Pediatria › Endocrinologia Pediátrica
O pezinho voltou alterado
Hipotireoidismo congênito: rastreio e tratamento
Do teste do pezinho alterado à confirmação, ao início oportuno da levotiroxina e ao acompanhamento do desenvolvimento: dose pelo peso, administração demonstrada pela família e interpretação conjunta de TSH e tiroxina livre.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Portaria Conjunta nº 05, de 16 de abril de 2021. Aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Hipotireoidismo Congênito. Brasília: Ministério da Saúde, 2021 (Relatório de Recomendação Conitec nº 586).
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Especializada e Temática. Triagem neonatal biológica: manual técnico. 1. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2016. ISBN 978-85-334-2407-4.
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. ISBN 978-65-5993-710-3.
Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento Científico de Endocrinologia. Hipotireoidismo congênito: triagem neonatal. Documento Científico nº 5. Rio de Janeiro: SBP, novembro de 2018.
Maciel LMZ, Kimura ET, Nogueira CR, Mazeto GMFS, Magalhães PKR, Nascimento ML, Nesi-França S, Vieira SE. Hipotireoidismo congênito: recomendações do Departamento de Tireoide da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. Arq Bras Endocrinol Metab. 2013;57(3):184-92.
van Trotsenburg P, Stoupa A, Léger J, Rohrer T, Peters C, Fugazzola L, et al. Congenital hypothyroidism: a 2020-2021 consensus guidelines update — an ENDO-European Reference Network initiative endorsed by the European Society for Pediatric Endocrinology and the European Society for Endocrinology. Thyroid. 2021;31(3):387-419. doi:10.1089/thy.2020.0333.
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Recém-nascida de 18 dias, a termo, é trazida ao ambulatório com a carta do laboratório de triagem neonatal: TSH de 70 mUI/L no papel-filtro, colhido no quarto dia. Mama pouco, dorme muito, ainda está ictérica e tem uma pequena hérnia umbilical. O laboratório do hospital devolve TSH e tiroxina livre séricos em três dias úteis, e a consulta de endocrinologia pediátrica está marcada para daqui a quatro dias. Qual é a conduta mais adequada nesta consulta?
O paciente que você vai ver
Segunda-feira, oito e meia da manhã, ambulatório de pediatria de um hospital universitário que é a referência regional em triagem neonatal. A primeira ficha do dia não tem queixa escrita, tem um papel grampeado: a carta de convocação do laboratório estadual. Lívia Camboim, 17 dias, nasceu de parto normal com 39 semanas e 3.300 gramas, teve alta com 48 horas e colheu o teste do pezinho no quarto dia, na unidade básica do bairro. O resultado chegou à unidade na sexta-feira à tarde com a palavra que o laboratório reserva para poucos casos: hormônio tireoestimulante no papel-filtro de 86 mUI/L, convocar com urgência.
Ninguém atendeu o telefone da família na sexta. No sábado de manhã, a agente comunitária de saúde, Ordália, foi até a casa com a carta na mão, e hoje a mãe, Daiane, 22 anos, primeira filha, está sentada à sua frente com a bebê enrolada numa manta, apesar do calor. Ela conta o que ninguém tinha perguntado: a menina dorme quase o dia inteiro, precisa ser acordada para mamar, mama devagar e cansa no meio da mamada; ainda está amarela, e o cocô sai a cada três dias. No domingo alguém da família disse que era assim mesmo, que bebê quieto é bebê bom.
Você despe a criança na maca. Pesa 3.450 gramas, a temperatura axilar é de 36,1 °C, a icterícia desce até o abdome. A fontanela posterior está maior do que se espera nessa idade; há uma pequena hérnia umbilical; o tônus é um pouco mole e o choro, quando vem, é rouco e curto. Nada disso, sozinho, faria alguém pedir exame. Junto com a carta, cada achado passa a ter nome.
O preceptor lê a carta, olha a data de nascimento e faz duas perguntas. A primeira: quantos dias ela tem? A segunda: o que você vai fazer antes de ela sair desta sala? A enfermeira avisa, do corredor, que a primeira vaga do ambulatório de endocrinologia pediátrica é na quinta-feira e que o laboratório do hospital devolve TSH e T4 livre em dois ou três dias úteis. Daiane pergunta o que parece mais sensato do mundo: se pode voltar na quinta, quando tiver o exame e o especialista.
A conta é curta e é sua. Os protocolos brasileiros querem o tratamento começado idealmente nos primeiros 14 dias de vida, e Lívia já passou do décimo sétimo. Esperar a quinta-feira são mais três dias; esperar o laudo e depois uma receita pode ser uma semana. Do outro lado, você nunca prescreveu levotiroxina para uma criança de 3 quilos, não sabe se o comprimido da farmácia serve para ela, não sabe se deve colher alguma coisa antes, e a mãe está com medo de uma palavra que ainda não foi dita.
Este capítulo é sobre essa manhã e sobre os três anos que ela decide: o que o resultado alterado do pezinho significa, o que se colhe e o que não se espera, a dose certa com o comprimido que a rede tem, como saber nas semanas seguintes que a dose está certa, e quando — e em quem — vale suspender o remédio para descobrir se a doença era para sempre.
Quem adoece disso
O hipotireoidismo congênito é a doença congênita mais comum do sistema endócrino e, segundo o protocolo federal de 2021, a principal causa de deficiência intelectual passível de prevenção. A incidência mundial do hipotireoidismo primário varia de 1 em 1.500 a 1 em 4.000 nascidos vivos, e os dados brasileiros citados pelo protocolo ficam entre 1 em 2.595 e 1 em 4.795. O documento científico da Sociedade Brasileira de Pediatria acrescenta que a doença acomete duas vezes mais meninas. Na ordem de grandeza de quase três milhões de nascimentos por ano que o manual técnico de triagem neonatal registra, a conta dá algo entre 600 e 1.150 crianças por ano no país — numa maternidade que faz três mil partos por ano, cerca de um caso por ano, quase nunca reconhecido pela aparência.
Cerca de 85% dos casos permanentes são disgenesias — a tireoide não se formou (agenesia), formou-se pequena (hipoplasia) ou não chegou ao lugar (ectopia) — e os outros 15% são disormonogêneses, glândulas no lugar que não conseguem fabricar hormônio por defeito enzimático herdado. O hipotireoidismo central, por falta de hormônio tireoestimulante, é raro: o protocolo estima entre 1 em 25.000 e 1 em 100.000 nascidos vivos no Brasil, quase sempre com outros déficits da hipófise. Há ainda as formas transitórias, por antitireoidiano ou anticorpo da mãe, por excesso ou falta de iodo e pela imaturidade do prematuro. Separar transitório de permanente ao nascer é mais difícil do que parece: numa série citada pelo consenso da Sociedade Brasileira de Endocrinologia, 47% das crianças que pareciam ter a forma transitória revelaram-se permanentes aos três anos.
O custo de não tratar a tempo tem número. O manual técnico do Ministério resume estudos em que, sem tratamento precoce, 40% das pessoas afetadas tinham quociente de inteligência abaixo de 70 e 19% abaixo de 55, com média em torno de 80; com tratamento tardio muito do prejuízo se recupera, mas não o nível normal. O documento da SBP lista o que a falta do hormônio produz além da deficiência intelectual: falência do crescimento, ataxia, incoordenação, estrabismo, movimentos coreiformes e perda auditiva neurossensorial. Com triagem e tratamento nas primeiras semanas, o quociente de inteligência costuma ser normal, e o que sobra, em algumas crianças, são déficits seletivos de linguagem, habilidade visuoespacial e motora.
A doença não se deixa ver na hora em que ainda dá tempo. O protocolo registra que só 5% das crianças são diagnosticadas clinicamente no período neonatal, e o consenso da SBEM, que mais de 95% nascem com poucas ou nenhuma manifestação. Por isso o diagnóstico brasileiro é, na prática, o resultado do teste do pezinho. E mesmo ele deixa passar alguns: o documento da SBP estima em cerca de 5% os casos com elevação tardia do hormônio tireoestimulante que a triagem não identifica, e o manual técnico fala em até 10% não detectáveis antes de 2 a 6 semanas de vida. Por qualquer dos dois números, pezinho normal não fecha a questão diante de uma criança com sinais.
Duas frequências mudam o que o interno examina. Cerca de 10% das crianças com hipotireoidismo congênito têm outra anomalia congênita, contra 3% da população geral, e as cardíacas são as mais comuns — estenose pulmonar e defeitos de septo atrial ou ventricular; e até 20% têm algum problema auditivo, razão pela qual toda criança afetada precisa do resultado da triagem auditiva. O protocolo acrescenta que a taxa da doença é maior em recém-nascidos pré-termo e de baixo peso, justamente os que mais escapam do teste feito uma vez só.
Por que acontece o que acontece
O feto sem tireoide nasce com cara de saudável por dois motivos que a SBP descreve. A tiroxina da mãe atravessa a placenta e chega à circulação fetal, e o cérebro aumenta a atividade da desiodase que converte tiroxina em triiodotironina dentro do próprio tecido nervoso, protegendo a si mesmo à custa de outras estruturas. O esqueleto é quem paga: a maturação óssea atrasa, e a ausência da epífise femoral distal numa radiografia simples de joelho ao nascer é um marcador de hipotireoidismo intrauterino e de gravidade. A proteção dura o tempo que o hormônio materno leva para sair do sangue da criança — dias.
Depois disso começa a janela que dá nome ao capítulo. O documento da SBP situa o período crítico de dependência do sistema nervoso central do hormônio tireoidiano da vida fetal até os dois anos; o consenso da SBEM fala nos dois a três primeiros anos. Dentro dela, a margem de tempo é curta: a partir da segunda semana de vida, nas formas graves como a agenesia e a disormonogênese grave, já pode haver dano cerebral. É desse número que sai a meta dos três documentos brasileiros — tratamento começado idealmente até o 14º dia de vida —, e é por isso que a criança da cena, no 17º dia, não tem uma semana para esperar laudo.
O teste do pezinho brasileiro mede o hormônio tireoestimulante, e não a tiroxina, porque o TSH isolado é mais específico e pega as formas leves que a dosagem inicial de tiroxina deixaria passar — ao preço, como se verá, de não enxergar o hipotireoidismo central. Mas o próprio parto provoca um pico fisiológico de TSH nas primeiras horas, e a tiroxina materna ainda circula nos primeiros dias; por isso o protocolo quer a amostra depois de 48 horas e até o quinto dia, e avisa que a coleta antes de 48 horas enche o sistema de falsos positivos. Na primeira ou segunda semana, o limite superior do TSH já caiu para perto de 10 mUI/L, e a confirmação venosa se lê contra as faixas de 4 a 30 dias, não contra as do adulto nem contra as do primeiro dia.
A mesma lógica explica as falhas previsíveis. A triagem por TSH só enxerga a falha da glândula; o hipotireoidismo central, em que a hipófise não produz o estímulo, passa com TSH baixo ou normal. No prematuro, o eixo hipotálamo-hipófise-tireoide é imaturo: o pico neonatal é atenuado e a elevação do TSH pode aparecer só entre a segunda e a sexta semana. Dopamina e glicocorticoides suprimem o TSH e produzem resultado falsamente normal enquanto são usados; o iodo de antisséptico ou de outros preparados iodados bloqueia a glândula e produz hipotireoidismo transitório com TSH alto, que some em semanas depois que a exposição termina. Quem recebe um TSH normal de uma criança internada em uso de dopamina não recebeu uma exclusão — recebeu um exame que ainda precisa ser repetido.
