Cirurgia Geral › Cirurgia Pediátrica
Ele vomita, e continua com fome
Estenose hipertrófica de piloro
Reconhecer a obstrução pilórica, corrigir hidratação e distúrbios metabólicos e preparar o lactente para anestesia e piloromiotomia com a equipe.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 252 p. ISBN 978-65-5993-710-3.
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Lactente de 5 semanas com diagnóstico ultrassonográfico confirmado de estenose hipertrófica de piloro está internado há 6 horas recebendo soro. Os exames atuais mostram cloreto 94 mmol/L, bicarbonato 32 mmol/L, potássio 3,6 mmol/L e excesso de bases +7. A criança está mais ativa, com boa perfusão e urinando. O cirurgião tem sala disponível daqui a duas horas. Qual é a conduta?
O paciente que você vai ver
Sete e vinte da manhã de uma terça-feira. O hospital é municipal, tem setenta leitos, atende uma cidade de sessenta mil habitantes, e a porta do pronto-socorro dá direto para a fila. Não há cirurgião pediátrico na escala; há um cirurgião geral de sobreaviso e um pediatra que chega às oito. Você é o interno da manhã e o primeiro nome da lista de espera é o de um bebê: Bendito, cinco semanas de vida, trazido pela mãe, Izaltina, dezenove anos, que está de pé porque sentada ele chora.
A recepção anotou na ficha uma palavra só: vômito. É a terceira vez em doze dias que essa mãe atravessa a porta de um serviço de saúde com essa mesma queixa. Na primeira, na unidade básica, saiu com a orientação de deixar o bebê sentado depois da mamada. Na segunda, num pronto-atendimento, saiu com a receita de um antirrefluxo em gotas e a sugestão de trocar a fórmula por uma antirregurgitação, que ela não conseguiu comprar. Nas duas vezes o bebê foi examinado e nas duas vezes estava, de fato, tranquilo no colo.
Ela conta a história na ordem em que ela aconteceu, e a ordem importa. Bendito nasceu de parto normal, a termo, com 3.250 gramas, mamou bem na maternidade e teve alta com dois dias. Foi bem por três semanas. O primeiro vômito veio quando ele tinha vinte e poucos dias — pouco, do jeito que todo bebê golfa, e ela não deu importância. Uma semana depois já não era golfada. Agora, diz ela, o leite sai com força, chega a bater na roupa dela, e sai quase sempre logo depois da mamada. Não é toda mamada, mas é quase toda. O leite sai branco ou coalhado, com cheiro azedo; nunca saiu verde nem amarelo.
E vem a frase que muda o peso da história, dita sem ela saber que está dando um dado: “ele vomita e, cinco minutos depois, está chorando de fome de novo”. Ela repete duas vezes que o filho mama com voracidade, que agarra o peito com força, que parece que nunca é o bastante. Não teve febre. Não teve diarreia. Faz dois dias que ela não vê xixi na fralda com a mesma frequência de antes — antes trocava seis, sete fraldas molhadas por dia; ontem trocou três. O intestino soltou pouco, em cíbalos escuros e secos.
Na balança, Bendito pesa 3.640 gramas. Ele nasceu com 3.250 e tem trinta e quatro dias de vida. Isso é um ganho de 390 gramas em cinco semanas, quando o esperado, depois de recuperado o peso de nascimento, é da ordem de 25 a 30 gramas por dia — algo entre 700 e 900 gramas no período. A caderneta tem duas anotações de peso e as duas estão na mesma linha da curva; a terceira, feita hoje, está abaixo. A curva parou de subir e começou a virar, e é a segunda coisa que a história diz sem que ninguém tenha dito.
Ao exame, ele não está grave, e é justamente por isso que se erra aqui. Está desperto, chora forte quando você o descobre, tem fontanela levemente deprimida, mucosas secas, olhos que parecem um pouco fundos e um turgor que volta com discreto atraso. A frequência cardíaca é de 168 por minuto, a respiração é tranquila, não há febre, a perfusão periférica retorna em dois segundos, os pulsos estão cheios. Não há icterícia evidente à luz da sala, embora a esclera pareça levemente amarelada quando você o leva até a janela. O abdome é plano, mole, indolor, sem massas óbvias, sem visceromegalia — e é um abdome que qualquer um assinaria como normal.
A técnica de enfermagem já puncionou um acesso, porque a orientação da casa é que lactente com vômito e sinais de desidratação ganha veia antes de ganhar hipótese. O laboratório do hospital funciona vinte e quatro horas e faz gasometria venosa, eletrólitos e função renal. Há aparelho de ultrassonografia, e o radiologista de plantão chega às oito e meia. O bebê está pesado, com veia e com fralda pesada guardada. E, na sua cabeça, começa a se formar a pergunta errada — para quem eu ligo primeiro?
A pergunta errada tem uma resposta muito atraente, que é ligar para o cirurgião. Este capítulo existe para dizer por que essa não é a primeira ligação. A doença que Bendito provavelmente tem se resolve com uma operação de vinte minutos que praticamente não tem mortalidade — e que mata quando é feita cedo demais. O que está perigoso neste bebê, agora, às sete e vinte da manhã, não é o piloro. É o cloro, o potássio e a água que ele perdeu por vinte e cinco dias de vômito, e que ninguém ainda dosou.
Quem adoece disso
A estenose hipertrófica de piloro é a causa cirúrgica mais comum de vômito no lactente pequeno e uma das operações mais frequentes dos primeiros meses de vida. As séries brasileiras e a literatura internacional convergem numa ordem de grandeza de 2 a 5 casos por mil nascidos vivos, com a caracterização brasileira publicada na Radiologia Brasileira em 2003 trabalhando com a cifra de 3 por mil. Traduzido para a escala de quem atende: num município que registra dois mil nascimentos por ano, isso é da ordem de meia dúzia de casos anuais — pouco para um médico, muito para um serviço, e o suficiente para que a maioria dos internos veja um antes de terminar o curso.
A distribuição por sexo é uma das mais desiguais da pediatria: entre três e cinco meninos para cada menina, com predomínio ainda maior entre primogênitos do sexo masculino, que respondem por cerca de 30% dos casos na casuística brasileira citada. Essa desproporção é útil à beira do leito e é perigosa à beira do leito, pelo mesmo motivo. É útil porque aumenta a probabilidade pré-teste no menino de cinco semanas. É perigosa porque produz o atraso característico da menina: a mesma história, no mesmo tempo, é lida como refluxo com mais frequência quando o bebê é do sexo feminino, e a menina chega mais tarde e mais desidratada.
A idade de apresentação é estreita e é o dado mais discriminante que existe aqui. A doença aparece entre a segunda e a décima segunda semana de vida, concentra-se entre a terceira e a sexta, e é rara depois da décima segunda. Duas consequências práticas. A primeira: vômito em jato que começa no primeiro ou segundo dia de vida não é esta doença, e a investigação é outra. A segunda: vômito que começa aos quatro meses também não é esta doença, e insistir nela é perder tempo enquanto o lactente segue perdendo peso.
Há fatores de risco reconhecidos e vale conhecê-los pelo que eles fazem com a história, não por completude de lista. História familiar aumenta o risco, sobretudo quando o afetado foi a mãe. Tabagismo materno aparece de forma consistente. Alimentação por mamadeira, comparada ao aleitamento exclusivo, associa-se a risco maior. E a exposição a macrolídeos nas primeiras semanas de vida — do próprio lactente e, em menor grau, através do leite materno — é a associação que mais muda conduta, porque é a única evitável na consulta: eritromicina prescrita a um recém-nascido por conjuntivite ou por coqueluche é um antecedente que se pergunta e se anota.
O que o Brasil não tem, aqui, é tão importante quanto o que tem. Não existe protocolo clínico e diretriz terapêutica do Ministério da Saúde sobre esta doença. Não existe diretriz do Projeto Diretrizes da Associação Médica Brasileira e do Conselho Federal de Medicina sobre ela: o que a Revista da Associação Médica Brasileira publicou em 2007 foi um comentário sobre via de acesso e uma carta que o contesta, e nenhum dos dois é diretriz, apesar de o primeiro ter formato de pergunta clínica. Não existe documento de sociedade brasileira que fixe a régua do diagnóstico ou da correção pré-operatória. Quem atende no Brasil decide por protocolo de serviço e por literatura internacional, e é honesto dizer isso ao aluno em vez de fingir que existe uma norma nacional.
O único documento do Ministério da Saúde que nomeia a doença dentro de um protocolo de emergência é de 2002, os Protocolos da Unidade de Emergência, da Série A de Normas e Manuais Técnicos. Ele a lista entre as síndromes obstrutivas do abdome agudo da criança e traz, sobre ela, duas afirmações que este capítulo examina adiante e não segue. Os demais documentos federais que a mencionam não a mencionam por ela mesma: o guia de atenção ao recém-nascido de 2014 e o documento científico de neonatologia da Sociedade Brasileira de Pediatria a citam como causa de icterícia por circulação êntero-hepática aumentada, e o manual da Declaração de Nascido Vivo a registra apenas como um código na lista de anomalias congênitas.
Esse código merece um parágrafo, porque explica por que ninguém sabe quantos casos há no Brasil. Na CID-10, a doença é Q40.0, estenose hipertrófica congênita do piloro, dentro do capítulo das malformações congênitas — e a Declaração de Nascido Vivo, que é o documento onde o país registra anomalia congênita, é preenchida nas primeiras horas de vida. Uma doença que se manifesta na terceira semana e cujo piloro é, na maioria dos casos, normal ao nascimento, não pode ser anotada num campo que se fecha no berçário. O resultado é estrutural: a doença é praticamente invisível na estatística nacional de anomalias congênitas, e a incidência brasileira que se cita vem de séries hospitalares, não de vigilância.
Uma última observação epidemiológica que muda a leitura da vinheta. A demora até o diagnóstico não é, na maior parte dos casos, culpa de quem trouxe a criança. O quadro começa parecendo exatamente aquilo que quase todo lactente tem — regurgitação — e só depois muda de natureza. A mãe de Bendito procurou serviço de saúde três vezes em doze dias; ela não demorou. O que demorou foi o reconhecimento, e o reconhecimento demora porque a doença passa, por uma ou duas semanas, por um diagnóstico que é comum, benigno e verdadeiro na esmagadora maioria dos bebês. Quem lê este capítulo vai passar a vida atendendo dezenas de bebês que golfam e um punhado que vomita — e o capítulo inteiro é sobre a diferença entre os dois verbos.
Por que acontece o que acontece
Toda a clínica desta doença sai de um fato mecânico simples — um músculo circular que engrossa até fechar a saída do estômago — e de uma consequência bioquímica que não é nada simples e que é o que efetivamente mata. Vale gastar tempo no mecanismo porque, aqui, ele não é ornamento: é o que decide a ordem das ações na manhã de terça-feira. Quem entende por que o rim acidifica a urina de um bebê alcalótico não precisa decorar quando levar o bebê para a sala; a conduta cai por gravidade.
A separação que organiza este bloco é a seguinte. O piloro explica o vômito, o padrão do vômito e a fome que sobra. A perda pelo vômito explica a alcalose, a hipocloremia, a hipocalemia e a acidúria paradoxal. E a alcalose explica o risco anestésico. São três andares, e o interno costuma aprender só o primeiro.

1. O músculo engrossa, a mucosa fica inteira — e isso decide a operação
O piloro é um anel de musculatura lisa circular que separa o estômago do duodeno. Nesta doença, essa camada circular sofre hipertrofia e hiperplasia até formar uma massa firme, ovalada, de consistência muito mais dura do que qualquer estrutura vizinha — a descrição clássica, a oliva, vem justamente do tamanho e da consistência. O canal que atravessa essa massa fica alongado e comprimido, e a passagem do leite deixa de acontecer.
O detalhe anatômico que mais importa é o que não muda: a mucosa. Ela é empurrada, pregueada, comprimida, mas não está doente e não está rompida. É por isso que o tratamento definitivo consiste em cortar longitudinalmente apenas as fibras musculares hipertrofiadas e afastá-las, deixando a mucosa intacta e abaulando pela abertura. A luz do tubo digestivo não é aberta — e quem entende isso entende também por que abrir a mucosa durante a operação é considerado uma complicação, e por que ela muda o pós-operatório.
A palavra congênita, que aparece no nome do código Q40.0, engana o interno. Na grande maioria dos casos o piloro é normal ao nascimento e a hipertrofia se instala nas primeiras semanas de vida; a doença é adquirida em um período muito precoce, não uma malformação presente no berço. É por isso que existe um intervalo livre entre o nascimento e o começo dos sintomas — e é justamente esse intervalo livre que a história clínica revela quando se pergunta na ordem certa: nasceu bem, mamou bem, e depois começou.
2. Por que em jato, por que sem bile e por que a fome não passa
O estômago que encontra uma saída fechada não desiste: ele contrai com mais força e, ao longo de semanas, também hipertrofia. Essa contração vigorosa contra uma resistência fixa é o que dá ao vômito a característica de ser projetado a distância, e não simplesmente de escorrer pelo canto da boca. O termo em jato descreve energia, não volume: o volume é o de uma mamada, e a força é a de um músculo que trabalhou dobrado durante duas semanas. A mesma contração é o que produz a onda de peristalse visível na parede abdominal.
A obstrução está antes da papila duodenal, ou seja, antes do ponto onde a bile é despejada no tubo digestivo. Nada do que é vomitado passou pela bile, e por isso o vômito é branco, leitoso ou coalhado, com cheiro azedo, e nunca verde. Essa é a informação mais valiosa que a família fornece, e é preciso perguntar por cor, não por bile: mãe nenhuma diz bilioso, e quase toda mãe sabe dizer se era verde. Em uma parcela dos casos o vômito traz raias de sangue escuro ou aspecto de borra, resultado da gastrite e da esofagite que a estase e o esforço produzem; isso não muda o diagnóstico nem a conduta.
