Pediatria › Endocrinologia Pediátrica
O menor da fila
Baixa estatura e puberdade tardia: familiar, constitucional, deficiência de hormônio do crescimento e hipogonadismo
Interpretar estatura, velocidade de crescimento, potencial familiar e progressão puberal para distinguir variantes normais de doença, organizar a investigação e acompanhar a criança enquanto aguarda a endocrinologia.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos. Portaria Conjunta nº 28, de 30 de novembro de 2018. Aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Deficiência do Hormônio de Crescimento – Hipopituitarismo. Brasília: Ministério da Saúde, 2018.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Portaria Conjunta nº 15, de 1º de agosto de 2025. Aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Síndrome de Turner. Brasília: Ministério da Saúde, 2025 (Relatório de Recomendação Conitec nº 978/2025).
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Caderneta da Criança: Passaporte da Cidadania. 7ª edição. Brasília: Ministério da Saúde, 2024.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Portaria Conjunta nº 8, de 23 de junho de 2025. Aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença Celíaca. Brasília: Ministério da Saúde, 2025.
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. ISBN 978-65-5993-710-3.
Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento Científico de Endocrinologia. Avaliação do crescimento: o quê o pediatra precisa saber. Manual de Orientação nº 64. Rio de Janeiro: SBP, 8 de maio de 2023.
Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). Puberdade tardia. Femina. 2025;53(9):1110-3. Protocolo Febrasgo nº 37.
Persani L, Bonomi M, Cools M, Dattani M, Dunkel L, Gravholt CH, Juul A. ENDO-ERN expert opinion on the differential diagnosis of pubertal delay. Endocrine. 2021;71(3):681-8. doi:10.1007/s12020-021-02626-z.
Pediatric Endocrine Society. Child with Suspected Short Stature. Referral guideline. https://pedsendo.org/clinical-resource/child-with-suspected-short-stature/
Pediatric Endocrine Society. Child with Suspected Delayed Puberty. Referral guideline. https://pedsendo.org/clinical-resource/child-with-suspected-delayed-puberty/
Responda antes de ler
Menina de 8 anos tem estatura logo abaixo do escore-z −2, traçado paralelo à curva desde os 3 anos, velocidade de 5 cm por ano e exame físico normal. O pai mede 170 cm e a mãe 155 cm, ambos medidos na consulta. Qual é a altura-alvo dela pelo manual da Sociedade Brasileira de Pediatria, e o que falta para fechar o diagnóstico de baixa estatura familiar?
O paciente que você vai ver
Segunda-feira, oito da manhã, ambulatório de pediatria geral de um hospital universitário. Na lista do dia, entre uma asma e uma consulta de puericultura, está escrito à mão: “Kauã Pantoja, 14 anos e 3 meses — baixa estatura?”. O ponto de interrogação é da recepção. Quem entra primeiro é dona Rosimeire, com uma pasta de plástico debaixo do braço; o filho vem atrás, de moletom fechado num dia de calor, e se senta na cadeira mais longe da mesa. Ela fala antes de você perguntar: “Doutor, ele é o menor da sala desde sempre, mas agora ficou demais. Na fila da escola ele é o primeiro, os colegas já estão de voz grossa e ele continua com cara de menino. Largou o futebol porque apelidaram ele de mascote.”
Kauã não confirma nem desmente. Quando você pergunta o que ele acha, ele encolhe os ombros e diz que “tanto faz”, e a mãe responde por ele que não tanto faz, que ele chora no banho. A pasta tem o que muita família guarda sem saber que guarda um exame: a caderneta da criança com as medidas até os 10 anos, duas fichas da unidade básica e uma folha da escola com a altura medida pela professora de educação física aos 12 anos e aos 13 anos e 3 meses. Você copia os números num papel antes de olhar para o menino de novo — 136,5 cm aos 12 anos, 141,5 cm aos 13 anos e 3 meses — e mede-o no estadiômetro da sala: 145,6 cm, a mesma coisa nas duas medidas.
Dona Rosimeire traz também uma teoria e um pedido. A teoria é do marido, seu Josenildo, que ficou trabalhando: “O pai dele diz que foi igual, que só cresceu depois do quartel, que com 17 anos ainda não tinha buço.” O pedido é da vizinha: “Me falaram de uma injeção de hormônio do crescimento. Se for isso, a gente dá um jeito.” Ela conta que a própria menstruação veio aos 15 anos, que a mãe dela achava que ela ia ficar pequena e que hoje tem 1,57 m. O parto de Kauã foi a termo, ele nasceu com 3.180 g e 49 cm, nunca internou, come bem, não tem diarreia nem dor de barriga, não toma remédio nenhum.
Você faz a conta que a caderneta não faz. Os pontos antigos caminham paralelos à curva, abaixo da mediana, até os 10 anos. Dos 12 anos em diante ele cresceu 4 cm por ano — pouco para quem tem 14, justo na idade em que os colegas estão crescendo o dobro disso — e, no gráfico da OMS de 5 a 19 anos, o ponto de hoje ficou logo abaixo da linha do escore −2. Com a mãe de 157 cm e o pai referido de 1,71 m, a altura-alvo dele passa de 170 cm. O menino está baixo para a idade e ainda sem sinais visíveis de puberdade; a comparação com o potencial familiar exige interpretar sua trajetória e maturação.
A preceptora entra, olha os números por cima do seu ombro e faz duas perguntas curtas antes de chamar o próximo paciente: “É constitucional ou é doença? E como você vai saber sem pedir tudo?” Ela sai e deixa na mesa, sem comentar, o colar de contas ovais de tamanhos crescentes que fica na gaveta do ambulatório.
Este capítulo é a resposta às duas perguntas. A primeira parte — quem é baixo de verdade, quais são as duas variantes normais e o que é doença — decide se Kauã volta para casa tranquilizado, com uma lista de exames ou com um encaminhamento. A segunda — por que a puberdade não veio — decide o que se pede e, sobretudo, o que não se pede: o teste de hormônio de crescimento feito na hora errada é o jeito mais seguro de transformar um menino atrasado num paciente com um diagnóstico que ele não tem.
Quem adoece disso
Baixa estatura é, antes de tudo, uma definição estatística, e isso explica quase toda a epidemiologia do assunto. A linha do escore-z −2 corresponde, como lembra o manual de avaliação do crescimento da Sociedade Brasileira de Pediatria, ao percentil 2,28: por construção, pouco mais de duas em cada cem crianças saudáveis ficam abaixo dela. O interno que atende uma criança abaixo da linha está, na grande maioria das vezes, diante de uma criança normal que mora na cauda da distribuição. O trabalho é achar, sem exame em excesso, a minoria que não é — e o próprio protocolo federal da síndrome de Turner dá a ordem de grandeza da fila: com exceção da baixa estatura familiar e do atraso constitucional, Turner é a causa mais comum de baixa estatura em meninas saudáveis.
O atraso constitucional do crescimento e da puberdade é a causa mais comum de puberdade atrasada, e na prática clínica é muito mais frequente em meninos do que em meninas, segundo a opinião de especialistas da rede europeia de doenças endócrinas (2021). A puberdade fisiológica começa entre 8 e 13 anos na menina e entre 9 e 14 anos no menino, e é por isso que o menino de 14 anos sem aumento testicular chega ao ambulatório: ele é, ao mesmo tempo, o paciente mais comum e aquele cujo diagnóstico só se confirma de trás para a frente, quando a puberdade enfim começa. O custo de chamar tudo de constitucional também tem número: o manual da sociedade brasileira registra uma perda estatural da ordem de 4,2 cm nas crianças com atraso constitucional que não são tratadas, e a rede europeia acrescenta baixa autoestima e problemas de comportamento quando o diagnóstico é empurrado para mais tarde.
A síndrome de Turner ocorre em cerca de 1 em cada 2.000 a 2.500 nascidas vivas, e a idade do diagnóstico é o dado que interessa ao interno. Pelo protocolo de 2025, entre um quinto e um terço das meninas são reconhecidas ao nascer, pelo inchaço de mãos e pés ou pela pele redundante da nuca; cerca de um terço recebe o diagnóstico na metade da infância, justamente numa investigação de baixa estatura; e a maioria das restantes só é descoberta na adolescência, quando não entra na puberdade, ou na vida adulta, por perdas gestacionais. Entre 40% e 50% têm cariótipo 45,X e entre 15% e 25% têm mosaicismo 45,X/46,XX, e a puberdade espontânea aparece em cerca de 14% das primeiras e em um terço das segundas. Cada ano sem cariótipo numa menina baixa é um ano a menos de somatropina, que funciona melhor quanto mais cedo começa.
A doença celíaca é a causa de baixa estatura que mais se esconde, porque na criança pode não ter diarreia nenhuma. O protocolo federal de 2025 cita uma prevalência de 0,9% em crianças contra 0,5% em adultos, estimativas brasileiras que vão de 1 caso em 214 a 1 caso em 681 pessoas conforme a cidade, e um subdiagnóstico em que, para cada caso reconhecido por sintomas, haveria de três a sete pessoas oligo ou assintomáticas sem diagnóstico. A baixa estatura está na lista das manifestações extraintestinais, ao lado da anemia ferropriva e da osteoporose. A desnutrição crônica, que também deixa a criança baixa, tem epidemiologia e manejo próprios no capítulo O risco não é a fome, da apostila de Nutrologia Pediátrica.
O hipogonadismo hipogonadotrófico congênito é raro e é o diagnóstico que mais se confunde com o atraso constitucional, porque os dois têm gonadotrofinas baixas na adolescência. A rede europeia registra que se identifica causa genética em cerca de metade dos casos e que o defeito de olfato — que define a síndrome de Kallmann — afeta menos da metade das pessoas com hipogonadismo congênito. A consequência prática é dura: perguntar pelo cheiro é obrigatório, mas olfato normal não afasta a doença.
Quando a doença existe e é tratada, o ganho é real e mensurável, e é bom conhecer os números antes de conversar com a família. O protocolo da deficiência de hormônio de crescimento admite que a evidência de tratar contra não tratar é magra: um único ensaio randomizado, aberto e com limitações de método, em que 77 crianças fizeram testes de estímulo e só 19, com deficiência, puderam ser comparadas entre tratadas e não tratadas. Depois de um ano, as tratadas tinham escore de estatura de −2,3 contra −2,8 e velocidade de 8,4 contra 5,7 cm por ano. Na síndrome de Turner, onde não há falta do hormônio, o protocolo de 2025 estima um ganho de cerca de 7,22 cm na estatura final (intervalo de confiança de 95% de 5,27 a 9,18 cm), com efeito maior quanto mais cedo o tratamento começa e quanto mais tempo dura antes da puberdade.
Por que acontece o que acontece
A criança cresce com motores diferentes em cada fase, e cada motor falha de um jeito. No feto o hormônio de crescimento pesa pouco: os grandes agentes são os fatores de crescimento semelhantes à insulina — o IGF-2 numa fase inicial, o IGF-1 depois —, e por isso, como descreve o manual de avaliação do crescimento da Sociedade Brasileira de Pediatria, a criança que nasce pequena para a idade gestacional não tem a deficiência de hormônio de crescimento como primeira hipótese. Depois do nascimento, o eixo do hormônio de crescimento assume o comando e a criança entra num canal: a velocidade despenca de uns 25 cm no primeiro ano de vida para algo entre 10 e 13 cm no segundo, e segue caindo — por volta de 7 cm por ano dos 2 aos 4 anos, 6 cm dos 4 aos 6, e perto de 5 cm anuais daí até a véspera da puberdade. Fora do intervalo entre meio ano e um ano e meio de idade, quando se acomoda ao canal do seu potencial genético, a criança saudável não troca de percentil de altura. Na puberdade vem o único estirão da vida — 8 a 10 cm por ano nas meninas, junto com o broto mamário, e 10 a 12 cm por ano nos meninos, mais tarde, no estágio 3 de Tanner, com testículos de 10 a 12 mL — e ele dura cerca de dois anos.
O hormônio de crescimento age em boa parte por meio do IGF-1, e é daí que nasce a tentação de usar o IGF-1 como triagem. O protocolo federal de 2018 corta a tentação em duas frases: a dosagem é relevante, mas tem baixa especificidade isoladamente; e um valor acima da média para idade e sexo é forte evidência contra a deficiência. A assimetria é a lição. O IGF-1 depende também da nutrição e sobe com a puberdade, de modo que um adolescente magro ou ainda pré-púbere pode ter IGF-1 baixo para a idade cronológica sem nenhuma falta de hormônio de crescimento. IGF-1 alto tranquiliza; IGF-1 baixo só abre uma pergunta.
O atraso constitucional é um relógio biológico que anda devagar em tudo ao mesmo tempo. A criança costuma crescer num canal baixo, com velocidade normal, e a idade óssea — a maturação das epífises vista na radiografia de mão e punho — fica atrás da idade cronológica. Na véspera da puberdade todo mundo desacelera, e o menino atrasado desacelera por mais tempo: aos 13 ou 14 anos ele cresce 4 cm por ano enquanto os colegas, já no estirão, crescem 8 a 10. Comparado com a curva da idade cronológica, ele parece cair de canal; comparado com a sua idade óssea, está exatamente onde deveria estar. Como as epífises fecham sob o estímulo dos esteroides sexuais, a idade óssea atrasada significa mais tempo de crescimento pela frente — mas não compensa tudo: o manual da sociedade brasileira registra perda da ordem de 4,2 cm quando o atraso não é tratado, e lembra que o estirão não resolve a estatura de quem entra na puberdade abaixo do próprio alvo.