Por que a glândula falha define quem vai precisar do remédio para sempre. Na disgenesia, a tireoide não existe, é pequena ou está fora da loja cervical, e não há o que recuperar. Na disormonogênese, a glândula está no lugar, às vezes aumentada, mas uma enzima da síntese falha; a herança costuma ser recessiva. No central, fatores de transcrição da hipófise falham e outros eixos costumam cair junto. Nas formas transitórias, algo de fora bloqueia uma glândula normal: o antitireoidiano que a mãe tomou, que sai em dias; o anticorpo materno bloqueador do receptor de TSH, que o consenso da SBEM diz persistir em geral de um a três meses; o excesso ou a falta de iodo; e causas raras como hemangiomas hepáticos grandes, que aumentam a desiodase que inativa o hormônio.

O remédio é a tiroxina, e não a triiodotironina, pela mesma razão que protegeu o feto: a maior parte do T3 dentro do sistema nervoso central vem da conversão local de T4. A levotiroxina tem boa absorção oral e meia-vida de cerca de sete dias, e por isso vai em dose única diária. Com a dose inicial de 10 a 15 mcg/kg, o consenso da SBEM descreve a tiroxina livre normalizando em cerca de três dias e o TSH em duas a quatro semanas; o documento da SBP acrescenta que em cerca de 10% das crianças com TSH inicial muito alto ele demora mais para cair, possivelmente por uma regulação do eixo que ficou ajustada para cima. A consequência prática é que, nas primeiras semanas, quem guia a dose é a tiroxina livre. A farmacologia que não muda com a idade está em Quem pediu este TSH, na apostila de Endocrinologia.
Há dois jeitos de errar a dose, e os dois deixam marca. A subdose prolongada no primeiro ano custa desenvolvimento. O excesso prolongado, dizem a SBEM e a SBP, pode levar a craniossinostose e a alterações de temperamento, e as séries resumidas pela SBP mostram que crianças tratadas com doses mais altas se saem melhor em testes de inteligência, habilidade verbal e memória, mas têm mais problemas de comportamento. É por isso que a meta não é um número qualquer dentro da referência: a tiroxina livre é mantida na parte alta da faixa e o TSH dentro da faixa normal, com exames frequentes justamente quando a criança cresce mais depressa e a dose por quilo cai sozinha.
Por fim, a razão de esperar até os três anos para testar quem talvez não precise do remédio. Suspender a levotiroxina por um mês numa criança de oito meses significa um mês de cérebro sem hormônio dentro da janela crítica; aos três anos, o mesmo mês custa pouco e responde a pergunta de forma definitiva. Enquanto isso, a própria evolução dá pistas: a glândula tópica e normal na ultrassonografia, a dose que nunca precisou subir e o quadro inicial duvidoso apontam para a forma transitória; a glândula ausente ou ectópica dispensa o teste.
Como se apresenta de verdade
O hipotireoidismo congênito chega ao interno por duas portas. A primeira, a de quase todas as crianças, é a carta do laboratório de triagem neonatal com um hormônio tireoestimulante acima do corte. A segunda, mais rara e mais perigosa, é a criança com sinais — icterícia que não passa, sonolência, constipação — cujo pezinho foi normal, não foi colhido ou foi colhido cedo demais. Em qualquer das duas, o que se vê no exame físico ajuda pouco a decidir e muito a convencer a família.
A fronteira com os capítulos vizinhos fica assim. A coleta do teste do pezinho, a janela do terceiro ao quinto dia e as outras doenças triadas são de As cinco triagens neonatais, em Puericultura e Desenvolvimento, que também é dona do resultado alterado como achado; a confirmação, o tratamento e o seguimento do hipotireoidismo congênito são deste capítulo. A investigação da icterícia prolongada é de A hora antes da cor, em Neonatologia, que assume a obrigação de ir buscar o resultado do pezinho quando a icterícia passa de duas semanas. O hipotireoidismo do adulto está em Quem pediu este TSH, em Endocrinologia, e a doença da tireoide da gestante, em O laboratório não sabe que ela está grávida, em Obstetrícia. Os marcos do desenvolvimento são de O marco que ela tinha e perdeu, e as curvas de crescimento, de A linha, não o ponto, ambos em Puericultura e Desenvolvimento; a constipação com retardo de mecônio e a doença de Hirschsprung são de A cor do vômito e a fralda que não sujou, em Cirurgia Pediátrica; e a deficiência de iodo na criança, de Três camadas, uma criança, em Nutrologia Pediátrica.
A carta do laboratório: quase sempre uma criança que parece normal
O consenso da SBEM resume o que o interno vai ver em quase todas as convocações: mais de 95% das crianças com hipotireoidismo congênito têm poucas ou nenhuma manifestação ao nascer. A carta chega, a família é localizada pelo ponto de coleta — o manual técnico manda contatar a família assim que o laboratório comunica o resultado e fazer busca ativa dos convocados —, e a criança que entra no consultório mama, ganha peso e parece igual às outras. O erro natural é ler a normalidade do exame como sinal de resultado errado. Ela não informa nada: é exatamente o que a doença faz nas primeiras semanas.
Mesmo assim, examine com a lista na mão, por três razões. Os sinais discretos, quando existem, sustentam a urgência diante de uma família que acha que o bebê está bem. Uma criança com sinais já instalados provavelmente tem a forma mais grave, e isso pesa na dose. E cerca de uma em cada dez tem outra malformação associada, que só aparece para quem ausculta o coração e olha o palato — o documento da SBP registra as cardíacas como as mais comuns e fenda palatina entre as associações conhecidas.
Anote também o que a carta não diz e a família sabe: com quantos dias o pezinho foi colhido, se a criança nasceu pré-termo, se ficou internada, se recebeu transfusão, dopamina ou corticoide, se a pele foi limpa com antisséptico iodado, se a mãe tem doença da tireoide e o que tomou na gestação, se há irmão tratado de hipotireoidismo na infância. Cada uma dessas respostas muda a leitura do número, como mostram as seções seguintes.
Os sinais que se acham quando se procura
O documento da SBP manda considerar o diagnóstico em qualquer lactente com icterícia prolongada, hipotermia transitória, fontanela posterior aumentada, dificuldade de sucção ou dificuldade respiratória às mamadas. O protocolo federal registra a icterícia neonatal prolongada como um dos primeiros sinais e descreve o que se instala quando o tempo passa sem diagnóstico: criança letárgica, choro rouco, engasgos frequentes, constipação, macroglossia, hérnia umbilical, fontanela ampla, hipotonia, movimentos lentos e pele seca.
O tempo dos sinais importa. Segundo a SBP, a maior parte deles está presente entre 6 e 12 semanas de vida — letargia, obstipação intestinal e hérnia umbilical são os mais citados — e a fácies típica e o atraso de crescimento ficam evidentes só depois dos primeiros meses. O manual técnico acrescenta à lista dificuldade respiratória, cianose, bradicardia, anemia, livedo reticular, mixedema, sopro cardíaco, dificuldade de alimentação com ganho de peso ruim e atraso da dentição. Ou seja: quando o quadro é bonito de livro, o prazo de proteger o cérebro já passou.
O bócio é raro. O protocolo lembra que poucos recém-nascidos com disormonogênese nascem com a glândula aumentada; quando aparece, fala a favor de glândula no lugar com defeito de síntese, e não de disgenesia. Uma língua grande, uma hérnia umbilical e uma icterícia que não cede, juntas numa criança sonolenta de três semanas, pedem TSH e T4 livre no mesmo dia, com ou sem carta.
Pezinho normal e criança com sinais
O resultado normal do teste do pezinho não encerra a suspeita. O documento da SBP é direto: se a criança tem sintomas sugestivos, TSH e T4 devem ser dosados no soro mesmo com triagem normal, porque cerca de 5% dos casos têm elevação tardia do TSH que a triagem não identifica. A diretriz europeia de 2021 recomenda o mesmo diante da suspeita clínica e lembra o outro grupo que a triagem por TSH não vê: o hipotireoidismo central.
Pense em hipotireoidismo central quando a criança tem sinais de hipotireoidismo ou de hipopituitarismo congênito com TSH baixo, normal ou pouco elevado. A diretriz europeia lista os sinais que devem levar a exame endócrino: micropênis com testículos não descidos, hipoglicemia, icterícia prolongada e falha de crescimento sem explicação, além de história familiar de hipotireoidismo central. Esse recém-nascido não é tratado como o do pezinho alterado — a sequência dos hormônios muda, e a investigação mostra por quê.
Duas situações pedem uma segunda amostra mesmo sem sinal, pela diretriz europeia: gêmeos do mesmo sexo, porque o gêmeo afetado pode ter triagem inicial normal, e crianças com síndrome de Down, em quem se recomenda dosar TSH ao fim do período neonatal. A criança que nunca colheu o teste, ou colheu antes de 48 horas, não é assunto de sinal clínico: é coleta que falta, e a regra de quando e como refazer é de As cinco triagens neonatais.
O prematuro e o recém-nascido internado
O prematuro tem mais hipotireoidismo congênito e é mais difícil de diagnosticar. O protocolo federal registra as duas coisas: a taxa da doença é maior nos pré-termo e nos de baixo peso, e esses bebês costumam estar internados recebendo intervenções que alteram o exame. O eixo imaturo produz o padrão que engana nos dois sentidos — um TSH que ainda não subiu, que a diretriz europeia situa entre a segunda e a sexta semana de vida, e uma tiroxina baixa que pode ser só imaturidade.
Por isso a triagem do internado é seriada, e o protocolo manda repetir o exame com um mês de vida ou na alta hospitalar, o que ocorrer primeiro, ou fazer a triagem tripla no 5º, no 10º e no 30º dia. O esquema de amostras por peso e idade gestacional pertence a As cinco triagens neonatais; o que pertence a este capítulo é saber ler o resultado dessas amostras. Uma tiroxina baixa com TSH normal no prematuro ou no recém-nascido gravemente doente, dizem a SBEM e a SBP, não se trata com levotiroxina, a não ser que haja evidência de doença do hipotálamo ou da hipófise. Um TSH que sobe na terceira amostra se confirma no sangue venoso e se trata como qualquer hipotireoidismo primário, com dose pelo peso do dia.
Três exposições da UTI mudam o número. A dopamina suprime o TSH e produz resultado falsamente normal até a suspensão da droga; os corticoides suprimem TSH e tiroxina, com possibilidade de falso-negativo, por um tempo que o manual técnico estima entre uma e duas semanas; e o iodo de antissépticos ou preparados iodados produz hipotireoidismo transitório com TSH alto, que desaparece de duas a seis semanas depois do fim da exposição. A diretriz europeia recomenda evitar iodo como antisséptico no período perinatal justamente por isso.
O filho de mãe com doença da tireoide
O que a mãe tem ou tomou atravessa a placenta e aparece no pezinho. O manual técnico lista o propiltiouracil em uso pela mãe como causa de tiroxina baixa com TSH alto no recém-nascido — hipotireoidismo transitório que dura tipicamente de 7 a 14 dias, o tempo de eliminar o medicamento — e deixa claro que hipotireoidismo materno tratado e bem controlado não interfere na triagem. O consenso da SBEM acrescenta o anticorpo materno bloqueador do receptor de TSH, que costuma persistir de um a três meses, e manda pensar nele quando mais de um filho da mesma mãe teve hipotireoidismo transitório detectado pela triagem.