E vem a fome. Como nada do que foi ingerido chegou ao intestino, nada foi absorvido, e a criança tem a fome de quem não comeu — porque de fato não comeu. Essa é a diferença clínica mais útil entre este vômito e o vômito de doença sistêmica: a criança com infecção, com doença metabólica ou com abdome agudo inflamatório vomita e fica prostrada, recusa a mamada, não quer nada. A criança com obstrução pilórica vomita, chora e quer mamar de novo, e ficará mais irritada e mais faminta a cada hora. Um lactente que vomita e não quer mamar está contando outra história, e essa outra história é mais urgente do que esta.
A icterícia acompanha uma minoria dos casos e é reconhecida nos documentos brasileiros de referência sobre icterícia neonatal: tanto o guia de atenção ao recém-nascido do Ministério da Saúde de 2014 quanto o documento científico de neonatologia da Sociedade Brasileira de Pediatria listam a obstrução gastrintestinal alta, e nomeadamente esta doença, entre as causas de hiperbilirrubinemia indireta por aumento da circulação êntero-hepática. O jejum prolongado e a baixa oferta entérica, que essa mesma tabela lista na linha seguinte, empurram na mesma direção. Um lactente de um mês com vômito em jato e icterícia não tem duas doenças: tem uma.
3. O que exatamente se perde no vômito — e por que essa perda é diferente das outras
O suco gástrico tem uma composição que nenhuma outra secreção do corpo reproduz: é a única rica em ácido clorídrico, e o teor de cloreto nele é maior do que o do plasma. Quem vomita conteúdo gástrico puro, de forma repetida, por semanas, perde ácido, cloreto, água, sódio e potássio — e perde cloreto em proporção maior do que perde sódio. Esse desequilíbrio de proporção é o que separa esta desidratação de todas as outras, e é o que faz o distúrbio ser hipoclorêmico e não apenas hiponatrêmico.
Perder ácido é ganhar base. Cada íon hidrogênio que sai pela boca deixa para trás um íon bicarbonato que foi gerado na célula parietal e devolvido ao sangue; a soma disso ao longo de semanas é uma alcalose metabólica de instalação lenta e magnitude grande. A perda de água e de sódio, ao mesmo tempo, contrai o volume extracelular, e a contração de volume é o segundo motor da alcalose: com menos água, a mesma quantidade de bicarbonato fica mais concentrada, e o rim, que deveria eliminar o excesso de base, entra em conflito com a prioridade de reter volume.
Chame o quadro pelo nome inteiro, porque cada palavra dele corresponde a uma coisa que precisa ser reposta: alcalose metabólica hipoclorêmica e hipocalêmica. A alcalose é o que se mede na gasometria. A hipocloremia é o que se mede no ionograma — e é a dosagem que o laboratório mais frequentemente deixa de fazer se ninguém pedir cloreto por escrito. A hipocalemia é o que mata na sala de cirurgia. O bicarbonato alto é consequência, não causa, e tratá-lo diretamente é um erro que ninguém precisa cometer.
A leitura passo a passo da gasometria — a ordem dos passos, a compensação esperada, o ânion-gap, o distúrbio misto — é assunto do capítulo Gasometria arterial, na apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito, e este capítulo cede a ele esse assunto e não o repete. O que é deste capítulo é o andar de baixo: por que este bebê, especificamente, produz este distúrbio, e o que isso obriga a fazer antes de anestesiá-lo.
4. A acidúria paradoxal em três tempos — o rim não erra, ele escolhe
A frase que o interno decora é que o bebê com alcalose faz urina ácida, e que isso é paradoxal. A palavra paradoxal é uma boa etiqueta e uma péssima explicação, porque sugere que o rim se confundiu. O rim não se confundiu: ele foi obrigado a escolher entre duas tarefas incompatíveis e escolheu a que mantém a criança viva. Compreender essa escolha, em três tempos, é o que faz o resto do capítulo parecer óbvio.
Primeiro tempo, nos primeiros dias de vômito. O volume circulante ainda está razoável e o rim faz o que deveria: diante de bicarbonato em excesso, ele o excreta. A urina fica alcalina. Como bicarbonato é um ânion e precisa sair acompanhado de um cátion, ele arrasta sódio e, sobretudo, potássio. Já aqui, antes de qualquer sinal clínico de desidratação, o potássio corporal começa a cair — e cai pela urina, não pelo vômito. Essa é a razão pela qual a hipocalemia costuma ser mais profunda do que o volume vomitado explicaria.
Segundo tempo, quando a contração de volume aperta. Perder volume aciona o sistema renina-angiotensina-aldosterona, e a aldosterona dá ao túbulo distal uma ordem sem ambiguidade: reabsorva sódio. Reabsorver sódio nesse segmento custa a excreção de um cátion em troca, e os cátions disponíveis são potássio e hidrogênio. Enquanto houver potássio, sai potássio, e a hipocalemia se aprofunda. O cloreto, que é o parceiro natural do sódio na reabsorção, está faltando — de modo que o sódio precisa ser reabsorvido às custas dessa troca, e não acompanhado de cloreto como faria normalmente.
Terceiro tempo, quando o potássio acaba. Com o potássio corporal depletado, o único cátion que resta para trocar pelo sódio é o hidrogênio. O rim então excreta hidrogênio — em um organismo que já está alcalótico — e a urina, que era alcalina, vira ácida. É a acidúria paradoxal. E cada hidrogênio excretado gera mais um bicarbonato devolvido ao sangue, de modo que o rim, ao obedecer a ordem de reter volume, passa a piorar ativamente a alcalose que deveria corrigir. A partir daqui a alcalose se sustenta sozinha e não cede enquanto não se der ao rim aquilo de que ele precisa para parar: cloreto, volume e potássio, nessa ordem de importância.
A consequência prática é direta e é o motivo de a urina ácida ser um sinal grave, e não uma curiosidade. Urina ácida em um lactente alcalótico significa que o potássio corporal já está baixo o bastante para o rim ter mudado de moeda — mesmo que o potássio dosado no sangue ainda esteja dentro da faixa de referência, o que acontece com frequência, porque quase todo o potássio do corpo está dentro das células, e essa reserva segura o valor do plasma enquanto o estoque se esvazia. Ler a fita de urina custa segundos e diz uma coisa que o potássio sérico esconde.
5. A hipocalemia tem duas origens somadas, e o número engana duas vezes
A primeira origem é a perda real, descrita acima: potássio que saiu pela urina acompanhando bicarbonato no início, e potássio trocado por sódio sob comando da aldosterona depois. Uma parcela menor sai no próprio vômito. Ao fim de duas ou três semanas, o estoque corporal está genuinamente reduzido, e reduzido em uma quantidade que a dosagem plasmática não consegue mostrar, porque o potássio é um íon predominantemente intracelular.
A segunda origem é um deslocamento. Em alcalose, o hidrogênio sai das células para tamponar o meio extracelular e o potássio entra para manter o equilíbrio elétrico — de modo que o potássio plasmático fica ainda mais baixo do que a perda sozinha deixaria. A direção importa, porque é o contrário da cetoacidose, em que a falta de insulina e a acidose tiram potássio das células e fazem um estoque vazio parecer normal. Aqui o deslocamento não esconde a falta, e o primeiro engano vem de outro lugar: um potássio de 3,6 milimoles por litro num bebê alcalótico parece tranquilo, mas é o número de fora da célula depois de semanas de perda pela urina, e não diz quanto falta no estoque. Quem denuncia a falta é a urina ácida.
O segundo engano é o que este capítulo pede que se anote em letra grande: durante a correção com soro e cloreto, o potássio plasmático pode cair — e, quando cai, é depois de a criança parecer melhor. Não é a alcalose indo embora que o derruba; corrigida, ela tende até a devolver um pouco de potássio ao plasma. Quem derruba é o próprio tratamento: a água do soro dilui, a glicose estimula insulina, que leva potássio para dentro das células, e o rim, recebendo volume e cloreto, volta a eliminar bicarbonato e leva potássio junto na urina. Um bebê que entrou com potássio de 3,4 e que, quatro horas de soro depois, está mais rosado, com melhor perfusão e urinando, pode estar com potássio de 2,8 exatamente nesse momento. Por isso o potássio se redosa durante a correção e não apenas na chegada, e por isso a reposição de potássio faz parte do plano desde que haja diurese — não é um ajuste opcional para o fim.
O potássio baixo é o que transforma uma doença de mortalidade praticamente nula em um risco anestésico real: arritmia na indução, íleo pós-operatório, fraqueza muscular respiratória. Nenhum desses desfechos tem a ver com o piloro.
6. Por que o anestesista quer a alcalose corrigida — e não só a desidratação
A alcalose metabólica não fica no sangue. Ela desloca o equilíbrio ácido-básico do líquido cefalorraquidiano e reduz o estímulo central para respirar, e essa redução se soma ao efeito depressor respiratório dos anestésicos. O resultado descrito é apneia pós-operatória em um lactente que já é, por idade, uma população de risco para apneia. É por isso que o alvo pré-operatório não é apenas hidratar: é normalizar a bioquímica.
Some-se a isso o estômago. Este é, por definição, um estômago que não esvazia; a criança está com conteúdo retido mesmo depois de horas de jejum, e a indução anestésica de um lactente com estômago cheio carrega risco de broncoaspiração. O esvaziamento gástrico por sonda antes de levar à sala não é zelo excessivo, é parte do preparo.
E some-se, por fim, a temperatura e a glicemia. Um lactente de cinco semanas, magro, com jejum prolongado, perde calor depressa e tem reserva hepática de glicogênio pequena; hipotermia e hipoglicemia são complicações de sala e de pós-operatório imediato que se previnem com soro que contenha glicose e com controle térmico ativo, não com boa vontade.
Somados, os três parágrafos acima explicam a frase que abre este capítulo. A operação é curta, o resultado é excelente e a mortalidade é praticamente nula — desde que a criança chegue à sala corrigida. O que produz óbito nesta doença, quando ele acontece, quase nunca é o piloro: é a chegada tardia com desidratação grave, é a arritmia da hipocalemia, é a apneia da alcalose e é a broncoaspiração de um estômago cheio.
Como se apresenta de verdade
Esta doença tem uma apresentação estreita e muito bem descrita, e mesmo assim é diagnosticada com atraso na maioria dos serviços. O motivo é que ela começa dentro de um quadro comum e benigno e sai dele devagar, sem que nenhum sintoma novo apareça — o que muda é a intensidade de um sintoma que já existia. Nenhum sinal de alarme aparece de repente; o que aparece é uma curva de peso que vira e uma fralda que seca.
Os seis blocos abaixo estão na ordem em que a informação chega: primeiro o que a família conta, depois a idade e a trajetória, depois o exame que se faz com o bebê nos braços, depois o que a literatura permite concluir desse exame, depois o estado geral, e por fim os quadros que não são este e que precisam ser afastados antes de qualquer coisa.
1. Golfar e vomitar são dois verbos, e a família sabe a diferença quando se pergunta certo
Quase todo lactente pequeno regurgita, e a regurgitação fisiológica do lactente é tão comum que serve de ruído de fundo para esta doença. O refluxo fisiológico do lactente é de Refluxo gastroesofágico fisiológico versus doença do refluxo no lactente, na apostila de Gastroenterologia Pediátrica; este capítulo fica com a parte da distinção que decide à beira do leito diante do vômito que pode ser cirúrgico: como separar, em cinco perguntas, a golfada que não importa do vômito que importa.
Primeira pergunta, sobre força: o leite escorre pelo canto da boca ou é lançado a distância? A família raramente usa a palavra jato, mas descreve o alcance sozinha se receber a deixa — sujou a sua roupa, molhou o sofá, chegou até o chão. Segunda pergunta, sobre cor: era branco, coalhado, com cheiro azedo, ou tinha verde ou amarelo? Aqui é preciso perguntar por cor, e não por bile, porque a palavra bilioso não pertence ao vocabulário de ninguém fora do hospital. Terceira pergunta, sobre tempo em relação à mamada: aconteceu logo depois de mamar, ou muito tempo depois? O vômito da obstrução pilórica é próximo da mamada; e, quando o estômago já está muito dilatado, uma mamada pode sair junto com resíduo da anterior, o que a família descreve como volume maior do que o que o bebê mamou.
Quarta pergunta, e é a que mais separa: depois de vomitar, ele quer mamar de novo ou fica quietinho? A criança com obstrução pilórica quer mamar de novo, com voracidade, e fica cada vez mais irritada. A criança com doença sistêmica recusa. Quinta pergunta, sobre a trajetória: começou assim ou começou pequeno e foi aumentando? Golfada fisiológica é estável ou melhora com o tempo; esta doença piora dia a dia, e a família geralmente consegue apontar a semana em que mudou de natureza.
Duas perguntas objetivas fecham o quadro, e as duas medem a mesma coisa por caminhos diferentes: quantas fraldas de xixi por dia, comparadas com o que era antes, e quanto tempo faz que evacuou. Diurese que caiu de sete para três fraldas em dois dias é a informação mais dura que uma anamnese consegue extrair de uma família sobre volemia, e ela não exige exame nenhum. As fezes escassas e secas — as vezes chamadas de fezes de fome — são a assinatura de um intestino por onde nada passa.
2. A idade, o intervalo livre e as semanas que o rótulo de refluxo custa
A curva de idade é estreita: segunda à décima segunda semana de vida, concentrada entre a terceira e a sexta. Isso significa que a idade sozinha já reordena a lista de hipóteses. Num bebê de cinco semanas com vômito não bilioso e crescente, esta doença sobe ao topo antes de qualquer exame. Num bebê de dois dias, ela não está na lista. Num bebê de cinco meses, ela saiu dela.
O intervalo livre é o dado de anamnese mais subestimado. A pergunta não é quando começou o vômito; é quanto tempo ele foi bem. Um lactente que mamou bem e ganhou peso por três semanas e depois começou a vomitar tem uma história muito diferente da de um lactente que vomita desde a primeira semana. O intervalo livre é o que separa uma doença adquirida nas primeiras semanas de uma malformação presente ao nascimento, e é a pergunta que a maior parte das anamneses não faz porque começa pela queixa e não pelo antes da queixa.
