conforme a rotina do serviço, cabe nova tentativa dentro dos tetos de pressão e de tempo, ou tentativa tardia em criança estável, ou indicação cirúrgica. A decisão é do cirurgião e do radiologista juntos, com a criança monitorada.
Esperado: Abdome depressível, sem defesa, sem distensão progressiva; sinais vitais estáveis; criança confortável.
Se não melhora: Distensão que cresce, defesa involuntária, taquicardia crescente ou piora do estado geral depois do enema significam perfuração até prova em contrário. Radiografia com incidência que mostre ar livre e cirurgião chamado no mesmo minuto. A perfuração é rara — em torno de 0,3% dos procedimentos —, mas é a complicação que mata.
Esperado: Débito que diminui e perde o aspecto bilioso ao longo de 12 a 24 horas depois da resolução da obstrução.
Se não melhora: Débito bilioso que se mantém alto ou aumenta depois da redução indica obstrução persistente — recidiva, redução incompleta ou outra causa. Ultrassonografia e cirurgião, sem esperar o turno seguinte.
Esperado: Aceita leite materno ou fórmula sem vômito, com abdome plano e confortável. Aceitação boa é o que autoriza retirar o soro.
Se não melhora: Vômito na reintrodução, sobretudo bilioso, ou dor durante a mamada, interrompe a progressão e obriga a reavaliar com imagem. Não insista na dieta como teste terapêutico.
Esperado: Enchimento capilar até 2 segundos, extremidades quentes, frequência cardíaca caindo para a faixa da idade, diurese retomada.
Se não melhora: Má perfusão que não corrige com expansão adequada aponta para alça necrosada com resposta inflamatória sistêmica. Reavalie o abdome, refaça a conta do volume infundido e acione o cirurgião. O raciocínio de choque está no capítulo próprio desta coleção; aqui, o foco é cirúrgico e buscável.
Esperado: Retomada de eliminação de fezes e gases nas horas seguintes; o sangue, quando havia, desaparece progressivamente.
Se não melhora: Sangue que aumenta ou reaparece depois da redução obriga a nova imagem. Ausência total de eliminação por mais de 12 horas em criança que reduziu também: pode indicar redução incompleta ou íleo prolongado, e a diferença se faz por ultrassonografia.
Esperado: Sem febre. Temperatura elevada em obstrução intestinal é indicador de prognóstico ruim e pode significar lesão intestinal.
Se não melhora: Febre nova depois da redução ou da cirurgia obriga a examinar o abdome antes de qualquer outra hipótese, e a considerar perfuração, peritonite ou deiscência de anastomose. Não trate como febre pós-operatória banal nas primeiras 72 horas.
Esperado: Nenhuma crise nova. A recidiva ocorre em cerca de 7% a 12% dos casos: 9,3% após redução hidrostática guiada por ultrassom e 10,7% após redução pneumática guiada por fluoroscopia na maior coorte prospectiva; a metanálise de 69 estudos encontrou 7,5%, 8,5% e 12,7% conforme o método.
Se não melhora: Retorno das crises significa recidiva e se trata como episódio novo: ultrassonografia e nova tentativa de redução. Recidiva não é indicação automática de cirurgia — 2.607 de 2.965 recidivas, 87,9%, foram resolvidas sem operação na maior revisão disponível. O que muda a conduta é achado de ponto de partida, não a contagem de episódios.
Esperado: Criança dentro da faixa etária típica, invaginação ileocólica, sem massa focal: nenhuma investigação adicional é necessária.
Se não melhora: Idade fora de três meses a três anos, topografia ileoileal, massa focal no ápice, doença de base ou recidivas repetidas obrigam a investigação dirigida antes da alta. Deixar para o retorno significa, na prática, não fazer.
Onde o erro machuca
O dano: É o erro que produz a maior parte dos atrasos brasileiros, e o mais difícil de enxergar, porque o exame está tecnicamente correto. O abdome da invaginação pode ser flácido e indolor no vale da curva de dor, e é justamente no vale que a criança fica calma o bastante para ser examinada. O registro de exame normal vira, na consulta seguinte, prova documental de que a criança já foi avaliada e estava bem — e retarda a suspeita de novo.
Como pegar a tempo: Escreva a história antes de escrever o exame, e escreva o padrão temporal com palavras: duração da crise, duração do intervalo, e como a criança fica no intervalo. Exame normal nunca desfaz um padrão de crises paroxísticas. Se a família descreve crises com começo e fim súbitos, peça a ultrassonografia com o abdome flácido na sua mão.
O dano: Cólica do lactente é um padrão de semanas, definido pela regra dos três, em bebê que fica perfeitamente normal fora das crises e ganha peso. Chamar de cólica um quadro que começou hoje, num lactente de sete meses que estava bem até de manhã, é dar nome de doença benigna a uma urgência cirúrgica — e o tempo perdido é o que converte redução por enema em ressecção intestinal.
Como pegar a tempo: Quatro achados retiram a criança do território da cólica e bastam isoladamente: início abrupto em criança previamente bem, palidez ou hipotonia junto das crises, vômito (ainda mais se bilioso) e qualquer sangue nas fezes. Diante de um só deles, o diagnóstico deixa de ser cólica e passa a exigir imagem.
O dano: A tríade completa apareceu em 28% dos casos na série nacional brasileira e em menos de 50% nas casuísticas de imagem. Esperar por ela significa deixar sete de cada dez crianças passarem — e a espera não é neutra: cada hora aumenta o edema da parede, reduz a chance de redução por enema e aproxima a necrose. Cerca de 20% dos pacientes sequer têm dor evidente.
Como pegar a tempo: Inverta a régua: um só elemento basta. Crises de dor paroxística em lactente entre três meses e três anos indicam ultrassonografia, mesmo sem vômito, sem sangue e sem massa. Letargia inexplicada em lactente entra na mesma indicação.
O dano: Esse achado é a mucosa isquêmica sendo eliminada: ele marca o momento em que a parede já perdeu perfusão, não o momento de começar a pensar. Quem espera o sangue para pedir o exame chega, por definição, depois da isquemia.