A baixa estatura familiar é outra coisa: um canal baixo com relógio normal. A criança cresce paralela à curva, com velocidade normal, idade óssea compatível com a idade cronológica e puberdade na época esperada, e chega a uma altura final coerente com a dos pais. O cálculo que traduz isso é a altura-alvo: a soma das alturas do pai e da mãe, com 13 cm acrescentados para o menino ou subtraídos para a menina, dividida por dois, com margem de 5 cm para cada lado. O manual da sociedade brasileira faz a ressalva que protege a criança de um falso conforto: pais baixos podem ter, eles mesmos, uma doença de crescimento transmitida geneticamente, e aí a família inteira segue um padrão que parece normal por ser familiar.
A puberdade depende de um eixo que já funcionou antes. O eixo hipotálamo-hipófise-gônada é ativado no feto e no recém-nascido, silencia na infância e volta a ligar quando o hipotálamo passa a liberar o hormônio liberador de gonadotrofinas em pulsos, que fazem a hipófise soltar hormônio luteinizante (LH) e folículo-estimulante (FSH) e as gônadas produzirem estradiol ou testosterona. O protocolo da Febrasgo sobre puberdade tardia (2025) chama o atraso constitucional de deficiência funcional desse hormônio liberador — o eixo está íntegro e demora a ligar — e lista o que o mantém desligado de propósito: doença crônica, desnutrição, transtorno alimentar e exercício físico intenso. No hipogonadismo hipogonadotrófico congênito o eixo não liga por defeito dos neurônios que produzem o hormônio liberador, e na síndrome de Kallmann o defeito vem junto com a falta de olfato. Os dois grupos têm LH e FSH baixos. Quando a falha é da própria gônada, a hipófise grita sem resposta: gonadotrofinas altas, o hipogonadismo hipergonadotrófico de Turner, de Klinefelter e da gônada lesada por cirurgia, radioterapia ou quimioterapia.
O mesmo relógio atrasado engana o teste de hormônio de crescimento. Os esteroides sexuais da puberdade aumentam a secreção desse hormônio, e o protocolo de 2018 avisa que, no período pré-puberal ou puberal inicial, sem estímulo endógeno suficiente, os testes de estímulo podem ser “falsamente negativos” — negativo, ali, no sentido de sem resposta: o hormônio não sobe e o laudo sugere uma deficiência que não existe. Por isso descreve o priming: dar estradiol à menina ou testosterona ao menino antes do teste, para que a hipófise seja examinada no ambiente hormonal em que ela deveria estar; crianças com velocidade baixa, estatura baixa para o alvo e idade óssea atrasada que respondem ao teste depois do priming são, diz o protocolo, mais provavelmente portadoras de atraso constitucional. A rede europeia de doenças endócrinas (2021) vai além e usa o próprio priming como teste e tratamento: o menino com atraso constitucional que recebe testosterona em dose baixa por alguns meses costuma acordar o eixo, e o testículo cresce; o que não cresce aponta para hipogonadismo congênito.
Na síndrome de Turner falta um cromossomo X inteiro ou parte dele, e duas consequências explicam quase tudo o que o interno vai ver. A primeira é a baixa estatura, que o protocolo de 2025 atribui a uma resposta diminuída ao hormônio de crescimento, não à falta dele — por isso a somatropina é dada em dose maior que na deficiência e o teste de estímulo não entra no diagnóstico. A segunda é a disgenesia gonadal: os ovários perdem os folículos, o estradiol não vem e a hipófise responde com gonadotrofinas altas. O mosaicismo explica o espectro: meninas 45,X/46,XX podem ter fenótipo discreto, estatura menos comprometida e puberdade espontânea, o que atrasa o diagnóstico. Quando há material do cromossomo Y, o risco de gonadoblastoma, de cerca de 10%, muda a conduta sobre as gônadas.
As doenças crônicas encurtam a criança por caminhos que a curva ajuda a separar. Na doença celíaca a mucosa do intestino delgado lesada pelo glúten absorve mal, e a forma extraintestinal pode se apresentar só com baixa estatura, sem diarreia. Na desnutrição e nas doenças inflamatórias o déficit de energia costuma cair primeiro no peso e depois na estatura. No hipotireoidismo adquirido acontece o oposto: a velocidade de crescimento cai enquanto o peso se mantém ou sobe — a combinação que o capítulo A linha, não o ponto, da apostila de Puericultura e Desenvolvimento, aponta como sinal de causa endócrina. O corticoide usado por muito tempo freia o crescimento por conta própria, e o manual da sociedade brasileira inclui entre os fatores externos do crescimento o ambiente psicossocial e a interação entre pais e filhos. Em todos esses casos, tratar a causa é o tratamento da estatura, e dar hormônio de crescimento seria tratar o número e não a criança.
Como se apresenta de verdade
O assunto chega ao interno por duas portas, quase sempre com a mesma frase da família. A primeira é a criança baixa — “é a menor da sala”, “o irmão mais novo já passou” — em qualquer idade, e a pergunta é se ela é baixa de verdade e, sendo, se é saudável. A segunda é o adolescente que não entrou na puberdade — a menina de 13 anos sem broto mamário, o menino de 14 com testículos de criança —, e a pergunta é se a puberdade está atrasada ou se não vai vir. As duas portas se cruzam no meio: o atraso constitucional é ao mesmo tempo a causa mais comum de baixa estatura no início da adolescência e de puberdade atrasada, e a síndrome de Turner é as duas coisas numa menina.
A fronteira com os vizinhos fica assim. A leitura da curva, o escore-z, a técnica de medida e o cálculo da velocidade são do capítulo A linha, não o ponto, na apostila de Puericultura e Desenvolvimento, que cede a investigação endócrina da criança baixa a esta apostila; aqui eles são usados e remetidos. A puberdade normal com os estágios de Tanner e a puberdade precoce são de Antes do tempo, e fora do roteiro, na apostila de Ginecologia. A amenorreia primária da adolescente e a conta do esquema de reposição de estrogênio da síndrome de Turner são de Amenorreia: em que andar parou, também de Ginecologia. O hipotireoidismo congênito é de O pezinho voltou alterado, nesta apostila; o hipopituitarismo e a deficiência de hormônio de crescimento do adulto, de O cortisol vem antes, na apostila de Endocrinologia; a desnutrição, de O risco não é a fome, na de Nutrologia Pediátrica; os transtornos alimentares, de O corpo conta primeiro, na de Psiquiatria; a doença renal crônica, de O rim que não volta, na de Nefrologia. Este capítulo assume o que os vizinhos declararam sem dono: a puberdade atrasada como entidade, com o atraso constitucional à frente, nos dois sexos; a baixa estatura familiar; a investigação da criança baixa e a deficiência de hormônio de crescimento na criança; a síndrome de Turner na menina baixa, com o cariótipo e a conversa sobre o resultado; e o hipogonadismo do menino. Assume também, só no reconhecimento, duas causas de baixa estatura que o nível não trata na criança: o hipotireoidismo adquirido e a doença renal crônica. A doença celíaca da criança tem capítulo — Diarreia persistente e crônica na criança e doença celíaca, na apostila de Gastroenterologia Pediátrica —; este capítulo fica com a triagem da criança baixa, e a indicação de biópsia, a dieta e o seguimento são daquele.
Quem é baixo de verdade: o ponto, a linha e a família
A Caderneta da Criança (7ª edição, 2024) classifica a estatura para a idade em três faixas: adequada a partir do escore-z −2, baixa entre −3 e −2, e muito baixa abaixo de −3. Os gráficos da caderneta terminam aos 10 anos; o adolescente é lido no gráfico da OMS de 5 a 19 anos, com as mesmas linhas. A caderneta também ensina a ler o desenho: a criança que cresce bem segue um traçado paralelo às linhas, acima ou abaixo da mediana, e qualquer mudança rápida para cima ou para baixo, ou um traçado horizontal, deve ser investigado.
Um ponto isolado diz só se a estatura é normal, baixa ou alta; não diz se a criança tem distúrbio do crescimento. O manual de avaliação do crescimento da Sociedade Brasileira de Pediatria (2023) dá o exemplo que desmonta o ponto: uma criança no percentil 50 pode ter deficiência de hormônio de crescimento se veio caindo de percentis mais altos. Por isso a baixa estatura se decide com três números, e não com um. O primeiro é a estatura em escore-z. O segundo é a velocidade de crescimento, em centímetros por ano, calculada entre duas medidas separadas por pelo menos seis meses. O terceiro é a altura-alvo, calculada com a altura dos pais medida, e não informada.
Com os três números na mão, o manual da sociedade brasileira manda considerar o encaminhamento ao endocrinologista pediátrico quando nenhuma doença crônica ou distúrbio nutricional explica o quadro e a criança está abaixo de −2 desvios-padrão, ou está a mais de 1,6 desvio-padrão abaixo do próprio alvo, anomalias congênitas, dismorfismos, baixa estatura desproporcionada, microcefalia, deficiência intelectual, ou nasceu pequena para a idade gestacional e não recuperou até os 4 anos. Kauã preenche o primeiro critério e está longe do alvo; o que falta saber é por quê.
Baixa estatura familiar: baixo, saudável e dentro do alvo
A criança com baixa estatura familiar tem um retrato coerente em todos os números. Cresce paralela à curva desde os primeiros anos, com velocidade normal para a idade; tem idade óssea próxima da idade cronológica; está dentro da faixa da própria altura-alvo; é proporcional, sem dismorfismo; e entra na puberdade na época esperada. A altura final dela vai ser baixa e saudável, e a conversa com a família é sobre isso: não há remédio para crescer além do canal que a família desenhou, e não há doença a tratar.
O diagnóstico, porém, só vale com os números conferidos, e três armadilhas mudam a conduta. A primeira é a altura dos pais informada de memória — medida na consulta, ela costuma encolher alguns centímetros e mudar o alvo. A segunda é a ressalva do manual da sociedade brasileira: pais baixos podem ter, eles mesmos, uma doença genética de crescimento, e uma família inteira abaixo da curva não é prova de normalidade. A terceira é a menina: a síndrome de Turner, com mosaicismo, pode morar numa menina baixa de pais baixos, e o protocolo federal de 2025 lista a baixa estatura entre os sinais que pedem cariótipo, sem condicionar à altura da família.
Esta apostila adota, por leitura do protocolo de Turner, que toda menina abaixo do escore-z −2 sem causa documentada faz cariótipo, inclusive quando os pais são baixos. No menino com os quatro dados coerentes — pais medidos, velocidade normal em pelo menos seis meses, idade óssea compatível e exame normal —, a baixa estatura familiar pode ser acompanhada na atenção básica com medida a cada seis meses, e o encaminhamento que o manual da sociedade brasileira manda considerar passa a ser eletivo, não urgente. Qualquer dado que não feche — velocidade caindo, alvo discordante, desproporção — tira a criança dessa gaveta.
Atraso constitucional do crescimento e da puberdade: tarde, mas chega
O atraso constitucional tem um retrato próprio, que o interno aprende a reconhecer antes de qualquer exame. A história familiar costuma estar lá — o pai que cresceu depois do quartel, a mãe que menstruou aos 15 —, e a rede europeia de doenças endócrinas lembra que a recorrência familiar é frequente. A criança nasceu com peso e comprimento normais, cresceu num canal baixo com velocidade normal e, na véspera da puberdade, desacelerou mais e por mais tempo que os colegas. A idade óssea está atrasada e a estatura cabe nela; o corpo é proporcional; não há sinal de doença crônica nem os sinais de alerta do hipogonadismo congênito. E a puberdade, que é o teste definitivo, chega sozinha — mais tarde.
O nome engana quem o usa como calmante. O atraso constitucional só é diagnóstico depois de afastados o hipogonadismo hipergonadotrófico e o hipogonadismo hipogonadotrófico congênito, diz a rede europeia, e separar este último na adolescência pode ser muito difícil: as gonadotrofinas são baixas nos dois, e nem a inibina B nem os testes com hormônio liberador ou com gonadotrofina coriônica se mostraram confiáveis para a separação. O que ajuda é o conjunto: baixa estatura com velocidade lenta e peso baixo apontam para as formas funcionais e constitucionais; crescimento normal na infância com proporções eunucoides aponta para o hipogonadismo congênito.
Nem por ser uma variante normal o atraso é inofensivo. O manual da sociedade brasileira registra perda estatural da ordem de 4,2 cm quando ele não é tratado, e a rede europeia desaconselha empurrar o diagnóstico para mais tarde por causa das consequências sobre a estatura e a autoestima. É por isso que Kauã não sai da consulta com um “espera que vem”: sai com números, com uma data de retorno e com o nome de quem vai discutir se ele se beneficia de um curso curto de testosterona.
