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Ninguém disse que era hoje

Cuidados de fim de vida na enfermaria: as últimas horas, a constatação do óbito e a família depois

A decisão de conforto pode estar escrita e ainda assim nada acontecer: o remédio é de outro componente, a via não foi puncionada, a linha diz se necessário sem dizer necessário quando, e ninguém disse à família que era hoje. Este capítulo é o turno inteiro — do reconhecimento à constatação, e da constatação ao que se faz no quarto depois.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Complexo da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024.

D'Alessandro MP, Barbosa LC, Anagusko SS, Maiello APMV, Conrado CM, Pires CT, Forte DN (eds.). Manual de Cuidados Paliativos. 2. ed. revisada e ampliada. São Paulo: Hospital Sírio-Libanês; Ministério da Saúde, 2023. 424 p. (Programa de Cuidados Paliativos no SUS, PROADI-SUS).

Brasil. Ministério da Saúde. Política Nacional de Cuidados Paliativos no SUS — Anexo XLIV da Portaria de Consolidação GM/MS nº 2, de 28 de setembro de 2017, instituído pela Portaria GM/MS nº 3.681, de 7 de maio de 2024, e alterado pela Portaria GM/MS nº 10.181, de 26 de janeiro de 2026.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Protocolos de Intervenção para o SAMU 192 — Suporte Básico de Vida. Brasília: Ministério da Saúde, 2014. Protocolo PE26, constatação do óbito pelo médico do SAMU 192.

Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.217, de 27 de setembro de 2018 — aprova o Código de Ética Médica. Publicada no D.O.U. de 1º de novembro de 2018, Seção I, p. 179, com as modificações das Resoluções CFM nº 2.222/2018 e nº 2.226/2019.

01

Responda antes de ler

Paciente em processo ativo de morte, com decisão de conforto registrada. A prescrição pede pressão arterial e saturação de duas em duas horas, glicemia capilar de seis em seis horas e temperatura de seis em seis horas. A filha acompanha no quarto. Qual é a conduta mais adequada quanto às aferições?

02

O paciente que você vai ver

Quatro e vinte e dois da manhã de um sábado. Enfermaria de clínica médica com dezoito leitos, no segundo andar de um hospital geral de porte médio numa cidade do interior. Você é o interno escalado para o plantão da noite e está no posto desde as sete da noite. O residente desceu para a sala vermelha há uma hora e meia com um paciente que chegou chocado, e a mensagem que ele deixou foi a de sempre: qualquer coisa, chama.

O leito 11 é do senhor Alcino Solonopole, 79 anos. Insuficiência cardíaca com fração de ejeção de 24%, quinta internação em catorze meses, décimo primeiro dia desta. Entrou com dispneia e anasarca, passou por dois esquemas de diurético endovenoso sem perder peso, tem creatinina de 3,1 e não senta na poltrona há seis dias. Na quinta-feira a equipe da manhã conversou com a família e escreveu na evolução, com todas as letras, que o objetivo do cuidado passava a ser o conforto e que não seriam iniciadas manobras de reanimação em caso de parada. A frase está lá, datada, assinada, com o nome da filha entre parênteses.

Palmiro, o técnico da noite, chama você no corredor. Diz que o senhor Alcino mudou desde a meia-noite: respira com barulho, não acorda quando o chamam pelo nome, a mão está fria até o punho, e a filha, que dorme na poltrona desde quarta, está sentada na beirada da cama há uns quarenta minutos sem falar nada. Palmiro pergunta se pode aspirar. E pergunta se dá para dar alguma coisa, porque na prescrição não tem nada para isso.

Você abre a prescrição do dia. Ela tem sete itens: dieta branda, soro fisiológico de 1.000 mL em 24 horas, furosemida endovenosa de 12 em 12 horas, enoxaparina profilática, omeprazol, dipirona se dor ou febre, e sinais vitais de 2 em 2 horas. Não há linha para dispneia. Não há linha para secreção. Não há linha para agitação. Não há nada prescrito por uma via que não dependa de o paciente engolir, e o acesso periférico do dorso da mão infiltrou ontem à tarde — está anotado na folha da enfermagem, com o horário.

Repare no que aconteceu, porque é o assunto deste capítulo e não é falha de caráter de ninguém. A decisão foi tomada. A decisão foi escrita. A decisão foi conversada com a família. E, quarenta e oito horas depois, às quatro e vinte e dois da manhã de um sábado, ela ainda não tinha virado um único ato executável por quem está no quarto. A frase do prontuário mudou o que a equipe pensa; não mudou uma linha do que o técnico de enfermagem tem para fazer.

E há uma segunda coisa, mais silenciosa, que também já aconteceu: ninguém disse a essa filha que era hoje. Ela sabe que o pai está grave e sabe que não vão ser feitas manobras, e está sentada na beirada da cama às quatro da manhã interpretando sozinha um ruído que nunca ouviu antes. A pergunta que ela vai fazer nos próximos dez minutos não é sobre prognóstico nem sobre limitação terapêutica. É uma pergunta menor e mais dura: ele está sofrendo?

Este capítulo cobre o que vem depois da decisão e antes do papel, e cede quase tudo o que tem dono. A decisão em si, os eventos que ela alcança, o registro que a torna legítima e a forma da linha de prescrição são de O que continua quando se decide parar, na posição 4 desta apostila. A escolha do fármaco, a dose, a titulação, a escada da analgesia, a via subcutânea com seus volumes por sítio, a hidratação artificial e a sedação paliativa são de Cuidados paliativos e dor oncológica, da apostila de Geriatria, que os escreve com números — e não os repetimos aqui. As palavras de dar a notícia são de Comunicação de más notícias, na posição 1; a pergunta sobre quanto tempo é de O que se diz quando não se sabe, na posição 2; a conversa de todo dia com a família é de Cada um fala uma coisa, na posição 11. O preenchimento da declaração de óbito, as vias e o cartório são de Declaração de óbito e atestados. Morte encefálica, ortotanásia como doutrina e diretiva antecipada diante do protocolo são de A morte que ainda respira.

O que sobra é o turno. Reconhecer que é hoje e dizer isso em voz alta; descobrir por que a linha escrita não chega ao paciente; saber o que existe de fato no elenco do SUS para cada um dos quatro sintomas destas horas; decidir o que se para de medir e explicar por quê; constatar o óbito; e ficar no quarto depois. Nenhum desses assuntos foi reivindicado por outro capítulo deste nível, e é por isso que este os assume — e o declara.

03

Quem adoece disso

A primeira coisa honesta a dizer é que não existe, no Brasil, contagem de quantas pessoas morrem por ano recebendo cuidado de conforto prescrito. Não há campo para isso na declaração de óbito, não há registro nacional de limitação terapêutica e não há indicador pactuado que meça sintoma controlado na última semana de vida. Quem afirmar percentual de brasileiros que morreram com dor tratada está estimando, e deveria dizer que está.

O que existe, e é verificável, é a régua que o próprio Ministério da Saúde usa para dimensionar o problema. A Política Nacional de Cuidados Paliativos, hoje o Anexo XLIV da Portaria de Consolidação GM/MS nº 2, de 2017, prevê dois tipos de equipe de apoio. A Equipe de Apoio Assistencial em Cuidados Paliativos é habilitada tomando por base 400 leitos do SUS no território considerado. A Equipe Macrorregional é implantada na proporção de uma para cada macrorregião de saúde de até 500 mil habitantes, com uma equipe nova a cada 500 mil habitantes adicionais.

Faça a conta com a enfermaria da cena, que tem dezoito leitos: 400 dividido por 18 dá 22,2. A equipe de apoio prevista pela política federal é uma para cada vinte e duas enfermarias do tamanho desta. Ela não é equipe de plantão, não é acionável às quatro e vinte e dois da manhã de um sábado, e a própria portaria descreve sua atuação como matricial — apoio, sensibilização, capacitação, corresponsabilização. O desenho é coerente com a sua finalidade, e é justamente por isso que o problema deste capítulo não se resolve pedindo parecer: no horário em que a maior parte das pessoas morre, quem está no quarto é o interno, o técnico e a família.

A mesma política, na redação que passou a vigorar em 26 de janeiro de 2026, nomeia o problema com uma clareza que vale citar pelo dispositivo. O art. 12 lista, entre as atribuições da equipe macrorregional, a de buscar superar barreiras de acesso, e dá três exemplos: acesso a insumos e medicamentos, acesso a cuidados adequados de fase final de vida e manejo do processo ativo de morte, e acesso à declaração de óbito. São exatamente os três pontos em que a cena do leito 11 travou. A norma brasileira mais nova sobre o assunto descreve o buraco antes de este capítulo descrevê-lo.

E há um lugar em norma brasileira que nomeia o horário, o que é raro o bastante para merecer registro. Ao tratar dos serviços de urgência, a política manda atender o agravamento de sintomas, o processo ativo de morte e o óbito, com apoio ao luto familiar, e acrescenta uma expressão que não costuma aparecer em política de saúde: em especial no período noturno e nos finais de semana. A frase já estava na redação de 2024, ali presa ao atendimento domiciliar pelo SAMU; a redação de 2026 a manteve e alargou o alcance, passando a dizer tanto nas unidades móveis quanto nas fixas. Vale notar, na mesma comparação, que a expressão fase final de vida não aparece nenhuma vez no texto de 2024 e aparece duas vezes no de 2026 — a política federal levou vinte meses para escrever o nome da fase de que este capítulo trata. Desde 2024, porém, a atenção hospitalar já tinha entre as suas atribuições o acompanhamento do processo ativo de morte e o acolhimento à família durante o luto: quem cuida do senhor Alcino na enfermaria não está fazendo favor nem improvisando fora de escopo.

Sobre o elenco de medicamentos, a contagem é curta e foi feita para este capítulo sobre o texto da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024, com busca insensível a espaço e a hífen. O radical paliativ aparece zero vez nas 254 páginas. Não é retórica: a lista nacional de medicamentos essenciais do país que instituiu uma política nacional de cuidados paliativos não menciona cuidados paliativos uma única vez, e os opioides que ela contém entram por outra porta, que é o protocolo da dor crônica. Voltaremos a isso no bloco de critérios, com as conferências uma a uma.

Por fim, um dado de contexto que muda a leitura de tudo o que vem depois. A morte que este capítulo descreve raramente é a de alguém que foi chamado de paciente paliativo. É a do senhor Alcino: doença crônica avançada, internações que encurtam, órgão que deixou de responder ao tratamento que já respondeu. Esse paciente não tem CID de câncer, não tem encaminhamento a serviço especializado, não tem equipe de referência e, na maior parte dos hospitais gerais brasileiros, não tem quem o identifique como alguém que está morrendo até que ele esteja morrendo há horas.

04

Por que acontece o que acontece

Três mecanismos distintos produzem a cena do leito 11, e vale separá-los porque cada um se corrige em um lugar diferente. O primeiro é de reconhecimento: ninguém disse que era hoje. O segundo é de execução: a frase existe e não vira ato porque a cadeia entre a caneta e a boca do paciente tem quatro elos e três deles podem estar rompidos. O terceiro é de significado: o corpo mudou, e as mesmas medidas de sempre passaram a informar outra coisa — quando não deixaram de informar nada.

O erro de leitura que atravessa os três é supor que o problema é de vontade. Não é. A equipe da quinta-feira quis a coisa certa, escreveu a coisa certa e conversou com a família. O que faltou não foi decisão nem sensibilidade: foi a tradução da decisão para a linguagem de quem executa, no horário em que se executa, com o que existe na farmácia daquele hospital.

Quarto de hospital à noite, com luz baixa de abajur: homem idoso dormindo de lado na cama e uma filha sentada ao lado, inclinada, com a mão no antebraço dele; ao fundo, a janela mostra o azul do começo da madrugada.
A presença da família integra o cuidado nas últimas horas. Conforto, orientação e disponibilidade da equipe continuam necessários, mesmo quando o ambiente é silencioso e não há monitor à vista.

Por que ninguém diz que é hoje — e por que a frase não aparece sozinha

Reconhecer que um paciente entrou nas últimas horas é um ato clínico com nome, e ele é diferente de estimar prognóstico. Prognóstico é probabilidade em escala de semanas ou meses, e a pergunta quanto tempo ele tem é de outro capítulo. O reconhecimento de que se trata de horas é outra coisa: é uma leitura de estado presente, feita à beira do leito, com sinais que já estão lá.

O quadro que a literatura brasileira de cuidados paliativos descreve para essa fase é razoavelmente estável: fraqueza profunda com o paciente restrito ao leito, desinteresse por comida e bebida, dificuldade de engolir inclusive comprimido, sonolência que ocupa a maior parte do dia, redução da diurese, pele fria e acinzentada, hipotensão, respiração que se torna irregular com períodos de bradipneia, e o ruído de secreção alta que a literatura nacional chama de sororoca. Mioclonias, incontinência e a incapacidade de fechar os olhos completam o desenho. Nenhum desses sinais isolado prova nada; o que caracteriza a fase é a soma deles instalando-se em horas ou poucos dias, num paciente cuja doença de base já explica a trajetória.

A dificuldade não é conhecer a lista. É que dizer a frase tem custo e não tem dono. Nenhuma norma brasileira define o que caracteriza a fase final de vida, quem faz esse reconhecimento, com que critério e onde ele se registra — a busca foi feita, e o resultado está anotado nas notas do bloco de critérios. Como não há dono, o reconhecimento acaba dependendo de alguém tomar a iniciativa de escrever uma frase que ninguém é obrigado a escrever, num plantão em que ninguém vai cobrá-la. É mais barato não dizer, e o custo de não dizer aparece só depois, na forma de uma família despreparada e de uma prescrição de doença estável em cima de um corpo que está morrendo.

Há um segundo obstáculo, específico do paciente não oncológico, e ele é estrutural. A trajetória da insuficiência cardíaca avançada, da doença pulmonar avançada e da demência em fase final não desce em linha reta: desce em degraus, com pioras agudas seguidas de recuperações parciais. O senhor Alcino já esteve assim quatro vezes e das quatro voltou. Quem viu isso quatro vezes tem uma razão empírica boa para não dizer que desta vez é diferente — e é exatamente esse acerto estatístico que faz o reconhecimento chegar tarde na quinta vez, que é a que não volta.