Nesses casos, anticorpo antiperoxidase e anticorpo antirreceptor de TSH podem explicar um TSH elevado em filho de mãe com tireoidite de Hashimoto ou doença de Graves, e a causa transitória não muda a regra da confirmação: TSH acima de 10 com tiroxina baixa no sangue venoso é tratado, porque o cérebro não sabe que o hormônio vai voltar, e o manual técnico pede acompanhar essas crianças até TSH e tiroxina normalizarem. A diferença aparece depois, na reavaliação. A amamentação continua: o protocolo e a SBP dizem que a mãe em uso de antitireoidiano pode amamentar, mesmo que o filho tenha hipotireoidismo.
A doença da gestante — o anticorpo antirreceptor medido no terceiro trimestre, a vigilância do feto, a escolha do antitireoidiano — é de O laboratório não sabe que ela está grávida, em Obstetrícia. A tireotoxicose do recém-nascido, que o mesmo anticorpo materno pode causar quando estimula em vez de bloquear, é outra doença, com outro tratamento, e não é ensinada neste capítulo; o recém-nascido de mãe com Graves e anticorpo alto sai da maternidade com a pediatria avisada, como aquele capítulo prescreve.
O atraso que se instala quando o comprimido atrasa
A criança tratada tarde conta a história da janela. O manual técnico descreve o que se ganha quando o tratamento começa depois de 30 dias de vida: melhora do desenvolvimento, recuperação do ritmo de ganho de peso e estatura, normalização da frequência cardíaca, do intestino, do sono e da pele — mas com parte do prejuízo intelectual que nunca volta ao nível normal. É esse o desfecho que um atraso de uma semana compra, e ele não aparece no dia da consulta: aparece na fala que não vem aos dois anos e no rendimento escolar.
Por isso toda consulta de seguimento é também uma consulta de puericultura. Peso, comprimento e perímetro cefálico entram na curva a cada visita, com a leitura de A linha, não o ponto; os marcos do desenvolvimento são conferidos pela régua de O marco que ela tinha e perdeu; e a triagem auditiva, que o consenso da SBEM recomenda para toda criança com hipotireoidismo congênito, precisa de resultado anotado, porque a SBP registra problema auditivo em até 20% delas e a diretriz europeia pede audiometria repetida antes da idade escolar. Uma criança tratada com dose certa e adesão boa, diz a SBP, cresce e entra na puberdade como as outras — o atraso, quando aparece, é sinal de que alguma coisa no tratamento falhou.
Como fechar o diagnóstico
A investigação do hipotireoidismo congênito tem uma ordem e uma regra. A ordem é ler o corte do laboratório, colher TSH e tiroxina livre venosos, interpretar pelo padrão entre os dois e só então procurar a causa. A regra atravessa os três documentos brasileiros e a diretriz europeia: nenhum exame de etiologia adia o comprimido. Ultrassonografia, cintilografia e tireoglobulina respondem por que a glândula falhou; o que decide o tratamento é o sangue da confirmação.
1. Ler a carta: o que o corte do laboratório quer dizer
O programa nacional padroniza o corte do TSH neonatal em 10 mUI/L, medido em sangue total seco no papel-filtro. O protocolo federal e a SBP descrevem três faixas: abaixo de 10, resultado normal e nenhum seguimento na criança a termo colhida depois de 48 horas; de 10 a 20, resultado limítrofe, e a criança é convocada para uma nova amostra do pezinho, que na maioria das vezes vem normal; acima de 20, resultado sugestivo, e a criança é convocada com urgência para consulta médica e dosagem venosa de TSH e tiroxina. A SBP registra que a maioria das crianças com TSH neonatal acima de 20 terá a doença.
Duas ressalvas mudam a leitura. A primeira é que alguns centros, no Brasil e fora dele, trabalham com cortes mais baixos — normal abaixo de 5, limítrofe de 6 a 10, sugestivo acima de 10 —, e o que vale para a sua criança é o corte e a orientação impressos no laudo do laboratório de referência do seu estado. A segunda é que o número do papel-filtro não se compara com as faixas de referência do soro: são matrizes diferentes, e o papel-filtro serve para separar quem precisa de sangue venoso de quem não precisa.
Diante de um resultado limítrofe, a tarefa do interno é garantir que a segunda amostra seja colhida logo, com data marcada, porque a nova coleta cabe ao fluxo do programa descrito em As cinco triagens neonatais. Diante de um resultado acima de 20, a tarefa é deste capítulo e começa no mesmo dia: consulta, sangue venoso e a decisão sobre o comprimido que os critérios e a conduta detalham. Um TSH do papel-filtro muito alto — a diretriz europeia usa 40 mUI/L como marca de hipotireoidismo primário moderado a grave — é o caso em que nenhuma espera se justifica.
2. Colher antes de dar: TSH e tiroxina livre venosos
O diagnóstico é dado pela dosagem venosa de TSH e de tiroxina livre ou total, feita com a maior brevidade possível, e os testes do pezinho não são diagnósticos — nisso protocolo, SBP e SBEM repetem a mesma frase. O sangue é colhido antes da primeira dose: a levotiroxina normaliza a tiroxina livre em cerca de três dias, e uma amostra colhida depois do comprimido já não mostra o ponto de partida. No pedido, escreva data e hora da coleta e que a criança ainda não recebeu levotiroxina.
A leitura usa as faixas da idade. Entre 4 e 30 dias de vida, os valores de referência do programa nacional reproduzidos pelo protocolo são TSH abaixo de 9 mUI/L, tiroxina livre de 0,8 a 2,3 ng/dL e tiroxina total de 7 a 16 µg/dL. TSH acima de 10 com tiroxina livre ou total baixa confirma o hipotireoidismo primário e indica o tratamento. Se o serviço dosa tiroxina total e não livre, tiroxina total baixa num menino de peso e aparência normais pede também tiroxina livre e globulina ligadora: a deficiência dessa globulina, ligada ao X, dá tiroxina total baixa com tiroxina livre normal e não se trata, lembra a SBP.
Quando o serviço dosa tireoglobulina, ela ajuda depois, na etiologia; quando não dosa, a falta dela não muda nada hoje. A radiografia simples de joelho, para ver se a epífise femoral distal está presente, é opcional e serve para estimar a gravidade da falta de hormônio ainda no útero — não para decidir se trata.
3. TSH alto com tiroxina livre normal
Este é o resultado que mais confunde e o que o protocolo federal não descreve: ele diz o que fazer com TSH acima de 10 e tiroxina baixa, e não diz o que fazer com TSH alto e tiroxina normal. A SBP e o consenso da SBEM cobrem só o começo da faixa: TSH confirmatório entre 6 e 10 com tiroxina normal pede nova dosagem em uma semana, e, se o TSH continuar discretamente elevado com cerca de um mês de vida, alguns pesquisadores sugerem tratar e reavaliar depois dos 3 anos.
A diretriz europeia de 2021 cobre o resto. Com TSH venoso acima de 20 mUI/L na confirmação, por volta da segunda semana de vida, trata-se mesmo com tiroxina livre normal — um limiar que ela mesma declara arbitrário, de opinião de especialistas. Com TSH entre 6 e 20 depois dos 21 dias de vida, numa criança saudável com tiroxina livre normal, ela aceita dois caminhos: tratar já e retestar sem remédio mais tarde, ou adiar e repetir em uma a duas semanas.
Como nenhum documento brasileiro fala de TSH venoso acima de 10 com tiroxina normal, esta apostila adota a régua europeia onde a brasileira silencia, e a brasileira onde ela existe. TSH venoso acima de 20: trata-se, com tiroxina livre normal ou baixa. Entre 10 e 20 com tiroxina livre normal: se a criança já recebeu a primeira dose na consulta da coleta, como manda a conduta deste capítulo, o comprimido é mantido e ela entra no grupo que será reavaliado depois dos 3 anos — o primeiro dos dois caminhos europeus —; se ainda não recebeu, repetem-se TSH e tiroxina livre em uma a duas semanas e trata-se se a tiroxina cair ou se o TSH seguir acima da referência com cerca de um mês de vida. De 6 a menos de 10: repete-se em uma semana, como mandam a SBP e a SBEM. A combinação é escolha desta apostila, e não de fonte alguma.
4. Tiroxina livre baixa com TSH normal ou baixo
Três causas produzem esse padrão, e uma delas é urgente. No prematuro e no recém-nascido gravemente doente, tiroxina baixa com TSH normal costuma ser imaturidade do eixo ou doença grave, e a SBEM e a SBP não recomendam tratar sem evidência de doença hipotálamo-hipofisária. Na deficiência da globulina ligadora, a tiroxina total é baixa e a livre é normal, e nada se trata. E no hipotireoidismo central a tiroxina livre é baixa com TSH baixo, normal ou pouco elevado — é o diagnóstico que a diretriz europeia manda considerar sempre que esse padrão aparece.
O central muda a sequência do tratamento. Como o hipotireoidismo central costuma vir com outros déficits da hipófise, a diretriz europeia recomenda começar a levotiroxina só depois de demonstrar função adrenal intacta e, se a insuficiência adrenal central não puder ser afastada, dar o glicocorticoide antes. O protocolo federal e a SBP fazem a mesma regra com prazo: havendo insuficiência adrenal ou deficiência de corticotrofina, a levotiroxina só começa de 3 a 5 dias depois do início do corticoide, para não precipitar uma crise adrenal. A tiroxina acelera o consumo de um cortisol que já falta.
Na prática do interno, o recém-nascido com tiroxina livre baixa e TSH que não acompanha, sobretudo se tem hipoglicemia, micropênis ou icterícia prolongada, não recebe levotiroxina na primeira consulta: colhe cortisol, é discutido no mesmo dia com a endocrinologia pediátrica e só começa a tiroxina na sequência que ela definir.
5. A causa: ultrassonografia primeiro, e nunca antes do comprimido
O protocolo federal manda começar a investigação etiológica pela ultrassonografia cervical, de preferência com Doppler, e complementar com cintilografia quando a ultrassonografia não bastar, com dosagem de tireoglobulina. Se esses exames não puderem ser feitos, o tratamento começa assim mesmo e a determinação da causa fica para depois dos 3 anos, quando a levotiroxina pode ser suspensa. A diretriz europeia é ainda mais explícita: recomenda fortemente começar a levotiroxina antes de qualquer exame de imagem da tireoide.
Cada exame responde uma pergunta diferente. A ultrassonografia vê se há glândula na loja cervical e de que tamanho, sem radiação e com custo menor; o consenso da SBEM registra, porém, que ela é pouco sensível para achar a glândula ectópica, embora o Doppler aumente essa sensibilidade. A cintilografia, com tecnécio ou iodo-123 em vez do iodo-131, pela menor irradiação, acha a ectópica com sensibilidade de 92% e especificidade de 97% na série citada pela SBEM, e pode mostrar bócio quando há defeito enzimático. A tireoglobulina junta as duas: sem glândula na loja e com tiroxina e tireoglobulina mensuráveis, há tecido funcionante em outro lugar; tireoglobulina muito baixa sem glândula fala a favor de atireose.
A cintilografia tem prazo. A diretriz europeia avisa que, feita além de 5 a 7 dias depois do início da levotiroxina, ela pode não captar mesmo com glândula presente, porque o TSH já foi suprimido — e o mesmo acontece depois de exposição a iodo e na presença de anticorpo materno bloqueador. Se ela não couber nessa semana, não se suspende o remédio para fazê-la: fica para a reavaliação, e a ultrassonografia responde o que for possível agora.
