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Anemia ferropriva
Ferropenia não é diagnóstico: é achado. A pergunta que o capítulo responde não é "qual anemia", é "por que este paciente perdeu ferro" — e como se repõe e se investiga ao mesmo tempo, no mesmo dia.
Ministério da Saúde — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas: Anemia por deficiência de ferro (Portaria SAS/MS nº 1.247, de 10 de novembro de 2014)
Conitec / Ministério da Saúde — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas: Anemia na Deficiência de Ferro. Relatório de recomendação, Consulta Pública nº 98, dezembro de 2024
Conitec / Ministério da Saúde — Relatório técnico: Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas de Anemia por deficiência de ferro (versão preliminar para consulta pública, agosto de 2023)
Ministério da Saúde — Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024
Ministério da Saúde — Guia para o uso de hemocomponentes. 2ª edição, 1ª reimpressão. Brasília, 2015
Cançado RD, Lobo C, Friedrich JR — Tratamento da anemia ferropriva com ferro por via oral. Revista Brasileira de Hematologia e Hemoterapia 2010;32(Supl.2):114-120
Cançado RD, Lobo C, Friedrich JR — Tratamento da anemia ferropriva com ferro por via parenteral. Revista Brasileira de Hematologia e Hemoterapia 2010;32(Supl.2):121-128
Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamentos Científicos de Nutrologia e Hematologia — Consenso sobre anemia ferropriva: atualização, destaques 2021 (Diretrizes nº 2, junho de 2018, atualizadas em 26/08/2021)
Instituto Nacional de Câncer (INCA) — Estimativa 2023: incidência de câncer no Brasil. Rio de Janeiro, 2022
Ministério da Saúde — Sistema de Micronutrientes: Programa Nacional de Suplementação de Ferro. Instrutivo de operação (Coordenação-Geral de Alimentação e Nutrição)
Conselho Nacional de Secretários de Saúde (CONASS) — Nota Técnica 37/2013: minuta de portaria que atualiza as diretrizes nacionais do Programa Nacional de Suplementação de Ferro
AGA. Clinical Practice Update on Management of Iron Deficiency Anemia, 2024. https://www.cghjournal.org/article/S1542-3565%2824%2900410-5/fulltext
AABB. Red Blood Cell Transfusion: International Guidelines, 2023. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37824153/
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Homem de 24 anos, assintomático: hemoglobina 12,4 g/dL, volume corpuscular médio 66 fL, RDW 13%, hemácias 6,1 milhões/mm³, ferritina 95 ng/mL, saturação da transferrina 30%. Qual a hipótese e o próximo passo?
O paciente que você vai ver
É quarta-feira no ambulatório de clínica médica e o senhor Sebastião, 62 anos, 68 quilos, pedreiro aposentado, chega com um exame na mão e uma queixa que ele mesmo considera boba: está cansado. Cansado de um jeito que não passa dormindo, há uns oito meses, e que agora o obriga a parar duas vezes na subida até em casa. A esposa insistiu na consulta porque ele ficou 'com cara de doente'. O hemograma que ele traz, pedido na farmácia do bairro, mostra hemoglobina de 8,4 g/dL, volume corpuscular médio de 71 fL, RDW de 19% e plaquetas de 480 mil. Ele nega sangramento. Perguntado de novo, continua negando.
A tentação tem nome: escrever sulfato ferroso, um comprimido de manhã, e marcar retorno em três meses. É rápido, é barato e — este é o problema — funciona. A hemoglobina do senhor Sebastião vai subir e ele vai voltar dizendo que está melhor. O que não vai ter acontecido é a única coisa que decidia o desfecho dele: alguém perguntar de onde estava saindo o ferro.
Porque anemia ferropriva não é diagnóstico. É achado — o mesmo tipo de achado que é uma febre ou um sopro. O corpo adulto praticamente não perde ferro por conta própria: se o estoque acabou, alguém está sangrando, não está absorvendo, ou está gastando muito mais que o normal. Num homem de 62 anos que não menstrua e não fez cirurgia bariátrica, a lista curta de causas começa e termina no trato digestivo. E aí a conta muda de escala: excluídos os cânceres de pele não melanoma, o de cólon e reto é o terceiro mais frequente do Brasil, com 45.630 casos novos estimados por ano e 20.245 óbitos registrados em 2020. O sangramento crônico de um tumor de cólon direito não dá dor, não dá sangue visível nas fezes e não dá sintoma nenhum além disto: cansaço e um hemograma microcítico. Tratar a ferropenia sem investigar a causa é o gesto que transforma um câncer de cólon operável num câncer de cólon avançado — em silêncio, com o paciente melhorando no meio do caminho.
Quem adoece disso
A deficiência de ferro é a carência nutricional mais prevalente do mundo e, no Brasil, é tão comum que perde valor como pista isolada. A Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde encontrou deficiência de ferro em 29,4% das mulheres em idade fértil e em 20,9% das crianças menores de 5 anos; o Ministério da Saúde, ao justificar o programa nacional de suplementação, trabalhava com cerca de 25% das crianças menores de 2 anos e 30% das gestantes e mulheres em idade fértil. A consequência clínica é contraintuitiva: encontrar ferro baixo numa mulher de 30 anos não estreita nada, porque quase um terço delas está assim. O que estreita é a causa, e é ela que precisa ser nomeada. Ferropenia é o ponto de partida do raciocínio, nunca o de chegada.
A mesma prevalência alta que torna o achado banal em um grupo torna-o alarmante em outro. Homem adulto e mulher na pós-menopausa não têm perda fisiológica de sangue — e é por isso que o protocolo nacional trata a avaliação do trato digestivo como parte integrante e obrigatória da investigação de qualquer paciente com anemia ferropriva, sobretudo nesses dois grupos. O motivo aparece na estimativa do Instituto Nacional de Câncer: o câncer de cólon e reto tem 53.810 casos novos por ano no triênio 2026-2028, 26.270 em homens e 27.540 em mulheres, risco de 25,11 casos por 100 mil habitantes, e é o terceiro tumor mais frequente do país quando se excluem os de pele não melanoma. Em 2020 foram 20.245 óbitos. O dado que fecha o argumento vem do próprio protocolo: quando a colonoscopia de um paciente com ferropenia é anormal, em pelo menos metade dos casos o achado é doença neoplásica, tumor de cólon principalmente. Não é uma pescaria de baixo rendimento — é a metade.
Existe uma armadilha simétrica no outro extremo da faixa etária, e ela é responsável por boa parte dos diagnósticos perdidos em mulheres jovens. Menorragia é, de longe, a causa isolada mais frequente de deficiência de ferro em mulheres em idade reprodutiva, e por isso ela é aceita como explicação suficiente quase sempre. Só que estima-se que 10% a 20% dessas mulheres tenham sangramento do trato digestivo associado — e o protocolo nacional é explícito ao dizer que, quando a intensidade da anemia é desproporcional à perda menstrual referida, é preciso procurar outra causa. Na prática de enfermaria e de ambulatório isso vira uma pergunta única: o volume de sangue que ela descreve perdendo por mês explica uma hemoglobina de 7? Se não explica, a menstruação virou álibi, e alguém precisa dizer isso em voz alta.
Vale saber ainda com que ferramentas se investiga, porque isso muda a conduta. A pesquisa de sangue oculto nas fezes é específica, mas pouco sensível: em população brasileira, a sensibilidade medida foi de 46,7%. Um resultado negativo erra em mais da metade das vezes e não exclui nada — o papel do exame é aumentar a suspeita quando positivo, e nada mais.
Por que acontece o que acontece
O ferro do corpo é um sistema quase fechado, e essa é a única frase de fisiologia de que se precisa aqui. Um adulto carrega 3 a 4 gramas de ferro, a maior parte na hemoglobina das hemácias circulantes, uma parte estocada como ferritina no fígado, no baço e na medula, e uma fração mínima em trânsito ligada à transferrina. Todo dia perdem-se 1 a 2 miligramas na descamação de células da pele e do intestino, e absorvem-se 1 a 2 miligramas no duodeno para repor. O ponto decisivo é o que não existe: não há via regulada de excreção de ferro. O organismo controla o estoque na entrada, e não na saída. A regra que sai daí: se o estoque de um adulto acabou, ou entrou ferro de menos por muito tempo, ou saiu sangue — e como a dieta brasileira habitual não zera um estoque de 1 grama em quem come carne, a resposta quase sempre é sangue saindo.
A absorção acontece num trecho curto e específico — duodeno e jejuno proximal —, e essa geografia explica metade das causas de má absorção. O ferro não heme precisa ser reduzido de férrico a ferroso, atravessa a membrana apical do enterócito por um transportador de metais divalentes e sai pela membrana basolateral através da ferroportina, para ser entregue à transferrina. Duas coisas mexem nesse trajeto. O pH: a redução depende de meio ácido, e é por isso que gastrectomia, gastroplastia, gastrite atrófica e uso crônico de inibidor de bomba de prótons, bloqueador H2 ou antiácido entram em toda lista de fatores de risco, e por isso também que se recomenda tomar o comprimido com o estômago vazio. E a distância: preparação que libera o ferro adiante do jejuno proximal é ineficaz, e o bypass gástrico, que exclui o duodeno do trânsito, cria má absorção anatômica que nenhuma dose oral resolve bem.
A ferroportina é também a válvula que a inflamação fecha, e entender isso é entender por que a ferritina engana. Na presença de inflamação, infecção ou neoplasia, a produção hepática de hepcidina aumenta; a hepcidina degrada a ferroportina; e com a ferroportina fora do lugar o ferro deixa de sair tanto do enterócito quanto do macrófago. O resultado é um paciente com ferro trancado dentro dos estoques, indisponível para a medula: ferro sérico baixo, saturação da transferrina baixa e, paradoxalmente, ferritina normal ou alta, porque a ferritina é proteína de fase aguda e sobe com a mesma inflamação que trancou o ferro. É esse o mecanismo da anemia de doença crônica, e é ele que produz o erro clássico do interno — ver ferritina de 180 num paciente com artrite reumatoide e concluir que 'ferro está bom', quando a saturação de 11% está dizendo o contrário. A mesma hepcidina alta também bloqueia a absorção intestinal, e é por isso que ferro oral funciona mal na inflamação ativa: o comprimido chega, mas a porta de saída do enterócito não abre.