Como pegar a tempo: Trate sangue nas fezes como confirmação tardia, e não como critério de entrada. O critério de entrada é o padrão de dor. Quando o sangue já apareceu, a conversa deixa de ser se investiga e passa a ser em quanto tempo alguém reduz.
O dano: A radiografia identifica corretamente a invaginação em cerca de 45% dos casos e é normal em 25%. Um exame normal, nesse contexto, produz falsa segurança documentada em prontuário e consome de trinta minutos a duas horas do relógio da alça. Na série nacional, 24,4% das crianças fizeram apenas radiografia simples como exame de imagem, e outras 13% não fizeram exame nenhum.
Como pegar a tempo: Radiografia responde a uma pergunta só: existe pneumoperitônio? Peça-a quando houver sinais de peritonite ou mau estado geral, com incidência capaz de mostrar ar livre. Fora disso, o primeiro exame é a ultrassonografia.
O dano: A tomografia em lactente exige sedação, transporte e jejum, expõe a dose de radiação muito superior e responde a uma pergunta que a ultrassonografia já responderia. O tempo consumido é exatamente o que separa enema de laparotomia, e a sedação em criança com obstrução intestinal e estômago cheio tem risco próprio de aspiração.
Como pegar a tempo: Ultrassonografia continua sendo a primeira linha mesmo em serviço sem radiologista de plantão, porque o achado é dos mais reconhecíveis e porque a alternativa real não é um exame melhor. Se não houver ninguém que faça, o caminho é transferir com o telefonema dado — não tomografar para ganhar tempo.
O dano: Na obstrução intestinal da criança, o contraste ingerido não atravessa o ponto obstruído, aumenta o volume gástrico, aumenta o risco de vômito e de broncoaspiração — especialmente na indução anestésica que talvez venha depois — e polui o campo do enema. A diretriz brasileira classifica a seriografia alta como contraindicada na grande maioria dos casos de obstrução.
Como pegar a tempo: Grave a regra em uma frase: nesta doença, o contraste entra pelo ânus. Enquanto o diagnóstico não está fechado, a via oral está fechada — inclusive para leite materno.
O dano: A hérnia encarcerada é a maior responsável por obstrução intestinal no primeiro semestre de vida, e 70% dos encarceramentos ocorrem abaixo de um ano. Ela produz exatamente o mesmo quadro — choro, vômito, pernas encolhidas — e não aparece na ultrassonografia de abdome de rotina. O desfecho de uma hérnia encarcerada não diagnosticada é necrose de alça e, no menino, de gônada.
Como pegar a tempo: Todo lactente com dor abdominal é examinado despido. Regiões inguinais e bolsa escrotal antes do abdome, sempre, procurando tumefação tensa, globosa e dolorosa. Custa dez segundos e não tem substituto por imagem.
O dano: A hérnia encarcerada é a maior responsável por obstrução intestinal no primeiro semestre de vida, produz exatamente o mesmo quadro — choro, vômito, pernas encolhidas — e não aparece na ultrassonografia de abdome de rotina. O desfecho de uma hérnia encarcerada não diagnosticada é necrose de alça e, no menino, de gônada.
Como pegar a tempo: Prescreva e administre. Dipirona 15 mg/kg/dose por via endovenosa, com teto de 25 mg/kg/dose; para dor intensa, morfina 0,05 a 0,1 mg/kg/dose endovenosa, diluída. Reexamine depois, com a criança calma — o exame fica melhor, não pior.
O dano: A complicação do procedimento é a perfuração, que ocorre em torno de 0,3% dos casos e transforma a criança, em minutos, num abdome com pneumoperitônio hipertensivo. Sem cirurgião no prédio, essa criança espera — e a espera nesse cenário específico é a mais letal do capítulo inteiro.
Como pegar a tempo: Antes de a criança descer para a sala, confirme três coisas: acesso venoso funcionando, criança estabilizada, cirurgião e anestesista cientes e disponíveis. Serviço que não reúne as três não reduz: estabiliza e transfere.
O dano: A redução parcial deixa o segmento invaginado no íleo distal e a invaginação volta em horas, muitas vezes já com a criança liberada da sala e com o time achando que o caso está resolvido. A segunda apresentação chega com o tempo de isquemia somado ao da primeira.
Como pegar a tempo: Peça, no relato do procedimento, o registro explícito do refluxo para o íleo terminal. Sem refluxo documentado, trate a criança como não reduzida: mantenha jejum, acesso e vigilância, e discuta nova tentativa ou cirurgia com o cirurgião.
O dano: A ambulância que sai sem contato prévio chega a um serviço que não sabe do caso, e a criança espera na porta enquanto alguém decide se aceita. Sem laudo, o serviço receptor repete a ultrassonografia; sem acesso venoso, alguém vai puncionar uma criança pior do que a que saiu; sem sonda em criança com vômito bilioso, o trajeto tem risco de broncoaspiração.
Como pegar a tempo: Telefone antes, anote quem aceitou e a que horas, e mande junto o laudo, o peso, o horário de início dos sintomas e o que já foi feito. Embarque a criança em jejum, com acesso fixado, manutenção correndo, analgesia já administrada e sonda aberta se indicada.
O dano: Existe uma forma de apresentação em que a letargia domina o quadro, com pouca dor observada. Essas crianças são investigadas para sepse, meningite e intoxicação enquanto a alça necrosa — e a punção lombar consome tempo que a ultrassonografia gastaria melhor.
Como pegar a tempo: Examinar a criança, incluindo virilhas e abdome, e inspecionar fralda e períneo. Não esperar massa palpável ou sangue para investigar, nem transformar toque retal em manobra obrigatória.
O dano: O lactente com invaginação sem sinais de má perfusão não precisa de expansão, e o volume desnecessário custa. A recomendação brasileira é explícita: em serviço sem terapia intensiva pediátrica, criança com perfusão anormal sem hipotensão não recebe bolus — recebe fluidos de manutenção e monitorização cuidadosa.