O padrão final orienta o futuro sem mudar a dose de hoje. Glândula ausente ou ectópica é disgenesia, e o tratamento é para a vida inteira sem necessidade de teste de suspensão. Glândula tópica, normal ou aumentada, com tireoglobulina normal ou alta, pode ser disormonogênese ou forma transitória, e é esse grupo que será reavaliado. Nos filhos de mãe com doença autoimune da tireoide, os anticorpos da criança ajudam a explicar o transitório; e, quando se suspeita de falta ou excesso de iodo, a iodúria confirma a exposição, diz a SBEM.
6. O que mais examinar e pedir
Toda criança com hipotireoidismo congênito precisa do resultado da triagem auditiva e de um exame físico dirigido a outras malformações — é a recomendação 4 do consenso da SBEM. A SBP reforça que não há consenso para exames de rastreio dessas malformações, e que o que decide é o exame cuidadoso: sopro, cianose ou alteração do palato levam a avaliação dirigida. Criança com fenda palatina ou com sintomas neurológicos persistentes, como ataxia, entra na lista de quem pode ter uma causa genética específica, segundo a SBP.
A diretriz europeia lista as situações em que se propõe aconselhamento genético à família de uma criança com hipotireoidismo congênito: surdez, sinais neurológicos como hipotonia, coreoatetose ou deficiência intelectual, doença pulmonar do recém-nascido, cardiopatia congênita, fenda palatina e malformação renal, além de consanguinidade e de familiares com a doença. Não é exame que o interno pede na primeira semana; é a razão para que essas informações fiquem anotadas no prontuário desde a primeira consulta, porque mudam o que se diz à família sobre os próximos filhos.
Os documentos brasileiros diagnosticam e acompanham o hipotireoidismo congênito primário pelo par TSH e tiroxina, sem T3 na rotina. O que acompanha a criança é esse par, colhido antes da dose do dia, no calendário que a reavaliação descreve.
Do laudo do pezinho ao comprimido, e do comprimido à reavaliação
Tudo o que decide a manhã da Lívia e os três anos seguintes cabe em quatro perguntas: o que o laudo do papel-filtro pede hoje; o que o laudo venoso faz com o comprimido que já foi dado; quanto comprimido para este peso, com o que a farmácia tem; e quem, depois dos 3 anos, pode tentar ficar sem ele. As réguas são o protocolo federal de 2021 e o documento da SBP de 2018, de onde vêm os cortes e as metas; a diretriz europeia de 2021 entra só onde os documentos brasileiros não falam, e cada uma dessas entradas vem marcada. Duas decisões são desta apostila e estão declaradas nas divergências: a primeira dose é dada na consulta em que se colhe o sangue venoso, e a meta de TSH é a do protocolo, de 0,4 a 4 mUI/L.
- 1Carta com TSH do papel-filtro acima de 20 mUI/L: a criança é vista no dia em que a família é localizada, sem fila e sem esperar a consulta especializada.
- 2Anamnese que muda a leitura do número — idade na coleta, prematuridade, internação, transfusão, dopamina, corticoide, antisséptico iodado, doença e remédios da mãe, irmão com hipotireoidismo — e exame com a lista de sinais e de malformações associadas.
- 3Sangue venoso para TSH e tiroxina livre antes de qualquer comprimido, com a hora da coleta e a anotação de que a levotiroxina ainda não foi dada.
- 4Primeira dose na mesma consulta: 10 a 15 mcg/kg, arredondada ao comprimido da Rename, triturada, misturada a pouca água ou leite materno e dada na colher na frente da família; perto do topo da faixa quando o TSH do papel-filtro passa de 40 ou há sinais.
- 5Laudo venoso: a tabela do laudo decide se o comprimido continua, se para e se a criança entra no grupo que será reavaliado.
- 6Tiroxina livre baixa com TSH baixo, normal ou inadequadamente pouco elevado: suspeitar de hipotireoidismo central, considerando doença grave e prematuridade. Acionar endocrinologia no mesmo dia e avaliar o eixo adrenal; quando necessário, assegurar cobertura com glicocorticoide antes de iniciar levotiroxina. Não transformar essa cautela em adiamento indefinido do tratamento.
- 7Ultrassonografia cervical nos dias seguintes, sem suspender o remédio; cintilografia só se couber nos primeiros 5 a 7 dias de tratamento, senão fica para a reavaliação.
- 8Controles de TSH e tiroxina livre com 2 e 4 semanas de tratamento; depois a cada 1 a 2 meses até os 6 meses, a cada 2 a 3 meses até os 3 anos e a cada 6 a 12 meses daí em diante; sempre 4 semanas depois de cada mudança de dose, com a coleta antes da dose do dia.
- 9A cada retorno, comparar TSH e tiroxina livre com a referência etária e o controle anterior, além do crescimento e desenvolvimento. Nos exemplos, usar as metas do protocolo brasileiro: tiroxina livre de 1,4 a 2,3 ng/dL e TSH de 0,4 a 4 mUI/L. Rever administração e interferentes antes de ajustar; não reduzir por uma tiroxina livre discretamente alta isolada com TSH normal.
- 10Depois dos 3 anos: suspensão só em quem preenche os critérios de forma transitória, com o calendário de TSH da tabela de reavaliação; disgenesia confirmada não suspende nunca.
O que cada laudo do papel-filtro pede no dia em que chega
| Laudo do papel-filtro | Leitura | O que o interno faz | Prazo que governa |
|---|---|---|---|
| TSH abaixo de 10 mUI/L, criança a termo colhida depois de 48 horas | Normal para o programa nacional | Nada pelo pezinho; se houver sinal clínico, TSH e tiroxina livre venosos mesmo assim | O do sinal clínico: no mesmo dia |
| TSH de 10 a 20 mUI/L | Limítrofe; a nova amostra costuma vir normal | Garantir a segunda coleta do pezinho com data marcada, pelo fluxo de As cinco triagens neonatais | Sem demora: a janela de tratar até o 14º dia continua correndo |
| TSH acima de 20 mUI/L | Sugestivo; a maioria dessas crianças tem a doença | Consulta no dia, sangue venoso e primeira dose de levotiroxina na mesma consulta | Tratamento idealmente até o 14º dia de vida |
| TSH de 40 mUI/L ou mais | Hipotireoidismo primário provavelmente moderado a grave, pela diretriz europeia | O mesmo da linha anterior, com dose perto do topo da faixa por quilo | Nenhuma espera se justifica |
| TSH normal em prematuro ou internado em uso de dopamina ou corticoide | Sem valor de exclusão: as duas drogas suprimem o TSH | Registrar a droga e garantir amostra depois da suspensão e a amostra tardia | Com um mês de vida ou na alta, o que vier primeiro |
| Qualquer resultado com antisséptico iodado recente | TSH alto pode ser bloqueio transitório pelo iodo | Tratar como qualquer TSH alto até a confirmação venosa e anotar a exposição para a reavaliação | O mesmo do TSH do laudo |
O laudo venoso decide se o comprimido já dado continua
| TSH venoso | Tiroxina livre | Leitura | Conduta | Quem sustenta |
|---|---|---|---|---|
| 10 mUI/L ou mais | Baixa (abaixo de 0,8 ng/dL) | Hipotireoidismo primário confirmado | Mantém a dose; controle com 2 semanas | Protocolo federal 2021, SBP 2018, SBEM 2013 |
| Acima de 20 mUI/L | Normal | Hipotireoidismo primário provável | Mantém; se a glândula for tópica, a criança entra no grupo da reavaliação | Diretriz europeia 2021, onde os brasileiros silenciam |
| De 10 a 20 mUI/L | Normal | Zona cinzenta | Com comprimido já começado: mantém e marca a reavaliação depois dos 3 anos. Sem comprimido: repete em 1 a 2 semanas e trata se a tiroxina cair ou o TSH seguir alto com cerca de 1 mês | Escolha desta apostila entre a diretriz europeia 2021 e a SBP 2018 |
| De 6 a menos de 10 mUI/L | Normal | Elevação discreta, muitas vezes transitória | Suspende e repete TSH e tiroxina livre em uma semana; trata se subir ou persistir com cerca de 1 mês | SBP 2018 e SBEM 2013 |
| Abaixo de 6 mUI/L | Normal | Falso-positivo da triagem | Suspende; volta à puericultura; sinal clínico novo pede nova dosagem | Protocolo federal 2021 (referência) e SBP 2018 |
| Baixo, normal ou pouco elevado | Baixa | Central, imaturidade do prematuro ou doença grave | Avaliação endocrinológica no mesmo dia. Na suspeita central, avaliar o eixo adrenal e, se não for possível afastar insuficiência adrenal, providenciar cobertura com glicocorticoide antes da levotiroxina. Hipotiroxinemia isolada da prematuridade exige contexto próprio, não tratamento automático. | Diretriz europeia 2021, protocolo federal 2021, SBEM 2013 |
Levotiroxina por quilo com os comprimidos da Rename (12,5; 25; 37,5; 50 e 100 mcg)
| Peso | Faixa de 10 a 15 mcg/kg | Comprimido que cabe | Dose por quilo resultante | O que a conta mostra |
|---|---|---|---|---|
| 1,5 kg | 15 a 22,5 mcg | Nenhum inteiro dentro da faixa | 12,5 mcg = 8,3; 25 mcg = 16,7 | Fração de comprimido ou dose do limite, decidida com a endocrinologia pediátrica; 37,5 mcg dariam 25 mcg/kg |
| 1,9 kg | 19 a 28,5 mcg | 25 mcg | 13,2 mcg/kg | 37,5 mcg, a dose média que o protocolo cita para o pré-termo, dariam 19,7 mcg/kg |
| 2,5 kg | 25 a 37,5 mcg | 25 ou 37,5 mcg | 10,0 ou 15,0 mcg/kg | É o peso em que 37,5 mcg encosta no teto de 15 |
| 3,0 kg | 30 a 45 mcg | 37,5 mcg | 12,5 mcg/kg | 50 mcg dariam 16,7 mcg/kg, só aceitável na forma grave |
| 3,45 kg | 34,5 a 51,8 mcg | 37,5 ou 50 mcg | 10,9 ou 14,5 mcg/kg | A dose da cena: 50 mcg, pelo TSH muito alto e pelos sinais |
| 4,0 kg | 40 a 60 mcg | 50 mcg | 12,5 mcg/kg | Com o ganho de peso a dose por quilo cai sozinha; quem manda ajustar é o exame |
Depois dos 3 anos: quem suspende o remédio e como ler
| Situação | Suspende? | Como fazer e ler |
|---|---|---|
| Glândula ausente ou ectópica na imagem | Não | Disgenesia: tratamento por toda a vida, com controles a cada 6 a 12 meses |
| Glândula tópica e normal à ultrassonografia, quadro inicial duvidoso ou dose que nunca precisou subir | Sim | Suspender; um mês depois, TSH, repetido mensalmente três vezes. Abaixo de 5 mUI/L nas três: transitório. Acima de 9,9: disormonogênese e o remédio volta. Entre 5 e 9,9: TSH mensal até definir |
| Nenhuma avaliação de causa feita até os 3 anos | Sim, por 30 dias | Tiroxina livre, TSH, tireoglobulina, cintilografia e ultrassonografia: normais, transitório; alterados, permanente e o remédio volta |
| Glândula tópica com dose que subiu no seguimento e sem outro critério de transitório | Não | O protocolo mantém o tratamento por toda a vida quando não há suspeita de forma transitória |
Da convocação ao primeiro controle: sequência da consulta
| Etapa | O que executar | O que deve ficar registrado |
|---|---|---|
| Comunicar | Confirmar a identificação e explicar que triagem alterada exige avaliação, mas ainda não define sozinha a causa. Combinar atendimento rápido e verificar como a família chegará. | Data da coleta, valor e referência do programa; idade atual; nome de quem recebeu a orientação. |
