Pediatria › Imunologia Pediátrica
Os linfócitos que ninguém contou
Imunodeficiências primárias: sinais de alerta e investigação inicial
Quase toda criança que adoece demais tem creche, irmão mais velho e um sistema imune normal. A que tem um erro inato da imunidade deixa rastros que se leem na história, na curva de peso, na cicatriz da BCG e num número do hemograma que costuma passar sem conta — e o lactente com imunodeficiência combinada grave não pode esperar pela consulta do mês que vem.
Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI). Departamento Científico de Erros Inatos da Imunidade. Sinais de alerta para erros inatos da imunidade. Folder digital. São Paulo: ASBAI, 2024.
Goudouris ES, Oliva-Alonso ML, coordenadoras. Imunodeficiências primárias (ou erros inatos da imunidade) para o não especialista. Comissão de Imunodeficiências da ASBAI-Regional Rio de Janeiro. São Paulo: Modo!; 2023. ISBN 978-65-981597-0-2.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento do Programa Nacional de Imunizações. Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais. 6. ed. Brasília: Ministério da Saúde; 2023. ISBN 978-65-5993-501-7.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento do Programa Nacional de Imunizações. Nota Técnica nº 52/2026-CGICI/DPNI/SVSA/MS: vacina pneumocócica conjugada 20-valente na Rede de Imunobiológicos para Pessoas com Situações Especiais e transição dos esquemas. Brasília, 20 maio 2026. Processo SEI 25000.066865/2026-15.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento do Programa Nacional de Imunizações. Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação: ano 2026. 3. ed., atualizada em 17 jul. 2026. Brasília: Ministério da Saúde; 2026.
Brasil. Lei nº 14.154, de 26 de maio de 2021. Altera a Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente), para aperfeiçoar o Programa Nacional de Triagem Neonatal (PNTN), por meio do estabelecimento de rol mínimo de doenças a serem rastreadas pelo teste do pezinho. Diário Oficial da União, 27 maio 2021.
Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 7.293, de 26 de junho de 2025. Altera as Portarias de Consolidação GM/MS nº 5 e nº 6, de 28 de setembro de 2017, para dispor sobre o Programa Nacional de Triagem Neonatal – PNTN no âmbito do Sistema Único de Saúde – SUS.
Brasil. Ministério da Saúde. Biblioteca Virtual em Saúde. 6/6 – Dia Nacional do Teste do Pezinho 2026. Brasília: Ministério da Saúde; 2026.
Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh). Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Triângulo Mineiro. Protocolo PRT.HC-UFTM-UCA.003: Quando pensar em erros inatos da imunidade — alertas para investigação e encaminhamento ao especialista. Versão 2. Uberaba: Ebserh; 26 set. 2025.
Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI). Departamento Científico de Erros Inatos da Imunidade; Comissão de Assuntos Comunitários. Erros inatos da imunidade ou imunodeficiências primárias. Folheto. São Paulo: ASBAI; 2023.
Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 11.685, de 2 de julho de 2026. Altera a Portaria de Consolidação GM/MS nº 5, de 28 de setembro de 2017, para dispor sobre o regulamento técnico de procedimentos hemoterápicos. Diário Oficial da União, edição extra, 3 jul. 2026.
Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 11.211, de 13 de maio de 2026. Altera o Anexo 1 do Anexo V à Portaria de Consolidação GM/MS nº 4, de 28 de setembro de 2017 (Lista Nacional de Notificação Compulsória). Diário Oficial da União, 14 maio 2026, seção 1, p. 1120.
Mato Grosso do Sul. Secretaria de Estado de Saúde. MS amplia teste do pezinho gratuito pelo SUS e passa a detectar mais de 40 doenças em recém-nascidos. Campo Grande, 3 jun. 2025.
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde; 2024.
Royal Children’s Hospital Melbourne. Clinical Practice Guidelines: Primary immunodeficiencies. https://www.rch.org.au/clinicalguide/guideline_index/Primary_immunodeficiencies/
Australian Red Cross Lifeblood. Irradiated components. https://www.lifeblood.com.au/health-professionals/products/blood-components/modifications/irradiated
Responda antes de ler
Menino de 18 meses, 10,5 kg, com duas pneumonias em lobos diferentes desde os 9 meses — uma delas com hemocultura positiva para pneumococo — e otite média supurada de repetição. Não frequenta creche. Ao exame, não se veem amígdalas e não há linfonodos palpáveis. Hemograma com 3.900 linfócitos/mm³ e 4.200 neutrófilos/mm³. IgG 90 mg/dL, IgA abaixo de 7 mg/dL, IgM 15 mg/dL; albumina normal. Qual é o próximo passo mais adequado?
O paciente que você vai ver
Segunda-feira, onze e vinte da manhã, enfermaria de pediatria de um hospital regional. Benedito Formosinha tem 5 meses e 10 dias, e esta é a segunda internação dele em dois meses. Chegou de madrugada do pronto-socorro com respiração rápida, tiragem subcostal e saturação de 89% em ar ambiente; a radiografia mostra infiltrado intersticial nos dois pulmões. O plantão escreveu «pneumonia viral, provável bronquiolite arrastada», colocou oxigênio por cateter nasal e começou antibiótico. Você é o interno que vai admitir o caso na enfermaria e tem vinte minutos antes da visita.
A caderneta conta a primeira parte da história sem que ninguém precise perguntar. Benedito nasceu a termo com 3.300 g, em cima da mediana. Aos 3 meses pesava 5.400 g, uma linha abaixo; hoje pesa 5.600 g e está abaixo do escore z −2 — em dois meses ganhou 200 g. A mãe, Magdala, diz que ele mama bem no peito, mas «faz cocô mole desde os dois meses e meio, umas seis vezes por dia, e nunca mais firmou». A monilíase da boca apareceu com um mês, sumiu com a nistatina e voltou três vezes.
Na página das vacinas, tudo em dia e no dia certo: BCG e hepatite B na maternidade; aos 2 e aos 4 meses, penta, poliomielite inativada, pneumocócica 10-valente e rotavírus. Na página da triagem neonatal, o teste do pezinho da rede pública, colhido no quarto dia, veio normal. Quando você pede para ver o braço direito, a mãe levanta a manga e explica que «a vacina do bracinho virou uma ferida que não fecha». No lugar da cicatriz esperada há uma úlcera de 1,5 cm de bordas elevadas e, na axila do mesmo lado, um linfonodo de 2,5 cm, firme, que alguém chamou de «reação normal da BCG» há três semanas.
A primeira internação foi aos 3 meses, por «bronquiolite», e durou cinco dias. No resumo de alta está grampeado o hemograma daquela vez: leucócitos 8.200/mm³, neutrófilos 80%, linfócitos 13%. Ninguém transformou os 13% em número. O hemograma desta madrugada repete o desenho: leucócitos 7.400/mm³, neutrófilos 84%, linfócitos 11%, hemoglobina 10,4 g/dL, plaquetas 310.000/mm³. O laudo marca a neutrofilia com um asterisco; a contagem absoluta de linfócitos está numa linha que o sistema do laboratório imprime e que ninguém leu.
Ao exame, além do esforço respiratório, você não palpa linfonodo em nenhuma cadeia, a não ser o da axila direita. A orofaringe tem placas brancas que não saem com a espátula. O fígado está a 2 cm do rebordo costal, o baço não se palpa, não há sopro, e a pele não tem lesão além da úlcera do braço. Benedito está acordado, pálido, e chora pouco — o que, num lactente de 5 meses com essa respiração, não é tranquilidade.
A história familiar não está na papeleta do pronto-socorro. Você pergunta, e a mãe responde sem hesitar: «A minha irmã teve um menino que morreu com 7 meses, de pneumonia que não sarava. Disseram que foi fraqueza». Os pais não são parentes entre si. Benedito é o primeiro filho do casal. A irmã de Magdala está grávida de novo, de seis meses.
Faça a conta que ninguém fez: 11% de 7.400 são 814 linfócitos por milímetro cúbico; aos 3 meses eram 1.066. Num lactente dessa idade, o limite inferior de referência de linfócitos passa de 2.400, e a lista brasileira de sinais de alerta do primeiro ano de vida chama de sinal qualquer contagem abaixo de 2.500. Some a diarreia que não firmou, a candidíase que volta, o peso que caiu de linha, a úlcera da BCG com o linfonodo, a pneumonia intersticial com hipoxemia e o primo materno que morreu no primeiro ano. Este não é o lactente que pega tudo porque convive com outras crianças. É um lactente com cinco dos doze sinais de alerta do primeiro ano de vida, mais o déficit de crescimento da lista geral, e, com essa contagem, com suspeita de imunodeficiência combinada grave — que o protocolo brasileiro de 2025 usado neste capítulo chama de emergência pediátrica.
O resto do capítulo é o que você faz nas próximas horas e o que teria mudado se alguém tivesse feito a conta aos 3 meses: quais sinais separam a criança de creche da criança com erro inato da imunidade, por que a linfopenia do lactente é o achado mais barato e mais ignorado da enfermaria pediátrica, o que se pede antes de encaminhar e o que fica para o centro de referência, quais vacinas e hemocomponentes deixam de ser rotina a partir desta manhã, e como conversar com uma mãe que acabou de ligar a morte do sobrinho à doença do filho.
Quem adoece disso
A epidemiologia deste capítulo tem dois lados, e o interno precisa carregar os dois ao mesmo tempo. De um lado, a imensa maioria das crianças que adoecem muito é imunologicamente normal. Do outro, os erros inatos da imunidade são bem mais frequentes do que a pediatria aprendeu a pensar — e a forma mais grave deles mata no primeiro ano de vida quem não é reconhecido a tempo.
Comece pelo lado que ocupa o ambulatório. O folheto da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia de 2023 lembra que o sistema imune da criança segue amadurecendo até por volta dos 4 anos e que, na criança que frequenta creche, até 12 resfriados por ano são considerados normais, desde que leves, sem sinais de gravidade e sem necessidade de antibiótico. O mesmo texto registra o que agrava a conta sem nenhum defeito imune: prematuridade, creche, exposição ao fumo e vacinação incompleta. A maioria das crianças com infecção de repetição, diz o folheto, é imunologicamente normal; algumas têm alergia respiratória, que se confunde com resfriado; e só uma pequena proporção tem imunodeficiência.
Agora o outro lado. Quando a Fundação Jeffrey Modell e a Cruz Vermelha Americana publicaram os primeiros dez sinais de alerta, em 1993, eram conhecidos menos de 50 defeitos primários da imunidade, quem cuidava deles eram quase só pediatras e as imunodeficiências eram tidas como doenças de 1 em 10.000 a 1 em 100.000 pessoas. O folder da mesma associação de 2024 conta outra história: 485 doenças na classificação internacional de 2022 e uma frequência média estimada em torno de 1 a cada 1.200 indivíduos, com os defeitos de produção de anticorpos no topo.
Os números não brigam; medem populações diferentes. O protocolo do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Triângulo Mineiro, de 2025, cita registros internacionais com prevalência de 1 em 8.500 a 1 em 100.000 para pacientes sintomáticos — e registro só conta quem teve sintoma. A deficiência de IgA, o erro inato mais frequente, que o livro da regional fluminense da associação estima em 1 em 600 pessoas de ascendência europeia, é habitualmente assintomática ou quase, pelo mesmo livro, e raramente chega a registro algum. Para o interno, a tradução prática é que a criança com erro inato não é uma raridade que aparece uma vez na carreira; é uma criança que passa pelo pronto-socorro várias vezes antes de alguém ligar os pontos.
O subdiagnóstico tem uma causa conhecida: procurar só infecção. O folder de 2024 afirma que olhar apenas para o componente infeccioso perde até 25% dos casos, porque autoimunidade precoce, inflamação sem agente, alergia grave e câncer precoce podem ser a primeira ou a única manifestação. E a lista existe para sensibilidade, não para especificidade: ela serve para não deixar passar, e por isso muita criança que preenche um sinal não tem doença nenhuma.
A imunodeficiência combinada grave é o extremo que justifica a urgência do capítulo. O protocolo de 2025 dá uma frequência aproximada de 1 em 55.000 recém-nascidos e registra que menos de um terço dos afetados tem história familiar — ou seja, esperar o irmão que morreu para suspeitar perde a maioria. Sem reconstituição imune, a doença é potencialmente fatal até os 2 anos; o livro da regional fluminense é mais duro e escreve que, sem condução adequada, esses lactentes morrem no primeiro ano de vida. Metade dos casos, pelo mesmo livro, é a forma ligada ao X, que só acomete meninos e caminha pela linhagem materna.
As outras portas têm números que ajudam a pensar na família. Na agamaglobulinemia ligada ao X, o livro registra história familiar positiva em cerca de 40% dos afetados. Na doença granulomatosa crônica, a forma ligada ao X responde por 65% dos casos e tende a começar mais cedo e com mais gravidade. As deficiências do complemento, pelo protocolo de 2025, são 3% a 5% dos erros inatos. E a história familiar positiva, citada pelo mesmo protocolo, multiplica por 18 a chance de uma criança com sinais de alerta ter o diagnóstico confirmado — é o sinal isolado que mais pesa.
Falta um número, e ele precisa ser dito: nas fontes brasileiras usadas neste capítulo não há contagem nacional de crianças com erro inato diagnosticado nem de óbitos por imunodeficiência combinada grave. O que existe é um marco legal de triagem ainda não cumprido: a Lei nº 14.154/2021 pôs as imunodeficiências primárias na quarta das cinco etapas de ampliação do teste do pezinho, e em junho de 2026 a página do Ministério da Saúde ainda listava, no painel nacional do SUS, só as 7 doenças da primeira etapa. Onde o estado não ampliou o painel por conta própria, quem acha o lactente com imunodeficiência combinada grave é o hemograma lido com atenção — não o papel-filtro.
