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Anafilaxia e choque anafilático no pronto-socorro
O tratamento custa poucos reais, está na gaveta da sala e reverte o quadro em minutos. Mesmo assim, o que se dá primeiro costuma ser anti-histamínico e corticoide, que não salvam ninguém. Reconhecer sem esperar o quadro completo, aplicar adrenalina intramuscular imediatamente, deitar o paciente, repetir a dose e não dar alta sem plano: é nisso que este capítulo insiste.
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RCUK — Refractory anaphylaxis algorithm
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Menino de 6 anos, 22 kg, chega ao pronto atendimento 25 minutos após ingerir um doce com castanha, com vômitos repetidos, sibilos difusos, sonolência, pressão arterial 76 por 40 e saturação 92%. Você decide aplicar adrenalina intramuscular. A ampola disponível é a padronizada no SUS, de epinefrina 1 mg/mL. Qual volume deve ser aspirado e por qual via?
O paciente que você vai ver
Sete e quarenta da noite, pronto-socorro de hospital geral. Neide Bonfim, 34 anos, auxiliar de limpeza, chegou há uma hora com dor lombar em cólica irradiando para a virilha, sem febre. Foi classificada como amarela, avaliada, e o plantonista prescreveu um anti-inflamatório intramuscular. Ela foi para a sala de medicação, recebeu a injeção e voltou para a cadeira do corredor, esperando a dor passar para ir embora.
Oito minutos depois, ela levanta a mão para a técnica que passa e diz que está com coceira na palma da mão e nas orelhas. A técnica olha, não vê nada, e diz que já vai chamar. Neide fica na cadeira. Dois minutos depois ela se levanta e caminha até o balcão dizendo que está com um bolo na garganta e que a voz está estranha. Quem está no balcão é você.
O que se vê: mulher de pé, apoiada no balcão, falando com voz mais grossa do que se espera, pigarreando entre as frases. Rosto vermelho, olhos lacrimejando. Sem placas na pele, ainda. Ela repete que não é nada, que é só a garganta, e que quer saber quanto tempo falta. Enquanto fala, leva a mão ao abdome, curva o corpo e vomita no chão.
É esse o paciente que a maioria dos internos encontra: nem o livro nem a prova. Não há urticária generalizada, não há hipotensão medida, não há alimento exótico nem picada de abelha. Há uma injeção dada dentro do próprio serviço dez minutos antes, uma mudança de voz que ninguém registrou, prurido palmar que não deixa marca, e um vômito que passa por reação ao remédio para dor.
Enquanto a pergunta ainda é qual seria o diagnóstico, dois relógios já estão correndo. Um é o do mediador circulando: a permeabilidade vascular está aumentando, e o volume que sai do vaso não volta enquanto isso não for revertido. O outro é o da laringe: o edema de mucosa que hoje é rouquidão pode fechar a via aérea em minutos, e não avisa antes.
A droga que interrompe os dois está a três metros dali, dentro de uma gaveta, numa ampola de vidro de um mililitro que custa menos que o almoço da equipe. Não precisa de exame, não precisa de acesso venoso, não precisa de autorização e não tem contraindicação nesse contexto. O que decide o desfecho de Neide não é conhecimento raro: é o intervalo entre a hora em que alguém pensa a palavra anafilaxia e a hora em que a agulha entra na coxa.
Neste momento, na maioria dos serviços do país, o que acontece é outra coisa. Alguém prescreve prometazina intramuscular e hidrocortisona endovenosa, pede um acesso, e a adrenalina fica para depois, para o caso de piorar. Piorar é exatamente o que não se pode esperar.
Quem adoece disso
O retrato brasileiro mais recente vem do Registro Brasileiro de Anafilaxia da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia, que reuniu 237 pacientes de 17 estados entre junho de 2021 e abril de 2023, com mediana de idade de 22 anos e casos do primeiro mês de vida aos 77 anos. Não é uma amostra populacional, e sim uma casuística preenchida por alergistas, mas é o melhor recorte nacional disponível e responde à primeira pergunta prática: quem adoece disso é gente de todas as idades, e não um grupo exótico que o interno reconhece de longe.
Os desencadeantes se separam por idade, e essa separação muda a suspeita à porta. Alimentos responderam por 43,0% do total e predominaram abaixo dos 18 anos, com leite de vaca, ovo, amendoim e castanhas à frente; medicamentos responderam por 26,2% e predominaram no adulto, com anti-inflamatórios não esteroides e antibióticos nas primeiras posições; himenópteros, 21,6%, com formiga, abelha e vespa; látex, 2,5%. Traduzindo para o plantão: diante de criança com quadro agudo depois de uma festa, pense em alimento; diante de adulto que acabou de receber medicação na sala ao lado, pense no que foi injetado.
O tempo é curto e não é negociável. Os sintomas começaram nos primeiros 10 minutos após a exposição em 38,8% dos pacientes e entre 10 e 30 minutos em 44,7%, ou seja, 83,5% dos quadros já estavam instalados em meia hora. Isso tem duas consequências. A primeira é que observar o paciente por alguns minutos depois de uma injeção não é excesso de zelo, é a janela em que a reação aparece. A segunda é que quem recebeu medicação e voltou para o corredor está fora do campo de visão justamente no período de maior risco.
O lugar também importa: 46,8% das reações aconteceram na própria residência, e apenas 15,6% em hospital ou unidade de saúde. A maioria dos pacientes, portanto, começa a reação longe de qualquer profissional, e chega ao pronto-socorro depois de um intervalo em que ninguém fez nada. Isso desloca parte do trabalho do plantonista para a alta: o próximo episódio dessa mesma pessoa vai acontecer na cozinha de casa, e o que vai existir lá é o que tiver sido escrito na receita e explicado na conversa.
O dado que organiza tudo o que vem adiante é o do tratamento. Dos 237 pacientes, 61,1% receberam adrenalina, sendo 52,7% aplicada por profissional de saúde. No mesmo grupo, 87,3% receberam anti-histamínico e 83,1% receberam corticoide. Em outras palavras: a droga que reverte o quadro foi usada menos vezes que as duas que não revertem, e mais de um terço dos pacientes com anafilaxia registrada por um especialista não recebeu a única medicação de primeira linha que existe. Entre crianças e adolescentes o uso na emergência foi ainda menor que entre adultos, 43,4% contra 58,3%.
