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O que se diz quando não se sabe
Conversa sobre prognóstico e incerteza
A pergunta chega no corredor e pede um número que não existe. O capítulo é sobre o que se diz no lugar dele: a faixa de tempo, a diferença entre o prognóstico da doença e o deste paciente, a recomendação quando pedem "e se fosse seu pai", o que fazer quando a equipe não concorda — e o que se escreve depois, que é o que faz a decisão sobreviver à troca de plantão.
Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.217, de 27 de setembro de 2018 — aprova o Código de Ética Médica (publicada no D.O.U. de 1º de novembro de 2018, Seção I, p. 179), com as alterações das Resoluções CFM nº 2.222/2018 e nº 2.226/2019.
Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 1.805, de 9 de novembro de 2006 — limitação ou suspensão de procedimentos e tratamentos que prolonguem a vida do doente em fase terminal de enfermidade grave e incurável (publicada no D.O.U. de 28 de novembro de 2006, Seção I, p. 169).
Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.232, de 17 de julho de 2019 — normas éticas para a recusa terapêutica por pacientes e objeção de consciência na relação médico-paciente (publicada no D.O.U. de 16 de setembro de 2019, Seção I, p. 113-4).
Conselho Federal de Medicina. Recomendação CFM nº 1/2016, de 21 de janeiro de 2016 — processo de obtenção de consentimento livre e esclarecido na assistência médica.
D'Alessandro MP, Barbosa LC, Anagusko SS, Maiello APMV, Conrado CM, Pires CT, Forte DN (eds.). Manual de Cuidados Paliativos. 2ª ed. revisada e ampliada. São Paulo: Hospital Sírio-Libanês; Ministério da Saúde (PROADI-SUS); CONASS, 2023. 424 p. ISBN 978-65-85051-58-3.
Brasil. Ministério da Saúde. Política Nacional de Cuidados Paliativos no SUS — Anexo XLIV da Portaria de Consolidação GM/MS nº 2, de 28 de setembro de 2017, instituído pela Portaria GM/MS nº 3.681, de 7 de maio de 2024, e alterado pela Portaria GM/MS nº 10.181, de 26 de janeiro de 2026; tabela de procedimentos e cadastro atualizados pela Portaria SAES/MS nº 4.288, de 22 de junho de 2026.
Reino Unido. Department for Work and Pensions. Formulário DS1500 (relatório médico para acesso acelerado a benefícios por doença terminal), substituído pelo formulário SR1 em julho de 2025.
MS/HSL. Manual de cuidados paliativos, 2ª ed. — comunicação, sintomas e últimas horas
Responda antes de ler
A filha de um paciente internado procura você indignada: na terça o especialista disse que havia tratamento a tentar, e ontem à noite o plantonista disse que o quadro era terminal. Ela quer saber quem está certo. Qual é a sequência correta de conduta?
O paciente que você vai ver
São sete e doze. A ala fica no segundo andar de um hospital municipal que atende quatro cidades, tem dezessete leitos e uma sala de prescrição que quase ninguém usa para prescrever. Você é o interno escalado ali, e a visita sai do posto daqui a dezoito minutos. O leito 9 é do senhor Osvandir Golfeto, 71 anos, ex-torneiro mecânico, doença pulmonar obstrutiva crônica muito grave, oxigênio domiciliar há dois anos, segundo dia desta internação e terceira internação em seis meses. Ontem à noite ele passou quatro horas em ventilação não invasiva; hoje de manhã está sentado, comendo pouco, respondendo o que se pergunta.
Você está indo buscar a folha de exames quando a filha dele, a Neuci, te intercepta no corredor, entre o carrinho de rouparia e a porta do quarto. Ela não entra na enfermaria: espera do lado de fora, de propósito. E faz a pergunta com a voz baixa, olhando para a porta fechada, do jeito de quem já decidiu que não quer que o pai ouça.
"Doutor, quanto tempo ele tem?"
Você não tem o número. Ninguém tem. E, antes disso, você tem um problema anterior ao número: essa conversa está acontecendo no lugar errado, com a pessoa que talvez não seja quem decide, sobre um paciente que está lúcido a três metros dali e ainda não disse se quer saber. Enquanto você pensa em como sair disso, ela emenda a segunda pergunta, que é a mais difícil das duas: "se fosse seu pai, o senhor internava de novo?"
Repare no que está em jogo antes de qualquer conteúdo clínico. Se você responder ali, três coisas acontecem de uma vez: o acompanhante do leito ao lado fica sabendo do prognóstico do senhor Osvandir, a filha passa a saber antes do pai, e a conversa que você tiver com ele depois vira encenação — porque ele vai perceber que alguma coisa foi resolvida pelas costas dele. Nenhuma dessas três é reparável no dia seguinte. E se você desconversar, também não escapa: a pessoa vai perguntar ao próximo jaleco que passar no corredor, e a próxima resposta não vai ser combinada com a sua.
Este capítulo é sobre o que se faz nesses trinta segundos e nas duas horas seguintes. Não é sobre ter o número — o número não existe, e a primeira parte do trabalho é entender por quê. É sobre dizer o que não se sabe sem mentir e sem abandonar: com qual vocabulário, para quem, depois de quais perguntas, com a equipe alinhada antes e com o que fica escrito no prontuário depois. A parte escrita é a que faz a conversa sobreviver à troca de plantão, e é por onde este capítulo termina.
Quem adoece disso
A pergunta do corredor não tem estatística nacional. O que existe são as réguas, e vale saber quais são e onde elas param. A obrigação de informar o prognóstico está no Código de Ética Médica em vigor desde 30 de abril de 2019 — a Resolução CFM nº 2.217/2018 veda, no art. 34, deixar de informar ao paciente o diagnóstico, o prognóstico, os riscos e os objetivos do tratamento. O art. 35 do mesmo Código faz o outro lado: veda exagerar a gravidade do diagnóstico ou do prognóstico. As duas proibições convivem no mesmo capítulo e desenham exatamente o corredor estreito por onde esta conversa passa — não calar, não inflar.
Sobre como conduzir a conversa, a régua brasileira é mais rala do que se imagina. O documento federal que orienta a prática é o Manual de Cuidados Paliativos, 2ª edição, publicado em 2023 pelo Hospital Sírio-Libanês com o Ministério da Saúde e o CONASS dentro do PROADI-SUS, e ele dedica um capítulo inteiro à avaliação de prognóstico — o quinto. Esse capítulo entrega instrumentos de estimativa; não entrega um roteiro de conversa. Protocolo com sigla para dar notícia difícil, o Brasil tem um único registro normativo: a Recomendação CFM nº 1/2016 cita o protocolo SPIKES, e o cita num lugar muito específico — dentro do item que trata de omitir informação por risco de dano psicológico grave, como técnica a usar antes de decidir omitir. Para a conversa de prognóstico em si, nenhum documento brasileiro nomeia protocolo.
O Manual é franco sobre a origem do problema. Ele registra que o treinamento formal na área da saúde costuma focar em diagnóstico e terapêutica, deixando a discussão de prognóstico "para a subjetividade e avaliação clínica de cada situação" — e que, sem instrumento, os profissionais desenvolvem atalhos mentais que produzem viés. O viés tem direção conhecida: segundo o mesmo capítulo, os médicos tendem a superestimar o prognóstico dos seus pacientes, e isso é pior no médico responsável pelo caso, provavelmente por causa do vínculo. Quem mais conhece o paciente é quem mais erra para o lado otimista.
Há uma frase no capítulo 5 do Manual que muda a conduta e quase nunca é lida: as ferramentas de estimativa são de base populacional, servem para embasar o raciocínio do profissional e "não devem ser usadas como informações para comunicação com pacientes/familiares". Ou seja: o escore entra na sua cabeça e não sai na sua boca. Um interno que calcula um índice à beira do leito e repassa o resultado para a filha no corredor está fazendo o oposto do que o documento federal recomenda, com a aparência de rigor.
E há a contrapartida, no mesmo parágrafo: a preocupação com a incerteza não deve impedir a discussão. O Manual afirma que incluir a incerteza no diálogo com pacientes e familiares aumenta a satisfação dos envolvidos. Isso desmonta a saída preguiçosa do "não dá para saber" dito como ponto final. Não dá para saber é o começo da frase, não o fim dela.
Vale dizer com todas as letras o que não existe, porque isso muda o que se espera de um capítulo como este. Não há, em documento brasileiro em uso, um roteiro nomeado para a conversa de prognóstico. Não há sigla nacional para a tentativa terapêutica com prazo definido, embora a prática exista e tenha base no Código de Ética. E não há norma que diga qual faixa de tempo se usa em qual situação. O que existe é um dever de informar, um dever de não exagerar, um documento federal com instrumentos de estimativa e uma proibição expressa de usar esses instrumentos como frase para a família. O resto — a ordem da conversa, o vocabulário, o registro — se monta a partir daí, e é o que este capítulo faz.
Do lado da política pública, o Brasil passou a ter uma Política Nacional de Cuidados Paliativos no SUS instituída pela Portaria GM/MS nº 3.681, de 7 de maio de 2024, que a inseriu como Anexo XLIV da Portaria de Consolidação GM/MS nº 2/2017. Esse anexo foi alterado pela Portaria GM/MS nº 10.181, de 26 de janeiro de 2026 — quem citar a política pelo texto de 2024 está citando uma redação que já mudou. A política organiza serviço, equipe e financiamento; ela não é a régua da frase que você vai dizer no corredor. Essa régua continua sendo o Código de Ética e o Manual.
Por que acontece o que acontece
O número que a família pede tem uma forma matemática, e entender essa forma resolve metade do capítulo. Quase toda estimativa de sobrevida publicada é uma mediana: o tempo que divide o grupo estudado em duas metades iguais. O Palliative Prognostic Index, reproduzido no capítulo 5 do Manual, é o exemplo mais didático — pontuação acima de 4,0 corresponde a uma sobrevida mediana estimada de 12 dias. Diga "doze dias" para uma família e você terá dito uma frase que, por construção do próprio índice, está errada para metade dos pacientes daquele grupo: metade vive mais. Uma mediana descreve um grupo; ela não é uma previsão sobre uma pessoa, e nenhuma quantidade de boa intenção a transforma nisso.
O segundo problema é que o grupo do estudo não é o seu paciente. As tabelas do capítulo 5 do Manual vêm de coortes com critérios de inclusão, época de tratamento e perfil de comorbidade próprios. O próprio Manual avisa: o paciente em avaliação não necessariamente tem as mesmas características da população estudada, de modo que o resultado apoia o raciocínio clínico e não é verdade absoluta em termos de tempo de vida. É a diferença entre o prognóstico da doença, que é o que a literatura mede, e o prognóstico deste paciente, que é o que a filha está perguntando. São duas perguntas diferentes e só a primeira tem resposta publicada.
O terceiro problema é a fragilidade aritmética dos instrumentos. Ainda no capítulo 5, a tabela de avaliação prognóstica em onco-hematologia atribui um ponto a cada um de seis achados e converte o total em sobrevida estimada: 1 ponto corresponde a 440 dias, 2 ou 3 pontos a 63 dias. Um único item binário — uma albumina de 2,9 g/dL em vez de 3,1 g/dL, uma transfusão que aconteceu no mês passado — faz a estimativa saltar de 440 para 63 dias, uma variação de sete vezes. Um número que se move sete vezes com um exame de rotina não suporta o peso de uma frase dita a uma família.
Some a isso o viés que o próprio Manual descreve, e o quadro fica completo: instrumento populacional frágil, aplicado a um indivíduo que não é a população, por um profissional que tende a superestimar, e mais ainda quando é o médico do caso. A correção que o Manual propõe tem nome — ancoragem — e consiste em amarrar a impressão clínica a uma escala validada em vez de confiar na intuição sozinha, e em compartilhar a avaliação com outros colegas antes de fechar. Ancoragem serve para melhorar a sua estimativa interna. Ela não produz um número para dizer em voz alta.
Se o número está fora, o que sobra? Sobra a forma do declínio, que é uma informação clínica de verdade e é comunicável. A ferramenta de triagem que o Manual reproduz organiza os pacientes em três trajetórias — câncer, falências orgânicas, e fragilidade ou demência com multimorbidade — e cada uma tem um desenho diferente no tempo. O câncer avançado costuma manter funcionalidade e depois cair depressa; a falência de órgão faz degraus, com quedas por descompensação e recuperações que nunca voltam ao patamar anterior; a fragilidade desce devagar e sem degrau. Dizer a forma da curva informa mais do que dizer um ponto sobre ela, e a forma da curva é justamente o que a família precisa para se organizar.