O que é doença: a criança que sai do próprio canal
Os padrões que apontam doença são desenhos de curva antes de serem exames. A velocidade que cai e faz a criança cruzar linhas; a estatura abaixo de −3; a estatura muito longe do alvo; a desproporção entre tronco e membros ou os dismorfismos; a criança pequena para a idade gestacional que não recuperou até os 4 anos; o peso que se mantém enquanto a estatura desacelera, sugestivo de causa endócrina; o peso que cai antes da estatura, sugestivo de desnutrição ou doença crônica. Cada um desses desenhos pede uma pergunta diferente.
A deficiência de hormônio de crescimento é a doença que as famílias pedem e a que menos se encontra. O protocolo federal de 2018 indica investigá-la em seis situações: estatura abaixo de −3; estatura entre −3 e −2 com velocidade abaixo do percentil 25 da curva de velocidade; estatura acima de −2 com velocidade abaixo de −1 desvio-padrão em 12 meses; condição predisponente, como lesão intracraniana ou irradiação do sistema nervoso central; deficiência de outros hormônios hipofisários; e, no recém-nascido, hipoglicemia, icterícia prolongada, micropênis ou defeito de linha média. O mesmo protocolo manda excluir antes as displasias esqueléticas, a síndrome de Turner na menina e as doenças crônicas.
As causas que se escondem pedem triagem de rotina na criança baixa sem explicação. O hipotireoidismo adquirido freia a estatura com o peso preservado e se confirma com TSH e tiroxina livre. A doença celíaca pode não ter diarreia: o protocolo federal de 2025 manda triar com antitransglutaminase IgA e IgA total, com glúten na dieta, e inclui a baixa estatura na criança entre as indicações de biópsia duodenal mesmo com sorologia negativa. A doença renal crônica pode ser silenciosa até a creatinina. O corticoide usado por tempo prolongado, a desnutrição, o transtorno alimentar e o ambiente psicossocial adverso fecham a lista das perguntas que a anamnese faz antes de qualquer tubo. A criança nascida pequena para a idade gestacional que não recuperou vai ao endocrinologista: o protocolo de 2018 manda avaliá-la em centro de referência quando houver indicação de somatropina.
Síndrome de Turner: a menina baixa sem outra explicação
O protocolo federal de 2025 manda confirmar a síndrome por cariótipo diante de baixa estatura, puberdade tardia ou ausente, obstrução do lado esquerdo do coração e de sinais como pescoço alado, micrognatia, palato alto e estreito, implantação baixa das orelhas e fissuras palpebrais inclinadas para baixo com prega epicântica; a Febrasgo acrescenta cúbito valgo, nevos e implantação baixa dos cabelos. Na recém-nascida, o inchaço de mãos e pés e a pele redundante da nuca são a pista. Nenhum desses sinais é obrigatório, e as meninas com mosaicismo podem não ter nenhum: a estatura sozinha basta para pedir o exame.
O exame certo tem número: cariótipo com pelo menos 30 células, que detecta mosaicismo de 10% com 95% de confiança. Quando o cariótipo mostra cromossomo marcador ou em anel, o protocolo manda pesquisar material do cromossomo Y, porque ele muda a conduta sobre as gônadas. O resultado não fecha a consulta — abre o seguimento: o protocolo manda encaminhar a menina a serviço especializado, pedir ecocardiograma, ultrassonografia renal e audiometria, dosar a função tireoidiana e medir a pressão arterial ao diagnóstico, e rastrear doença celíaca a cada dois anos a partir dos 2 anos.
O que o SUS oferece à menina com Turner está no mesmo documento. A somatropina pode começar a partir dos 2 anos, quando há baixa estatura ou velocidade abaixo do normal, e funciona melhor quanto mais cedo começa e quanto mais anos de tratamento ela tiver antes da puberdade. A indução da puberdade é feita por volta dos 11 a 12 anos com estrogênio por via oral, depois de dosar LH e FSH anualmente a partir dos 11 anos; o esquema de doses, com a conta dos comprimidos, está em Amenorreia: em que andar parou.
A puberdade que não vem
A puberdade está atrasada quando os primeiros sinais não aparecem além da distribuição normal da população. Na menina, a régua brasileira é a da Febrasgo (2025): ausência de caracteres sexuais secundários aos 13 anos. No menino, a régua deste capítulo é a da rede europeia de doenças endócrinas (2021), porque o protocolo brasileiro aberto sobre o tema, o da Febrasgo, trata só da menina: testículo abaixo de 4 mL aos 14 anos, medido com o orquidômetro de Prader. O primeiro sinal de puberdade no menino é o testículo passar de 3 mL, e não os pelos: pelos pubianos e axilares isolados dependem sobretudo dos andrógenos da adrenal e não significam que o eixo gonadal ligou. A puberdade que começa e para no meio do caminho também é atraso. A leitura dos estágios de Tanner é do capítulo Antes do tempo, e fora do roteiro.

As causas se organizam em quatro grupos, e os dois primeiros são a maioria. O atraso constitucional: eixo íntegro que liga tarde. O hipogonadismo hipogonadotrófico funcional: eixo íntegro mantido desligado por doença crônica, desnutrição, transtorno alimentar ou exercício intenso — e a anorexia nervosa do adolescente, menino ou menina, tem dono em O corpo conta primeiro. O hipogonadismo hipogonadotrófico congênito, com ou sem anosmia, cujos sinais de alerta a rede europeia lista: criptorquidia, sobretudo bilateral, micropênis, defeito de linha média, fenda labial ou palatina, perda auditiva, anomalia renal, sincinesia bimanual e hipo ou anosmia. E o hipogonadismo hipergonadotrófico, com gonadotrofinas altas: a síndrome de Turner na menina, a de Klinefelter no menino — em que a rede europeia aponta dificuldade de aprendizagem como sinal — e a gônada lesada por cirurgia, radioterapia ou quimioterapia.
O desenho da estatura ajuda a apostar antes dos exames. O adolescente baixo, magro e com velocidade lenta está mais perto do atraso constitucional ou de uma forma funcional; o adolescente de estatura normal ou alta para a família, com braços e pernas compridos para o tronco, está mais perto do hipogonadismo congênito, que cresce normal na infância e segue crescendo porque as epífises não fecham. A aposta orienta a ordem dos exames, mas não dispensa nenhum sinal de alerta: um único deles tira o paciente da gaveta do atraso constitucional.
Como fechar o diagnóstico
A investigação da criança baixa e do adolescente sem puberdade tem uma ordem que economiza exames e protege o paciente de diagnósticos errados: primeiro os números que custam cinco minutos, depois o exame físico que a curva não mostra, depois uma primeira leva curta de exames, e só então, com o especialista, os testes que só fazem sentido em quem passou pelas etapas anteriores. O teste de hormônio de crescimento e a ressonância de sela ficam no fim da fila por um motivo técnico, não burocrático: feitos cedo, eles erram mais do que acertam.
1. Medir de novo e juntar os pontos antigos
Meça a criança de novo antes de acreditar em qualquer número, no instrumento certo para a idade, e registre as duas medidas; a técnica e a correção de 0,7 cm entre a medida deitada e em pé estão em A linha, não o ponto. Depois, recupere tudo o que houver de medida anterior: a caderneta, as fichas da unidade básica, a folha da escola. O manual da Sociedade Brasileira de Pediatria (2023) insiste nesse ponto: a sequência de medidas antigas costuma dizer mais do que a pilha de exames que a família traz na pasta.
Com duas medidas separadas por pelo menos seis meses, calcule a velocidade em centímetros por ano e compare com o esperado para a idade, que o mesmo manual põe em torno de 7 cm anuais dos 2 aos 4 anos, 6 cm dos 4 aos 6 e 5 cm daí até a puberdade. No adolescente, lembre que a comparação é com colegas que podem estar no estirão. Kauã cresceu 5,0 cm em 15 meses (4,0 cm por ano) e depois 4,1 cm em 12 meses: velocidade de pré-púbere aos 14 anos.
Meça os pais na consulta, de preferência os dois, e calcule a altura-alvo: pai mais mãe, mais 13 cm para o menino ou menos 13 cm para a menina, dividido por dois, com margem de 5 cm. Para Kauã, com pai de 171 cm e mãe de 157 cm medidos, o alvo é (171 + 157 + 13) ÷ 2 = 170,5 cm, faixa de 165,5 a 175,5 cm. Pergunte também a idade em que cada um entrou na puberdade, o peso e o comprimento de nascimento com a idade gestacional — o protocolo federal de 2018 exige esses dados para qualquer investigação de hormônio de crescimento.
2. O exame que a curva não mostra
As proporções vêm primeiro, porque separam a baixa estatura proporcionada da desproporcionada. Meça a envergadura, de ponta a ponta dos dedos médios com os braços esticados, e a relação entre segmento superior e inferior. Pelo manual da sociedade brasileira, depois dos 12 anos a envergadura passa da altura em no máximo 3 a 4 cm; envergadura 5 cm ou mais acima da altura indica proporções eunucoides, em geral por hipogonadismo; envergadura menor que a altura sugere displasia óssea com membros curtos. A relação entre altura sentada e altura aumentada é pista para deficiência do gene SHOX. Os valores de referência da relação de segmentos têm dois defeitos no próprio manual, descritos nas notas do critério.
Depois, os sinais que mudam o diagnóstico. Na menina, os estigmas de Turner: pescoço curto ou alado, implantação baixa dos cabelos e das orelhas, palato alto, cúbito valgo, nevos; palpe os pulsos femorais e meça a pressão arterial, porque a coarctação da aorta faz parte da síndrome. No menino e na menina, o estadiamento puberal — no menino, com o orquidômetro, porque o volume testicular é o dado que decide — e, no menino, o pênis e a posição dos testículos, com a pergunta sobre criptorquidia operada. Pergunte pelo olfato (sente cheiro de gás, de café, de perfume?), procure fenda labial ou palatina e defeito de linha média, pergunte por surdez. A tireoide, a pele, o abdome e o estado nutricional completam o exame da doença crônica escondida.
Kauã é proporcional (envergadura de 145 cm para 145,6 cm de altura), não tem dismorfismo, reconhece odor familiar não irritante em cada narina, tem testículos tópicos de 3 mL, pênis de tamanho infantil normal e nenhum pelo pubiano. Nunca operou a bolsa escrotal. É um pré-púbere de 14 anos sem sinal de alerta — exatamente a fotografia que não separa, sozinha, atraso constitucional de hipogonadismo congênito.
3. A primeira leva de exames
A primeira leva responde a três perguntas — quão atrasado está o esqueleto, há doença escondida, o eixo gonadal acordou — e cabe num único pedido. A radiografia de mão e punho não dominante para idade óssea, que a Febrasgo manda pedir já na primeira avaliação. TSH e tiroxina livre, glicemia e IGF-1, os exames que o protocolo de 2018 exige antes de qualquer investigação de hormônio de crescimento. Antitransglutaminase IgA com IgA total, com a criança comendo glúten, como manda o protocolo da doença celíaca de 2025 — a dosagem de IgA total existe para não deixar a deficiência de IgA passar por sorologia negativa, e a antigliadina deaminada IgG só entra até os 2 anos. Hemograma, velocidade de hemossedimentação, creatinina e exame de urina, para as doenças crônicas que os documentos mandam excluir sem fixar os exames; esta lista é escolha desta apostila.
No adolescente sem puberdade, a mesma coleta leva LH, FSH e testosterona total no menino ou estradiol na menina, colhidos de manhã. Na menina abaixo do escore −2 sem causa, o cariótipo com pelo menos 30 células entra já nesta leva, sem esperar o FSH. O que não entra: teste de estímulo do hormônio de crescimento, ressonância de sela, inibina B, hormônio antimülleriano, teste com hormônio liberador de gonadotrofinas e painel genético. Todos têm lugar — e o lugar é depois, pedido por quem vai interpretá-los.
4. Ler a idade óssea contra a estatura
A idade óssea não diagnostica nada sozinha; ela diz em que relógio a estatura deve ser lida. Três leituras resolvem a maioria das consultas. Idade óssea próxima da cronológica, velocidade normal e estatura dentro da faixa do alvo: baixa estatura familiar. Idade óssea atrasada, estatura que cabe na idade óssea, velocidade normal para a idade óssea e história familiar de puberdade tardia: atraso constitucional. Idade óssea muito atrasada com velocidade baixa e IGF-1 baixo: suspeita de doença endócrina — o protocolo de 2018 registra que, na deficiência de hormônio de crescimento, o atraso costuma passar de dois desvios-padrão, e o hipotireoidismo adquirido atrasa o esqueleto do mesmo jeito.
A radiografia de Kauã mostra idade óssea de 11 anos e 6 meses — 2 anos e 9 meses de atraso —, e 145,6 cm é mais ou menos a estatura mediana de um menino de 11 anos e meio: a altura dele cabe na idade óssea. É o padrão do atraso constitucional, e é também o padrão de um hipogonadismo congênito visto na adolescência, porque a rede europeia lembra que a maturação óssea atrasada aparece nos dois. A idade óssea separa o saudável do doente em muitas crianças; não separa o menino que vai entrar na puberdade do que não vai. A previsão de estatura final a partir dela, como argumento para a família, tem a ressalva de superestimar, discutida em Antes do tempo, e fora do roteiro.