O rótulo de refluxo custa, em média, semanas. Ele custa porque é verdadeiro na esmagadora maioria dos bebês que golfam, porque é confirmado pela aparência de um bebê que está bem entre os episódios, e porque leva a uma conduta que parece razoável: posicionar, esperar, trocar a fórmula, prescrever um procinético ou um antiácido. Nada disso é absurdo diante de um bebê que golfa. O que interrompe o ciclo não é ceticismo diante do refluxo, é uma balança. Um lactente que golfa e ganha peso está bem; um lactente que golfa e não ganha peso, ou que perde, não está — e a diferença entre os dois é gratuita, dura trinta segundos e está no cartão da caderneta.
A leitura da curva de crescimento em si — como se marca, como se lê a inclinação, quais canais importam — é assunto do capítulo A linha, não o ponto, da apostila de Puericultura e Desenvolvimento, e este capítulo cede a ele esse assunto. O que fica aqui é o uso da curva como filtro de porta: pesar todo lactente que vomita, marcar o peso na caderneta antes de decidir qualquer coisa, e comparar o ponto de hoje com os anteriores, não com uma tabela.
Uma advertência sobre a leitura desses números na porta do pronto-socorro. Não ganhar peso é achado desta doença, mas não é achado exclusivo dela, e desnutrição em lactente pequeno tem diferenciais que incluem oferta insuficiente, técnica de amamentação, doença crônica e negligência. Se a história ou o exame levantarem suspeita de maus-tratos ou de negligência, quem ensina a reconhecer e a notificar é o capítulo Violência e maus-tratos infantis, na apostila de Emergências Pediátricas, e este capítulo cede a ele o assunto por inteiro. O que este capítulo pede é o contrário do julgamento apressado: a demora, aqui, costuma ser do sistema e do próprio quadro, que começa parecendo refluxo.
3. Como se procura a oliva: a manobra é fácil, a condição é difícil
A oliva pilórica é uma massa firme, ovalada, do tamanho aproximado de uma azeitona, móvel, localizada no epigástrio ou no hipocôndrio direito, à direita da linha média e acima da cicatriz umbilical, profunda, debaixo da borda hepática. Não é uma massa que se encontra por acaso ao passar a mão: encontra-se quando se procura, no lugar certo e nas condições certas.
As condições são quatro, e a maior parte dos exames negativos acontece porque uma delas não foi cumprida. Primeira: o bebê precisa estar calmo, porque a musculatura abdominal contraída de um lactente que chora esconde qualquer coisa. Isso quer dizer, na prática, examinar durante ou logo depois de uma sucção — chupeta, dedo enluvado, ou pequena oferta de água glicosada se o serviço permitir — ou com o bebê no colo da mãe, e não deitado sozinho numa maca fria. Segunda: o estômago precisa estar vazio, porque um estômago cheio empurra a região pilórica para longe da mão e amortece a palpação; se já houver sonda passada, aspirar antes de examinar. Terceira: as pernas do bebê devem estar fletidas, o que relaxa a parede. Quarta: tempo. A palpação útil leva minutos, não segundos, com a mão parada e os dedos afundando devagar do lado esquerdo do examinador, por baixo do rebordo costal direito da criança.
Antes de palpar, olhe. A parede abdominal fina do lactente às vezes deixa ver a onda de peristalse gástrica atravessando o epigástrio da esquerda para a direita, logo depois de uma mamada e antes do vômito. É um sinal específico e pouco sensível: quando aparece, adianta muito o raciocínio; quando não aparece, não significa nada. Olhar custa o tempo de uma mamada, e a mamada de teste — oferecer, observar e esperar — é uma manobra diagnóstica legítima em um bebê que ainda não vai para a sala de cirurgia hoje.
Duas coisas não fazem parte deste exame e são pedidas por hábito. Não se procura massa com o bebê chorando e depois se registra abdome sem massas; isso é registrar que não se procurou. E não se substitui a palpação pela ultrassonografia como se uma cancelasse a outra: são exames com finalidades diferentes, e o exame físico, quando positivo, muda o que se faz antes de o aparelho chegar.
4. O que a literatura permite concluir da palpação — e o que não permite
É aqui que este capítulo precisa ser honesto com o interno, porque a tradição ensina a oliva como sinal patognomônico e a evidência não sustenta o uso que se faz dela. A revisão sistemática com metanálise publicada no British Journal of Radiology em 2022, reunindo 43 estudos e 6.085 lactentes, examinou separadamente a acurácia da palpação e a da ultrassonografia. Sobre a palpação, os autores relatam sensibilidade variando entre 10,0% e 93,4% ao longo dos 23 estudos que a avaliaram — e não conseguiram nem calcular uma sensibilidade agrupada, porque a maioria desses estudos não tinha grupo controle.
Uma amplitude de 10,0% a 93,4% não é imprecisão estatística: é a descrição quantitativa de um sinal cuja detecção depende quase inteiramente de quem examina, de quanto tempo dedica e de em que condições o faz. Em mãos experientes e com o bebê preparado, a oliva é encontrada na maioria dos casos; em mãos de plantão, com o bebê chorando e trinta segundos de exame, ela é encontrada em uma pequena minoria. As duas coisas estão dentro da faixa publicada.
Disso decorre a regra prática, e ela tem duas metades assimétricas. Palpar a oliva num lactente de poucas semanas com vômito não bilioso praticamente fecha o diagnóstico e permite começar a correção agora, sem esperar imagem. Não palpar a oliva não afasta nada, não permite alta e não permite outra hipótese. Se a história é esta, a investigação continua com o bebê internado, e não com um retorno marcado.
A palpação positiva tem, além do valor diagnóstico, um valor logístico que importa no Brasil: em serviço sem ultrassonografista de plantão, ela é o que autoriza começar a hidratação dirigida e acionar a transferência na madrugada, em vez de esperar o amanhecer para o exame confirmar o que a mão já disse. O exame de imagem continua sendo necessário antes da operação — mas ele pode acontecer no serviço que vai operar.
5. O estado geral engana, e o que não engana é a fralda
O lactente com esta doença chega, em geral, alerta, faminto e irritado — e é isso que faz o triador classificá-lo como verde e o médico não vê-lo como grave. Ele não está séptico, não está prostrado, não tem febre e não tem sinal de dor. Nada no aspecto geral corresponde à gravidade bioquímica que pode estar instalada, e essa dissociação é a característica mais perigosa do quadro. Só na fase avançada, com desidratação grave e alcalose profunda, o bebê fica letárgico, hipotônico e com respiração superficial — e aí o diagnóstico é fácil e o risco é alto.
A avaliação formal do grau de desidratação da criança — os sinais que separam as três colunas, quais deles isoladamente puxam a classificação para grave, e os planos A, B e C — é assunto do capítulo Diarreia e desidratação na criança, da apostila de Gastroenterologia Pediátrica, e este capítulo cede a ele esse assunto e usa a régua dele em vez de escrever outra. Vale a mesma classificação: olhos fundos, prega que desfaz devagar, boca seca, sede ou incapacidade de beber, e o estado de consciência.
O que este capítulo acrescenta é a diferença de composição, e ela é o motivo de a régua não ser suficiente sozinha. A criança com diarreia perde um líquido rico em bicarbonato e tende à acidose; a criança que vomita conteúdo gástrico por semanas perde um líquido rico em ácido e cloreto e vai para a alcalose. Duas crianças podem estar exatamente no mesmo grau de desidratação e precisar de soros diferentes. Classificar o grau pela régua do capítulo vizinho, e escolher a composição pelo mecanismo deste, é a leitura correta.
Três medidas objetivas valem mais do que a impressão geral e devem estar escritas no prontuário antes de qualquer prescrição. O peso de hoje, em gramas, comparado ao peso de nascimento e ao último registrado na caderneta. O número de fraldas molhadas nas últimas vinte e quatro horas, comparado ao habitual daquela criança. E o horário da última diurese observada. Nenhuma das três exige exame, e as três, juntas, dizem se há tempo para investigar com calma ou se a expansão começa antes do ultrassom.
6. O que não é isto — e o que é mais urgente do que isto
Vômito verde ou amarelo em lactente muda tudo. Vômito bilioso significa obstrução abaixo da papila duodenal e, no lactente pequeno, obriga a considerar má rotação intestinal com volvo do intestino médio — uma condição em que a alça inteira pode necrosar em horas e cuja janela de reversibilidade se conta em horas, não em dias. Não há, neste nível, capítulo que ensine a conduta da má rotação com volvo: o capítulo Cinco relógios diferentes, da apostila de Urgência e Emergência Cirúrgica, a nomeia e remete à apostila de Cirurgia Pediátrica; o capítulo Invaginação intestinal do lactente, desta apostila, trata o vômito bilioso como sinal de alarme e como critério para passar sonda, mas não ensina o manejo da má rotação; e a apostila de Neonatologia não tem capítulo de obstrução. Este capítulo assume, portanto, a parte que decide na urgência, e declara que a assume — o manejo completo é do capítulo A cor do vômito e a fralda que não sujou, nesta mesma apostila, que assume a má rotação com volvo do intestino médio por inteiro.
A parte que decide na urgência cabe em quatro frases. Vômito bilioso em lactente é obstrução até prova em contrário e não admite conduta expectante. A criança fica em jejum, com sonda nasogástrica aberta, acesso venoso e reposição de volume, e alguém liga para o cirurgião pediátrico agora, de madrugada inclusive. O exame que responde é o estudo contrastado do trato gastrintestinal superior, procurando a posição da junção duodenojejunal, e a ultrassonografia pode ajudar mostrando a inversão da relação entre os vasos mesentéricos — mas exame nenhum justifica adiar o telefonema. E não se espera piora para transferir: a piora, nessa doença, é a necrose.
Os outros diferenciais dividem espaço com este capítulo e cada um tem seu dono. A invaginação intestinal do lactente é assunto do capítulo Invaginação intestinal do lactente, desta apostila, e a fronteira entre os dois quadros se diz com as mesmas palavras dos dois lados: piloro vomita há dias e não dói; invaginação dói em crises e vomita depois. A idade também separa — invaginação concentra-se entre os quatro meses e os dois anos, e esta doença termina onde aquela começa. A doença de Hirschsprung se apresenta como constipação desde o período neonatal e distensão, não como vômito em jato com abdome plano.
Fora da cirurgia, três quadros disputam a mesma vinheta e nenhum deles tem abdome plano com bebê faminto. A infecção — do trato urinário, sobretudo, e a sepse tardia — dá vômito, mas dá também prostração, recusa alimentar e, muitas vezes, febre ou hipotermia; quem ensina a abordagem do lactente febril é o capítulo Febre sem sinais localizatórios no lactente, na apostila de Emergências Pediátricas, e este capítulo cede a ele esse assunto. A hiperplasia adrenal congênita perdedora de sal produz vômito e desidratação em lactente de poucas semanas, mas com hiponatremia, hipercalemia e acidose — o espelho bioquímico exato do quadro deste capítulo, e por isso o ionograma resolve a dúvida em uma dosagem. E o erro inato do metabolismo se apresenta com acidose, hipoglicemia, letargia e, com frequência, deterioração desproporcional ao quadro digestivo.
A regra que fecha o bloco: em lactente que vomita, os três achados que mudam a urgência para cima são vômito bilioso, prostração e febre. Nenhum deles pertence à apresentação típica desta doença. Diante de qualquer um dos três, o raciocínio muda de trilho antes de continuar.
Como fechar o diagnóstico
A investigação desta doença tem duas metades que correm em paralelo e que respondem a perguntas diferentes. A imagem responde se é isto. O sangue responde quando se pode operar. As duas são obrigatórias antes da sala de cirurgia, e nenhuma delas espera pela outra — o soro começa antes de o aparelho de ultrassom chegar, e a imagem não atrasa a coleta.
Há uma terceira pergunta implícita, e ela é a que mais muda o dia do interno: o que fazer quando o serviço não tem o exame. A resposta não é improvisar substituto; é reconhecer que a confirmação por imagem é condição para operar, não para começar a tratar.
1. Ultrassonografia de abdome, e ela é o primeiro exame — não o segundo
A ultrassonografia de abdome dirigida ao piloro é o exame de escolha para confirmar o diagnóstico. Ela mostra diretamente aquilo que está doente — a espessura da camada muscular e o comprimento do canal —, não usa radiação, é feita à beira do leito, pode ser repetida sem custo biológico e não exige contraste em uma criança que tem estômago cheio e risco de aspiração. Nenhum outro exame reúne essas quatro propriedades.
O pedido precisa ser específico, porque um pedido genérico produz um laudo genérico. Escreva a hipótese e as medidas que quer: lactente de tantas semanas com vômito não bilioso, suspeita de estenose hipertrófica de piloro, solicito medida da espessura da camada muscular pilórica e do comprimento do canal pilórico. Um laudo que diz apenas piloro de aspecto normal, ou apenas ausência de líquido livre, não responde à pergunta que foi feita — e um laudo sem número não permite decidir cirurgia nem afastar diagnóstico.
A ultrassonografia responde ainda a uma segunda pergunta na mesma sessão, com o mesmo aparelho: ela varre o diferencial cirúrgico do lactente que vomita. É esse duplo papel que faz dela o exame inicial e não um exame de segunda linha.
Não se opera sem imagem, e a razão é dupla. A primeira é que a palpação, como já se viu, tem sensibilidade que varia de 10% a mais de 90% conforme o examinador; nenhum serviço deve indicar laparotomia em lactente com base num sinal com essa dispersão. A segunda é que a imagem também protege contra o inverso: o bebê que tem a história perfeita e o piloro normal tem outra doença, e operá-lo não a resolveria.
2. Os números do laudo, e quanto cada um deles vale
A revisão sistemática do British Journal of Radiology de 2022, com 43 estudos e 6.085 lactentes, mediu a acurácia de cada critério ultrassonográfico separadamente. O corte de espessura da camada muscular pilórica igual ou maior que 3 milímetros teve sensibilidade agrupada de 97,6%, com intervalo de confiança de 95% entre 95,8% e 98,7%, e especificidade agrupada de 98,8%, com intervalo entre 98,0% e 99,4%, com área sob a curva de 0,997. O corte de 4 milímetros teve sensibilidade agrupada de 94,0%, com intervalo entre 92,0% e 96,0%, e especificidade de 98,0%, com intervalo entre 97,0% e 99,0%.
