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Clínica MédicaImunologia

A terceira pneumonia

Imunodeficiências primárias e secundárias

O adulto que se infecta demais, na unidade básica e na enfermaria: reconhecer o padrão que pede investigação, colher os exames certos antes de qualquer imunoglobulina, separar a imunodeficiência primária da secundária, conduzir a imunodeficiência comum variável e a deficiência de IgA pelo protocolo federal e ajustar vacinas e cuidados de quem tem a defesa reduzida pela doença ou pelo tratamento

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Portaria SAS/MS nº 495, de 11 de setembro de 2007. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas: Imunodeficiência primária com predominância de defeitos de anticorpos — imunoglobulina humana. Brasília: Ministério da Saúde; 2007.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 7, de 21 de junho de 2024. Inclui procedimento do Componente Especializado da Assistência Farmacêutica (imunoglobulina humana 5,0 g injetável). Diário Oficial da União nº 126, 3 jul. 2024, seção 1, p. 238.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento do Programa Nacional de Imunizações. Nota Técnica nº 52/2026-CGICI/DPNI/SVSA/MS: diretrizes para o uso da vacina pneumocócica conjugada 20-valente em estratégias especiais na Rede de Imunobiológicos para Pessoas com Situações Especiais. Brasília; 20 maio 2026.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais. 6ª ed. Brasília: Ministério da Saúde; 2023. ISBN 978-65-5993-501-7.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento do Programa Nacional de Imunizações. Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação 2026. 3ª ed. Brasília; atualizada em 17 jul. 2026.

01

Responda antes de ler

Homem de 29 anos, investigado por diarreia e anemia ferropriva, tem antitransglutaminase IgA negativa. As imunoglobulinas mostram IgA menor que 7 mg/dL, IgG e IgM dentro da faixa de referência. Não tem história de infecções de repetição, nunca recebeu transfusão e o teste para HIV é não reagente. Em relação à alteração imunológica, qual é a conduta mais adequada?

02

O paciente que você vai ver

Segunda-feira, 3 de agosto, 14h20, unidade básica de saúde na periferia de uma cidade média. A técnica de enfermagem bate na porta do consultório com a ficha na mão e resume a triagem do jeito que se resume quando a agenda está cheia: febre, tosse com catarro, dor do lado direito ao respirar, saturação de 95% — mais uma pneumonia. Quem entra é Rafaela Braga, 34 anos, auxiliar administrativa de uma escola municipal, mãe de um menino de 6 anos. Senta devagar, com a mão apoiada nas costelas, e a primeira coisa que diz não é sobre a febre: é que já sabe o que você vai receitar.

O prontuário eletrônico confirma que ela sabe. Desde os 25 anos, as anotações se repetem com poucas variações: sinusite em abril, sinusite em setembro, sinusite de novo em dezembro, amoxicilina, amoxicilina com clavulanato, uma vez azitromicina porque a anterior não resolveu. Aos 31 anos, uma pneumonia no lobo inferior direito com cinco dias de internação e antibiótico na veia. Aos 33, outra, tratada em casa. No meio disso, dois exames de fezes com cistos de Giardia em dois anos, cada um tratado e anotado como episódio isolado, e uma diarreia que vai e volta. E, numa anotação de quando ela tinha 29 anos, uma contagem de plaquetas de 42 mil com manchas roxas nas pernas, tratada com corticoide pelo hematologista e nunca mais lembrada.

O exame de hoje não deixa dúvida sobre o episódio. Axilar de 38,4 °C, 22 incursões respiratórias por minuto, pressão de 112 por 70, estertores na base direita, consciência preservada, sem confusão, sem hipotensão. Rafaela pesa 58 quilos; na ficha de dois anos atrás pesava 62. A radiografia que a unidade consegue no mesmo dia, no hospital de referência, mostra a consolidação na base direita. A gravidade, o local de tratamento e o antibiótico dessa pneumonia se decidem pelo capítulo Pneumonia adquirida na comunidade (CURB-65 / gravidade), da apostila de Pneumologia, e sem nenhum sinal de gravidade Rafaela sai para tratamento em casa, com retorno marcado.

O reflexo do consultório é esse: tratar a pneumonia de hoje, como foi tratada a de ontem, e chamar a próxima pessoa. Nenhuma das condutas anteriores estava errada, e é justamente esse o problema. Cada médico que atendeu Rafaela resolveu bem um episódio, e nenhum deles olhou para a série. A série diz outra coisa: uma pessoa jovem, sem tabagismo, sem asma, sem doença pulmonar conhecida, que acumula três pneumonias em quatro anos, sinusites que não cabem nos dedos de uma mão, uma parasitose intestinal que insiste e uma plaquetopenia autoimune no meio do caminho.

A preceptora lê a tela por cima do seu ombro e faz a pergunta que não está em nenhuma ficha de triagem: quantas infecções uma pessoa de 34 anos tem direito a ter antes que alguém pergunte pela defesa dela? A resposta honesta é que a pergunta deveria ter aparecido na segunda pneumonia. Ela aparece hoje, e isso muda o que se faz nesta tarde, não daqui a um mês.

Muda, primeiro, porque uma parte da investigação só presta se for colhida antes de qualquer imunoglobulina entrar na veia de Rafaela. O anticorpo que se mede depois da primeira infusão é, em boa parte, do doador, e a pergunta que o diagnóstico precisa responder — o corpo dela produz anticorpo quando é vacinado? — fica sem resposta possível. Muda, segundo, porque há outra explicação para uma pessoa que se infecta demais, e ela precisa ser procurada antes de se falar em doença congênita: o vírus da imunodeficiência humana, um remédio, uma perda de proteína pelo rim ou pelo intestino, um câncer do sangue.

Muda, terceiro, por causa de uma coisa que acontece do outro lado do corredor. Rafaela não tem registro da vacina contra febre amarela, e a sala de vacina tem instrução de não perder oportunidade. Se ela tiver um defeito grave de anticorpo, uma vacina de vírus vivo dada hoje não é oportunidade: é, no melhor caso, desperdício, e no pior, risco. Enquanto isso, o filho dela, que convive com ela na mesma casa, é exatamente quem deveria estar com o cartão em dia.

E muda porque o tempo não é neutro. Infecção pulmonar de repetição num pulmão sem defesa deixa cicatriz: brônquio dilatado que passa a guardar secreção e a se infectar sozinho. A perda de peso, a diarreia e a plaquetopenia antiga não são enfeites do caso; podem ser a outra metade da mesma doença, a que não se manifesta como infecção e que faz perder até um quarto desses diagnósticos quando o médico só conta pneumonias.

Até o fim desta tarde você precisa tomar três decisões e escrevê-las no prontuário: se Rafaela entra na investigação de imunodeficiência, quais exames saem hoje e em que ordem, e o que a sala de vacina faz e deixa de fazer com ela e com o filho até o diagnóstico. Nas semanas seguintes vêm as outras: separar o que é primário do que é secundário, levar o caso ao imunologista com a documentação que o protocolo federal exige, e acompanhar a primeira infusão de uma reposição que, se o diagnóstico se confirmar, vai durar a vida inteira.

03

Quem adoece disso

Imunodeficiência primária foi ensinada por décadas como coisa de pediatra e de doença raríssima, e os dois números que o aluno encontra nos documentos brasileiros mostram por quê. O protocolo federal de 2007 estima as imunodeficiências primárias em 1 a cada 10.000 nascidos vivos, excluída a deficiência de IgA sem sintomas. O material da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia de 2024 estima os erros inatos da imunidade — o nome que substituiu imunodeficiência primária — em cerca de 1 a cada 1.200 pessoas. A distância entre os dois é de 8,3 vezes, e ela não é erro de nenhum dos dois: é o tamanho do que se aprendeu no meio.

Quando a lista de sinais de alerta foi criada, em 1993, conheciam-se menos de 50 defeitos imunológicos primários, e a especialidade era exercida quase só por pediatras. A classificação internacional de 2022 citada pela associação reúne 485 doenças. O nome mudou junto porque boa parte delas não se manifesta só por falta de defesa, mas por defesa desregulada: autoimunidade, inflamação sem infecção, alergia grave, linfoproliferação, câncer. E muitas aparecem no adulto, às vezes no idoso — o documento de 2024 escreve isso com todas as letras para que o clínico, e não só o pediatra, passe a procurar.

Traduza para o território de uma equipe de saúde da família. Numa população cadastrada de 3.500 pessoas, a proporção de 1 para 1.200 dá cerca de três pessoas com algum erro inato da imunidade. Quase nenhuma delas sabe. A maioria vai aparecer na unidade do jeito que Rafaela apareceu: como uma pessoa que tem sinusite demais, pneumonia demais, diarreia que não passa, e que foi bem atendida episódio por episódio.

Nem todos os defeitos pesam igual. O protocolo de 2007 distribui as imunodeficiências primárias assim: defeitos de anticorpos em 40% dos casos, deficiências combinadas de células T e B em 20%, defeitos de fagócitos em 18%, defeitos da imunidade celular isolada em 10% e deficiências do complemento em 2%. O documento da associação confirma a ordem para o mundo: os defeitos mais comuns são os que afetam a produção de anticorpos. Para o internato, isso tem uma consequência prática — o erro inato que você vai encontrar num adulto é, com grande probabilidade, um defeito de anticorpo.

Dentro desse grupo, duas entidades respondem pela maior parte do que chega ao clínico. A primeira é a deficiência seletiva de IgA, o erro inato mais prevalente, estimada pelo protocolo em 1 a cada 320 a 800 nascidos vivos. Na mesma equipe de 3.500 pessoas, seriam de 4 a 11 portadores. Metade ou mais passa a vida sem sintoma, e muitos vão descobrir a deficiência por acaso, num exame pedido por outro motivo — quase sempre na investigação de doença celíaca, quando a sorologia baseada em IgA vem negativa e alguém tem a boa ideia de dosar a IgA total.

A segunda é a imunodeficiência comum variável (IDCV), bem mais rara — 1 a cada 50.000 nascidos vivos pela mesma estimativa —, mas é a que adoece de verdade o adulto jovem. O protocolo situa a apresentação mais comum na segunda ou na terceira década de vida, depois de anos de infecções respiratórias tratadas uma a uma. A agamaglobulinemia ligada ao X, terceira entidade do grupo, é doença de meninos, com infecções que começam nos dois primeiros anos de vida. Juntas, as três somam de 70% a 90% dos defeitos de anticorpos.

A imunodeficiência secundária é outra ordem de grandeza. Segundo o manual dos centros de referência para imunobiológicos especiais, ela é a mais frequente, e basta olhar a lista de condições que a nota técnica de 2026 atende na rede de imunobiológicos especiais para entender o tamanho: pessoas vivendo com HIV, pacientes oncológicos em tratamento, transplantados, quem usa imunossupressor, quem não tem baço, quem tem doença renal crônica, hepatopatia crônica ou diabetes. Na enfermaria de clínica médica, esse paciente não é exceção; é a rotina de todo dia, e muitas vezes ninguém escreveu no prontuário que ele é imunodeprimido.

Há, por fim, a epidemiologia do custo, que explica por que o protocolo federal é exigente com documentação. A imunoglobulina humana é medicamento do Componente Especializado da Assistência Farmacêutica, e a portaria de 2024 que incluiu o frasco de 5 g na tabela do SUS atribui a cada frasco o valor de R$ 2.001,94. Uma mulher de 58 kg que recebe 25 g a cada quatro semanas — 431 mg/kg, dentro da faixa do protocolo — usa 13 ciclos e 65 frascos por ano, cerca de R$ 130 mil pelo valor de tabela, por toda a vida. É um tratamento que funciona e que o SUS fornece; por isso mesmo, a porta de entrada é o diagnóstico bem feito, e não a IgG baixa isolada num exame.

04

Por que acontece o que acontece

Para o clínico, o sistema imune funciona como uma muralha com quatro portas, e cada porta tem o seu vigia e deixa passar os seus invasores quando falha. A primeira é o anticorpo, produzido pelo linfócito B e pelo plasmócito. A segunda é o linfócito T, que comanda a resposta e mata a célula infectada. A terceira é o fagócito — neutrófilo e macrófago —, que engole e destrói. A quarta é o complemento, a cascata de proteínas do plasma que perfura bactérias e as marca para serem engolidas. O baço funciona como um filtro atrás das quatro, retirando do sangue as bactérias já marcadas. A utilidade dessa imagem é diagnóstica: o germe que insiste diz qual porta está aberta, e a porta aberta diz que exame pedir. É por isso que as tabelas de infecção sentinela que a comissão de imunodeficiências da associação reproduz são organizadas pelo agente, e não pela doença.

A porta do anticorpo guarda sobretudo contra bactérias encapsuladas. O pneumococo e o Haemophilus têm uma cápsula de polissacarídeo que os esconde do fagócito; só depois de recobertos por IgG, com ajuda do complemento, eles são reconhecidos e engolidos. Sem anticorpo, a cápsula vence, e o resultado é o que o protocolo federal descreve: infecção de repetição das vias aéreas — sinusite, otite, pneumonia — por Streptococcus pneumoniae, Haemophilus influenzae, estafilococo e meningococo. A IgA secretada nas mucosas cumpre outra função, a de impedir que o germe se prenda ao epitélio do intestino e das vias aéreas, e é por isso que a Giardia e a diarreia crônica acompanham com tanta frequência os defeitos de anticorpo. O mesmo mecanismo explica um dado de idade: a IgG é a única imunoglobulina que atravessa a placenta, e o bebê sem anticorpo próprio fica protegido pela da mãe até por volta do sexto ou sétimo mês, quando as infecções começam.

Anticorpo não é só quantidade. Uma pessoa pode ter IgG total na faixa normal e não conseguir produzir o anticorpo específico contra um germe novo, e outra pode ter IgG baixa por perda e fabricar bem o que precisa. Por isso o protocolo exige, para qualquer diagnóstico de defeito de anticorpo, uma prova de síntese ativa: medir se o corpo responde a um estímulo conhecido — uma vacina tomada, os anticorpos naturais contra os grupos sanguíneos A e B, a resposta ao polissacarídeo do pneumococo. Na IDCV, o defeito costuma estar no amadurecimento: há linfócitos B no sangue, mas eles não completam a troca de classe nem viram plasmócitos produtores, e o que o especialista mede na citometria é justamente a falta de linfócitos B de memória com troca de classe.