Como pegar a tempo: Separe as duas coisas na prescrição. Manutenção isotônica pelo peso para todo mundo que está em jejum. Expansão de 10 a 20 mL/kg de cristaloide balanceado apenas para quem tem má perfusão, com teto de 40 mL/kg fora de terapia intensiva pediátrica e reavaliação a cada alíquota.
O dano: A recidiva ocorre em cerca de 7% a 12% dos casos e concentra-se nas primeiras 48 a 72 horas. Uma família que sai sem saber disso interpreta a nova crise como a mesma dor de ontem, espera, e volta tarde de novo — desta vez com a criança já vista, já tratada e já rotulada como resolvida.
Como pegar a tempo: Interne para observação, reintroduza a dieta sob supervisão e documente exame abdominal normal antes da alta. Marque retorno presencial em 48 a 72 horas e entregue por escrito o que traz de volta: crises com palidez, vômito, sangue nas fezes ou criança mole entre as crises.
O dano: Operar por contagem de episódios expõe a criança a laparotomia e a riscos de anestesia sem benefício demonstrado. A maior revisão disponível mostra que a presença de ponto de partida não é mais frequente em quem recidiva, e que 87,9% das recidivas foram resolvidas sem operação.
Como pegar a tempo: Trate a recidiva como episódio novo: ultrassonografia e nova tentativa de redução por enema. Reserve a indicação cirúrgica para o que muda de verdade — ponto de partida identificado, contraindicação ao enema, falha da redução — e discuta com a família quando episódios repetidos passarem a pesar na decisão.
O que dizer ao paciente e à família
Há uma dificuldade específica de comunicação nesta doença, e ela decorre do próprio mecanismo: na hora em que você precisa convencer a família a ficar, a criança está no intervalo — calma, mamando, aparentemente bem. Você vai pedir a uma mãe exausta que aceite jejum, agulha, exame e possivelmente transferência para um bebê que, naquele instante, parece melhor do que estava em casa.
A segunda dificuldade é que muitas dessas famílias já foram mandadas embora antes, às vezes duas vezes. Elas chegam com desconfiança justificada, e a tentação de defender o colega ou de defender o serviço estraga a conversa. O que funciona é reconhecer o fato sem julgar ninguém e mostrar o que muda agora.
As falas abaixo são para dizer em voz alta, com essas palavras ou próximas delas. Cada uma vem acompanhada do que não se deve dizer — porque nesta doença as frases erradas têm consequência mensurável: a família que sai do serviço volta tarde.
Convencer a ficar a família de uma criança que, neste minuto, parece bem
““Eu sei que agora ele está calmo, e sei que isso confunde. Mas é exatamente assim que essa doença funciona: ela dá crises fortes e depois solta, e no intervalo a criança parece normal. É por isso que ela engana tanta gente, inclusive médicos. O que a senhora me descreveu — a crise que começa e para de repente, a palidez, e ele ficando mole entre as crises — é o desenho dela. Eu preciso de um exame de imagem para ter certeza, e ele demora pouco. Se der negativo, eu explico o que a gente faz em seguida. Se der positivo, quanto antes a gente tratar, mais chance de resolver sem cirurgia.””
Não diga: “Vamos observar e ver se ele piora.” Essa frase transfere para a família a tarefa de reconhecer a piora e transforma a espera em conduta. Nesta doença, o que se observa piorando é a alça.
Explicar o que é a invaginação em linguagem que a família use com outras pessoas depois
““Um pedaço do intestino dele entrou dentro do pedaço seguinte, como quando o dedo de uma luva vira para dentro. Isso entope o caminho e, pior, aperta os vasos que levam sangue para aquele trecho. É por isso que dói em crises e é por isso que precisa ser desfeito rápido: enquanto está assim, aquele pedaço fica sem circulação. Não é nada que a senhora tenha feito ou deixado de fazer, e não é por causa de comida. Nessa idade acontece porque uma parte do intestino tem umas ‘amígdalas’ que incham depois de uma virose, e isso serve de ponto de arrasto.””
Não diga: Usar as palavras torção, nó ou tumor. Cada uma delas cria uma imagem mental errada — de irreversibilidade, de fatalidade ou de câncer — que depois custa meia hora para desfazer.
Explicar por que a criança não pode mamar
““A partir de agora ele não pode receber nada pela boca, nem o peito. Eu sei que é a única coisa que acalma, e sei o quanto isso é difícil. É por dois motivos: se o intestino está entupido, o que entra volta, e ele pode engasgar; e se a gente precisar sedar ou operar, estômago cheio é perigoso. Assim que ele estiver liberado, mamar é a primeira coisa que ele vai fazer, e eu aviso a senhora na hora. Enquanto isso, ele vai receber soro na veia para não ficar sem líquido, e eu vou dar remédio para a dor.””
Não diga: Autorizar “um pouquinho só de água” ou “só o peito, que é leve”. A exceção compassiva vira, na indução anestésica, um risco real de aspiração — e a família não tem como saber disso.
Explicar a redução por enema, antes que a família ouça a palavra procedimento e entenda cirurgia
““O tratamento da maioria dos casos não é cirurgia. É um procedimento feito na sala de exame: passa-se uma sonda fina pelo ânus e enche-se o intestino grosso com soro ou com ar, devagar e com pressão controlada, acompanhando por ultrassom ou por raio-X. Essa pressão empurra o pedaço que entrou de volta para o lugar. Dura poucos minutos. Na maior parte das crianças resolve, e depois disso ele volta a mamar e vai para casa em um ou dois dias.””
Não diga: Prometer que vai dar certo. A frase certa é “na maior parte das crianças resolve”, porque em uma parcela não resolve — e a família que ouviu promessa recebe a notícia da cirurgia como se algo tivesse dado errado.
