Pediatria › Endocrinologia Pediátrica
A virose que respirava rápido
Diabetes mellitus tipo 1 e cetoacidose diabética na criança
Diabetes tipo 1 e cetoacidose na criança: a glicemia capilar que encerra a dúvida em um minuto, o que muda no soro, na insulina e no potássio quando o paciente pesa 24 quilos, e a vida com insulina em casa, na escola e na adolescência
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Diabete Melito Tipo 1. Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 17, de 12 de novembro de 2019. Brasília: Ministério da Saúde, 2020. 68 p. ISBN 978-85-334-2802-7.
Mantovani RM, Puñales M, Chen SV, Gabbay MAL. Peculiaridades do tratamento da criança com DM1. Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes (última revisão em 11/04/2023). DOI 10.29327/5238993.2023-2. ISBN 978-85-5722-906-8.
Silva Júnior WS, Gabbay MAL, Lamounier RN. Insulinoterapia no diabetes mellitus tipo 1 (DM1). Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes (última revisão em 25/01/2022). DOI 10.29327/557753.2022-5. ISBN 978-85-5722-906-8.
Rodrigues MLD, Calliari LE, Rodacki M. Manejo dos dias de doença no DM1. Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes (última revisão em 17/08/2023). DOI 10.29327/5238993.2023-1. ISBN 978-85-5722-906-8.
Santomauro AT, Santomauro Jr AC, Pessanha AB, Raduan RA, Marino EC, Lamounier RN. Diagnóstico e tratamento da cetoacidose diabética. Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes (última revisão em 27/03/2023). DOI 10.29327/5238993.2023-6. ISBN 978-85-5722-906-8.
Glaser N, Fritsch M, Priyambada L, Rewers A, Cherubini V, Estrada S, Wolfsdorf JI, Codner E. ISPAD Clinical Practice Consensus Guidelines 2022: Diabetic ketoacidosis and hyperglycemic hyperosmolar state. Pediatric Diabetes. 2022;23(7):835-856. DOI 10.1111/pedi.13406.
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. ISBN 978-65-5993-710-3.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Portaria SECTICS/MS nº 2, de 31 de janeiro de 2025. Torna pública a decisão de não incorporar, no âmbito do SUS, o sistema de monitorização contínua da glicose por escaneamento intermitente em pacientes com diabetes mellitus tipos 1 e 2. Diário Oficial da União, 3 fev. 2025, seção 1, p. 59.
Brasil. Ministério da Saúde. Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec). Relatório para a Sociedade nº 735: sistema de monitoramento contínuo da glicose em tempo real (rt-CGM) para o monitoramento de glicose em pessoas com diabetes mellitus tipo 1. Brasília, julho de 2026.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Estratégias para o cuidado da pessoa com doença crônica: diabetes mellitus. Cadernos de Atenção Básica, nº 36. Brasília: Ministério da Saúde, 2013. 160 p. ISBN 978-85-334-2059-5.
Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença Celíaca. Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 8, de 23 de junho de 2025.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento do Programa Nacional de Imunizações. Nota Técnica nº 52/2026-CGICI/DPNI/SVSA/MS: vacina pneumocócica conjugada 20-valente na Rede de Imunobiológicos para Pessoas com Situações Especiais. Brasília, maio de 2026.
Sociedade Brasileira de Diabetes. Manejo dos dias de doença no DM1. Revisão do capítulo: 17/08/2023; portal Diretriz 2026. https://diretriz.diabetes.org.br/manejo-dos-dias-de-doenca-no-dm1/
Canadian Paediatric Society. Current recommendations for management of paediatric diabetic ketoacidosis. https://cps.ca/en/documents/position/current-recommendations-for-management-of-paediatric-diabetic-ketoacidosis
Responda antes de ler
Menino de 7 anos, 22 kg, é trazido à unidade de pronto atendimento por vômitos há um dia e dor abdominal, sem febre e sem diarreia. Está sonolento, com respiração profunda de 34 incursões por minuto, ausculta pulmonar limpa, saturação de 98% em ar ambiente e enchimento capilar de 3 segundos. A mãe conta que ele voltou a molhar a cama na última semana. Qual é a primeira conduta?
O paciente que você vai ver
Terça-feira, duas e dez da tarde, pronto-socorro infantil de um hospital de ensino. A ficha de triagem diz "vômitos — retorno". Heloísa Figueiró tem 8 anos e entra no colo da mãe, Edilene, com a cabeça apoiada no ombro dela e os olhos semiabertos. Dois dias antes, as duas estiveram numa unidade de pronto atendimento do bairro: dor de barriga, quatro vômitos, nenhuma febre. Saíram com o diagnóstico de virose, um antiemético sublingual e a orientação de dar soro de reidratação em goles pequenos. O soro voltou todo. Hoje foram cinco vômitos até o almoço, e a menina parou de pedir para ir ao banheiro.
Você a vê na maca e a primeira coisa que chama atenção não é a barriga: é a respiração. Heloísa respira fundo e rápido, sem tiragem, sem chiado, como quem acabou de subir uma escada — trinta e seis vezes por minuto, com o tórax enchendo inteiro a cada vez. Quando você chega perto para auscultar, sente um cheiro adocicado, de fruta passada, no hálito. A saturação é de 97% em ar ambiente. A mãe conta que a pediatra da unidade chegou a perguntar se ela tinha asma, porque "estava cansadinha", e que a menina fez uma nebulização antes de ir para casa.
O exame termina de contar a história. Frequência cardíaca de 138, pressão de 104 por 66, enchimento capilar de três segundos, extremidades frias, mucosas secas, olhos fundos. Abre os olhos quando chamada, responde com uma palavra e volta a fechá-los: Glasgow 14. O abdome dói à palpação difusa, sem defesa localizada. Na balança da triagem, 24 quilos. Na Caderneta da Criança que Edilene tira da bolsa, a última pesagem, feita na unidade básica em junho, marcava 26,4.
Você volta à história com as perguntas que ninguém fez na unidade de pronto atendimento, e ela aparece sozinha. Há umas três semanas Heloísa acorda de madrugada para beber água — "enchia a garrafinha e levava para o quarto". Voltou a molhar a cama duas vezes, depois de quatro anos seca, e a mãe achou que era a mudança de escola. O uniforme ficou largo. Reclamou de coceira na região genital, e Edilene comprou uma pomada na farmácia. Na família, uma tia-avó usa insulina "desde velha". Ninguém em casa tem aparelho de medir glicose.
Da bolsa sai também o papel da unidade de pronto atendimento: antiemético, soro de reidratação oral e "retornar se piorar". Não há glicemia anotada. Edilene lembra que a escola tinha ligado duas vezes na semana anterior — Heloísa dormiu na carteira e pediu para sair da sala para beber água e ir ao banheiro tantas vezes que a professora estranhou. A menina, que costumava correr do portão até o carro, pedia colo para voltar para casa. Nenhuma dessas coisas, sozinha, parecia doença; juntas, contavam três semanas de sede, urina e cansaço que ninguém tinha somado.
A técnica de enfermagem fura o dedo da menina enquanto você ainda escreve a anamnese: 486 mg/dL. A fita da primeira urina que Heloísa consegue fazer, 180 mL numa comadre, marca glicose com quatro cruzes e cetona com três. Em um minuto, a virose de dois dias virou outra doença — e a respiração de asma virou a resposta do corpo a uma acidose que ele tenta soprar para fora.
A gasometria venosa e os eletrólitos chegam vinte minutos depois: pH 7,06, bicarbonato 6 mEq/L, pCO2 18 mmHg, sódio 132, potássio 5,1, cloro 104, ureia 52 mg/dL, creatinina 0,9 mg/dL e glicemia plasmática de 520 mg/dL. Edilene pergunta se é o vírus que piorou. É a hora de decidir três coisas ao mesmo tempo: quanto soro, quando a insulina e onde Heloísa vai passar a noite. E, antes delas, uma quarta: quem, nesta sala, vai ficar olhando para a cabeça dela nas próximas doze horas.
Quem adoece disso
O diabetes tipo 1 é o diabetes da infância, e o Brasil tem muita gente com ele. O relatório da Conitec de julho de 2026 sobre monitorização contínua de glicose registra cerca de 564 mil brasileiros com diabetes tipo 1 em 2021 e uma projeção de 1,8 milhão até 2040; no mundo, são mais de 8 milhões, com os casos novos crescendo de 3% a 4% ao ano. Para o interno, o número que importa é outro: a criança com diabetes tipo 1 que ainda não tem o diagnóstico não chega ao ambulatório de endocrinologia. Chega à unidade de pronto atendimento, à unidade básica ou ao pronto-socorro, com uma queixa que parece de outra coisa.
E chega tarde com frequência. O consenso pediátrico internacional de 2022 descreve que a abertura do diabetes tipo 1 já em cetoacidose varia de 15% a 70% das crianças nos estudos da Europa e da América do Norte, que vários países registraram aumento recente dessa proporção e que as crianças muito pequenas e os grupos étnicos mal atendidos pelos serviços de saúde abrem o quadro em cetoacidose mais vezes. O fator que mais pesa, e o único que depende de quem atende, é o atraso do diagnóstico — uma associação que ficou particularmente evidente durante a pandemia de covid-19. A proporção brasileira citada por documento nacional de pediatria está no capítulo Cetoacidose diabética, da apostila de Endocrinologia; aqui basta saber que cada virose que vomita e respira rápido sem glicemia capilar é uma chance de diagnóstico perdida.
A segunda porta da cetoacidose é a da criança que já sabe que tem diabetes. Nela, a causa quase nunca é mistério: o mesmo consenso afirma que a cetoacidose sem doença precedente, numa criança com diagnóstico conhecido, resulta quase sempre de insulina que não foi aplicada ou de falha na infusão da bomba, e que a omissão pesa sobretudo quando o que falta é a insulina basal — inclusive nos dias de gastroenterite, em que a família reduz a dose porque a criança não come. A diretriz brasileira de dias de doença acrescenta o que está por trás de parte das omissões: ansiedade, depressão, déficit de atenção e transtorno alimentar com suspensão voluntária da insulina para perder peso. Cetoacidose repetida em adolescente é, antes de tudo, uma pergunta sobre a vida dele.
O que torna a cetoacidose pediátrica uma doença diferente da do adulto é o cérebro. A lesão cerebral clinicamente evidente aparece em 0,5% a 0,9% das crianças tratadas e tem mortalidade de 21% a 24%, segundo o consenso de 2022; alteração do nível de consciência com Glasgow abaixo de 14 aparece em 4% a 15%, e os exames de imagem mostram que algum grau de edema cerebral é comum mesmo em quem não chega a ter sinal clínico. É por isso que a criança de 8 anos da cena não é tratada como um adulto de 24 quilos: o volume, a velocidade, o potássio, a insulina e a vigilância neurológica têm régua própria.
Fora da crise, o desafio é de outra escala. Nos registros internacionais citados pela diretriz brasileira de peculiaridades da criança, com dezenas de milhares de crianças acompanhadas em países ricos, a hemoglobina glicada média ficou entre 8,0% e 8,9% — acima das metas de qualquer documento. A mesma diretriz lembra que a altura final da criança com diabetes tipo 1 cai quanto maior a hemoglobina glicada e quanto mais longa a doença, e por isso manda pesar e medir em toda consulta. No SUS, a criança recebe insulina NPH e regular pelo Componente Básico, com tiras, lancetas e seringas; os análogos entram pelo Componente Especializado conforme os critérios do protocolo federal; o sensor de escaneamento intermitente teve a incorporação recusada em 2025, e o sensor de leitura em tempo real para o tipo 1 recebeu recomendação preliminar desfavorável em 2026, com decisão final ainda não publicada.
Por que acontece o que acontece
A destruição autoimune da célula beta, a razão pela qual quem não fabrica insulina não pode passar um dia sem ela e a bioquímica da cetogênese são as mesmas na criança e no adulto, e estão no capítulo Diabetes mellitus tipo 1 e insulinoterapia ("Quem fabrica a insulina agora é ele") e no capítulo Cetoacidose diabética, os dois da apostila de Endocrinologia. Este capítulo usa essa base e fica com o que o tamanho e a idade mudam: quanto líquido e quanto potássio uma criança perde por quilo, por que o cérebro dela é o órgão em risco, por que a insulina espera o soro e por que a dose que serve aos 8 anos não serve aos 14.
A crise quase sempre começa num dia comum. A diretriz brasileira de dias de doença descreve o gatilho: numa infecção febril, sobem cortisol, glucagon, hormônio de crescimento e adrenalina, que aumentam a quebra de glicogênio, a produção de glicose pelo fígado e a resistência à insulina. A glicemia sobe e, se a insulina disponível não acompanha, a gordura vira corpo cetônico. Na gastroenterite o risco vem pelo outro lado: a criança vomita, não come, a glicemia tende a cair, e a família reduz ou suspende a insulina — justamente a basal, que é a que segura a cetose no jejum. Cetona com glicemia normal ou baixa não é contradição: é falta de insulina com falta de carboidrato, e a saída é dar carboidrato para poder dar insulina, nunca tirar a insulina.
Instalada a falta de insulina, a glicose que passa do limiar renal leva água consigo, e a criança urina muito enquanto bebe o que consegue. O vômito fecha a conta pelo lado de fora. O consenso pediátrico internacional de 2022 dá a ordem de grandeza das perdas por quilo na cetoacidose: cerca de 70 mL de água (de 30 a 100), 6 mmol de sódio, 5 mmol de potássio e 4 mmol de cloro. Em Heloísa, com 24 quilos, isso é perto de 1,7 litro de água e de 120 mmol de potássio que saíram do corpo em poucos dias — numa criança que tem menos de dois litros de sangue.