A cadeia de quatro elos entre a caneta e o paciente

Entre uma decisão escrita na evolução e um alívio sentido pelo paciente existem quatro elos. O primeiro é a linha de prescrição, que precisa existir e ser executável — item, dose, via, frequência e um critério observável que autorize a enfermagem a agir sem telefonar. Esse elo é território de O que continua quando se decide parar, que o descreve inteiro, e não o repetimos.

O segundo elo é o fármaco existir naquele hospital, naquela noite. É aqui que a maior parte das prescrições de conforto morre no Brasil, e é um elo que quase nenhum texto de cuidados paliativos discute, porque os textos são escritos por serviços especializados que têm farmácia satélite. Os opioides do elenco nacional — morfina, codeína e metadona — estão no Componente Especializado da Assistência Farmacêutica, e o documento que os norteia na Relação Nacional é o protocolo da dor crônica. Um hospital geral de porte médio pode ter morfina na farmácia central e não ter no carro de emergência da enfermaria; pode ter e exigir receita de notificação para retirar; pode ter e a farmácia fechar às dez da noite.

O terceiro elo é a via. Um paciente que não engole não recebe nada por via oral, e a frase mais comum das prescrições de fim de vida — dipirona se dor — deixa de significar qualquer coisa no instante em que a deglutição se perde. Se o acesso venoso infiltrou, e ele infiltra, sobra a via subcutânea, que é a que a literatura brasileira de cuidados paliativos recomenda para essa fase e cuja técnica e volumes por sítio pertencem ao capítulo de Cuidados paliativos e dor oncológica. O ponto que é deste capítulo é outro e é anterior: a via subcutânea precisa estar puncionada antes de a madrugada chegar, e quem a punciona precisa ter sido autorizado e treinado naquele serviço. Uma via que ninguém sabe puncionar não é uma via.

O quarto elo é a autorização de agir. Uma linha escrita como se necessário sem dizer necessário quando devolve a decisão para o técnico às quatro da manhã, e o técnico, corretamente, não a toma: ele telefona. Cada telefonema é entre quinze e quarenta minutos de sintoma não tratado, e ao fim de uma noite são três ou quatro telefonemas. O paciente não recebeu menos remédio porque alguém decidiu que ele receberia menos; recebeu menos porque a linha exigia um médico presente para cada dose e o médico estava na sala vermelha.

Por que as mesmas medidas passam a informar outra coisa

A prescrição do leito 11 pede sinais vitais de duas em duas horas. Essa linha foi escrita quando o objetivo era detectar deterioração a tempo de intervir, e naquele contexto ela estava certa. No processo ativo de morte ela mede outra coisa: mede a morte chegando, num paciente em que nenhuma das intervenções que o número acionaria será feita.

Vale ser preciso sobre o que muda. Não é que os números fiquem errados — eles ficam verdadeiros e inúteis, que é pior, porque continuam disparando conduta em quem os lê fora de contexto. Uma saturação de 84% num paciente em processo ativo de morte não indica oxigênio: indica que o pulmão está congesto e a perfusão periférica caiu, e o oxigênio só entra se aliviar o desconforto de quem o recebe. Uma pressão de 70 por 40 não indica volume. Individualizar glicemia e tratamento para evitar hipoglicemia sintomática e hiperglicemia com sofrimento; considerar tipo de diabetes, insulina e ingestão, sem suspensão automática de toda monitorização. Cada uma dessas medidas, lida por quem chega no plantão seguinte sem contexto, produz uma intervenção que ninguém queria.

Individualizar glicemia e tratamento para evitar hipoglicemia sintomática e hiperglicemia com sofrimento; considerar tipo de diabetes, insulina e ingestão, sem suspensão automática de toda monitorização. A literatura brasileira de cuidados paliativos registra os dois lados dessa conta, e registra também o argumento contrário, que é real e não deve ser descartado: para muitas famílias, ver a equipe parar de medir é ver a equipe parar de cuidar. Essa tensão não se resolve por protocolo — resolve-se dizendo em voz alta o que se deixou de medir e por quê, o que é uma conversa e não uma linha de prescrição.

O caso da temperatura merece nota própria, porque é o único parâmetro que costuma continuar valendo a pena: febre em quem está morrendo pode incomodar, e incomodar é indicação de tratar. O ponto não é medir menos por princípio. É medir o que ainda muda alguma coisa para o paciente, e escrever a razão ao lado.

05

Como se apresenta de verdade

São seis situações, e o que as separa quase nunca é a doença. É o estado de três coisas quando você entra no quarto: se alguém já reconheceu que é hoje, se existe uma prescrição executável, e se a família está ali. Cada combinação pede uma primeira ação diferente, e errar a primeira ação custa a noite inteira.

Repare, ao ler, que em cinco das seis a conduta começa por falar com alguém — o técnico, a família, o assistente — e não por prescrever. Isso não é delicadeza: é que nas últimas horas quase todo erro grave nasce de uma pessoa agindo sozinha com informação parcial.

Competência ao final deste capítulo. Reconhecer provável fase final, avaliar causas reversíveis de sofrimento e antecipar cuidado proporcional. No internato, demonstre o raciocínio e a execução supervisionada: o que verificar, o que fazer agora, quando chamar ajuda e como garantir continuidade.

1. A decisão está escrita e a prescrição continua a mesma

É a cena do leito 11 e é a apresentação mais frequente do assunto num hospital geral. Há na evolução uma frase clara sobre conforto e sobre não reanimar, e há na prescrição sete itens que foram escritos para outro paciente — o de dez dias atrás. Nada foi retirado e nada foi acrescentado.

O que caracteriza a situação é a distância entre dois documentos que convivem no mesmo prontuário sem se falarem. Quem lê a evolução entende o plano; quem executa lê a prescrição, e a prescrição diz para manter diurético, soro, anticoagulante e sinais vitais de duas em duas horas. O técnico não está descumprindo nada: está cumprindo exatamente o que está escrito para ele.

A primeira ação é a mais óbvia e a mais adiada: perguntar ao técnico o que está incomodando o paciente agora, olhar o paciente, e transformar cada sintoma presente em uma linha que ele possa executar sem telefonar. A forma dessa linha — item, dose, via, frequência, critério observável — é do capítulo da limitação terapêutica, e vale relê-la; o que este capítulo acrescenta é o que checar antes de escrever: se o fármaco existe naquela farmácia àquela hora, e por qual via ele vai entrar num paciente que já não engole.

O sinal de que esta situação está instalada e ninguém percebeu é sempre o mesmo, e é fácil de procurar: uma prescrição de fim de vida em que todos os itens são de via oral ou dependem de um acesso venoso que já não existe. Confira a folha da enfermagem antes de acreditar no acesso que a prescrição pressupõe.

2. Não há decisão nenhuma, e o paciente entrou nas últimas horas no seu plantão

Aqui não há frase para executar. Há um paciente com doença crônica avançada que mudou de estado nas últimas horas, uma equipe assistente que só volta na segunda-feira e um plantonista que não conhece o caso. É a situação em que o interno mais teme fazer alguma coisa errada e, por isso, faz a única coisa realmente errada, que é não fazer nada e esperar a manhã.

Separe duas perguntas que se confundem. A primeira é se cabe uma decisão de limitação terapêutica — essa é do capítulo da posição 4, tem titular, tem fundamento e tem registro próprios, e não se toma às quatro da manhã por telefone com quem não conhece o paciente. A segunda é se cabe tratar o sintoma que está na frente. A segunda não depende da primeira e nunca dependeu: aliviar dispneia, dor, secreção e agitação é conduta médica ordinária, não é limitação de tratamento, não exige decisão de ninguém e não precisa de autorização da família.

Essa distinção é o coração do plantão. Você pode passar a noite inteira sem tomar uma única decisão sobre reanimação e ainda assim mudar completamente as últimas horas desse paciente, porque tratar sintoma é o seu trabalho de sempre. O que muda no fim da vida não é a legitimidade de tratar: é que o alvo deixou de ser o exame e passou a ser o que o paciente demonstra.

O que é seu registrar, nesta situação, é o reconhecimento: escrever na evolução, com hora, o que você viu — o padrão respiratório, a perfusão, o nível de consciência, a diurese — e a frase de que o paciente parece estar nas últimas horas ou dias. Sem essa frase escrita por alguém, o plantão seguinte recomeça do zero e a família continua sem ser avisada. Com ela, a equipe da manhã encontra a conversa já começada.

3. A prescrição está certa e o medicamento não está disponível

Você escreveu a linha e ela não foi executada. A justificativa que volta pela enfermagem tem sempre uma de três formas: não tem na farmácia, a farmácia está fechada, ou precisa da receita para dispensar. As três são reais, nenhuma é desculpa, e as três se resolvem por caminhos diferentes.

Não tem na farmácia é o caso do antissecretor. O butilbrometo de escopolamina, que a literatura brasileira de cuidados paliativos indica para a respiração ruidosa, não consta da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — a conferência está nas notas do bloco de critérios, feita sobre o texto normalizado e por três grafias. Um hospital pode tê-lo por padronização própria e muitos têm; se não tiver, não há substituto do elenco nacional com a mesma indicação, e a conduta passa a ser inteiramente não farmacológica, o que não é pouco e é o que a própria literatura recomenda fazer primeiro.

A farmácia está fechada é problema de logística e se antecipa: a prescrição das últimas horas se escreve antes de o sintoma aparecer, no horário em que a farmácia ainda funciona, e não no momento em que ele aparece. Esta é a diferença prática entre a prescrição de um paciente estável e a de um paciente em processo ativo de morte, e ela não é sobre farmacologia: é sobre relógio.

Precisa da receita é o caso dos opioides, que são de controle especial. Aqui o ponto de atenção do interno é de competência, não de burocracia: a receita a ser emitida é ato médico e você não a assina. O que é seu é avisar cedo — se a linha de morfina foi escrita às onze da noite e a receita precisa da assinatura de quem está na sala vermelha, isso se combina às onze e não às quatro.

Em todas as três, o que não se faz é apagar a linha porque ela não foi cumprida. A linha fica, e o motivo do não cumprimento vai escrito na evolução com hora. Um paciente que passou a madrugada sem o antissecretor porque o hospital não o padroniza é um fato de gestão que só vira problema resolvido se alguém o registrar.

4. O ruído da respiração, e a família pedindo aspiração

A respiração ruidosa por acúmulo de secreção na orofaringe é o sintoma que mais mobiliza quem está no quarto e um dos que menos incomodam o paciente, e essa assimetria é a chave da situação. A literatura brasileira de cuidados paliativos registra prevalência ampla nos últimos dias de vida e registra também que é discutível o impacto sobre o sofrimento de um paciente já em estado comatoso, enquanto o desconforto de familiares e profissionais diante do ruído está descrito.

A consequência prática é contraintuitiva e precisa ser dita com todas as letras: o alvo do tratamento aqui é, em boa parte, quem está ouvindo. Isso não torna o tratamento menos legítimo — angústia da família na beira do leito é sofrimento real e faz parte da unidade de cuidado —, mas muda o que se faz primeiro. Explicar o ruído costuma aliviar mais, e mais rápido, do que qualquer intervenção sobre a via aérea.

As medidas que a literatura nacional coloca antes do fármaco são três e não dependem de farmácia: posicionar o paciente em decúbito lateral, avaliar a cavidade oral, e revisar na própria prescrição o que está produzindo secreção — hidratação venosa em volume alto e dieta enteral em volume alto estão nomeadas como indutoras. A conta de volume e a decisão sobre hidratação artificial pertencem ao capítulo de Cuidados paliativos e dor oncológica, que as discute com números e as trata como divergência aberta; aqui o que importa é a ordem: olhe o que está pendurado antes de pedir o que não tem.

Sobre a aspiração, a orientação a dar ao técnico é específica e vale ser dita como frase: aspiração de orofaringe alivia por minutos, machuca, e a secreção reacumula. Ela tem lugar quando há secreção visível na boca, ao alcance, e não tem lugar como aspiração profunda repetida. O que quase sempre resolve melhor a cena é a lateralização e uma explicação de trinta segundos à filha.

5. O paciente morre e a família não está no hospital

É a situação de maior risco de dano evitável em todo o capítulo, e o dano não é clínico: é o que a família carrega depois. Ela se instala quando ninguém avisou que era hoje, e a filha foi para casa às onze da noite porque nada indicava que aquela noite fosse diferente das outras dez.

A prevenção é inteira e acontece horas antes: quando alguém reconhece a fase e diz à família, com franqueza e sem número, que o estado mudou e que ele pode morrer nesta noite ou nas próximas, a família decide com informação se fica ou se vai. Quem decide isso é ela, e há razões legítimas para ir embora — outro filho pequeno em casa, o ônibus que não passa depois da meia-noite. O que não se pode é ela decidir sem saber.

Quando já aconteceu, a condução tem duas partes que não se misturam. A comunicação da morte por telefone tem técnica própria e é do capítulo Comunicação de más notícias, na posição 1 desta apostila, que ensina como se conduz uma ligação dessas, com as palavras que cabem e as que não cabem. O que é deste capítulo é o depois: o que se faz com o corpo e com o quarto enquanto a família vem, o que se registra, e o que se oferece quando ela chega — inclusive o tempo, que é a única coisa que se pode oferecer em quantidade e é a que quase nunca se oferece.

Um ponto operacional que não é óbvio para quem está na primeira noite: não há pressa para retirar o corpo do quarto antes de a família chegar, e não há norma que a imponha. A pressão que existe é de fluxo interno — o necrotério ligando, o leito esperando — e ela é negociável de um jeito que a memória daquela filha não é.

6. Você entra no quarto e ele já morreu — e o paciente é de outra equipe

O técnico chama porque o paciente do leito 7 não responde. Você entra, e não há o que decidir sobre reanimação porque há uma decisão registrada, ou porque não há e o quadro é evidente. A tarefa que se abre é a constatação do óbito, e ela é o único ato deste capítulo que o interno vai executar de forma quase idêntica em todas as vezes.