Preparar a família para a possibilidade de cirurgia, antes de a criança descer para a sala
““Antes de descer, preciso que a senhora saiba de duas coisas. A primeira: em algumas crianças o procedimento não consegue desfazer, e aí é preciso operar. Não é fracasso de ninguém, é o intestino que já está muito inchado. A segunda: existe um risco pequeno de o intestino furar durante o procedimento, e é por isso que a equipe de cirurgia está avisada e disponível agora, enquanto ele faz o exame. É por isso também que ele está em jejum e com acesso na veia. A gente está preparado para os dois caminhos.””
Não diga: Omitir o risco de perfuração para não assustar. A família que descobre depois, na urgência, perde a confiança justamente quando precisa consentir com uma laparotomia.
Falar com a família que já procurou atendimento duas vezes e foi liberada
““A senhora veio antes e foi mandada para casa duas vezes, e eu entendo a sua raiva. Vou ser direto: essa doença é examinada, na maior parte das vezes, no momento em que a criança está calma — e nesse momento a barriga fica mole e o exame fica normal. Foi isso que aconteceu. O que mudou agora é que a história completa deixou o desenho claro, e a gente vai fazer o exame que fecha o diagnóstico. Eu não vou defender ninguém nem acusar ninguém; eu vou cuidar dele agora.””
Não diga: “Os colegas fizeram o que podiam” e “eles erraram feio” são as duas saídas fáceis, e as duas atrapalham. A primeira soa a corporativismo e faz a família calar informação; a segunda destrói a confiança no serviço inteiro, que é onde a criança vai ficar internada.
Dizer que ainda não se sabe, quando o quadro está no meio do caminho
““Neste momento eu tenho uma suspeita, não uma certeza. O que ele tem pode ser uma coisa que se resolve com um procedimento simples e pode ser uma virose que passa sozinha — e a diferença entre as duas muda tudo o que a gente faz. Por isso eu não vou chutar. O exame que separa as duas leva pouco tempo e eu já pedi. Assim que eu souber, eu venho aqui e falo com a senhora.””
Não diga: Preencher o silêncio com um diagnóstico provisório confortável — “deve ser gases”, “deve ser virose”. O rótulo dito para acalmar vira, na cabeça da família, o diagnóstico oficial, e é o que ela vai repetir na próxima porta.
Comunicar que foi preciso ressecar intestino
““A cirurgia terminou e ele está estável. Preciso contar uma coisa importante: um trecho do intestino tinha perdido a circulação e não dava para salvar, então foi preciso retirar esse pedaço e emendar as duas pontas. O trecho retirado foi pequeno, e crianças se adaptam muito bem a isso — a expectativa é que ele coma normalmente e cresça normalmente. A recuperação vai ser um pouco mais lenta do que seria sem a ressecção, e nos próximos dias a gente vai acompanhar de perto o funcionamento do intestino. Quer que eu explique de novo alguma parte?””
Não diga: Dizer “tivemos que tirar um pedaço, mas está tudo bem”. O “mas está tudo bem” anula a informação anterior e a família não retém nenhuma das duas. Dê a notícia, faça silêncio, e depois ofereça o contexto.
Responder à família que pergunta se foi a vacina
““É uma pergunta boa e eu vou responder com números. Existe sim uma associação pequena entre a vacina de rotavírus e essa doença: um caso a mais a cada cinquenta a setenta mil crianças vacinadas, principalmente na primeira semana depois da segunda dose. Do outro lado, essa mesma vacina evita dezenas de milhares de internações e mais de mil mortes por diarreia por ano só aqui e no México. Então a conta é largamente favorável a vacinar. O que muda para ele, especificamente: como ele teve invaginação, ele não vai tomar as próximas doses dessa vacina — isso vai escrito no relatório e a senhora precisa mostrar na unidade de saúde. Todas as outras vacinas continuam normais.””
Não diga: Dizer que não tem nada a ver com a vacina, ou dizer que foi a vacina. A primeira soa a defesa corporativa e a família descobre depois; a segunda produz uma família que deixa de vacinar os outros filhos. O número honesto, dos dois lados, é o que sustenta a confiança.
A conversa da alta, que é a que evita a próxima tragédia
““Ele está bem e vai para casa. Antes de sair, preciso que a senhora guarde uma coisa: essa doença volta em cerca de uma em cada dez crianças, e quase sempre nos dois ou três primeiros dias. Se voltar, a gente resolve de novo, e quase sempre sem cirurgia — mas só se a senhora vier rápido. Então: se ele voltar a chorar em crises, ficar branco, vomitar, sair sangue na fralda ou ficar mole entre os choros, a senhora não espera e não vai a outro lugar; volta aqui. Está escrito nesse papel, e eu marquei o retorno para daqui a dois dias de qualquer jeito.””
Não diga: “Se piorar, procure um serviço de saúde.” É a frase mais comum e a menos útil da medicina de urgência. Diga o que é piorar, com os sinais nomeados, e diga onde voltar.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Guiado por ultrassom, com soro fisiológico — maior sucesso e sem radiação
A maior coorte prospectiva multicêntrica comparando os dois métodos, com 2.124 crianças, encontrou sucesso em 1.072 de 1.119 no braço hidrostático guiado por ultrassom, contra 936 de 1.005 no braço pneumático guiado por fluoroscopia — 95,8% contra 93,1%, com diferença estatisticamente significativa. As taxas de perfuração foram equivalentes (4 de 1.119 contra 3 de 1.005) e as de recidiva também (104 de 1.119 contra 107 de 1.005). Some-se a ausência completa de radiação ionizante num lactente, e a diretriz brasileira já classificava a redução hidrostática guiada por ultrassom como técnica simples e segura, com a vantagem explícita de não empregar radiação.
Liu ST et al., World Journal of Emergency Surgery 2021;16:3. Associação Brasileira de Cirurgia Pediátrica, Colégio Brasileiro de Radiologia e Colégio Brasileiro de Cirurgiões, Projeto Diretrizes AMB/CFM, 2005 (grau B).