É por isso que a unidade de tempo funciona onde o número falha. Falar em horas a dias, dias a semanas, semanas a meses ou meses a anos não é um eufemismo nem uma covardia: é uma faixa cujo tamanho é proporcional à incerteza real, e é a linguagem que a própria ferramenta de triagem usa quando pergunta se o profissional se surpreenderia com a morte do paciente no próximo ano, nos próximos meses, semanas ou dias. A unidade carrega a margem dentro dela. Quem ouve "semanas a meses" entende que pode ser três semanas e pode ser cinco meses, e organiza a vida em cima disso — a viagem do filho, o cartório, a conversa com o neto.
Há um motivo prático para nunca dar o número mesmo quando insistem, e ele não é jurídico: é como a memória funciona. Numa conversa carregada de emoção, quase tudo se perde e o algarismo fica. Você pode ter cercado o número com cinco frases de ressalva; a família sai do corredor com uma data no calendário e passa a medir a sua competência e a honestidade da equipe por ela. Se o paciente morre antes, a equipe apressou; se morre depois, a equipe mentiu. O número não é apenas impreciso — ele é o único pedaço da conversa que sobrevive, e ele sobrevive sem as ressalvas.
E há o oposto, que é o erro simétrico e mais comum entre internos: trocar a incerteza por silêncio. "Não tem como saber" dito como resposta final é tecnicamente verdadeiro e clinicamente um abandono — devolve a pessoa ao corredor sem nada com que decidir e ensina que perguntar é inútil. A saída não é escolher entre mentir e calar. É dizer três coisas que você realmente sabe: em que faixa de tempo esta doença costuma se mover neste estado funcional, o que faria essa faixa encurtar ou alongar, e o que a equipe vai fazer nos próximos dias independentemente da resposta. As três são verdadeiras, as três são úteis, e nenhuma delas é um número.

Como se apresenta de verdade
A pergunta sobre o futuro chega em formatos diferentes, e cada formato pede uma resposta diferente. Tratar todos como "a pergunta do prognóstico" é o que faz o interno responder tempo quando perguntaram função, e responder estatística quando pediram recomendação. As seis cenas abaixo cobrem quase tudo o que aparece numa enfermaria.
Competência ao final deste capítulo. Explicar incerteza e pactuar tentativa terapêutica com metas e reavaliação, respeitando preferências de informação. No internato, demonstre o raciocínio e a execução supervisionada: o que verificar, o que fazer agora, quando chamar ajuda e como garantir continuidade.
"Quanto tempo ele tem?" — a pergunta que pede número e quer outra coisa
É a forma mais frequente e a mais mal interpretada. Quase ninguém quer o algarismo pelo algarismo. Por trás dele há sempre uma pergunta operacional que a pessoa não sabe formular: dá tempo de a filha vir de outro estado, dá para adiar a cirurgia do joelho da esposa, precisa avisar o irmão que não fala com o pai há doze anos, dá para esperar o aniversário em novembro. A resposta útil não é um número: é a faixa mais a pergunta de volta que descobre para que serve o tempo.
A pergunta de volta é curta e não soa evasiva quando vem depois de uma faixa honesta: "o senhor está me perguntando isso por causa de alguma coisa que precisa ser decidida?". Em quatro de cinco vezes, a resposta revela um problema concreto e resolvível — e o que a pessoa precisava era saber se dava tempo, não quanto tempo. Quando a resposta é "não, eu só queria saber", também está bom: aí o pedido é de preparo emocional, e o que ajuda é a forma da curva, não a data.
Uma advertência sobre quem responde primeiro. Se o paciente está lúcido e a pergunta veio de um familiar, essa conversa tem uma ordem obrigatória, e ela não é negociável por conveniência: o dono da informação responde antes. O art. 34 do Código de Ética coloca o dever de informar diante do paciente; o art. 73 veda revelar a terceiros fato conhecido em razão da profissão, salvo motivo justo, dever legal ou consentimento por escrito do paciente. O familiar que pergunta no corredor não deixa de ter direito a apoio — mas o direito à informação clínica não é dele por parentesco.
"Ele vai melhorar?" — a pergunta sobre função, que quase nunca é sobre tempo
Esta é a pergunta que o interno mais confunde. Quem pergunta se vai melhorar não está pedindo sobrevida: está pedindo o patamar. Vai voltar a andar até o portão? Vai comer sozinho? Vai reconhecer os netos? Vai sair do oxigênio? Responder "o prognóstico é reservado" a essa pergunta é responder outra coisa, e a pessoa vai embora achando que você desviou.
A resposta se monta com dois dados que você tem sem pedir exame nenhum: qual era a funcionalidade antes desta internação e qual é agora. O capítulo 5 do Manual é explícito ao lembrar que, em pacientes idosos e com doenças crônicas avançadas, é difícil que depois de uma internação em terapia intensiva a funcionalidade fique melhor do que a prévia. Essa frase vale bem além da terapia intensiva e é o esqueleto da resposta: a régua da recuperação é o melhor dia dos últimos meses, não o melhor dia da vida.
Há uma armadilha específica nessa pergunta, e ela vem da própria literatura. Ao tratar de prognóstico no acidente vascular cerebral, o capítulo 5 do Manual faz uma ressalva que vale para qualquer doença: os estudos caracterizam "bom desfecho" como alta para casa e independência para o autocuidado, e objetivos mais complexos — voltar ao emprego anterior, manter a vida social — em geral nem são avaliados. Ou seja, o desfecho que a literatura chama de bom pode não ser nem de longe o que a família está perguntando. Quando alguém pergunta se o pai vai melhorar, quase sempre está perguntando sobre a segunda lista, a que ninguém mediu.
Então se diz o patamar, com honestidade sobre a margem: "o melhor cenário que eu consigo imaginar para o seu pai é ele voltar para o nível de dois meses atrás, quando ele ainda ia até a padaria com o oxigênio portátil. Não é voltar ao de dois anos atrás, e eu preciso que a senhora saiba disso antes de a gente decidir qualquer coisa". Isso é uma informação de prognóstico, não é um número, e é acionável.
"E se fosse seu pai?" — o pedido de recomendação disfarçado de pergunta pessoal
Essa pergunta costuma ser lida como uma armadilha e não é. Ela é o modo mais direto que uma pessoa leiga encontrou de pedir a única coisa que ela veio buscar: uma recomendação. A família está afogada em opções apresentadas como equivalentes — pode intubar ou não, pode tentar ou não, pode levar para casa ou não — e percebeu que o médico está entregando um cardápio quando ela precisa de um conselho.
Devolver a pergunta ("mas não é meu pai, é o seu") é tecnicamente correto e humanamente uma porta na cara. O caminho é aceitar o pedido pelo que ele é e dar a recomendação, sem transferir a decisão para a biografia da sua família: "eu não sei o que eu faria como filho, e o que eu penso como filho não deveria pesar aqui. Mas o senhor está me pedindo uma recomendação, e eu tenho uma. Pelo que eu vi nesses dois dias, eu recomendaria tentar a ventilação por mais quarenta e oito horas e combinar agora o que a gente faz se não melhorar."
Recomendar não é decidir pelo outro, e o Código de Ética não pede neutralidade: o Princípio Fundamental XXI diz que o médico aceitará as escolhas do paciente relativas aos procedimentos, desde que adequadas ao caso e cientificamente reconhecidas — aceitar escolhas pressupõe que houve escolha informada, e escolha informada em geral precisa de uma recomendação para reagir contra. A neutralidade radical, na prática, transfere o peso inteiro da decisão para quem tem menos informação.
"Já não dá para fazer mais nada?" — a confusão entre parar tratamento e parar cuidado
Quando a família formula assim, ela geralmente está repetindo uma frase que ouviu de alguém da equipe. É uma frase que não tem correspondência com nenhuma régua brasileira, e é útil saber disso com precisão para poder desmentir sem hesitar. O parágrafo único do art. 41 do Código de Ética diz que, nos casos de doença incurável e terminal, o médico deve oferecer todos os cuidados paliativos disponíveis sem empreender ações inúteis ou obstinadas. Ou seja: o Código só autoriza deixar de fazer uma coisa quando manda fazer outra no lugar.
A Resolução CFM nº 1.805/2006 diz a mesma coisa em dois artigos. O art. 1º permite limitar ou suspender procedimentos que prolonguem a vida do doente em fase terminal de enfermidade grave e incurável, respeitada a vontade da pessoa ou do representante legal. O art. 2º completa que o doente continuará a receber todos os cuidados necessários para aliviar os sintomas, assegurada a assistência integral e o conforto físico, psíquico, social e espiritual — inclusive o direito à alta hospitalar. Limitar tratamento é uma decisão; abandonar não é opção prevista em lugar nenhum.
Há ainda o caso em que tentar é que faz mal, e ele merece ser dito porque contraria a intuição da família e às vezes a da equipe. O capítulo 5 do Manual registra um estudo brasileiro em que a quimioterapia de urgência em pacientes com neoplasia de órgãos sólidos internados em terapia intensiva se associou a aumento de mortalidade — além do custo, o tratamento não entregou o que se propunha. Alinhar com a família que uma terapia pode piorar o paciente é descrito ali como dever da equipe, e não como pessimismo. Isso muda a forma da frase: não é "não adianta", é "isso tem chance de encurtar em vez de alongar, e é por isso que eu não recomendo".
A resposta, portanto, é uma correção de premissa seguida de uma lista concreta. "Tem muita coisa a fazer, e eu vou dizer o que é. O que a gente decidiu não fazer foi a intubação, porque ela não devolve o pulmão dele. O que a gente vai fazer é morfina para a falta de ar, oxigênio no conforto dele, sedativo se a angústia apertar de madrugada, e ele fica no quarto com a senhora podendo entrar fora do horário." Quatro itens concretos apagam a frase "não tem mais nada" melhor do que qualquer explicação conceitual.
O acompanhante no corredor, sem o paciente — a pergunta feita onde não pode ser respondida
O corredor é escolhido de propósito e por um bom motivo: a pessoa quer proteger o paciente do que ela imagina que vai ouvir. O erro não é dela. O erro é aceitar o cenário e conversar ali, porque o corredor tem três defeitos que arruínam a conversa. Não tem privacidade — a técnica de enfermagem, o acompanhante do leito ao lado e o maqueiro estão ouvindo, e isso é quebra de sigilo por descuido. Não tem tempo — você está de pé, indo para outro lugar, e vai apressar. E não tem o paciente, que é quem tem o direito de saber primeiro.
O que se faz no corredor cabe em três frases e leva quarenta segundos. Reconhecer a pergunta como legítima, dizer por que ali não: "essa pergunta é a mais importante que a senhora podia fazer, e é justamente por isso que eu não vou responder de pé no corredor". Marcar hora e lugar, com precisão de relógio: "depois da visita, às dez e meia, na sala ao lado do posto; a senhora consegue ficar?". E dizer, ainda ali, quem vai estar na sala e por quê: "eu vou conversar com o seu pai antes, porque a informação é dele e eu preciso saber quanto ele quer saber; e aí, se ele autorizar, a gente conversa os três juntos".
Existe uma exceção prática, e ela é estreita: quando o corredor é o único lugar que vai existir. Acompanhante que veio de outra cidade e volta no ônibus das duas, filho que só consegue vir no domingo, família que mora a quatro horas dali. Nesses casos, não marque uma sala que nunca vai acontecer — arranje uma porta hoje, ainda que seja a sala de prescrição vazia por dez minutos, e faça a conversa curta e inteira. O que não muda em nenhuma hipótese é a ordem: o paciente lúcido é ouvido antes, mesmo que sejam três minutos ao lado da cama para perguntar quanto ele quer que se conte e a quem.
Se a pessoa insistir — e ela costuma insistir, porque o medo dela é real — a saída não é ceder nem endurecer. É dar, ali mesmo, a única informação que não depende de autorização nenhuma: a informação sobre o processo. "O que eu posso dizer aqui é que ele passou a noite melhor do que a de ontem, que a equipe está preocupada e que a gente vai conversar de verdade em duas horas. O resto eu não vou falar aqui, e não é para esconder da senhora: é porque a conversa merece uma cadeira."
Quando é o paciente que pergunta — e quando ninguém pergunta nada
O paciente que pergunta diretamente é o caso mais simples eticamente e o mais assustador na prática. Ele tem direito à resposta pelo art. 34, e a única exceção prevista é estreita: quando a comunicação direta possa lhe provocar dano, caso em que a comunicação vai ao representante legal. A Recomendação CFM nº 1/2016 trata dessa exceção com o nome de privilégio terapêutico, reserva-a para o risco de prejuízo psicológico grave e acrescenta uma limitação que quase ninguém cita: a duração da omissão deve restringir-se ao período em que perdurar a necessidade dela. Não é uma licença permanente; é uma pausa com prazo, que precisa ser reavaliada.