| Confirmar | Examinar, pesar e colher TSH e tiroxina livre venosos antes da primeira dose. Procurar prematuridade, exposição ao iodo e sinais de deficiência hipofisária. | Horário da coleta e informação explícita de que ela precedeu a levotiroxina. |
| Tratar no tempo necessário | Na apresentação de Lívia, começar após a coleta no mesmo turno. Nos resultados limítrofes, seguir o fluxo do serviço de triagem com retorno garantido. Ultrassonografia não condiciona o início. | Dose em mcg por dia, cálculo em mcg/kg/dia, apresentação e orientação do preceptor ou serviço de referência. |
| Demonstrar | O cuidador mostra como triturar e dar todo o comprimido em pequeno volume na colher. Verificar quem dará nos dias úteis e como obter a próxima caixa. | Plano escrito compreensível, sem colocar a dose numa mamadeira inteira. |
| Fechar o circuito | Designar profissional para conferir o resultado venoso e contatar a família. Agendar controles iniciais de duas e quatro semanas e vínculo com o serviço de triagem. | Data, local, responsável e forma de contato; retorno antecipado se houver problema com a administração ou sintomas. |
Retorno preenchido de Lívia: investigar resposta insuficiente antes de aumentar a dose
| Pergunta | Achado do caso | Consequência para o plano |
|---|---|---|
| Qual exame estamos interpretando? | TSH 11,4 mUI/L e tiroxina livre 1,1 ng/dL aos três meses. Conferir referência e horário da coleta. | Comparar os dois marcadores com o controle anterior e as metas, sem decidir por um número isolado. |
| Qual é a dose prescrita? | 50 mcg/dia; peso 5,4 kg; 50 ÷ 5,4 = 9,3 mcg/kg/dia. | A queda relativa com o crescimento é uma hipótese; a conta não mede absorção nem adesão. |
| Qual é a dose efetivamente recebida? | Comprimido na mamadeira de soja; sobras frequentes. | Demonstrar e observar a administração em pequeno volume na colher; manter rotina consistente e evitar interferentes. |
| Quem executará a mudança? | A avó durante o dia e a mãe nos demais períodos. | Ambas recebem o mesmo plano, com dose e modo de dar escritos; checar acesso ao medicamento. |
| Qual foi a decisão supervisionada? | Neste caso: 62,5 mcg/dia, por via oral, diariamente; cerca de 11,6 mcg/kg/dia. | Reavaliar o efeito conjunto da nova dose e da administração corrigida; não dobrar empiricamente. |
| Quando saberemos se funcionou? | TSH e tiroxina livre em quatro semanas, antes da dose do dia. | Se a resposta continuar inadequada, revisar exposição real e outras causas; sintomas de excesso ou piora clínica antecipam a avaliação. |
Dose média do pré-termo contra a dose por quilo da mesma frase. O item 8.2 do protocolo federal de 2021, copiando o Quadro 5 do documento da SBP de 2018, dá a dose-padrão de 10 a 15 mcg/kg (12 a 17 mcg/kg nas formas graves) e, na sequência, a dose média de 50 mcg/dia para o recém-nascido a termo e de 25 a 37,5 mcg/dia para o pré-termo. Conta: 25 mcg só cabem em 15 mcg/kg a partir de 1,67 kg, e 37,5 mcg só a partir de 2,5 kg; num pré-termo de 1,5 kg, 25 mcg são 16,7 mcg/kg e 37,5 mcg são 25 mcg/kg — 1,67 vez o teto de 15 e 1,47 vez o teto de 17 das formas graves. Os 50 mcg do a termo passam de 17 mcg/kg abaixo de 2,94 kg. Quem prescreve a média para o prematuro dá, em muitos pesos, dose de forma grave — ou acima dela — a uma criança que não tem forma grave. Esta apostila não usa a dose média: a dose sai do peso do dia, arredondada ao comprimido que a Rename tem.
Uma linha do manual técnico contra a linha de cima e contra o próprio texto. No manual de triagem neonatal biológica de 2016, o Quadro 4 diz que a dopamina dá teste falso-negativo para hipotireoidismo congênito, porque suprime o TSH, e que os corticoides suprimem TSH e tiroxina, com possibilidade de falso-negativo; o documento da SBP de 2018 diz o mesmo. Na página seguinte, a linha do hipotireoidismo congênito do Quadro 5 põe exposição ao iodo, dopamina e esteroides entre os falso-positivos, e dá como janela ideal da triagem de 12 a 72 horas — com coleta precoce listada, na mesma célula, como causa de falso-positivo, enquanto o texto do manual fixa o período ideal entre o 3º e o 5º dia. Conta do sentido: TSH suprimido pela droga cai abaixo do corte de 10 mUI/L, e o erro que isso produz é deixar passar o caso, não convocar à toa. Quem lê a linha errada aceita um pezinho normal de um prematuro em dopamina como tranquilizador; esta apostila segue o Quadro 4 e manda repetir depois da suspensão.
O mesmo TSH é normal numa régua e pede repetição na outra. O documento da SBP de 2018 dá como referência venosa entre 4 e 30 dias TSH abaixo de 9 mUI/L (Quadro 3, reproduzido no Quadro 2 do protocolo) e, no texto, manda seguir com nova dosagem em uma semana a criança com TSH confirmatório entre 6 e 10 e tiroxina normal. Conta: um TSH de 6,0 a 8,9 mUI/L com tiroxina livre normal é, pelo quadro, resultado normal que dispensa seguimento, e, pelo texto, resultado que obriga a repetir. Esta apostila adota a repetição, que é a leitura que não perde a criança cujo TSH ainda está subindo.
Duas publicações do Ministério em vigor dão idades diferentes para suspender o remédio e investigar a causa: 2 anos no manual técnico de 2016 e depois dos 3 anos no protocolo de 2021. A diferença é de um ano inteiro de tratamento, inteiro dentro da janela que o consenso da SBEM estende até os três anos. O desempate, a favor do protocolo, está nas divergências.
A conduta, hora a hora
O retorno de uma triagem alterada precisa terminar com um plano executado: família informada, sangue confirmatório colhido, decisão sobre tratamento registrada e responsável pelo próximo contato definido. Na primeira manhã, o objetivo é evitar atraso de reposição em quem precisa dela. Nas semanas seguintes, TSH, tiroxina livre, administração do comprimido e desenvolvimento mostram se esse plano está funcionando. O quadro de consulta abaixo reúne essa sequência; os marcos a aplicam à história de Lívia.
Lívia chega no 17º dia, com TSH muito elevado no papel-filtro e sinais clínicos. Nessa situação, colhem-se TSH e tiroxina livre venosos e inicia-se levotiroxina no mesmo atendimento, sem esperar o resultado ou a imagem. A dose é calculada com o peso atual e a apresentação disponível. O resultado venoso, identificado como anterior ao tratamento, será revisto assim que liberado; a família não fica responsável por interpretar sozinha o laudo ou decidir se continua o remédio.
O destino da criança também está escrito no protocolo: os Serviços de Referência em Triagem Neonatal são os responsáveis pela triagem, pelo tratamento e pelo acompanhamento do hipotireoidismo congênito, e é para eles que a unidade básica ou o ambulatório encaminham depois da primeira dose, não no lugar dela. A levotiroxina está no Componente Básico da Rename, e a família a retira na farmácia da rede, sem o trâmite do componente especializado. A portaria que aprova o protocolo torna obrigatório informar o responsável legal sobre riscos e efeitos adversos do tratamento, com o termo de esclarecimento que acompanha o documento; a conversa que ensina a dar o comprimido é o momento de cumprir essa obrigação.

Dia 17, 8h40 — a carta, a idade e a decisão de não esperar
Você junta o que tem: TSH de 86 mUI/L no papel-filtro, mais que o dobro de 40; 17 dias de vida, três depois do prazo ideal de 14; e uma criança com icterícia prolongada, sonolência, sucção fraca, hérnia umbilical e fontanela posterior aumentada. Qualquer um desses dados, sozinho, bastaria para não esperar a quinta-feira. Juntos, dizem também que a forma provavelmente é grave, e isso vai pesar na escolha dentro da faixa de dose. Você comunica ao preceptor a decisão e o motivo — colher e começar agora — e mantém a consulta de quinta-feira na endocrinologia pediátrica como retorno, não como início. Antes de pegar o tubo, faz as perguntas que mudam a leitura do número: nasceu a termo, não ficou internada, não recebeu transfusão nem droga, a pele não foi limpa com iodo, a mãe não tem doença da tireoide e não tomou remédio na gestação, não há irmãos.
Prescrição- Classificação registrada: TSH do papel-filtro 86 mUI/L (acima de 20 e de 40), 17 dias de vida, sinais clínicos presentes
- Anamnese dirigida registrada: a termo, sem internação, transfusão, dopamina, corticoide ou antisséptico iodado; mãe sem doença tireoidiana e sem medicação na gestação
- Decisão registrada: sangue venoso e primeira dose de levotiroxina nesta consulta
- Consulta da endocrinologia pediátrica de quinta-feira mantida como primeiro retorno
Dia 17, 9h — o sangue antes do comprimido
A coleta vem antes de qualquer dose, porque é ela que vai provar a doença e dar o ponto de partida para os ajustes. O pedido leva a hora e a informação de que a criança ainda não tomou levotiroxina; se o laboratório do hospital dosar tireoglobulina, ela entra no mesmo pedido e ajuda depois a interpretar a imagem. A icterícia de 17 dias tem a própria investigação, pela régua de A hora antes da cor, e a coleta aproveita a mesma punção. No exame, você ausculta o coração com calma e olha o palato, porque uma em cada dez crianças com a doença tem outra malformação, e descobre na caderneta que a triagem auditiva não foi feita na maternidade.
Prescrição- TSH e tiroxina livre séricos, coleta às 9h, com a anotação 'sem levotiroxina até a coleta'
- Tireoglobulina no mesmo pedido, se disponível no laboratório do hospital
- Bilirrubina total e frações pela icterícia prolongada, conforme A hora antes da cor
- Ausculta cardíaca e inspeção do palato registradas; triagem auditiva agendada, porque não consta na caderneta
Dia 17, 9h30 — a primeira dose na frente da mãe
A conta vai escrita na receita: 3,45 kg vezes 10 a 15 mcg/kg dá 34,5 a 51,8 mcg. O que a Rename põe na farmácia da rede, no Componente Básico, são comprimidos de 12,5, 25, 37,5, 50 e 100 mcg, e dois cabem na faixa: 37,5 mcg, que dá 10,9 mcg/kg, e 50 mcg, que dá 14,5 mcg/kg. Com TSH acima de 40 e sinais instalados, você escolhe o topo, 50 mcg; a escolha pela gravidade presumida, antes de conhecer a tiroxina livre, é leitura desta apostila sobre a regra do protocolo, que reserva as doses maiores às formas mais graves. Você tritura o comprimido, mistura com um pouco de leite que Daiane ordenha ali mesmo, e ela dá na colher, com a sua mão ajudando. Enquanto isso você explica o que fazer amanhã e depois, e ela sai com a caixa na mão e o horário escrito.
