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A virose que respirava rápido

Diabetes mellitus tipo 1 e cetoacidose diabética na criança

Diabetes tipo 1 e cetoacidose na criança: a glicemia capilar que encerra a dúvida em um minuto, o que muda no soro, na insulina e no potássio quando o paciente pesa 24 quilos, e a vida com insulina em casa, na escola e na adolescência

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Diabete Melito Tipo 1. Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 17, de 12 de novembro de 2019. Brasília: Ministério da Saúde, 2020. 68 p. ISBN 978-85-334-2802-7.

Mantovani RM, Puñales M, Chen SV, Gabbay MAL. Peculiaridades do tratamento da criança com DM1. Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes (última revisão em 11/04/2023). DOI 10.29327/5238993.2023-2. ISBN 978-85-5722-906-8.

Silva Júnior WS, Gabbay MAL, Lamounier RN. Insulinoterapia no diabetes mellitus tipo 1 (DM1). Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes (última revisão em 25/01/2022). DOI 10.29327/557753.2022-5. ISBN 978-85-5722-906-8.

Rodrigues MLD, Calliari LE, Rodacki M. Manejo dos dias de doença no DM1. Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes (última revisão em 17/08/2023). DOI 10.29327/5238993.2023-1. ISBN 978-85-5722-906-8.

Santomauro AT, Santomauro Jr AC, Pessanha AB, Raduan RA, Marino EC, Lamounier RN. Diagnóstico e tratamento da cetoacidose diabética. Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes (última revisão em 27/03/2023). DOI 10.29327/5238993.2023-6. ISBN 978-85-5722-906-8.

01

Responda antes de ler

Menino de 7 anos, 22 kg, é trazido à unidade de pronto atendimento por vômitos há um dia e dor abdominal, sem febre e sem diarreia. Está sonolento, com respiração profunda de 34 incursões por minuto, ausculta pulmonar limpa, saturação de 98% em ar ambiente e enchimento capilar de 3 segundos. A mãe conta que ele voltou a molhar a cama na última semana. Qual é a primeira conduta?

02

O paciente que você vai ver

Terça-feira, duas e dez da tarde, pronto-socorro infantil de um hospital de ensino. A ficha de triagem diz "vômitos — retorno". Heloísa Figueiró tem 8 anos e entra no colo da mãe, Edilene, com a cabeça apoiada no ombro dela e os olhos semiabertos. Dois dias antes, as duas estiveram numa unidade de pronto atendimento do bairro: dor de barriga, quatro vômitos, nenhuma febre. Saíram com o diagnóstico de virose, um antiemético sublingual e a orientação de dar soro de reidratação em goles pequenos. O soro voltou todo. Hoje foram cinco vômitos até o almoço, e a menina parou de pedir para ir ao banheiro.

Você a vê na maca e a primeira coisa que chama atenção não é a barriga: é a respiração. Heloísa respira fundo e rápido, sem tiragem, sem chiado, como quem acabou de subir uma escada — trinta e seis vezes por minuto, com o tórax enchendo inteiro a cada vez. Quando você chega perto para auscultar, sente um cheiro adocicado, de fruta passada, no hálito. A saturação é de 97% em ar ambiente. A mãe conta que a pediatra da unidade chegou a perguntar se ela tinha asma, porque "estava cansadinha", e que a menina fez uma nebulização antes de ir para casa.

O exame termina de contar a história. Frequência cardíaca de 138, pressão de 104 por 66, enchimento capilar de três segundos, extremidades frias, mucosas secas, olhos fundos. Abre os olhos quando chamada, responde com uma palavra e volta a fechá-los: Glasgow 14. O abdome dói à palpação difusa, sem defesa localizada. Na balança da triagem, 24 quilos. Na Caderneta da Criança que Edilene tira da bolsa, a última pesagem, feita na unidade básica em junho, marcava 26,4.

Você volta à história com as perguntas que ninguém fez na unidade de pronto atendimento, e ela aparece sozinha. Há umas três semanas Heloísa acorda de madrugada para beber água — "enchia a garrafinha e levava para o quarto". Voltou a molhar a cama duas vezes, depois de quatro anos seca, e a mãe achou que era a mudança de escola. O uniforme ficou largo. Reclamou de coceira na região genital, e Edilene comprou uma pomada na farmácia. Na família, uma tia-avó usa insulina "desde velha". Ninguém em casa tem aparelho de medir glicose.

Da bolsa sai também o papel da unidade de pronto atendimento: antiemético, soro de reidratação oral e "retornar se piorar". Não há glicemia anotada. Edilene lembra que a escola tinha ligado duas vezes na semana anterior — Heloísa dormiu na carteira e pediu para sair da sala para beber água e ir ao banheiro tantas vezes que a professora estranhou. A menina, que costumava correr do portão até o carro, pedia colo para voltar para casa. Nenhuma dessas coisas, sozinha, parecia doença; juntas, contavam três semanas de sede, urina e cansaço que ninguém tinha somado.

A técnica de enfermagem fura o dedo da menina enquanto você ainda escreve a anamnese: 486 mg/dL. A fita da primeira urina que Heloísa consegue fazer, 180 mL numa comadre, marca glicose com quatro cruzes e cetona com três. Em um minuto, a virose de dois dias virou outra doença — e a respiração de asma virou a resposta do corpo a uma acidose que ele tenta soprar para fora.

A gasometria venosa e os eletrólitos chegam vinte minutos depois: pH 7,06, bicarbonato 6 mEq/L, pCO2 18 mmHg, sódio 132, potássio 5,1, cloro 104, ureia 52 mg/dL, creatinina 0,9 mg/dL e glicemia plasmática de 520 mg/dL. Edilene pergunta se é o vírus que piorou. É a hora de decidir três coisas ao mesmo tempo: quanto soro, quando a insulina e onde Heloísa vai passar a noite. E, antes delas, uma quarta: quem, nesta sala, vai ficar olhando para a cabeça dela nas próximas doze horas.

03

Quem adoece disso

O diabetes tipo 1 é o diabetes da infância, e o Brasil tem muita gente com ele. O relatório da Conitec de julho de 2026 sobre monitorização contínua de glicose registra cerca de 564 mil brasileiros com diabetes tipo 1 em 2021 e uma projeção de 1,8 milhão até 2040; no mundo, são mais de 8 milhões, com os casos novos crescendo de 3% a 4% ao ano. Para o interno, o número que importa é outro: a criança com diabetes tipo 1 que ainda não tem o diagnóstico não chega ao ambulatório de endocrinologia. Chega à unidade de pronto atendimento, à unidade básica ou ao pronto-socorro, com uma queixa que parece de outra coisa.

E chega tarde com frequência. O consenso pediátrico internacional de 2022 descreve que a abertura do diabetes tipo 1 já em cetoacidose varia de 15% a 70% das crianças nos estudos da Europa e da América do Norte, que vários países registraram aumento recente dessa proporção e que as crianças muito pequenas e os grupos étnicos mal atendidos pelos serviços de saúde abrem o quadro em cetoacidose mais vezes. O fator que mais pesa, e o único que depende de quem atende, é o atraso do diagnóstico — uma associação que ficou particularmente evidente durante a pandemia de covid-19. A proporção brasileira citada por documento nacional de pediatria está no capítulo Cetoacidose diabética, da apostila de Endocrinologia; aqui basta saber que cada virose que vomita e respira rápido sem glicemia capilar é uma chance de diagnóstico perdida.

A segunda porta da cetoacidose é a da criança que já sabe que tem diabetes. Nela, a causa quase nunca é mistério: o mesmo consenso afirma que a cetoacidose sem doença precedente, numa criança com diagnóstico conhecido, resulta quase sempre de insulina que não foi aplicada ou de falha na infusão da bomba, e que a omissão pesa sobretudo quando o que falta é a insulina basal — inclusive nos dias de gastroenterite, em que a família reduz a dose porque a criança não come. A diretriz brasileira de dias de doença acrescenta o que está por trás de parte das omissões: ansiedade, depressão, déficit de atenção e transtorno alimentar com suspensão voluntária da insulina para perder peso. Cetoacidose repetida em adolescente é, antes de tudo, uma pergunta sobre a vida dele.

O que torna a cetoacidose pediátrica uma doença diferente da do adulto é o cérebro. A lesão cerebral clinicamente evidente aparece em 0,5% a 0,9% das crianças tratadas e tem mortalidade de 21% a 24%, segundo o consenso de 2022; alteração do nível de consciência com Glasgow abaixo de 14 aparece em 4% a 15%, e os exames de imagem mostram que algum grau de edema cerebral é comum mesmo em quem não chega a ter sinal clínico. É por isso que a criança de 8 anos da cena não é tratada como um adulto de 24 quilos: o volume, a velocidade, o potássio, a insulina e a vigilância neurológica têm régua própria.

Fora da crise, o desafio é de outra escala. Nos registros internacionais citados pela diretriz brasileira de peculiaridades da criança, com dezenas de milhares de crianças acompanhadas em países ricos, a hemoglobina glicada média ficou entre 8,0% e 8,9% — acima das metas de qualquer documento. A mesma diretriz lembra que a altura final da criança com diabetes tipo 1 cai quanto maior a hemoglobina glicada e quanto mais longa a doença, e por isso manda pesar e medir em toda consulta. No SUS, a criança recebe insulina NPH e regular pelo Componente Básico, com tiras, lancetas e seringas; os análogos entram pelo Componente Especializado conforme os critérios do protocolo federal; o sensor de escaneamento intermitente teve a incorporação recusada em 2025, e o sensor de leitura em tempo real para o tipo 1 recebeu recomendação preliminar desfavorável em 2026, com decisão final ainda não publicada.

04

Por que acontece o que acontece

A destruição autoimune da célula beta, a razão pela qual quem não fabrica insulina não pode passar um dia sem ela e a bioquímica da cetogênese são as mesmas na criança e no adulto, e estão no capítulo Diabetes mellitus tipo 1 e insulinoterapia ("Quem fabrica a insulina agora é ele") e no capítulo Cetoacidose diabética, os dois da apostila de Endocrinologia. Este capítulo usa essa base e fica com o que o tamanho e a idade mudam: quanto líquido e quanto potássio uma criança perde por quilo, por que o cérebro dela é o órgão em risco, por que a insulina espera o soro e por que a dose que serve aos 8 anos não serve aos 14.

A crise quase sempre começa num dia comum. A diretriz brasileira de dias de doença descreve o gatilho: numa infecção febril, sobem cortisol, glucagon, hormônio de crescimento e adrenalina, que aumentam a quebra de glicogênio, a produção de glicose pelo fígado e a resistência à insulina. A glicemia sobe e, se a insulina disponível não acompanha, a gordura vira corpo cetônico. Na gastroenterite o risco vem pelo outro lado: a criança vomita, não come, a glicemia tende a cair, e a família reduz ou suspende a insulina — justamente a basal, que é a que segura a cetose no jejum. Cetona com glicemia normal ou baixa não é contradição: é falta de insulina com falta de carboidrato, e a saída é dar carboidrato para poder dar insulina, nunca tirar a insulina.

Instalada a falta de insulina, a glicose que passa do limiar renal leva água consigo, e a criança urina muito enquanto bebe o que consegue. O vômito fecha a conta pelo lado de fora. O consenso pediátrico internacional de 2022 dá a ordem de grandeza das perdas por quilo na cetoacidose: cerca de 70 mL de água (de 30 a 100), 6 mmol de sódio, 5 mmol de potássio e 4 mmol de cloro. Em Heloísa, com 24 quilos, isso é perto de 1,7 litro de água e de 120 mmol de potássio que saíram do corpo em poucos dias — numa criança que tem menos de dois litros de sangue.

O potássio do laudo engana. Heloísa perdeu uma parte grande do potássio corporal total, mas o exame veio 5,1: a acidose e a falta de insulina deslocam o potássio de dentro da célula para o plasma, e o número parece normal ou alto enquanto o estoque está vazio. Quando a insulina começar a correr, ela empurra o potássio de volta para dentro da célula, e o valor sérico despenca em horas. O sódio engana no sentido oposto: a glicose alta puxa água para o espaço extracelular e dilui o sódio medido, por isso se calcula o sódio corrigido, que soma ao valor medido 1,6 mEq/L a cada 100 mg/dL de glicose que passam de 100. O de Heloísa, 132 medido, corrige para perto de 139.

A respiração da cena é a acidose sendo compensada. A criança hiperventila para baixar o gás carbônico, e a pCO2 de 18 mmHg de Heloísa mede o tamanho do esforço. Esse número interessa por outro motivo: o consenso de 2022 registra que o grau de edema cerebral que se desenvolve durante a cetoacidose acompanha o grau de desidratação e de hiperventilação na chegada, e não a osmolalidade inicial nem as variações dela durante o tratamento. Por isso pCO2 abaixo de 21 mmHg entra na lista de risco de lesão cerebral, junto com pH abaixo de 7,1, idade abaixo de 5 anos e nitrogênio ureico acima de 20 mg/dL.

Durante décadas se atribuiu o edema cerebral da cetoacidose ao soro dado depressa demais, que baixaria a osmolalidade do plasma e incharia o cérebro. O consenso de 2022 descreve outra coisa: a evidência mais recente põe no centro a hipoperfusão cerebral e o estado inflamatório da própria cetoacidose, com inflamação cerebral demonstrada em modelos animais e quebra da barreira hematoencefálica. O ensaio randomizado de velocidade de hidratação na cetoacidose pediátrica, citado também pela diretriz brasileira de cetoacidose, comparou reposição rápida e lenta, com cloreto de sódio a 0,9% e a 0,45%, e nem a velocidade nem o teor de sódio mudaram o desfecho neurológico. A consequência prática é dupla: não se restringe soro a uma criança com a circulação comprometida por medo do cérebro, e não se sai da faixa de volumes que o ensaio testou, porque fora dela ninguém mediu.