O mesmo defeito que impede o linfócito de amadurecer impede o sistema de se regular, e isso faz da IDCV uma doença de duas metades. A primeira é a infecção. A segunda é a desregulação: citopenias autoimunes — plaquetopenia e anemia hemolítica são as mais lembradas —, vitiligo, uveíte, artrite, hiperplasia nodular linfoide no intestino, fígado com hiperplasia nodular regenerativa, gânglios e baço aumentados, granulomas em vários órgãos e uma doença pulmonar intersticial linfocítica e granulomatosa que responde por parte importante da morbidade. O protocolo de 2007 acrescenta o risco aumentado de neoplasias. É essa segunda metade que a lista de sinais de alerta de 2024 passou a nomear, e é ela que explica a plaquetopenia de Rafaela aos 29 anos.

A porta do linfócito T guarda contra o que vive dentro das células: vírus como o citomegalovírus, fungos como Candida e Pneumocystis, micobactérias, protozoários como Toxoplasma e Cryptosporidium. O linfócito T também ajuda o B a produzir anticorpo, e por isso quem tem essa porta fechada costuma perder as duas defesas — é o território das deficiências combinadas, que em geral se revelam nos primeiros meses de vida. No adulto, quem fecha essa porta quase sempre vem de fora: o vírus da imunodeficiência humana, cujo manejo é do capítulo Infecção pelo HIV/AIDS e infecções oportunistas, da apostila de Infectologia, e os fármacos que suprimem o linfócito, a começar pelo corticoide em dose alta. É também a porta que proíbe vacina de vírus vivo: sem linfócito T, o vírus atenuado da vacina pode se multiplicar sem freio, e o manual dos centros de referência contraindica vacina viva nas deficiências da imunidade celular.

A porta do fagócito guarda contra bactérias que formam pus e contra fungos filamentosos: Staphylococcus aureus, Gram-negativos, Pseudomonas, Aspergillus. O defeito se anuncia por abscessos profundos e de repetição, na pele e em órgãos internos, e por infecção que não forma o pus esperado. Os defeitos congênitos dessa porta, como a doença granulomatosa crônica, são raros. A versão adquirida é comum e grave: a neutropenia da quimioterapia, cujo reconhecimento e tratamento na febre são do capítulo Síndrome da veia cava superior e neutropenia febril, da apostila de Oncologia. O manual dos centros de referência afasta dessa porta a vacina bacteriana viva, a BCG.

A porta do complemento e o filtro do baço guardam contra os mesmos inimigos por caminhos diferentes. Os componentes finais do complemento perfuram a Neisseria, e sua falta se anuncia por doença meningocócica, às vezes de repetição. Os componentes iniciais e o baço trabalham com o anticorpo contra as bactérias encapsuladas circulantes. Por isso o paciente sem baço, o paciente com defeito de complemento e o paciente sem anticorpo compartilham o mesmo risco de sepse por pneumococo, meningococo e Haemophilus, e compartilham as mesmas vacinas. O angioedema hereditário, que é defeito de um regulador do complemento e não de defesa, é assunto do capítulo Urticária e angioedema, desta apostila.

A imunodeficiência secundária fecha as mesmas portas por fora. O corticoide em dose alta e prolongada deprime o linfócito T e o fagócito; o rituximabe elimina o linfócito B e pode deixar a IgG baixa por meses; o anti-TNF desmonta o granuloma que mantinha a tuberculose latente sob controle; a quimioterapia derruba o neutrófilo; a síndrome nefrótica e a enteropatia perdedora de proteínas deixam a IgG escapar junto com a albumina; a leucemia linfocítica crônica, o mieloma e os linfomas ocupam o lugar do linfócito que produziria anticorpo útil. A reposição de imunoglobulina, quando indicada, devolve uma única dessas defesas: é IgG de milhares de doadores, que vai sendo consumida ao longo de semanas — daí as infusões a cada três ou quatro semanas e a IgG de vale medida antes da seguinte. Ela quase não contém IgA nem IgM, de modo que não reconstrói a defesa das mucosas; e algumas pessoas sem IgA reconhecem como estranha a IgA do plasma do doador, que é por onde entra a reação anafilática transfusional da deficiência de IgA.

Quadro em quatro linhas com as funções de anticorpos, linfócitos T, fagócitos e complemento, destacando a cooperação entre componentes e as limitações de inferir um defeito a partir de um microrganismo.
Anticorpos, linfócitos T, fagócitos e complemento trabalham em conjunto. Infecções respiratórias bacterianas recorrentes podem sugerir deficiência de anticorpos, mas não identificam sozinhas o componente alterado. História, agentes, gravidade, sítios acometidos e causas secundárias ou anatômicas orientam a investigação. Nenhum dos quatro componentes funciona como uma porta exclusiva para um grupo de microrganismos.
05

Como se apresenta de verdade

A imunodeficiência chega ao interno de três jeitos, e cada um pede um olhar diferente. O primeiro é a pessoa que se infecta demais — a Rafaela da unidade básica, com a série de sinusites e pneumonias no prontuário. O segundo é o achado de laboratório sem história: uma IgA indetectável na investigação de doença celíaca, uma fração gama baixa numa eletroforese pedida por outro motivo. O terceiro é o paciente internado cuja defesa foi reduzida pelo tratamento — corticoide há meses, rituximabe no ano passado, quimioterapia em curso, baço retirado depois de um acidente — e que ninguém chamou de imunodeprimido na folha de admissão.

Este capítulo assume o reconhecimento do adulto com suspeita de erro inato da imunidade, a imunodeficiência comum variável e a deficiência de IgA — do exame inicial à reposição de imunoglobulina pelo protocolo federal —, o mapa das imunodeficiências secundárias e a parte da prevenção que depende do tipo de defeito. Cede o que tem dono no nível: a infecção pelo HIV ao capítulo Infecção pelo HIV/AIDS e infecções oportunistas; a febre do paciente em quimioterapia a Síndrome da veia cava superior e neutropenia febril; a infecção latente por tuberculose a Tuberculose: diagnóstico, esquema RIPE e tratamento da ILTB; a reativação da hepatite B a Hepatite B: sorologia, profilaxia e tratamento; as regras de vacinação do adulto imunossuprimido a Vacinação do adolescente, do adulto, do idoso e da gestante: atualização do cartão, falsas contraindicações e oportunidade perdida; a hipogamaglobulinemia do rituximabe na vasculite a Vasculites sistêmicas; a escolha do hemocomponente a Terapia transfusional e reações transfusionais; e o angioedema hereditário a Urticária e angioedema. A criança com suspeita de erro inato é de Imunodeficiências primárias: sinais de alerta e investigação inicial, na apostila de Imunologia Pediátrica: os sinais de alerta de 2024 valem para todas as idades, e o reconhecimento que se descreve aqui é o do adulto.

As seis seções seguem a ordem das perguntas: o padrão que pede investigação, as duas imunodeficiências primárias do adulto, a hipogamaglobulinemia que é secundária, o imunodeprimido pelo tratamento e as imunodeficiências que não parecem imunodeficiência.

Percurso de aprendizagem

Confirme a série de infecções, sítios, agentes, gravidade e resposta, procurando também causas locais, medicamentos, perda proteica, HIV e doença hematológica. Autoimunidade e história familiar podem ser pistas de erro inato no adulto.

Interprete imunoglobulinas, albumina e resposta específica em conjunto. Títulos de vacinas antigas e amostras após reposição têm limites. Vacinação, tratamento de infecções e referência são individualizados pelo defeito e pela gravidade, sem esperar toda a investigação para proteger o paciente.

Use os casos para explicar decisões e consequências. As doses e os horários da narrativa são exemplos contextualizados; confirme sua adequação ao paciente e ao protocolo assistencial. Consulte as divergências e regras de acesso quando elas mudarem uma decisão concreta.

O padrão que pede investigação: frequência, gravidade, germe e resposta

Nenhuma infecção isolada, por pior que seja, diagnostica imunodeficiência. O que pede investigação é o padrão, e a lista de sinais de alerta que a associação brasileira publicou em 2024 organiza o padrão em dez perguntas que valem para qualquer idade: há história familiar de erro inato ou consanguinidade? As infecções são mais frequentes do que o esperado para a idade, duram mais do que deveriam, evoluem de forma inesperada ou são causadas por germe incomum ou oportunista? Há diarreia crônica de início precoce, alergia grave, reação incomum a vacina de agente vivo, traço sindrômico, déficit de crescimento, febre recorrente sem infecção nem câncer que a expliquem, autoimunidade precoce ou combinada — sobretudo citopenias e doenças endócrinas —, câncer precoce, incomum ou de repetição?

A lista antiga do adulto, que o folheto da mesma associação trazia em 2023 e que protocolos hospitalares ainda reproduzem, punha números no primeiro desses sinais: duas ou mais otites novas por ano, duas ou mais sinusites novas por ano sem alergia que as explique, uma pneumonia por ano, antibiótico venoso de repetição, abscessos profundos de repetição, candidíase persistente, infecção por micobactéria. Os números ajudam o interno a calibrar o que é frequência aumentada, e é por isso que continuam úteis. A lista nova acrescentou o que eles não viam, a desregulação: a associação calcula que olhar só para infecção deixa escapar até um quarto dos casos. Rafaela preenche os dois critérios — três pneumonias em quatro anos, antibiótico venoso numa delas, diarreia com emagrecimento — e ainda soma a citopenia autoimune.

O germe é o terceiro eixo. A comissão de imunodeficiências da associação reúne as infecções que funcionam como sentinela: bactéria encapsulada de repetição aponta para anticorpo, complemento ou baço; Neisseria, para complemento; Mycoplasma e Ureaplasma, para anticorpo; estafilococo, Gram-negativo e Pseudomonas em abscesso, para fagócito; micobactéria não tuberculosa, para defeitos da imunidade inata; toxoplasmose e citomegalovírus graves, para imunidade celular; criptosporidiose, para hiper-IgM e para IDCV. Toda cultura positiva de um paciente que se infecta demais merece ser lida com essa lista ao lado.

O quarto eixo é a resposta ao tratamento: a infecção que exige antibiótico venoso para ceder, que volta logo depois de terminado o curso, que precisa de troca de antibiótico sem germe resistente que a justifique. É o que o prontuário de Rafaela mostra na azitromicina que substituiu a amoxicilina e na pneumonia que precisou de internação.

Antes de pensar em defesa, afaste o que imita o padrão. Na criança que frequenta creche, até 12 resfriados leves por ano são esperados, lembra o folheto da associação. No adulto, sinusite de repetição tem causa local frequente — rinite alérgica mal controlada, desvio de septo, polipose —, e pneumonia de repetição no mesmo lobo sugere obstrução do brônquio, aspiração ou doença estrutural, e não falta de anticorpo. Tabagismo, asma e doença pulmonar obstrutiva crônica explicam boa parte das infecções respiratórias do adulto. O padrão da imunodeficiência é a infecção de sítios diferentes, com germes da mesma porta, sem causa local que a explique.

A imunodeficiência comum variável: o adulto jovem que nunca parou de se infectar

A IDCV é um conjunto de doenças que se parecem mais pelo resultado do que pela causa. Os critérios da sociedade europeia de imunodeficiências, que a comissão da associação brasileira reproduz, exigem idade a partir de 4 anos, uma manifestação clínica compatível, IgG e IgA reduzidas — com ou sem IgM baixa — em pelo menos duas dosagens, falha na produção de anticorpo ou redução dos linfócitos B de memória com troca de classe, e exclusão das causas secundárias e de defeito importante de linfócito T. O protocolo federal descreve a doença como uma redução acentuada de pelo menos duas das três classes de imunoglobulina, com IgG em geral abaixo de 250 mg/dL — uma diferença que muda o diagnóstico de alguns pacientes e que está discutida nas divergências.

A manifestação mais frequente são as infecções respiratórias por germes comuns: sinusites, otites e pneumonias de repetição, que ao longo dos anos dilatam os brônquios. Bronquiectasia num adulto jovem que não fumou e não teve tuberculose merece, por si, a pergunta pelas imunoglobulinas. O intestino é o segundo alvo: diarreia crônica, giardíase que volta, emagrecimento, má absorção, e às vezes uma hiperplasia nodular linfoide que o endoscopista descreve sem saber o que ela significa.

A outra metade da doença é a que mais se perde. Plaquetopenia e anemia hemolítica autoimunes podem vir antes das infecções; vitiligo, uveíte e artrite aparecem; o fígado pode ter hiperplasia nodular regenerativa; gânglios e baço aumentam sem infecção; granulomas surgem em pulmão, pele, fígado; e a doença pulmonar intersticial linfocítica e granulomatosa — um infiltrado que não é infecção — responde por boa parte da morbidade, na descrição da comissão. O protocolo federal lembra o risco aumentado de neoplasias, entre elas o linfoma. Um adulto com citopenia autoimune e infecções de repetição deve ter as imunoglobulinas dosadas antes de começar qualquer imunossupressor para a citopenia, porque o tratamento da segunda metade pode piorar a primeira — leitura desta apostila, que decorre de corticoide em dose alta e rituximabe estarem na lista de causas de hipogamaglobulinemia.

A história familiar é a pergunta que falta com mais frequência. A herança da IDCV é, na maior parte dos casos, multifatorial, mas o protocolo registra casos de deficiência de IgA e de IDCV numa mesma família. Pergunte por irmãos, pais e tios com infecções de repetição, bronquiectasia, mortes jovens por infecção e doenças autoimunes; a mãe de Rafaela, dona Hercília Barroso, conta que um irmão dela passou a vida com sinusite e morreu de pneumonia aos 41 anos.

A deficiência de IgA: quase sempre silenciosa, às vezes não

A deficiência seletiva de IgA é definida pela comissão da associação como IgA abaixo de 7 mg/dL com IgG e IgM normais, a partir dos 4 anos de idade, excluídas as causas secundárias. O corte de idade existe porque a IgA da criança pequena ainda está subindo e um valor baixo pode ser só atraso.