A série teve um óbito: uma adolescente de 12 anos, após picada de abelha, com alérgeno já conhecido, e o registro é explícito ao dizer que ela não foi tratada com adrenalina. É um caso, e um caso não mede letalidade. Mas descreve com precisão o mecanismo de morte que este capítulo tenta impedir: não é a falta de recurso, não é a falta de diagnóstico difícil, é a droga certa que não foi dada.
Duas outras frequências ajudam a calibrar a suspeita. Manifestações cutâneas apareceram em 220 dos 237 pacientes, o que significa que 17 deles, ou 7,2%, fizeram anafilaxia sem nenhum sinal de pele. Manifestações respiratórias apareceram em 168 dos 237, ou 70,9%; gastrintestinais em 124, ou 52,3%; cardiovasculares em 83, ou 35,0%. Ou seja: a pele é o achado mais frequente, mas exigi-la para o diagnóstico deixa de fora um paciente a cada catorze, e são justamente os quadros que se apresentam por via aérea ou por circulação, que é onde se morre.
Reação bifásica ocorreu em 4,2% da casuística brasileira. O número é menor que o classicamente citado, e as fontes divergem: o guia da Sociedade Brasileira de Pediatria fala em até 10% dos casos entre 8 e 12 horas, e o manual federal de eventos adversos pós-vacinação cita até 23% dos adultos e 11% das crianças. A consequência prática é a mesma nos três: ninguém sai do serviço logo depois de melhorar, e a alta precisa de tempo de observação e de plano escrito.
Por fim, um número de contexto que o interno de cirurgia vai encontrar: a anafilaxia perioperatória ocorre a uma taxa de 15,3 por 100.000 casos, com queda das reações a látex e aumento das reações a antimicrobianos, sobretudo cefazolina. Sob anestesia geral não há queixa de prurido nem de bolo na garganta, e o que aparece primeiro é hipotensão inexplicada, dificuldade de ventilar ou queda súbita da capnografia.
Por que acontece o que acontece
A anafilaxia é a desgranulação maciça e simultânea de mastócitos e basófilos. Na maioria das vezes o gatilho é imunológico e mediado por IgE: o alérgeno se liga a IgE já fixada na superfície dessas células, faz ligação cruzada de receptores e dispara a liberação. Existem também mecanismos imunológicos não mediados por IgE, como os de imunocomplexos com produtos biológicos, e mecanismos não imunológicos, em que a droga ativa o mastócito diretamente, sem sensibilização prévia. Quando nenhum gatilho é encontrado, o quadro é chamado idiopático. Para a conduta da sala isso não muda nada: o conteúdo liberado é o mesmo, o quadro é o mesmo e o tratamento é o mesmo.
Uma consequência importante disso é que a primeira exposição documentada nem sempre é a primeira exposição real, e que a ausência de história de alergia não protege ninguém. Anti-inflamatórios, contrastes iodados e opiáceos podem desencadear reação por ativação direta, sem que o paciente jamais tenha reagido antes. O interno que descarta anafilaxia porque o paciente já tomou aquele remédio outras vezes está usando um argumento que não se sustenta.
O que sai dos grânulos é um conjunto, não uma substância. Histamina, triptase, fator ativador de plaquetas, leucotrienos, prostaglandinas, cininas e ativação de complemento e de coagulação. Guardar essa lista importa por um motivo só, e é o motivo pelo qual o anti-histamínico não resolve anafilaxia: bloquear o receptor H1 desliga uma parte de um dos mediadores, enquanto todos os outros continuam agindo. É a diferença entre fechar uma torneira e fechar o registro.
O efeito desses mediadores sobre o vaso explica o choque. Há vasodilatação arteriolar, que derruba a resistência periférica, e há aumento da permeabilidade capilar, que faz o plasma escapar para o interstício. O resultado é um choque distributivo com um componente de hipovolemia real e rápida: o continente aumentou e o conteúdo saiu do vaso ao mesmo tempo. Por isso o paciente anafilático pode precisar de volume, e por isso o volume sozinho não resolve, já que o vaso continua dilatado e permeável enquanto o mediador estiver agindo.
O mesmo aumento de permeabilidade, aplicado à mucosa da via aérea superior, é o edema de laringe. Ele não obstrui de uma vez: a mucosa incha por etapas, e cada etapa produz um sintoma antes de produzir ruído. É por isso que alteração de voz em contexto compatível é sinal de gravidade, e não queixa menor — o estridor é o último degrau de uma escada que já vinha subindo.
Nos brônquios, os mesmos mediadores produzem broncoconstrição e hipersecreção, e é aqui que a anafilaxia se confunde com asma. A diferença não está no pulmão, e sim no que aconteceu antes: o broncoespasmo da anafilaxia começa minutos depois de uma exposição e vem acompanhado de mediadores agindo em todo o leito vascular, que o broncodilatador não alcança. Tratar esse paciente apenas com beta-2 agonista é tratar o sintoma mais visível do quadro e deixar o mecanismo correndo solto.
No trato gastrintestinal, a contração da musculatura lisa e o edema de mucosa produzem cólica intensa e vômitos repetidos. Esse é o achado que mais se perde, porque vômito depois de comer ou depois de tomar remédio tem mil explicações banais. Em criança pequena, vômito repetido logo após um alimento novo, com ou sem pele, é uma das apresentações mais comuns e uma das que mais demoram a ser nomeadas.
A adrenalina reverte esse conjunto por atuar em receptores diferentes ao mesmo tempo, e é essa amplitude que faz dela a única droga de primeira linha. O efeito alfa-adrenérgico reverte a vasodilatação periférica, diminui o edema de mucosa e a obstrução das vias aéreas superiores e corrige a hipotensão, além de reduzir a urticária e o angioedema. As propriedades beta-adrenérgicas aumentam a contratilidade miocárdica, o débito cardíaco e o fluxo coronariano, produzem broncodilatação e ainda suprimem a liberação de novos mediadores por mastócitos e basófilos. Nenhuma outra classe faz mais de um item dessa lista.