O potássio do laudo engana. Heloísa perdeu uma parte grande do potássio corporal total, mas o exame veio 5,1: a acidose e a falta de insulina deslocam o potássio de dentro da célula para o plasma, e o número parece normal ou alto enquanto o estoque está vazio. Quando a insulina começar a correr, ela empurra o potássio de volta para dentro da célula, e o valor sérico despenca em horas. O sódio engana no sentido oposto: a glicose alta puxa água para o espaço extracelular e dilui o sódio medido, por isso se calcula o sódio corrigido, que soma ao valor medido 1,6 mEq/L a cada 100 mg/dL de glicose que passam de 100. O de Heloísa, 132 medido, corrige para perto de 139.
A respiração da cena é a acidose sendo compensada. A criança hiperventila para baixar o gás carbônico, e a pCO2 de 18 mmHg de Heloísa mede o tamanho do esforço. Esse número interessa por outro motivo: o consenso de 2022 registra que o grau de edema cerebral que se desenvolve durante a cetoacidose acompanha o grau de desidratação e de hiperventilação na chegada, e não a osmolalidade inicial nem as variações dela durante o tratamento. Por isso pCO2 abaixo de 21 mmHg entra na lista de risco de lesão cerebral, junto com pH abaixo de 7,1, idade abaixo de 5 anos e nitrogênio ureico acima de 20 mg/dL.
Durante décadas se atribuiu o edema cerebral da cetoacidose ao soro dado depressa demais, que baixaria a osmolalidade do plasma e incharia o cérebro. O consenso de 2022 descreve outra coisa: a evidência mais recente põe no centro a hipoperfusão cerebral e o estado inflamatório da própria cetoacidose, com inflamação cerebral demonstrada em modelos animais e quebra da barreira hematoencefálica. O ensaio randomizado de velocidade de hidratação na cetoacidose pediátrica, citado também pela diretriz brasileira de cetoacidose, comparou reposição rápida e lenta, com cloreto de sódio a 0,9% e a 0,45%, e nem a velocidade nem o teor de sódio mudaram o desfecho neurológico. A consequência prática é dupla: não se restringe soro a uma criança com a circulação comprometida por medo do cérebro, e não se sai da faixa de volumes que o ensaio testou, porque fora dela ninguém mediu.
A insulina tem um porquê em cada detalhe. Começa na dose de 0,05 a 0,1 unidade por quilo por hora, pelo menos uma hora depois de iniciado o soro, e sem bólus: segundo o consenso, o bólus é desnecessário, pode precipitar choque ao baixar rapidamente a pressão osmótica do plasma e agrava a hipocalemia. A glicose cai antes de a acidose resolver — o volume sozinho já baixa a glicemia, e a insulina corrige a glicose em horas e os corpos cetônicos em muitas horas —, e por isso a regra é acrescentar glicose ao soro quando a glicemia chega a 250 a 300 mg/dL e manter a insulina correndo até o pH passar de 7,30, o bicarbonato passar de 18 mEq/L e o beta-hidroxibutirato ficar abaixo de 1 mmol/L. O bicarbonato não entra: não trouxe benefício nos ensaios, pode acidificar paradoxalmente o líquor e derruba o potássio.
Passada a crise, a mesma criança muda de dose ao longo dos anos. Logo depois do diagnóstico vem, com frequência, a remissão parcial, a lua de mel, em que a necessidade cai para menos de 0,5 unidade por quilo por dia; o protocolo federal e a diretriz brasileira de insulinoterapia descrevem a subida para 0,7 a 1,0 no pré-púbere e para 1,0 a 2,0 na puberdade, que o protocolo trata como situação de resistência à ação da insulina. A criança pequena fica no outro extremo: come e dorme de forma irregular, precisa de doses tão pequenas que a seringa comum erra, faz mais hipoglicemia noturna e não sabe dizer o que sente. E há dois cérebros a proteger ao mesmo tempo, o da hiperglicemia e o da hipoglicemia: a diretriz de peculiaridades da criança cita estudo em que as crianças de 4 a 10 anos com diabetes tiveram crescimento mais lento da substância cinzenta e branca, associado à hiperglicemia acumulada e à variabilidade glicêmica, e metanálise em que as funções executivas pioraram quando a doença começou na infância e houve hiperglicemia crônica ou hipoglicemia grave.
Como se apresenta de verdade
O diabetes tipo 1 da criança chega por duas portas, e cada uma engana de um jeito. A primeira é a da criança sem diagnóstico, em que o diabetes se apresenta como outra coisa — xixi na cama, cansaço, emagrecimento, candidíase, e por fim a virose que vomita e respira rápido. A segunda é a da criança que já usa insulina e entra em cetoacidose, em que a pergunta não é o que ela tem, mas por que a insulina faltou. Entre as duas fica a apresentação que o interno vai ver no ambulatório e no telefone da família: a hipoglicemia, que numa criança de 3 anos não se parece com a de um adulto.
Algumas partes deste quadro têm dono em outro lugar do nível, e a fronteira fica assim. A cetoacidose do adulto e a lista geral de diagnósticos diferenciais estão no capítulo Cetoacidose diabética; o estado hiperosmolar do adulto, no capítulo O estado hiperosmolar e a pressa errada; o tratamento da hipoglicemia grave e as equivalências dos 15 gramas de carboidrato, no capítulo Antes da hipótese, a glicemia; os transtornos alimentares, no capítulo O corpo conta primeiro, da apostila de Psiquiatria; os três primeiros estão na apostila de Endocrinologia. A enurese como queixa própria, com a investigação da criança que nunca deixou de molhar a cama, é de Enurese noturna e distúrbios miccionais funcionais, na apostila de Nefrologia Pediátrica: este capítulo fica só com a regra que decide aqui — enurese que volta depois de meses seca, com sede ou emagrecimento, pede glicemia capilar no mesmo dia.
A criança que ninguém pensou em diabetes
O protocolo federal chama de sintomas clássicos da hiperglicemia a polidipsia, a poliúria, a noctúria e a perda de peso sem explicação. Na criança eles quase nunca chegam com esses nomes. A poliúria aparece como enurese secundária — a criança que estava seca há meses ou anos volta a molhar a cama —, como pedido para sair da sala de aula, como fralda que pesa demais de manhã. A polidipsia aparece como a garrafinha que vai para o quarto, a criança que bebe água da torneira do banheiro, o suco que acaba antes do fim da semana. A perda de peso aparece como o uniforme largo ou como a curva da caderneta que parou de subir, e é fácil de atribuir à mudança de escola, à fase ou à comida.
Há sinais que a família resolve sozinha e não conta: coceira genital na menina, que vira candidíase vulvar tratada com pomada de farmácia; vermelhidão no prepúcio do menino; assadura de fralda que não melhora no lactente. Cansaço, irritabilidade e queda no rendimento escolar completam um quadro que pode durar semanas. Nada disso é específico, e é justamente por isso que o exame que resolve precisa ser barato e rápido: a glicemia capilar, que custa uma fita e um minuto e está em qualquer unidade básica.
A regra prática deste capítulo é pedir a glicemia capilar sempre que duas dessas peças aparecem juntas — sede com xixi na cama, emagrecimento com cansaço, candidíase com qualquer uma delas. Glicemia ao acaso acima de 200 mg/dL numa criança com sintomas fecha o diagnóstico de diabetes pelo critério do protocolo federal e muda o dia: a criança não volta para casa com pedido de exame para a semana seguinte, mas vai para avaliação no mesmo dia, com cetona, gasometria e eletrólitos, porque o intervalo entre a sede e a cetoacidose, numa criança, pode ser de dias.
A virose que respira rápido: a cetoacidose disfarçada
Quando a cetoacidose se instala, os sintomas mudam de natureza e ficam parecidos com os de doenças muito mais comuns na infância. O vômito e a dor abdominal lembram gastroenterite; a dor pode ser intensa o bastante para simular abdome agudo. A respiração profunda e rápida, que é a compensação da acidose, é confundida com crise de asma ou com pneumonia. A sonolência é lida como cansaço de quem vomitou a noite toda. O consenso pediátrico internacional de 2022 reconhece que nem toda família relata poliúria e polidipsia e transforma essa armadilha em regra: considerar glicemia capilar em toda criança com respiração rápida e em toda criança com vômito e dor abdominal sem diarreia.
As duas ausências valem tanto quanto as presenças. Gastroenterite que vomita sem diarreia, com dor abdominal e desidratação desproporcional ao que se perdeu pelo intestino, é uma gastroenterite estranha. Taquipneia sem tiragem, sem sibilo e sem estertor, com saturação normal, é uma asma estranha. O hálito adocicado, de fruta passada, é o corpo cetônico sendo eliminado pela respiração, e quem já sentiu não esquece. A cena deste capítulo tem as três coisas — vômito sem diarreia, taquipneia com pulmão limpo e hálito — e duas oportunidades perdidas: a glicemia que não se fez na primeira consulta e a nebulização que se fez.
O custo do engano é concreto. O antiemético esconde o vômito por algumas horas enquanto a acidose avança; o soro de reidratação oral volta; o corticoide dado para a suposta asma sobe ainda mais a glicemia; o beta-2-agonista desloca potássio. E cada hora a mais de desidratação e de hiperventilação soma no risco de lesão cerebral, que acompanha o grau de desidratação e de hiperventilação na chegada. A criança que vomita e respira rápido não vai para casa sem glicemia capilar — nem na primeira consulta, nem no retorno.
O lactente e o pré-escolar: quando a criança não conta
Quanto menor a criança, menos o quadro se parece com o de livro. O lactente não pede água, não vai ao banheiro e não diz que está cansado. A poliúria vira fralda encharcada e troca a mais; a polidipsia vira choro que só para com a mamadeira; o emagrecimento vira ganho de peso parado na curva. Irritabilidade, sonolência e desidratação sem diarreia são, muitas vezes, os primeiros sinais que alguém nota. O consenso de 2022 registra que as crianças muito pequenas estão entre as que mais abrem o diabetes já em cetoacidose.
Duas consequências decorrem da idade. A primeira é de gravidade: idade abaixo de 5 anos está na lista de risco de lesão cerebral durante a cetoacidose, junto com acidose grave, hipocapnia intensa e nitrogênio ureico elevado — e a criança pequena desidrata mais depressa, porque a reserva é menor. A segunda é de suspeição: o lactente com desidratação importante, respiração acidótica e sem diarreia merece glicemia capilar antes de ser classificado, e a curva de peso da caderneta que desacelerou nos últimos meses conta a história que a mãe não sabe contar. A leitura da curva e dos marcos de crescimento está no capítulo A linha, não o ponto, da apostila de Puericultura e Desenvolvimento.
Fora da crise, a idade muda a hipoglicemia. A diretriz brasileira de peculiaridades da criança lembra que as crianças menores nem sempre conseguem referir os sintomas e que fazem mais hipoglicemia noturna, com mais variabilidade. O pré-escolar em hipoglicemia pode só ficar pálido, parar de brincar, chorar sem motivo, fazer birra ou dormir fora de hora; à noite, o sinal é o suor, o pesadelo, o choro ao despertar ou a dor de cabeça pela manhã. A família precisa aprender a medir quando a criança muda de comportamento, em vez de esperar que ela diga que está com fome ou tremendo.
A criança que já tem diabetes e chega em cetoacidose
Na criança com diagnóstico conhecido, a cetoacidose conta uma história de insulina que faltou. O consenso de 2022 põe as causas em poucas linhas: omissão de doses, interrupção da infusão na criança que usa bomba, e manejo inadequado de uma infecção — sobretudo quando se deixa de aplicar a insulina basal ou se reduz muito a dose num dia de gastroenterite. Sem uma doença que explique, cetoacidose em criança com diabetes conhecido é quase sempre insulina que não entrou.
Por isso a anamnese dessa criança é específica. Quem aplica a insulina e a que horas foi a última dose de insulina NPH? Alguém deixou de dar a basal porque a criança não comeu? A glicemia vinha sendo medida, e o que mostrava nos últimos dias? A insulina em uso está no prazo e foi guardada como se orienta, sem congelar e sem esquentar? Na criança com bomba, o conjunto de infusão foi trocado? Houve febre, vômito, corticoide ou mudança recente de rotina? As respostas decidem o que muda na alta, e a alta não é segura sem elas.
No adolescente, a pergunta se aprofunda. Cetoacidose que se repete, hemoglobina glicada que sobe apesar de a família jurar que as doses estão sendo aplicadas e perda de peso sem explicação são o retrato da omissão deliberada. A diretriz brasileira de dias de doença lembra que a omissão pode representar ansiedade, depressão, déficit de atenção ou transtorno alimentar com suspensão voluntária da insulina para perder peso. Essa conversa pede o adolescente a sós, com o sigilo e os limites dele claros, e é o assunto do caso resolvido deste capítulo; o reconhecimento e a gravidade dos transtornos alimentares estão no capítulo O corpo conta primeiro, da apostila de Psiquiatria.
Gravidade, lesão cerebral e o leito certo
A gravidade da cetoacidose se lê em parte antes do laudo. O consenso de 2022 chama de cetoacidose grave a da criança com sintomas de longa duração, circulação comprometida ou nível de consciência rebaixado, e manda considerar tratamento imediato em unidade de terapia intensiva — pediátrica se houver — ou em unidade com recursos e supervisão equivalentes para ela e para toda criança com risco aumentado de lesão cerebral: idade abaixo de 5 anos, pH abaixo de 7,1, pCO2 abaixo de 21 mmHg ou nitrogênio ureico acima de 20 mg/dL. Heloísa tem três dos quatro, e o leito dela não é na enfermaria.