Note o que essa comparação diz. Subir o corte de 3 para 4 milímetros troca cerca de 3,6 pontos percentuais de sensibilidade por cerca de 0,8 ponto de especificidade — ou seja, torna o exame menos capaz de encontrar a doença sem ganhar quase nada em evitar falso-positivo. Os autores recomendam, explicitamente, adotar o corte de 3 milímetros. Este capítulo segue essa recomendação e diz que ela é de 2022 e que é internacional, porque não existe régua brasileira sobre isso.
O comprimento do canal pilórico é o critério que a metanálise não conseguiu agrupar: os pontos de corte usados nos estudos variaram de 13 a 20 milímetros, diferença grande demais para permitir soma, e as sensibilidades individuais oscilaram de 54,5% a 100%. A caracterização brasileira publicada na Radiologia Brasileira em 2003 trabalha com um conjunto de medidas — espessura muscular igual ou maior que 3 milímetros, comprimento do canal igual ou maior que 17 milímetros e diâmetro transverso do piloro igual ou maior que 13 milímetros — e propõe ainda o índice pilórico, a razão entre espessura muscular e diâmetro, com corte de 0,27, atribuindo-lhe sensibilidade de 96% e especificidade de 94%.
A leitura prática dessa dispersão é a seguinte, e ela não é confortável. Um laudo que traz espessura de 3,4 milímetros e canal de 15 milímetros, num lactente de cinco semanas com a história clássica, é diagnóstico pelo critério que a melhor síntese disponível recomenda, e não seria diagnóstico pelo conjunto de medidas brasileiro de 2003. O que se faz com essa diferença está no bloco de divergências, e a decisão prática é a mesma nos dois casos: com história clássica e medida limítrofe, o bebê não vai para casa — ele continua internado, com correção em curso, e o exame se repete.
3. O que faz o exame errar, nas duas direções
O falso-negativo tem quatro causas conhecidas e as quatro são operacionais. O estômago muito distendido afasta o piloro da janela acústica e pode simplesmente escondê-lo; aspirar o conteúdo pela sonda antes do exame resolve. O bebê que chora com a musculatura contraída dificulta a janela. O exame apressado não dá tempo de encontrar o plano correto, e a medida da espessura muscular precisa ser feita no plano longitudinal do canal, com o cursor perpendicular, o que exige paciência. E há o piloroespasmo: um piloro contraído transitoriamente que engrossa e alonga por alguns minutos e depois relaxa, e que pode ser confundido com a doença.
O piloroespasmo é o principal falso-positivo e tem um antídoto simples e barato: tempo. Observar o piloro por alguns minutos e ver se ele abre e deixa passar líquido separa espasmo de hipertrofia — o espasmo cede e a hipertrofia não. Um laudo que descreve o piloro sem informar se houve passagem de conteúdo deixou de fora a informação que resolve a dúvida.
Diante de exame duvidoso, a conduta é repetir, e o intervalo é de horas, não de dias. A doença é progressiva: o piloro que está no limite hoje estará acima do corte amanhã, e o espasmo terá sumido. Repetir o exame em seis a doze horas, com o bebê internado, em jejum, com sonda e com o soro correndo, resolve a esmagadora maioria dos casos indeterminados e não custa nada em risco. O que custa é mandar para casa para retornar.
Serviço sem ultrassonografista de plantão é a realidade da maior parte do país, e a decisão nesse cenário precisa ser dita com clareza. A ausência do exame não impede começar o tratamento: o bebê é internado, fica em jejum, ganha sonda e soro, e a bioquímica começa a ser corrigida, porque nada disso depende de saber com certeza qual é a obstrução. O que a ausência do exame impede é operar. Se o serviço não opera, a transferência se organiza junto com a correção, e não depois dela — o bebê viaja hidratado, com acesso, com sonda aberta e com a gasometria em mãos.
4. O que o único documento federal diz, e por que este capítulo não o segue
Os Protocolos da Unidade de Emergência, publicados pelo Ministério da Saúde em 2002 na Série A de Normas e Manuais Técnicos, são o único documento federal que nomeia esta doença dentro de um protocolo assistencial de emergência. Ele a lista entre as causas de síndrome obstrutiva do abdome agudo da criança, e é justo reconhecer que a lista está clinicamente correta.
Duas afirmações desse documento, porém, não se sustentam hoje e o capítulo as registra em vez de ignorá-las. A primeira é de sequência de exames: o texto orienta radiografia de abdome deitado e em ortostase antes da ultrassonografia, e reserva o ultrassom para depois de estudos radiológicos inconclusivos ou que indiquem patologia detectável por ele, citando nominalmente a estenose hipertrófica de piloro entre os exemplos. Para esta doença, isso inverte a ordem correta: a radiografia simples não mostra o piloro, e o achado que ela produz — estômago distendido com pouco gás distal — não confirma nem afasta o diagnóstico. Aplicada ao pé da letra, a orientação irradia um lactente para obter um exame que não responde à pergunta, e atrasa o exame que responde.
A segunda é de classificação por idade. O documento organiza o abdome agudo da criança em duas colunas etárias, recém-nascido e maior de 28 dias, e coloca a estenose hipertrófica de piloro exclusivamente na coluna do recém-nascido. A doença se concentra entre a terceira e a sexta semana de vida, de modo que boa parte dos casos — provavelmente a maioria — se apresenta depois dos 28 dias e cai, pela própria régua do documento, na coluna onde ele não a lista. Um leitor que use a tabela como triagem por idade tende a excluí-la justamente na faixa em que ela é mais provável.
Nada disso é motivo para descartar o documento, e vale dizer por quê. Em 2002 a ultrassonografia à beira do leito não tinha a disponibilidade que tem hoje, e a sequência proposta refletia o que os serviços conseguiam fazer. O problema não é o documento ter envelhecido: é ele continuar sendo o único documento federal sobre o assunto e não ter sucessor. Registrar isso é mais útil ao interno do que fingir que existe uma régua nacional atualizada.
5. O sangue e a urina: o que pedir por escrito, e o que o laboratório não faz se ninguém pedir
Gasometria — venosa serve, e é o que se consegue num lactente — para medir pH, bicarbonato e excesso de bases. Ionograma completo, e a palavra completo aqui significa uma coisa específica: com cloreto. O cloreto é a dosagem que muitos laboratórios não incluem no painel de eletrólitos de rotina e que muitos pedidos não escrevem, e é justamente o íon que define este distúrbio, que orienta a reposição e que serve de critério para liberar a cirurgia. Pedir sódio e potássio e não pedir cloreto é ficar sem o dado central.
Some-se ureia, creatinina e glicemia. A creatinina do lactente pequeno tem faixa de referência própria e sobe pouco mesmo diante de desidratação importante, de modo que um valor normal não afasta hipovolemia. O que se espera encontrar é a ureia subindo bem mais do que ela. A glicemia importa porque este é um bebê em jejum prolongado com reserva hepática pequena.
A fita de urina custa centavos e responde a uma pergunta que nenhum exame de sangue responde: qual é o pH urinário. Urina ácida em lactente alcalótico é a acidúria paradoxal descrita no bloco de mecanismo, e ela sinaliza depleção de potássio mais profunda do que a dosagem plasmática mostra. Urina alcalina, em fase inicial, sinaliza o oposto. A densidade urinária na mesma fita ajuda a estimar o estado de volume. Colher a urina exige apenas um saco coletor e paciência.
Duas armadilhas de interpretação fecham o bloco. A primeira: um potássio dentro da faixa de referência em um bebê alcalótico não tranquiliza, porque o plasma mostra uma fração mínima do potássio do corpo, e não o que semanas de perda urinária tiraram do estoque — e esse número ainda pode cair durante a hidratação. Potássio alto, que não combina com o quadro, pede antes de tudo afastar hemólise da amostra. A segunda: a hiponatremia costuma ser modesta e chama menos atenção do que a hipocloremia, mas é o cloreto, e não o sódio, que está desproporcionalmente baixo. Quando o cloreto está muito abaixo do sódio, a diferença entre os dois é a assinatura bioquímica desta doença.
A leitura formal do distúrbio acidobásico — a ordem dos passos, o cálculo da compensação esperada, o ânion-gap e como reconhecer distúrbio misto — é do capítulo Gasometria arterial, na apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito, e este capítulo usa a régua dele. O que é deste capítulo é o significado desses números neste bebê e o que eles autorizam ou proíbem fazer nas próximas horas.
6. O que não pedir, e por quê
Radiografia simples de abdome de rotina não faz parte da investigação desta doença. Ela não mostra o piloro, seu achado mais citado é inespecífico e ela irradia um lactente. Há exceção quando a dúvida é outra — distensão importante, suspeita de obstrução baixa, pneumoperitônio —, e aí ela responde a essa outra pergunta, não a esta.
Estudo contrastado do trato gastrintestinal superior não é o exame de primeira linha aqui. Ele tem indicação precisa e diferente: quando a ultrassonografia é normal ou inconclusiva e a suspeita de má rotação persiste, porque é ele que mostra a posição da junção duodenojejunal. Fora dessa indicação, dar contraste a um lactente com estômago que não esvazia acrescenta risco de aspiração sem acrescentar informação.
Endoscopia digestiva alta não tem papel diagnóstico nesta doença no lactente. Tomografia computadorizada, muito menos.
E há um pedido que não é de exame, mas de conduta, e que é o mais custoso de todos: a interconsulta cirúrgica como primeira providência. O cirurgião precisa ser avisado, e cedo, para organizar a agenda e a sala — mas a ligação não substitui, nem antecipa, a coleta e o soro. Um bebê que chega ao cirurgião com gasometria colhida, cloreto dosado, peso anotado, soro correndo e sonda passada ganha horas; um bebê que chega apenas com a suspeita e com a família assustada perde as mesmas horas duas vezes.
Separar o vômito, medir o piloro, corrigir a bioquímica — e só então marcar a sala
Na estenose hipertrófica do piloro, o preparo clínico precede a operação, enquanto contato com pediatria/cirurgia e organização do destino começam cedo. Vômito não bilioso e fome após vomitar ajudam, mas ausência de oliva ou alcalose não exclui apresentação inicial.
- 1Avaliar perfusão, consciência, glicemia, peso e evolução ponderal, sem atrasar suporte ou chamada para completar todos os dados.
- 2Vômito verde é sinal de obstrução distal e exige avaliação urgente para má rotação/volvo e outras causas; amarelo isolado é inespecífico e a cor deve ser esclarecida, sem tranquilizar se houver gravidade.
- 3Manter jejum, acesso e monitorização; descomprimir o estômago quando indicado. Colher eletrólitos e gasometria, com cloreto e glicemia, em paralelo à ressuscitação necessária.
- 4Usar cristaloide isotônico para expansão quando indicada; déficit e manutenção requerem cloreto e glicose, geralmente solução de NaCl 0,9% com glicose 5%, ajustada à avaliação e ao protocolo pediátrico.
- 5Acrescentar potássio somente após avaliar função renal e diurese, com concentração e velocidade conferidas. Alcalose tende a deslocar potássio para dentro da célula e reduzir sua concentração plasmática; o valor não mede sozinho o estoque corporal.
- 6Confirmar por ultrassom dinâmico e medidas interpretadas com idade, peso e passagem pelo canal. Exame limítrofe com suspeita persistente pede reavaliação especializada e possível repetição.
- 7Operar após correção clínica e bioquímica e avaliação anestésica; metas de um estudo não são liberação automática. Transferir cedo com plano de correção em curso se a estrutura local não for adequada.
- 8Após a operação, acompanhar respiração, dor, alimentação e hidratação; vômitos persistentes, biliosos, com sangue ou deterioração antecipam avaliação, sem aguardar prazo fixo.
As três frases que tiram a criança deste capítulo
Vômito verde ou amarelo: é obstrução abaixo da papila, e a suspeita passa a ser má rotação com volvo do intestino médio — jejum, sonda aberta, volume e telefonema ao cirurgião pediátrico agora, de madrugada inclusive. Bebê prostrado que recusa a mamada: a fome preservada é marca desta doença, e a prostração é marca de doença sistêmica; investigue infecção e distúrbio metabólico antes de seguir. Febre ou hipotermia: não pertencem à apresentação típica, e a abordagem do lactente febril é do capítulo Febre sem sinais localizatórios no lactente. Diante de qualquer uma das três, o raciocínio muda de trilho antes de continuar.