Prescrição- Levotiroxina sódica 50 mcg (14,5 mcg/kg para 3,45 kg): 1 comprimido por via oral, uma vez ao dia, sempre no mesmo horário
- Comprimido triturado, misturado a um pouco de leite materno ordenhado ou de água e dado com colher; nunca dissolvido na mamadeira
- Se vomitar logo depois da dose: repetir a mesma dose
- Não dar no mesmo horário leite de soja, suplemento de ferro ou de cálcio; aleitamento materno mantido
- Primeira dose administrada no consultório às 9h40; orientação por escrito e comprimidos retirados na farmácia antes da saída
- Contato telefônico da família confirmado; a equipe liga quando o laudo chegar
Dia 19 — o laudo chega
O laboratório libera TSH acima de 100 mUI/L, o limite do método, e tiroxina livre de 0,31 ng/dL. TSH acima de 10 com tiroxina livre abaixo de 0,8 é hipotireoidismo primário confirmado, e a tiroxina tão baixa confirma a forma grave que a dose já presumia. Nada muda na prescrição. Você liga para Daiane e pergunta o que importa: as doses de terça e quarta foram dadas, na colher, no mesmo horário? Foram. A ultrassonografia cervical é pedida para esta semana, e o pedido deixa claro que o remédio não deve ser suspenso para o exame.
Prescrição- Laudo: TSH acima de 100 mUI/L e tiroxina livre 0,31 ng/dL — hipotireoidismo congênito primário confirmado, forma grave
- Levotiroxina 50 mcg mantida
- Ultrassonografia cervical com Doppler solicitada, sem suspensão da levotiroxina
- Adesão e modo de administração conferidos por telefone
Dia 20, quinta-feira — a imagem e a causa
Na endocrinologia pediátrica, a ultrassonografia não mostra tireoide na loja cervical. A tireoglobulina colhida no primeiro dia é mensurável. O serviço tem medicina nuclear, e a cintilografia com tecnécio cabe no prazo — três dias depois da primeira dose, antes que a supressão do TSH apague a captação —: há captação no alto do pescoço, acima da posição habitual. É ectopia, uma disgenesia, e a pergunta do transitório ou permanente está respondida no primeiro mês: Lívia vai tomar levotiroxina pela vida inteira e não entra no grupo que suspende o remédio aos 3 anos. Se a cintilografia não coubesse nesses dias, ninguém suspenderia a levotiroxina para fazê-la.
Prescrição- Ultrassonografia: sem tireoide na loja cervical
- Cintilografia com tecnécio três dias após a primeira dose: captação em posição alta, compatível com ectopia
- Diagnóstico registrado: hipotireoidismo congênito primário por ectopia tireoidiana, permanente
- Sem teste de suspensão previsto; seguimento conjunto com a endocrinologia pediátrica
Dia 31 — duas semanas de tratamento
Daiane conta que Lívia acorda sozinha para mamar, mama mais, e o intestino funciona todo dia; a icterícia está sumindo. Peso de 3.720 gramas. O controle, colhido antes da dose do dia, mostra tiroxina livre de 2,1 ng/dL e TSH de 26 mUI/L. A tentação de ler o TSH acima de 4 como dose insuficiente é o erro deste marco: a tiroxina livre já está na meta, e o TSH normaliza em duas a quatro semanas — ou mais, nas crianças que começaram com TSH muito alto, como Lívia. A dose fica. A triagem auditiva agendada no primeiro dia foi feita e passou.
Prescrição- Controle antes da dose do dia: tiroxina livre 2,1 ng/dL e TSH 26 mUI/L
- Levotiroxina 50 mcg mantida: tiroxina livre na meta e TSH em queda no tempo esperado
- TSH e tiroxina livre com 4 semanas de tratamento
- Resultado da triagem auditiva anotado: passa
Dia 45 — quatro semanas, e o calendário
Tiroxina livre de 1,9 ng/dL e TSH de 2,8 mUI/L: as duas metas alcançadas. O peso chegou a 4.100 gramas, e os mesmos 50 mcg já são 12,2 mcg/kg; nada se ajusta pela conta enquanto os exames estiverem na meta. A partir daqui o calendário do protocolo organiza os três primeiros anos — exames a cada 1 a 2 meses até os 6 meses, a cada 2 a 3 meses até os 3 anos —, e cada retorno tem também curva de peso, comprimento e perímetro cefálico e marcos do desenvolvimento, porque é neles que uma dose errada aparece primeiro fora do laboratório.
Prescrição- Controle: tiroxina livre 1,9 ng/dL e TSH 2,8 mUI/L — dentro das metas
- Dose mantida em 50 mcg (12,2 mcg/kg para 4,1 kg)
- Próximo TSH e tiroxina livre com cerca de 2 meses e meio de vida
- Peso, comprimento, perímetro cefálico e marcos registrados na caderneta a cada consulta
3 meses — o TSH que voltou a subir
No retorno de três meses, Lívia pesa 5,4 kg: a prescrição de 50 mcg corresponde a 9,3 mcg/kg/dia, mas isso não informa quanto ela realmente recebe. TSH de 11,4 mUI/L e tiroxina livre de 1,1 ng/dL mostram resposta insuficiente para as metas usadas neste caso. Perguntada sem julgamento, a avó demonstra que mistura o comprimido numa mamadeira de fórmula de soja nem sempre terminada. Há perda de parte da dose e interferência na absorção. A equipe ensina a administração na colher, garante participação da avó e discute o ajuste com a endocrinologia. Neste caso, prescrevem-se 62,5 mcg/dia, com controle em quatro semanas e contato antecipado se aparecerem sinais de excesso. Corrigir a administração pode aumentar bastante a exposição: esse ajuste não é uma regra automática para todo TSH elevado, nem se faz apenas porque a dose por quilo caiu.
Prescrição- Controle: TSH 11,4 mUI/L e tiroxina livre 1,1 ng/dL, fora das metas
- Administração corrigida: pó do comprimido na colher com pouca água ou leite materno, antes da mamadeira e longe da fórmula de soja
- Levotiroxina 62,5 mcg (um comprimido de 50 mcg e um de 12,5 mcg, triturados juntos): 11,6 mcg/kg para 5,4 kg
- TSH e tiroxina livre em 4 semanas, antes da dose do dia
- Orientação por escrito entregue a quem dá o remédio durante o dia
Como saber se está funcionando
Reavaliar o hipotireoidismo congênito é colher TSH e tiroxina livre no calendário certo e ler os dois junto com a criança. O protocolo federal e a SBP fixam o calendário: com 2 e 4 semanas do início; entre 0 e 6 meses, a cada 1 a 2 meses; entre 6 meses e 3 anos, a cada 2 a 3 meses; depois dos 3 anos, a cada 6 a 12 meses; e sempre 4 semanas depois de cada mudança de dose, quando a regularidade for questionada ou quando um valor vier anormal. A coleta é feita antes da dose do dia ou, se ela já foi dada, pelo menos 4 horas depois.
As metas numéricas de 1,4 a 2,3 ng/dL para tiroxina livre e de 0,4 a 4 mUI/L para TSH são as referências do protocolo brasileiro usadas nos exemplos. Na prática, conferir a faixa do ensaio para a idade e interpretar a tendência: o consenso ENDO-ERN orienta TSH na referência etária e tiroxina livre na metade superior da faixa. Antes de modificar a receita, conferir coleta, dose efetivamente administrada, interferentes e crescimento. O controle programado após o ajuste costuma ocorrer em quatro a seis semanas; alteração clínica ou bioquímica relevante pode exigir avaliação mais cedo.
Depois dos 3 anos, os controles se espaçam para cada 6 a 12 meses até o fim do crescimento, e o consenso da SBEM pede acompanhamento até a idade adulta. Três situações pedem atenção a mais. A primeira é a mudança de comprimido: a diretriz europeia recomenda uma avaliação extra de quatro a seis semanas depois de qualquer mudança de dose ou de formulação e prefere comprimido de marca, e não genérico, nos lactentes e nas formas graves; quando a farmácia troca o fabricante, esta apostila antecipa o controle seguinte. A segunda é a disormonogênese, cuja glândula pode formar bócio e nódulos na infância e na adolescência — a mesma diretriz manda manter o TSH na parte baixa da faixa normal e acompanhar o volume com ultrassonografia periódica. A terceira é a adolescência, fase em que a diretriz aponta a falta de adesão como causa frequente de exames fora da meta, e a conversa sobre o comprimido passa a ser também com o próprio adolescente. Com dose certa e adesão, diz a SBP, crescimento e puberdade são essencialmente normais.
Esperado: Tiroxina livre na metade superior da referência para a idade e o método; os exemplos usam a meta de 1,4 a 2,3 ng/dL do protocolo brasileiro.
Se não melhora: Abaixo de 1,4: conferir coleta, modo de dar e regularidade; se estiverem certos, subir a dose e repetir em 4 semanas. Acima de 2,3 com TSH normal: não reduzir por um resultado isolado, como recomenda a diretriz europeia; acima com TSH suprimido ou com sinais de excesso: reduzir
Esperado: TSH dentro da referência etária; os exemplos usam 0,4 a 4 mUI/L. A queda do TSH pode ser mais lenta que a recuperação da tiroxina livre nas primeiras semanas.
Se não melhora: Alto na 2ª semana com tiroxina livre na meta: manter e repetir. Alto depois de 4 semanas: questionar subdose e irregularidade, como pede a SBP, e subir a dose. Abaixo de 0,4 com tiroxina livre alta: reduzir a dose
Esperado: Comprimido triturado, com pouca água ou leite materno, na colher, sempre no mesmo horário, fora da mamadeira e longe de soja, ferro e cálcio
Se não melhora: Observar uma administração e corrigir o problema com o cuidador. Discutir necessidade e magnitude de ajuste da dose considerando TSH, tiroxina livre e gravidade; prever maior absorção após a correção. Manter formulação confiável, sem substituição por solução manipulada de concentração incerta.
Esperado: Nenhuma semana com doses esquecidas; comprimidos retirados na farmácia antes de acabar
Se não melhora: Perguntar de modo aberto sobre esquecimentos, divisão do cuidado, acesso à farmácia, vômitos, interferentes e mudança de formulação. Persistindo alteração apesar de uso comprovado, discutir malabsorção e outras causas com a endocrinologia. Uma dificuldade de adesão exige ajuda concreta; não estabelece por si só negligência.
Esperado: Peso, comprimento e perímetro cefálico mantendo o canal da curva
Se não melhora: Desaceleração: rever dose e adesão antes de qualquer outra hipótese e ler a curva pela régua de A linha, não o ponto
Esperado: Marcos no tempo; triagem auditiva com resultado registrado
Se não melhora: Atraso: investigação e estimulação pela régua de O marco que ela tinha e perdeu, com revisão do histórico de doses e exames; falha auditiva: encaminhamento para avaliação audiológica
Esperado: Sem agitação com tremor e sem taquicardia
Se não melhora: Com tiroxina livre alta e TSH suprimido: reduzir a dose; lembrar que o excesso prolongado se associa a craniossinostose e a alterações de temperamento
Onde o erro machuca
O dano: Cada dia sem hormônio depois da segunda semana é tempo de cérebro perdido nas formas graves, e nenhum exame de causa muda a decisão de tratar.