Antes de responder, uma pergunta calibra tudo: "o senhor quer que eu fale do tempo, ou prefere que eu fale do que a gente vai fazer?". Ela é curta, não é evasiva e devolve o controle a quem é dono da informação. Muitos pacientes respondem "eu quero saber tudo", e aí você diz a faixa. Muitos respondem "eu não quero número, doutor, eu quero saber se vou sofrer" — e essa é uma pergunta com resposta muito melhor do que a outra.
O caso mais silencioso é o oposto: ninguém pergunta nada. Isso não significa que não queiram saber; significa que ninguém deu a deixa. Aqui a iniciativa é da equipe, e ela cabe numa frase de convite que não força nada: "eu percebi que a gente já conversou várias vezes sobre exame e remédio e nunca conversou sobre o que esperar daqui para frente. Se a senhora quiser, eu queria reservar meia hora para isso." O convite é recusável, e uma recusa também é informação — e vale registrar no prontuário que foi oferecido e recusado, com a data.
Como fechar o diagnóstico
Num capítulo sobre doença, este bloco seria o dos exames complementares. Aqui o equivalente é o levantamento que precede a frase — e ele é curto: dez a quinze minutos, feito com o prontuário aberto e sem pedir nada. A ordem importa, porque cada passo muda a resposta do seguinte, e porque pular o primeiro é o erro que transforma uma conversa boa em quebra de sigilo.
1 · Quem está perguntando — e o que essa pessoa é do paciente
Antes de qualquer informação clínica sair da sua boca, você precisa saber três coisas sobre quem está na sua frente: o vínculo, a capacidade do paciente e a autorização. Se o paciente é maior e está lúcido, orientado e consciente, ele é o titular da informação e ninguém mais é — filho, cônjuge e cuidador incluídos. O art. 73 do Código de Ética veda revelar fato conhecido em razão da profissão salvo por motivo justo, dever legal ou consentimento por escrito do paciente; a prática corrente aceita a autorização verbal registrada em prontuário, e é isso que você deve buscar e anotar.
Representante legal é uma figura jurídica, não um posto de confiança: é quem representa o paciente porque ele não pode decidir por si — o incapaz, o menor, aquele que perdeu a capacidade de expressar vontade. O acompanhante que dorme no hospital há cinco noites pode não ser o representante legal, e frequentemente não é. Isso não o torna descartável: ele é parte do cuidado, recebe apoio, recebe orientação prática e recebe informação sobre o processo. O que ele não recebe por conta própria é o conteúdo clínico do paciente lúcido que não o autorizou.
Quando o paciente não tem capacidade de expressar vontade, a pergunta muda de forma e fica mais fácil, não mais difícil. Não se pergunta ao representante o que ele quer que se faça — isso transfere a ele um peso que não é dele e produz culpa que dura anos. Pergunta-se o que o paciente diria: "antes de adoecer, o que ele falava sobre isso? Ele chegou a comentar alguma coisa sobre hospital, sobre máquina, sobre não querer depender de aparelho?". Uma frase dita anos atrás sobre um vizinho vale mais do que a opinião de hoje de qualquer familiar, e vai para o prontuário entre aspas, com a atribuição de quem a lembrou.
Duas perguntas resolvem o levantamento em vinte segundos, e é melhor fazê-las ao paciente do que deduzir: "o senhor quer que eu converse essas coisas com a sua filha junto, ou prefere primeiro só o senhor e eu?" e "tem alguém da família que o senhor prefere que não participe?". A segunda parece invasiva e é a que evita a maior parte dos conflitos familiares que estouram no terceiro dia.
2 · O que o paciente já sabe, e quanto ele quer saber
O ponto de partida da conversa não é o que você sabe: é o que ele acha que está acontecendo. Duas perguntas abrem isso. "O que o senhor entendeu do que os médicos falaram até agora?" mostra o mapa mental que ele construiu, e frequentemente revela um erro grande e simples de corrigir — muita gente acha que enfisema é um tipo de infecção e que vai passar com o antibiótico. "E o senhor, o que anda achando?" costuma trazer a resposta mais precisa da internação inteira, porque o paciente com doença avançada quase sempre já percebeu a trajetória antes da equipe nomeá-la.
A segunda coisa a levantar é a dose. Não existe uma quantidade certa de informação: existe a quantidade que aquela pessoa aguenta hoje. "Tem gente que quer saber tudo, com número e prazo; tem gente que prefere saber só o que muda o que a gente vai fazer. O senhor é mais de qual jeito?" Essa pergunta é a autorização — depois dela, dizer a faixa deixa de ser invasão e passa a ser cumprimento de um pedido.
Se a resposta for uma recusa clara de informação, ela é legítima e tem base: a Recomendação CFM nº 1/2016 reconhece a hipótese do paciente que não deseja saber e registra que recusar receber informação não significa, necessariamente, recusar o consentimento — ele pode delegar a decisão sem abrir mão dela. Anote a recusa, anote a quem ele delegou, e volte a oferecer daqui a alguns dias, porque a dose muda com o tempo.
3 · Qual é a trajetória — que não é a mesma coisa que o diagnóstico
O diagnóstico responde o que ele tem. A trajetória responde como isso costuma andar, e é a trajetória que a família precisa. A ferramenta de triagem reproduzida no capítulo 5 do Manual organiza o campo em três: câncer, falências orgânicas, e o grupo de fragilidade, demência e multimorbidade. Um mesmo paciente pode ter dois diagnósticos e uma só trajetória dominante — e é essa que governa a conversa.
Determinar a trajetória é barato. Pergunte-se em que ponto o paciente está passando o dia: se ele passa mais de metade do tempo acordado na cama ou na cadeira, o próprio Manual registra, para o câncer metastático, que o prognóstico estimado passa a ser de meses. Conte as internações não planejadas do último ano — repetição de internação por descompensação é marcador de falência de órgão em rota descendente. E some os marcadores gerais que o Manual lista como associados a pior prognóstico independentemente da doença de base: infecções recorrentes e de difícil tratamento, perda não intencional de mais de 10% do peso em seis meses, disfagia com aspiração, perda de funcionalidade com dependência para atividades básicas e múltiplas comorbidades.
Cuidado com uma confusão que produz erro grande a partir de dado verdadeiro: perguntar qual é o prognóstico da doença quando o que está em jogo é o prognóstico de uma decisão. O capítulo 5 do Manual dá o exemplo mais claro, na doença renal avançada. Pacientes que interrompem uma diálise já em curso têm sobrevida mediana de sete dias depois da interrupção. Pacientes que decidem não iniciar diálise por piora do estado nutricional ou por sintomas urêmicos leves a moderados sobrevivem semanas a meses, e um estudo citado ali estimou sobrevida média de dezesseis meses. É a mesma doença e é a mesma frase — não dialisar — com dois prognósticos que não se parecem. Uma família que ouviu "sete dias" quando a decisão era a outra recebeu informação inteiramente falsa extraída de um dado correto.
Um teste mental fecha o levantamento e vale ser feito antes de qualquer conversa: você se surpreenderia se este paciente morresse nos próximos doze meses? A pergunta é feita ao médico que conduz o caso, é intuitiva de propósito e serve como gatilho — se a resposta for não, existem demandas que ninguém abriu ainda. Ela não é uma previsão e não vai virar frase para a família; ela é o alarme que diz que a conversa está atrasada.
4 · Ancore a sua estimativa — no seu caderno, não na sua boca
Escolha um instrumento que caiba na doença e calcule. Em oncologia, as escalas de funcionalidade ECOG e Karnofsky são o eixo, e o Manual registra que a pior funcionalidade se associa a maior toxicidade do tratamento e menor sobrevida provável. Em câncer avançado sem programação de tratamento específico, o Palliative Prognostic Index soma funcionalidade, ingesta oral, edema, dispneia em repouso e delirium. Em demência, o estadiamento funcional FAST situa o paciente numa escala de sete estágios. Em falência respiratória crônica, contam as internações recorrentes, a dependência de oxigênio e a dispneia em repouso apesar de medicação otimizada. No doente crítico, o Manual cita SAPS-3 como gravidade de entrada e SOFA como leitura contínua de disfunção orgânica.
O resultado tem um destino só: a sua cabeça e a discussão da equipe. Essa não é uma preferência de estilo — é o que o capítulo 5 do Manual determina, ao dizer que as informações obtidas por essas ferramentas não devem ser usadas como informações para comunicação com pacientes e familiares, servindo para embasar o raciocínio dos profissionais. O escore ancora você contra o próprio otimismo; ele não é uma frase.
Escolher o instrumento certo importa tanto quanto calcular direito, e o Manual sinaliza duas escolhas que costumam sair erradas na enfermaria. Na doença pulmonar obstrutiva crônica, o índice BODE foi desenvolvido para pacientes estáveis, fora de período de crise, e estima sobrevida em quatro anos; quem está internado por exacerbação não é a população dele, e a ferramenta indicada para mortalidade intra-hospitalar na exacerbação é o DECAF. Na cirrose, Child-Pugh e MELD estimam meses a anos em paciente crônico sem descompensação aguda, e o Manual é explícito ao dizer que os descompensados agudamente precisam ser avaliados de outra forma, citando o CLIF-C ACLF para mortalidade em 28 dias. Aplicar o instrumento do paciente estável ao paciente em crise produz um número tranquilizador e falso.
O que sai do cálculo para a conversa é a tradução: em que unidade de tempo esta situação se move. Um paciente com KPS de 40, ingesta bastante reduzida e dispneia em repouso não vira "doze dias" na frase; vira "a gente está numa faixa de dias a semanas, e é por isso que eu quero conversar hoje e não semana que vem". A conta é sua, a faixa é dela.
5 · O que já foi dito, por quem, e com quais palavras
Toda família com internação de vários dias já ouviu alguma coisa, e o que ela ouviu é o terreno em que a sua frase vai cair. Levante isso no prontuário antes de entrar na sala: evolução do plantão da noite, parecer das outras especialidades, e principalmente a linguagem usada. "Quadro reservado" é uma expressão que a equipe entende como grave e que a família frequentemente entende como estável; "não respondeu ao tratamento" pode ter sido lido como culpa do paciente.
Procure explicitamente por três coisas: se alguém já falou em número, se alguém já falou em terapia intensiva ou intubação, e se alguém já usou a palavra paliativo. As três criam expectativa e as três precisam ser retomadas na sua conversa, não ignoradas. Ignorar uma frase anterior não a apaga: faz a família concluir que os médicos não conversam entre si — e, nesse ponto específico, ela terá razão.
Se a informação anterior estiver errada ou desatualizada, corrija nomeando a mudança, sem desautorizar o colega: "na segunda-feira a gente ainda esperava que o antibiótico resolvesse, e por isso a conversa foi outra. De lá para cá ele precisou de ventilação duas noites, e isso mudou o que eu acho". Mudança de prognóstico com causa declarada é aceita; mudança sem causa vira desconfiança.
6 · O que a equipe pensa — antes de a família ouvir duas versões
Este é o passo que mais se pula e o que mais custa caro. Se o pneumologista acha que ainda há espaço para tentar e o intensivista acha que não, a família vai descobrir isso — e vai descobrir do pior jeito, ouvindo os dois em horários diferentes, no corredor, sem tradutor. A partir daí ela para de decidir sobre o paciente e passa a decidir entre médicos, o que é uma tarefa impossível e injusta.
O capítulo 10 do Manual dá quatro passos para o conflito entre equipes, e eles são operacionais. Primeiro: partir de que a outra equipe está fazendo o que considera tecnicamente melhor, exatamente como a sua. Segundo: procurar compreender as razões técnicas e bioéticas que sustentam a proposta dela. Terceiro: lembrar que o paciente não é propriedade de nenhuma das equipes. Quarto: se o conflito persistir apesar do diálogo, alinhar o planejamento de cuidados aos valores e desejos do paciente e, na impossibilidade de comunicação com ele, respeitar as diretivas antecipadas de vontade.
Antes de chamar de divergência, teste se é mesmo. Muitas vezes as duas frases que a família ouviu são verdadeiras ao mesmo tempo, e o que faltou foi dizê-las juntas: "ainda há uma linha de tratamento a tentar" e "o quadro é avançado e a doença não tem cura" não se contradizem, e a família só as ouviu como contradição porque vieram em dias diferentes, de bocas diferentes, sem o prazo que as costura. Divergência real é quando duas equipes recomendariam condutas incompatíveis hoje. Divergência aparente é quando as duas recomendariam a mesma coisa e descreveram o quadro com ênfases diferentes — e essa se resolve com uma frase acordada, não com uma reunião.