Pneumático sob fluoroscopia — pressão aferível e menos contaminação se perfurar
A revisão brasileira de imagem argumenta que a redução com gás é tecnicamente preferível: há menos extravasamento anal do meio, a pressão é mantida com mais facilidade e pode ser aferida com manômetro, e os resultados experimentais mostram que enemas com ar produzem bem menos contaminação fecal do peritônio do que enemas com bário ou contraste hidrossolúvel, com pontos de ruptura menores. As taxas de redução com ar variam de 27% a 96%, com muitos autores relatando resultados acima de 90%, e um estudo randomizado com 101 pacientes encontrou 76% com gás contra 63% com líquido sob fluoroscopia. Na prática internacional, 19 de 52 centros europeus usam fluoroscopia como método principal.
Cunha FM et al., Radiologia Brasileira 2005;38(3). Meshaka R et al., Pediatric Radiology 2024;54(4):571-584 (levantamento da força-tarefa abdominal da ESPR).
Use a técnica que a equipe de referência realiza com experiência e sem atraso indevido. Quando ambas estão prontamente disponíveis, o percurso considera as vantagens da redução guiada por ultrassom. Disponibilidade, segurança e tempo até o procedimento pesam mais que uma pequena diferença média entre estudos.
Falha da redução é indicação cirúrgica
A diretriz brasileira é direta: a intervenção cirúrgica está indicada quando há falha na redução da invaginação por enema contrastado, com bário ou com ar, ou nas contraindicações ao exame — recomendação com grau B. O raciocínio é que a alça que não recuou dentro dos tetos de pressão e de tempo já tem edema suficiente para não ceder, e insistir consome horas que aumentam o risco de necrose e de perfuração num intestino cada vez mais frágil.
Associação Brasileira de Cirurgia Pediátrica, Colégio Brasileiro de Radiologia e Colégio Brasileiro de Cirurgiões, Projeto Diretrizes AMB/CFM, 2005 (grau B).
Tentativa tardia repetida evita laparotomia em parte das crianças
A repetição tardia é prática corrente e majoritária nos serviços que fazem o procedimento com volume: no levantamento da força-tarefa abdominal da Sociedade Europeia de Radiologia Pediátrica, 30 de 52 centros europeus e 9 de 13 centros de fora da Europa oferecem uma tentativa tardia, com intervalos que vão de 15 minutos a 24 horas. A lógica é que uma redução parcial já descomprimiu parte do segmento, e um intervalo curto permite que o edema ceda o suficiente para a segunda tentativa vencer — poupando anestesia e laparotomia numa criança estável.
Meshaka R et al., Pediatric Radiology 2024;54(4):571-584.
Após redução incompleta, a equipe avalia estabilidade, peritonite, distensão, dor e capacidade de operar rapidamente antes de considerar nova tentativa. Registre decisão e horário e mantenha jejum, acesso e exames seriados. Deterioração ou contraindicação ao enema exige mudança imediata do plano.
Sedar ou analgesiar melhora as condições do procedimento
É a prática da maioria dos centros europeus: 35 de 52 instituições europeias relatam usar sedação ou analgesia durante a redução guiada por imagem. O argumento é o relaxamento da parede abdominal e do tônus, que reduz a pressão necessária para vencer a invaginação, além do conforto óbvio de um lactente que está sendo submetido a distensão colônica.
Meshaka R et al., Pediatric Radiology 2024;54(4):571-584.
Fazer sem sedação evita o risco anestésico e é prática corrente fora da Europa
Apenas 2 de 13 instituições de fora da Europa relatam usar sedação ou analgesia no mesmo levantamento, o que mostra que o procedimento é feito rotineiramente sem sedação em boa parte do mundo. O contra-argumento é a soma de riscos: lactente pequeno, jejum incerto, obstrução intestinal com estômago potencialmente cheio, e um procedimento curto. A força-tarefa abdominal da Sociedade Europeia de Radiologia Pediátrica dedicou uma revisão específica a essa questão — a melhor técnica de redução e os riscos de anestesia e sedação.
Meshaka R et al., Pediatric Radiology 2024;54(4):571-584. Perucca G et al., Pediatric Radiology 2026;56(2):260-268.
A escolha de sedação cabe à equipe habilitada, com monitorização e condições de resgate. Informe jejum, vômitos, estado clínico e acesso disponível. A ausência de estrutura para sedar com segurança exige rever a estratégia ou o destino, sem improvisar sedação do lactente obstruído.
Alta precoce é defensável na criança bem
A metanálise de 69 estudos sobre recidiva após redução por enema conclui explicitamente que o risco de recidiva precoce, nas primeiras 48 horas, é baixo, e que o manejo ambulatorial de pacientes com bom aspecto clínico deveria ser considerado. Os números que sustentam essa leitura são as recidivas precoces de 2,7% após enema de ar guiado por fluoroscopia e de 5,4% após enema com contraste. O ganho é concreto: menos leito ocupado, menos exposição hospitalar e menos separação da família.
Gray MP, Li SH, Hoffmann RG, Gorelick MH. Pediatrics 2014;134(1):110-119.
Observação hospitalar com dieta reintroduzida sob supervisão
A mesma metanálise mostra que a recidiva precoce depende do método: ela é de 6,6% após redução guiada por ultrassom sem contraste, mais que o dobro da observada após enema de ar. E o cenário brasileiro acrescenta um fator que os estudos de alta precoce não modelam: a série nacional documenta que 57,4% das crianças passaram por dois ou mais atendimentos antes do diagnóstico e que 36,9% foram tratadas depois de 48 horas de evolução — ou seja, o retorno rápido, que é a premissa da alta precoce, é justamente o que falha aqui.
Gray MP et al., Pediatrics 2014;134(1):110-119. Renoiner EIM, tese de doutorado, Universidade de Brasília, 2012.
Após redução confirmada, observe resposta e tolerância alimentar e avalie se a família consegue retornar rapidamente. O percurso apresentado favorece observação até o dia seguinte quando o acesso é limitado, com retorno em 48–72 horas. A alta deve incluir sinais de recidiva, instruções escritas e seguimento confirmado.
