Clínica Médica › Interpretação de Exames à Beira do Leito
Provas hepáticas
São cinco exames com um nome só, e o nome está errado: dois medem lesão de célula, dois medem obstrução do fluxo, e nenhum dos dois que medem função de verdade se chama transaminase. Este capítulo ensina a classificar o padrão antes de pensar em doença — e a fechar no que decide hoje, que se lê no tempo de coagulação e no nível de consciência.
Brasil. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Resolução da Diretoria Colegiada — RDC nº 978, de 6 de junho de 2025. Dispõe sobre o funcionamento dos Serviços que executam as atividades relacionadas aos Exames de Análises Clínicas (EAC). Publicada no Diário Oficial da União em 10 de junho de 2025.
Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 8.041, de 25 de setembro de 2025. Altera a Portaria de Consolidação GM/MS nº 4, de 28 de setembro de 2017, para estabelecer a Política Nacional de Doação e Transplantes e definir o Regulamento Técnico do Sistema Nacional de Transplantes. Diário Oficial da União nº 184, de 26 de setembro de 2025, seção 1, página 146; republicada em 21 de janeiro de 2026.
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Responda antes de ler
Homem de 41 anos, ictérico há nove dias, sem doença hepática prévia, chega confuso e com asterixe. Exames: alanina aminotransferase 92 U/L com limite de 40, fosfatase alcalina 190 U/L com limite de 120, bilirrubina total 14,8 mg/dL com direta de 11,2, albumina 3,1 g/dL, relação normatizada internacional 2,4, glicemia capilar 62 mg/dL. Qual afirmação descreve corretamente a situação?
O paciente que você vai ver
Quinta-feira, 15h20, pronto-socorro clínico de um hospital geral de cento e vinte leitos. A tela do computador da sala 3 está aberta no resultado de dona Nizete Ramalhoso, 58 anos, zeladora de um prédio residencial, que chegou às onze da manhã porque a filha reparou que ela estava amarela. A pele amarelou há cinco dias, a urina escureceu há uma semana, e ela não tem dor: nenhuma cólica, nenhuma febre, nenhum vômito. Está lúcida, orientada, conversando, com pressão 124 por 78, frequência 88, temperatura 36,4 °C.
O laudo tem cinco linhas e um cabeçalho, e o cabeçalho é a metade que decide o significado das cinco. Aspartato aminotransferase 402 U/L, referência 10 a 34. Alanina aminotransferase 480 U/L, referência 10 a 40. Fosfatase alcalina 250 U/L, referência 40 a 120. Gama-glutamil transferase 310 U/L, referência 8 a 50. Bilirrubina total 7,4 mg/dL, referência 0,2 a 1,2, com fração direta de 5,9. Tudo marcado. Cinco asteriscos numa tela só.
O impulso, diante disso, é procurar a doença. É o impulso errado, e é errado por uma razão que a própria folha demonstra: esses cinco exames não respondem à mesma pergunta. Dois deles medem se a célula do fígado está sendo destruída. Dois medem se a bile está saindo. Um serve às duas coisas e a uma terceira. E os dois exames que medem função hepática de verdade — o que o fígado consegue fabricar — não estão nesta folha, porque ninguém pediu: são a albumina e o tempo de coagulação.
O nome que a rotina deu ao conjunto atrapalha desde a origem. Chamar isso de prova hepática sugere um teste único com um resultado único, quando são cinco medidas independentes, produzidas em órgãos diferentes, com significados que se contradizem se lidas juntas sem ordem. É a mesma armadilha de chamar de função hepática um painel em que nenhuma das linhas mede função.
Este capítulo faz uma coisa só, e faz antes de qualquer diagnóstico: classifica o padrão. Hepatocelular, colestático ou misto, com a conta que faz essa separação e com a discussão, ainda aberta, sobre qual limite entra nessa conta. Depois lê a magnitude, fraciona a bilirrubina, e termina onde a decisão de hoje realmente mora — que não é a transaminase. Dona Nizete volta no fim, e a resposta dela vai depender de qual das três réguas em uso você aplicar aos mesmos cinco números.
Quem adoece disso
As provas hepáticas são pedidas em quase toda triagem de dor abdominal, de icterícia, de febre sem foco, de náusea persistente e de admissão hospitalar, e chegam de volta como um bloco de números que a maioria dos plantões lê de uma vez só: olha se está alto, olha o quanto está alto, decide. A perda dessa leitura de bloco é específica e conhecida: ela não distingue lesão de célula de obstrução de fluxo, que são as duas doenças opostas que o mesmo painel descreve, e que exigem exames seguintes opostos.
De onde vem o número impresso ao lado de cada enzima? A pergunta tem, no Brasil, resposta normativa — e a resposta é que ninguém fixou o número. Quem governa o laudo desde 10 de junho de 2025 é a RDC nº 978 da Anvisa, que substituiu a RDC nº 786, de 5 de maio de 2023 (revogada pelo artigo 193), abriu 90 dias de adequação no artigo 191 e passou a valer já na publicação, pelo artigo 194. Entre os itens obrigatórios do laudo, o inciso X do artigo 167 exige valores de referência, limitações técnicas da metodologia e dados para interpretação: manda o serviço tê-los e imprimi-los, sem dizer quais são. Procuradas palavra por palavra no texto integral, as palavras aminotransferase, transaminase e hepática não aparecem uma única vez na resolução inteira — nem elas, nem número de exame nenhum.
Para o hemograma essa liberdade produz um asterisco discutível. Para as provas hepáticas ela produz outra coisa, mais grave e menos percebida: quase todo critério clínico que existe sobre estes exames é expresso em múltiplos do limite superior da normalidade, e não em unidades por litro. Três vezes o limite. Cinco vezes o limite. Quinze vezes o limite. O critério é federal, o multiplicador é fixo, e o número que ele multiplica é uma escolha administrativa de cada laboratório. Dois serviços da mesma cidade, com limites de 29 e de 40 U/L para a alanina aminotransferase, chamam de três vezes o limite valores de 87 e de 120 U/L — uma diferença de 33 U/L num critério que manda suspender medicamento.
A diretriz americana que serve de referência internacional para a avaliação de provas hepáticas alteradas resolve essa tensão de um jeito que vale conhecer porque ela mesma se divide: em suas afirmações-resumo, recomenda que o clínico possa se apoiar nos limites do laboratório local para fosfatase alcalina e para bilirrubina, e, para a alanina aminotransferase, sustenta que o valor verdadeiramente normal em populações estudadas sem fator de risco para doença hepática está entre 29 e 33 UI/L nos homens e entre 19 e 25 UI/L nas mulheres. Ou seja: para dois dos cinco exames, o laboratório resolve; para o principal deles, a diretriz diz que o laboratório costuma errar para cima.
No Brasil, nenhum documento em vigor incorporou esse limite mais baixo. Os protocolos federais que usam aminotransferase — o do controle da tuberculose, os das hepatites virais — continuam escrevendo múltiplos do limite superior da normalidade sem dizer qual é, o que na prática devolve a decisão ao laudo. A Sociedade Brasileira de Hepatologia publica recomendações sobre doenças colestáticas e autoimunes e sobre hepatites virais, mas não tem documento próprio dedicado à interpretação de aminotransferase alterada; a publicação específica mais recente sobre hepatotoxicidade por drogas é um suplemento de 2011. Quem lê provas hepáticas no Brasil trabalha, portanto, com uma régua estrangeira aplicada sobre um limite nacional que ninguém fixou.
Falta uma cifra que reorganiza a leitura da alteração pequena, e ela é a mesma estatística de qualquer intervalo de referência: uma faixa construída para conter 95% de uma população saudável deixa 5 de cada 100 pessoas sadias fora dela. Um painel hepático tem cinco linhas, e a bilirrubina costuma vir fracionada em duas. A consequência prática é que o achado mais comum deste exame em pessoa assintomática é uma linha isolada discretamente fora — e a decisão correta diante dela quase nunca é uma investigação em cascata no mesmo dia, mas repetir com intervalo e comparar. A alteração que vale é a que persiste, e a persistência não se mede num exame só.
Por que acontece o que acontece
Os cinco exames medem coisas diferentes porque as moléculas que eles dosam moram em lugares diferentes. Aspartato aminotransferase e alanina aminotransferase são enzimas que transferem grupos amino e vivem dentro do hepatócito; elas aparecem no sangue quando a célula se rompe ou fica permeável. A diferença entre as duas é de endereço: a alanina aminotransferase está principalmente no fígado, e a aspartato aminotransferase está também no músculo cardíaco, no músculo esquelético, no rim e no cérebro. Daí a primeira regra de leitura de toda a folha: a alanina aminotransferase é o marcador mais específico de lesão hepatocelular, e uma aspartato aminotransferase alta sem alanina aminotransferase correspondente sugere músculo ou coração, não fígado.
A fosfatase alcalina não é enzima de dentro da célula; é uma metaloproteinase de zinco ancorada na membrana canalicular do hepatócito — na parede voltada para o canalículo biliar, e não na célula do ducto, o que é uma imprecisão comum. Quando o fluxo de bile encontra obstáculo, a pressão dentro do sistema induz a síntese da enzima e a joga na circulação. Isso explica por que a fosfatase alcalina sobe devagar e demora a cair: ela não vaza de um estoque pronto, ela é fabricada em resposta. E explica por que, na obstrução muito aguda, a fosfatase alcalina ainda pode estar normal enquanto as aminotransferases já subiram.
A mesma enzima é produzida fora do fígado, e é aqui que a leitura mais erra. A fosfatase alcalina existe em osso, placenta, intestino e rim, e a origem extra-hepática mais frequente é o osso. Uma fosfatase alcalina alta em adolescente em crescimento, em gestante do terceiro trimestre, em doença óssea metabólica ou em metástase óssea não fala do fígado. Por isso a fosfatase alcalina isolada não é achado hepático até que alguém prove que é: a confirmação se faz pela gama-glutamil transferase elevada em conjunto, ou pelo fracionamento das isoenzimas da própria fosfatase.
A gama-glutamil transferase é, então, uma confirmadora de origem e quase nada além disso. Ela é sensível e pouco específica: sobe em doença pancreática, em infarto do miocárdio, em insuficiência renal, em enfisema, em diabetes, com fenitoína e com barbitúricos, e está elevada em mais da metade das pessoas que bebem sem que exista doença hepática aparente. A consequência é operacional e vale decorar: a gama-glutamil transferase serve para dizer que uma fosfatase alcalina alta é do fígado, e não serve como exame de rastreio de doença hepática em quem tem o resto do painel normal.
A bilirrubina é a única linha do painel que responde a duas perguntas ao mesmo tempo, e é por isso que ela precisa vir fracionada. A bilirrubina que chega ao fígado vem não conjugada, ligada à albumina, insolúvel em água; dentro do hepatócito ela é conjugada com ácido glicurônico e sai solúvel para a bile. Um excesso da fração não conjugada aponta para antes ou para dentro da célula: produção aumentada por hemólise, reabsorção de hematoma grande, eritropoese ineficaz, ou defeito da conjugação. Um excesso da fração conjugada só existe se a célula conseguiu conjugar e a bile não conseguiu sair, e por isso implica doença hepatocelular ou obstrução biliar.
Os dois exames que medem função de verdade são de outra natureza: não medem dano, medem capacidade de fabricar. O fígado sintetiza a albumina e sintetiza a maioria dos fatores de coagulação, e a diferença entre esses dois produtos é o tempo. A albumina tem meia-vida longa, de semanas, e por isso descreve o que o fígado vinha fazendo — cai na doença crônica e não serve para a doença de ontem; ela também cai por perda renal, por perda intestinal e por inflamação aguda, o que reduz ainda mais a sua especificidade. Os fatores de coagulação têm meia-vida de horas a poucos dias, e por isso o tempo de protrombina é o único número do conjunto que responde em tempo de plantão.
Duas propriedades do tempo de protrombina explicam por que ele é o parâmetro decisivo e por que ele engana quem o lê cedo demais. A primeira é a reserva: o alargamento só aparece quando a concentração dos fatores cai abaixo de cerca de 10% do normal, o que significa que um tempo normal não garante fígado bom, mas um tempo alargado num paciente sem outra explicação já indica perda importante de síntese. A segunda é a concorrência de causas: prolongam o tempo de protrombina a varfarina, o bolus de heparina, a coagulação intravascular disseminada e a hipotermia; e, fora de doença hepática, o alargamento costuma ser deficiência de vitamina K ou esteatorreia. Distinguir falência de síntese de deficiência de vitamina K é a razão de existir a dosagem do fator V, que não depende de vitamina K e cai na falência hepatocelular.
Junte as peças e o desenho fica claro. Célula destruída libera enzima de dentro: aminotransferases. Fluxo obstruído induz enzima de membrana: fosfatase alcalina, confirmada pela gama-glutamil transferase. Bilirrubina alta é consequência das duas coisas, e a fração diz de qual lado do hepatócito o problema está. E a função — a única coisa que decide se este paciente pode esperar — se lê na velocidade com que o fígado repõe fatores de coagulação, isto é, num exame que ninguém chama de prova hepática.