A insulina tem um porquê em cada detalhe. Começa na dose de 0,05 a 0,1 unidade por quilo por hora, pelo menos uma hora depois de iniciado o soro, e sem bólus: segundo o consenso, o bólus é desnecessário, pode precipitar choque ao baixar rapidamente a pressão osmótica do plasma e agrava a hipocalemia. A glicose cai antes de a acidose resolver — o volume sozinho já baixa a glicemia, e a insulina corrige a glicose em horas e os corpos cetônicos em muitas horas —, e por isso a regra é acrescentar glicose ao soro quando a glicemia chega a 250 a 300 mg/dL e manter a insulina correndo até o pH passar de 7,30, o bicarbonato passar de 18 mEq/L e o beta-hidroxibutirato ficar abaixo de 1 mmol/L. O bicarbonato não entra: não trouxe benefício nos ensaios, pode acidificar paradoxalmente o líquor e derruba o potássio.

Passada a crise, a mesma criança muda de dose ao longo dos anos. Logo depois do diagnóstico vem, com frequência, a remissão parcial, a lua de mel, em que a necessidade cai para menos de 0,5 unidade por quilo por dia; o protocolo federal e a diretriz brasileira de insulinoterapia descrevem a subida para 0,7 a 1,0 no pré-púbere e para 1,0 a 2,0 na puberdade, que o protocolo trata como situação de resistência à ação da insulina. A criança pequena fica no outro extremo: come e dorme de forma irregular, precisa de doses tão pequenas que a seringa comum erra, faz mais hipoglicemia noturna e não sabe dizer o que sente. E há dois cérebros a proteger ao mesmo tempo, o da hiperglicemia e o da hipoglicemia: a diretriz de peculiaridades da criança cita estudo em que as crianças de 4 a 10 anos com diabetes tiveram crescimento mais lento da substância cinzenta e branca, associado à hiperglicemia acumulada e à variabilidade glicêmica, e metanálise em que as funções executivas pioraram quando a doença começou na infância e houve hiperglicemia crônica ou hipoglicemia grave.

05

Como se apresenta de verdade

O diabetes tipo 1 da criança chega por duas portas, e cada uma engana de um jeito. A primeira é a da criança sem diagnóstico, em que o diabetes se apresenta como outra coisa — xixi na cama, cansaço, emagrecimento, candidíase, e por fim a virose que vomita e respira rápido. A segunda é a da criança que já usa insulina e entra em cetoacidose, em que a pergunta não é o que ela tem, mas por que a insulina faltou. Entre as duas fica a apresentação que o interno vai ver no ambulatório e no telefone da família: a hipoglicemia, que numa criança de 3 anos não se parece com a de um adulto.

Algumas partes deste quadro têm dono em outro lugar do nível, e a fronteira fica assim. A cetoacidose do adulto e a lista geral de diagnósticos diferenciais estão no capítulo Cetoacidose diabética; o estado hiperosmolar do adulto, no capítulo O estado hiperosmolar e a pressa errada; o tratamento da hipoglicemia grave e as equivalências dos 15 gramas de carboidrato, no capítulo Antes da hipótese, a glicemia; os transtornos alimentares, no capítulo O corpo conta primeiro, da apostila de Psiquiatria; os três primeiros estão na apostila de Endocrinologia. A enurese como queixa própria, com a investigação da criança que nunca deixou de molhar a cama, é de Enurese noturna e distúrbios miccionais funcionais, na apostila de Nefrologia Pediátrica: este capítulo fica só com a regra que decide aqui — enurese que volta depois de meses seca, com sede ou emagrecimento, pede glicemia capilar no mesmo dia.

A criança que ninguém pensou em diabetes

O protocolo federal chama de sintomas clássicos da hiperglicemia a polidipsia, a poliúria, a noctúria e a perda de peso sem explicação. Na criança eles quase nunca chegam com esses nomes. A poliúria aparece como enurese secundária — a criança que estava seca há meses ou anos volta a molhar a cama —, como pedido para sair da sala de aula, como fralda que pesa demais de manhã. A polidipsia aparece como a garrafinha que vai para o quarto, a criança que bebe água da torneira do banheiro, o suco que acaba antes do fim da semana. A perda de peso aparece como o uniforme largo ou como a curva da caderneta que parou de subir, e é fácil de atribuir à mudança de escola, à fase ou à comida.

Há sinais que a família resolve sozinha e não conta: coceira genital na menina, que vira candidíase vulvar tratada com pomada de farmácia; vermelhidão no prepúcio do menino; assadura de fralda que não melhora no lactente. Cansaço, irritabilidade e queda no rendimento escolar completam um quadro que pode durar semanas. Nada disso é específico, e é justamente por isso que o exame que resolve precisa ser barato e rápido: a glicemia capilar, que custa uma fita e um minuto e está em qualquer unidade básica.

A regra prática deste capítulo é pedir a glicemia capilar sempre que duas dessas peças aparecem juntas — sede com xixi na cama, emagrecimento com cansaço, candidíase com qualquer uma delas. Glicemia ao acaso acima de 200 mg/dL numa criança com sintomas fecha o diagnóstico de diabetes pelo critério do protocolo federal e muda o dia: a criança não volta para casa com pedido de exame para a semana seguinte, mas vai para avaliação no mesmo dia, com cetona, gasometria e eletrólitos, porque o intervalo entre a sede e a cetoacidose, numa criança, pode ser de dias.

A virose que respira rápido: a cetoacidose disfarçada

Quando a cetoacidose se instala, os sintomas mudam de natureza e ficam parecidos com os de doenças muito mais comuns na infância. O vômito e a dor abdominal lembram gastroenterite; a dor pode ser intensa o bastante para simular abdome agudo. A respiração profunda e rápida, que é a compensação da acidose, é confundida com crise de asma ou com pneumonia. A sonolência é lida como cansaço de quem vomitou a noite toda. O consenso pediátrico internacional de 2022 reconhece que nem toda família relata poliúria e polidipsia e transforma essa armadilha em regra: considerar glicemia capilar em toda criança com respiração rápida e em toda criança com vômito e dor abdominal sem diarreia.

As duas ausências valem tanto quanto as presenças. Gastroenterite que vomita sem diarreia, com dor abdominal e desidratação desproporcional ao que se perdeu pelo intestino, é uma gastroenterite estranha. Taquipneia sem tiragem, sem sibilo e sem estertor, com saturação normal, é uma asma estranha. O hálito adocicado, de fruta passada, é o corpo cetônico sendo eliminado pela respiração, e quem já sentiu não esquece. A cena deste capítulo tem as três coisas — vômito sem diarreia, taquipneia com pulmão limpo e hálito — e duas oportunidades perdidas: a glicemia que não se fez na primeira consulta e a nebulização que se fez.

O custo do engano é concreto. O antiemético esconde o vômito por algumas horas enquanto a acidose avança; o soro de reidratação oral volta; o corticoide dado para a suposta asma sobe ainda mais a glicemia; o beta-2-agonista desloca potássio. E cada hora a mais de desidratação e de hiperventilação soma no risco de lesão cerebral, que acompanha o grau de desidratação e de hiperventilação na chegada. A criança que vomita e respira rápido não vai para casa sem glicemia capilar — nem na primeira consulta, nem no retorno.

O lactente e o pré-escolar: quando a criança não conta

Quanto menor a criança, menos o quadro se parece com o de livro. O lactente não pede água, não vai ao banheiro e não diz que está cansado. A poliúria vira fralda encharcada e troca a mais; a polidipsia vira choro que só para com a mamadeira; o emagrecimento vira ganho de peso parado na curva. Irritabilidade, sonolência e desidratação sem diarreia são, muitas vezes, os primeiros sinais que alguém nota. O consenso de 2022 registra que as crianças muito pequenas estão entre as que mais abrem o diabetes já em cetoacidose.

Duas consequências decorrem da idade. A primeira é de gravidade: idade abaixo de 5 anos está na lista de risco de lesão cerebral durante a cetoacidose, junto com acidose grave, hipocapnia intensa e nitrogênio ureico elevado — e a criança pequena desidrata mais depressa, porque a reserva é menor. A segunda é de suspeição: o lactente com desidratação importante, respiração acidótica e sem diarreia merece glicemia capilar antes de ser classificado, e a curva de peso da caderneta que desacelerou nos últimos meses conta a história que a mãe não sabe contar. A leitura da curva e dos marcos de crescimento está no capítulo A linha, não o ponto, da apostila de Puericultura e Desenvolvimento.

Fora da crise, a idade muda a hipoglicemia. A diretriz brasileira de peculiaridades da criança lembra que as crianças menores nem sempre conseguem referir os sintomas e que fazem mais hipoglicemia noturna, com mais variabilidade. O pré-escolar em hipoglicemia pode só ficar pálido, parar de brincar, chorar sem motivo, fazer birra ou dormir fora de hora; à noite, o sinal é o suor, o pesadelo, o choro ao despertar ou a dor de cabeça pela manhã. A família precisa aprender a medir quando a criança muda de comportamento, em vez de esperar que ela diga que está com fome ou tremendo.

A criança que já tem diabetes e chega em cetoacidose

Na criança com diagnóstico conhecido, a cetoacidose conta uma história de insulina que faltou. O consenso de 2022 põe as causas em poucas linhas: omissão de doses, interrupção da infusão na criança que usa bomba, e manejo inadequado de uma infecção — sobretudo quando se deixa de aplicar a insulina basal ou se reduz muito a dose num dia de gastroenterite. Sem uma doença que explique, cetoacidose em criança com diabetes conhecido é quase sempre insulina que não entrou.

Por isso a anamnese dessa criança é específica. Quem aplica a insulina e a que horas foi a última dose de insulina NPH? Alguém deixou de dar a basal porque a criança não comeu? A glicemia vinha sendo medida, e o que mostrava nos últimos dias? A insulina em uso está no prazo e foi guardada como se orienta, sem congelar e sem esquentar? Na criança com bomba, o conjunto de infusão foi trocado? Houve febre, vômito, corticoide ou mudança recente de rotina? As respostas decidem o que muda na alta, e a alta não é segura sem elas.

No adolescente, a pergunta se aprofunda. Cetoacidose que se repete, hemoglobina glicada que sobe apesar de a família jurar que as doses estão sendo aplicadas e perda de peso sem explicação são o retrato da omissão deliberada. A diretriz brasileira de dias de doença lembra que a omissão pode representar ansiedade, depressão, déficit de atenção ou transtorno alimentar com suspensão voluntária da insulina para perder peso. Essa conversa pede o adolescente a sós, com o sigilo e os limites dele claros, e é o assunto do caso resolvido deste capítulo; o reconhecimento e a gravidade dos transtornos alimentares estão no capítulo O corpo conta primeiro, da apostila de Psiquiatria.

Gravidade, lesão cerebral e o leito certo

A gravidade da cetoacidose se lê em parte antes do laudo. O consenso de 2022 chama de cetoacidose grave a da criança com sintomas de longa duração, circulação comprometida ou nível de consciência rebaixado, e manda considerar tratamento imediato em unidade de terapia intensiva — pediátrica se houver — ou em unidade com recursos e supervisão equivalentes para ela e para toda criança com risco aumentado de lesão cerebral: idade abaixo de 5 anos, pH abaixo de 7,1, pCO2 abaixo de 21 mmHg ou nitrogênio ureico acima de 20 mg/dL. Heloísa tem três dos quatro, e o leito dela não é na enfermaria.

O nitrogênio ureico merece uma tradução, porque o laudo brasileiro não o traz. O corte de 20 mg/dL do consenso é de nitrogênio ureico, a sigla inglesa BUN; o laboratório brasileiro libera ureia, que é 2,14 vezes maior para a mesma quantidade de nitrogênio. O corte equivalente em ureia é de cerca de 43 mg/dL. Ler "ureia acima de 20" poria na lista de risco praticamente toda criança desidratada; ler "ureia acima de 43" é o que o consenso quis dizer. A ureia de 52 mg/dL de Heloísa corresponde a um nitrogênio ureico de 24 mg/dL: está acima do corte.

Os sinais de alerta de lesão cerebral são clínicos e têm hora. A diretriz brasileira de cetoacidose descreve o edema clinicamente significativo surgindo em geral dentro das 12 primeiras horas do tratamento — às vezes antes de ele começar e, raramente, um ou dois dias depois. O consenso pediátrico lista os sinais que obrigam a agir: cefaleia ou vômito que começam depois do início do tratamento, ou cefaleia que piora; queda da frequência cardíaca que não se explica pelo sono nem pela melhora do volume; mudança do estado neurológico — irritabilidade, letargia, confusão, incontinência; sinal neurológico focal, como paralisia de nervo craniano; e queda da saturação. Hipertensão arterial isolada é comum na criança em cetoacidose e, sem outro achado, não é sinal de alerta. O que fazer diante deles está no bloco de conduta.

Quando não é cetoacidose clássica: o estado hiperosmolar na criança

Uma minoria das crianças chega com glicemia muito alta e pouca acidose. O consenso de 2022 define o estado hiperosmolar pelos cinco critérios juntos: glicemia acima de 600 mg/dL, pH venoso acima de 7,25 ou arterial acima de 7,30, bicarbonato acima de 15 mmol/L, cetonúria discreta com cetonemia ausente ou leve, e osmolalidade sérica efetiva acima de 320 mOsm/kg. O mesmo documento registra que o quadro aparece na criança com diabetes tipo 2, no diabetes tipo 1, na fibrose cística e no lactente com diabetes neonatal, e que complicações como rabdomiólise, insuficiência renal e pancreatite aguda, muitas vezes fatais, têm sido mais frequentes nele do que na cetoacidose.