5. O hormônio de crescimento: quando entra e como se testa
A investigação de deficiência de hormônio de crescimento começa quando a primeira leva vem limpa, a criança cumpre um dos critérios clínicos do protocolo de 2018 e o especialista a assume. O diagnóstico exige teste de estímulo: o protocolo aceita insulina, clonidina, levodopa e glucagon, com ponto de corte de pico abaixo de 5 ng/mL pelos ensaios monoclonais, e exige dois testes, em datas e com estímulos diferentes, quando a suspeita é de deficiência isolada. Um teste basta quando há lesão da região hipotálamo-hipofisária, radioterapia ou deficiência de outros hormônios da hipófise, que precisam estar repostos antes do teste. O teste com hipoglicemia insulínica não deve ser feito em criança com convulsão, cardiopatia ou menos de 20 kg.
No adolescente pré-púbere ou no início da puberdade, o protocolo descreve o priming — estradiol oral nas duas noites anteriores ao teste, 1 mg abaixo de 20 kg e 2 mg acima, na menina a partir de 10 anos com mamas e pelos abaixo do estágio 3; cipionato de testosterona de 50 a 100 mg por via intramuscular uma semana antes, no menino a partir de 11 anos com pelos abaixo do estágio 3 — e declara que não há consenso sobre fazê-lo; a posição desta apostila está nas divergências. Nenhum dos dois fármacos consta da Rename 2024: a testosterona não aparece em forma nenhuma, e o estradiol só existe no elenco em associações contraceptivas.
Confirmada a deficiência pelo laboratório, entra a ressonância da região hipotálamo-hipofisária — tomografia se a ressonância não estiver disponível — em busca de interrupção da haste, neuro-hipófise ectópica, hipoplasia da hipófise, lesão selar ou displasia septo-óptica. Picos entre 5 e 10 ng/mL em criança com quadro sugestivo vão, pelo protocolo, preferencialmente a centro de referência, onde o tratamento pode ser considerado. A somatropina está no componente especializado da assistência farmacêutica, em frascos de 4 a 30 UI, e o protocolo condiciona a continuidade da dispensação à avaliação periódica pelo endocrinologista ou pediatra que acompanha a criança.
6. A puberdade atrasada: gonadotrofinas, cariótipo e imagem
Antes dos 13 anos na menina e dos 14 no menino, sem nenhum sinal associado, a rede europeia manda tranquilizar e seguir medindo. Passadas essas idades, ou se a puberdade não progride, os primeiros exames são as gonadotrofinas e a idade óssea, e o resultado divide o caminho em dois. Gonadotrofinas altas apontam falha da gônada, e o passo seguinte é o cariótipo — Turner na menina, Klinefelter no menino; na menina, a Febrasgo acrescenta a ultrassonografia pélvica para ver o útero, e a sequência dessa investigação é de Amenorreia: em que andar parou.
Gonadotrofinas baixas apontam para o centro, e aí a pergunta é qual centro. Primeiro a doença que desliga o eixo: TSH e prolactina, que a Febrasgo pede na causa central, peso, alimentação, exercício, sintomas intestinais e a sorologia da primeira leva. Depois os sinais de hipogonadismo congênito: a ressonância entra com hiperprolactinemia, suspeita de Kallmann ou sinal de lesão do sistema nervoso central, e a rede europeia sugere ultrassonografia renal quando se suspeita de hipogonadismo congênito, pela frequência de malformação renal, além de teste quantitativo de olfato. Gonadotrofinas baixas, idade óssea bem atrasada e nenhum desses sinais: o atraso constitucional é o mais provável, e a decisão seguinte — esperar ou oferecer esteroide sexual em dose baixa — é tomada com o especialista, com o adolescente e com a família.
Do ponto na curva ao encaminhamento, e do encaminhamento ao que o SUS entrega
Tudo o que decide a manhã de Kauã — e a de qualquer criança baixa ou adolescente sem puberdade — cabe em quatro perguntas: a estatura é baixa de verdade, com velocidade e alvo; o retrato é de variante normal ou de doença; a puberdade está atrasada, e em qual dos quatro caminhos; e o que se pede na atenção básica, o que fica para o especialista e o que o SUS fornece. As tabelas abaixo respondem às quatro, e as notas registram os pontos em que os próprios documentos mudam a leitura de quem os consulta.
- 1Medir de novo, no instrumento certo para a idade, e juntar as medidas antigas da caderneta, da unidade básica e da escola; calcular a velocidade com intervalo de pelo menos seis meses.
- 2Medir o pai e a mãe na consulta e calcular a altura-alvo com margem de 5 cm; perguntar a idade da puberdade de cada um, o peso e o comprimento de nascimento e a idade gestacional.
- 3Examinar proporções (envergadura e segmentos), dismorfismos e estigmas de Turner, pulsos femorais e pressão arterial, estadiamento puberal com orquidômetro no menino, olfato, criptorquidia operada, fenda, surdez e sinais de doença crônica.
- 4Classificar: estatura adequada; baixa estatura familiar documentada; atraso constitucional provável; ou padrão de doença (velocidade caindo, abaixo de −3, longe do alvo, desproporção, dismorfismo, pequeno para a idade gestacional sem recuperação).
- 5Na baixa estatura sem causa definida, no crescimento desacelerado ou no atraso puberal, organizar investigação dirigida: idade óssea, TSH e tiroxina livre, hemograma, função renal e exames de doença crônica conforme a história; considerar IGF-1 e rastreio celíaco com IgA total e glúten na dieta. No atraso puberal, acrescentar LH, FSH e testosterona ou estradiol. Na menina baixa sem causa, avaliar cariótipo conforme os critérios do capítulo. O painel do caso de Kauã não é obrigatório para toda criança baixa com trajetória familiar já bem documentada.
- 6Ler a idade óssea junto com velocidade, exame e puberdade. Atraso esquelético ocorre no atraso constitucional, mas também em deficiência hormonal e doença crônica; não confirma sozinho uma variante normal. Potencial familiar refere-se à altura adulta e deve ser comparado à projeção ou ao canal de crescimento, nunca diretamente à altura atual em centímetros de uma criança.
- 7Encaminhar ao endocrinologista pediátrico pelos critérios da Sociedade Brasileira de Pediatria, por qualquer sinal de alerta de hipogonadismo congênito, por gonadotrofinas altas, por cariótipo alterado e pelo adolescente que passou de 13 anos (menina) ou 14 anos (menino) sem puberdade.
- 8Testes de estímulo de hormônio de crescimento, imagem de sela e exames especializados dependem da hipótese construída e da avaliação endocrinológica. No adolescente pouco desenvolvido, discutir priming com o serviço que fará o teste; o protocolo federal descreve esquemas e reconhece falta de consenso. Sintomas neurológicos ou múltiplas deficiências hormonais mudam a urgência e a indicação de imagem.
- 9Na hipótese de variante normal e sem sinais de alerta, marcar retorno em quatro a seis meses para medir, rever sintomas e documentar puberdade. Usar pelo menos seis meses de medidas confiáveis para estimar a velocidade. Quem já cumpre critério de investigação ou encaminhamento inicia esse percurso agora, sem esperar o próximo retorno.
- 10Antecipar a avaliação se houver nova desaceleração, perda de peso, sintomas intestinais, interrupção da progressão puberal ou sofrimento emocional importante. Cefaleia persistente ou alteração visual associadas a crescimento inadequado exigem avaliação urgente; não entram na fila do retorno de rotina.
Quem é baixo e o que o interno faz com isso
| Achado | Leitura | Conduta | Régua |
|---|---|---|---|
| Estatura a partir de −2, traçado paralelo, velocidade normal | Crescimento adequado | Medida no calendário da puericultura; nada a investigar | Caderneta da Criança, 2024 |
| Menino abaixo de −2, paralelo, velocidade normal, pais medidos baixos, idade óssea compatível, exame normal | Baixa estatura familiar documentada | Seguir na atenção básica com medida semestral; encaminhamento eletivo | Manual da SBP, 2023, com leitura desta apostila |
| Menina abaixo de −2 sem causa documentada, com ou sem pais baixos | Síndrome de Turner até o cariótipo afastar | Cariótipo com pelo menos 30 células e encaminhamento | PCDT da Síndrome de Turner, 2025 |
| Adolescente abaixo de −2, pré-púbere, idade óssea atrasada, família com puberdade tardia | Atraso constitucional provável | Investigação do atraso puberal e encaminhamento; teste de hormônio de crescimento somente se indicado pelo especialista, com discussão de priming. | Manual da SBP, 2023; Endo-ERN, 2021 |
| Velocidade caindo, cruzamento de linhas ou traçado horizontal | Doença até prova em contrário | Primeira leva e encaminhamento | Caderneta da Criança, 2024; PCDT da deficiência de GH, 2018 |
| Abaixo de −3; mais de 1,6 desvio-padrão abaixo do alvo; desproporção, dismorfismo, microcefalia ou deficiência intelectual | Investigação especializada | Encaminhar com a primeira leva colhida | Manual da SBP, 2023; PCDT da deficiência de GH, 2018 |
| Pequeno para a idade gestacional sem recuperação aos 4 anos | Avaliação especializada | Encaminhar ao endocrinologista pediátrico | Manual da SBP, 2023; PCDT da deficiência de GH, 2018 |
A puberdade que não vem: quatro caminhos
| Grupo | LH e FSH | O que sugere | Próximo passo | Quem conduz |
|---|---|---|---|---|
| Atraso constitucional | Baixos | Baixa estatura, idade óssea atrasada, família com puberdade tardia, nenhum sinal de alerta | Velocidade e volume testicular a cada 4 a 6 meses; discutir esteroide sexual em dose baixa | Especialista, com retorno na atenção básica |
| Hipogonadotrófico funcional | Baixos | Perda de peso, doença crônica, restrição alimentar, exercício intenso | Tratar a causa; sorologia celíaca, TSH e prolactina | Dono da doença de base; na anorexia, O corpo conta primeiro |
| Hipogonadotrófico congênito | Baixos | Anosmia, criptorquidia bilateral, micropênis, fenda, surdez, sincinesia, proporções eunucoides | Encaminhar sem esperar; ressonância, olfato e ultrassonografia renal pelo especialista | Endocrinologista pediátrico |
| Hipergonadotrófico | Altos | Turner na menina, Klinefelter no menino, gônada lesada por cirurgia, radioterapia ou quimioterapia | Cariótipo; na menina, ultrassonografia pélvica | Endocrinologista pediátrico; na menina, também Amenorreia: em que andar parou |
O teste de hormônio de crescimento pelo protocolo de 2018
| Pergunta | Resposta do protocolo | O que muda para o paciente |
|---|---|---|
| Quem investiga | Abaixo de −3; entre −3 e −2 com velocidade abaixo do percentil 25; acima de −2 com velocidade abaixo de −1 desvio-padrão em 12 meses; lesão ou irradiação do sistema nervoso central; outra deficiência hipofisária; sinais neonatais | Displasia esquelética, Turner e doença crônica são excluídas antes |
| Quantos testes | Dois, em datas e com estímulos diferentes, na suspeita de deficiência isolada; um, com lesão, radioterapia ou outras deficiências já repostas | Um pico baixo isolado não fecha deficiência isolada |
| Ponto de corte | Pico abaixo de 5 ng/mL por ensaio monoclonal; entre 5 e 10, preferencialmente centro de referência | Laudo sem o método não se interpreta |
| Estímulos permitidos | Insulina, clonidina, levodopa, glucagon; insulina proibida com convulsão, cardiopatia ou menos de 20 kg | Na criança pequena, o teste com insulina sai da lista |
| Priming | Menina a partir de 10 anos abaixo de M3 e P3: estradiol oral 1 mg (menos de 20 kg) ou 2 mg (mais de 20 kg) nas duas noites anteriores; menino a partir de 11 anos abaixo de P3: cipionato de testosterona 50 a 100 mg IM uma semana antes | O protocolo declara que não há consenso; nenhum dos dois fármacos está na Rename 2024 |
| Imagem | Ressonância hipotálamo-hipofisária depois da confirmação laboratorial; tomografia se não houver ressonância | A imagem é auxiliar: o protocolo não a trata como indispensável nem a usa no lugar do teste |
Doses citadas no capítulo, com a conta no peso dos pacientes
| Fármaco e indicação | Dose de referência | Conta no peso | Apresentação e componente na Rename 2024 |
|---|---|---|---|