Como se apresenta de verdade
As seis situações abaixo mudam as provas hepáticas sem que exista a doença que o número sugere, ou antes que ela exista. Nenhuma delas é curiosidade: cada uma é a diferença entre abrir uma investigação e escrever uma linha de evolução. Em todas, o capítulo faz a leitura e entrega o diagnóstico e o tratamento ao capítulo dono, pelo nome.
Percurso de aprendizagem
Calcule R com ALT e FA divididas pelos respectivos limites. GGT não entra na fórmula e a razão crua não é alternativa válida.
Datas de medicamentos orientam causalidade, mas algumas lesões aparecem semanas após a suspensão. Investigue alternativas e evite atribuição automática ao produto ainda em uso.
INR, consciência, glicemia e rim guiam urgência. Aminotransferase baixa ou em queda não garante melhora; uma coleta isolada não mostra tendência.
Álcool: a única situação em que a aspartato aminotransferase manda mais que a alanina
Na esmagadora maioria das doenças hepáticas — hepatite viral crônica, doença hepática gordurosa, hepatite aguda, lesão por droga — a alanina aminotransferase é maior que a aspartato. A doença hepática alcoólica inverte isso: cerca de 90% dos pacientes têm aspartato maior que alanina e mais de 70% têm razão entre as duas acima de 2. Uma razão acima de 3 aumenta ainda mais a probabilidade. O mecanismo dessa inversão é a menor atividade sérica da alanina aminotransferase por deficiência de piridoxina, e não uma agressão maior à célula.
O segundo traço é o teto. Na lesão alcoólica, aspartato e alanina raramente passam de 300 U/L, o que é uma informação de triagem forte: um paciente que bebe muito e chega com alanina aminotransferase de 1.800 tem outra coisa acontecendo além do álcool, e essa outra coisa costuma ser droga, isquemia ou vírus. A gama-glutamil transferase acompanha o padrão de consumo, mas não fecha diagnóstico sozinha — ela está elevada em mais da metade das pessoas que bebem sem doença hepática evidente.
Atenção a uma coincidência que confunde: a cirrose de qualquer causa também pode ter aspartato maior que alanina, mas em geral sem chegar à razão de 2 para 1. A cirrose instalada e a hepatite alcoólica aguda grave são doenças, com tratamento próprio, e este capítulo não as assume: a cirrose está em Cirrose hepática e suas complicações, e o reconhecimento e o encaminhamento da hepatite alcoólica, em Hepatite A e hepatites agudas: quadro, diagnóstico e prevenção, os dois na apostila de Gastroenterologia; o que este capítulo entrega é a leitura do padrão. Quem tem hepatopatia crônica e precisa de dose ajustada está no capítulo Ajuste de dose na disfunção renal e hepática, da apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado, que é o dono do escore de Child-Pugh neste nível; quem sangra por varizes está em Hemorragia digestiva alta, da apostila de Cirurgia do Aparelho Digestivo.
Músculo e coração: transaminase alta que não é do fígado
A aspartato aminotransferase existe em músculo esquelético e cardíaco. Trauma muscular, exercício extenuante, convulsão prolongada, injeção intramuscular repetida, miopatias hereditárias ou adquiridas e rabdomiólise elevam aspartato aminotransferase, e podem elevar também a alanina, em menor grau. Rabdomiólise e insolação estão entre as poucas causas capazes de produzir elevação severa a maciça de aspartato aminotransferase sem doença hepática nenhuma.
O sinal que separa é a desproporção. Aspartato aminotransferase alta com alanina aminotransferase pouco alterada, ou com razão entre as duas bem acima do habitual em paciente sem consumo de álcool, pede um exame que não está no painel hepático: a creatinofosfoquinase, eventualmente com aldolase. Se a creatinofosfoquinase vier na casa dos milhares, o fígado sai da fila de suspeitos e a pergunta passa a ser renal. É útil lembrar que a fase de exclusão vem depois das causas comuns — investigar músculo antes de investigar vírus, álcool e droga inverte a probabilidade.
A rabdomiólise como diagnóstico e a lesão renal que ela provoca não são deste capítulo: quem cuida da consequência renal é Injúria renal aguda, da apostila de Nefrologia. Existe ainda uma causa de aspartato aminotransferase persistentemente alta, isolada e sem doença, que vale saber que existe para não investigar em círculos: a macro-aspartato aminotransferase, um complexo entre a enzima e imunoglobulina que retarda a depuração e mantém o número alto indefinidamente num paciente saudável.
Gestação: a fosfatase alcalina sobe por conta da placenta
A fosfatase alcalina é produzida pela placenta e pelo esqueleto fetal em formação, e por isso o limite superior da normalidade dessa enzima no terceiro trimestre é francamente mais alto do que o da mulher não gestante — o manual brasileiro de doenças colestáticas registra valores de até 418 UI/L nessa fase. Ler uma fosfatase alcalina de gestante contra a faixa impressa do adulto comum produz um falso achado colestático com alta frequência.
A pista que reorganiza a leitura na gestante é a gama-glutamil transferase, e ela funciona ao contrário do que se espera. Na colestase intra-hepática da gravidez, a gama-glutamil transferase costuma estar normal, com elevação em apenas cerca de 10% dos casos — de modo que, ali, a confirmadora habitual de origem hepática da fosfatase alcalina falha por desenho. O que sobe é o ácido biliar sérico, e as aminotransferases costumam ficar abaixo de duas vezes o limite.
As hepatopatias da gestação têm dono neste nível e não são assumidas aqui: colestase intra-hepática da gravidez e esteatose aguda estão no capítulo Uma coça, a outra vomita, da apostila de Obstetrícia; a elevação de transaminase com plaquetopenia e hemólise no fim da gestação está em Síndrome HELLP, da mesma apostila; e os critérios de gravidade que incluem transaminase estão em Pré-eclâmpsia. O que este capítulo assume é somente a régua de leitura: em gestante, a fosfatase alcalina é comparada com a faixa da gestação, e a gama-glutamil transferase normal não afasta colestase.
Fármaco e suplemento: a causa que só aparece se for perguntada
Praticamente toda classe usada em enfermaria tem algum risco de elevar aminotransferase, fosfatase alcalina ou bilirrubina, com ou sem hepatotoxicidade verdadeira: antibióticos, antiepilépticos, anti-inflamatórios não esteroides, estatinas, tuberculostáticos, antirretrovirais, biológicos anti-fator de necrose tumoral e vários quimioterápicos. As estatinas merecem nota à parte porque provocam medo desproporcional: elevam aminotransferases com frequência e têm literatura extensa de segurança mesmo em portadores de doença hepática crônica, com casos raros de hepatotoxicidade.
O que quase nunca é perguntado é o que está fora da receita. Suplementos e produtos de origem vegetal associados a lesão hepática incluem chá verde em extrato concentrado, efedra, chaparral, germander e cartilagem de tubarão, entre outros; e uma alanina aminotransferase acima de 1.000 U/L obriga história minuciosa de paracetamol, isolado ou dentro de combinações analgésicas, porque essa é a apresentação em que ele se esconde. A pergunta tem de ser feita por escrito e por classe — o paciente não considera chá, cápsula de farmácia de manipulação e comprimido para dor como medicamento.
A linha do tempo é essencial para avaliar lesão medicamentosa, incluindo exposição, início dos sintomas, suspensão e evolução. Regras resumidas de escores não substituem o perfil do fármaco nem autorizam excluir toda reação iniciada mais de 15 ou 30 dias após suspensão. Amoxicilina-clavulanato é exemplo importante de apresentação tardia, semanas depois do término. Integrar padrão, latência conhecida, causas concorrentes e evolução; um escore de causalidade apoia o raciocínio, não oferece certeza isolada.
A hepatotoxicidade dos tuberculostáticos tem regra federal própria, com números fixos, e é o exemplo mais claro de norma brasileira que converte transaminase em ato — está tratada no bloco de critérios deste capítulo, porque é leitura de exame. O tratamento da tuberculose e a decisão sobre esquema alternativo pertencem ao capítulo Tuberculose: a pergunta que ninguém faz, da apostila de Infectologia. A intoxicação por paracetamol e o antídoto pertencem a Intoxicação exógena, da apostila de Síndromes do Paciente na Emergência.
Obstrução aguda por cálculo: o pico de transaminase que engana no primeiro exame
A obstrução biliar aguda é a situação em que o padrão do painel muda de hora em hora, e por isso o primeiro exame pode dizer o contrário do que a doença é. A passagem de um cálculo pelo colédoco provoca elevação abrupta de aminotransferases, que pode ser expressiva, e a fosfatase alcalina — que precisa ser sintetizada para subir — ainda está normal ou pouco alterada. Um painel colhido nessa janela parece hepatocelular e é obstrutivo.
A correção vem da repetição e da direção. Nas horas seguintes, as aminotransferases caem depressa e a fosfatase alcalina e a bilirrubina sobem: é o cruzamento das curvas que faz o diagnóstico de padrão, e não o valor isolado do primeiro tubo. Daí uma regra de conduta que vale para o plantão inteiro: diante de icterícia de instalação recente com dor, repita o painel em intervalo curto antes de classificar o padrão em definitivo.
A doença por trás disso tem dono e não é assumida aqui. Colelitíase, colecistite aguda, coledocolitíase e colangite estão no capítulo A mesma pedra, três destinos, da apostila de Urgência e Emergência Cirúrgica, que é quem traz os critérios diagnósticos e de gravidade; a pancreatite biliar está em Pancreatite aguda, da mesma apostila. Este capítulo entrega ali o paciente com um recado operacional: o padrão que você classificou pode ser o padrão daquela hora, e a imagem das vias biliares não espera a segunda coleta.
Bilirrubina alta com enzimas normais: o painel que não é doença do fígado
Existe um resultado que aparece com frequência e quase nunca precisa de investigação: bilirrubina total discretamente alta, com predomínio da fração não conjugada, com aminotransferases e fosfatase alcalina rigorosamente normais, em pessoa assintomática. Em adulto saudável com hiperbilirrubinemia não conjugada leve, abaixo de 4 mg/dL, a avaliação consiste em excluir medicamentos que elevam bilirrubina, excluir evidência de hemólise e confirmar que transaminases e fosfatase alcalina estão normais; feito isso, o diagnóstico presumido de síndrome de Gilbert está posto e investigação adicional não é rotineiramente necessária.
O que separa Gilbert de hemólise não é a bilirrubina: é o resto do sangue. Hemólise traz haptoglobina reduzida, reticulócitos elevados e desidrogenase láctica alta, e raramente leva a bilirrubina acima de 5 mg/dL, a menos que coexistam doença renal, doença hepática ou hemólise aguda intensa. O traço clínico de Gilbert é a flutuação com jejum, doença intercorrente, esforço e privação de sono — e é por isso que o exame colhido no dia de uma virose devolve um número que assusta e some sozinho.
As causas hematológicas de bilirrubina indireta alta têm capítulos próprios neste nível e para lá é que vão os pacientes: a hemólise por incompatibilidade durante uma transfusão está em Reação transfusional, da apostila de Síndromes do Paciente Internado; a hemólise crônica da doença falciforme está em Doença falciforme: a crise, a febre e as síndromes que matam, da apostila de Hematologia Pediátrica. A icterícia do recém-nascido não é deste nível de leitura e pertence à Neonatologia.
Como fechar o diagnóstico
Aqui está a entrega do capítulo. As provas hepáticas não se leem por impressão de conjunto. Leem-se numa ordem que não muda, passo a passo, inclusive nos casos em que a resposta parece dada desde o primeiro olhar. A ordem importa porque cada passo restringe as leituras possíveis do seguinte — quem classifica o padrão antes de confirmar de onde vem a fosfatase alcalina classifica o osso como colestase, e quem interpreta magnitude antes de saber o limite do laboratório interpreta um múltiplo errado.
São seis passos. Os dois primeiros são de identidade: o que cada linha mede e se ela veio mesmo do fígado. O terceiro é a classificação do padrão, que é o núcleo do capítulo. Os dois seguintes leem tamanho e cor do problema. O sexto existe porque nenhum dos cinco exames do painel responde à pergunta que decide a noite.
Passo 1 — Separe as cinco linhas em três perguntas, e note que faltam duas
Antes de qualquer valor, reorganize a folha mentalmente em três colunas. Lesão de célula: aspartato e alanina aminotransferase. Obstrução de fluxo: fosfatase alcalina e gama-glutamil transferase. Bilirrubina fica sozinha, porque responde às duas e a uma terceira pergunta, que é a produção. Só isso já elimina o erro mais comum do plantão, que é dizer que as provas hepáticas estão alteradas sem dizer quais e em que direção.
Agora repare no que não está na folha. Nenhuma dessas cinco linhas mede o que o fígado consegue fazer. Função hepática, no sentido literal, é capacidade de síntese, e ela se mede pela albumina e pelo tempo de protrombina com a relação normatizada internacional. Um paciente pode ter aminotransferase de 3.000 e função preservada, e outro pode ter aminotransferase de 90 e o fígado falindo. Se o pedido não incluiu albumina e coagulograma num paciente ictérico, o pedido está incompleto, e completar isso é ato do primeiro contato — não da reavaliação de amanhã.