Por que acontece o que acontece
O mecanismo que o interno precisa é um mapa de quatro portas, porque cada parte do sistema imune que falha deixa entrar germes diferentes, numa idade diferente, e se denuncia num exame diferente. O livro da regional fluminense da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia organiza isso num quadro que vale decorar pela lógica, não pela lista: defeito de anticorpo dá bactéria encapsulada, enterovírus e micoplasma, em via respiratória, intestino, articulação e sistema nervoso, depois dos seis meses; defeito combinado de célula T e B dá vírus, fungo, Pneumocystis e protozoário, desde os primeiros meses; defeito de fagócito dá estafilococo, bactérias como Serratia e Burkholderia e fungos, em pele, linfonodo, pulmão, osso e fígado; defeito de complemento dá encapsulada e Neisseria em qualquer idade. O que o capítulo do adulto já explica — a imunodeficiência comum variável, a deficiência de IgA, as causas secundárias — fica em A terceira pneumonia (Imunodeficiências primárias e secundárias), na apostila de Imunologia, e não se repete aqui.
A idade de início tem uma explicação que só existe na criança: a IgG da mãe. Ela atravessa a placenta e protege o lactente nos primeiros meses, enquanto a produção própria começa. Por isso os defeitos puros de anticorpo costumam aparecer depois dos seis meses, quando a IgG materna acabou, e por isso a dosagem de IgG num lactente de 3 ou 4 meses mede também a mãe. A tabela brasileira de referência usada pela associação começa na faixa de 3 a 6 meses e mostra o vale fisiológico: o percentil 3 da IgG fica em 338 mg/dL entre 3 e 9 meses e só passa de 500 depois de 1 ano. Uma IgG «normal» aos 4 meses não descarta nada; uma IgG muito baixa aos 16 meses já não tem a mãe como desculpa.
A porta da célula T se denuncia no hemograma por um motivo aritmético. No lactente, os linfócitos T são a maior parte dos linfócitos do sangue: pela referência europeia reproduzida no mesmo livro, entre 1 e 5 meses o total de linfócitos vai de cerca de 2.400 a 10.000 por milímetro cúbico, e só os T somam de 1.700 a 7.800. Quando o timo não produz célula T, o total despenca. É por isso que a maioria dos lactentes com imunodeficiência combinada grave tem linfopenia no hemograma de rotina — e é por isso que ler só o percentual, num leucograma com neutrofilia de infecção, esconde o achado. O livro faz duas ressalvas que o interno não pode esquecer: alguns lactentes têm contagem normal porque linfócitos T da mãe passaram para o filho e se instalaram, com lesão de pele eritrodérmica; e na síndrome de Omenn, uma forma de imunodeficiência combinada grave, há eritrodermia, eosinofilia e IgE alta, muitas vezes sem linfopenia.
O timo que não trabalha também não deixa rastro de DNA. Ao montar o receptor de antígeno, cada linfócito T novo recorta um pedaço circular de DNA, o círculo de excisão do receptor de célula T (TREC), e o linfócito B faz o equivalente, o KREC. A quantificação desses círculos numa gota de sangue seco é a base da triagem neonatal da imunodeficiência combinada grave, descrita no protocolo de 2025 do hospital universitário mineiro: TREC ausente ou muito baixo no recém-nascido significa que quase não saiu célula T nova do timo. A mesma lógica explica um achado de radiografia: a ausência da sombra do timo é típica, mas não obrigatória, porque o timo pode aparecer em algumas formas e pode involuir em qualquer lactente gravemente desnutrido ou infectado.
Metade das imunodeficiências combinadas graves, pelo livro, vem de um único gene do cromossomo X, o que codifica a cadeia gama comum, peça compartilhada pelos receptores de seis interleucinas (IL-2, IL-4, IL-7, IL-9, IL-15 e IL-21). Sem a sinalização de IL-7 não há maturação de linfócito T; sem IL-15 não há célula natural killer; sem IL-4 e IL-21 o linfócito B existe, mas não produz anticorpo. O resultado é o fenótipo T-B+NK-: células B em número normal e inúteis. Como a herança é ligada ao X, os afetados são meninos, e a história que importa está na linhagem da mãe — o primo filho da tia materna, o tio materno que morreu cedo. Foi exatamente essa a frase de Magdala.
A porta do anticorpo tem na agamaglobulinemia ligada ao X o exemplo que o interno encontra. O defeito é na enzima tirosina quinase de Bruton, necessária para o linfócito B amadurecer na medula. Sem ela, a maturação para antes do estágio de célula B: IgG, IgM e IgA ficam muito baixas ou ausentes, as células B no sangue ficam abaixo de 1% a 2%, e as amígdalas, as adenoides e os linfonodos quase não existem, porque grande parte deles é feita de linfócito B. O menino cresce bem enquanto tem IgG da mãe e, a partir do segundo semestre, começa a colecionar otite supurada, sinusite, pneumonia por pneumococo e Haemophilus, às vezes meningite e artrite, giardíase que não sai e uma suscetibilidade particular a enterovírus, inclusive o da vacina oral contra a poliomielite.
A porta do fagócito falha de outro jeito: o neutrófilo chega, engole e não mata. Na doença granulomatosa crônica, o defeito está no complexo enzimático que produz as espécies reativas de oxigênio, a explosão oxidativa. Sem ela, bactérias produtoras de catalase, micobactérias e fungos sobrevivem dentro da célula e formam abscessos e granulomas em pulmão, pele, linfonodos, ossos e fígado. Três detalhes do livro mudam o raciocínio à beira do leito: a infecção pode ser grave com poucos sinais inflamatórios, a resposta a vírus é normal — então a criança não «vive gripada» —, e a BCG pode dar reação grave. A outra metade da porta é o número: a neutropenia congênita aparece no hemograma, na contagem absoluta de neutrófilos.
A porta do complemento explica a meningococcemia de repetição e por que se pedem dois exames, não um. O complemento tem três vias de ativação que convergem em C3 e terminam no complexo de ataque à membrana, de C5 a C9. Falta de componente inicial da via clássica dá infecção por encapsulada e doença parecida com lúpus, com CH50 muito baixo e AP50 normal; falta de componente terminal dá infecção repetida por Neisseria, com CH50 e AP50 ausentes; falta de fator D ou de properdina, da via alternativa, também dá Neisseria, mas com CH50 normal e AP50 muito baixo. Quem pede só o CH50 perde a deficiência de properdina. E as duas portas finais do raciocínio são as que matam sem infecção natural: a vacina de agente vivo, que no defeito combinado vira doença disseminada — o livro cita BCG, rotavírus, poliomielite oral, febre amarela e sarampo —, e o linfócito do doador numa bolsa de sangue não irradiada, que se instala num receptor incapaz de rejeitá-lo e produz a doença do enxerto contra o hospedeiro associada à transfusão, prevenida pela irradiação que a norma de hemoterapia exige nas imunodeficiências congênitas graves.

Como se apresenta de verdade
Este capítulo é dono do reconhecimento da criança com suspeita de erro inato da imunidade — do recém-nascido ao adolescente — e da primeira leva de exames que ela recebe antes do encaminhamento. O adulto com suspeita de erro inato, a imunodeficiência comum variável, a deficiência de IgA, a reposição de imunoglobulina pelo protocolo federal e as imunodeficiências secundárias ficam em A terceira pneumonia (Imunodeficiências primárias e secundárias), na apostila de Imunologia, que até hoje carregava a criança por falta de dono e que a partir deste capítulo a devolve para cá.
A apresentação se organiza em três perguntas. A primeira é se aquela criança que adoece muito tem mesmo algo além da idade e da creche. A segunda é se ela é um lactente — porque o primeiro ano tem sinais próprios e uma doença que não espera. A terceira, quando a suspeita se sustenta, é por qual das quatro portas a infecção está entrando, porque é a porta que escolhe o exame.
1 · A criança de creche que adoece muito e não tem imunodeficiência
É a consulta mais comum do tema, e ela quase sempre termina sem exame imunológico. A mãe conta que o filho de 2 anos «vive doente» desde que entrou na creche: coriza, tosse, febre de dois dias, uma otite no inverno. O folheto de 2023 da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia dá o número que organiza a conversa: na criança que frequenta creche, até 12 resfriados por ano são considerados normais, desde que sejam leves, sem sinais de gravidade e sem necessidade de antibiótico.
O que sustenta a tranquilidade não é o número de episódios; é o conjunto. A criança cresce no próprio canal da caderneta. Os episódios são leves, resolvem no tempo esperado e respondem ao tratamento habitual. Não houve internação por infecção grave, nem antibiótico endovenoso, nem germe incomum. As vacinas estão em dia e nenhuma deixou reação estranha. Não há morte de lactente por infecção, nem consanguinidade, nem diagnóstico de imunodeficiência na família. Com tudo isso presente, a explicação é a idade, a exposição e, às vezes, fatores que o folheto lembra: prematuridade, fumo em casa e vacinação incompleta.
Duas confusões frequentes merecem pergunta direta. A primeira é a rinite alérgica tomada por resfriado: coceira no nariz e nos olhos, espirros em salva, coriza clara, piora sazonal ou com poeira falam de alergia, não de infecção. A segunda é a pneumonia «de repetição» que é sempre no mesmo lugar. O livro da regional fluminense da associação lista como sinal de alerta as pneumonias repetidas principalmente em locais diferentes ou associadas a otite e sinusite. A leitura inversa, que este capítulo faz, é que a pneumonia que volta sempre no mesmo lobo aponta primeiro para causa local — corpo estranho aspirado, malformação, compressão brônquica — e pede imagem antes de imunoglobulina. O capítulo Pneumonia na criança, na apostila de Pneumologia Pediátrica, é dono do diagnóstico e do tratamento de cada episódio; a pergunta sobre a repetição, que lá não é tratada, este capítulo assume.
A conduta nessa criança é explicar, orientar os sinais de gravidade, conferir a vacinação e marcar retorno — e resistir a dois pedidos. O primeiro é a «bateria de imunidade», que em criança sem sinal de alerta produz achados que não significam doença, como a IgA ainda baixa de uma criança pequena. O segundo é o «remédio para a imunidade»: o folheto é claro em que a dosagem de vitaminas não diagnostica imunodeficiência e em que o tratamento dos erros inatos é específico e especializado. A seção seguinte diz o que faz essa mesma consulta mudar de rumo.
2 · Os dez sinais de 2024, lidos na criança
A lista brasileira vigente é o folder de 2024 da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia, com dez sinais e sem divisão por idade. Ela substituiu, na apresentação da própria associação, as listas separadas de criança e de adulto com números. Os sinais são: história familiar de erro inato da imunidade ou consanguinidade; infecções com frequência aumentada para a faixa etária, de curso prolongado ou inesperado, ou por microrganismo não usual ou oportunista; diarreia crônica de início precoce; quadros alérgicos graves; eventos adversos não usuais a vacinas atenuadas — BCG, febre amarela, rotavírus, tetraviral; características sindrômicas; déficit do crescimento; febre recorrente ou persistente sem agente infeccioso nem malignidade; autoimunidade precoce ou combinada, em especial citopenias e endocrinopatias; e malignidades precoces, incomuns ou recorrentes.
Na criança, cada sinal tem uma leitura concreta. A história familiar se colhe em três gerações e com duas perguntas que a família não faz sozinha: se algum bebê morreu de infecção no primeiro ano e se esses bebês eram meninos do lado da mãe, o que sugere herança ligada ao X; a consanguinidade dos pais sugere herança recessiva. As infecções aumentadas para a idade se medem contra a creche, não contra o adulto: a lista antiga da criança, ainda reproduzida em protocolo hospitalar de 2025, dava como exemplos duas pneumonias no ano, quatro otites novas no ano, estomatite ou monilíase por mais de dois meses, abscessos de repetição e um único episódio de infecção sistêmica grave, como meningite, osteoartrite ou sepse. Esses números servem para calibrar o olho; não servem para dizer que a criança com três otites e déficit de crescimento está fora — ver o bloco de divergências.
Germe incomum é o sinal que mais rende por consulta, porque aponta a porta. Pneumocystis num lactente sem HIV fala de defeito combinado; abscesso por estafilococo em fígado, osso ou pulmão, Serratia, Burkholderia ou Aspergillus falam de fagócito; a segunda doença por Neisseria fala de complemento; micobactéria atípica ou BCG que se espalha falam de defeito da imunidade celular ou da via que controla micobactéria. A diarreia crônica de início precoce entra na lista porque aparece em defeito combinado, na agamaglobulinemia com giárdia e em doenças de desregulação imune.
Os sinais que não são infecção são os que o pediatra mais perde. Eczema grave e precoce com plaquetas baixas e pequenas lembra a síndrome de Wiskott-Aldrich; eritrodermia no lactente lembra a síndrome de Omenn. Cardiopatia de vasos da base com hipocalcemia e timo ausente lembra a síndrome de DiGeorge; albinismo parcial com infecções lembra Chédiak-Higashi — são as características sindrômicas do protocolo de 2025. Diabetes nos primeiros meses de vida, citopenia autoimune que não se explica, febre periódica sem agente e linfoma precoce entram pela mesma razão: o sistema imune que falha em defender costuma também falhar em se regular. O sinal não fecha diagnóstico nenhum; ele muda a pergunta que se faz ao hemograma.
3 · O lactente: doze sinais do primeiro ano e a imunodeficiência combinada grave
O lactente tem uma lista própria, proposta por pesquisadoras brasileiras em 2011 (Carneiro-Sampaio, Jacob e Leone) e reproduzida tanto no livro da regional fluminense quanto no protocolo mineiro de 2025. São doze sinais: infecções graves ou persistentes por bactéria, vírus ou fungo; reação adversa à BCG; doença autoimune ou inflamatória; quadro parecido com sepse, febril, sem agente identificado; lesões de pele extensas, como eritrodermia e eczema; diarreia persistente; cardiopatia congênita, sobretudo de vasos da base; queda do coto umbilical depois de 30 dias; linfopenia abaixo de 2.500/mm³, outra citopenia persistente ou leucocitose persistente sem infecção; hipocalcemia, com ou sem convulsão; ausência de timo; e história familiar de erro inato ou de óbito precoce por infecção.
A imunodeficiência combinada grave é a doença que esses sinais existem para achar. O livro descreve o lactente típico: infecções desde os primeiros meses, por germes comuns e oportunistas, com vírus respiratórios que não vão embora; candidíase oral persistente, diarreia intratável e peso que não sobe; pneumonia intersticial insidiosa e progressiva por Pneumocystis jirovecii, que é peculiar da doença. Ao exame, os linfonodos periféricos não se palpam e as amígdalas não se veem, e com o tempo vêm desnutrição e ausculta pulmonar persistentemente alterada. A radiografia costuma não mostrar a sombra do timo.