Vale separar com clareza a atribuição do interno da do médico, porque a confusão aqui é comum. A constatação da morte, como ato médico, é do médico; o interno a realiza sob supervisão, como faz com qualquer outro ato, e quem assina o registro e a declaração é médico. O que o interno faz sozinho, e faz bem, é o exame — e é justamente o exame que ninguém ensina, porque ele não está descrito em nenhum documento brasileiro de assistência hospitalar. A conferência dessa ausência está nas notas do bloco de critérios.

A segunda coisa a saber é que ser de outra equipe não muda a legitimidade, muda o trabalho. O plantonista que atesta o óbito de paciente de outra equipe está expressamente autorizado a fazê-lo e o faz como substituto — a competência para emitir a declaração, o campo que se marca e a reconstrução da cadeia de causas são todas do capítulo Declaração de óbito e atestados, que trata disso inteiro. Aqui o que interessa é a ordem dos atos: constata-se e registra-se a hora primeiro; o documento vem depois.

O fluxo médico-legal depende de suspeita de causa externa na cadeia que levou à morte, mesmo se o trauma ocorreu meses antes. Um acidente antigo sem relação com o óbito não determina esse destino sozinho. Se houver dúvida causal relevante, discutir com o médico responsável e o serviço de referência antes de emitir a DO; o interno não certifica de forma autônoma. Isso não muda nada do cuidado que você prestou nas últimas horas e muda tudo no que acontece depois. Confira a história antes de prometer qualquer coisa à família sobre documentos.

06

Como fechar o diagnóstico

Aqui, investigar é conferir seis coisas — todas antes da primeira linha escrita — e a ordem entre elas pesa. Quem começa prescrevendo antes de saber por qual via o remédio entra escreve uma linha bonita que ninguém executa; quem começa pela família antes de olhar o paciente conversa sobre um quadro que não examinou.

Nenhuma das seis exige exame complementar, e essa é a observação mais útil do bloco. Nas últimas horas, praticamente nenhum exame muda conduta: a gasometria não autoriza tratar dispneia, o eletrólito não muda o alívio, a radiografia não define se é hoje. O que decide está no leito, na folha da enfermagem, na prescrição e na farmácia.

1 · É hoje? — o reconhecimento, feito com o que já está no leito

Comece pelo estado presente, não pela probabilidade. Olhe cinco coisas e some: o nível de consciência ao longo do dia, e não no instante — quantas horas ele passou acordado ontem, e hoje; a deglutição, testada com um gole de água e não presumida; a diurese das últimas doze horas na folha da enfermagem; a perfusão periférica, com a mão no antebraço e no joelho procurando até onde a pele está fria; e o padrão respiratório observado por um minuto inteiro, procurando irregularidade e pausas, não só contando a frequência.

Some a esses cinco a trajetória: o que mudou nas últimas quarenta e oito horas e em quantos dias esta internação chegou aqui. Uma queda funcional que levou semanas fala de fase final de vida em dias; uma queda que aconteceu entre ontem e hoje, num paciente que já vinha acamado e sem aceitar dieta, fala de horas.

O que não fazer: procurar o diagnóstico da piora antes de olhar o paciente. Em quem já está nesse ponto de uma doença crônica avançada, encontrar a infecção nova ou o distúrbio eletrolítico não muda o desfecho e consome a hora que a família tinha. Investigue causa reversível quando há causa reversível plausível e o paciente ainda tem reserva para responder — e essa é uma decisão clínica de julgamento, tomada com quem conhece o caso, não uma regra automática.

Registre a resposta. Se a sua leitura é de que o paciente está nas últimas horas ou dias, escreva a frase e os achados que a sustentam, com hora. Essa frase é o que autoriza tudo o que vem depois no plantão e é o que impede que o plantão seguinte recomece a discussão do zero.

2 · Existe decisão, e o que exatamente ela alcança

Procure a decisão antes de supor que ela existe, e procure-a pelo conteúdo e não pelo rótulo. Uma evolução que diz medidas de conforto não informa se foi decidido não intubar, não informa se foi decidido não dialisar, e não informa se foi decidido não iniciar amina. As perguntas que se faz ao registro, e o que fazer quando ele não as responde, são de O que continua quando se decide parar, na posição 4, que trata disso inteiro e com melhor detalhe do que caberia aqui.

O que este capítulo acrescenta é uma advertência de leitura: a ausência de decisão não é impedimento para tratar sintoma. Se você encontrar o prontuário mudo e o paciente com dispneia, trate a dispneia. Adiar analgesia até que alguém decida sobre reanimação é confundir duas coisas que a norma brasileira separa — a limitação de procedimentos que prolongam a vida é matéria de decisão registrada, e o alívio de sintoma é dever, e o Código de Ética Médica o afirma no artigo que trata do cuidado paliativo em doente incurável.

A conferência inversa também vale, e é onde o interno mais escorrega: a existência da decisão não autoriza suspender o que ninguém decidiu suspender. Uma frase sobre conforto não retira antibiótico que está aliviando sintoma, não retira hidratação e não dispensa a visita diária. Essa lista do que continua está no capítulo da posição 4 e o leitor deve ir lá.

Anote quem decidiu e com quem foi conversado, porque você vai precisar disso duas vezes nesta noite: quando a família perguntar, e quando o plantão da manhã chegar.

3 · Por qual via, e a via já está pronta

Esta é a pergunta que decide se a sua prescrição vai existir de fato, e é a que quase ninguém faz antes de escrever. Confira três coisas na folha da enfermagem, não na prescrição: se há acesso venoso e se ele está funcionante hoje, com data da punção; se há sonda e se ela está em uso; e se o paciente ainda engole com segurança, o que se testa e não se presume.

Num paciente em processo ativo de morte, a via oral costuma sair de cena primeiro, e a venosa periférica costuma ser a segunda a sair, porque a perfusão cai e o acesso infiltra. A literatura brasileira de cuidados paliativos indica a via subcutânea como a mais tolerada nessa fase, e ela é o caminho a considerar quando a oral se perde e o acesso venoso some. A técnica, os sítios, os volumes admitidos em cada sítio e a lista de medicamentos compatíveis com essa via estão no capítulo Cuidados paliativos e dor oncológica, que os traz com números; consulte-os lá.

O que é deste capítulo é a antecipação e a autorização local. Pergunte, ainda no início do plantão, se a enfermagem daquele serviço punciona via subcutânea e se há dispositivo disponível — se a resposta for não, você acaba de descobrir, à meia-noite, um problema que teria travado a sua prescrição às quatro. Descoberto às quatro, ele não tem solução; descoberto à meia-noite, tem, porque ainda dá para conversar com quem pode resolvê-lo.

Registre a via escolhida e por que a anterior saiu. Um acesso venoso que infiltrou e não foi repuncionado por decisão clínica é uma conduta e precisa parecer uma conduta na evolução — senão, lido depois, parece abandono.

4 · O que existe na farmácia deste hospital, esta noite

Faça esta pergunta em voz alta e cedo, porque a resposta muda o que você pode prometer à família. Ela tem três partes: o que está padronizado naquele hospital, o que está disponível na unidade agora, e o que exige receita ou dispensação especial.

O piso é o elenco nacional, e ele é conferível. A Relação Nacional de Medicamentos Essenciais, edição de 2024, traz morfina, codeína e metadona no Componente Especializado; haloperidol, clorpromazina, diazepam, metoclopramida, ondansetrona, dexametasona e furosemida no Componente Básico. Não traz butilbrometo de escopolamina em nenhuma forma, não traz o colírio de atropina a 1% que a literatura de paliativos cita como alternativa sublingual para a secreção, não traz midazolam injetável — só a solução oral —, e não traz tramadol, fentanila, oxicodona nem levomepromazina. As contagens, com as grafias testadas, estão nas notas do bloco de critérios.

Esse piso não é o teto: hospitais padronizam além do elenco nacional e muitos têm escopolamina e midazolam injetável. O ponto é que você não pode presumir — e o preço de presumir é uma linha prescrita à uma da manhã que a enfermagem devolve às duas dizendo que não tem.

Uma consequência de competência que vale fixar: a prescrição de opioide exige receita de controle especial, que é ato médico. O interno não a emite. O que o interno faz, e faz bem, é levantar a pendência com antecedência e levá-la a quem assina, em vez de descobri-la no momento em que o paciente precisa da dose.

5 · Quais dos quatro sintomas estão presentes agora — e como se avalia quem não fala

Os quatro sintomas que dominam estas horas são dor, dispneia, respiração ruidosa por secreção e agitação. A dificuldade específica desta fase é que o paciente costuma não relatar nenhum deles, e a avaliação passa a ser inteiramente por observação. Isso não a torna menos válida; torna-a mais exigente de método.

Avalie por sinais, um a um, e escreva o que viu. Para dor e desconforto: expressão facial com testa franzida ou olhos apertados, gemência, movimento de retirada ao toque ou ao reposicionamento, tônus aumentado. Para dispneia: frequência respiratória, uso de musculatura acessória, batimento de asa de nariz, tiragem — a literatura nacional é explícita em que, no paciente que não pode referir dispneia, a avaliação se limita ao exame físico, e em que a queixa não se desqualifica pela ausência de hipoxemia. Para secreção: o ruído, a posição em que ele piora, e o que se vê na cavidade oral. Para agitação: inquietação motora sem propósito, tentativa de sair do leito, alternância com sonolência.

Antes de atribuir agitação ao processo de morrer, procure as três causas que se corrigem em minutos e que são a origem mais comum de inquietação nesta fase: bexiga cheia, fecaloma e má posição. Uma sondagem vesical de alívio resolve mais agitação terminal do que qualquer sedativo, e a literatura brasileira de cuidados paliativos recomenda ficar atento a retenções urinárias e fecais justamente por isso. Delirium como síndrome — diagnóstico, causas e manejo — é do capítulo Delirium no paciente internado; o que é deste é a checagem dessas três antes de escalar qualquer coisa.

Uma nota sobre a boca, que é o sintoma mais negligenciado e o mais barato de tratar. Muitos pacientes nesta fase perdem a capacidade de fechar a boca e desenvolvem xerostomia; o cuidado é local e frequente — hidratação de lábios e mucosa com gaze úmida e hidratante labial. Isso não é higiene de rotina, é tratamento de sintoma, e por isso vai na prescrição com frequência escrita e não no critério do turno.

6 · Quem está no quarto, o que essa pessoa já foi informada, e quem ela quer que esteja

A última conferência é sobre gente. Descubra quem está ali agora, há quanto tempo, o que já lhe foi dito e por quem, e se há alguém que ela gostaria de chamar. As quatro perguntas levam menos de dois minutos e mudam a noite inteira.

O que já foi dito é a mais importante e a menos procurada. Leia a última evolução que registra conversa com a família e leia o que ficou escrito que ela entendeu — não o que foi dito. A regra de que a informação é do paciente e a família entra por autorização dele, o boletim de rotina e o registro dessas conversas são do capítulo Cada um fala uma coisa, na posição 11, e vale relê-lo antes de assumir que a família sabe.

Duas coisas específicas de fim de vida, que não estão em nenhum outro lugar do nível e por isso ficam aqui. A primeira: pergunte se a família quer ser chamada quando ocorrer, e a que horas, e por qual telefone — e escreva a resposta no lugar onde a enfermagem da madrugada vá encontrá-la, que raramente é a evolução médica. A segunda: pergunte se há alguma prática religiosa ou rito que precise de preparo prévio, porque alguns precisam, e o momento de descobrir isso não é depois.

Se o paciente ainda se comunica, mesmo que pouco, pergunte a ele antes de perguntar à família: quem ele quer por perto, o que o incomoda mais agora, e se há alguém que ele quer que seja chamado. Uma pergunta feita a tempo a um paciente que ainda responde vale mais do que qualquer reconstrução posterior de vontade.

07

O que o Brasil escreveu sobre estas horas, o que existe no elenco, e o que se faz quando o óbito acontece

Este bloco tem três funções e nenhuma delas é dar dose. A primeira é dizer qual régua brasileira governa cada decisão deste capítulo e desde quando — e onde não há régua nenhuma, dizer isso com todas as letras. A segunda é confrontar o que a literatura brasileira de cuidados paliativos indica para os quatro sintomas destas horas com o que o elenco nacional de medicamentos efetivamente contém, porque a diferença entre as duas listas é o que trava a prescrição às quatro da manhã. A terceira é escrever a sequência da constatação do óbito, que nenhum documento brasileiro de assistência hospitalar descreve. As conferências que sustentam cada afirmação estão nas notas, com a conta.

  1. 11 · Reconheça e escreva. A frase que diz que o paciente parece estar nas últimas horas ou dias, com os achados que a sustentam e a hora, é o primeiro ato — sem ela nada do que vem depois tem antecedente no prontuário, e o plantão seguinte recomeça do zero.
  2. 22 · Confira a via antes de escrever a linha. Deglutição testada, acesso venoso conferido na folha da enfermagem e não na prescrição, e a pergunta sobre via subcutânea feita a quem punciona. Uma via que ninguém no serviço sabe puncionar não é uma via.
  3. 33 · Confira o elenco daquele hospital naquela hora. O que está padronizado, o que está na unidade agora, o que exige receita de controle especial e a que horas a farmácia fecha. Descoberto cedo, isso tem solução; descoberto na hora do sintoma, não tem.
  4. 44 · Trate os quatro sintomas presentes, começando pelo que não depende de farmácia — posição, decúbito lateral, cuidado com a boca, revisão do que está pendurado, esvaziamento de bexiga. A escolha do fármaco, a dose e a titulação são do capítulo Cuidados paliativos e dor oncológica; a forma da linha é do capítulo O que continua quando se decide parar.
  5. 55 · Decida o que se para de medir, item por item, e escreva a razão ao lado. Medida que não muda conduta e custa desconforto sai; medida que ainda muda alívio fica. E diga isso à família antes que ela perceba sozinha que pararam de medir.
  6. 66 · Explique com franqueza os sinais de proximidade da morte e a incerteza temporal: ele pode morrer nas próximas horas ou dias, sem garantia do momento exato. Pergunte quem a família quer chamar, se deseja aviso quando ocorrer, qual telefone usar e se há rito a preparar. Registre para a equipe do próximo turno.
  7. 77 · Quando ocorrer: examine, registre a hora exata, avise a família e fique. O fluxo médico-legal depende de suspeita de causa externa na cadeia que levou à morte, mesmo se o trauma ocorreu meses antes. Um acidente antigo sem relação com o óbito não determina esse destino sozinho. Se houver dúvida causal relevante, discutir com o médico responsável e o serviço de referência antes de emitir a DO; o interno não certifica de forma autônoma.