A maioria dos portadores passa a vida sem sintoma. Uma parte tem infecções respiratórias bacterianas de repetição e giardíase que não vai embora. Há associação com alergia, com doenças autoimunes e inflamatórias — lúpus, artrite reumatoide, retocolite ulcerativa, doença de Crohn —, com doença celíaca, com hiperplasia nodular linfoide e com alguns cânceres, sobretudo em pessoas mais velhas. Quem tem infecções mais graves ou frequentes pode ter também deficiência de subclasse de IgG, e alguns evoluem para IDCV; por isso o protocolo pede que o portador seja avaliado de forma ampla, e a comissão indica a dosagem de subclasses de IgG na deficiência de IgA com infecções de repetição.

O encontro mais comum no internato é o achado. Na investigação de doença celíaca, a sorologia que usa IgA vem negativa porque não há IgA para medir, e o diagnóstico só anda com a dosagem da IgA total e com os testes que usam IgG — a escolha do teste é assunto do capítulo Síndrome do intestino irritável e diarreia crônica, da apostila de Gastroenterologia. Um resultado indetectável de IgA numa pessoa sem infecções não pede reposição nem alarme: pede registro no prontuário, pergunta sobre infecções, sobre giardíase e sobre transfusões anteriores.

A pergunta sobre transfusão importa por um motivo específico. O guia federal para uso de hemocomponentes indica componente lavado para o paciente deficiente de IgA com história de reação anafilática em transfusão anterior. O guia não indica lavar o sangue de todo portador: quem nunca reagiu recebe o hemocomponente comum. O que muda é o registro — deficiência de IgA escrita no prontuário e, se houve reação, a reação descrita — e a comunicação com a agência transfusional, pelo capítulo Terapia transfusional e reações transfusionais. A imunoglobulina de reposição não é tratamento da deficiência de IgA: o protocolo federal exclui a deficiência isolada de IgA, e o produto quase não contém a IgA que falta.

Quando a hipogamaglobulinemia é secundária

IgG baixa não é sinônimo de imunodeficiência primária, e o protocolo federal e a comissão da associação exigem, antes de qualquer nome, que as causas secundárias sejam excluídas. A lista da comissão tem seis famílias, e vale tê-la inteira na cabeça. Fármacos: anticonvulsivantes (valproato, fenitoína, lamotrigina, carbamazepina), corticoide sistêmico em dose alta, micofenolato, ciclofosfamida, azatioprina, ciclosporina, sulfasalazina, cloroquina, rituximabe, belimumabe, imatinibe, dasatinibe, ibrutinibe, terapia com células CAR-T, e ainda captopril e clorpromazina. Infecções: o HIV à frente. Neoplasias: leucemia linfocítica crônica, mieloma múltiplo, linfomas de Hodgkin e não Hodgkin. Perda de proteína: síndrome nefrótica, enteropatia perdedora de proteínas, grande queimado. Circulação linfática alterada: linfangiectasia intestinal, quilotórax. E catabolismo aumentado, como no hiperesplenismo.

Duas pistas separam a perda da falta de produção. A primeira está no protocolo federal: IgG baixa com albumina baixa sugere que a proteína está saindo do corpo, pelo rim ou pelo intestino; na IDCV a albumina costuma estar normal. A segunda é a prova de síntese ativa: quem perde IgG pela urina produz anticorpo quando vacinado, e quem tem IDCV não produz.

A idade e o momento da primeira infecção pesam. A IDCV começa, em geral, na segunda ou terceira década; uma hipogamaglobulinemia nova num paciente de 65 anos, sem infecções na juventude, obriga a procurar primeiro leucemia linfocítica crônica, mieloma e linfoma — hemograma com contagem de linfócitos, eletroforese de proteínas com pesquisa de pico monoclonal — e o fármaco de uso recente. Essa ordem é leitura desta apostila a partir das causas listadas pela comissão, e não regra escrita em documento.

O HIV merece frase própria, porque o constrangimento de quem atende não pode decidir quem é testado. Uma mulher jovem, casada, com infecções de repetição, é exatamente quem deixa de ser testada por constrangimento de quem atende. O folheto da associação manda diferenciar o erro inato da imunodeficiência secundária pelo HIV, e o teste rápido na unidade resolve a pergunta no mesmo dia; o manejo de um resultado reagente é do capítulo Infecção pelo HIV/AIDS e infecções oportunistas.

O imunodeprimido pelo tratamento

O manual dos centros de referência para imunobiológicos especiais oferece a régua mais útil para dizer, na enfermaria, quanto um tratamento reduziu a defesa. Alto grau de imunodepressão: doença associada a imunodeficiência primária, quimioterapia para câncer, os dois primeiros meses depois de transplante de órgão sólido, pessoa vivendo com HIV com CD4 abaixo de 200, corticoide a partir de 20 mg/dia de prednisona ou equivalente por 14 dias ou mais e drogas modificadoras da resposta imune. Baixo grau: corticoide em dose menor por mais de 14 dias ou em dias alternados, metotrexato até 0,4 mg/kg por semana, azatioprina até 3 mg/kg/dia e 6-mercaptopurina até 1,5 mg/kg/dia. A linha do metotrexato tem um problema de unidade já apontado pelo capítulo de vacinação do adulto, que manda tratar o paciente em metotrexato como imunossuprimido para vacina viva.

A régua existe para decisões concretas. Muda a vacina: quem está em alto grau não recebe vacina viva, e essa regra, o calendário, os intervalos depois de suspender cada fármaco e a vacinação dos conviventes estão no capítulo Vacinação do adolescente, do adulto, do idoso e da gestante. Muda a leitura da infecção: o corticoide em dose alta apaga febre e dor, e uma pneumonia pode chegar com pouco mais que taquipneia. E muda o que se confere antes de começar o tratamento, porque três infecções dormentes acordam com a imunossupressão: a tuberculose latente, cujo rastreio e tratamento são do capítulo de tuberculose da apostila de Infectologia; a hepatite B, cuja sorologia com HBsAg e anti-HBc total antes de imunossupressor é do capítulo de hepatite B da apostila de Gastroenterologia; e a estrongiloidíase, que o capítulo de vasculites lembra entre as profilaxias.

O rituximabe merece atenção separada porque produz, de fato, uma hipogamaglobulinemia secundária. O capítulo Vasculites sistêmicas manda dosar IgG antes da primeira dose e de novo em quatro a seis meses e registra que a diretriz americana de 2021 discute imunoglobulina quando a IgG fica abaixo de 3 g/L com infecções graves de repetição. O mesmo raciocínio serve ao paciente que recebeu rituximabe por linfoma ou por artrite: IgG de base antes, IgG de controle depois, e infecção de repetição sob IgG baixa como motivo de discutir reposição com quem prescreveu o fármaco. A profilaxia de Pneumocystis tem indicação própria em cada doença de base e é decidida no capítulo dessa doença.

A quimioterapia citotóxica, por fim, reduz a defesa pela porta do fagócito, e a febre nesse paciente é emergência com protocolo próprio no capítulo Síndrome da veia cava superior e neutropenia febril. O que este capítulo acrescenta ao paciente em tratamento oncológico é a lembrança de que ele está entre as indicações da rede de imunobiológicos especiais e de que a vacina pneumocócica que essa rede aplica mudou em 2026.

Sem baço, com rim, fígado ou açúcar: as imunodeficiências que não parecem imunodeficiência

O adulto sem baço — retirado depois de trauma, na trombocitopenia imune, por doença hematológica, ou funcionalmente perdido na doença falciforme — tem risco permanente de sepse fulminante por pneumococo, meningococo e Haemophilus. A febre dele não espera: a avaliação segue o capítulo Febre sem foco no adulto, que o põe entre os pacientes sem margem, e o pacote da primeira hora, o capítulo Sepse e choque séptico: identificação precoce e pacotes iniciais. A vacinação depende de quando o baço saiu: antes da esplenectomia eletiva, pelo capítulo Distúrbios plaquetários e púrpuras (PTI, PTT); depois da esplenectomia de trauma, pelo capítulo Trauma abdominal fechado (FAST, laparotomia x conservador); na asplenia funcional, pelo capítulo Anemia falciforme e hemoglobinopatias.

Até maio de 2026, a vacina pneumocócica desses pacientes seguia o manual dos centros de referência de 2023 — conjugada 13-valente, polissacarídica 23-valente oito semanas depois e revacinação em cinco anos. A Nota Técnica nº 52/2026 do Programa Nacional de Imunizações substituiu esse esquema, na rede de imunobiológicos especiais, por dose única de VPC20 a partir dos 5 anos, inclusive no adulto, para a asplenia e para as demais indicações da rede. A própria nota manda começar a VPC20 só depois de esgotados os estoques de VPC13 e VPP23, de modo que, durante a transição, o esquema antigo ainda pode ser o que a sala de vacina tem; quem já recebeu a VPC20 não recebe mais a VPP23.

A doença renal crônica, a hemodiálise e a síndrome nefrótica também estão na lista da nota técnica, assim como a hepatopatia crônica, o diabetes, a pneumopatia crônica, a asma persistente moderada ou grave e a cardiopatia crônica. Nenhum desses pacientes se apresenta como imunodeprimido, e todos estão na lista porque a doença pneumocócica invasiva pesa mais sobre quem tem condição clínica especial, como a nota justifica. No renal em diálise, a instrução do calendário nacional acrescenta a checagem do anti-HBs depois do esquema de hepatite B e a revacinação se o título ficar abaixo de 10 mUI/mL; no hepatopata suscetível, o manual dos centros de referência indica a vacina de hepatite A.

O que une essas situações é uma pergunta de prontuário: esta pessoa está numa condição que a rede de imunobiológicos especiais atende? Se está, a indicação é escrita com a condição clínica, porque a nota técnica exige, no registro da dose, o motivo da indicação e a especialidade de quem prescreveu. Para quem vive com HIV, a vacinação tem regras próprias, que o manual detalha por contagem de CD4.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação de imunodeficiência começa no consultório da atenção primária — é o que o protocolo federal escreve, ao dizer que a avaliação deve iniciar nos laboratórios dos serviços de saúde primários e seguir para o centro de referência conforme os resultados. O interno não faz citometria nem sequenciamento genético. Faz algo que decide mais: transforma uma coleção de episódios em uma série documentada, pede a primeira leva de exames na ordem certa e antes da primeira infusão, procura as causas secundárias e manda ao especialista um caso que ele consiga ler.

As seções respondem, na ordem, ao que se faz na mesa da unidade básica, ao que se pede no mesmo dia, a como ler o que volta, ao que se procura antes de chamar a doença de primária, ao que o centro de referência faz e ao que se avalia nos órgãos que a doença já atingiu.

1. A história que transforma infecção em série

Monte uma linha do tempo, com datas, antes de pedir qualquer exame. Para cada infecção: o sítio, como foi confirmada — radiografia, cultura, exame de fezes, ou só impressão clínica —, o antibiótico usado, se precisou de via venosa, se houve internação, quanto tempo levou para ceder e quanto tempo depois voltou. O prontuário eletrônico e a caderneta do paciente costumam ter mais do que ele lembra; no caso de Rafaela, a série de nove anos estava inteira na tela, espalhada por atendimentos diferentes.

Pergunte o que o padrão precisa. Germes identificados em algum momento, porque a lista de infecções sentinela lê o germe. Diarreia, emagrecimento e parasitoses. Episódios de autoimunidade — plaquetopenia, anemia hemolítica, vitiligo, artrite, tireoidite —, porque são a outra metade. Reações incomuns a vacinas de agente vivo. Fármacos em uso e nos últimos anos, pela lista de causas secundárias: anticonvulsivante, corticoide, imunossupressor, rituximabe. Transfusões e reações a elas. E a família: irmãos, pais, tios e primos com infecções de repetição, bronquiectasia, morte jovem por infecção, doença autoimune, consanguinidade entre os pais.

Interpretar anticorpos com datas de vacinação e coleta, antígeno testado e eventual reposição de IgG. Anti-HBs baixo anos depois não prova falha inicial; títulos pneumocócicos basais baixos não equivalem automaticamente a resposta inadequada a um desafio. O especialista decide se a avaliação antes/depois da vacinação acrescenta informação, sem atrasar tratamento de deficiência profunda sintomática.

O exame físico procura o que a doença deixou. Peso e sua evolução. Baqueteamento digital e estertores persistentes fora da infecção aguda, que sugerem bronquiectasia. Linfonodos e baço aumentados, que sugerem linfoproliferação. Candidíase oral, verrugas extensas, abscessos e cicatrizes de drenagem. Vitiligo. E um sinal pela ausência: amígdalas e outros tecidos linfoides muito pequenos ou ausentes, que o protocolo federal descreve na agamaglobulinemia ligada ao X.

2. A primeira leva, no mesmo dia e antes de qualquer imunoglobulina

O protocolo federal manda começar por dois exames: o hemograma, que costuma ser normal nos defeitos de anticorpo, e a dosagem sérica de IgG, IgA e IgM, que costuma estar diminuída. A esses se somam, na primeira leva, a albumina sérica, que o protocolo usa para reconhecer a perda de proteína; o teste rápido para HIV; e o exame de urina, para proteinúria. Em quem tem diarreia, o parasitológico de fezes. A radiografia de tórax acompanha a infecção atual, pelo capítulo de pneumonia.

A dosagem de imunoglobulinas não basta, e o protocolo é explícito: todo diagnóstico de defeito de anticorpo deve ser confirmado por uma prova de síntese ativa, porque a concentração não diz se o anticorpo funciona. O quadro de testes essenciais oferece três caminhos, e basta um: as iso-hemaglutininas anti-A e anti-B; os anticorpos contra antígenos vacinais — antitetânico, antidiftérico, anti-rubéola, anti-hepatite B, anti-sarampo —; ou os anticorpos contra polissacarídeos do pneumococo antes e depois da vacina polissacarídica. Na unidade básica, os dois primeiros são os possíveis. As iso-hemaglutininas não servem para quem é do grupo sanguíneo AB, que não as tem; os anticorpos vacinais só servem para as vacinas documentadas na caderneta.