O nitrogênio ureico merece uma tradução, porque o laudo brasileiro não o traz. O corte de 20 mg/dL do consenso é de nitrogênio ureico, a sigla inglesa BUN; o laboratório brasileiro libera ureia, que é 2,14 vezes maior para a mesma quantidade de nitrogênio. O corte equivalente em ureia é de cerca de 43 mg/dL. Ler "ureia acima de 20" poria na lista de risco praticamente toda criança desidratada; ler "ureia acima de 43" é o que o consenso quis dizer. A ureia de 52 mg/dL de Heloísa corresponde a um nitrogênio ureico de 24 mg/dL: está acima do corte.
Os sinais de alerta de lesão cerebral são clínicos e têm hora. A diretriz brasileira de cetoacidose descreve o edema clinicamente significativo surgindo em geral dentro das 12 primeiras horas do tratamento — às vezes antes de ele começar e, raramente, um ou dois dias depois. O consenso pediátrico lista os sinais que obrigam a agir: cefaleia ou vômito que começam depois do início do tratamento, ou cefaleia que piora; queda da frequência cardíaca que não se explica pelo sono nem pela melhora do volume; mudança do estado neurológico — irritabilidade, letargia, confusão, incontinência; sinal neurológico focal, como paralisia de nervo craniano; e queda da saturação. Hipertensão arterial isolada é comum na criança em cetoacidose e, sem outro achado, não é sinal de alerta. O que fazer diante deles está no bloco de conduta.
Quando não é cetoacidose clássica: o estado hiperosmolar na criança
Uma minoria das crianças chega com glicemia muito alta e pouca acidose. O consenso de 2022 define o estado hiperosmolar pelos cinco critérios juntos: glicemia acima de 600 mg/dL, pH venoso acima de 7,25 ou arterial acima de 7,30, bicarbonato acima de 15 mmol/L, cetonúria discreta com cetonemia ausente ou leve, e osmolalidade sérica efetiva acima de 320 mOsm/kg. O mesmo documento registra que o quadro aparece na criança com diabetes tipo 2, no diabetes tipo 1, na fibrose cística e no lactente com diabetes neonatal, e que complicações como rabdomiólise, insuficiência renal e pancreatite aguda, muitas vezes fatais, têm sido mais frequentes nele do que na cetoacidose.
O reconhecimento importa porque o tratamento é diferente do da cetoacidose, e aplicar o esquema errado machuca nos dois sentidos. No estado hiperosmolar o volume é maior — bólus inicial de pelo menos 20 mL/kg de cloreto de sódio a 0,9% e déficit presumido de 12% a 15% do peso —, a insulina entra mais tarde e em dose menor, de 0,025 a 0,05 unidade por quilo por hora, só quando a glicemia deixa de cair mais de 50 mg/dL por hora com o soro sozinho, e o acompanhamento inclui a queda do sódio corrigido. Existe ainda a apresentação mista, a cetoacidose hiperosmolar, que reúne acidose e hiperosmolalidade e exige atenção às duas.
O adolescente obeso, com acantose e glicemia de 900 mg/dL sem acidose importante, não é uma cetoacidose leve: é outro diagnóstico, que vai para a terapia intensiva e segue a régua do estado hiperosmolar. A fisiologia da hiperosmolalidade e o manejo detalhado no adulto estão no capítulo O estado hiperosmolar e a pressa errada; o que este capítulo pede ao interno é que calcule a osmolalidade efetiva de toda criança com glicemia acima de 600 antes de prescrever o primeiro soro.
Como fechar o diagnóstico
A investigação da criança com suspeita de cetoacidose tem uma ordem que não se inverte: primeiro o que se faz à beira do leito em um minuto, depois a coleta única antes da insulina, depois as contas que o laudo não traz, e só então a busca do que desencadeou a crise. Tudo isso acontece enquanto o primeiro soro já está correndo — a investigação não atrasa o volume. Na última seção ficam os exames que a criança leva para o seguimento, porque o dia do diagnóstico é também o dia da primeira coleta de rastreio.
1. Um minuto: a glicemia capilar e a cetona
A glicemia capilar é o exame que separa a virose da cetoacidose, e se faz na triagem, antes do antiemético e antes da nebulização. Acima de 200 mg/dL, numa criança com vômito, dor abdominal ou respiração rápida, ela abre a investigação de cetoacidose, porque o primeiro critério do consenso pediátrico internacional é justamente a glicemia acima de 200 mg/dL. Um glicosímetro que marca "HI" não é defeito do aparelho: é glicemia acima do limite de leitura, e a coleta venosa segue na mesma hora.
A cetona tem dois caminhos, e eles medem coisas diferentes. A fita de urina, que existe em toda unidade, usa a reação do nitroprussiato e detecta acetoacetato e acetona; o beta-hidroxibutirato, que é o corpo cetônico que predomina na cetoacidose, só aparece no exame de sangue — capilar, com aparelho próprio, ou no laboratório. A diretriz brasileira de cetoacidose cita revisão sistemática em que o beta-hidroxibutirato capilar teve maior acurácia que a cetonúria para o diagnóstico, e o consenso pediátrico usa cetonemia a partir de 3 mmol/L, ou cetonúria moderada a intensa, como segundo critério. A cetonúria tem ainda um atraso: continua positiva por horas depois de o beta-hidroxibutirato normalizar, e por isso o consenso manda não usar a ausência de cetonúria como marca de resolução.
No SUS, essa diferença tem endereço. A Rename 2024 não inclui fita para cetona, nem glicosímetro, entre os insumos; o que ela traz no Componente Básico são as tiras de glicemia capilar e as lancetas. A cetonemia capilar existe onde o hospital compra o aparelho e as fitas. Na unidade que só tem fita de urina, o diagnóstico se faz com ela e com a gasometria, e o acompanhamento da resolução se faz pelo pH, pelo bicarbonato e pelo ânion gap — não pela cruz da urina.
2. A coleta única antes da insulina
O consenso de 2022 põe a avaliação de emergência dentro do suporte avançado de vida pediátrico e pede, de imediato, glicemia, cetona no sangue ou na urina, eletrólitos, gasometria e avaliação do nível de consciência, com a escala de Glasgow. A coleta inclui pH venoso, pCO2, bicarbonato, sódio, potássio, cloro, nitrogênio ureico — ureia, no laudo brasileiro — e creatinina. A gasometria venosa basta: o consenso raciocina com o pH venoso, e a punção arterial fica para a rara criança grave que precisa de cateter arterial na terapia intensiva.
Dois acessos venosos periféricos, e não um: um para o soro e a insulina, outro para as coletas repetidas sem nova punção. O mesmo documento desaconselha o cateter venoso central, pelo risco alto de trombose, e manda retirá-lo assim que possível quando ele já existe. A criança vai para o monitor cardíaco desde a chegada, porque a onda T é o primeiro lugar em que o potássio aparece. Se o laudo do potássio vai demorar, um eletrocardiograma de base ajuda: onda T alta, apiculada e simétrica sugere hipercalemia; onda T achatada ou invertida, onda U proeminente e QT aparentemente longo sugerem hipocalemia.
O peso entra na coleta como exame. Heloísa foi pesada na triagem com 24 quilos, e é esse número que multiplica o soro, a insulina, o potássio e o manitol. A criança que chega grave demais para subir na balança recebe um peso estimado, que se anota como estimado e se corrige assim que for possível pesar. O potássio que vale para a decisão é o do laboratório: a diretriz brasileira de cetoacidose lembra que o potássio da gasometria, mais rápido, não substitui a dosagem plasmática.
3. As contas que o laudo não traz
Três contas saem da primeira coleta e cabem num canto da folha de prescrição. O ânion gap é o sódio menos a soma do cloro com o bicarbonato; o consenso dá como normal 12, com variação de 2 para cima ou para baixo, descreve valores típicos de 20 a 30 na cetoacidose e alerta que acima de 35 sugere acidose lática associada. Em Heloísa, 132 menos 110 dá 22. A queda do ânion gap é uma das marcas de resolução — e é a marca disponível quando não há beta-hidroxibutirato para medir.
O sódio corrigido soma ao sódio do laudo 1,6 mEq/L por 100 mg/dL de glicose excedente, contando a partir de 100. Em Heloísa, com glicemia de 520 e sódio de 132, o corrigido é de cerca de 139. Ele serve para duas coisas: estimar se a criança perdeu mais água ou mais sódio e acompanhar o tratamento, em que o sódio medido deve subir à medida que a glicose cai, enquanto o corrigido fica estável ou desce devagar. O consenso registra que a queda do sódio corrigido não se associou, num grande estudo prospectivo, a lesão cerebral, e que não é mais necessário forçar a subida do sódio durante o tratamento.
A osmolalidade efetiva é o dobro do sódio somado à glicemia dividida por 18. A de Heloísa é de cerca de 293 mOsm/kg, dentro da faixa normal de 275 a 295 do consenso — o que afasta o estado hiperosmolar e a apresentação mista. A ureia não entra nessa soma, porque atravessa a membrana e não puxa água. E a ureia pede a quarta conta, a da tradução: dividida por 2,14, ela vira o nitrogênio ureico dos critérios internacionais. Os 52 mg/dL de Heloísa são 24 de nitrogênio ureico, acima do corte de risco de lesão cerebral.
4. Fechar o diagnóstico e dar nome à gravidade
Os critérios do consenso de 2022 são três, e os três precisam estar presentes: glicemia acima de 200 mg/dL; pH venoso abaixo de 7,3 ou bicarbonato abaixo de 18 mmol/L; e cetonemia de 3 mmol/L ou mais, ou cetonúria moderada a intensa. A edição de 2022 incluiu o bicarbonato abaixo de 18 como critério, e o documento acrescenta que, na criança com diabetes recém-diagnosticado, o bicarbonato sozinho pode substituir o pH para diagnosticar e classificar quando não há como medir o pH.
A gravidade se classifica pelo grau de acidose. É leve com pH abaixo de 7,3 ou bicarbonato abaixo de 18; moderada com pH abaixo de 7,2 ou bicarbonato abaixo de 10; grave com pH abaixo de 7,1 ou bicarbonato abaixo de 5. Como os critérios são ligados por "ou", vale a classe mais grave que qualquer um dos dois alcançar. O bicarbonato de 6 de Heloísa a poria na moderada; o pH de 7,06 a põe na grave, e é essa a classe que se anota.
A classe decide o leito junto com os fatores de risco de lesão cerebral, e não sozinha. A criança de 3 anos com cetoacidose moderada e ureia de 50 tem dois fatores de risco e merece o mesmo cuidado que a de 12 anos com cetoacidose grave. A tabela que junta classe, risco e destino está no bloco de critério, e a tradução do nitrogênio ureico para a ureia do laudo brasileiro está na seção anterior.
5. O que desencadeou e o que pode complicar
O tratamento da cetoacidose não termina, diz o consenso, antes de se tentar identificar e tratar a causa. Na criança com diagnóstico novo, a causa é o próprio diabetes, e a pergunta que fica é quanto tempo ele passou sem ser visto. Na criança com diagnóstico conhecido, o exame físico procura foco infeccioso — ouvido, garganta, pulmão, urina, pele — com atenção ao estado mental, e a anamnese procura a dose que faltou. Exame de urina, radiografia de tórax e culturas entram quando a clínica aponta para eles, não como pacote.
Algumas dosagens acompanham o tratamento e não o diagnóstico. O fósforo cai durante a reposição, e o consenso manda tratar a hipofosfatemia grave, abaixo de 1 mg/dL, e vigiar cálcio e magnésio quando se infunde fosfato, porque o fosfato em excesso derruba o cálcio. O consenso considera aconselhável a reposição rotineira de fosfato onde ela é disponível, sobretudo na cetoacidose grave, com fosfato de potássio misturado ao cloreto de potássio; a Rename 2024 traz o fosfato de potássio injetável no Componente Básico.
Uma dosagem não deve atrasar nada: a imagem de crânio. Diante de sinal de lesão cerebral, o consenso manda iniciar a terapia hiperosmolar primeiro e só depois, com a criança estabilizada, considerar a imagem, cuja razão principal é procurar lesão que exija neurocirurgia de urgência, como hemorragia intracraniana, ou anticoagulação, como trombose venosa cerebral — sobretudo quando há sinal focal. A criança não sai da sala de emergência para a tomografia com o manitol esperando na bancada.
6. O tipo 1 confirmado e a primeira coleta do seguimento
Na criança que abre o quadro com cetoacidose, a sede, a perda de peso e a acidose já mostram a falta de insulina que o protocolo federal chama de insulinopenia inequívoca, e a insulina não espera exame nenhum. Autoanticorpos e peptídeo C entram quando o tipo está em dúvida. A dúvida que o interno vai encontrar é a do adolescente obeso, com acantose e história familiar de diabetes tipo 2: o consenso de 2022 registra que de 5% a 25% das crianças com diabetes tipo 2 também abrem o quadro em cetoacidose, e a cetoacidose, por si só, não prova tipo 1.
O dia do diagnóstico é também o dia da primeira coleta de seguimento, e o protocolo federal fixa o calendário da criança no Apêndice D: peso e altura em toda consulta; avaliação da puberdade uma vez por ano; hemoglobina glicada ao diagnóstico e a cada seis meses; função tireoidiana ao diagnóstico e depois anualmente; lipídios a partir dos 10 anos ou do início da puberdade, repetidos em cinco anos se normais; albuminúria e fundo de olho a partir de cinco anos de doença ou da puberdade, e depois anuais; e avaliação psicológica ao diagnóstico e quando houver cetoacidose ou dificuldade de controle.
