Pediatria › Imunologia Pediátrica
O joelho que inchou sem pancada
Artrite idiopática juvenil: formas clínicas e diagnóstico
Reconhecer artrite persistente, excluir causas urgentes e encaminhar precocemente; acompanhar articulações, função, olhos e segurança do tratamento com participação da criança e da família.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde. Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 34, de 19 de janeiro de 2026. Aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Artrite Idiopática Juvenil. Brasília: Ministério da Saúde; 2026.
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Responda antes de ler
Menino de 6 anos, 21 kg, internado com artrite idiopática juvenil sistêmica, no quarto dia de prednisona após pulso de metilprednisolona. A febre, que estava controlada, voltou há 12 horas e não baixa entre as medidas; há sangramento gengival e sonolência. Admissão × hoje: plaquetas 486.000 × 176.000/mm³; VHS 96 × 18 mm/h; PCR 14,2 × 11,8 mg/dL; ferritina 1.850 × 12.400 ng/mL; AST 38 × 164 U/L; triglicerídeos 142 × 318 mg/dL; fibrinogênio 520 × 170 mg/dL. Qual é a interpretação e a conduta imediata?
O paciente que você vai ver
Quarta-feira, oito e quarenta da manhã, ambulatório de pediatria geral de uma policlínica que recebe encaminhamentos de onze unidades básicas. A agenda tem dezesseis nomes e a sua preceptora, a pediatra Dra. Sofrônia Prudente, está na sala ao lado com uma criança que chegou chiando. Você é o interno da manhã e o terceiro prontuário da pilha é o de Alaíde Cravinhos, 3 anos e 4 meses. O papel de referência da unidade básica diz, numa linha: «joelho inchado, já foi à UPA duas vezes, mãe preocupada».
A mãe, Urbana, entra com a menina no colo e com uma pasta de plástico debaixo do braço. O joelho direito começou a inchar há sete semanas — ela sabe a data porque foi na semana do aniversário da avó. Ninguém viu queda. Alaíde não chora de dor; o que a mãe e a creche perceberam foi outra coisa: de manhã, ao sair da cama, a menina anda mancando, como se o joelho estivesse duro, e depois de meia hora de brincadeira «esquece e corre». A professora mandou um bilhete na semana passada: Alaíde deixou de subir no escorregador e fica sentada no tapete enquanto as outras crianças brincam no pátio.
Na pasta estão as duas passagens pela UPA. Na primeira, cinco semanas atrás, o atendimento registrou «trauma?», receitou ibuprofeno por três dias e compressa gelada. Na segunda, há quinze dias, fizeram uma radiografia do joelho, laudada como «aumento de partes moles, sem lesão óssea», e um pedido de «provas reumáticas»: ASLO de 320 UI/mL, fator reumatoide negativo, proteína C reativa de 1,4 mg/dL e mucoproteínas «elevadas». Escreveram «sinovite, deve regredir» e deram alta. A avó, que ficou na sala de espera, acha que é caso de ortopedista para «tirar o líquido» e de uma injeção de corticoide «para secar de uma vez».
Você examina. Alaíde está afebril (36,6 °C), corada, brincando com a caneta do seu bolso. Pesa 14,2 kg e mede 96 cm, e os dois pontos caem no mesmo canal das medidas anteriores da caderneta. Não há gânglio aumentado no pescoço, na axila nem na virilha; o fígado não passa do rebordo costal e o baço não é palpável; a pele não tem mancha roxa nem petéquia. O joelho direito está visivelmente maior que o esquerdo, com derrame que flutua sob os dedos, um pouco mais quente, sem vermelhidão. Ela não estende o joelho por completo — faltam uns dez graus — e reclama quando você força a flexão no fim do movimento. A coxa direita parece mais fina.
Você faz o que a pressa costuma pular: examina as outras articulações, uma a uma. Mandíbula abrindo sem desvio, pescoço girando para os dois lados, ombros, cotovelos, punhos e os dedos das mãos sem inchaço, quadris girando sem dor, tornozelos e pés sem nada. Um joelho só. Os olhos estão brancos, brilhantes, sem lacrimejamento; a mãe diz que a menina enxerga tudo — «vê formiguinha no chão do quintal».
Quando você volta à mesa, Urbana faz a pergunta que trouxe de casa: «Doutor, as provas reumáticas deram alteradas. Ela está com reumatismo no sangue? Vai precisar de benzetacil?» E, antes que você responda, completa: «Se for para passar outro anti-inflamatório de três dias, eu prefiro que o senhor encaminhe logo para o ortopedista tirar esse líquido».
O relógio da parede marca oito e cinquenta e cinco. A preceptora vai passar na sua sala em vinte minutos. Até lá você precisa decidir se aquilo é artrite ou só dor, há quanto tempo, e o que tem de ser afastado antes de dar a qualquer coisa um nome — infecção, leucemia, trauma que não foi contado. Precisa decidir que exames saem hoje e com que pergunta escrita ao lado de cada um, o que não vai para a receita, e para quem vai o encaminhamento. E precisa se lembrar de um exame que ninguém pediu nas duas passagens pela UPA, porque o olho da menina não dói, não fica vermelho e não avisa.
Quem adoece disso
A epidemiologia deste capítulo tem uma assimetria que o interno precisa carregar para o ambulatório: a artrite idiopática juvenil é a doença reumática crônica mais comum da criança, e ainda assim é rara perto de tudo o que faz uma criança mancar. O protocolo federal de 2026 registra incidência de 2 a 20 casos por 100.000 por ano e prevalência em torno de 16 a 150 por 100.000, números de coortes europeias e norte-americanas, e declara que o Brasil não tem estudo epidemiológico próprio — estima-se que a doença seja tão frequente aqui quanto lá. Não há, portanto, número brasileiro para dimensionar a fila; há a certeza de que, numa policlínica com onze unidades de referência, Alaíde não é a única.
A consequência prática da raridade é que a doença chega tarde. O caminho de Alaíde — duas passagens pela UPA, um «trauma?» sem queda, uma «sinovite que deve regredir» — é o caminho comum, porque cada atendimento isolado vê uma articulação inchada há poucos dias e não vê as sete semanas. O protocolo dá à atenção primária um papel explícito: identificar a doença no estágio inicial e encaminhar de forma ágil ao atendimento especializado. Quem conta as semanas é quem vê a criança pela terceira vez.
A distribuição por categoria define que criança o interno encontra com mais frequência e qual é a mais perigosa. O quadro de frequências do protocolo põe a forma oligoarticular em cerca de metade dos casos, a poliarticular com fator reumatoide negativo em 17%, a sistêmica e a relacionada a entesite em 15% cada, a psoriásica e a indiferenciada em 5% cada e a poliarticular com fator reumatoide positivo em 3%. As sete parcelas do quadro somam 110%, então elas servem como ordem de grandeza e não como proporção exata. A leitura que importa: a criança mais comum é a de Alaíde, e a mais grave — a sistêmica — é uma em cada seis ou sete.
Idade e sexo ajudam a desconfiar. O protocolo descreve distribuição bimodal da idade de início, com um pico abaixo dos 5 anos e outro entre 10 e 16 anos. No conjunto das categorias o sexo feminino predomina; separando por categoria, a sistêmica não tem diferença entre meninos e meninas, e a relacionada a entesite é mais frequente em meninos. A oligoarticular tem predomínio em pré-escolares do sexo feminino. Uma menina de 3 anos com um joelho inchado há sete semanas é exatamente o retrato do grupo mais numeroso — e também do grupo que mais perde visão sem queixa.
É o olho que muda o peso do diagnóstico precoce. A diretriz conjunta da sociedade britânica de reumatologia pediátrica com o colégio real de oftalmologistas, de 2006, que o protocolo brasileiro adota como base do rastreio, registra prevalência de uveíte de 8% a 30% na artrite idiopática juvenil em geral e de até 45% a 57% no grupo oligoarticular de início precoce. A uveíte é assintomática, as complicações — catarata, glaucoma, edema macular, hipotonia — são mais frequentes e mais graves quanto menor a criança, e a mesma diretriz aponta como causa mais frequente de dano evitável o exame que faltou ou foi incompleto no primeiro ano de doença.
A forma sistêmica carrega a letalidade. O protocolo estima que a síndrome de ativação macrofágica ocorra em 10% dos casos de sistêmica e seja fatal em 6% a 8% deles. A revisão brasileira de 2024 publicada na Advances in Rheumatology acrescenta que formas subclínicas ou parciais aparecem em 30% a 40% das crianças com sistêmica, e cita uma revisão de 362 pacientes com artrite idiopática juvenil e síndrome de ativação macrofágica em que 34,9% precisaram de terapia intensiva e 8,1% morreram. As recomendações da Liga Pan-Americana de Associações de Reumatologia, de 2025, registram que a forma sistêmica é mais prevalente na América Latina do que em outras regiões e que mais da metade dos pacientes tem curso persistente.
Os diagnósticos que imitam a doença são mais frequentes do que ela, e alguns matam antes. O documento científico da Sociedade Brasileira de Pediatria sobre artrite aguda, de 2020, registra que metade das artrites sépticas ocorre antes dos 2 anos, com predomínio de meninos na razão de dois para um, e que três de cada quatro acometem quadril, joelho ou tornozelo — as mesmas articulações da oligoarticular. O capítulo O número que não descarta, na apostila de Oncologia Pediátrica, registra pelo manual do Instituto Nacional de Câncer que a dor óssea, articular ou generalizada aparece em 10% a 50% das leucemias agudas e simula quadro reumatológico. Num joelho inchado, a artrite idiopática juvenil é o último nome a ser dado, não o primeiro.
O SUS define o percurso. O protocolo de 2026 manda que a criança com artrite idiopática juvenil seja atendida em serviço especializado, de preferência por reumatologista ou pediatra com experiência em reumatologia, e os medicamentos modificadores do curso da doença saem pelo Componente Especializado, com formulário e exames anexados. O elenco tem limites que mudam conduta: a Rename 2024 traz o anti-IL-6 tocilizumabe, mas não traz os bloqueadores de interleucina 1 anakinra e canaquinumabe, que as recomendações pan-americanas de 2025 citam como primeira linha possível na sistêmica e descrevem com acesso limitado na maior parte dos países latino-americanos; e o abatacepte segue com uso restrito por desabastecimento desde a petição de março de 2022, priorizado para crianças que cumprem critérios específicos. O encaminhamento que o interno escreve hoje é o documento que abre essa porta.
Por que acontece o que acontece
O mecanismo que o interno precisa começa por uma definição que decide o resto do capítulo. O protocolo de 2026 define artrite como aumento de volume da articulação ou, sem aumento de volume, a presença de dois sinais inflamatórios — dor à palpação e dor com limitação do movimento. Dor sem esses achados é artralgia, e artralgia não abre este capítulo. Alaíde tem derrame palpável e extensão incompleta: é artrite pela primeira metade da definição, e não seria menos artrite se não doesse, porque a criança pequena expressa inflamação articular pelo que deixa de fazer — mancar ao acordar, sair do escorregador — mais do que pelo que diz.
O segundo elemento é o tempo. A classificação da Liga Internacional de Associações de Reumatologia, a ILAR, exige artrite iniciada antes dos 16 anos, persistente por pelo menos seis semanas e observada por um médico — o protocolo brasileiro escreve «duração maior do que seis semanas». O corte separa a artrite crônica das artrites agudas, que o documento da Sociedade Brasileira de Pediatria define como as de até seis semanas e que costumam ser infecciosas, reativas ou virais e terminar sozinhas. A régua das seis semanas não é uma espera obrigatória para investigar; é a condição para usar o nome. A infecção e a leucemia se investigam no primeiro dia, qualquer que seja a duração.
O terceiro elemento está na palavra «idiopática». A sinovite — a inflamação da membrana que reveste a articulação por dentro, que passa a produzir líquido e distende a cápsula — é a via final comum de causas muito diferentes: bactéria dentro da articulação, infiltração por blastos de leucemia, sangue de hemofilia, trauma, resposta imune a uma infecção recente. O joelho de Alaíde seria igual por fora em quase todas elas. Por isso a artrite idiopática juvenil é, por definição do próprio protocolo, um diagnóstico que o especialista faz depois do diferencial com doenças do tecido conjuntivo, dores de origem mecânica, infecciosa ou neoplásica e síndromes de amplificação dolorosa. O nome vem por último porque só ele não tem exame que o confirme.
Debaixo do nome único há dois mecanismos, e a diferença explica por que a forma sistêmica se trata de outro jeito. Nas formas oligoarticular, poliarticular e psoriásica predomina a imunidade adaptativa: o protocolo descreve mecanismos que variam com a presença de autoanticorpos, de fator reumatoide e com associações a antígenos HLA, ao sexo e à idade. A forma sistêmica, segundo o mesmo protocolo, lembra as doenças autoinflamatórias, com grande participação da imunidade inata e aumento de citocinas como IL-6 e TNF-alfa. As recomendações pan-americanas de 2025 descrevem dois fenótipos dentro da sistêmica: um de predomínio sistêmico, movido por IL-1 beta, IL-18 e proteínas S100, e outro de predomínio de sinovite, com ativação da imunidade adaptativa e participação do TNF-alfa. É por isso que, no protocolo, a febre da sistêmica vai de preferência para o anti-IL-6, enquanto a sistêmica que virou poliartrite sem manifestação sistêmica ativa pode seguir o caminho da poliarticular, com metotrexato, anti-TNF ou abatacepte.
O fator antinuclear, o FAN, entra neste mecanismo por uma porta lateral. Na criança com artrite ele não diagnostica nada: o protocolo lhe atribui só o papel de avaliar o risco de uveíte. A uveíte da forma oligoarticular é anterior e crônica — inflamação da íris e do corpo ciliar com células flutuando na câmara anterior, visíveis só à lâmpada de fenda —, e é assintomática: não dá dor, não avermelha o olho, não provoca fotofobia. Enquanto isso, o dano se acumula em forma de ceratopatia em faixa, sinéquias, catarata e glaucoma, que o protocolo lista entre as sequelas, e de edema macular e hipotonia, que a diretriz britânica acrescenta. Uma criança de 3 anos que perde visão de um olho não reclama; a diretriz britânica ensina a procurar piscar incomum, esfregar os olhos, desatenção visual ou estrabismo novo.
A artrite relacionada a entesite tem outra fisiologia e outro olho. O protocolo a descreve com forte associação ao HLA-B27 e com possibilidade de evoluir como espondiloartrite: a inflamação começa na êntese — a inserção de tendão, ligamento, cápsula ou fáscia no osso, como a do tendão calcâneo, que a ILAR reconhece pela dor à palpação — e, quando a doença evolui como espondiloartrite, alcança as sacroilíacas e a coluna lombossacra. A uveíte que acompanha essa forma, na lista da ILAR, é a anterior aguda sintomática: olho vermelho, doloroso, com fotofobia, que a família percebe no mesmo dia. É o oposto da uveíte da menina de 3 anos, e por isso a pergunta sobre o olho muda com a categoria.