Os vômitos do lactente pequeno, separados pelo que a família consegue contar
| Quadro | Idade em que aparece | Como é o vômito | O que o bebê faz depois | O que decide |
|---|---|---|---|---|
| Regurgitação fisiológica | Primeiras semanas, melhora com a idade | Escorre pelo canto da boca, pequeno volume, branco | Segue tranquilo, mama normalmente | Ganha peso e a curva sobe: não há doença a tratar |
| Estenose hipertrófica de piloro | Segunda à décima segunda semana, pico entre a terceira e a sexta | Lançado a distância, branco ou coalhado, azedo, logo após a mamada, nunca verde | Fica faminto, quer mamar de novo, irrita-se | Ultrassonografia com camada muscular pilórica igual ou maior que 3 milímetros |
| Invaginação intestinal | Quatro meses a dois anos | Vem depois da dor, pode virar bilioso com a evolução | Fica prostrado ou apático no intervalo entre as crises | Crises de dor com início e fim súbitos; ultrassonografia com a imagem de alvo |
| Má rotação com volvo do intestino médio | Qualquer idade, mais no primeiro mês | Verde ou amarelo, de instalação abrupta | Piora rápido, distende, pode chocar | Vômito bilioso já basta para acionar o cirurgião; estudo contrastado mostra a junção duodenojejunal |
| Infecção urinária ou sepse tardia | Qualquer idade | Sem padrão, pode ser pouco | Recusa a mamada, fica prostrado, pode ter febre ou hipotermia | Urina, hemograma e culturas; a recusa alimentar é o que separa |
| Hiperplasia adrenal congênita perdedora de sal | Segunda a quarta semana | Sem padrão, associado a má aceitação e perda de peso | Fica prostrado, hipotônico, com má perfusão | Ionograma: sódio baixo, potássio alto e acidose — o espelho exato do quadro deste capítulo |
Da prescrição à ampola: as contas para um lactente de 3,6 kg, refeitas contra a apresentação real do elenco — cálculos de apresentações não substituem o plano atual de fluidos
| O que se prescreve | O que a Rename 2024 lista, e em que componente | A conta | O que sai na prescrição |
|---|---|---|---|
| Expansão inicial com solução salina isotônica, 20 mL/kg | Cloreto de sódio 9 mg/mL, equivalente a 0,154 mEq/mL, solução injetável — Componente Básico | 20 mL/kg × 3,6 kg; sódio = 72 mL × 0,154 mEq/mL | 72 mL, que entregam 11,1 mEq de sódio |
| Volume de manutenção pela regra de 100 mL/kg/dia até 10 kg | Não se aplica: é regra de cálculo, não medicamento | 100 mL/kg × 3,6 kg = 360 mL/dia; 360 ÷ 24 | 360 mL em 24 h, ou 15,0 mL/h |
| Manutenção acrescida de metade, para repor o déficit ao longo do dia | Não se aplica | 1,5 × 360 mL = 540 mL/dia; 540 ÷ 24 | 540 mL em 24 h, ou 22,5 mL/h |
| Solução padronizada de NaCl 0,9% com glicose 5% | Preferir apresentação pronta ou preparação validada pela farmácia | Em 500 mL FINAIS: NaCl 4,5 g e glicose 25 g | Conferir composição e volume final, incluindo aditivos. A antiga conta de NaCl 0,45% não corresponde a esta solução. |
| Conferir sódio e cloreto da solução isotônica | NaCl 0,9%: aproximadamente 154 mEq/L de cada íon | 0,5 L × 154 mEq/L = 77 mEq de sódio e 77 mEq de cloreto | Adicionar concentrado a uma bolsa sem ajustar volume e glicose não produz automaticamente a composição final prescrita. |
| Acrescentar potássio a 20 mEq por litro, depois de estabelecida a diurese | Cloreto de potássio 191 mg/mL, equivalente a 2,56 mEq/mL, solução injetável — Componente Básico | 20 mEq/L × 0,5 L = 10 mEq; 10 ÷ 2,56 | 3,9 mL; a ampola de 10 mL contém 25,6 mEq |
| Ringer com lactato: solução balanceada para indicações apropriadas, sem glicose | Solução de Ringer com lactato, solução injetável — Componente Básico | Composição por litro já pronta, sem preparo | Não substitui automaticamente o plano de correção da alcalose hipoclorêmica e da glicemia deste lactente. |
| Cefazolina 20 mg/kg, dose neonatal do protocolo de profilaxia consultado | Não consta da Rename 2024, em nenhum componente | 20 mg/kg × 3,6 kg = 72 mg; frasco de 1 g reconstituído a 100 mg/mL | 72 mg, ou 0,72 mL — mas o fármaco não está no elenco nacional |
| Profilaxia em dose única contra profilaxia por 24 horas a cada 8 horas | Mesmo protocolo, tabelas diferentes do mesmo documento | 72 mg × 1 contra 72 mg × 3 ou 4 | 72 mg contra 216 a 288 mg: três a quatro vezes a exposição |
| Analgesia por via oral no pós-operatório | Paracetamol 200 mg/mL solução oral e 500 mg comprimido — Componente Básico; sem apresentação injetável | Não há conta a fazer: falta a via | Só depois de liberada a dieta; não há paracetamol parenteral no elenco |
| Antiemético parenteral, se alguém cogitar prescrever | Ondansetrona 4 mg e 8 mg, comprimido e comprimido orodispersível — Componente Básico; sem apresentação injetável | Não há conta a fazer: falta a via | Não há apresentação parenteral no elenco, e mascarar o vômito não trata a obstrução |
O que precisa estar corrigido antes de anestesiar
| Parâmetro | Alvo antes da sala | De onde vem o alvo | Se ainda não atingiu |
|---|---|---|---|
| Cloreto plasmático | Acima de 100 mmol/L | Ensaio randomizado publicado nos Annals of the Royal College of Surgeons of England em 2026 | Manter soro com cloreto e redosar; não marcar a sala |
| Bicarbonato | Abaixo de 30 mmol/L | Mesmo ensaio | A alcalose ainda está ativa; continuar a correção |
| Potássio plasmático | Entre 3,4 e 5,2 mmol/L | Mesmo ensaio | Repor potássio no soro, desde que haja diurese, e redosar |
| Excesso de bases | Normalizado | Mesmo ensaio | Redosar gasometria; excesso de bases é o parâmetro que demora mais a voltar |
| Diurese | Estabelecida e observada, com fralda pesada | Critério operacional deste capítulo; não há fonte brasileira que o fixe | Sem diurese, não se acrescenta potássio ao soro e não se leva à sala |
| Estômago | Esvaziado por sonda imediatamente antes da indução | Critério operacional deste capítulo, decorrente do próprio mecanismo da doença | Aspirar antes de induzir; este estômago não esvazia com jejum |
As concentrações citadas correspondem a aproximadamente 3,4 mEq/mL de NaCl 20%, 154 mEq/L de NaCl 0,9% e 2,56 mEq/mL de KCl 19,1%. Confira apresentação e unidade antes do cálculo. A preparação deve seguir solução e protocolo pediátrico padronizados.
Pequenas diferenças entre concentração teórica e valor arredondado do rótulo não justificam preparo improvisado. O cálculo de NaCl 0,45% apresentado ilustra essa diferença de arredondamento. Na assistência, use a solução definida no percurso, com volume final e concentração conferidos pela equipe.
A disponibilidade de cefazolina deve ser confirmada com a farmácia hospitalar. Sua ausência no elenco citado não determina falta no serviço nem define uma alternativa. Antes de administrar, confirme indicação, dose por peso, apresentação e momento com cirurgia e anestesiologia.
A piloromiotomia sem abertura da mucosa não implica entrada na luz digestiva, mas a tabela institucional citada a classifica de outra forma. A equipe deve aplicar o protocolo pertinente ao procedimento efetivamente realizado e às intercorrências, sem copiar apenas o nome de uma categoria.
O texto e a tabela do protocolo institucional diferem quanto à duração da profilaxia. Dose única e doses mantidas por 24 horas produzem exposições diferentes, mesmo com a mesma dose por peso. Confirme o esquema definido para o procedimento e registre o término, evitando continuação automática.
O protocolo histórico de 2002 não oferece a sequência específica usada aqui. A ultrassonografia é o exame do percurso para avaliar o piloro, e o quadro pode surgir após o período neonatal. A coluna etária de uma tabela antiga não deve afastar a hipótese em lactente com sintomas típicos.
No ensaio citado, o ganho de tempo até correção bioquímica foi maior que a redução da internação total. São desfechos diferentes, influenciados também pelas etapas seguintes. Não atribua toda a diferença a fila cirúrgica sem dados; preparo mais rápido não equivale automaticamente a alta no mesmo intervalo.
O resumo da metanálise de alimentação apresenta diferenças sem unidade clara e comparações cuja direção não está explícita. Ele não deve ser usado sozinho para quantificar vantagem entre regimes. O plano alimentar deve seguir a equipe e acompanhar tolerância e evolução dos vômitos.
As estimativas ultrassonográficas agrupadas para critérios musculares e compostos vêm de conjuntos de estudos distintos. Não compare suas diferenças como se fossem resultados das mesmas crianças. Medidas limítrofes exigem interpretação com idade, técnica, dinâmica e quadro clínico.
O diagnóstico costuma ocorrer semanas após o nascimento, limitando sua captura na declaração preenchida nas primeiras horas de vida. O código de malformação não garante registro neonatal. Séries hospitalares e dados de nascidos vivos têm coberturas diferentes e não estimam necessariamente a mesma população.
A conduta, hora a hora
A linha do tempo desta doença é diferente da de quase todas as urgências cirúrgicas: ela é longa de propósito. Não há isquemia correndo, não há perfuração iminente, não há hemorragia. O que existe é um bebê bioquimicamente adoecido que precisa ser devolvido ao normal antes de receber anestesia, e esse retorno leva horas — às vezes um dia inteiro. Apressar essa etapa é o único jeito de transformar uma operação de excelente prognóstico em um óbito.
Os marcos abaixo acompanham Bendito, cinco semanas, 3.640 gramas, da porta do pronto-socorro à alta. Em cada um deles vêm o ato, a razão do ato e a linha de prescrição correspondente, com volume e dose já resolvidos para esse peso específico. Um peso diferente refaz todos os números, e a aritmética que os produz está na tabela de conversão do bloco anterior.
Uma observação sobre o ritmo. Os horários são referência de sequência, não relógio: um bebê que chega em choque comprime os três primeiros marcos em vinte minutos, e um bebê que chega apenas com a curva de peso virada pode levar dois dias até preencher os critérios da sala. O que não muda é a ordem.
Desde a chegada — suporte, peso e contato com a equipe em paralelo
Pesar com segurança e obter acesso e exames, enquanto se reconhecem e tratam hipoperfusão e hipoglicemia. A precisão do peso melhora as contas, mas não é condição para pedir ajuda ou iniciar medida vital. Acionar pediatria e cirurgia precocemente; se faltar recurso, iniciar transferência com plano de estabilização e correção. Manter jejum e usar descompressão gástrica conforme vômitos, distensão e risco de aspiração, com preparo específico antes da anestesia.
Prescrição- Pesar sem roupa e anotar em gramas, com o horário — todas as doses e volumes deste capítulo derivam desse número
- Jejum a partir de agora, incluindo leite materno; explicar à mãe por que o bebê não vai mamar e que isso é temporário
- Acesso venoso periférico calibroso, fixado; se duas tentativas falharem em criança com má perfusão, a via seguinte é a intraóssea
- Colher no mesmo acesso: gasometria venosa, sódio, potássio, cloreto escrito por extenso no pedido, ureia, creatinina e glicemia
- Fita de urina com leitura de pH e densidade — saco coletor basta, e o resultado diz o que o potássio sérico esconde
- Sonda nasogástrica calibrosa, aberta em drenagem, se houver distensão, vômitos incoercíveis ou rebaixamento; anotar o débito
- Registrar diurese: pesar fralda, anotar horário da última micção observada e prescrever balanço hídrico
Minuto 10 — a expansão, quando ela for necessária
Nem todo bebê com esta doença precisa de expansão, e é importante não transformar a etapa em ritual. Precisa quem tem sinais de desidratação grave ou de má perfusão: letargia, prega que desfaz devagar, tempo de enchimento capilar prolongado, taquicardia com pulsos finos. A classificação formal do grau de desidratação é a do capítulo Diarreia e desidratação na criança, na apostila de Gastroenterologia Pediátrica, e este capítulo usa essa régua em vez de escrever outra. O que muda em relação àquele capítulo é a composição do que vem depois: a criança com diarreia perde bicarbonato e tende à acidose; esta perde ácido e cloreto e está alcalótica, de modo que o soro de manutenção não será o mesmo. Bendito não estava em choque — taquicardia de 168, mas pulsos cheios e enchimento capilar de dois segundos —, e recebeu uma expansão única antes de passar ao soro de correção.
Prescrição- Solução de cloreto de sódio a 0,9%, 20 mL/kg endovenoso — para 3,6 kg, 72 mL, correndo em 20 a 30 minutos
- Reavaliar ao fim da expansão: frequência cardíaca, enchimento capilar, nível de consciência e presença de diurese
- Repetir a expansão apenas se persistirem sinais de má perfusão; a alcalose não é motivo para repetir bolus
- Não usar solução hipotônica na expansão, e não corrigir a alcalose com nenhum agente acidificante
- Manter o bebê aquecido durante todo o procedimento: lactente magro de cinco semanas perde calor depressa
- Verificar glicemia capilar antes e depois; jejum prolongado em lactente pequeno é causa de hipoglicemia
Hora 1 — o soro que corrige, e por que ele precisa ter cloreto
A correção precisa restaurar volume e cloreto, fornecer glicose ao lactente em jejum e repor perdas. No percurso RCH, utiliza-se NaCl 0,9% com glicose 5% para déficit e manutenção, com ajustes pelo balanço e exames. Não escolher solução hipotônica por uma regra fixa, nem montar concentrados à beira do leito sem protocolo e dupla checagem. Calcular manutenção, déficit e perdas separadamente evita somar volumes por inércia.
Prescrição- Manutenção pela regra de 100 mL/kg/dia até 10 kg: 3,6 kg × 100 = 360 mL/dia, ou 15,0 mL/h
- Definir velocidade pela soma de manutenção, déficit a corrigir e perdas, descontando o que já foi infundido; 1,5 vez a manutenção não é regra universal. Reavaliar perfusão, sódio, cloreto, glicemia e balanço.
- Solução de NaCl 0,9% com glicose 5% conforme produto e protocolo pediátrico; priorizar preparo padronizado pela farmácia, com conferência da composição e do volume final.
- Na conta de qualquer mistura, o denominador é o volume final, incluindo aditivos. Não considerar 500 mL finais depois de simplesmente adicionar 11,25 mL a uma bolsa de 500 mL; evitar preparo improvisado com soluções concentradas.
- Não acrescentar potássio ainda: o potássio entra no próximo marco, depois de estabelecida a diurese
- Manter a sonda aberta e repor o débito gástrico volume a volume com solução de cloreto de sódio a 0,9%, quando o débito for significativo — o que sai pela sonda é a mesma perda de cloreto que causou o problema
- Redosar gasometria, sódio, potássio e cloreto em 4 a 6 horas, ou antes se houver piora clínica
Hora 2 a 4 — o potássio entra quando a fralda molha
O potássio é o íon que decide o risco anestésico e é também o que mais engana. O bebê está com estoque corporal reduzido — sobretudo por perda urinária de semanas, e em menor parte pelo vômito —, e o valor plasmático não mostra o tamanho dessa falta: número dentro da faixa não quer dizer estoque cheio. Quando a correção começa a funcionar, o potássio plasmático pode cair — pela diluição, pela glicose do soro e pelo potássio que o rim segue perdendo enquanto elimina o bicarbonato —, e, quando cai, é justamente quando a criança parece melhor. Por isso o potássio não é um ajuste de fim de tratamento: entra no soro assim que houver diurese documentada e função renal conferida, e é redosado durante a correção, e não só na chegada. A condição da diurese não é burocracia: repor potássio em criança que não urina é o caminho para hipercalemia iatrogênica, e a diurese, nesta doença, costuma voltar rapidamente depois da primeira expansão. Potássio alto no meio desse quadro pede, antes de tudo, afastar hemólise da amostra.