Isso responde por que o corticoide não substitui a adrenalina, e a razão é temporal, não conceitual. O glicocorticoide age modificando transcrição gênica, e o efeito clínico leva horas. Numa reação cuja janela de morte se mede em minutos, uma droga com início de ação em horas não pode ser a primeira. Ela pode ter papel adjuvante depois, e esse papel é objeto de discordância legítima entre documentos, discutida adiante.
A via de administração não é um detalhe de execução, é parte do mecanismo. A adrenalina precisa alcançar concentração plasmática eficaz rapidamente, e isso depende da perfusão do tecido em que ela é depositada. O músculo vasto lateral, na face ântero-lateral do terço médio da coxa, é volumoso, bem perfundido e acessível com o paciente deitado e vestido. O tecido subcutâneo é mal perfundido, e num paciente já vasoconstrito pela própria adrenalina a absorção fica ainda mais lenta e errática. O deltoide é pequeno, e no adulto obeso a agulha frequentemente para no subcutâneo. É por isso que os documentos brasileiros e internacionais convergem em um único ponto anatômico, e por que aplicar no glúteo ou no braço é, na prática, aplicar menos droga mais tarde.
A meia-vida plasmática da adrenalina é curta, de poucos minutos, e o gatilho quase sempre continua presente: o alimento ainda está no tubo digestivo, o antibiótico ainda está no compartimento vascular, o veneno já foi inoculado. A soma dessas duas coisas explica por que repetir a dose a cada 5 a 15 minutos é regra, e não sinal de que a primeira falhou. Esperar mais tempo entre as doses porque o paciente ficou taquicárdico é confundir efeito farmacológico esperado com toxicidade.
Palidez, tremor, ansiedade, palpitação, cefaleia e tontura aparecem em poucos minutos depois de uma dose intramuscular adequada. O manual federal de eventos adversos pós-vacinação e os protocolos do SAMU registram esses efeitos exatamente com esse sentido: eles confirmam que uma dose terapêutica foi administrada. Quem interpreta tremor como intoxicação e suspende a segunda dose está lendo o sinal ao contrário.
Falta o mecanismo da posição, que é o mais contraintuitivo do capítulo e o que mais mata sem deixar rastro. Com o leito vascular dilatado e o plasma extravasando, o retorno venoso já está no limite. Colocar esse paciente sentado ou de pé transfere volume para os membros inferiores e reduz ainda mais a pré-carga; o ventrículo se contrai praticamente vazio, o débito despenca e a perfusão coronariana cai justamente quando o miocárdio está trabalhando em taquicardia. Os protocolos do SAMU 192 nomeiam isso de síndrome da veia cava e do ventrículo vazios e proíbem, com todas as letras, permitir que o paciente sente ou se levante bruscamente ou colocá-lo em posição vertical, pelo risco de morte súbita. O guia da Sociedade Brasileira de Pediatria diz o mesmo de outro jeito: levantar-se ou sentar-se subitamente está associado a desfechos fatais.
Por fim, o paciente em uso de betabloqueador. Com os receptores beta ocupados pelo antagonista, parte do efeito da adrenalina não se realiza: falta o suporte inotrópico e a broncodilatação, e sobra o efeito alfa. Esses pacientes tendem a quadros mais graves e a responder menos. O glucagon contorna o bloqueio porque ativa a adenilato ciclase por um receptor próprio, elevando o AMP cíclico intracelular sem depender do receptor beta. É a única situação do capítulo em que uma droga fora da primeira linha muda mecanismo, e não apenas sintoma.

Como se apresenta de verdade
A distância entre o que o livro descreve e o que entra pela porta é maior aqui do que em quase qualquer outro tema de emergência. O livro descreve urticária generalizada, angioedema de lábios, estridor e pressão arterial de 70 por 40 depois de um camarão. Esse paciente existe, e não é o que atrasa. O que atrasa é o prurido palmar, a voz mudada, o vômito repetido, a sensação de morte iminente, a criança que ficou estranhamente quieta.
Há uma regra de leitura que resolve a maior parte dos casos difíceis: anafilaxia é um quadro agudo, de instalação em minutos a poucas horas, que atinge mais de um sistema ao mesmo tempo, ou que atinge um sistema crítico logo depois de uma exposição plausível. Quem procura essa combinação encontra o quadro antes do estridor. Quem procura placas na pele encontra depois.
Competência ao concluir este capítulo. Reconhecer anafilaxia, administrar adrenalina com segurança e acompanhar resposta e risco após a crise. Ao discutir com o supervisor, separe achados observados, hipótese, risco imediato e plano com reavaliação. A prática deve mostrar o raciocínio que sustenta a decisão, além da execução técnica.
A forma clássica, que não é a que atrasa
Começa em minutos. Prurido que costuma iniciar em palmas, plantas, couro cabeludo e região genital, rubor facial, urticas que aparecem e mudam de lugar, edema de lábios e pálpebras. Junto vem pelo menos mais um sistema: opressão na garganta, dispneia, sibilância, cólica abdominal, vômito, tontura, escurecimento visual. A pessoa costuma dizer alguma versão de que está passando mal de um jeito diferente de tudo, e a sensação de morte iminente é um sintoma descrito, não uma figura de linguagem.
Na casuística brasileira, manifestações cutâneas apareceram em 220 dos 237 pacientes, com urticária em 153 e angioedema em 137. É o achado mais frequente do quadro, e é por isso que ele foi historicamente tratado como se fosse obrigatório. O ponto pedagógico é o oposto: a pele é o sinal mais comum e o menos importante para decidir. Ninguém morre de urticária. Morre-se de via aérea e de circulação.
Um detalhe que muda conduta: a urticária pode aparecer depois da adrenalina, ou aumentar depois dela, e isso não significa falha do tratamento. Novas urticas ou eritema isolados, sem qualquer outro sintoma, depois de uma dose de adrenalina que resolveu o resto, são descritos como situação de observação, não de escalonamento.
A anafilaxia sem urticária, que é onde se perde tempo
Dos 237 pacientes do registro brasileiro, 17 não tiveram nenhuma manifestação cutânea. É um em cada catorze. E não são os casos leves: são justamente os que se apresentam por via aérea ou por circulação, porque foi por ali que o quadro entrou.