Anote também o cabeçalho, que aqui vale mais do que em qualquer outro exame do painel básico. A resolução da Anvisa em vigor obriga o laudo a trazer os valores de referência, as limitações técnicas da metodologia e os dados para interpretação, e obriga a datar e assinar. Você vai precisar de todos esses números na conta do passo 3, e vai precisar da data porque a comparação com o exame anterior — do mesmo laboratório, sempre que possível — é o que separa alteração nova de alteração antiga.
Passo 2 — Confirme a origem antes de interpretar
Duas linhas do painel podem não ser do fígado, e as duas precisam ser confirmadas antes de entrar em qualquer classificação. A primeira é a fosfatase alcalina. Ela existe em osso, placenta, intestino e rim, e a fonte extra-hepática mais comum é o osso. Fosfatase alcalina alta se confirma como hepática pela gama-glutamil transferase elevada em conjunto ou pelo fracionamento das isoenzimas. Sem essa confirmação, uma fosfatase alcalina de adolescente em crescimento, de gestante ou de portador de doença óssea entra na conta do padrão e a distorce inteira.
A segunda linha suspeita é a aspartato aminotransferase. Elevada sem elevação proporcional da alanina, ela sugere músculo ou coração, e o exame que decide não está no painel: creatinofosfoquinase, com aldolase quando necessário. Também aqui vale a ordem: rastrear músculo depois de ter descartado as causas comuns, e não antes.
O caminho inverso é igualmente importante e é o que dispensa exames. A gama-glutamil transferase não deve ser usada como rastreamento de doença hepática em quem tem o resto do painel normal, porque sua falta de especificidade produz achado sem consequência: ela sobe em doença pancreática, infarto do miocárdio, insuficiência renal, enfisema, diabetes, com fenitoína e com barbitúricos. Gama-glutamil transferase isolada alta, com aminotransferases, fosfatase alcalina e bilirrubina normais, em geral não abre investigação nenhuma.
Passo 3 — Classifique o padrão: hepatocelular, colestático ou misto
Este é o passo que dá nome ao capítulo, e ele tem uma conta. Lesão hepatocelular é elevação desproporcional de aminotransferases em relação à fosfatase alcalina; lesão colestática é o contrário. O problema de aplicar isso a olho é que as duas enzimas têm limites de normalidade completamente diferentes entre si, e comparar os números crus é comparar grandezas de escalas distintas. A saída é normalizar cada uma pelo próprio limite antes de compará-las.
A fórmula que faz isso é a razão R, e ela se escreve assim: divida a alanina aminotransferase pelo limite superior da normalidade da alanina aminotransferase; divida a fosfatase alcalina pelo limite superior da normalidade da fosfatase alcalina; e divida o primeiro resultado pelo segundo. Razão R maior que 5 define padrão hepatocelular; menor que 2, padrão colestático; entre 2 e 5, padrão misto. É a régua usada internacionalmente para classificar a lesão hepática induzida por drogas, e é a régua deste capítulo.
Guarde o motivo de a normalização não ser detalhe estético. A razão crua entre os dois valores é igual à razão R multiplicada pela razão entre os dois limites — isto é uma identidade aritmética, não uma opinião. Com um limite de 40 U/L para alanina aminotransferase e de 120 U/L para fosfatase alcalina, esse fator é de um terço: a razão crua vale um terço da razão R, e qualquer corte aplicado sobre ela deslocará a classificação em bloco. É por isso que a conta se faz com os números impressos no laudo do paciente, e não com limites decorados.
Existe uma segunda régua brasileira que não usa razão nenhuma, e ela devolve outra resposta. O manual da Sociedade Brasileira de Hepatologia sobre doenças colestáticas define colestase pela elevação das enzimas canaliculares em múltiplos absolutos: fosfatase alcalina acima de 1,5 vez o limite superior da normalidade e gama-glutamil transferase acima de 3 vezes esse limite, com elevação dos sais biliares séricos, e chama de crônica a colestase presente há mais de seis meses. Note que essa definição não olha para a aminotransferase: ela pergunta se há colestase, e não se o padrão é colestático. Um mesmo paciente pode ter colestase por essa definição e padrão hepatocelular pela razão R, e isso não é contradição — são perguntas diferentes que a rotina confunde por usarem a mesma palavra.
Feita a classificação, ela decide o próximo exame, e é para isso que ela serve. Padrão colestático manda fazer imagem das vias biliares — ultrassonografia de abdome superior é o primeiro exame diante de fosfatase alcalina elevada — e, se a imagem for normal, investigar as causas intra-hepáticas. Padrão hepatocelular manda para sorologias virais, história de álcool e de fármacos, doença hepática gordurosa, e depois para as causas menos frequentes. Padrão misto obriga aos dois caminhos ao mesmo tempo, e é o que mais aparece em lesão por droga.
Passo 4 — Leia a magnitude, e leia a persistência
Classificado o padrão, o tamanho da elevação estreita a lista. As faixas usadas na diretriz de referência são quatro, todas em múltiplos do limite superior da normalidade: até 2 vezes é elevação limítrofe; de 2 a 5 vezes, leve; de 5 a 15 vezes, moderada; acima de 15 vezes, severa. Uma quinta categoria é definida em valor absoluto e não em múltiplo: elevação maciça, acima de 10.000 UI/L.
A faixa de cima é a mais útil de decorar porque tem pouquíssimos donos. Elevações relacionadas ao fígado acima de 10.000 U/L são geralmente vistas em apenas duas situações: hepatopatia isquêmica, o chamado fígado de choque, e lesão tóxica ou por medicamento. Fora do fígado, rabdomiólise e insolação podem produzir elevação severa a maciça de aspartato aminotransferase. Diante de valores na casa dos milhares, a diretriz manda avaliar especificamente toxicidade por paracetamol e hepatopatia isquêmica, além de todo o resto — o que na prática significa procurar um episódio de hipotensão nas últimas horas e uma caixa de analgésico na bolsa.
Agora a parte que a rotina inverte. A elevação grande e única costuma valer menos que a elevação pequena e persistente, e a razão é biológica: o pico enorme de uma agressão pontual descreve um evento que já passou e cuja curva desce sozinha, enquanto uma alanina aminotransferase repetidamente entre 60 e 120 num paciente sem sintoma descreve um processo que continua. É essa segunda que se associa a mortalidade por doença hepática em população sem fator de risco identificável, e é essa que ninguém investiga. A regra prática que sai daí: alteração limítrofe ou leve, em paciente estável, pede repetição com intervalo e comparação, e não cascata no mesmo dia; alteração que persiste em duas coletas separadas pede investigação, mesmo pequena.
Um lembrete que evita alta indevida: valor normal não exclui doença. Alanina aminotransferase normal convive com fibrose avançada e com cirrose numa fração relevante dos portadores de hepatite C, e uma parcela expressiva dos pacientes com hemocromatose, incluindo cirróticos, tem aspartato e alanina normais. Provas hepáticas normais em paciente com estigma de hepatopatia, plaquetopenia ou esplenomegalia não fecham nada.
Passo 5 — Fracione a bilirrubina: é aqui que a via se bifurca
Bilirrubina total elevada não é informação suficiente para nenhuma decisão, porque as duas frações apontam para lados opostos do hepatócito. Toda bilirrubina total alta deve ser fracionada em direta e indireta, e essa é uma linha a pedir explicitamente quando o laudo vier só com o total.
Predomínio da fração não conjugada — a indireta — coloca o problema antes da conjugação: hemólise intravascular ou extravascular, eritropoese ineficaz, reabsorção de hematomas grandes, hipertireoidismo, medicamentos, pós-transfusional, e os defeitos hereditários de conjugação, dos quais a síndrome de Gilbert é o comum e a de Crigler-Najjar o raro. Nessa via, os exames seguintes são hematológicos, não hepáticos: hemograma com reticulócitos, desidrogenase láctica e haptoglobina.
Predomínio da fração conjugada — a direta — significa que a célula conjugou e a bile não saiu, e implica doença hepatocelular ou obstrução biliar na maior parte dos cenários. Aí a lista inclui coledocolitíase, obstrução maligna, estenose de via biliar, hepatites virais e tóxicas, lesão por medicamento, hepatite alcoólica aguda, hepatopatia isquêmica, cirrose, colangite biliar primária, colangite esclerosante primária, doenças infiltrativas, sepse, nutrição parenteral total, icterícia da terapia intensiva e as síndromes de Dubin-Johnson e de Rotor. É uma lista longa, e é o passo 3 que a corta ao meio: com padrão colestático, ela começa pela imagem.
Duas âncoras numéricas fecham o passo. A primeira: hemólise raramente leva a bilirrubina acima de 5 mg/dL, salvo se coexistirem doença renal, doença hepática ou hemólise aguda intensa — bilirrubina de 12 com hemograma normal não é hemólise. A segunda: no adulto assintomático com hiperbilirrubinemia não conjugada abaixo de 4 mg/dL, enzimas normais, sem hemólise e sem medicamento suspeito, o diagnóstico presumido é Gilbert e a investigação para por ali.
Passo 6 — Leia a função, que não está no painel, e olhe para o paciente
Os cinco exames dizem o que está acontecendo com o fígado. Dois outros dizem se ele ainda está funcionando, e é esse par que decide a conduta de hoje. Albumina descreve o passado, porque tem meia-vida de semanas e cai também por perda renal, perda intestinal e inflamação. Tempo de protrombina com relação normatizada internacional descreve o presente, porque os fatores de coagulação hepáticos duram horas a poucos dias.
Leia o tempo de protrombina sabendo das duas armadilhas. A primeira é a reserva funcional: o alargamento só aparece quando a concentração dos fatores cai abaixo de cerca de 10% do normal, e por isso um tempo normal nas primeiras horas de uma agressão intensa não tranquiliza. A segunda é a concorrência: varfarina, bolus de heparina, coagulação intravascular disseminada e hipotermia também alargam, e, fora de doença hepática, a causa habitual é deficiência de vitamina K ou esteatorreia. Quando é preciso separar falência de síntese de deficiência de vitamina K, o exame é o fator V, que não depende dela.
E então vem o exame que não é laboratorial e que é o mais importante desta página: o nível de consciência. A definição de falência hepática aguda é o desenvolvimento rápido de lesão hepática com comprometimento grave da função de síntese, manifesto por alargamento do tempo de protrombina e por encefalopatia hepática, em paciente sem doença hepática prévia evidente — e essa situação exige avaliação imediata independentemente do valor da alanina aminotransferase. A recomendação correspondente é explícita: paciente com hepatite aguda e tempo de protrombina alargado, ou com encefalopatia, exige encaminhamento imediato a especialista em fígado.
A régua brasileira dessa situação existe e está numa norma, não numa diretriz de sociedade. O Regulamento Técnico do Sistema Nacional de Transplantes define insuficiência hepática aguda grave, para efeito de urgência máxima, como o desenvolvimento de encefalopatia até doze semanas após o início da icterícia, em paciente sem doença hepática pré-existente, que preencha os critérios de indicação de transplante do King's College ou de Clichy e esteja internado em unidade de terapia intensiva. Repare no que essa definição não contém: nenhuma aminotransferase. O que ela lê é icterícia, tempo, consciência e coagulação. E aqui o capítulo assume o reconhecimento da insuficiência hepática aguda como entidade — a leitura que dispara o telefonema —; a hepatite aguda que chega a ela, com os sinais de gravidade e o destino do paciente, é de Hepatite A e hepatites agudas: quadro, diagnóstico e prevenção, e a cirrose, de Cirrose hepática e suas complicações, os dois na apostila de Gastroenterologia. O manejo da falência instalada e a decisão sobre transplante pertencem a quem receber o paciente.
Fica então a pergunta operacional do plantão: quem não pode esperar a manhã? Três grupos. Quem tem encefalopatia, em qualquer grau, com icterícia recente e sem hepatopatia conhecida. Quem tem tempo de protrombina alargado sem outra explicação. E quem tem padrão colestático com febre ou com dor, que precisa de imagem das vias biliares antes de o plantão acabar, porque a obstrução com infecção não é doença de observar. Nos três casos, o telefonema é o mesmo ato, e ele não depende de o número da transaminase ser grande.
A ordem de leitura, as três réguas do padrão e as contas conferidas
Aprenda a separar lesão, colestase e função hepática, integrando padrão bioquímico com sinais de gravidade.
- 11. Separe as cinco linhas em três perguntas: aspartato e alanina aminotransferase medem lesão de célula; fosfatase alcalina e gama-glutamil transferase medem obstrução de fluxo; bilirrubina responde às duas e à produção. Nenhuma delas mede função.
- 22. Complete o pedido antes de interpretar: albumina e tempo de protrombina com relação normatizada internacional em todo paciente ictérico ou com elevação moderada ou maior. Sem esses dois, o painel não decide nada.
- 33. Leia o cabeçalho e anote os limites impressos de cada linha. Eles entram na conta do passo 4, e são do laboratório que assinou — a norma obriga a imprimi-los, não fixa quais são.