A hepcidina explica ainda uma coisa prática que mudou a maneira de prescrever. Uma dose oral grande de ferro provoca um pico de hepcidina que dura horas e reduz a fração absorvida das doses seguintes no mesmo dia e no dia seguinte. Daí duas consequências que se veem na folha: dividir a dose em três tomadas ao longo do dia não multiplica por três a absorção, e o teto absortivo intestinal é baixo — o protocolo nacional estima em 40 miligramas de ferro elementar por dia a quantidade máxima que o intestino consegue interiorizar, valor que a versão anterior do mesmo protocolo colocava em 25 miligramas. Esse teto é exatamente o argumento que define quando o ferro oral não dá conta: perda diária que supere a capacidade de absorção não é reposta pela boca, por mais comprimido que se prescreva.
A depleção é sequencial, e a ordem dos exames alterados é a ordem em que o ferro acaba. Primeiro esvaziam-se os estoques: a ferritina cai e nada mais muda — deficiência de ferro sem anemia. Depois a oferta à medula fica insuficiente e os eritrócitos saem mal hemoglobinizados, ainda sem queda da hemoglobina. Só então aparece a anemia, e ela nasce normocítica, porque as hemácias feitas quando havia ferro continuam circulando; a microcitose leva semanas para se instalar. Duas leituras práticas: anemia normocítica não afasta ferropenia, e cobrar microcitose para pensar em ferro atrasa o diagnóstico em um a dois meses; e o RDW sobe antes de o volume corpuscular médio cair, porque convivem duas populações de hemácias — RDW alto num paciente microcítico é pista a favor de ferropenia e contra talassemia.
Por fim, o mecanismo explica por que o paciente melhora antes do hemograma. O ferro entra em citocromos, em enzimas mitocondriais e no metabolismo de neurotransmissores, e a reposição alivia fadiga, irritabilidade e síndrome das pernas inquietas já na primeira semana, muito antes de a hemoglobina mudar. Vale avisar o paciente disso: quem espera sentir a diferença quando o sangue melhorar costuma abandonar o comprimido no meio do caminho.

Como se apresenta de verdade
A anemia ferropriva quase nunca chega dizendo o próprio nome. Ela chega como cansaço, como queda de rendimento, como uma comorbidade que descompensou, como um hemograma pedido por outro motivo. A distância entre o que o livro descreve — palidez, coiloníquia, glossite — e o que entra pela porta é grande, e é ela que faz o diagnóstico atrasar meses. O que segue é o espectro, na ordem em que ele aparece no ambulatório e na enfermaria.

Percurso de aprendizagem
Relacione deficiência de ferro, inflamação e outras causas de microcitose aos exames disponíveis.
Acompanhe dose de ferro elementar, tolerância, hemoglobina e reservas; verifique quando a resposta insuficiente exige rever diagnóstico, perdas ou absorção.
A forma típica: um paciente que não parece doente
A instalação é lenta e o corpo se adapta. Como o volume plasmático é preservado, a anemia crônica cursa com normovolemia e o organismo compensa com aumento do débito cardíaco e redução da afinidade da hemoglobina pelo oxigênio. Pacientes toleram valores que, numa hemorragia aguda, produziriam choque — não é raro atender alguém andando e trabalhando com hemoglobina de 6 g/dL, e essa tolerância é o motivo pelo qual a transfusão quase nunca é a resposta aqui. O quadro é inespecífico: fadiga que não passa com repouso, dispneia progressiva aos esforços, palpitação, tontura postural, dificuldade de concentração; ao exame, palidez de mucosas, taquicardia em repouso e, com frequência, um sopro sistólico de ejeção suave que desaparece quando a anemia é corrigida.
Vale reparar num detalhe do hemograma que o interno costuma ignorar: a trombocitose. Contagem entre 450 mil e 700 mil é achado frequente e reativo na ferropenia, desaparece com o tratamento e não indica investigação hematológica adicional — mas é mais um sinal de que existe perda crônica em algum lugar.
Os sintomas que não são de anemia — e aparecem antes dela
Deficiência de ferro sem anemia é entidade clínica, não curiosidade laboratorial: existe paciente com hemoglobina normal, ferritina de 8 e sintomas idênticos aos de quem tem anemia — vindos do ferro que falta às enzimas, e não à hemoglobina. Os mais úteis para reconhecer o quadro são fadiga desproporcional ao grau de anemia, irritabilidade, síndrome das pernas inquietas, queda de cabelo, dor na língua e, o mais específico, a alotriofagia: apetite por terra, barro, papel, amido ou gelo. Perguntar 'a senhora sente vontade de mastigar gelo?' tem rendimento surpreendente e quase ninguém faz.
No exame físico, coiloníquia, queilite angular e glossite atrófica são achados tardios e pouco sensíveis: quando aparecem, a deficiência é antiga e grave, e a ausência deles não vale nada.
No idoso, o sintoma é a comorbidade que descompensou
No idoso a apresentação é insidiosa e indireta: piora de angina antes estável, aumento de confusão mental, dispneia que deixou de ser controlada, quedas. A anemia funciona como estressor que desmascara doença coronariana, insuficiência cardíaca e comprometimento cognitivo prévios. Dois erros nascem aí. Atribuir a anemia à idade — envelhecer aumenta a probabilidade de tê-la, mas não a explica, e a anemia no idoso é fator independente de pior prognóstico. E usar o corte errado: o protocolo nacional adota hemoglobina abaixo de 12,7 g/dL em homens idosos e abaixo de 11,5 g/dL em mulheres idosas.
Uma particularidade de tratamento aparece já aqui: o protocolo nacional prescreve para o idoso 15 miligramas de ferro elementar por dia, contra 120 no adulto, pela pior tolerância gastrointestinal. Reconhecer que se está diante de um idoso muda a conta da prescrição desde a primeira consulta.
Na mulher em idade reprodutiva: a explicação que também é álibi
Menorragia é a causa isolada mais frequente de deficiência de ferro nessa faixa e, na maior parte das vezes, é mesmo a resposta — o problema é ser uma explicação disponível demais: encontrada a menstruação volumosa, a investigação para. A régua do protocolo nacional é de proporção: quando a intensidade da anemia é desproporcional à perda referida, é preciso procurar outra causa, e estima-se que 10% a 20% dessas mulheres tenham sangramento digestivo associado. Na prática, quantifique em vez de aceitar o adjetivo: quantos dias dura, quantos absorventes por dia, se troca à noite, se há coágulos, se usa dispositivo intrauterino de cobre. Uma perda descrita como normal e uma hemoglobina de 7 são dois fatos que não cabem na mesma frase.
Duas outras causas frequentes nessa faixa: gestações sucessivas com pouco intervalo, que consomem o estoque materno sem tempo de reposição, e dieta vegetariana ou vegana sem orientação. Em gestante, anemia é hemoglobina abaixo de 11 g/dL, e o manejo tem particularidades próprias do pré-natal que este capítulo aponta mas não detalha.
No paciente com doença inflamatória, neoplásica ou renal: a ferritina mente
É a apresentação que mais confunde, porque os exames parecem tranquilizadores. Artrite reumatoide, doença inflamatória intestinal, infecção crônica, insuficiência cardíaca, neoplasia e hepatopatia elevam a ferritina independentemente do estoque — a inflamação a multiplica por cerca de três. O paciente pode ter, ao mesmo tempo, anemia de doença crônica e deficiência de ferro real, e ferritina normal ou alta não exclui nada. Nesse grupo o critério é outro: o protocolo nacional inclui no tratamento quem tem doença inflamatória, infecciosa ou maligna, hemoglobina baixa para idade e sexo e índice de saturação da transferrina abaixo de 20%, independentemente da ferritina.
Duas situações merecem nome próprio. A doença inflamatória intestinal soma inflamação que bloqueia a absorção e perda crônica pela mucosa ulcerada, e nela o ferro endovenoso é opção precoce, até de primeira linha. A doença renal crônica tem fisiologia própria e protocolo nacional específico: o renal crônico é tratado pelo protocolo dele.
No paciente que não absorve: estômago operado, mucosa doente, comprimido bloqueado
Existe um grupo em que o ferro sai pouco mas entra menos ainda, e nele a resposta ao tratamento oral decepciona por motivo mecânico. Gastroplastia e gastrectomia reduzem a acidez e, no bypass, excluem o duodeno do trânsito; gastrite atrófica e infecção por Helicobacter pylori reduzem a acidez de outra forma; doença celíaca e doença inflamatória intestinal comprometem a mucosa. E há a causa iatrogênica mais comum, que se resolve olhando a receita: uso crônico de inibidor de bomba de prótons, bloqueador H2 ou antiácido. Antes de concluir que alguém não responde ao ferro, confira se ele toma omeprazol, se toma o comprimido com café ou leite, e se alguém já lhe explicou como tomar.
Nesses pacientes o protocolo nacional oferece uma ferramenta objetiva, o teste de absorção intestinal do ferro por via oral: dosa-se o ferro sérico em jejum, oferecem-se 60 miligramas de ferro elementar por via oral com água e repete-se a dosagem 1 a 2 horas depois; aumento acima de 100 ng/mL sugere absorção adequada. Um teste que não sobe é critério documentado para indicar ferro parenteral.
As apresentações que não são deste capítulo
Três desvios precisam ser reconhecidos justamente para serem entregues a outro raciocínio. O sangramento agudo — hematêmese, melena volumosa, taquicardia, hipotensão — não é problema de estoque de ferro, é de volume circulante, e segue a via da hemorragia digestiva alta e do choque hemorrágico. A anemia ferropriva é a irmã lenta desse quadro: 5 a 10 mL de sangue por dia que nunca aparecem no vaso e levam meses para zerar um estoque de 1 grama.