Tempo de evolução, por si só, não contraindica a tentativa
A diretriz brasileira lista três contraindicações ao enema, e tempo de evolução não é uma delas: choque hipovolêmico, sinais de peritonite e perfuração intestinal. A revisão brasileira de imagem acrescenta que a ausência de fluxo ao Doppler na parede, embora se associe a menor taxa de redução em grandes séries, não é contraindicação absoluta ao enema. O argumento prático é forte: a tentativa dura minutos, é feita com cirurgião de prontidão, e uma redução bem-sucedida poupa uma laparotomia numa criança que já está debilitada.
Associação Brasileira de Cirurgia Pediátrica, Colégio Brasileiro de Radiologia e Colégio Brasileiro de Cirurgiões, Projeto Diretrizes AMB/CFM, 2005 (grau B). Cunha FM et al., Radiologia Brasileira 2005;38(3).
Sinais indiretos de sofrimento deslocam a balança para a sala de cirurgia
A mesma revisão de imagem registra que a detecção de fluxo não exclui necrose de alça, e que a ausência de fluxo se associa a taxas menores de redução. Somados a evolução prolongada, alças dilatadas e líquido livre, esses achados desenham uma alça de baixa chance de reduzir e alta chance de romper sob pressão — e a perfuração durante o enema numa criança já comprometida acrescenta contaminação peritoneal a um quadro que teria sido resolvido com laparotomia eletiva minutos antes.
Cunha FM et al., Radiologia Brasileira 2005;38(3).
Tempo prolongado de sintomas exige cautela, mas não substitui a avaliação clínica da elegibilidade para redução. Choque, peritonite ou perfuração afastam a tentativa no percurso. Se a equipe indicar enema em criança selecionada, deve haver técnica controlada, retaguarda cirúrgica e limites de tentativa definidos.
O raciocínio, em voz alta
Benício, 7 meses, 8,0 kg, trazido ao pronto-socorro às 2h10. Terceira passagem por serviço de saúde em 26 horas: a primeira às 10h de ontem, com diagnóstico de cólica; a segunda às 16h, com diagnóstico de virose. A mãe descreve crises de choro que começam e param de repente, com as pernas encolhidas e palidez, desde as 9h de ontem — a princípio a cada 40 minutos, agora a cada 15. Entre as crises, ele brincava; desde a noite, fica mole e sonolento. Vomitou várias vezes, e o último vômito foi esverdeado. Há uma hora, na fralda, saiu pouca quantidade de muco com sangue escuro. Ao exame: hipotônico no colo, pálido, sem sorriso social; FC 168, FR 44, temperatura axilar 37,4 °C, enchimento capilar 3 segundos, extremidades frias; abdome discretamente distendido, sem defesa involuntária e sem descompressão dolorosa, com massa alongada palpável no quadrante superior direito e fossa ilíaca direita aparentemente vazia. Regiões inguinais e bolsa escrotal sem alterações. O hospital tem ultrassonografia com plantonista, tem radiologia, não realiza redução de invaginação, e o serviço de cirurgia pediátrica de referência fica a 35 minutos.
o que penso agora
Antes de qualquer hipótese, o desenho: crises paroxísticas com início e fim súbitos, num lactente de sete meses previamente bem, com intervalo que passou de normal para prostração ao longo de 17 horas. Isso é invaginação intestinal até que uma imagem diga o contrário, e nenhuma das duas altas anteriores muda isso — pelo contrário, reforça, porque a criança já vista e liberada é a de maior risco. O vômito bilioso me diz que a obstrução está instalada; o sangue no muco me diz que a mucosa já está isquêmica. Estou chegando tarde e sei disso.
o que faço nos primeiros cinco minutos
Peso aferido e anotado com o horário: 8,0 kg às 2h15. Jejum absoluto declarado à família, inclusive leite materno. Criança despida, regiões inguinais e bolsa escrotal examinadas — se fosse hérnia encarcerada, a ultrassonografia de abdome não pegaria e eu perderia o diagnóstico. Palpação do abdome com ele relaxado, entre as crises: massa alongada no quadrante superior direito, fossa ilíaca direita vazia. Toque retal: muco sanguinolento na luva. Glicemia capilar, porque ele está prostrado.
o que a resposta muda
O achado que mais muda a conduta é o que NÃO encontrei: não há defesa involuntária, não há descompressão dolorosa, não há abdome em tábua. Ele ainda é candidato a redução por enema, e portanto o caminho é imagem e transferência rápida, não centro cirúrgico imediato. Mas o enchimento capilar de 3 segundos e as extremidades frias dizem que ele está mal perfundido, e isso precisa ser tratado antes de qualquer transporte.
o que peço, e como peço
Ultrassonografia de abdome total, urgente, com três perguntas escritas no pedido: topografia da invaginação, presença de massa focal no ápice, fluxo ao Doppler na parede. Não peço radiografia — ele não tem sinais de peritonite, e uma radiografia normal não me ensinaria nada e custaria trinta minutos. Não peço tomografia. Colho hemograma, sódio, potássio, ureia, creatinina e glicemia pelo mesmo acesso, e deixo claro para a equipe: nenhum resultado de sangue vai atrasar o telefonema.
o que faço enquanto o exame não sai
Acesso venoso periférico calibroso agora, com ele ainda compensado. Como há má perfusão, expansão com cristaloide balanceado 10 a 20 mL/kg — para 8 kg, 80 a 160 mL —, reavaliando perfusão e frequência cardíaca a cada alíquota, com teto de 40 mL/kg (320 mL) porque este serviço não tem terapia intensiva pediátrica. Manutenção isotônica em seguida: 800 mL/dia, 33 mL/h. Sonda nasogástrica calibrosa aberta, porque há vômito bilioso e distensão. Dipirona 120 mg por via endovenosa — 0,24 mL da apresentação de 500 mg/mL, diluída. Se a dor não ceder, morfina 0,4 a 0,8 mg, que é 0,4 a 0,8 mL da diluição de 1 mg/mL.