A régua brasileira deste capítulo, declarada — inclusive onde ela não existe

Sobre a organização do cuidado, há régua e ela é recente: a Política Nacional de Cuidados Paliativos, hoje o Anexo XLIV da Portaria de Consolidação GM/MS nº 2/2017, instituída em maio de 2024 e alterada em janeiro de 2026, atribui à atenção hospitalar o acompanhamento do processo ativo de morte e o acolhimento à família no luto, e manda superar barreiras de acesso a medicamentos, a cuidados de fase final de vida e à própria declaração de óbito. Sobre a decisão de limitar, há régua desde 2006, e ela é do capítulo da posição 4. Sobre o conteúdo clínico das últimas horas, o documento brasileiro de referência não é norma: é o Manual de Cuidados Paliativos do Ministério da Saúde com o Hospital Sírio-Libanês, 2ª edição, de 2023, que descreve o processo ativo de morte, os sintomas e a revisão da prescrição. E sobre três coisas centrais deste capítulo não há régua brasileira nenhuma, o que é preciso dizer em vez de fingir: não há documento que defina o que caracteriza a fase final de vida, quem a reconhece e onde isso se registra; não há documento de assistência hospitalar que descreva o exame de constatação do óbito ou fixe o tempo de observação; e não há, na lista nacional de medicamentos essenciais, uma única menção a cuidados paliativos.

Os quatro sintomas destas horas: o que a literatura brasileira indica, o que o elenco nacional contém, e o que continua de pé quando não contém

SintomaMedida que não depende de farmáciaO que a literatura brasileira de cuidados paliativos indica em fármacoSituação na Rename 2024, conferida para este capítulo
DorReposicionar antes de tocar; evitar mobilização desnecessária; tratar bexiga cheia e fecaloma, que doemOpioide, com escolha, dose e titulação no capítulo Cuidados paliativos e dor oncológicaMorfina, codeína e metadona constam, no Componente Especializado, com o protocolo da dor crônica como documento norteador. Tramadol, fentanila e oxicodona não constam
DispneiaCabeceira elevada; janela aberta e ar corrente no rosto; presença de alguém no quarto; reduzir o que congestaOpioide, na mesma referência; oxigênio só se houver hipoxemia e só enquanto aliviar o desconforto, nunca por meta numéricaMesma situação da dor. Não há na lista nacional nenhum fármaco com indicação registrada para dispneia do fim de vida
Respiração ruidosa por secreçãoDecúbito lateral; avaliar a cavidade oral; revisar volume de hidratação e de dieta, nomeados como indutores; explicar o ruído à famíliaButilbrometo de escopolamina por via parenteral; colírio de atropina a 1% por via sublingual como alternativa citadaNenhum dos dois consta. Escopolamina não aparece em nenhuma grafia; a atropina que consta é a solução injetável de 0,25 mg/mL, não o colírio a 1%
Agitação e inquietaçãoProcurar e resolver bexiga cheia, fecaloma e má posição antes de qualquer fármaco; luz, ruído e presença conhecidaAntipsicótico em dose baixa; benzodiazepínico reservado, porque piora confusão — diagnóstico e manejo do delirium são do capítulo Delirium no paciente internadoHaloperidol consta no Componente Básico, com formas oral e injetável; clorpromazina e diazepam também. Midazolam consta apenas como solução oral 2 mg/mL; levomepromazina não consta
Boca secaHigiene oral e hidratação de lábios e mucosa com gaze úmida e hidratante labial, com frequência escrita na prescrição e não deixada ao turnoMedidas locais; saliva artificial quando disponívelNão se aplica: o tratamento é local e não depende do elenco — é o único dos cinco que nenhuma falta de farmácia impede

Do miligrama ao mililitro nas apresentações que a própria Rename declara — e a armadilha de concentração conferida em Python

Apresentação, como a Rename 2024 a declaraComponenteO que 1 mL contémVolumes recalculadosO que conferir antes de aspirar
Haloperidol, solução injetável 5 mg/mLBásico5 mg0,5 mg = 0,1 mL; 1 mg = 0,2 mL; 2,5 mg = 0,5 mL; 5 mg = 1 mLÉ a apresentação de ação imediata. A ampola de 1 mL da bula conferida contém a dose inteira: as quantidades baixas saem em décimos de mililitro e pedem seringa de 1 mL
Haloperidol, solução injetável 50 mg/mLBásico50 mg0,1 mL = 5 mg; 0,2 mL = 10 mg; 1 mL = 50 mgÉ dez vezes mais concentrada e está listada sob a mesma denominação, sem qualificar-se. Os mesmos 0,1 mL que dariam 0,5 mg na apresentação acima dão 5 mg nesta. Confira a concentração impressa na ampola, não o nome
Haloperidol, solução oral 2 mg/mLBásico2 mg1 mg = 0,5 mL; 2 mg = 1 mLA equivalência em gotas não foi conferida contra bula e por isso não é dada aqui: prescreva em mililitros, que é a unidade que a Rename declara
Sulfato de morfina, solução injetável 10 mg/mLEspecializado10 mg1 mg = 0,1 mL; 2 mg = 0,2 mL; 5 mg = 0,5 mL; 10 mg = 1 mLComponente Especializado: confira a via de dispensação do seu hospital antes de prescrever, não depois. Dose e titulação são do capítulo Cuidados paliativos e dor oncológica
Sulfato de morfina, solução oral 10 mg/mLEspecializado10 mg5 mg = 0,5 mL; 10 mg = 1 mLSó serve enquanto houver deglutição segura — teste, não presuma
Cloridrato de metoclopramida, solução injetável 5 mg/mLBásico5 mg10 mg = 2 mLNáusea nesta fase costuma ter causa mecânica; procure fecaloma e retenção antes
Cloridrato de clorpromazina, solução injetável 5 mg/mLBásico5 mg25 mg = 5 mLO volume é grande para via subcutânea; a compatibilidade e os volumes por sítio estão no capítulo Cuidados paliativos e dor oncológica
Dexametasona, solução injetável 4 mg/mLBásico4 mg4 mg = 1 mL; 8 mg = 2 mLConsta em duas naturezas na mesma lista, uma dermatológica e outra sistêmica; confira o código antes de assumir disponibilidade

Quando ocorrer: os atos, quem os pratica, o que fica escrito e onde termina este capítulo

AtoQuemO que fica escritoFronteira
Ir ao leito quando a enfermagem chama, sem correr e sem demorarInterno, com o plantonista avisadoNada aindaSe houver dúvida sobre haver decisão registrada, ela se resolve antes de entrar, no prontuário — não na frente da família
Examinar: ausência de resposta a estímulo, ausência de movimentos respiratórios observada por um período contínuo, ausência de pulso central, ausculta cardíaca e pulmonar sem sons, pupilas fixasAto médico; o interno o executa sob supervisão, como qualquer outroOs achados, um a um, e não a palavra constatado sozinhaNenhum documento brasileiro de assistência hospitalar descreve este exame nem fixa o tempo de observação — ver as notas
Registrar a hora exata da constataçãoQuem examinou, com o médico responsável identificadoHora, achados, e o nome de quem constatouA hora registrada é a da constatação; ela é a que vai para o documento, e o documento é do capítulo Declaração de óbito e atestados
Comunicar à família presente, ou telefonar a quem pediu para ser avisadoMédico, com o interno juntoQue se comunicou, a quem, em que horárioAs palavras da comunicação são do capítulo Comunicação de más notícias, na posição 1, e não se repetem aqui
Desligar alarmes e bombas, retirar o que não precisa ficar, ajeitar o leito e a roupa, abaixar a luzEnfermagem, com o médico presenteNão é linha de prontuário; é o que a família vai lembrarRetirada de dispositivo que exija cuidado próprio — o marca-passo, quando houver cremação — depende do destino do corpo, que é assunto do capítulo da declaração de óbito
Oferecer tempo com o corpo, sem prazo e sem pressa, e perguntar se querem ficar sozinhosToda a equipe do quartoNadaNão há norma que imponha retirar o corpo do quarto num prazo; a pressão que existe é de fluxo interno e é negociável
Perguntar se há alguém a chamar e se há rito a cumprir; identificar quem, na família, vai receber as orientações práticasQuem estiver conduzindoQuem foi identificado como interlocutorAs orientações sobre vias, cartório e funerária são do capítulo Declaração de óbito e atestados
Escrever a evolução final: reconhecimento da fase, o que foi tratado, o que foi conversado, a hora do óbito e quem foi comunicadoInterno, assinada pelo médicoTudo acima, no mesmo plantãoO fluxo médico-legal depende de suspeita de causa externa na cadeia que levou à morte, mesmo se o trauma ocorreu meses antes. Um acidente antigo sem relação com o óbito não determina esse destino sozinho. Se houver dúvida causal relevante, discutir com o médico responsável e o serviço de referência antes de emitir a DO; o interno não certifica de forma autônoma.

Qual régua o Brasil usa, e desde quando — conferido no texto. A Política Nacional de Cuidados Paliativos foi instituída pela Portaria GM/MS nº 3.681, de 7 de maio de 2024, como Anexo XLIV da Portaria de Consolidação GM/MS nº 2, de 28 de setembro de 2017, e alterada pela Portaria GM/MS nº 10.181, de 26 de janeiro de 2026, cujo art. 3º a faz vigorar na data da publicação. As duas redações foram abertas e comparadas. Errata não encontrada para nenhuma das duas.

A expressão que nomeia a fase deste capítulo entrou tarde na política federal. Busca insensível a espaço e a hífen nos dois textos: fase final de vida tem zero ocorrência no texto de 2024 e duas ocorrências no de 2026 — no dispositivo sobre unidades de cuidados prolongados e no que manda superar barreiras de acesso. Processo ativo de morte, ao contrário, já aparecia duas vezes em 2024. Ou seja: a política nomeava o processo antes de nomear a fase.

O horário está na norma, e isso é raro. A expressão em especial no período noturno e finais de semana consta das duas redações. Em 2024 ela estava presa ao atendimento domiciliar pelo SAMU; em 2026 o dispositivo passou a dizer tanto nas unidades móveis quanto nas fixas. É a única passagem em norma brasileira, entre as consultadas para este capítulo, que reconhece que o problema tem hora marcada.

A política nomeia a barreira que a própria lista de medicamentos cria. O art. 12, VI, na redação de 2026, manda a equipe macrorregional superar barreiras de acesso a insumos e medicamentos e a cuidados adequados de fase final de vida. Confrontado com o elenco: na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024, o radical paliativ tem zero ocorrência em todo o documento, e o antissecretor indicado pela literatura nacional para a respiração ruidosa não consta em nenhuma grafia. A contradição é entre documentos federais vigentes, não uma leitura deste capítulo.

Ausências no elenco, conferidas uma a uma sobre o texto normalizado da Rename 2024, com busca insensível a espaço e a hífen, e não por impressão de leitura. Escopolamina: zero, testada também como hioscina, butilbrometo e butilescopolamina. Glicopirrolato: zero. Tramadol: zero. Fentanila: zero. Oxicodona: zero. Buprenorfina: zero. Levomepromazina: zero. Midazolam: duas ocorrências, ambas da mesma linha, solução oral 2 mg/mL, Componente Básico — não há midazolam injetável na lista. A atropina que consta é sulfato de atropina 0,25 mg/mL solução injetável, e não o colírio a 1% que a literatura de paliativos cita para uso sublingual.

Presenças, também conferidas, porque a conferência que fecha diz tanto quanto a que falha. Morfina consta em sete apresentações, todas no Componente Especializado; codeína em quatro e metadona em três, também no Especializado. Haloperidol consta em cinco apresentações no Componente Básico, incluindo duas soluções injetáveis. Clorpromazina, diazepam, metoclopramida, ondansetrona, dexametasona e furosemida constam no Básico. Nenhuma dessas presenças foi tomada da listagem sem reconferir no texto bruto.

A porta de entrada dos opioides no SUS não é a paliativa. No quadro que vincula cada item do Componente Especializado ao seu documento norteador, morfina, codeína e metadona aparecem todas ligadas ao protocolo clínico da dor crônica. Somado ao achado anterior — zero menção a cuidados paliativos em todo o documento —, isso significa que o acesso ao opioide no fim da vida, no elenco nacional, passa por um protocolo escrito para outra coisa.

A indisponibilidade que o manual do Ministério declara está aferida contra uma edição superada, e foi reconferida aqui. Ao tratar da respiração ruidosa, o Manual de Cuidados Paliativos registra que o butilbrometo de escopolamina e o colírio de atropina a 1% não estão disponíveis na Rename 2022. A régua vigente é a Rename 2024, e a conferência refeita sobre ela mostra que a ausência persiste nas duas substâncias. A conclusão do manual continua correta; a referência que ele cita, não.

Duas concentrações injetáveis muito diferentes sob a mesma denominação, sem distinção na tabela. Haloperidol de ação imediata e decanoato depot não são intercambiáveis. Decanoato é preparação intramuscular de longa ação e não serve como resgate intravenoso ou subcutâneo; conferir sal, apresentação e via, além da concentração. A palavra decanoato tem zero ocorrência em todo o documento, embora a apresentação de 50 mg/mL corresponda, no mercado brasileiro, à forma de depósito, de aplicação intramuscular espaçada, e não à de ação imediata. A conta que importa à beira do leito: 0,1 mL da primeira são 0,5 mg; os mesmos 0,1 mL da segunda são 5 mg. Haloperidol de ação imediata e decanoato depot não são intercambiáveis.