Como pegar a tempo: Colher e dar na mesma consulta; a consulta especializada é retorno, a imagem vem depois e o laudo decide se o comprimido continua.
O dano: Num pré-termo de 1,9 kg, 37,5 mcg são 19,7 mcg/kg; num a termo de 2,6 kg, 50 mcg são 19,2 mcg/kg — acima até da faixa das formas graves, com o excesso prolongado associado a craniossinostose.
Como pegar a tempo: Escrever peso e conta na receita: mcg/kg primeiro, comprimido da Rename depois, e a dose final em mcg/kg ao lado.
O dano: A criança absorve menos hormônio do que foi prescrito, o exame sobe, a dose é aumentada à toa e volta a errar quando a família corrige por conta própria.
Como pegar a tempo: Mostrar e fazer junto: pó do comprimido na colher com pouca água ou leite materno, sempre no mesmo horário; a diretriz europeia se opõe a soluções e suspensões manipuladas.
O dano: Oscilação de dose no período em que o cérebro mais precisa de estabilidade, com risco de excesso — o TSH normaliza em duas a quatro semanas e demora mais quando começou muito alto.
Como pegar a tempo: Nas primeiras semanas a tiroxina livre guia a dose; reduzir só com TSH suprimido ou sinais de excesso; toda mudança se reavalia em quatro semanas.
O dano: O hipotireoidismo tardio ou central passa até os sinais tardios; e, no central com insuficiência adrenal, a tiroxina dada antes do corticoide pode precipitar uma crise adrenal.
Como pegar a tempo: Amostra depois da suspensão da droga e com um mês ou na alta; sinal clínico pede TSH e tiroxina livre venosos no dia; tiroxina livre baixa com TSH baixo ou normal espera o cortisol e a endocrinologia pediátrica.
O dano: No primeiro caso, meses de cérebro sem hormônio dentro da janela crítica; no segundo, uma criança que tomaria remédio e faria exames pela vida inteira sem precisar.
Como pegar a tempo: Suspender só depois dos 3 anos e só com glândula tópica e normal, quadro inicial duvidoso ou dose que não subiu, seguindo o calendário de TSH da tabela de reavaliação.
O que dizer ao paciente e à família
Metade do tratamento do hipotireoidismo congênito acontece fora do consultório, na mão de quem dá o comprimido todos os dias, e a conversa da primeira consulta decide se essa mão vai acertar. A diretriz europeia recomenda que o resultado alterado seja comunicado por um profissional experiente, pessoalmente ou por telefone, e complementado com informação escrita para a família — o que no ambulatório brasileiro significa a receita com a conta, o horário e o modo de dar, escritos numa folha que a avó também consegue ler.
Na sala há quase sempre mais de uma pessoa, e cada uma leva uma dúvida diferente: a mãe quer saber se a filha vai ser normal, a avó quer saber se o remédio vai viciar ou fazer mal, e alguém quase sempre acha que o bebê está bem demais para estar doente. As falas abaixo são com Daiane e com a avó de Lívia. Quando a família recusa o tratamento de forma persistente, apesar da explicação e da busca ativa, a criança fica exposta a um dano evitável, e o caminho da rede de proteção é o de Violência e maus-tratos infantis, em Emergências Pediátricas.
Na chegada, antes de qualquer exame — por que a quinta-feira é tarde
“"Daiane, o teste do pezinho da Lívia mostrou que a tireoide dela pode não estar produzindo um hormônio que o cérebro de um bebê usa todos os dias para se desenvolver. Por isso ela não vai esperar quinta-feira. Hoje a gente colhe um exame de sangue para confirmar e, logo depois, ela já toma o primeiro comprimido aqui, na sua frente. Se o exame de sangue vier normal, a equipe te liga e o remédio para."”
Não diga: "Deve ser erro do exame, ela está ótima, volta na quinta com o especialista." A frase transforma o único exame que achou a doença em suspeito e empurra o começo do tratamento para depois do prazo.
Quando a mãe pergunta se a filha vai ter um problema na cabeça
“"Essa é a pergunta mais importante que você podia fazer. Quando esse hormônio falta e ninguém trata, o desenvolvimento fica prejudicado. Quando o remédio começa cedo e é dado todo dia, as crianças crescem, aprendem e vão para a escola como as outras. O que protege a Lívia não é sorte: é o comprimido de hoje e o de todos os dias."”
Não diga: "Imagina, isso não é nada." Tranquilizar negando a doença tira da família o motivo para dar o comprimido todos os dias, que é o que de fato garante a resposta que ela quer ouvir.
Ensinando a dar o comprimido, com a mãe fazendo junto
“"Vou mostrar e depois você faz. Esmaga o comprimido inteiro na colher até virar pó, põe um pouquinho do seu leite tirado do peito ou de água, mistura e dá tudo na boca dela, com a colher. Nunca na mamadeira: se sobrar leite, sobra remédio. Se ela vomitar logo depois, dá outro igual. E todo dia no mesmo horário, sem leite de soja, sem vitamina com ferro e sem cálcio perto dessa hora."”
Não diga: "Dá o comprimidinho de manhã." Sem demonstração, a família dissolve na mamadeira, parte ao meio para facilitar ou dá só nos dias em que lembra.
Quando a mãe pergunta se é para sempre, depois da cintilografia
“"No caso da Lívia, é. Os exames mostraram que a tireoide dela não chegou ao lugar certo no pescoço e ficou mais para cima. Ela vai precisar desse comprimido a vida inteira, do jeito que outras pessoas precisam de óculos. É um remédio que a farmácia do SUS fornece, e com ele a vida dela é normal: escola, esporte, tudo. O que ela não pode é ficar sem."”
Não diga: "Aos 3 anos a gente tira e vê." Prometer suspensão a quem tem ectopia cria uma expectativa falsa e faz a família parar o remédio por conta própria quando a criança parece ótima.
Quando a mãe pergunta se pode continuar amamentando
“"Pode e deve. O remédio não atrapalha a amamentação, e o seu leite é justamente uma das coisas que podem ir junto com o pó do comprimido na colher. O que não pode ir junto é leite de soja, remédio de ferro ou cálcio, porque atrapalham o corpo dela a aproveitar o comprimido — esses ficam para outro horário."”
Não diga: "Melhor passar para a fórmula, para controlar quanto ela mama." O protocolo manda manter o aleitamento materno, e trocar o peito pela mamadeira não melhora em nada a dose.
No retorno de 3 meses, com a avó que dá o remédio durante o dia
“"A senhora cuida dela o dia inteiro, então a senhora é a pessoa mais importante deste tratamento. O exame mostrou que o hormônio caiu, e não é culpa de ninguém: o comprimido dissolvido na mamadeira fica no leite que sobra e no leite de soja, e não chega todo nela. A partir de hoje ele vai na colher, antes da mamadeira. Eu vou aumentar um pouquinho a dose, e daqui a um mês a gente confere de novo."”
Não diga: "A senhora estava dando errado." A culpa faz a família esconder o que acontece em casa — e é o que acontece em casa que explica o exame.
Quando a família quer parar porque a criança está ótima
“"Ela está ótima porque toma o remédio. Se parar, o hormônio cai devagar, sem avisar, e o que se perde nessa idade não volta depois. Se um dia faltar o remédio na farmácia, ou vocês tiverem qualquer dúvida, liguem para cá antes de parar — a gente resolve junto."”
Não diga: "Tudo bem, vamos ver como ela fica." Aceitar a suspensão dentro da janela crítica é a forma mais silenciosa de perder o que o tratamento precoce ganhou.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Depois dos 3 anos — protocolo federal (2021), com a SBP (2018) e a SBEM (2013)
O protocolo posterga a determinação da causa e a suspensão do remédio para depois dos 3 anos, em quem tem suspeita de forma transitória: sem etiologia definida pela imagem, sobretudo com tireoide normal à ultrassonografia, com quadro inicial duvidoso ou sem aumento de dose no seguimento. Suspende-se, espera-se um mês e fazem-se três TSH com intervalo mensal; abaixo de 5 mUI/L nas três confirma o transitório. A SBP completa: TSH acima de 9,9 confirma disormonogênese, e entre 5 e 9,9 pede TSH mensal até definir. O consenso da SBEM recomenda a mesma idade.
Ministério da Saúde, PCDT do Hipotireoidismo Congênito, Portaria Conjunta nº 05/2021, itens 4 e 9; SBP, Documento Científico nº 5, 2018; SBEM, Arq Bras Endocrinol Metab 2013;57(3):184-92, recomendação 2
Depois dos 2 anos — manual técnico de triagem neonatal biológica do Ministério (2016)
Na seção do hipotireoidismo congênito, o manual manda, quando a espera pelos exames de etiologia atrasaria o tratamento, fazê-los só após os dois anos de vida, quando a medicação pode ser suspensa temporariamente sem maiores prejuízos.
Ministério da Saúde, Triagem neonatal biológica: manual técnico, 1ª ed., 2016
Depois dos 2 a 3 anos, e já aos 6 meses em casos selecionados — diretriz europeia (2021)
Reavalia depois dos 2 a 3 anos, sobretudo com glândula tópica: retira o remédio em 4 a 6 semanas ou suspende, e dosa tiroxina livre e TSH após 4 semanas; TSH de 10 ou mais confirma o hipotireoidismo primário, e entre o limite superior e 10 segue sem remédio e repete em 3 a 4 semanas. Com glândula tópica e dose abaixo de 3 mcg/kg/dia aos 6 meses, admite reavaliar já nessa idade.
van Trotsenburg P et al. Thyroid. 2021;31(3):387-419
Esta apostila adota o protocolo federal de 2021 pelo primeiro degrau da régua, o escopo: ele foi escrito para a criança com hipotireoidismo congênito, e o manual, para o programa de triagem; pelo segundo, a data, o protocolo também é o mais novo e cita o manual entre as suas referências. Para a criança à sua frente: não suspenda antes dos 3 anos; aos 3, suspenda só em quem preenche os critérios de forma transitória, espere um mês e siga o calendário de três TSH mensais, lendo a faixa de 5 a 9,9 pela SBP. A reavaliação aos 6 meses da diretriz europeia não é régua brasileira e não é a que esta apostila ensina.
Colher e começar — protocolo federal (2021) e SBP (2018)
O protocolo manda iniciar o tratamento o mais precocemente possível, idealmente nos primeiros 14 dias de vida, após a coleta de sangue para os exames diagnósticos confirmatórios, e com doses elevadas; o quadro de tratamento da SBP usa a mesma formulação. O evento que libera o comprimido, nas duas redações, é a coleta.