A doença celíaca completa a lista. O protocolo federal da doença celíaca, de 2025, põe a pessoa com diabetes tipo 1 entre os grupos de risco que se rastreiam com antitransglutaminase IgA e IgA total, com ou sem sintoma; a regra de rastreio, o intervalo e o que fazer com o resultado estão no capítulo Diabetes mellitus tipo 1 e insulinoterapia, da apostila de Endocrinologia, que é dono desse rastreio. O que muda na criança é o que o resultado desencadeia: baixa estatura, anemia ou diarreia numa criança com diabetes e sorologia positiva pedem o gastroenterologista pediátrico, porque o protocolo de 2025 confirma o diagnóstico sempre pela biópsia duodenal; a investigação da doença celíaca na infância é de Diarreia persistente e crônica na criança e doença celíaca, na apostila de Gastroenterologia Pediátrica.
Da glicemia capilar à alta com insulina: o que decide cada passo
Tudo o que decide a tarde de Heloísa e os dias seguintes cabe numa sequência de doze passos e em quatro tabelas: a que junta classe, risco e leito; a das contas para 24 quilos, feitas contra as apresentações da Rename; a do que o SUS entrega à criança com diabetes tipo 1; e a do dia de doença em casa. As notas do fim registram onde os documentos se contradizem em ponto que muda a dose ou a decisão, com a conta.
- 1Criança com vômito e dor abdominal sem diarreia, com respiração rápida, ou com sede, xixi na cama e emagrecimento: glicemia capilar na triagem, antes do antiemético e da nebulização.
- 2Glicemia acima de 200 mg/dL com sintomas: cetona no sangue ou na urina, gasometria venosa, sódio, potássio, cloro, ureia e creatinina numa coleta só, antes da insulina; peso na balança, dois acessos periféricos e monitor cardíaco.
- 3Cetoacidose quando os três critérios coexistem: glicemia acima de 200; pH abaixo de 7,3 ou bicarbonato abaixo de 18; cetonemia de 3 mmol/L ou mais, ou cetonúria moderada a intensa. A classe é a mais grave que o pH ou o bicarbonato alcançar.
- 4Glicemia acima de 600 com osmolalidade efetiva acima de 320, pH venoso acima de 7,25 e bicarbonato acima de 15: estado hiperosmolar, outra régua de volume e de insulina, terapia intensiva.
- 5Cetoacidose grave, ou qualquer classe com idade abaixo de 5 anos, pH abaixo de 7,1, pCO2 abaixo de 21 ou ureia acima de 43 mg/dL (nitrogênio ureico acima de 20): UTI pediátrica ou unidade equivalente, com a dose de manitol e de salina a 3% calculada e escrita na prescrição.
- 6Volume antes da insulina: cloreto de sódio a 0,9%, 10 a 20 mL/kg em 20 a 30 minutos (20 mL/kg se a perfusão está ruim; no choque, bólus de 20 mL/kg rápidos, reavaliando a cada um); depois, déficit presumido de 5% a 10% do peso, menos o bólus, em 24 a 48 horas, somado à manutenção.
- 7Potássio: acima de 5,5 mmol/L, soro sem potássio até documentar diurese, dosando a cada hora; entre 3,5 e 5,5, soro com 40 mEq/L a partir do início da insulina; abaixo de 3,5, potássio primeiro, com monitor, e insulina adiada até ele subir. Teto de 0,5 mEq/kg/h.
- 8Insulina regular endovenosa, 0,05 a 0,1 unidade por quilo por hora, começando pelo menos 1 hora depois do soro, sem bólus; 0,05 pode ser considerada com pH acima de 7,15.
- 9Glicemia chegando a 250 a 300 mg/dL, ou caindo mais de 90 mg/dL por hora depois da expansão: glicose a 5% no soro, até 10% ou 12,5% se preciso. A insulina não é desligada e não desce abaixo de 0,05 U/kg/h antes da resolução.
- 10Cefaleia ou vômito novos depois do início do tratamento, bradicardia sem explicação, mudança do estado neurológico, sinal focal ou queda da saturação: manitol 0,5 a 1 g/kg ou salina a 3% 2,5 a 5 mL/kg em 10 a 15 minutos, agora; ajuste do volume sem deixar hipotensão; imagem só depois de iniciada a terapia hiperosmolar.
- 11Resolução — pH acima de 7,30, bicarbonato acima de 18 e beta-hidroxibutirato abaixo de 1 mmol/L ou ânion gap normalizado — com a criança aceitando a via oral: insulina subcutânea antes de uma refeição, basal junto, e desligamento da bomba só depois de a dose subcutânea começar a agir.
- 12Alta com esquema basal-bólus de insulina NPH e regular pela unidade básica, dose total de 0,5 a 1 U/kg/dia ajustada pela glicemia capilar, plano escrito de hipoglicemia, de dia de doença e para a escola, retorno marcado e pedido dos exames iniciais de seguimento; análogos pelos critérios do protocolo federal a partir de três meses.
Classe, risco e leito: onde a criança em crise hiperglicêmica fica
| Situação | Como se reconhece | Onde a criança fica | O que muda na prescrição |
|---|---|---|---|
| Cetoacidose leve | pH abaixo de 7,3 ou bicarbonato abaixo de 18, sem fator de risco de lesão cerebral | Unidade com equipe treinada, glicemia horária e vigilância neurológica frequente | Insulina a 0,05 U/kg/h pode ser considerada se o pH passa de 7,15 |
| Cetoacidose moderada | pH abaixo de 7,2 ou bicarbonato abaixo de 10 | A mesma unidade; terapia intensiva se houver fator de risco | Insulina de 0,05 a 0,1 U/kg/h; potássio e glicose no soro conforme os passos |
| Cetoacidose grave | pH abaixo de 7,1 ou bicarbonato abaixo de 5; ou sintomas longos, circulação comprometida ou consciência rebaixada | UTI pediátrica ou unidade com recursos e supervisão equivalentes | Insulina a 0,1 U/kg/h; manitol e salina a 3% calculados à beira do leito |
| Qualquer classe com risco de lesão cerebral | Idade abaixo de 5 anos, pH abaixo de 7,1, pCO2 abaixo de 21 mmHg, ureia acima de 43 mg/dL (nitrogênio ureico acima de 20) | UTI pediátrica ou unidade equivalente | Dose de manitol e de salina a 3% escrita na prescrição desde a chegada |
| Estado hiperosmolar | Glicemia acima de 600, pH venoso acima de 7,25, bicarbonato acima de 15, osmolalidade efetiva acima de 320, cetose ausente ou leve | Terapia intensiva | Bólus de pelo menos 20 mL/kg, déficit de 12% a 15%, insulina de 0,025 a 0,05 U/kg/h só quando o soro sozinho deixa de baixar 50 mg/dL por hora |
| Cetose sem acidose na criança com diabetes conhecido, sem vômito e sem desidratação | Cetona positiva com pH e bicarbonato normais | Casa, com família treinada em dia de doença, ou unidade com supervisão da equipe de diabetes | Insulina subcutânea extra conforme a Tabela 4 e reavaliação em horas |
As contas de Heloísa, 24 kg, contra as apresentações da Rename 2024
| O que se prescreve | Regra | Conta para 24 kg | Como sai da apresentação |
|---|---|---|---|
| Bólus inicial | Cloreto de sódio a 0,9%, 10 a 20 mL/kg em 20 a 30 min; 20 mL/kg com perfusão ruim | 20 × 24 = 480 mL | Cloreto de sódio a 0,9% (Básico): 480 mL em 30 minutos |
| Déficit a repor | Presumido de 5% a 10% do peso, menos o bólus, em 24 a 48 h | 10% = 2.400 mL; menos 480 = 1.920 mL; em 48 h = 40 mL/h | Somado à manutenção no mesmo soro |
| Manutenção | Holliday–Segar: 1.500 mL/dia mais 20 mL/kg/dia acima de 20 kg | 1.500 + 80 = 1.580 mL/dia = 65,8 mL/h | Somada ao déficit no mesmo soro |
| Vazão total | Déficit mais manutenção | 40 + 65,8 ≈ 106 mL/h (4,4 mL/kg/h) | Dentro da faixa do consenso: déficit de 5% a 10% reposto em 24 a 48 horas |
| Potássio no soro | 40 mEq/L; teto de 0,5 mEq/kg/h | 106 mL/h × 40 mEq/L = 4,2 mEq/h (0,18 mEq/kg/h); teto 12 mEq/h | Cloreto de potássio a 19,1% (2,56 mEq/mL): 15,6 mL por litro, ou 7,8 mL em cada frasco de 500 mL |
| Insulina regular endovenosa | 0,1 U/kg/h com pH até 7,15; sem bólus | 0,1 × 24 = 2,4 U/h | 50 UI (0,5 mL de insulina regular 100 UI/mL) em 49,5 mL de cloreto de sódio a 0,9% = 1 UI/mL; bomba a 2,4 mL/h |
| Glicose no soro | 5% quando a glicemia chega a 250 a 300 mg/dL | 106 mL/h a 5% = 5,3 g/h de glicose (3,7 mg/kg/min) | 450 mL de cloreto de sódio a 0,9% + 50 mL de glicose a 50% = 500 mL com glicose a 5% e sódio de 139 mEq/L |
| Manitol | 0,5 a 1 g/kg em 10 a 15 min | 12 a 24 g | Não consta da Rename 2024; onde o hospital tiver manitol a 20% (0,2 g/mL): 60 a 120 mL |
| Salina a 3% | 2,5 a 5 mL/kg em 10 a 15 min; 2,5 mL/kg equivalem a 0,5 g/kg de manitol | 60 a 120 mL | Para 60 mL: 6,6 mL de cloreto de sódio a 20% (3,4 mEq/mL) + 53,4 mL de cloreto de sódio a 0,9% = 511 mEq/L |
O que o SUS entrega à criança com diabetes tipo 1
| Item | Situação na rede pública | Regra de acesso | O que isso muda no plano |
|---|---|---|---|
| Insulina humana NPH 100 UI/mL | Rename 2024, Componente Básico | Unidade básica, com a receita | Basal em duas ou três aplicações diárias |
| Insulina humana regular 100 UI/mL | Rename 2024, Componente Básico | Unidade básica, com a receita | Bólus 30 minutos antes das três refeições principais, em dose fixa por refeição |
| Insulina análoga de ação rápida 100 UI/mL | Rename 2024, Componente Especializado | Protocolo federal: NPH e regular por 3 meses e, nos últimos 6 meses, hipoglicemia grave, não graves 2 ou mais por semana, noturnas 1 ou mais por semana ou mau controle persistente; glicemia capilar 3 ou mais vezes ao dia; consultas 2 ou mais por ano | Aplicada junto da refeição, permite ajustar a dose ao carboidrato do prato |
| Insulina análoga de ação prolongada 100 e 300 UI/mL | Rename 2024, Componente Especializado | NPH com análogo rápido por 3 meses e os mesmos critérios; fora da faixa etária da bula, excluída | Menos hipoglicemia noturna do que a NPH |
| Tiras de glicemia capilar, lancetas e seringas com agulha acoplada | Rename 2024, insumos do Componente Básico | Unidade básica | Glicemia capilar antes das refeições, ao deitar e sempre que a criança mudar de comportamento |
| Glucagon | Não consta da Rename 2024 | — | Hipoglicemia grave em casa: criança de lado, nada pela boca, serviço de urgência; a família que compra o glucagon aprende a dose |
| Fita para cetona e glicosímetro | Não constam da Rename 2024 | — | Cetona em casa só com aparelho próprio; na unidade, fita de urina; o aparelho que lê as tiras precisa de caminho definido com a rede local |
| Sensor de glicose | Não consta; escaneamento intermitente não incorporado (Portaria SECTICS/MS nº 2/2025); leitura em tempo real para o tipo 1 com recomendação preliminar desfavorável em 2026 | — | A meta de hemoglobina glicada da diretriz da criança fica condicionada à tecnologia; ver divergências |
| Manitol | Não consta da Rename 2024 | — | Salina a 3% preparada com cloreto de sódio a 20% e a 0,9%, que constam |
Dias de doença em casa: aplicar o plano individual e reconhecer quando procurar atendimento
| O que a família encontra | O que faz com a insulina | O que oferece | Quando procura o pronto-socorro |
|---|---|---|---|
| Glicemia acima de 250 mg/dL, cetona negativa (sangue abaixo de 0,6 mmol/L ou urina negativa) | Manter cobertura basal. Correção subcutânea conforme o plano individual: a referência cita acréscimo de 10% da dose total diária se glicemia acima de 400. Conferir dose recente e não somar correções antes do intervalo prescrito. | Água e líquidos sem açúcar | Glicemia que não cai em duas medidas seguidas, ou cetona que aparece |
| Glicemia acima de 250, cetonemia de 0,6 a 1,4 (urina com traços ou uma cruz) | Manter cobertura basal e seguir a correção previamente escrita pela equipe. A referência usa 10% da dose total diária nesta faixa; não aplicar esse percentual automaticamente sem considerar a insulina ainda ativa. | Água e líquidos adequados à hidratação em pequenos volumes frequentes. Contabilizar o carboidrato de bebidas e alimentos; água de coco e sopas não são necessariamente isentos de carboidratos. | Vômito que se repete, ou cetona que sobe |
| Glicemia acima de 250, cetonemia de 1,5 a 2,9 (urina moderada) | Contato com a equipe no mesmo momento. A referência cita correção de 20% da dose total diária, que precisa integrar o plano individual e a última dose aplicada; garantir capacidade de reavaliar. | Os mesmos líquidos, em goles frequentes | Atendimento imediato com vômitos, respiração profunda, sonolência ou dificuldade para hidratar; cetose que persiste ou sobe apesar do plano também exige avaliação. Não aguardar duas horas diante de piora clínica. |
| Qualquer glicemia com cetonemia de 3,0 mmol/L ou mais (urina intensa) | Aplica o reforço já combinado com a equipe e sai de casa | Nada que atrase a saída | Agora: é o nível de cetonemia que entra no critério de cetoacidose |
| Glicemia abaixo de 90 com vômito ou sem comer, cetona negativa | Corrigir hipoglicemia e manter cobertura basal com ajuste individual. A referência admite redução de insulina em algumas situações; a equipe define qual dose reduzir, quanto e quando, conforme tendência e ingestão. | Líquidos com açúcar em goles: suco, isotônico gelado | Não consegue beber, vomita tudo ou tem glicemia abaixo de 70 que não sobe |
| Glicemia normal ou baixa com cetona positiva | Manter cobertura de insulina e ofertar carboidratos conforme tolerância. Cetose pode coexistir com glicemia normal ou baixa: dose, horário e necessidade de assistência são decididos com a equipe. | Líquido com açúcar em goles pequenos e repetidos | Atendimento imediato se não mantém carboidrato por via oral, tem vômitos persistentes, hipoglicemia recorrente ou sinais de cetoacidose. Pode precisar de glicose intravenosa para receber insulina com segurança. |
Hospital e domicílio: qual plano cabe à situação?