A ordem importa por uma razão física. A imunoglobulina de reposição traz os anticorpos de milhares de doadores vacinados e expostos, inclusive antitetânico, anti-rubéola e anti-sarampo. Depois da primeira infusão, um anticorpo vacinal protetor no sangue do paciente não prova que ele o produziu, e a pergunta central do diagnóstico fica sem resposta. Colha a prova de síntese ativa antes de qualquer imunoglobulina, inclusive antes de uma dose dada numa internação por outro motivo, e escreva na evolução que foi colhida.

Duas regras de leitura do protocolo evitam as conclusões apressadas. A primeira: compare cada imunoglobulina com a faixa de referência para a idade que o laboratório informa, e não com um número decorado. A segunda: IgG normal não exclui defeito de anticorpo — o diagnóstico, nesse caso, depende da prova funcional. Os critérios da sociedade europeia pedem, para a IDCV, redução em pelo menos duas dosagens: a primeira sai hoje, e a segunda, no retorno, antes da consulta com o especialista.

3. Como ler o que volta

IgG e IgA baixas, com ou sem IgM baixa, albumina normal, HIV negativo e anticorpo vacinal ausente apesar de vacina documentada é o desenho da IDCV — que só recebe esse nome depois de excluídas as causas secundárias e de avaliado o linfócito T, no centro de referência. O protocolo registra que a maioria desses pacientes tem IgG abaixo de 250 mg/dL. É o resultado de Rafaela: IgG de 186 mg/dL, IgA menor que 7 mg/dL, IgM de 21 mg/dL, albumina de 3,9 g/dL, antitetânico não protetor quatro anos depois de um reforço registrado e anti-rubéola não reagente com duas doses de tríplice viral na caderneta.

IgA abaixo de 7 mg/dL com IgG e IgM normais, a partir dos 4 anos, é deficiência seletiva de IgA depois de excluídas as causas secundárias. Sem infecções, o destino é o registro e a orientação. Com infecções de repetição, a comissão da associação indica dosar as subclasses de IgG, e o caso segue para o especialista, porque parte desses pacientes tem deficiência de subclasse associada e alguns evoluem para IDCV.

IgG baixa com albumina baixa aponta para perda. Procure proteinúria, que abre a trilha da síndrome nefrótica, e, se a urina não explicar, diarreia e edema, que abrem a da enteropatia perdedora de proteínas. Todas as imunoglobulinas muito baixas num homem jovem com infecções desde os primeiros anos de vida sugerem agamaglobulinemia — o protocolo descreve IgG abaixo de 200 mg/dL e IgM e IgA abaixo de 20 mg/dL —, diagnóstico raro de se fazer pela primeira vez no adulto.

Imunoglobulinas normais num paciente com o padrão de infecções não encerram a investigação. A comissão descreve a deficiência de anticorpo contra polissacarídeo, com IgG, IgA, IgM e subclasses normais e resposta ruim ao pneumococo, diagnosticada por painel de sorotipos pneumocócicos que não estão nas vacinas conjugadas — exame de especialista. O que a unidade básica faz com esse paciente é encaminhar com a série documentada, e não tranquilizar com o laudo normal.

O hemograma também fala. Linfopenia persistente pede HIV antes de tudo e, com HIV negativo, levanta a porta do linfócito T. Neutropenia persistente levanta a do fagócito. Plaquetopenia ou anemia hemolítica num paciente com infecções de repetição devem fazer pensar na metade autoimune da IDCV. A plaquetometria de 138 mil de Rafaela, com a história de 42 mil aos 29 anos, entra na carta de encaminhamento.

4. Antes de chamar de primária: a busca da causa secundária

O protocolo federal exclui do seu escopo a imunodeficiência secundária e exige que o prejuízo da produção de anticorpos não seja consequência de outra doença; a comissão da associação põe a exclusão das causas secundárias entre os critérios da IDCV. Na prática da unidade básica, a busca tem cinco perguntas, e cada uma tem um exame ou uma conferência.

Há HIV? Teste rápido, no mesmo dia. Há fármaco? Revise a lista de uso atual e dos últimos anos contra as famílias de fármacos da comissão, com atenção a anticonvulsivantes, imunossupressores e anticorpos monoclonais. Há perda? Albumina, exame de urina e, se houver proteinúria, a trilha do capítulo Síndrome nefrótica e síndrome nefrítica, da apostila de Nefrologia; diarreia com edema e albumina baixa, a da enteropatia. Há neoplasia linfoide? Hemograma com contagem absoluta de linfócitos, eletroforese de proteínas séricas com pesquisa de componente monoclonal e exame de linfonodos e baço; a investigação que se segue a um achado é dos capítulos Leucemias agudas e crônicas: reconhecimento e triagem e Linfomas Hodgkin e não Hodgkin, da apostila de Hematologia e Hemoterapia. Há condição que aumenta o consumo, como o hiperesplenismo? O exame do abdome e o hemograma dão a primeira pista.

Quanto mais tarde na vida começaram as infecções, e quanto mais curta a série, mais peso ganha a causa secundária. A IDCV tem apresentação mais comum na segunda ou terceira década, segundo o protocolo, mas pode começar depois; a neoplasia linfoide e a perda renal são muito mais frequentes que ela no paciente mais velho. Essa ponderação é leitura desta apostila e serve para ordenar a busca, não para dispensá-la em ninguém.

5. O que o centro de referência faz e o que você manda junto

O protocolo federal manda encaminhar toda suspeita de imunodeficiência primária a um centro de referência, para avaliação com imunologista e geneticista. O que se faz lá completa o diagnóstico: fenotipagem de linfócitos B e T por citometria de fluxo, com os linfócitos B de memória com troca de classe que os critérios europeus usam; subclasses de IgG quando indicadas; resposta a polissacarídeos do pneumococo com painel de sorotipos; avaliação do complemento e da função do fagócito quando o germe aponta para essas portas; e, em casos selecionados, a pesquisa genética de uma das causas monogênicas que a comissão lista entre os quadros parecidos com a IDCV.

A carta de encaminhamento é a parte que depende de você, e ela é quase a mesma lista que o protocolo pede para autorizar a reposição. A série de infecções com datas, sítios, germes, antibióticos venosos e internações — o protocolo exige laudos ou exames que comprovem infecções típicas. As imunoglobulinas com data e valor de referência. A prova de síntese ativa, com a vacina documentada ao lado. O hemograma, a albumina, a função renal e a hepática. O teste para HIV. Os fármacos em uso. Os episódios autoimunes. A história familiar. E a pergunta que você quer ver respondida, escrita com todas as letras.

A regulação decide o prazo. Uma pessoa com pneumonias de repetição, emagrecimento e IgG abaixo de 200 mg/dL não é consulta eletiva de rotina, e a carta deve dizer isso, com os números. Enquanto a consulta não acontece, a atenção primária continua responsável: trata as infecções cedo, organiza a vacinação do que é seguro e dos conviventes, e não aplica vacina viva.

6. Os órgãos que a imunodeficiência já atingiu

O pulmão é o primeiro. A tomografia de tórax de alta resolução, no diagnóstico, procura bronquiectasia e a doença intersticial linfocítica e granulomatosa que a comissão descreve na IDCV; a espirometria dá a base funcional que o protocolo federal usa, junto com o número de infecções, para ajustar dose e intervalo da reposição. A bronquiectasia não tem capítulo próprio no nível, e este capítulo assume o que a imunodeficiência muda nela: a fisioterapia respiratória e as medidas de higiene brônquica que o protocolo inclui no tratamento de suporte, a cultura de escarro nas exacerbações e o antibiótico precoce, em dose plena, evitando o de amplo espectro sem necessidade, como o protocolo recomenda.

O intestino é o segundo. Parasitológico de fezes repetido quando a diarreia volta, com o tratamento da giardíase pelo capítulo Esquistossomose e geo-helmintíases (parasitoses intestinais no adulto), da apostila de Infectologia; endoscopia quando a diarreia persiste sem parasita, porque a hiperplasia nodular linfoide e a enteropatia da própria IDCV entram no diferencial, e essa indicação é do especialista.

O sangue e os órgãos linfoides são o terceiro: hemograma seriado para as citopenias autoimunes, exame de linfonodos e baço em cada consulta, ultrassonografia de abdome quando o baço cresce. O fígado entra pela função hepática trimestral que o protocolo já exige de quem faz reposição. Nenhum desses exames atrasa o encaminhamento: o que a unidade básica não conseguir pedir vai como pergunta na carta.

07

Investigar infecções recorrentes e prevenir dano

Objetivo no internato: compreender a apresentação, justificar as hipóteses e propor cuidado e reavaliação sob supervisão. Confirme a série de infecções, sítios, agentes, gravidade e resposta, procurando também causas locais, medicamentos, perda proteica, HIV e doença hematológica. Autoimunidade e história familiar podem ser pistas de erro inato no adulto. Cada decisão central deste capítulo tem uma régua brasileira, e elas têm idades muito diferentes. A suspeita segue os dez sinais de alerta da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia de 2024; o protocolo federal descreve a clínica, mas não traz lista de sinais de alerta. O diagnóstico de defeito de anticorpo e a reposição de imunoglobulina no SUS seguem o protocolo clínico da Portaria SAS/MS nº 495, de 2007, que nunca teve segunda edição e continua citado como vigente pela portaria de 2024 que incluiu o frasco de 5 g no Componente Especializado. Para dar nome à imunodeficiência comum variável, esta apostila adota os critérios da sociedade europeia reproduzidos pela comissão da associação em 2023, mais novos e mais restritos que a definição do protocolo. O grau de imunodepressão segue o Quadro 2 do manual dos centros de referência para imunobiológicos especiais de 2023; as vacinas por tipo de defeito, a Tabela 9 do mesmo manual e as contraindicações da instrução do calendário nacional de 2026; a vacina pneumocócica da rede de imunobiológicos especiais, a Nota Técnica nº 52, de maio de 2026; e o hemocomponente do deficiente de IgA, o guia federal de hemocomponentes de 2015.

  1. 1Infecções frequentes para a idade, prolongadas, graves, por germe incomum ou que não respondem ao tratamento habitual — ou autoimunidade, linfoproliferação, diarreia crônica ou câncer precoce junto delas? Monte a série com datas, sítios, germes, antibióticos venosos e internações e percorra os dez sinais de alerta de 2024.
  2. 2Há causa local que explique as infecções — rinite mal controlada, desvio de septo, pneumonia sempre no mesmo lobo, tabagismo, asma, doença pulmonar obstrutiva crônica? Trate a causa local; se não houver, siga.
  3. 3No mesmo dia e antes de qualquer imunoglobulina: hemograma, IgG, IgA e IgM séricas, albumina, teste rápido para HIV, exame de urina e uma prova de síntese ativa — anticorpo contra vacina documentada na caderneta ou iso-hemaglutininas, se o paciente não for do grupo AB. Parasitológico de fezes se houver diarreia.
  4. 4HIV reagente: capítulo Infecção pelo HIV/AIDS e infecções oportunistas. Albumina baixa com proteinúria ou diarreia: perda de proteína. Linfocitose, pico monoclonal, linfonodo ou baço aumentados: neoplasia linfoide. Fármaco da lista de causas secundárias: hipogamaglobulinemia secundária, discutida com quem prescreveu.
  5. 5IgA abaixo de 7 mg/dL com IgG e IgM normais, a partir de quatro anos, sugere deficiência seletiva de IgA: confirmar persistência e excluir causas secundárias. Acompanhar sintomas; infecções recorrentes justificam investigação funcional e referência. IgA isolada não indica reposição de IgG. Antecedente transfusional e avaliação hemoterápica orientam os componentes especiais.
  6. 6IgG e IgA baixas, com ou sem IgM baixa, albumina normal e falha de produção de anticorpo: suspeita de imunodeficiência comum variável. Segunda dosagem de imunoglobulinas no retorno e encaminhamento ao centro de referência com a série de infecções, os exames com data e a caderneta.
  7. 7Imunoglobulinas normais com o padrão de infecções: encaminhe da mesma forma, para a pesquisa de subclasses e de resposta a polissacarídeos. Laudo normal não encerra a investigação.
  8. 8Enquanto o diagnóstico não fecha: cada infecção tratada cedo, em dose plena, sem amplo espectro desnecessário; nenhuma vacina viva; vacinas não vivas em dia; conviventes com tríplice viral, varicela e influenza atualizadas e poliomielite, se indicada, só inativada.
  9. 9Defeito de anticorpo confirmado, com infecções comprovadas e sem critério de exclusão do protocolo: laudo para imunoglobulina humana no Componente Especializado, com CID da lista do protocolo. Dose inicial de 300 a 400 mg/kg a cada 3 semanas ou de 400 a 500 mg/kg a cada 4 semanas; máxima de 600 mg/kg a cada 3 semanas ou de 800 mg/kg a cada 4 semanas.
  10. 10Antes da infusão, avaliar estado clínico, infecção, hidratação, função renal e riscos do produto. Infecção ativa não impõe adiamento automático: decidir com a equipe conforme estabilidade. Monitorar a infusão e colher IgG de vale nos momentos planejados, buscando controle de infecções e proteção pulmonar, com alvo individual.
  11. 11Imunodeprimido pelo tratamento: classifique pelo Quadro 2 do manual — alto grau com corticoide a partir de 20 mg/dia de prednisona por 14 dias ou mais, drogas modificadoras da resposta imune, quimioterapia — e remeta vacina, tuberculose latente, hepatite B e profilaxias aos capítulos donos. Sob rituximabe, IgG antes e de novo em quatro a seis meses.
  12. 12Imunodeficiência primária, imunodepressão terapêutica, asplenia, doença renal ou hepática crônica, diabetes e as demais condições da nota técnica: indicação da rede de imunobiológicos especiais, escrita com a condição clínica. Pneumocócica: VPC20 em dose única a partir dos 5 anos, com as regras de transição para quem já recebeu VPC13 ou VPP23.