O critério diagnóstico atual foi reescrito exatamente para cobrir esse paciente. Basta início agudo de hipotensão, ou de broncoespasmo, ou de envolvimento laríngeo, depois da exposição a um alérgeno conhecido ou altamente provável para aquela pessoa, mesmo na ausência de envolvimento cutâneo típico. Um único sistema, desde que seja um dos três críticos, e desde que haja exposição plausível. Nada de pele, nada de dois sistemas, nada de esperar.
Envolvimento laríngeo, na definição que acompanha o critério, inclui estridor, alteração da voz e odinofagia. Ou seja: o paciente que diz que a garganta está fechando e cuja voz mudou já preenche o critério, sem uma única placa na pele. Essa frase, sozinha, é metade do valor deste capítulo.
Sob anestesia geral o problema é o mesmo levado ao extremo: o paciente não relata prurido, não fala, está coberto por campos cirúrgicos. O que aparece é hipotensão inexplicada, dificuldade de ventilar com aumento da pressão de pico, queda da capnografia, taquicardia. A anafilaxia perioperatória ocorre a 15,3 por 100.000 casos, com bloqueadores neuromusculares entre as causas mais comuns e aumento relativo dos antimicrobianos, especialmente a cefazolina.
A garganta avisa em quatro tempos, e todos vêm antes do estridor
O edema de laringe é progressivo, e a progressão é observável. Primeiro vem a sensação de bolo, de aperto ou de corpo estranho na garganta, muitas vezes descrita como vontade de pigarrear. Depois vem a mudança da qualidade da voz: mais grossa, abafada, com esforço. Depois a tosse de timbre laríngeo, seca e alta. Só então o estridor, que é ruído de fluxo turbulento passando por uma fenda já estreitada.
Cada um desses degraus vale a mesma decisão: adrenalina agora, e reavaliação da via aérea por quem possa assegurá-la. O erro clássico é tratar os três primeiros como queixa subjetiva e reservar a ação para o estridor. Quando o estridor aparece, a margem para intubar em condições controladas já encolheu, porque o edema continua avançando enquanto se decide.
A regra prática de beira de leito é pedir que a pessoa diga o próprio nome e engula a saliva. Voz alterada, dificuldade de engolir, sialorreia e recusa de deitar são sinais de via aérea ameaçada. Nesse momento a decisão de assegurar a via aérea precisa ser tomada precocemente, com quem tenha competência e material, e antes que o edema torne a laringoscopia impossível; a técnica em si, a escolha de drogas e a sequência rápida de intubação são assunto de capítulo próprio.

Quando o quadro entra pelo abdome
Manifestações gastrintestinais apareceram em 124 dos 237 pacientes brasileiros, e em crianças e adolescentes os vômitos recorrentes foram mais frequentes que nos adultos. Cólica abdominal intensa e vômitos repetidos são, no critério vigente, sintoma gastrintestinal grave e contam como o segundo sistema quando há envolvimento de pele ou mucosa, principalmente após exposição a alérgeno não alimentar.
A armadilha é evidente: vômito depois de comer tem explicação banal em quase todos os casos. O que separa é o tempo e a companhia. Vômito que começa dentro de minutos, acompanhado de rubor, prurido, edema labial ou qualquer sintoma respiratório, em alguém que acabou de ser exposto, é anafilaxia. Vômito isolado, três horas depois, sem mais nada, não é.
Em criança pequena, esse é frequentemente o modo de entrada. E vale registrar o inverso do erro: dor abdominal intensa com vômitos, sem pele e sem exposição identificável, tem uma lista longa de causas que não é esta, e o abdome agudo tem capítulo próprio.
O lactente e a criança pequena
Não há critério diagnóstico próprio validado para essa faixa: a recomendação é usar os mesmos critérios do adulto, com nível de evidência baixo e reconhecimento explícito de que falta consenso. O que muda é a apresentação. Lactentes e crianças pequenas apresentam mais sintomas cutâneos e mais sintomas subjetivos expressos por comportamento, como puxar e arranhar a boca, as orelhas ou a língua, e menos sintomas respiratórios do que crianças maiores.
As alterações comportamentais descritas são retraimento, choro inconsolável, irritabilidade e apego excessivo. Traduzindo para a beira do leito: bebê que ficou diferente logo depois de um alimento novo ou de uma medicação, com rubor, vômito ou coceira, é um bebê que merece a suspeita. A idade não se correlaciona com a gravidade da reação, e a anafilaxia é improvável como reação inicial na primeiríssima exposição a um alimento ou medicamento, o que ajuda a orientar a história, mas nunca a excluir o quadro à beira do leito.
Um alerta prático de execução: a criança pequena tem coxa fina, e agulhas longas demais aumentam o risco de alcançar o osso. O ajuste é de agulha, jamais de via ou de dose.
O idoso, o cardiopata e quem usa betabloqueador
No registro brasileiro, manifestações cardiovasculares apareceram em 8 dos 11 pacientes com 65 anos ou mais, e a hipotensão foi claramente mais frequente nessa faixa. Angioedema, ao contrário, foi menos frequente. O idoso, portanto, tende a se apresentar pela circulação e com menos pistas de pele: uma queda, uma síncope, uma confusão aguda depois de uma medicação nova podem ser a única manifestação visível.
Isso costuma produzir dois erros seguidos. O primeiro é interpretar a hipotensão como sepse, síncope vasovagal ou evento coronariano e não como anafilaxia. O segundo é, depois de suspeitar, hesitar em aplicar adrenalina por causa da idade ou da coronariopatia. A frase que resolve o segundo está escrita em destaque no manual federal de eventos adversos pós-vacinação: não há contraindicação para administração de adrenalina no contexto da anafilaxia. Não há exceção para idoso, para hipertenso, para coronariopata nem para gestante.
O paciente em uso de betabloqueador merece atenção porque tende a quadros mais graves e a responder menos à adrenalina. A conduta não é aplicar menos: é aplicar do mesmo jeito, esperar resposta menor, repetir, e ter o glucagon em mente. Sobre a prevenção, a posição mudou: a contraindicação genérica de betabloqueador e inibidor da enzima conversora de angiotensina em pacientes de risco foi revista, porque grande parte dos estudos antigos usava betabloqueador não seletivo e não considerava a doença cardíaca de base, e porque interromper o tratamento pode trazer mais risco do que a chance de uma anafilaxia mais grave. Desencorajar o uso ficou reservado a situações de risco alto e imprevisível, como alergia alimentar grave, mastocitose e anafilaxia induzida por exercício, sempre com avaliação individual.