- 44. Confirme a origem: fosfatase alcalina alta só é hepática se a gama-glutamil transferase acompanhar ou se o fracionamento provar; aspartato alta sem alanina proporcional pede creatinofosfoquinase, e não sorologia.
- 55. Classifique o padrão pela razão R: alanina dividida pelo seu limite, dividido por fosfatase alcalina dividida pelo limite dela. Acima de 5 é hepatocelular; abaixo de 2, colestático; entre 2 e 5, misto. Use os limites do laudo, nunca os de memória.
- 66. O padrão escolhe o próximo exame: colestático vai para imagem das vias biliares no mesmo turno; hepatocelular vai para sorologias, álcool, fármacos e doença gordurosa; misto obriga aos dois caminhos.
- 77. Leia a magnitude em múltiplos: até 2 limítrofe, 2 a 5 leve, 5 a 15 moderada, acima de 15 severa, acima de 10.000 U/L maciça. Na faixa maciça, procure hipotensão recente e paracetamol antes de qualquer sorologia.
- 88. Fracione a bilirrubina. Predomínio indireto manda para hemograma com reticulócitos, desidrogenase láctica e haptoglobina; predomínio direto fica na via hepatobiliar e depende do passo 5.
- 99. Leia a função e o paciente: relação normatizada internacional, albumina e nível de consciência. Encefalopatia com icterícia recente, sem hepatopatia prévia, é insuficiência hepática aguda até prova em contrário, qualquer que seja a transaminase.
- 1010. Defina o prazo, que é a decisão de verdade: telefonar agora ao especialista, garantir imagem antes do fim do plantão, repetir o painel em intervalo curto, ou repetir em duas a quatro semanas e comparar. Alteração limítrofe isolada em paciente estável quase nunca é cascata no mesmo dia.
| Linha do exame | Pergunta que responde | Onde mais o corpo a produz | O que a alteração muda na conduta de hoje |
|---|---|---|---|
| Alanina aminotransferase | A célula do fígado está sendo destruída? | Predominantemente hepática — é a mais específica das duas aminotransferases | Entra na conta da razão R como numerador. É a linha cuja magnitude estreita a lista de causas e cujo limite superior está em disputa |
| Aspartato aminotransferase | A célula está sendo destruída — no fígado ou fora dele? | Músculo cardíaco, músculo esquelético, rim e cérebro | Alta sem alanina proporcional muda o exame seguinte para creatinofosfoquinase. Razão acima de 2 sobre a alanina aponta consumo de álcool |
| Fosfatase alcalina | A bile está encontrando obstáculo para sair? | Osso — a fonte extra-hepática mais comum —, placenta, intestino e rim | Elevada e confirmada como hepática, manda fazer ultrassonografia de abdome superior. Entra na conta da razão R como denominador |
| Gama-glutamil transferase | Aquela fosfatase alcalina veio mesmo do fígado? | Pâncreas, coração, rim, pulmão; sobe com fenitoína, barbitúricos e álcool | Confirma origem hepática da fosfatase alcalina. Isolada, com o resto do painel normal, em geral não abre investigação nenhuma |
| Bilirrubina total | Há icterícia bioquímica? — e só isso | Produto da degradação do heme, de origem sistêmica | Sozinha não decide nada. O ato obrigatório diante de bilirrubina total alta é pedir o fracionamento |
| Bilirrubina indireta, não conjugada | O problema está antes da conjugação? | Hemácias, hematomas em reabsorção, eritropoese | Predomínio indireto tira o caso da via hepatobiliar e o manda para hemograma com reticulócitos, desidrogenase láctica e haptoglobina |
| Bilirrubina direta, conjugada | A célula conjugou e a bile não saiu? | Exclusivamente hepática, por definição da via de conjugação | Predomínio direto significa doença hepatocelular ou obstrução biliar, e a escolha entre as duas é o padrão do passo 5 |
| Albumina | O fígado vinha conseguindo sintetizar, nas últimas semanas? | Exclusivamente hepática, mas perde-se por rim, por intestino e cai na inflamação | Meia-vida longa: descreve doença crônica e não serve para a agressão de ontem. Baixa em paciente ictérico agudo pede outra explicação além do fígado |
| Tempo de protrombina e relação normatizada internacional | O fígado está conseguindo sintetizar agora? | Fatores de coagulação hepáticos, com meia-vida de horas a poucos dias | É o número que decide o prazo. Alargamento sem varfarina, heparina, coagulação intravascular disseminada, hipotermia ou deficiência de vitamina K é falência de síntese |
Três réguas, os mesmos cinco números: o painel de dona Nizete classificado de três maneiras
| Régua | Como se calcula | O que devolve neste painel | Quem a sustenta |
|---|---|---|---|
| Razão R, normalizada pelos limites | Alanina dividida pelo limite dela, dividido por fosfatase alcalina dividida pelo limite dela. Acima de 5 hepatocelular, abaixo de 2 colestático, entre 2 e 5 misto | 480 sobre 40 dá 12,00; 250 sobre 120 dá 2,08; a divisão dá 5,76 — padrão hepatocelular, por pouco | Diretriz do American College of Gastroenterology sobre provas hepáticas alteradas, de 2017, que a atribui ao consenso internacional de causalidade em lesão por droga |
| Razão crua entre alanina e fosfatase alcalina | Alanina dividida por fosfatase alcalina, sem normalizar por limite nenhum; abaixo de 2 seria colestático | 480 dividido por 250 dá 1,92 — abaixo de 2, o que classificaria como colestático o mesmo painel | Redação literal do capítulo de colestase por drogas do manual da Sociedade Brasileira de Hepatologia de 2019, que escreve a relação sem mencionar o limite superior |
| Definição de colestase por múltiplos absolutos | Fosfatase alcalina acima de 1,5 vez o limite e gama-glutamil transferase acima de 3 vezes o limite, com sais biliares elevados; não olha para a aminotransferase | Fosfatase alcalina em 2,08 vezes e gama-glutamil transferase em 6,2 vezes: há colestase por esta definição, mesmo com padrão hepatocelular pela razão R | Capítulo 1 do mesmo manual da Sociedade Brasileira de Hepatologia, que a apresenta como definição de colestase e não como classificação de padrão |
As contas deste capítulo, recalculadas
| Conta | Como se faz | Resultado conferido |
|---|---|---|
| Múltiplo do limite convertido em unidades por litro, para três limites de alanina aminotransferase em uso | Multiplique o limite impresso no laudo pelo múltiplo do critério. Os três limites usados aqui são 29, 33 e 40 U/L — os dois primeiros vindos da faixa proposta para o homem adulto, o terceiro sendo um valor comum de laudo | Três vezes o limite: 87, 99 ou 120 U/L. Cinco vezes: 145, 165 ou 200 U/L. Quinze vezes: 435, 495 ou 600 U/L. Um mesmo paciente com alanina de 150 U/L está acima de cinco vezes num laboratório e abaixo em outro |
| Relação entre a razão crua e a razão R | A razão crua entre alanina e fosfatase alcalina é igual à razão R multiplicada pela razão entre os dois limites. É identidade aritmética e vale sempre | Com limites de 40 e 120 U/L, o fator é 40 dividido por 120, ou seja um terço. A razão crua vale um terço da razão R, e um corte de 2 aplicado sobre ela corresponde a um corte de 6 na razão R — acima, portanto, do corte de 5 que define padrão hepatocelular |
| Bilirrubina de 300 micromol por litro convertida para miligramas por decilitro | Massa molar da bilirrubina 584,66 g/mol. Um miligrama por decilitro equivale a 17,104 micromol por litro; divida 300 por esse fator | 17,54 mg/dL, contra 17,5 mg/dL impressos no artigo 130 do Regulamento Técnico do Sistema Nacional de Transplantes. Conferência fechada dentro do arredondamento |
| Creatinina de 300 micromol por litro convertida para miligramas por decilitro | Massa molar da creatinina 113,12 g/mol. Um miligrama por decilitro equivale a 88,4 micromol por litro; divida 300 por esse fator | 3,39 mg/dL, contra 3,4 mg/dL impressos no mesmo artigo 130. Conferência fechada |
| Faixas de magnitude da diretriz convertidas em unidades por litro | As faixas são definidas em múltiplos: até 2, de 2 a 5, de 5 a 15, acima de 15. Aplique ao limite do laudo do paciente | Com limite de 40 U/L: limítrofe até 80, leve de 80 a 200, moderada de 200 a 600, severa acima de 600. A quinta faixa, maciça, é a única dada em valor absoluto — acima de 10.000 U/L — e por isso não muda de laboratório para laboratório |
O que a Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024 fornece, entre o que este capítulo cita
| Item | Consta no elenco de 2024? | Componente e vínculo |
|---|---|---|
| Ácido ursodesoxicólico | Sim, nas apresentações de 50, 150 e 300 mg em comprimido | Componente Especializado, grupo 1B, vinculado ao protocolo de colangite biliar primária |
| Complexo protrombínico humano | Sim, em 500 e 600 unidades internacionais, pó para solução injetável | Componente Estratégico |
| Lactulose | Sim, xarope de 667 mg/mL | Componente Básico |
| Acetilcisteína | Busca exata no texto normalizado do elenco não retorna ocorrência | Fora do elenco nacional, embora seja o antídoto da causa mais frequente de elevação maciça de transaminase no mundo. A conduta pertence ao capítulo Intoxicação exógena |
| Fitomenadiona, a vitamina K | Busca exata no texto normalizado do elenco não retorna ocorrência, em nenhuma das grafias | Fora do elenco nacional. A prova terapêutica que separa deficiência de vitamina K de falência de síntese depende, portanto, de disponibilidade local |
| Albumina humana | Busca exata no texto normalizado do elenco não retorna ocorrência | Fora do elenco nacional. A albumina do painel é exame, não medicamento, e a distinção importa quando o resultado sugere reposição |
Conferência que NÃO fechou, e é a mais consequente do capítulo. O Manual de Recomendações para o Controle da Tuberculose no Brasil diz duas coisas opostas em duas páginas seguidas. No texto corrido do item sobre hepatopatias: o tratamento só deverá ser interrompido quando os valores das enzimas atingirem até cinco vezes o valor normal em pacientes sem sintomas digestivos. No Quadro 24, da página seguinte: em paciente sem doença hepática prévia, com transaminases maiores ou iguais a cinco vezes o limite superior da normalidade e sem sintomas, interromper o tratamento. Uma expressão diz até cinco vezes, o que abrange tudo abaixo de 5; a outra diz maior ou igual a cinco vezes, o que abrange tudo acima. Os dois enunciados só coincidem exatamente em 5. Um interno que siga o texto corrido ao pé da letra suspende o esquema básico de um paciente com transaminase em 2 vezes o limite e o mantém num paciente com 6 vezes — o inverso do que a tabela manda.
Segunda divergência dentro do mesmo Manual da tuberculose, e desta vez de unidade. O texto corrido escreve cinco vezes o valor normal e três vezes o valor normal; o Quadro 24 escreve 5 x LSN e 3 x LSN, e define LSN em rodapé como limite superior da normalidade. Valor normal e limite superior da normalidade não são a mesma grandeza: numa faixa impressa de 10 a 40 U/L, o limite superior é 40 e o valor normal é qualquer ponto da faixa. A ambiguidade do texto corrido chega a um fator de quatro entre a leitura mais frouxa e a mais rigorosa do mesmo corte.
Terceira conferência do Quadro 24, e é uma faixa órfã. Na metade da tabela que trata de paciente com doença hepática prévia sem cirrose, as duas linhas são transaminases maiores que 5 vezes o limite, que levam a esquema alternativo, e menores que 5 vezes o limite, que mantêm o esquema básico. O valor exatamente igual a 5 vezes o limite não pertence a nenhuma das duas classes. Na metade de baixo da mesma tabela, para paciente sem doença hepática prévia, o mesmo número aparece como maior ou igual a 5 vezes — de modo que o mesmo corte, na mesma tabela, é aberto em cima e fechado embaixo. Com limite de 40 U/L, a faixa órfã é o valor exato de 200 U/L.
Conferência que não fechou, no manual brasileiro de doenças colestáticas, sobre a razão que este capítulo ensina. No capítulo de colestase por drogas, a lesão colestática induzida por droga é descrita como predomínio de elevação da fosfatase alcalina, em geral superior a duas vezes o limite superior, e uma relação alanina aminotransferase sobre fosfatase alcalina menor que 2 — sem qualquer menção a limite dentro da razão. No capítulo de hepatite autoimune, do mesmo manual, o mesmo tipo de razão aparece escrito corretamente como razão do aumento em número de vezes do limite superior da normalidade da fosfatase alcalina sobre aspartato ou alanina. A mesma obra escreve a razão de dois jeitos, e a versão sem normalização não funciona: a razão crua vale a razão R multiplicada pela razão entre os limites, que com 40 e 120 U/L é um terço, de modo que o corte de 2 aplicado ao valor cru corresponde a um corte de 6 na razão R. Aplicada ao painel de dona Nizete, a redação literal classifica como colestático, em 1,92, um exame cuja razão R é 5,76 e cujo padrão é hepatocelular.