Dois achados enganam. O primeiro é a vacina: a BCG que vira úlcera persistente com linfonodo, ou que se dissemina, e a vacina rotavírus seguida de diarreia que não para podem ser a primeira manifestação, porque o agente atenuado não é contido sem célula T. O segundo é a pele: o lactente com eritrodermia, fígado e baço grandes, linfonodos aumentados, eosinofilia e IgE alta pode ter uma forma de imunodeficiência combinada grave, a síndrome de Omenn, e muitas vezes não tem linfopenia — o linfonodo palpável, nesse caso, não tranquiliza.
O que torna o quadro uma emergência é o tempo. O protocolo de 2025 chama a doença de emergência pediátrica, potencialmente fatal até os 2 anos sem reconstituição imune, e registra que menos de um terço dos afetados tem história familiar. Na prática, isso significa que o lactente com infecção grave e linfopenia persistente precisa de telefonema ao centro de referência no mesmo dia, e não de encaminhamento com vaga para o mês seguinte. A seção de investigação e o bloco de conduta dizem o que se faz nas horas entre a suspeita e a transferência.
4 · A porta do anticorpo: o menino que começa depois dos seis meses
O quadro que o interno encontra é o de um menino que foi um bebê saudável e, a partir do segundo semestre de vida, passou a colecionar infecções por bactéria encapsulada: otite média que supura, sinusite, pneumonia que interna, às vezes meningite ou artrite séptica. A giardíase que não sai com o tratamento e uma infecção grave por enterovírus completam o desenho. Ao exame, o sinal que ninguém procura é a ausência: amígdalas que não aparecem numa criança com tantas infecções de garganta, linfonodos que não se palpam. Na agamaglobulinemia ligada ao X, pelo livro, cerca de 40% dos afetados têm história familiar — o tio materno com «bronquite» desde pequeno, o primo que morreu de meningite.
O laboratório confirma a porta com números muito baixos das três imunoglobulinas — IgG, IgA e IgM — para a idade, e o centro de referência completa com a contagem de linfócitos B no sangue, que fica abaixo de 1% a 2%. A contagem total de linfócitos do hemograma costuma ser normal, porque o linfócito T está preservado: esta porta não aparece na linfopenia, aparece na dosagem de imunoglobulinas.
Duas situações imitam essa porta e não são ela. A hipogamaglobulinemia transitória da infância tem IgG e IgA baixas, mais raramente IgM, mas a criança não faz infecção grave, responde normalmente às vacinas e melhora com a idade, resolvendo em geral entre 2 e 4 anos — o diagnóstico só se fecha olhando para trás. E a IgA baixa isolada da criança pequena não é deficiência de IgA: o critério usado no livro exige 4 anos ou mais, com IgG e IgM normais e causas secundárias excluídas, porque a IgA da criança pequena ainda está subindo. O menino com IgG baixa e IgM normal ou alta, com Pneumocystis ou Cryptosporidium, merece outra suspeita, a síndrome de hiper-IgM ligada ao X, que o livro classifica como defeito combinado.
O que acontece depois do diagnóstico não é deste capítulo: a reposição de imunoglobulina segue o protocolo federal e está explicada em A terceira pneumonia, na apostila de Imunologia, assim como a imunodeficiência comum variável, cujos critérios começam aos 4 anos. O que é deste capítulo, e muda a conduta do interno, é o que essa criança não deve receber enquanto a porta é definida e depois dela — assunto do critério e do bloco de divergências.
5 · A porta do fagócito: o abscesso que não devia existir
A criança com defeito de fagócito não «vive gripada», porque a resposta a vírus é normal. Ela aparece com o abscesso que não tinha motivo: abscesso hepático por estafilococo, abscesso perianal, linfonodo que supura, osteomielite sem porta de entrada, pneumonia de evolução arrastada, abscesso subcutâneo profundo — o livro registra que os abscessos são mais comuns em pulmão, região perianal e fígado. O livro lista como agentes mais comuns da doença granulomatosa crônica o Staphylococcus aureus, a Burkholderia cepacia, a Serratia, a Nocardia, a Salmonella, as micobactérias e os fungos do gênero Aspergillus.
Três características ajudam a suspeitar à beira do leito. A infecção pode ser grave com poucos sinais e sintomas, e a aparência da criança não mede a gravidade. A BCG pode dar reação grave. E a doença também inflama sem infecção: o livro descreve colite parecida com a doença de Crohn em até 30% dos pacientes e granulomas que obstruem o intestino ou o ureter. A forma ligada ao X, 65% dos casos pelo livro, começa mais cedo e é mais grave, e de novo a pergunta sobre os meninos da família materna vale ouro.
A outra metade da porta é quantitativa e está no hemograma: a neutropenia congênita, que o interno reconhece pela contagem absoluta de neutrófilos persistentemente baixa, fora de infecção viral e de medicamento. E o sinal do primeiro ano que aponta para defeito de adesão do leucócito é o coto umbilical que cai depois de 30 dias, que pode vir com leucocitose persistente sem infecção — o protocolo mineiro coloca a queda tardia do coto e a dificuldade de cicatrização entre as características especiais dos defeitos de fagócito.
A criança com neutrófilos muito baixos e febre é emergência, e o antibiótico não espera exame imunológico. O manejo antimicrobiano da neutropenia febril da criança, porém, não é deste capítulo e não tem capítulo próprio no nível; o do adulto em quimioterapia está em Síndrome da veia cava superior e neutropenia febril, na apostila de Oncologia. O que é deste capítulo é o reconhecimento da porta e a primeira leva: contagem e morfologia dos neutrófilos em hemogramas seriados, e o teste do metabolismo oxidativo, que o centro de referência faz.
6 · A porta do complemento: a segunda doença meningocócica
O quadro que manda pensar em complemento é a doença por Neisseria que se repete. O livro explica por quê: a falta dos componentes terminais, de C5 a C9, ou de fator D e properdina, da via alternativa, deixa a bactéria sobreviver no sangue, e o resultado são infecções repetidas por Neisseria. O capítulo A ordem certa não é a ordem do raciocínio (Meningites bacterianas e virais na infância), na apostila de Infectologia Pediátrica, põe entre os fatores de risco para a forma invasiva e para a recorrência a falta de properdina, de C3 ou dos componentes finais da cascata; o manejo do episódio agudo é de lá, e a investigação depois da recuperação é daqui.
Os defeitos iniciais da via clássica — C1q, C1r, C1s, C2 e C4 — dão outro quadro: infecções repetidas por bactéria encapsulada e doença parecida com lúpus, às vezes lúpus discoide, desde cedo. A deficiência de C3 aumenta o risco de infecção por encapsulada e de glomerulonefrite. Uma criança pequena com lúpus, ou com lúpus e infecções repetidas, entra nesta porta.
O diagnóstico diferencial que não pode faltar é a asplenia, anatômica ou funcional, que o livro coloca ao lado dos defeitos de anticorpo e de complemento entre as causas de infecção grave por encapsulada. Na criança brasileira, a asplenia funcional mais comum é a da doença falciforme, que tem capítulo próprio na apostila de Hematologia Pediátrica e aparece no teste do pezinho da primeira etapa; o resultado da triagem neonatal e a história hematológica respondem antes de qualquer exame de complemento.
A consequência prática desta porta é dupla. Na investigação, o exame certo é o par CH50 e AP50, e não o CH50 sozinho, porque a deficiência de properdina tem CH50 normal. Na prevenção, a criança com deficiência de complemento recebe na rede de imunobiológicos especiais as vacinas contra encapsulados — a meningocócica ACWY conjugada com reforço a cada cinco anos, a pneumocócica pela nota técnica de 2026 e a Haemophilus —, e a família aprende que febre com manchas é ida imediata ao pronto-socorro.
Como fechar o diagnóstico
A investigação inicial tem duas regras. A primeira é que a porta escolhe o exame: quem pede tudo para todos gasta sangue de criança e produz achado sem significado. A segunda é que a idade lê o resultado: linfócitos, imunoglobulinas e títulos de vacina mudam tanto nos primeiros anos que um número sem a idade ao lado não quer dizer nada.
Na maioria das crianças com sinal de alerta, a primeira leva cabe num pedido só — hemograma com contagem absoluta, imunoglobulinas com a idade escrita, títulos de anticorpo contra vacinas e, conforme a porta, o par do complemento — e o resto é do centro de referência. A exceção que este capítulo defende é o lactente com linfopenia ou com sinais de imunodeficiência combinada grave: nele, a imunofenotipagem de linfócitos se pede no mesmo dia, onde houver, e o telefonema ao centro de referência não espera o resultado.
1 · A anamnese que decide
Antes de qualquer exame, monte a linha do tempo das infecções com cinco colunas: idade em que cada uma começou, local, germe quando houve, gravidade — internação, antibiótico endovenoso, unidade de terapia intensiva — e resposta ao tratamento. Três perguntas saem dessa linha. Começou antes ou depois dos seis meses? É sempre no mesmo lugar ou em lugares diferentes? Algum germe foi incomum? A primeira separa defeito combinado de defeito de anticorpo; a segunda separa causa local de causa sistêmica; a terceira aponta a porta.
Leia a caderneta inteira, e não só a página das vacinas. A curva de peso e de comprimento mostra se a criança cruzou linhas para baixo — e o déficit do crescimento é sinal de alerta por si. Na página das vacinas, procure a data da BCG, a cicatriz, qualquer anotação de reação e a relação temporal entre a vacina rotavírus e uma diarreia que começou depois. Na página da triagem neonatal, veja qual teste do pezinho foi colhido e o que ele incluía. E confira as sorologias maternas do pré-natal e do parto, porque o HIV é a primeira imunodeficiência secundária a lembrar no lactente com infecção oportunista.
A família se desenha em três gerações, com duas perguntas que ninguém responde espontaneamente: houve bebê que morreu de infecção no primeiro ano, ou criança «que vivia internada»? E, se houve, era menino do lado da mãe? Morte de meninos da linhagem materna sugere herança ligada ao X — é a história da imunodeficiência combinada grave ligada ao X, da agamaglobulinemia ligada ao X e da forma ligada ao X da doença granulomatosa crônica. Pergunte também, com naturalidade, se os pais são parentes, porque consanguinidade aumenta a chance das formas recessivas.
Por último, afaste o que baixa imunoglobulina sem ser erro inato. O livro da regional fluminense lista as causas de hipogamaglobulinemia secundária, e na criança as que mais aparecem são a perda de proteína — síndrome nefrótica, enteropatia perdedora de proteína, grandes queimaduras, quilotórax —, os medicamentos, como anticonvulsivantes e corticoide em dose alta, e as infecções, como o HIV e as infecções congênitas. Por isso este capítulo pede a albumina junto com a primeira dosagem de IgG: IgG baixa com albumina baixa fala primeiro de perda, não de falta de produção. As causas secundárias como grupo são do capítulo do adulto; a síndrome nefrótica da criança tem capítulo próprio na apostila de Nefrologia Pediátrica.
2 · O hemograma com número absoluto
O hemograma é o exame imunológico mais barato que existe, desde que se faça a conta. Multiplique os leucócitos pelo percentual de linfócitos e de neutrófilos e escreva os dois números absolutos na evolução. No leucograma de infecção bacteriana, com neutrofilia, o percentual de linfócitos cai por diluição, e é justamente nesse lactente que 11% parecem pouco e ninguém faz a conta que mostraria 814 células por milímetro cúbico.
O número absoluto se compara com a idade, e aqui a criança é outra. A referência europeia reproduzida no livro da regional fluminense dá como limite inferior de linfócitos cerca de 1.800/mm³ no recém-nascido, 2.400 entre 1 e 5 meses, 2.350 entre 12 e 24 meses, 1.600 entre 2 e 4 anos, 1.800 entre 5 e 9 anos e 1.200 entre 10 e 17 anos. A faixa de 6 a 11 meses dessa tabela tem limite inferior de 4.800, mas foi medida em só sete lactentes, e o interno não deve usá-la como corte. Para decidir no primeiro ano, a régua brasileira é o sinal de alerta: linfopenia abaixo de 2.500/mm³, outra citopenia persistente ou leucocitose persistente sem infecção.
O limite de 2.500/mm³ da lista brasileira e a observação de que muitos lactentes com SCID têm menos de 3.000/mm³ servem a propósitos diferentes. Não usar a distância entre esses números como zona segura: com infecção grave, oportunista ou história familiar sugestiva, acionar imunologia imediatamente, mesmo com contagem aparentemente preservada. Repetir o hemograma pode esclarecer linfopenia transitória numa criança estável, mas não deve atrasar imunofenotipagem e encaminhamento quando a apresentação é preocupante.
Contagem normal não afasta nada fora da porta da célula T. A agamaglobulinemia tem linfócitos totais normais, porque o linfócito T está preservado. Na síndrome de Omenn, o livro descreve eosinofilia acima de 800/mm³ e IgE alta, muitas vezes sem linfopenia; o lactente com linfócitos maternos instalados pode ter contagem normal e pele eritrodérmica. Leia também as outras linhas: neutrófilos absolutos persistentemente baixos falam de neutropenia congênita; plaquetas baixas e pequenas, com eczema, lembram Wiskott-Aldrich; e uma única linfopenia durante infecção viral aguda pode ser transitória, o que manda repetir — mas não manda esperar a repetição para ligar ao centro de referência quando o lactente já está grave e tem outros sinais.
3 · Imunoglobulinas lidas pela idade
Peça IgG, IgA e IgM, e IgE quando houver eczema grave ou eosinofilia, com a idade da criança escrita no pedido. A tabela brasileira de referência que a Associação Brasileira de Alergia e Imunologia usa, reproduzida no anexo do livro da regional fluminense a partir do trabalho de Fujimura (1990), dá percentis por faixa etária a partir dos 3 meses. O corte que interessa ao interno é o percentil 3: abaixo dele, para a idade, o valor é baixo.