O reconhecimento importa porque o tratamento é diferente do da cetoacidose, e aplicar o esquema errado machuca nos dois sentidos. No estado hiperosmolar o volume é maior — bólus inicial de pelo menos 20 mL/kg de cloreto de sódio a 0,9% e déficit presumido de 12% a 15% do peso —, a insulina entra mais tarde e em dose menor, de 0,025 a 0,05 unidade por quilo por hora, só quando a glicemia deixa de cair mais de 50 mg/dL por hora com o soro sozinho, e o acompanhamento inclui a queda do sódio corrigido. Existe ainda a apresentação mista, a cetoacidose hiperosmolar, que reúne acidose e hiperosmolalidade e exige atenção às duas.

O adolescente obeso, com acantose e glicemia de 900 mg/dL sem acidose importante, não é uma cetoacidose leve: é outro diagnóstico, que vai para a terapia intensiva e segue a régua do estado hiperosmolar. A fisiologia da hiperosmolalidade e o manejo detalhado no adulto estão no capítulo O estado hiperosmolar e a pressa errada; o que este capítulo pede ao interno é que calcule a osmolalidade efetiva de toda criança com glicemia acima de 600 antes de prescrever o primeiro soro.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação da criança com suspeita de cetoacidose tem uma ordem que não se inverte: primeiro o que se faz à beira do leito em um minuto, depois a coleta única antes da insulina, depois as contas que o laudo não traz, e só então a busca do que desencadeou a crise. Tudo isso acontece enquanto o primeiro soro já está correndo — a investigação não atrasa o volume. Na última seção ficam os exames que a criança leva para o seguimento, porque o dia do diagnóstico é também o dia da primeira coleta de rastreio.

1. Um minuto: a glicemia capilar e a cetona

A glicemia capilar é o exame que separa a virose da cetoacidose, e se faz na triagem, antes do antiemético e antes da nebulização. Acima de 200 mg/dL, numa criança com vômito, dor abdominal ou respiração rápida, ela abre a investigação de cetoacidose, porque o primeiro critério do consenso pediátrico internacional é justamente a glicemia acima de 200 mg/dL. Um glicosímetro que marca "HI" não é defeito do aparelho: é glicemia acima do limite de leitura, e a coleta venosa segue na mesma hora.

A cetona tem dois caminhos, e eles medem coisas diferentes. A fita de urina, que existe em toda unidade, usa a reação do nitroprussiato e detecta acetoacetato e acetona; o beta-hidroxibutirato, que é o corpo cetônico que predomina na cetoacidose, só aparece no exame de sangue — capilar, com aparelho próprio, ou no laboratório. A diretriz brasileira de cetoacidose cita revisão sistemática em que o beta-hidroxibutirato capilar teve maior acurácia que a cetonúria para o diagnóstico, e o consenso pediátrico usa cetonemia a partir de 3 mmol/L, ou cetonúria moderada a intensa, como segundo critério. A cetonúria tem ainda um atraso: continua positiva por horas depois de o beta-hidroxibutirato normalizar, e por isso o consenso manda não usar a ausência de cetonúria como marca de resolução.

No SUS, essa diferença tem endereço. A Rename 2024 não inclui fita para cetona, nem glicosímetro, entre os insumos; o que ela traz no Componente Básico são as tiras de glicemia capilar e as lancetas. A cetonemia capilar existe onde o hospital compra o aparelho e as fitas. Na unidade que só tem fita de urina, o diagnóstico se faz com ela e com a gasometria, e o acompanhamento da resolução se faz pelo pH, pelo bicarbonato e pelo ânion gap — não pela cruz da urina.

2. A coleta única antes da insulina

O consenso de 2022 põe a avaliação de emergência dentro do suporte avançado de vida pediátrico e pede, de imediato, glicemia, cetona no sangue ou na urina, eletrólitos, gasometria e avaliação do nível de consciência, com a escala de Glasgow. A coleta inclui pH venoso, pCO2, bicarbonato, sódio, potássio, cloro, nitrogênio ureico — ureia, no laudo brasileiro — e creatinina. A gasometria venosa basta: o consenso raciocina com o pH venoso, e a punção arterial fica para a rara criança grave que precisa de cateter arterial na terapia intensiva.

Dois acessos venosos periféricos, e não um: um para o soro e a insulina, outro para as coletas repetidas sem nova punção. O mesmo documento desaconselha o cateter venoso central, pelo risco alto de trombose, e manda retirá-lo assim que possível quando ele já existe. A criança vai para o monitor cardíaco desde a chegada, porque a onda T é o primeiro lugar em que o potássio aparece. Se o laudo do potássio vai demorar, um eletrocardiograma de base ajuda: onda T alta, apiculada e simétrica sugere hipercalemia; onda T achatada ou invertida, onda U proeminente e QT aparentemente longo sugerem hipocalemia.

O peso entra na coleta como exame. Heloísa foi pesada na triagem com 24 quilos, e é esse número que multiplica o soro, a insulina, o potássio e o manitol. A criança que chega grave demais para subir na balança recebe um peso estimado, que se anota como estimado e se corrige assim que for possível pesar. O potássio que vale para a decisão é o do laboratório: a diretriz brasileira de cetoacidose lembra que o potássio da gasometria, mais rápido, não substitui a dosagem plasmática.

3. As contas que o laudo não traz

Três contas saem da primeira coleta e cabem num canto da folha de prescrição. O ânion gap é o sódio menos a soma do cloro com o bicarbonato; o consenso dá como normal 12, com variação de 2 para cima ou para baixo, descreve valores típicos de 20 a 30 na cetoacidose e alerta que acima de 35 sugere acidose lática associada. Em Heloísa, 132 menos 110 dá 22. A queda do ânion gap é uma das marcas de resolução — e é a marca disponível quando não há beta-hidroxibutirato para medir.

O sódio corrigido soma ao sódio do laudo 1,6 mEq/L por 100 mg/dL de glicose excedente, contando a partir de 100. Em Heloísa, com glicemia de 520 e sódio de 132, o corrigido é de cerca de 139. Ele serve para duas coisas: estimar se a criança perdeu mais água ou mais sódio e acompanhar o tratamento, em que o sódio medido deve subir à medida que a glicose cai, enquanto o corrigido fica estável ou desce devagar. O consenso registra que a queda do sódio corrigido não se associou, num grande estudo prospectivo, a lesão cerebral, e que não é mais necessário forçar a subida do sódio durante o tratamento.

A osmolalidade efetiva é o dobro do sódio somado à glicemia dividida por 18. A de Heloísa é de cerca de 293 mOsm/kg, dentro da faixa normal de 275 a 295 do consenso — o que afasta o estado hiperosmolar e a apresentação mista. A ureia não entra nessa soma, porque atravessa a membrana e não puxa água. E a ureia pede a quarta conta, a da tradução: dividida por 2,14, ela vira o nitrogênio ureico dos critérios internacionais. Os 52 mg/dL de Heloísa são 24 de nitrogênio ureico, acima do corte de risco de lesão cerebral.

4. Fechar o diagnóstico e dar nome à gravidade

Os critérios do consenso de 2022 são três, e os três precisam estar presentes: glicemia acima de 200 mg/dL; pH venoso abaixo de 7,3 ou bicarbonato abaixo de 18 mmol/L; e cetonemia de 3 mmol/L ou mais, ou cetonúria moderada a intensa. A edição de 2022 incluiu o bicarbonato abaixo de 18 como critério, e o documento acrescenta que, na criança com diabetes recém-diagnosticado, o bicarbonato sozinho pode substituir o pH para diagnosticar e classificar quando não há como medir o pH.

A gravidade se classifica pelo grau de acidose. É leve com pH abaixo de 7,3 ou bicarbonato abaixo de 18; moderada com pH abaixo de 7,2 ou bicarbonato abaixo de 10; grave com pH abaixo de 7,1 ou bicarbonato abaixo de 5. Como os critérios são ligados por "ou", vale a classe mais grave que qualquer um dos dois alcançar. O bicarbonato de 6 de Heloísa a poria na moderada; o pH de 7,06 a põe na grave, e é essa a classe que se anota.

A classe decide o leito junto com os fatores de risco de lesão cerebral, e não sozinha. A criança de 3 anos com cetoacidose moderada e ureia de 50 tem dois fatores de risco e merece o mesmo cuidado que a de 12 anos com cetoacidose grave. A tabela que junta classe, risco e destino está no bloco de critério, e a tradução do nitrogênio ureico para a ureia do laudo brasileiro está na seção anterior.

5. O que desencadeou e o que pode complicar

O tratamento da cetoacidose não termina, diz o consenso, antes de se tentar identificar e tratar a causa. Na criança com diagnóstico novo, a causa é o próprio diabetes, e a pergunta que fica é quanto tempo ele passou sem ser visto. Na criança com diagnóstico conhecido, o exame físico procura foco infeccioso — ouvido, garganta, pulmão, urina, pele — com atenção ao estado mental, e a anamnese procura a dose que faltou. Exame de urina, radiografia de tórax e culturas entram quando a clínica aponta para eles, não como pacote.

Algumas dosagens acompanham o tratamento e não o diagnóstico. O fósforo cai durante a reposição, e o consenso manda tratar a hipofosfatemia grave, abaixo de 1 mg/dL, e vigiar cálcio e magnésio quando se infunde fosfato, porque o fosfato em excesso derruba o cálcio. O consenso considera aconselhável a reposição rotineira de fosfato onde ela é disponível, sobretudo na cetoacidose grave, com fosfato de potássio misturado ao cloreto de potássio; a Rename 2024 traz o fosfato de potássio injetável no Componente Básico.

Uma dosagem não deve atrasar nada: a imagem de crânio. Diante de sinal de lesão cerebral, o consenso manda iniciar a terapia hiperosmolar primeiro e só depois, com a criança estabilizada, considerar a imagem, cuja razão principal é procurar lesão que exija neurocirurgia de urgência, como hemorragia intracraniana, ou anticoagulação, como trombose venosa cerebral — sobretudo quando há sinal focal. A criança não sai da sala de emergência para a tomografia com o manitol esperando na bancada.

6. O tipo 1 confirmado e a primeira coleta do seguimento

Na criança que abre o quadro com cetoacidose, a sede, a perda de peso e a acidose já mostram a falta de insulina que o protocolo federal chama de insulinopenia inequívoca, e a insulina não espera exame nenhum. Autoanticorpos e peptídeo C entram quando o tipo está em dúvida. A dúvida que o interno vai encontrar é a do adolescente obeso, com acantose e história familiar de diabetes tipo 2: o consenso de 2022 registra que de 5% a 25% das crianças com diabetes tipo 2 também abrem o quadro em cetoacidose, e a cetoacidose, por si só, não prova tipo 1.

O dia do diagnóstico é também o dia da primeira coleta de seguimento, e o protocolo federal fixa o calendário da criança no Apêndice D: peso e altura em toda consulta; avaliação da puberdade uma vez por ano; hemoglobina glicada ao diagnóstico e a cada seis meses; função tireoidiana ao diagnóstico e depois anualmente; lipídios a partir dos 10 anos ou do início da puberdade, repetidos em cinco anos se normais; albuminúria e fundo de olho a partir de cinco anos de doença ou da puberdade, e depois anuais; e avaliação psicológica ao diagnóstico e quando houver cetoacidose ou dificuldade de controle.

A doença celíaca completa a lista. O protocolo federal da doença celíaca, de 2025, põe a pessoa com diabetes tipo 1 entre os grupos de risco que se rastreiam com antitransglutaminase IgA e IgA total, com ou sem sintoma; a regra de rastreio, o intervalo e o que fazer com o resultado estão no capítulo Diabetes mellitus tipo 1 e insulinoterapia, da apostila de Endocrinologia, que é dono desse rastreio. O que muda na criança é o que o resultado desencadeia: baixa estatura, anemia ou diarreia numa criança com diabetes e sorologia positiva pedem o gastroenterologista pediátrico, porque o protocolo de 2025 confirma o diagnóstico sempre pela biópsia duodenal; a investigação da doença celíaca na infância é de Diarreia persistente e crônica na criança e doença celíaca, na apostila de Gastroenterologia Pediátrica.

07

Da glicemia capilar à alta com insulina: o que decide cada passo

Tudo o que decide a tarde de Heloísa e os dias seguintes cabe numa sequência de doze passos e em quatro tabelas: a que junta classe, risco e leito; a das contas para 24 quilos, feitas contra as apresentações da Rename; a do que o SUS entrega à criança com diabetes tipo 1; e a do dia de doença em casa. As notas do fim registram onde os documentos se contradizem em ponto que muda a dose ou a decisão, com a conta.