Conferências que fecharam, no artigo 130 do Regulamento Técnico do Sistema Nacional de Transplantes. Os critérios do King's College para paciente sem ingestão de acetaminofeno usam bilirrubina sérica acima de 17,5 mg/dL e creatinina acima de 3,4 mg/dL; os valores originais desses cortes são de 300 micromol por litro para ambos. Recalculando: 300 dividido por 17,104 dá 17,54 mg/dL para a bilirrubina, e 300 dividido por 88,4 dá 3,39 mg/dL para a creatinina. As duas conversões fecham dentro do arredondamento publicado. Também fecham os demais itens da regra de três em cinco: idade menor que dez ou maior que quarenta anos, icterícia por mais de sete dias antes da encefalopatia, e tempo de protrombina maior que 50 segundos com relação normatizada internacional acima de 3,5.
Achado que não é conta e sim conjunção, no mesmo artigo 130, e que o capítulo expõe sem resolver. No parágrafo dos pacientes que ingeriram acetaminofeno, as duas condições estão ligadas por e: pH arterial menor que 7,3, independentemente do grau de encefalopatia, E tempo de protrombina maior que 100 segundos ou relação normatizada internacional acima de 6,5 com creatinina acima de 3,4 em pacientes com encefalopatia III ou IV. No parágrafo seguinte, dos pacientes sem ingestão de acetaminofeno, as duas condições análogas estão ligadas por ou. Nos critérios originais do King's College, os dois braços do ramo do acetaminofeno são alternativos, e não cumulativos. Lido ao pé da letra, o texto brasileiro exige as duas condições ao mesmo tempo e deixaria de fora o paciente que preenche apenas o critério de pH. A decisão sobre como ler essa conjunção é jurídica e clínica, não de engenharia de texto, e por isso fica registrada aqui sem lado vencedor.
Defeito de enumeração no mesmo capítulo da norma, encontrado ao conferir os artigos vizinhos. O artigo 128, inciso I, ao listar os critérios de Milão para carcinoma hepatocelular, enumera as alíneas a, c, d e e — a alínea b não existe no texto republicado em 21 de janeiro de 2026. O tema não é deste capítulo, e o registro fica porque a falha está na mesma seção da norma que este capítulo usa e porque um critério publicado com uma alínea faltando é lido por alguém como critério completo.
Conferência que fechou, na diretriz americana. A faixa que ela apresenta como valor verdadeiramente normal de alanina aminotransferase, de 29 a 33 UI/L para homens e de 19 a 25 UI/L para mulheres, é a envoltória dos três estudos que o próprio texto cita, e não um intervalo medido: um estudo de 6.835 doadores de sangue propôs 30 no homem e 19 na mulher; um estudo coreano de 1.105 candidatos a doador de fígado com biópsia hepática normal propôs 33 e 25; e a releitura de um inquérito populacional americano calculou 29 e 22. O mínimo masculino é 29 e o máximo é 33; o mínimo feminino é 19 e o máximo é 25 — exatamente a faixa da manchete. Vale saber disso porque a faixa é lida como se fosse um intervalo de confiança, e não é: é o menor e o maior de três propostas construídas com populações e métodos diferentes.
Conferência parcial no suplemento de hepatotoxicidade da Sociedade Brasileira de Hepatologia, de 2011. A figura que distribui a etiologia da falência hepática aguda por país traz sete linhas de percentuais que deveriam somar 100 em categorias exaustivas e mutuamente exclusivas. Quatro somam 100; Dinamarca soma 97, Reino Unido soma 99 e Estados Unidos somam 101. Com seis parcelas arredondadas para inteiro, o desvio máximo possível por arredondamento é de três pontos, de modo que as três linhas cabem dentro dele e não constituem prova de erro — mas quem somar vai encontrar isso, e é melhor saber antes. O que não se explica por arredondamento está no texto: o parágrafo remete a essa figura para afirmar que a toxicidade grave por paracetamol no Brasil é semelhante à de outros países da Europa e da Ásia, e o Brasil não é uma das sete linhas da figura.
Conferência do elenco nacional, por busca exata sobre o texto normalizado da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024, sem depender de impressão de leitura. Ácido ursodesoxicólico consta em três apresentações no Componente Especializado, vinculado ao protocolo de colangite biliar primária; complexo protrombínico humano consta no Componente Estratégico; lactulose consta no Componente Básico. Acetilcisteína, fitomenadiona e albumina humana não retornam ocorrência em nenhuma grafia testada. A ausência da vitamina K tem consequência direta sobre este capítulo: a prova terapêutica que separa alargamento por deficiência de vitamina K de alargamento por falência de síntese não se apoia no elenco nacional e depende do que o serviço tiver.
Sigla glosada errado, e duas vezes, nas duas publicações da Sociedade Brasileira de Hepatologia usadas aqui. O Manual de Condutas em Doenças Colestáticas e Autoimunes do Fígado abre o capítulo de colestase por drogas escrevendo que a lesão hepática induzida por drogas é, no inglês, drug induced cholestasis, e repete essa expansão na lista de abreviaturas do fim do volume; o suplemento de hepatotoxicidade de 2011 abre a introdução expandindo a mesma sigla como drug induced liver disease. As duas estão erradas pelo mesmo motivo, e o erro não é de tradução: a sigla é drug-induced liver injury, isto é lesão hepática por droga, categoria que inclui o padrão hepatocelular, o colestático e o misto. Glosá-la como colestase reduz a um só os três padrões e inverte o sentido da razão que o mesmo capítulo ensina a calcular; glosá-la como doença troca lesão por doença, que não é sinônimo em hepatologia. E quem procurar a literatura pela expansão impressa não encontra o assunto.
Conta que fecha e explica o achado mais comum deste exame. Um intervalo de referência é construído como a média de uma população saudável mais ou menos dois desvios-padrão, o que abrange 95% dos indivíduos — a própria diretriz americana registra que, por definição, 2,5% da população de referência fica acima do limite superior. Aplique isso ao painel: são cinco linhas quando a bilirrubina vem só com o total, e sete quando vem fracionada. A chance de nenhuma delas cair acima do limite, numa pessoa saudável, é 0,975 elevado a 5, ou seja 0,881; a chance de pelo menos uma cair acima é de 11,9%. Com sete linhas, 0,975 elevado a 7 dá 0,838, e a chance de pelo menos um asterisco sobe para 16,2%. Recalculado em Python. É por isso que uma linha isolada discretamente alta, em pessoa assintomática, é o resultado esperado e não um achado — e é por isso que a conduta diante dela é repetir com intervalo e comparar, não abrir cascata no mesmo dia.
A conduta, hora a hora
O que os marcos abaixo percorrem não é a história natural de uma doença: é a fila de decisões que aquele laudo aberto na tela impõe ao interno. Tratar é sempre tarefa de outro capítulo, e cada marco diz de qual. O que se decide aqui costuma ser a hora do telefonema, o exame seguinte e o prazo da repetição — raramente uma prescrição.
Repare que dois marcos precedem qualquer interpretação e dois vêm depois do diagnóstico já suspeitado. É de propósito: as decisões mais caras deste painel são a de completar o pedido no primeiro contato e a de não deixar sair do plantão quem já preencheu critério de gravidade com transaminase modesta.
No primeiro contato — completar o pedido antes de interpretar
No paciente ictérico ou com lesão relevante, avaliar gravidade desde o primeiro contato: consciência, glicemia, perfusão, INR, bilirrubina e rim. Albumina ajuda no contexto, mas sua meia-vida longa e interferência por inflamação/perdas limitam a avaliação aguda. O painel inicial já informa lesão e excreção; não é sem valor por faltar albumina. Completar exames enquanto se organiza cuidado.
Prescrição- Acrescentar ao pedido albumina e tempo de protrombina com relação normatizada internacional em todo paciente ictérico, ou com aminotransferase acima de cinco vezes o limite, ou com bilirrubina direta elevada
- Pedir bilirrubina fracionada em direta e indireta sempre que o laudo trouxer apenas o total
- Registrar por escrito, por classe, todo medicamento das últimas doze semanas, incluindo os que o paciente não considera remédio: analgésico de venda livre, chá em cápsula, produto de manipulação, suplemento para emagrecer e fitoterápico
- Registrar consumo de álcool em quantidade e em tempo, e não como sim ou não
- Procurar no sistema qualquer painel hepático anterior do próprio paciente, de preferência do mesmo laboratório, e anotar a data
Com o resultado na tela — o cabeçalho, e o que ele autoriza
Antes dos cinco números, três linhas do cabeçalho: quem assinou, quando foi a coleta, e quais são os limites impressos de cada exame. Os limites não são decoração e não são universais — a norma da Anvisa obriga o laboratório a tê-los e a imprimi-los, e não diz quais devem ser. Você vai precisar deles na conta do padrão, e um paciente comparado à faixa errada muda de classe sem mudar de doença.
Prescrição- Anotar, do próprio laudo, o limite superior da alanina aminotransferase e o da fosfatase alcalina — são os dois números que entram na razão R
- Conferir a data e a hora da coleta contra o que aconteceu com o paciente no intervalo: hipotensão, transfusão, início de fármaco, jejum prolongado
- Se houver painel anterior de outro laboratório, comparar as tendências e não os valores absolutos, e dizer isso na evolução
- Anotar se o laudo traz observação sobre a amostra — material aceito com restrição consta do laudo por obrigação normativa e diz qual número não levar a sério
Confirmar a origem antes de classificar qualquer coisa
AST pode vir de músculo e a fosfatase alcalina de osso, placenta ou fígado. Relacionar elevação à história, idade e método. GGT associada favorece origem hepatobiliar da FA, sem provar exclusividade. CK é útil quando há exercício, trauma, dor muscular ou desproporção de AST; outras investigações podem ocorrer em paralelo conforme gravidade.
Prescrição- Na FA isolada alta, conferir faixa por idade/gestação e GGT. Isoenzimas ou outro marcador podem ajudar se a origem continuar incerta; não são requisito obrigatório para todo adolescente ou antes de qualquer imagem.
- Diante de aspartato aminotransferase desproporcionalmente alta, pedir creatinofosfoquinase e revisar trauma, exercício extenuante, convulsão e injeção intramuscular recentes
- Em gestante, comparar a fosfatase alcalina com a faixa da gestação e não com a do adulto comum, e lembrar que gama-glutamil transferase normal não afasta colestase gravídica
- GGT isolada não define colestase nem justifica bateria indiscriminada. Rever álcool, medicamentos, fatores metabólicos e persistência; investigar de modo dirigido se houver contexto ou evolução preocupantes.
Classificado o padrão — o padrão escolhe o exame seguinte
Feita a razão R com os limites do próprio laudo, o resultado não é um rótulo: é um pedido. Padrão colestático manda fazer imagem das vias biliares, e a ultrassonografia de abdome superior é o primeiro exame diante de fosfatase alcalina elevada. Padrão hepatocelular manda para a bateria etiológica. Padrão misto obriga aos dois caminhos, e é o mais comum em lesão por fármaco.
Prescrição- Padrão colestático ou misto: solicitar ultrassonografia de abdome superior com avaliação de vias biliares, e não deixar esse pedido para o turno seguinte se houver febre ou dor
- Padrão hepatocelular ou misto: solicitar sorologias para hepatites A, B e C, e rever álcool, fármacos, suplementos e doença hepática gordurosa antes das causas raras
- Suspender, quando possível, todo fármaco e todo suplemento hepatotóxico não essencial, e registrar a data da suspensão — ela é critério de causalidade depois
- Escrever o padrão por extenso na evolução, com a conta: alanina tantas vezes o limite, fosfatase alcalina tantas vezes o limite, razão R tanto, padrão tal
Elevação moderada, severa ou maciça — a lista curta primeiro
Magnitude ajuda a priorizar causas, mas cinco vezes o limite não obriga internação por si só. Icterícia, INR, consciência, glicemia, sintomas, progressão e possibilidade de retorno definem urgência e destino. Valores muito altos pedem busca imediata de lesão hipóxica/isquêmica e paracetamol, além de outras causas; nem ausência de hipotensão registrada nem aminotransferases menores excluem essas hipóteses.
Prescrição- Diante de alanina aminotransferase acima de 1.000 U/L, tomar história minuciosa e explícita de paracetamol, isolado e dentro de combinações analgésicas, e checar prontuário de outros serviços
- Procurar ativamente episódio de hipotensão, choque, arritmia, parada ou sepse nas últimas 48 horas, incluindo o que está anotado na folha de sinais vitais e não na evolução
- Em elevação severa ou maciça, solicitar no mesmo momento hemograma com plaquetas, glicemia, função renal, coagulograma e sorologias virais agudas
- Havendo qualquer evidência de ingestão de paracetamol, acionar o protocolo de intoxicação exógena — a decisão sobre o antídoto pertence ao capítulo Intoxicação exógena, da apostila de Síndromes do Paciente na Emergência
Bilirrubina alta — fracionar decide para qual lado o caso vai
Com o fracionamento na mão, o caso muda de especialidade. Predomínio indireto tira o paciente da via hepatobiliar e o coloca numa investigação hematológica. Predomínio direto o mantém na via hepatobiliar, e ali o padrão do passo anterior já disse se a próxima parada é a imagem ou a sorologia. Um erro caro se evita aqui: bilirrubina alta com enzimas rigorosamente normais, em adulto assintomático e abaixo de 4 mg/dL na fração indireta, quase sempre encerra a investigação em vez de abri-la.