A bula do haloperidol injetável não cobre o uso desta fase, e é honesto dizer isso. A bula profissional conferida — genérico de solução injetável 5 mg/mL, ampola de 1 mL — declara na posologia que o haloperidol injetável é recomendado apenas para administração intramuscular, e indica de 2,5 a 5 mg por essa via. O uso subcutâneo, que é o recomendado pela literatura brasileira de cuidados paliativos para esta fase, não está na bula; e a dose baixa que essa mesma literatura usa é de duas e meia a cinco vezes menor que o piso da bula. Não é erro do documento: é uma lacuna entre a bula e a prática, e quem prescreve precisa saber que está fora dela.

Não há documento brasileiro de assistência hospitalar que descreva o exame de constatação do óbito. A conferência foi feita sobre o Manual de Instruções para o preenchimento da Declaração de Óbito do Ministério da Saúde e sobre o Manual de Cuidados Paliativos. No primeiro, os termos constatação, constatar, pupila, ausculta, carótida, midríase, rigidez cadavérica e livor têm todos zero ocorrência. No segundo, constatar aparece três vezes e nenhuma delas descreve o ato: duas são de outro assunto e a terceira diz apenas no momento em que a morte é constatada, tomando o ato como já ocorrido. Pupilas não reativas aparecem uma vez, e como sinal do processo de morrer, não como critério de verificação.

O único protocolo brasileiro que trata da constatação é pré-hospitalar, e o que ele descreve são sinais cadavéricos. O protocolo PE26 dos Protocolos de Intervenção para o SAMU 192 trata da constatação do óbito pelo médico do serviço e enumera sinais de morte evidente — rigidez cadavérica, livores de hipóstase, decapitação, carbonização, segmentação do tronco, sinais de decomposição —, com as janelas temporais de instalação da rigidez e dos livores. São critérios para não iniciar reanimação diante de um corpo encontrado, e não o exame de quem acabou de morrer num leito com a família ao lado. Para a enfermaria, esse protocolo não responde.

Erro conceitual dentro desse mesmo protocolo, transcrito com cuidado para não distorcer. Ao definir a expressão, o PE26 diz que morte evidente ou morte óbvia são situações em que o corpo apresenta sinais que indiretamente asseguram a condição de morte encefálica, e lista em seguida rigidez cadavérica e livores. Rigidez e livores são fenômenos cadavéricos de morte somática instalada; morte encefálica, no Brasil, é um diagnóstico com protocolo próprio, exames, intervalos e termo, definidos em resolução específica e tratados no capítulo A morte que ainda respira. Chamar de morte encefálica o que se vê num corpo em rigidez confunde duas categorias que a norma brasileira mantém separadas, e a confusão está na letra do documento.

Duas datas de revisão diferentes dentro do mesmo documento do SAMU. A folha do protocolo PE26 traz Elaboração agosto de 2014 e Revisão abril de 2015; a folha de créditos do mesmo volume traz Elaboração agosto de 2014 e Revisão fevereiro de 2016. Não é possível, a partir do próprio arquivo, dizer qual é a data da versão em mãos. Registro também que a cópia utilizada veio de um repositório de biblioteca universitária e não do portal do Ministério, o que enfraquece a datação e está declarado na ficha da fonte.

O mesmo protocolo cita como referência um manual da declaração de óbito hoje superado. O PE26 remete ao manual A Declaração de Óbito de 2009, do Ministério da Saúde e do Conselho Federal de Medicina. A edição em uso é a de 2022, com estrutura e número de campos diferentes. Quem seguir a remissão do protocolo chega a um documento que não é mais a régua — o preenchimento é assunto do capítulo Declaração de óbito e atestados, que trabalha sobre a edição correta.

Duas cópias do mesmo manual, corpo idêntico, ISBNs diferentes — conferido por comparação normalizada. As duas versões em circulação do Manual de Cuidados Paliativos, 2ª edição, foram normalizadas quanto a espaço, hífen e acento e comparadas token a token: dos 122.167 tokens, divergem exatamente cinco, todos na ficha catalográfica. Uma traz ISBN 978-65-85051-58-3 e a expressão E-book; a outra traz ISBN 978-65-85051-59-0 e não a traz. O corpo do manual, palavra por palavra, é o mesmo. Quem citar o manual pelo ISBN precisa dizer de qual arquivo está falando.

Defeito de texto no mesmo manual, presente nas duas cópias e portanto não atribuível à extração. Ao tratar do destino do corpo, o parágrafo lê: para preenchimento da declaração de óbito, pois, por exemplo, nos casos de pois, nos casos de cremação, o documento deve ser carimbado e assinado por dois médicos diferentes. O fragmento nos casos de pois, nos casos de está duplicado. A informação sobreviveu ao defeito e é verdadeira; o registro fica porque as duas cópias oficiais o trazem igual.

Conferência que não fechou, e fica declarada como não fechada. A ficha catalográfica do manual declara 424 páginas; os dois arquivos em circulação têm 421 páginas cada um. A diferença de três páginas não foi explicada e pode ser de paginação editorial. Nenhuma afirmação deste capítulo depende dela.

A conta da política, feita para a enfermaria da cena. A Equipe de Apoio Assistencial em Cuidados Paliativos é habilitada tomando por base 400 leitos do SUS no território considerado; a enfermaria deste capítulo tem 18 leitos; 400 dividido por 18 dá 22,2. A Equipe Macrorregional é uma para cada macrorregião de até 500 mil habitantes, com uma nova a cada 500 mil adicionais. Nenhuma das duas é equipe de plantão, e a portaria descreve a atuação da macrorregional como matricial.

Tabela de conversão, e o que ela é e não é. Este capítulo não escolhe fármaco e não fixa dose — isso é do capítulo Cuidados paliativos e dor oncológica, e o dizemos aqui pela terceira vez de propósito. A tabela de miligrama para mililitro foi recalculada em Python a partir das concentrações que a própria Rename declara e da apresentação de bula conferida para o haloperidol injetável, num adulto de 62 quilos — peso declarado por exigência de método, embora nenhuma das drogas desta tabela seja dosada por peso no adulto, o que também vale registrar. O que a tabela mostra não é quanto dar: é quanto volume corresponde a cada quantidade, e onde duas apresentações da mesma denominação diferem por um fator de dez.

08

A conduta, hora a hora

O que segue é o plantão do senhor Alcino Solonopole, das quatro e vinte e dois da manhã de sábado até pouco depois das sete. São oito marcos, e em nenhum deles o interno escolhe um fármaco ou fixa uma dose — isso é do capítulo Cuidados paliativos e dor oncológica, e este plantão o consulta em vez de repeti-lo. O que o interno faz é reconhecer, conferir a via, conferir a farmácia, transformar em ato o que já estava decidido, dizer à filha que é hoje, parar de medir o que não muda nada, constatar e ficar.

Repare em duas coisas ao ler. A primeira é que quatro dos oito marcos são conversas, e nenhuma delas é uma conversa de más notícias no sentido técnico — são frases curtas, ditas em pé ou sentado ao lado, que só existem porque alguém decidiu dizê-las. A segunda é que a prescrição só aparece no quinto marco: quem começa por ela escreve para o paciente que imaginou, e não para o que está no leito 11.

O plano de conforto é individualizado: examinar dor, dispneia, ansiedade, retenção urinária, boca seca e outras causas tratáveis; oferecer medidas proporcionais e reavaliar seu efeito. Oxigênio depende de hipoxemia ou benefício sintomático demonstrado. Opioides exigem dose, via e ajuste ao uso prévio e à função renal; sedação não é rotina e requer indicação própria, proporcionalidade e supervisão. Reconhecer últimos dias requer integrar trajetória e exame, com revisão de causas reversíveis compatíveis com o objetivo de cuidado. Individualizar glicemia e tratamento para evitar hipoglicemia sintomática e hiperglicemia com sofrimento; considerar tipo de diabetes, insulina e ingestão, sem suspensão automática de toda monitorização. No diabetes tipo 1, não suspender automaticamente toda insulina, pelo risco de cetoacidose. Monitorização e alarmes dependem da utilidade clínica e do conforto, não apenas da preferência de manter uma tela ligada.

O fluxo médico-legal depende de suspeita de causa externa na cadeia que levou à morte, mesmo se o trauma ocorreu meses antes. Um acidente antigo sem relação com o óbito não determina esse destino sozinho. Se houver dúvida causal relevante, discutir com o médico responsável e o serviço de referência antes de emitir a DO; o interno não certifica de forma autônoma.

O interno identifica-se como estudante de medicina, trabalha sob supervisão e registra sua participação com identificação própria. Prescrição, consentimento médico, decisões de limitação e certificação de óbito exigem o profissional responsável; uma assinatura do preceptor não substitui supervisão efetiva. Reconhecer gravidade e acionar ajuda imediatamente fazem parte de sua atuação.

  1. 4h22 — o corredor, antes de entrar no quarto

    Palmiro te chama e você não entra ainda. Três perguntas, no corredor, custam quarenta segundos e mudam tudo o que vem depois: desde que horas mudou, o que exatamente mudou, e a filha está acordada. As respostas — desde a meia-noite, ficou barulhento e parou de acordar quando chamam, e ela está sentada na cama há uns quarenta minutos — já dizem que não se trata de uma intercorrência a investigar, e sim de uma fase a reconhecer. Peça a folha da enfermagem antes de abrir a prescrição: é nela que estão a diurese das últimas doze horas, a hora em que o acesso infiltrou e o que foi realmente administrado, que quase nunca é o que a prescrição diz. Pergunte também, ainda aqui, se a enfermagem daquele plantão punciona via subcutânea e se há dispositivo na unidade — porque se a resposta for não, você precisa saber agora e não daqui a uma hora.

    Prescrição
    • Nada ainda. Nenhuma linha se escreve antes de olhar o paciente.
    • Peça a folha de controle da enfermagem e localize: diurese das últimas 12 horas, hora do infiltrado do acesso, e o que foi administrado de fato no plantão.
    • Pergunte à enfermagem se há dispositivo e autorização para punção subcutânea na unidade nesta noite.
  2. 4h28 — à beira do leito: o que se faz com as mãos enquanto se olha

    Entre, cumprimente a filha pelo nome e diga o que vai fazer antes de fazer. Examine com tempo: chame o senhor Alcino pelo nome, observe a respiração por um minuto inteiro procurando irregularidade e pausas, ponha a mão no antebraço e no joelho para ver até onde a pele está fria, olhe dentro da boca, palpe o hipogástrio. Você vai encontrar o que a soma dos sinais já anunciava — sonolência que não se rompe, respiração irregular com ruído alto de secreção, extremidades frias até o punho, boca seca e aberta, e uma bexiga palpável dois dedos acima do púbis. Três das coisas que mais aliviam nesta cena não passam pela farmácia e podem ser feitas agora: lateralize o paciente, o que reduz o ruído da secreção; umedeça a boca e os lábios com gaze; e resolva a bexiga, porque bexiga cheia é uma das causas mais comuns e mais reversíveis de inquietação nesta fase. Faça isso com a filha na sala e explique cada gesto enquanto o faz — ela está vendo o pai ser tocado e precisa saber por quê.

    Prescrição
    • Decúbito lateral, alternando o lado conforme conforto, e cabeceira elevada.
    • Cuidados de boca com gaze úmida e hidratante labial, com frequência escrita na prescrição — não deixada ao critério do turno.
    • Sondagem vesical de alívio, avaliada agora pela palpação e não pelo relógio do balanço hídrico.
    • Registre o exame com o que a filha também consegue ver: a respiração, o ruído, a expressão do rosto, a cor e a temperatura das mãos.
  3. 4h36 — a filha, sentada, e a frase que ninguém disse ainda

    Puxe a cadeira e sente. Esta é a conversa central do plantão e ela dura três ou quatro minutos. Diga o que você viu, com palavras que ela reconheça — a respiração mudou, ele não acorda mais quando a senhora chama, as mãos estão frias — e diga a frase que ninguém disse: que o corpo dele está entrando na fase final e que ele pode morrer nesta noite ou nas próximas. Não dê número, porque quanto tempo é pergunta de outro capítulo e responder de improviso é a pior forma de responder. Diga em seguida o que continua sendo feito, item por item, porque é isso que separa reconhecer de abandonar. E faça as três perguntas que só podem ser feitas agora: se ela quer que alguém seja chamado, se ela quer ser avisada caso saia do quarto, e se há alguma coisa da fé dele ou dela que precise ser providenciada. Escreva as respostas onde a enfermagem da madrugada vá encontrá-las.

    Prescrição
    • Registrar na evolução, com hora: o reconhecimento da fase final, os achados que o sustentam, e que a família foi informada.
    • Registrar o que a filha respondeu sobre chamar alguém, ser avisada e ritos — e deixar o telefone anotado no local que a enfermagem consulta.
    • Não pedir assinatura de nada, não anunciar decisão nova e não usar a palavra prognóstico.
  4. 4h50 — o prontuário, e o telefonema com pergunta fechada

    Agora leia. A evolução de quinta-feira está lá, clara, com objetivo de conforto e sem manobras de reanimação. Repare no que ela responde e no que não responde: ela diz o que não será feito e não diz nada sobre por qual via os sintomas serão tratados, nem o que sai da prescrição. Isso não é defeito daquela equipe — é a distância normal entre uma decisão e a sua execução, e é o que você vai fechar nos próximos vinte minutos. Ligue para o plantonista com a informação organizada e uma pergunta fechada, que é a forma de telefonema que funciona às cinco da manhã: três frases sobre o que mudou, uma sobre o que você já fez, e a pergunta — vou prescrever para dispneia e para secreção por via subcutânea, o senhor concorda e assina a receita do opioide agora ou prefere ver o paciente. Note o que a pergunta faz: ela não reabre a decisão de quinta-feira, que não é para ser reaberta às cinco da manhã, e resolve as duas pendências que travariam a execução.