  1. 1Criança com vômito e dor abdominal sem diarreia, com respiração rápida, ou com sede, xixi na cama e emagrecimento: glicemia capilar na triagem, antes do antiemético e da nebulização.
  2. 2Glicemia acima de 200 mg/dL com sintomas: cetona no sangue ou na urina, gasometria venosa, sódio, potássio, cloro, ureia e creatinina numa coleta só, antes da insulina; peso na balança, dois acessos periféricos e monitor cardíaco.
  3. 3Cetoacidose quando os três critérios coexistem: glicemia acima de 200; pH abaixo de 7,3 ou bicarbonato abaixo de 18; cetonemia de 3 mmol/L ou mais, ou cetonúria moderada a intensa. A classe é a mais grave que o pH ou o bicarbonato alcançar.
  4. 4Glicemia acima de 600 com osmolalidade efetiva acima de 320, pH venoso acima de 7,25 e bicarbonato acima de 15: estado hiperosmolar, outra régua de volume e de insulina, terapia intensiva.
  5. 5Cetoacidose grave, ou qualquer classe com idade abaixo de 5 anos, pH abaixo de 7,1, pCO2 abaixo de 21 ou ureia acima de 43 mg/dL (nitrogênio ureico acima de 20): UTI pediátrica ou unidade equivalente, com a dose de manitol e de salina a 3% calculada e escrita na prescrição.
  6. 6Volume antes da insulina: cloreto de sódio a 0,9%, 10 a 20 mL/kg em 20 a 30 minutos (20 mL/kg se a perfusão está ruim; no choque, bólus de 20 mL/kg rápidos, reavaliando a cada um); depois, déficit presumido de 5% a 10% do peso, menos o bólus, em 24 a 48 horas, somado à manutenção.
  7. 7Potássio: acima de 5,5 mmol/L, soro sem potássio até documentar diurese, dosando a cada hora; entre 3,5 e 5,5, soro com 40 mEq/L a partir do início da insulina; abaixo de 3,5, potássio primeiro, com monitor, e insulina adiada até ele subir. Teto de 0,5 mEq/kg/h.
  8. 8Insulina regular endovenosa, 0,05 a 0,1 unidade por quilo por hora, começando pelo menos 1 hora depois do soro, sem bólus; 0,05 pode ser considerada com pH acima de 7,15.
  9. 9Glicemia chegando a 250 a 300 mg/dL, ou caindo mais de 90 mg/dL por hora depois da expansão: glicose a 5% no soro, até 10% ou 12,5% se preciso. A insulina não é desligada e não desce abaixo de 0,05 U/kg/h antes da resolução.
  10. 10Cefaleia ou vômito novos depois do início do tratamento, bradicardia sem explicação, mudança do estado neurológico, sinal focal ou queda da saturação: manitol 0,5 a 1 g/kg ou salina a 3% 2,5 a 5 mL/kg em 10 a 15 minutos, agora; ajuste do volume sem deixar hipotensão; imagem só depois de iniciada a terapia hiperosmolar.
  11. 11Resolução — pH acima de 7,30, bicarbonato acima de 18 e beta-hidroxibutirato abaixo de 1 mmol/L ou ânion gap normalizado — com a criança aceitando a via oral: insulina subcutânea antes de uma refeição, basal junto, e desligamento da bomba só depois de a dose subcutânea começar a agir.
  12. 12Alta com esquema basal-bólus de insulina NPH e regular pela unidade básica, dose total de 0,5 a 1 U/kg/dia ajustada pela glicemia capilar, plano escrito de hipoglicemia, de dia de doença e para a escola, retorno marcado e pedido dos exames iniciais de seguimento; análogos pelos critérios do protocolo federal a partir de três meses.

Classe, risco e leito: onde a criança em crise hiperglicêmica fica

SituaçãoComo se reconheceOnde a criança ficaO que muda na prescrição
Cetoacidose levepH abaixo de 7,3 ou bicarbonato abaixo de 18, sem fator de risco de lesão cerebralUnidade com equipe treinada, glicemia horária e vigilância neurológica frequenteInsulina a 0,05 U/kg/h pode ser considerada se o pH passa de 7,15
Cetoacidose moderadapH abaixo de 7,2 ou bicarbonato abaixo de 10A mesma unidade; terapia intensiva se houver fator de riscoInsulina de 0,05 a 0,1 U/kg/h; potássio e glicose no soro conforme os passos
Cetoacidose gravepH abaixo de 7,1 ou bicarbonato abaixo de 5; ou sintomas longos, circulação comprometida ou consciência rebaixadaUTI pediátrica ou unidade com recursos e supervisão equivalentesInsulina a 0,1 U/kg/h; manitol e salina a 3% calculados à beira do leito
Qualquer classe com risco de lesão cerebralIdade abaixo de 5 anos, pH abaixo de 7,1, pCO2 abaixo de 21 mmHg, ureia acima de 43 mg/dL (nitrogênio ureico acima de 20)UTI pediátrica ou unidade equivalenteDose de manitol e de salina a 3% escrita na prescrição desde a chegada
Estado hiperosmolarGlicemia acima de 600, pH venoso acima de 7,25, bicarbonato acima de 15, osmolalidade efetiva acima de 320, cetose ausente ou leveTerapia intensivaBólus de pelo menos 20 mL/kg, déficit de 12% a 15%, insulina de 0,025 a 0,05 U/kg/h só quando o soro sozinho deixa de baixar 50 mg/dL por hora
Cetose sem acidose na criança com diabetes conhecido, sem vômito e sem desidrataçãoCetona positiva com pH e bicarbonato normaisCasa, com família treinada em dia de doença, ou unidade com supervisão da equipe de diabetesInsulina subcutânea extra conforme a Tabela 4 e reavaliação em horas

As contas de Heloísa, 24 kg, contra as apresentações da Rename 2024

O que se prescreveRegraConta para 24 kgComo sai da apresentação
Bólus inicialCloreto de sódio a 0,9%, 10 a 20 mL/kg em 20 a 30 min; 20 mL/kg com perfusão ruim20 × 24 = 480 mLCloreto de sódio a 0,9% (Básico): 480 mL em 30 minutos
Déficit a reporPresumido de 5% a 10% do peso, menos o bólus, em 24 a 48 h10% = 2.400 mL; menos 480 = 1.920 mL; em 48 h = 40 mL/hSomado à manutenção no mesmo soro
ManutençãoHolliday–Segar: 1.500 mL/dia mais 20 mL/kg/dia acima de 20 kg1.500 + 80 = 1.580 mL/dia = 65,8 mL/hSomada ao déficit no mesmo soro
Vazão totalDéficit mais manutenção40 + 65,8 ≈ 106 mL/h (4,4 mL/kg/h)Dentro da faixa do consenso: déficit de 5% a 10% reposto em 24 a 48 horas
Potássio no soro40 mEq/L; teto de 0,5 mEq/kg/h106 mL/h × 40 mEq/L = 4,2 mEq/h (0,18 mEq/kg/h); teto 12 mEq/hCloreto de potássio a 19,1% (2,56 mEq/mL): 15,6 mL por litro, ou 7,8 mL em cada frasco de 500 mL
Insulina regular endovenosa0,1 U/kg/h com pH até 7,15; sem bólus0,1 × 24 = 2,4 U/h50 UI (0,5 mL de insulina regular 100 UI/mL) em 49,5 mL de cloreto de sódio a 0,9% = 1 UI/mL; bomba a 2,4 mL/h
Glicose no soro5% quando a glicemia chega a 250 a 300 mg/dL106 mL/h a 5% = 5,3 g/h de glicose (3,7 mg/kg/min)450 mL de cloreto de sódio a 0,9% + 50 mL de glicose a 50% = 500 mL com glicose a 5% e sódio de 139 mEq/L
Manitol0,5 a 1 g/kg em 10 a 15 min12 a 24 gNão consta da Rename 2024; onde o hospital tiver manitol a 20% (0,2 g/mL): 60 a 120 mL
Salina a 3%2,5 a 5 mL/kg em 10 a 15 min; 2,5 mL/kg equivalem a 0,5 g/kg de manitol60 a 120 mLPara 60 mL: 6,6 mL de cloreto de sódio a 20% (3,4 mEq/mL) + 53,4 mL de cloreto de sódio a 0,9% = 511 mEq/L

O que o SUS entrega à criança com diabetes tipo 1

ItemSituação na rede públicaRegra de acessoO que isso muda no plano
Insulina humana NPH 100 UI/mLRename 2024, Componente BásicoUnidade básica, com a receitaBasal em duas ou três aplicações diárias
Insulina humana regular 100 UI/mLRename 2024, Componente BásicoUnidade básica, com a receitaBólus 30 minutos antes das três refeições principais, em dose fixa por refeição
Insulina análoga de ação rápida 100 UI/mLRename 2024, Componente EspecializadoProtocolo federal: NPH e regular por 3 meses e, nos últimos 6 meses, hipoglicemia grave, não graves 2 ou mais por semana, noturnas 1 ou mais por semana ou mau controle persistente; glicemia capilar 3 ou mais vezes ao dia; consultas 2 ou mais por anoAplicada junto da refeição, permite ajustar a dose ao carboidrato do prato
Insulina análoga de ação prolongada 100 e 300 UI/mLRename 2024, Componente EspecializadoNPH com análogo rápido por 3 meses e os mesmos critérios; fora da faixa etária da bula, excluídaMenos hipoglicemia noturna do que a NPH
Tiras de glicemia capilar, lancetas e seringas com agulha acopladaRename 2024, insumos do Componente BásicoUnidade básicaGlicemia capilar antes das refeições, ao deitar e sempre que a criança mudar de comportamento
GlucagonNão consta da Rename 2024Hipoglicemia grave em casa: criança de lado, nada pela boca, serviço de urgência; a família que compra o glucagon aprende a dose
Fita para cetona e glicosímetroNão constam da Rename 2024Cetona em casa só com aparelho próprio; na unidade, fita de urina; o aparelho que lê as tiras precisa de caminho definido com a rede local
Sensor de glicoseNão consta; escaneamento intermitente não incorporado (Portaria SECTICS/MS nº 2/2025); leitura em tempo real para o tipo 1 com recomendação preliminar desfavorável em 2026A meta de hemoglobina glicada da diretriz da criança fica condicionada à tecnologia; ver divergências
ManitolNão consta da Rename 2024Salina a 3% preparada com cloreto de sódio a 20% e a 0,9%, que constam

Dias de doença em casa: aplicar o plano individual e reconhecer quando procurar atendimento

O que a família encontraO que faz com a insulinaO que ofereceQuando procura o pronto-socorro
Glicemia acima de 250 mg/dL, cetona negativa (sangue abaixo de 0,6 mmol/L ou urina negativa)Manter cobertura basal. Correção subcutânea conforme o plano individual: a referência cita acréscimo de 10% da dose total diária se glicemia acima de 400. Conferir dose recente e não somar correções antes do intervalo prescrito.Água e líquidos sem açúcarGlicemia que não cai em duas medidas seguidas, ou cetona que aparece
Glicemia acima de 250, cetonemia de 0,6 a 1,4 (urina com traços ou uma cruz)Manter cobertura basal e seguir a correção previamente escrita pela equipe. A referência usa 10% da dose total diária nesta faixa; não aplicar esse percentual automaticamente sem considerar a insulina ainda ativa.Água e líquidos adequados à hidratação em pequenos volumes frequentes. Contabilizar o carboidrato de bebidas e alimentos; água de coco e sopas não são necessariamente isentos de carboidratos.Vômito que se repete, ou cetona que sobe
Glicemia acima de 250, cetonemia de 1,5 a 2,9 (urina moderada)Contato com a equipe no mesmo momento. A referência cita correção de 20% da dose total diária, que precisa integrar o plano individual e a última dose aplicada; garantir capacidade de reavaliar.Os mesmos líquidos, em goles frequentesAtendimento imediato com vômitos, respiração profunda, sonolência ou dificuldade para hidratar; cetose que persiste ou sobe apesar do plano também exige avaliação. Não aguardar duas horas diante de piora clínica.
Qualquer glicemia com cetonemia de 3,0 mmol/L ou mais (urina intensa)Aplica o reforço já combinado com a equipe e sai de casaNada que atrase a saídaAgora: é o nível de cetonemia que entra no critério de cetoacidose
Glicemia abaixo de 90 com vômito ou sem comer, cetona negativaCorrigir hipoglicemia e manter cobertura basal com ajuste individual. A referência admite redução de insulina em algumas situações; a equipe define qual dose reduzir, quanto e quando, conforme tendência e ingestão.Líquidos com açúcar em goles: suco, isotônico geladoNão consegue beber, vomita tudo ou tem glicemia abaixo de 70 que não sobe
Glicemia normal ou baixa com cetona positivaManter cobertura de insulina e ofertar carboidratos conforme tolerância. Cetose pode coexistir com glicemia normal ou baixa: dose, horário e necessidade de assistência são decididos com a equipe.Líquido com açúcar em goles pequenos e repetidosAtendimento imediato se não mantém carboidrato por via oral, tem vômitos persistentes, hipoglicemia recorrente ou sinais de cetoacidose. Pode precisar de glicose intravenosa para receber insulina com segurança.

Hospital e domicílio: qual plano cabe à situação?

SituaçãoPlano aplicávelO que impede continuar nesse plano
Cetoacidose confirmada ou suspeita clínica importanteHospital: estabilização, gasometria, eletrólitos, cetonas e monitorização; líquidos, potássio e insulina por protocolo pediátrico.A tabela de correções em casa não substitui o tratamento hospitalar nem serve para orientar infusão intravenosa.
DM1 conhecido, intercorrência leve, criança alerta e bebendo, cuidador capaz de monitorarPlano domiciliar individual escrito pela equipe, com insulina, hidratação, glicemia e cetonas. Confirmar horário da última dose.Vômitos persistentes, desidratação, respiração profunda, alteração neurológica, hipoglicemia que não corrige ou cetose que aumenta exigem atendimento.
Após resolução da cetoacidoseTransição supervisionada para insulina subcutânea com sobreposição adequada; observar alimentação e resposta ao esquema antes da alta.Glicemia normal isoladamente não confirma resolução da cetoacidose.
Alta e escolaReceita atual, insumos, técnica demonstrada, tratamento de hipoglicemia e plano de contato. Um adulto assume a supervisão compatível com a idade.A dose da vinheta de Heloísa não é receita para outras crianças; necessidade de insulina muda com doença, atividade e lua de mel.