Três leituras dependem da idade. Antes dos 6 meses, a IgG mistura a da mãe com a do lactente, e um valor normal não afasta defeito nenhum; a IgA e a IgM do lactente pequeno são fisiologicamente baixas — o percentil 3 da IgA fica em 4 mg/dL entre 3 e 9 meses —, e por isso no primeiro semestre quem responde à suspeita de imunodeficiência combinada grave são os linfócitos, não as imunoglobulinas. Entre 6 meses e 2 anos, a IgG materna já foi embora, e três imunoglobulinas muito abaixo do percentil 3 num menino com infecções por encapsulada são a porta do anticorpo até prova em contrário. E antes dos 4 anos, IgA baixa isolada não é diagnóstico: o percentil 3 da IgA ainda está em 7 mg/dL até os 2 anos, e o critério de deficiência de IgA exige 4 anos ou mais.
Quando a dosagem de imunoglobulinas não está disponível, o protocolo mineiro de 2025 aceita começar pela eletroforese de proteínas, olhando a fração gama: ela mostra a agamaglobulinemia, mas não mostra a redução moderada, e por isso não serve para tranquilizar. Dose a albumina junto, pela razão da seção anterior. E registre se a criança recebeu imunoglobulina ou transfusão nos meses anteriores, porque a dosagem passa a medir o doador.
Um valor baixo isolado raramente fecha diagnóstico. A hipogamaglobulinemia transitória da infância tem IgG e IgA baixas numa criança que não faz infecção grave e responde às vacinas, e só se confirma quando normaliza, em geral entre 2 e 4 anos. O que separa essa criança da que precisa de centro de referência é o conjunto: a gravidade das infecções, o crescimento, a resposta vacinal e o quanto o número está abaixo do percentil — uma IgG de 60 mg/dL aos 16 meses, quando o percentil 3 é 520, é outra conversa que uma IgG de 480.
4 · Resposta às vacinas e o par do complemento
A imunoglobulina total mede quanto anticorpo existe; a resposta vacinal mede se a criança consegue fazer anticorpo quando é pedida. O protocolo mineiro inclui na avaliação inicial os títulos contra vacinas proteicas — tétano, difteria, hepatite B, sarampo e rubéola — e contra a vacina polissacarídica do pneumococo. Na prática da primeira leva, o interno pede os títulos das vacinas que a criança já recebeu na idade certa: anti-HBs e antitetânico depois do esquema primário, sarampo e rubéola depois da tríplice viral.
A interpretação tem armadilhas que ficam com o especialista. Título baixo depois de muito tempo da última dose pode ser só queda natural; título normal numa criança que recebeu imunoglobulina mede o doador; e a resposta a polissacarídeo puro amadurece ao longo dos primeiros anos de vida, o que torna a leitura do título antipneumocócico da criança pequena uma decisão de centro de referência, feita com sorotipos que não estão nas vacinas conjugadas que ela recebeu.
O complemento entra quando a porta aponta para ele: doença por Neisseria que se repete, infecção por encapsulada com doença parecida com lúpus, glomerulonefrite com infecções de repetição ou familiar com deficiência conhecida. O pedido é o par CH50 e AP50, que o protocolo mineiro coloca na investigação inicial: o CH50 mede a via clássica, o AP50 mede a alternativa, e o padrão dos dois aponta o grupo — os dois ausentes nos componentes terminais, CH50 muito baixo com AP50 normal nos iniciais da via clássica, CH50 normal com AP50 muito baixo na properdina e no fator D.
Na criança de creche, o complemento não entra. Na primeira doença meningocócica sem nenhum outro sinal, a indicação se discute com o especialista; a leitura desta apostila é que a segunda doença por Neisseria abre, por si, a porta do complemento. E não use o C3 e o C4 isolados como triagem de deficiência hereditária: são dois componentes entre cerca de trinta, e não enxergam a falta de C5 a C9 nem a da properdina.
5 · O que se pede no mesmo dia no lactente, e o que fica para o centro de referência
No lactente com linfopenia persistente, ou com infecção grave e sinais do primeiro ano, a lista do mesmo dia é curta. Hemograma repetido, com diferencial conferido na lâmina. Imunofenotipagem de linfócitos — CD3, CD4, CD8, CD19 e CD16/56 —, que o protocolo mineiro coloca entre os exames iniciais das deficiências celulares e combinadas, onde houver. IgG, IgA e IgM, sabendo que no primeiro semestre elas pesam pouco. Radiografia de tórax, que já costuma existir pela pneumonia e que se relê à procura da sombra do timo. E a pesquisa etiológica da infecção atual, com o infectologista, lembrando que pneumonia intersticial com hipoxemia num lactente com linfopenia põe o Pneumocystis na lista.
O HIV precisa ser afastado no lactente com infecção oportunista e linfopenia, e o caminho no primeiro ano e meio não é a sorologia da criança, que ainda carrega o anticorpo da mãe. O que se confere primeiro são as sorologias maternas registradas na caderneta e no prontuário do parto; se houver dúvida sobre a mãe, a testagem dela e o caminho diagnóstico do lactente se decidem com o infectologista. O cuidado da criança exposta desde a sala de parto está no capítulo HIV na gestação: a profilaxia que só funciona inteira, na apostila de Obstetrícia.
Fica para o centro de referência a segunda camada: subpopulações de linfócitos T virgens e de memória, linfócitos B de memória, testes de proliferação, dosagem de TREC fora da triagem neonatal, teste do metabolismo oxidativo do neutrófilo por di-hidrorrodamina ou nitroazul de tetrazólio, subclasses de IgG, resposta a polissacarídeo, componentes individuais do complemento e o estudo genético. Também é do centro a decisão sobre profilaxia antimicrobiana, reposição de imunoglobulina e reconstituição imune.
O interno não inicia imunoglobulina por conta própria, não prescreve «imunoestimulante» e não adia o telefonema esperando a imunofenotipagem. O resultado do mesmo dia serve para descrever a porta ao especialista; a suspeita de imunodeficiência combinada grave, com sinais e linfopenia, já basta para a ligação.
6 · Teste do pezinho: conferir o painel e reconhecer os limites da triagem
A Lei nº 14.154, de 26 de maio de 2021, incluiu no art. 10 do Estatuto da Criança e do Adolescente um rol mínimo de doenças para o teste do pezinho do SUS, com implementação escalonada em cinco etapas, na forma da regulamentação do Ministério da Saúde. As imunodeficiências primárias estão na etapa 4. A lei não fixa prazo por etapa, e a Portaria GM/MS nº 7.293/2025, que reorganizou o Programa Nacional de Triagem Neonatal, repete a mesma ordem sem prazo e permite que estados e Distrito Federal ampliem por conta própria as doenças triadas no seu território.
O que existe hoje é o que a página do Ministério da Saúde de junho de 2026 descreve: no painel nacional, as 7 doenças da primeira etapa — fenilcetonúria, hipotireoidismo congênito, doença falciforme e outras hemoglobinopatias, fibrose cística, hiperplasia adrenal congênita, deficiência de biotinidase e toxoplasmose congênita —, com as etapas seguintes, inclusive a das imunodeficiências, ainda no futuro. Alguns estados ampliaram antes; Mato Grosso do Sul, por exemplo, anunciou em junho de 2025 um painel estadual com mais de 40 doenças, entre elas as imunodeficiências primárias. A própria lei pressupõe que as modalidades do SUS e da rede privada podem ser diferentes e obriga o profissional do pré-natal e do puerpério imediato a informar a família sobre essas diferenças.
Um pezinho normal só informa sobre as doenças e os métodos incluídos naquele painel. Conferir o laudo e a presença de TREC, que avalia a produção de linfócitos T. Mesmo com triagem realizada, a clínica de Benedito — linfopenia persistente, infecções graves e falha de crescimento — mantém a necessidade de investigação. Triagem normal não substitui avaliação diagnóstica de uma criança sintomática. O fluxo de coleta e convocação está em As cinco triagens neonatais, da Puericultura e Desenvolvimento.
TREC ausente ou muito baixo exige contato imediato com o serviço de triagem e a imunologia. A investigação confirmatória inclui contagem absoluta e imunofenotipagem, com proteção para vacinas e transfusão conforme a suspeita de deficiência T. Outras causas de linfopenia T também alteram o teste; por isso, o resultado não define sozinho a etiologia. Registrar quem fará a confirmação e quando. Se a criança estiver clinicamente doente, estabilização e tratamento seguem em paralelo, sem esperar os exames especializados.
Um sinal, um número com a idade ao lado, uma porta — e o que para de ser rotina
Não existe escore que diagnostique erro inato da imunidade na criança. O critério deste capítulo é uma sequência de decisões: se há sinal de alerta ou só idade e creche; se é um lactente com linfopenia, que não espera; qual porta a história aponta, e portanto qual exame; e, a partir da suspeita, quais vacinas e hemocomponentes deixam de ser rotina. Este capítulo não prescreve fármaco: a tabela de conversão que cabe ao tema é a de prazos, intervalos e cortes por idade.
- 11. Criança com infecções frequentes: avaliar início, gravidade, agentes, locais, resposta ao tratamento, crescimento e história familiar. As listas de alerta ajudam a lembrar padrões, mas sua ausência não exclui erro inato da imunidade. Se o conjunto é de infecções leves esperadas para a exposição, crescimento preservado e exame normal, orientar e acompanhar sem painel imunológico indiscriminado.
- 22. Há sinal: faça a linha do tempo das infecções (idade de início, local, germe, gravidade, resposta), leia a caderneta inteira e desenhe a família em três gerações, perguntando por morte de lactente por infecção e pelos meninos da linhagem materna.
- 33. Peça o hemograma e escreva na evolução os números absolutos de linfócitos e neutrófilos, com a idade ao lado.
- 44. Lactente com linfopenia para a idade e infecção grave, candidíase ou diarreia persistente, falha de crescimento, complicação vacinal ou história familiar: suspeitar de imunodeficiência combinada grave e acionar hoje o centro de referência. A referência de 2.500/mm³ da lista brasileira é um alerta, não uma fronteira que autorize tranquilizar com valor pouco maior.
- 55. Na suspeita de imunodeficiência combinada grave, adiar vacinas vivas até decisão da imunologia; registrar na caderneta e avisar a sala de vacinas. Se for necessário transfundir, comunicar a suspeita ao banco de sangue e solicitar componentes celulares irradiados; desleucocitação e requisitos relacionados a CMV são discutidos com a hemoterapia. Pedir imunofenotipagem e contatar o centro sem esperar seu resultado.
- 66. Complicação da BCG ou de outra vacina: notifique como evento supostamente atribuível à vacinação em até 24 horas e registre a lesão com medida e data.
- 77. Contagem entre 2.500 e 2.999/mm³ com outro sinal não tranquiliza. Se a criança está estável e a hipótese é baixa, repetir conforme contexto; diante de padrão clínico grave ou história familiar sugestiva, encaminhar e investigar imediatamente, sem condicionar o contato à repetição do hemograma.
- 88. Criança acima de 6 meses com infecções por bactéria encapsulada: IgG, IgA e IgM com a idade escrita, mais albumina. As três muito abaixo do percentil 3, com albumina normal: porta do anticorpo — encaminhe, sem vacina viva até a definição.
- 99. Abscesso profundo sem motivo, estafilococo, Serratia, Burkholderia ou Aspergillus, ou reação grave à BCG: porta do fagócito. Neutrófilos absolutos seriados e encaminhamento para o teste do metabolismo oxidativo; BCG contraindicada.
- 1010. Doença invasiva por Neisseria, especialmente recorrente, ou infecções por encapsulados associadas a autoimunidade: considerar defeito do complemento e avaliar CH50 e AP50. Não é necessário aguardar um segundo episódio quando o contexto já sugere imunodeficiência; interpretar também função esplênica e outras causas.
- 1111. Investigar causas secundárias em paralelo: HIV com o teste apropriado à idade e exposição, perdas proteicas, medicamentos e desnutrição. Sorologia materna isolada não substitui a avaliação da criança. Essa investigação não deve atrasar medidas de proteção na suspeita grave.
- 1212. Pezinho normal: conferir o painel efetivamente realizado. Sem TREC, o resultado não avalia a produção de linfócitos T; mesmo com triagem incluída, sinais clínicos importantes exigem investigação. TREC ausente ou muito baixo pede contato imediato e confirmação especializada, sem equivaler sozinho ao diagnóstico de SCID.
- 1313. Porta definida: as vacinas seguem a Tabela 9 do Manual dos CRIE e a Nota Técnica nº 52/2026 para a pneumocócica, com as ressalvas das notas abaixo e do bloco de divergências.