o que a imagem responde
A ultrassonografia sai às 2h55: invaginação ileocólica no hipocôndrio direito, imagem em alvo de 3,1 cm no corte transversal e pseudo-rim no longitudinal, sem massa focal identificável no ápice, com fluxo presente ao Doppler na parede. Leio três coisas nesse laudo. Primeira: o diagnóstico está fechado. Segunda: sem massa focal e dentro da faixa etária, é presumivelmente idiopática — não preciso planejar investigação de ponto de partida agora. Terceira: fluxo presente sugere alça viável e boa chance de redução, embora eu saiba que fluxo presente não exclui necrose.
o telefonema, que é conduta e não burocracia
Ligo para o cirurgião pediátrico do serviço de referência às 3h00, antes de qualquer outra decisão. Digo, nesta ordem: lactente de sete meses, 8 quilos, invaginação ileocólica confirmada por ultrassom, 18 horas de evolução, abdome distendido mas sem sinais de peritonite, mal perfundido em expansão, já com sonda, acesso e analgesia. Pergunto duas coisas: aceitam agora, e querem que eu faça mais alguma coisa antes de embarcar. Anoto o nome de quem aceitou e o horário. Sem esse telefonema, a ambulância chegaria e a criança esperaria na porta.
o que sai junto com ele
Sai em jejum, com acesso fixado e manutenção correndo, sonda aberta em drenagem, analgesia já administrada — não prescrita para o caminho —, e com a cópia do laudo da ultrassonografia, o peso aferido, o horário de início dos sintomas e um resumo do que foi feito e a que horas. A família vai informada de que o tratamento provável é um procedimento na sala de exame, não uma cirurgia, e de que existe a possibilidade de operar. Embarque às 3h20.
o desfecho, e a conta que importa
Redução hidrostática guiada por ultrassom às 4h35, com refluxo documentado de soro para o íleo terminal — redução completa. Benício fica internado, mama às 9h sem vomitar, tem exame abdominal normal registrado à tarde e recebe alta no dia seguinte, com retorno marcado em 48 horas e os sinais de alarme escritos. Da primeira consulta ao tratamento passaram-se 19 horas e meia; do reconhecimento do padrão à redução, duas horas e vinte e cinco minutos. As duas primeiras consultas não erraram o exame — examinaram no intervalo. O que salvou o íleo terminal dele foi alguém ter perguntado como ele fica ENTRE as crises.
Faça você
Lorena, 9 meses, 9,0 kg, chega ao mesmo pronto-socorro às 5h40, dois dias depois. Segundo a avó, começou anteontem à noite com choro em crises e vômitos; foi levada a uma unidade de pronto atendimento ontem de manhã e saiu com diagnóstico de gastroenterite, soro oral e orientação de retorno se piorasse. Piorou. Desde ontem à noite não elimina fezes nem gases, e vomitou quatro vezes, com vômito verde nas duas últimas. Ao exame: sonolenta, responde apenas à dor, gemente; FC 186, FR 52, PA não obtida na primeira tentativa, enchimento capilar 4 segundos, extremidades frias e moteadas, temperatura axilar 38,3 °C. Abdome muito distendido, tenso, com defesa involuntária difusa e descompressão dolorosa; ruídos hidroaéreos ausentes. Toque retal com sangue vivo. Glicemia capilar 58 mg/dL. O serviço tem ultrassonografia com plantonista, radiologia, cirurgião geral de sobreaviso e não tem cirurgião pediátrico; o centro de referência fica a 35 minutos.
achado
Lactente de 9 meses com 56 horas de evolução, rebaixamento de consciência, taquicardia extrema, enchimento capilar de 4 segundos, extremidades moteadas, febre, hipoglicemia, abdome distendido e tenso com defesa involuntária e descompressão dolorosa, ruídos ausentes e sangue vivo ao toque retal.
o que isso significa
Não é a mesma doença de Benício num estágio adiantado: é a mesma doença depois que a alça morreu. Defesa involuntária difusa, descompressão dolorosa e ruídos ausentes significam peritonite; a soma com má perfusão, febre e hipoglicemia significa choque. As três contraindicações formais ao enema são choque hipovolêmico, sinais de peritonite e perfuração — e ela tem as duas primeiras de forma inequívoca.
o que NÃO se faz aqui
Não se transfere criança em choque para fazer exame em outro serviço. Não se pede tomografia. Não se espera resultado de laboratório para agir. Não se manda para redução por enema, e não se pede a ninguém que tente. E não se adia a estabilização para completar a imagem.
a decisão, com o passo final em branco
Você tem 9 quilos, uma criança em choque com abdome peritonítico e hipoglicemia, um serviço sem cirurgião pediátrico e um centro de referência a 35 minutos. Escreva, na ordem, o que você faz nos próximos vinte minutos — incluindo o volume e o teto da expansão em mililitros, o que fazer com a glicemia, qual é o único exame de imagem que ainda muda alguma coisa aqui, para quem você liga e em que momento, e o que precisa estar feito antes de a ambulância sair.
Continuidade do caso e prática do internato
Releia a trajetória de Benício: a história do intervalo deve mudar a avaliação antes que apareçam os sinais tardios.
Questão integrativa 1
Benício está bem entre duas crises. Isso permite alta pela aparência do intervalo?
Questão integrativa 2
A criança em choque com peritonite precisa terminar o ultrassom antes do telefonema?
Questão integrativa 3
É necessário demonstrar sangue ao toque retal?
Questão integrativa 4
Qual é a função do interno antes da redução?
Questão integrativa 5
O desaparecimento do choro prova redução completa?
Questão integrativa 6
Toda criança reduzida deve receber antibiótico e ficar internada 24 horas?