Vigilância neurológica durante a cetoacidose

O que comparar com o registro anteriorInterpretaçãoResposta da equipe
Consciência, interação e Glasgow; nova irritabilidade ou dificuldade de despertarPiora depois de melhora inicial é especialmente preocupante.Avaliação imediata à beira-leito, glicemia e acionamento do médico responsável; não esperar a próxima coleta.
Cefaleia nova ou crescente, vômito novo, queda da frequência cardíaca sem explicaçãoO conjunto pode indicar lesão cerebral; distinguir bradicardia da simples melhora da taquicardia após hidratação.Diante de suspeita clínica, iniciar a terapia hiperosmolar já calculada e acionar terapia intensiva; tomografia não precede o tratamento.
Pressão arterial, respiração, saturação, pupilas e déficit focalHipertensão, depressão respiratória, dessaturação ou alteração focal reforçam gravidade.Reanimação e suporte por equipe experiente; monitorização contínua e reavaliações próximas após cada intervenção.
Estado neurológico sem mudança durante a reposiçãoEvolução favorável exige registro, não apenas impressão global.Documentar pelo menos a cada hora; encurtar o intervalo imediatamente se houver qualquer mudança.

Potássio abaixo do qual se adia a insulina, dentro do mesmo consenso pediátrico internacional de 2022. O sumário executivo manda adiar a insulina e dar potássio em bólus na criança com potássio abaixo de 3,0 mmol/L; a seção de reposição de potássio do corpo do texto escreve abaixo de 3,5 mmol/L. Numa criança de 24 kg com potássio de 3,2, pelo sumário a insulina começa 1 hora depois do soro, com 40 mEq/L de potássio no frasco — 4,2 mEq/h a 106 mL/h —; pelo corpo do texto, a insulina espera e o potássio corre sozinho, com monitor, num ritmo que pode chegar ao teto de 12 mEq/h (0,5 mEq/kg/h), quase o triplo. A diretriz brasileira de cetoacidose, escrita para o adulto, usa 3,3. Este capítulo adota 3,5 e explica por que no bloco de divergências.

Dose total diária de insulina na criança, dentro do protocolo federal do diabetes tipo 1. O texto do item 9 escreve que a necessidade sobe para 0,7 a 1 UI/kg/dia na criança pré-púbere e pode alcançar 1 a 2 UI/kg/dia na puberdade; a Tabela 4 do mesmo protocolo, adaptada de uma publicação de 2012, dá 0,5 a 0,8 ao pré-púbere, 0,8 a 2,0 ao púbere e 0,2 a 0,4 ao lactente. Num pré-púbere de 25 kg, são 17,5 a 25 UI por dia pelo texto e 12,5 a 20 UI pela tabela; em Heloísa, 16,8 a 24 contra 12,0 a 19,2. A diretriz brasileira de insulinoterapia no tipo 1 dá 0,7 a 1,0 ao pré-púbere, 1,0 a 2,0 ao púbere e 0,3 a 0,5 ao lactente, e confirma o texto. Este capítulo usa as faixas do texto como referência de manutenção e, no dia da alta, a faixa de 0,5 a 1 UI/kg/dia que o próprio protocolo dá para o diagnóstico recente ou logo após a cetoacidose — as 17 UI de Heloísa cabem nas duas leituras.

Minidose de glucagon no dia de doença com cetose e tendência à hipoglicemia, dentro da diretriz brasileira de dias de doença. O texto dá 0,02 mg até 2 anos e 0,01 mg por ano de idade acima de 2 anos, com máximo de 0,15 mg; o rodapé da Tabela 2, na mesma página, recomenda 0,1 a 0,2 mg por via subcutânea, de hora em hora, em duas doses. Numa criança de 4 anos, com glucagon reconstituído a 1 mg/mL, o texto dá 0,04 mg — 4 unidades numa seringa de insulina — e o rodapé, 0,1 a 0,2 mg, de 10 a 20 unidades: de 2,5 a 5 vezes mais. Aos 2 anos, a diferença vai de 5 a 10 vezes, e o teto do rodapé passa o do texto. Este capítulo usa a regra por idade do texto; o glucagon, de todo modo, não consta da Rename 2024.

Faixas de cetonemia nas tabelas de ajuste da mesma diretriz de dias de doença. A Tabela 1 separa as classes em abaixo de 0,6, de 0,7 a 1,4, de 1,5 a 2,9 e acima de 3,0; a Tabela 2, em abaixo de 0,6, de 0,7 a 1,0, de 1,0 a 1,4, de 1,5 a 2,9 e acima de 3,0. Uma cetonemia de exatamente 3,0 mmol/L — o valor que entra no critério de cetoacidose do consenso pediátrico — não pertence a classe nenhuma nas duas tabelas, e é justamente a fronteira entre ficar em casa e ir ao pronto-socorro; 0,6 também fica sem classe. Na Tabela 2, 1,0 cabe em traços, que manda reduzir 15% da dose total com glicemia abaixo de 90, e em leve, que manda não reduzir. Glicemia de 180 cabe na faixa de 180 a 250 da Tabela 1 e na de 90 a 180 da Tabela 2: com cetonemia de 1,5 a 2,9, o reforço é de 10% da dose total numa e de 5% na outra. A Tabela 4 deste capítulo fecha as faixas, pondo 0,6 na classe leve e 3,0 na alta.

Plano domiciliar individual — manter insulina basal significa garantir cobertura, mesmo sem refeição; não significa repetir uma dose fixa em qualquer circunstância. Registrar glicemias, cetonas, ingestão e última dose. A SBD diferencia o intervalo das correções: a cada 2 a 4 horas com análogos rápidos e a cada 4 horas com regular, inclusive à noite; cetonemia é revista mais cedo, a cada 1 a 2 horas. Medir novamente não autoriza outra dose antes do horário previsto. Os percentuais da tabela são referências para construir o plano com a equipe, não uma escala universal.

08

A conduta, hora a hora

Este capítulo acompanha dois contextos de cuidado. A cetoacidose é tratada no hospital, com avaliação seriada de perfusão, estado neurológico, glicemia, eletrólitos e acidose. Primeiro vem o líquido isotônico; a insulina é iniciada depois, com atenção ao potássio. Já o plano de dias de doença se aplica à criança com diabetes conhecido, clinicamente estável, com cuidador treinado, material de monitorização e acesso à equipe. Esse plano precisa dizer quando a observação em casa termina. A alta só está pronta quando a família demonstra como medir, aplicar, tratar hipoglicemia e reconhecer os sinais de retorno.

Heloísa pesa 24 kg. No exemplo hospitalar, o esquema pediátrico da ISPAD 2022 usa déficit estimado de 10%, reposto em 48 horas, somado à manutenção e descontado o bólus já administrado. É uma estimativa inicial que será revista conforme perfusão, balanço, sódio e evolução clínica. O capítulo utiliza 3,5 mmol/L como limiar de potássio para adiar a insulina, conforme a discussão do protocolo. Manitol ou salina hipertônica devem estar disponíveis para tratar suspeita de lesão cerebral sem aguardar imagem; apresentação, diluição e dupla conferência precisam ser combinadas com a farmácia e a equipe antes da emergência.

Em casa, a insulina é aplicada pela família com as seringas com agulha acoplada que a unidade básica entrega, e o que muda na criança é a escala: doses pequenas, que a diretriz brasileira de peculiaridades da criança manda medir com seringa ou caneta de meia unidade, e diluição quando a dose fica abaixo disso numa criança pequena. A técnica de aplicação, a mistura de NPH e regular na mesma seringa, a conservação da insulina e o bolus de correção estão no capítulo Quem fabrica a insulina agora é ele, da apostila de Endocrinologia. O rodízio dos locais é o que a figura mostra, porque é o que a criança de 8 anos esquece primeiro: o mesmo ponto, dia após dia, endurece o tecido e muda a absorção.

Duas vistas, de frente e de costas, de uma figura infantil estilizada, sem rosto, com áreas azuladas no abdome ao redor do umbigo, na face externa das coxas, na parte de trás dos braços e na parte alta e externa das nádegas.
Modelos de ensino indicam regiões usuais para insulina subcutânea: abdome com preservação do entorno umbilical, coxas, região posterior dos braços e região glútea superior externa. Rodiziar os pontos conforme orientação e evitar áreas com lipohipertrofia. O desenho não define distância, profundidade ou técnica individual.
  1. Terça, 14h20 — sala de emergência: volume, coleta e peso antes de qualquer insulina

    Heloísa vai para a sala de emergência no colo da mãe. A via aérea está pérvia, a saturação é de 97% em ar ambiente e ela não precisa de oxigênio; a respiração rápida é compensação, e não se intuba criança acidótica que protege a via aérea. Dois acessos periféricos entram de uma vez, e a coleta sai pelo primeiro antes de qualquer soro correr. O enchimento capilar de três segundos com extremidades frias é perfusão ruim, e por isso o bólus é o de 20 mL/kg, e não o de 10. Nada de insulina ainda: ela espera o soro correr por uma hora. O preceptor liga para a terapia intensiva pediátrica enquanto o bólus corre.

    Prescrição
    • Cloreto de sódio a 0,9%, 480 mL (20 mL/kg) EV em 30 minutos, em bomba de infusão
    • Coleta antes da insulina: gasometria venosa, sódio, potássio, cloro, ureia, creatinina, fósforo e glicemia plasmática; cetonemia capilar no aparelho da unidade
    • Dois acessos venosos periféricos; monitor cardíaco e oximetria contínuos; peso da balança anotado: 24 kg
    • Glicemia capilar e escala de Glasgow de hora em hora; nada por via oral enquanto vomita e está sonolenta
    • Solicitação de vaga em UTI pediátrica
  2. Terça, 14h50 — o laudo, a classe e a folha de contas

    O laudo confirma o que a respiração dizia: pH 7,06, bicarbonato de 6, pCO2 de 18, glicemia de 520, e a cetonemia capilar da unidade marca 5,8 mmol/L. Você faz as contas no canto da folha: ânion gap de 22, sódio corrigido de 139, osmolalidade efetiva de 293 — não é estado hiperosmolar — e ureia de 52, que é nitrogênio ureico de 24. Cetoacidose grave, com três fatores de risco de lesão cerebral. Terminado o bólus, o enchimento capilar caiu para dois segundos e a frequência cardíaca para 126: não há indicação de segundo bólus. O soro de reposição começa agora, e a dose de resgate neurológico fica escrita antes de ser necessária, porque às nove da noite ninguém deve estar fazendo conta de manitol com a criança bradicárdica.

    Prescrição
    • Cloreto de sódio a 0,9% a 106 mL/h: déficit presumido de 10% (2.400 mL) menos o bólus, em 48 horas, somado à manutenção de 1.580 mL/dia
    • Deixar escrito e à beira do leito: salina a 3%, 60 mL (6,6 mL de cloreto de sódio a 20% + 53,4 mL de cloreto de sódio a 0,9%), ou manitol a 20%, 60 mL (12 g), para correr em 10 a 15 minutos diante de sinal de alerta neurológico
    • Folha horária: glicemia capilar, frequência cardíaca, pressão, Glasgow, cefaleia, vômito, diurese e volume infundido
    • Registro: cetoacidose grave (pH 7,06) com três fatores de risco de lesão cerebral — pH abaixo de 7,1, pCO2 de 18 mmHg e ureia de 52 mg/dL
  3. Terça, 15h20 — uma hora de soro: a insulina entra, sem bólus, com o potássio

    Com uma hora de volume, a insulina começa. O pH está abaixo de 7,15, e por isso a dose é de 0,1 unidade por quilo por hora, e não de 0,05. Não se dá bólus: ele não acrescenta nada, pode derrubar a pressão ao baixar depressa a osmolalidade e antecipa a hipocalemia. O potássio de 5,1 está abaixo de 5,5 e Heloísa urinou na chegada, então o potássio entra no soro junto com a insulina, a 40 mEq/L; se a coleta tivesse mostrado potássio abaixo de 3,5, a ordem se inverteria, com o potássio correndo primeiro e a insulina esperando. O pH de 7,06 assusta, mas não pede bicarbonato: ele não acelera a resolução, pode acidificar o líquor e derruba o potássio que você está tentando segurar.

    Prescrição
    • Insulina regular 50 UI (0,5 mL de insulina 100 UI/mL) em 49,5 mL de cloreto de sódio a 0,9% (1 UI/mL), EV em bomba a 2,4 mL/h (0,1 UI/kg/h), sem bólus; preencher o equipo com a solução antes de conectar
    • Soro trocado por cloreto de sódio a 0,9% com 7,8 mL de cloreto de potássio a 19,1% em cada 500 mL (40 mEq/L), mantendo 106 mL/h
    • Gasometria venosa, sódio, potássio e cloro a cada 2 horas; potássio a cada hora se ficar abaixo de 3,5
    • Bicarbonato de sódio: não prescrever
  4. Terça, 18h30 — a glicose cai antes da acidose

    Três horas de insulina depois, a glicemia está em 286 mg/dL — caiu cerca de 74 por hora, dentro do esperado —, mas o pH é de 7,15, o bicarbonato de 9 e a cetonemia de 4,2 mmol/L, que caiu cerca de meio ponto por hora. O sódio medido subiu para 136 e o corrigido continua perto de 139, que é a trajetória certa. O potássio desceu para 4,2. É o momento que mais confunde quem começa: a glicemia chegou à faixa de 250 a 300 e a acidose está longe de resolver. A resposta não é baixar a insulina, é dar glicose para que a insulina possa continuar desmontando a cetose.