Prescrição- Confirmar diurese antes de prescrever potássio: fralda pesada e horário anotado, não relato
- Acrescentar cloreto de potássio ao soro na concentração de 20 mEq por litro: em 500 mL, 10 mEq, que correspondem a 3,9 mL da solução a 19,1%
- Conferir a conta: a solução a 19,1% tem 2,56 mEq/mL, e a ampola de 10 mL contém 25,6 mEq — retirar 3,9 mL de uma ampola
- Concentrações maiores exigem via central ou protocolo próprio do serviço; em veia periférica de lactente, respeitar o limite institucional
- Redosar potássio junto com cloreto e gasometria a cada 4 a 6 horas durante a correção, e não apenas uma vez
- Interpretar o potássio junto com pH, diurese, função renal e qualidade da amostra: valor dentro da faixa em bebê alcalótico não tranquiliza, porque o estoque está baixo e o número pode cair durante a hidratação
Hora 6 — a imagem, e o que corre em paralelo enquanto ela não vem
A ultrassonografia confirma o diagnóstico e não interrompe nada do que já está correndo. Ela deve ser pedida com hipótese e medidas nomeadas, e o laudo precisa trazer número. Em serviço sem ultrassonografista de plantão, a ausência do exame não suspende a correção: suspende apenas a marcação da sala. Se o serviço não opera, o telefonema para o serviço de referência acontece agora, e a transferência se organiza com a criança já corrigida ou em correção — o bebê viaja hidratado, com acesso fixado, sonda aberta e cópia dos exames. Bendito teve o exame às nove e quarenta: camada muscular pilórica de 4,1 milímetros, canal de 18 milímetros, sem passagem de conteúdo ao duodeno em vários minutos de observação. O diagnóstico ficou fechado, e a agenda da sala foi reservada para o dia seguinte, não para hoje.
Prescrição- Pedido escrito com hipótese e medidas: solicito espessura da camada muscular pilórica e comprimento do canal, sob suspeita de estenose hipertrófica de piloro
- Manter jejum, soro e sonda durante e depois do exame; o exame não é motivo para interromper nada
- Se o exame vier duvidoso ou limítrofe: manter internação e repetir em 6 a 12 horas, sem alta e sem retorno ambulatorial
- Se o exame for normal e a história for atípica: reabrir o diferencial — infecção, erro inato do metabolismo, hiperplasia adrenal congênita — e não insistir nesta hipótese
- Avisar o cirurgião pediátrico com o diagnóstico e a bioquímica atual, informando explicitamente quais alvos ainda faltam
- Se o serviço não opera: telefonar ao serviço receptor, anotar nome de quem aceitou e horário, e enviar laudo, peso, gasometria e o que já foi feito
Hora 12 a 36 — o critério que libera a sala, e ele é bioquímico
É neste ponto que o capítulo inteiro se resolve, e a regra não comporta meio-termo: não se opera pelo diagnóstico, opera-se pelos números. O ensaio randomizado publicado nos Annals of the Royal College of Surgeons of England em 2026 usou como alvos de liberação cloreto acima de 100 milimoles por litro, bicarbonato abaixo de 30, potássio entre 3,4 e 5,2 e excesso de bases normalizado. Enquanto qualquer um desses alvos não estiver atingido, a operação espera — e esperar não é omissão, é tratamento. O tempo até atingir os alvos variou muito nesse ensaio conforme o esquema de reposição, e essa variação é assunto do bloco de divergências; o que não varia é a existência do critério. Bendito chegou com cloreto de 88, bicarbonato de 34, potássio de 3,5 e excesso de bases de +11; às vinte e duas horas do primeiro dia estava com cloreto de 104, bicarbonato de 27, potássio de 4,0, urinando bem, e foi operado às oito da manhã seguinte.
Prescrição- Redosar cloreto, potássio, sódio e gasometria a cada 4 a 6 horas até dois conjuntos consecutivos dentro do alvo
- Alvos antes de anestesiar: cloreto acima de 100 mmol/L, bicarbonato abaixo de 30 mmol/L, potássio entre 3,4 e 5,2 mmol/L e excesso de bases normalizado
- Exigir diurese estabelecida e documentada por fralda pesada, não por relato
- Manter balanço hídrico rigoroso, com entradas, débito de sonda e diurese anotados por turno
- Pesar o bebê uma vez ao dia, na mesma balança e sem roupa; o peso é o melhor marcador de reposição adequada
- Comunicar ao cirurgião e ao anestesista, por escrito no prontuário, quais alvos foram atingidos e a que horas
- Se algum alvo não atingir em 24 horas de correção adequada, revisar a composição do soro e a reposição do débito gástrico antes de aumentar velocidade
O dia da operação — a passagem para a anestesia e o que se faz na sala
O tratamento definitivo é a piloromiotomia extramucosa: uma incisão longitudinal que secciona as fibras musculares hipertrofiadas e as afasta até que a mucosa se abaúle intacta pela abertura. A técnica é de execução rápida, tem mortalidade praticamente nula e não abre a luz digestiva. A via de acesso — laparotomia por incisão periumbilical ou videolaparoscopia — é objeto de divergência com posições brasileiras publicadas, e está no bloco próprio. O que importa ao interno na passagem de plantão é outra coisa: informar ao anestesista o estado bioquímico, avisar que este é um estômago que não esvazia mesmo em jejum, e lembrar que a alcalose deprime o estímulo central para respirar e se soma ao efeito dos anestésicos, com risco de apneia no pós-operatório imediato. As duas complicações intraoperatórias que mudam o pós-operatório são a perfuração da mucosa, que é reparada no mesmo ato e costuma prolongar o jejum, e a piloromiotomia incompleta, que só aparece depois, como vômito que não cede.
Prescrição- Aspirar o conteúdo gástrico pela sonda imediatamente antes da indução, mesmo com o bebê em jejum há horas
- Passar ao anestesista, por escrito: peso atual, último cloreto, bicarbonato, potássio e excesso de bases, com horários
- Registrar que se trata de estômago com esvaziamento prejudicado, para que a técnica de indução leve isso em conta
- Manter soro com glicose durante o intraoperatório e controle térmico ativo; lactente pequeno e magro hipotermia depressa
- Antibioticoprofilaxia conforme o protocolo do serviço, e ver a nota do bloco de critério: a técnica não abre a mucosa, o que a classifica como operação limpa
- Prever monitorização de apneia no pós-operatório imediato, sobretudo se a correção da alcalose foi recente ou incompleta
- Anotar no prontuário se houve abertura de mucosa no intraoperatório — essa informação muda o momento de reintroduzir a dieta
Pós-operatório — o vômito que é esperado e o vômito que não é
Quase todo bebê vomita depois desta operação, e a família precisa saber disso antes de ver acontecer. O estômago passou semanas dilatado e trabalhando contra uma resistência, e a musculatura hipertrofiada não desaparece no dia seguinte; além disso, a região operada fica edemaciada. O resultado é vômito no primeiro dia e, com frequência, também no segundo, rareando a cada mamada. O que separa o esperado do não esperado não é a existência do vômito, é a trajetória: vômito que diminui a cada mamada é evolução normal; vômito que não diminui em quarenta e oito horas, ou que volta a ser em jato depois de ter melhorado, obriga a reavaliar — piloromiotomia incompleta é a hipótese, e o exame que responde é a imagem. O regime de reintrodução da dieta tem posições divergentes na literatura, e elas estão no bloco próprio; o que é consensual é começar cedo, com poucas horas de pós-operatório, e progredir conforme a aceitação.
Prescrição- Reintroduzir a dieta com poucas horas de pós-operatório, começando com pequenas ofertas e progredindo conforme aceitação
- Manter o acesso venoso e o soro até que a criança aceite bem por via oral e a diurese esteja adequada
- Explicar à família, antes da primeira mamada, que vômito nas primeiras 24 a 48 horas é esperado e vai diminuindo
- Reavaliar se o vômito não diminuir em 48 horas ou se voltar a ser em jato depois de ter melhorado — considerar piloromiotomia incompleta e pedir imagem
- Analgesia por via oral quando a dieta estiver liberada; a Rename 2024 lista paracetamol em solução oral, e não há apresentação injetável no elenco
- Retomar o aleitamento materno assim que possível e apoiar a mãe, que passou dias sem amamentar e pode ter redução da produção
- Alta com a curva de peso retomada, orientação escrita sobre o que é vômito esperado e retorno marcado; pesar na primeira consulta de retorno
Como saber se está funcionando
Nesta doença a reavaliação tem uma característica incomum: o parâmetro que responde primeiro não é laboratorial, é uma fralda. A diurese volta antes de o cloreto subir, e volta antes de a criança parecer melhor. Depois dela, os exames vão se normalizando em ordem previsível, e conhecer essa ordem evita tanto a pressa quanto a espera desnecessária.
A regra que organiza o bloco: enquanto a correção estiver em curso, mede-se a cada quatro a seis horas; depois de atingido o alvo, mede-se uma vez para confirmar e para-se de medir. Sangue de lactente é um recurso finito, e coleta repetida sem pergunta clara é dano.
Esperado: Retorno em poucas horas depois da primeira expansão, com fralda visivelmente molhada e, na maior parte dos serviços, alvo operacional em torno de 1 a 2 mL/kg/h. É o gatilho que autoriza acrescentar potássio ao soro.
Se não melhora: Ausência de diurese após duas expansões adequadas obriga a reavaliar o diagnóstico de volume e a pensar em outra causa — inclusive doença renal ou obstrução urinária. Não acrescente potássio ao soro enquanto não houver diurese documentada.
Esperado: Subida progressiva rumo ao alvo acima de 100 mmol/L. É o parâmetro que comanda: enquanto o cloreto não subir, o rim continua gerando bicarbonato e a alcalose não cede, por mais volume que se dê.
Se não melhora: Cloreto que não sobe em 12 horas de soro adequado quase sempre significa perda que continua e não está sendo reposta — débito de sonda não computado, ou vômito que persiste. Reponha o débito gástrico volume a volume com solução isotônica antes de aumentar a velocidade do soro.
Esperado: Queda lenta do bicarbonato rumo a valores abaixo de 30 mmol/L e normalização do excesso de bases. Os dois demoram mais que o cloreto, e o excesso de bases é o último a voltar.
Se não melhora: Não trate a alcalose com agente acidificante e não a persiga com bicarbonato negativo na conta. Ela cede quando cloreto, volume e potássio forem repostos; se não cede, é porque um desses três ainda falta.
Esperado: Pode cair antes de subir — pela diluição, pela glicose do soro e pela perda urinária que continua enquanto o rim elimina bicarbonato, e não pela correção da alcalose, que tende a devolver potássio ao plasma. Acompanhe a tendência com pH, diurese e reposição, com metas clínicas e anestésicas individualizadas.
Se não melhora: Queda progressiva apesar de reposição significa que a concentração no soro é insuficiente para o déficit; revise a concentração dentro do limite institucional para veia periférica e considere via central se houver indicação. Valor dentro da faixa em bebê ainda alcalótico não autoriza suspender a reposição.
Esperado: Urina ácida na chegada, em quadro instalado, indica depleção de potássio mais profunda do que o valor plasmático mostra. Com a correção em curso, o pH urinário sobe.
Se não melhora: Urina que permanece ácida depois de 12 a 24 horas de correção sugere que a reposição de potássio e de cloreto ainda está aquém do déficit. É um sinal barato e frequentemente esquecido — releia a fita antes de aumentar apenas o volume.
Esperado: Ganho nas primeiras 24 a 48 horas, correspondente à reposição do déficit de água. Depois da operação, retomada da curva ascendente com a dieta plena.
Se não melhora: Peso que não sobe durante a correção indica reposição insuficiente ou perda continuada não computada. Peso que não sobe depois da alta, com a dieta plena, obriga a reavaliar: pode ser piloromiotomia incompleta, e pode ser outra causa de baixo ganho — e aí quem ensina a ler a curva é o capítulo A linha, não o ponto.
Esperado: Antes da operação, o vômito persiste enquanto a obstrução existir. Depois, vômito nas primeiras 24 a 48 horas é esperado e deve diminuir a cada mamada.
Se não melhora: Vômito que não diminui em 48 horas de pós-operatório, ou que volta a ser em jato depois de ter melhorado, levanta a hipótese de piloromiotomia incompleta e exige reavaliação com imagem. Vômito que muda de cor e passa a ser verde, em qualquer momento, é outra doença e outra urgência.
Onde o erro machuca
O dano: É o erro clássico e o único que transforma uma operação de mortalidade praticamente nula em risco real. O bebê desidratado e alcalótico chega à indução com potássio corporal depletado, estímulo respiratório central deprimido pela alcalose e estômago que não esvazia. As complicações não são do piloro: são arritmia, apneia pós-operatória e broncoaspiração.
Como pegar a tempo: Escreva no prontuário, ao pedir a interconsulta, quais alvos bioquímicos ainda faltam e a que horas foram dosados. A frase que protege o bebê é simples e cabe na evolução: diagnóstico confirmado, correção em curso, sala quando cloreto, bicarbonato, potássio e excesso de bases estiverem no alvo.
O dano: O painel de rotina de muitos laboratórios traz sódio e potássio e não traz cloreto. Sem cloreto não se identifica a natureza do distúrbio, não se orienta a composição do soro e não se tem o critério principal de liberação da sala. O bebê acaba sendo hidratado por impressão, e a alcalose se mantém porque o rim não recebeu o íon de que precisava.
Como pegar a tempo: Escreva a palavra por extenso no pedido e confira o resultado quando ele voltar. Se o laboratório não fizer cloreto, isso precisa ser sabido antes e não no meio da correção — e é uma pergunta que se faz uma vez na vida de cada serviço.
O dano: O plasma mostra uma fração mínima do potássio do corpo, e semanas de perda urinária esvaziam o estoque antes de derrubar o número. Um potássio de 3,6 num bebê alcalótico convive com um estoque corporal menor do que o número sugere, e pode cair durante a hidratação — ou seja, no momento em que a criança parecer melhor e em que se cogitará levá-la à sala.