| Situação | Plano aplicável | O que impede continuar nesse plano |
|---|---|---|
| Cetoacidose confirmada ou suspeita clínica importante | Hospital: estabilização, gasometria, eletrólitos, cetonas e monitorização; líquidos, potássio e insulina por protocolo pediátrico. | A tabela de correções em casa não substitui o tratamento hospitalar nem serve para orientar infusão intravenosa. |
| DM1 conhecido, intercorrência leve, criança alerta e bebendo, cuidador capaz de monitorar | Plano domiciliar individual escrito pela equipe, com insulina, hidratação, glicemia e cetonas. Confirmar horário da última dose. | Vômitos persistentes, desidratação, respiração profunda, alteração neurológica, hipoglicemia que não corrige ou cetose que aumenta exigem atendimento. |
| Após resolução da cetoacidose | Transição supervisionada para insulina subcutânea com sobreposição adequada; observar alimentação e resposta ao esquema antes da alta. | Glicemia normal isoladamente não confirma resolução da cetoacidose. |
| Alta e escola | Receita atual, insumos, técnica demonstrada, tratamento de hipoglicemia e plano de contato. Um adulto assume a supervisão compatível com a idade. | A dose da vinheta de Heloísa não é receita para outras crianças; necessidade de insulina muda com doença, atividade e lua de mel. |
Vigilância neurológica durante a cetoacidose
| O que comparar com o registro anterior | Interpretação | Resposta da equipe |
|---|---|---|
| Consciência, interação e Glasgow; nova irritabilidade ou dificuldade de despertar | Piora depois de melhora inicial é especialmente preocupante. | Avaliação imediata à beira-leito, glicemia e acionamento do médico responsável; não esperar a próxima coleta. |
| Cefaleia nova ou crescente, vômito novo, queda da frequência cardíaca sem explicação | O conjunto pode indicar lesão cerebral; distinguir bradicardia da simples melhora da taquicardia após hidratação. | Diante de suspeita clínica, iniciar a terapia hiperosmolar já calculada e acionar terapia intensiva; tomografia não precede o tratamento. |
| Pressão arterial, respiração, saturação, pupilas e déficit focal | Hipertensão, depressão respiratória, dessaturação ou alteração focal reforçam gravidade. | Reanimação e suporte por equipe experiente; monitorização contínua e reavaliações próximas após cada intervenção. |
| Estado neurológico sem mudança durante a reposição | Evolução favorável exige registro, não apenas impressão global. | Documentar pelo menos a cada hora; encurtar o intervalo imediatamente se houver qualquer mudança. |
Potássio abaixo do qual se adia a insulina, dentro do mesmo consenso pediátrico internacional de 2022. O sumário executivo manda adiar a insulina e dar potássio em bólus na criança com potássio abaixo de 3,0 mmol/L; a seção de reposição de potássio do corpo do texto escreve abaixo de 3,5 mmol/L. Numa criança de 24 kg com potássio de 3,2, pelo sumário a insulina começa 1 hora depois do soro, com 40 mEq/L de potássio no frasco — 4,2 mEq/h a 106 mL/h —; pelo corpo do texto, a insulina espera e o potássio corre sozinho, com monitor, num ritmo que pode chegar ao teto de 12 mEq/h (0,5 mEq/kg/h), quase o triplo. A diretriz brasileira de cetoacidose, escrita para o adulto, usa 3,3. Este capítulo adota 3,5 e explica por que no bloco de divergências.
Dose total diária de insulina na criança, dentro do protocolo federal do diabetes tipo 1. O texto do item 9 escreve que a necessidade sobe para 0,7 a 1 UI/kg/dia na criança pré-púbere e pode alcançar 1 a 2 UI/kg/dia na puberdade; a Tabela 4 do mesmo protocolo, adaptada de uma publicação de 2012, dá 0,5 a 0,8 ao pré-púbere, 0,8 a 2,0 ao púbere e 0,2 a 0,4 ao lactente. Num pré-púbere de 25 kg, são 17,5 a 25 UI por dia pelo texto e 12,5 a 20 UI pela tabela; em Heloísa, 16,8 a 24 contra 12,0 a 19,2. A diretriz brasileira de insulinoterapia no tipo 1 dá 0,7 a 1,0 ao pré-púbere, 1,0 a 2,0 ao púbere e 0,3 a 0,5 ao lactente, e confirma o texto. Este capítulo usa as faixas do texto como referência de manutenção e, no dia da alta, a faixa de 0,5 a 1 UI/kg/dia que o próprio protocolo dá para o diagnóstico recente ou logo após a cetoacidose — as 17 UI de Heloísa cabem nas duas leituras.
Minidose de glucagon no dia de doença com cetose e tendência à hipoglicemia, dentro da diretriz brasileira de dias de doença. O texto dá 0,02 mg até 2 anos e 0,01 mg por ano de idade acima de 2 anos, com máximo de 0,15 mg; o rodapé da Tabela 2, na mesma página, recomenda 0,1 a 0,2 mg por via subcutânea, de hora em hora, em duas doses. Numa criança de 4 anos, com glucagon reconstituído a 1 mg/mL, o texto dá 0,04 mg — 4 unidades numa seringa de insulina — e o rodapé, 0,1 a 0,2 mg, de 10 a 20 unidades: de 2,5 a 5 vezes mais. Aos 2 anos, a diferença vai de 5 a 10 vezes, e o teto do rodapé passa o do texto. Este capítulo usa a regra por idade do texto; o glucagon, de todo modo, não consta da Rename 2024.
Faixas de cetonemia nas tabelas de ajuste da mesma diretriz de dias de doença. A Tabela 1 separa as classes em abaixo de 0,6, de 0,7 a 1,4, de 1,5 a 2,9 e acima de 3,0; a Tabela 2, em abaixo de 0,6, de 0,7 a 1,0, de 1,0 a 1,4, de 1,5 a 2,9 e acima de 3,0. Uma cetonemia de exatamente 3,0 mmol/L — o valor que entra no critério de cetoacidose do consenso pediátrico — não pertence a classe nenhuma nas duas tabelas, e é justamente a fronteira entre ficar em casa e ir ao pronto-socorro; 0,6 também fica sem classe. Na Tabela 2, 1,0 cabe em traços, que manda reduzir 15% da dose total com glicemia abaixo de 90, e em leve, que manda não reduzir. Glicemia de 180 cabe na faixa de 180 a 250 da Tabela 1 e na de 90 a 180 da Tabela 2: com cetonemia de 1,5 a 2,9, o reforço é de 10% da dose total numa e de 5% na outra. A Tabela 4 deste capítulo fecha as faixas, pondo 0,6 na classe leve e 3,0 na alta.
Plano domiciliar individual — manter insulina basal significa garantir cobertura, mesmo sem refeição; não significa repetir uma dose fixa em qualquer circunstância. Registrar glicemias, cetonas, ingestão e última dose. A SBD diferencia o intervalo das correções: a cada 2 a 4 horas com análogos rápidos e a cada 4 horas com regular, inclusive à noite; cetonemia é revista mais cedo, a cada 1 a 2 horas. Medir novamente não autoriza outra dose antes do horário previsto. Os percentuais da tabela são referências para construir o plano com a equipe, não uma escala universal.
A conduta, hora a hora
Este capítulo acompanha dois contextos de cuidado. A cetoacidose é tratada no hospital, com avaliação seriada de perfusão, estado neurológico, glicemia, eletrólitos e acidose. Primeiro vem o líquido isotônico; a insulina é iniciada depois, com atenção ao potássio. Já o plano de dias de doença se aplica à criança com diabetes conhecido, clinicamente estável, com cuidador treinado, material de monitorização e acesso à equipe. Esse plano precisa dizer quando a observação em casa termina. A alta só está pronta quando a família demonstra como medir, aplicar, tratar hipoglicemia e reconhecer os sinais de retorno.
Heloísa pesa 24 kg. No exemplo hospitalar, o esquema pediátrico da ISPAD 2022 usa déficit estimado de 10%, reposto em 48 horas, somado à manutenção e descontado o bólus já administrado. É uma estimativa inicial que será revista conforme perfusão, balanço, sódio e evolução clínica. O capítulo utiliza 3,5 mmol/L como limiar de potássio para adiar a insulina, conforme a discussão do protocolo. Manitol ou salina hipertônica devem estar disponíveis para tratar suspeita de lesão cerebral sem aguardar imagem; apresentação, diluição e dupla conferência precisam ser combinadas com a farmácia e a equipe antes da emergência.
Em casa, a insulina é aplicada pela família com as seringas com agulha acoplada que a unidade básica entrega, e o que muda na criança é a escala: doses pequenas, que a diretriz brasileira de peculiaridades da criança manda medir com seringa ou caneta de meia unidade, e diluição quando a dose fica abaixo disso numa criança pequena. A técnica de aplicação, a mistura de NPH e regular na mesma seringa, a conservação da insulina e o bolus de correção estão no capítulo Quem fabrica a insulina agora é ele, da apostila de Endocrinologia. O rodízio dos locais é o que a figura mostra, porque é o que a criança de 8 anos esquece primeiro: o mesmo ponto, dia após dia, endurece o tecido e muda a absorção.

Terça, 14h20 — sala de emergência: volume, coleta e peso antes de qualquer insulina
Heloísa vai para a sala de emergência no colo da mãe. A via aérea está pérvia, a saturação é de 97% em ar ambiente e ela não precisa de oxigênio; a respiração rápida é compensação, e não se intuba criança acidótica que protege a via aérea. Dois acessos periféricos entram de uma vez, e a coleta sai pelo primeiro antes de qualquer soro correr. O enchimento capilar de três segundos com extremidades frias é perfusão ruim, e por isso o bólus é o de 20 mL/kg, e não o de 10. Nada de insulina ainda: ela espera o soro correr por uma hora. O preceptor liga para a terapia intensiva pediátrica enquanto o bólus corre.
Prescrição- Cloreto de sódio a 0,9%, 480 mL (20 mL/kg) EV em 30 minutos, em bomba de infusão
- Coleta antes da insulina: gasometria venosa, sódio, potássio, cloro, ureia, creatinina, fósforo e glicemia plasmática; cetonemia capilar no aparelho da unidade
- Dois acessos venosos periféricos; monitor cardíaco e oximetria contínuos; peso da balança anotado: 24 kg
- Glicemia capilar e escala de Glasgow de hora em hora; nada por via oral enquanto vomita e está sonolenta
- Solicitação de vaga em UTI pediátrica
Terça, 14h50 — o laudo, a classe e a folha de contas
O laudo confirma o que a respiração dizia: pH 7,06, bicarbonato de 6, pCO2 de 18, glicemia de 520, e a cetonemia capilar da unidade marca 5,8 mmol/L. Você faz as contas no canto da folha: ânion gap de 22, sódio corrigido de 139, osmolalidade efetiva de 293 — não é estado hiperosmolar — e ureia de 52, que é nitrogênio ureico de 24. Cetoacidose grave, com três fatores de risco de lesão cerebral. Terminado o bólus, o enchimento capilar caiu para dois segundos e a frequência cardíaca para 126: não há indicação de segundo bólus. O soro de reposição começa agora, e a dose de resgate neurológico fica escrita antes de ser necessária, porque às nove da noite ninguém deve estar fazendo conta de manitol com a criança bradicárdica.
Prescrição- Cloreto de sódio a 0,9% a 106 mL/h: déficit presumido de 10% (2.400 mL) menos o bólus, em 48 horas, somado à manutenção de 1.580 mL/dia
- Deixar escrito e à beira do leito: salina a 3%, 60 mL (6,6 mL de cloreto de sódio a 20% + 53,4 mL de cloreto de sódio a 0,9%), ou manitol a 20%, 60 mL (12 g), para correr em 10 a 15 minutos diante de sinal de alerta neurológico
- Folha horária: glicemia capilar, frequência cardíaca, pressão, Glasgow, cefaleia, vômito, diurese e volume infundido
- Registro: cetoacidose grave (pH 7,06) com três fatores de risco de lesão cerebral — pH abaixo de 7,1, pCO2 de 18 mmHg e ureia de 52 mg/dL
Terça, 15h20 — uma hora de soro: a insulina entra, sem bólus, com o potássio
Com uma hora de volume, a insulina começa. O pH está abaixo de 7,15, e por isso a dose é de 0,1 unidade por quilo por hora, e não de 0,05. Não se dá bólus: ele não acrescenta nada, pode derrubar a pressão ao baixar depressa a osmolalidade e antecipa a hipocalemia. O potássio de 5,1 está abaixo de 5,5 e Heloísa urinou na chegada, então o potássio entra no soro junto com a insulina, a 40 mEq/L; se a coleta tivesse mostrado potássio abaixo de 3,5, a ordem se inverteria, com o potássio correndo primeiro e a insulina esperando. O pH de 7,06 assusta, mas não pede bicarbonato: ele não acelera a resolução, pode acidificar o líquor e derruba o potássio que você está tentando segurar.