    Prescrição
    • Não reabrir, por telefone e de madrugada, a decisão de limitação já registrada — o que se leva ao telefone é a execução, não a decisão.
    • Levantar agora, e não depois, a pendência da receita de controle especial para o opioide, que é ato médico e não do interno.
    • Registrar o contato: horário, com quem, o que foi combinado.
  5. 5h05 — a prescrição que a madrugada consegue executar

    É aqui que a decisão de quinta-feira finalmente vira ato. A regra que organiza este marco é uma só: escreva agora o que ainda não é sintoma mas vai ser, porque às sete da manhã não haverá farmácia aberta nem médico disponível para uma linha nova. Cada sintoma presente ganha uma linha executável, e a forma dessa linha — item, dose, via, frequência fixa, resgate com intervalo mínimo e um critério observável que autorize a enfermagem a agir sem telefonar — é do capítulo O que continua quando se decide parar, e vale relê-la, porque uma linha sem critério observável devolve a decisão para o técnico. A escolha do fármaco e a dose vêm de Cuidados paliativos e dor oncológica. O que este marco acrescenta é a conferência de exequibilidade: para cada linha que você escrever, pergunte por qual via ela entra e se aquele item está na unidade agora. Uma linha que dependa de deglutição num paciente que não engole, ou de um acesso que infiltrou ontem, é uma linha que não existe.

    Prescrição
    • Puncionar via subcutânea, se essa for a via escolhida, antes de prescrever por ela — e não depois.
    • Uma linha por sintoma presente, com critério observável escrito: para dispneia, para dor, para respiração ruidosa, para inquietação.
    • Prescrição antecipada para o sintoma que ainda não apareceu, escrita agora e não às sete.
    • Retirar da prescrição o que não tem mais objetivo neste paciente e escrever o motivo de cada retirada — a retirada silenciosa é lida depois como esquecimento.
    • Manter a linha que a farmácia não conseguiu atender e registrar na evolução, com hora, que não foi atendida e por quê.
  6. 5h40 — o que se para de medir, e a frase que vai junto

    Individualizar aferições pelo que podem mudar no alívio e na segurança. Evitar punções e alarmes inúteis, mas manter avaliação clínica e pesquisar causas tratáveis de desconforto. Glicemia pode ser necessária em uso de insulina ou sulfonilureia; no diabetes tipo 1, não suspender toda insulina automaticamente. Temperatura pode ser dirigida por sintomas. Explicar mudanças e reavaliar o plano.

    Prescrição
    • Reduzir medidas sem consequência clínica e registrar a justificativa.
    • Manter avaliação de sintomas, inclusive sinais de hipo ou hiperglicemia conforme risco.
    • Rever alarmes segundo utilidade e conforto com a equipe.
    • Manter presença, higiene oral e cuidados corporais proporcionais.
  7. 6h58 — a constatação

    Palmiro chama. A filha está no corredor porque tinha ido tomar café e voltou correndo. Entre, e a primeira coisa é o ritmo: não se corre e não se demora. Examine com a filha presente se ela quiser ficar, e diga o que vai fazer antes de fazer — chame o senhor Alcino pelo nome, observe a ausência de movimentos respiratórios por um período contínuo, procure pulso central, ausculte o precórdio e os campos pulmonares sem pressa, e olhe as pupilas. Nenhum documento brasileiro de assistência hospitalar descreve esse exame nem fixa quanto tempo se escuta, e a conferência dessa ausência está nas notas do bloco de critérios: o que existe em norma brasileira é um protocolo pré-hospitalar que trata de corpos encontrados, com sinais cadavéricos, e ele não responde a esta cena. Na falta de régua, o que fica de pé é o registro completo: anote os achados um a um, e não a palavra constatado sozinha, com a hora exata. Essa hora é a que vai para o documento. Constatação e registro primeiro; o documento depois — e o preenchimento é do capítulo Declaração de óbito e atestados. Se houver causa externa conhecida ou suspeita na cadeia que levou à morte, ou outra indicação médico-legal, discutir o destino com o médico responsável e o serviço competente. O tempo decorrido não apaga o nexo, mas um trauma remoto sem relação com o óbito não determina encaminhamento ao IML. Conferir antes de orientar a família sobre a DO.

    Prescrição
    • Examinar e registrar os achados um a um, com a hora exata da constatação, e identificar o médico responsável.
    • Não anunciar horário aproximado nem arredondar: a hora registrada é a hora que vai para o documento.
    • O fluxo médico-legal depende de suspeita de causa externa na cadeia que levou à morte, mesmo se o trauma ocorreu meses antes. Um acidente antigo sem relação com o óbito não determina esse destino sozinho. Se houver dúvida causal relevante, discutir com o médico responsável e o serviço de referência antes de emitir a DO; o interno não certifica de forma autônoma.
    • O interno executa o exame sob supervisão; a assinatura do registro e do documento é médica.
  8. 7h15 — o quarto depois, que é a parte que a família vai lembrar

    A comunicação da morte tem técnica própria e é do capítulo Comunicação de más notícias, na posição 1. O que começa depois dela é este marco, e é a hora do plantão em que quase ninguém foi treinado. Desligue os alarmes e as bombas. Retire o que não precisa mais ficar e não exige cuidado especial. Ajeite o leito e a roupa, feche os olhos se estiverem abertos, apoie a cabeça, abaixe a luz e feche a porta. Isso leva três minutos e é a cena que a filha vai carregar. Depois, ofereça tempo — e ofereça de verdade, sem prazo: pergunte se ela quer ficar sozinha com ele, diga que não há pressa, e diga em quanto tempo você volta. Não há norma brasileira que imponha retirar o corpo do quarto num prazo; a pressão que existe é de fluxo interno, e ela é negociável de um jeito que essa memória não é. Pergunte se há alguém a chamar e se há rito a cumprir, e identifique quem, na família, vai receber as orientações práticas — as vias, o cartório e a funerária são do capítulo da declaração de óbito, e a pessoa que as recebe precisa ser escolhida por ter condições de ouvir, e não por estar mais perto da porta. Antes de sair, escreva a evolução final: o reconhecimento da fase, o que foi tratado e com que efeito, o que foi conversado e com quem, a hora do óbito e quem foi comunicado. Ela se escreve no mesmo plantão e não na segunda-feira.

    Prescrição
    • Confirmar destino do corpo antes de remover dispositivos; preservar possíveis vestígios em causa externa.
    • Preparar ambiente respeitoso e oferecer tempo com a família conforme condições do serviço.
    • Perguntar sobre ritos e pessoas a chamar.
    • Registrar óbito, comunicação e profissional responsável.
09

Como saber se está funcionando

Quase nada deste capítulo dá retorno espontâneo. O paciente não relata melhora, a família raramente reclama e a farmácia não avisa que a linha não foi atendida. Se você não for procurar, não fica sabendo — e o plantão inteiro passa com a impressão de que deu certo.

Três destes sete se conferem sem sair do posto de enfermagem, em menos de cinco minutos, e vale fazê-los de hora em hora numa noite dessas: o que foi de fato administrado, o que a família entendeu, e o que ainda não existe na prescrição.

O que foi administrado, e não o que foi prescritoUma hora depois de escrever a linha, e depois a cada plantão

Esperado: O checado da enfermagem bate com a linha, e o horário da primeira dose é próximo do horário em que ela foi prescrita

Se não melhora: Vá descobrir por quê, e a resposta é quase sempre uma de três: não tem na unidade, a via não existe, ou o critério da linha não autoriza a enfermagem a agir sozinha. As três se resolvem, e nenhuma se resolve reescrevendo a mesma linha. Registre na evolução, com hora, que não foi administrado e qual foi o motivo.

Os quatro sintomas, avaliados por observação e escritos com o que se viuTrinta a sessenta minutos depois de cada intervenção, e a cada passagem pelo quarto

Esperado: Redução do que se pode ver: testa desfranzida, respiração menos ruidosa, ausência de movimento de retirada ao toque, corpo que permanece na posição em que foi deixado

Se não melhora: Reavalie a causa antes de escalar a dose. Inquietação que não cede depois de resolver bexiga, fecaloma e posição é outra coisa; ruído que não cede com lateralização e revisão do volume infundido é outra coisa. Ajuste de dose e sintoma refratário são do capítulo Cuidados paliativos e dor oncológica, e é para lá que se vai quando a pergunta deixa de ser como alivio isto.

A via ainda funcionaA cada turno, e sempre antes de prescrever algo novo por ela

Esperado: Acesso pérvio, sem sinais locais, e a medicação entrando sem resistência

Se não melhora: Uma via que falhou e não foi substituída transforma toda a prescrição em papel. Repuncione ou troque de via, e escreva a decisão — inclusive a decisão de não repuncionar, quando for essa, com o motivo. Acesso que sumiu sem registro é lido depois como abandono.

A família repete de volta o que foi dito, com as palavras delaAo fim de cada conversa, e de novo na conversa seguinte

Esperado: Ela diz, com as próprias palavras, que ele está nas últimas horas ou dias, e sabe nomear duas ou três coisas que continuam sendo feitas

Se não melhora: Se ela repetir apenas que não vão fazer nada, a conversa não chegou: foi ouvida a metade da limitação e não a metade do cuidado. Refaça começando pelo que continua. Se ela repetir um prazo que ninguém deu, alguém deu — procure quem, porque duas versões em circulação é problema do capítulo Cada um fala uma coisa e vai piorar.

O que se parou de medir continua fazendo sentido, e a razão continua escritaA cada passagem de plantão

Esperado: Cada suspensão de medida tem motivo escrito ao lado, e ninguém reinstituiu a rotina sem discutir

Se não melhora: Rotina reaparecendo sozinha na prescrição é o sinal mais confiável de que a informação não passou na troca de plantão. E o inverso também se confere: se a temperatura parou de ser verificada junto com o resto, isso não foi decidido — foi arrastado.

Alguém está com o paciente, e a família sabe como chamarA cada duas horas na madrugada

Esperado: Há acompanhante no quarto ou a família sabe que pode voltar; o telefone de quem pediu para ser avisado está anotado onde a enfermagem consulta

Se não melhora: Se a família foi para casa sem saber que era hoje, o problema já aconteceu e a correção é imediata: ligue. Se ela está no corredor sem saber se pode entrar, diga que pode. Morrer sozinho por falta de informação é o dano mais evitável deste capítulo.

A intensidade do cuidado não caiu junto com o reconhecimentoTodo dia, e na leitura da evolução do plantão anterior

Esperado: Continuam registrados exame, visita, cuidados de boca, decúbito e conversa — e a prescrição tem linhas que foram ajustadas, e não apenas linhas que foram retiradas

Se não melhora: Prescrição que só encurtou é o retrato do abandono. A queda começa quase sempre pelos cuidados de boca, que somem primeiro porque não têm horário e ninguém cobra. Se a evolução de um dia inteiro não registra exame físico, o paciente deixou de ser visto e ninguém percebeu.

10

Onde o erro machuca

Tratar o reconhecimento como se dependesse de autorização, e esperar a equipe da manhã

O dano: É o erro que produz a cena inteira deste capítulo. O interno vê o quadro, entende o quadro, e não escreve a frase porque acha que dizer que o paciente está morrendo é uma prerrogativa de quem é dono do caso. O resultado é uma noite em que ninguém trata sintoma nenhum, porque tratar sintoma parece ficar pendente de uma decisão que não foi tomada — e uma família que descobre pela respiração, e não por uma pessoa.

Como pegar a tempo: Separe as duas coisas em voz alta, para você mesmo. Decidir sobre limitação terapêutica tem titular, fundamento e registro próprios, e é do capítulo da posição 4. Reconhecer que o paciente está nas últimas horas é leitura clínica de estado presente, que qualquer um que examine pode fazer e escrever, e aliviar sintoma é dever ordinário que não pede autorização de ninguém. Escreva o que você viu, com hora, e trate o que está na frente.

Escrever a linha sem conferir a via e a farmácia — e concluir, depois, que a prescrição estava certa

O dano: A linha existe, está bem escrita, tem critério observável, e o paciente passou a madrugada sem receber nada. Como a prescrição está impecável, ninguém procura o defeito, e o mesmo erro se repete na noite seguinte com outro paciente. O dano tem duas camadas: o sintoma não tratado, e a falsa impressão de que o problema é de escrita.

Como pegar a tempo: Antes de escrever cada linha, faça duas perguntas e responda-as com fato e não com suposição: por qual via isto entra num paciente que não engole e cujo acesso infiltrou, e este item está na unidade agora. Confira a via na folha da enfermagem, não na prescrição. E confira o horário da farmácia no começo do plantão, e não no momento em que o sintoma aparece.

Deixar a linha como se necessário sem dizer necessário quando

O dano: Devolve a decisão para quem não pode tomá-la e não deveria tomar. O técnico, corretamente, telefona; cada telefonema custa entre quinze e quarenta minutos de sintoma não tratado; numa noite são três ou quatro. O paciente recebeu menos do que foi prescrito, e a folha da enfermagem vai mostrar isso como se fosse recusa ou desnecessidade.

Como pegar a tempo: Escreva o critério com o que a enfermagem consegue ver, e não com o que só o médico avaliaria. Respiração ruidosa audível à distância, gemência ou testa franzida, movimento de retirada ao toque, inquietação com tentativa de sair do leito. A forma completa da linha é do capítulo O que continua quando se decide parar — e a regra que a torna segura é que a dose sobe pelo sintoma do paciente e por nada mais.

Aspirar de novo, e de novo, porque o ruído incomoda quem está na sala

O dano: A aspiração repetida de orofaringe machuca, e a secreção reacumula em minutos. Repetida diante da família, ela ainda produz um efeito colateral próprio: transforma o quarto numa sucessão de procedimentos e confirma, para quem está vendo, a impressão de que o paciente está sufocando — que é justamente o que se queria desfazer.

Como pegar a tempo: Faça primeiro o que a literatura brasileira coloca antes do fármaco: lateralize, olhe a cavidade oral e revise o que está pendendo em volume. Aspire secreção visível e ao alcance, não em profundidade e não em série. E gaste trinta segundos explicando o ruído à família — em geral alivia mais a cena do que qualquer coisa feita na via aérea.

Suspender medidas em silêncio, e deixar a família descobrir sozinha que pararam de medir

O dano: Espaçar sinais vitais e suspender glicemia capilar costuma ser a conduta certa, e é lida como abandono quando ninguém explica. A família passa a interpretar cada ausência como desistência, e a desconfiança que nasce daí é o que faz alguém pedir transferência para a terapia intensiva na última hora, ou acionar o carrinho de parada num paciente com decisão registrada.