| Somatropina — deficiência de hormônio de crescimento (Iago, 17,2 kg) | 0,025 a 0,035 mg/kg/dia SC à noite, 6 a 7 vezes por semana; 1 mg = 3 UI; o teto é o IGF-1, que não deve passar do limite superior (PCDT, 2018) | 0,43 a 0,60 mg/dia = 1,29 a 1,81 UI/dia; 9,0 a 12,6 UI por semana em 7 aplicações | 4, 12, 15, 16, 18, 24 ou 30 UI, pó ou solução injetável; especializado. O volume em mL depende do diluente da marca dispensada |
| Somatropina — síndrome de Turner (Jamile, 23,8 kg) | 0,135 a 0,15 UI/kg/dia (45 a 50 µg/kg/dia) SC à noite, diariamente (PCDT, 2025) | 3,21 a 3,57 UI/dia = 1,07 a 1,19 mg/dia | As mesmas apresentações; especializado |
| Somatropina — Turner, dose máxima do protocolo | 0,2 UI/kg/dia com potencial de estatura muito comprometido ou velocidade baixa com adesão comprovada (PCDT, 2025) | 4,76 UI/dia = 1,59 mg/dia | As mesmas apresentações; especializado |
| Estradiol — priming do teste na menina | 1 mg VO se menos de 20 kg; 2 mg se mais de 20 kg; nas duas noites anteriores ao teste (PCDT, 2018) | Menina de 23,8 kg: 2 mg em cada noite | Não consta como estradiol isolado; só em associações contraceptivas |
| Cipionato de testosterona — priming do teste no menino | 50 a 100 mg IM, dose única, uma semana antes (PCDT, 2018) | Dose fixa, não por quilo | Não consta em forma nenhuma |
| Enantato de testosterona — curso curto no atraso constitucional | 50 a 100 mg IM por mês, por 3 a 6 meses (Endo-ERN, 2021) | Dose fixa, não por quilo; indicação do especialista | Não consta em forma nenhuma |
| Estrogênios conjugados — indução puberal na síndrome de Turner | Esquema escalonado do PCDT de 2025, com a conta dos comprimidos em Amenorreia: em que andar parou | Conforme o degrau do esquema | 0,3 mg e 0,625 mg, comprimido; básico |
Mesmo ponto inicial, trajetórias diferentes: exemplos didáticos
| Dado | Trajetória A: crescimento preservado | Trajetória B: desaceleração |
|---|---|---|
| Sexo e idades das medidas | Menino; 8, 9 e 10 anos | Menino; 8, 9 e 10 anos |
| Estaturas, na mesma escala | 115,0 → 120,0 → 125,0 cm | 115,0 → 117,0 → 119,0 cm |
| Velocidades nos dois intervalos de 12 meses | 5,0 e 5,0 cm/ano | 2,0 e 2,0 cm/ano |
| Família e exame | Pais baixos medidos; criança proporcional, sem sintomas; dados familiares e canal precisam ser concordantes. | Pode ter pais baixos ou altos: a velocidade de 2 cm/ano nessa fase exige investigação em ambos os contextos. |
| Idade óssea | Ajuda a caracterizar a maturação quando indicada; não substitui a linha de crescimento. | Se atrasada, reforça necessidade de explicar a desaceleração, sem definir qual doença a causou. |
| Interpretação e próximo passo | Trajetória compatível com crescimento preservado; concluir variante familiar somente após integrar altura, alvo e avaliação clínica. Retorno programado. | Confirmar medidas e iniciar investigação e encaminhamento. Não observar mais seis meses apenas para completar uma nova curva. |
Kauã: crescimento e puberdade lidos juntos ao longo do seguimento
| Momento | Estatura e intervalo | Puberdade | O que a comparação permite decidir |
|---|---|---|---|
| 14 anos e 3 meses | 145,6 cm; cerca de 4,1 cm no último ano | Testículos de 3 mL; idade óssea de 11 anos e 6 meses | Atraso puberal com hipótese constitucional; encaminhar e acompanhar, sem fechar diagnóstico por história paterna. |
| Quatro meses depois | 147,4 cm; ganho de 1,8 cm; anualização de 5,4 cm/ano ainda imprecisa | Testículos de 5 mL bilateralmente | Início espontâneo favorece a hipótese. O exame puberal informa mais que uma pequena diferença de velocidade em intervalo curto. |
| Doze meses após a primeira consulta | 153,8 cm; ganho de 8,2 cm em 12 meses | Testículos de 10 mL e progressão clínica | Crescimento e maturação progridem de modo concordante; manter seguimento até documentar evolução sustentada. |
| Se a evolução fosse discordante | Velocidade permanece baixa apesar de progressão puberal; ou crescimento acelera apenas com hormônio prescrito | Puberdade ausente, estacionada ou sem progressão própria | Rever doença crônica, déficit nutricional e distúrbios endócrinos. Virilização durante testosterona não prova ativação espontânea do eixo. |
Idade óssea que inclui e idade óssea que interrompe, no mesmo protocolo. O PCDT da Síndrome de Turner de 2025 inclui para somatropina, acima de 5 anos, a menina com estatura abaixo do percentil 5 e idade óssea abaixo de 14 anos, e manda interromper o tratamento com idade óssea de 13,5 a 14 anos. Conta: uma menina com idade óssea de 13 anos e 8 meses tem menos de 14 — cumpre a inclusão — e está entre 13,5 e 14 — cumpre a interrupção. Nessa faixa de meio ano o texto autoriza começar e manda parar. Para a menina que chega tarde ao diagnóstico, a pergunta real é se ainda há crescimento a ganhar, e ela é do especialista; o interno que encaminha deve mandar a idade óssea no pedido, porque é ela que decide.
Duas réguas de estatura do mesmo Ministério para a mesma menina. O PCDT da Síndrome de Turner de 2025 usa, para incluir na somatropina, o percentil 5 da curva da OMS entre 2 e 5 anos e o percentil 5 da curva NCHS/CDC acima de 5 anos. A Caderneta da Criança de 2024 desenha as curvas da OMS até 10 anos com linhas de escore-z e chama de adequada a estatura a partir de −2. Conta: o percentil 5 corresponde ao escore-z de cerca de −1,64. Uma menina com Turner no escore −1,8 da curva da OMS tem estatura adequada pela caderneta e pode estar abaixo do percentil 5 que o protocolo exige — e acima de 5 anos o protocolo ainda troca de curva. Quem lê só a caderneta conclui que ela não precisa de somatropina; o critério de dispensação é o do protocolo.
Classe de peso sem lugar para 20 kg, e priming sem fármaco no elenco. O PCDT da Deficiência de Hormônio de Crescimento de 2018 prescreve estradiol de 1 mg para meninas com peso menor de 20 kg e de 2 mg para maiores de 20 kg. Conta: a menina de 20,0 kg não é menor nem maior que 20 kg, e fica sem dose — e 20 kg é peso plausível para uma menina de 10 anos muito baixa, justamente a que chega ao teste. O mesmo protocolo prescreve cipionato de testosterona para o menino. A Rename 2024, por busca exata, não traz testosterona em forma nenhuma e só traz estradiol em associações contraceptivas: o priming descrito pela norma não sai da farmácia do SUS.
Fórmula invertida e texto contra quadro, no manual de avaliação do crescimento da Sociedade Brasileira de Pediatria (2023). O texto define a razão como segmento inferior dividido pelo segmento superior, mas a chama de SS/SI, e o quadro 14 traz segmento superior sobre inferior. Conta: no lactente, o quadro dá 1,81; calculada como o texto manda, a mesma criança dá 1 ÷ 1,81 = 0,55, número que não existe no quadro. E o texto diz que a razão atinge a proporção do adulto, 1,0, entre 7 e 10 anos, enquanto o quadro dá 1,16 aos 8 anos e 1,11 a 1,12 aos 10, e nunca desce abaixo de 1,04 (meninos de 13,5 a 14,4 anos). Uma criança de 8 anos com 1,0 é normal para o texto e tem membros longos para o quadro. Este capítulo usa a razão superior sobre inferior e os valores do quadro.
Adesivo de estradiol em miligrama, no protocolo da Febrasgo sobre puberdade tardia (2025). No parágrafo do tratamento, o adesivo de 17-beta-estradiol aparece com 25 ou 50 mg, a ser fracionado em quartos ou oitavos até 6,25 µg. Conta: um quarto de 25 mg é 6,25 mg — 6.250 µg —, e a dose pretendida é mil vezes menor; o desenho de cortes que acompanha o protocolo indica adesivo de 25 µg, o valor coerente com a dose. O erro já está registrado em Antes do tempo, e fora do roteiro, e é repetido aqui porque este capítulo é o dono da puberdade tardia: é para este protocolo que o leitor da menina com atraso vai olhar.
A conduta, hora a hora
A consulta deve responder a três perguntas: a medida é confiável, o crescimento mantém uma trajetória compatível com a família e a puberdade progride como esperado? A maior parte das decisões é ambulatorial, com seguimento programado. A combinação de crescimento ruim com cefaleia, alteração visual ou sinais de múltiplas deficiências hormonais, porém, exige avaliação urgente. O prazo de seis meses usado para estimar velocidade não autoriza aguardar diante desses achados.
Kauã será acompanhado por um ano. No início, o conjunto sugere atraso constitucional, mas não permite garantir que a puberdade virá espontaneamente. Encaminhamento e retorno na pediatria geral acontecem em paralelo. Teste de estímulo de hormônio de crescimento e eventual priming são decisões especializadas, informadas por idade, estágio puberal, velocidade e idade óssea; não são a primeira resposta a um IGF-1 baixo isolado.
Se houver indicação de um curso curto de esteroide sexual, a escolha é compartilhada entre especialista, adolescente e família. A equipe verifica apresentação, disponibilidade local, custo e seguimento antes da receita. A ausência de testosterona na Rename 2024 não informa, sozinha, todos os arranjos locais de fornecimento. O acesso precisa ser esclarecido sem prometer dispensação e sem transformar uma dificuldade administrativa em motivo para abandonar o acompanhamento.

Consulta 1, 8h10 — medir antes de acreditar
Você confirma 145,6 cm no estadiômetro e recupera as medidas anteriores com data e origem, aplicando a técnica de A linha, não o ponto, da Puericultura. Foram 5,0 cm em 15 meses e 4,1 cm no último ano, cerca de 4 cm/ano em ambos os períodos. A altura atual está abaixo do esperado para a idade, mas a velocidade precisa ser interpretada junto com a ausência de puberdade, a família e a maturação esquelética. A hipótese pode ser atraso constitucional ou doença; nenhum desses dados isolados separa as duas possibilidades.
Prescrição- Estatura medida duas vezes: 145,6 cm e 145,6 cm; peso 34,8 kg
- Medidas anteriores transcritas com data e origem: caderneta até 10 anos; escola 136,5 cm aos 12 anos e 141,5 cm aos 13 anos e 3 meses
- Velocidade calculada: 4,0 cm/ano de 12 anos a 13 anos e 3 meses; 4,1 cm/ano no último ano
- Ponto marcado no gráfico de estatura para idade da OMS de 5 a 19 anos: logo abaixo do escore −2
Consulta 1, 8h25 — a família entra na régua
A mãe mede 157,0 cm e informa 171 cm para o pai, a confirmar no retorno. O alvo adulto provisório é 170,5 cm, com a margem de 5 cm utilizada pelo manual brasileiro. A comparação pertinente é entre o canal ou a projeção de crescimento de Kauã e o potencial familiar; não se subtraem seus atuais 145,6 cm de uma altura adulta para diagnosticar doença. Menarca materna aos 15 anos e crescimento paterno tardio apoiam atraso constitucional. Nascimento a termo, sem perda de peso, doença crônica referida ou exposição a corticoide completam a história, mas não substituem o exame e a evolução.
Prescrição- Mãe medida: 157,0 cm; pai: 171 cm informado, a medir no retorno
- Altura-alvo provisória: (171 + 157 + 13) ÷ 2 = 170,5 cm, faixa de 165,5 a 175,5 cm
- Registro: menarca materna aos 15 anos; crescimento tardio paterno referido
- Nascimento a termo, 3.180 g e 49 cm; sem internações, corticoide, sintomas intestinais ou perda de peso
Consulta 1, 8h40 — o exame que decide: proporções, olfato e orquidômetro
Você explica a Kauã o que vai examinar e por quê, e deixa a escolha com ele: prefere que a mãe espere lá fora, e ela concorda. Envergadura de 145 cm para 145,6 cm de altura: proporcional. Nenhum dismorfismo, tireoide não palpável, pressão arterial normal. Com o orquidômetro, os dois testículos têm 3 mL, tópicos; o pênis tem aspecto infantil normal e não há pelo pubiano. Ele identifica um odor familiar não irritante, como café, testado em cada narina, não tem fenda, não refere surdez e nunca operou a bolsa escrotal. É um menino de 14 anos e 3 meses pré-púbere e sem nenhum sinal de alerta de hipogonadismo congênito — um conjunto compatível com atraso constitucional, ainda sem excluir hipogonadismo.
Prescrição- Envergadura 145 cm; sem dismorfismos; tireoide não palpável; pressão arterial normal
- Testículos tópicos de 3 mL bilateralmente ao orquidômetro de Prader; pênis de aspecto infantil normal; sem pelos pubianos
- Olfato: reconhece odor familiar não irritante em cada narina; não usar álcool para testar olfato, pois estimula também o trigêmeo. Sem fenda, surdez referida ou criptorquidia.