A porta da defesa, o germe que ela deixa passar e o primeiro passo

PortaInfecções que apontam para elaO que costuma vir juntoPrimeiro passo na unidade básicaExemplo adquirido no adulto
AnticorpoSinusite, otite e pneumonia de repetição por pneumococo e Haemophilus; Giardia; Mycoplasma e Ureaplasma; criptosporidiose na IDCVBronquiectasia, diarreia crônica, citopenias autoimunes, granulomas, linfoproliferaçãoIgG, IgA e IgM, albumina, prova de síntese ativa, HIVRituximabe, síndrome nefrótica, leucemia linfocítica crônica, mieloma
Linfócito T (e deficiência combinada)Citomegalovírus, Pneumocystis, candidíase persistente, toxoplasmose grave, micobactérias, verrugas extensasDiarreia, perda de peso; na criança, déficit de crescimento e reação a vacina vivaHemograma com contagem de linfócitos, HIVHIV, corticoide em dose alta, transplante
FagócitoAbscessos profundos de repetição por estafilococo, Gram-negativos, Pseudomonas; AspergillusInfecção de pele e de órgãos internos que não forma o pus esperadoHemograma com contagem de neutrófilos seriadaNeutropenia da quimioterapia
ComplementoDoença meningocócica, às vezes de repetição; bactérias encapsuladasAutoimunidade em alguns defeitos dos componentes iniciaisEncaminhar com a história das infecçõesTerapia com inibidor de complemento
BaçoSepse fulminante por pneumococo, meningococo e HaemophilusFebre como emergênciaConferir o calendário da rede de imunobiológicos especiaisEsplenectomia por trauma ou doença hematológica; asplenia funcional da doença falciforme

Ler a primeira leva de exames

O que voltaLeitura mais provávelPróximo passoO que não fazer
IgG e IgA baixas, com ou sem IgM baixa; albumina normal; anticorpo vacinal ausente com vacina documentada; HIV negativoDefeito de produção de anticorpo, com IDCV à frenteSegunda dosagem, busca de causa secundária e encaminhamento ao centro de referênciaAplicar vacina viva ou dar imunoglobulina antes de colhida a prova de síntese ativa
IgA abaixo de 7 mg/dL com IgG e IgM normais, a partir dos 4 anosDeficiência seletiva de IgARegistro no prontuário; subclasses de IgG e especialista se houver infecções de repetiçãoIndicar imunoglobulina; lavar todo hemocomponente sem anafilaxia prévia
IgG baixa com albumina baixaPerda de proteínaExame de urina e proteinúria; se negativo, investigar perda intestinalChamar de imunodeficiência primária
Todas as imunoglobulinas muito baixas em homem com infecções desde os primeiros anos de vidaAgamaglobulinemiaCentro de referênciaAtribuir o quadro a infecções comuns da infância
Imunoglobulinas normais com padrão de infecçõesDeficiência de anticorpo contra polissacarídeo ou de subclasseEncaminhamento com a série documentadaTranquilizar com o laudo normal
Linfopenia persistenteHIV ou defeito do linfócito TTeste para HIV; se negativo, especialistaAplicar vacina viva
IgG baixa com linfocitose, pico monoclonal ou linfonodo e baço aumentadosNeoplasia linfoide causando hipogamaglobulinemiaCapítulos de leucemias e de linfomasEncaminhar como imunodeficiência primária

Reposição de imunoglobulina no SUS: o que o protocolo de 2007 exige e o que o interno faz

ItemRegra do protocoloNa prática
DiagnósticoImunoglobulinas séricas, prova de síntese ativa e comprovação de infecções típicas por laudo ou exame; subclasses quando indicadoColher a prova de síntese ativa antes de qualquer imunoglobulina e guardar os laudos das infecções
Quem entraAgamaglobulinemia ligada ao X, IDCV e outros defeitos de anticorpo com diagnóstico pelos critérios do protocoloO diagnóstico e o laudo são do especialista; a unidade básica prepara a documentação
Quem não entraInfecção ativa ou neoplasia; insuficiência renal ou hepática; anafilaxia prévia à imunoglobulina; achado laboratorial sem infecções de repetição ameaçadoras da vida; deficiência isolada de IgA, de IgM ou de IgD; imunodeficiência predominantemente celularSão critérios do protocolo de acesso citado; não substituem avaliação clínica individual. Infecção não adia automaticamente toda reposição, e insuficiência renal ou neoplasia exigem plano específico.
Dose inicial300 a 400 mg/kg a cada 3 semanas ou 400 a 500 mg/kg a cada 4 semanas, por via venosaMulher de 58 kg: 25 g a cada 4 semanas, cinco frascos de 5 g
Dose máxima600 mg/kg a cada 3 semanas ou 800 mg/kg a cada 4 semanasEquivale a 200 mg/kg por semana nas duas formas
No dia de cada infusãoAvaliar intercorrências e riscos antes da infusão; colher IgG de vale conforme o plano de monitorização e seguir velocidade e diluição do produto.IgG de vale colhida antes de a bolsa correr
A cada três mesesHemograma, exame de urina, ureia, creatinina, TGO, TGP, tempo de protrombina e albumina; diário de sintomasPedir junto com a IgG de vale do mês
Objetivo e ajusteAcompanhar infecções, antibióticos, internações, função pulmonar e IgG de vale. O corte de 500 mg/dL do protocolo não é alvo suficiente para todo paciente; bronquiectasias e infecções persistentes podem exigir ajuste especializado.Benefício esperado em 4 a 6 semanas; tratamento contínuo
AcessoComponente Especializado da Assistência Farmacêutica; procedimento por APAC; CID da lista (D80.0, D80.1, D80.3, D80.5 a D80.8, D83.0, D83.2, D83.8)Frascos de 0,5, 1, 2,5 e 5 g na Rename 2024; a CID da deficiência isolada de IgA (D80.2) não abre o procedimento

Vacinas pelo tipo de defeito e na imunodepressão secundária

CondiçãoVacina vivaPneumocócicaOutras indicadas na rede de imunobiológicos especiais
Deficiência combinada ou da imunidade celularNão usar (manual, item 4.1 e Tabela 9)VPC20, dose única a partir de 5 anos (NT 52/2026)Hib, poliomielite inativada, meningocócica ACWY, influenza, hepatite A, HPV; avaliar a resposta sempre que possível
Deficiência humoral grave (IDCV, agamaglobulinemia)Febre amarela contraindicada pela instrução de 2026; sob reposição, a Tabela 5 do manual inviabiliza as virais injetáveis (ver notas e divergências)VPC20, dose única (NT 52/2026)Hib, poliomielite inativada, meningocócica ACWY, influenza, hepatite A, HPV
Deficiência de IgA ou de subclasse de IgGLiberadas pelo manual, com a varicela entre as indicadas na rede; febre amarela com as duas réguas descritas nas divergênciasVPC20, dose única (NT 52/2026)Hib, poliomielite inativada, meningocócica ACWY, influenza, hepatite A, HPV
Deficiência de complementoLiberadas pelo manual, com a varicela entre as indicadas na redeVPC20, dose única (NT 52/2026)Meningocócica ACWY, Hib, influenza, hepatite A, HPV
Defeito de fagócito (doença granulomatosa crônica)BCG contraindicada; demais pelo manualVPC20, dose única (NT 52/2026)Hib, meningocócica ACWY, influenza, hepatite A, HPV
Asplenia anatômica ou funcionalPelo calendário, sem restrição própria da aspleniaVPC20, dose única (NT 52/2026)Meningocócica ACWY, Hib, influenza, varicela e hepatite A se suscetível
Alto grau de imunodepressão terapêutica (corticoide a partir de 20 mg/dia por 14 dias ou mais, drogas modificadoras da resposta imune, quimioterapia)Não usar enquanto durar e pelos intervalos do capítulo de vacinação do adultoVPC20, dose única (NT 52/2026)Influenza; HPV dos 9 aos 45 anos em 3 doses; inativadas antes de começar o tratamento sempre que possível

As exclusões do protocolo de acesso de 2007 não devem virar contraindicações clínicas universais. Infecção ativa, doença renal ou neoplasia exigem avaliação individual da indicação, do produto, da velocidade e do momento da infusão. Uma pessoa já em reposição não perde automaticamente sua necessidade de IgG ao adoecer; tratar a intercorrência e discutir o plano com o centro responsável.

Separar segurança da vacina pela imunodeficiência e interferência de anticorpos passivos. Imunoglobulina pode reduzir resposta a tríplice viral e varicela por intervalo dependente da dose; não se suspende reposição necessária apenas para vacinar. Febre amarela é exceção à regra de interferência por imunoglobulina descrita pelo CDC, mas a doença imune de base pode contraindicar a vacina. Definir o plano com imunologia/CRIE, sem generalizar oito meses para toda vacina atenuada.

Esquema pneumocócico superado. O manual dos centros de referência de 2023 indica ao adulto com asplenia ou imunodeficiência a conjugada 13-valente, a polissacarídica 23-valente oito semanas depois e uma revacinação com a 23-valente em cinco anos. A Nota Técnica nº 52/2026, assinada em 20 de maio de 2026 e citada como régua pela instrução do calendário nacional de julho de 2026, substitui esse esquema, nas indicações da rede de imunobiológicos especiais, por dose única de VPC20 a partir dos 5 anos. A conta, num adulto sem vacinação prévia acompanhado por cinco anos: três doses pelo manual, uma pela nota. A nota manda iniciar a VPC20 só depois de esgotados os estoques de VPC13 e VPP23 e considera vacinado quem já recebeu duas doses de VPP23; quem recebeu VPC20 não recebe mais a VPP23.

Lista de CID do protocolo e do procedimento. O protocolo de 2007 e a portaria de 2024 que incluiu o frasco de 5 g abrem a imunoglobulina para três das cinco subcategorias da imunodeficiência comum variável — D83.0, D83.2 e D83.8 — e deixam fora a D83.1 e a não especificada, D83.9. Um laudo emitido com D83.9 não corresponde à lista do procedimento. A classificação da subcategoria cabe ao especialista; o que o interno precisa saber, ao ajudar a montar o processo, é que a CID não especificada não serve.

08

A conduta, hora a hora

O cuidado começa pela gravidade da infecção atual e pela história acumulada. Algumas imunodeficiências são investigadas ambulatorialmente; infecção grave ou hipogamaglobulinemia profunda com repercussão exige avaliação rápida, sem esperar semanas por um roteiro completo. Procurar causas secundárias, colher amostras úteis antes da reposição quando isso não atrasa tratamento necessário e organizar referência e prevenção de novas infecções.

Os marcos seguem Rafaela da tarde da terceira pneumonia, na unidade básica, até o terceiro mês de reposição de imunoglobulina. A pneumonia de hoje é tratada pelo capítulo que é dono dela; o que se descreve aqui é o que acontece ao lado dela.

  1. Segunda-feira, 3 de agosto, 14h40: a pneumonia de hoje e a pergunta que faltou

    Você trata a pneumonia do jeito que o capítulo de pneumonia manda, e ela vai para casa, sem sinal de gravidade. Mas, antes de imprimir a receita, você vira a tela para Rafaela e lê com ela a série: nove anos de sinusites, três pneumonias em quatro anos, uma com internação e antibiótico na veia, duas giardíases, a diarreia, os quatro quilos a menos, a plaquetopenia dos 29 anos. Pergunta pela família, e ela não sabe responder; promete trazer a mãe no retorno. Pergunta por remédios de uso contínuo, e não há nenhum. Então explica o que a série sugere: que a defesa dela pode estar falhando numa parte específica, e que isso se investiga com exames de sangue simples, que saem hoje, antes de qualquer tratamento que atrapalhe a leitura.

    Prescrição
    • Tratar a pneumonia adquirida na comunidade pelo capítulo Pneumonia adquirida na comunidade (CURB-65 / gravidade), com o retorno que ele define
    • Registrar a série de infecções com datas: sinusites desde os 25 anos; pneumonias aos 31 (internação, antibiótico venoso), aos 33 e aos 34; giardíase duas vezes em dois anos; diarreia intermitente; perda de 4 kg em dois anos; plaquetopenia de 42 mil aos 29 anos
    • Registrar a hipótese: infecções de repetição com sinais de alerta para erro inato da imunidade (ASBAI, 2024); investigação iniciada nesta data
  2. 14h55: a primeira leva sai hoje, antes de qualquer imunoglobulina

    A caderneta de Rafaela está na bolsa, e é ela que decide quais anticorpos medir. Há três doses de vacina de hepatite B aos 20 anos, duas doses de tríplice viral na infância e um reforço de dupla adulto há quatro anos. O tipo sanguíneo, anotado no pré-natal, é O positivo — as iso-hemaglutininas anti-A e anti-B servem de prova. Você pede o teste rápido para HIV com o aconselhamento de rotina, sem pedir desculpas pela pergunta, e ele sai não reagente em vinte minutos. Pede também a eletroforese de proteínas, porque a lista de causas secundárias inclui neoplasias linfoides, e a função renal e hepática, que o protocolo de reposição vai exigir de qualquer forma.

    Prescrição
    • Hemograma completo com contagem diferencial
    • IgG, IgA e IgM séricas
    • Albumina sérica, ureia, creatinina, TGO, TGP e tempo de protrombina
    • Teste rápido para HIV (não reagente no dia); sorologias para hepatites B e C
    • Exame de urina (EQU) e parasitológico de fezes
    • Rever caderneta e colher anticorpos basais pertinentes antes da imunoglobulina, se possível. A avaliação de resposta específica, incluindo eventual desafio vacinal e amostras antes/depois, deve ser planejada com imunologia; títulos isolados anos após vacinação não equivalem automaticamente a falha de produção.
    • Eletroforese de proteínas séricas
  3. 15h10: o que a sala de vacina deixa de fazer hoje

    Na suspeita de deficiência humoral importante, discutir vacinas vivas com imunologia e a rede de imunobiológicos especiais antes de administrar. Distinguir contraindicação pela doença de interferência dos anticorpos da reposição: os intervalos após imunoglobulina afetam especialmente tríplice viral e varicela; não se aplicam indiscriminadamente a toda vacina viva, e febre amarela exige avaliação própria da imunodeficiência e do risco de exposição. Atualizar a vacinação dos contatos conforme calendário e orientações específicas, sem expor a paciente a um produto contraindicado para seu grau de deficiência.