A criança que adoece muito: idade e creche, ou sinal de alerta
| O que se observa | Fala a favor de idade e creche | Fala a favor de erro inato | O que o interno faz |
|---|---|---|---|
| Número e gravidade das infecções | Até cerca de 12 resfriados leves por ano na creche, sem internação e sem antibiótico endovenoso | Infecção sistêmica grave, internações repetidas, antibiótico endovenoso para curar, curso prolongado ou inesperado | Linha do tempo das infecções com idade, local, germe e gravidade |
| Local | Vias aéreas superiores, otite ocasional | Pneumonias em lobos diferentes, abscessos profundos; pneumonia sempre no mesmo lobo pede antes causa local | Imagem na repetição no mesmo lugar; hemograma e imunoglobulinas na repetição em lugares diferentes |
| Germe | Vírus respiratórios comuns | Pneumocystis, estafilococo em órgão profundo, Serratia, Burkholderia, Aspergillus, Neisseria que se repete, micobactéria atípica | O germe escolhe a porta e, com ela, o exame |
| Crescimento | No próprio canal da caderneta | Cruzando linhas para baixo, déficit do crescimento | Registrar peso e escore z na evolução |
| Vacinas | Em dia, sem reação fora do esperado | Úlcera de BCG que não cicatriza com linfonodo, BCG disseminada, diarreia persistente depois da rotavírus | Notificar a complicação em até 24 horas e suspender vacina viva até a definição |
| Família | Sem morte precoce por infecção, sem consanguinidade | Lactente que morreu de infecção, meninos da linhagem materna afetados, pais parentes | Heredograma de três gerações no prontuário |
| Fora da infecção | Rinite alérgica, asma controlada | Diarreia crônica precoce, eczema grave com plaquetas baixas, eritrodermia, autoimunidade precoce, febre periódica sem agente, câncer precoce | O sinal não infeccioso conta como sinal |
Linfócitos no hemograma: o número que manda agir, pela idade
| Idade | Limite inferior de referência (EuroFlow, arredondado) | O que conta como sinal | Abaixo do sinal, o interno |
|---|---|---|---|
| Recém-nascido | Cerca de 1.800/mm³ | Abaixo de 2.500/mm³, persistente (sinal do primeiro ano) | Imunofenotipagem e contato com o centro de referência; nenhuma vacina viva até a definição |
| 1 a 5 meses | Cerca de 2.400/mm³ | Abaixo de 2.500/mm³; entre 2.500 e 2.999 com outro sinal não tranquiliza | Suspeita clínica grave: contato no mesmo dia, mesmo acima de 2.500/mm³. Entre 2.500 e 2.999, repetição em poucos dias só cabe à criança estável, sem motivo para investigação imediata. |
| 6 a 11 meses | 4.800/mm³ na tabela, medido em só 7 lactentes — não usar como corte | Abaixo de 2.500/mm³ (sinal do primeiro ano) | Mesma conduta da linha anterior; não chamar de linfopenia uma contagem de 3.500 só por esta faixa |
| 12 a 24 meses | Cerca de 2.350/mm³ | Abaixo da referência da idade em duas contagens fora de infecção aguda, com outro sinal (leitura desta apostila) | Imunofenotipagem e encaminhamento; na criança grave com sinais, contato no mesmo dia |
| 2 a 4 anos | Cerca de 1.600/mm³ | Idem | Idem |
| 5 a 9 anos | Cerca de 1.800/mm³ | Idem | Idem |
| 10 a 17 anos | Cerca de 1.200/mm³ | Idem | Idem |
Imunoglobulinas: abaixo de quanto é baixo (percentil 3 da referência brasileira, em mg/dL)
| Faixa etária | IgG | IgA | IgM | Como ler nesta idade |
|---|---|---|---|---|
| 3 a 6 meses | 338 | 4 | 25 | A IgG ainda tem a da mãe: normal não afasta; IgA e IgM baixas são esperadas. A suspeita de defeito combinado se responde pelos linfócitos |
| 6 a 12 meses | 338 a 364 | 4 a 7 | 30 a 37 | A IgG materna está acabando; IgG baixa numa criança com infecção grave passa a pesar |
| 12 a 24 meses | 520 a 526 | 7 | 40 a 47 | As três muito abaixo do percentil 3 num menino com infecções por encapsulada: porta do anticorpo até prova em contrário |
| 2 a 4 anos | 513 a 540 | 11 a 29 | 43 | IgA baixa isolada ainda não é deficiência de IgA; hipogamaglobulinemia transitória costuma resolver até os 4 anos |
| 4 a 6 anos | 564 | 28 a 50 | 58 a 59 | A partir dos 4 anos, IgA abaixo de 7 com IgG e IgM normais pode ser deficiência de IgA, assunto do capítulo do adulto |
| 6 a 10 anos | 665 a 672 | 47 a 70 | 49 a 67 | IgG baixa com albumina baixa fala primeiro de perda de proteína |
| 10 a 14 anos | 680 a 739 | 113 | 46 a 65 | Valores próximos aos do adulto; imunodeficiência comum variável entra no diferencial, com o capítulo do adulto |
Vacina, hemocomponente e prazo, conforme a porta
| Situação | Vacinas de agente vivo | Vacinas não vivas e as especiais da rede | Hemocomponente | Prazo que conta |
|---|---|---|---|---|
| Suspeita em investigação, porta ainda não definida | Nenhuma — BCG, rotavírus, febre amarela, tríplice e tetraviral, varicela — até o imunologista liberar | Calendário não vivo segue, com a rede de imunobiológicos especiais | Na suspeita de deficiência grave de células T: componentes celulares irradiados desde a investigação. Outros padrões de imunodeficiência exigem avaliação da indicação pela hemoterapia. | Rotavírus: segunda dose até 23 meses e 29 dias; BCG da criança não vacinada até 4 anos, 11 meses e 29 dias, com avaliação |
| Imunodeficiência combinada grave | Contraindicadas (Tabela 9) | Conforme o centro de referência | Componentes celulares irradiados; combinar desleucocitação e requisitos de proteção para CMV com a hemoterapia. Irradiação e desleucocitação têm finalidades diferentes. | Complicação vacinal: notificação em até 24 horas |
| Defeito grave de anticorpo (agamaglobulinemia) | BCG contraindicada; virais vivas liberadas pela Tabela 9, mas não durante a reposição de imunoglobulina (bloco de divergências) | Pneumocócica 20-valente pela Nota Técnica nº 52/2026 (de 1 a 4 anos com 10-valente completa: duas doses, 8 semanas de intervalo); meningocócica ACWY; influenza; hepatite A | A norma não define «imunodeficiência congênita grave»; o risco de doença do enxerto é do defeito de célula T — segue o protocolo do serviço | Viral viva injetável só 8 meses depois de imunoglobulina de 300 a 400 mg/kg (Tabela 5) |
| Doença granulomatosa crônica | BCG contraindicada; demais liberadas (Tabela 9) | Haemophilus b, pneumocócica, meningocócica ACWY, influenza, hepatite A e HPV | A norma não define «imunodeficiência congênita grave»; o risco de doença do enxerto é do defeito de célula T — segue o protocolo do serviço | — |
| Deficiência de complemento | Liberadas (Tabela 9) | Meningocócica ACWY pela tabela de indicações do manual: duas doses com 8 semanas e reforço a cada 5 anos; pneumocócica pela nota técnica; Haemophilus b; influenza | A norma não define «imunodeficiência congênita grave»; o risco de doença do enxerto é do defeito de célula T — segue o protocolo do serviço | Reforço meningocócico a cada 5 anos |
Padrão de infecção, componente provável e investigação inicial
| Componente ou contexto | Padrão que orienta | Exames úteis na primeira avaliação | Como o resultado muda o próximo passo |
|---|---|---|---|
| Imunidade celular ou combinada | Infecções graves precoces, oportunistas, candidíase persistente, diarreia e falha de crescimento; complicação por vacina viva. | Hemograma com linfócitos absolutos e idade; imunofenotipagem T, B e NK em contato com o centro; avaliação de HIV conforme idade. | Suspeita de SCID é urgente. Contagem pouco alterada ou IgG preservada não encerra a hipótese; exames funcionais e células T naïve podem ser necessários. |
| Anticorpos | Infecções bacterianas sinopulmonares recorrentes ou invasivas, sobretudo após os primeiros meses; amígdalas pouco visíveis em alguns defeitos. | Hemograma, IgG, IgA e IgM com referência etária; albumina para avaliar perdas. | Imunoglobulinas baixas pedem definição especializada. Valores normais não excluem defeito de resposta específica; títulos vacinais têm contexto e momento próprios. |
| Fagócitos | Abscessos profundos, infecções por agentes característicos ou reação grave à BCG. | Neutrófilos absolutos; contagens seriadas quando indicada avaliação de oscilação; teste oxidativo DHR com o centro. | Número normal de neutrófilos não prova função normal. DHR investiga atividade oxidativa e precisa de coleta e transporte adequados. |
| Complemento | Doença meningocócica invasiva, especialmente recorrente; encapsulados e alguns padrões de autoimunidade. | CH50 e AP50, com instruções adequadas de coleta e processamento. | Resultados alterados orientam estudo de componentes; consumo durante infecção também pode reduzir resultados e exige interpretação. |
| Causa secundária ou predisposição local | Desnutrição, imunossupressores, perda proteica, HIV; infecção repetida sempre no mesmo sítio. | História de medicamentos, estado nutricional, albumina, investigação de HIV e exames do órgão conforme a hipótese. | Pode coexistir com erro inato. Uma causa anatômica ou secundária identificada não elimina outros sinais de alerta. |
Benedito: passagem de cuidado antes da vacina, transfusão ou transferência
| Destino da informação | Mensagem preenchida | Confirmação necessária |
|---|---|---|
| Equipe que assume o plantão | Lactente de 5 meses e 10 dias, 5,6 kg, pneumonia intersticial com hipoxemia e suspeita de imunodeficiência combinada grave. | Estado respiratório atual, dispositivo e oferta de oxigênio, sinais vitais, resposta ao tratamento e necessidade de terapia intensiva. |
| Imunologia e centro de referência | Linfócitos: 814/mm³ hoje (7.400 × 0,11); 1.066/mm³ aos três meses (8.200 × 0,13). Candidíase, diarreia, pouco ganho ponderal, lesão de BCG e primo materno falecido por infecção. | Nome de quem recebeu o contato, hora, orientação sobre exames, tratamento, proteção e transferência. |
| Sala de vacinas e atenção básica | Suspender temporariamente vacinas vivas até definição da imunologia; BCG e rotavírus já recebidos, com datas na caderneta. | Registrar na caderneta e comunicar diretamente à equipe; não deixar apenas uma informação no prontuário hospitalar. |
| Hemoterapia, se surgir indicação transfusional | Suspeita de deficiência grave de células T: solicitar componentes celulares irradiados e combinar desleucocitação e proteção para CMV. | Confirmar produto disponível e identificação da necessidade especial; plasma e crioprecipitado não seguem a exigência de irradiação dos componentes celulares. |
| Equipe do transporte e hospital de destino | Enviar evolução, exames, hipóteses, medicamentos e horários; destacar suporte em curso, vacinas adiadas e requisito transfusional. | Transferência regulada com suporte compatível e comunicação entre médicos. Amostras prévias são desejáveis quando não atrasam suporte ou tratamento. |
| Família | Explicar que a investigação procura por que as infecções foram graves e o crescimento falhou; o diagnóstico ainda precisa ser confirmado. | Cuidador repete o plano de vacinas e o destino do encaminhamento; encaminhar a história familiar para aconselhamento especializado. |
Nota 1 — número de doses da pneumocócica 20-valente na criança de 1 a 4 anos com erro inato e esquema completo de 10-valente, na Nota Técnica nº 52/2026. O item 5.1.2 cobre as indicações 1 a 11 da nota, entre as quais está a imunodeficiência primária ou erro inato da imunidade (indicação 7), e manda que a criança de 1 a 4 anos com esquema completo de 10-valente receba duas doses de 20-valente com 8 semanas de intervalo. O item 5.3.2 manda que «crianças e adultos» com esquema completo de 10-valente ou 13-valente, sem polissacarídica, recebam uma dose, «sem necessidade de doses adicionais». Conta: um menino de 3 anos com agamaglobulinemia e 10-valente completa recebe 2 doses por um item e 1 pelo outro — a diferença é de 1 dose, na criança que menos responde a vacina. Esta apostila segue o item 5.1.2, pelo degrau do escopo: é o escrito para o grupo de indicação e a faixa etária dessa criança. É a mesma escolha já feita no capítulo de síndrome nefrótica da apostila de Nefrologia Pediátrica.
Nota 2 — o intervalo que a Tabela 9 do Manual dos CRIE (6ª ed., 2023) não enxerga. Nas deficiências graves da imunidade humoral, a tabela mantém toda a rotina do programa, menos a BCG — portanto também as virais atenuadas injetáveis, como sarampo-caxumba-rubéola, varicela e febre amarela. Para essas mesmas vacinas, a Tabela 5 do manual pede 8 meses de distância de uma imunoglobulina intravenosa dada na dose de reposição (300 a 400 mg/kg), e a criança com agamaglobulinemia recebe essa dose a cada 3 ou 4 semanas, sem pausa. Conta: 8 meses equivalem a 34,8 semanas; com infusões a cada 4 semanas cabem 8,7 intervalos nesse prazo, e a cada 3 semanas, 11,6. Só haveria janela para a vacina se a reposição parasse por oito meses, o que expõe a criança sem anticorpo. Enquanto durar a reposição, a liberação da Tabela 9 fica sem aplicação; o lado adotado está no bloco de divergências.
Nota 3 — o número da linfopenia do lactente, no mesmo livro da regional fluminense. O Quadro 7 (sinais de alerta no primeiro ano, de Carneiro-Sampaio, 2011) põe o corte em «abaixo de 2.500/mm³»; o texto sobre imunodeficiência combinada grave diz que a maioria desses lactentes tem menos de 3.000/mm³; e a referência EuroFlow do anexo dá limite inferior de 2.443/mm³ entre 1 e 5 meses. Conta: um lactente de 3 meses com 2.700 linfócitos/mm³ está fora do sinal (2.700 ≥ 2.500), dentro da referência (2.700 ≥ 2.443) e dentro da faixa em que o próprio livro descreve a maioria dos doentes (2.700 < 3.000). Lido só pelo quadro, ele sairia sem investigação. Esta apostila mantém o sinal em 2.500 e trata a faixa de 2.500 a 2.999 como insuficiente para tranquilizar quando há outro sinal, com repetição em poucos dias — leitura desta apostila, não de fonte.
Nota 4 — a faixa de 6 a 11 meses da referência EuroFlow reproduzida no mesmo anexo. O limite inferior de linfócitos dessa faixa é 4.821/mm³, medido em 7 lactentes, entre faixas vizinhas de 2.443/mm³ (1 a 5 meses, 12 lactentes) e 2.356/mm³ (12 a 24 meses, 30 crianças). Conta: 4.821 é 1,97 vez o limite da faixa anterior e 2,05 vezes o da seguinte — um lactente de 8 meses com 3.500 linfócitos/mm³ ficaria «abaixo da referência», enquanto aos 5 e aos 12 meses o mesmo número seria normal com folga. O salto é efeito do tamanho da amostra, e o interno não deve usar essa faixa como corte; no primeiro ano, vale o sinal de 2.500/mm³.
A conduta, hora a hora
Benedito tem 5 meses e 10 dias, pesa 5,6 kg e apresenta pneumonia intersticial com hipoxemia, 814 linfócitos/mm³, candidíase recorrente, diarreia e falha de crescimento. Ele precisa de estabilização respiratória e avaliação imediata por suspeita de imunodeficiência combinada grave. A hipótese modifica a investigação e o tratamento da infecção: agentes oportunistas, incluindo Pneumocystis, devem ser considerados com infectologia e imunologia. O esquema rotineiro de pneumonia comunitária não encerra esse problema. Oxigênio, suporte e tratamento da infecção continuam enquanto se organiza o cuidado especializado.
O contato com o centro de referência acontece no mesmo dia, antes de concluir toda a investigação. É preciso transmitir gravidade atual, contagens absolutas com datas e a história familiar, além de registrar as restrições que acompanham a criança. O quadro por componente orienta exames proporcionais à hipótese; ele não substitui a avaliação clínica nem torna um resultado normal suficiente para excluir doença.