A síndrome de ativação macrofágica é a tempestade que a forma sistêmica pode desencadear. A revisão brasileira de 2024 descreve o circuito comum à linfo-histiocitose hemofagocítica e à síndrome de ativação macrofágica: linfócitos T citotóxicos liberam interferon-gama em excesso e ativam macrófagos, que passam a produzir IL-1 beta, IL-6, IL-12, IL-18 e TNF-alfa. O laboratório conta a história inteira, se for lido em sequência: as plaquetas e os leucócitos caem em relação à contagem anterior, mesmo quando ainda estão dentro da faixa normal; a ferritina sobe; o fígado sofre e a AST sobe; os triglicerídeos sobem; e o fibrinogênio cai pelo consumo da coagulação e pela disfunção hepática. Como a VHS depende do fibrinogênio, ela cai paradoxalmente enquanto a proteína C reativa segue alta — a criança piora e a VHS parece melhorar. No paciente em tocilizumabe, a mesma revisão alerta que os sintomas são mais leves e a proteína C reativa não sobe.
O último mecanismo explica duas proibições do capítulo. O corticoide interfere no diagnóstico da leucemia: a dor melhora, a família e o médico relaxam, e o mielograma feito depois pode não mostrar a doença — o capítulo O número que não descarta registra, pelo manual do Instituto Nacional de Câncer, que 48 a 72 horas de corticoide antes do mielograma podem impedir o diagnóstico e pioram o resultado do tratamento, e o documento da Sociedade Brasileira de Pediatria manda fazer o mielograma na dúvida, em especial quando o corticoide for indicado. E o metotrexato, que o protocolo prescreve uma vez por semana com ácido fólico nos outros dias, é um antagonista do folato: a dose semanal dada todos os dias multiplica por sete a exposição, e o ácido fólico no dia do próprio metotrexato é o que o protocolo manda evitar ao prescrevê-lo pelo menos 24 horas depois.
Como se apresenta de verdade
Este capítulo é dono da criança e do adolescente com artrite crônica sem causa aparente: o reconhecimento da artrite, as exclusões que vêm antes do nome, as categorias da ILAR, o rastreio da uveíte silenciosa, a síndrome de ativação macrofágica da forma sistêmica e o que o SUS fornece pelo protocolo federal. Cede o que tem dono no nível: a punção, o antibiótico e a lavagem da artrite séptica ao capítulo Monoartrite aguda e artrite séptica, na apostila de Reumatologia, que trata também a criança; a osteomielite ao capítulo Osteomielite: hematogênica aguda na criança, crônica no adulto e a do pé diabético, na apostila de Ortopedia; a sinovite transitória e a epifisiólise ao capítulo Quadril na infância, e a dor de crescimento ao capítulo Ortopedia pediátrica: displasia do desenvolvimento do quadril, escoliose e variações fisiológicas do crescimento, na mesma apostila; o reconhecimento e o encaminhamento da leucemia ao capítulo Leucemia linfoblástica aguda: sinais de alerta e diagnóstico precoce, na apostila de Oncologia Pediátrica; a hemartrose da hemofilia ao capítulo Distúrbios da coagulação e uso de anticoagulantes, na apostila de Hematologia e Hemoterapia; a violência ao capítulo Violência e maus-tratos infantis, na apostila de Emergências Pediátricas; a febre reumática ao capítulo Febre reumática e cardiopatia reumática crônica, na apostila de Cardiologia; a vasculite por IgA ao capítulo Púrpura de Henoch-Schönlein (vasculite por IgA), na apostila de Hematologia Pediátrica; a doença de Kawasaki ao capítulo Doença de Kawasaki: critérios diagnósticos e tratamento, na apostila de Infectologia Pediátrica; a artrite da chikungunya ao capítulo Dengue, Zika e Chikungunya; o olho vermelho ao capítulo Olho vermelho: conjuntivites, uveíte, glaucoma agudo e ceratite, na apostila de Oftalmologia; a infecção latente por tuberculose na criança ao capítulo Tuberculose na infância: diagnóstico pelo escore, prova tuberculínica e tratamento; e a artrite reumatoide e as espondiloartrites do adulto aos seus capítulos na apostila de Reumatologia, que valem para o que é igual no adolescente.
Assume, porque não há dono no nível, a síndrome de ativação macrofágica. A regra geral de vacina da criança imunossuprimida é de Vacinação de prematuros e imunossuprimidos, na apostila de Infectologia Pediátrica; aqui fica o que é próprio da artrite idiopática juvenil — a caderneta conferida antes do metotrexato ou do biológico e a vacina de vírus vivo suspensa enquanto durar a dose. A apresentação se organiza em seis perguntas, na ordem em que o interno as enfrenta: é artrite e há quanto tempo; o que sai da frente antes do nome; e, só então, qual das formas clínicas está diante dele.
1 · É artrite, e há quanto tempo
A primeira decisão é semiológica e costuma ser pulada. A ILAR define artrite como aumento de volume dentro da articulação, ou limitação da amplitude de movimento acompanhada de dor ou dor à palpação, observada por um médico e sem causa mecânica ou outra causa identificável. O protocolo de 2026 diz o mesmo em outras palavras: aumento de volume, ou dois sinais inflamatórios. O relato da mãe de que «o joelho incha às vezes» não é artrite até você ver; a queixa de dor sem nenhum desses achados é artralgia.
Na criança pequena, a artrite raramente chega como dor. Chega como mudança de comportamento: mancar ao acordar e melhorar depois de brincar, recusar o colo de um lado, deixar de subir no escorregador, pedir para ser carregada na escada. A rigidez que melhora com o movimento — que a ILAR usa para descrever a dor lombossacra inflamatória — aparece na anamnese do pré-escolar como a manqueira da manhã. Pergunte pelo que a criança deixou de fazer, e pergunte à creche.
O tempo começa na primeira manifestação articular, não na última consulta. A persistência por pelo menos seis semanas integra a classificação de artrite idiopática juvenil, junto com início antes dos 16 anos e exclusão de outras causas. Isso não cria uma fase inicial sem investigação: antes desse prazo, a mesma rigidez matinal, sinovite recorrente ou perda funcional já pode justificar suspeita e encaminhamento. Registrar início, evolução e reavaliações permite acompanhar sem precipitar o rótulo e sem atrasar o cuidado.
A terceira decisão é contar articulações, todas. O protocolo pede exame musculoesquelético que separe artrite ativa, artrite inativa com limitação de movimento — que é sequela — e articulação normal, e trata como de mau prognóstico o acometimento de quadril, coluna cervical, punhos e tornozelos. A contagem dos seis primeiros meses define a categoria, e a articulação temporomandibular entra na conta: o protocolo lembra que ela pode exigir atendimento odontológico. Examinar só o joelho da queixa é o jeito mais comum de chamar de oligoarticular uma poliarticular.
2 · O que sai da frente antes do nome
A artrite idiopática juvenil é o que sobra. Antes dela, cinco diagnósticos precisam ser pensados em toda criança com articulação inchada, e cada um tem um sinal que o denuncia e um capítulo que o conduz. O primeiro é a infecção. O documento de 2020 da Sociedade Brasileira de Pediatria manda suspeitar de infecção óssea ou articular em qualquer idade quando há febre, claudicação, edema articular com dor ou limitação de início súbito, e lembra que o lactente pode não ter febre e ter só o estado geral pior. Diante disso, a punção é no mesmo dia e a condução é do capítulo Monoartrite aguda e artrite séptica; se o osso estiver envolvido, do capítulo de osteomielite.
O segundo é a leucemia, e é o que mais se perde, porque imita a doença reumática com precisão. O mesmo documento descreve a dor da leucemia como preferencialmente noturna, forte e intermitente, em joelhos, tornozelos e cotovelos, e aponta os achados que tiram a queixa da reumatologia: dor intensa e desproporcional ao edema, adenomegalia, hepatoesplenomegalia, anemia ou febre. O capítulo O número que não descarta, na apostila de Oncologia Pediátrica, é o dono do reconhecimento e do encaminhamento; o que este capítulo guarda é a proibição que decorre dele: nenhum corticoide, por nenhuma via, antes de a leucemia ter sido considerada por escrito e afastada.
O terceiro é o sangue na articulação e o trauma que não foi contado. Hemartrose de repetição num menino com história de sangramento levanta hemofilia, e a conduta é do capítulo de distúrbios da coagulação da apostila de Hematologia e Hemoterapia. Uma articulação inchada com história que não explica a lesão obriga a pensar em violência; os sinais que a sustentam e a notificação estão no capítulo Violência e maus-tratos infantis. Na cena, «trauma?» foi escrito sem trauma; a pergunta não é se houve queda, é se a história explica o joelho.
O quarto é a artrite que acompanha uma infecção e vai embora. A poliartrite migratória depois de uma faringite sugere febre reumática, com os critérios de Jones e a profilaxia do capítulo da apostila de Cardiologia; e, pelo documento da Sociedade Brasileira de Pediatria, a poliartrite reumática melhora com anti-inflamatório em horas a três dias. As artrites virais seguem infecções respiratórias e costumam ser autolimitadas com parvovírus B19, rubéola e hepatite B; a hepatite C e a chikungunya podem dar artrite prolongada. A artrite reativa acompanha diarreia ou infecção urogenital recente. A maioria termina antes das seis semanas; as que se prolongam, como a da hepatite C e a da chikungunya, têm a história e a sorologia para contar. Nenhuma delas deve receber o nome de artrite idiopática juvenil no primeiro mês.
O quinto grupo é o das doenças que cursam com dor articular e têm outra natureza: o lúpus de início na infância, que a apostila de Reumatologia conduz no capítulo do lúpus; a vasculite por IgA, com púrpura palpável e artralgia; a sinovite transitória do quadril, pelo capítulo Quadril na infância; a dor de crescimento, bilateral, noturna, sem artrite e sem claudicação no dia seguinte; e as síndromes de amplificação dolorosa, que o protocolo lista entre os diferenciais. Na dor de crescimento e na amplificação dolorosa, o exame físico feito com a criança despida resolve boa parte: sem aumento de volume e sem limitação dolorosa, não há artrite.
3 · A menina pequena com um joelho: a oligoarticular e o olho que não avisa
A forma oligoarticular é definida pela ILAR como artrite em uma a quatro articulações nos seis primeiros meses de doença. Depois do sexto mês, ela se divide em duas: persistente, se nunca passar de quatro articulações ao longo do curso, e estendida, se somar mais de quatro. O protocolo de 2026 transcreveu esses limites como «ultrapassar cinco» e «menos de cinco», o que deixa a criança com exatamente cinco articulações sem categoria; este capítulo usa o texto original da ILAR, e a conta está nas notas do bloco de critério. A distinção muda o tratamento: a estendida segue o fluxograma da poliarticular.
O retrato é o de Alaíde: pré-escolar, menina, um joelho ou um tornozelo, pouca dor, manqueira matinal, criança que continua brincando. O protocolo chama a forma de a mais comum e a mais benigna — e, na frase seguinte, diz que a principal complicação extra-articular é a uveíte anterior crônica, assintomática, que pode levar à cegueira se não for diagnosticada e tratada. Benigna para o joelho, portanto; não para o olho. A exclusão também faz parte da definição: a oligoarticular sai de cena se houver psoríase no paciente ou em parente de primeiro grau, doença ligada ao HLA-B27 em parente de primeiro grau, fator reumatoide positivo confirmado, forma sistêmica ou artrite em menino HLA-B27 positivo iniciada depois dos 6 anos.
O joelho de Alaíde já perdeu extensão, e isso tem nome no protocolo — contratura — e muda a primeira escolha. O protocolo manda iniciar pelo anti-inflamatório ou pela infiltração com corticoide intra-articular, preferir a infiltração quando já há contratura, e reservar o metotrexato para quatro situações: infiltração cujo efeito não chega a seis meses, doença grave ou erosiva, articulações novas e articulação de mau prognóstico. A infiltração é procedimento do serviço especializado, geralmente com sedação ou anestesia na criança pequena, segundo o protocolo; o que o interno faz é garantir que ela não aconteça antes das exclusões.
O olho é a razão de este capítulo pedir a lâmpada de fenda no primeiro dia. A diretriz britânica de 2006 manda rastrear a oligoarticular, a psoriásica e a relacionada a entesite com início antes dos 11 anos independentemente do FAN, com duração que cresce quanto mais cedo a doença começou: oito anos de rastreio para início antes dos 3 anos, seis anos para início aos 3 ou 4, três anos para início entre 5 e 8, um ano para início aos 9 ou 10. O FAN positivo não cria o risco e o FAN negativo não o elimina nessas formas; a ótica do bairro não substitui o exame, e a família precisa saber disso por escrito.
4 · Cinco articulações ou mais: poliarticular com e sem fator reumatoide, e a psoriásica
A forma poliarticular é artrite em cinco ou mais articulações nos seis primeiros meses. A ILAR a divide pelo fator reumatoide, e a regra do exame é específica: fator reumatoide positivo exige pelo menos dois testes positivos com intervalo mínimo de três meses, dentro dos seis primeiros meses de doença. Um teste isolado não classifica, e um teste negativo não exclui a doença — só a coloca na categoria de fator reumatoide negativo.
A poliarticular com fator reumatoide negativo, a mais frequente das duas, pode se comportar, segundo o protocolo, como uma forma exacerbada e mais grave da oligoarticular, inclusive com risco de uveíte. A diretriz britânica rastreia essa criança por mais tempo quando o FAN é positivo e o início é precoce: cinco anos para início antes dos 6 anos, dois anos para início entre 6 e 9; com FAN negativo e início antes dos 7 anos, cinco anos. É aqui, e não na oligoarticular, que o FAN mexe no calendário do oftalmologista.
A poliarticular com fator reumatoide positivo é rara na criança — 3% no quadro do protocolo — e tem, nas palavras do mesmo documento, as características clínicas, laboratoriais e genéticas da artrite reumatoide do adulto. O que é igual ao adulto — o raciocínio sobre erosão e o valor do anticorpo — está no capítulo Artrite reumatoide, na apostila de Reumatologia; o que muda é a dose por superfície corporal, o crescimento e a escola. A diretriz britânica considera essa forma, como a sistêmica, de risco muito baixo para uveíte, mas admite um exame inicial enquanto a categoria não estiver firme.
A forma psoriásica, pela ILAR, é artrite com psoríase, ou artrite com dois de três achados: dactilite, alteração ungueal — pelo menos duas depressões puntiformes numa ou mais unhas, ou onicólise — e psoríase em parente de primeiro grau. A unha e a história familiar são os achados que se perdem quando o exame para no joelho, e por isso a pergunta sobre psoríase na família entra na primeira consulta. O protocolo manda tratá-la como a categoria com que a artrite se parece, e registra que os biológicos mais novos da artrite psoriásica do adulto não foram estudados em crianças.
5 · O menino que reclama do calcanhar: artrite relacionada a entesite
A artrite relacionada a entesite é a categoria dos meninos maiores. Pela ILAR, entra quem tem artrite e entesite juntas, ou artrite ou entesite com pelo menos dois de cinco critérios: dor sacroilíaca à compressão direta ou dor lombossacra inflamatória, com rigidez matinal que melhora com o movimento; HLA-B27 positivo; início da artrite em menino com mais de 6 anos; uveíte anterior aguda sintomática; e história, em parente de primeiro grau, de espondilite anquilosante, artrite relacionada a entesite, sacroiliíte com doença inflamatória intestinal, síndrome de Reiter ou uveíte anterior aguda.
O terceiro critério é um só: menino e mais de 6 anos, juntos. O protocolo de 2026 os escreveu como dois itens separados — «início da artrite no sexo masculino» e «pacientes com mais de seis anos» —, e com isso qualquer menino de 7 anos com um joelho inchado somaria dois critérios sem ter entesite, dor lombar, HLA-B27 ou história familiar. Na leitura literal, ele cairia em duas categorias e viraria indiferenciada; pela ILAR, é oligoarticular. A troca muda o fluxograma e o calendário do olho, e por isso este capítulo classifica pelo texto original.