Na prática de enfermaria, isso vira uma conversa de cinco minutos antes da visita, com uma pergunta única e concreta: "o que a gente vai responder se a família perguntar quanto tempo?". Não é preciso concordar sobre o prognóstico para convergir sobre a frase — é preciso concordar sobre a faixa que será dita, sobre quem vai dizer e sobre o que fica combinado se não melhorar. Divergência que sobra depois disso é legítima e tem endereço: a Resolução CFM nº 1.805/2006 assegura, no § 3º do art. 1º, o direito do doente ou do representante legal de solicitar uma segunda opinião médica. Oferecer isso ativamente é melhor do que deixar a família descobrir sozinha que pode pedir.
O vocabulário do tempo, os instrumentos que não se citam e a régua brasileira
Duas tabelas e dois cartões resolvem o que este capítulo pede. A primeira tabela é o vocabulário: as quatro faixas de tempo que se dizem em voz alta, o que torna cada uma plausível, o que ela muda na conduta hoje e o que ela deixa escrito. A segunda separa o que cada instrumento do capítulo 5 do Manual responde do que ele não responde — porque a confusão entre as duas colunas é a origem do número falso. Os cartões guardam as duas ideias que decidem sozinhas: por que uma mediana não é previsão, e como se abre uma tentativa terapêutica com prazo. O fluxo abaixo é a ordem da conversa, e as notas trazem a auditoria das fontes oficiais: as contas que bateram e as que não bateram.
- 1Antes da visita, cinco minutos com a equipe: qual é a faixa, quem diz, e o que fica combinado se não melhorar.
- 2Com o paciente, sozinho: o que ele já entendeu, quanto quer saber e quem ele autoriza a participar — a autorização vai para o prontuário.
- 3Sala com porta, cadeira para todos, celular no silencioso, tempo blindado de vinte a trinta minutos.
- 4A faixa em unidade de tempo, nunca em algarismo, com a margem dita em voz alta e o que a encurtaria ou alongaria.
- 5A recomendação, quando pedida — inclusive quando o pedido vem na forma de "e se fosse seu pai?".
- 6A prova com prazo, se houver o que tentar: o que se tenta, por quanto tempo, e qual é o critério de parada, combinado antes de começar.
- 7O registro no mesmo dia: quem estava, o que foi perguntado, a faixa dita nas palavras usadas, a decisão, o prazo e o critério de parada.
A mediana não é uma previsão
Toda estimativa publicada de sobrevida é uma propriedade de grupo. Quando uma tabela diz que uma faixa de pontuação corresponde a doze dias de sobrevida mediana, ela está dizendo que metade daquele grupo morreu antes de doze dias e metade depois — não que um paciente específico tem doze dias. Repassar esse número a uma família produz uma frase que está errada para metade dos casos por construção do próprio índice, e o erro não é aleatório: ele vem com aparência de precisão, que é o que o torna perigoso. O uso correto é o inverso do intuitivo: a mediana calibra a sua estimativa interna e escolhe a unidade de tempo que você vai usar em voz alta.
A prova com prazo — três combinados antes de começar
Quando a incerteza ainda permite tentar, tentar é conduta, e o Código de Ética empurra nessa direção pelo art. 32. O que transforma a tentativa em decisão clínica, e não em inércia, são três combinados feitos antes do primeiro dia: o que se vai tentar, por quanto tempo, e qual é o critério objetivo que diz se funcionou. Sem o prazo, a tentativa vira rotina e ninguém consegue mais interrompê-la, porque parar passa a parecer desistir. Com o prazo combinado com a família antes, a reavaliação já está autorizada quando chega, e a conversa do quarto dia deixa de ser uma notícia ruim para ser o cumprimento de um acordo. Nenhum documento brasileiro em uso nomeia esse instrumento — o que existe é a base para ele no parágrafo único do art. 41 do Código de Ética e nos arts. 1º e 2º da Resolução CFM nº 1.805/2006, que autorizam limitar o que não ajuda desde que se mantenha o que alivia.
As quatro faixas — o que torna cada uma plausível, o que ela muda hoje e o que ela deixa escrito
| Faixa que se diz em voz alta | O que a torna plausível à beira do leito | O que muda na conduta hoje | O que fica no prontuário |
|---|---|---|---|
| Horas a dias | Queda funcional em dias, o paciente já não sai da cama, ingesta praticamente ausente, dispneia ou delirium novos, e nenhuma causa reversível aberta que a equipe ainda não tenha tratado. | Suspender rotina que não alivia sintoma, prescrever conforto por horário e não só se necessário, liberar visita fora do horário, avisar quem mora longe hoje. | Faixa dita e a quem; sintomas-alvo e as drogas de conforto prescritas; quem foi avisado; o que a família pediu para o desfecho. |
| Dias a semanas | Perda de funcionalidade nas últimas semanas, mais de metade do dia na cama ou na cadeira, ingesta bastante reduzida, dispneia em repouso, internação atual sem resposta ao tratamento otimizado. | Rever o que ainda ajuda e o que só incomoda; definir agora o que se faz na próxima piora; combinar destino — casa com suporte, enfermaria, ou o que a família consegue sustentar. | Faixa e as palavras usadas; o que foi limitado e por quê; o destino combinado; a decisão fundamentada, como manda o § 2º do art. 1º da Resolução CFM nº 1.805/2006. |
| Semanas a meses | Doença avançada com marcadores gerais somados — infecções de repetição, perda de mais de 10% do peso em seis meses, dependência para atividades básicas — sem queda abrupta na última semana. | É a janela em que a conversa rende mais: prioridades, pendências práticas, quem decide se ele não puder decidir, e o que ele não quer que aconteça. | Prioridades declaradas pelo paciente nas palavras dele; quem ele indicou para falar por ele; o que ele recusou explicitamente. |
| Meses a anos | Doença crônica progressiva estável no momento, internações espaçadas, funcionalidade preservada para o essencial, sem marcador agudo de declínio nesta internação. | Tratar o que é tratável e usar o tempo: é aqui que planejamento antecipado de cuidados é possível sem urgência e sem a pressão da cama. | Que a conversa foi oferecida e o que o paciente respondeu — inclusive quando a resposta foi que não queria conversar agora. |
Instrumento populacional × o paciente do leito — o que cada um responde e o que não responde
| Instrumento (capítulo 5 do Manual de Cuidados Paliativos, 2023) | O que ele responde | O que ele não responde | O que fazer com o resultado |
|---|---|---|---|
| Pergunta surpresa, dentro da ferramenta de triagem ("você se surpreenderia se este paciente falecesse nos próximos 12 meses?") | Se este paciente já deveria ter demandas de cuidados paliativos identificadas e abertas. | Quando ele vai morrer. É gatilho de conversa, não estimativa. | Se a resposta é não, marque a conversa. O resultado nunca vira frase para a família. |
| ECOG e Karnofsky | A funcionalidade atual em escala comparável, que se associa a maior toxicidade de tratamento e menor sobrevida provável. | O patamar a que este paciente pode voltar depois desta internação. | Compare com a funcionalidade de dois a três meses atrás — a diferença é a informação, não o valor isolado. |
| Palliative Prognostic Index, em câncer avançado sem tratamento específico programado | Uma sobrevida mediana estimada por faixa de pontuação, a partir de funcionalidade, ingesta, edema, dispneia em repouso e delirium. | Quanto tempo este paciente tem: mediana é o ponto que divide o grupo, e metade do grupo vive mais. | Traduza a faixa de pontuação em unidade de tempo para a conversa. Nunca cite a pontuação nem os dias medianos. |
| BISEP, no idoso após internação hospitalar | Uma taxa de mortalidade em um ano por grupo de pontuação, somando diagnósticos de alto risco, laboratório, demência e alteração de marcha. | Se este idoso está na metade que morre ou na que não morre. | Use como alarme para abrir a conversa sobre preferências — o próprio Manual recomenda isso nos grupos de maior risco. |
| FAST, no estadiamento funcional da demência | Em que estágio funcional o paciente está, numa escala de sete degraus com subdivisões no sexto e no sétimo. | A data. O Manual registra que a avaliação prognóstica na demência não costuma ser acurada. | Combine o estágio com as complicações do último ano — pneumonia aspirativa, sepse, lesões por pressão, perda de peso — antes de qualquer estimativa. |
| SAPS-3 e SOFA, no doente crítico | A gravidade na admissão em terapia intensiva e a evolução das disfunções orgânicas ao longo do tempo. | Se este paciente vai voltar à funcionalidade que tinha antes de adoecer. | Use para alinhar a expectativa da equipe; o Manual lembra que é difícil sair de uma internação em terapia intensiva melhor do que se entrou. |
Conferência que fecha, sobre a vigência do Código de Ética: a Resolução CFM nº 2.217/2018 foi publicada no Diário Oficial de 1º de novembro de 2018 e o seu art. 3º manda o Código anexo entrar em vigor cento e oitenta dias após a publicação. A conta dá 30 de abril de 2019, que é a data que a literatura repete. O mesmo artigo revoga, a partir daí, o Código anterior (Resolução CFM nº 1.931/2009).
Errata do próprio Código, encontrada: a Resolução CFM nº 2.222/2018 corrige erro material no item VI do Preâmbulo, que passou a declarar 26 princípios fundamentais, 11 normas diceológicas, 117 normas deontológicas e quatro disposições gerais. A soma dá 158 dispositivos. A segunda alteração, a Resolução CFM nº 2.226/2019, mexe no art. 72, que trata de honorários — nenhuma das duas toca os artigos que governam este capítulo (34, 35, 41 e 73).
Vigência com suspensão parcial, e duas versões do mesmo conselho sobre o alcance dela: a cópia da Resolução CFM nº 2.232/2019 publicada no sistema de normas do CFM traz, ao lado do § 2º do art. 5º, do art. 6º e do art. 10, a marcação de artigo suspenso por decisão judicial na Ação Civil Pública nº 5021263-50.2019.4.03.6100. A comunicação do próprio CFM sobre a decisão descreve a suspensão dos arts. 6º e 10 como parcial, restrita à assistência ao parto. O PDF marca os artigos inteiros; a notícia restringe. Quem desempata é a decisão, e ela foi lida: a antecipação de tutela de 17 de dezembro de 2019 suspendeu integralmente o § 2º do art. 5º e alcançou os arts. 6º e 10 somente em relação à assistência e atendimento ao parto, e é essa mesma extensão que está de pé hoje, porque o Tribunal Regional Federal da 3ª Região, em 27 de fevereiro de 2024, deu efeito suspensivo à apelação e mandou valer a decisão de 2019 enquanto a ação não terminar. Fora do centro obstétrico, que é onde este capítulo se passa, o art. 6º continua eficaz: quem rejeita a recusa terapêutica nas hipóteses dos arts. 3º e 4º registra no prontuário e comunica o diretor técnico. A marca do arquivo exagera o alcance da suspensão; ela não está vencida.
Conferência que fecha, sobre o que a 2.232/2019 revogou: o art. 14 revoga apenas a Resolução CFM nº 1.021/1980. A Resolução CFM nº 1.805/2006, que autoriza limitar ou suspender procedimentos na fase terminal, não é revogada por ela e segue como a norma específica sobre o tema.
Norma revogada citada como régua num documento ainda publicado: a Recomendação CFM nº 1/2016, que o CFM mantém disponível, transcreve o art. 2º da Resolução CFM nº 1.021/1980 como sustentação do argumento sobre transfusão em iminente perigo de vida. Essa resolução foi expressamente revogada pelo art. 14 da Resolução CFM nº 2.232/2019, três anos depois. A Recomendação não estava errada quando foi escrita; o problema é que continua circulando sem nota de atualização, e quem a lê hoje encontra uma norma revogada apresentada como vigente.
Erro de unidade por fator mil, no capítulo 5 do Manual de Cuidados Paliativos: a tabela do BISEP pontua "albumina ≤ 3,5 mg/dL". Albumina sérica se mede em gramas por decilitro, e 3,5 mg/dL equivalem a 0,0035 g/dL — mil vezes abaixo do corte real, que é 3,5 g/dL. O erro se vê sem sair do documento: a mesma tabela usa "creatinina > 1,5 mg/dL", que está correto em mg/dL, e o mesmo capítulo escreve albumina duas outras vezes na unidade certa, "< 2,5 g/dL" na cirrose e na demência.