Admissão, 11h20 — a conta antes da visita
Antes de reler a prescrição da madrugada, faça as contas e escreva-as. Os 11% de 7.400 são 814 linfócitos/mm³; os 13% de 8.200 do hemograma dos 3 meses eram 1.066/mm³. São duas contagens abaixo de 2.500, com dois meses de distância: linfopenia persistente, sinal de alerta do primeiro ano por si. Some os outros sinais que a caderneta e a mãe já contaram. Com isso, a hipótese não é «bronquiolite arrastada»: é suspeita de imunodeficiência combinada grave, e o preceptor precisa saber agora, não na visita das duas da tarde. Diga a ele os números absolutos, não os percentuais.
Prescrição- Registrar na evolução: linfócitos 814/mm³ (11% de 7.400) hoje e 1.066/mm³ (13% de 8.200) aos 3 meses; neutrófilos 6.216/mm³
- Registrar os sinais de alerta presentes: infecção grave e persistente, candidíase oral de repetição, diarreia persistente desde os 2 meses e meio, reação à BCG com linfonodo axilar, linfopenia abaixo de 2.500/mm³, óbito precoce por infecção de primo da linhagem materna e déficit do crescimento
- Hipótese diagnóstica escrita: suspeita de imunodeficiência combinada grave — comunicada ao preceptor às 11h25
- Peso diário na mesma balança; peso de admissão 5.600 g, abaixo do escore z −2 para a idade
11h35 — o que deixa de ser rotina a partir de agora
Duas medidas acompanham a suspeita antes dos exames confirmatórios. As vacinas de agentes vivos ficam adiadas até liberação da imunologia, com registro na caderneta e comunicação à sala de vacinas. Benedito já recebeu BCG e rotavírus; as datas e a lesão vacinal entram no resumo. Se houver indicação de transfusão, a hemoterapia precisa saber da suspeita de deficiência grave de células T. São os componentes celulares, como hemácias e plaquetas, que devem ser irradiados para prevenir doença do enxerto contra o hospedeiro associada à transfusão. Desleucocitar não substitui irradiar. A disponibilidade do produto e os requisitos para CMV são definidos com o banco de sangue; não basta escrever uma etiqueta e presumir que o preparo estará resolvido.
Prescrição- Nenhuma vacina de agente vivo até liberação do imunologista — anotar na caderneta (página das vacinas) e na prescrição médica
- Qualquer hemocomponente celular: irradiado e desleucocitado — anotar no prontuário e avisar o banco de sangue da suspeita
- Avisar a equipe de enfermagem sobre as duas restrições e registrar a ciência
- Sempre que o serviço tiver opção, não internar no mesmo quarto de criança com infecção respiratória
12h00 — a primeira leva, no mesmo dia
Os exames do mesmo dia servem para descrever a porta ao especialista, não para decidir se liga. A imunofenotipagem é o exame que conta: no primeiro semestre, as imunoglobulinas pesam pouco, porque a IgG ainda carrega a da mãe e a IgA e a IgM do lactente são fisiologicamente baixas. A pneumonia intersticial com hipoxemia num lactente com linfopenia põe o Pneumocystis na lista, e a pesquisa etiológica se decide com o infectologista, porque o esquema, se for isso, não é o da pneumonia comunitária. O HIV é afastado primeiro pelo que já está escrito: Magdala teve testes não reagentes no primeiro e no terceiro trimestres e no parto, e isso vai para a evolução com as datas.
Prescrição- Hemograma com diferencial conferido na lâmina, amanhã cedo
- Imunofenotipagem de linfócitos (CD3, CD4, CD8, CD19 e CD16/56) — urgente, colhida hoje
- IgG, IgA, IgM e albumina, com a idade no pedido
- Releitura da radiografia de tórax com o radiologista: infiltrado intersticial e sombra do timo
- Pesquisa etiológica da pneumonia, incluindo Pneumocystis, conforme orientação da infectologia
- Registrar na evolução as sorologias maternas para HIV com as datas do pré-natal e do parto
12h30 — o telefonema ao centro de referência
A ligação tem roteiro, porque o imunologista do outro lado decide em dois minutos se o lactente precisa de vaga hoje. Diga idade e peso; os sinais, na ordem; os dois números absolutos de linfócitos com as datas; a história do primo materno; as vacinas vivas que ele já recebeu e a lesão da BCG; o que você suspendeu; e o que está colhido. Pergunte três coisas e escreva as respostas: se ele deve ser transferido e por qual regulação; se há profilaxia ou cuidado a iniciar antes da transferência; e o que colher antes que qualquer transfusão ou imunoglobulina altere os exames.
Prescrição- Contato com o serviço de imunologia pediátrica de referência às 12h30 — registrar o nome do médico que atendeu, o horário e as orientações
- Solicitar a transferência pela central de regulação conforme orientação do centro
- Colher as amostras orientadas pelo centro, preferencialmente antes de imunoglobulina ou transfusão quando isso não atrasar estabilização, tratamento ou transferência; registrar intervenções anteriores para interpretar os resultados.
- Prescrever apenas o que o centro orientar quanto a profilaxia até a transferência, com a orientação transcrita no prontuário
13h00 — a BCG que virou evento
A úlcera que não cicatriza com o linfonodo axilar, num lactente com suspeita de defeito combinado, não é «reação normal da BCG»: é um evento supostamente atribuível à vacinação, e a lista nacional de notificação de 2026 manda notificá-lo em até 24 horas, às secretarias municipal e estadual e ao Ministério da Saúde. A notificação não acusa ninguém; é ela que faz a vigilância olhar o lote, o registro e a criança. Documente a lesão com medida e data, porque a evolução dela entra na decisão do centro. E examine com intenção os sinais de disseminação: fígado e baço, lesões de pele novas, febre que não se explica pela pneumonia. O tratamento de uma BCG complicada num lactente com imunodeficiência é decisão do centro de referência com a infectologia; o interno não inicia esquema por conta própria.
Prescrição- Notificar ESAVI com a vigilância epidemiológica do hospital, hoje, dentro das 24 horas
- Registrar úlcera de 1,5 cm no local da BCG e linfonodo axilar direito de 2,5 cm, com data, e medir diariamente
- Exame diário registrado de fígado e baço, pele e curva térmica
15h00 — a conversa com Magdala
A conversa detalhada está no bloco próprio; aqui fica o conteúdo mínimo que não pode faltar. Magdala precisa sair sabendo que existe uma suspeita séria, que ela ainda não é diagnóstico, que o filho vai ser visto por um especialista com urgência e por quê; que as vacinas de vírus e bactéria vivos estão suspensas e as outras aguardam orientação; e que ninguém da família pode levar Benedito para vacinar até nova ordem. Há uma segunda paciente nesta conversa: a irmã de Magdala, grávida de seis meses, que já perdeu um filho com uma história parecida. Esta apostila adota que o recém-nascido de família com suspeita de imunodeficiência combinada grave não recebe BCG nem rotavírus antes da avaliação do imunologista, com hemograma e contagem absoluta de linfócitos logo depois do nascimento. A instrução do calendário contraindica a BCG no erro inato e permite vacinar depois, até 4 anos, 11 meses e 29 dias, com avaliação — adiar custa pouco, e a BCG num recém-nascido com o defeito pode ser fatal.
Prescrição- Registrar no prontuário o que foi explicado, com quem e em que termos
- Orientar por escrito: não levar Benedito a nenhuma sala de vacina até orientação do imunologista
- Com autorização de Magdala, entregar à família um relatório para o pré-natal da irmã: história de óbito precoce por infecção e suspeita de imunodeficiência combinada grave em primo, com a recomendação de avaliação imunológica do recém-nascido antes da BCG e da rotavírus
Dia 2, 10h00 — os resultados que descrevem a porta
O hemograma da manhã tem leucócitos de 6.900/mm³ com 13% de linfócitos: 897/mm³, a terceira contagem abaixo de 2.500. A imunofenotipagem mostra CD3 de 40/mm³ (CD4 22 e CD8 12), CD19 de 830/mm³ e células CD16/56 de 25/mm³ — quase nenhum linfócito T, quase nenhuma célula natural killer e linfócitos B presentes. É o desenho T-B+NK- que o livro da regional fluminense descreve na forma ligada ao X, em que o linfócito B existe e não funciona, e combina com a história do primo materno. A IgG veio em 290 mg/dL, abaixo do percentil 3 da idade mesmo com a contribuição materna que ainda resta; IgA menor que 5 e IgM de 12. O desenho não é o diagnóstico — a definição do tipo e a confirmação genética são do centro —, mas transforma a suspeita em urgência documentada, e o centro recebe os números no mesmo horário.
Prescrição- Comunicar os resultados ao centro de referência às 10h15, com registro
- Manter suspensas as vacinas de agente vivo e a exigência de hemocomponente celular irradiado
- Preparar o resumo de transferência: linha do tempo das infecções, hemogramas com os três números absolutos, imunofenotipagem, imunoglobulinas, radiografias, cópia da caderneta e da notificação
Dia 2, 16h00 — a transferência, e o que fica com a família
Benedito sai em transferência regulada, com oxigênio, acompanhado da mãe, depois de contato médico entre as equipes. O resumo leva as duas restrições na primeira linha, porque são as que um plantonista de outro hospital pode desfazer sem saber. O que fica é o que o interno ainda pode fazer pela família: pedir ao centro o aconselhamento genético, que vai responder o que Magdala e a irmã perguntaram e o interno não sabe responder — quem mais pode ter o defeito e o que muda numa próxima gestação —, e checar se a mensagem sobre o recém-nascido da irmã foi entendida. É também o momento de registrar, para quem ler depois, o que teria mudado aos 3 meses: a mesma conta, feita na primeira internação, teria antecipado a suspeita em dois meses e evitado a segunda dose de uma vacina viva.
Prescrição- Transferência regulada com oxigênio e acompanhante, após contato médico entre as equipes
- Resumo de transferência: suspeita de SCID; vacinas vivas adiadas; se houver indicação transfusional, componentes celulares irradiados e requisitos de desleucocitação/CMV conforme hemoterapia. Comunicar essas necessidades ao médico receptor.
- Solicitar aconselhamento genético da família ao centro de referência
- Confirmar com Magdala, antes da saída, que ela entendeu as orientações sobre as vacinas de Benedito e sobre o recém-nascido da irmã
Como saber se está funcionando
Na suspeita de erro inato, a reavaliação tem dois relógios. O da criança doente — oxigênio, peso, hidratação, a lesão da vacina — é o de qualquer internação e se mede em horas. O da suspeita se mede em decisões cumpridas: o número absoluto escrito em toda evolução, as restrições que continuam em pé a cada prescrição e o tempo até o especialista. Os parâmetros abaixo são os do lactente com suspeita de imunodeficiência combinada grave; o parágrafo seguinte diz o que muda na criança maior e na criança de creche.
Na criança maior encaminhada pela porta do anticorpo, do fagócito ou do complemento, sem infecção grave em curso, o que se reavalia é o caminho: a data da consulta no centro de referência, que não deve ser a do fim da fila comum quando há infecção grave repetida; as vacinas vivas suspensas até a definição; e o diário de infecções que a família mantém até lá. Na criança de creche que saiu sem exame, o retorno confere o crescimento, a vacinação e o diário das infecções — e é nele que um sinal novo, como uma pneumonia grave ou a curva caindo, muda a conduta.
Esperado: O número absoluto registrado sempre, e a linfopenia confirmada ou desfeita pela imunofenotipagem
Se não melhora: Contagem que «normaliza» num lactente com os mesmos sinais não afasta a suspeita — linfócitos maternos instalados e síndrome de Omenn cursam sem linfopenia; manter as restrições e comunicar o centro
Esperado: Necessidade de oxigênio estável ou em queda, sem aumento da frequência respiratória nem da tiragem
Se não melhora: Piora da hipoxemia se conduz pelo capítulo Pneumonia na criança, inclusive a decisão de terapia intensiva, e é informação para o centro no mesmo momento, porque muda a suspeita etiológica e a urgência da transferência
Esperado: Parar de perder peso nas primeiras 72 horas, com aporte registrado
Se não melhora: Perda contínua soma gravidade ao quadro: acionar a nutrição e registrar no resumo de transferência
Esperado: Hidratação mantida, sem distúrbio hidroeletrolítico
Se não melhora: Desidratação se trata na hora pelo capítulo Diarreia e desidratação na criança, na apostila de Gastroenterologia Pediátrica; a pesquisa da causa da diarreia persistente no lactente com suspeita de defeito combinado se combina com o centro
Esperado: Lesão estável, sem hepatoesplenomegalia nova, sem lesões de pele novas, febre explicada pela pneumonia
Se não melhora: Crescimento da lesão, linfonodo que flutua, fígado ou baço aumentando ou lesão de pele nova: comunicar centro e infectologia no mesmo dia e complementar a notificação
Esperado: As duas restrições escritas na caderneta, na prescrição, no banco de sangue e na primeira linha do resumo
Se não melhora: Restrição ausente em qualquer desses lugares é corrigida na hora; vacina viva aplicada por engano é notificada como evento e comunicada ao centro no mesmo dia
Esperado: Contato com o centro no dia da suspeita; transferência regulada conforme a orientação dele
Se não melhora: Sem resposta do centro ou da regulação, repetir o contato, escalar ao preceptor e à direção clínica e registrar cada tentativa com horário
Onde o erro machuca
O dano: O lactente com imunodeficiência combinada grave passa por uma, duas internações com a linfopenia impressa no laudo, recebe as vacinas vivas seguintes e chega ao diagnóstico com mais infecções, mais desnutrição e menos chance de reconstituição imune em boas condições.
Como pegar a tempo: Calcule a contagem absoluta de linfócitos e interprete-a pela idade. Linfopenia importante no lactente, sobretudo com infecção grave ou história familiar sugestiva, exige contato urgente com imunologia. Não aguarde uma segunda contagem para encaminhar; repita e aprofunde a investigação em paralelo.
O dano: Perde-se um dos sinais de alerta do primeiro ano, a vigilância não fica sabendo do evento, e uma BCG que pode estar se disseminando segue sem avaliação de quem sabe tratá-la.