A entesite se procura com o dedo: dor à palpação da inserção do tendão calcâneo, da fáscia plantar, do polo inferior da patela. O menino que «reclama do tênis» depois do futebol, com um joelho inchado há dois meses e um pai com diagnóstico de espondilite, está contando a categoria inteira. A dor lombar inflamatória do adolescente — que acorda com as costas duras e melhora ao se mexer — é diferente da dor mecânica que piora com o esforço, e a compressão direta das sacroilíacas faz parte do exame.
O olho dessa categoria é outro. A uveíte anterior aguda é sintomática: olho vermelho, doloroso, com fotofobia. Ela não se rastreia; reconhece-se, e o encaminhamento é para o mesmo dia, pelo capítulo Olho vermelho. O protocolo lembra ainda que a criança com sacroiliíte pode receber anti-TNF antes do metotrexato, uma das duas exceções à regra de começar pelo sintético — a outra é a forma sistêmica com manifestações ativas. A evolução para espondiloartrite do adulto é conduzida pelo capítulo Espondiloartrites e artrite psoriásica, na apostila de Reumatologia.
6 · A febre que volta à mesma hora: a forma sistêmica e a síndrome de ativação macrofágica
A forma sistêmica começa, muitas vezes, sem joelho nenhum. Pela ILAR, é artrite acompanhada ou precedida de febre de pelo menos duas semanas, documentada como diária por pelo menos três dias, com mais um destes: exantema eritematoso evanescente, linfonodomegalia generalizada, hepatomegalia ou esplenomegalia, serosite. A febre tem desenho próprio, que a ILAR chama de febre quotidiana: sobe a 39 °C ou mais uma vez por dia e volta a 37 °C ou menos entre os picos. Uma criança que está brincando de manhã e prostrada no fim da tarde, todos os dias, com manchas que a ILAR define como eritematosas e não fixas, está desenhando o diagnóstico na folha de temperatura — desde que alguém a preencha três vezes por dia.

O protocolo transcreveu o critério da febre como «mais de 15 dias, documentada por pelo menos 3 dias na semana». As duas mudanças importam: a criança com 14 ou 15 dias de febre em pico diário, artrite e exantema preenche a ILAR e não preenche o quadro, e uma febre em três dias alternados da semana passa no quadro sem ter o desenho quotidiano. Este capítulo usa o texto da ILAR. O protocolo registra ainda que, em cerca de 10% dos casos, a artrite aparece semanas ou meses depois das manifestações sistêmicas — e cita a proposta de 2019 de uma nova classificação, ainda em validação, em que a febre típica é obrigatória e artrite e exantema são critérios maiores, para não deixar essas crianças sem nome enquanto o joelho não incha.
Por ser doença de exclusão com febre, a sistêmica só recebe o nome depois de afastadas infecção e neoplasia, e o diferencial inclui a doença de Kawasaki, que o capítulo O critério que não chega, na apostila de Infectologia Pediátrica, conduz. O mielograma entra antes do corticoide sempre que houver dúvida com leucemia, pela regra do documento da Sociedade Brasileira de Pediatria, que manda também excluir linfoma na criança com queixa articular, adenomegalia e hepatoesplenomegalia. Confirmada a sistêmica com manifestações ativas, o protocolo prescreve pulsos de metilprednisolona seguidos de prednisona oral e, se a febre persistir por duas semanas ou a dose de corticoide não puder descer, o tocilizumabe.
A síndrome de ativação macrofágica é a urgência que o interno de enfermaria reconhece antes de todo mundo, porque é ele quem lê os exames da manhã. O protocolo descreve febre que se torna persistente, organomegalia, disfunção do sistema nervoso central e sangramento, com queda da VHS, citopenias, hipofibrinogenemia e aumento de ferritina, transaminases, desidrogenase láctica, D-dímero e triglicerídeos, e tempos de coagulação prolongados; avisa que a síndrome evolui rápido e que a criança pode não preencher os critérios no início, e por isso pede exames frequentes. O sinal que muda a noite é a febre que perde o desenho — deixa de subir e descer e fica alta — somada a plaquetas que caem em relação à contagem anterior.
Os critérios de classificação de 2016, reproduzidos pela revisão brasileira de 2024, organizam a decisão num paciente febril com forma sistêmica conhecida ou suspeita: ferritina acima de 684 ng/mL e pelo menos dois de quatro achados — plaquetas até 181.000/mm³, AST acima de 48 U/L, triglicerídeos acima de 156 mg/dL, fibrinogênio até 360 mg/dL. Os cortes pegam valores que, em outra criança, pareceriam normais: a revisão brasileira lembra que a síndrome pode ocorrer com contagens inesperadamente normais diante de inflamação sistêmica ativa, e que a queda em relação ao exame anterior conta tanto quanto o número. O tratamento do protocolo começa pelo pulso de metilprednisolona e acrescenta ciclosporina se a resposta não vier; o caso resolvido deste capítulo percorre essa noite passo a passo.
Como fechar o diagnóstico
A investigação da criança com artrite crônica tem duas regras. A primeira é que os exames servem para excluir e para classificar, nunca para confirmar: não existe exame que faça o diagnóstico de artrite idiopática juvenil, e o protocolo de 2026 limita o laboratório a hemograma e provas de inflamação, com fator reumatoide e HLA-B27 para separar categorias e FAN para estimar o risco de uveíte. A segunda é que cada pedido sai com a pergunta escrita ao lado — «afastar leucemia», «estimar risco de uveíte» —, porque o resultado vai ser lido por outra pessoa, às vezes numa UPA de madrugada, e o FAN reagente sem pergunta vira diagnóstico.
A ordem é esta: a anamnese e o exame que decidem mais do que qualquer tubo; o que sai no primeiro dia para excluir infecção e neoplasia; os anticorpos, com o que cada um responde; a imagem, com o que ela mostra e o que não mostra; a lâmpada de fenda, que é o exame que se esquece; e, na forma sistêmica, a investigação da febre e a vigilância da síndrome de ativação macrofágica. O painel que antecede o metotrexato e o biológico fecha a última seção.
1 · A anamnese e o exame que decidem mais que qualquer tubo
Monte a linha do tempo antes de pedir qualquer coisa: a data em que a primeira articulação inchou, as consultas no caminho, os remédios tomados e por quantos dias, o que melhorou. O anti-inflamatório de três dias que «não resolveu» é informação: a artrite da febre reumática responde em horas a três dias, pelo documento da Sociedade Brasileira de Pediatria. Pergunte pelo padrão da dor — a manqueira que melhora com o movimento é inflamatória; a dor que acorda a criança de madrugada, forte e intermitente, levanta leucemia antes de qualquer outra hipótese.
Pergunte o que antecedeu a artrite: faringite, diarreia, febre com manchas, viagem ou surto de arbovirose no bairro, infecção urogenital no adolescente. Pergunte pela família com as palavras que a ILAR usa como critério e como exclusão: psoríase, espondilite anquilosante, doença inflamatória intestinal, uveíte. E pergunte por febre: quantos dias, a que horas, até quanto e se a temperatura volta ao normal entre os picos. Se a resposta for vaga, entregue à família uma folha para anotar a temperatura três vezes ao dia e a hora em que aparecem manchas na pele; é a folha que vai mostrar a febre quotidiana.
O exame é o da criança inteira, despida. Todas as articulações, uma a uma, com a temporomandibular, a coluna cervical e os quadris; a compressão direta das sacroilíacas e a palpação das ênteses no menino maior; as unhas, procurando pelo menos duas depressões puntiformes; a pele, procurando psoríase e exantema; os linfonodos, o fígado e o baço; a palidez, as petéquias, os hematomas e o que eles contam sobre sangramento e sobre violência. Peso e estatura vão para a curva da caderneta, pelo capítulo Acompanhamento do crescimento, na apostila de Puericultura e Desenvolvimento: as medidas de hoje são a linha de base de uma doença que pode durar anos, e o protocolo lembra a obesidade induzida pelo corticoide e pela inatividade e o cuidado com cálcio e vitamina D.
No fim do exame, escreva a síntese que o protocolo usa: quantas articulações com artrite ativa, quantas com limitação sem inflamação, e a presença ou ausência de cada sinal de alarme. «Artrite de joelho direito há 7 semanas, sem febre, sem dor noturna, sem palidez, sem adenomegalia, sem hepatoesplenomegalia, demais articulações sem artrite» é uma frase que um reumatologista pediátrico lê em cinco segundos e que tira a criança da fila comum.
2 · O hemograma, a VHS e a proteína C reativa: o que excluem e o que não excluem
O hemograma com contagem de plaquetas e leitura do esfregaço é o primeiro exame, e a pergunta dele é a leucemia. O documento da Sociedade Brasileira de Pediatria lista, na artrite associada a neoplasia, citopenias — anemia, leucopenia, neutropenia ou plaquetopenia —, aumento da VHS ou da proteína C reativa, e considera úteis a desidrogenase láctica e o ácido úrico elevados. Um hemograma alterado nesse sentido muda o dia: a criança vai para o capítulo O número que não descarta, que manda o mielograma antes de qualquer corticoide.
Um hemograma normal ajuda, e não fecha. O título do capítulo de leucemia da apostila de Oncologia Pediátrica é exatamente esse aviso, e a regra prática que decorre dele é manter a proibição do corticoide até que o especialista tenha visto a criança e registrado a exclusão. Na leitura desta apostila, a criança com hemograma normal, sem dor noturna, sem visceromegalia e sem adenomegalia pode esperar a consulta especializada com anti-inflamatório; a criança com qualquer um desses achados não espera.
A VHS e a proteína C reativa medem inflamação e não dão nome a nada: sobem na infecção, na leucemia e na artrite idiopática juvenil. O protocolo as usa para acompanhar atividade e resposta: pedidas antes do tratamento e repetidas a cada 4 a 12 semanas conforme a necessidade. Na forma sistêmica elas ganham um papel a mais, de alarme: a VHS que cai enquanto a proteína C reativa segue alta, numa criança que continua febril, é a assinatura do fibrinogênio consumido na síndrome de ativação macrofágica, e não sinal de melhora.
Solicitar “provas reumáticas” em bloco não identifica a causa de uma artrite. ASLO indica resposta a infecção estreptocócica anterior e deve ser interpretada com referência etária, tendência e apresentação clínica; não há um valor isolado que confirme febre reumática. A ASLO de 320 UI/mL de Alaíde, sem síndrome clínica compatível, não explica a sinovite nem indica penicilina benzatina. VHS e PCR normais ou discretamente elevadas também não excluem AIJ. A escolha dos exames decorre das hipóteses levantadas no atendimento.
3 · FAN, fator reumatoide e HLA-B27: o que cada um responde na criança
O FAN entra na investigação da artrite idiopática juvenil com uma pergunta só: qual o risco de uveíte. É o papel que o protocolo lhe atribui. Ele não diagnostica a doença, não diferencia a oligoarticular da leucemia e, positivo, não autoriza corticoide nem imunossupressor. Na oligoarticular, na psoriásica e na relacionada a entesite com início antes dos 11 anos, a diretriz britânica rastreia o olho independentemente do resultado; na poliarticular, o FAN positivo com início precoce alonga o rastreio. Peça-o com a pergunta escrita, e diga à família o que ele significa antes de o resultado chegar.
O fator reumatoide serve à poliarticular. A ILAR só classifica como poliarticular com fator reumatoide positivo a criança com pelo menos dois testes positivos com três meses ou mais de intervalo, dentro dos seis primeiros meses, e o faz para que uma positividade passageira, como a que pode seguir uma infecção, não mude a categoria. Um fator reumatoide negativo não afasta nada; um positivo isolado não classifica. Na monoartrite de Alaíde ele não tinha pergunta a responder, e o negativo que a UPA entregou não afastava nada — no mesmo papel em que a ASLO e as mucoproteínas elevadas foram lidas pela família como «reumatismo no sangue».
O HLA-B27 serve à artrite relacionada a entesite e às exclusões da oligoarticular. É um dos cinco critérios da entesite relacionada e, no menino que começou a artrite depois dos 6 anos, é exclusão da oligoarticular. Não tem pergunta a responder numa menina de 3 anos com um joelho. Os dois exames — fator reumatoide e HLA-B27 — aparecem entre os anexos que o Componente Especializado pede, conforme o critério de inclusão assinalado no formulário, e o especialista vai precisar deles por duas razões: para classificar e para abrir o acesso ao medicamento.
4 · A imagem: a radiografia que exclui e a que não mostra
O protocolo diz que os exames de imagem podem confirmar a artrite, mas geralmente não são necessários para o diagnóstico. A radiografia simples entra por outra razão: afastar o que não é artrite idiopática juvenil. O documento da Sociedade Brasileira de Pediatria reconhece utilidade limitada da radiografia na artrite aguda, mas lembra que ela pode revelar alterações infiltrativas — e é essa a pergunta que justifica a radiografia do joelho de Alaíde: há lesão óssea, fratura ou imagem que sugira tumor ou infiltração?
A radiografia normal no início não afasta infecção nem leucemia, e a da cena, com aumento de partes moles e sem lesão óssea, é compatível com qualquer sinovite. A ultrassonografia mostra derrame e guia punção, e a ressonância magnética, pelo mesmo documento, é o exame da suspeita de osteomielite, com a cintilografia quando a ressonância não estiver disponível. Na suspeita de artrite séptica e de osteomielite, a escolha e a leitura da imagem são dos capítulos donos.
A imagem volta a importar no seguimento. O protocolo lista entre os fatores de mau prognóstico as alterações radiológicas — redução do espaço articular e erosões —, e o Componente Especializado pede laudo de exame de imagem das áreas afetadas entre os anexos do formulário. É o especialista que decide qual imagem, e quando.
5 · A lâmpada de fenda: o exame que se pede no primeiro dia
A uveíte anterior crônica pode evoluir sem olho vermelho, dor ou queixa de visão. O exame necessário para procurar inflamação da câmara anterior é a lâmpada de fenda por oftalmologista; acuidade visual ou fundo de olho isolados não o substituem. Solicitar desde a suspeita de AIJ e registrar a prioridade. A referência britânica usa até seis semanas do encaminhamento para o exame inicial assintomático, mas esse limite não é motivo para adiar uma vaga disponível; sintomas exigem avaliação mais rápida.
Depois do primeiro exame, separar duas situações. Sem uveíte, o calendário é de rastreio e considera categoria, FAN, idade de início e duração da doença, conforme o quadro. Com uveíte, o calendário é terapêutico: acompanha células na câmara anterior, pressão ocular, complicações, resposta e efeitos dos colírios. A melhora da artrite não permite espaçar por conta própria esse controle.
O registro mínimo inclui data e resultado da última lâmpada de fenda, presença ou ausência de uveíte, medicações oculares, próxima consulta e responsável pelo ajuste. Revisar esse plano quando mudar ou suspender imunossupressor. As referências divergem em frequência e duração do rastreio; a decisão deve ser explicitada pela oftalmologia, sem dar alta automática apenas porque a criança completou determinada idade ou tem FAN negativo.