Ministério da Saúde, PCDT do Hipotireoidismo Congênito, Portaria Conjunta nº 05/2021, item 8; SBP, Documento Científico nº 5, 2018, Quadro 5
Esperar o laudo quando ele está disponível — diretriz europeia (2021)
Com tiroxina livre baixa e TSH claramente alto na confirmação, o tratamento começa imediatamente; onde o exame confirmatório não está prontamente disponível, começa-se sem aguardar o resultado quando o TSH da triagem é de 40 mUI/L ou mais, valor que ela considera muito sugestivo de hipotireoidismo primário moderado a grave.
van Trotsenburg P et al. Thyroid. 2021;31(3):387-419, seção 2.1
Esta apostila adota o protocolo federal: a criança convocada por TSH do papel-filtro acima de 20 sai da consulta com o sangue colhido e a primeira dose tomada, e o laudo venoso decide se o comprimido continua. Pesa a natureza do documento — norma brasileira contra diretriz de sociedade estrangeira — e pesa a assimetria do erro: alguns dias de levotiroxina numa criança sem a doença custam menos que alguns dias sem hormônio numa criança com ela, sobretudo quando o laudo não sai durante a consulta. A leitura de que a coleta, e não o laudo, é o marco do início é desta apostila. A exceção é a criança com tiroxina livre baixa e TSH que não sobe, em quem a levotiroxina espera a insuficiência adrenal ser afastada.
TSH entre 0,4 e 4 mUI/L — protocolo federal (2021) e SBP (2018)
Nos três primeiros anos, e fundamentalmente nos seis primeiros meses, manter a tiroxina livre entre 1,4 e 2,3 ng/dL, ou a total entre 10 e 16 µg/dL, e o TSH entre 0,4 e 4 mUI/L, assegurando crescimento e desenvolvimento adequados.
Ministério da Saúde, PCDT do Hipotireoidismo Congênito, 2021, Quadro 4; SBP, Documento Científico nº 5, 2018, Quadro 8
TSH abaixo de 5, idealmente entre 0,5 e 2,0 mUI/L — consenso da SBEM (2013)
A tabela de tratamento e monitoramento do consenso, adaptada de LaFranchi, mantém a tiroxina livre na faixa de 1,4 a 2,3 ng/dL e o TSH menor que 5, idealmente entre 0,5 e 2,0.
SBEM, Arq Bras Endocrinol Metab 2013;57(3):184-92, Tabela 3
Esta apostila adota a meta do protocolo de 2021 pelo segundo degrau da régua, a data: o escopo é o mesmo, e o protocolo é oito anos mais novo, além de ser norma. A diferença aparece na criança com tiroxina livre na meta e TSH entre 2 e 4: pela SBEM ela estaria fora do ideal, e a tentação seria subir a dose; pelo protocolo ela está bem, e a dose fica. Suba a dose quando o TSH passar de 4 ou a tiroxina livre cair abaixo de 1,4 — sempre depois de conferir como o comprimido está sendo dado.
O raciocínio, em voz alta
Bernardo Avelar nasceu com 30 semanas e 1.310 gramas, filho de Rosana, numa maternidade com UTI neonatal. Precisou de ventilação nos primeiros dias e recebeu dopamina do primeiro ao terceiro dia de vida. A primeira amostra do teste do pezinho, colhida na admissão, e a segunda, com 60 horas, ainda em uso de dopamina, vieram com TSH de 3,1 e 4,0 mUI/L. A terceira amostra, com 28 dias, voltou com TSH de 34 mUI/L no papel-filtro. Com 30 dias de vida ele pesa 1.880 gramas, está estável, já suga ao seio e completa a dieta por sonda, sem sinais claros de hipotireoidismo. Você é o interno da UTI e atende o telefonema do laboratório.
o que penso agora
Um TSH de 34 mUI/L na terceira amostra de um prematuro de 30 semanas é exatamente o resultado que o esquema seriado existe para achar, e ele passa de 20. As duas amostras normais não o contradizem: a primeira foi colhida com o eixo imaturo, e a segunda, sob dopamina, que suprime o TSH e produz resultado falsamente normal. A elevação tardia, entre a segunda e a sexta semana, é o padrão esperado do prematuro.
o que colho e o que dou
Hoje, antes de qualquer comprimido, TSH e tiroxina livre venosos, com a hora e a anotação de que a levotiroxina não começou. Pelo protocolo que esta apostila adota, a primeira dose vai depois da coleta, no mesmo turno, e o laudo decide se ela continua. Se a tiroxina livre viesse baixa com TSH normal, a conduta seria outra — não tratar a imaturidade —, mas com TSH alto no papel-filtro esse não é o cenário.
a dose, com a conta
1,88 kg vezes 10 a 15 mcg/kg dá 18,8 a 28,2 mcg. Entre os comprimidos da Rename — 12,5, 25, 37,5, 50 e 100 mcg —, o de 25 mcg dá 13,3 mcg/kg, dentro da faixa. A dose média de 25 a 37,5 mcg que o protocolo cita para o pré-termo não entra na receita: 37,5 mcg em 1,88 kg seriam 19,9 mcg/kg, acima até dos 12 a 17 mcg/kg reservados às formas graves.
como o comprimido chega nele
Comprimido de 25 mcg triturado, misturado a um pouco de leite materno ordenhado e dado por via oral, uma vez ao dia, no mesmo horário, separado do suplemento de ferro e sem ser diluído no volume da dieta. Rosana aprende a fazer isso na UTI, dias antes da alta, porque é ela quem vai dar em casa.
o laudo
Dois dias depois: TSH de 41 mUI/L e tiroxina livre de 0,64 ng/dL. TSH acima de 10 com tiroxina livre abaixo de 0,8 confirma hipotireoidismo primário. A dose fica. A ultrassonografia cervical é pedida sem suspender o remédio; se mostrar glândula tópica e normal, Bernardo entra no grupo que será reavaliado depois dos 3 anos, porque o manual técnico descreve no prematuro uma elevação tardia do TSH que pode ser transitória.
o seguimento
TSH e tiroxina livre com 2 e 4 semanas de tratamento, antes da dose do dia, e depois o calendário do protocolo. Com o ganho de peso rápido do prematuro, os mesmos 25 mcg caem de 13,3 para cerca de 8 mcg/kg quando ele chegar a 3 kg — e quem diz se a dose precisa subir é o exame, não a conta por quilo. A curva, os marcos e a audição entram em cada retorno, com a idade corrigida.
se a via oral parar
Se Bernardo precisar ficar em jejum por dias, por enterocolite ou cirurgia, a diretriz europeia limita a dose intravenosa, quando ela for necessária, a no máximo 80% da dose oral, ajustada depois por tiroxina livre e TSH. A Rename só tem levotiroxina em comprimido, e a apresentação injetável depende da farmácia do hospital e da endocrinologia pediátrica. Um jejum de horas não pede troca de via: com meia-vida de cerca de sete dias, a dose do dia pode esperar a dieta voltar — leitura desta apostila a partir da farmacologia descrita no protocolo.
o que o caso ensina
Três lições. Pezinho normal colhido sob dopamina não exclui nada: a amostra tardia existe para isso. A dose sai do peso do dia, arredondada ao comprimido que existe, e não da dose média do protocolo. E a forma do prematuro é candidata natural à reavaliação depois dos 3 anos, desde que a imagem não mostre disgenesia.
Faça você
Pietro Lobato tem 3 anos e 2 meses e vem com a avó, dona Norberta, que cuida dele desde que a mãe voltou a trabalhar. Nasceu a termo com 3.150 gramas; o pezinho veio com TSH de 24 mUI/L no papel-filtro, e na convocação, com 12 dias, recebeu a primeira dose de levotiroxina na mesma consulta da coleta. O laudo venoso veio com TSH de 16 mUI/L e tiroxina livre de 1,3 ng/dL, e o comprimido foi mantido. A ultrassonografia do primeiro mês mostrou tireoide tópica e de tamanho normal. A dose nunca precisou subir: continua em 25 mcg por dia, hoje 1,8 mcg/kg para 14 kg. Os últimos exames, há quatro meses, trouxeram TSH de 1,9 mUI/L e tiroxina livre de 1,5 ng/dL. Ele cresce no canal da curva e fala frases.
decida se ele entra na reavaliação e diga por quê
Confira os critérios de suspeita de forma transitória do protocolo federal e a idade mínima que esta apostila adota.
escreva o plano de suspensão e a leitura de cada resultado
Diga quando colher, quantas vezes, o que fazer com TSH abaixo de 5, entre 5 e 9,9 e acima de 9,9, e o que a avó precisa saber para a suspensão não virar abandono.
Ver como fecharíamos
Pietro preenche os três critérios do protocolo de 2021 — glândula tópica e normal à ultrassonografia, quadro inicial duvidoso, com TSH venoso de 16 e tiroxina livre normal, e nenhuma necessidade de aumento de dose — e já passou dos 3 anos: entra na reavaliação. Plano: suspender a levotiroxina hoje; um mês depois, TSH (com tiroxina livre, que ajuda a leitura), repetido mais duas vezes com intervalo mensal. TSH abaixo de 5 mUI/L nas três medidas confirma hipotireoidismo congênito transitório: alta do remédio, com puericultura mantida e nova dosagem diante de qualquer sinal. TSH acima de 9,9 confirma disormonogênese, e a levotiroxina volta, com a dose definida junto com a endocrinologia pediátrica. TSH entre 5 e 9,9 pede dosagem mensal até definir, como descreve a SBP. Dona Norberta sai com as datas das coletas escritas e com a instrução de antecipar o exame se o neto ficar sonolento, constipado ou mais lento — suspender é um teste com calendário, não o fim do acompanhamento.
Com TSH do papel-filtro acima de 20 — e acima de 40 —, 18 dias de vida e sinais clínicos, cada dia sem hormônio conta. O protocolo federal manda iniciar o tratamento o mais precocemente possível, idealmente até o 14º dia, após a coleta de sangue para os exames confirmatórios: colhem-se TSH e tiroxina livre venosos e a primeira dose é dada na mesma consulta, e o laudo decide se o comprimido continua. Nenhum exame de imagem adia o tratamento, e repetir o pezinho é conduta do resultado limítrofe.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Sem consultar o capítulo, responda em voz alta: (1) o que o laboratório pede para TSH do papel-filtro abaixo de 10, de 10 a 20 e acima de 20, e o que 40 acrescenta; (2) por que o sangue venoso vem antes da primeira dose e por que a primeira dose não espera o laudo; (3) a faixa em mcg/kg e o comprimido da Rename para uma criança de 3,2 kg, com a dose por quilo que ele dá; (4) as metas de tiroxina livre e TSH e o calendário dos exames até os 3 anos; (5) os três critérios que levam à suspensão depois dos 3 anos e o que significam TSH abaixo de 5, entre 5 e 9,9 e acima de 9,9.
Em 30 dias
Simule uma consulta completa: explique à família o TSH de 60 mUI/L no papel-filtro de um recém-nascido de 16 dias; organize coleta venosa, primeira dose calculada pelo peso e retorno do resultado. Depois, use o quadro de Lívia para demonstrar como investigaria o TSH que voltou a subir, sem culpar o cuidador nem aumentar a dose apenas pela conta por quilo. Por fim, discuta um recém-nascido com hipoglicemia, micropênis e tiroxina livre baixa com TSH normal: qual equipe acionar e por que o eixo adrenal precisa ser avaliado ou protegido antes da levotiroxina?
Agora atenda
Agora atenda: recém-nascido de 16 dias trazido pela mãe ao ambulatório com a carta do laboratório de triagem neonatal — TSH de 52 mUI/L no papel-filtro, colhido no quarto dia. A mãe acha que o bebê está bem, mas conta que ele dorme muito e ainda está amarelo. Colha a história que muda a leitura do resultado, examine procurando os sinais e as malformações associadas, decida o que colher e se o comprimido começa hoje, calcule a dose com o comprimido que a farmácia do SUS tem, ensine a mãe a dar e explique o que acontece se o exame de sangue vier normal.