Os outros dois são a anemia macrocítica, que aponta para deficiência de vitamina B12 ou de folato e tem investigação própria — vale registrar que a carência combinada com ferropenia produz volume corpuscular médio enganosamente normal, com RDW muito alto —, e a ferropenia da criança e do adolescente, que tem outras causas dominantes e esquema profilático universal. Entre as microcíticas hereditárias, anemia falciforme e talassemias estão no capítulo Anemia falciforme e hemoglobinopatias, nesta apostila: aqui entram apenas como diferencial laboratorial.
Como fechar o diagnóstico
A investigação da anemia microcítica tem duas metades que precisam começar no mesmo dia, e o erro estrutural do interno é fazê-las em série. A primeira metade responde 'é ferro?'. A segunda responde 'por quê?'. Quem trata a primeira e adia a segunda entrega um paciente melhorando com a doença que o adoeceu intacta.
Uma disciplina de pedido resolve boa parte do problema: peça o painel de uma vez, não em fatias. Fatiar custa consultas, exames repetidos, adesão e, sobretudo, tempo num paciente cuja causa pode ser um tumor. O painel inteiro cabe numa requisição só, com exames de atenção básica.

Qual exame primeiro, e o que cada um responde
O bloco mínimo, pedido junto, é: hemograma completo com índices e esfregaço, contagem de reticulócitos, ferritina, ferro sérico com capacidade total de ligação (para a saturação da transferrina) e proteína C reativa. Cada um responde a uma pergunta e nenhum substitui o outro. O hemograma diz que tipo de anemia é; os reticulócitos dizem se a medula está respondendo — na ferropenia não tratada são normais ou baixos, e reticulócitos altos apontam para perda aguda ou hemólise, mudando o raciocínio inteiro. A ferritina mede o estoque; a saturação mede a oferta de ferro à medula; e a proteína C reativa não mede ferro nenhum: informa se você pode confiar na ferritina.
No adulto, os limites de hemoglobina frequentemente utilizados são abaixo de 13 g/dL para homens e de 12 g/dL para mulheres não gestantes, interpretados com contexto e referência apropriada. Idade avançada não torna uma queda nova de hemoglobina normal. Gestação, infância, altitude e outras condições exigem limites específicos; não aplicar um único corte a toda criança ou a todos os trimestres. Reconhecer anemia é o início da investigação, não prova de ferropenia.
A régua da ferritina — e o que fazer quando ela engana
A ferritina é o marcador mais confiável dos estoques e substituiu o exame de medula óssea que se fazia para isso. Ela tem uma propriedade rara: valor baixo não tem falso-positivo. O problema é o oposto — a ferritina falsamente normal ou alta —, e ele acontece sempre que há inflamação, infecção, neoplasia ou hepatopatia, porque ela é proteína de fase aguda.
Ferritina baixa sustenta depleção de reservas, mas o ponto de corte depende do contexto. Valores acima de 30 ng/mL não excluem deficiência em todos os pacientes, especialmente com inflamação, doença renal ou outras comorbidades. Saturação da transferrina abaixo de 20% indica restrição de ferro disponível, que pode ser absoluta, funcional ou mista; não comprova sozinha depleção nem autoriza reposição indiscriminada com ferritina muito elevada. Integrar hemograma, ferritina, saturação, marcadores inflamatórios, história e critérios próprios da doença de base.
Existe uma regra prática mais antiga, do protocolo de 2014, para quem tem só a ferritina em mãos: em paciente com doença inflamatória, infecciosa, maligna ou hepática, divide-se o valor por 3, e resultado igual ou abaixo de 20 ng/mL sugere deficiência de ferro concomitante. É aproximação grosseira do fator de amplificação da inflamação; entre as duas réguas, a saturação da transferrina é preferível porque é medida, e não estimada.
Separar as três microcíticas sem virar um atlas de índices
Diante de uma anemia microcítica e hipocrômica, três diagnósticos cobrem quase tudo: anemia ferropriva, anemia de doença crônica e talassemia. Elas se separam com os exames que já foram pedidos, sem nenhum acréscimo.
Ferritina entre 30 e 100 ng/mL com saturação baixa pode sugerir componente de deficiência em um estado inflamatório, mas não confirma obrigatoriamente duas anemias. Ferritina acima de 100 também não exclui deficiência concomitante em todos os cenários. Usar esses resultados para formular a hipótese, confrontá-la com perdas, dieta, absorção, doença renal e inflamação e selecionar investigação ou tratamento adequado; não transformar faixas laboratoriais em diagnósticos universais.
A talassemia beta menor engana porque produz microcitose intensa com anemia leve. A pista mais barata está no próprio hemograma: o número de hemácias é normal ou alto e o RDW é normal ou baixo, o oposto da ferropenia. Ferritina e saturação são normais. A confirmação é a eletroforese com hemoglobina A2 aumentada — e há uma armadilha de sequência: quando talassemia e ferropenia coexistem, a deficiência de ferro reduz a hemoglobina A2 e mascara a talassemia, de modo que se corrige primeiro o ferro e só depois se quantifica a A2.
O que confirma o diagnóstico — e por que a confirmação vem depois do tratamento
Após iniciar ferro oral, reavaliar tolerância e resposta em duas a quatro semanas. A hemoglobina costuma subir cerca de 1 a 2 g/dL nesse período, com variação pela gravidade, perdas, absorção e comorbidades. Resposta insuficiente pede conferir dose de ferro elementar, administração, tolerância, perdas e diagnóstico; uma cifra isolada não demonstra falta de adesão. Instabilidade ou piora sintomática antecipam a avaliação.
O que NÃO pedir — e o custo de pedir
Ferro sérico isolado é o pedido inútil mais frequente do ambulatório brasileiro: varia ao longo do dia, sobe após refeição rica em ferro e cai na inflamação. Ele só existe para compor a saturação da transferrina, junto com a capacidade total de ligação — e é assim que deve ser pedido.
Pesquisa de sangue oculto para decidir se vale a pena investigar o intestino é o erro que mais custa vida neste capítulo. Com sensibilidade de 46,7%, um resultado negativo erra em mais da metade das vezes, e o protocolo nacional determina que nem o tratamento se interrompa com base nele. Sangue oculto negativo em homem adulto ou mulher pós-menopausa com ferropenia não cancela a endoscopia nem a colonoscopia.
Eletroforese de hemoglobina pedida antes de corrigir a ferropenia pode sair falsamente normal. Repetir o hemograma para confirmar antes de pedir o painel de ferro só atrasa. Tomografia de abdome não substitui colonoscopia na busca de lesão de mucosa: enxerga a massa grande e perde exatamente a lesão pequena e curável que se procura.
Do lado da conduta, há um 'não pedir' que é um 'não fazer': não se prescreve ferro para anemia que não é ferropriva. O organismo não elimina o excesso, e a reposição indiscriminada é nociva — razão pela qual o painel vem antes do comprimido.
A investigação da causa: quem tem endoscopia e colonoscopia obrigatórias
A avaliação do trato digestivo é parte integrante e obrigatória da investigação de qualquer paciente com anemia ferropriva, e o protocolo nacional destaca dois grupos: homens acima de 50 anos e mulheres na pós-menopausa. A lógica é de eliminação: quem não menstrua, não está grávido e não tem má absorção conhecida só pode estar perdendo sangue por onde não se enxerga. Nesse grupo a investigação é bidirecional e simultânea: endoscopia digestiva alta e colonoscopia. Fazer só a alta é o atalho mais comum e o mais perigoso, porque as alterações do trato superior raramente explicam sozinhas a deficiência de ferro, enquanto a colonoscopia anormal revela doença neoplásica em pelo menos metade dos casos. Gastrite encontrada na endoscopia não é diagnóstico; é coincidência, até que o cólon tenha sido visto.
Fora desses dois grupos, a régua é de plausibilidade e de proporção. Investiga-se o trato digestivo quando há sintoma que sugira doença digestiva — dor abdominal, dispepsia, refluxo, perda de peso, alteração de hábito intestinal —, quando o sangue oculto é positivo, quando há história pessoal ou familiar de doença gastrointestinal ou câncer, e quando a anemia é isolada, sem explicação alternativa. Em mulher em idade reprodutiva com menorragia documentada e anemia proporcional a ela, é razoável tratar, corrigir a menorragia e reavaliar; se a anemia é desproporcional, recorre ou não responde, o trato digestivo entra do mesmo jeito. O critério não é a idade: é existir uma explicação que dê conta do tamanho da perda.
Duas fronteiras importam. A investigação de câncer colorretal que começa aqui é diagnóstica, motivada por um achado, e difere do rastreamento populacional de quem não tem sintoma nem anemia, que tem faixa etária e método próprios. E o sangramento agudo, com repercussão hemodinâmica, sai desta via e entra na da hemorragia digestiva, com endoscopia de urgência e não de agenda.
As duas endoscopias vieram normais. E agora?
Acontece numa parcela relevante dos casos, e é onde a investigação morre por falta de próximo passo escrito. A sequência tem quatro camadas. Revisar o óbvio: preparo de cólon adequado, exame completo até o ceco, uso de anti-inflamatório, ácido acetilsalicílico ou anticoagulante. Procurar má absorção: sorologia para doença celíaca, pesquisa e tratamento de Helicobacter pylori — cuja erradicação melhora a resposta à reposição —, cirurgia gástrica prévia, supressor de acidez crônico. Procurar perda fora do tubo alto e baixo: hematúria, hemólise, doação repetida de sangue, epistaxe e, num país com verminose endêmica, parasitológico de fezes para ancilostomíase e estrongiloidíase. E, só então, os exames de intestino delgado: trânsito de delgado, cintilografia para hemorragia não ativa, enteroscopia com balão e cápsula endoscópica.
Enquanto essa sequência corre, o ferro continua: a investigação da causa não suspende a reposição, e a reposição não encerra a investigação.