Na alta do rastreio, a diretriz manda ensinar a automonitorização: uma vez por semana, cada olho separadamente, lendo letra pequena com o outro tapado. E manda, na criança pequena, orientar a família a procurar atendimento urgente diante de olho vermelho, fotofobia, pupila diferente, córnea opaca, baixa visual, piscar incomum, esfregar os olhos, desatenção visual ou estrabismo novo. O protocolo acrescenta controle oftalmológico anual depois da alta.
6 · Quando a febre não passa: a investigação da sistêmica e da síndrome de ativação macrofágica
A criança com febre de duas semanas e artrite, ou com febre quotidiana e exantema sem artrite ainda, é investigada como febre prolongada antes de ser chamada de sistêmica. Hemoculturas e urocultura, as sorologias que a epidemiologia local pedir, e a avaliação do coração que a doença de Kawasaki exige quando os critérios dela aparecem, pelo capítulo O critério que não chega. O mielograma entra antes do corticoide sempre que houver dúvida com leucemia — e, numa criança com febre, adenomegalia e hepatoesplenomegalia, a dúvida é a regra, não a exceção.
Com a sistêmica ativa, o laboratório passa a vigiar a síndrome de ativação macrofágica. O painel é o que o protocolo descreve: hemograma com plaquetas, VHS e proteína C reativa, ferritina, AST e ALT, desidrogenase láctica, triglicerídeos, fibrinogênio, D-dímero, tempo de protrombina e tempo de tromboplastina parcial ativada. O protocolo pede exames frequentes sem fixar intervalo; esta apostila repete o painel sempre que a febre muda de padrão, as plaquetas caem em relação à contagem anterior ou a criança piora, e, no internado com doença ativa, pelo menos a cada 48 horas — e esse intervalo é escolha desta apostila, não de fonte.
Os critérios de 2016 transformam o painel em decisão: no paciente febril com sistêmica conhecida ou suspeita, ferritina acima de 684 ng/mL com pelo menos dois de plaquetas até 181.000/mm³, AST acima de 48 U/L, triglicerídeos acima de 156 mg/dL e fibrinogênio até 360 mg/dL. A revisão brasileira de 2024 acrescenta três leituras que o critério não escreve: a ferritina deve ser dosada em toda suspeita nova mesmo que a anterior tenha sido normal; a queda em relação ao exame anterior conta, mesmo com o número dentro da faixa; e, na criança em tocilizumabe, a síndrome pode vir com sintomas mais leves e sem subida da proteína C reativa.
Antes de o especialista iniciar metotrexato ou biológico, o protocolo pede a exclusão de infecções graves: sorologia de hepatite B, de hepatite C e de HIV, que ele manda colher já no diagnóstico, a investigação de tuberculose ativa e latente, hemograma, transaminases e creatinina, e a caderneta de vacinação atualizada. Para o biológico, a radiografia de tórax é para todos, com prova tuberculínica ou IGRA; trata-se a infecção latente quando a prova tuberculínica mede 5 mm ou mais ou o IGRA é reagente, e o protocolo manda esperar quatro semanas de tratamento antes da primeira dose do biológico. Esquema e dose da criança ficam com o capítulo Tuberculose na infância; a vacina, do marco do metotrexato no bloco de conduta.
Reconhecer artrite, excluir urgências e encaminhar; classificar com a evolução
Não existe exame nem escore que diagnostique artrite idiopática juvenil. O que existe é uma definição (artrite observada por médico, iniciada antes dos 16 anos, persistente por pelo menos seis semanas, com outras causas excluídas), uma classificação para depois das exclusões (ILAR, 2004), um calendário de lâmpada de fenda e, na forma sistêmica, um critério de classificação para a síndrome de ativação macrofágica. O fluxo abaixo põe as exclusões na frente; as tabelas trazem a classificação lida no original, o rastreio do olho, o painel da síndrome e as doses convertidas para as crianças do capítulo.
- 11. Confirmar artrite pelo exame: derrame ou aumento de volume, ou combinação de dor e limitação compatível com inflamação. Se houver apenas artralgia, investigar conforme o contexto e reexaminar quando persistente; dor sem derrame não torna todos os diagnósticos importantes improváveis.
- 22. Início agudo, febre, recusa de apoio, dor importante, toxemia ou lactente com piora do estado geral: investigar artrite séptica e osteomielite imediatamente. Coletar amostras e avaliar drenagem com a equipe; instabilidade ou sepse não devem esperar punção para receber antibiótico. Seguir Monoartrite aguda e artrite séptica.
- 33. Dor noturna forte e intermitente, dor desproporcional ao inchaço, palidez, sangramento, adenomegalia ou hepatoesplenomegalia: hemograma com esfregaço, desidrogenase láctica e ácido úrico hoje, nenhum corticoide por via nenhuma, e mielograma antes de qualquer corticoide se a dúvida persistir — pelo capítulo O número que não descarta.
- 44. História que não explica a lesão: violência, pelo capítulo Violência e maus-tratos infantis. Menino com hemartroses e sangramento: hemofilia, pelo capítulo de distúrbios da coagulação.
- 55. Poliartrite migratória após faringite pede avaliação pelos critérios de Jones e evidência de infecção estreptocócica, como no capítulo de febre reumática. ASLO isolada não confirma a causa nem indica profilaxia. Infecção recente pode acompanhar artrite reativa ou viral, mas evolução persistente exige revisão da hipótese.
- 66. Menos de seis semanas: manter diferenciais abertos e reavaliar, sem rotular definitivamente AIJ apenas pelo tempo. Sinovite persistente, limitação funcional, rigidez matinal ou várias articulações comprometidas justificam encaminhamento precoce à reumatologia; não esperar completar a sexta semana.
- 77. Artrite por pelo menos seis semanas, início antes dos 16 anos e outras causas excluídas sustentam a classificação de AIJ. O encaminhamento e a investigação podem já ter começado antes. Solicitar avaliação à lâmpada de fenda desde a suspeita e registrar a data prevista do exame.
- 88. Febre de pelo menos duas semanas, diária por pelo menos três dias, subindo a 39 °C ou mais e voltando a 37 °C ou menos, com exantema não fixo, linfonodomegalia generalizada, hepatoesplenomegalia ou serosite: suspeita de forma sistêmica — investigar febre prolongada, com mielograma antes do corticoide se houver dúvida com leucemia.
- 99. Forma sistêmica com febre que perde o pico diário e fica alta, plaquetas caindo em relação à contagem anterior, VHS caindo com proteína C reativa alta, sangramento ou sonolência: painel de síndrome de ativação macrofágica agora. Ferritina acima de 684 ng/mL com dois de quatro — plaquetas até 181.000/mm³, AST acima de 48 U/L, triglicerídeos acima de 156 mg/dL, fibrinogênio até 360 mg/dL — classifica a síndrome.
- 1010. Contagem de articulações nos seis primeiros meses: uma a quatro, oligoarticular (persistente se nunca passar de quatro; estendida se somar mais de quatro depois do sexto mês); cinco ou mais, poliarticular (fator reumatoide positivo só com dois testes com três meses ou mais de intervalo no primeiro semestre).
- 1111. Artrite com entesite, ou artrite ou entesite com dois de cinco — dor sacroilíaca à compressão ou lombossacra inflamatória; HLA-B27; menino com mais de 6 anos no início da artrite (um critério só); uveíte anterior aguda sintomática; parente de primeiro grau com doença ligada ao HLA-B27: artrite relacionada a entesite.
- 1212. Artrite com psoríase, ou com dois de dactilite, alteração ungueal (duas ou mais depressões, ou onicólise) e psoríase em parente de primeiro grau: psoriásica. Nenhuma categoria, ou mais de uma depois das exclusões: indiferenciada.
As categorias pela ILAR (2004), lidas no original — e onde o texto do PCDT de 2026 muda a conta
| Categoria | Entra quem tem | Sai quem tem (exclusões da ILAR) | O que o texto do PCDT de 2026 muda |
|---|---|---|---|
| Sistêmica | Artrite com ou precedida de febre de pelo menos 2 semanas, diária por pelo menos 3 dias (pico ≥ 39 °C e volta a ≤ 37 °C), e mais um: exantema eritematoso não fixo, linfonodomegalia generalizada, hepato ou esplenomegalia, serosite | Psoríase no paciente ou em parente de 1º grau; artrite em menino HLA-B27 positivo iniciada após os 6 anos; doença ligada ao HLA-B27 no paciente ou em parente de 1º grau; fator reumatoide positivo confirmado | Escreve «mais de 15 dias» e «3 dias na semana»: tira a criança com 14 ou 15 dias de febre diária e aceita febre sem pico diário |
| Oligoarticular | Artrite em 1 a 4 articulações nos 6 primeiros meses; persistente se nunca passar de 4; estendida se somar mais de 4 depois do 6º mês | Todas as exclusões, inclusive forma sistêmica | Escreve estendida «ultrapassar cinco» e persistente «menos de cinco»: 5 articulações ficam sem categoria |
| Poliarticular, fator reumatoide negativo | Artrite em 5 ou mais articulações nos 6 primeiros meses, com fator reumatoide negativo | Todas as exclusões | Sem mudança que altere a conta |
| Poliarticular, fator reumatoide positivo | Artrite em 5 ou mais articulações nos 6 primeiros meses, com 2 testes positivos com pelo menos 3 meses de intervalo no primeiro semestre | Psoríase; menino HLA-B27 positivo com início após 6 anos; doença ligada ao HLA-B27; forma sistêmica | Omite que os dois testes são do primeiro semestre |
| Psoriásica | Artrite e psoríase, ou artrite e 2 de: dactilite, 2 ou mais depressões ungueais ou onicólise, psoríase em parente de 1º grau | Menino HLA-B27 positivo com início após 6 anos; doença ligada ao HLA-B27; fator reumatoide positivo; forma sistêmica | Sem mudança que altere a conta |
| Relacionada a entesite | Artrite e entesite, ou artrite ou entesite com 2 de: dor sacroilíaca ou lombossacra inflamatória; HLA-B27; início em menino com mais de 6 anos; uveíte anterior aguda sintomática; parente de 1º grau com doença ligada ao HLA-B27 | Psoríase; fator reumatoide positivo; forma sistêmica | Separa «sexo masculino» e «mais de seis anos» em dois critérios: todo menino acima de 6 anos com artrite soma 2 |
| Indiferenciada | Artrite que não preenche nenhuma categoria, ou preenche mais de uma | — | Pela leitura literal do item anterior, menino de 7 anos com um joelho cai aqui em vez de oligoarticular |
Lâmpada de fenda: separar rastreio de acompanhamento de uveíte
| Situação | Quando organizar | Seguimento | O que muda a prioridade |
|---|---|---|---|
| Suspeita de AIJ, sem sintomas oculares | Solicitar na primeira avaliação, junto ao encaminhamento reumatológico. | Após o exame inicial, definir calendário com a oftalmologia conforme risco e protocolo adotado. | Não esperar FAN ou o fim de seis semanas de artrite para fazer o pedido. |
| Sem uveíte, alto risco | Oligoarticular, poliarticular FR negativo, psoriásica ou indiferenciada, com FAN positivo, início antes dos 7 anos e até 4 anos de doença. | A referência ACR utiliza rastreio a cada 3 meses; intervalos menores podem ser definidos pela equipe. | Falta à consulta exige busca do novo agendamento, mesmo com olho branco e visão aparentemente normal. |
| Sem uveíte, outros perfis de risco | Classificar junto à oftalmologia; FAN negativo reduz risco em alguns grupos, mas não o elimina. | A diretriz ACR 2019 descreve 6 a 12 meses conforme a combinação de fatores; o protocolo local pode ser mais frequente. | Não dispensar automaticamente rastreio por categoria ou FAN isolados. |
| Uveíte já diagnosticada e ativa | Acompanhamento terapêutico definido pela oftalmologia. | Intervalos mais próximos conforme atividade e colírios; não aplicar o calendário de rastreio. | Atividade, pressão ocular, catarata e visão determinam ajuste conjunto com reumatologia. |
| Uveíte controlada, tratamento estável | Confirmar a última avaliação e a próxima data. | Monitorização pelo menos trimestral; mudanças de colírio ou tratamento sistêmico exigem controles mais próximos. | Joelho sem artrite não comprova controle da inflamação ocular. |
| Redução ou suspensão do tratamento | Combinar o plano com oftalmologia antes de mudar a receita. | A referência ACR 2019 orienta controle em até 1 mês após mudança do corticoide tópico e em até 2 meses após mudança sistêmica. | Não suspender metotrexato apenas porque a articulação está bem. |
| Olho vermelho, dor, fotofobia, baixa visual ou alteração pupilar | Contato e avaliação oftalmológica urgente; baixa visual aguda ou dor importante exigem avaliação no mesmo dia. | Conforme a causa e a gravidade. | Não aguardar o exame de rastreio já marcado. |
Síndrome de ativação macrofágica na forma sistêmica: o painel, os cortes de 2016 e a armadilha de cada exame
| Exame | Corte de 2016 (febril com sistêmica conhecida ou suspeita) | O que acontece na síndrome | Armadilha |
|---|---|---|---|
| Ferritina | Acima de 684 ng/mL — obrigatória | Sobe; acima de 10.000 ng/mL num febril internado é sinal de triagem, pela revisão brasileira | Dosar de novo a cada suspeita, mesmo com dosagem anterior normal |
| Plaquetas | Até 181.000/mm³ (um dos quatro) | Caem em relação à contagem anterior | Um número dentro da faixa pode ser queda de dois terços |
| AST | Acima de 48 U/L (um dos quatro) | Sobe com o sofrimento hepático | Comparar com a da admissão, não com a referência do laboratório |
| Triglicerídeos | Acima de 156 mg/dL (um dos quatro) | Sobem | Só ajuda se colhido junto com o resto do painel |
| Fibrinogênio | Até 360 mg/dL (um dos quatro) | Cai por consumo e disfunção hepática | Explica a VHS que cai |
| VHS | Não é critério | Cai paradoxalmente, porque depende do fibrinogênio | Ler como melhora a queda da VHS numa criança febril |
| Proteína C reativa | Não é critério | Segue alta | Em tocilizumabe pode não subir, e os sintomas vêm mais leves |
| Leucócitos, hemoglobina, desidrogenase láctica, D-dímero, tempo de protrombina e de tromboplastina | Não são critérios | Citopenias; desidrogenase e D-dímero sobem; tempos se prolongam (PCDT) | Pedir junto: são os achados que o protocolo descreve e que mostram gravidade |
Doses deste capítulo convertidas para as crianças do capítulo, com as apresentações da Rename 2024
| Medicamento e apresentação (componente) | Dose da fonte | Criança | Conta | O que se prescreve |
|---|---|---|---|---|
| Ibuprofeno 50 mg/mL suspensão oral (Básico) | 10 a 30 mg/kg/dia em 3 a 4 doses; na criança, não passar de 800 mg/dia (PCDT) | Alaíde, 14,2 kg | 10 mg/kg = 142 mg = 2,84 mL; 2,8 mL × 3 = 420 mg/dia = 29,6 mg/kg/dia | 2,8 mL por via oral de 8 em 8 horas, com alimento |