Como pegar a tempo: Toda suspensão vira duas coisas: uma razão escrita ao lado da linha, e uma frase dita a quem está no quarto — parou-se de medir isto porque o número não muda mais nada que se faria, e o que continua é isto aqui. Nomeie o que continua antes de nomear o que sai, sempre nessa ordem.

Sair do quarto assim que a morte é constatada

O dano: É o erro de omissão mais comum do capítulo e o de consequência mais longa. O médico examina, diz a frase, e sai — porque não sabe o que fazer em seguida e porque não há tarefa clínica nenhuma. Fica no quarto uma família sozinha com alarmes tocando, bombas piscando, dispositivos no lugar e a porta aberta para o corredor. Essa é a cena que sobra da internação inteira.

Como pegar a tempo: Trate os minutos seguintes como um ato com etapas, porque é isso que eles são: desligar alarmes e bombas, retirar o que não precisa ficar, ajeitar o leito e a roupa, abaixar a luz, fechar a porta. Depois ofereça tempo sem prazo, diga em quanto tempo você volta, e volte. Nada disso é linha de prescrição, e é a parte do trabalho que a família vai lembrar por anos.

11

O que dizer ao paciente e à família

Sete falas, escritas para serem ditas como estão. Nenhuma delas é uma conversa de más notícias no sentido técnico: quando a notícia é o próprio acontecimento, aí incluída a comunicação da morte, o dono é Comunicação de más notícias, na posição 1, e a pergunta sobre quanto tempo é de O que se diz quando não se sabe, na posição 2. O boletim de todo dia é de Cada um fala uma coisa, na posição 11.

O que sobra para cá são as falas destas horas, e quase todas obedecem à mesma regra: diga o que continua antes de dizer o que muda, e nomeie coisas concretas em vez de conceitos. Uma família que ouve a palavra conforto não sabe o que foi combinado; uma família que ouve que o pai vai receber remédio para respirar melhor, que a boca dele vai ser cuidada de duas em duas horas e que alguém vai olhá-lo a cada hora, sabe.

Dizer que é hoje — com a filha sentada na beira da cama, às quatro e meia da manhã

Dona Dionisia, a senhora se importa se eu sentar um minuto? Eu examinei o seu pai agora e queria contar o que eu vi. A respiração dele mudou desde a meia-noite, ele não acorda mais quando a senhora chama, e as mãos estão frias até aqui. Isso, junto, quer dizer que o corpo dele está entrando na fase final. Eu não sei dizer a hora, e não vou inventar um prazo — pode ser esta noite, podem ser alguns dias. O que dá para dizer com certeza é o que vai ser feito: ele vai receber remédio para não sentir falta de ar e para não sentir dor, a boca dele vai ser cuidada de duas em duas horas porque isso incomoda muito, e alguém vai passar aqui a cada hora. A senhora quer que a gente chame alguém? E se a senhora precisar sair do quarto, quer que eu avise?

Não diga: Dar número — dois dias, umas horas — porque prazo é do capítulo do prognóstico e improvisar um é a pior forma de responder. Usar a palavra conforto sem nomear atos. Dizer que não há mais nada a fazer, que é falso: há, e a lista acabou de ser dita. E começar pela lista do que não será feito, que é a ordem que faz a família ouvir abandono.

Ele está sofrendo? — a pergunta sobre o ruído da respiração

Esse barulho assusta mesmo, e é a pergunta que quase todo mundo faz. Ele vem de uma secreção que fica na garganta porque ele não consegue mais engolir. Pelo que a gente sabe, num paciente nesse nível de sonolência esse barulho incomoda muito mais quem está ouvindo do que ele. Eu vou virar ele de lado, que costuma diminuir bastante, e vou rever o soro, porque líquido demais piora. Aspirar toda hora eu prefiro não fazer: alivia por poucos minutos, machuca a garganta e volta igual. Se ele der qualquer sinal de estar desconfortável — se franzir a testa, se gemer, se ficar inquieto —, a senhora me chama que a gente trata na hora. E se a senhora quiser sair um pouco enquanto isso, é normal, muita gente não aguenta ouvir.

Não diga: Dizer que ele não sente nada, que é mais do que se sabe. Prometer que o ruído vai parar. Aspirar para acalmar a família, que troca o alívio dela por dano nele. E deixar a pergunta sem resposta com um talvez — a filha vai passar a noite decidindo sozinha o que aquilo significa.

Ao técnico de enfermagem, no começo do plantão, sobre o que ele pode fazer sem telefonar

Palmiro, sobre o leito 11: eu escrevi linha para falta de ar, para dor, para o barulho da secreção e para inquietação, e cada uma tem o critério escrito para você não precisar me ligar. Se ele franzir a testa, gemer ou puxar o braço quando você mexe, isso conta como dor e você pode dar. Se ficar aquele barulho alto de longe, vira ele de lado primeiro e depois dá a medicação. Se ele ficar agitado, antes de qualquer coisa me chama para eu ver a bexiga, porque na maior parte das vezes é isso. E se ele parar de respirar, você não chama o carrinho: você me chama, chama a dona Dionisia para dentro se ela estiver no corredor, e fica com elas. Está escrito na evolução de agora, com o horário.

Não diga: Deixar tudo como se necessário sem critério, que devolve a decisão para ele às quatro da manhã. Combinar de boca sem escrever, porque quem entra às sete não estava nessa conversa. E dizer apenas que é paciente de conforto, que não informa nada sobre o que fazer.

Vocês pararam de medir a pressão dele — a família notando a suspensão

A senhora reparou certo, e foi uma decisão minha, não foi esquecimento. A gente parou de medir a pressão de duas em duas horas e parou a picada no dedo para ver o açúcar. O motivo é este: o número não muda mais nada que a gente faria por ele, e cada medida dessas mexe com ele e às vezes acorda. O que a gente continua fazendo é olhar ele por inteiro a cada hora, cuidar da boca, virar de lado quando ficar desconfortável, e tratar na hora qualquer sinal de dor ou de falta de ar. A temperatura eu mandei continuar, porque febre incomoda e essa a gente trata. Se em algum momento a senhora quiser que a gente volte a medir, me diz — tem gente que se sente melhor vendo o número, e isso também conta.

Não diga: Suspender e não avisar, que é a origem da desconfiança. Justificar por protocolo em vez de pelo paciente. E tratar o pedido de voltar a medir como ignorância da família: para muita gente a medida é a prova visível de que ainda estão cuidando, e essa necessidade é legítima.

Ao plantonista, por telefone, às cinco da manhã

Doutor, é do leito 11, senhor Alcino, insuficiência cardíaca avançada, décimo primeiro dia. Ele mudou desde a meia-noite: sonolência que não rompe, respiração irregular com ruído alto de secreção, extremidades frias até o punho, bexiga cheia que eu já aliviei. Tem decisão de quinta-feira registrada, de conforto e sem manobras, conversada com a filha. Eu já lateralizei, fiz cuidado de boca e conversei com ela agora. Falta o principal: a prescrição não tem linha nenhuma para sintoma e ele não engole mais, e o acesso infiltrou ontem. Minha pergunta é fechada: eu prescrevo para dispneia e para secreção por via subcutânea e a enfermagem punciona agora, e o senhor assina a receita do opioide — ou o senhor prefere subir para ver antes?

Não diga: Reabrir por telefone, de madrugada, a decisão de limitação já registrada — o que se leva ao telefone é a execução. Pedir orientação genérica sem propor conduta. E deixar a pendência da receita para as sete, quando não haverá quem a assine nem farmácia que a atenda.

No corredor, quando a filha volta correndo e você ainda está examinando

Dona Dionisia, entra, pode entrar. Eu estou examinando ele agora e vou levar um minutinho. A senhora pode ficar aqui do lado, se quiser, ou esperar aqui fora — o que for melhor para a senhora. Eu vou ouvir o coração e o pulmão, olhar os olhos dele e ver o pulso, e assim que eu terminar eu falo com a senhora. A doutora já está subindo.

Não diga: Barrar a família na porta sem necessidade. Examinar de costas para ela sem dizer o que está fazendo, que transforma um minuto em silêncio insuportável. Dar a notícia no meio do exame ou com meia certeza — a comunicação da morte tem forma própria e é do capítulo da posição 1, e ela vem depois do exame terminado, não durante.

Depois, no quarto, quando já foi dito

A senhora fica o tempo que precisar com ele. Não tem pressa nenhuma, e ninguém vai entrar aqui agora — eu já desliguei tudo e deixei ele arrumado. Se a senhora quiser ficar sozinha, eu fecho a porta e volto daqui a vinte minutos. Se preferir que eu fique, eu fico. Tem alguém que a senhora queira chamar? E tem alguma coisa da igreja dele, ou da senhora, que a gente precise providenciar agora? Depois, quando a senhora estiver pronta, eu vou precisar explicar duas ou três coisas práticas sobre os documentos — mas isso pode esperar, e a gente vê quem da família é melhor para ouvir essa parte.

Não diga: Falar de documentos, funerária ou liberação do corpo enquanto a família ainda está ao lado do corpo — as orientações práticas existem, são do capítulo Declaração de óbito e atestados, e têm hora. Dizer que ele está descansando ou que não sofreu, que é consolo inventado. Dar prazo para a saída do corpo. E prometer que agora acabou o sofrimento dela, que é a única coisa que ninguém pode prometer.

12

Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Espaçar ou manter a verificação de sinais vitais no paciente em processo ativo de morte

Espaçar ou suspender. O argumento está no Manual de Cuidados Paliativos do Ministério da Saúde com o Hospital Sírio-Libanês, 2ª edição, de 2023, que registra que a verificação de sinais vitais nessa fase pode ser supérflua, assim como a do peso corporal e a da glicemia capilar, porque valores fora do normal geram sofrimento e estresse desnecessários na família. Some-se o custo direto sobre o paciente — manguito, punção de dedo, despertar — e o risco de que um número lido fora de contexto no plantão seguinte dispare uma conduta que ninguém queria.

Manual de Cuidados Paliativos, Ministério da Saúde e Hospital Sírio-Libanês, 2ª edição, 2023, capítulo sobre o processo ativo de morte — a passagem que diz que a verificação de sinais vitais nessa fase pode ser supérflua.

Manter, ao menos em alguma frequência. O argumento está no mesmo parágrafo do mesmo manual, que diz em seguida que deixar de realizar tais aferições também pode ser angustiante para a família, que pode enxergar a situação como omissão de cuidado. Para parte das famílias, a medida é a prova visível de que a equipe não desistiu, e retirá-la produz um dano relacional que nenhum ganho de conforto compensa. O manual não decide entre as duas: manda alinhar a frequência com o entendimento e a expectativa da família.

O mesmo parágrafo do mesmo manual, que registra em seguida que deixar de realizar tais aferições também pode ser angustiante para a família, e manda alinhar a frequência com o entendimento e a expectativa dela.

Como decidir

Decida por medida, e não em bloco, e decida com quem está no quarto. Individualizar glicemia e tratamento para evitar hipoglicemia sintomática e hiperglicemia com sofrimento; considerar tipo de diabetes, insulina e ingestão, sem suspensão automática de toda monitorização. O que não aciona nada e cobra desconforto sai; a temperatura em geral fica, porque febre incomoda e incomodar é indicação de tratar. Depois, e este é o passo que decide de verdade, pergunte à família se ela quer continuar vendo algum número, e respeite a resposta: se ela quiser, mantenha um, o menos invasivo, e diga que está mantendo por causa dela. E escreva a razão de cada suspensão ao lado da linha, para que ninguém a reinstitua por inércia às sete da manhã.

O antissecretor que não está no elenco nacional: usar o que o hospital padronizou fora da lista, ou não tratar por fármaco

Tratar, com o que houver. A literatura brasileira de cuidados paliativos indica butilbrometo de escopolamina por via parenteral para a respiração ruidosa e cita o colírio de atropina a 1% por via sublingual como alternativa, e muitos hospitais padronizam a escopolamina por conta própria. Quem sustenta esta posição argumenta que a ausência do item na lista nacional é uma lacuna de política, não uma contraindicação clínica, e que deixar de tratar por causa dela transfere ao paciente e à família o custo de uma falha administrativa.

Manual de Cuidados Paliativos, Ministério da Saúde e Hospital Sírio-Libanês, 2ª edição, 2023, que indica o butilbrometo de escopolamina por via parenteral e cita o colírio de atropina a 1% por via sublingual — e ele próprio registra que nenhum dos dois consta do elenco nacional.

Não tratar por fármaco, e investir no que sobra. Quem sustenta esta posição lembra que o benefício do antissecretor para o próprio paciente é discutível — o manual do Ministério registra que é discutível o impacto da respiração ruidosa sobre o sofrimento de um paciente já em estado comatoso —, que as medidas não farmacológicas têm efeito real e imediato, e que introduzir um fármaco fora do elenco cria dependência de um insumo que pode faltar no próximo plantão, no próximo hospital e na alta para o domicílio.

Relação Nacional de Medicamentos Essenciais 2024, conferida para este capítulo por quatro grafias, mais o mesmo manual na passagem em que considera discutível o impacto da respiração ruidosa sobre o sofrimento do paciente já em estado comatoso.

Como decidir

Comece pelo que não depende de farmácia, sempre, porque é o que funciona em qualquer hospital e é o que a literatura nacional manda fazer primeiro: decúbito lateral, avaliação da cavidade oral, redução do volume infundido e da dieta, e explicação do ruído a quem está ouvindo. Reavalie depois disso, e reavalie olhando o paciente: se houver sinal de desconforto nele — testa franzida, inquietação, esforço —, o alvo é dele e o fármaco entra se o hospital o tiver. Se o desconforto for da sala, diga isso com franqueza, porque a angústia de quem assiste é motivo legítimo para agir e merece ser nomeada em vez de disfarçada de indicação clínica. E se você prescrever um item fora do elenco nacional, registre-o como tal e avise a família e a equipe, para que a falta dele na semana que vem não seja lida como piora ou como descuido.