O asmático, e a régua que separa anafilaxia de crise asmática
Asma mal controlada é o fator de risco mais consistentemente descrito para desfecho fatal na anafilaxia, e é também a maior fonte de confusão diagnóstica. O asmático que faz broncoespasmo depois de comer um alimento ao qual é alérgico não está tendo uma crise de asma que por acaso começou no almoço: está tendo anafilaxia, e o critério atual o classifica assim mesmo sem pele e sem hipotensão.
A régua prática tem três perguntas. Houve exposição nova, plausível, nos minutos anteriores? Há qualquer outro sistema envolvido, mesmo que discretamente, como prurido, rubor, edema labial, cólica ou tontura? A instalação foi em minutos, sem o pródromo de dias que costuma preceder a exacerbação asmática? Uma resposta afirmativa move o paciente para o caminho da adrenalina intramuscular.
A consequência é assimétrica, e é isso que decide. Tratar uma crise asmática com uma dose de adrenalina intramuscular acrescenta taquicardia e tremor a um paciente que ia receber beta-agonista de qualquer forma. Tratar uma anafilaxia apenas com salbutamol deixa sem tratamento a vasodilatação, o extravasamento e o edema de laringe. O manejo do broncoespasmo isolado, com suas doses e seus critérios de gravidade, é assunto dos capítulos de asma na infância e de crise asmática.
A gestante
A gestante recebe a mesma droga, pela mesma via, na mesma dose. O que muda é a posição: semirreclinada em decúbito lateral esquerdo, com as pernas elevadas, para tirar o peso do útero da veia cava, com pressão arterial e pulso monitorados a cada cinco minutos. Não tratar a gestante com adrenalina por receio do feto inverte a lógica: a hipotensão materna e a hipoxemia são o que compromete o feto, e revertê-las é o tratamento fetal.
A situação em que essa cena mais aparece na atenção primária é a aplicação de penicilina benzatina na gestante com sífilis, cujo contexto, indicação e argumentação com a equipe estão no capítulo de sífilis na gestação. O que aquele capítulo remete para cá é o manejo, e ele está escrito por extenso no bloco de conduta: mesma dose, mesma via, mesma repetição, com a diferença de posição descrita acima e transferência para serviço de urgência depois.
Reação protraída, reação bifásica e cofatores
Nem toda anafilaxia se resolve com uma dose. Algumas são protraídas, persistindo por horas apesar do tratamento, geralmente quando o alérgeno continua sendo absorvido. Outras são bifásicas: o quadro melhora completamente e retorna horas depois, sem nova exposição. Metade das reações bifásicas ocorre nas primeiras 6 a 12 horas; a frequência publicada varia bastante, de 4,2% na casuística brasileira a 10% no guia da Sociedade Brasileira de Pediatria e até 23% dos adultos no manual federal.
O que aumenta o risco de curso bifásico é justamente o atraso na adrenalina, e o uso precoce da droga reduz tanto o risco de reação bifásica quanto o de hospitalização. Ou seja, a mesma conduta que resolve a fase aguda encurta o problema da fase tardia.
Cofatores merecem uma linha porque explicam o paciente que reagiu hoje ao que tolerou ontem. Exercício físico, ingestão de álcool, anti-inflamatórios, infecção em curso, privação de sono, estresse e estado hormonal podem baixar o limiar de uma reação. Na casuística brasileira, 78,9% dos pacientes não tinham cofator identificado, mas 6,3% apontaram exercício e 5,4%, medicamentos. A anafilaxia induzida por exercício dependente de alimento é a forma mais conhecida dessa combinação: o alimento sozinho não desencadeia, o exercício sozinho não desencadeia, os dois juntos desencadeiam.
As portas por onde a anafilaxia entra no serviço
Vale registrar as cenas concretas em que o interno vai encontrar isto, porque reconhecer a cena acelera o reconhecimento do quadro: a sala de medicação minutos depois de um injetável, a sala de vacina, a sala de observação durante a infusão de soro antiveneno, a unidade básica depois da penicilina benzatina, o centro cirúrgico, e o corredor com quem chegou por conta própria depois de comer alguma coisa. Em todas elas a pergunta inicial é a mesma e não depende do agente: quantos sistemas estão envolvidos, há quanto tempo, e houve exposição plausível.
O agente entra depois, e às vezes nunca é identificado: cerca de 10% dos casos permanecem sem agente definido e recebem o rótulo de anafilaxia idiopática, o que não muda nada do tratamento agudo. Rotular alguém como alérgico à penicilina sem qualificar o que aconteceu tem consequências próprias, discutidas no capítulo de faringoamigdalites; o que este capítulo acrescenta é o outro lado da mesma moeda, e ele está no bloco de investigação: quando a reação de fato ocorreu, o registro precisa ser explícito.
Como fechar o diagnóstico
Este é o bloco mais importante da maioria dos capítulos porque é onde se decide qual exame pedir. Aqui ele é o mais importante por um motivo invertido: a decisão é não pedir nada antes de tratar. O diagnóstico de anafilaxia é clínico, não existe marcador definitivo, e nenhum exame disponível na sala de emergência confirma ou afasta o quadro em tempo útil. Todo minuto gasto esperando resultado é minuto sem adrenalina.
O que existe de investigação se divide em três tempos distintos, e confundi-los é a origem de quase todo erro. No tempo da sala, o exame é o exame físico dirigido e nada mais. No tempo das duas horas seguintes, existe um único exame que pode confirmar retrospectivamente o que aconteceu, a triptase sérica, e ele não muda a conduta daquele momento. No tempo do ambulatório, semanas depois, existe a investigação que identifica o agente e evita o próximo episódio, e é ela que muda a vida do paciente.