    Prescrição
    • Soro trocado por solução com glicose a 5%: 450 mL de cloreto de sódio a 0,9% + 50 mL de glicose a 50% + 7,8 mL de cloreto de potássio a 19,1%, a 106 mL/h
    • Insulina regular mantida a 2,4 UI/h
    • Se a glicemia continuar caindo com a acidose presente: subir a glicose do soro para 10% (400 mL de cloreto de sódio a 0,9% + 100 mL de glicose a 50%) antes de reduzir a insulina, que não desce de 1,2 UI/h (0,05 UI/kg/h)
    • Glicemia capilar horária; gasometria, eletrólitos e cetonemia a cada 2 horas
  5. Terça, 21h10 — a cefaleia da sétima hora

    Heloísa estava melhor às sete da noite, conversando e pedindo água. Às nove, reclama de dor de cabeça, vomita uma vez, fica irritada e empurra a mão da mãe; a frequência cardíaca, que era de 112, cai para 68 com ela acordada, e a pressão sobe para 118 por 74. Pressão alta, sozinha, não seria sinal de alerta; cefaleia nova, vômito depois do início do tratamento, bradicardia sem explicação e mudança de comportamento são sinais de alerta de lesão cerebral. Não se espera tomografia nem nova gasometria: a dose que estava escrita desde as 14h50 corre agora. A vazão do soro é revista para manter a pressão normal sem excesso de volume, a insulina continua, e a equipe da UTI assume a vigilância. Se a respiração falhar, a intubação mira a pCO2 esperada para a acidose, sem hiperventilação além dela. Quinze minutos depois, a frequência cardíaca está em 96, a cefaleia melhorou e Heloísa responde com frases.

    Prescrição
    • Salina a 3%, 60 mL (2,5 mL/kg), EV em 15 minutos, agora — ou manitol a 20%, 60 mL (0,5 g/kg), onde houver
    • Sem resposta em 15 a 30 minutos: manitol pode ser repetido após 30 minutos, e a salina a 3% pode ser somada ao manitol
    • Vazão do soro reavaliada para pressão normal, sem excesso de volume e sem hipotensão; insulina mantida
    • Transferência para a UTI pediátrica; avaliação neurológica a cada 30 minutos; imagem de crânio só depois de iniciada a terapia hiperosmolar, considerada diante de sinal focal ou de piora
  6. Quarta, 3h — a madrugada da UTI: o que se mede e o que não se mexe

    A noite corre sem novo sinal neurológico. Às três da manhã, pH de 7,24, bicarbonato de 13, cetonemia de 1,6 mmol/L, glicemia de 142 com o soro a 5%, potássio de 3,9, sódio de 140 e cloro de 112. O ânion gap já é de 15: parte da acidose que resta é hiperclorêmica, pelo cloro que o soro trouxe, e o consenso a descreve como benigna e incapaz de adiar a transição quando os outros marcadores resolveram. A glicemia em queda com cetonemia ainda acima de 1 é a situação prevista: sobe a glicose do soro, não desce a insulina.

    Prescrição
    • Soro com glicose a 10%: 400 mL de cloreto de sódio a 0,9% + 100 mL de glicose a 50% + 7,8 mL de cloreto de potássio a 19,1%, a 106 mL/h
    • Insulina regular mantida a 2,4 UI/h
    • Fósforo, cálcio e magnésio na próxima coleta
    • Avaliação neurológica de hora em hora; peso pela manhã
  7. Quarta, 7h — resolveu: a primeira insulina na pele

    Às sete da manhã, pH de 7,33, bicarbonato de 19, cetonemia de 0,6 mmol/L e ânion gap de 12: a cetoacidose resolveu, e Heloísa pede o café. A dose total vem da faixa que o protocolo federal dá para logo depois da cetoacidose, de 0,5 a 1 unidade por quilo por dia: 0,7 × 24 dá 16,8, arredondados para 17 unidades, que também cabem na faixa de manutenção do pré-púbere. Pouco menos da metade vai como basal, em NPH de manhã e à noite, e o restante como regular antes das três refeições. O consenso manda a primeira dose subcutânea de análogo rápido de 15 a 30 minutos antes de desligar a bomba e uma sobreposição maior com a insulina de ação prolongada; para a regular, que começa a agir mais devagar que o análogo, ele não dá número próprio, e este capítulo mantém a bomba por uma hora depois da injeção — leitura desta apostila, não número de fonte.

    Prescrição
    • Insulina NPH 5 UI + insulina regular 3 UI SC às 7h30, antes do café da manhã
    • Insulina endovenosa desligada às 8h30
    • Dieta oral com carboidrato distribuído nas refeições; soro reduzido conforme a aceitação e suspenso quando ela beber bem
    • Glicemia capilar antes das refeições, às 22h e às 3h
    • Doses do dia seguinte em diante: NPH 5 UI às 7h30 e 3 UI às 21h; regular 3 UI 30 minutos antes do café, do almoço e do jantar
  8. Sexta — alta: o plano que vai para casa e para a escola

    Dois dias de enfermaria são dias de aula. Edilene fura o dedo da filha, aspira e aplica sob supervisão, e Heloísa aplica a regular do almoço na própria coxa. As duas treinam o que fazer com uma glicemia de 62 e com uma virose em casa. A hipoglicemia se trata com 10 a 20 gramas de carboidrato simples, repetindo a glicemia em 10 a 15 minutos, como orienta o caderno de atenção básica; numa criança de 24 quilos, esta apostila usa a metade de baixo dessa faixa, de 10 a 15 gramas. A hipoglicemia grave, em que a criança não engole ou não acorda, não se trata pela boca: é criança de lado e serviço de urgência, porque o glucagon não consta da relação nacional de medicamentos essenciais — a família que o compra aprende a dose por peso, que está no capítulo Antes da hipótese, a glicemia. A escola recebe um relatório, e a unidade básica, a contrarreferência.

    Prescrição
    • Insulina NPH 5 UI às 7h30 e 3 UI às 21h; insulina regular 3 UI 30 minutos antes do café, do almoço e do jantar; seringas com agulha acoplada, tiras e lancetas pela unidade básica
    • Glicemia capilar antes das três refeições e ao deitar, e sempre que o comportamento mudar; registro em caderno com hora, valor e dose
    • Glicemia abaixo de 70 mg/dL: 10 a 15 g de carboidrato simples — 2 a 3 colheres de chá de açúcar em água, ou 100 a 150 mL de suco — e nova glicemia em 15 minutos
    • Dias de doença: manter cobertura basal com o ajuste indicado no plano individual; registrar a última aplicação, medir glicemia e cetonas e respeitar o intervalo das correções. Procurar atendimento diante dos sinais da tabela domiciliar.
    • Relatório para a escola; retorno com a endocrinologia pediátrica em uma semana; TSH, antitransglutaminase IgA e IgA total; psicologia; vacina pneumocócica conjugada 20-valente pela rede de imunobiológicos especiais
09

Como saber se está funcionando

Reavaliar a cetoacidose na criança é preencher uma folha de hora em hora e ler a folha inteira, não um número. O consenso pediátrico internacional de 2022 pede o registro, num fluxograma, das observações clínicas de cada hora, das medicações, dos líquidos que entram e saem e dos resultados de laboratório, porque o tratamento só se ajusta a tempo quando a tendência está à vista. Dois marcadores não servem para dizer que a crise acabou: a glicemia, que normaliza muitas horas antes da acidose, e a cetonúria, que continua positiva por horas depois de a cetonemia normalizar.

Quando os marcadores bioquímicos não melhoram — o pH que não sobe, o ânion gap que não fecha, a cetonemia que não cai —, o consenso manda reavaliar a criança, rever a insulina e procurar outra explicação: infecção, erro no preparo da solução ou na via, volume insuficiente. A acidose que persiste com ânion gap já normal é quase sempre hiperclorêmica, pelo cloro dos soros, e não deve adiar a transição para a via subcutânea. Com a insulina agindo, a cetonemia desce perto de meio milimol por litro a cada hora.

Depois da alta, a reavaliação muda de mãos e passa para o caderno da família. O protocolo federal dá como objetivos glicêmicos da criança e do adolescente glicemia antes das refeições de 70 a 145 mg/dL, depois das refeições de 90 a 180, ao deitar de 120 a 180 e na madrugada de 80 a 162, e manda dosar a hemoglobina glicada a cada seis meses; a meta dela depende de a criança ter ou não tecnologia de monitorização, como discute o bloco de divergências. Nas primeiras semanas depois do diagnóstico, a lua de mel faz a necessidade de insulina cair: glicemias baixas repetidas em casa são sinal de dose a reduzir, não de criança que comeu pouco. E o crescimento é parâmetro de controle — peso, altura e índice de massa corporal em toda consulta.

No primeiro retorno, o caderno se lê por horário, e cada horário aponta para uma insulina. O protocolo federal separa as funções: a hiperglicemia de jejum e a de antes das refeições se corrigem na insulina basal, e a que acompanha a refeição, na insulina de ação rápida. No esquema de Heloísa, a glicemia alta em jejum pede olhar a NPH da noite — e a glicemia da madrugada, porque a hipoglicemia das três da manhã também pode amanhecer alta —; a de antes do almoço reflete a regular do café; a de antes do jantar, a regular do almoço com a NPH da manhã; a de deitar, a regular do jantar. Muda-se uma insulina de cada vez, em passo pequeno, e só depois de ver o padrão repetido por alguns dias. Com a regular, o que a família precisa aprender é a constância: a mesma quantidade de carboidrato nos mesmos horários, contando arroz, feijão, macarrão, pão, fruta e suco, porque a dose da regular é fixa. Quando a criança passar ao análogo de ação rápida, pelos critérios do protocolo, a contagem de carboidratos entra de fato: o Apêndice C dá, para a criança de 6 a 8 anos, uma unidade para cada 30 gramas de carboidrato do prato e um fator de correção de 180 mg/dL por unidade.

Glicemia capilarDe hora em hora durante a insulina endovenosa

Esperado: Queda de 2 a 5 mmol/L por hora, cerca de 36 a 90 mg/dL por hora; glicose no soro a partir de 250 a 300 mg/dL

Se não melhora: Caindo mais de 90 mg/dL por hora depois da expansão: glicose no soro antes de chegar a 250. Sem queda: conferir preparo e concentração da solução, equipo preenchido, acesso funcionando e volume infundido.

pH e bicarbonato venososA cada 2 horas até a resolução

Esperado: Subida contínua até pH acima de 7,30 e bicarbonato acima de 18 mEq/L

Se não melhora: Rever insulina e via, procurar infecção e volume insuficiente; se o ânion gap já fechou, a acidose que resta é hiperclorêmica e não adia a transição.

Cetonemia capilar (beta-hidroxibutirato), onde houverA cada 2 horas

Esperado: Queda de cerca de 0,5 mmol/L por hora, até abaixo de 1 mmol/L

Se não melhora: Queda lenta é insulina insuficiente ou mal preparada: corrigir a insulina, nunca reduzi-la; se a glicemia baixa, subir a glicose do soro para 10% ou 12,5%. Sem aparelho, acompanhar pelo ânion gap.

Potássio séricoA cada 2 horas; de hora em hora se abaixo de 3,5 mmol/L ou acima de 5,5 sem diurese

Esperado: Entre 3,5 e 5,5 com 40 mEq/L no soro

Se não melhora: Abaixo de 3,5: aumentar a reposição até o teto de 0,5 mEq/kg/h, com monitor; se a hipocalemia persistir no teto, reduzir a vazão da insulina. Acima de 5,5: soro sem potássio até documentar diurese.

Sódio medido e sódio corrigidoCom os eletrólitos, a cada 2 horas

Esperado: Sódio medido subindo à medida que a glicose cai; corrigido estável ou em queda lenta

Se não melhora: Sódio medido baixo que não sobe com a queda da glicose: aumentar o teor de sódio do soro, conforme o consenso.

Estado neurológico: Glasgow, cefaleia, vômito, frequência cardíaca e comportamentoPelo menos de hora em hora durante a fase aguda; diante de mudança, avaliação médica imediata e monitorização contínua, com registros mais frequentes conforme a resposta.

Esperado: Consciência e interação progressivamente melhores, Glasgow 15, sem cefaleia nova, vômitos novos ou sinais focais. A queda da taquicardia deve acompanhar a recuperação da perfusão, sem bradicardia inexplicada.

Se não melhora: Cefaleia ou vômito novos, bradicardia sem explicação, irritabilidade, letargia, sinal focal ou queda da saturação: manitol ou salina a 3% agora, na dose já escrita; imagem só depois.

Perfusão, diurese, balanço hídrico e pesoEntrada e saída de hora em hora; peso toda manhã

Esperado: Enchimento capilar até 2 segundos, diurese presente, balanço positivo

Se não melhora: Perfusão que volta a piorar: novo bólus de 10 a 20 mL/kg e reavaliação; diurese ausente com potássio alto: manter o potássio fora do soro e rever a função renal.

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Onde o erro machuca

Chamar de virose, crise de asma ou abdome agudo, sem glicemia capilar, a criança que vomita sem diarreia ou que respira rápido com o pulmão limpo.

O dano: A cetoacidose avança sob o antiemético; o corticoide sobe a glicemia e o beta-2-agonista desloca potássio; cada hora a mais de desidratação e de hiperventilação soma no risco de lesão cerebral, que acompanha exatamente esses dois graus na chegada.

Como pegar a tempo: Glicemia capilar na triagem de toda criança com respiração rápida e de toda criança com vômito e dor abdominal sem diarreia, como manda o consenso pediátrico — antes do antiemético, da nebulização e da alta.

Começar pela insulina — ou dar bólus de insulina — antes do soro e antes de saber o potássio.

O dano: O bólus baixa depressa a osmolalidade e pode precipitar choque numa criança já depletada; a insulina empurra para dentro da célula o potássio que falta, e a hipocalemia com arritmia aparece nas horas em que ninguém está olhando o monitor.

Como pegar a tempo: Volume primeiro; insulina regular a 0,05 ou 0,1 U/kg/h pelo menos uma hora depois, sem bólus; potássio conhecido antes, com a regra de 5,5 e de 3,5.

Prescrever bicarbonato para "corrigir" um pH de 7,0.

O dano: Não acelera a resolução nos ensaios controlados, pode acidificar paradoxalmente o líquor e derruba o potássio — tudo numa criança com risco de lesão cerebral.

Como pegar a tempo: Bicarbonato só no raro caso de pH abaixo de 6,9 com contratilidade cardíaca comprometida, ou de hipercalemia com risco de vida; o pH baixo se trata com volume e insulina.