- Conclusão registrada: puberdade atrasada (menos de 4 mL aos 14 anos), sem sinal de alerta
Consulta 1, 8h55 — um pedido só, e o que fica fora dele
O pedido responde às três perguntas da primeira leva — quão atrasado está o esqueleto, há doença escondida, o eixo gonadal acordou — e o que fica fora dele fica escrito, com o motivo. O teste de hormônio de crescimento não entra, porque num pré-púbere ele pode vir sem resposta sem que falte hormônio. A ressonância não entra, porque não há sinal que a peça. O cariótipo não entra, porque no menino ele segue gonadotrofinas altas. Você orienta a família a não tirar o glúten da dieta até a coleta: sorologia colhida sem glúten é sorologia perdida.
Prescrição- Radiografia de mão e punho esquerdos para idade óssea
- LH, FSH e testosterona total, coleta pela manhã
- TSH, tiroxina livre, glicemia de jejum e IGF-1
- Antitransglutaminase IgA e IgA total, mantendo glúten na dieta até a coleta
- Hemograma, velocidade de hemossedimentação, creatinina e exame de urina
- Não pedidos, com o motivo no prontuário: teste de estímulo de hormônio de crescimento, ressonância de sela, inibina B; cariótipo só se as gonadotrofinas vierem altas
Dia 22 — ler a idade óssea contra a estatura
Seu Josenildo veio junto e é medido: 171,0 cm, e o alvo de 170,5 cm está confirmado. A idade óssea é de 11 anos e 6 meses, 2 anos e 9 meses de atraso, e a estatura de Kauã é a de um menino mediano de 11 anos e meio: cabe na idade óssea. LH, FSH e testosterona estão na faixa pré-puberal do laboratório. O IGF-1 veio abaixo da referência para 14 anos e dentro da faixa para a idade óssea — o dado que, lido sozinho, empurraria para um teste de hormônio de crescimento, e que o protocolo federal manda ler com cautela por ter baixa especificidade. TSH, tiroxina livre, glicemia, hemograma, hemossedimentação, creatinina, urina e a sorologia celíaca vieram normais. Você escreve a hipótese com as duas metades.
Prescrição- Pai medido: 171,0 cm; altura-alvo confirmada em 170,5 cm (165,5 a 175,5 cm)
- Idade óssea 11 anos e 6 meses; estatura compatível com a idade óssea
- LH, FSH e testosterona na faixa pré-puberal; IGF-1 baixo para 14 anos e compatível com a idade óssea
- TSH, tiroxina livre, glicemia, hemograma, hemossedimentação, creatinina, urina e antitransglutaminase IgA com IgA total normais
- Hipótese: atraso constitucional do crescimento e da puberdade provável; hipogonadismo hipogonadotrófico congênito não afastado
Dia 22, 9h15 — o encaminhamento que o especialista consegue ler
Kauã já cumpre critério de encaminhamento por atraso puberal: testículos de 3 mL aos 14 anos e 3 meses. A avaliação do crescimento acrescenta estatura baixa e ausência do estirão esperado para a idade. A carta leva medidas datadas, velocidade, exame puberal, altura medida dos pais, idade óssea e exames realizados. Escreva a hipótese como provável e registre o que falta confirmar, inclusive a comparação com o potencial familiar. O retorno na pediatria geral fica marcado para quatro meses, independentemente da fila especializada; sintomas novos ou parada da evolução antecipam a consulta.
Prescrição- Encaminhamento à endocrinologia pediátrica: puberdade atrasada (testículos de 3 mL aos 14 anos e 3 meses), estatura baixa e necessidade de interpretar a trajetória frente ao potencial familiar.
- Carta com idade, peso e estatura; nascimento e idade gestacional; medidas anteriores e velocidades; volume testicular; altura medida dos pais; idade óssea; IGF-1, glicemia, TSH, tiroxina livre e demais exames
- Registro na carta: ausência dos sinais clínicos pesquisados de hipogonadismo congênito; olfato reconhecido ao exame; hipótese constitucional ainda dependente da evolução.
- Retorno na pediatria geral em 4 meses para estatura e orquidômetro
Mês 4 — o orquidômetro responde primeiro
Kauã volta com 147,4 cm e com a consulta especializada feita na semana anterior. A velocidade anualizada dá 5,4 cm por ano, mas em quatro meses o erro de medida pesa muito, e o número que decide hoje é outro: os testículos têm 5 mL de cada lado, e há os primeiros pelos pubianos. A puberdade começou sozinha. O endocrinologista registrou a mesma leitura e, com a família e o adolescente, decidiu não usar esteroide sexual — o curso curto serve para acordar um eixo que já acordou. Você explica a Kauã o que o estirão vai trazer e em que ordem, e combina que qualquer parada no aumento dos testículos antecipa o retorno, porque puberdade que começa e para também é atraso.
Prescrição- Estatura 147,4 cm: 1,8 cm em 4 meses (velocidade anualizada de 5,4 cm/ano, indicativa por intervalo curto)
- Testículos de 5 mL bilateralmente; primeiros pelos pubianos
- Conduta do especialista registrada: puberdade iniciada espontaneamente, sem indicação de esteroide sexual
- Retorno em 6 meses; antecipar se o volume testicular parar de aumentar
Mês 12 — o diagnóstico que só se confirma para trás
Com 15 anos e 3 meses, Kauã mede 153,8 cm — 8,2 cm em um ano — e tem testículos de 10 mL, no estágio 3 de Tanner. O atraso constitucional, que era hipótese provável há um ano, agora é diagnóstico, porque a puberdade veio e progride. Você registra isso com as palavras certas, combina com o endocrinologista a alta do seguimento especializado e mantém o acompanhamento de rotina do adolescente na atenção básica. A conversa final com a família não promete número: o estirão ainda está no começo, a altura final deve ficar próxima da faixa da família, e o manual da sociedade brasileira lembra que parte da estatura pode se perder no atraso constitucional. Kauã voltou ao futebol.
Prescrição- Estatura 153,8 cm: 8,2 cm no último ano
- Testículos de 10 mL; estágio 3 de Tanner
- Diagnóstico registrado: atraso constitucional do crescimento e da puberdade, confirmado pela evolução
- Alta do seguimento especializado combinada com o endocrinologista; rotina do adolescente na atenção básica
Como saber se está funcionando
Reavaliar a criança baixa é medir no calendário certo e comparar com o que se esperava, e o paciente muda de categoria conforme o que a régua mostra. Há três tipos de retorno neste capítulo. O da variante normal em observação, que é da atenção básica e tem dois números — estatura e volume testicular ou estágio mamário. O da criança em somatropina, que é do especialista e tem calendário fixado pelos protocolos federais, mas passa pela atenção básica em todas as intercorrências. E o da menina com síndrome de Turner, que tem, além do crescimento, um quadro inteiro de comorbidades para rastrear.
A linha, não o ponto, no capítulo 53, ensina a confirmar técnica, datas e intervalo antes de anualizar uma diferença. Aqui essa leitura é integrada à puberdade: o retorno de quatro meses pode demonstrar aumento testicular, enquanto uma velocidade de crescimento mais confiável exige intervalo maior. Consultas antes de seis meses continuam úteis para exame e vigilância. Perguntar ao adolescente sobre escola, apelidos, esporte e humor ajuda a definir apoio e urgência de intervenção; a decisão não se resume à previsão de altura.
Esperado: Variante familiar: traçado paralelo à curva. Atraso constitucional: aceleração quando a puberdade começa, até 10 a 12 cm/ano no estirão do menino e 8 a 10 cm/ano no da menina. Somatropina: aumento da velocidade no primeiro ano
Se não melhora: Velocidade que não acelera depois de iniciada a puberdade, ou que cai na variante familiar: sai da observação e vai ao especialista. Em somatropina, velocidade baixa com IGF-1 baixo: conferir adesão e reavaliar o diagnóstico, como manda o protocolo
Esperado: Aumento testicular para pelo menos 4 mL no menino ou broto mamário na menina, seguido de progressão ao longo das consultas. Pelos pubianos isolados não confirmam ativação do eixo gonadal.
Se não melhora: Menino de 14 anos abaixo de 4 mL ou menina de 13 anos sem broto: investigar. Puberdade que começa e para: também é atraso. Depois de 3 a 6 meses de esteroide sexual em dose baixa, volume testicular somado abaixo de 8 mL aponta hipogonadismo hipogonadotrófico congênito (rede europeia, 2021)
Esperado: No atraso constitucional, avança quando a puberdade começa; em somatropina, avança sem atingir os critérios de parada antes do tempo
Se não melhora: Deficiência de hormônio de crescimento: parar a somatropina com velocidade abaixo de 2 cm/ano associada a idade óssea de 14 a 15 anos na menina e 16 no menino. Síndrome de Turner: parar com idade óssea de 13,5 a 14 anos ou velocidade abaixo de 2 cm/ano
Esperado: Dentro da faixa normal para a idade na deficiência; na síndrome de Turner, não acima de 2 desvios-padrão da média
Se não melhora: Acima do limite: reduzir a dose e repetir o IGF-1 em 30 a 60 dias até normalizar. Baixo com crescimento aquém do esperado e boa adesão: ajustar a dose pelo peso; na síndrome de Turner, até 0,2 UI/kg/dia
Esperado: Normais
Se não melhora: Hipotireoidismo: o protocolo manda tratar com levotiroxina, que está no componente básico da Rename; glicemia alterada volta ao especialista antes da próxima dispensação
Esperado: Crescimento testicular próprio e aceleração da estatura; acne leve pode aparecer
Se não melhora: Agressividade ou ereções dolorosas: comunicar ao especialista, porque os efeitos dependem da dose. Priapismo: urgência urológica no mesmo dia, como alerta a rede europeia
Esperado: Exames normais ou a comorbidade já em tratamento com o dono dela
Se não melhora: Qualquer alteração vai ao serviço especializado. Em somatropina, dor de cabeça persistente, claudicação ou dor no quadril e desvio da coluna pedem avaliação rápida: o protocolo aponta maior risco de hipertensão intracraniana, deslizamento da epífise femoral e escoliose
Onde o erro machuca
O dano: A frase adia a investigação justamente na criança que tem doença, e ainda falha na que não tem: o manual da Sociedade Brasileira de Pediatria lembra que o estirão não corrige a estatura de quem entra na puberdade abaixo do alvo e registra perda da ordem de 4,2 cm no atraso constitucional não tratado. O hipogonadismo congênito, em que a puberdade na maioria das vezes não vem, passa anos rotulado de atraso
Como pegar a tempo: Nenhuma tranquilização sem os quatro dados escritos no prontuário: velocidade com intervalo de pelo menos seis meses, altura dos pais medida, alvo calculado e volume testicular ou estágio mamário
O dano: Sem o ambiente hormonal da puberdade, o hormônio pode não subir no teste de um menino saudável com atraso constitucional, e o laudo vira diagnóstico de deficiência. O resultado é somatropina diária por anos numa criança que não precisa, e um rótulo que acompanha a família
Como pegar a tempo: Na atenção básica, não pedir o teste. No encaminhamento, registrar idade, estágio puberal e idade óssea, e lembrar que o protocolo de 2018 descreve o priming para a menina a partir de 10 anos e o menino a partir de 11 anos ainda abaixo do estágio 3
O dano: A síndrome de Turner com mosaicismo pode ter fenótipo discreto e uma família que parece explicar tudo. Cada ano sem diagnóstico é um ano a menos de somatropina, que funciona melhor quanto mais cedo começa, e um coração e um rim sem ecocardiograma e ultrassonografia
Como pegar a tempo: Toda menina abaixo do escore −2 sem causa documentada faz cariótipo com pelo menos 30 células, com ou sem estigmas e com ou sem pais baixos
O dano: Esses são sinais de alerta de hipogonadismo hipogonadotrófico congênito, e a rede europeia desaconselha empurrar o diagnóstico: diagnóstico deixado para depois pesa sobre a estatura adulta, a autoestima e o comportamento, e osteopenia e osteoporose são achados frequentes quando o hipogonadismo congênito é reconhecido tarde
Como pegar a tempo: Perguntar pelo olfato e pela cirurgia de testículo em todo adolescente sem puberdade, medir envergadura contra altura, e encaminhar sem esperar quem tem qualquer um dos sinais
O dano: A antitransglutaminase cai sem glúten na dieta, e a sorologia colhida depois vem falsamente negativa. A criança perde o diagnóstico e ganha uma dieta restritiva e permanente sem indicação — e o protocolo de 2025 é explícito em que nada demonstra dano do glúten para quem não tem a doença
Como pegar a tempo: Colher antitransglutaminase IgA e IgA total com a criança comendo glúten, e só retirar o glúten depois do diagnóstico confirmado
O dano: O quadro do próprio manual está em segmento superior sobre inferior: a conta invertida dá números que não existem na tabela e pode transformar uma criança proporcional em suspeita de displasia esquelética, com radiografias e encaminhamentos desnecessários — ou esconder uma desproporção real
Como pegar a tempo: Calcular sempre segmento superior dividido por segmento inferior, comparar com o quadro por idade e sexo, e somar a envergadura, que depois dos 12 anos passa da altura em no máximo 3 a 4 cm
O que dizer ao paciente e à família
Na sala há três pessoas com três perguntas, e só uma delas está no pedido de consulta. A mãe quer um remédio e tem medo de ter demorado. O adolescente quer sumir da conversa e tem vergonha do próprio corpo. O pai, que ficou trabalhando, tem a informação que mais vale — a idade em que ele mesmo cresceu. A consulta de baixa estatura e puberdade atrasada tem por isso dois tempos: um com a família, para os números e as decisões, e outro com o adolescente sozinho, para o que ele não diz na frente da mãe.