Critério é ferramenta, não requisito para atrasar cuidado. Pele mais outro sistema precisa ser interpretado pelos critérios completos: nem todo prurido com náusea leve é anafilaxia. Broncoespasmo, hipotensão ou envolvimento laríngeo agudos após alérgeno conhecido ou altamente provável podem caracterizá-la sem lesão cutânea. Triptase aguda, preferencialmente em até duas horas, e basal após recuperação ajudam a investigação; valor normal não exclui anafilaxia, especialmente alimentar, e coleta nunca precede tratamento.
O primeiro exame é o exame, e ele leva vinte segundos
A sequência é a mesma de qualquer paciente grave, com quatro alvos específicos. Via aérea: peça que a pessoa diga o próprio nome e observe a voz; olhe lábios, língua e orofaringe procurando angioedema; verifique se ela consegue engolir a própria saliva. Respiração: frequência respiratória, esforço, sibilos, estridor, oximetria. Circulação: pressão arterial, frequência e qualidade do pulso, tempo de enchimento capilar. Estado mental: sonolência, confusão, agitação e a sensação de morte iminente contam.
A pele é examinada em seguida, e o achado cutâneo, quando presente, é útil porque confirma; quando ausente, não afasta coisa alguma. Junto com isso, uma anamnese de três perguntas, feita enquanto se prepara a medicação: o que entrou no corpo nas últimas horas, por que via, e há quanto tempo. Comida, remédio, injeção, vacina, soro, picada, contraste, látex.
Peso corporal também é dado de avaliação inicial, e não detalhe administrativo: é ele que define a dose. Em criança, se não houver balança utilizável naquele momento, estima-se, e a estimativa é preferível ao atraso.
O que essa avaliação decide não é o diagnóstico etiológico. É a resposta a uma pergunta binária: este quadro preenche um dos dois critérios? Se preenche, o tratamento começa antes de qualquer outra coisa, inclusive antes de conseguir acesso venoso, que não é necessário para a primeira dose.
Os dois critérios, e por que eles são mais largos do que o interno imagina
A anafilaxia é altamente provável quando qualquer um de dois critérios é preenchido. O primeiro exige início agudo, de minutos a algumas horas, com envolvimento simultâneo de pele, de mucosa ou de ambos, mais pelo menos um destes: comprometimento respiratório, queda da pressão arterial ou sintomas de disfunção de órgão-alvo, ou sintomas gastrintestinais graves. O segundo exige apenas início agudo de hipotensão, ou de broncoespasmo, ou de envolvimento laríngeo, após exposição a um alérgeno conhecido ou altamente provável para aquele paciente, mesmo na ausência de envolvimento cutâneo típico.
Três consequências práticas saem daí. Primeira: não é preciso urticária. O critério 2 dispensa a pele inteira. Segunda: não é preciso hipotensão. O critério 1 se fecha com dispneia, com sibilância ou com vômitos repetidos e cólica intensa, sem que a pressão tenha caído um milímetro. Terceira: não é preciso conhecer o agente. O critério 1 não menciona exposição; ele se sustenta apenas na combinação de sistemas e na velocidade de instalação, o que é indispensável, já que cerca de 10% dos casos permanecem sem agente identificado.
A queda de pressão arterial tem definição própria, e vale decorar porque a mais usada é a menos sensível. Considera-se pressão reduzida uma queda maior que 30% em relação à basal daquela pessoa, ou pressão sistólica abaixo de 90 mmHg em adultos e crianças acima de 10 anos, ou pressão sistólica menor que a soma de 70 mmHg com o dobro da idade em anos, em bebês e crianças abaixo de 10 anos. Um adulto jovem que costuma ter 140 de sistólica e chega com 100 teve queda de quase 30% e não está com pressão normal.
A mudança de régua é recente e ainda não chegou a todos os documentos brasileiros de serviço. A versão anterior tinha três critérios, exigia dois ou mais sistemas depois de exposição a alérgeno provável e falava em sintomas gastrintestinais persistentes; a atual juntou os dois primeiros, trocou persistente por grave e criou a porta que dispensa a pele. Documentos federais de urgência ainda em vigor no país trabalham com a régua de três critérios, e protocolos estaduais publicados no mesmo ano de 2024 usam versões diferentes entre si. Esse desencontro tem consequência de beira de leito e está tratado no bloco de divergências.
Triptase: o que ela confirma, o que ela não exclui, e quando colher
A triptase é uma protease liberada pelos mastócitos e é o único biomarcador com utilidade real neste quadro. Ela não serve para decidir o tratamento, porque o resultado não sai a tempo. Serve para três coisas depois: documentar que houve mesmo ativação mastocitária, o que importa em situação de dúvida diagnóstica, em anafilaxia perioperatória e em contexto médico-legal; orientar a investigação de doença mastocitária; e dar ao alergista um dado objetivo sobre um episódio que ele não presenciou.
A cinética define a coleta. O pico ocorre em torno de 30 minutos após o início do quadro e os valores decrescem por volta de 120 minutos. A amostra útil, portanto, é colhida idealmente dentro de duas horas do início dos sintomas, e a coleta nunca justifica atrasar ou interromper o tratamento: aspira-se o tubo enquanto o restante corre.
A leitura exige um segundo tempo. O valor de referência normal é de 11,4 ng/mL, mas o que confirma ativação não é ultrapassar esse número, e sim a comparação com a própria basal do paciente: considera-se elevação significativa um aumento de 20% sobre a triptase basal mais 2 ng/mL. Por isso, um valor agudo isolado vale pouco, e a recomendação é repetir a dosagem depois da recuperação, para obter a basal. Um nível basal acima de 8 ng/mL levanta a hipótese de alfa-triptasemia hereditária, e a triptase basal elevada com anafilaxia por himenópteros, sobretudo com hipotensão e sem urticária, aponta para investigação de mastocitose.
Duas advertências que evitam conclusões erradas. Triptase normal não exclui anafilaxia: na casuística brasileira, apenas 24 dos 237 pacientes chegaram a dosar triptase, e o exame veio elevado em dois. E triptase colhida próximo à morte ou post-mortem pode ser não confiável, porque a isquemia produz elevações inespecíficas. A dosagem de histamina plasmática não é recomendada, porque ela se degrada rápido demais.
No Brasil, o problema anterior a todos esses é a disponibilidade: a triptase não está presente na maioria dos serviços de urgência. Não ter o exame não muda nada do que se faz na hora, e não impede nenhum diagnóstico, porque o diagnóstico é clínico.