Faixa que não pertence a nenhuma classe, no mesmo capítulo: a tabela de avaliação prognóstica em neoplasia hematológica soma seis itens de um ponto cada — ECOG 3-4, plaquetas abaixo de 90.000/mm³, DHL acima de 248 U/L, uso de opioide forte, albumina abaixo de 3,0 g/dL e transfusão de concentrado de hemácias no último mês. A interpretação começa em "1 ponto". Um paciente que não pontue em nenhum dos seis itens soma zero e não cai em faixa nenhuma.
Sensibilidade do número a um único item, na mesma tabela: 1 ponto corresponde a 440 dias de sobrevida estimada e 2 ou 3 pontos a 63 dias. A razão é 440 ÷ 63 ≈ 7,0. Uma albumina de 2,9 g/dL em vez de 3,1 g/dL move a estimativa em sete vezes. É a demonstração aritmética de por que o resultado desses instrumentos não vira frase para a família.
Texto contra tabela dentro da mesma seção do capítulo 5: o texto sobre neoplasias afirma que Karnofsky abaixo de 50 se associa a sobrevida estimada de menos de oito semanas. A tabela do Palliative Prognostic Index, na página seguinte, atribui 2,5 pontos à faixa de Karnofsky de 30 a 50, e a pontuação total de 2,5 cai na banda de 2,1 a 4,0, cuja sobrevida mediana estimada é de 61 dias. Oito semanas são 56 dias; 61 é maior que 56. Um paciente com Karnofsky de 40 e nenhum outro item pontuado recebe do texto uma estimativa mais curta do que a que a tabela do mesmo capítulo lhe dá.
Critério estrangeiro com o país trocado, e além disso extinto: entre os indicadores gerais de declínio da ferramenta de triagem, o Manual lista "considerado elegível para pagamento pelo DS1500" com a nota "benefício específico dos EUA". O DS1500 é britânico — o formulário do Department for Work and Pensions do Reino Unido para acesso acelerado a benefícios por doença terminal —, coerente com a origem inglesa da própria ferramenta de triagem. Além da troca de país, o critério envelheceu: o DS1500 foi substituído pelo formulário SR1 em julho de 2025. É um item que não se aplica a paciente nenhum atendido no SUS e que deve ser simplesmente ignorado na leitura da lista.
Escore usado para definir futilidade, sem base normativa correspondente: ao tratar da cirrose descompensada, o capítulo 5 do Manual apresenta o CLIF-C ACLF como ferramenta de mortalidade em 28 dias e acrescenta que ela pode inclusive ser utilizada para definir futilidade terapêutica. Nenhuma resolução do CFM autoriza um escore a decidir isso: a Resolução CFM nº 1.805/2006 condiciona a limitação de tratamento à fase terminal de enfermidade grave e incurável e exige decisão fundamentada, registrada e respeitada a vontade do paciente ou do representante legal; o parágrafo único do art. 41 do Código de Ética fala em ações inúteis ou obstinadas, sem delegar a definição a instrumento nenhum. Um número pode informar a conversa; ele não substitui a fundamentação nem a vontade.
Conferência que fecha, sobre a coerência interna do vocabulário de albumina no capítulo 5: fora da tabela do BISEP, as três outras menções batem entre si e com a prática. A cirrose usa albumina abaixo de 2,5 g/dL; a demência avançada usa albumina sérica inferior a 2,5 g/dL; e a ferramenta de triagem usa albumina sérica abaixo de 25 g/L, que é a mesma coisa em outra unidade — 25 g/L dividido por 10 dá 2,5 g/dL. Três formas de escrever o mesmo corte, todas corretas. Isso reforça que a linha do BISEP em miligramas é erro de digitação de unidade, e não uma convenção diferente adotada naquele trecho.
Vigência da política federal: a Política Nacional de Cuidados Paliativos no SUS foi instituída pela Portaria GM/MS nº 3.681, de 7 de maio de 2024, como Anexo XLIV da Portaria de Consolidação GM/MS nº 2, de 28 de setembro de 2017. Esse anexo foi alterado pela Portaria GM/MS nº 10.181, de 26 de janeiro de 2026, e a tabela de procedimentos e o cadastro correspondentes foram atualizados pela Portaria SAES/MS nº 4.288, de 22 de junho de 2026. Citar a política pela redação de 2024 é citar um texto que já mudou duas vezes.
Qual régua o Brasil usa para a conversa de prognóstico, declarada: para o dever de informar e para os seus limites, o Código de Ética Médica em vigor desde abril de 2019, nos arts. 34, 35, 41 e 73. Para limitar tratamento na fase terminal e para o que se registra, a Resolução CFM nº 1.805/2006. Para recusa terapêutica e objeção de consciência, a Resolução CFM nº 2.232/2019, com as ressalvas de suspensão acima. Para estimar prognóstico e para o manejo do conflito entre equipes, o Manual de Cuidados Paliativos do Ministério da Saúde e do Hospital Sírio-Libanês, 2ª edição, 2023. Protocolo com sigla para a conversa de prognóstico, nenhum documento brasileiro nomeia. A única menção normativa a protocolo de comunicação está na Recomendação CFM nº 1/2016, que sugere o SPIKES dentro da hipótese estreita de omissão de informação por risco de dano psicológico grave — não como roteiro da conversa de prognóstico.
A conduta, hora a hora
O que segue é a manhã inteira do senhor Osvandir Golfeto, do leito 9, contada do corredor até a assinatura do que ficou escrito. As frases entre aspas são para dizer como estão — não são exemplos a adaptar depois, são o produto do capítulo. O que muda de paciente para paciente é a faixa de tempo e o que se tenta; a ordem dos marcos não muda.
Uma advertência antes de começar: quase nada aqui é rápido, e quase tudo cabe numa manhã. O item que mais consome tempo é o alinhamento da equipe, e é o único que não pode ser cortado sem estragar todos os outros.
Capacidade para esta decisão exige compreender a informação, reconhecer sua aplicação à própria situação, ponderar opções e comunicar uma escolha. Orientação no tempo e espaço não basta, e idade ou diagnóstico psiquiátrico não provam incapacidade. Corrigir barreiras de linguagem, audição, dor e delirium; oferecer apoio e reavaliar. A família participa conforme a vontade do paciente capaz, sem substituí-la. A preferência por não ouvir números deve ser respeitada também para intervalos em dias ou semanas. Se o paciente desejar números, apresentar estimativa como faixa incerta, com limites e possibilidade de revisão. Um teste terapêutico combina prazo de revisão, metas clínicas e funcionais, encargos e critérios de continuidade; o relógio não determina suspensão automática. O plano de conforto é individualizado: examinar dor, dispneia, ansiedade, retenção urinária, boca seca e outras causas tratáveis; oferecer medidas proporcionais e reavaliar seu efeito. Oxigênio depende de hipoxemia ou benefício sintomático demonstrado. Opioides exigem dose, via e ajuste ao uso prévio e à função renal; sedação não é rotina e requer indicação própria, proporcionalidade e supervisão.
O interno identifica-se como estudante de medicina, trabalha sob supervisão e registra sua participação com identificação própria. Prescrição, consentimento médico, decisões de limitação e certificação de óbito exigem o profissional responsável; uma assinatura do preceptor não substitui supervisão efetiva. Reconhecer gravidade e acionar ajuda imediatamente fazem parte de sua atuação.
7h12 — o corredor: a pergunta chega no pior lugar possível, e o que se faz é ganhar a sala
A Neuci pergunta quanto tempo o pai tem. Três coisas faltam ali: privacidade, tempo e o titular da informação. A resposta certa não é uma resposta clínica — é marcar hora, lugar e ordem. Reconheça a pergunta, explique por que não ali, dê o horário com precisão e diga que você vai falar com o pai antes. Se ela insistir, entregue o que não depende de autorização: informação sobre o processo, não sobre a doença. Nunca diga "a gente conversa depois" sem hora: sem hora, isso é dispensa.
Prescrição- "Essa é a pergunta mais importante que a senhora podia fazer, e é por isso que eu não vou responder aqui em pé."
- "Dez e meia, na sala ao lado do posto, com cadeira e porta fechada. A senhora consegue ficar até lá?"
- "Antes eu vou conversar com o seu pai, porque a informação é dele e eu preciso saber quanto ele quer saber. Se ele autorizar, a gente conversa os três juntos."
- "O que eu posso dizer agora é que ele passou melhor do que anteontem e que a equipe está preocupada. O resto merece uma cadeira."
7h25 — dez minutos de levantamento, sem pedir exame nenhum
Prontuário aberto, três perguntas. Qual é a trajetória: falência de órgão, com três internações em seis meses, oxigênio domiciliar há dois anos e duas noites de ventilação não invasiva nesta internação. Qual era a funcionalidade há três meses: ele ia até a padaria com o cilindro portátil, e há três semanas não sai do quarto. O que já foi dito: a evolução de anteontem registra "quadro reservado" e o parecer da pneumologia sugere "otimizar broncodilatador e reavaliar" — nenhum dos dois é uma conversa de prognóstico, e a família pode ter lido "reservado" como estável. Faça a pergunta-gatilho para si mesmo: você se surpreenderia se ele morresse nos próximos doze meses? Não. Então a conversa está atrasada, e não é hoje que ela devia estar acontecendo.
Prescrição- No rascunho: trajetória de falência de órgão · 3 internações/6 meses · O2 domiciliar 2 anos · VNI em 2 noites · dispneia em repouso apesar de medicação otimizada.
- Funcionalidade: há 3 meses saía de casa com cilindro; há 3 semanas não sai do quarto — a queda é de semanas, não de anos.
- Faixa interna, para a equipe: semanas a meses, com risco alto de horas a dias se houver nova descompensação.
- O que ainda pode ser reversível nesta internação e ainda não foi otimizado: aderência ao broncodilatador, componente congestivo, sedativo noturno em uso.
8h40 — cinco minutos com a equipe, antes que a família ouça duas versões
Na visita, a preceptora, a Dra. Plácida Tonelli, e o pneumologista, o Dr. Adilson Kuczynski, discordam — ela acha que o senhor Osvandir não sai desta internação, ele acha que há espaço para mais uma otimização. Os dois podem estar certos, e a família não precisa arbitrar isso. A pergunta que resolve não é quem tem razão sobre o prognóstico: é o que vai ser dito se perguntarem quanto tempo. Combine a faixa, quem diz, e o que fica acordado se não melhorar. Discordância técnica que sobra tem endereço legítimo: o § 3º do art. 1º da Resolução CFM nº 1.805/2006 assegura ao doente ou ao representante legal o direito de pedir segunda opinião — melhor oferecer do que deixar descobrirem sozinhos.
Prescrição- Pergunta única para a equipe: "o que a gente responde se a filha perguntar quanto tempo?"
- Combinado: faixa de semanas a meses; quem diz é a diarista, com o interno presente; a mesma frase para todos os plantões.
- Combinado: tentativa com ventilação não invasiva noturna e otimização por 48 horas, com reavaliação marcada em conjunto na sexta pela manhã.
- Registrar na evolução que houve alinhamento entre as duas equipes e qual foi a frase acordada — é isso que impede a divergência de vazar no plantão da noite.
9h30 — o paciente primeiro: a pergunta que autoriza tudo o que vem depois
Sente-se. Comece pelo que ele entendeu, não pelo que você sabe. O senhor Osvandir diz que "o pulmão tá gasto" e que "dessa vez tá diferente" — ele já sabe a trajetória, como quase sempre acontece. Então venha a dose: quanto ele quer saber, e com quem. Ele responde que quer saber, que não quer número, e que a filha pode ouvir tudo. Essa autorização é o que abre a conversa das dez e meia, e ela vai para o prontuário com essas palavras.
Prescrição- "O que o senhor entendeu do que a gente falou até agora?" — e ficar em silêncio até ele terminar.
- "Tem gente que quer saber tudo, com prazo e número; tem gente que prefere saber só o que muda o que a gente vai fazer. O senhor é mais de qual jeito?"
- "O senhor quer que a sua filha ouça junto, ou prefere primeiro só nós dois?"
- Prontuário: paciente lúcido e orientado; deseja ser informado; recusa estimativa numérica; autoriza expressamente que a filha Neuci participe das conversas e receba informações.
10h30 — a frase de prognóstico: faixa, margem e o que a move
Sala com porta, os três sentados, celular no silencioso. A frase tem três partes e nenhuma delas é um algarismo: a unidade de tempo, a margem dita em voz alta, e o que encurtaria ou alongaria a faixa. Depois da frase, silêncio — dez segundos parecem uma eternidade e são o pedaço mais útil da conversa. Se vier a insistência pelo número, e ela costuma vir, não ceda e não fuja: explique em uma frase por que o número seria falso, e devolva a pergunta que descobre para que serve o tempo.