| Ibuprofeno 200 mg comprimido (Básico) | Mesma linha; a 30 mg/kg/dia, o teto de 800 mg/dia prende a dose a partir de 26,7 kg | Jácome, 42 kg | 800 mg ÷ 42 kg = 19 mg/kg/dia, dentro da faixa e no teto | 1 comprimido de 6 em 6 horas |
| Naproxeno 250 mg comprimido (Especializado) | 10 a 20 mg/kg/dia em 2 doses (PCDT), sem passar de 1.000 mg/dia — teto do adulto, adotado por esta apostila | Jácome, 42 kg | 10 mg/kg = 420 mg; 1½ comprimido = 375 mg × 2 = 750 mg/dia = 17,9 mg/kg/dia | 1½ comprimido de 12 em 12 horas, quando dispensado pelo Componente Especializado |
| Metotrexato 25 mg/mL solução injetável (Especializado) | 15 mg/m² uma vez por semana (PCDT) | Alaíde, 14,2 kg e 96 cm = 0,62 m² | 15 × 0,615 = 9,2 mg → 9 mg = 0,36 mL (14,6 mg/m²; 0,63 mg/kg por semana) | 0,36 mL por via subcutânea uma vez por semana, no mesmo dia da semana, escrito por extenso |
| Ácido fólico 0,2 mg/mL solução oral (Básico) | 1 mg/dia por 6 dias, começando pelo menos 24 horas depois do metotrexato (PCDT) | Alaíde | 1 mg ÷ 0,2 mg/mL = 5 mL | 5 mL por via oral uma vez ao dia, nos 6 dias sem metotrexato |
| Succinato sódico de metilprednisolona 500 mg frasco (Especializado) | 30 mg/kg/dia, máximo de 1 g/dia, até 3 dias — teto de PANLAR 2025, adotado por esta apostila (ver divergência) | Tércio, 21 kg | 30 × 21 = 630 mg = 1,26 frasco | 630 mg por via intravenosa uma vez ao dia por 3 dias (dois frascos por dia) |
| Prednisona 20 mg comprimido (Básico e Estratégico) | 1 a 2 mg/kg/dia após o pulso, máximo de 60 mg (PCDT) | Tércio, 21 kg | 2 × 21 = 42 mg → 40 mg = 1,9 mg/kg/dia | 2 comprimidos pela manhã |
| Ciclosporina 100 mg/mL solução oral (Especializado) | 2 a 5 mg/kg/dia na síndrome de ativação macrofágica (PCDT) | Tércio, 21 kg | 42 a 105 mg/dia = 0,21 a 0,52 mL de 12 em 12 horas | Decisão do reumatologista pediátrico; a Rename não traz a ciclosporina injetável |
| Tocilizumabe 20 mg/mL frasco de 4 mL (Especializado) | Forma sistêmica, menos de 30 kg: 12 mg/kg a cada 2 semanas por via intravenosa (PCDT) | Tércio, 21 kg | 12 × 21 = 252 mg = 12,6 mL = 3,15 frascos | Prescrição do reumatologista pediátrico pelo Componente Especializado |
Plano longitudinal de Alaíde: o que conferir em cada retorno
| Dimensão | Registro concreto | Próximo passo |
|---|---|---|
| Articulações e função | Articulações ativas, amplitude, rigidez ao acordar, marcha, dor, participação na creche e brincadeiras. | Comparar com a consulta anterior; piora funcional ou novas articulações antecipam reavaliação especializada. |
| Olhos | Última lâmpada de fenda, atividade, pressão ocular, colírios e próxima data. | Uveíte ativa segue monitorização terapêutica; não esperar que o joelho piore ou que a criança reclame da visão. |
| Metotrexato | Dose total em mg, concentração, volume, via, dia fixo e data da última dose. Nesta vinheta: 9 mg, 0,36 mL de 25 mg/mL, SC, sexta-feira. | Pedir ao cuidador que mostre no calendário o dia de aplicar. Metotrexato é semanal; o ácido fólico tem esquema separado. |
| Segurança laboratorial | Hemograma, AST, ALT e creatinina basais; neste caso, controle em quatro semanas e depois a cada 8 a 12 semanas com dose estável, conforme PCDT. | Exame alterado ou sintoma novo: contatar a equipe para avaliar toxicidade, infecção, erro de dose e necessidade de suspensão ou ajuste. |
| Vacinação e exposição | Caderneta atualizada, fármacos e grau de imunossupressão; contato com CRIE antes de vacina viva. | Planejar vacinas antes da imunossupressão quando possível; vacina pendente não pode simplesmente atrasar tratamento urgente. |
| Família e continuidade | Quem administra, quem acompanha consultas, acesso aos medicamentos, faltas à escola e compreensão dos sinais de retorno. | Resolver barreiras concretas, fornecer plano escrito e acompanhar a função e a vida da criança junto com os marcadores da doença. |
Nota 1 — o intervalo ocular depende da pergunta clínica. O PCDT 2026 e a diretriz britânica de 2006 citada por ele apresentam intervalos diferentes no primeiro semestre, como documentado no bloco de divergências. O resumo ACR 2026 reforça rastreio trimestral no alto risco. A equipe deve registrar qual calendário está usando e garantir sua execução; o interno não escolhe um intervalo apenas por comparação de datas. Se já existe uveíte, aplica-se o plano de monitorização do tratamento, com intervalos definidos pela atividade e pelas mudanças de medicação.
Nota 2 — febre da forma sistêmica no Quadro 2 do PCDT. O quadro exige «febre (> 15 dias, documentada por pelo menos 3 dias na semana)». A ILAR de 2004, que o protocolo declara usar, exige febre de pelo menos 2 semanas, documentada como diária por pelo menos 3 dias, e define febre quotidiana como pico de 39 °C ou mais uma vez ao dia com volta a 37 °C ou menos. Conta: a criança com artrite, exantema e 14 ou 15 dias de febre em pico diário preenche a ILAR e fica fora do quadro; uma febre em três dias não consecutivos da semana passa no quadro sem ser quotidiana. Muda a categoria e, com ela, o fluxograma de pulso de metilprednisolona e anti-IL-6 e a vigilância da síndrome de ativação macrofágica. Esta apostila classifica pelo texto da ILAR.
Nota 3 — artrite relacionada a entesite no Quadro 2 e no item 3.1.1 do PCDT. «Início da artrite no sexo masculino» e «pacientes com mais de seis anos» aparecem como dois critérios; na ILAR são um só, «início da artrite em menino com mais de 6 anos». Conta: menino de 8 anos com artrite de um joelho, HLA-B27 negativo e nada mais soma 2 critérios pela leitura literal (entesite relacionada; e, como também preenche oligoarticular, indiferenciada), e 1 pela ILAR (oligoarticular). Menina de 7 anos com HLA-B27 positivo: 2 critérios pelo protocolo, 1 pela ILAR. A troca desloca a criança do fluxograma da oligoarticular para o da entesite relacionada e muda o calendário do olho.
Nota 4 — oligoarticular persistente e estendida no item 3.1.1 do PCDT. O texto chama de estendida a doença que, após o sexto mês, «ultrapassar cinco» articulações, e de persistente a que «permanecer com menos de cinco». Conta: 5 articulações não pertencem a nenhuma das duas. Pela ILAR, persistente é não mais que 4 e estendida é mais de 4 — e o mesmo protocolo define poliarticular como «cinco ou mais». A criança com 5 articulações é estendida e vai para o fluxograma da poliarticular, com metotrexato.
Nota 5 — teto do pulso de metilprednisolona no Quadro 5 do PCDT. A linha diz «20 a 30 mg/kg/dia por 1 a 3 dias consecutivos, seguidos por doses de 2 mg/kg/dia de 2 a 4 vezes por dia. Dose máxima de 60 mg». Conta: Tércio, com 21 kg, recebe 630 mg a 30 mg/kg — 10,5 vezes o teto; o teto é ultrapassado a partir de 2 kg a 30 mg/kg e de 3 kg a 20 mg/kg, e a apresentação listada no mesmo quadro é frasco de 500 mg. As recomendações pan-americanas de 2025 dão 10 a 30 mg/kg/dose com máximo de 1 g, e a revisão brasileira de 2024, 10 a 30 mg/kg/dia com máximo de 1 g/dia; 60 mg é o teto da prednisona oral da linha seguinte. O mesmo defeito está no PCDT da artrite reumatoide de 2026. Esta apostila usa 30 mg/kg/dia até 1 g, pelo número de dias do protocolo (ver divergências).
Nota 6 — ibuprofeno no Quadro 5 do PCDT. A linha dá 10 a 30 mg/kg/dia e manda «não exceder 3.200 mg/dia em adultos, 800 mg/dia em crianças». Conta: a 30 mg/kg/dia o teto infantil é atingido com 26,7 kg; a 20 mg/kg/dia, com 40 kg — acima desses pesos, a faixa por quilo fica inalcançável. O teto do adulto também diverge do PCDT da artrite reumatoide publicado no mesmo dia, que dá 600 a 2.700 mg/dia. Esta apostila aplica as duas regras juntas na criança — dose por quilo, sem passar de 800 mg/dia —, como na linha de Jácome da tabela de conversão.
Nota 7 — naproxeno sem teto no Quadro 5 do PCDT. A linha dá 10 a 20 mg/kg/dia em 2 doses e não fixa dose máxima. Conta: a 20 mg/kg/dia a dose passa de 1.000 mg/dia, máximo do adulto no PCDT da artrite reumatoide de 2026, a partir de 50 kg; um adolescente de 60 kg receberia 1.200 mg/dia. Esta apostila limita o naproxeno da criança e do adolescente a 1.000 mg/dia, pela regra de não passar a dose do adulto.
Nota 8 — metotrexato sem teto no Quadro 5 do PCDT. A linha dá 10 a 15 mg/m² por semana, e 20 mg/m² na uveíte grave, sem dose máxima. Conta pela fórmula de Mosteller: 15 mg/m² passa de 25 mg/semana — máximo do adulto no PCDT da artrite reumatoide de 2026 — acima de 1,67 m² (adolescente de 70 kg e 170 cm, 1,82 m², receberia 27,3 mg); 20 mg/m² passa de 25 mg acima de 1,25 m² (criança de 40 kg e 146 cm, 1,27 m², receberia 25,5 mg). Esta apostila não passa de 25 mg por semana.
Nota 9 — faixas de peso do tocilizumabe e do adalimumabe no Quadro 5 do PCDT. As doses são dadas para «menos de 30 kg» e «mais de 30 kg». Conta: a criança de exatamente 30 kg não pertence a nenhuma faixa — na forma sistêmica, 12 mg/kg dá 360 mg e 8 mg/kg dá 240 mg, 6 mL de diferença na solução de 20 mg/mL; no adalimumabe, 20 mg ou 40 mg. A decisão é do reumatologista pediátrico; o interno que transcreve a prescrição de uma criança com 30 kg confere com quem prescreveu qual faixa foi usada.
Nota 10 — metotrexato em duas classes no Manual dos CRIE, 6ª edição (2023). O Quadro 2 põe no baixo grau de imunodepressão «metotrexato em doses 0,4 mg/kg/semana», sem sinal de desigualdade; o item 4.6.1 lista entre as altas doses imunossupressoras «metotrexato ≥ 0,4 mg/kg/semana». Conta: uma criança de 25 kg com 10 mg por semana (0,40 mg/kg) é baixo grau por um e alta dose pelo outro; Alaíde, com 9 mg e 14,2 kg (0,63 mg/kg), está acima do corte do item 4.6.1 e fora do valor único do Quadro 2. A classe decide a vacina viva. Esta apostila segue o item 4.6.1, que é o escrito especificamente para a dose de imunossupressor, e trata 0,4 mg/kg por semana ou mais como alta dose.
A conduta, hora a hora
A conduta abaixo é a de Alaíde — 3 anos e 4 meses, 14,2 kg, 96 cm, joelho direito com derrame e extensão incompleta há sete semanas, afebril, sem sinal de leucemia ao exame, com duas passagens pela UPA e um papel de «provas reumáticas» na pasta. Se em qualquer marco aparecerem febre, recusa a apoiar o membro, dor noturna, palidez, sangramento ou visceromegalia, a criança sai desta linha do tempo e entra na do capítulo dono: Monoartrite aguda e artrite séptica, ou O número que não descarta.
A consulta precisa cuidar da articulação e dos olhos desde a suspeita. Artrite persistente com limitação funcional justifica encaminhamento precoce; seis semanas são um critério de classificação, não um tempo mínimo de espera. A coleta de exames e o encaminhamento acontecem em paralelo. O exame ocular também é solicitado agora, porque a uveíte pode ser silenciosa. No retorno, conferir se as consultas ocorreram, como a criança anda e brinca e se surgiram sinais que mudam a hipótese.
O esquema de metotrexato subcutâneo da vinheta segue a indicação especializada e a dose do PCDT brasileiro. A escolha da via pode variar: o resumo ACR 2026 prefere condicionalmente a via oral para início, inclusive na uveíte. Via, tolerância, resposta e acesso são discutidos com a equipe; a família não troca apresentação ou volume por conta própria. Em qualquer via, para AIJ o medicamento é administrado uma vez por semana.
Consulta 1, minuto 0 — a pergunta antes do nome
Antes de responder à mãe, responda a você mesmo se aquilo é artrite e há quanto tempo. É: há aumento de volume com derrame e há limitação dolorosa, e foi você quem viu. A data do começo é a da semana do aniversário da avó — sete semanas. A contagem é uma articulação, depois de examinar todas, inclusive a mandíbula, o pescoço e os quadris. Anote o que não está lá com o mesmo cuidado com que anota o joelho, porque é a ausência dos sinais de alarme que autoriza a conduta ambulatorial.
Prescrição- Registrar: artrite de joelho direito há 7 semanas — derrame palpável, calor discreto, sem hiperemia, extensão incompleta em cerca de 10 graus, dor à flexão máxima
- Registrar a contagem: demais articulações examinadas uma a uma, incluindo temporomandibulares, coluna cervical, punhos e quadris, sem artrite
- Registrar a ausência de sinais de alarme: afebril (36,6 °C), sem dor noturna, sem palidez, sem petéquias ou hematomas, sem adenomegalia, fígado no rebordo, baço não palpável, apoia e corre
- Peso 14,2 kg e estatura 96 cm marcados na curva da caderneta, no mesmo canal das medidas anteriores
- Olhos brancos e sem queixa — registrar que isso não exclui uveíte
Consulta 1, minuto 10 — as exclusões, uma por linha
Escreva as exclusões como hipóteses com o motivo de cada decisão, não como um «descartado» sem conta. Infecção: sete semanas, afebril, apoiando e brincando — não há indicação de punção hoje, e a condição que muda isso fica escrita. Leucemia: nenhum sinal clínico hoje, e o hemograma sai hoje. Trauma e violência: a UPA escreveu «trauma?» sem queda; pergunte de novo, a sós com a mãe se preciso, e registre a resposta. Febre reumática: uma articulação fixa por sete semanas, sem faringite e sem cardite, não é o padrão. Hemofilia: menina, sem história de sangramento.
Prescrição- Artrite séptica: sem febre, sem início súbito, sem recusa de apoio — sem punção hoje; punção no mesmo dia se surgir febre ou piora aguda, pelo capítulo Monoartrite aguda e artrite séptica
- Leucemia: sem sinal clínico — hemograma com esfregaço hoje; nenhum corticoide até exclusão registrada pelo especialista
- Trauma não acidental: história de queda negada pela mãe e pela creche, sem outras lesões — registrado; reavaliar a cada consulta
- Febre reumática: monoartrite fixa de 7 semanas, sem faringite, sem cardite, sem artrite migratória — ASLO de 320 UI/mL sem significado neste contexto
- Hipótese: artrite crônica monoarticular — suspeita de artrite idiopática juvenil oligoarticular após as exclusões
Consulta 1, minuto 15 — os pedidos, cada um com a sua pergunta
Peça pouco e escreva a pergunta ao lado de cada pedido. O hemograma responde à leucemia; a VHS e a proteína C reativa, à atividade inflamatória; a desidrogenase láctica e o ácido úrico reforçam a pergunta da neoplasia; o FAN responde ao risco de uveíte e a nada mais; a radiografia dos dois joelhos responde à lesão óssea. Não peça fator reumatoide nem HLA-B27 — nesta menina, eles não têm pergunta —, e não repita o pacote de «provas reumáticas».