Prescrição- Predomínio indireto: solicitar hemograma com contagem de reticulócitos, desidrogenase láctica e haptoglobina, e revisar medicamentos que elevam bilirrubina
- Predomínio indireto abaixo de 4 mg/dL, sem hemólise, com enzimas normais e paciente assintomático: registrar diagnóstico presumido de síndrome de Gilbert e encerrar a investigação
- Predomínio direto: seguir o padrão já classificado, e garantir a imagem de vias biliares quando houver componente colestático
- Não aceitar hemólise como explicação para bilirrubina acima de 5 mg/dL sem doença renal, doença hepática ou hemólise aguda intensa concomitantes
Fármaco suspeito — a data manda mais que o valor
A linha do tempo é essencial, mas DILI pode aparecer após a suspensão. Amoxicilina-clavulanato é exemplo clássico de apresentação tardia, inclusive semanas depois do fim. Não excluir causalidade por uma regra universal de 15 ou 30 dias: considerar latência própria do agente, padrão, evolução e causas alternativas; escores ajudam, sem substituir julgamento. Não reexpor deliberadamente para provar causalidade.
Prescrição- Construir a linha do tempo por escrito: data de início de cada fármaco, data de suspensão, data da primeira alteração laboratorial
- Manter ou reduzir a suspeita conforme a cronologia específica do agente e a exclusão de alternativas. Se o início foi posterior à suspensão, pesquisar latência tardia reconhecida, sem encerrar o raciocínio por um limite fixo.
- Em paciente em esquema básico para tuberculose, aplicar a regra federal: transaminases em cinco vezes ou mais o limite sem sintomas, ou em três vezes ou mais com sintomas dispépticos ou icterícia, mandam interromper e monitorar a função hepática a cada três a sete dias — e a condução do esquema pertence ao capítulo Tuberculose: a pergunta que ninguém faz
- Reintroduzir fármaco suspeito é decisão de quem trata, e nunca ato de plantão
Encefalopatia ou coagulação alargada — o telefonema não espera a transaminase
Suspeitar de insuficiência hepática aguda diante de lesão recente, INR ≥1,5 e encefalopatia atribuível ao fígado, geralmente com evolução <26 semanas e sem cirrose prévia. Corrigir hipoglicemia e investigar causas de rebaixamento em paralelo. Mesmo sem encefalopatia, coagulopatia em hepatite aguda exige avaliação urgente. Não esperar critérios prognósticos de transplante, sorologias ou aminotransferases muito altas para envolver hepatologia/centro transplantador.
Prescrição- Avaliar e registrar o nível de consciência com escala objetiva, e repetir a avaliação em intervalo curto — a piora entre duas avaliações é o achado, e ela some se ninguém anotar a primeira
- Colher glicemia capilar imediatamente e repetir com frequência: hipoglicemia é complicação precoce da falência hepática e é reversível
- Acionar o especialista em fígado e o serviço de referência em transplante hepático diante de hepatite aguda com tempo de protrombina alargado ou com encefalopatia, sem esperar sorologia e sem esperar a transaminase subir
- Suspender sedativo, analgésico opioide e qualquer fármaco hepatotóxico dispensável, e revisar toda a prescrição em busca de doses que dependam de metabolismo hepático — o ajuste pertence ao capítulo Ajuste de dose na disfunção renal e hepática
- Transferir para leito monitorado: a definição brasileira de urgência máxima exige internação em unidade de terapia intensiva, e a decisão de vaga não deve ser tomada quando a encefalopatia já estiver em grau avançado
Como saber se está funcionando
Cada linha deste painel tem um relógio próprio, e quem o acerta é a meia-vida da molécula — não a rotina do serviço. Antecipar a repetição é decidir sobre ruído; atrasá-la é deixar passar dano; repetir o painel inteiro toda manhã é furar veia sem consequência. O que se acompanha, em quase todos os casos, é a direção, e direção não existe num exame só.
Há uma inversão importante nesta página, e ela é o que separa quem lê o exame de quem entende a doença: nas hepatopatias graves, a queda da transaminase pode ser boa notícia ou pode ser o fígado acabando. É a bilirrubina e a coagulação que dizem qual das duas.
Esperado: Queda progressiva. No escore de causalidade, uma queda de 50% ou mais em oito dias após a suspensão é considerada altamente sugestiva no padrão hepatocelular; no padrão colestático, a referência de queda de 50% é medida em até 180 dias, porque a fosfatase alcalina precisa ser sintetizada e demora a normalizar
Se não melhora: A ausência de queda imediata após suspender um fármaco não exclui lesão medicamentosa, sobretudo na colestase. Rever gravidade, tempo de exposição e suspensão, outros agentes e diagnósticos alternativos. Alguns fármacos, como amoxicilina-clavulanato, podem causar apresentação tardia semanas após o término; não descartá-los apenas por ultrapassar 15 ou 30 dias.
Esperado: Pico precoce, muito alto, seguido de queda rápida assim que a perfusão é restabelecida. É a curva mais característica do painel: sobe a milhares em horas e cai a milhares em dias
Se não melhora: Transaminase que não cai com o paciente hemodinamicamente estabilizado desmente o diagnóstico de fígado de choque e obriga a procurar segunda causa — tóxica, medicamentosa ou vascular. Nesse cenário, o exame que decide a gravidade deixa de ser a enzima e passa a ser a coagulação
Esperado: Estabilidade ou queda. É o parâmetro mais sensível de síntese hepática, porque os fatores duram horas a poucos dias, e é o que responde primeiro a uma piora
Se não melhora: Alargamento progressivo sem varfarina, heparina, coagulação intravascular disseminada ou hipotermia é falência de síntese e muda o caso de andar. Antes de concluir, considere deficiência de vitamina K ou esteatorreia, que são as causas habituais fora de doença hepática; a dosagem do fator V, que não depende de vitamina K, é o exame que separa as duas hipóteses
Esperado: Estabilidade. O que importa aqui não é o grau absoluto, e sim a comparação com a avaliação anterior — inversão do ciclo do sono, desatenção, lentificação e asterixe aparecem antes de qualquer rebaixamento evidente
Se não melhora: Qualquer piora, mesmo sutil, em paciente ictérico sem hepatopatia prévia, é gatilho de telefonema imediato e não de nova coleta. Antes de atribuir ao fígado, cheque glicemia capilar, sódio, sedativo prescrito e infecção — mas cheque enquanto liga, e não antes de ligar
Esperado: Queda lenta e atrasada em relação às aminotransferases, porque a fosfatase alcalina depende de síntese e a bilirrubina depende de depuração. Não esperar normalização rápida evita reintervenção desnecessária
Se não melhora: Fosfatase alcalina e bilirrubina que continuam subindo depois de imagem normal deslocam a investigação para causas intra-hepáticas — lesão por fármaco, doenças colestáticas crônicas, doenças infiltrativas, sepse e nutrição parenteral. O manejo das colestáticas crônicas não é deste capítulo, e o ácido ursodesoxicólico consta do Componente Especializado vinculado ao protocolo de colangite biliar primária
Esperado: Normalização ou queda. A maior parte das elevações discretas isoladas não persiste, e a repetição resolve o caso sem exame nenhum
Se não melhora: Elevação que persiste em duas coletas separadas merece investigação mesmo sendo pequena, e é essa que se associa a mortalidade por doença hepática em população sem fator de risco identificável. O contrário também vale: valor normal não exclui doença, porque fibrose avançada e cirrose convivem com aminotransferase normal em parte dos portadores de hepatite C e de hemocromatose
Esperado: Numa recuperação verdadeira, as três se movem no mesmo sentido: transaminase cai, bilirrubina cai depois, coagulação normaliza
Se não melhora: Queda da transaminase com bilirrubina e relação normatizada internacional subindo é o padrão que não pode ser lido como melhora. A leitura correta é que resta menos célula para liberar enzima, e essa é a leitura deste capítulo, não a citação de um documento: o que a diretriz afirma é que falência hepática aguda exige avaliação imediata independentemente do valor da alanina aminotransferase. Diante desse cruzamento, telefone antes de repetir
Onde o erro machuca
O dano: Erra a classe em bloco, e sempre para o mesmo lado. As duas enzimas têm limites de normalidade muito diferentes, e a razão crua vale a razão R multiplicada pela razão entre os limites — com 40 e 120 U/L, um terço. Um corte de 2 aplicado ao valor cru equivale a um corte de 6 na razão R, de modo que a faixa mista inteira e uma parte da hepatocelular são rotuladas como colestáticas. No painel de dona Nizete, a razão crua dá 1,92 e a razão R dá 5,76: colestático contra hepatocelular, com os mesmos dois números.
Como pegar a tempo: Divida cada enzima pelo limite impresso no laudo daquele paciente antes de comparar as duas, e escreva a conta na evolução. Se o laudo não trouxer os limites, ligue para o laboratório e peça: eles são obrigatórios no laudo por norma, e sem eles a classificação não se faz.
O dano: Manda para imagem de vias biliares um paciente cujo problema está no osso, na placenta ou no intestino, e — pior — coloca um número de origem extra-hepática dentro da conta do padrão, distorcendo a classificação de todo o painel. Adolescente em crescimento, gestante de terceiro trimestre, doença óssea metabólica e metástase óssea produzem esse resultado com frequência.
Como pegar a tempo: Antes de qualquer conclusão, cheque a gama-glutamil transferase no mesmo painel. Se ela estiver normal, peça o fracionamento das isoenzimas da fosfatase alcalina. Em gestante, use a faixa da gestação e lembre-se de que, na colestase gravídica, a gama-glutamil transferase costuma estar normal — ali a confirmadora habitual falha por desenho.
O dano: Junta duas doenças opostas no mesmo número. Uma bilirrubina de 6 mg/dL com predomínio indireto é um caso hematológico; a mesma bilirrubina de 6 com predomínio direto é hepatobiliar e pode precisar de imagem hoje. Decidir sobre o total é decidir sem saber de que lado do hepatócito está o problema, e é o erro que mais gera investigação na direção errada.
Como pegar a tempo: Sempre que o laudo trouxer apenas o total elevado, peça o fracionamento antes de qualquer outro exame. Guarde as duas âncoras: hemólise raramente ultrapassa 5 mg/dL sem doença renal, hepática ou hemólise aguda intensa associadas; e indireta abaixo de 4 mg/dL com enzimas normais em assintomático encerra a investigação como síndrome de Gilbert.
O dano: É o erro mais grave possível com este painel, e ele acontece porque a atenção fica presa ao número maior da tela. Falência hepática aguda se define por alargamento do tempo de protrombina com encefalopatia, em paciente sem hepatopatia prévia, e exige avaliação imediata independentemente do valor da alanina aminotransferase. A régua brasileira de urgência máxima também não contém transaminase nenhuma: ela lê icterícia, tempo, consciência e coagulação.
Como pegar a tempo: Em todo paciente ictérico, olhe a relação normatizada internacional e o nível de consciência antes de olhar a aminotransferase, e telefone com base neles. E registre o nível de consciência da primeira avaliação: sem ele, a piora da segunda não existe no prontuário.
O dano: Todo critério relevante sobre estes exames é expresso em múltiplos, e o número multiplicado é escolha de cada laboratório. Com limites de 29 e de 40 U/L, cinco vezes o limite significa 145 e 200 U/L. Um paciente em esquema para tuberculose com alanina de 160 U/L está acima do corte de suspensão num serviço e abaixo no outro, com a mesma amostra e a mesma doença.
Como pegar a tempo: Faça a conta com o número do laudo do paciente, cada vez, e escreva o resultado por extenso: alanina em tantas vezes o limite deste laboratório. Quando comparar dois exames de laboratórios diferentes, compare múltiplos e tendências, nunca valores absolutos.
O dano: Gasta o exame caro na direção errada duas vezes. Uma faixa de referência de 95% deixa, por construção, 5 de cada 100 pessoas saudáveis fora dela, e um painel de cinco a sete linhas produz achados isolados com frequência alta em gente sem doença. Enquanto isso, a alanina aminotransferase repetidamente entre 60 e 120 num paciente assintomático — que é a que se associa a mortalidade por doença hepática — costuma ser arquivada como sem importância.
Como pegar a tempo: Diante de alteração limítrofe única em paciente estável, repita em duas a quatro semanas, nas mesmas condições, e compare. Diante da mesma alteração pequena confirmada numa segunda coleta, investigue, mesmo que ela continue pequena. E não conclua o contrário: provas hepáticas normais não excluem fibrose avançada nem cirrose.
O que dizer ao paciente e à família
Provas hepáticas alteradas produzem uma conversa específica, porque quase todo paciente já ouviu falar em cirrose e em fígado gordo, e porque o resultado costuma chegar ao celular antes de chegar ao médico. As falas abaixo são para dizer, não para adaptar.