Como pegar a tempo: Interprete todo potássio à luz do pH da mesma amostra, e redose durante a correção, não apenas na chegada. Trate a reposição de potássio como parte do plano desde que haja diurese, e não como ajuste de última hora.
O dano: Isso não é um exame negativo, é um exame não realizado com registro de exame realizado. O dano se propaga: o médico seguinte lê abdome sem massas no prontuário e desconta essa informação do seu raciocínio, e o diagnóstico atrasa mais uma passagem. A metanálise de 2022 mostra sensibilidade da palpação variando de 10,0% a 93,4% entre estudos, e essa dispersão é, em boa parte, dispersão de método de exame.
Como pegar a tempo: Registre as condições junto com o achado: bebê calmo em sucção, estômago aspirado, pernas fletidas, palpação por minutos à direita da linha média. E lembre que a assimetria é total — achar a oliva praticamente fecha o diagnóstico; não achar não afasta nada.
O dano: Um laudo que diz piloro de aspecto normal, sem informar espessura da camada muscular nem comprimento do canal, não afasta a doença; e um piloro de 2,9 milímetros numa criança com a história clássica é frequentemente um piloro que estará acima do corte em algumas horas, porque a doença é progressiva. A alta transforma um bebê que estava sendo corrigido num bebê que volta pior.
Como pegar a tempo: Peça a medida por escrito e recuse decidir sem ela. Diante de exame duvidoso, interne, mantenha jejum, sonda e soro, e repita a imagem em 6 a 12 horas. Repetir custa nada; a alta custa uma semana de vômito e um retorno com desidratação.
O dano: É o erro que produz a maior parte do atraso brasileiro nesta doença, e ele não acontece por ignorância: acontece porque o rótulo de refluxo é verdadeiro na esmagadora maioria dos lactentes que golfam. O que ele custa são as semanas em que a criança segue perdendo cloreto, potássio e peso, e chega ao diagnóstico já com alcalose instalada.
Como pegar a tempo: Pese todo lactente que vomita, marque o ponto na caderneta e compare com os anteriores antes de decidir qualquer coisa. Golfar e ganhar peso é fisiologia; golfar e não ganhar peso é doença até prova em contrário. E, ao conversar com a família, não trate a demora como falha dela: o quadro começa parecendo refluxo, e ela procurou ajuda.
O que dizer ao paciente e à família
A comunicação aqui tropeça num descompasso muito particular: o que a família enxerga e o que está de fato acontecendo apontam para lados opostos. A família vê um bebê acordado, faminto e sem febre, que ela trouxe três vezes e três vezes ouviu que não era nada. Agora ouve que é cirúrgico — e ouve, na mesma frase, que a cirurgia não vai ser hoje. Do lado de fora, isso soa contraditório e soa como demora.
A segunda dificuldade é o jejum. Pedir a uma mãe que não amamente um bebê que está chorando de fome, na frente dela, é o pedido mais difícil deste capítulo, e ele precisa ser explicado, não apenas prescrito. Uma mãe que entende por que não pode amamentar consegue sustentar isso por horas; uma mãe que só recebeu a ordem vai oferecer o peito no corredor, e ela terá razão de ter oferecido.
A terceira é a culpa. Toda mãe cujo filho emagreceu por semanas se pergunta se demorou a trazer. A resposta verdadeira é que o quadro começa parecendo o que ele não é, e que ela procurou ajuda três vezes. Dizer isso em voz alta, cedo, muda a conversa inteira.
Explicar que é cirúrgico e que a cirurgia não vai ser agora
““O que o exame mostrou tem solução, e é uma operação pequena, que funciona muito bem. Mas ela não vai ser hoje, e não é por falta de vaga: é porque operar agora seria perigoso para ele. Vomitando há três semanas, ele perdeu sal e água, e isso mexe com o sangue de um jeito que faz a anestesia ser arriscada. O soro que ele está recebendo é justamente para arrumar isso. Quando estiver arrumado, e a gente mede pelo exame de sangue, ele opera com segurança. Provavelmente amanhã de manhã.””
Não diga: “Vamos deixar para operar quando estabilizar.” A palavra estabilizar não significa nada para quem está do lado de fora e sugere que o bebê está piorando. Diga o que vai ser corrigido, como se mede e quando se espera terminar.
Pedir jejum a uma mãe cujo bebê está chorando de fome
““Eu sei que ele está com fome e sei que isso é muito duro de ver. A fome dele é real, porque o leite não está chegando no intestino: sai tudo de volta. Se ele mamar agora, vai vomitar de novo e vai perder mais do pouco que tem. O soro está dando a ele a água e o açúcar de que precisa enquanto isso. Assim que ele operar, ele mama — e é rápido, no mesmo dia. Fica com ele no colo, fala com ele, dá o dedinho para sugar. Isso ajuda de verdade.””
Não diga: “Não pode mamar, é jejum.” Uma ordem sem motivo não se sustenta por seis horas com um bebê chorando, e a mãe que oferece o peito depois disso não desobedeceu: ela não recebeu explicação.
Desfazer a culpa pela demora
““A senhora trouxe ele três vezes em doze dias. Isso não é demora. Essa doença começa exatamente parecendo golfada, que quase todo bebê tem, e só depois vira o que a senhora viu hoje. Quem olhou antes olhou uma criança que estava bem naquele momento, e estava mesmo. O que mudou não foi a senhora ter demorado: foi a doença ter avançado. Agora que sabemos o que é, tem tratamento e ele funciona.””
Não diga: “Se tivesse trazido antes, ele não estaria assim.” Além de falso na maioria dos casos, isso não muda nada do que se vai fazer agora e produz uma mãe que vai esconder informação nas próximas consultas.
Antecipar o vômito do pós-operatório, antes de ele acontecer
““Uma coisa importante para a senhora saber desde já: depois da operação ele ainda vai vomitar, talvez hoje e talvez amanhã. Isso é esperado e não quer dizer que deu errado. O estômago dele passou semanas forçando contra uma porta fechada e ficou inchado; leva um ou dois dias para acalmar. O que a gente espera é que cada vez seja menos. Se em dois dias não estiver diminuindo, ou se voltar a sair com força depois de ter melhorado, a senhora me chama — aí sim a gente reavalia.””
Não diga: “Depois da cirurgia ele para de vomitar.” É a promessa que produz o telefonema de pânico da primeira noite e a desconfiança de que a operação falhou.
Acionar o cirurgião pediátrico com o caso pronto
“Ele está em correção com solução contendo cloreto e glicose, velocidade ajustada ao déficit, manutenção e perdas, e potássio após avaliar diurese e função renal. Aqui estão peso, balanço e exames com horários; precisamos conferir juntos quais metas clínicas e bioquímicas faltam antes de anestesiar.”
Não diga: “Tem um bebê aqui com estenose de piloro, você pode vir ver?” Sem peso, sem medida do ultrassom e sem bioquímica, a conversa vira uma segunda anamnese por telefone e o cirurgião não consegue programar nada.
Passar o bebê ao anestesista, com o que ele precisa e não vai perguntar
““Três coisas que importam para você. Primeira: ele vinha com alcalose metabólica, chegou com bicarbonato de 34 e excesso de bases de mais 11; agora está em 27 e mais 2, corrigido há oito horas. Segunda: é um estômago que não esvazia, mesmo em jejum — a sonda está aberta e eu aspiro de novo imediatamente antes de você induzir. Terceira: pelo tempo de alcalose, ele entra no grupo de risco de apneia no pós-operatório, e eu já pedi vaga com monitorização. Peso de hoje, 3.780 gramas.””
Não diga: Entregar apenas o diagnóstico e o jejum. O anestesista que não sabe da alcalose e do estômago cheio descobre os dois na indução.
Falar da amamentação que ficou parada, antes da alta
““A senhora passou dois dias sem amamentar e é possível que o leite tenha diminuído um pouco. Isso volta, e volta mais rápido se ele mamar com frequência agora, mesmo que pouco de cada vez. Se doer, se ele estiver com dificuldade de pegar ou se a senhora sentir que está pouco, procure a unidade de saúde antes de comprar fórmula — tem quem ajude com isso, e vale muito a pena.””
Não diga: Encerrar a internação sem falar em amamentação. O bebê sai com o piloro resolvido e a lactação interrompida, e a segunda coisa produz o retorno com baixo ganho de peso que todo mundo vai atribuir à cirurgia.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Via aberta por incisão periumbilical; a videolaparoscopia não deveria ser usada — posição publicada em 2007
Comentário publicado na Revista da Associação Médica Brasileira em 2007 analisa um trabalho com cem crianças divididas em dois grupos e conclui pela superioridade da incisão semicircular umbilical. Os argumentos apresentados são tempo cirúrgico maior na via laparoscópica, custo de equipamento, necessidade de três incisões com cicatrizes visíveis e, sobretudo, incidência de 6% de miotomias incompletas exigindo reintervenção. A conclusão do texto é explícita: a videolaparoscopia para a correção da estenose hipertrófica não deve ser utilizada.
Tannuri U. Revista da Associação Médica Brasileira. 2007;53(3). DOI 10.1590/S0104-42302007000300007.
Qualquer das duas vias, conforme a experiência do serviço — contestação publicada na mesma revista, no mesmo ano
Carta ao editor publicada na mesma revista, no número seguinte de 2007, discorda da conclusão anterior e sustenta que a literatura oferece dados suficientes para apoiar a via de acesso que for mais familiar a cada equipe, sem descartar nenhuma. Argumenta que a taxa maior de reoperação inicialmente atribuída à laparoscopia se equalizou nos estudos posteriores, depois de vencida a curva de aprendizado, e reconhece à via aberta a praticidade e a acessibilidade em hospitais sem videocirurgia.
Velhote MCP. Carta ao editor. Revista da Associação Médica Brasileira. 2007;53(6). DOI 10.1590/S0104-42302007000600009.
A equipe escolhe acesso conforme experiência e recursos. No acompanhamento, registre a técnica e a evolução da alimentação. Vômitos que não diminuem, persistem além da evolução esperada ou voltam a ser em jato exigem reavaliação, incluindo possibilidade de miotomia incompleta. Oriente a família sobre quando procurar ajuda.
Bolus guiados pelo cloreto inicial — ensaio randomizado publicado em 2026
Ensaio clínico randomizado com cem lactentes, cinquenta por braço, testou um esquema em que o número de bolus de 20 mL/kg de solução de cloreto de sódio a 0,9% é definido pelo cloreto de chegada: três bolus se o cloreto for menor que 85 mmol/L, dois entre 85 e 97, um entre 97 e 99, com gasometria e eletrólitos antes e uma hora depois de cada bolus. Os alvos foram cloreto acima de 100, bicarbonato abaixo de 30, potássio entre 3,4 e 5,2 e excesso de bases normalizado. O braço de bolus atingiu os alvos em 7,1 horas contra 71,5 do braço convencional, com internação de 118,6 contra 154,5 horas e 3,2 contra 4,8 exames laboratoriais.
Saleem MS, Mahmood U, Rehan M, Azmat CE. Annals of the Royal College of Surgeons of England. 2026;108(5):371-374. DOI 10.1308/rcsann.2025.0061.
Manutenção acrescida com reavaliação a cada seis horas — o esquema convencional, que é o padrão da maior parte dos serviços
O braço comparador do mesmo ensaio descreve a prática convencional, que é também a descrita na maior parte dos protocolos de serviço: glicose a 5% em salina a 0,45% correndo a uma vez e um quarto a duas vezes a manutenção, com reavaliação laboratorial a cada seis horas e sem bolus repetidos. É um esquema que corrige mais devagar e que expõe menos um lactente pequeno a cargas repetidas de volume isotônico, num quadro em que o déficit principal é de cloreto e de potássio, e não de sódio. Nenhum documento brasileiro fixa qualquer um dos dois esquemas.
Braço comparador descrito no mesmo ensaio: Saleem MS et al., Annals of the Royal College of Surgeons of England, 2026;108(5):371-374.
Usar o percurso pediátrico atual e solução padronizada, com manutenção, déficit e perdas separados, evitando mistura concentrada improvisada. O potássio é interpretado com amostra, função renal e tendência, e redosado nos dois esquemas, porque pode cair durante a hidratação. Critérios bioquímicos de um estudo devem ser associados à recuperação clínica e à avaliação anestésica.
Livre demanda, começando cerca de duas horas depois da operação — recomendação de metanálise de 2016
Metanálise de catorze estudos, elaborada como recurso baseado em evidência de uma associação de cirurgiões pediátricos, conclui recomendando alimentação em livre demanda após a piloromiotomia, por associar-se a menor tempo de internação, e acrescenta que, se a equipe preferir esquema estruturado, ele deve ser de progressão rápida. Os próprios autores registram, nas limitações, que os estudos incluídos não eram ensaios randomizados. As notas do bloco de critério deste capítulo detalham três problemas de apresentação dos resultados no resumo dessa metanálise, que impedem usá-lo para dimensionar o efeito.
Sullivan KJ, Chan E, Vincent J, Iqbal M, Wayne C, Nasr A; Canadian Association of Paediatric Surgeons Evidence-Based Resource. Pediatrics. 2016;137(1):e20152550. DOI 10.1542/peds.2015-2550.
Esquema escalonado, com progressão definida — ensaio randomizado de 2014, que não encontrou ganho de internação
Ensaio clínico randomizado com cento e cinquenta lactentes operados por videolaparoscopia comparou um esquema escalonado, iniciado com solução de reidratação duas horas depois da operação e progredindo por fórmula ou leite materno diluído até a dieta plena, com livre demanda desde as duas horas. O grupo de livre demanda atingiu a dieta plena mais cedo, mas isso não se traduziu em diferença no tempo de internação pós-operatória, porque a meta era alcançada fora do horário de alta; e houve mais lactentes com vômito no grupo de livre demanda depois de atingida a meta, sem diferença nas readmissões.
Adibe OO, Iqbal CW, Sharp SW, Juang D, Snyder CL, Holcomb GW, Ostlie DJ, St Peter SD. Journal of Pediatric Surgery. 2014;49(1):129-132. DOI 10.1016/j.jpedsurg.2013.09.044.