O que não pedir, e o preço de pedir
Hemograma, proteína C reativa, eletrólitos, função renal, gasometria e radiografia de tórax não confirmam nem afastam anafilaxia, e nenhum deles muda a primeira conduta. Pedidos antes da adrenalina, custam a única coisa que não se recupera, que é tempo. Pedidos depois, na fase de estabilização, podem ter indicação por outro motivo clínico, e aí não são erro: são outro problema.
Eletrocardiograma tem uma indicação específica e uma armadilha. A indicação é o paciente com dor torácica, arritmia, cardiopatia conhecida ou instabilidade persistente, e nesse caso ele entra depois da adrenalina e junto da monitorização. A armadilha é o eletrocardiograma pedido para autorizar ou desautorizar a adrenalina, como se houvesse traçado que contraindicasse a droga na anafilaxia. Não há.
IgE sérica específica e teste cutâneo não têm lugar no atendimento agudo. A IgE colhida no momento da reação pode vir negativa, e o teste cutâneo imediato deve ser adiado de quatro a seis semanas depois do episódio. Fazer teste cutâneo na urgência não só não informa como pode, por si, desencadear reação.
Teste de sensibilidade antes de administrar soro heterólogo é outra prática que ficou para trás e continua sendo pedida: a realização do teste cutâneo foi excluída há muito tempo da rotina de administração de soros por normas do Ministério da Saúde, porque o valor preditivo é discutível e imprevisível. O contexto completo dos acidentes por animais peçonhentos e da soroterapia está no capítulo próprio; o que interessa aqui é que a segurança da infusão vem da bandeja montada e da vigilância ao lado do leito, não de um teste.
Vale ainda uma nota sobre o que se deixa de pedir por outro motivo: em paciente instável, exames que exigem sair da sala, como tomografia, esperam. Nenhum paciente com via aérea ameaçada atravessa o corredor para fazer imagem.
O diferencial, que se resolve com o mesmo exame
A confusão mais frequente é com a reação vasovagal, e ela se desfaz em dois sinais. Na vasovagal há bradicardia, palidez, sudorese fria e náusea, e não há urticária nem angioedema; na anafilaxia há taquicardia, e bradicardia só aparece em situação pré-terminal. Essa distinção é especialmente útil na sala de vacina e na sala de coleta, onde o desmaio depois da agulha é comum e a anafilaxia é rara.
O angioedema sem urticária e sem prurido, sobretudo de instalação mais lenta e em paciente em uso de inibidor da enzima conversora de angiotensina, ou com história familiar, aponta para angioedema bradicinérgico ou hereditário. Ele não responde à adrenalina, e essa é justamente a informação útil: na dúvida se aplica adrenalina do mesmo jeito, porque o risco de não tratar uma anafilaxia é maior, mas a ausência de resposta muda a hipótese e exige tratamento específico e via aérea vigiada — o tratamento da crise, a suspensão do inibidor e a troca do anti-hipertensivo estão em Urticária e angioedema, na apostila de Imunologia.
As demais hipóteses e o sinal que separa cada uma delas estão na tabela do diferencial, no bloco de fluxos e tabelas. Duas merecem nota aqui porque mudam o raciocínio e não só o rótulo: a escombroidose, quando várias pessoas que comeram o mesmo peixe adoecem juntas com rubor intenso, e as doenças mastocitárias, que entram na lista das reações de repetição sem gatilho encontrado e são problema do ambulatório, não da sala.
A regra que impede a paralisia diagnóstica é assimétrica de propósito. Diante de um quadro agudo multissistêmico após exposição plausível, o custo de aplicar adrenalina intramuscular em quem tinha outra coisa é baixo e transitório; o custo de não aplicar em quem tinha anafilaxia é a morte. Na dúvida, trata-se.
O que existe no SUS, e o que isso muda
A Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024 lista epinefrina em uma única apresentação: solução injetável de 1 mg/mL, no Componente Básico da Assistência Farmacêutica. É a ampola de 1 mL, também chamada de 1:1.000, e é a mesma que está na caixa de emergência da unidade básica, no carrinho do pronto-socorro e na bandeja da sala de vacina. Anafilaxia refratária é persistência de comprometimento respiratório ou circulatório apesar de duas doses IM adequadas. Acionar equipe experiente cedo, manter adrenalina IM a cada cinco minutos enquanto prepara infusão e titular cristaloide à resposta. Adrenalina intravenosa deve ser infusão por bomba em linha exclusiva, com monitorização contínua e protocolo institucional; não ensinar bolus IV de 0,1 mg como escalada habitual. Exemplo RCUK: 1 mg em volume final de 100 mL de solução salina produz 10 microgramas/mL; iniciar 0,5–1 mL/kg/h e titular por resposta, por equipe experiente. Conferir concentração, peso, unidade, bomba e acesso em dupla checagem. Parada cardíaca tem protocolo próprio, distinto da anafilaxia com pulso.
Soro fisiológico a 0,9%, oxigênio, salbutamol em aerossol dosimetrado, hidrocortisona injetável, prometazina e dexclorfeniramina estão padronizados e disponíveis, inclusive na atenção primária. Ou seja: o serviço que atende anafilaxia no Brasil tem tudo o que precisa, e o que falta não é insumo.
Adrenalina de resgate exige verificar disponibilidade e regularização do produto específico no momento da prescrição. Não generalizar uma medida sanitária sobre produto ou lote para todo dispositivo. Autoinjetor, quando legalmente acessível e indicado, requer treinamento prático e plano escrito; se inacessível, organizar alternativa individualizada com alergologia e rede, reconhecendo a maior dificuldade e risco de preparo manual.
Triptase sérica é o exame ausente da maioria dos serviços, e a consequência já foi dita: nenhuma. Teste cutâneo, IgE específica e teste de provocação existem em serviços de alergia e imunologia, e é para lá que o paciente precisa ser encaminhado.