Prescrição- Insulina regular 50 UI (0,5 mL de insulina 100 UI/mL) em 49,5 mL de cloreto de sódio a 0,9% (1 UI/mL), EV em bomba a 2,4 mL/h (0,1 UI/kg/h), sem bólus; preencher o equipo com a solução antes de conectar
- Soro trocado por cloreto de sódio a 0,9% com 7,8 mL de cloreto de potássio a 19,1% em cada 500 mL (40 mEq/L), mantendo 106 mL/h
- Gasometria venosa, sódio, potássio e cloro a cada 2 horas; potássio a cada hora se ficar abaixo de 3,5
- Bicarbonato de sódio: não prescrever
Terça, 18h30 — a glicose cai antes da acidose
Três horas de insulina depois, a glicemia está em 286 mg/dL — caiu cerca de 74 por hora, dentro do esperado —, mas o pH é de 7,15, o bicarbonato de 9 e a cetonemia de 4,2 mmol/L, que caiu cerca de meio ponto por hora. O sódio medido subiu para 136 e o corrigido continua perto de 139, que é a trajetória certa. O potássio desceu para 4,2. É o momento que mais confunde quem começa: a glicemia chegou à faixa de 250 a 300 e a acidose está longe de resolver. A resposta não é baixar a insulina, é dar glicose para que a insulina possa continuar desmontando a cetose.
Prescrição- Soro trocado por solução com glicose a 5%: 450 mL de cloreto de sódio a 0,9% + 50 mL de glicose a 50% + 7,8 mL de cloreto de potássio a 19,1%, a 106 mL/h
- Insulina regular mantida a 2,4 UI/h
- Se a glicemia continuar caindo com a acidose presente: subir a glicose do soro para 10% (400 mL de cloreto de sódio a 0,9% + 100 mL de glicose a 50%) antes de reduzir a insulina, que não desce de 1,2 UI/h (0,05 UI/kg/h)
- Glicemia capilar horária; gasometria, eletrólitos e cetonemia a cada 2 horas
Terça, 21h10 — a cefaleia da sétima hora
Heloísa estava melhor às sete da noite, conversando e pedindo água. Às nove, reclama de dor de cabeça, vomita uma vez, fica irritada e empurra a mão da mãe; a frequência cardíaca, que era de 112, cai para 68 com ela acordada, e a pressão sobe para 118 por 74. Pressão alta, sozinha, não seria sinal de alerta; cefaleia nova, vômito depois do início do tratamento, bradicardia sem explicação e mudança de comportamento são sinais de alerta de lesão cerebral. Não se espera tomografia nem nova gasometria: a dose que estava escrita desde as 14h50 corre agora. A vazão do soro é revista para manter a pressão normal sem excesso de volume, a insulina continua, e a equipe da UTI assume a vigilância. Se a respiração falhar, a intubação mira a pCO2 esperada para a acidose, sem hiperventilação além dela. Quinze minutos depois, a frequência cardíaca está em 96, a cefaleia melhorou e Heloísa responde com frases.
Prescrição- Salina a 3%, 60 mL (2,5 mL/kg), EV em 15 minutos, agora — ou manitol a 20%, 60 mL (0,5 g/kg), onde houver
- Sem resposta em 15 a 30 minutos: manitol pode ser repetido após 30 minutos, e a salina a 3% pode ser somada ao manitol
- Vazão do soro reavaliada para pressão normal, sem excesso de volume e sem hipotensão; insulina mantida
- Transferência para a UTI pediátrica; avaliação neurológica a cada 30 minutos; imagem de crânio só depois de iniciada a terapia hiperosmolar, considerada diante de sinal focal ou de piora
Quarta, 3h — a madrugada da UTI: o que se mede e o que não se mexe
A noite corre sem novo sinal neurológico. Às três da manhã, pH de 7,24, bicarbonato de 13, cetonemia de 1,6 mmol/L, glicemia de 142 com o soro a 5%, potássio de 3,9, sódio de 140 e cloro de 112. O ânion gap já é de 15: parte da acidose que resta é hiperclorêmica, pelo cloro que o soro trouxe, e o consenso a descreve como benigna e incapaz de adiar a transição quando os outros marcadores resolveram. A glicemia em queda com cetonemia ainda acima de 1 é a situação prevista: sobe a glicose do soro, não desce a insulina.
Prescrição- Soro com glicose a 10%: 400 mL de cloreto de sódio a 0,9% + 100 mL de glicose a 50% + 7,8 mL de cloreto de potássio a 19,1%, a 106 mL/h
- Insulina regular mantida a 2,4 UI/h
- Fósforo, cálcio e magnésio na próxima coleta
- Avaliação neurológica de hora em hora; peso pela manhã
Quarta, 7h — resolveu: a primeira insulina na pele
Às sete da manhã, pH de 7,33, bicarbonato de 19, cetonemia de 0,6 mmol/L e ânion gap de 12: a cetoacidose resolveu, e Heloísa pede o café. A dose total vem da faixa que o protocolo federal dá para logo depois da cetoacidose, de 0,5 a 1 unidade por quilo por dia: 0,7 × 24 dá 16,8, arredondados para 17 unidades, que também cabem na faixa de manutenção do pré-púbere. Pouco menos da metade vai como basal, em NPH de manhã e à noite, e o restante como regular antes das três refeições. O consenso manda a primeira dose subcutânea de análogo rápido de 15 a 30 minutos antes de desligar a bomba e uma sobreposição maior com a insulina de ação prolongada; para a regular, que começa a agir mais devagar que o análogo, ele não dá número próprio, e este capítulo mantém a bomba por uma hora depois da injeção — leitura desta apostila, não número de fonte.
Prescrição- Insulina NPH 5 UI + insulina regular 3 UI SC às 7h30, antes do café da manhã
- Insulina endovenosa desligada às 8h30
- Dieta oral com carboidrato distribuído nas refeições; soro reduzido conforme a aceitação e suspenso quando ela beber bem
- Glicemia capilar antes das refeições, às 22h e às 3h
- Doses do dia seguinte em diante: NPH 5 UI às 7h30 e 3 UI às 21h; regular 3 UI 30 minutos antes do café, do almoço e do jantar
Sexta — alta: o plano que vai para casa e para a escola
Dois dias de enfermaria são dias de aula. Edilene fura o dedo da filha, aspira e aplica sob supervisão, e Heloísa aplica a regular do almoço na própria coxa. As duas treinam o que fazer com uma glicemia de 62 e com uma virose em casa. A hipoglicemia se trata com 10 a 20 gramas de carboidrato simples, repetindo a glicemia em 10 a 15 minutos, como orienta o caderno de atenção básica; numa criança de 24 quilos, esta apostila usa a metade de baixo dessa faixa, de 10 a 15 gramas. A hipoglicemia grave, em que a criança não engole ou não acorda, não se trata pela boca: é criança de lado e serviço de urgência, porque o glucagon não consta da relação nacional de medicamentos essenciais — a família que o compra aprende a dose por peso, que está no capítulo Antes da hipótese, a glicemia. A escola recebe um relatório, e a unidade básica, a contrarreferência.
Prescrição- Insulina NPH 5 UI às 7h30 e 3 UI às 21h; insulina regular 3 UI 30 minutos antes do café, do almoço e do jantar; seringas com agulha acoplada, tiras e lancetas pela unidade básica
- Glicemia capilar antes das três refeições e ao deitar, e sempre que o comportamento mudar; registro em caderno com hora, valor e dose
- Glicemia abaixo de 70 mg/dL: 10 a 15 g de carboidrato simples — 2 a 3 colheres de chá de açúcar em água, ou 100 a 150 mL de suco — e nova glicemia em 15 minutos
- Dias de doença: manter cobertura basal com o ajuste indicado no plano individual; registrar a última aplicação, medir glicemia e cetonas e respeitar o intervalo das correções. Procurar atendimento diante dos sinais da tabela domiciliar.
- Relatório para a escola; retorno com a endocrinologia pediátrica em uma semana; TSH, antitransglutaminase IgA e IgA total; psicologia; vacina pneumocócica conjugada 20-valente pela rede de imunobiológicos especiais
Como saber se está funcionando
Reavaliar a cetoacidose na criança é preencher uma folha de hora em hora e ler a folha inteira, não um número. O consenso pediátrico internacional de 2022 pede o registro, num fluxograma, das observações clínicas de cada hora, das medicações, dos líquidos que entram e saem e dos resultados de laboratório, porque o tratamento só se ajusta a tempo quando a tendência está à vista. Dois marcadores não servem para dizer que a crise acabou: a glicemia, que normaliza muitas horas antes da acidose, e a cetonúria, que continua positiva por horas depois de a cetonemia normalizar.
Quando os marcadores bioquímicos não melhoram — o pH que não sobe, o ânion gap que não fecha, a cetonemia que não cai —, o consenso manda reavaliar a criança, rever a insulina e procurar outra explicação: infecção, erro no preparo da solução ou na via, volume insuficiente. A acidose que persiste com ânion gap já normal é quase sempre hiperclorêmica, pelo cloro dos soros, e não deve adiar a transição para a via subcutânea. Com a insulina agindo, a cetonemia desce perto de meio milimol por litro a cada hora.
Depois da alta, a reavaliação muda de mãos e passa para o caderno da família. O protocolo federal dá como objetivos glicêmicos da criança e do adolescente glicemia antes das refeições de 70 a 145 mg/dL, depois das refeições de 90 a 180, ao deitar de 120 a 180 e na madrugada de 80 a 162, e manda dosar a hemoglobina glicada a cada seis meses; a meta dela depende de a criança ter ou não tecnologia de monitorização, como discute o bloco de divergências. Nas primeiras semanas depois do diagnóstico, a lua de mel faz a necessidade de insulina cair: glicemias baixas repetidas em casa são sinal de dose a reduzir, não de criança que comeu pouco. E o crescimento é parâmetro de controle — peso, altura e índice de massa corporal em toda consulta.
No primeiro retorno, o caderno se lê por horário, e cada horário aponta para uma insulina. O protocolo federal separa as funções: a hiperglicemia de jejum e a de antes das refeições se corrigem na insulina basal, e a que acompanha a refeição, na insulina de ação rápida. No esquema de Heloísa, a glicemia alta em jejum pede olhar a NPH da noite — e a glicemia da madrugada, porque a hipoglicemia das três da manhã também pode amanhecer alta —; a de antes do almoço reflete a regular do café; a de antes do jantar, a regular do almoço com a NPH da manhã; a de deitar, a regular do jantar. Muda-se uma insulina de cada vez, em passo pequeno, e só depois de ver o padrão repetido por alguns dias. Com a regular, o que a família precisa aprender é a constância: a mesma quantidade de carboidrato nos mesmos horários, contando arroz, feijão, macarrão, pão, fruta e suco, porque a dose da regular é fixa. Quando a criança passar ao análogo de ação rápida, pelos critérios do protocolo, a contagem de carboidratos entra de fato: o Apêndice C dá, para a criança de 6 a 8 anos, uma unidade para cada 30 gramas de carboidrato do prato e um fator de correção de 180 mg/dL por unidade.
Esperado: Queda de 2 a 5 mmol/L por hora, cerca de 36 a 90 mg/dL por hora; glicose no soro a partir de 250 a 300 mg/dL
Se não melhora: Caindo mais de 90 mg/dL por hora depois da expansão: glicose no soro antes de chegar a 250. Sem queda: conferir preparo e concentração da solução, equipo preenchido, acesso funcionando e volume infundido.
Esperado: Subida contínua até pH acima de 7,30 e bicarbonato acima de 18 mEq/L
Se não melhora: Rever insulina e via, procurar infecção e volume insuficiente; se o ânion gap já fechou, a acidose que resta é hiperclorêmica e não adia a transição.
Esperado: Queda de cerca de 0,5 mmol/L por hora, até abaixo de 1 mmol/L
Se não melhora: Queda lenta é insulina insuficiente ou mal preparada: corrigir a insulina, nunca reduzi-la; se a glicemia baixa, subir a glicose do soro para 10% ou 12,5%. Sem aparelho, acompanhar pelo ânion gap.
Esperado: Entre 3,5 e 5,5 com 40 mEq/L no soro
Se não melhora: Abaixo de 3,5: aumentar a reposição até o teto de 0,5 mEq/kg/h, com monitor; se a hipocalemia persistir no teto, reduzir a vazão da insulina. Acima de 5,5: soro sem potássio até documentar diurese.
Esperado: Sódio medido subindo à medida que a glicose cai; corrigido estável ou em queda lenta
Se não melhora: Sódio medido baixo que não sobe com a queda da glicose: aumentar o teor de sódio do soro, conforme o consenso.
Esperado: Consciência e interação progressivamente melhores, Glasgow 15, sem cefaleia nova, vômitos novos ou sinais focais. A queda da taquicardia deve acompanhar a recuperação da perfusão, sem bradicardia inexplicada.
Se não melhora: Cefaleia ou vômito novos, bradicardia sem explicação, irritabilidade, letargia, sinal focal ou queda da saturação: manitol ou salina a 3% agora, na dose já escrita; imagem só depois.
Esperado: Enchimento capilar até 2 segundos, diurese presente, balanço positivo
Se não melhora: Perfusão que volta a piorar: novo bólus de 10 a 20 mL/kg e reavaliação; diurese ausente com potássio alto: manter o potássio fora do soro e rever a função renal.
Onde o erro machuca
O dano: A cetoacidose avança sob o antiemético; o corticoide sobe a glicemia e o beta-2-agonista desloca potássio; cada hora a mais de desidratação e de hiperventilação soma no risco de lesão cerebral, que acompanha exatamente esses dois graus na chegada.