    Prescrição
    • Não aplicar vacina de febre amarela nem outra vacina de agente vivo em Rafaela até a conclusão da investigação
    • Registrar na caderneta e no prontuário: investigação de imunodeficiência em curso, vacina viva suspensa
    • Conferir e atualizar o calendário do filho e das demais pessoas da casa, com atenção a tríplice viral, varicela e influenza; poliomielite, se indicada, só com vacina inativada
  4. Quinta-feira, 13 de agosto, 8h30: os resultados e a causa secundária que não aparece

    IgG de 186 mg/dL, IgA muito baixa e IgM reduzida, com infecções recorrentes, giardíase e citopenia autoimune, sustentam forte suspeita de deficiência de anticorpos. Albumina normal e urina sem proteína tornam perda importante menos provável; HIV, medicamentos e neoplasias continuam sendo avaliados pelo contexto. Títulos baixos contra vacinas antigas e ausência de iso-hemaglutininas são pistas, mas anti-HBs abaixo de 10 muitos anos após vacinação não prova ausência de resposta inicial: anticorpos podem declinar apesar da memória. A imunologista interpreta o conjunto e decide se testes de resposta vacinal acrescentam informação ou apenas atrasariam reposição necessária. Tratar giardíase e articular referência rápida, sem aguardar nova pneumonia.

    Prescrição
    • Tratar a giardíase pelo capítulo Esquistossomose e geo-helmintíases (parasitoses intestinais no adulto)
    • Colher a segunda dosagem de IgG, IgA e IgM
    • Registrar: hipogamaglobulinemia com falha de produção de anticorpos, sem causa secundária identificada — suspeita de imunodeficiência comum variável; história familiar de infecções de repetição em tio materno
  5. 9h: a carta que o especialista consegue ler e o que a unidade faz enquanto espera

    A prioridade é comunicada diretamente à referência: imunoglobulinas profundamente baixas, infecções recorrentes, diarreia e citopenia prévia. A carta reúne os dados essenciais, sem aguardar todos os testes para encaminhar. A unidade acompanha a recuperação, trata prontamente novas infecções e avalia gravidade a cada contato. Em apresentação tão expressiva, confirmar amostras e caracterizar o defeito deve ocorrer com rapidez; não se usa prova vacinal ou exigência documental como condição para adiar reposição clinicamente necessária.

    Prescrição
    • Encaminhar ao centro de referência em imunologia, com prioridade justificada na regulação
    • Anexar à carta: série de infecções com datas, sítios, antibióticos e internação; exames com data e valores de referência; prova de síntese ativa com as vacinas da caderneta; hemograma, albumina, função renal e hepática; HIV não reagente; eletroforese; plaquetopenia de 2021 com o laudo do hematologista; história familiar; pergunta explícita — há imunodeficiência comum variável e há indicação de reposição?
    • Orientação por escrito à paciente: procurar a unidade no mesmo dia se houver febre, tosse com catarro, dor de ouvido ou de face; não usar antibiótico guardado em casa
    • Contatar o serviço de referência em curto intervalo pela IgG profundamente reduzida e infecções recorrentes; acompanhar acesso e resposta clínica. Não deixar retorno único em 30 dias nem aceitar semanas de espera sem plano de proteção e reavaliação.
  6. Segunda-feira, 21 de setembro: o centro de referência confirma e pede a reposição

    A segunda dosagem confirma IgG de 172 mg/dL, IgA muito baixa e IgM reduzida. A citometria mostra linfócitos B presentes, com memória de classe trocada muito reduzida, sem defeito T relevante identificado. O conjunto clínico, exclusão de causas secundárias e caracterização imunológica permite ao centro confirmar imunodeficiência comum variável; não é o anti-HBs tardio isolado que fecha o diagnóstico. Bronquiectasias reforçam a necessidade de tratamento e seguimento pulmonar. A cronologia administrativa apresentada é ilustrativa: em hipogamaglobulinemia profunda com dano de órgão, buscar início oportuno da reposição, sem esperar deliberadamente até outubro.

    Prescrição
    • Laudo de solicitação de imunoglobulina humana ao Componente Especializado, com CID D83.0, imunoglobulinas das duas dosagens, prova de síntese ativa, laudos das infecções, hemograma e função renal e hepática; termo de consentimento assinado
    • Fisioterapia respiratória com técnicas de higiene brônquica; cultura de escarro nas exacerbações
    • Pela rede de imunobiológicos especiais, com a condição clínica escrita: VPC20 em dose única (NT 52/2026); meningocócica ACWY, Haemophilus influenzae tipo b e hepatite A se suscetível (Tabela 9 do manual dos centros de referência); HPV em 3 doses; influenza na campanha
    • Nenhuma vacina de agente vivo; registro na caderneta
  7. Segunda-feira, 19 de outubro, 8h: a primeira infusão, no hospital-dia

    Você está no rodízio do hospital-dia e recebe Rafaela com a imunoglobulina já dispensada pela farmácia do Componente Especializado. Antes de a bolsa correr, avaliar sintomas, hidratação, função renal e riscos de reação ou trombose. Infecção em curso pede decisão clínica com a equipe, não cancelamento automático. A IgG pré-infusão é colhida nos momentos planejados para orientar a reposição. O peso é 58 kg, e a dose do laudo, 25 g a cada quatro semanas, corresponde a 431 mg/kg, dentro da faixa inicial de 400 a 500 mg/kg a cada quatro semanas. A velocidade e a diluição seguem a bula do produto dispensado, e não uma regra decorada, porque as concentrações e as velocidades mudam de um fabricante para outro. Os sinais vitais são medidos antes, durante e ao fim, e a equipe sabe o que fazer se houver reação durante a infusão.

    Prescrição
    • Imunoglobulina humana 25 g por via venosa (cinco frascos de 5 g; 431 mg/kg), a cada 4 semanas
    • Avaliar infecção ativa, hidratação, função renal, risco trombótico e reações anteriores; a equipe decide se a infusão deve ser mantida, ajustada ou temporariamente adiada. Infecção ativa não representa proibição absoluta de reposição. Colher IgG pré-infusão quando programada, sem transformar exame pendente em atraso automático.
    • Velocidade de infusão, diluição e cuidados pela bula do produto dispensado; sinais vitais antes, durante e ao término
    • Próximas infusões agendadas: 16 de novembro, 14 de dezembro e 11 de janeiro, com IgG de vale antes de cada uma
    • Entregar diário de sintomas de infecção e explicar como preenchê-lo
  8. Segunda-feira, 11 de janeiro: três meses de reposição

    Houve melhora de peso, diarreia e frequência de infecções. Avaliar também função pulmonar, exacerbações, internações, antibióticos e eventos adversos da reposição. IgG de vale de 604 mg/dL deve ser interpretada com esse conjunto; ultrapassar 500, alvo de protocolo antigo, não garante proteção suficiente, especialmente com bronquiectasias. A especialista individualiza dose e intervalo e pode buscar valores maiores quando necessários para prevenir infecção e progressão pulmonar. O seguimento inclui manifestações autoimunes, linfoproliferativas e gastrointestinais.

    Prescrição
    • Manter imunoglobulina humana 25 g por via venosa a cada 4 semanas, com IgG de vale antes de cada infusão
    • Exames trimestrais do protocolo em abril: hemograma, EQU, ureia, creatinina, TGO, TGP, tempo de protrombina e albumina
    • Manter fisioterapia respiratória; antibiótico precoce em dose plena nas infecções, com cultura de escarro quando houver
    • Em cada consulta: peso, linfonodos, baço e hemograma revistos, pela metade autoimune e linfoproliferativa da doença
    • Registrar no prontuário: imunodeficiência comum variável (D83.0) em reposição de imunoglobulina; vacina de agente vivo contraindicada
09

Como saber se está funcionando

Reavaliar quem faz reposição de imunoglobulina é olhar para duas coisas ao mesmo tempo: se a defesa que se repôs está funcionando, medida pelas infecções e pela IgG de vale, e se a outra metade da doença — a autoimune, a linfoproliferativa, a pulmonar — está andando por baixo. O protocolo federal escreve que o benefício pode levar de 4 a 6 semanas para aparecer e que o tratamento é contínuo; os primeiros três meses são o período em que se decide se a dose serve.

Os mesmos parâmetros, com outra intensidade, valem para os outros pacientes do capítulo. O portador de deficiência de IgA sem infecções é reavaliado pela pergunta sobre infecções e giardíase em cada consulta, porque parte desses pacientes evolui para IDCV. O paciente sob rituximabe tem a IgG repetida em quatro a seis meses, como manda o capítulo de vasculites. E o imunodeprimido pelo tratamento é reclassificado pelo Quadro 2 do manual sempre que a dose do corticoide ou o fármaco mudam, porque é a classificação que decide vacina e profilaxia.

Infecções: número, gravidade, antibióticos, internações e dias perdidos de trabalhoEm cada infusão, pelo diário de sintomas, e em cada consulta

Esperado: Queda progressiva a partir da 4ª a 6ª semana; infecções que ainda ocorrem cedem com antibiótico oral e sem internação

Se não melhora: Conferir se os intervalos foram cumpridos e se a IgG de vale está adequada; procurar colonização de bronquiectasia e causa local; discutir com a especialista o ajuste de dose ou de intervalo dentro do teto do protocolo (600 mg/kg a cada 3 semanas ou 800 mg/kg a cada 4 semanas) e, em casos específicos, antibiótico profilático associado, que o protocolo não recomenda a todos

IgG sérica de valeAntes de cada infusão

Esperado: IgG de vale interpretada junto de infecções e dano pulmonar, com alvo individualizado; valor acima de 500 mg/dL isolado não comprova reposição adequada.

Se não melhora: Recalcular a dose pelo peso atual; procurar perda de proteína — albumina, proteinúria, diarreia —, que consome a IgG infundida; discutir aumento de dose ou encurtamento do intervalo com a especialista. IgG adequada com infecções persistentes pede ajuste pela clínica, e não só pelo número

Tolerância à infusãoDurante e ao fim de cada infusão; relato do paciente sobre os dias seguintes

Esperado: Sinais vitais estáveis, sem sintomas durante a infusão e sem queixas relevantes depois

Se não melhora: Sintoma durante a infusão: interromper ou reduzir a velocidade conforme a bula e o protocolo do serviço e reavaliar antes de retomar. Reação anafilática: tratar como anafilaxia, registrar e comunicar a especialista, porque anafilaxia prévia à imunoglobulina é critério de exclusão do protocolo

Hemograma, exame de urina, ureia, creatinina, TGO, TGP, tempo de protrombina e albuminaA cada três meses, pelo protocolo federal

Esperado: Estáveis em relação à primeira coleta

Se não melhora: Queda de função renal ou hepática: comunicar a especialista antes da próxima infusão, porque insuficiência renal ou hepática está entre os critérios de exclusão; investigar a causa pelo capítulo do órgão. Citopenia nova: ver o parâmetro da desregulação

Pulmão: exacerbações, espirometria e imagemExacerbações em cada consulta; espirometria e tomografia na periodicidade que a especialista definir

Esperado: Menos exacerbações; função pulmonar estável; bronquiectasias sem progressão

Se não melhora: Cultura de escarro em cada exacerbação; intensificar a fisioterapia respiratória; infiltrado que não se comporta como infecção levanta a doença pulmonar intersticial linfocítica e granulomatosa, que é diagnóstico do especialista

Desregulação imune: hemograma, peso, diarreia, linfonodos e baçoEm cada consulta

Esperado: Plaquetas e hemoglobina estáveis, peso mantido, sem diarreia, sem linfonodo ou baço aumentados

Se não melhora: Citopenia nova, linfonodo que cresce, baço palpável ou emagrecimento: especialista sem esperar a próxima consulta programada; linfonodo suspeito segue a investigação do capítulo Linfomas Hodgkin e não Hodgkin; nenhum imunossupressor iniciado sem a especialista

Vacinação do paciente e dos conviventesNa campanha de influenza e a cada mudança da composição da casa

Esperado: Vacinas não vivas da rede de imunobiológicos especiais em dia; nenhuma vacina de agente vivo; conviventes com tríplice viral, varicela e influenza atualizadas

Se não melhora: Completar o que falta pela rede de imunobiológicos especiais, com a condição clínica escrita; vacina de agente vivo aplicada por engano: registrar na caderneta e no prontuário e comunicar a especialista e a coordenação de imunizações

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Onde o erro machuca

Tratar cada infecção como episódio isolado, por anos, sem somar a série nem aplicar os sinais de alerta

O dano: O diagnóstico chega depois que as infecções já dilataram os brônquios, a giardíase virou diarreia crônica e a citopenia autoimune foi tratada sem que alguém soubesse a causa. A bronquiectasia não regride com a reposição que chega tarde.

Como pegar a tempo: Na segunda pneumonia, na terceira sinusite do ano, no antibiótico venoso, na giardíase que volta ou na citopenia autoimune de um adulto jovem, abrir a linha do tempo no prontuário e percorrer os dez sinais de alerta de 2024. A pergunta custa cinco minutos e um pedido de exame.

Colher a prova de síntese ativa depois de a imunoglobulina ter sido infundida

O dano: Os anticorpos do doador — antitetânico, anti-rubéola, anti-sarampo — aparecem no sangue do paciente e fazem parecer normal uma produção que falhou. O diagnóstico que o protocolo exige para a reposição fica sem prova.

Como pegar a tempo: Pedir a prova de síntese ativa na primeira leva, junto das imunoglobulinas, e registrar a coleta. Em paciente internado que vai receber imunoglobulina por qualquer motivo, colher antes da primeira dose a IgG, a IgA, a IgM e os anticorpos vacinais, se houver suspeita de imunodeficiência.

Chamar de imunodeficiência primária uma hipogamaglobulinemia sem excluir as causas secundárias

O dano: O paciente com síndrome nefrótica, leucemia linfocítica crônica, mieloma, HIV ou hipogamaglobulinemia por fármaco segue sem o diagnóstico que muda o tratamento, e pode receber uma reposição que não corrige a causa.