Ouvir o adolescente sem o responsável é parte do atendimento, com a concordância dos dois, e o sigilo tem limites que se dizem no começo, não no meio: risco à vida, violência e abuso. O que se faz quando o apelido virou agressão, ou quando a tristeza chegou à ideia de se machucar, tem dono — a notificação e a proteção estão em Violência e maus-tratos infantis, na apostila de Emergências Pediátricas, e a avaliação do risco em Risco de suicídio na emergência, na de Psiquiatria. O que é deste capítulo é perguntar, e as falas abaixo mostram como.
Na chegada, antes de pedir qualquer exame — por que os números da família vêm primeiro
““Dona Rosimeire, antes de pedir qualquer exame eu preciso de três coisas que valem mais do que muito exame de sangue. A primeira a senhora já trouxe nessa pasta: as alturas antigas do Kauã, que mostram quanto ele cresce por ano. A segunda é a sua altura e a do pai dele, medidas aqui. A terceira é a idade em que cada um de vocês entrou na puberdade. Com isso eu consigo dizer se ele está no caminho da família ou fora dele — e aí os exames passam a ter pergunta.””
Não diga: “Vamos pedir uns exames e ver o que dá.” A frase transforma a consulta numa loteria de laboratório e deixa de fora exatamente os dados que separam variante normal de doença.
Com Kauã sozinho, depois de combinar com a mãe — o que fica entre vocês e o que não fica
““Kauã, sua mãe topou esperar lá fora um pouco. O que você me contar aqui fica entre nós dois, com uma exceção: se eu ficar preocupado com a sua segurança, eu te aviso antes de conversar com alguém. Eu queria ouvir de você, não dela. O que está pesando mais — a altura, a escola, o futebol? Tem alguém te machucando, na escola ou fora dela, por causa disso?””
Não diga: “Isso é normal, todo mundo passa por isso na sua idade.” Minimizar fecha a única porta por onde o adolescente conta o apelido, o isolamento e a tristeza, que a rede europeia de doenças endócrinas inclui entre os danos do atraso puberal.
Antes de examinar os testículos — explicar o porquê e dar a escolha
““Agora eu preciso examinar seu corpo todo, inclusive os testículos. É o tamanho deles que mostra se a puberdade já começou por dentro, antes de aparecer por fora — e eu comparo com este colar de contas. É rápido. Você escolhe se quer sua mãe na sala, se quer outra pessoa da equipe ou se prefere que fiquemos só nós dois.””
Não diga: Examinar sem avisar, ou com um “deixa eu dar uma olhadinha rápida aí”. O adolescente que se sente invadido não volta ao retorno — e é no retorno que o orquidômetro dá o diagnóstico.
No retorno, com a idade óssea na mão — o que é o atraso e o que ainda não se sabe
““A radiografia da mão mostra que os ossos do Kauã têm idade de um menino de 11 anos e meio, e a altura dele é justamente a de um menino dessa idade. É como se o relógio do corpo andasse quase três anos atrás do calendário. Isso tem nome, é comum, e na maioria das vezes a puberdade vem sozinha, mais tarde — como aconteceu com o pai. Ainda não dá para ter certeza: a certeza vem quando os testículos começarem a crescer. Por isso ele vai ao especialista e volta aqui em quatro meses, aconteça o que acontecer na fila.””
Não diga: “Não é nada, é constitucional.” A frase fecha um diagnóstico que só se confirma com a puberdade andando e tira da família o motivo para voltar, justo no caso raro em que o eixo não vai ligar.
Quando a mãe pede a injeção de hormônio de crescimento
““O pedido faz sentido, e o SUS tem esse tratamento. Mas ele é para quem tem falta do hormônio ou para algumas síndromes, e a falta só se prova com exames feitos pelo especialista, no momento certo. No Kauã, fazer esse exame agora, antes da puberdade, pode dar um resultado falso de falta — e ele tomaria uma injeção por dia, por anos, sem precisar. O que os exames dele mostram até aqui é um relógio atrasado, não falta de hormônio.””
Não diga: “Vou pedir o exame do hormônio para a senhora ficar tranquila.” Pedir exame para acalmar é o caminho mais curto para o diagnóstico falso de deficiência no adolescente pré-púbere.
Se o especialista oferecer o curso curto de testosterona
““Pode ser que o especialista ofereça ao Kauã algumas injeções de testosterona, uma por mês, por alguns meses. Não é para ele passar da altura da família; é para dar a partida numa puberdade atrasada, e a resposta do corpo também ajuda a confirmar o diagnóstico. Pode dar espinha, alguma irritação e ereções. Se uma ereção durar horas e doer, é pronto-socorro no mesmo dia. E prefiro dizer já: esse remédio não está na lista nacional de medicamentos do SUS, então vale conversar com o especialista sobre como conseguir antes de decidir.””
Não diga: “Hormônio deixa agressivo e fecha o crescimento, melhor não.” Ou o contrário: “com a injeção ele vai ficar alto.” As duas frases trocam informação por medo ou por promessa, e nenhuma é o que os documentos dizem.
Na despedida — o que antecipa o retorno
““O combinado é voltar em quatro meses, mesmo que o especialista demore. Voltem antes se o Kauã emagrecer, tiver diarreia ou dor de barriga que não passa, dor de cabeça forte e repetida ou mudança na visão, ou se ficar muito triste, parar de ir à escola ou falar em se machucar. E, Kauã, se os testículos começarem a crescer e depois pararem, isso também é motivo para voltar antes.””
Não diga: “Qualquer coisa, a senhora volta.” Sem a lista, a expressão não orienta ninguém, e o sinal que muda o diagnóstico fica esperando a data marcada.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Priming possível, sem consenso — protocolo federal da deficiência de hormônio de crescimento (2018)
O protocolo descreve o priming — estradiol oral de 1 ou 2 mg nas duas noites anteriores, na menina a partir de 10 anos abaixo de M3 e P3; cipionato de testosterona de 50 a 100 mg por via intramuscular uma semana antes, no menino a partir de 11 anos abaixo de P3 —, reconhece que no período pré-puberal os testes podem vir sem resposta sem deficiência e que quem responde depois do priming é mais provavelmente portador de atraso constitucional. Mesmo assim, declara que não há consenso sobre fazê-lo e deixa a escolha ao serviço.
Ministério da Saúde, PCDT da Deficiência do Hormônio de Crescimento – Hipopituitarismo, Portaria Conjunta nº 28/2018, item 3.2
Priming antes dos testes dinâmicos, e o próprio priming como teste e tratamento — rede europeia de doenças endócrinas (2021)
A opinião de especialistas da Endo-ERN registra que o esteroide sexual dado antes dos testes dinâmicos, entre eles o de hormônio de crescimento, pode aumentar o poder de discriminação desses testes. E propõe que, afastada a deficiência parcial de hormônio de crescimento por IGF-1 normal e resposta ao teste com priming, o curso de esteroide sexual em dose baixa seja oferecido ao adolescente com atraso constitucional, porque serve ao mesmo tempo de teste e de tratamento.
Persani L et al. ENDO-ERN expert opinion on the differential diagnosis of pubertal delay. Endocrine. 2021;71(3):681-8, seção sobre priming
A decisão sobre priming cabe ao endocrinologista e ao serviço que realiza o teste, com idade, estágio puberal e indicação diagnóstica documentados. O protocolo federal reconhece a falta de consenso; portanto, a descrição de um esquema não o torna obrigatório em todo adolescente. O benefício é reduzir respostas falsamente baixas em crianças com maturação atrasada; a interpretação precisa considerar também a possibilidade de mascarar deficiência e a probabilidade clínica anterior ao teste. Para Kauã, o primeiro passo é completar a avaliação e observar a progressão com acompanhamento especializado, sem pedir testes dinâmicos apenas pelo IGF-1 baixo. Quando priming for escolhido, confirmar fármaco, dose, tempo até o teste e disponibilidade com o serviço responsável.
O tratamento pode ser protelado até os 14 anos — Febrasgo (2025)
O protocolo define puberdade tardia pela ausência de caracteres sexuais secundários aos 13 anos, manda definir a causa e escreve que, na suspeita de atraso constitucional ou funcional — a adolescente atleta, a história familiar —, o tratamento pode ser protelado até os 14 anos. A indução aos 11 ou 12 anos fica para quem já chega com diagnóstico definido na infância, como a síndrome de Turner.
Febrasgo. Puberdade tardia. Femina. 2025;53(9):1110-3 (Protocolo Febrasgo nº 37), seção de tratamento
Propor esteroide sexual em dose baixa assim que o padrão de atraso constitucional estiver definido — rede europeia de doenças endócrinas (2021)
A Endo-ERN tranquiliza sem investigar só até os 13 anos na menina. Dali em diante, gonadotrofinas e idade óssea; com gonadotrofinas baixas, idade óssea bem atrasada e nenhum fenótipo particular, o atraso constitucional é o mais provável, e o esteroide sexual em dose baixa deve ser proposto depois de discussão com a paciente e a família, pelos benefícios psicológicos e sobre a estatura final. O mesmo texto reconhece que, nas meninas, a evidência vem sobretudo de adolescentes com talassemia.
Persani L et al. Endocrine. 2021;71(3):681-8, seção sobre priming e conclusões
Esta apostila adota a Febrasgo. Aos 13 anos, a menina é investigada como os dois documentos mandam; confirmado o padrão de atraso constitucional sem sinal de alerta, ela é acompanhada até os 14 anos com estatura e estágio mamário a cada 4 a 6 meses. Decidiu o segundo degrau, a data, somado à origem: o documento brasileiro é de 2025, foi escrito para a menina com puberdade tardia e fala exatamente do ponto em disputa, enquanto o europeu é de 2021 e declara fraca a evidência nas meninas. A posição europeia continua no texto porque o verbo da Febrasgo é “pode”: se aos 14 anos a puberdade não veio, ou se o sofrimento da adolescente pesa antes disso, a indução com estrogênio em dose baixa é conversa do especialista com ela e com a família.
Via oral, com estrogênios conjugados — protocolo federal da Síndrome de Turner (2025)
O protocolo registra que a via transdérmica é citada como preferencial, considera fraca a evidência de vantagem clínica sobre a oral e afirma que não há formulação transdérmica adequada às doses baixas da indução, concluindo que a via oral deve ser usada. Os medicamentos do protocolo são os estrogênios conjugados de 0,3 e 0,625 mg, que estão no componente básico da Rename 2024, com a medroxiprogesterona introduzida depois do primeiro sangramento ou após dois anos.
Ministério da Saúde, PCDT da Síndrome de Turner, Portaria Conjunta nº 15/2025, itens 6.1 e 6.1.1
Via transdérmica como primeira escolha, com o adesivo cortado — Febrasgo (2025)
O protocolo da Febrasgo põe o adesivo de 17-beta-estradiol como primeira escolha por evitar a primeira passagem pelo fígado, cortado em quartos ou oitavos para começar com 6,25 µg, com aumento a cada 6 meses até a dose adulta em dois a três anos. O comprimido oral de 1 mg, que não se fraciona, fica para a manutenção ou como segunda escolha na indução quando o adesivo não é possível.
Febrasgo. Puberdade tardia. Femina. 2025;53(9):1110-3, seção de tratamento e tabela 1
Esta apostila adota, para a menina com síndrome de Turner, o protocolo federal: estrogênio por via oral com os estrogênios conjugados do componente básico, no esquema do protocolo, cuja conta de comprimidos está em Amenorreia: em que andar parou. Decidiu o primeiro degrau, o escopo: o protocolo de Turner foi escrito para essa menina e é a regra pela qual o SUS entrega o medicamento a ela, enquanto a Febrasgo trata da puberdade tardia de qualquer causa. Para a menina com hipogonadismo de outra causa, sem protocolo próprio, vale a Febrasgo — sabendo que o adesivo não está na Rename 2024 e que o texto corrido do protocolo traz o adesivo em miligrama, erro descrito nas notas do critério.