Prescrição- "Pelo que eu vejo, a gente está numa faixa de semanas a meses. Pode ser bem menos se ele tiver outra crise como a de anteontem, e pode ser mais se ele estabilizar em casa com o oxigênio."
- "O que encurtaria: outra infecção, outra noite precisando de máscara. O que alongaria: passar essa semana sem crise e conseguir comer."
- Silêncio de dez segundos, sem preencher com explicação.
- Se insistirem no número: "qualquer número que eu desse ia estar errado, e a senhora ia medir a gente por ele. O senhor está me perguntando por causa de alguma coisa que precisa ser decidida?"
10h40 — "e se fosse seu pai?": aceitar o pedido e dar a recomendação
A Neuci repete a pergunta do corredor. Ela não está testando você: está pedindo um conselho, porque recebeu um cardápio de opções apresentadas como equivalentes. Não devolva a pergunta e não se esconda atrás da biografia da sua família. Recuse a moldura pessoal, aceite o pedido e recomende — com o motivo clínico à mostra, para que a recomendação possa ser recusada com conhecimento de causa.
Prescrição- "Eu não sei o que eu faria como filho, e o que eu faria como filho não deveria pesar aqui."
- "Mas a senhora está me pedindo uma recomendação, e eu tenho uma."
- "Eu recomendaria tentar mais quarenta e oito horas com a máscara à noite e a medicação ajustada, e combinar agora o que a gente faz se não melhorar."
- "Se o senhor ou a senhora pensarem diferente disso, a gente muda — é decisão de vocês, e eu quero ouvir."
10h50 — a prova com prazo: o que se tenta, por quanto tempo, e o critério de parada
Aqui a incerteza ainda permite tentar, e tentar é conduta. O que separa a tentativa da inércia são três combinados feitos antes do primeiro dia. Diga o que se tenta, diga o prazo com data e hora, e diga o critério objetivo de parada em linguagem que o paciente reconheça — não em variável de gasometria. E deixe claro o que não muda com o resultado: o conforto continua nos dois cenários. Sem o prazo, ninguém consegue mais interromper depois, porque interromper passa a parecer desistir. Escolher o critério é a parte que exige cuidado: ele precisa ser observável pela família, e não uma variável que só a equipe enxerga. "Se a saturação não subir" não serve — o senhor Osvandir e a filha não veem saturação e não vão poder concordar nem discordar do que aconteceu. "Se ele continuar sem conseguir ficar sentado sem a máscara" serve, porque os três vão olhar para a mesma coisa na sexta-feira.
Prescrição- O que se tenta: ventilação não invasiva noturna, ajuste do broncodilatador e do sedativo, mobilização fora do leito duas vezes ao dia.
- Prazo: até sexta-feira de manhã, com reavaliação conjunta das duas equipes marcada e comunicada à família.
- Critério de parada, na linguagem dele: "se na sexta o senhor ainda estiver com falta de ar parado na cama e precisando da máscara de dia, a gente para de empurrar e passa a cuidar só do conforto."
- O que não muda em nenhum dos dois cenários: morfina para a falta de ar, oxigênio, visita liberada, e ninguém intuba sem conversar antes.
11h10 — o registro: a única parte da conversa que sobrevive à troca de plantão
A conversa acabou e ainda não existe. Quem entra no plantão da noite não estava na sala, e o que ele vai encontrar é o texto — ou a ausência dele, que é o que faz uma família receber, à uma da manhã, a proposta de intubar um paciente cuja decisão já tinha sido tomada às onze da manhã. O § 2º do art. 1º da Resolução CFM nº 1.805/2006 exige que a decisão de limitar ou suspender seja fundamentada e registrada no prontuário; o art. 87 do Código de Ética exige registro legível, em cada avaliação, em ordem cronológica, com data, hora, assinatura e número de inscrição no Conselho Regional. Escreva no mesmo dia, com as palavras que foram usadas, e não com a tradução técnica delas. Há um motivo prático para preferir as palavras originais: "prognóstico reservado" é lido pela equipe como grave e pela família como estável, e quando o registro guarda a expressão técnica ninguém consegue mais reconstruir o que a família de fato ouviu. "Semanas a meses, podendo ser menos se houver nova crise" é verificável; "orientada sobre a gravidade" não é.
Prescrição- Quem estava na sala, com nome e vínculo, e a autorização do paciente registrada nas palavras dele.
- O que foi perguntado e a faixa que foi dita, na forma em que foi dita: "semanas a meses", não "prognóstico reservado".
- A decisão, o prazo e o critério de parada: tentativa até sexta pela manhã, com o critério objetivo escrito.
- O que foi limitado e por quê, e o que foi mantido: sem intubação em caso de piora, conforme conversado com paciente lúcido e filha presente; morfina, oxigênio e sedação de resgate mantidos.
- Uma linha para quem chega: "se piorar hoje à noite, a conduta combinada é conforto e chamar a família — não intubar."
Como saber se está funcionando
Uma conversa de prognóstico não se avalia pelo que você disse, e sim pelo que ficou. Os sete parâmetros abaixo olham para o outro lado da mesa e para o prontuário — os dois lugares onde o resultado aparece.
Há uma diferença importante entre reavaliar a conversa e reavaliar o prognóstico, e as duas coisas acontecem em ritmos diferentes. A conversa se confere nas primeiras quarenta e oito horas, porque é nesse prazo que aparecem o número que ninguém disse, a segunda versão da outra equipe e a decisão que não foi encontrada no prontuário. O prognóstico se reavalia sempre que a trajetória funcional mudar, e mudar a faixa dita anteriormente não é sinal de erro: é o funcionamento normal de uma estimativa. O que não pode acontecer é a faixa mudar em silêncio, sem que ninguém nomeie a causa da mudança para o paciente e para a família.
Esperado: A faixa reaparece na unidade certa e com a margem: "o senhor falou que pode ser semanas, mas pode ser menos se ele tiver outra crise". Peça a devolução sem soar em exame: "eu falo muito rápido; a senhora pode me contar o que vai dizer para o seu irmão hoje à noite?"
Se não melhora: Se voltar um número que você não disse, alguém traduziu a faixa em data — corrija na hora e por escrito. Se voltar "não tem mais nada a fazer", a lista de quatro itens concretos precisa ser repetida: a frase reaparece porque o que se vai fazer não ficou nomeado. E se voltar uma versão bem mais otimista do que a sua, não repita a informação em voz mais alta: pergunte o que a pessoa entendeu e onde ela ouviu, porque em geral a diferença veio de outra conversa, com outro profissional, e é isso que precisa ser resolvido.
Esperado: Plantonista da noite, diarista e a outra especialidade dizem a mesma faixa e o mesmo combinado, mesmo divergindo entre si sobre o prognóstico de fundo.
Se não melhora: Se a família relatar que "o outro médico falou diferente", o problema é da equipe e a correção é da equipe — nunca da família. Volte ao alinhamento de cinco minutos, refaça a frase acordada e registre-a. Se a divergência for de fundo e insuperável, ofereça formalmente a segunda opinião assegurada pelo § 3º do art. 1º da Resolução CFM nº 1.805/2006.
Esperado: Chega a sexta e a reavaliação acontece com o critério que foi escrito: atingido, não atingido, ou renegociado explicitamente com a família.
Se não melhora: O adiamento silencioso é o modo mais comum de a prova com prazo morrer. Se a reavaliação não aconteceu na data, ela virou rotina — remarque no mesmo dia e registre o motivo do atraso. Renegociar prazo é legítimo; deixar vencer sem dizer nada não é. Quando o critério não foi atingido e a equipe quer estender assim mesmo, a extensão precisa de um motivo clínico novo e de um novo prazo — sem isso, o que está sendo estendido não é o tratamento, é a dificuldade da equipe em ter a segunda conversa.
Esperado: Compare sempre contra o mesmo ponto: o melhor dia dos últimos dois a três meses. Quanto tempo ele passa fora da cama, se come sozinho, se fala frases inteiras, se precisa da máscara de dia.
Se não melhora: Melhora de exame com piora funcional é o padrão que mais atrasa a conversa. Se o leucograma caiu e ele parou de sentar na poltrona, a trajetória piorou — e a faixa que você disse ontem precisa ser corrigida hoje, com a causa nomeada.
Esperado: As perguntas migram de "quanto tempo" para "como vai ser", "ele vai sentir dor", "a gente consegue levar para casa". Essa migração é o melhor sinal de que a conversa funcionou.
Se não melhora: Se a pergunta continua sendo o número, a faixa não chegou ou não foi acreditada. Refaça a conversa com a pergunta de volta explícita — para que serve o tempo — em vez de repetir a mesma explicação com outras palavras.
Esperado: Um plantonista que não participou de nada encontra, em menos de um minuto, o que foi combinado, com quem, até quando e qual é a conduta se piorar de madrugada.
Se não melhora: Se você precisa explicar a decisão por telefone às três da manhã, o registro falhou. Reescreva no mesmo dia a linha de conduta em caso de piora — é a linha que impede a decisão de ser desfeita por quem chega sem contexto.
Esperado: O paciente lúcido segue decidindo, e o que ele disse continua registrado nas palavras dele. Se ele perdeu a capacidade de expressar vontade, o que passa a valer é o que ele disse antes — e é por isso que registrar as palavras dele importa mais do que registrar a sua conclusão.
Se não melhora: Se a conversa deslizou para a família enquanto o paciente ainda decide, houve deslocamento do titular. Volte ao paciente, refaça a pergunta da dose de informação e registre a autorização de novo — ela não é permanente.
Onde o erro machuca
O dano: Dizer "o índice dá doze dias" tem aparência de rigor e é o oposto dele: a mediana descreve um grupo e estará errada para metade dos pacientes por construção. Além de falsa, a frase é o contrário do que o próprio documento federal determina — o capítulo 5 do Manual diz expressamente que os resultados dessas ferramentas não devem ser usados como informação para comunicação com pacientes e familiares.
Como pegar a tempo: O escore fica no seu raciocínio e na discussão da equipe. O que sai para a conversa é a unidade de tempo que ele ajudou você a escolher, com a margem dita em voz alta. Uma checagem simples antes de falar: se a frase que você vai dizer contém um algarismo de dias, semanas ou meses, ela ainda não está pronta. Troque o algarismo pela unidade e diga o que encurtaria e o que alongaria — a frase fica mais curta, mais verdadeira e mais útil.
O dano: Quebra de sigilo por descuido, com o acompanhante do leito ao lado ouvindo, e inversão da ordem: a família fica sabendo antes do paciente lúcido, que é o titular. Depois disso, a conversa com o paciente vira encenação, porque ele percebe que já foi decidido algo pelas costas dele.
Como pegar a tempo: Marcar hora e lugar em quarenta segundos, entregar ali apenas informação sobre o processo, e falar com o paciente antes. Registrar a autorização dele para que a família participe — o art. 73 do Código de Ética não abre exceção por parentesco.
O dano: É tecnicamente verdadeiro e funcionalmente um abandono. Devolve a pessoa ao corredor sem nada com que decidir, ensina que perguntar é inútil e empurra a família para fontes piores. O Manual registra o contrário: incluir a incerteza no diálogo aumenta a satisfação de quem participa.
Como pegar a tempo: Usar a incerteza como começo de frase e não como fim. Três coisas que você sabe: a faixa, o que a encurtaria ou alongaria, e o que a equipe vai fazer nos próximos dias independentemente da resposta.
O dano: Faixa dita sem margem vira promessa. Quando o paciente morre na segunda semana de uma faixa de "semanas a meses", a família não conclui que a estimativa era incerta: conclui que foi enganada, e a partir daí duvida de tudo o que a equipe disser, inclusive sobre conforto.
Como pegar a tempo: Dizer a margem em voz alta na mesma frase e voltar ao assunto quando o quadro mudar, nomeando a causa da mudança. Prognóstico corrigido com causa declarada é aceito; correção silenciosa vira desconfiança.
O dano: Sem prazo, a tentativa vira rotina e ninguém consegue interrompê-la, porque parar passa a parecer desistir de alguém. É assim que se chega ao décimo dia de uma medida que ninguém defende e que ninguém tem autorização emocional para suspender.
Como pegar a tempo: Combinar os três itens antes de começar: o que se tenta, até quando, e qual o critério objetivo de parada, dito na linguagem do paciente. E dizer o que não muda em nenhum dos cenários — o conforto continua.
O dano: São dois erros com o mesmo desfecho. A família que ouve duas versões para de decidir sobre o paciente e passa a arbitrar entre médicos. A conversa não registrada simplesmente não existe às três da manhã, quando quem está de plantão não participou de nada e propõe o que já tinha sido descartado.