Quanto tempo se observa antes de constatar, e o que se escreve — na ausência de qualquer régua brasileira

Um período de observação contínuo e declarado, escrito no registro. Quem sustenta esta posição argumenta que, não havendo norma nacional, o que protege o paciente, a família e quem assina é a explicitação do método: registrar por quanto tempo se observou a ausência de movimentos respiratórios e de sons cardíacos torna o ato verificável por quem ler depois, e evita a constatação apressada em cima de uma bradicardia extrema ou de uma respiração agônica muito espaçada.

Posição sem documento brasileiro que a sustente: é prática de serviço, e este capítulo a registra como tal. A conferência que a torna necessária está nas notas de critérios — nenhuma norma nacional de assistência hospitalar descreve o exame nem fixa tempo.

O exame completo, sem fixar tempo no papel. Quem sustenta esta posição argumenta que registrar um número que nenhuma norma brasileira estabelece cria uma régua artificial que passa a ser cobrada, e que o que importa é a completude do exame — ausência de resposta, de respiração, de pulso central, de sons à ausculta, pupilas fixas — e não a cronometragem. Acrescenta que, no paciente em processo ativo de morte já acompanhado, o contexto clínico torna o achado inequívoco de um modo que não se transporta para o corpo encontrado sem história.

Posição também sem documento brasileiro que a sustente. O que existe em norma é o protocolo PE26 dos Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, que trata de sinais cadavéricos em corpo encontrado e não fixa tempo de ausculta para o óbito assistido.

Como decidir

Constate o que é constatável: nenhuma norma brasileira de assistência hospitalar descreve este exame nem fixa tempo, e a conferência dessa ausência está nas notas do bloco de critérios — de modo que, decida o que decidir, você não está descumprindo nada. O que decide na prática é a finalidade do registro, e ela é dupla. Diante do plantão seguinte e de qualquer leitura futura, o que vale é o registro dos achados um a um, com a hora exata, e nunca a palavra constatado sozinha. Diante da família que está no quarto, o que vale é não ter pressa: um exame feito com tempo, em silêncio, é lido como respeito, e um exame de quinze segundos é lido como descaso, independentemente de estar clinicamente correto. Se o seu serviço tiver rotina própria sobre isso, siga a rotina do serviço e registre que a seguiu; se não tiver, esta é uma boa coisa para levar à discussão de equipe, e não para resolver sozinho às sete da manhã.

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O raciocínio, em voz alta

Domingo, 2h10. Enfermaria de clínica médica de dezoito leitos. O leito 4 é do senhor Hipolito Alviano, 71 anos, doença pulmonar avançada, oxigenodependente em casa, sétima internação em dois anos e décimo quarto dia desta. Há na evolução de sexta-feira uma decisão registrada de conforto e de não intubar, conversada com a esposa. A prescrição do dia tem broncodilatador inalatório de 6 em 6 horas, corticoide endovenoso, dieta branda, soro de manutenção de 1.500 mL em 24 horas e sinais vitais de 4 em 4 horas. A técnica chama porque ele está inquieto, tentando tirar a máscara, e a esposa, que está no quarto, começou a chorar. Você é o interno de plantão.

  1. Antes de entrar: três perguntas no corredor

    Desde que horas está assim, o que exatamente mudou, e a esposa está sozinha. As respostas — desde a meia-noite, ficou inquieto e não fala mais frases inteiras, e ela está sozinha desde a tarde — já reposicionam o problema: não é uma exacerbação a tratar com o esquema de sempre, é uma mudança de fase a reconhecer. Peça a folha da enfermagem e localize a diurese das últimas doze horas e o que foi realmente administrado.

  2. No leito: examinar, e fazer o que não depende da farmácia

    Ele está inquieto mas não taquipneico ao extremo, com sonolência entre os momentos de agitação, extremidades frias, boca muito seca com a máscara ressecando o lábio, e hipogástrio palpável. Nem toda inquietação em doença pulmonar é hipoxemia. Antes de qualquer coisa: eleve a cabeceira, umedeça a boca e os lábios, e resolva a bexiga. Aqui está a resposta do caso — o alívio veio de sonda vesical de alívio e cuidado de boca, e não de aumento de oxigênio, porque a causa da agitação era retenção urinária e mucosa ressecada. Titular oxigênio pelo conforto e não por meta de saturação é regra do capítulo O que continua quando se decide parar, e vale aqui.

  3. A esposa: reconhecer em voz alta, e nomear o que continua

    Sente, diga o que viu e diga que o corpo dele está entrando na fase final, sem dar prazo. Explique que a inquietação tinha causa e que a causa foi resolvida — isso muda inteiramente a leitura dela do que acabou de acontecer. Nomeie o que continua: remédio para falta de ar, cuidado de boca de duas em duas horas, alguém olhando de hora em hora. Pergunte se ela quer chamar alguém, se quer ser avisada caso saia, e se há rito a providenciar. Anote as respostas onde a enfermagem da madrugada consulta.

  4. A via, antes da linha

    Ele não engole comprimido há dois dias e o acesso está no antebraço, funcionante. Confira na folha da enfermagem e não na prescrição. Pergunte à enfermagem se há dispositivo e autorização para punção subcutânea na unidade, porque o acesso venoso vai sair de cena e você precisa saber disso antes, não depois. Registre a via escolhida e por que a anterior saiu, quando sair.

  5. A prescrição, e o que sai dela

    Uma linha por sintoma presente, com critério observável escrito, mais a antecipada para o que ainda não apareceu — e a escolha do fármaco e a dose vêm de Cuidados paliativos e dor oncológica, que este capítulo consulta em vez de repetir. Saem, com o motivo escrito ao lado de cada retirada: o broncodilatador de horário fixo que ele não inala mais, o corticoide sem alvo neste momento, e o volume de soro de manutenção, que nesta fase alimenta congestão e secreção. Reduzir volume é decisão clínica com divergência aberta, tratada no capítulo de Geriatria: leia lá antes de decidir quanto, e explique a mudança à esposa antes que ela repare.

  6. As medidas: o que se para de aferir, dito em voz alta

    Espace ou suspenda o que não aciona conduta e escreva o motivo ao lado; mantenha a temperatura. Depois diga à esposa, com uma frase, que se parou de medir tal coisa porque o número não muda mais nada, e nomeie o que continua. Se ela pedir que se mantenha alguma aferição, mantenha a menos invasiva e diga que está mantendo por ela — a necessidade de ver um número é legítima e está reconhecida na divergência deste capítulo.

  7. 5h50: a constatação

    Ele morre com a esposa na cadeira ao lado. Entre sem correr e sem demorar, diga o que vai fazer antes de fazer, e examine com tempo: ausência de resposta, ausência de movimentos respiratórios observada continuamente, ausência de pulso central, ausculta cardíaca e pulmonar sem sons, pupilas fixas. Registre os achados um a um com a hora exata — não a palavra constatado sozinha. A comunicação da morte tem forma própria e é do capítulo Comunicação de más notícias, e vem depois do exame terminado. Confira a história em busca de causa externa antes de dizer qualquer coisa sobre documentos; aqui não há, e o óbito é do hospital, com a competência e o preenchimento tratados em Declaração de óbito e atestados.

  8. Os vinte minutos seguintes, que são a parte que ela vai lembrar

    Desligue alarmes, retire o que não precisa ficar, tire a máscara, ajeite o leito e a roupa, feche os olhos, abaixe a luz, feche a porta. Ofereça tempo sem prazo e diga em quanto tempo você volta — e volte. Pergunte se há alguém a chamar e se há rito a cumprir, e identifique quem na família vai receber as orientações práticas, que ficam para depois. Antes de sair do plantão, escreva a evolução final: o reconhecimento da fase, o que foi tratado e com que efeito, o que foi conversado e com quem, a hora do óbito e o registro da comunicação.

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Faça você

Sábado, 23h40. O leito 6 é de dona Escolastica Sapucaia, 84 anos, com demência avançada e pneumonia aspirativa, internada há oito dias, acamada e sem aceitar dieta há quatro. Não há na evolução nenhuma decisão registrada sobre limitação terapêutica — a equipe assistente é de outro hospital do consórcio e só volta na segunda. Nas últimas seis horas ela ficou sonolenta, com respiração irregular, ruído alto de secreção e extremidades frias. A prescrição tem antibiótico endovenoso, dieta por sonda em volume pleno, soro de manutenção, profilaxia de trombose, glicemia capilar de 6 em 6 horas e sinais vitais de 4 em 4 horas. A filha chegou agora, avisada pela vizinha que a visitava, e pergunta se a mãe vai para a terapia intensiva. Você é o interno e o plantonista está no centro cirúrgico.

  1. 1. Separe o que depende de decisão do que não depende

    Escreva, para você, duas listas. Na primeira, o que exige decisão registrada com titular e fundamento — intubar, dialisar, transferir para terapia intensiva, iniciar amina. Na segunda, o que você pode e deve fazer agora sem autorização de ninguém. Qual das duas listas comanda a próxima hora, e por quê?

  2. 2. Faça o reconhecimento e escreva-o

    Quais cinco achados você vai buscar no leito para sustentar, no papel, que ela está nas últimas horas ou dias, e onde você encontra dois deles sem tocar na paciente? E o que exatamente você escreve na evolução, para que a equipe de segunda-feira e o plantão das sete encontrem a leitura já feita?

  3. 3. Resolva o que trava a execução

    Ela não engole e a prescrição inteira é endovenosa e por sonda. Quais três conferências você faz antes de escrever qualquer linha nova, e a qual delas você precisa da enfermagem para responder? Qual delas, se ficar para as quatro da manhã, não terá mais solução?

  4. 4. Enfrente a pergunta da terapia intensiva

    A filha pergunta se a mãe vai para a UTI. Você não tem decisão registrada, não conhece a paciente e o plantonista está em cirurgia. O que você responde agora, o que você não responde, e o que você promete? Que parte dessa conversa é sua e qual é do médico que vai assumir a decisão?

  5. 5. Decida sobre a dieta e o volume

    A dieta por sonda em volume pleno e o soro de manutenção estão entre as causas nomeadas do ruído de secreção. O que você faz com eles nesta noite, e o que você não faz sozinho? Como isso se registra e como se explica à filha para não ser lido como retirada de alimento?

  6. 6. Prepare a madrugada

    São 23h40 e a farmácia fecha à meia-noite. Quais duas coisas você resolve nos próximos vinte minutos que, resolvidas agora, mudam completamente as próximas seis horas? E que informação você deixa por escrito para o técnico, de forma que ele não precise telefonar a cada sintoma?

Ver como fecharíamos

1. A segunda lista comanda a próxima hora. Limitação terapêutica é decisão com titular, fundamento e registro próprios — matéria do capítulo O que continua quando se decide parar — e não se toma às onze e meia da noite por quem não conhece a paciente. Aliviar sintoma não depende dela e nunca dependeu: é conduta médica ordinária. 2. Nível de consciência ao longo do dia e diurese das últimas doze horas você encontra na folha da enfermagem sem tocar nela; deglutição testada com um gole, perfusão pela mão no antebraço e no joelho, e padrão respiratório observado por um minuto inteiro, no leito. Na evolução vai a frase de que ela parece estar nas últimas horas ou dias, os achados que a sustentam e a hora — sem essa frase, segunda-feira recomeça do zero. 3. As três conferências são: a via, com deglutição testada e acesso conferido na folha da enfermagem; o elenco daquele hospital nesta hora; e a existência de dispositivo e autorização para punção subcutânea, que é a que exige a enfermagem para responder e a única que, descoberta às quatro da manhã, não tem mais solução. 4. Você responde o que é seu: o que está acontecendo com a mãe dela agora, o que está sendo feito, e que a decisão sobre terapia intensiva será tomada pelo médico com quem você já está falando, com ela participando da conversa. Você não decide, não antecipa a decisão e não promete vaga nem transferência. E você não responde quanto tempo — isso é do capítulo O que se diz quando não se sabe. 5. Você não retira a dieta e o soro por conta própria como decisão de fim de vida, mas você pode e deve ajustar o volume que está produzindo sintoma agora, registrando o motivo clínico e comunicando ao plantonista — a decisão sobre hidratação e nutrição artificiais no fim de vida é divergência aberta e está tratada no capítulo Cuidados paliativos e dor oncológica. À filha, a explicação é sobre sintoma e não sobre alimento: o volume está piorando a secreção e a respiração dela, e por isso foi reduzido; ninguém está deixando de alimentá-la. 6. As duas coisas são a receita de controle especial, se houver opioide na conduta, e a punção da via subcutânea — as duas dependem de terceiros que não estarão disponíveis às quatro. Para o técnico fica escrito, na evolução com horário, o critério observável de cada linha e a instrução de que, em caso de parada, ele chama você e chama a filha para dentro, e não o carrinho.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Temperatura também pode ser aferida conforme sintomas, e glicemia pode continuar indicada para prevenir sofrimento. Considerar diabetes tipo 1, insulina, ingestão e risco de hipoglicemia; não suspender tudo por uma ordem genérica de conforto.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Sem consultar o texto, resolva a cena de abertura: Reconhecer provável fase final, avaliar causas reversíveis de sofrimento e antecipar cuidado proporcional. Descreva os achados que sustentam a decisão, um erro evitável e o plano para mudança do quadro; depois compare com o caso resolvido.

Em 30 dias

Retome um caso real acompanhado sob supervisão ou simule o caso do capítulo. Explique o que mudou na sua decisão, confira se o próximo passo ocorreu e identifique uma melhoria concreta. Não use dados identificáveis fora do ambiente autorizado. Competência a demonstrar: Reconhecer provável fase final, avaliar causas reversíveis de sofrimento e antecipar cuidado proporcional.

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Agora atenda

Agora atenda: quatro e vinte e dois da manhã de sábado, enfermaria de dezoito leitos, um paciente que mudou desde a meia-noite, uma decisão de conforto escrita há dois dias que nunca virou prescrição, e uma filha sentada na beira da cama há quarenta minutos sem falar nada.

Cuidados de fim de vida na enfermaria – Ninguém disse que era hoje — Internato | OsceLabs