Prescrição- Hemograma completo com contagem de plaquetas e revisão do esfregaço por hematologista — «afastar leucemia»
- VHS e proteína C reativa — «atividade inflamatória; linha de base»
- Desidrogenase láctica e ácido úrico — «afastar neoplasia»
- FAN — «estimar risco de uveíte em suspeita de artrite idiopática juvenil»
- Radiografia dos dois joelhos em anteroposterior e perfil — «afastar lesão óssea»
- Não solicitar: ASLO, mucoproteínas, fator reumatoide, HLA-B27
Consulta 1, minuto 20 — a receita e o que fica fora dela
O anti-inflamatório é sintomático e o protocolo não recomenda usá-lo sozinho por mais de dois meses; ele serve para Alaíde brincar enquanto a consulta especializada não chega. A dose é por quilo, com o teto infantil do protocolo: 10 mg/kg por dose de 8 em 8 horas dá 142 mg, que se arredonda para 140 mg — 2,8 mL da suspensão de 50 mg/mL da farmácia da unidade —, 420 mg por dia, 29,6 mg/kg, abaixo dos 800 mg. O corticoide fica fora da receita por qualquer via, e a razão fica escrita, porque a avó vai perguntar e a próxima UPA também.
Prescrição- Ibuprofeno 50 mg/mL suspensão oral: 2,8 mL por via oral de 8 em 8 horas, com alimento, até a consulta com o reumatologista pediátrico (não passar de 800 mg/dia)
- Não prescrever corticoide oral, intramuscular ou intra-articular — escrever no prontuário e na contrarreferência: «corticoide contraindicado até exclusão de leucemia pelo especialista»
- Sem antibiótico e sem penicilina benzatina
- Manter creche e brincadeira conforme a tolerância, como o protocolo recomenda
- Voltar no mesmo dia se houver febre, recusa a andar, dor que acorda, palidez, manchas roxas, outra articulação inchada, olho vermelho ou fotofobia
Consulta 1, minuto 25 — dois encaminhamentos no mesmo papel e a preceptora
O encaminhamento ao reumatologista pediátrico precisa trazer os dados que definem prioridade: idade, articulação, semanas de artrite, exclusões feitas e exames pedidos. O pedido de oftalmologia precisa dizer o que se quer — lâmpada de fenda para rastreio de uveíte — e por quê, senão volta com «acuidade visual normal». Os dois saem hoje. Quando a Dra. Sofrônia Prudente entrar, apresente o caso pela síntese escrita e pelas duas proibições: nada de corticoide, nada de alta sem olho examinado.
Prescrição- Encaminhamento à reumatologia pediátrica pela regulação: «Menina de 3 anos e 4 meses, artrite de joelho direito há 7 semanas, afebril, sem sinais de neoplasia ao exame, demais articulações sem artrite; hemograma, VHS, PCR, DHL, ácido úrico, FAN e radiografia solicitados; suspeita de artrite idiopática juvenil oligoarticular»
- Encaminhamento à oftalmologia: «Lâmpada de fenda para rastreio de uveíte em suspeita de artrite idiopática juvenil, assintomática; exame necessário em até 6 semanas; uveíte da doença é silenciosa»
- Explicar à mãe, e escrever para ela, que o exame de ótica não substitui a lâmpada de fenda
- Retorno com os resultados em 7 dias, com a data marcada antes de sair
- Discutir o caso com a preceptora antes da saída da família
Dia 8 — os resultados e a pergunta da mãe
Hemoglobina 11,4 g/dL, leucócitos 9.600/mm³ com diferencial normal e esfregaço sem blastos, plaquetas 412.000/mm³; VHS 26 mm/h; proteína C reativa 0,9 mg/dL; desidrogenase láctica e ácido úrico normais; FAN reagente 1:320; radiografia com aumento de partes moles no joelho direito, sem lesão óssea. Nada aponta para leucemia hoje, e isso não dispensa a regra: o corticoide continua proibido até o especialista registrar a exclusão. O FAN positivo não confirma a doença; confirma a urgência do exame de olho. Confira as duas vagas: a oftalmologia está marcada para a semana 9 e a reumatologia pediátrica, para a semana 10.
Prescrição- Registrar os resultados e a leitura: sem citopenia e sem blastos; inflamação discreta; FAN reagente 1:320 = risco de uveíte, não diagnóstico
- Manter ibuprofeno 2,8 mL de 8 em 8 horas; reavaliar a data de início para não passar de 2 meses de monoterapia sem avaliação especializada
- Confirmar data da lâmpada de fenda (semana 9) e da reumatologia pediátrica (semana 10); se a vaga de oftalmologia passar de 6 semanas do encaminhamento, pedir prioridade à regulação com o FAN anexado
- Anexar à contrarreferência: exames, síntese do exame físico e a frase sobre o corticoide
- Repetir à mãe os sinais de retorno imediato
Semanas 9 e 10 — a lâmpada de fenda e o reumatologista pediátrico
O Dr. Erasmo Mourão encontra uveíte anterior nos dois olhos, com células 1+ na câmara anterior, sem sinéquias, sem ceratopatia em faixa, com acuidade preservada. Pelo protocolo, celularidade acima de 0,5+ é indicação de tratar, e a primeira linha é o corticoide tópico, prescrito por ele. Na semana seguinte, o Dr. Onésimo Almada, reumatologista pediátrico, registra a exclusão de infecção e de neoplasia pelo curso e pelos exames, classifica pela ILAR — artrite idiopática juvenil oligoarticular, FAN positivo, com uveíte anterior crônica — e, como já há contratura, indica infiltração intra-articular do joelho, que o protocolo prefere nessa situação. O que muda para o interno é o calendário e a lista do que vigiar.
Prescrição- Oftalmologia: dexametasona 0,1% colírio conforme prescrição do oftalmologista; anotar a data de início, porque o prazo de 3 meses conta a partir dela
- Reumatologia pediátrica: infiltração do joelho direito com acetato de metilprednisolona, 0,5 a 1 mg/kg por articulação pelo protocolo (7 a 14 mg em 14,2 kg), em serviço especializado, com sedação
- Fisioterapia para recuperar a extensão do joelho
- Uveíte ativa: retorno oftalmológico no intervalo prescrito para resposta ao colírio, com células, pressão ocular e complicações registradas. Não usar o intervalo bimestral de rastreio como calendário de tratamento.
- Registrar a categoria da ILAR e o CID M08.4 no formulário
Semana 22 — quando o olho decide o metotrexato
Após 13 semanas de colírio, com 4 gotas por dia em cada olho, a lâmpada de fenda ainda mostra células 1+. O joelho está sem derrame. Pelo protocolo, uveíte não controlada em 3 meses com mais de 3 gotas por dia é indicação de metotrexato, e o reumatologista o prescreve. Antes da primeira dose, o protocolo pede exclusão de hepatites, HIV e tuberculose e a caderneta atualizada; o Manual dos CRIE classifica 0,4 mg/kg por semana ou mais como alta dose de imunossupressor, e Alaíde vai receber 0,63 mg/kg. É o interno que confere o que costuma escapar: a dose semanal escrita por extenso, o ácido fólico fora do dia do metotrexato, a vacina viva, os conviventes.
Prescrição- Antes da primeira dose: HBsAg, anti-HBc, anti-HCV e anti-HIV; hemograma, AST, ALT e creatinina; investigação de tuberculose latente pelo capítulo Tuberculose na infância
- Caderneta conferida com o calendário da criança; dose de vírus vivo pendente só com decisão do CRIE e, se aplicada, de 2 a 4 semanas antes de começar; inativadas em dia; conviventes com sarampo, caxumba, rubéola, varicela e influenza em dia
- Metotrexato 25 mg/mL: 9 mg = 0,36 mL por via subcutânea uma vez por semana, às sextas-feiras, conforme prescrição especializada deste caso. Dose calculada: 15 mg/m² × 0,62 m² = 9,3 mg, arredondada pelo prescritor para 9 mg. Nunca administrar diariamente.
- Ácido fólico 0,2 mg/mL: 5 mL (1 mg) por via oral diariamente de sábado a quinta-feira, iniciando pelo menos 24 horas após o metotrexato; neste esquema, omitir na sexta-feira.
- Hemograma, AST, ALT e creatinina em 4 semanas e depois a cada 8 a 12 semanas com dose estável
- Durante metotrexato: vacinas vivas dependem de avaliação da reumatologia e do CRIE. Febre, infecção, úlceras orais importantes, sangramento ou erro de dose exigem contato e avaliação; não repetir dose omitida ou duplicada sem orientação.
Como saber se está funcionando
A reavaliação da artrite idiopática juvenil é orientada por alvo, e o protocolo de 2026 escreve o alvo: remissão completa e sustentada, com baixa atividade aceitável em alguns casos, e, na forma sistêmica, remissão sem glicocorticoide. Os instrumentos são simples o bastante para caber numa consulta de ambulatório — contagem de articulações, avaliação global, o JADAS clínico sem exame de sangue e os critérios de doença inativa de Wallace —, e o protocolo prevê consultas a cada 4 a 12 semanas conforme a necessidade, com reavaliações a cada 3 e 6 meses quando a doença está controlada.
O interno participa dessa reavaliação de três jeitos: contando articulações do mesmo modo em toda consulta, conferindo o calendário da lâmpada de fenda e dos exames do metotrexato, e reconhecendo o que não é resposta insuficiente e sim outra doença — a febre nova numa oligoarticular, a citopenia num menino em metotrexato, a VHS que cai numa sistêmica febril. A lista abaixo segue a criança da conduta e acrescenta o que muda na forma sistêmica.
Esperado: Joelho sem derrame e com extensão completa depois da infiltração e da fisioterapia; nenhuma articulação nova
Se não melhora: Efeito da infiltração que dura menos de 6 meses, articulação nova ou articulação de mau prognóstico são indicações de metotrexato pelo protocolo. Se a soma passar de 4 articulações depois do sexto mês, a doença é oligoarticular estendida pela ILAR e segue o fluxograma da poliarticular.
Esperado: Até 1, que é doença inativa; na oligoarticular, até 1,5 é baixa atividade; na poliarticular, até 2,5
Se não melhora: Aos 3 meses, cJADAS acima de 5 na oligoarticular ou acima de 7 na poliarticular; aos 6 meses, acima de 3 ou acima de 4 — o protocolo permite acrescentar biológico, desde que a infiltração tenha sido feita e o metotrexato tenha sido usado corretamente, em 15 mg/m² por via subcutânea. Antes de concluir falha, confira a adesão e a dose realmente aplicada.
Esperado: Grau 0 de células nos dois olhos, que é o alvo do protocolo, sem sinéquias, catarata, glaucoma ou edema macular
Se não melhora: Sem controle em 3 meses de colírio com mais de 3 gotas por dia: metotrexato. Sem grau 0 depois de 3 a 4 meses de metotrexato, ou com toxicidade: biológico, adalimumabe ou infliximabe como primeira escolha pelo protocolo. Complicação presente ou baixa visual é motivo de intensificar; etanercepte não é usado na uveíte da doença.
Esperado: Sem citopenia nova e com transaminases no limite da normalidade
Se não melhora: Transaminases acima de 2 vezes o limite superior: reduzir a dose ou suspender temporariamente; acima de 3 vezes, mantidas apesar da redução: suspender, pelo quadro de monitoramento do protocolo. Citopenia nova: contato com o reumatologista no mesmo dia e conferência de que a dose aplicada é semanal e não diária.
Esperado: Oligoarticular sem febre. Na sistêmica, pelo protocolo, resolução da febre e queda de 50% da proteína C reativa em 7 dias de tratamento; em 4 semanas, queda de 50% das articulações ativas e da avaliação global do médico; em 6 a 12 meses, doença inativa sem glicocorticoide
Se não melhora: Febre nova numa oligoarticular é infecção, artrite séptica ou leucemia até prova em contrário, não atividade da artrite. Na sistêmica, febre que persiste após duas semanas de corticoide, ou dose de corticoide que não desce, é indicação de tocilizumabe; febre que perde o pico diário e fica contínua é indicação do painel de síndrome de ativação macrofágica no mesmo turno.
Esperado: Ferritina em queda, plaquetas estáveis ou subindo, fibrinogênio mantido, VHS acompanhando a proteína C reativa
Se não melhora: Febre persistente com piora, sangramento, alteração neurológica ou queda de plaquetas e fibrinogênio exige avaliação imediata de síndrome de ativação macrofágica e infecção. Ferritina acima de 684 ng/mL com dois critérios laboratoriais da tabela apoia classificação, mas não é requisito para iniciar avaliação e tratamento de uma criança que se deteriora. Acionar reumatologia e terapia intensiva; em uso de tocilizumabe, PCR baixa não tranquiliza.
Esperado: Peso e estatura no canal da criança; frequência escolar e atividade física mantidas; calendário em dia para as vacinas permitidas; família sabendo os sinais de retorno
Se não melhora: Investigar barreiras ao cuidado, inatividade, efeitos de corticoide, faltas à escola e sofrimento emocional. Vacina pendente durante imunossupressão requer discussão com CRIE e equipe assistente. Redução ou suspensão da terapia depende de remissão sustentada, risco de recaída e situação ocular; não retirar metotrexato apenas porque a articulação está sem artrite. Combinar o seguimento oftalmológico antes da mudança.
Onde o erro machuca
O dano: A dor melhora, a família e a equipe relaxam, e o mielograma feito depois pode não mostrar a doença: o capítulo de leucemia da apostila de Oncologia Pediátrica registra, pelo manual do Instituto Nacional de Câncer, que 48 a 72 horas de corticoide antes do mielograma podem impedir o diagnóstico e pioram o resultado do tratamento. A infiltração «para secar o joelho» é corticoide do mesmo jeito.
Como pegar a tempo: Escreva no prontuário e na contrarreferência que o corticoide está contraindicado até a exclusão pelo especialista. Hemograma com esfregaço no primeiro dia; mielograma antes de qualquer corticoide sempre que houver dúvida, como manda o documento da Sociedade Brasileira de Pediatria.
O dano: A uveíte anterior crônica da forma oligoarticular é assintomática e segue formando sinéquias, ceratopatia em faixa, catarata e glaucoma; a diretriz britânica de 2006 aponta o exame que faltou ou foi incompleto no primeiro ano como a causa mais frequente de dano evitável, e o protocolo registra que a uveíte não tratada pode levar à cegueira.
Como pegar a tempo: O pedido de oftalmologia sai no mesmo dia do encaminhamento à reumatologia, escrito como «lâmpada de fenda para rastreio de uveíte», com prazo de até 6 semanas. Diga à família, e escreva, que a ótica não substitui o exame e quais sinais pedem avaliação na mesma semana.
O dano: O FAN positivo vira diagnóstico e o fator reumatoide negativo vira exclusão; a ASLO moderadamente alta leva a penicilina benzatina e a um rótulo de febre reumática que a criança não tem. Enquanto isso, as perguntas que importam — leucemia, infecção, olho — ficam sem exame.