Desligar ou reduzir a insulina quando a glicemia chega a 250 mg/dL, com a acidose ainda presente.

O dano: A glicose normaliza horas antes dos corpos cetônicos: tirar a insulina nesse ponto prolonga ou reacende a cetoacidose, e a criança fica mais horas na terapia intensiva.

Como pegar a tempo: Acrescentar glicose ao soro, a 5% e até 10% ou 12,5% se preciso, mantendo a insulina em pelo menos 0,05 U/kg/h até pH acima de 7,30, bicarbonato acima de 18 e cetonemia abaixo de 1.

Diante de cefaleia e bradicardia na sétima hora, pedir tomografia antes de tratar, ou fazer a conta do manitol só nessa hora, ou usar a faixa de 0,25 a 0,5 g/kg escrita sem recorte de idade.

O dano: A lesão cerebral clinicamente evidente tem mortalidade de 21% a 24%; os minutos de transporte e de conta, e a dose que começa na metade da pediátrica, são o tempo que a criança não tem.

Como pegar a tempo: Dose de manitol (0,5 a 1 g/kg) e de salina a 3% (2,5 a 5 mL/kg) escrita desde a chegada na criança de risco; infundir em 10 a 15 minutos ao primeiro sinal de alerta; imagem depois de iniciado o tratamento.

Orientar a família a não aplicar a NPH no dia em que a criança não come ou vomita.

O dano: Sem a basal, quem não fabrica insulina produz cetona em horas; o consenso descreve a omissão da insulina de ação longa e a redução das doses na gastroenterite entre as causas de cetoacidose na criança com diagnóstico conhecido.

Como pegar a tempo: Entregar plano escrito que preserve a cobertura basal e diga como ajustar doses conforme glicemia, cetonas e alimentação. Distinguir horário de medir do horário de repetir correção; com insulina regular, não repetir correções em intervalos menores que quatro horas por conta própria. Vômitos persistentes, dificuldade de hidratação ou piora clínica exigem atendimento.

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O que dizer ao paciente e à família

A família de Heloísa recebe em três dias um diagnóstico para sempre e uma tarefa diária, e metade do tratamento acontece fora do hospital, nas mãos de quem ouviu a conversa. O protocolo federal pede que os pais estejam completamente envolvidos na educação e no autocuidado e que o programa educativo seja compatível com o desenvolvimento da criança. Na prática, isso significa frases curtas, repetidas em dias diferentes, com a mãe fazendo o gesto enquanto você fala — furar o dedo, aspirar a insulina, oferecer o suco — e com a criança participando na medida da idade dela.

Há duas conversas por baixo de todas as outras. A primeira é a da culpa: quase toda mãe pergunta se foi o doce, e a resposta errada, ou a omissão da resposta, fica com a família por anos. A segunda é a da esperança mal colocada: a lua de mel, em que a dose cai nas primeiras semanas, é lida como cura, e a insulina é suspensa em casa. As falas abaixo são com Edilene e com Heloísa; a conversa com o adolescente, a sós e com o sigilo e os limites dele, está no caso resolvido deste capítulo, e a doutrina do sigilo do adolescente, no capítulo Quatro princípios e nenhum árbitro, da apostila de Medicina Legal e Bioética.

Na sala de emergência, quando a mãe pergunta se foi o vírus que piorou

“Edilene, não é virose. A Heloísa tem diabetes, e o açúcar alto por dias deixou o sangue dela ácido — é isso que faz ela respirar rápido e vomitar. É uma complicação grave, e o tratamento já começou: soro primeiro e, daqui a uma hora, insulina na veia. Ela vai para um leito onde a equipe olha para ela o tempo todo, inclusive se aparecer dor de cabeça, porque em criança é assim que se trata. Qualquer mudança que a senhora notar, a senhora chama.”

Não diga: “Não é nada, é só a glicose alta, com insulina resolve.” Minimizar tira da mãe a vigilância que você vai precisar nas próximas doze horas; o outro extremo, falar em edema cerebral e morte sem explicar o que se faz, paralisa a família.

Quando a mãe pergunta se foi culpa dela, por causa dos doces

“Não foi. O diabetes da Heloísa é o tipo 1: o próprio corpo dela destruiu as células que fabricam insulina, e isso não acontece por comer doce nem por qualquer descuido da senhora. O que dava para fazer, a senhora fez: voltou quando viu que ela não estava bem.”

Não diga: “Isso acontece quando a criança come muito açúcar.” É falso para o tipo 1 e deixa uma culpa que atrapalha o cuidado — e faz a família cortar do cardápio o açúcar que vai tratar a hipoglicemia.

Quando a mãe pergunta se é para sempre e se não existe comprimido

“É para sempre, sim. O corpo dela parou de fabricar insulina, e comprimido não faz esse papel: ela vai precisar de insulina todos os dias, inclusive nos dias em que estiver doente e sem fome. Nas primeiras semanas pode acontecer de a dose diminuir bastante, porque o pâncreas ainda ajuda um pouco. Isso não é cura, e a insulina não se para — a gente ajusta a dose junto com a senhora.”

Não diga: “Se ela fizer a dieta direitinho, dá para tirar a insulina.” A promessa falsa transforma a lua de mel em suspensão da insulina em casa, e a suspensão em nova cetoacidose.

Com Heloísa, na primeira glicemia que ela mesma faz

“Heloísa, esse furinho mostra quanto açúcar tem no seu sangue agora. A insulina é a chave que coloca esse açúcar para dentro do corpo, para virar energia. Você escolhe o dedo e a gente conta até três. Se você sentir tremedeira, suor, uma fome muito forte ou uma sensação esquisita, avisa o adulto na hora: pode ser o açúcar baixo, e ele resolve rápido com um suco.”

Não diga: “Se você comer doce, você pode morrer.” O medo não ensina a reconhecer a hipoglicemia, faz a criança esconder o que come e contradiz o suco que vai salvá-la num dia de açúcar baixo.

Quando a mãe pergunta o que fazer se a filha passar mal de madrugada

“Se ela ficar suada, pálida, confusa ou diferente, a senhora mede. Abaixo de 70, duas a três colheres de chá de açúcar num pouco de água, ou um copo pequeno de suco, e mede de novo em 15 minutos. Se ela não conseguir engolir ou não acordar, não coloque nada na boca dela: vire de lado e chame o SAMU, no 192. Existe uma injeção para esse caso, o glucagon, mas ele não está na lista nacional de medicamentos do SUS; se a família comprar, a equipe ensina a dose antes de ela ir para casa.”

Não diga: “Se ela desmaiar, coloca açúcar debaixo da língua.” Criança que não engole pode aspirar o que vai à boca; o que protege é a posição de lado e o socorro.

Quando a mãe pergunta o que fazer se a filha ficar gripada ou vomitar em casa

“Quando ela adoece, continua precisando de insulina. A dose pode mudar, por isso vamos deixar escrito o que fazer conforme a glicemia, a cetona e o que ela consegue comer. Anote a última aplicação e não repita uma correção antes do horário combinado. Ofereça líquidos em pequenos goles; se a glicose estiver baixa, precisa de carboidrato. Se vomitar repetidamente, respirar fundo, ficar sonolenta ou não conseguir beber, procure atendimento. Se não souber qual dose aplicar, ligue para a equipe.”

Não diga: “Se ela não comer, não aplica a insulina para o açúcar não baixar.” É a frase que mais leva criança com diagnóstico conhecido de volta à cetoacidose.

Quando a mãe pergunta como vai ser na escola

“Ela pode e deve voltar para a escola, brincar e fazer educação física — o protocolo recomenda pelo menos uma hora de atividade física por dia para a criança com diabetes, como para qualquer criança. Enquanto ela estudar de manhã e almoçar em casa, nenhuma insulina precisa ser aplicada na escola. A escola vai receber um relatório com três coisas: como é a hipoglicemia dela e o que oferecer, que ela pode lanchar na hora certa, beber água e ir ao banheiro quando precisar, e o telefone de quem responde por ela.”

Não diga: “É melhor ela ficar uns meses em casa e sem educação física.” O afastamento isola a criança, não previne nada e ensina à família que o diabetes manda na vida dela.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Qual dose de manitol dar à criança com sinal de lesão cerebral durante a cetoacidose?

0,5 a 1 g/kg — consenso pediátrico internacional (ISPAD, 2022)

Na seção de tratamento da lesão cerebral, o consenso manda iniciar o tratamento assim que houver suspeita e dar manitol de 0,5 a 1 g/kg por via endovenosa em 10 a 15 minutos, repetível após 30 minutos, com a salina a 3% de 2,5 a 5 mL/kg como alternativa ou como acréscimo quando o manitol não responde em 15 a 30 minutos; 2,5 mL/kg de salina a 3% equivalem em osmoles a 0,5 g/kg de manitol. É dose escrita para a criança e o adolescente.

Glaser N et al. ISPAD Clinical Practice Consensus Guidelines 2022: Diabetic ketoacidosis and hyperglycemic hyperosmolar state. Pediatric Diabetes. 2022;23(7):835-856, seção de tratamento da lesão cerebral

0,25 a 0,5 g/kg — diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes (revisão de 2023)

Na nota importante sobre edema cerebral do capítulo de cetoacidose, a diretriz sugere manitol de 0,25 a 0,5 g/kg, sem distinguir idade, num capítulo cujas recomendações de volume, de insulina e de bicarbonato são escritas para o adulto. É a faixa que o capítulo Cetoacidose diabética, da apostila de Endocrinologia, aplica também à criança.

Santomauro AT et al. Diagnóstico e tratamento da cetoacidose diabética. Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes, revisão de 27/03/2023, nota importante 1

Como decidir

Esta apostila adota 0,5 a 1 g/kg na criança pelo primeiro degrau da régua, o escopo: é a dose do documento escrito para o paciente pediátrico, e a faixa brasileira está numa nota sem recorte de idade, dentro de um capítulo desenhado para o adulto; nenhum documento brasileiro lido para este capítulo fixa dose pediátrica própria. Para Heloísa, com 24 kg, são 12 a 24 g pelo consenso e 6 a 12 g pela diretriz: a faixa brasileira termina onde a pediátrica começa. Na beira do leito, comece por 0,5 g/kg — 60 mL de manitol a 20% em Heloísa —, que é o número comum às duas faixas, ou pelos 2,5 mL/kg de salina a 3%, que se preparam com o que a Rename tem; sem resposta, o manitol se repete após 30 minutos, e a salina a 3% pode ser somada a ele, como manda o consenso.

Abaixo de que potássio a insulina espera na criança em cetoacidose?

Abaixo de 3,5 mmol/L — corpo do texto do consenso pediátrico internacional (ISPAD, 2022)

Na seção de reposição de potássio, o consenso manda, na criança hipocalêmica, começar o potássio junto da expansão inicial e antes da insulina, e, nas raras crianças com potássio inicial abaixo de 3,5 mmol/L, adiar a insulina e dar potássio em bólus sem passar de 0,5 mmol/kg/h, com monitorização cardíaca.

Glaser N et al. Pediatric Diabetes. 2022;23(7):835-856, seção de reposição de potássio

Abaixo de 3,0 mmol/L — sumário executivo do mesmo consenso (ISPAD, 2022)

O resumo das recomendações, no início do documento, manda adiar a insulina e dar potássio em bólus na rara criança com potássio abaixo de 3,0 mmol/L; nas demais, começar com 40 mmol/L de potássio no soro.

Glaser N et al. Pediatric Diabetes. 2022;23(7):835-856, sumário executivo

Abaixo de 3,3 mEq/L — diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes (revisão de 2023), para o adulto

A diretriz brasileira de cetoacidose afirma que a única indicação para atrasar o início da insulina é potássio sérico abaixo de 3,3 mEq/L, com reposição até que ele passe desse valor; a dose de insulina e o volume dessa diretriz são os do adulto.

Santomauro AT et al. Diagnóstico e tratamento da cetoacidose diabética. Diretriz Oficial da SBD, revisão de 27/03/2023, seção de insulinoterapia e recomendação 11

Como decidir

O escopo tira da disputa o número do adulto. Entre os dois números do mesmo consenso pediátrico, escopo, data e natureza empatam, e decide a coerência interna: o corpo do texto traz a recomendação completa, com a sequência de conduta — potássio junto da expansão, insulina adiada, bólus com teto e monitor —, e o sumário a resume. Esta apostila adota 3,5 mmol/L, e declara que a escolha entre dois números do mesmo documento é leitura dela. O custo de adiar é pequeno, porque a insulina já espera uma hora de soro; o custo de começar insulina com potássio de 3,2 é a hipocalemia com arritmia nas horas em que o potássio mais cai.

Qual é a meta de hemoglobina glicada da criança com diabetes tipo 1?

Abaixo de 7,5% — protocolo federal do diabetes tipo 1 (2019)

As Tabelas 1 e 2 do protocolo fixam, para crianças e adolescentes, hemoglobina glicada abaixo de 7,5%, contra abaixo de 7,0% no adulto, com base na associação americana de diabetes de 2019 e na diretriz brasileira de 2017-2018. Os critérios de manutenção dos análogos pedem que o laudo mostre metas atingidas conforme a Tabela 1, entre outras opções.

Ministério da Saúde. PCDT do Diabete Melito Tipo 1, Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 17/2019, Tabelas 1 e 2 e critérios de manutenção

Abaixo de 7,0%, com tecnologia de monitorização — diretriz da SBD para a criança (2023)

A recomendação 4 manda considerar a meta abaixo de 7,0% em crianças com diabetes tipo 1, para reduzir o risco da hiperglicemia crônica sobre o desenvolvimento cognitivo, mas só quando houver acesso à tecnologia de monitorização, para não aumentar a hipoglicemia (classe IIa, nível B).