Como pegar a tempo: Cinco minutos de equipe antes, com uma pergunta só: o que a gente responde se perguntarem quanto tempo. E registro no mesmo dia, com a decisão fundamentada, o prazo, o critério de parada e uma linha de conduta explícita para a piora noturna. Um teste rápido fecha os dois: leia o que você escreveu fingindo ser o plantonista que chega às sete da noite sem ter visto o paciente. Se ele não descobrir em um minuto o que foi combinado, com quem e até quando, o texto ainda não protege ninguém — e a proteção que falta é a do paciente, não a sua.
O que dizer ao paciente e à família
Sete situações, com a frase pronta e o que evitar. As frases são curtas de propósito: numa conversa carregada, a pessoa retém pouco, e o que ela retém é o começo e o número — por isso não há número em nenhuma delas.
Duas regras atravessam as sete. A primeira é dizer a margem na mesma frase em que se diz a faixa, e não depois, num parágrafo de ressalva que ninguém vai lembrar. A segunda é calar depois de cada uma delas: o silêncio de dez segundos parece constrangedor de dentro e é o pedaço mais produtivo da conversa, porque é nele que a pessoa formula a pergunta que ela veio fazer de verdade. Quem preenche o silêncio com explicação técnica troca a pergunta do outro por uma aula, e sai da sala achando que foi claro.
"Doutor, quanto tempo ele tem?", no corredor, com o paciente lúcido no quarto
“"Essa é a pergunta mais importante que a senhora podia fazer, e é por isso que eu não vou responder aqui em pé. Dez e meia, na sala do lado do posto. Antes eu preciso conversar com o seu pai, porque a informação é dele; se ele autorizar, a gente conversa os três juntos."”
Não diga: Responder ali, mesmo que baixinho. E dizer "depois a gente conversa" sem hora e sem lugar — sem isso, é dispensa, e a pessoa vai buscar a resposta com o próximo jaleco que passar.
A insistência: "mas o senhor não pode nem me dar uma ideia? Um chute?"
“"Posso dar a ideia, e é essa: a gente está numa faixa de semanas a meses. Pode ser bem menos se ele tiver outra crise como a de anteontem, e pode ser mais se ele estabilizar em casa. O que eu não vou dar é um número, porque qualquer número que eu desse ia estar errado e a senhora ia medir a gente por ele."”
Não diga: Ceder "só um número aproximado". O algarismo é a única parte da conversa que sobrevive intacta, e ele sobrevive sem nenhuma das ressalvas que você colocou em volta. Também não funciona a saída de dizer o número "da literatura" como se fosse de outra pessoa: para quem ouve, quem disse foi você, e é por ele que a equipe vai ser medida quando a data passar.
"E se fosse seu pai, o senhor faria o quê?"
“"Eu não sei o que eu faria como filho, e sinceramente isso não deveria pesar aqui. Mas a senhora está me pedindo uma recomendação, e eu tenho uma: eu tentaria mais quarenta e oito horas com a máscara à noite e combinaria agora o que a gente faz se não melhorar. Se a senhora pensa diferente, a gente muda."”
Não diga: Devolver a pergunta ("mas não é meu pai") ou responder com estatística. As duas coisas soam como recusa de ajudar, e o que estava sendo pedido era ajuda para decidir.
"O outro médico falou diferente do senhor"
“"A senhora tem razão em ficar confusa, e isso é problema nosso, não seu. Eu vou conversar com ele hoje e a gente volta aqui com uma resposta só. Se depois disso ainda restar diferença de opinião, a senhora tem direito a pedir uma segunda opinião, e eu ajudo a organizar."”
Não diga: Explicar por que o colega está errado, ou desconversar com "cada um tem sua visão". A primeira quebra a equipe na frente da família; a segunda transfere para ela o trabalho de arbitrar entre médicos. E evite prometer o alinhamento sem prazo: "eu vou conversar com ele" sem dizer quando volta a ser dispensa, e a família passa a esperar no corredor de novo, que é onde tudo começou.
"Me promete que ele vai sair daqui, doutor?"
“"Eu não posso prometer isso, e se eu prometesse a senhora não poderia confiar em mais nada que eu dissesse. O que eu posso prometer é o que depende de nós: que ele não vai ficar com falta de ar sem a gente tratar, que a senhora vai saber de qualquer mudança antes de qualquer decisão, e que ninguém vai fazer nada nele sem conversar com vocês."”
Não diga: A promessa de conforto genérica ("fica tranquila que vai dar tudo certo"). Ela alivia por uma hora e destrói a confiança na primeira piora — e a piora vem.
"Então não tem mais nada a fazer"
“"Tem muita coisa, e eu vou dizer exatamente o que é. O que a gente decidiu não fazer foi a intubação, porque ela não devolve o pulmão dele. O que a gente vai fazer é morfina para a falta de ar, o oxigênio no conforto dele, remédio se a angústia apertar de madrugada, e a senhora podendo entrar fora do horário."”
Não diga: Concordar por cansaço, ou responder no conceitual ("paliativo não é desistir"). Quatro itens concretos apagam a frase melhor do que qualquer explicação sobre o que cuidados paliativos são.
"Ele me perguntou se vai morrer. O que eu respondo?"
“"A senhora não precisa carregar isso sozinha. Se ele perguntou, ele quer saber, e quem tem a obrigação de responder sou eu. O que ajuda muito é a senhora estar do lado quando eu responder. Ele vai perguntar de novo, e a resposta vai ser a mesma nas duas vezes — é isso que faz ele confiar."”
Não diga: Instruir a família sobre o que dizer, ou pedir que ela adie o assunto. Transferir a conversa para o acompanhante o deixa sozinho com uma tarefa que não é dele e produz duas versões dentro da mesma família.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
A informação é devida e não depende de pedido — Código de Ética Médica (CFM 2.217/2018, em vigor desde 30/04/2019)
O art. 34 tipifica como infração ética deixar de informar ao paciente o diagnóstico, o prognóstico, os riscos e os objetivos do tratamento. A redação não condiciona o dever a uma pergunta do paciente: o silêncio da pessoa não é dispensa. Somado ao Princípio Fundamental XXI, que fala em aceitar as escolhas do paciente sobre procedimentos, o desenho é de um paciente que decide — e quem não sabe o prognóstico não está decidindo, está concordando.
Conselho Federal de Medicina, Resolução CFM nº 2.217/2018 — Código de Ética Médica, art. 34 e Princípio Fundamental XXI
A quantidade de informação se individualiza, e há quem não queira — Manual de Cuidados Paliativos (MS/HSL/CONASS, 2023) e Recomendação CFM nº 1/2016
O capítulo 5 do Manual registra que nem todos os pacientes desejam ser informados sobre os detalhes do seu prognóstico e que a comunicação deve ser individualizada. A Recomendação CFM nº 1/2016, no item que trata da recusa do paciente de receber informação, reconhece a hipótese de quem não deseja saber e acrescenta que recusar receber informação não significa necessariamente recusar o consentimento: o paciente pode preferir que o médico decida. Informar quem não quer ouvir é dano, não é cumprimento de dever.
Manual de Cuidados Paliativos, 2ª ed., MS/HSL/CONASS, 2023, cap. 5; Recomendação CFM nº 1/2016, item 10.3
Pela pergunta que separa as duas posições sem escolher entre elas: a dose é do paciente, a oferta é sua. Antes de qualquer conteúdo, ofereça — "a gente nunca conversou sobre o que esperar daqui para frente; o senhor quer que eu fale disso?" — e pergunte o formato: tudo, com prazo e número, ou só o que muda o que a equipe vai fazer. Oferecer cumpre o art. 34; aceitar a recusa cumpre a individualização. Registre as duas coisas no prontuário, com data: que foi oferecido e o que ele respondeu. E ofereça de novo depois, porque a dose muda com o tempo e a recusa de hoje não é permanente.
O privilégio terapêutico é legítimo e tem técnica própria — Recomendação CFM nº 1/2016 (21/01/2016)
O documento nomeia a hipótese e a disciplina: quando a revelação da verdade sobre a saúde puder causar prejuízo psicológico grave, o médico pode omitir, recomendando o uso prévio do protocolo SPIKES ou técnica similar para oferecer a maior quantidade possível de informação sem trauma. Duas travas acompanham a permissão: a duração da omissão deve restringir-se ao período em que a necessidade dela perdurar, e o representante legal, se houver, é comunicado da decisão. É uma pausa com prazo e com prestação de contas, não um poder discricionário.
Conselho Federal de Medicina, Recomendação CFM nº 1/2016, itens 10.1 e 10.2
A exceção se lê restritivamente, sob pena de virar autoridade sobre o paciente — Código de Ética Médica, arts. 24 e 31
O art. 24 veda deixar de garantir ao paciente o exercício do direito de decidir livremente sobre sua pessoa ou seu bem-estar, e veda expressamente que o médico exerça sua autoridade para limitá-lo. O art. 31 veda desrespeitar o direito do paciente ou do representante legal de decidir sobre práticas diagnósticas ou terapêuticas, com ressalva apenas para o iminente risco de morte. Lido em conjunto, o "dano" do art. 34 não pode significar o desconforto previsível de uma notícia ruim, sob pena de a exceção engolir o dever — e o julgamento sobre esse dano é do médico, o que o torna estruturalmente suspeito.
Conselho Federal de Medicina, Resolução CFM nº 2.217/2018 — Código de Ética Médica, arts. 24, 31 e 34
Pelo que é verificável no paciente à sua frente, e não pela sua previsão do sofrimento dele. Sofrimento esperado diante de uma notícia grave é reação, não dano — o dano da exceção é um agravo clínico previsível e identificável, como descompensação psiquiátrica em quem já tem transtorno grave. Na dúvida, o caminho intermediário resolve quase todos os casos sem invocar exceção nenhuma: pergunte a dose e informe por etapas, respeitando o ritmo. Se optar por omitir, escreva no prontuário o motivo clínico, quem foi comunicado no lugar do paciente, e a data em que a decisão será reavaliada. Omissão sem data escrita não é privilégio terapêutico — é esquecimento com nome bonito.
O ônus é de quem quer parar — Código de Ética Médica, art. 32, e Resolução CFM nº 2.232/2019, art. 11
O art. 32 veda deixar de usar todos os meios disponíveis de diagnóstico e tratamento cientificamente reconhecidos e ao alcance, em favor do paciente. Os arts. 22 e 31 abrem exceção ao consentimento justamente em caso de risco iminente de morte, e o art. 11 da Resolução CFM nº 2.232/2019 é explícito: em urgência e emergência que caracterizem iminente perigo de morte, o médico deve adotar todas as medidas necessárias e reconhecidas para preservar a vida, independentemente da recusa terapêutica. Enquanto houver dúvida sobre reversibilidade, tratar é a posição de partida.
Conselho Federal de Medicina, Resolução CFM nº 2.217/2018, arts. 22, 31 e 32; Resolução CFM nº 2.232/2019, art. 11
O ônus é de quem quer continuar — Código de Ética Médica, art. 41, parágrafo único, e Resolução CFM nº 1.805/2006
O parágrafo único do art. 41 determina que, na doença incurável e terminal, o médico ofereça todos os cuidados paliativos disponíveis sem empreender ações diagnósticas ou terapêuticas inúteis ou obstinadas, levando em conta a vontade expressa do paciente. A Resolução CFM nº 1.805/2006 permite, no art. 1º, limitar ou suspender procedimentos que prolonguem a vida do doente em fase terminal de enfermidade grave e incurável, exigindo apenas que a decisão seja fundamentada e registrada. Aqui é continuar que precisa de justificativa, e a justificativa é o benefício demonstrável.
Conselho Federal de Medicina, Resolução CFM nº 2.217/2018, art. 41, parágrafo único; Resolução CFM nº 1.805/2006, art. 1º, caput e §§ 1º e 2º, e art. 2º
Pela pergunta de fato que separa os dois artigos, que não é ética e sim clínica: esta complicação é reversível ao patamar funcional que este paciente tinha há dois ou três meses? Se a resposta é sim ou talvez, o art. 32 governa e a conduta é tentar — com prazo e critério de parada combinados antes, para que a tentativa não se transforme na obstinação que o art. 41 proíbe. Se a resposta é não, o art. 41 governa e continuar deixa de ser cuidado. As duas posições são do mesmo Código e não se contradizem quando se percebe que elas descrevem momentos diferentes da mesma doença; o erro é aplicar uma delas sem ter respondido à pergunta da reversibilidade — e quem responde a essa pergunta é a trajetória funcional do paciente, não a vontade da equipe de não errar.