Ver como fecharíamos
Estabilização e cirurgia, com a transferência acontecendo em paralelo e não depois. Nos primeiros vinte minutos: monitorização e oxigênio; acesso venoso ou intraósseo imediato — se duas tentativas de punção falharem, intraósseo, sem insistir. Corrigir a hipoglicemia com glicose endovenosa antes de qualquer outra coisa, porque hipoglicemia em lactente prostrado é reversível em minutos e piora tudo o mais. Expansão com cristaloide balanceado 10 a 20 mL/kg — para 9 kg, 90 a 180 mL — em alíquotas, reavaliando perfusão, frequência cardíaca e sinais de sobrecarga a cada uma, sem usar 40 mL/kg como teto universal; resposta inadequada ou necessidade crescente pede escalonamento imediato e revisão da fisiologia. Sonda nasogástrica calibrosa aberta em drenagem, obrigatória aqui: reduz a distensão, melhora a ventilação e diminui o risco de aspiração na indução anestésica. Jejum mantido. Analgesia administrada. O único exame de imagem que ainda muda alguma coisa é a radiografia de abdome com incidência capaz de mostrar ar livre, e ela é feita à beira do leito, sem tirar a criança da sala — pneumoperitônio confirma perfuração e reforça a indicação, mas a ausência dele não muda nada, porque a indicação cirúrgica já está feita pelo exame do abdome. Ultrassonografia à beira do leito só se não atrasar. Os telefonemas vão AGORA e são dois: ao cirurgião de sobreaviso do próprio serviço, porque uma criança em choque com peritonite pode não tolerar 35 minutos de estrada e pode precisar de laparotomia aqui; e ao centro de referência, para acertar o destino e o transporte. Quem decide entre operar aqui ou transferir é essa conversa, feita com a criança já em expansão e não antes. Antes de a ambulância sair: acesso pérvio e fixado, glicemia corrigida e reconferida, expansão em curso, sonda aberta, analgesia dada, laudo e resumo por escrito, e um profissional capaz de manejar via aérea acompanhando. Antimicrobiano terapêutico deve começar prontamente em paralelo ao suporte e ao controle do foco, porque há peritonite e choque — metronidazol 10 a 15 mg/kg (para 9 kg, 90 a 135 mg, ou 18 a 27 mL da solução de 5 mg/mL) com gentamicina 5 a 7,5 mg/kg (45 a 67,5 mg), conforme o protocolo do serviço, sem que isso atrase um minuto da estabilização. O esquema acima precisa ser revisto como tratamento, e não como uma dose de profilaxia: considerar idade, função renal, cobertura necessária, epidemiologia, culturas e doses subsequentes com a equipe; não adiar essa decisão até terminar toda a ressuscitação. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não. O padrão intermitente e sua evolução sustentam a suspeita; letargia isolada também pode ser apresentação. 2. Não. Suporte, avaliação cirúrgica e organização do destino são imediatos; imagem só se não atrasar. 3. Não. Inspecionar fralda e períneo e reservar toque para indicação específica; ausência de sangue não exclui a doença. 4. Reconhecer gravidade, comunicar, conferir suporte e registros e auxiliar sob supervisão; a redução cabe a equipe habilitada. 5. Não. A confirmação do operador e a evolução clínica precisam ser concordantes; dor persistente ou recorrente exige reavaliar. 6. Não. Antibiótico de rotina após redução não complicada não é necessário, e a observação é individualizada, com tolerância alimentar e retorno acessível.
O que faz o diagnóstico é o desenho temporal, não um achado isolado. Crises paroxísticas de início e fim súbitos, num lactente previamente bem, com intervalo que evoluiu de normalidade para prostração, é a assinatura da invaginação. O abdome pode estar flácido e indolor no vale da curva de dor — é justamente nesse momento que a criança fica calma o bastante para ser examinada, e foi assim que duas consultas anteriores registraram exame normal. Cólica do lactente é um padrão de semanas, definido pela regra dos três, em bebê perfeitamente normal fora das crises, sem palidez e sem vômito. Ausência de sangue e de massa não exclui nada: a tríade clássica aparece em 28% dos casos na série nacional brasileira.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Sem consultar, escreva o padrão que faz o diagnóstico: quanto dura a crise, quanto dura o intervalo, e o que acontece com o intervalo ao longo das horas. Depois diga em quantos por cento dos casos a tríade clássica está presente na série nacional brasileira e por que ela não serve de gatilho. Nomeie o exame de primeira linha e as duas imagens que ele mostra. Recite as três contraindicações formais à redução por enema. E calcule de cabeça, para um lactente de 7 quilos: o volume de manutenção diário e a velocidade em mL/h, a dose de dipirona em miligramas e em mililitros da apresentação de 500 mg/mL, e o volume da expansão de 10 a 20 mL/kg com o teto de quem não tem terapia intensiva pediátrica.
Em 30 dias
Reconstrua a trajetória inteira em voz alta para um colega, do minuto zero à alta: as três perguntas da anamnese que fecham a suspeita, o que se examina antes do abdome e por quê, o que se prescreve enquanto a imagem não sai, o que vai escrito no pedido da ultrassonografia, quando entra a radiografia, para quem se liga e em que momento, e o que precisa estar pronto antes de a criança descer para a redução. Depois responda às cinco perguntas que separam quem já atendeu de quem não atendeu: por que o abdome pode estar normal e ainda assim ser invaginação; por que sangue nas fezes é um sinal ruim de usar como gatilho; o que significa não ter havido refluxo para o íleo terminal durante o enema; em que janela a recidiva se concentra e o que se faz com ela; e quais são as cinco bandeiras que obrigam a procurar ponto de partida patológico. Termine dizendo, com números, por que 46,4% das crianças da série nacional brasileira precisaram de ressecção intestinal.
Agora atenda
Mãe traz ao pronto-socorro um lactente de 8 meses, 8,5 kg, que desde ontem de manhã chora em crises fortes que começam e param de repente, com as pernas encolhidas. Ela conta que já passou por outro serviço ontem e saiu com diagnóstico de cólica. Neste momento a criança está calma no colo. Colha a história com atenção ao padrão temporal e ao estado da criança entre as crises, examine a região inguinal antes do abdome, palpe o abdome e faça o toque retal quando indicado, decida qual exame de imagem pedir e o que escrever no pedido, prescreva o preparo com volume e dose calculados para o peso, diga em que momento você liga para o cirurgião e o que informa no telefonema — e explique à mãe, com as suas palavras, por que a criança que está calma agora não vai para casa.