Siga o esquema alimentar definido pelo serviço e registre a tolerância. Vômitos iniciais podem ocorrer, mas devem apresentar evolução favorável; persistência, piora ou retorno em jato exigem avaliação. A alta depende da condição clínica, ingestão e capacidade de cuidado, e não apenas do horário ou do nome do regime.
O raciocínio, em voz alta
Bendito, 5 semanas, 3.640 gramas, trazido ao pronto-socorro às 7h20 de uma terça-feira. Nasceu a termo com 3.250 gramas e mamou bem por três semanas. Há duas semanas começou a golfar; há uma semana o leite passou a sair com força, branco ou coalhado, azedo, nunca verde, quase sempre logo depois da mamada — e ele quer mamar de novo minutos depois. Terceira passagem por serviço de saúde em doze dias: saiu com orientação de posição e depois com um antirrefluxo. Sem febre, sem diarreia. Trocava sete fraldas molhadas por dia; ontem trocou três. Ao exame está alerta, faminto e irritado, com fontanela levemente deprimida, mucosas secas, frequência cardíaca de 168, enchimento capilar de 2 segundos e abdome plano, mole, indolor, sem massas à primeira palpação. Hospital municipal de 70 leitos, sem cirurgião pediátrico, com laboratório 24 horas e ultrassonografista a partir das 8h30.
o que penso antes de qualquer hipótese
Duas coisas antes do nome da doença. Primeira, o desenho: vômito não bilioso, em jato, pós-prandial, progressivo, com fome preservada, num lactente de cinco semanas — é a apresentação inteira, e a idade sozinha já põe a estenose hipertrófica de piloro no topo. Segunda, o que este bebê tem de perigoso agora: não é o piloro, é o que ele perdeu em três semanas de vômito. O abdome plano e indolor não me tranquiliza; nesta doença ele é o esperado.
o que peso e o que pergunto antes de examinar
Peso na balança: 3.640 gramas, contra 3.250 ao nascer, em 34 dias. São 390 gramas em cinco semanas, quando o esperado seria da ordem de 700 a 900. A curva na caderneta tinha dois pontos alinhados e o terceiro, o de hoje, cai. Pergunto as fraldas: sete por dia até anteontem, três ontem. Pergunto a cor do vômito, e não se é bilioso: branco e coalhado, nunca verde. Pergunto o que ele faz depois de vomitar: quer mamar de novo, com voracidade. Com isso a anamnese está fechada e ainda não encostei a mão nele.
como examino, e o que faço com o resultado
Peço à mãe que o segure no colo, dou o dedo enluvado para ele sugar, flexiono as pernas e palpo devagar, à direita da linha média e acima do umbigo, por vários minutos, com a mão parada. Na terceira tentativa sinto uma massa firme, ovalada, móvel, do tamanho de uma azeitona, sob a borda hepática. Registro no prontuário a condição e o achado, não só o achado. Isso praticamente fecha o diagnóstico — mas se eu não tivesse encontrado, nada teria sido excluído, e a conduta seguinte seria exatamente a mesma.
o que prescrevo nos primeiros dez minutos
Jejum, incluindo leite materno, com a explicação dada à mãe e não apenas escrita. Acesso venoso. Coleta no mesmo acesso: gasometria venosa, sódio, potássio, cloreto escrito por extenso, ureia, creatinina e glicemia. Fita de urina com pH e densidade. Balanço hídrico com fralda pesada. Não passo sonda ainda, porque não há distensão nem vômito incoercível neste momento, mas anoto que o estômago será esvaziado antes de qualquer indução. E não ligo para o cirurgião antes de fazer isso — ligo depois, com números na mão.
o que os exames dizem, e o que eles mudam
Sódio 133, potássio 3,5, cloreto 88 e pH 7,52 com bicarbonato elevado mostram alcalose hipoclorêmica em lactente desidratado; urina ácida é compatível com acidúria paradoxal. Potássio de 3,5 não garante estoque corporal normal — a urina ácida diz que o estoque já está baixo — e ainda pode cair durante a hidratação. Conferir qualidade da amostra e função renal e acompanhar o potássio durante reposição de volume, cloreto, glicose e potássio quando indicado.
como corrijo, e em que ordem
Iniciar correção com a equipe, usando solução padronizada de NaCl 0,9% com glicose 5% no percurso adotado e velocidade calculada por manutenção, déficit e perdas. Para 3,6 kg, a manutenção basal por 100 mL/kg/dia é 360 mL/dia, ou 15 mL/h; o plano real deve incorporar a avaliação e o que já foi infundido. Acrescentar potássio após diurese e função renal avaliadas, com dupla checagem. Repor perdas gástricas conforme medida e revisar os exames antes da anestesia.
o que a imagem acrescenta, e o que ela não muda
Ultrassonografia às 9h40, com pedido que nomeia as medidas: camada muscular pilórica de 4,1 milímetros, canal de 18 milímetros, sem passagem de conteúdo ao duodeno em vários minutos de observação. Diagnóstico confirmado — e nada do que já está correndo muda por causa disso. O que a imagem muda é a agenda: agora posso ligar para o cirurgião pediátrico do serviço de referência com diagnóstico, peso, medidas e bioquímica, dizendo explicitamente quais alvos ainda faltam. Combinamos a sala para a manhã seguinte, não para hoje.
quando eu levo à sala, e por que não antes
Às 13 horas: cloreto 96, bicarbonato 31, potássio 3,7. Ainda não. Às 19 horas: cloreto 101, bicarbonato 28, potássio 3,9, urinando bem, peso de 3.780 gramas. Às 22 horas, segundo conjunto confirmando: cloreto 104, bicarbonato 27, potássio 4,0, excesso de bases mais 2. Agora sim. Escrevo no prontuário os quatro alvos atingidos com horário, passo ao anestesista a alcalose corrigida há oito horas, o estômago que não esvazia e o risco de apneia, e aspiro a sonda imediatamente antes da indução. Piloromiotomia extramucosa às 8h10 do dia seguinte, 22 minutos de operação, sem abertura de mucosa.
o que digo à mãe antes da primeira mamada do pós-operatório
Que ele ainda vai vomitar hoje e talvez amanhã, que isso é esperado e não quer dizer que deu errado, e que o que a gente espera é que cada vez seja menos. Que se em dois dias não estiver diminuindo, ou se voltar a sair com força depois de ter melhorado, ela me chame. E que ela passou dois dias sem amamentar, que o leite pode ter diminuído um pouco, que isso volta com mamadas frequentes, e que se doer ou parecer pouco ela procure a unidade antes de comprar fórmula. Alta no segundo dia de pós-operatório, com retorno marcado e com a instrução de pesar na primeira consulta.
Faça você
Ismênia, 7 semanas, chega às 4h50 ao mesmo pronto-socorro, dois meses depois. A avó conta que ela vomita há quase um mês, cada vez com mais força, e que hoje de madrugada ficou molinha e parou de chorar. Vomitou branco, nunca verde. Ontem não trocaram nenhuma fralda molhada. Ela nasceu com 3.100 gramas e hoje pesa 3.050. Está letárgica, hipotônica, com olhos muito fundos, mucosas secas, fontanela deprimida, prega cutânea que desfaz devagar, frequência cardíaca de 190, pulsos finos, extremidades frias e enchimento capilar de 4 segundos. A respiração é lenta e superficial. Glicemia capilar de 38 mg/dL. Não há febre. O abdome é plano e escavado, e uma oliva é palpável sem dificuldade.
achado
Lactente de 7 semanas com quase um mês de vômito não bilioso, peso hoje abaixo do peso de nascimento, anúria de 24 horas, letargia, hipotonia, taquicardia de 190 com pulsos finos, enchimento capilar de 4 segundos, respiração lenta e superficial e hipoglicemia de 38 mg/dL. A oliva é palpável.
o que este quadro tem de diferente do primeiro
Bendito estava desidratado e alerta; Ismênia está em choque hipovolêmico com rebaixamento de consciência e hipoglicemia. O sexo feminino, menos frequente nesta doença, é parte da história do atraso. A respiração lenta e superficial num bebê chocado não é fadiga: é a hipoventilação compensatória da alcalose profunda, e ela some quando a alcalose cede. A oliva palpável sem dificuldade indica doença avançada, e não facilita nada.
o que muda na ordem das ações
A ordem dos marcos do bloco de conduta continua a mesma, mas os três primeiros se comprimem em minutos e a hipoglicemia entra à frente. A imagem deixa de ser prioridade imediata: a oliva palpável e a história bastam para começar, e o ultrassom pode esperar a criança estabilizar.
o que não muda
Não se opera hoje. Um bebê nesse estado bioquímico é o pior candidato possível a uma anestesia, e a operação continua sendo o último passo, não o primeiro. Aqui a espera provavelmente será mais longa, não mais curta.
Continuidade do caso e prática do internato
Acompanhe Bendito pelo peso, balanço e exames: cada número deve modificar uma decisão, sem virar exigência para adiar ajuda.
Questão integrativa 1
O cirurgião só deve ser chamado depois de pesar e colher tudo?
Questão integrativa 2
Alcalose eleva o potássio por empurrá-lo para dentro da célula?
Questão integrativa 3
Qual é a manutenção basal de Bendito com 3,6 kg por 100 mL/kg/dia?
Questão integrativa 4
Uma medida ultrassonográfica limítrofe encerra a investigação?
Questão integrativa 5
Estar hidratado permite ignorar bicarbonato ainda elevado?
Questão integrativa 6
Vômito bilioso após a operação pode esperar completar 48 horas?
Ver como fecharíamos
Nos primeiros quinze minutos: acesso venoso e, se falhar em duas tentativas, via intraóssea sem insistir. Corrigir a hipoglicemia antes de tudo, com glicose endovenosa conforme o protocolo do serviço, e redosar a glicemia. Expansão com solução de cloreto de sódio a 0,9%, 20 mL/kg — para 3,05 kg, 61 mL —, repetida enquanto persistirem sinais de má perfusão, com reavaliação de frequência cardíaca, enchimento capilar, consciência e diurese ao fim de cada uma. Aquecimento ativo. Sonda nasogástrica aberta, porque há vômito repetido e risco de aspiração num bebê rebaixado, com o débito anotado e reposto volume a volume com solução isotônica. Colher, no mesmo acesso, gasometria, sódio, potássio, cloreto por extenso, ureia, creatinina e glicemia, e fita de urina assim que houver urina. Esperar alcalose profunda com hipocloremia e hipocalemia importantes, lembrando que o potássio dosado não mostra o tamanho do déficit; verificar amostra, função renal e tendência. Nada de potássio no soro enquanto não houver diurese documentada — e, quando houver, ele entra e é redosado a cada quatro a seis horas, porque pode cair durante a hidratação, pela diluição, pela glicose do soro e pela perda urinária que continua. Jejum mantido. Comunicar o cirurgião pediátrico do serviço de referência agora, informando que a criança está em correção e que a cirurgia depende de alvos bioquímicos, não de vaga. Ultrassonografia quando a criança estiver estável, para documentar o diagnóstico antes da operação. Só marcar a sala com cloreto acima de 100, bicarbonato abaixo de 30, potássio entre 3,4 e 5,2, excesso de bases normalizado e diurese estabelecida — e esperar que isso leve mais de 24 horas neste caso. Se a família disser, em algum momento, que a demora se deveu a dificuldade de transporte, a acesso ou a orientação repetida de que era refluxo, isso é informação sobre o sistema e vai na evolução; se, ao contrário, houver sinais de negligência ou de maus-tratos, quem ensina a reconhecer e a notificar é o capítulo Violência e maus-tratos infantis, na apostila de Emergências Pediátricas. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não. Suporte, dados e contato são paralelos; transferência pode começar com correção em curso. 2. Não. Esse deslocamento tende a reduzir a concentração plasmática; estoque corporal e resultado sérico não são equivalentes. 3. 360 mL/dia, ou 15 mL/h. Déficit e perdas são calculados à parte e o plano é reavaliado, sem multiplicador universal. 4. Não. Avaliar técnica, passagem, idade e peso; suspeita persistente pode exigir repetição especializada. 5. Não. A recuperação clínica e a correção metabólica precisam ser avaliadas antes da anestesia, inclusive pelo risco de hipoventilação e apneia. 6. Não. Cor, persistência, distensão e deterioração podem indicar complicação; sinais de alarme antecipam a avaliação.
Nesta doença não existe urgência cirúrgica: não há isquemia, perfuração nem hemorragia correndo, e a operação é o último passo, não o primeiro. O que confere risco é a bioquímica, porque a alcalose deprime o estímulo central para respirar e se soma ao efeito dos anestésicos, com risco de apneia, e a depleção de potássio expõe a arritmia. O ensaio randomizado publicado nos Annals of the Royal College of Surgeons of England em 2026 usou como alvos de liberação cloreto acima de 100 mmol/L, bicarbonato abaixo de 30 mmol/L, potássio entre 3,4 e 5,2 mmol/L e excesso de bases normalizado; esta criança não atingiu os dois primeiros. Corrigir depois da anestesia inverte a lógica do risco, e a alcalose não se trata com agente acidificante: ela cede quando cloreto, volume e potássio forem repostos. A melhora clínica é real e é justamente o que engana.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Refaça com supervisão as contas de manutenção, déficit, perdas e volume final de uma solução padronizada; confira unidades e concentração dos aditivos. Explique por que alcalose e hipocalemia podem coexistir e por que o potássio exige seguimento durante a correção.
Em 30 dias
Reconstrua o atendimento desde a suspeita: suporte e contato precoce, peso e exames, confirmação por ultrassom, correção clínica e bioquímica e avaliação anestésica. Explique à família por que a operação aguarda preparo e quais mudanças após a cirurgia exigem retorno antecipado.
Agora atenda
Mãe traz ao pronto-socorro um lactente de 6 semanas, 3,7 kg, que vomita há duas semanas. Diz que o leite sai com força, branco, e que ele fica com fome logo depois. Não teve febre nem diarreia, e faz dois dias que a fralda está seca boa parte do tempo. É a terceira vez que procuram atendimento pela mesma queixa. Conduza.