O raciocínio, em voz alta
Terça-feira, sete e trinta e cinco. Mesma ala do segundo andar, leito 4: dona Iolita Brustolin, 84 anos, 44 quilos, demência avançada há sete anos. Ela não anda desde o ano passado, fala uma ou outra palavra isolada no dia, não se senta sem apoio e é alimentada pela filha, de colher, muito devagar. Está no quarto dia de internação por pneumonia aspirativa — a terceira em oito meses. Recebeu antibiótico, melhorou da febre e do leucograma, e continua com secreção, engasgando com a dieta pastosa. O filho, o Amadeu, chegou de outra cidade ontem à noite e está no corredor desde as sete. Ele espera você sair do quarto e faz duas perguntas seguidas: "quanto tempo ela tem, doutor?" e "por que ninguém falou nada disso antes?".
o que eu penso antes de abrir a boca
A segunda pergunta é a mais importante das duas, e ela não é uma queixa: é a informação de que essa família nunca teve uma conversa de prognóstico, em sete anos de doença e três internações em oito meses. Isso muda a ordem do meu trabalho — antes de responder tempo, eu preciso saber o que ele entende por demência. E há o problema do titular: dona Iolita não tem capacidade de expressar vontade, então quem recebe a informação e decide é o representante dela; eu preciso saber quem é, e se é o Amadeu ou a filha que a alimenta de colher todos os dias. Não é a mesma coisa, e supor errado aqui cria um conflito familiar que vai durar a internação inteira.
a trajetória, em três minutos de prontuário
Fragilidade e demência, que é a terceira das trajetórias que a ferramenta de triagem do Manual usa. No estadiamento funcional da demência, dona Iolita está no sétimo estágio: perdeu a fala útil e perdeu a deambulação. O Manual registra que, em fase avançada, a média de sobrevida gira em torno de seis meses quando ao estágio se somam complicações do último ano — e ela tem três das que a lista nomeia: pneumonia aspirativa de repetição, perda de peso e incapacidade de manter ingesta adequada. O mesmo capítulo faz a ressalva que eu preciso levar para a conversa: a avaliação prognóstica na demência não costuma ser acurada. Isso não me impede de falar; determina a largura da faixa que eu vou dizer.
a ancoragem que não sai da minha cabeça
Eu calculo para mim e para a equipe, não para o Amadeu. Estágio funcional sétimo com perda de deambulação, três pneumonias aspirativas em oito meses, 44 quilos com perda progressiva, dependência total. Faço a pergunta-gatilho: eu me surpreenderia se ela morresse nos próximos doze meses? Não, de jeito nenhum. Isso confirma que a conversa está atrasada em vários anos e que a minha faixa interna é de semanas a meses, com risco alto de encurtar a cada aspiração. Nada disso vira número na sala.
a sala, e a resposta à segunda pergunta primeiro
Chamo os dois filhos, fecho a porta, sentamos. Começo pela pergunta que ele fez em segundo lugar, porque é a que está doendo: "o senhor tem razão de estar bravo, e eu não vou explicar por que ninguém falou. Vamos falar agora." Depois pergunto o que eles entendem da doença. O Amadeu diz que a mãe "está com esquecimento". A irmã, que a alimenta todo dia, diz uma frase mais precisa: "ela está indo embora devagar". As duas frases na mesma sala explicam por que a família parece dividida — eles não estão discordando de conduta, estão em pontos diferentes do mesmo caminho.
a frase de prognóstico, com a margem larga que o caso exige
"A demência da mãe de vocês chegou na parte final. Eu não sei dizer quanto tempo, e nesse tipo de doença a gente erra mais do que nas outras — mas a faixa em que eu trabalho é de semanas a meses, e não de anos. O que encurta muito é cada engasgo que vira pneumonia: foram três em oito meses, e cada uma dessas deixa ela pior do que estava antes. O que a gente não consegue mais é fazer ela voltar a andar ou a falar." E aí eu calo e conto até dez. A irmã chora; o Amadeu pergunta se foi culpa dela ter deixado a mãe em casa. Essa pergunta é respondida antes de qualquer coisa técnica.
a pergunta que decide a internação, feita a eles
Não pergunto o que eles querem que eu faça — isso transfere o peso e é injusto. Pergunto o que ela diria. "Antes de adoecer, o que a dona Iolita falava sobre isso? Ela chegou a dizer alguma coisa sobre hospital, sobre sonda, sobre não querer ficar dependendo de máquina?" A irmã lembra de uma frase dita anos atrás, sobre uma vizinha: "eu não quero ficar naquilo". Essa frase vale mais do que qualquer opinião dos dois hoje, e vai para o prontuário nas palavras dela.
o que fica combinado, com prazo e critério
Combino três coisas concretas. Primeira: completar o antibiótico e a dieta ajustada, com fonoaudiologia, até sexta — e reavaliar juntos se ela consegue comer sem engasgar. Segunda: se na sexta ela continuar engasgando, a decisão não vai ser sonda automática nem alta apressada, vai ser uma conversa sobre alimentação de conforto, com eles na sala. Terceira: se piorar antes disso, ninguém intuba e ninguém leva para terapia intensiva sem falar com eles — o combinado é conforto, e eu escrevo isso hoje. Digo em voz alta o que não muda em nenhum cenário: ela não vai ficar com falta de ar sem tratamento e a visita fica liberada.
o que eu não faço, e por quê
Não peço parecer da equipe de cuidados paliativos como forma de terceirizar a conversa — essa conversa é da equipe que assiste, e o parecer viria depois, para o que for específico. Não uso as palavras "não há mais nada a fazer" em momento nenhum, porque elas não correspondem a norma brasileira alguma: o parágrafo único do art. 41 do Código de Ética manda oferecer todos os cuidados paliativos disponíveis, e o art. 2º da Resolução CFM nº 1.805/2006 assegura os cuidados de alívio, a assistência integral e o direito à alta hospitalar. Não digo um número, nem quando o Amadeu pede, nem em forma de "mais ou menos". E não decido a questão da sonda hoje: ela virou o centro emocional da conversa da família e ainda não tem a informação que ela precisa, que é o resultado da avaliação de deglutição de sexta-feira.
o que eu escrevo, e por que essa é a parte que sobra
Registro no mesmo dia: quem estava na sala e o vínculo de cada um; que a paciente não tem capacidade de expressar vontade; a frase que a família atribui a ela, entre aspas; a faixa de tempo dita, com as palavras usadas — semanas a meses — e não a tradução "prognóstico reservado"; a decisão fundamentada de não escalonar suporte, com o motivo clínico; o prazo da reavaliação, sexta-feira, e o critério objetivo; e uma linha final para quem chegar no plantão da noite, dizendo que em caso de piora a conduta combinada é conforto e chamar a família. Sem essa última linha, tudo o que aconteceu nesta manhã pode ser desfeito às três horas por alguém que não estava aqui — e não seria culpa dele.
Faça você
Quinta-feira, dez e vinte. Leito 11 da mesma ala: senhor Teodoro Verzignassi, 66 anos, câncer de pulmão com metástases hepáticas diagnosticado há oito meses, internado há cinco dias por pneumonia. Ele passa mais de metade do dia deitado, emagreceu nove quilos em três meses e está com falta de ar aos mínimos esforços. Ele está lúcido e já disse a você que quer saber de tudo. A filha, a Lidovina, te procura no posto muito alterada: na terça, o oncologista disse a ela que "ainda há uma linha de tratamento a tentar"; ontem à noite, o plantonista disse que "o quadro é terminal e não adianta insistir". Ela quer saber quem está certo, e quer saber hoje. Escreva o que você faz e o que você diz, em quatro etapas.
o que você faz antes de responder qualquer coisa a ela
Descreva o levantamento e a ordem: com quem você fala primeiro, o que você precisa saber sobre o paciente antes de falar com a filha, e por que a resposta à pergunta "quem está certo" não pode sair de você agora.
o alinhamento entre as duas equipes
Descreva a conversa com o oncologista e com o plantonista: qual é a pergunta única que você leva, quais são os quatro passos que o Manual propõe para o conflito entre equipes, e o que precisa ficar acordado antes de qualquer nova conversa com a família.
a conversa com o senhor Teodoro, que é o titular
Escreva as frases: como você abre, como pergunta a dose de informação, qual faixa de tempo você diz e com que margem, e o que você faz se ele pedir um número.
a resposta à Lidovina, sobre as duas versões
Escreva a frase que responde "quem está certo" sem desautorizar nenhum colega na frente dela, e diga o que você oferece formalmente se a divergência técnica permanecer.
Ver como fecharíamos
A pergunta "quem está certo" não se responde escolhendo um lado, e responder de improviso é o erro que fabrica um terceiro médico com uma terceira versão. Primeiro o levantamento: o senhor Teodoro passa mais de metade do dia na cama, e o capítulo 5 do Manual registra que, em câncer metastático com esse grau de deterioração funcional, o prognóstico estimado passa a ser de meses; a perda de nove quilos em três meses e a dispneia aos mínimos esforços somam marcadores gerais de pior prognóstico. Essa ancoragem é sua e da equipe — não é frase para a sala. Depois o alinhamento, com uma pergunta única levada às duas equipes: "o que a gente responde se a família perguntar quanto tempo?". Os quatro passos do Manual organizam essa conversa: partir de que a outra equipe está fazendo o que considera tecnicamente melhor; procurar entender as razões técnicas e bioéticas da proposta dela; lembrar que o paciente não é propriedade de nenhuma das equipes; e, persistindo o conflito, alinhar o plano aos valores e desejos do paciente. É comum descobrir que não há divergência de fato: "há uma linha a tentar" e "o quadro é terminal" podem ser as duas verdadeiras ao mesmo tempo, e o que faltou foi dizer as duas juntas com um prazo. Em seguida, o paciente, que é o titular e já disse que quer saber: "o senhor quer que eu fale de tempo, ou do que a gente vai fazer?", e então a faixa — semanas a meses, com o que a encurta e o que a alonga — sem número, mesmo sob insistência. Por fim, a resposta à Lidovina: "os dois disseram uma parte verdadeira, e a culpa de a senhora ter recebido isso em pedaços é nossa. Existe um tratamento que pode ser tentado, e o seu pai está numa fase avançada da doença — as duas coisas são verdade. A gente combinou o seguinte: tentar por duas semanas e reavaliar juntos, com um critério que eu vou escrever no prontuário e que o seu pai concordou." Se ainda assim restar divergência técnica de fundo, o oferecimento é formal e tem base: o § 3º do art. 1º da Resolução CFM nº 1.805/2006 assegura ao doente ou ao seu representante legal o direito de solicitar uma segunda opinião médica. Três coisas não podem aparecer na sua resposta, e cada uma delas é um modo diferente de errar. A primeira é explicar à filha por que um dos colegas está equivocado: isso quebra a equipe na frente dela e cria um terceiro médico com uma terceira versão, que é exatamente o problema que se quer resolver. A segunda é o "cada um tem sua visão", que soa diplomático e devolve a ela a tarefa impossível de arbitrar entre médicos. A terceira é conversar com a Lidovina antes de conversar com o senhor Teodoro: ele é maior, lúcido e já declarou que quer saber, então é dele a informação, e qualquer coisa acertada com a filha antes disso terá de ser refeita — e ele vai perceber. Por fim, o registro fecha o caso: quem estava, a faixa dita nas palavras usadas, o que ficou combinado com as duas equipes, o prazo, o critério de parada e a conduta em caso de piora noturna.
Doença avançada e complicação potencialmente tratável podem coexistir. Alinhar a informação exige tornar essa distinção compreensível, sem exigir uma frase única que esconda divergências reais.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Sem consultar o texto, resolva a cena de abertura: Explicar incerteza e pactuar tentativa terapêutica com metas e reavaliação, respeitando preferências de informação. Descreva os achados que sustentam a decisão, um erro evitável e o plano para mudança do quadro; depois compare com o caso resolvido.
Em 30 dias
Retome um caso real acompanhado sob supervisão ou simule o caso do capítulo. Explique o que mudou na sua decisão, confira se o próximo passo ocorreu e identifique uma melhoria concreta. Não use dados identificáveis fora do ambiente autorizado. Competência a demonstrar: Explicar incerteza e pactuar tentativa terapêutica com metas e reavaliação, respeitando preferências de informação.
Agora atenda
Agora atenda: enfermaria de clínica médica, terceiro dia de antibiótico. Dona Zulmira, 78 anos, internada por pneumonia, segue confusa e ainda precisa de oxigênio, e a filha, que ouviu da equipe duas versões diferentes, para você ao lado do leito: "ela vai sair dessa?". Descubra o que a família já sabe e o que a paciente consegue compreender, diga a incerteza sem número e sem abandono, e combine com a filha uma data de reavaliação e os sinais que ela também vai poder observar.