Como pegar a tempo: Leia a lesão da BCG junto com o hemograma, a curva e a história familiar. Complicação vacinal é evento supostamente atribuível à vacinação e se notifica em até 24 horas; num lactente com outros sinais, ela entra na ligação ao centro de referência.
O dano: No defeito combinado, a vacina de agente vivo pode causar doença disseminada e fatal, e o linfócito do doador de uma bolsa não irradiada pode causar doença do enxerto associada à transfusão, habitualmente fatal. Os dois danos são irreversíveis.
Como pegar a tempo: Na suspeita, suspenda toda vacina de agente vivo até o imunologista liberar e escreva isso na caderneta, onde a sala de vacina vai ler. Prescreva hemocomponente celular irradiado desde a suspeita. As vacinas não vivas não precisam ser suspensas por conta própria: seguem com a orientação da rede de imunobiológicos especiais.
O dano: No primeiro caso, a IgG materna esconde a imunodeficiência combinada grave e a investigação para. No segundo, a família recebe um diagnóstico que a idade ainda não permite, com retorno, exame e ansiedade desnecessários.
Como pegar a tempo: Antes dos 6 meses, quem responde à suspeita de defeito combinado são os linfócitos. Compare toda imunoglobulina com o percentil 3 da idade e lembre que o critério de deficiência de IgA começa aos 4 anos.
O dano: Exame sem pergunta produz achado sem significado — a IgA baixa da criança pequena, um título vacinal que caiu — e transforma uma criança saudável em doente de exame, com punções e retornos, enquanto o que protege de verdade, a vacinação em dia, fica em segundo plano.
Como pegar a tempo: Use a comparação entre idade e creche e sinal de alerta. Explique que até 12 resfriados leves por ano são esperados na creche, confira as vacinas, oriente os sinais de gravidade e peça um diário de infecções para o retorno.
O dano: O painel nacional do SUS, em 2026, ainda não inclui a triagem das imunodeficiências. O «pezinho normal» tranquiliza a equipe diante de um lactente com todos os sinais, e a suspeita espera por um exame que nunca foi feito.
Como pegar a tempo: Pergunte qual painel foi colhido e confira na caderneta se ele incluiu TREC. Sem TREC, o pezinho não responde nada sobre o assunto. Com TREC baixo, a conduta é a da suspeita, no mesmo dia.
O que dizer ao paciente e à família
Neste capítulo, a conversa acontece com duas famílias muito diferentes, e o erro é trocar o tom de uma pela outra. Com a mãe do lactente com suspeita de imunodeficiência combinada grave, o trabalho é dizer que há urgência sem prometer desfecho, fechar as portas perigosas sem assustar à toa e proteger quem ainda vai nascer — sem entregar culpa nem genética antes da hora. Com a mãe da criança de creche, o trabalho é o oposto: acolher o cansaço, explicar por que exame não ajuda e trocar o «remédio para a imunidade» pela vacina em dia e por um diário de infecções. As seis primeiras falas são com Magdala; a última, com outra mãe, noutro dia.
«Por que o senhor quer saber do filho da minha irmã?» — Magdala, quando você pergunta de novo sobre o sobrinho
“«Porque existem doenças que deixam a criança sem defesa e que andam na família, e a história do seu sobrinho me ajuda a entender o Benedito. Não é para achar culpado. É porque, se for o que eu estou pensando, a pressa muda tudo — e a senhora me deu hoje uma informação que nenhum exame dá.»”
Não diga: «É só rotina» — a mãe percebe que não é, desconfia, e a pergunta seguinte, a que traz a irmã grávida para a conversa, não acontece.
«Então a culpa é minha? Fui eu que passei isso para ele?»
“«Ninguém escolhe o que passa para os filhos, e a senhora não tinha como saber. Ainda nem sabemos se é essa doença: os exames e o especialista vão dizer, e lá existe uma equipe que explica para a família inteira o que é herdado e o que não é. O que a senhora fez — trazer o Benedito, contar do sobrinho, mostrar o braço — foi exatamente o que nos trouxe até aqui.»”
Não diga: Explicar herança ligada ao X, portadora e risco em porcentagem antes do diagnóstico e fora do aconselhamento genético — a informação dita cedo, e às vezes errada, vira culpa e vira briga de família.
«E as vacinas? Posso levar ele para tomar as próximas?»
“«Por enquanto, nenhuma vacina feita com vírus ou bactéria vivos — eu escrevi isso na caderneta, na página das vacinas. Numa criança que talvez não tenha defesa, essas vacinas podem causar a doença que deveriam evitar. As outras vacinas não fazem esse mal, mas quem vai dizer quais e quando é o especialista. Até lá, não leve o Benedito a nenhuma sala de vacina sem falar com a gente, e mostre a caderneta sempre.»”
Não diga: «Suspende todas as vacinas» — deixa a criança sem proteções que não oferecem risco e confunde a família sobre o que é perigoso de verdade.
«Ele vai morrer como o meu sobrinho?»
“«Eu não vou mentir para a senhora: se for essa doença, ela é grave, e é por isso que eu liguei hoje para o centro especializado em vez de marcar uma consulta para o mês que vem. A diferença entre o Benedito e o seu sobrinho é que agora alguém desconfiou cedo, e existe tratamento especializado que muda essa história quando chega a tempo. Tudo o que dá para fazer hoje, a gente está fazendo hoje.»”
Não diga: «Fique tranquila, vai dar tudo certo», ou, no outro extremo, falar em chance de morrer — a promessa não se sustenta, e o número paralisa a família no momento em que ela precisa agir.
«Mas o teste do pezinho dele deu normal.»
“«Deu, e isso é uma boa notícia para as doenças que ele procurou. O teste que o Benedito fez é o da rede pública, que hoje procura sete doenças, e essa não está entre elas. A lei já prevê que o teste passe a procurar também as doenças da defesa, mas isso ainda não chegou ao painel que foi colhido aqui. O resultado normal dele vale para aquelas sete — não para esta.»”
Não diga: «O pezinho não serve para nada» — a família passa a desconfiar de um exame que protege o filho de outras doenças graves.
«A minha irmã está grávida de seis meses. Pode acontecer com o bebê dela?»
“«Pode, e é por isso que é importante ela contar ao médico do pré-natal e à maternidade o que aconteceu com o primeiro filho e o que está acontecendo com o Benedito. Se a senhora autorizar, eu escrevo um relatório para ela levar. O que eu vou recomendar é que o bebê seja avaliado com um exame de sangue logo depois de nascer e que não tome a vacina BCG antes de um especialista olhar. Se não for nada, ele toma depois, sem prejuízo.»”
Não diga: Telefonar você mesmo para o obstetra da irmã, ou escrever o caso de Benedito num papel sem autorização de Magdala — é informação de saúde de outra pessoa, e a decisão de compartilhar é da família.
Outro dia, no ambulatório: «Doutor, ele vive doente desde que entrou na creche. Faz um exame de imunidade e passa uma vitamina para fortalecer.» — mãe de um menino de 2 anos que cresce no canal
“«Eu entendo o cansaço, e a senhora fez bem em trazer. Pelo que conversamos, ele cresce bem, as infecções são leves e passam, e ele nunca precisou internar. Na creche, até doze resfriados por ano são esperados, porque a defesa dele ainda está aprendendo. Um exame agora não mudaria nada e poderia mostrar coisas que não são doença. O que protege é a vacina em dia. Eu quero que a senhora anote cada infecção até a próxima consulta: se aparecer pneumonia forte, internação ou ele parar de ganhar peso, a nossa conversa muda.»”
Não diga: Pedir exames «só para tranquilizar» ou receitar vitamina — a família sai com a certeza de que o filho tem imunidade baixa, e o próximo achado sem significado vira uma nova investigação.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Lista única para todas as idades, sem números (Associação Brasileira de Alergia e Imunologia, 2024) — adotada por esta apostila
Dez sinais sem divisão por idade: história familiar ou consanguinidade; infecções com frequência aumentada para a faixa etária, de curso prolongado ou inesperado, ou por germe não usual; diarreia crônica precoce; alergia grave; evento adverso não usual a vacina atenuada; características sindrômicas; déficit do crescimento; febre recorrente sem agente; autoimunidade precoce; malignidade precoce. A lista busca sensibilidade e, na apresentação da associação, substitui as listas separadas de criança e de adulto.
Associação Brasileira de Alergia e Imunologia. Departamento Científico de Erros Inatos da Imunidade. Sinais de alerta para erros inatos da imunidade. Folder digital, 2024.
Lista da criança com números, atribuída a 2022 e reproduzida em protocolo hospitalar de 2025
Dez sinais para crianças: duas ou mais pneumonias no último ano; quatro ou mais novas otites no último ano; estomatite de repetição ou monilíase por mais de dois meses; abscessos de repetição ou ectima; um episódio de infecção sistêmica grave; infecções intestinais de repetição ou diarreia crônica; asma grave, doença do colágeno ou autoimune; efeito adverso à BCG ou infecção por micobactéria; fenótipo sugestivo de síndrome; história familiar de imunodeficiência. A mesma lista numerada estava no folheto da associação de 2023.
Ebserh. Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Triângulo Mineiro. Protocolo PRT.HC-UFTM-UCA.003, versão 2, 26/09/2025; Associação Brasileira de Alergia e Imunologia, folheto de 2023.
Não é cronologia: as duas listas se aplicam à mesma criança no mesmo momento e dão conduta diferente. Um menino de 3 anos com três otites no ano e déficit de crescimento fica fora pela lista numerada — não tem quatro otites nem duas pneumonias, e o déficit de crescimento não é item dela — e fica dentro pela lista de 2024, em que o déficit de crescimento é sinal por si. Decide o degrau do escopo: o protocolo de 2025 declara como escopo os pacientes do próprio hospital, e a lista numerada que ele traz é uma edição de 2022 que a associação autora apresenta como substituída; a lista de 2024 é a da sociedade da especialidade para qualquer idade, criança incluída. A data de emissão mais nova do protocolo não torna a lista mais nova. Esta apostila adota a lista de 2024 como rede e usa os números antigos só como exemplo do que significa frequência aumentada para a idade, nunca como corte que exclui. No lactente, somam-se os doze sinais do primeiro ano, que as duas fontes reproduzem e que não conflitam com nenhuma das listas.
Duas doses, com 8 semanas de intervalo (Nota Técnica nº 52/2026, item 5.1.2) — adotada por esta apostila
Para as crianças das indicações 1 a 11 da nota — entre elas a imunodeficiência primária ou erro inato da imunidade, indicação 7 — que tenham entre 1 e 4 anos com esquema completo de 10-valente, ou com três doses no primeiro ano sem o reforço, a nota manda duas doses de 20-valente com intervalo de 8 semanas.
Brasil. Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 52/2026-CGICI/DPNI/SVSA/MS, 20/05/2026, item 5.1.2.
Uma dose, sem doses adicionais (Nota Técnica nº 52/2026, item 5.3.2)
Para crianças e adultos dentro das indicações da nota, com esquema completo de 10-valente ou 13-valente e sem polissacarídica, a nota manda uma dose de 20-valente, com pelo menos 8 semanas da última conjugada, sem necessidade de doses adicionais.
Brasil. Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 52/2026-CGICI/DPNI/SVSA/MS, 20/05/2026, item 5.3.2.
Os dois itens estão no mesmo documento, com a mesma data, e descrevem a mesma criança: não há degrau de data nem de natureza para usar. Decide o degrau do escopo: o item 5.1.2 foi escrito para o grupo de indicações que contém o erro inato da imunidade e para a faixa de 1 a 4 anos com esquema de 10-valente; o item 5.3.2 é regra geral de transição para «crianças e adultos». Esta apostila adota as duas doses com 8 semanas de intervalo, a mesma escolha feita no capítulo de síndrome nefrótica da apostila de Nefrologia Pediátrica, e registra a conta na nota 1 do critério. Na prática, a sala da rede de imunobiológicos especiais pode ter recebido orientação estadual própria: escreva na caderneta qual esquema foi aplicado e por qual item.
Liberadas, exceto a BCG, pelo tipo de defeito (Manual dos CRIE, 2023)
Pelo item 4.1 do manual, quem tem deficiência isolada de imunoglobulinas pode receber vacinas vivas e não vivas; na Tabela 9, a linha das deficiências humorais graves mantém a rotina do programa com uma única exceção, a BCG — de modo que sarampo-caxumba-rubéola, varicela e febre amarela seguem permitidas. O item 2.2 põe a decisão de vacina viva em imunodeprimido nas mãos do médico da rede de referência, junto com o médico assistente.
Brasil. Ministério da Saúde. Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais, 6. ed., 2023, item 4.1, Tabela 9 e item 2.2.
Febre amarela e BCG contraindicadas no erro inato, sem distinção de tipo (Instrução Normativa do Calendário, 2026)
A instrução do calendário contraindica a vacina febre amarela na imunodeficiência primária ou erro inato da imunidade e contraindica a BCG na pessoa com imunodeficiência primária, sem separar o defeito de anticorpo do defeito combinado.
Brasil. Ministério da Saúde. Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação, ano 2026, 3. ed., atualizada em 17/07/2026.
Primeiro, a cronologia: enquanto a porta não está definida, não há conflito — nenhuma vacina viva, pelas duas fontes. O conflito aparece depois do diagnóstico de defeito de anticorpo. Pelo degrau do escopo, a Tabela 9 governaria, porque foi escrita para o tipo de defeito e a instrução é geral. Mas o degrau da coerência interna derruba a liberação no ponto que muda a conduta: a criança com agamaglobulinemia vive em reposição contínua de imunoglobulina, e o mesmo manual, na Tabela 5, exige 8 meses entre a imunoglobulina de reposição e a vacina viral atenuada injetável — intervalo que uma reposição a cada 3 ou 4 semanas nunca cumpre (conta na nota 2 do critério). Esta apostila adota: BCG contraindicada sempre; nenhuma vacina viral viva durante a reposição de imunoglobulina; na criança com defeito de anticorpo que não está em reposição, vale a Tabela 9, e a febre amarela só é aplicada com a avaliação do médico da rede de referência registrada, porque é essa avaliação que o próprio manual exige e que afasta, caso a caso, a contraindicação escrita da instrução.