Como pegar a tempo: Antes de encaminhar como primária, responder às cinco perguntas: HIV, fármaco, perda de proteína, neoplasia linfoide e consumo aumentado — com teste rápido, revisão da lista de fármacos, albumina e urina, hemograma com linfócitos e eletroforese de proteínas, exame de linfonodos e baço.

Aplicar vacina de agente vivo na pessoa com suspeita ou diagnóstico de imunodeficiência — ou esquecer de vacinar quem mora com ela

O dano: A vacina viva na deficiência celular ou combinada pode causar doença pelo próprio vírus ou bactéria vacinal; na deficiência humoral grave em reposição, é aplicação sem efeito, porque o intervalo exigido depois da imunoglobulina nunca se cumpre. O convivente não vacinado leva para dentro de casa o sarampo, a varicela e a influenza que o paciente tem dificuldade de combater.

Como pegar a tempo: Suspender vacina viva a partir da suspeita e registrar na caderneta; decidir pela rede de imunobiológicos especiais, com a Tabela 9 do manual e a instrução do calendário; atualizar tríplice viral, varicela e influenza dos conviventes e usar só vacina inativada de poliomielite na casa.

Pedir imunoglobulina para deficiência isolada de IgA — ou deixar o portador sem registro

O dano: A reposição não trata a deficiência de IgA, que o protocolo exclui, e o produto quase não contém IgA; o paciente recebe um hemoderivado caro sem benefício. No sentido contrário, o portador sem registro no prontuário perde a pergunta sobre transfusão anterior, a reavaliação quando as infecções aparecem e a leitura correta da sorologia de doença celíaca.

Como pegar a tempo: Registrar a deficiência de IgA, perguntar por infecções, giardíase e reações transfusionais, pedir subclasses de IgG e especialista se houver infecções de repetição e reservar o componente lavado, pelo guia de hemocomponentes, a quem já teve anafilaxia em transfusão.

Vacinar o adulto asplênico ou imunodeficiente com o esquema pneumocócico antigo depois de maio de 2026 como se ele fosse o vigente

O dano: O paciente recebe três doses em cinco anos onde a regra atual prevê uma, ou fica esperando uma VPC13 que a rede já não usa; e, se já recebeu a VPC20, pode receber uma VPP23 que a nota técnica manda não aplicar.

Como pegar a tempo: Na indicação da rede de imunobiológicos especiais, prescrever pela Nota Técnica nº 52/2026: VPC20 em dose única a partir dos 5 anos, com as regras de transição para quem já recebeu VPC13 ou VPP23, e aceitar o esquema antigo só enquanto a sala de vacina ainda tiver os estoques que a nota manda esgotar.

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O que dizer ao paciente e à família

A conversa sobre imunodeficiência carrega dois medos que o paciente raramente diz em voz alta. O primeiro é o do HIV, que a expressão imunidade baixa evoca no mesmo instante. O segundo é o da doença para sempre: a pessoa que ouve que vai precisar de uma infusão todo mês pelo resto da vida escuta, antes de tudo, que nunca mais vai ser saudável. As duas falas precisam ser enfrentadas cedo, com palavras simples e com o que já se sabe separado do que ainda não se sabe.

Três regras valem para todas as falas. Diga o nome do exame e o motivo antes de pedir. Explique a doença pela porta que falhou, e não por um rótulo — sua defesa fabrica pouco anticorpo é compreensível, imunodeficiência comum variável não é. E trate a família e a equipe como parte do cuidado: a casa vacinada protege o paciente, e a sala de vacina que entende o motivo não aplica a vacina errada.

Rafaela, na primeira tarde, ouve que vai colher exames da defesa e pergunta, baixinho, se é para ver se ela tem AIDS

"Um dos exames é o do HIV, sim, e eu peço a todo mundo que está investigando infecção que se repete, porque o HIV é uma das causas que precisam ser afastadas primeiro. Ele sai daqui a vinte minutos. Mas a sua história aponta mais para outra coisa: uma parte da defesa que fabrica anticorpos, as proteínas que o corpo usa contra bactérias como as da sinusite e da pneumonia. Os outros exames de hoje medem exatamente isso — quanto anticorpo você tem e se o seu corpo consegue fabricar anticorpo novo quando é vacinado."

Não diga: Pedir o teste para HIV sem dizer, ou dizer que é só de rotina e mudar de assunto; também prometer que não é nada antes dos resultados.

Rafaela, com os resultados na mão, pergunta se imunidade baixa tem cura

"O que os exames mostram é que o seu corpo fabrica muito pouco anticorpo e não consegue fabricar mais quando recebe vacina. Isso explica as sinusites, as pneumonias e a Giardia que volta. Não é algo que você pegou nem que fez de errado. É uma doença que muitas vezes começa na idade adulta, e o nome dela a especialista vai confirmar. Não tem cura, mas tem tratamento que funciona: repor os anticorpos que faltam, por uma infusão na veia, em geral a cada quatro semanas. Com o tratamento, as infecções costumam ficar bem menos frequentes, e é isso que a gente vai acompanhar junto, mês a mês."

Não diga: Usar só o nome técnico da doença; dizer que é imunidade baixa e prescrever vitamina ou suplemento; prometer o prazo da consulta especializada.

No hospital-dia, antes da primeira infusão, Rafaela pergunta se o remédio é sangue de outras pessoas e se pode transmitir doença

"Ele é feito do plasma de muitos doadores de sangue, de onde se separam só os anticorpos, e passa por processos de purificação que tornaram esses produtos muito mais seguros do que eram. É por isso que ele protege: traz anticorpos de gente que já teve contato com muitos germes e já foi vacinada. Hoje, antes de começar, eu confiro se você está sem infecção e colho um exame que mostra quanto anticorpo tem no seu sangue antes da dose. A infusão corre devagar, com a enfermagem medindo a pressão, e se você sentir qualquer coisa diferente — dor de cabeça, calafrio, falta de ar — avise na hora, que a gente para ou diminui a velocidade."

Não diga: Dizer que o risco de infecção pelo produto é zero; esconder que é derivado de plasma; minimizar sintomas durante a infusão.

Dona Hercília Barroso, mãe de Rafaela, pergunta se a doença veio dela e se os outros filhos precisam de exame

"Na maior parte das pessoas com essa doença, ela não é herdada de um jeito simples, de pai ou mãe para filho, e ninguém tem culpa. Mas às vezes aparece mais de um caso na mesma família, e a história do seu irmão com sinusite a vida toda merece ser contada à especialista. A especialista vai dizer se vale a pena dosar os anticorpos dos irmãos. Enquanto isso, se algum deles tiver infecções que se repetem, pneumonia ou diarreia que não passa, ele deve contar ao médico dele que a irmã tem essa doença."

Não diga: Afirmar que a doença é genética e vai passar aos netos, ou que não tem nada a ver com a família; pedir exame de toda a família sem critério.

A técnica de enfermagem Joaquina Gerson questiona a suspensão da vacina de febre amarela, porque a orientação é não perder oportunidade

"Você está certa em procurar quem está sem a vacina, e é por isso que vim explicar. Ela está investigando uma doença em que o corpo não fabrica anticorpo, e a instrução do calendário põe a imunodeficiência primária entre as contraindicações da febre amarela. Se o diagnóstico se confirmar e ela começar a repor anticorpo, o manual dos centros de referência pede meses de intervalo entre a imunoglobulina e as vacinas virais atenuadas injetáveis. Então a decisão fica para a rede de imunobiológicos especiais, depois do diagnóstico. Onde a oportunidade não pode se perder é no filho dela: se você puder conferir hoje o cartão do menino, com tríplice viral, varicela e influenza, isso protege a mãe."

Não diga: Responder com hierarquia, sem explicar; ou autorizar a vacina para não criar atrito.

Marilda Rossini, 31 anos, leu no laudo IgA indetectável e pergunta se tem imunodeficiência e se vai precisar do mesmo tratamento que viu na internet

"O exame mostra que você tem deficiência de IgA, um tipo de anticorpo que protege sobretudo as mucosas. É a alteração desse tipo mais comum que existe, e a maioria das pessoas que a têm passa a vida sem problema nenhum por causa dela. O tratamento com infusão de anticorpos não é para o seu caso: ele serve para quem não fabrica os outros anticorpos, e o produto quase não tem IgA. O que muda para você é outra coisa: isso fica escrito no prontuário, você me conta se tiver infecções que se repetem ou diarreia que não passa, e, se um dia precisar de transfusão, avisa que tem deficiência de IgA e se já teve alguma reação."

Não diga: Dizer que ela tem imunidade baixa e deve evitar contato com pessoas; indicar reposição; ou dizer que o achado não significa nada e não registrá-lo.

Leônidas Cavalcante, 52 anos, em prednisona de 40 mg por dia há três semanas, pede a vacina de febre amarela para uma viagem daqui a dez dias

"Hoje eu não posso aplicar essa vacina em você, e o motivo é a dose de corticoide. A partir de 20 mg por dia por duas semanas ou mais, o manual dos centros de referência considera a imunidade reduzida em grau alto, e as vacinas de vírus vivo ficam contraindicadas enquanto durar o tratamento e por um tempo depois, que o capítulo de vacinação do adulto detalha. A vacina dada agora pode não proteger e pode fazer mal. Vamos conversar com quem prescreveu o corticoide sobre o plano de redução, ver se a viagem pode esperar, e eu anoto no seu cartão a data a partir da qual a vacina volta a ser possível."

Não diga: Aplicar a vacina porque a viagem está marcada; suspender o corticoide por conta própria para liberar a vacina; dizer que ele nunca mais poderá ser vacinado.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Qual lista de sinais de alerta orienta a suspeita de erro inato da imunidade no adulto

Lista própria do adulto, com números de infecções por ano — folheto da ASBAI de 2023, que protocolos hospitalares ainda reproduzem

Dez sinais para o adulto: duas ou mais otites novas em um ano; duas ou mais sinusites novas em um ano, na ausência de alergia; uma pneumonia por ano; diarreia crônica com perda de peso; infecções virais de repetição; antibiótico venoso de repetição; abscessos profundos de repetição; candidíase persistente ou infecção fúngica; infecção por micobactéria tuberculosa ou atípica; história familiar de imunodeficiência. Quase todos os sinais são infecções, e os primeiros trazem um número que o clínico consegue contar no prontuário.

Associação Brasileira de Alergia e Imunologia. Erros inatos da imunidade ou imunodeficiências primárias [folheto]. São Paulo: ASBAI; 2023.

Lista única para todas as idades, que soma desregulação imune às infecções — ASBAI, Departamento Científico de Erros Inatos da Imunidade, 2024

Dez sinais sem divisão por idade: história familiar ou consanguinidade; infecções com frequência aumentada para a idade, curso prolongado ou inesperado, ou germe incomum ou oportunista; diarreia crônica de início precoce; alergia grave; evento adverso incomum a vacina atenuada; características sindrômicas; déficit de crescimento; febre recorrente sem infecção ou câncer; autoimunidade precoce ou combinada, em especial citopenias e endocrinopatias; câncer precoce, incomum ou recorrente. O documento justifica a mudança: olhar só para infecções perde até 25% dos casos, e muitos erros inatos se manifestam no adulto e no idoso.

Associação Brasileira de Alergia e Imunologia, Departamento Científico de Erros Inatos da Imunidade. Sinais de alerta para erros inatos da imunidade [folder digital]. São Paulo: ASBAI; 2024.

Como decidir

O primeiro degrau da régua parece favorecer a lista antiga, escrita só para o adulto, mas as duas não são documentos independentes em vigor: a lista de 2024 é da mesma associação, substituiu a anterior e diz por quê. Pelo segundo degrau, vence a de 2024, e esta apostila a adota como régua da suspeita. Os números da lista antiga continuam úteis como calibração do sinal de infecção com frequência aumentada para a idade — duas sinusites ou uma pneumonia por ano num adulto sem causa local já contam —, e esse uso é desta apostila. Diante do adulto à sua frente, a diferença prática é a desregulação: quem tem citopenia autoimune, linfoproliferação ou câncer precoce com poucas infecções contáveis ficaria fora da lista antiga e entra na de 2024. Rafaela preenche as duas; o paciente com plaquetopenia autoimune e uma única pneumonia só entra pela nova.

Quem recebe o nome de imunodeficiência comum variável

Redução acentuada de pelo menos duas das três classes principais de imunoglobulina — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas, Portaria SAS/MS nº 495/2007

O protocolo federal descreve a imunodeficiência comum variável como um grupo heterogêneo com linfócitos B detectáveis e redução acentuada de pelo menos duas das três classes — IgM, IgG e IgA —, a maioria com IgG abaixo de 250 mg/dL, diagnosticada depois de excluídas outras causas de defeito de anticorpo. A confirmação de qualquer defeito de anticorpo exige prova de síntese ativa.

Brasil. Ministério da Saúde. Portaria SAS/MS nº 495, de 11 de setembro de 2007. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas: Imunodeficiência primária com predominância de defeitos de anticorpos.

IgG e IgA reduzidas, com falha vacinal ou queda de linfócitos B de memória, excluídas causas secundárias e defeito T — critérios da sociedade europeia reproduzidos pela Comissão de Imunodeficiências da ASBAI-RJ, 2023

A partir dos 4 anos, com ao menos uma manifestação — infecções recorrentes, autoimunidade, doença granulomatosa, linfoproliferação policlonal inexplicada, história familiar —, IgG e IgA reduzidas, com ou sem IgM baixa, em pelo menos duas dosagens abaixo de dois desvios-padrão para a idade; resposta vacinal pobre ou ausência de iso-hemaglutininas, ou linfócitos B de memória com troca de classe abaixo de 70% do valor da idade; causas secundárias excluídas; sem defeito importante de linfócito T.

Goudouris ES, Oliva-Alonso ML, coords. Imunodeficiências primárias (ou erros inatos da imunidade) para o não especialista. São Paulo: Modo!; 2023. Quadro 2 do capítulo de defeitos de anticorpos, a partir de Cunningham-Rundles C, Warnatz K (2020).