O que existe no SUS
O painel diagnóstico é acessível: hemograma, reticulócitos, ferritina, ferro sérico, capacidade total de ligação e proteína C reativa são exames de atenção básica, e a eletroforese de hemoglobina está na rede. Endoscopia e colonoscopia existem no SUS, mas com fila — e aqui a conduta vira gestão: o encaminhamento precisa sair com a justificativa escrita, porque é ela que define a prioridade na regulação. Pedido sem indicação escrita entra na fila de rotina e pode demorar meses.
Do lado do tratamento, sulfato ferroso e ferripolimaltose estão no Componente Básico da assistência farmacêutica e o sacarato de óxido férrico injetável, no Componente Especializado — as apresentações exatas estão na tabela de doses. Exames de intestino delgado, como cápsula endoscópica e enteroscopia com balão, são de acesso restrito, o que reforça a ordem: esgotar uma investigação bidirecional bem-feita antes de contar com eles.
Diagnosticar deficiência de ferro, investigar a causa e acompanhar resposta
Aprenda a interpretar hemograma e reservas de ferro no contexto, procurar a origem da deficiência e escolher reposição tolerável. O tratamento só está completo quando a causa, a resposta e o seguimento foram abordados; transfusão responde a outra pergunta clínica. O fluxo é a sequência mental de uma consulta só. As tabelas são o que se consulta com o paciente ainda sentado na frente: o diferencial, a conta da dose e as duas exceções à via oral.
- 1Hemograma microcítico ou fadiga sem causa: peça o painel inteiro de uma vez — hemograma com esfregaço, reticulócitos, ferritina, ferro sérico com capacidade total de ligação (para a saturação da transferrina) e proteína C reativa.
- 2Interpretar ferritina junto à inflamação e à saturação de transferrina. Ferritina baixa apoia fortemente deficiência absoluta; ferritina normal ou elevada não a exclui na inflamação. Saturação < 20% indica restrição de ferro à eritropoiese, mas não distingue sozinha deficiência absoluta de sequestro inflamatório nem autoriza todo esquema de reposição.
- 3Se não é ferro, separe doença crônica (ferritina igual ou acima de 100, proteína C reativa alta) de talassemia (hemácias normais ou aumentadas, RDW normal ou baixo, hemoglobina A2 alta na eletroforese — quantificada depois de corrigir o ferro).
- 4Confirmada a ferropenia, pergunte de onde saiu o ferro antes de escrever qualquer coisa: menstruação quantificada, sangramento digestivo, cirurgia gástrica, doença celíaca, verminose, anti-inflamatório, anticoagulante, supressor de acidez, doação de sangue, dieta.
- 5Homem adulto ou mulher na pós-menopausa: encaminhe para endoscopia digestiva alta e colonoscopia no mesmo dia da primeira consulta, com a justificativa escrita no pedido. Sangue oculto negativo não cancela nada.
- 6Prescreva na mesma consulta, em ferro elementar, com o número de comprimidos, o horário e o que atrapalha a absorção. A investigação não adia o tratamento, e o tratamento não encerra a investigação.
- 7Em duas a quatro semanas: conferir sintomas, hemoglobina, tolerância e administração. Aumento de cerca de 1 a 2 g/dL é frequente; resposta menor pede investigar perdas, absorção, inflamação e diagnóstico antes de simplesmente aumentar a dose.
- 8Manter reposição por cerca de três meses após normalizar a hemoglobina, ajustando à tolerância, à causa e à recuperação das reservas. Ferritina isolada de 30 ng/mL não define suspensão; interpretar ferritina e saturação da transferrina com inflamação e perdas persistentes. Tratar e acompanhar a fonte da deficiência; falha ou recorrência pede rever perda, absorção, administração, inflamação e diagnóstico, sem atribuí-la automaticamente à adesão.
| Parâmetro | Anemia ferropriva | Anemia de doença crônica | Talassemia beta menor |
|---|---|---|---|
| Número de hemácias | Diminuído | Diminuído | Normal ou aumentado |
| Volume corpuscular médio | Diminuído (normal no início) | Normal, ou microcitose discreta (raramente abaixo de 72 fL) | Diminuído, desproporcional ao grau de anemia |
| RDW | Aumentado | Normal ou pouco aumentado | Normal ou diminuído |
| Reticulócitos | Normais ou diminuídos | Normais ou inadequadamente aumentados para o grau de anemia | Normais ou aumentados |
| Saturação da transferrina | Abaixo de 20% | Abaixo de 20% | Normal ou aumentada |
| Ferritina | Abaixo de 30 ng/mL | Igual ou acima de 100 ng/mL (entre 30 e 100, considerar as duas juntas) | Normal ou aumentada |
| Proteína C reativa | Normal | Elevada | Normal |
| Eletroforese de hemoglobina | Hemoglobina A2 normal | Hemoglobina A2 normal | Hemoglobina A2 aumentada |
| Grau da anemia | Qualquer, podendo ser grave | Leve a moderada (9 a 12 g/dL), raramente abaixo de 8 | Leve, com microcitose intensa |
Dose de ferro elementar por grupo, e a conta na apresentação do SUS
| Grupo | Dose em ferro elementar | Na apresentação da Rename 2024 | Fonte |
|---|---|---|---|
| Homem adulto | 120 mg por dia | 3 comprimidos de 40 mg por dia | PCDT 2024 |
| Mulher adulta e gestante com anemia | 100 a 200 mg por dia (gestante associa 400 mcg de ácido fólico por dia) | 3 a 5 comprimidos de 40 mg por dia | PCDT 2024 |
| Idoso | 15 mg por dia | 0,6 mL da solução oral de 25 mg/mL, ou 3 mL do xarope de 5 mg/mL — o comprimido de 40 mg não fraciona nessa dose | PCDT 2014 e 2024; Rename 2024 |
| Criança (tratamento da anemia) | 3 a 6 mg/kg por dia, fracionados | Criança de 12 kg: 36 a 72 mg/dia = 7,2 a 14,4 mL do xarope de 5 mg/mL | PCDT 2024; SBP 2021 |
| Gestante sem anemia (profilaxia) | 60 a 100 mg por dia + 400 mcg de ácido fólico, do 2º trimestre ou da 20ª semana até 3 a 6 meses após o parto | 1,5 a 2,5 comprimidos de 40 mg por dia | PCDT 2024, reproduzindo o Programa Nacional de Suplementação de Ferro |
As duas exceções à via oral
| Situação | Conduta |
|---|---|
| Intolerância absoluta ao ferro oral, ausência de resposta a 8 semanas em anemia grave, perda diária acima da capacidade absortiva (40 mg de ferro elementar por dia), gastroplastia ou gastrectomia, doença inflamatória intestinal, quimioterapia | Ferro endovenoso: sacarato de hidróxido férrico, dose total pela fórmula de Ganzoni (PCDT 2024) |
| Doença renal crônica | Ferro endovenoso, seguindo o protocolo nacional específico dessa condição (PCDT 2024) |
| Saturação da transferrina acima de 40% a 45%, ferritina igual ou acima de 500 ng/mL, infecção aguda, hipersensibilidade ao ferro, anemia não ferropriva; cautela na atopia e antes de 12 semanas de gestação | Ferro endovenoso contraindicado (PCDT 2024) |
| Hemoglobina abaixo de 7 g/dL com sintoma isquêmico, instabilidade hemodinâmica ou risco de vida | Transfundir concentrado de hemácias — e, estabilizado o paciente, repor ferro (Guia de hemocomponentes 2015; PCDT 2024) |
| Anemia crônica estável, hemoglobina entre 7 e 10 g/dL, paciente compensado | Não transfundir: repor ferro. A transfusão só entra quando a reposição foi insuficiente (Guia de hemocomponentes 2015) |
O que atrapalha e o que ajuda a absorção do sal ferroso
| Atrapalha | Ajuda |
|---|---|
| Tomar junto com a refeição: fitatos, fosfatos e tanatos ligam o ferro | Estômago vazio — 1 hora antes das refeições, entre elas ou antes de dormir |
| Leite, ovos, café, chá, chocolate, cereais integrais e cálcio na mesma tomada | Meio copo de suco de laranja, acerola ou limão junto do comprimido |
| Antiácidos, bloqueadores H2 e inibidores de bomba de prótons, que elevam o pH gástrico | Respeitar 2 horas antes ou 4 horas depois do antiácido — e reavaliar se o supressor de acidez ainda tem indicação |
| Quinolonas e tetraciclinas na mesma tomada | Espaçar os horários: o ferro também reduz a absorção desses antibióticos |
| Dose alta de uma vez: o pico de hepcidina reduz a fração absorvida das doses seguintes | Escalonar no início (40 a 80 mg por dia) e, se necessário, alternar os dias de administração |
| Espinafre e beterraba: ferro de baixa biodisponibilidade que ainda reduz a absorção do ferro medicamentoso | Carne vermelha, vísceras, aves e peixe — ferro heme. A dieta acompanha o comprimido, nunca o substitui |
Uma conta que precisa ser conferida antes de ser copiada. A versão vigente do protocolo nacional traz, no corpo do texto, a orientação de evitar doses diárias superiores a 200 mg, seguida da glosa 'equivalente a 40 mg de ferro elementar' — que converte o número para o peso do sal, como se o teto fossem 40 mg de ferro elementar ao dia. O quadro de esquemas do mesmo documento prescreve 120 mg de ferro elementar por dia para homens adultos e 100 a 200 mg para mulheres: três a cinco vezes o teto que a glosa acabou de fixar. A revisão brasileira que originou a frase, publicada no periódico da associação nacional de hematologia, escreve o mesmo limite sem glosa nenhuma, num parágrafo em que todas as doses são de ferro elementar. O teto é de 200 mg de ferro elementar por dia, e a glosa está errada. Este capítulo prescreve pela tabela de esquemas, coerente com a literatura de origem e com a prática nacional.