O raciocínio, em voz alta
Jamile Negreiros tem 9 anos e 2 meses e vem à unidade básica com a mãe, dona Lucineide, porque a professora comentou que ela é a menor da turma desde o primeiro ano. Nasceu a termo, com peso e comprimento adequados anotados na caderneta; a mãe lembra que ela saiu da maternidade com o dorso das mãos e dos pés inchado, que sumiu em algumas semanas. A caderneta tem medidas aos 2 anos (82 cm), aos 5 (101 cm) e aos 7 (110,5 cm). Hoje ela mede 118,6 cm e pesa 23,8 kg. O pai, seu Genival, mede 176 cm, e a mãe, medida na consulta, 164 cm. Jamile é boa aluna, come bem, não tem diarreia nem dor de barriga e não toma remédio. A mãe acha que ela “puxou a avó, que era pequena”.
o que penso agora
Três números e uma lembrança mudam a consulta. A estatura de hoje está abaixo da linha −2, e a linha da caderneta vem se afastando da mediana desde os 2 anos até cruzar essa linha, em vez de correr paralela: a caderneta manda investigar esse desenho. A velocidade dos 7 anos até hoje é de 3,7 cm por ano — (118,6 − 110,5) ÷ 2,17 anos —, abaixo dos cerca de 5 cm por ano que a Sociedade Brasileira de Pediatria espera dessa idade. A altura-alvo é (176 − 13 + 164) ÷ 2 = 163,5 cm, faixa de 158,5 a 168,5 cm, e Jamile está longe dela. E o inchaço de mãos e pés ao nascer é o sinal neonatal que o protocolo de Turner descreve. A avó pequena não explica nada disso: é uma menina baixa, fora do canal da família, e a primeira hipótese é síndrome de Turner até o cariótipo dizer o contrário.
o que examino
Procuro os estigmas sabendo que podem faltar: Jamile tem implantação baixa dos cabelos na nuca, pescoço curto e largo, cúbito valgo discreto, alguns nevos e palato alto. É proporcional. Não há broto mamário, o que é esperado aos 9 anos. Meço a pressão arterial e palpo os pulsos femorais, porque a coarctação da aorta faz parte da síndrome; os dois estão normais e não há sopro. Examino tireoide, abdome e pele atrás de doença crônica escondida, e não acho nada.
o que peço hoje
Cariótipo com pelo menos 30 células, que é o exame que responde à pergunta principal e que o protocolo de 2025 manda pedir diante da baixa estatura, sem esperar outro resultado. Junto, a primeira leva da criança baixa: idade óssea, TSH e tiroxina livre, glicemia, IGF-1, antitransglutaminase IgA com IgA total com glúten na dieta, hemograma, hemossedimentação, creatinina e urina. Não peço teste de hormônio de crescimento: na síndrome de Turner a baixa estatura vem de resposta diminuída ao hormônio, não de falta dele, e o teste não entra no diagnóstico nem na indicação de somatropina. Não peço gonadotrofinas agora: aos 9 anos elas não mudam a conduta, e o protocolo manda dosá-las anualmente a partir dos 11.
como leio o resultado
O cariótipo, em 30 células, mostra 45,X em 21 e 46,XX em 9: síndrome de Turner com mosaicismo, a forma que o protocolo registra em 15% a 25% das mulheres com a síndrome. Não há cromossomo marcador nem em anel, e por isso não há indicação de pesquisar material do Y; se houvesse, a pesquisa entraria pelo risco de gonadoblastoma. A idade óssea é de 7 anos e 6 meses; TSH, tiroxina livre, glicemia, hemograma, creatinina, urina e a sorologia celíaca estão normais. O mosaicismo explica o fenótipo discreto e o diagnóstico aos 9 anos, e deixa uma possibilidade real de puberdade espontânea, que o protocolo estima em um terço das meninas com mosaico.
o que o diagnóstico muda hoje
Encaminho Jamile ao serviço especializado, como o protocolo manda depois do diagnóstico, com a curva, as velocidades, a altura dos pais, o cariótipo e a idade óssea. Peço o que o protocolo quer ao diagnóstico e que não depende do especialista para começar: ecocardiograma, ultrassonografia renal e audiometria; a função tireoidiana já está feita e a pressão arterial passa a ser medida em toda consulta. Deixo registrado o calendário que vem depois: função tireoidiana anual, audiometria a cada 3 anos, rastreio celíaco a cada 2 anos e, depois dos 10 anos, função hepática, glicemia e hemoglobina glicada anuais.
o que ela recebe pelo SUS
Somatropina, pelo protocolo de 2025: acima de 5 anos, a menina entra com estatura abaixo do percentil 5 da curva NCHS/CDC e idade óssea abaixo de 14 anos — Jamile cumpre os dois com folga. A dose é de 0,135 a 0,15 UI/kg/dia por via subcutânea, à noite, todos os dias: para 23,8 kg, 3,21 a 3,57 UI por dia, ou 1,07 a 1,19 mg, com a equivalência de 1 mg para 3 UI; o frasco vem do componente especializado, em apresentações de 4 a 30 UI. O tratamento para com idade óssea de 13,5 a 14 anos ou velocidade abaixo de 2 cm por ano, e o IGF-1 é medido todo ano. Aos 11 anos começam as dosagens anuais de LH e FSH; se subirem sem puberdade, a indução por volta dos 11 a 12 anos é feita com estrogênios conjugados por via oral, do componente básico, no esquema cuja conta está em Amenorreia: em que andar parou.
o que digo à mãe
“Dona Lucineide, o exame mostrou que a Jamile tem uma condição chamada síndrome de Turner. Em parte das células dela falta um dos cromossomos X — não foi nada que a senhora fez ou deixou de fazer. Isso explica ela ser menor que a família. Existe tratamento pelo SUS, uma injeção diária que ajuda a crescer, e quanto antes começar, melhor. Ela vai precisar de alguns exames do coração, dos rins e da audição, porque a síndrome às vezes mexe com eles, e de acompanhamento num serviço especializado. A puberdade pode vir sozinha ou pode precisar de ajuda com remédio lá pelos 11 ou 12 anos. As perguntas que a senhora ainda nem fez, inclusive sobre o futuro dela, vão ter espaço lá, com calma.”
o que não faço
Não troco o cariótipo pela hipótese da avó pequena, não espero a puberdade faltar aos 13 anos para pensar em Turner e não peço teste de hormônio de crescimento para uma menina cujo protocolo não o usa. Também não entrego o diagnóstico por telefone nem na porta: a conversa é marcada, com tempo, e o protocolo pede acolhimento e escuta qualificada da menina e da família, para diminuir estigma e sofrimento. Se aparecer queixa de dor de cabeça persistente, dor no quadril ou mancar depois que a somatropina começar, a avaliação é rápida, porque o protocolo aponta risco maior de hipertensão intracraniana e de deslizamento da epífise femoral.
Faça você
Iago Frota tem 6 anos e 4 meses e vem com a avó, dona Valdirene, que cuida dele desde bebê. Na unidade básica, há exatamente 12 meses, ele media 101,1 cm; hoje mede 104,9 cm e pesa 17,2 kg. Nasceu a termo com 3.350 g e 50 cm, sem hipoglicemia, icterícia prolongada ou internação, e não teve cirurgia nem irradiação. A caderneta mostra a linha descendo desde os 3 anos: entre −1 e −2 até os 4 anos e abaixo de −2 desde os 5. O pai, seu Edivaldo, veio ao retorno e mede 174 cm; a mãe, medida na semana anterior, 161 cm. O exame é normal: proporcional, sem dismorfismo, testículos tópicos, pênis de tamanho normal. A primeira leva voltou: idade óssea de 4 anos, IGF-1 abaixo do limite inferior para a idade, TSH, tiroxina livre, glicemia, hemograma, hemossedimentação, creatinina e urina normais, antitransglutaminase IgA não reagente com IgA total normal.
decida se Iago entra na investigação de deficiência de hormônio de crescimento e diga por quê
Calcule a velocidade e a altura-alvo, compare a velocidade com o que a Sociedade Brasileira de Pediatria espera para a idade e confira os critérios clínicos do protocolo federal de 2018. Diga também o que a idade óssea e o IGF-1 acrescentam e o que eles não provam.
escreva o plano de testes que o especialista vai precisar
Diga quantos testes de estímulo, em que datas e com que estímulos; qual estímulo está vetado para Iago e por quê; se há priming; qual é o ponto de corte e o que se faz com um pico entre 5 e 10 ng/mL; e quando entra a imagem.
faça a conta da somatropina se a deficiência for confirmada
Use a dose por quilo do protocolo, converta para UI com a equivalência que o próprio protocolo dá, diga o componente e as apresentações da Rename e o que se monitoriza a partir do primeiro ano.
Ver como fecharíamos
Iago cresceu 3,8 cm em 12 meses — (104,9 − 101,1) ÷ 1 —, bem abaixo dos 5 a 6 cm por ano que a Sociedade Brasileira de Pediatria espera entre 4 anos e a puberdade, e a linha dele cruza escores. A altura-alvo é (174 + 161 + 13) ÷ 2 = 174 cm, faixa de 169 a 179 cm: esse alvo adulto orienta a comparação com a trajetória, mas não se compara diretamente aos 104,9 cm atuais. Com estatura entre −3 e −2 e velocidade dessa ordem, ele cumpre o critério do protocolo de 2018 de estatura entre −3 e −2 com velocidade abaixo do percentil 25, que o especialista documenta no gráfico de velocidade; a primeira leva normal reduz a probabilidade das causas investigadas, desde que os exames tenham sido colhidos e interpretados nas condições adequadas. A idade óssea de 4 anos, com 2 anos e 4 meses de atraso, é compatível com deficiência de hormônio de crescimento — o protocolo registra atraso em geral maior que dois desvios-padrão —, mas não é específica. O IGF-1 baixo reforça a suspeita e não prova nada, por ter baixa especificidade; um IGF-1 acima da média é que falaria forte contra. O plano de testes: como a suspeita é de deficiência isolada, sem lesão, irradiação ou outra deficiência hipofisária, são dois testes de estímulo, em datas diferentes e com estímulos diferentes; o teste com hipoglicemia insulínica está vetado porque Iago pesa menos de 20 kg, e sobram clonidina, levodopa e glucagon; não há priming, que o protocolo reserva à menina a partir de 10 anos e ao menino a partir de 11. O ponto de corte é pico abaixo de 5 ng/mL em ensaio monoclonal; pico entre 5 e 10 com quadro sugestivo vai, de preferência, a centro de referência, onde o tratamento pode ser considerado. A ressonância da região hipotálamo-hipofisária entra depois da confirmação laboratorial, e a tomografia só se não houver ressonância. Confirmada a deficiência, a somatropina vai de 0,025 a 0,035 mg/kg/dia: para 17,2 kg, 0,43 a 0,60 mg por dia, ou 1,29 a 1,81 UI por dia com 1 mg igual a 3 UI, por via subcutânea à noite, 6 a 7 vezes por semana. Ela vem do componente especializado, em frascos de 4 a 30 UI em pó ou solução, e o volume a aspirar depende do diluente da marca dispensada, que o protocolo manda conferir na orientação à família. No seguimento, o especialista mede a criança de 3 em 3 ou de 6 em 6 meses e pede, uma vez por ano, glicemia de jejum, tireoide, idade óssea e IGF-1 — este também depois de cada mudança de dose; IGF-1 acima do limite pede redução da dose e nova dosagem em 30 a 60 dias.
Para a menina, a altura-alvo é pai menos 13 cm, mais a mãe, dividido por dois: (170 − 13 + 155) ÷ 2 = 156 cm, com margem de 5 cm. O retrato é de baixa estatura familiar — traçado paralelo, velocidade normal, pais baixos —, mas numa menina esse retrato não afasta a síndrome de Turner com mosaicismo, e o protocolo federal de 2025 lista a baixa estatura entre os sinais que pedem cariótipo com pelo menos 30 células, sem condicionar à altura da família. Somar 13 cm é a fórmula do menino, não somar nada é esquecer a correção de sexo, e subtrair 13 cm duas vezes não tem base. Teste de hormônio de crescimento e ressonância não se justificam com velocidade normal, e gonadotrofinas aos 8 anos não respondem à pergunta.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Reconstrua a avaliação a partir das duas trajetórias com o mesmo ponto inicial. Calcule as velocidades, explique por que a altura dos pais não normaliza uma desaceleração e diga quais dados permitem acompanhar ou exigem investigar. Em seguida, compare as consultas de Kauã: o que a progressão testicular acrescenta à curva? Diferencie altura atual de alvo adulto e explique por que idade óssea atrasada e IGF-1 baixo não confirmam sozinhos deficiência de hormônio de crescimento. Termine listando os sinais que antecipam o retorno, incluindo sintomas neurológicos.
Em 30 dias
Em dupla, representem em voz alta: (1) a consulta de um menino de 14 anos com testículos de 3 mL e pai que cresceu tarde, da medida dos pais ao pedido de exames, incluindo o que não se pede e por quê; (2) o retorno com idade óssea de 11 anos e IGF-1 baixo, explicando à mãe por que isso não é falta de hormônio; (3) uma menina de 9 anos baixa, filha de pais baixos, do pedido de cariótipo à conversa sobre o resultado de síndrome de Turner; (4) a conta da somatropina para uma criança de 20 kg com deficiência confirmada e para uma menina com síndrome de Turner de 30 kg, em mg e em UI; (5) um adolescente de 15 anos sem puberdade, com anosmia e criptorquidia bilateral operada, dizendo por que ele não espera até os 18 anos.
Agora atenda
Agora atenda: adolescente de 14 anos trazido pela mãe ao ambulatório de pediatria porque é o menor da turma e ainda não entrou na puberdade; o pai teria crescido tarde e a vizinha falou de uma injeção de hormônio de crescimento. Junte as medidas antigas e calcule a velocidade, meça e pergunte a altura dos pais para chegar ao alvo, examine proporções, olfato e volume testicular, decida a primeira leva de exames e o que fica de fora, converse com o adolescente sozinho e com a mãe, e diga o que faria o retorno ser antecipado.