Paciente assintomático que chega com o exame no celular, um valor discretamente alto, tudo marcado em vermelho
“Esse valor marcado em vermelho está pouco acima da faixa, e sozinho ele quase nunca significa doença. Essa faixa é construída para caber 95 de cada 100 pessoas saudáveis, o que quer dizer que 5 em cada 100 pessoas sem nada ficam fora dela. Como esse exame tem várias linhas, é muito comum uma cair fora sem motivo. O que decide não é a marca vermelha: é se a alteração se repete. Vou pedir para o senhor repetir daqui a três semanas, sem jejum prolongado, sem exercício pesado na véspera e sem bebida nos três dias antes, e aí a gente compara.”
Não diga: Está tudo normal. Não está, e negar o que está impresso destrói a confiança na conversa seguinte — que é justamente a em que você pode precisar dizer que agora mudou.
Paciente que pergunta se o exame alterado quer dizer que o fígado está funcionando mal
“Esses exames não medem se o fígado está funcionando. Eles medem duas outras coisas: se as células do fígado estão sendo agredidas e se a bile está conseguindo sair. Quem mede o funcionamento é o exame de coagulação e a albumina, e os do senhor estão assim. É por isso que eu me preocupo menos com o número grande que o senhor está vendo aí, e mais com esses dois outros — eles é que dizem se dá para acompanhar em casa ou não.”
Não diga: Está com as enzimas do fígado alteradas. É uma frase que não informa nada e que o paciente traduz sozinho, quase sempre para cirrose.
Paciente que bebe e minimiza quando perguntado
“Eu preciso do número, não de uma impressão, e não é para julgar: é porque o padrão do exame muda com álcool, e se eu não souber a quantidade eu posso interpretar errado e investigar a coisa errada. Quantas doses por semana, contando final de semana? E desde quando nesse ritmo? Se me disser hoje, eu leio esse exame direito. Se me disser daqui a duas semanas, eu já vou ter pedido exames que talvez não precisassem.”
Não diga: Perguntar apenas se bebe, e aceitar socialmente como resposta. Consumo se registra em quantidade e em tempo, porque é assim que ele entra na leitura.
Paciente que toma um chá em cápsula ou um produto para emagrecer e não considera isso remédio
“Preciso ver tudo o que a senhora tem tomado nos últimos três meses, inclusive o que não é receitado: chá em cápsula, produto de farmácia de manipulação, suplemento, comprimido para dor que a senhora compra sozinha. Vários desses podem alterar o fígado exatamente assim, e alguns dos mais associados a isso são vendidos como naturais. Traga as embalagens na próxima consulta, todas, mesmo as que a senhora achar que não têm nada a ver.”
Não diga: Perguntar se usa medicação e parar aí. O paciente responde honestamente sobre o que ele classifica como medicação — e chá, suplemento e analgésico de venda livre não entram nessa classificação.
Familiar de paciente ictérico que está começando a ficar confuso
“A senhora reparou certo, e essa mudança é a informação mais importante que eu recebi hoje — mais do que qualquer número do exame. Quando o fígado adoece de forma grave e rápida, o primeiro sinal costuma ser exatamente esse: a pessoa fica mais lenta, troca o dia pela noite, não termina as frases. Por causa disso eu vou pedir uma vaga em leito monitorado e vou falar agora com o serviço que cuida de fígado. Não é porque piorou de repente: é para não deixar piorar antes de a gente estar preparado.”
Não diga: Deixar a família com a impressão de que o valor de transaminase é o que está sendo acompanhado. Nesse cenário, o que muda a conduta é a consciência e a coagulação, e dizer isso evita que a próxima piora seja subnotificada em casa.
Paciente em tratamento de tuberculose que teve transaminase alterada e quer saber se vai parar o remédio
“Existe uma regra nacional para isso, e ela não é uma opinião minha: o tratamento se interrompe quando essas enzimas passam de certo número de vezes o limite do laboratório, e esse número muda conforme o senhor tenha ou não sintomas. Hoje o seu está aqui, e por isso a conduta é esta. Vamos repetir o exame em poucos dias e a decisão vai ser tomada com os dois resultados, não com um. Se precisar parar, não é para sempre e não é fracasso do tratamento — existe uma sequência de reintrodução.”
Não diga: Dizer que está tudo bem enquanto o valor caminha, ou suspender por conta própria sem envolver quem conduz o tratamento. A condução do esquema é do serviço que acompanha a tuberculose.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
O limite verdadeiramente saudável, mais baixo que o do laudo — diretriz do American College of Gastroenterology sobre provas hepáticas alteradas, 2017
Sustenta que o valor verdadeiramente normal de alanina aminotransferase, medido em populações estudadas prospectivamente sem fator de risco identificável para doença hepática, está entre 29 e 33 UI/L para homens e entre 19 e 25 UI/L para mulheres, e que valores acima disso devem ser avaliados pelo médico. A base são estudos que propuseram limites entre 29 e 33 no homem e entre 19 e 25 na mulher, incluindo a proposta de 30 e 19 publicada em 2002. O argumento é de desfecho: alanina aminotransferase acima do limite, em população sem fator de risco, associa-se a maior mortalidade por doença hepática, e limites de laudo mais altos deixam passar doença.
Kwo PY, Cohen SM, Lim JK. ACG Clinical Guideline: Evaluation of Abnormal Liver Chemistries. American Journal of Gastroenterology, 2017;112(1):18-35, afirmações-resumo sobre valores verdadeiramente normais e tabela de propostas de limite.
O limite impresso pelo laboratório que assinou o laudo — moldura normativa brasileira, RDC nº 978, de 6 de junho de 2025
A norma brasileira em vigor obriga o serviço de análises clínicas a incluir no laudo os valores de referência, as limitações técnicas da metodologia e os dados para interpretação, e não determina quais devem ser esses valores. Nenhum documento brasileiro em vigor adotou o limite mais baixo, e os protocolos federais que usam aminotransferase continuam escrevendo múltiplos do limite superior da normalidade sem fixá-lo. Some-se a isso que a própria diretriz americana recomenda apoiar-se nos limites do laboratório local para fosfatase alcalina e bilirrubina, o que mostra que a régua do laudo não é rejeitada em bloco. Na prática brasileira, portanto, o limite operante é o que está impresso — e é ele que os critérios federais multiplicam.
Brasil. Anvisa. RDC nº 978, de 6 de junho de 2025, art. 167, inciso X; e Manual de Recomendações para o Controle da Tuberculose no Brasil, 2ª edição atualizada, Quadro 24, que usa múltiplos do limite superior da normalidade sem defini-lo numericamente.
Para o paciente à frente, use os dois limites e diga qual está usando. Faça a conta do padrão e da magnitude com o limite impresso no laudo dele, porque é esse que os critérios federais multiplicam e é sobre ele que a decisão de suspender fármaco será auditada. Em paralelo, se a alanina aminotransferase estiver acima da faixa de 29 a 33 no homem ou de 19 a 25 na mulher, mesmo que dentro da faixa impressa, não escreva normal: escreva o valor, marque para repetir em duas a quatro semanas e compare. A alteração que decide é a que persiste, e essa conduta não depende de qual dos dois lados estiver certo.
Razão normalizada pelos limites — diretriz do American College of Gastroenterology, 2017, atribuindo-a ao consenso internacional de causalidade em lesão hepática por droga
Define a razão R como a alanina aminotransferase dividida pelo seu limite superior, dividida pela fosfatase alcalina dividida pelo limite superior dela, e classifica acima de 5 como hepatocelular, abaixo de 2 como colestático e entre 2 e 5 como misto. A justificativa é de escala: as duas enzimas têm limites muito diferentes, e sem normalizar cada uma pelo próprio limite a comparação mistura grandezas.
Kwo PY, Cohen SM, Lim JK. ACG Clinical Guideline: Evaluation of Abnormal Liver Chemistries. American Journal of Gastroenterology, 2017;112(1):18-35, seção sobre padrões de lesão.
Razão entre os valores, como escrita no manual brasileiro — Manual de Condutas em Doenças Colestáticas e Autoimunes do Fígado, Sociedade Brasileira de Hepatologia, 2019
No capítulo de colestase por drogas, o documento brasileiro descreve a lesão colestática induzida por droga como predomínio de elevação da fosfatase alcalina, em geral superior a duas vezes o limite superior, e uma relação alanina aminotransferase sobre fosfatase alcalina menor que 2 — escrevendo a razão sem mencionar limite dentro dela, embora o mesmo manual, no capítulo de hepatite autoimune, escreva a razão análoga explicitamente como razão do aumento em número de vezes do limite superior. As duas redações convivem na mesma obra, e a primeira é a que circula na prática brasileira.
Bittencourt PL, Couto CA (orgs.). Manual de Condutas em Doenças Colestáticas e Autoimunes do Fígado. Sociedade Brasileira de Hepatologia, 2019, capítulo 4 (colestase por drogas) e capítulo 10 (hepatite autoimune).
Calcule as duas e diga qual usou, porque elas não coincidem: com limites de 40 e 120 U/L, a razão crua vale um terço da razão R, e um corte de 2 sobre o valor cru corresponde a um corte de 6 na razão R. Para decidir o exame seguinte do paciente, o que importa é a pergunta e não o rótulo: se houver qualquer componente colestático — fosfatase alcalina acima de 1,5 vez o limite, gama-glutamil transferase acompanhando, bilirrubina direta elevada —, peça a imagem das vias biliares, qualquer que seja a razão. E se houver componente hepatocelular expressivo, faça a bateria etiológica. Nas duas réguas, o paciente misto faz os dois caminhos, e é por isso que rotular menos e pedir os dois exames erra menos.
A letra da norma brasileira em vigor — Regulamento Técnico do Sistema Nacional de Transplantes, art. 130, § 1º, inciso I, republicado em 21 de janeiro de 2026
No parágrafo dos pacientes que ingeriram acetaminofeno, o texto une as duas condições pela conjunção e: pH arterial menor que 7,3, independentemente do grau de encefalopatia, e tempo de protrombina maior que 100 segundos ou relação normatizada internacional acima de 6,5 com creatinina acima de 3,4 mg/dL em pacientes com encefalopatia III ou IV. No parágrafo imediatamente seguinte, sobre pacientes sem ingestão de acetaminofeno, as condições análogas são unidas por ou. A técnica legislativa brasileira usa e para item cumulativo e ou para item alternativo, e a norma emprega as duas conjunções em parágrafos vizinhos do mesmo artigo.
Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 8.041, de 25 de setembro de 2025, republicada em 21 de janeiro de 2026, Anexo I-A, art. 130, § 1º, incisos I e II.
O critério nomeado pela própria norma — critérios do King's College Hospital, citados no caput do parágrafo
Os critérios do King's College para intoxicação por acetaminofeno são clássicos de leitura alternativa: o pH arterial abaixo do corte, isoladamente, é suficiente; e, alternativamente, a combinação de tempo de protrombina alargado, creatinina elevada e encefalopatia de grau III ou IV também é suficiente. Nessa leitura, exigir as duas condições simultaneamente tornaria o critério brasileiro mais restritivo do que o critério que a norma diz adotar, e excluiria da urgência máxima o paciente que preenche apenas o braço do pH.
Critérios do King's College Hospital, nomeados no próprio art. 130, § 1º, do Regulamento Técnico do Sistema Nacional de Transplantes; a formulação original não foi consultada em primeira mão neste capítulo.
Não decida isso no plantão, e não deixe que a dúvida atrase o telefonema. O interno não pontua critério de transplante: quem pontua é a equipe transplantadora, e a inscrição em urgência máxima passa pela Central Estadual de Transplantes. O que decide a sua conduta é a definição do artigo 146 — encefalopatia até doze semanas depois do início da icterícia, em paciente sem hepatopatia prévia — e essa não tem conjunção ambígua nenhuma. Preenchida essa definição, acione o especialista em fígado e o serviço de referência, informe todos os valores, e deixe a leitura da conjunção para quem faz a inscrição.