A conta do ferro endovenoso. A dose total vem da fórmula de Ganzoni: ferro em miligramas = (hemoglobina desejada menos a atual, em g/dL) × peso em quilos × 2,4 + 500. Para uma mulher de 60 kg com hemoglobina de 8 g/dL e alvo de 12: (12 − 8) × 60 × 2,4 + 500 = 1.076 mg. Com sacarato de hidróxido férrico, cada aplicação não passa de 200 mg (duas ampolas de 100 mg), com no máximo 500 mg por semana e intervalo mínimo de 48 horas — cerca de 6 aplicações em aproximadamente 3 semanas. Em gestantes, usa-se o peso de antes da gestação. Para calibrar a expectativa: duas aplicações de 200 mg elevam a hemoglobina em pelo menos 1 g/dL, o mesmo incremento de uma unidade de concentrado de hemácias.
A conduta, hora a hora
O relógio deste capítulo não é a hora, é o mês — e os dois primeiros marcos acontecem na mesma consulta, porque repor ferro e investigar a causa começam juntos. O que segue é a condução do senhor Sebastião, 62 anos, 68 quilos: hemoglobina 8,4 g/dL, volume corpuscular médio 71 fL, RDW 19%, plaquetas 480 mil, ferritina 6 ng/mL, saturação da transferrina 7%, proteína C reativa normal, reticulócitos 0,8%. Toma omeprazol há quatro anos, nega sangramento, não se consulta há uma década.
Toda dose vem com a fonte que a sustenta e com o número de comprimidos já calculado — o comprimido do SUS equivale a 40 mg de ferro elementar.
Consulta 1, primeiros minutos — fechar o diagnóstico e nomear a pergunta
O painel já responde: ferritina de 6 ng/mL, sem inflamação, com saturação de 7% e reticulócitos baixos. É anemia ferropriva, e não há mais o que investigar nesse eixo. Sobra a única pergunta que importa — de onde saiu o ferro. Homem de 62 anos não menstrua e não engravida; o supressor de acidez pode contribuir para má absorção, mas não deve encerrar a investigação de uma anemia ferropriva nova nessa idade. Perda digestiva é a hipótese principal, e precisa estar escrita no prontuário como hipótese.
Prescrição- Hipótese registrada: anemia ferropriva grave em homem de 62 anos — investigação obrigatória do trato digestivo (PCDT 2024: avaliação do trato digestivo é parte integrante e obrigatória, sobretudo em homens acima de 50 anos e mulheres pós-menopausa)
- Anamnese dirigida à perda: alteração de hábito intestinal, sangue nas fezes, fezes escurecidas, perda de peso, dor abdominal, dispepsia, história familiar de câncer colorretal, uso de anti-inflamatório, ácido acetilsalicílico e anticoagulante, doação de sangue, epistaxe, hematúria
- Exame físico dirigido: toque retal, linfonodos, massas abdominais e sinais de hepatopatia
Consulta 1 — a reposição, escrita por extenso
A prescrição precisa dizer três coisas que a folha típica não diz: quantos comprimidos, em que horário e o que não pode ser tomado junto. O escalonamento inicial não é zelo excessivo — os efeitos adversos são proporcionais à quantidade de ferro elementar ingerida e chegam a 40% ou mais dos pacientes, e é a intolerância, não a ineficácia, que faz a maior parte dos tratamentos falharem.
Prescrição- Sulfato ferroso em dose expressa como ferro elementar: uma opção inicial é 40 a 80 mg por via oral em tomada única diária (1 a 2 comprimidos de 40 mg), ajustando à tolerância e resposta. A AGA 2024 orienta no máximo uma tomada ao dia e admite dias alternados para melhor tolerância; as doses totais maiores do PCDT aparecem na tabela para consulta, sem obrigar escalada a três tomadas. Definir o esquema com o supervisor e registrar quantos comprimidos, frequência e próximo hemograma.
- Tomar com meio copo de suco cítrico; não tomar junto com leite, café, chá, chocolate, ovos, cereais integrais ou cálcio; antiácido, se usado, fica 2 horas antes ou 4 horas depois (PCDT 2014)
- Manter até corrigir a anemia e repor estoques, em geral por cerca de três meses após normalizar a hemoglobina, individualizando conforme perdas, inflamação e resposta. A ferritina de 30 ng/mL é uma referência do protocolo, não um ponto universal que determine suspensão independentemente do contexto.
- Orientar: fezes escurecidas são efeito esperado do ferro; pirose e desconforto epigástrico costumam aparecer 30 a 60 minutos após o comprimido e ceder em 2 a 3 dias (Cançado, RBHH 2010)
- Retorno em 30 dias, com hemograma e contagem de reticulócitos colhidos antes da consulta
Consulta 1 — o encaminhamento da causa, no mesmo dia
Este é o marco que decide o desfecho, e é o que mais se perde. O encaminhamento sai hoje, com a justificativa escrita, porque é ela que define a prioridade na regulação. Sangue oculto não entra como filtro: com sensibilidade de 46,7%, um resultado negativo erra em mais da metade das vezes.
Prescrição- Endoscopia digestiva alta e colonoscopia, os dois exames, com a justificativa escrita no pedido: 'anemia ferropriva grave (Hb 8,4 g/dL, ferritina 6 ng/mL) em homem de 62 anos — investigação de perda sanguínea digestiva; prioridade' (PCDT 2024)
- Sorologia para doença celíaca e pesquisa de Helicobacter pylori, conforme o achado endoscópico ou se as duas endoscopias vierem normais (PCDT 2014: a erradicação do H. pylori melhora a resposta à reposição de ferro)
- Pesquisar parasitoses conforme exposição e epidemiologia, especialmente ancilostomídeos como causa de perda crônica. Estrongiloidíase exige métodos apropriados quando suspeita, mas não deve ser apresentada como causa habitual equivalente de sangramento crônico nem substituir investigação digestiva neste homem.
- Revisar a indicação do omeprazol de uso crônico: manter só se houver indicação ativa, porque a supressão de acidez reduz a absorção do ferro (SBP 2021, entre os fatores de risco de má absorção)
Semana 2 — o contato curto que salva o tratamento
Um retorno breve, presencial ou por telefone, com uma finalidade só: descobrir se ele está tomando e se está tolerando. É nesta janela que o abandono acontece, por pirose, epigastralgia e náusea que aparecem 30 a 60 minutos depois do comprimido e que muitas vezes cedem sozinhas em dois a três dias, se alguém avisar.
Prescrição- Confirmar quantos comprimidos por dia ele está de fato tomando, e em que horário
- Intolerância leve: manter a dose e reforçar que os sintomas costumam ceder em 2 a 3 dias
- Intolerância persistente: tomar durante ou após a refeição — absorve-se menos, mas o tratamento continua e a duração se estende (Cançado, RBHH 2010); se ainda assim não tolerar, reduzir a dose ou alternar os dias de administração (PCDT 2024, quadro de monitoramento)
- Explicar que ferro pode escurecer as fezes; fezes negras pegajosas, com odor característico de melena, sangue, tontura ou piora clínica precisam de avaliação. Não atribuir automaticamente toda mudança de cor ao medicamento.
Semana 4 — a aferição que decide se o plano está certo
Avaliar a trajetória de hemoglobina e a tolerância em 2 a 4 semanas. Aumento de aproximadamente 1 a 2 g/dL nesse período é uma resposta frequente, variável com gravidade, esquema e perdas. Reticulócitos sobem antes, mas não precisam ser repetidos indiscriminadamente em todo retorno. Ausência de resposta exige rever adesão sem culpabilizar o paciente, dose, administração, sangramento persistente, má absorção e diagnósticos associados; não esperar oito semanas se o quadro está piorando.
Prescrição- Conferir hemograma e resposta clínica em duas a quatro semanas; esperar tendência de recuperação, frequentemente aumento de 1 a 2 g/dL de hemoglobina, sem usar esse intervalo como promessa individual. Reavaliar antes se houver sangramento, dispneia, síncope ou piora.
- Resposta ausente: revisar, nesta ordem — adesão real, forma de tomar o comprimido, sangramento em curso, diagnóstico incorreto e má absorção
- Conferir se a endoscopia e a colonoscopia foram agendadas; se não foram, reemitir e ligar para a regulação
Semana 8 a 12 — a hemoglobina normalizou, e o tratamento não acabou
É o ponto em que a maior parte dos tratamentos brasileiros termina, e por isso a maior parte deles recomeça. Hemoglobina normal significa que o ferro voltou para dentro das hemácias; não significa que existe estoque. Quem suspende aqui volta em oito meses com o mesmo hemograma e passa a ser rotulado de anemia de repetição.
Prescrição- Manter o sulfato ferroso na mesma dose (PCDT 2024: normalização da hemoglobina em 4 a 8 semanas é a fase 1; a reposição dos estoques leva mais 2 a 6 meses)
- Dosar ferritina — a meta é igual ou acima de 30 ng/mL (PCDT 2024)
- Dizer ao paciente, com data escrita, quando o tratamento termina e qual exame vai dizer isso
Mês 3 a 6 — a alta do tratamento, com a causa nomeada
Manter reposição por cerca de três meses após normalizar a hemoglobina, ajustando à tolerância, à causa e à recuperação das reservas. Ferritina isolada de 30 ng/mL não define suspensão; interpretar ferritina e saturação da transferrina com inflamação e perdas persistentes. Tratar e acompanhar a fonte da deficiência; falha ou recorrência pede rever perda, absorção, administração, inflamação e diagnóstico, sem atribuí-la automaticamente à adesão.
Prescrição- Considerar suspensão após correção da anemia, reposição de estoques e plano para a causa, interpretando ferritina com inflamação e tempo de tratamento. Ferritina ≥ 30 ng/mL isoladamente não demonstra que o tratamento está concluído.