O raciocínio, em voz alta
Ambulatório de pediatria de um hospital universitário, quinta-feira, 14h. Armindo Soares tem 16 meses e 10,2 kg e chega encaminhado pela unidade básica com a frase «pneumonias de repetição — investigar». Nasceu a termo, mamou no peito até os 6 meses e cresceu no canal até os 8. Desde então: otite média com supuração aos 8 e aos 11 meses; pneumonia do lobo inferior direito aos 10 meses, com cinco dias de internação e hemocultura positiva para pneumococo; pneumonia do lobo inferior esquerdo aos 14 meses, nova internação; e, há três semanas, a terceira pneumonia, agora no lobo médio, tratada em casa. Entre uma e outra, diarreia intermitente e um exame de fezes com Giardia, tratado duas vezes. A curva de peso caiu uma linha de escore z desde os 10 meses. Não frequenta creche. As vacinas estão em dia e sem reação: BCG ao nascer, febre amarela aos 9 meses, tríplice viral, meningocócica C e reforço da pneumocócica 10-valente aos 12 meses; o teste do pezinho da rede pública foi normal. A mãe, Emídia, conta que o irmão dela «teve bronquite a vida inteira e morreu com 19 anos, de pneumonia». Ao exame, Armindo está bem, sem esforço respiratório; na orofaringe não se veem amígdalas, nenhum linfonodo se palpa em cadeia alguma, e não há fígado nem baço aumentados. O hemograma da semana passada tem leucócitos de 9.800/mm³, linfócitos 42% e neutrófilos 50%.
o que chama a atenção antes de qualquer exame
Quatro coisas, e nenhuma é o número de pneumonias. A primeira é a idade de início: um bebê saudável até os 8 meses que passa a adoecer quando a IgG da mãe acaba. A segunda é o germe e o lugar: pneumococo no sangue, pneumonias em três lobos diferentes, otite que supura — bactéria encapsulada, causa sistêmica, não local. A terceira é a ausência: nenhuma amígdala e nenhum linfonodo numa criança que acabou de ter três pneumonias, quando o esperado seria tecido linfoide aumentado. A quarta é a família: um tio materno com infecção respiratória a vida inteira e morte aos 19 anos, na linhagem da mãe de um menino. Pela lista de 2024, há pelo menos quatro sinais — infecções aumentadas com germe grave, diarreia com giárdia de repetição, déficit do crescimento e história familiar. Não há creche para explicar nada.
o que o hemograma responde, e o que não responde
Faça as contas: 42% de 9.800 são 4.116 linfócitos/mm³, e 50% são 4.900 neutrófilos/mm³. Os dois estão dentro da referência para a idade — o limite inferior de linfócitos entre 12 e 24 meses fica em torno de 2.350. Isso tira da frente a porta da célula T como explicação principal e a neutropenia como causa, mas não afasta nada na porta do anticorpo: na agamaglobulinemia, o linfócito T está preservado e o total do hemograma costuma ser normal. O hemograma normal, aqui, é esperado — e não tranquiliza.
a primeira leva que decide a porta
O pedido é curto e tem a idade escrita: IgG, IgA e IgM, com albumina, e os títulos de anticorpo contra vacinas que Armindo já recebeu — anti-HBs e antitetânico depois do esquema primário, sarampo e rubéola depois da tríplice viral. As sorologias maternas para HIV do pré-natal e do parto estão na caderneta, não reagentes. Os resultados chegam em uma semana: IgG de 60 mg/dL, IgA abaixo de 7 mg/dL, IgM de 12 mg/dL, albumina de 4,1 g/dL; anti-HBs e antitetânico não reagentes, apesar do esquema completo.
a leitura dos números
Pela referência brasileira, o percentil 3 da IgG entre 12 e 18 meses é 520 mg/dL: 60 são 11,5% desse corte, e aos 16 meses não há IgG materna para confundir. A IgM de 12 também está bem abaixo do percentil 3, que é 47. A albumina normal afasta perda de proteína, Armindo não usa medicamento que baixe imunoglobulina e o HIV materno foi afastado. Os títulos vacinais ausentes mostram que ele não faz anticorpo quando é pedido. A hipogamaglobulinemia transitória não cabe — ela não dá infecção grave, poupa a resposta vacinal e só raramente baixa a IgM —, e a síndrome de hiper-IgM também não, porque a IgM está baixa. É a porta do anticorpo, com o desenho da agamaglobulinemia. A imunofenotipagem pedida no mesmo retorno mostra linfócitos B (CD19) em 0,3% dos linfócitos, cerca de 12 células/mm³, abaixo do limite de 1% a 2% que o livro da regional fluminense descreve nas agamaglobulinemias. A confirmação do gene é do centro de referência.
o que muda hoje nas vacinas
Armindo já recebeu BCG, febre amarela e tríplice viral sem intercorrência, e nada disso se desfaz. O que vem pela frente muda. A tetraviral dos 15 meses, que contém varicela, fica suspensa: ele vai entrar em reposição de imunoglobulina, e o Manual dos CRIE exige 8 meses entre a imunoglobulina de reposição e a vacina viral atenuada injetável, intervalo que a reposição não permite — esta apostila adota nenhuma vacina viral viva durante a reposição (bloco de divergências). A poliomielite do calendário de 2026 é só a inativada, o que importa num defeito com suscetibilidade a enterovírus. As vacinas não vivas da rede de imunobiológicos especiais entram com a orientação do centro: meningocócica ACWY, influenza e a pneumocócica 20-valente, que, com a 10-valente completa entre 1 e 4 anos, esta apostila faz em duas doses com 8 semanas de intervalo, pelo item 5.1.2 da nota técnica de 2026.
o encaminhamento, e o que não é deste capítulo
Três pneumonias com bacteremia em seis meses, títulos vacinais ausentes e três imunoglobulinas no chão não esperam a fila comum: o contato com o centro de referência é feito no mesmo dia, com os números. A reposição de imunoglobulina — indicação, dose e intervalo pelo protocolo federal — está explicada em A terceira pneumonia (Imunodeficiências primárias e secundárias), na apostila de Imunologia, e é o especialista quem a inicia. A próxima pneumonia de Armindo continua sendo tratada pelo capítulo Pneumonia na criança, na apostila de Pneumologia Pediátrica, com a diferença de que agora o prontuário diz, na primeira linha, que ele é um menino sem anticorpo: febre nele não se observa em casa por três dias.
a família
A história do tio de Emídia muda de sentido. Se a confirmação genética vier como forma ligada ao X, a pergunta sobre quem mais pode ter o defeito — outros meninos da linhagem materna, as próximas gestações de Emídia e de suas irmãs — é do aconselhamento genético do centro, e o interno pede esse aconselhamento em vez de responder de cabeça. O que Emídia pergunta primeiro é se ele vai poder ir à escolinha no ano que vem. A resposta detalhada é do especialista que vai acompanhá-lo; o que o interno pode dizer desde já é que o tratamento existe justamente para ele ter uma vida de criança, e que, até lá, valem a caderneta com as restrições anotadas e a regra de que febre nele é ida ao serviço de saúde no mesmo dia.
Faça você
Enfermaria de pediatria de um hospital geral, sábado, 9h. Flaviano Marituba tem 9 anos e 28 kg e está no quinto dia de internação por doença meningocócica: chegou com febre, petéquias que viraram púrpura em horas e hipotensão, passou dois dias na terapia intensiva, recebeu antibiótico e expansão, e hoje come, brinca e pergunta quando vai para casa. A notificação foi feita na admissão. A avó, Engrácia, que cria o menino, conta que ele «já teve meningite com 6 anos, a das manchas também», e mostra o resumo de alta daquela vez: meningite meningocócica, com cultura do líquor positiva para Neisseria meningitidis. Na caderneta, vacinas do calendário completas — penta, poliomielite, pneumocócica 10-valente com reforço, meningocócica C aos 3 e 5 meses com reforço aos 12, tríplice e tetraviral. Não há outros episódios de infecção grave; ele cresce no canal, não tem lesões de pele fora da doença atual, nem artrite, nem alteração urinária. Os pais não são parentes; ele tem uma irmã de 4 anos, saudável. O plano da equipe é dar alta em dois dias.
reconheço o que é
Esta é a segunda doença invasiva por Neisseria de um menino de 9 anos, com três anos de intervalo. Decida qual das quatro portas a história aponta, por quê, e o que nela não combina com a porta do anticorpo nem com a da célula T.
decido o que pedir antes da alta
Escolha o exame, justifique por que não basta um só, e diga o que cada resultado possível aponta. Diga também o que você não pede para esse menino, e por quê.
decido as vacinas
Com a caderneta dele na mão, decida o que ele deve receber na rede de imunobiológicos especiais se o exame confirmar a porta — meningocócica e pneumocócica, com o número de doses e o reforço — e se alguma vacina viva precisa ser suspensa.
decido o que a família leva
Escreva o que a avó precisa saber ao sair: o que fazer diante de febre, o que muda na rotina da criança e o que se faz com a irmã de 4 anos.
decido de quem é cada parte
Diga quais partes deste caso são deste capítulo e quais pertencem a outros capítulos do nível, pelo nome.
Ver como fecharíamos
É a porta do complemento. Doença por Neisseria que se repete é a infecção sentinela dos defeitos do complemento: a falta dos componentes terminais, de C5 a C9, ou de fator D e properdina, da via alternativa, deixa a bactéria sobreviver no sangue. Nada aponta para anticorpo — ele não tem otites, sinusites nem pneumonias de repetição, e respondeu às vacinas do calendário sem intercorrência — nem para célula T, sem infecção oportunista nem déficit de crescimento. Antes da alta, peça o par CH50 e AP50, e não o CH50 sozinho: os dois ausentes apontam componente terminal; CH50 muito baixo com AP50 normal aponta a via clássica inicial, que daria mais encapsuladas e doença parecida com lúpus; CH50 normal com AP50 muito baixo aponta properdina ou fator D, que o CH50 isolado deixaria passar. Não peça C3 e C4 isolados como triagem, que não enxergam esses defeitos, nem bateria de imunoglobulinas e subpopulações sem sinal que aponte para elas; a interpretação e os componentes individuais ficam com o centro de referência, para onde ele é encaminhado. Confirmada a porta, a Tabela 9 do Manual dos CRIE libera todas as vacinas da rotina — nenhuma viva precisa ser suspensa — e acrescenta as contra encapsulados: a meningocócica ACWY conjugada, que pela tabela de indicações do manual se faz em duas doses com 8 semanas de intervalo e reforço a cada 5 anos, e a pneumocócica 20-valente, que pela Nota Técnica nº 52/2026 se dá, a partir dos 5 anos e com a 10-valente completa, em dose única pelo menos 8 semanas depois da última conjugada; Haemophilus b e influenza seguem a orientação da rede. A avó leva por escrito que febre com manchas, ou febre com prostração, é ida imediata ao pronto-socorro, sem esperar a manhã seguinte, com o relatório que diz «suspeita de deficiência de complemento, duas doenças meningocócicas» na primeira linha; que a rotina dele não precisa mudar enquanto o centro não orientar outra coisa; e que a irmã de 4 anos deve ser avaliada pelo mesmo centro, porque as deficiências de complemento são herdadas e a investigação da família é decisão do especialista. As partes do caso: o manejo da doença meningocócica aguda, o antibiótico, a profilaxia dos contatos e a notificação são do capítulo A ordem certa não é a ordem do raciocínio (Meningites bacterianas e virais na infância), na apostila de Infectologia Pediátrica; a asplenia, que também predispõe a infecção grave por encapsulada, é diferencial a discutir com o centro, e a doença falciforme, sua causa funcional mais comum na criança, tem capítulo próprio na apostila de Hematologia Pediátrica; o reconhecimento da porta, o par do complemento e as vacinas por tipo de defeito são deste capítulo.
Infecções bacterianas graves, imunoglobulinas muito baixas e tecido linfoide escasso em um menino fazem suspeitar de agamaglobulinemia, exigindo encaminhamento urgente e imunofenotipagem de linfócitos B e T. Contagem total normal não exclui deficiência de células B. Albumina normal torna perda proteica importante menos provável, sem encerrar a pesquisa de causas secundárias. Hipogamaglobulinemia transitória também pode ter infecções relevantes; o caráter transitório só é confirmado após normalização documentada. Não é seguro esperar até os quatro anos. A decisão sobre vacinas vivas e reposição de imunoglobulina deve ocorrer na avaliação especializada.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Sem abrir o capítulo, responda em voz alta: (1) quais achados fazem a criança de creche que adoece muito continuar sem exame imunológico, e qual número de resfriados por ano o folheto brasileiro considera esperado; (2) cinco dos dez sinais de alerta de 2024 que não são infecção; (3) seis dos doze sinais do primeiro ano de vida, com o número da linfopenia; (4) por que uma IgG normal aos 4 meses não tranquiliza e uma IgA baixa aos 2 anos não é diagnóstico; (5) as quatro portas, cada uma com o germe que a denuncia e o primeiro exame que a investiga; (6) as duas coisas que deixam de ser rotina no lactente com suspeita de imunodeficiência combinada grave, e em quanto tempo se notifica a complicação da BCG; (7) por que o teste do pezinho normal não afasta a doença, e o que se faz com um TREC baixo.
Em 30 dias
Procure no seu serviço três hemogramas de lactentes menores de 1 ano internados por infecção no último mês. Em cada um, calcule o número absoluto de linfócitos a partir do percentual e compare com 2.500/mm³. Se algum estiver abaixo, confira no prontuário se alguém escreveu o número, se a caderneta registra BCG, rotavírus e teste do pezinho, e se a história familiar foi perguntada. Depois, descubra três coisas sobre a sua rede: qual é o centro de referência em imunologia pediátrica e como se faz o contato no mesmo dia; qual é o painel do teste do pezinho do seu estado e se ele inclui TREC; e como o banco de sangue do seu hospital recebe o pedido de hemocomponente celular irradiado. Escreva as respostas num lugar onde você as encontre de madrugada.
Agora atenda
Agora atenda: enfermaria de pediatria, fim de manhã, lactente de 5 meses internado pela segunda vez por pneumonia com oxigênio, trazido pela mãe, com diarreia que não firmou, candidíase oral de repetição e uma ferida no braço da BCG. Leia a caderneta e o hemograma com os números absolutos, pergunte pela família, decida o que deixa de ser rotina hoje, peça a primeira leva e ligue para quem precisa saber.