Como pegar a tempo: Glicemia capilar na triagem de toda criança com respiração rápida e de toda criança com vômito e dor abdominal sem diarreia, como manda o consenso pediátrico — antes do antiemético, da nebulização e da alta.
O dano: O bólus baixa depressa a osmolalidade e pode precipitar choque numa criança já depletada; a insulina empurra para dentro da célula o potássio que falta, e a hipocalemia com arritmia aparece nas horas em que ninguém está olhando o monitor.
Como pegar a tempo: Volume primeiro; insulina regular a 0,05 ou 0,1 U/kg/h pelo menos uma hora depois, sem bólus; potássio conhecido antes, com a regra de 5,5 e de 3,5.
O dano: Não acelera a resolução nos ensaios controlados, pode acidificar paradoxalmente o líquor e derruba o potássio — tudo numa criança com risco de lesão cerebral.
Como pegar a tempo: Bicarbonato só no raro caso de pH abaixo de 6,9 com contratilidade cardíaca comprometida, ou de hipercalemia com risco de vida; o pH baixo se trata com volume e insulina.
O dano: A glicose normaliza horas antes dos corpos cetônicos: tirar a insulina nesse ponto prolonga ou reacende a cetoacidose, e a criança fica mais horas na terapia intensiva.
Como pegar a tempo: Acrescentar glicose ao soro, a 5% e até 10% ou 12,5% se preciso, mantendo a insulina em pelo menos 0,05 U/kg/h até pH acima de 7,30, bicarbonato acima de 18 e cetonemia abaixo de 1.
O dano: A lesão cerebral clinicamente evidente tem mortalidade de 21% a 24%; os minutos de transporte e de conta, e a dose que começa na metade da pediátrica, são o tempo que a criança não tem.
Como pegar a tempo: Dose de manitol (0,5 a 1 g/kg) e de salina a 3% (2,5 a 5 mL/kg) escrita desde a chegada na criança de risco; infundir em 10 a 15 minutos ao primeiro sinal de alerta; imagem depois de iniciado o tratamento.
O dano: Sem a basal, quem não fabrica insulina produz cetona em horas; o consenso descreve a omissão da insulina de ação longa e a redução das doses na gastroenterite entre as causas de cetoacidose na criança com diagnóstico conhecido.
Como pegar a tempo: Entregar plano escrito que preserve a cobertura basal e diga como ajustar doses conforme glicemia, cetonas e alimentação. Distinguir horário de medir do horário de repetir correção; com insulina regular, não repetir correções em intervalos menores que quatro horas por conta própria. Vômitos persistentes, dificuldade de hidratação ou piora clínica exigem atendimento.
O que dizer ao paciente e à família
A família de Heloísa recebe em três dias um diagnóstico para sempre e uma tarefa diária, e metade do tratamento acontece fora do hospital, nas mãos de quem ouviu a conversa. O protocolo federal pede que os pais estejam completamente envolvidos na educação e no autocuidado e que o programa educativo seja compatível com o desenvolvimento da criança. Na prática, isso significa frases curtas, repetidas em dias diferentes, com a mãe fazendo o gesto enquanto você fala — furar o dedo, aspirar a insulina, oferecer o suco — e com a criança participando na medida da idade dela.
Há duas conversas por baixo de todas as outras. A primeira é a da culpa: quase toda mãe pergunta se foi o doce, e a resposta errada, ou a omissão da resposta, fica com a família por anos. A segunda é a da esperança mal colocada: a lua de mel, em que a dose cai nas primeiras semanas, é lida como cura, e a insulina é suspensa em casa. As falas abaixo são com Edilene e com Heloísa; a conversa com o adolescente, a sós e com o sigilo e os limites dele, está no caso resolvido deste capítulo, e a doutrina do sigilo do adolescente, no capítulo Quatro princípios e nenhum árbitro, da apostila de Medicina Legal e Bioética.
Na sala de emergência, quando a mãe pergunta se foi o vírus que piorou
““Edilene, não é virose. A Heloísa tem diabetes, e o açúcar alto por dias deixou o sangue dela ácido — é isso que faz ela respirar rápido e vomitar. É uma complicação grave, e o tratamento já começou: soro primeiro e, daqui a uma hora, insulina na veia. Ela vai para um leito onde a equipe olha para ela o tempo todo, inclusive se aparecer dor de cabeça, porque em criança é assim que se trata. Qualquer mudança que a senhora notar, a senhora chama.””
Não diga: “Não é nada, é só a glicose alta, com insulina resolve.” Minimizar tira da mãe a vigilância que você vai precisar nas próximas doze horas; o outro extremo, falar em edema cerebral e morte sem explicar o que se faz, paralisa a família.
Quando a mãe pergunta se foi culpa dela, por causa dos doces
““Não foi. O diabetes da Heloísa é o tipo 1: o próprio corpo dela destruiu as células que fabricam insulina, e isso não acontece por comer doce nem por qualquer descuido da senhora. O que dava para fazer, a senhora fez: voltou quando viu que ela não estava bem.””
Não diga: “Isso acontece quando a criança come muito açúcar.” É falso para o tipo 1 e deixa uma culpa que atrapalha o cuidado — e faz a família cortar do cardápio o açúcar que vai tratar a hipoglicemia.
Quando a mãe pergunta se é para sempre e se não existe comprimido
““É para sempre, sim. O corpo dela parou de fabricar insulina, e comprimido não faz esse papel: ela vai precisar de insulina todos os dias, inclusive nos dias em que estiver doente e sem fome. Nas primeiras semanas pode acontecer de a dose diminuir bastante, porque o pâncreas ainda ajuda um pouco. Isso não é cura, e a insulina não se para — a gente ajusta a dose junto com a senhora.””
Não diga: “Se ela fizer a dieta direitinho, dá para tirar a insulina.” A promessa falsa transforma a lua de mel em suspensão da insulina em casa, e a suspensão em nova cetoacidose.
Com Heloísa, na primeira glicemia que ela mesma faz
““Heloísa, esse furinho mostra quanto açúcar tem no seu sangue agora. A insulina é a chave que coloca esse açúcar para dentro do corpo, para virar energia. Você escolhe o dedo e a gente conta até três. Se você sentir tremedeira, suor, uma fome muito forte ou uma sensação esquisita, avisa o adulto na hora: pode ser o açúcar baixo, e ele resolve rápido com um suco.””
Não diga: “Se você comer doce, você pode morrer.” O medo não ensina a reconhecer a hipoglicemia, faz a criança esconder o que come e contradiz o suco que vai salvá-la num dia de açúcar baixo.
Quando a mãe pergunta o que fazer se a filha passar mal de madrugada
““Se ela ficar suada, pálida, confusa ou diferente, a senhora mede. Abaixo de 70, duas a três colheres de chá de açúcar num pouco de água, ou um copo pequeno de suco, e mede de novo em 15 minutos. Se ela não conseguir engolir ou não acordar, não coloque nada na boca dela: vire de lado e chame o SAMU, no 192. Existe uma injeção para esse caso, o glucagon, mas ele não está na lista nacional de medicamentos do SUS; se a família comprar, a equipe ensina a dose antes de ela ir para casa.””
Não diga: “Se ela desmaiar, coloca açúcar debaixo da língua.” Criança que não engole pode aspirar o que vai à boca; o que protege é a posição de lado e o socorro.
Quando a mãe pergunta o que fazer se a filha ficar gripada ou vomitar em casa
““Quando ela adoece, continua precisando de insulina. A dose pode mudar, por isso vamos deixar escrito o que fazer conforme a glicemia, a cetona e o que ela consegue comer. Anote a última aplicação e não repita uma correção antes do horário combinado. Ofereça líquidos em pequenos goles; se a glicose estiver baixa, precisa de carboidrato. Se vomitar repetidamente, respirar fundo, ficar sonolenta ou não conseguir beber, procure atendimento. Se não souber qual dose aplicar, ligue para a equipe.””
Não diga: “Se ela não comer, não aplica a insulina para o açúcar não baixar.” É a frase que mais leva criança com diagnóstico conhecido de volta à cetoacidose.
Quando a mãe pergunta como vai ser na escola
““Ela pode e deve voltar para a escola, brincar e fazer educação física — o protocolo recomenda pelo menos uma hora de atividade física por dia para a criança com diabetes, como para qualquer criança. Enquanto ela estudar de manhã e almoçar em casa, nenhuma insulina precisa ser aplicada na escola. A escola vai receber um relatório com três coisas: como é a hipoglicemia dela e o que oferecer, que ela pode lanchar na hora certa, beber água e ir ao banheiro quando precisar, e o telefone de quem responde por ela.””
Não diga: “É melhor ela ficar uns meses em casa e sem educação física.” O afastamento isola a criança, não previne nada e ensina à família que o diabetes manda na vida dela.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
0,5 a 1 g/kg — consenso pediátrico internacional (ISPAD, 2022)
Na seção de tratamento da lesão cerebral, o consenso manda iniciar o tratamento assim que houver suspeita e dar manitol de 0,5 a 1 g/kg por via endovenosa em 10 a 15 minutos, repetível após 30 minutos, com a salina a 3% de 2,5 a 5 mL/kg como alternativa ou como acréscimo quando o manitol não responde em 15 a 30 minutos; 2,5 mL/kg de salina a 3% equivalem em osmoles a 0,5 g/kg de manitol. É dose escrita para a criança e o adolescente.
Glaser N et al. ISPAD Clinical Practice Consensus Guidelines 2022: Diabetic ketoacidosis and hyperglycemic hyperosmolar state. Pediatric Diabetes. 2022;23(7):835-856, seção de tratamento da lesão cerebral
0,25 a 0,5 g/kg — diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes (revisão de 2023)
Na nota importante sobre edema cerebral do capítulo de cetoacidose, a diretriz sugere manitol de 0,25 a 0,5 g/kg, sem distinguir idade, num capítulo cujas recomendações de volume, de insulina e de bicarbonato são escritas para o adulto. É a faixa que o capítulo Cetoacidose diabética, da apostila de Endocrinologia, aplica também à criança.
Santomauro AT et al. Diagnóstico e tratamento da cetoacidose diabética. Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes, revisão de 27/03/2023, nota importante 1
Esta apostila adota 0,5 a 1 g/kg na criança pelo primeiro degrau da régua, o escopo: é a dose do documento escrito para o paciente pediátrico, e a faixa brasileira está numa nota sem recorte de idade, dentro de um capítulo desenhado para o adulto; nenhum documento brasileiro lido para este capítulo fixa dose pediátrica própria. Para Heloísa, com 24 kg, são 12 a 24 g pelo consenso e 6 a 12 g pela diretriz: a faixa brasileira termina onde a pediátrica começa. Na beira do leito, comece por 0,5 g/kg — 60 mL de manitol a 20% em Heloísa —, que é o número comum às duas faixas, ou pelos 2,5 mL/kg de salina a 3%, que se preparam com o que a Rename tem; sem resposta, o manitol se repete após 30 minutos, e a salina a 3% pode ser somada a ele, como manda o consenso.
Abaixo de 3,5 mmol/L — corpo do texto do consenso pediátrico internacional (ISPAD, 2022)
Na seção de reposição de potássio, o consenso manda, na criança hipocalêmica, começar o potássio junto da expansão inicial e antes da insulina, e, nas raras crianças com potássio inicial abaixo de 3,5 mmol/L, adiar a insulina e dar potássio em bólus sem passar de 0,5 mmol/kg/h, com monitorização cardíaca.
Glaser N et al. Pediatric Diabetes. 2022;23(7):835-856, seção de reposição de potássio
Abaixo de 3,0 mmol/L — sumário executivo do mesmo consenso (ISPAD, 2022)
O resumo das recomendações, no início do documento, manda adiar a insulina e dar potássio em bólus na rara criança com potássio abaixo de 3,0 mmol/L; nas demais, começar com 40 mmol/L de potássio no soro.
Glaser N et al. Pediatric Diabetes. 2022;23(7):835-856, sumário executivo
Abaixo de 3,3 mEq/L — diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes (revisão de 2023), para o adulto
A diretriz brasileira de cetoacidose afirma que a única indicação para atrasar o início da insulina é potássio sérico abaixo de 3,3 mEq/L, com reposição até que ele passe desse valor; a dose de insulina e o volume dessa diretriz são os do adulto.
Santomauro AT et al. Diagnóstico e tratamento da cetoacidose diabética. Diretriz Oficial da SBD, revisão de 27/03/2023, seção de insulinoterapia e recomendação 11
O escopo tira da disputa o número do adulto. Entre os dois números do mesmo consenso pediátrico, escopo, data e natureza empatam, e decide a coerência interna: o corpo do texto traz a recomendação completa, com a sequência de conduta — potássio junto da expansão, insulina adiada, bólus com teto e monitor —, e o sumário a resume. Esta apostila adota 3,5 mmol/L, e declara que a escolha entre dois números do mesmo documento é leitura dela. O custo de adiar é pequeno, porque a insulina já espera uma hora de soro; o custo de começar insulina com potássio de 3,2 é a hipocalemia com arritmia nas horas em que o potássio mais cai.
Abaixo de 7,5% — protocolo federal do diabetes tipo 1 (2019)
As Tabelas 1 e 2 do protocolo fixam, para crianças e adolescentes, hemoglobina glicada abaixo de 7,5%, contra abaixo de 7,0% no adulto, com base na associação americana de diabetes de 2019 e na diretriz brasileira de 2017-2018. Os critérios de manutenção dos análogos pedem que o laudo mostre metas atingidas conforme a Tabela 1, entre outras opções.
Ministério da Saúde. PCDT do Diabete Melito Tipo 1, Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 17/2019, Tabelas 1 e 2 e critérios de manutenção
Abaixo de 7,0%, com tecnologia de monitorização — diretriz da SBD para a criança (2023)
A recomendação 4 manda considerar a meta abaixo de 7,0% em crianças com diabetes tipo 1, para reduzir o risco da hiperglicemia crônica sobre o desenvolvimento cognitivo, mas só quando houver acesso à tecnologia de monitorização, para não aumentar a hipoglicemia (classe IIa, nível B).