- Hemograma de controle 3 meses após a suspensão — recidiva precoce significa que a causa continua ativa
- Registrar por escrito, na alta: qual era a causa, o que foi feito, qual a data do último exame e o que traz o paciente de volta antes do retorno
- Causa persistente e não corrigível (menorragia mantida, telangiectasias, doença inflamatória intestinal): programar reposição intermitente com monitorização da ferritina, em vez de ciclos de tratamento e abandono
A qualquer momento — quando o ferro sai da boca e vai para a veia
O ferro endovenoso é exceção com indicação escrita, não atalho para ganhar tempo. Ele entra na intolerância absoluta à via oral, na resposta insuficiente ao tratamento oral adequadamente utilizado, com decisão mais precoce quando a gravidade, a má absorção ou a necessidade clínica justificarem, na perda diária que supera a capacidade de absorção, na má absorção anatômica ou de mucosa e na doença inflamatória intestinal. É administrado em ambiente hospitalar, sem internação para pernoite, e não exige dose teste.
Prescrição- Sacarato de hidróxido férrico 20 mg/mL, ampola de 5 mL (100 mg de ferro). Calcular a dose total pela fórmula de Ganzoni: (Hb desejada − Hb atual) × peso (kg) × 2,4 + 500 (PCDT 2024; Rename 2024)
- Diluir cada 100 mg em 100 mL de cloreto de sódio 0,9% e infundir lentamente em 30 a 45 minutos, 1 a 3 vezes por semana, com intervalo mínimo de 48 horas, sem ultrapassar 200 mg por aplicação nem 500 mg por semana (PCDT 2024)
- Aprofundamento pediátrico: não extrapolar uma diluição fixa de 200 mL para toda criança. Dose, concentração, volume e tempo dependem de peso, apresentação e protocolo pediátrico; a prescrição deste capítulo é para adultos e deve respeitar a bula específica do produto disponível.
- Não administrar se houver saturação da transferrina acima de 40% a 45%, ferritina igual ou acima de 500 ng/mL, infecção aguda ou anemia não ferropriva (PCDT 2024)
- Não usar ferro endovenoso na véspera de parto ou de cirurgia esperando corrigir a anemia a tempo: a formação de novas hemácias leva de 7 a 10 dias (PCDT 2024)
A qualquer momento — quando é transfusão (e por que quase nunca é)
A transfusão é decidida pela gravidade clínica, estabilidade, sangramento, isquemia e alternativas, em conjunto com a hemoglobina. Adulto estável com anemia ferropriva costuma ser tratado com ferro e investigação da causa. Hemoglobina abaixo de 7 g/dL é um limiar frequente para considerar transfusão no hospital, não uma ordem automática nem uma exigência de esperar instabilidade. Doença cardiovascular, infarto agudo e outras situações têm recomendações próprias. Reavaliar após cada unidade quando não houver hemorragia maciça.
Prescrição- Considerar concentrado de hemácias em anemia grave conforme sintomas, reserva fisiológica e Hb, frequentemente < 7 g/dL no adulto hospitalizado estável. Sangramento com choque ou isquemia exige decisão imediata, podendo haver indicação antes de a Hb cair abaixo desse corte.
- Não manter todo pneumopata acima de 10 g/dL nem usar idade > 65 anos como gatilho isolado de 9 g/dL. Em doença cardiovascular preexistente estável, pode-se usar limiar de 8 g/dL conforme contexto (AABB 2023). Infarto agudo requer discussão e recomendação específica atualizada, sem extrapolar automaticamente o limiar de 7 g/dL.
- Uma unidade de concentrado de hemácias eleva a hemoglobina em cerca de 1 g/dL e o hematócrito em 3% no adulto; em pediatria, 10 a 15 mL/kg. Infundir em 60 a 120 minutos e reavaliar a hemoglobina 1 a 2 horas depois (Guia 2015)
- Transfundido o paciente, a reposição de ferro continua: a transfusão trata o número, não a causa nem o estoque (PCDT 2024)
Como saber se está funcionando
Este é o tratamento em que o paciente melhora e o médico relaxa. A reavaliação, aqui, tem duas colunas que precisam ser olhadas lado a lado: a resposta ao ferro e o andamento da investigação da causa. Um paciente com hemoglobina normal e colonoscopia não realizada não é um caso resolvido — é um caso perdido de vista.
Esperado: Elevação de reticulócitos precede a melhora da hemoglobina; aumento de aproximadamente 1 a 2 g/dL em 2 a 4 semanas apoia resposta. O grau esperado depende da anemia inicial, dose, adesão, absorção e perdas; não importar automaticamente um corte pediátrico para o adulto.
Se não melhora: Antes de trocar de droga ou de via, revise nesta ordem: adesão real (quantos comprimidos ele tomou de fato); modo de tomar, já que leite, café ou antiácido anulam boa parte da absorção; sangramento em curso, que consome o que está entrando; diagnóstico incorreto, sobretudo talassemia e anemia de doença crônica; e má absorção, com o teste de absorção intestinal documentando a suspeita. Ausência de resposta em 8 semanas de tratamento bem-feito em anemia grave é, ela própria, critério de ferro endovenoso.
Esperado: Melhora ou desaparecimento de fadiga, irritabilidade e intolerância ao exercício, com desaparecimento da alotriofagia e da síndrome das pernas inquietas. As papilas linguais se reconstituem ao longo de semanas a meses e a queda de cabelo melhora a partir de 45 a 60 dias.
Se não melhora: Rever a evolução objetiva e investigar outras causas de fadiga, tolerância, acesso ao medicamento e persistência das perdas. Ausência de melhora subjetiva não demonstra, por si só, que o paciente deixou de tomar os comprimidos.
Esperado: Recuperação de hemoglobina e reservas ao longo do tratamento. Interpretar ferritina com inflamação e perdas; o limite de 30 ng/mL do PCDT é referência contextual, não critério isolado de suspensão.
Se não melhora: Ferritina que não sobe apesar de hemoglobina normal significa que o ferro está sendo consumido tão rápido quanto entra — a causa continua ativa. Não é indicação de aumentar a dose, é indicação de voltar à investigação. Se a causa é conhecida e não corrigível, programe reposição intermitente com monitorização.
Esperado: Paciente tomando o número de comprimidos prescrito, no horário prescrito, com efeitos adversos toleráveis.
Se não melhora: A escada vale mais que trocar de composto: tomar durante ou após a refeição (absorve menos, mas o tratamento continua e a duração se estende), reduzir a dose, ou alternar os dias de administração. Doses abaixo de 60 mg de ferro elementar por dia têm frequência de efeitos adversos semelhante à do placebo, e dose menor tomada vale mais que dose cheia abandonada. Intolerância que resiste a tudo isso é critério para ferripolimaltose, incorporada ao SUS exatamente para quem não tolera sulfato ferroso, e, na intolerância absoluta com vômitos incoercíveis, para ferro endovenoso.
Esperado: Endoscopia e colonoscopia realizadas, ou com data marcada e registrada em prontuário.
Se não melhora: Exame não agendado depois de 30 dias exige ação: reemitir o pedido com a justificativa escrita, contatar a regulação, considerar via alternativa. Este é o item que mais desaparece do prontuário justamente porque o paciente está melhorando — a melhora clínica retira do médico a urgência que motivava a busca. Escreva a pendência em toda evolução até ela ser resolvida.
Esperado: Hemoglobina e índices mantidos sem reposição.
Se não melhora: Recidiva precoce tem dois significados, e a ferritina do momento da suspensão separa os dois: ou o tratamento foi curto demais e os estoques nunca encheram, ou a causa continua perdendo sangue. Paciente rotulado de anemia de repetição quase sempre é paciente que nunca completou um tratamento inteiro ou nunca teve a causa nomeada.
Onde o erro machuca
O dano: É o erro central do capítulo, e o mais elegante: o paciente melhora. A hemoglobina sobe, o cansaço passa, e o tumor de cólon que sangrava 5 mL por dia continua crescendo — agora sem nem o hemograma alterado que denunciava sua existência. Numa colonoscopia anormal de paciente com ferropenia, o achado é doença neoplásica em pelo menos metade dos casos, e o protocolo nacional é explícito ao dizer que tratar a anemia sem investigar a causa pode significar a perda da oportunidade de identificar doença maligna em fase potencialmente curável.
Como pegar a tempo: Escreva o encaminhamento no mesmo dia da prescrição, com a justificativa clínica no pedido. Trate anemia ferropriva como um achado que exige uma segunda linha no prontuário — a causa — e considere o caso aberto enquanto essa linha estiver em branco.
O dano: Hemoglobina normal significa que o ferro que entrou foi todo para as hemácias; o estoque continua vazio. Quem para aqui volta em seis a doze meses com o mesmo hemograma e ganha o rótulo de anemia de repetição, que passa a ser tratado como característica do paciente em vez de consequência de um tratamento interrompido.
Como pegar a tempo: Manter reposição por cerca de três meses após normalizar a hemoglobina, ajustando à tolerância, à causa e à recuperação das reservas. Ferritina isolada de 30 ng/mL não define suspensão; interpretar ferritina e saturação da transferrina com inflamação e perdas persistentes. Tratar e acompanhar a fonte da deficiência; falha ou recorrência pede rever perda, absorção, administração, inflamação e diagnóstico, sem atribuí-la automaticamente à adesão.
O dano: É o erro que produz o diagnóstico oposto do correto. No paciente com artrite reumatoide, neoplasia, infecção crônica ou hepatopatia, a inflamação multiplica a ferritina por cerca de três — e uma ferritina de 90 com saturação da transferrina de 11% é deficiência de ferro real lida como estoque normal. O paciente sai sem tratamento, com a anemia atribuída à doença de base, e segue anêmico por anos.
Como pegar a tempo: Peça proteína C reativa junto com a ferritina, sempre. Em quem tem inflamação, quem decide é a saturação da transferrina: abaixo de 20%, há deficiência de ferro a tratar, qualquer que seja a ferritina.
O dano: A sensibilidade da pesquisa de sangue oculto em população brasileira foi de 46,7%: o exame erra em mais da metade das vezes quando negativo. Cancelar endoscopia e colonoscopia com base nele é substituir dois exames bons por um ruim, com a agravante de vir acompanhado da falsa sensação de que a investigação foi feita.
Como pegar a tempo: Trate o sangue oculto como exame que só serve quando positivo. Em quem tem indicação de investigação bidirecional, peça a endoscopia e a colonoscopia direto.