Mantovani RM et al. Peculiaridades do tratamento da criança com DM1. Diretriz Oficial da SBD, revisão de 11/04/2023, recomendação 4

Como decidir

Antes de desempatar, pergunte se as duas regras não governam situações diferentes — e em parte governam, porque a própria diretriz da criança condiciona os 7,0% à tecnologia. Para a criança do SUS que mede glicemia capilar, que é a regra, já que o escaneamento intermitente teve a incorporação recusada em 2025 e o sensor em tempo real não foi incorporado, as duas convergem: a meta é abaixo de 7,5%, a do protocolo e a do laudo que mantém o análogo. Para a criança que usa sensor, a disputa é real, o escopo empata — as duas escrevem para a criança com tipo 1 — e decide a data: esta apostila adota abaixo de 7,0%, pela diretriz de 2023, posterior ao protocolo de 2019; o laudo do análogo continua usando a tabela do protocolo.

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O raciocínio, em voz alta

Kauê Cavalcanti tem 15 anos, 58 quilos e diabetes tipo 1 desde os 9. Usa insulina NPH, 16 unidades às 7h e 14 às 22h, e análogo de ação rápida antes das refeições, 10, 12 e 10 unidades, que retira pelo componente especializado desde os 12 anos: 62 unidades por dia, 1,07 por quilo. Chega ao pronto-socorro às 6h de uma segunda-feira, trazido pelo pai, Claudinei, com vômitos desde a madrugada, dor abdominal e respiração rápida. É a terceira internação por cetoacidose em oito meses. Na consulta de dois meses atrás, a hemoglobina glicada era de 11,4%; de lá para cá, perdeu 4 quilos. O pai garante que o filho aplica tudo. No sábado, Kauê foi a uma festa e dormiu na casa de um amigo. Exame: Glasgow 15, frequência cardíaca de 118, pressão de 124 por 76, enchimento capilar de 2 segundos, mucosas secas, hálito cetônico, sem foco infeccioso aparente. Glicemia capilar de 438 mg/dL; gasometria venosa com pH 7,17, bicarbonato de 9 e pCO2 de 24; sódio 134, potássio 4,6, cloro 104, ureia 38 mg/dL, creatinina 1,0; cetonemia capilar de 4,8 mmol/L.

  1. o que penso agora

    É cetoacidose moderada: o pH de 7,17 está abaixo de 7,2 e o bicarbonato de 9, abaixo de 10. As contas fecham o resto: ânion gap de 21, sódio corrigido de 139, osmolalidade efetiva de 292 — não é estado hiperosmolar. Nenhum fator de risco de lesão cerebral: ele tem 15 anos, o pH não está abaixo de 7,1, a pCO2 de 24 não está abaixo de 21 e a ureia de 38 corresponde a nitrogênio ureico de 18, abaixo de 20. O leito é monitorizado, com equipe treinada, e não obrigatoriamente a terapia intensiva. A pergunta clínica que sobra é a mais importante: terceira cetoacidose em oito meses, sem infecção à vista, num adolescente que emagreceu, é insulina que não entrou até que se prove o contrário.

  2. o que prescrevo na primeira hora

    A perfusão está boa, e o bólus é o de 10 mL/kg: 580 mL de cloreto de sódio a 0,9% em 30 minutos. Depois, déficit presumido de 7% — 4.060 mL, menos o bólus, 3.480 mL em 48 horas, 72,5 mL/h — somado à manutenção de 2.260 mL por dia, 94 mL/h: cerca de 167 mL/h. Com uma hora de soro, insulina regular endovenosa; como o pH passa de 7,15, este caso usa a dose de 0,05 U/kg/h que o consenso admite, 2,9 UI/h, com a regra de subir para 0,1 se a cetonemia não cair cerca de 0,5 mmol/L por hora. O potássio de 4,6 entra no soro a 40 mEq/L junto com a insulina — 6,7 mEq/h a 167 mL/h, longe do teto de 29 mEq/h. Glicose no soro quando a glicemia chegar a 250 a 300.

  3. o que pergunto ao pai, e o que o glicosímetro responde

    Quem aplica, a que horas foi a última NPH, onde fica a insulina, quantas glicemias Kauê mede por dia. Claudinei diz que o filho é responsável e aplica sozinho desde os 13. A memória do glicosímetro, que o pai trouxe na mochila, conta outra história: seis medidas em trinta dias, nenhuma no fim de semana. As canetas estão na mochila, com a de NPH quase cheia. A anamnese do adolescente com cetoacidose recorrente não é interrogatório nem acusação na frente do pai: é a coleta dos dados que vão permitir a conversa seguinte, e ela precisa acontecer sem ele.

  4. a conversa a sós, com o sigilo e os limites ditos antes

    Com o pai fora da sala, você começa pelo combinado: o que Kauê contar fica entre vocês, com uma exceção dita antes de qualquer pergunta — se houver risco sério para a vida dele, isso será compartilhado com o pai, e ele participa de como contar. A doutrina do sigilo do adolescente e das portas por onde ele cede está no capítulo Quatro princípios e nenhum árbitro, da apostila de Medicina Legal e Bioética. Com perguntas abertas, ele conta: não aplica o análogo na escola por vergonha, pulou a NPH no sábado e no domingo, bebeu cerveja na festa e percebeu, há meses, que emagrece quando fica sem insulina — e quer secar para o campeonato de futebol. Você pergunta diretamente sobre tristeza e sobre vontade de morrer; ele nega ideação e fala em cansaço de ser diferente.

  5. o que o relato muda no diagnóstico

    Omissão deliberada de insulina para perder peso é o que a diretriz brasileira de dias de doença descreve como transtorno alimentar com suspensão voluntária da insulina, e três cetoacidoses em oito meses são o risco sério que abre a exceção do sigilo. Você explica isso a Kauê, e os dois combinam o que o pai vai ouvir: que houve doses puladas, que ele precisa de ajuda especializada e de apoio em casa — sem expor a cerveja nem a vergonha na escola, que não mudam a conduta de hoje. O reconhecimento, a gravidade e o encaminhamento dos transtornos alimentares estão no capítulo O corpo conta primeiro, da apostila de Psiquiatria; o cuidado com a hipoglicemia tardia depois de bebida alcoólica está no capítulo Quem fabrica a insulina agora é ele, e vale para ele igual.

  6. o que muda na insulina

    Não é a dose. Com 1,07 unidade por quilo por dia, Kauê está dentro da faixa de 1,0 a 2,0 do púbere; subir a dose por causa da hemoglobina glicada de 11,4% num adolescente que não aplica é preparar a hipoglicemia do dia em que ele aplicar tudo. O que muda é quem segura a basal: a NPH da noite passa a ser aplicada com o pai por perto, por acordo feito com Kauê, e o análogo do almoço pode ir logo depois de comer, como o protocolo federal permite, em vez de antes, na frente dos colegas. O acesso ao análogo está em jogo: os critérios de manutenção pedem automonitorização, acompanhamento e metas ou melhora, e o protocolo manda, antes de interromper o análogo, reforçar as medidas de adesão e registrá-las no prontuário. É o que se faz hoje.

  7. o que vai por escrito na alta

    Doses mantidas, com a NPH noturna supervisionada; glicemia capilar antes do café, do almoço e do jantar e na hora de dormir, com o glicosímetro revisado no retorno; plano de dia de doença com a regra de nunca suspender a basal e os motivos para voltar ao pronto-socorro; hipoglicemia tratada com 15 a 20 gramas de carboidrato simples, que é a metade de cima da faixa do caderno de atenção básica para um adolescente de 58 quilos; retorno com a endocrinologia pediátrica em uma semana, com a psicologia e com a equipe de saúde mental. O protocolo federal pede avaliação psicológica quando há cetoacidose ou dificuldade de controle, e Kauê tem as duas.

  8. o que eu anoto

    Cetoacidose moderada sem fator de risco de lesão cerebral; terceira em oito meses; omissão de insulina relatada pelo adolescente em conversa a sós, com suspeita de transtorno alimentar e ideação suicida negada; limites do sigilo explicados antes da conversa e informação compartilhada com o pai nos termos combinados com Kauê; medidas de adesão reforçadas e registradas, como exige o protocolo antes de qualquer decisão sobre o análogo; encaminhamentos feitos e datas de retorno. Esse registro é o que a próxima equipe vai ler às 6h de outra segunda-feira, se ela vier.

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Faça você

Yasmin tem 5 anos, 18 quilos e diabetes tipo 1 há um ano. Usa insulina NPH, 3 unidades às 7h e 2 às 21h, e insulina regular, 2 unidades antes do café, 2 antes do almoço e 1 antes do jantar: 10 unidades por dia. Chega à unidade básica às 10h de uma quinta-feira com a mãe, Jaqueline. Desde a madrugada teve três episódios de vômito, o último às 9h, e duas evacuações amolecidas. Como a filha recusou o café da manhã, Jaqueline não aplicou nem a NPH nem a regular das 7h, com medo de o açúcar baixar. Yasmin está acordada e chorosa, com mucosas levemente secas, enchimento capilar de 2 segundos, respiração tranquila e frequência cardíaca de 120. A glicemia capilar é de 128 mg/dL, e a fita de urina marca cetona com duas cruzes. Ela aceita pequenos goles de água. A unidade não tem aparelho de cetonemia, não coleta gasometria e não tem acesso venoso para hidratação.

  1. decida o que fazer agora com a NPH que não foi aplicada e o que oferecer à criança

    Explique por que Yasmin precisa continuar recebendo insulina, quais dados faltam para definir a NPH atrasada e por que o horário da dose importa. Diferencie insulina da refeição de correção da cetose; proponha o líquido a oferecer conforme tolerância e glicemia.

  2. decida para onde Yasmin vai e o que segue por escrito

    Decida entre casa, observação na unidade e pronto-socorro, com o critério que decide; escreva o que acompanha a criança e o que a mãe precisa saber no caminho.

Ver como fecharíamos

Yasmin tem vômitos recorrentes, cetonúria moderada e sinais de desidratação numa unidade sem recursos para excluir ou tratar cetoacidose. A glicemia de 128 mg/dL não permite concluir que o quadro é leve. A conduta prioritária é encaminhamento imediato ao pronto-socorro, com contato entre as equipes e transporte compatível com o estado clínico. Enquanto se organiza a saída, oferecer pequenos goles de líquido com carboidrato, se estiver alerta e conseguir engolir, e acompanhar a glicemia; nada disso deve atrasar a transferência. Ela precisa de cobertura de insulina, mas “manter a basal” não autoriza aplicar automaticamente às 10h a dose programada para as 7h sem considerar a evolução. Conferir última NPH da noite, últimas glicemias, doses realmente administradas, ingestão, capacidade de monitorização e tempo até o atendimento. O médico responsável define, em contato com a equipe de diabetes ou de destino, a dose e o horário da NPH atrasada e como compatibilizá-la com a próxima dose. Os 3 UI da receita são o ponto de partida da avaliação, não uma ordem invariável. Não há uma regra de que toda glicemia acima de 90 proíba reduzir uma dose. A regular prevista para o café depende da refeição; eventual insulina necessária para corrigir cetose tem indicação própria e pode exigir glicose intravenosa em ambiente monitorado. Enviar o esquema habitual completo, horários e doses recebidas ou omitidas, glicemia e cetonúria com horário, sinais vitais, episódios de vômito e tolerância aos líquidos. Documentar a orientação e qualquer insulina aplicada antes da transferência para evitar duplicação no destino. A família recebe uma explicação sem culpa: omitir insulina pode agravar cetose, mas acertar o próximo passo exige olhar a criança e seu histórico de doses, não apenas repetir a prescrição habitual.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Vômito com dor abdominal sem diarreia e respiração rápida com pulmão limpo é a combinação em que o consenso pediátrico internacional manda medir a glicemia capilar, e a enurese recente reforça a suspeita de diabetes aberto em cetoacidose. O exame custa um minuto e decide o resto: com glicemia acima de 200 mg/dL, a criança segue para gasometria, eletrólitos e volume endovenoso, e a insulina só entra depois do soro e do potássio conhecido.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Sem consultar o capítulo, responda em voz alta: (1) em que criança que vomita ou respira rápido a glicemia capilar é obrigatória, e antes de quê; (2) os três critérios de cetoacidose e os cortes de pH e de bicarbonato das classes leve, moderada e grave; (3) os quatro fatores de risco de lesão cerebral, com o corte traduzido para a ureia do laudo brasileiro; (4) para uma criança de 30 kg com perfusão ruim, o bólus, o déficit presumido, a manutenção de Holliday–Segar, a vazão total, o potássio em mililitros de cloreto de potássio a 19,1% e a insulina em unidades por hora; (5) o que fazer quando a glicemia chega a 280 mg/dL com pH de 7,15.

Em 30 dias

Pratique duas passagens de cuidado. Na primeira, uma criança de 18 kg em tratamento hospitalar desenvolve cefaleia e bradicardia: reconheça a mudança, calcule a terapia hiperosmolar, diga a quem avisar e como reavaliar sem esperar tomografia. Na segunda, a família telefona durante uma gastroenterite: pergunte glicemia, cetonas, ingestão, última dose e capacidade de monitorização; explique por que a cobertura basal continua e por que a dose pode mudar. Escreva os critérios de atendimento imediato. Termine simulando a alta com aplicação demonstrada, plano de hipoglicemia, escola e retorno marcado.

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Agora atenda

Agora atenda: menino de 6 anos e 20 quilos, trazido pela mãe à unidade de pronto atendimento com vômitos há dois dias, dor abdominal e respiração rápida, sem diarreia; nas últimas semanas voltou a molhar a cama e está bebendo muita água.

Diabetes mellitus tipo 1 e cetoacidose diabética na criança – A virose que respirava rápido — Internato | OsceLabs