Mantovani RM et al. Peculiaridades do tratamento da criança com DM1. Diretriz Oficial da SBD, revisão de 11/04/2023, recomendação 4
Antes de desempatar, pergunte se as duas regras não governam situações diferentes — e em parte governam, porque a própria diretriz da criança condiciona os 7,0% à tecnologia. Para a criança do SUS que mede glicemia capilar, que é a regra, já que o escaneamento intermitente teve a incorporação recusada em 2025 e o sensor em tempo real não foi incorporado, as duas convergem: a meta é abaixo de 7,5%, a do protocolo e a do laudo que mantém o análogo. Para a criança que usa sensor, a disputa é real, o escopo empata — as duas escrevem para a criança com tipo 1 — e decide a data: esta apostila adota abaixo de 7,0%, pela diretriz de 2023, posterior ao protocolo de 2019; o laudo do análogo continua usando a tabela do protocolo.
O raciocínio, em voz alta
Kauê Cavalcanti tem 15 anos, 58 quilos e diabetes tipo 1 desde os 9. Usa insulina NPH, 16 unidades às 7h e 14 às 22h, e análogo de ação rápida antes das refeições, 10, 12 e 10 unidades, que retira pelo componente especializado desde os 12 anos: 62 unidades por dia, 1,07 por quilo. Chega ao pronto-socorro às 6h de uma segunda-feira, trazido pelo pai, Claudinei, com vômitos desde a madrugada, dor abdominal e respiração rápida. É a terceira internação por cetoacidose em oito meses. Na consulta de dois meses atrás, a hemoglobina glicada era de 11,4%; de lá para cá, perdeu 4 quilos. O pai garante que o filho aplica tudo. No sábado, Kauê foi a uma festa e dormiu na casa de um amigo. Exame: Glasgow 15, frequência cardíaca de 118, pressão de 124 por 76, enchimento capilar de 2 segundos, mucosas secas, hálito cetônico, sem foco infeccioso aparente. Glicemia capilar de 438 mg/dL; gasometria venosa com pH 7,17, bicarbonato de 9 e pCO2 de 24; sódio 134, potássio 4,6, cloro 104, ureia 38 mg/dL, creatinina 1,0; cetonemia capilar de 4,8 mmol/L.
o que penso agora
É cetoacidose moderada: o pH de 7,17 está abaixo de 7,2 e o bicarbonato de 9, abaixo de 10. As contas fecham o resto: ânion gap de 21, sódio corrigido de 139, osmolalidade efetiva de 292 — não é estado hiperosmolar. Nenhum fator de risco de lesão cerebral: ele tem 15 anos, o pH não está abaixo de 7,1, a pCO2 de 24 não está abaixo de 21 e a ureia de 38 corresponde a nitrogênio ureico de 18, abaixo de 20. O leito é monitorizado, com equipe treinada, e não obrigatoriamente a terapia intensiva. A pergunta clínica que sobra é a mais importante: terceira cetoacidose em oito meses, sem infecção à vista, num adolescente que emagreceu, é insulina que não entrou até que se prove o contrário.
o que prescrevo na primeira hora
A perfusão está boa, e o bólus é o de 10 mL/kg: 580 mL de cloreto de sódio a 0,9% em 30 minutos. Depois, déficit presumido de 7% — 4.060 mL, menos o bólus, 3.480 mL em 48 horas, 72,5 mL/h — somado à manutenção de 2.260 mL por dia, 94 mL/h: cerca de 167 mL/h. Com uma hora de soro, insulina regular endovenosa; como o pH passa de 7,15, este caso usa a dose de 0,05 U/kg/h que o consenso admite, 2,9 UI/h, com a regra de subir para 0,1 se a cetonemia não cair cerca de 0,5 mmol/L por hora. O potássio de 4,6 entra no soro a 40 mEq/L junto com a insulina — 6,7 mEq/h a 167 mL/h, longe do teto de 29 mEq/h. Glicose no soro quando a glicemia chegar a 250 a 300.
o que pergunto ao pai, e o que o glicosímetro responde
Quem aplica, a que horas foi a última NPH, onde fica a insulina, quantas glicemias Kauê mede por dia. Claudinei diz que o filho é responsável e aplica sozinho desde os 13. A memória do glicosímetro, que o pai trouxe na mochila, conta outra história: seis medidas em trinta dias, nenhuma no fim de semana. As canetas estão na mochila, com a de NPH quase cheia. A anamnese do adolescente com cetoacidose recorrente não é interrogatório nem acusação na frente do pai: é a coleta dos dados que vão permitir a conversa seguinte, e ela precisa acontecer sem ele.
a conversa a sós, com o sigilo e os limites ditos antes
Com o pai fora da sala, você começa pelo combinado: o que Kauê contar fica entre vocês, com uma exceção dita antes de qualquer pergunta — se houver risco sério para a vida dele, isso será compartilhado com o pai, e ele participa de como contar. A doutrina do sigilo do adolescente e das portas por onde ele cede está no capítulo Quatro princípios e nenhum árbitro, da apostila de Medicina Legal e Bioética. Com perguntas abertas, ele conta: não aplica o análogo na escola por vergonha, pulou a NPH no sábado e no domingo, bebeu cerveja na festa e percebeu, há meses, que emagrece quando fica sem insulina — e quer secar para o campeonato de futebol. Você pergunta diretamente sobre tristeza e sobre vontade de morrer; ele nega ideação e fala em cansaço de ser diferente.
o que o relato muda no diagnóstico
Omissão deliberada de insulina para perder peso é o que a diretriz brasileira de dias de doença descreve como transtorno alimentar com suspensão voluntária da insulina, e três cetoacidoses em oito meses são o risco sério que abre a exceção do sigilo. Você explica isso a Kauê, e os dois combinam o que o pai vai ouvir: que houve doses puladas, que ele precisa de ajuda especializada e de apoio em casa — sem expor a cerveja nem a vergonha na escola, que não mudam a conduta de hoje. O reconhecimento, a gravidade e o encaminhamento dos transtornos alimentares estão no capítulo O corpo conta primeiro, da apostila de Psiquiatria; o cuidado com a hipoglicemia tardia depois de bebida alcoólica está no capítulo Quem fabrica a insulina agora é ele, e vale para ele igual.
o que muda na insulina
Não é a dose. Com 1,07 unidade por quilo por dia, Kauê está dentro da faixa de 1,0 a 2,0 do púbere; subir a dose por causa da hemoglobina glicada de 11,4% num adolescente que não aplica é preparar a hipoglicemia do dia em que ele aplicar tudo. O que muda é quem segura a basal: a NPH da noite passa a ser aplicada com o pai por perto, por acordo feito com Kauê, e o análogo do almoço pode ir logo depois de comer, como o protocolo federal permite, em vez de antes, na frente dos colegas. O acesso ao análogo está em jogo: os critérios de manutenção pedem automonitorização, acompanhamento e metas ou melhora, e o protocolo manda, antes de interromper o análogo, reforçar as medidas de adesão e registrá-las no prontuário. É o que se faz hoje.
o que vai por escrito na alta
Doses mantidas, com a NPH noturna supervisionada; glicemia capilar antes do café, do almoço e do jantar e na hora de dormir, com o glicosímetro revisado no retorno; plano de dia de doença com a regra de nunca suspender a basal e os motivos para voltar ao pronto-socorro; hipoglicemia tratada com 15 a 20 gramas de carboidrato simples, que é a metade de cima da faixa do caderno de atenção básica para um adolescente de 58 quilos; retorno com a endocrinologia pediátrica em uma semana, com a psicologia e com a equipe de saúde mental. O protocolo federal pede avaliação psicológica quando há cetoacidose ou dificuldade de controle, e Kauê tem as duas.
o que eu anoto
Cetoacidose moderada sem fator de risco de lesão cerebral; terceira em oito meses; omissão de insulina relatada pelo adolescente em conversa a sós, com suspeita de transtorno alimentar e ideação suicida negada; limites do sigilo explicados antes da conversa e informação compartilhada com o pai nos termos combinados com Kauê; medidas de adesão reforçadas e registradas, como exige o protocolo antes de qualquer decisão sobre o análogo; encaminhamentos feitos e datas de retorno. Esse registro é o que a próxima equipe vai ler às 6h de outra segunda-feira, se ela vier.
Faça você
Yasmin tem 5 anos, 18 quilos e diabetes tipo 1 há um ano. Usa insulina NPH, 3 unidades às 7h e 2 às 21h, e insulina regular, 2 unidades antes do café, 2 antes do almoço e 1 antes do jantar: 10 unidades por dia. Chega à unidade básica às 10h de uma quinta-feira com a mãe, Jaqueline. Desde a madrugada teve três episódios de vômito, o último às 9h, e duas evacuações amolecidas. Como a filha recusou o café da manhã, Jaqueline não aplicou nem a NPH nem a regular das 7h, com medo de o açúcar baixar. Yasmin está acordada e chorosa, com mucosas levemente secas, enchimento capilar de 2 segundos, respiração tranquila e frequência cardíaca de 120. A glicemia capilar é de 128 mg/dL, e a fita de urina marca cetona com duas cruzes. Ela aceita pequenos goles de água. A unidade não tem aparelho de cetonemia, não coleta gasometria e não tem acesso venoso para hidratação.
decida o que fazer agora com a NPH que não foi aplicada e o que oferecer à criança
Explique por que Yasmin precisa continuar recebendo insulina, quais dados faltam para definir a NPH atrasada e por que o horário da dose importa. Diferencie insulina da refeição de correção da cetose; proponha o líquido a oferecer conforme tolerância e glicemia.
decida para onde Yasmin vai e o que segue por escrito
Decida entre casa, observação na unidade e pronto-socorro, com o critério que decide; escreva o que acompanha a criança e o que a mãe precisa saber no caminho.
Ver como fecharíamos
Yasmin tem vômitos recorrentes, cetonúria moderada e sinais de desidratação numa unidade sem recursos para excluir ou tratar cetoacidose. A glicemia de 128 mg/dL não permite concluir que o quadro é leve. A conduta prioritária é encaminhamento imediato ao pronto-socorro, com contato entre as equipes e transporte compatível com o estado clínico. Enquanto se organiza a saída, oferecer pequenos goles de líquido com carboidrato, se estiver alerta e conseguir engolir, e acompanhar a glicemia; nada disso deve atrasar a transferência. Ela precisa de cobertura de insulina, mas “manter a basal” não autoriza aplicar automaticamente às 10h a dose programada para as 7h sem considerar a evolução. Conferir última NPH da noite, últimas glicemias, doses realmente administradas, ingestão, capacidade de monitorização e tempo até o atendimento. O médico responsável define, em contato com a equipe de diabetes ou de destino, a dose e o horário da NPH atrasada e como compatibilizá-la com a próxima dose. Os 3 UI da receita são o ponto de partida da avaliação, não uma ordem invariável. Não há uma regra de que toda glicemia acima de 90 proíba reduzir uma dose. A regular prevista para o café depende da refeição; eventual insulina necessária para corrigir cetose tem indicação própria e pode exigir glicose intravenosa em ambiente monitorado. Enviar o esquema habitual completo, horários e doses recebidas ou omitidas, glicemia e cetonúria com horário, sinais vitais, episódios de vômito e tolerância aos líquidos. Documentar a orientação e qualquer insulina aplicada antes da transferência para evitar duplicação no destino. A família recebe uma explicação sem culpa: omitir insulina pode agravar cetose, mas acertar o próximo passo exige olhar a criança e seu histórico de doses, não apenas repetir a prescrição habitual.
Vômito com dor abdominal sem diarreia e respiração rápida com pulmão limpo é a combinação em que o consenso pediátrico internacional manda medir a glicemia capilar, e a enurese recente reforça a suspeita de diabetes aberto em cetoacidose. O exame custa um minuto e decide o resto: com glicemia acima de 200 mg/dL, a criança segue para gasometria, eletrólitos e volume endovenoso, e a insulina só entra depois do soro e do potássio conhecido.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Sem consultar o capítulo, responda em voz alta: (1) em que criança que vomita ou respira rápido a glicemia capilar é obrigatória, e antes de quê; (2) os três critérios de cetoacidose e os cortes de pH e de bicarbonato das classes leve, moderada e grave; (3) os quatro fatores de risco de lesão cerebral, com o corte traduzido para a ureia do laudo brasileiro; (4) para uma criança de 30 kg com perfusão ruim, o bólus, o déficit presumido, a manutenção de Holliday–Segar, a vazão total, o potássio em mililitros de cloreto de potássio a 19,1% e a insulina em unidades por hora; (5) o que fazer quando a glicemia chega a 280 mg/dL com pH de 7,15.
Em 30 dias
Pratique duas passagens de cuidado. Na primeira, uma criança de 18 kg em tratamento hospitalar desenvolve cefaleia e bradicardia: reconheça a mudança, calcule a terapia hiperosmolar, diga a quem avisar e como reavaliar sem esperar tomografia. Na segunda, a família telefona durante uma gastroenterite: pergunte glicemia, cetonas, ingestão, última dose e capacidade de monitorização; explique por que a cobertura basal continua e por que a dose pode mudar. Escreva os critérios de atendimento imediato. Termine simulando a alta com aplicação demonstrada, plano de hipoglicemia, escola e retorno marcado.
Agora atenda
Agora atenda: menino de 6 anos e 20 quilos, trazido pela mãe à unidade de pronto atendimento com vômitos há dois dias, dor abdominal e respiração rápida, sem diarreia; nas últimas semanas voltou a molhar a cama e está bebendo muita água.