O raciocínio, em voz alta
Volte a dona Nizete Ramalhoso, 58 anos, zeladora de um prédio residencial, no pronto-socorro clínico às 15h20 de uma quinta-feira. Ictérica há cinco dias, colúria há uma semana, sem dor, sem febre, sem vômito, lúcida e orientada. Pressão 124 por 78, frequência 88, temperatura 36,4 °C, abdome sem dor à palpação e sem massa. Painel colhido às 12h10 e liberado às 14h55, com os limites impressos do laboratório entre parênteses: aspartato aminotransferase 402 U/L (10 a 34); alanina aminotransferase 480 U/L (10 a 40); fosfatase alcalina 250 U/L (40 a 120); gama-glutamil transferase 310 U/L (8 a 50); bilirrubina total 7,4 mg/dL (0,2 a 1,2), com fração direta de 5,9. Na história, tomou amoxicilina com clavulanato por dez dias para um abscesso dentário, terminados há três semanas, e toma há sete semanas uma cápsula de chá verde comprada pela internet para emagrecer, que continua tomando. Bebe cerveja em festa de família, algumas vezes por ano. Não tem exame hepático anterior no sistema.
passo 1 — separar as cinco linhas, e ver o que falta
Lesão de célula: aspartato 402 e alanina 480. Obstrução de fluxo: fosfatase alcalina 250 e gama-glutamil transferase 310. Bilirrubina 7,4, fracionada, com 5,9 de direta — ou seja, 80% do total é conjugada. As cinco linhas estão alteradas, o que é frequente e não ajuda. O que ajuda é notar o que não veio: não há albumina e não há coagulograma nesta folha, e essa paciente está ictérica. O primeiro ato, antes de qualquer interpretação, é acrescentar os dois ao pedido — a relação normatizada internacional de hoje é o que vai permitir comparar com a de amanhã.
passo 2 — confirmar a origem antes de classificar
A fosfatase alcalina de 250 é do fígado? A gama-glutamil transferase está em 310, muito acima do limite de 50, e acompanha: origem hepatobiliar favorecida, sem necessidade de fracionar isoenzimas. Do outro lado, a aspartato de 402 tem alanina proporcional de 480, o que favorece origem hepática, sem excluir lesões associadas em outros tecidos — e a razão entre as duas é de 0,84, longe do padrão de pelo menos 2 para 1 que apontaria álcool. O consumo relatado é ocasional e coerente com isso. Nada aqui pede creatinofosfoquinase.
passo 3 — classificar o padrão, com os limites do laudo dela
A conta usa os números impressos naquele papel. Alanina 480 dividida por 40 dá 12,00 vezes o limite. Fosfatase alcalina 250 dividida por 120 dá 2,08 vezes o limite. A razão R é 12,00 dividido por 2,08, ou seja 5,76 — acima de 5, e portanto padrão hepatocelular, embora por pouco. Vale notar o que teria acontecido com o mesmo painel num laboratório cujo limite de alanina fosse 29 em vez de 40: a razão R iria a 7,94, mais confortavelmente hepatocelular, sem que nada tivesse mudado na paciente.
passo 3 continuado — o que as outras duas réguas devolvem, e por que isso importa
R = (480/40)/(250/120) = 5,76, padrão hepatocelular. A divisão crua ALT/FA = 1,92 não é uma segunda régua válida de R: misturar escalas gera classificação errada. FA e GGT elevadas com icterícia conjugada ainda justificam avaliar vias biliares; padrão predominante não exclui componente colestático ou obstrução. Usar a conta correta e integrar todos os achados, sem escolher entre definições incompatíveis.
passo 4 — magnitude e persistência
Alanina em 12 vezes o limite cai na faixa moderada, de 5 a 15 vezes. Com a icterícia recente, isso exige avaliação etiológica pronta e controle de gravidade; o destino depende da clínica e do seguimento. É necessário avaliar as hepatites agudas A, B e C além de tudo o que se investiga abaixo de cinco vezes. Não é a faixa severa e está longe da maciça, o que torna improvável hepatopatia isquêmica e improvável a apresentação clássica do paracetamol — mas improvável não dispensa a pergunta, e ela precisa ser feita de novo, por classe, porque a resposta inicial de quase todo paciente sobre analgésico é incompleta.
passo 5 — fracionar a bilirrubina, que já veio fracionada
Bilirrubina total 7,4 com direta de 5,9: predomínio conjugado, 80% do total. Isso coloca o caso definitivamente na via hepatobiliar e torna hemólise isolada insuficiente para explicar o padrão, sem excluir coexistência — que, além disso, raramente leva a bilirrubina acima de 5 mg/dL sem doença renal ou hepática associada. Predomínio direto significa que a célula conjugou e a bile não saiu, e a escolha entre doença hepatocelular e obstrução é justamente o que o passo 3 deixou em aberto. Mais um motivo para a ultrassonografia.
passo 6 — a função, e a decisão de prazo
Os exames acrescentados voltaram às 17h40: albumina 4,0 g/dL e relação normatizada internacional de 1,1. Ela continua lúcida, orientada no tempo e no espaço, sem asterixe, com glicemia capilar de 96. Este é o dado que muda tudo, e ele não é nenhum dos cinco números que estavam na tela às 15h20: a síntese hepática está preservada. Dona Nizete não é insuficiência hepática aguda, e não precisa do telefonema para o serviço de transplante. Precisa, isso sim, de imagem de vias biliares ainda hoje, por causa do componente colestático, e de reavaliação com painel novo em 48 a 72 horas.
o que fica escrito, e o que fica suspenso
Na evolução: icterícia há cinco dias, sem dor e sem febre; padrão hepatocelular pela razão R de 5,76 calculada com os limites deste laudo, com componente colestático relevante — fosfatase alcalina em 2,08 e gama-glutamil transferase em 6,2 vezes o limite; magnitude moderada, alanina em 12 vezes; bilirrubina de predomínio direto; síntese preservada, com relação normatizada internacional de 1,1 e albumina de 4,0; consciência normal. Solicitadas ultrassonografia de abdome superior e sorologias para hepatites A, B e C. Suspenso hoje o chá verde em cápsula, com a data anotada, porque é o único agente ainda em uso e é dos suplementos associados a lesão hepática. A amoxicilina-clavulanato permanece entre as suspeitas: encerramento há três semanas é compatível com apresentação tardia de DILI. Não atribuir definitivamente ao chá verde apenas por ele continuar em uso. Atribuir a lesão a um agente definitivo é tarefa de quem vai acompanhar; o que este plantão entrega é o padrão, a magnitude, a função preservada, um agente suspenso com data e uma imagem pedida.
Faça você
Agora é a maca 6, às 19h50 de um sábado, no mesmo pronto-socorro. Adonias Frizzo tem 41 anos, é operador de empilhadeira, e chega trazido pela esposa, que fala por ele: está amarelo há nove dias, procurou a unidade básica no quarto dia, saiu com um pedido de exames que ele não chegou a fazer, e desde ontem 'está trocando as palavras'. Hoje dormiu a tarde inteira e acordou sem saber que dia era. Não tem doença hepática conhecida, não faz uso de álcool além de raras ocasiões, não é diabético. Tomou nimesulida por conta própria e uma fórmula manipulada para dor nas costas durante cerca de três semanas, e parou as duas há doze dias, quando começou a ficar amarelo. Ao exame: acordado, abre os olhos ao chamado, responde devagar, erra a data e o local, sem déficit focal, com tremor grosseiro das mãos quando estende os braços. Pressão 108 por 64, frequência 96, temperatura 36,1 °C, saturação 97%, glicemia capilar 62 mg/dL. Painel colhido às 20h10, mesmo laboratório e mesmos limites impressos do caso anterior: aspartato aminotransferase 130 U/L; alanina aminotransferase 92 U/L; fosfatase alcalina 190 U/L; gama-glutamil transferase 260 U/L; bilirrubina total 14,8 mg/dL com fração direta de 11,2; albumina 3,1 g/dL; relação normatizada internacional 2,4; plaquetas 156.000 por mm³; creatinina 1,1 mg/dL. Sorologias virais colhidas e pendentes.
passos 1 a 3 — o que a rotina classificaria, e por que isso não resolve este caso
Rode a ordem e faça a conta. Alanina 92 dividida por 40 dá 2,30 vezes o limite. Fosfatase alcalina 190 dividida por 120 dá 1,58 vez o limite. A razão R é 2,30 dividido por 1,58, ou seja 1,45 — abaixo de 2, padrão colestático. A magnitude da alanina cai na faixa leve, de 2 a 5 vezes. Um plantão que parasse aqui teria um paciente de padrão colestático com elevação leve, que soa como caso de imagem e retorno. Guarde essas duas conclusões e continue: elas estão aritmeticamente corretas e clinicamente irrelevantes neste paciente, e a razão disso é o item seguinte.
passo 4, o que a magnitude esconde numa curva já descendente
ALT 92 em uma única coleta não demonstra que houve pico anterior ou curva descendente. A combinação com icterícia intensa, INR 2,4 e alteração de consciência é grave independentemente da enzima. Se houver exames seriados, queda de aminotransferases pode acompanhar recuperação ou perda de massa hepatocitária; bilirrubina pode atrasar na recuperação. Acompanhar sobretudo consciência, INR, glicemia, lactato/rim e trajetória clínica.
passo 6, o que decide — e uma conta que não é a do padrão
Suspeitar de insuficiência hepática aguda diante de lesão recente, INR ≥1,5 e encefalopatia atribuível ao fígado, geralmente com evolução <26 semanas e sem cirrose prévia. Corrigir hipoglicemia e investigar causas de rebaixamento em paralelo. Mesmo sem encefalopatia, coagulopatia em hepatite aguda exige avaliação urgente. Não esperar critérios prognósticos de transplante, sorologias ou aminotransferases muito altas para envolver hepatologia/centro transplantador. Adonias tem glicemia 62: corrigir de imediato e reavaliar consciência, sem suspender a avaliação hepática. Os critérios de King’s College são prognósticos e de discussão especializada, não condição para transferência. Reconstrua datas de icterícia, medicamentos e confusão com a esposa, porque a vinheta não permite assumir intervalos exatos.
Ver como fecharíamos
Suspeitar de insuficiência hepática aguda diante de lesão recente, INR ≥1,5 e encefalopatia atribuível ao fígado, geralmente com evolução <26 semanas e sem cirrose prévia. Corrigir hipoglicemia e investigar causas de rebaixamento em paralelo. Mesmo sem encefalopatia, coagulopatia em hepatite aguda exige avaliação urgente. Não esperar critérios prognósticos de transplante, sorologias ou aminotransferases muito altas para envolver hepatologia/centro transplantador. Neste caso, corrigir prontamente a hipoglicemia com glicose pela via apropriada e controlar em intervalo curto, pois pode recorrer. Reavaliar consciência, via aérea e ventilação. Se a confusão persistir, a associação com INR 2,4 e lesão recente é compatível com falência hepática aguda; melhora após glicose também não torna o INR irrelevante. Solicitar avaliação intensiva e contato precoce com centro de referência. Rever paracetamol e demais componentes da fórmula, tóxicos e suplementos; pesquisar etiologias virais, autoimunes, vasculares e outras conforme história. Suspender agentes suspeitos não essenciais, sem reexposição. A cronologia precisa ser esclarecida: icterícia relatada há nove dias e retirada há doze dias não permitem afirmar que a lesão começou doze dias após parar. N-acetilcisteína deve ser considerada prontamente na suspeita de paracetamol e discutida com especialista em falência não relacionada ao paracetamol. Monitorar glicose, INR, eletrólitos, função renal, perfusão e nível de consciência; tratar complicações e organizar transferência segura. Não transfundir plasma apenas para normalizar INR sem indicação hemostática, pois pode causar sobrecarga e dificultar acompanhar a síntese. O padrão R 1,45 e ALT 2,3 vezes o limite não reduzem a urgência. King’s College não é pontuação para esperar deterioração: idade >40 é um item, mas intervalo icterícia–encefalopatia e etiologia precisam ser confirmados. A equipe de transplante integra critérios, evolução e causas potencialmente reversíveis. O aprendizado central é reconhecer disfunção hepática grave mesmo com enzimas modestas e tratar problemas reversíveis enquanto solicita ajuda.
Suspeitar de insuficiência hepática aguda diante de lesão recente, INR ≥1,5 e encefalopatia atribuível ao fígado, geralmente com evolução <26 semanas e sem cirrose prévia. Corrigir hipoglicemia e investigar causas de rebaixamento em paralelo. Mesmo sem encefalopatia, coagulopatia em hepatite aguda exige avaliação urgente. Não esperar critérios prognósticos de transplante, sorologias ou aminotransferases muito altas para envolver hepatologia/centro transplantador. A glicemia 62 pode contribuir para o rebaixamento e exige correção imediata. Uma coleta de ALT 92 não prova pico anterior ou perda extensa de hepatócitos. INR 2,4 com encefalopatia suspeita demanda atendimento urgente; INR 6,5 não é limiar de início do cuidado.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Refaça a razão R de Nizete e mantenha hipóteses para amoxicilina-clavulanato e suplemento, explicando como investigar.
Em 30 dias
Organize os primeiros cuidados de Adonias e explique por que não se espera preencher critério prognóstico de transplante para transferir.
Agora atenda
Agora atenda: mulher de 63 anos, hipertensa, internada há oito dias por celulite em membro inferior, em uso de antibiótico endovenoso desde a admissão e de sinvastatina em casa. Está afebril há três dias e a perna melhorou. No exame de rotina da manhã, o painel hepático — que ninguém tinha pedido antes — volta com aspartato aminotransferase 68 U/L, alanina aminotransferase 54 U/L, fosfatase alcalina 410 U/L, gama-glutamil transferase 38 U/L, bilirrubina total 0,9 mg/dL. Os limites impressos são os mesmos: 10 a 34, 10 a 40, 40 a 120, 8 a 50 e 0,2 a 1,2. Ela não está ictérica, não tem dor abdominal e caminha até o banheiro sozinha. A residente passa pelo posto e diz que isso é colestase pelo antibiótico e que é para suspender. Faça a leitura inteira desde o início: percorra os seis passos na ordem, decida se essa fosfatase alcalina é hepática antes de classificar qualquer padrão, calcule a razão R e diga se ela vale neste caso, defina o que você pede antes de mexer na prescrição e escreva o que vai na evolução.