O dano: A dose se prescreve em ferro elementar, e o do SUS equivale a 40 mg de ferro elementar por comprimido — de modo que a dose do homem adulto, 120 mg por dia, são três comprimidos, e não um. Prescrever 'um comprimido' entrega um terço da dose e produz um tratamento lento, depois interpretado como falha terapêutica. A conta do idoso é o caso extremo: 15 mg de ferro elementar por dia não cabem em nenhuma fração razoável do comprimido de 40 mg, e precisam ser prescritos em 0,6 mL da solução oral de 25 mg/mL ou em 3 mL do xarope de 5 mg/mL.
Como pegar a tempo: Escreva sempre a dose em miligramas de ferro elementar, o número de comprimidos ou o volume em mililitros, o horário em relação às refeições, o que não pode ser tomado junto e a duração com o alvo de ferritina. Antes de assinar, faça a divisão: dose desejada dividida pelo conteúdo da apresentação disponível.
O dano: Falha de tratamento quase nunca é falha da droga. As causas mais frequentes são persistência da perda de sangue, uso inadequado do medicamento, doença coexistente, diagnóstico incorreto e deficiências nutricionais combinadas. Rotular de refratário sem checar isso leva a trocar por composto mais caro sem necessidade e a indicar ferro endovenoso, com seus riscos de hipersensibilidade, a quem só precisava tomar o comprimido em jejum.
Como pegar a tempo: Pergunte quantos comprimidos ele tomou nesta semana, em que horário e com o quê, e confira a receita inteira à procura de inibidor de bomba de prótons, antiácido e cálcio. Estima-se que a quantidade de ferro absorvida com um comprimido antes da refeição equivalha à de três comprimidos depois da refeição — a diferença entre tomar certo e tomar errado é dessa ordem, e sozinha explica a maioria das falhas.
O dano: A anemia crônica com normovolemia é muito melhor tolerada que a aguda, e o paciente já se adaptou ao valor que assusta quem lê o exame. Transfundir sem indicação expõe a reações transfusionais, aloimunização e sobrecarga volêmica, consome hemocomponente escasso e resolve o número — tirando a urgência de investigar a causa e de repor o estoque, que continuam onde estavam.
Como pegar a tempo: Use a régua nacional: acima de 10 g/dL, quase nunca; entre 7 e 10 g/dL a decisão é clínica; abaixo de 7 g/dL com sintomas de hipóxia, sim. Em anemia crônica, a transfusão só entra quando a reposição de ferro, folato ou vitamina B12 foi insuficiente. Transfundido o paciente, o ferro continua sendo prescrito.
O que dizer ao paciente e à família
Duas conversas decidem este tratamento: a que convence o paciente a fazer um exame invasivo quando ele já está se sentindo bem, e a que o faz continuar tomando comprimido depois de melhorar. As duas se perdem por pressa. As falas abaixo são para dizer em voz alta, do jeito que estão.
"É só anemia, doutor? Minha mãe também tinha."
“Anemia por falta de ferro não é uma doença que a pessoa simplesmente tem: é sinal de que o ferro está saindo por algum lugar. No corpo de um homem adulto o ferro praticamente não vai embora sozinho — se acabou o estoque, alguma coisa está tirando. Repor é a parte fácil, e começa hoje. A outra parte é descobrir de onde ele sai, e é mais importante, porque a causa pode ser tratável agora e difícil depois.”
Não diga: "É só anemia, vou passar um remedinho." Esse enquadramento tira do paciente a razão para fazer os exames que vêm a seguir, e ele vai faltar a eles com a consciência tranquila.
Ele resiste à colonoscopia: "mas eu não tenho nada no intestino"
“O senhor tem razão em não estar sentindo nada — e é exatamente esse o problema que eu quero afastar. Esse tipo de sangramento é pequeno, todo dia, e não aparece no vaso: o senhor não veria nem se estivesse acontecendo agora. O exame não é para confirmar uma suspeita que eu já tenho; é para não deixar passar uma coisa que, achada agora, se resolve, e achada daqui a dois anos, não.”
Não diga: "É rotina." Chamar de rotina um exame com preparo desagradável é o caminho mais rápido para a falta. Diga o que se procura e o que muda se for encontrado.
"O comprimido está me embrulhando o estômago, e a fezes ficou preta"
“As duas coisas são esperadas e nenhuma é perigosa. As fezes escuras são o próprio ferro saindo, não é sangue. O enjoo costuma aparecer meia hora depois do comprimido e melhorar sozinho em dois ou três dias. Se não melhorar, a gente não desiste do tratamento: primeiro tenta tomar junto com a comida, que absorve menos mas continua funcionando; se ainda incomodar, diminui a dose ou passa a tomar dia sim, dia não. O que eu não quero é que o senhor pare por conta e volte daqui a seis meses do mesmo jeito.”
Não diga: "Toma que passa." O abandono acontece nesta janela, e a lista de saídas precisa ser oferecida antes de o paciente decidir parar.
Terceiro mês: "já estou ótimo, posso parar?"
“O senhor está ótimo mesmo, e o exame confirma: o sangue voltou ao normal. Só que o corpo tem duas contas separadas. A primeira é o sangue circulando, e essa já está paga. A segunda é a reserva, o ferro guardado, e essa ainda está zerada — é ela que impede a anemia de voltar. Vamos continuar até um exame chamado ferritina chegar a trinta; eu peço daqui a dois meses, e é ele que diz o dia de parar, não o quanto o senhor está se sentindo bem.”
Não diga: "Pode parar, já normalizou." É a frase que produz a chamada anemia de repetição — que quase nunca é repetição de doença, e quase sempre é repetição de tratamento interrompido.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Dose diária fracionada em duas ou três tomadas
O quadro de esquemas do protocolo nacional determina, no tratamento com sulfato ferroso, usar o medicamento no intervalo das refeições e dividir a dose diária em três administrações. A revisão brasileira que embasa esse esquema recomenda fracionar em duas ou três tomadas justamente para reduzir eventos adversos, que são proporcionais à quantidade de ferro elementar de cada tomada e chegam a 40% ou mais dos pacientes.
PCDT Anemia na Deficiência de Ferro (Conitec, 2024), Quadro 7; Cançado RD et al., Rev Bras Hematol Hemoter 2010;32(Supl.2):114-120
Dose única diária ou dias alternados
O mesmo protocolo lista, entre as condutas de monitoramento, a diminuição da dose, a adequação da posologia, o uso com a refeição ou a alternância dos dias de administração, para manter o tratamento e melhorar a adesão. O argumento fisiológico é o teto absortivo: 40 mg de ferro elementar por dia é o máximo que o intestino interioriza, de modo que doses repetidas no mesmo dia rendem proporcionalmente menos.
PCDT Anemia na Deficiência de Ferro (Conitec, 2024), Quadro 10 e item 8.2.1
As duas posições estão no mesmo documento e não se anulam: a primeira otimiza a quantidade absorvida por dia, a segunda otimiza a chance de o paciente continuar tomando. O que decide é qual dos dois é o fator limitante neste paciente. Se ele tolera bem, fracione e alcance a dose cheia — em anemia grave, com hemoglobina de 8 ou menos, ganhar semanas importa. Se já está enjoado na primeira semana, o fator limitante deixou de ser a absorção e passou a ser a adesão: dose menor todo dia, ou dose cheia em dias alternados, vale mais que dose cheia abandonada. Duas travas fecham a decisão: escalone no início, em vez de descobrir a intolerância com a dose máxima; e escreva o horário em relação às refeições, porque a diferença entre jejum e pós-refeição é da ordem de três comprimidos para um.
Seis meses após a normalização da hemoglobina
A versão publicada pela Portaria SAS/MS nº 1.247/2014 fixa que o tratamento deverá ser por 6 meses após a hemoglobina ter normalizado, tempo necessário para repor as reservas. É regra de calendário, que não depende de exame adicional e sobrevive em serviço sem acesso fácil a ferritina de controle.
PCDT Anemia por deficiência de ferro (Portaria SAS/MS nº 1.247, de 10/11/2014), item 8.5
Até a ferritina alcançar 30 ng/mL, com mínimo de 90 dias
A versão vigente estabelece que o tratamento deve durar o suficiente para normalizar a hemoglobina, em torno de 4 a 8 semanas, e restaurar os estoques, em 2 a 6 meses, ou até ferritina sérica igual ou acima de 30 ng/mL — com mínimo de 90 dias, podendo passar de 6 meses. E define que é a normalização da ferritina que sinaliza a suspensão.
PCDT Anemia na Deficiência de Ferro (Conitec, 2024), itens 8.2.1 e 9
Manter reposição por cerca de três meses após normalizar a hemoglobina, ajustando à tolerância, à causa e à recuperação das reservas. Ferritina isolada de 30 ng/mL não define suspensão; interpretar ferritina e saturação da transferrina com inflamação e perdas persistentes. Tratar e acompanhar a fonte da deficiência; falha ou recorrência pede rever perda, absorção, administração, inflamação e diagnóstico, sem atribuí-la automaticamente à adesão.
Obrigatória em qualquer paciente com anemia ferropriva
A versão vigente do protocolo nacional afirma que a avaliação do trato digestivo é parte integrante e obrigatória na investigação de qualquer paciente com anemia por deficiência de ferro, destacando homens acima de 50 anos e mulheres pós-menopausa, e acrescenta que a presença de anemia ferropriva isolada já demanda essa investigação. O argumento é o rendimento: colonoscopia anormal nesse contexto revela doença neoplásica em pelo menos metade dos casos.
PCDT Anemia na Deficiência de Ferro (Conitec, 2024), item 4
Dirigida a quem não tem outra explicação para a perda
A versão de 2014 do mesmo protocolo circunscreve a recomendação: a anemia ferropriva pode apontar para doença grave subjacente com sangramento oculto, que deve ser afastada com investigação adequada em homens e mulheres na pós-menopausa, principalmente quanto ao diagnóstico precoce da doença maligna colorretal. Nessa leitura, mulher em idade reprodutiva com menorragia documentada e anemia proporcional tem causa identificada, e a investigação endoscópica não é automática.