Como pegar a tempo: Vincular cada exame à pergunta: hemograma e esfregaço ajudam a avaliar causas hematológicas; VHS e PCR avaliam inflamação; FAN orienta risco ocular; fator reumatoide e HLA-B27 têm usos específicos na classificação. ASLO procura evidência de infecção estreptocócica no contexto apropriado e não confirma febre reumática isoladamente.
O dano: A dose semanal repetida todos os dias multiplica por sete a exposição a um antagonista do folato numa criança pequena. O ácido fólico no dia errado contraria a forma como o protocolo o prescreve — 1 mg por dia nos 6 dias restantes, começando pelo menos 24 horas depois do metotrexato.
Como pegar a tempo: Escreva «uma vez por semana» por extenso e o dia da semana na receita, no prontuário e no papel da família; dose em mg e em mL; ácido fólico com os dias da semana listados. Diante de citopenia ou transaminases altas numa criança em metotrexato, a primeira pergunta é como a família está aplicando.
O dano: Na síndrome de ativação macrofágica, o fibrinogênio é consumido e a VHS cai enquanto a proteína C reativa segue alta; a queda da VHS, das plaquetas e dos leucócitos em relação ao exame anterior é o começo da síndrome, que o protocolo descreve como potencialmente fatal e rápida — e a criança pode ainda não preencher os critérios no início.
Como pegar a tempo: Na sistêmica febril, peça ferritina, fibrinogênio, AST e triglicerídeos junto com o hemograma e compare cada número com o anterior, não só com a referência. Ferritina acima de 684 ng/mL com dois dos quatro critérios de 2016 é síndrome de ativação macrofágica, e o reumatologista é chamado no mesmo turno. Em tocilizumabe, não espere a proteína C reativa subir.
O dano: A artrite viral, a reativa e a da febre reumática recebem um nome crônico e às vezes imunossupressão; a doença de Kawasaki, que também junta febre, exantema e articulação, deixa de ser procurada; e a família passa a organizar a vida em torno de uma doença que não existe.
Como pegar a tempo: Registrar o início e a evolução da artrite, pesquisar causas urgentes e encaminhar cedo se houver sinovite persistente, rigidez ou perda funcional. O prazo de classificação não substitui julgamento clínico. Febre com artrite exige também avaliação de infecção, neoplasia, doença de Kawasaki e outras doenças inflamatórias conforme a apresentação.
O que dizer ao paciente e à família
Neste capítulo a conversa acontece em três lugares: no ambulatório, com uma mãe que chegou convencida de que o exame de sangue já deu o diagnóstico; na enfermaria, com um pai cujo filho piorou de madrugada depois de ter melhorado; e na unidade básica, com um adolescente que quer saber se vai poder continuar jogando bola. Em todos, o protocolo pede decisão compartilhada, com a família e com a criança capaz de compreender, e informação sobre vantagens, desvantagens e segurança de cada medicamento — e o que muda a adesão é a família sair sabendo o que vigiar e para quem ligar.
«Doutor, as provas reumáticas deram alteradas. Ela está com reumatismo no sangue?» — Urbana, na primeira consulta, com o papel da UPA na mão
“«Esse exame não diz se ela tem reumatismo, nem que tipo. A ASLO nesse valor não indica febre reumática, e ela não tem os sinais dessa doença. O que eu estou vendo é uma inflamação no joelho que já dura sete semanas, e isso tem algumas causas possíveis. Antes de dar nome, eu preciso afastar duas coisas que não podem esperar — infecção e doença do sangue —, e é para isso que vou pedir os exames de hoje. Um deles, o FAN, eu peço por outro motivo: para saber se o olho dela precisa ser vigiado com mais atenção.»”
Não diga: «Deu reumatismo, sim» ou «não é nada, esses exames vivem alterados» — as duas frases dão à família uma certeza que o exame não tem, e a segunda desmonta o retorno.
«Por que não tira logo esse líquido e dá uma injeção de corticoide para secar?» — a avó, que entrou na sala no fim da consulta
“«A infiltração pode ser o tratamento dela, e quem decide é o reumatologista infantil. Mas o corticoide, em injeção ou em comprimido, esconde algumas doenças do sangue que dão exatamente essa dor no joelho, e se ele for dado antes da hora o exame que descobriria essas doenças pode vir falsamente normal. Então hoje ela vai com anti-inflamatório, e eu escrevi no papel dela que corticoide só depois da avaliação do especialista. Se alguém oferecer, mostre esse papel.»”
Não diga: «Corticoide é perigoso» sem explicar por quê — a família ouve como opinião e aceita a injeção na próxima UPA.
«O olho dela é ótimo, ela vê formiguinha no chão. Pra que oftalmologista?» — Urbana, ao receber o segundo encaminhamento
“«Porque essa doença, quando existe, pode inflamar por dentro do olho sem deixar vermelho e sem doer. A criança pequena não reclama, e a gente só descobre com um aparelho que o oftalmologista usa, a lâmpada de fenda — a ótica não tem esse exame. Se a inflamação estiver lá e ninguém olhar, ela pode deixar cicatriz e catarata. Por isso esse pedido é tão importante quanto o do reumatologista, e se o olho ficar vermelho, ela reclamar de luz ou começar a piscar ou esfregar muito, a senhora não espera a consulta: procura atendimento na mesma semana.»”
Não diga: «É só por precaução» — a família entende que é opcional, e o exame que mais protege a criança é o primeiro a ser remarcado.
«Ela vai ficar aleijada? Pode continuar indo à creche?» — Urbana, no retorno do dia 8, depois de ler na internet
“«Se for mesmo artrite idiopática juvenil, na forma que está parecendo — um joelho só —, é a forma mais comum e, pelo protocolo do Ministério, a mais benigna para as articulações, e o tratamento existe e é fornecido pelo SUS. O que protege a articulação é tratar cedo e fazer a fisioterapia; o que protege o olho é o exame no prazo. Ela deve continuar na creche e brincando: o mesmo protocolo recomenda escola e atividade física. O que eu peço é que a senhora conte à professora sobre a manqueira da manhã, para ninguém achar que é manha.»”
Não diga: Prometer que «some com o tempo» ou citar a porcentagem que viu na internet — nenhuma das duas cabe nesta criança antes da avaliação especializada.
«Metotrexato não é remédio de câncer? Vão dar quimioterapia para a minha filha?» — Urbana, na semana 22
“«É o mesmo nome, e é uma dose muito menor, dada uma vez por semana, para acalmar a inflamação do olho e da articulação. Por isso eu escrevi o dia: toda sexta-feira, uma injeção de 0,36 mL, e nunca em outro dia. O ácido fólico, 5 mL, é nos outros seis dias, nunca na sexta. Ela vai colher exame de sangue em quatro semanas para ver fígado e sangue. Enquanto usar esse remédio, nenhuma vacina de vírus vivo sem passar pelo centro de vacinas especiais, e se ela tiver febre, a senhora procura atendimento e diz que ela usa metotrexato.»”
Não diga: «Não se preocupe, é fraquinho» — tira da família o motivo para cumprir exatamente o dia, a dose e os exames.
«Ele estava melhorando. Por que a febre voltou e por que tanto exame de novo?» — Ranulfo Azambuja, pai de Tércio, às 7 horas, na enfermaria
“«O senhor tem razão de estar assustado, e eu vou dizer o que sei agora. A doença do Tércio pode ter uma complicação em que a própria defesa do corpo se descontrola, e a febre desta noite, que não baixa entre um pico e outro, junto com as plaquetas que caíram, me fez pedir os exames que confirmam ou afastam isso. Os resultados mostram que essa complicação está acontecendo. Ela é grave e tem tratamento, que começa hoje, e a reumatologista já está a caminho. Pode ser necessário levá-lo para a terapia intensiva para vigiar mais de perto; se isso acontecer, é para cuidar melhor, e eu ou a equipe vamos avisar o senhor antes.»”
Não diga: Dizer que «a VHS até melhorou» para acalmar o pai, ou esconder a gravidade até a reumatologista chegar — os dois atrasam a confiança de que a família vai precisar nas horas seguintes.
«Vou ter que parar o futebol? E a minha mãe precisa saber de tudo?» — Jácome Rebelo, 12 anos, sozinho na sala por um momento
“«Você não precisa parar agora: mexer faz bem para essa doença, e o reumatologista vai dizer o que forçar e o que evitar enquanto o calcanhar estiver inflamado. O que eu preciso que você me conte são duas coisas — se as costas amanhecem duras e melhoram quando você se mexe, e se o olho já ficou vermelho e doendo com a luz —, porque isso muda o tratamento e o olho não pode esperar. Sobre sua mãe: o que for sobre seu corpo e sua saúde eu converso com você com respeito, e a gente decide junto como contar a ela. O remédio e os exames, ela precisa saber, porque vai ajudar você com eles.»”
Não diga: Falar só com a mãe por cima da cabeça dele, ou prometer segredo absoluto — o adolescente tem direito de ser ouvido, e o tratamento dele precisa da família.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
A cada duas semanas por seis meses, depois a cada 3 a 4 meses (PCDT da Artrite Idiopática Juvenil, Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 34, de 19/01/2026)
O item de uveíte do protocolo manda encaminhar ao oftalmologista logo no diagnóstico ou na suspeita, com avaliação na mesma semana se houver sintoma ocular, e reavaliação oftalmológica a cada duas semanas desde o início da artrite por seis meses; depois, a cada 3 a 4 meses até os 11 anos. Declara ter adaptado a diretriz britânica. No parágrafo seguinte, para depois da suspensão do metotrexato, manda avaliação a cada dois meses por seis meses, e ressalva que as frequências podem ser modificadas conforme o estado clínico e a avaliação médica.
Brasil. Ministério da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 34, de 19 de janeiro de 2026 — PCDT da Artrite Idiopática Juvenil, item «Uveíte relacionada à AIJ».
A cada dois meses por seis meses desde o início da artrite, depois a cada 3 a 4 meses pelo tempo da categoria (BSPAR e Royal College of Ophthalmologists, 2006)
A diretriz conjunta fixa o primeiro exame em até 6 semanas do encaminhamento e em até 1 semana se houver sintoma, e escreve «two monthly intervals from onset of arthritis for 6 months», seguidos de exames a cada 3 a 4 meses por um tempo que depende da categoria e da idade de início — ou, como alternativa, até os 11 ou 12 anos. Para depois de suspender o metotrexato, usa o mesmo intervalo de dois meses por seis meses.
British Society for Paediatric and Adolescent Rheumatology; Royal College of Ophthalmologists. Guidelines for screening for uveitis in juvenile idiopathic arthritis (JIA), 2006.
Estratificação do risco e distinção entre rastreio e monitorização — ACR 2026
O resumo recomenda fortemente rastreio a cada três meses nas crianças com alto risco de uveíte anterior crônica e monitorização pelo menos trimestral quando a uveíte está controlada em terapia estável. Tratamento ativo e mudanças de medicação exigem acompanhamento próprio.
American College of Rheumatology. Summary: 2026 Juvenile Idiopathic Arthritis Guidelines, publicado em 13/05/2026.
Primeiro distinguir rastreio de uma criança sem uveíte do acompanhamento de uma criança em tratamento. No rastreio, discutir com oftalmologia o risco individual e o calendário do serviço, registrando a próxima data; os intervalos divergentes do PCDT e de sua referência britânica não devem resultar em ausência de agendamento. O resumo ACR 2026 recomenda rastreio a cada três meses no alto risco. Em Alaíde, o exame já mostra uveíte: a frequência passa a depender da atividade, dos colírios e das mudanças de terapia. Sintomas novos antecipam a avaliação. O cuidado concreto é garantir acesso e continuidade, com decisão documentada entre as equipes.
20 a 30 mg/kg/dia por 1 a 3 dias, «dose máxima de 60 mg» (PCDT da Artrite Idiopática Juvenil, Quadro 5, janeiro de 2026)
O quadro de posologias do protocolo dá, na linha do succinato de metilprednisolona em frasco de 500 mg, 20 a 30 mg/kg/dia por 1 a 3 dias consecutivos, seguidos por 2 mg/kg/dia de 2 a 4 vezes por dia, e escreve «dose máxima de 60 mg» no fim da linha. O texto do mesmo protocolo prescreve pulsos intravenosos na forma sistêmica e na síndrome de ativação macrofágica, e dá à prednisona oral, na linha seguinte, 1 a 2 mg/kg/dia até o máximo de 60 mg.
Brasil. Ministério da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 34, de 19 de janeiro de 2026 — PCDT da Artrite Idiopática Juvenil, Quadro 5.
10 a 30 mg/kg por dose, máximo de 1 g, por 3 a 5 dias (Liga Pan-Americana de Associações de Reumatologia, novembro de 2025); 10 a 30 mg/kg/dia, máximo de 1 g/dia por 3 dias (revisão brasileira na Advances in Rheumatology, 2024)
As recomendações pan-americanas para a forma sistêmica, com painel que inclui reumatologistas pediátricos brasileiros, indicam o pulso na doença com alta atividade — febre alta persistente, anemia grave, miocardite, pericardite ou síndrome de ativação macrofágica — na dose de 10 a 30 mg/kg por dose, com máximo de 1 g, por 3 a 5 dias, e reservam o teto de 60 mg/dia para a prednisona oral. A revisão brasileira sobre síndrome de ativação macrofágica traz a metilprednisolona intravenosa em 10 a 30 mg/kg/dia, com máximo de 1 g/dia por 3 dias.
Franco L et al. PANLAR treatment recommendations for systemic JIA. Rheumatol Adv Pract. 2025;9(4):rkaf087; Sztajnbok F et al. Adv Rheumatol. 2024;64:28.
Não é cronologia: as duas regras dizem quanto dar no mesmo pulso da mesma criança. O escopo empata — as três fontes falam da criança com forma sistêmica — e a data e a natureza dariam o protocolo, norma de 2026. O degrau da coerência interna decide contra ele: com teto de 60 mg, o pulso de 30 mg/kg estoura a partir de 2 kg de peso, e Tércio, com 21 kg, receberia um décimo da dose da própria linha; o frasco listado no mesmo quadro tem 500 mg; e os 60 mg são o teto da prednisona oral da linha seguinte, o que aponta para um teto deslocado. A conta está na nota 5 do bloco de critério. Esta apostila adota 30 mg/kg/dia até o máximo de 1 g/dia e mantém o número de dias do protocolo, até 3 — o ponto em que o protocolo não tem defeito. Em qualquer criança acima de 33 kg, a dose de 30 mg/kg passa de 1 g e é o teto que se prescreve.
Transcrição do Quadro 2 e do item 3.1.1 (PCDT da Artrite Idiopática Juvenil, 2026)
Forma sistêmica com «febre (> 15 dias, documentada por pelo menos 3 dias na semana)»; artrite relacionada a entesite com «início da artrite no sexo masculino» e «pacientes com mais de seis anos» como dois critérios separados; oligoarticular estendida quando o número de articulações «ultrapassar cinco» e persistente quando «permanecer com menos de cinco». O protocolo declara usar a classificação da ILAR de 1997/2004 e registra para os sistemas de informação os códigos M08.0 a M08.9.
Brasil. Ministério da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 34, de 19 de janeiro de 2026 — PCDT da Artrite Idiopática Juvenil, Quadros 2 e 3 e item 3.1.1.