Como decidir

O escopo empata: os dois textos definem a mesma doença para o mesmo paciente. Pelo segundo degrau vence o mais novo, e esta apostila adota os critérios europeus, na forma reproduzida pela comissão da associação em 2023, para dar o nome. A diferença aparece no paciente com IgA e IgM baixas e IgG normal: pelo protocolo, ao pé da letra, seriam duas classes reduzidas; pelos critérios europeus, sem IgG baixa não há imunodeficiência comum variável, e o caminho é investigar deficiência de subclasse ou de anticorpo específico. A escolha não fecha a porta do SUS para ninguém que precise: o próprio protocolo manda decidir a reposição pela evidência de infecções típicas e pela incapacidade de produzir anticorpo específico, e não pela concentração isolada de IgG. Diante do paciente, portanto, use os critérios europeus para o diagnóstico e o protocolo de 2007 para o laudo e a dispensação.

Vacina de vírus vivo na deficiência humoral: febre amarela no portador de deficiência de IgA ou de imunodeficiência comum variável

Febre amarela contraindicada em qualquer imunodeficiência primária — Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação 2026, 3ª edição, julho de 2026

Entre as contraindicações da vacina febre amarela, a instrução lista a imunodeficiência primária (erros inatos da imunidade), sem distinguir o tipo de defeito. A mesma instrução contraindica BCG e a vacina dengue na imunodeficiência congênita e manda avaliar risco e benefício da tríplice viral na imunodeficiência grave.

Brasil. Ministério da Saúde. SVSA. DPNI. Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação 2026. 3ª ed. Brasília; 2026. Itens das vacinas febre amarela, BCG, tríplice viral e dengue.

Vacinas vivas liberadas nas deficiências isoladas de imunoglobulinas e, na humoral grave, todas as da rotina exceto BCG — Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais, 6ª ed., 2023

O item 4.1 do manual afasta vacina viva das deficiências da imunidade celular e afirma que vacinas vivas e não vivas podem ser usadas nas deficiências isoladas de imunoglobulinas. A Tabela 9 indica, na deficiência de IgA e de subclasses, as vacinas da rotina do programa, e, na deficiência humoral grave, as da rotina exceto BCG. O item 2.2 exige que vacina viva em imunodeprimido seja decidida pelo médico da rede com o médico assistente. A Tabela 5 do mesmo manual pede 8 meses entre imunoglobulina intravenosa de reposição e vacina viral atenuada injetável.

Brasil. Ministério da Saúde. SVSA. Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais. 6ª ed. Brasília: Ministério da Saúde; 2023. Item 2.2, item 4.1, Tabela 5 e Tabela 9.

Como decidir

Pelo primeiro degrau, vence o manual para o paciente com o defeito já classificado: a Tabela 9 foi escrita para a pessoa com erro inato, tipo por tipo, e é aplicada pelo médico da rede de imunobiológicos especiais; a instrução lista contraindicações para a população atendida na sala de vacina da rotina. Esta apostila adota, então, três situações. Deficiência isolada de IgA ou de subclasse de IgG, sem reposição: vacinas vivas pelo manual, inclusive febre amarela quando indicada, prescritas pela rede com a condição clínica escrita. Deficiência humoral grave em reposição de imunoglobulina: nenhuma vacina viral viva injetável, porque a Tabela 5 do próprio manual exige 8 meses sem imunoglobulina e a reposição é contínua — na prática, manual e instrução chegam ao mesmo lugar. Suspeita de erro inato ainda sem classificação, como Rafaela na primeira tarde: nenhuma vacina viva, e a sala de vacina aplica a contraindicação da instrução até que a rede decida.

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O raciocínio, em voz alta

Quarta-feira, 9 de setembro, 10h, ambulatório de clínica médica de um hospital de ensino. Vitorino Rabello, 64 anos, motorista de ônibus aposentado, hipertenso, chega encaminhado pela unidade básica com uma pergunta escrita à mão na guia: imunodeficiência? Teve duas pneumonias em oito meses, a segunda com quatro dias de internação, e o médico da enfermaria pediu imunoglobulinas: IgG de 390 mg/dL. Na juventude, nunca teve infecção de repetição. Há três meses as pernas incham no fim do dia e a urina faz espuma no vaso. Usa losartana e hidroclorotiazida. No exame, pressão de 148 por 92, edema mole até os joelhos, ausculta pulmonar limpa, sem linfonodos palpáveis, baço não palpável. Os exames que ele traz mostram IgA de 180 mg/dL e IgM de 70 mg/dL, dentro da faixa de referência do laboratório, albumina de 2,1 g/dL, colesterol total de 320 mg/dL, hemoglobina de 12,9 g/dL, leucócitos de 7.400 com 1.900 linfócitos e plaquetas de 260 mil.

  1. o que a série me diz

    Duas pneumonias em oito meses num homem de 64 anos são um sinal de alerta — infecção com frequência aumentada para a idade, pela lista de 2024 —, e a pergunta da guia é legítima. Mas a série começou tarde, é curta e não tem nada na juventude. Isso não exclui erro inato, que pode começar no adulto, mas faz a causa secundária ser a primeira hipótese a derrubar, pela ordem que esta apostila propõe para o paciente mais velho.

  2. o que a IgG baixa sozinha não diz

    A IgG está baixa, mas a IgA e a IgM estão normais. Esse não é o desenho da imunodeficiência comum variável: os critérios europeus que esta apostila adota exigem IgG e IgA reduzidas. E o protocolo federal me dá a pista que resolve a leitura: IgG baixa com albumina baixa sugere perda de proteína, e a albumina dele é de 2,1 g/dL.

  3. por onde a proteína está saindo

    Edema, urina espumosa, albumina muito baixa e colesterol alto formam o desenho da síndrome nefrótica. O exame de urina que peço agora e a quantificação da proteinúria confirmam ou afastam; os critérios, a investigação da causa e o tratamento são do capítulo Síndrome nefrótica e síndrome nefrítica, da apostila de Nefrologia. A síndrome nefrótica está na lista de causas de hipogamaglobulinemia secundária da comissão da associação, ao lado da enteropatia perdedora de proteínas: a IgG sai pela urina junto com a albumina.

  4. as outras causas secundárias que ainda preciso afastar

    A perda explica a IgG, mas não me dispensa das outras quatro perguntas. HIV: teste rápido hoje. Fármaco: losartana e hidroclorotiazida não estão na lista da comissão — o captopril está, e ele não usa. Neoplasia linfoide: linfócitos normais, sem linfonodo e sem baço, mas peço a eletroforese de proteínas com pesquisa de componente monoclonal, porque mieloma e doenças de plasmócito estão na lista de causas de hipogamaglobulinemia e, num homem de 64 anos com síndrome nefrótica, também entram na investigação do próprio rim. Consumo aumentado: nada no exame sugere hiperesplenismo.

  5. o que eu não faço

    A perda urinária é a hipótese prioritária e deve ser confirmada e tratada, sem fechar prematuramente todos os diagnósticos pela albumina. Não iniciar reposição de rotina com base em uma IgG baixa isolada. Entretanto, imunodeficiência secundária também pode exigir avaliação especializada e, em situações selecionadas de infecções importantes persistentes, imunoglobulina. Um protocolo administrativo de defeitos primários não demonstra ausência de indicação clínica em toda causa secundária.

  6. o que faço pela defesa enquanto o rim é investigado

    Síndrome nefrótica é indicação da rede de imunobiológicos especiais pela Nota Técnica nº 52/2026, e escrevo o pedido com a condição clínica: VPC20 em dose única. Influenza na campanha. Se o capítulo de nefrologia indicar corticoide em dose alta ou outro imunossupressor, ele muda de grau no Quadro 2 do manual dos centros de referência, e três coisas passam a valer antes da primeira dose: as vacinas não vivas com a antecedência que o capítulo de vacinação do adulto define, a sorologia da hepatite B pelo capítulo de hepatite B e o rastreio de tuberculose latente pelo capítulo de tuberculose.

  7. quando a pergunta volta

    Escrevo na evolução a hipótese de hipogamaglobulinemia secundária à perda urinária, a repetir depois do controle da síndrome nefrótica. Se a proteinúria remitir e a IgG continuar baixa, ou se as pneumonias continuarem com a albumina normalizada, a pergunta da guia volta a valer, e aí sim entram a prova de síntese ativa e o encaminhamento ao centro de referência.

O conjunto sugere hipogamaglobulinemia secundária à perda urinária na síndrome nefrótica. Confirmar proteinúria, investigar a doença renal e rever medicamentos, HIV e doença hematológica conforme contexto. IgA e IgM normais tornam menos típico o padrão de CVID pelos critérios adotados, mas não encerram toda avaliação imunológica. Vacinação e tratamento das infecções acompanham a investigação. Não indicar reposição automaticamente nem declarar que ela nunca terá utilidade em doença secundária; persistência da hipogamaglobulinemia ou infecções graves exige reavaliação conjunta.

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Faça você

Terça-feira, 6 de outubro, 15h, unidade básica de saúde. Marilda Rossini, 31 anos, professora, volta com os exames pedidos por diarreia intermitente e anemia ferropriva. A antitransglutaminase IgA veio negativa, e a médica anterior, desconfiada, pediu as imunoglobulinas: IgA menor que 7 mg/dL, IgG de 1.050 mg/dL e IgM de 120 mg/dL, as duas na faixa de referência. Marilda teve duas sinusites em cinco anos, nenhuma pneumonia, nunca recebeu transfusão e não usa medicamento contínuo. O teste rápido para HIV, feito no pré-natal de dois anos atrás e repetido hoje, é não reagente. Ela tem colecistectomia eletiva marcada para dezembro e uma viagem de trabalho em janeiro para uma área onde a vacina de febre amarela é recomendada, e a caderneta não tem essa vacina.

  1. o que já sei

    IgA muito baixa com IgG e IgM normais sugere deficiência seletiva de IgA. Confirmar persistência e excluir causas secundárias e outros defeitos conforme contexto. Antitransglutaminase IgA negativa tem sensibilidade inadequada nesse cenário; investigar doença celíaca com testes baseados em IgG e avaliação gastroenterológica quando indicada pela diarreia e ferropenia.

  2. o que as infecções me dizem

    Duas sinusites em cinco anos não sugerem, por si, infecções excessivas. Reposição de IgG não trata a deficiência isolada de IgA e não é indicada de rotina. Diarreia e ferropenia, porém, precisam continuar investigadas; evolução clínica, novas infecções ou outros achados podem justificar imunologia sem esperar uma cota de pneumonias.

  3. complete: a cirurgia de dezembro

    Explique o que o preparo cirúrgico altera, e o que mantém, quanto a hemocomponente e ao que precisa estar escrito, e com base em qual documento.

  4. complete: a vacina de janeiro

    Diga se Marilda pode receber a vacina de febre amarela, quem decide e onde a indicação é feita, aplicando a posição que esta apostila adota entre a instrução do calendário de 2026 e o manual dos centros de referência.

  5. complete: o que fica para as próximas consultas

    Diga o que se registra no prontuário, que perguntas se repetem em cada consulta e o que faria você pedir subclasses de IgG e encaminhar.

Ver como fecharíamos

Na cirurgia, não muda o hemocomponente: o guia federal de hemocomponentes indica componente lavado ao deficiente de IgA que já teve reação anafilática em transfusão, e Marilda nunca foi transfundida; se precisar de sangue, recebe o componente comum. O que muda é o registro — deficiência seletiva de IgA escrita no prontuário e na avaliação pré-operatória, com a informação de que nunca houve transfusão —, para que qualquer reação futura seja lida corretamente pela agência transfusional, pelo capítulo Terapia transfusional e reações transfusionais. Na vacina, a instrução do calendário de 2026 lista a imunodeficiência primária entre as contraindicações da febre amarela, e o manual dos centros de referência libera as vacinas da rotina na deficiência de IgA; esta apostila adota o manual para o defeito já classificado, pelo primeiro degrau da régua, com a indicação feita pela rede de imunobiológicos especiais e a condição clínica escrita, e não pela sala de vacina da rotina por conta própria. A vacina precisa ser pedida com antecedência suficiente para a viagem. Nas consultas seguintes, ficam registradas a deficiência de IgA e a ausência de transfusões; repetem-se as perguntas sobre sinusites, pneumonias, giardíase e diarreia; e infecções de repetição — ou uma diarreia com Giardia que volta — levam a pedir subclasses de IgG e a encaminhar ao especialista, porque parte dos portadores tem deficiência de subclasse associada e alguns evoluem para imunodeficiência comum variável.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

IgA abaixo de 7 mg/dL com IgG e IgM normais sugere deficiência seletiva de IgA; confirmar persistência e excluir causas secundárias quando pertinente. Não indicar reposição de IgG ou hemocomponentes especiais automaticamente em todos; transfusão deve ser planejada com hemoterapia conforme história e risco. A sorologia celíaca baseada em IgA pode ser falsamente negativa: usar estratégia com IgG e avaliar endoscopia pela clínica. Infecções recorrentes justificam avaliar imunidade humoral, incluindo resposta específica; subclasses isoladas não encerram o diagnóstico.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Explique a avaliação inicial de pneumonias recorrentes e por que IgG baixa isolada não distingue falha de produção de perda de proteína.

Em 30 dias

Compare hipogamaglobulinemia profunda, síndrome nefrótica e deficiência isolada de IgA. Depois interprete anticorpo vacinal após imunoglobulina e organize uma decisão segura sobre vacina viva com a referência.

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Agora atenda

Uma mulher de 36 anos chega à unidade básica com a quarta sinusite do ano e conta, sem que ninguém pergunte, que já teve duas pneumonias e uma giardíase que voltou. Atenda: monte a série de infecções com datas, aplique os sinais de alerta, afaste causa local, peça a primeira leva de exames antes de qualquer imunoglobulina — com a prova de síntese ativa escolhida pela caderneta —, explique o teste para HIV sem constrangimento, decida o que a sala de vacina faz e deixa de fazer com ela e com quem mora com ela, e saia com a carta de encaminhamento que o centro de referência consegue ler.

Imunodeficiências primárias e secundárias – A terceira pneumonia — Internato | OsceLabs