PCDT Anemia por deficiência de ferro (Portaria SAS/MS nº 1.247, de 10/11/2014), item 2
A divergência é de escopo, e o efeito prático é grande: uma leitura manda colonoscopar toda mulher de 28 anos com ferritina de 9, a outra manda tratar e observar. Três perguntas resolvem quase todos os casos. Existe explicação suficiente para o tamanho da perda — menstruação quantificada, gestações sucessivas, doação frequente, cirurgia bariátrica? Se existe e a anemia é proporcional, trate e reavalie. A explicação é presumida, não quantificada, ou a anemia é desproporcional a ela? Então virou álibi, e o trato digestivo entra. Há sintoma digestivo, perda de peso, alteração de hábito intestinal, história familiar de câncer colorretal, uso de anti-inflamatório ou anticoagulante, ou o paciente é homem adulto ou mulher pós-menopausa? Aí as duas leituras concordam. E um critério de reversibilidade desempata o resto: a colonoscopia adiada em quem não precisava custa uma fila; a não feita em quem precisava custa um estádio.
O raciocínio, em voz alta
Volte ao senhor Sebastião, 62 anos, 68 quilos, pedreiro aposentado. Cansaço há oito meses, hemoglobina 8,4 g/dL, volume corpuscular médio 71 fL, RDW 19%, plaquetas 480 mil. Toma omeprazol há quatro anos, nega sangramento. Acompanhe o raciocínio de quem conduz a consulta em voz alta.
o que eu penso antes de pedir qualquer coisa
Anemia microcítica com RDW alto e trombocitose num homem de 62 anos. O RDW alto já me afasta da talassemia, em que as hemácias são todas igualmente pequenas, e a trombocitose é reativa, a favor de perda crônica. Peço o painel inteiro de uma vez — ferritina, ferro sérico com capacidade total de ligação, proteína C reativa e reticulócitos —, porque fatiar isso me custaria duas consultas num paciente que pode ter um tumor.
o painel volta, e ele fecha um diagnóstico e abre outro
Ferritina 6 ng/mL, saturação 7%, proteína C reativa normal, reticulócitos 0,8%. Ferritina abaixo de 30 sem inflamação não tem falso-positivo: é ferro. O eixo 'qual anemia' está encerrado, e eu não vou gastar mais nenhum exame nele. O que se abre agora é o eixo que decide o desfecho: um homem de 62 anos não menstrua, não engravida, e uma ferritina de 6 não se produz com dieta. Alguém está perdendo sangue.
onde eu quase erro: o omeprazol como explicação
É tentador parar aqui. O supressor de acidez há quatro anos reduz mesmo a absorção de ferro e está entre os fatores de risco de má absorção. Mas o tamanho não bate: isso não zera um estoque de 1 grama até chegar a ferritina de 6 com hemoglobina de 8,4. Reviso a indicação do omeprazol, que provavelmente já não existe, e registro que essa não é a causa — é um agravante. Aceitar um agravante como causa é o mesmo erro de aceitar a menstruação como álibi numa mulher com hemoglobina de 7.
as duas coisas que saem hoje, e não uma depois da outra
Escrevo a reposição em ferro elementar: sulfato ferroso 40 a 80 mg em tomada única diária, ajustado à tolerância; dias alternados são opção quando necessários. Não aumentar automaticamente a três comprimidos. Orientar a administração e interferências de leite, café, chá, cálcio e antiácidos; adaptar à tolerância para que o esquema seja viável. Manter em geral por cerca de três meses após normalizar a hemoglobina e avaliar recuperação das reservas e perdas, sem usar ferritina de 30 isoladamente como ordem de suspender. Na mesma consulta, encaminhar para endoscopia digestiva alta e colonoscopia, com justificativa e prioridade; sangue oculto não decide se esse homem com ferropenia deve ser investigado.
o que eu combino, e o que eu vou olhar primeiro
Explico que a melhora dos sintomas pode preceder a recuperação completa e não autoriza interromper. Retorno em duas a quatro semanas, com hemograma, tolerância e administração revistos; aumento de 1 a 2 g/dL é frequente, mas não garantido em cada paciente. Aviso sobre fezes escuras e desconforto gastrointestinal e ofereço adaptação do esquema. Piora, sangramento ou sintomas de instabilidade antecipam o retorno. A investigação digestiva permanece acompanhada, com responsável e data para conferir os resultados.
quatro semanas depois
Hemoglobina 10,6 g/dL — subiu 2,2. O teste terapêutico confirmou o diagnóstico e ele está ótimo. A colonoscopia ainda não foi agendada, e é aqui que o caso se perde na vida real: o paciente melhorou, a queixa sumiu, e a pendência vira uma linha que ninguém lê. Ligo para a regulação e reemito o pedido.
Faça você
Agora é a dona Cleide, 34 anos, 62 quilos, professora, na consulta de rotina. Refere cansaço e queda de cabelo há um ano e conta que menstrua 'bastante, mas sempre foi assim' — sete dias, trocando absorvente noturno duas vezes por noite, com coágulos. Usa dispositivo intrauterino de cobre há três anos. Hemoglobina 9,2 g/dL, volume corpuscular médio 74 fL, RDW 17,5%, ferritina 8 ng/mL, saturação da transferrina 9%, proteína C reativa normal, reticulócitos 1,0%. Sem sintoma digestivo, sem perda de peso, sem história familiar de câncer colorretal.
o que o painel já resolveu
Ferritina de 8 com proteína C reativa normal fecha deficiência de ferro sem margem para dúvida, e a saturação de 9% confirma que a oferta à medula está insuficiente. Não há o que investigar no eixo 'qual anemia'.
a explicação disponível, e o teste que ela precisa passar
Menorragia é a causa isolada mais frequente nessa faixa etária, e aqui ela não é presumida: está quantificada — sete dias, dois absorventes noturnos por noite, coágulos, dispositivo intrauterino de cobre, que aumenta o fluxo. A pergunta do protocolo nacional é de proporção: essa perda explica uma hemoglobina de 9,2?
o que ainda pode estar somando
Estima-se que 10% a 20% das mulheres em idade reprodutiva com deficiência de ferro tenham sangramento digestivo associado. E há causas de má absorção que não dão sintoma digestivo evidente — doença celíaca é a que mais passa despercebida nessa idade.
o que a idade dela muda em relação ao caso anterior
Ela não está nos dois grupos em que a investigação bidirecional é obrigatória de saída. Isso não a dispensa de investigação: desloca o critério da idade para a proporcionalidade e para a resposta ao tratamento.
conduta: escreva o plano completo desta consulta, item por item
— sua vez —
Ver como fecharíamos
O plano se organiza em três frentes que saem hoje. Reposição: sulfato ferroso, comprimido equivalente a 40 mg de ferro elementar, em esquema inicial de 40 a 80 mg de ferro elementar em tomada única diária, ou dias alternados se necessário, com resposta e tolerância verificadas; as faixas do PCDT permanecem como referência de consulta, sem escalada automática; com suco cítrico, longe de leite, café, chá e cálcio; manutenção em geral por cerca de três meses após normalização da hemoglobina, com recuperação das reservas avaliada no contexto, sem suspensão automática por ferritina de 30 ng/mL. Causa principal: o sangramento menstrual aumentado é uma hipótese relevante, mas não existe proporção exata entre absorventes e hemoglobina que exclua outra causa — e aceita significa tratada, não anotada; encaminhamento ginecológico para avaliar o dispositivo intrauterino de cobre, que aumenta o fluxo, e para manejar o sangramento uterino aumentado. Causas somadas: sorologia para doença celíaca, porque má absorção sem sintoma digestivo é frequente nessa idade, e revisão da receita à procura de anti-inflamatório de uso frequente para cólica. Reavaliação com data: hemograma em duas a quatro semanas, avaliando tolerância e tendência de resposta, frequentemente aumento de 1 a 2 g/dL, sem atribuir resposta menor automaticamente à adesão. E o gatilho que abre a investigação bidirecional, escrito desde já: se a hemoglobina não subir apesar de adesão confirmada, se a anemia recorrer depois de tratamento completo, ou se aparecer sintoma digestivo, perda de peso ou alteração de hábito intestinal — a menorragia deixou de explicar, e endoscopia e colonoscopia entram como entrariam num homem de 62 anos.
O conjunto é típico e se resolve sem exame novo: microcitose intensa desproporcional ao grau de anemia, número de hemácias normal ou alto, RDW normal e ferro em ordem. Na ferropenia o padrão é o oposto. A confirmação é a hemoglobina A2 aumentada na eletroforese; havendo ferropenia associada, corrige-se o ferro antes de quantificar a A2, porque a deficiência reduz a A2 e mascara a talassemia. Repor ferro em quem não tem deficiência é nocivo: não existe via regulada de excreção de ferro.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Monte a investigação de anemia microcítica e explique quando a ferritina pode enganar. Apresente ao paciente o plano de reposição, os efeitos esperados e os sinais de retorno.
Em 30 dias
Uma paciente não melhorou como esperado após reposição: investigue doses realmente tomadas, tolerância, perda contínua, inflamação e absorção. Justifique eventual mudança de via e por que a indicação de transfusão não depende apenas de um número.
Agora atenda
Agora atenda: mulher de 67 anos, na pós-menopausa há quinze anos, chega ao ambulatório com cansaço progressivo e um hemograma trazido de fora, com hemoglobina de 7,9 g/dL e volume corpuscular médio de 69 fL. Nega sangramento. Faz uso de ácido acetilsalicílico e de omeprazol. Conduza a consulta: peça o painel certo de uma vez, interprete a ferritina com a inflamação ao lado, calcule a dose em ferro elementar e diga quantos comprimidos são, abra a investigação da causa no mesmo dia, e explique a ela, em voz alta, por que um exame de intestino é necessário mesmo sem nenhum sintoma.