Texto original (ILAR, segunda revisão, Edmonton 2001, publicada em 2004)
Febre de pelo menos duas semanas, documentada como diária por pelo menos três dias, com pico de 39 °C ou mais e volta a 37 °C ou menos; «início da artrite em menino com mais de 6 anos» como um único critério da entesite relacionada; oligoarticular persistente quando não passa de 4 articulações em todo o curso e estendida quando soma mais de 4 depois do sexto mês.
Petty RE et al. International League of Associations for Rheumatology classification of juvenile idiopathic arthritis: second revision, Edmonton, 2001. J Rheumatol. 2004;31(2):390-2.
Não é cronologia nem conflito entre duas regras vivas: é a mesma regra, que o protocolo diz adotar, lida em duas cópias. Pelo escopo e pela natureza, a norma brasileira governaria o paciente do SUS; mas o degrau da coerência interna se aplica em cheio, porque os três pontos têm defeito demonstrável dentro do próprio protocolo — cinco articulações ficam sem categoria enquanto o mesmo documento define poliarticular como «cinco ou mais», e os outros dois pontos divergem do texto que ele declara transcrever (as contas estão nas notas 2, 3 e 4 do critério). Esta apostila classifica pelo texto original da ILAR e registra essa categoria no encaminhamento e no formulário, com o código da lista do protocolo. Para a criança à sua frente, isso quer dizer: o menino de 8 anos com um joelho e nada mais é oligoarticular e segue o calendário do olho da oligoarticular; a criança com 14 dias de febre diária em pico, artrite e exantema é sistêmica, e a vigilância da síndrome de ativação macrofágica começa já.
O raciocínio, em voz alta
Enfermaria de pediatria de um hospital regional, domingo, 7 horas. Tércio Azambuja tem 6 anos e 21 kg e está internado há nove dias. Chegou com 17 dias de febre que subia todo fim de tarde a 39,5 °C e voltava a 36,8 °C de madrugada, manchas róseas no tronco que apareciam e sumiam, joelhos e punhos inchados, fígado a 3 cm do rebordo e baço palpável. Hemoculturas e urocultura negativas, ecocardiograma sem alteração, mielograma sem infiltração. Com o diagnóstico de artrite idiopática juvenil sistêmica, recebeu três dias de pulso de metilprednisolona e está no quarto dia de prednisona, 40 mg pela manhã; a febre tinha sumido havia três dias. Na folha de temperatura desta noite: 38,6 °C às 20 horas, 38,9 °C à meia-noite, 38,4 °C às 4 horas — sem voltar ao normal entre as medidas. A técnica de enfermagem anotou sangramento de gengiva na escovação e disse que ele está «mais quieto que o normal». Os exames da admissão e os colhidos às 6 horas: plaquetas 486.000 e 176.000/mm³; leucócitos 21.300 e 6.100/mm³; hemoglobina 9,8 e 9,1 g/dL; VHS 96 e 18 mm/h; proteína C reativa 14,2 e 11,8 mg/dL; ferritina 1.850 e 12.400 ng/mL; AST 38 e 164 U/L; triglicerídeos 142 e 318 mg/dL; fibrinogênio 520 e 170 mg/dL. O pai, Ranulfo, pergunta por que tanto exame se o filho estava melhorando.
o que mudou na febre
Antes, a febre tinha o desenho quotidiano da forma sistêmica: um pico por dia e volta ao normal entre os picos. Esta noite ela voltou sem esse desenho — três medidas acima de 38 °C em oito horas, sem normalizar. O protocolo descreve a febre da síndrome de ativação macrofágica como geralmente persistente. Numa criança com sistêmica que tinha respondido ao corticoide, febre que volta contínua é a primeira pergunta à síndrome, antes de ser atribuída a infecção ou a atividade da doença — e as duas outras hipóteses continuam na lista, porque infecção é gatilho frequente.
o que o hemograma diz quando se compara
Lidos isoladamente, 176.000 plaquetas e 6.100 leucócitos passariam por normais. Comparados à admissão, são uma queda de 64% das plaquetas e de mais de dois terços dos leucócitos em nove dias, numa criança que continua inflamada. A revisão brasileira de 2024 insiste nesse ponto: citopenia relativa conta, e a síndrome pode aparecer com contagens inesperadamente normais diante de inflamação sistêmica ativa. Somam-se o sangramento gengival e a sonolência — sangramento e disfunção do sistema nervoso central estão na descrição clínica do protocolo.
a VHS que caiu com a criança pior
A VHS foi de 96 para 18 mm/h enquanto a proteína C reativa continua em 11,8 mg/dL e a criança piorou. Não é melhora: o fibrinogênio caiu de 520 para 170 mg/dL, consumido pela coagulação e pela disfunção do fígado, e a VHS depende dele. A dissociação entre VHS em queda e proteína C reativa alta é a assinatura laboratorial que a revisão brasileira descreve, e a queda da VHS está na lista do protocolo.
os critérios de 2016
Febril, com sistêmica conhecida: ferritina de 12.400 ng/mL, acima de 684 — o critério obrigatório. Dos quatro achados, bastam dois, e Tércio tem os quatro: plaquetas 176.000, até 181.000/mm³; AST 164, acima de 48 U/L; triglicerídeos 318, acima de 156 mg/dL; fibrinogênio 170, até 360 mg/dL. É síndrome de ativação macrofágica pelos critérios de classificação, e a decisão não espera o resultado de mais nada. A ferritina acima de 10.000 ng/mL num febril internado é, pela mesma revisão, sinal de triagem por si.
o que se faz na primeira hora
Chame agora o plantonista e a reumatologista pediátrica; a síndrome evolui rápido, e a série citada pela revisão brasileira teve um terço dos pacientes em terapia intensiva e 8% de óbitos — peça avaliação da terapia intensiva. Complete o painel do protocolo: tempo de protrombina, tempo de tromboplastina parcial ativada, D-dímero e desidrogenase láctica. Colha hemoculturas antes de mudar qualquer coisa, porque infecção pode ser o gatilho. O tratamento do protocolo começa pelo pulso de metilprednisolona: a 30 mg/kg, Tércio recebe 630 mg por via intravenosa, abaixo do máximo de 1 g/dia que esta apostila adota — dois frascos de 500 mg abertos —, uma vez ao dia. Escreva a evolução com os números de antes e de agora.
se a resposta não vier
O protocolo manda acrescentar ciclosporina, por via oral ou intravenosa, quando a resposta ao pulso não é evidente, com doses altas só nos casos excepcionalmente graves; o quadro de posologias dá 2 a 5 mg/kg/dia, que em Tércio são 42 a 105 mg por dia. A Rename 2024 traz ciclosporina em cápsulas e em solução oral de 100 mg/mL — 0,21 a 0,52 mL de 12 em 12 horas —, mas não traz a apresentação injetável, que depende da padronização do hospital; se ele não puder engolir, isso precisa ser resolvido antes da madrugada seguinte. A decisão e a dose são da reumatologista. Quando, mais adiante, o tocilizumabe entrar pela forma sistêmica, lembre o alerta da revisão: nele, a síndrome pode voltar com sintomas mais leves e sem subida da proteína C reativa.
o que se diz ao pai e o que se escreve
Ao Ranulfo, a verdade na ordem certa: a doença do filho tem uma complicação em que a defesa do corpo se descontrola, os exames mostram que ela está acontecendo, é grave, tem tratamento que começa agora, e a equipe especializada está chegando; a terapia intensiva pode ser o próximo lugar, para vigiar melhor. No prontuário: «Síndrome de ativação macrofágica em AIJ sistêmica pelos critérios de 2016 — ferritina 12.400 ng/mL; plaquetas 176.000/mm³ (486.000 na admissão); AST 164 U/L; triglicerídeos 318 mg/dL; fibrinogênio 170 mg/dL; VHS 18 mm/h com PCR 11,8 mg/dL; febre contínua desde 20 h; gengivorragia; sonolência. Conduta: reumatologia pediátrica e UTI acionadas às 7h15; hemoculturas; coagulograma, D-dímero, DHL; metilprednisolona 630 mg IV. Repetir o painel em 24 horas ou antes se piora».
Faça você
Unidade básica de saúde, terça-feira, 15 horas. Jácome Rebelo tem 12 anos, 42 kg e 152 cm, e veio com a mãe porque o joelho esquerdo está inchado há nove semanas. Joga futebol na escola e reclama que o calcanhar direito dói «na parte de trás» depois do treino, a ponto de trocar de tênis duas vezes. Conta, quando a mãe sai da sala para atender o telefone, que acorda com as costas duras e que só melhora depois de se mexer por meia hora. O pai tem «espondilite», diagnosticada aos 30 anos. Não teve febre, não emagreceu, não tem manchas na pele nem alteração nas unhas; nunca teve olho vermelho. Ao exame: afebril, sem adenomegalia nem visceromegalia; derrame no joelho esquerdo com limitação dolorosa da flexão; dor à palpação da inserção do tendão calcâneo direito; dor à compressão direta da sacroilíaca direita; demais articulações sem artrite; unhas sem depressões. Não há exame anterior.
reconheço o que é
Complete: é artrite? há quanto tempo? começou antes dos 16 anos? O que precisa ser afastado antes de dar nome, e quais achados desta consulta já contam contra infecção e contra leucemia?
classifico pela ILAR
Complete: ele precisa de dois critérios adicionais para entrar na artrite relacionada a entesite, ou já entra por outro caminho? Quais critérios da lista ele tem, e quantos deles vêm de «menino com mais de 6 anos»? Por que ele não é oligoarticular, mesmo com uma articulação só?
o que peço hoje, e o que cada exame responde
Complete: quais exames saem hoje, com a pergunta de cada um? O HLA-B27 muda o quê para ele? E o olho: qual uveíte ameaça esta categoria, ela se rastreia ou se reconhece, e o que a família precisa saber?
a receita da unidade e a do especialista
Complete: qual anti-inflamatório a unidade básica tem hoje, em que dose por quilo, com que teto e quantos comprimidos por dia? Se o especialista trocar para naproxeno, quanto ele toma, em que apresentação e por que o teto importa num menino de 42 kg?
encaminho e combino com ele
Complete: o que o encaminhamento precisa dizer para ter prioridade? O que muda no tratamento especializado se houver sacroiliíte? E o que você combina com o próprio Jácome sobre o futebol, os sinais do olho e o que a mãe precisa saber?
Ver como fecharíamos
É artrite — derrame com limitação dolorosa, vista por você — há nove semanas, com início aos 12 anos: suspeita de artrite idiopática juvenil depois das exclusões. Contra infecção pesam a ausência de febre, o curso de nove semanas e o apoio preservado; contra leucemia, a ausência de dor noturna forte, de palidez, de adenomegalia e de visceromegalia — mas o hemograma com esfregaço sai hoje, e corticoide não entra até a exclusão registrada. Pela ILAR, ele entra na artrite relacionada a entesite pelo primeiro caminho, artrite e entesite juntas, sem precisar de mais nada; e ainda tem dor sacroilíaca à compressão com dor lombossacra inflamatória, início da artrite em menino com mais de 6 anos — um critério só, e não dois, como a transcrição do protocolo sugere — e pai com espondilite anquilosante. Não é oligoarticular porque a doença ligada ao HLA-B27 em parente de primeiro grau é exclusão dessa categoria. Hoje: hemograma com esfregaço («afastar leucemia»), VHS e proteína C reativa («inflamação»), radiografia do joelho («lesão óssea»); o HLA-B27 é critério da categoria e anexo do Componente Especializado, e ajuda o especialista, mas não muda a conduta de hoje. A uveíte desta categoria é a anterior aguda sintomática — olho vermelho, doloroso, com fotofobia —, que se reconhece e vai à oftalmologia no mesmo dia pelo capítulo Olho vermelho: conjuntivites, uveíte, glaucoma agudo e ceratite; como a doença começou depois dos 11 anos, a diretriz britânica prevê um ano de lâmpada de fenda, e o pedido sai junto. Na unidade: ibuprofeno 200 mg, 1 comprimido de 6 em 6 horas — 800 mg/dia, 19 mg/kg/dia, dentro da faixa de 10 a 30 mg/kg/dia e exatamente no teto infantil do protocolo. Com o especialista, naproxeno 250 mg, 1½ comprimido de 12 em 12 horas — 750 mg/dia, 17,9 mg/kg/dia —, porque o protocolo não fixa teto e, a 20 mg/kg/dia, um adolescente passaria da dose do adulto a partir de 50 kg. O encaminhamento diz: menino de 12 anos, artrite de joelho esquerdo há 9 semanas, entesite do calcâneo, dor sacroilíaca à compressão, pai com espondilite, sem sinais de infecção ou neoplasia. Se a sacroiliíte se confirmar, o protocolo permite anti-TNF antes do metotrexato. Com Jácome, a sós e depois com a mãe: pode seguir jogando dentro do que a dor permitir até o especialista orientar; olho vermelho e dor com a luz são motivo de atendimento no mesmo dia; e o remédio e os exames serão combinados com a família, porque ele vai precisar dela para cumpri-los.
Febril com forma sistêmica, ferritina acima de 684 ng/mL e os quatro achados dos critérios de 2016: plaquetas até 181.000/mm³, AST acima de 48 U/L, triglicerídeos acima de 156 mg/dL e fibrinogênio até 360 mg/dL. A VHS cai porque o fibrinogênio é consumido, enquanto a PCR segue alta — não é melhora. O protocolo trata com pulso de metilprednisolona e acrescenta ciclosporina se não houver resposta; hemoculturas entram junto, porque infecção pode ser o gatilho, mas suspender o corticoide é o oposto do tratamento.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Explique por que uma criança com três semanas de sinovite e perda funcional pode precisar de encaminhamento antes de preencher a classificação de AIJ. Depois, organize o plano de Alaíde em quatro frentes: articulação e função, olhos, tratamento e família. Diga o que cada exame responde e por que FAN negativo não elimina risco ocular. Demonstre a prescrição semanal de metotrexato com concentração e volume, o esquema separado de ácido fólico e os controles. Por fim, reconheça piora sistêmica com ferritina em ascensão e plaquetas em queda sem esperar todos os critérios de ativação macrofágica.
Em 30 dias
Procure, no seu serviço, três crianças atendidas no último mês com articulação inchada ou claudicação. Em cada prontuário, confira se alguém escreveu há quantas semanas a articulação incha, se todas as articulações foram examinadas, se os sinais de alarme de infecção e de leucemia foram registrados como presentes ou ausentes e se houve corticoide antes de hemograma. Se alguma tiver suspeita de artrite idiopática juvenil, verifique se a lâmpada de fenda foi pedida, marcada e feita no prazo. Depois descubra três coisas sobre a sua rede: como se encaminha uma criança à reumatologia pediátrica e qual prioridade a regulação reconhece; como se consegue lâmpada de fenda para rastreio numa criança assintomática; e se o hospital tem ciclosporina injetável e dosagem de ferritina, fibrinogênio e triglicerídeos na rotina de urgência. Escreva as respostas onde você as encontre numa noite de plantão.
Agora atenda
Agora atenda: ambulatório de pediatria, meio da manhã, menina de 3 anos trazida pela mãe com o joelho direito inchado há sete semanas, duas passagens pela UPA e um papel de «provas reumáticas» na bolsa. Conte as semanas e as articulações, procure os sinais de infecção e de leucemia, explique o que o exame de sangue diz e o que não diz, decida o que sai da receita, e não deixe a família ir embora sem o pedido de lâmpada de fenda.