A investigação que começa depois da alta
Identificar o agente é o que evita o próximo episódio, e essa investigação não pertence ao plantão, mas depende dele. O que o plantonista registra no prontuário é a matéria-prima do alergista: o que foi ingerido, aplicado ou inalado, a via, a dose, o horário exato da exposição, o horário do início dos sintomas, a sequência em que os sintomas apareceram, o que foi administrado e a resposta obtida. Uma anotação de uma linha dizendo alergia inespecífica joga fora tudo isso.
No ambulatório, a investigação combina história detalhada, testes cutâneos de leitura imediata, IgE sérica específica e, quando indicado, teste de provocação, com adiamento de quatro a seis semanas em relação ao episódio. Triptase basal entra em situações específicas, sobretudo anafilaxia por himenópteros e anafilaxia idiopática de repetição, para investigar doença mastocitária.
No registro brasileiro, 42,6% dos pacientes já tinham sido referenciados a especialista e 50,2% foram encaminhados naquele episódio, mas apenas 10,1% dosaram triptase. É um retrato de sistema que funciona pela metade: encaminha-se, e a investigação objetiva raramente acontece. Encaminhar continua sendo o certo, e escrever bem o que aconteceu é o que transforma o encaminhamento em investigação.
Quando o agente é um medicamento, o registro tem uma segunda função: além de orientar o alergista, ele decide prescrições futuras. E quando a reação ocorreu após vacina, existe caminho formal próprio, com definição de caso e notificação de evento adverso pós-vacinação, que precisa ser cumprido pelo serviço.
As duas portas do diagnóstico e a seringa que sai delas
Tudo neste capítulo se resume a duas decisões encadeadas. A primeira é binária e leva vinte segundos: este quadro preenche um dos dois critérios? A segunda é aritmética e leva mais vinte: quanto desta ampola vai nesta coxa? O fluxo abaixo é a ordem em que essas decisões acontecem numa sala real, e as tabelas são o que se consulta enquanto a seringa é preparada. Nada aqui depende de exame, de acesso venoso ou de autorização de quem quer que seja.
- 1Reconhecer. Quadro agudo, instalado em minutos a poucas horas, com dois sistemas envolvidos, ou com um sistema crítico (hipotensão, broncoespasmo ou envolvimento laríngeo) depois de exposição plausível. Não espere urticária, não espere hipotensão, não espere conhecer o agente.
- 2Interromper a exposição, se ela ainda estiver acontecendo: parar a infusão, fechar o equipo do soro heterólogo, retirar o ferrão raspando, suspender o contraste. Nunca atrase a adrenalina para fazer isso; delegue.
- 3Adrenalina intramuscular, agora, na face ântero-lateral do terço médio da coxa: 0,01 mL da ampola de 1 mg/mL por quilo de peso, com teto de 0,5 mL. Por cima da roupa, se for mais rápido. Anote o horário.
- 4Deitar o paciente. Decúbito dorsal com membros inferiores elevados. Desconforto respiratório, permita a cabeceira mais elevada mantendo as pernas altas; vômito ou inconsciência, decúbito lateral; gestante, semirreclinada em decúbito lateral esquerdo. Nunca sentar, nunca levantar, nunca mandar caminhar.
- 5Chamar ajuda em paralelo. Dentro do hospital, a equipe e a sala de emergência; fora dele, SAMU 192 no mesmo minuto da primeira dose, e não depois de ver se melhora.
- 6Oxigênio suplementar em alto fluxo por máscara não reinalante, monitorização de ritmo, pressão e oximetria, e acesso venoso periférico calibroso. Nada disso precede a adrenalina.
- 7Reavaliar em cinco minutos e repetir a mesma dose de adrenalina intramuscular se persistir ou recorrer comprometimento de via aérea, respiração ou circulação. Urticária ou prurido residuais isolados, após normalização desses parâmetros, não indicam nova dose por si sós. Manter vigilância e acionar ajuda experiente se a resposta for insuficiente.
- 8Na hipotensão, usar cristaloide em bolus e reavaliar perfusão e congestão após cada um. Neste esquema: adulto, 500–1.000 mL inicialmente; criança, 10 mL/kg inicialmente, repetindo conforme resposta e protocolo. Não fixar um teto de volume na primeira hora que impeça tratar choque persistente nem infundir sem reavaliar.
- 9Broncoespasmo que persiste depois da adrenalina: acrescentar beta-2 agonista inalatório. Broncodilatador não substitui a repetição da adrenalina.
- 10Refratário a duas ou três doses intramusculares com volume: adrenalina intravenosa, em ambiente monitorizado, por quem sabe diluir, preferencialmente em infusão contínua e nunca em bolus da ampola pura. Paciente em uso de betabloqueador, considerar glucagon.
- 11Via aérea ameaçada em qualquer ponto do fluxo: acionar quem possa assegurá-la, e decidir cedo, antes que o edema torne a intubação difícil.
- 12Estabilizado, observar. O tempo depende da gravidade e do que foi preciso para reverter, e ninguém sai sem plano escrito, prescrição de alta e encaminhamento.
Até 15 kg — 0,05 a 0,15 mL
A conta é 0,01 mL por quilo, direto da ampola de 1 mg/mL, sem diluir. Lactente de 8 kg recebe 0,08 mL; criança de 12 kg recebe 0,12 mL. O manual federal de eventos adversos pós-vacinação registra dose mínima de 0,05 mL, o que na prática é o piso do lactente pequeno. A seringa de 1 mL com graduação em centésimos é obrigatória aqui: seringa de 3 mL não permite medir esse volume com segurança. Cuidado com o comprimento da agulha, porque coxa fina e agulha longa demais alcançam o osso.
15 a 30 kg — 0,15 a 0,30 mL
Mesma conta, mesma ampola, mesma via. Criança de 22 kg recebe 0,22 mL; criança de 27 kg recebe 0,27 mL. É nessa faixa que o teto pediátrico de 0,3 mg aparece nos documentos, e ele não é uma regra separada: 0,01 mg/kg em 30 kg dá exatamente 0,3 mg. Abaixo de 30 kg, a conta por peso e o teto nunca se contradizem.
30 a 50 kg — 0,30 a 0,50 mL
Adolescente de 40 kg recebe 0,40 mL. É aqui que os documentos brasileiros divergem: os protocolos do SAMU e o guia da Sociedade Brasileira de Pediatria mantêm o teto de 0,3 mg para quem é criança, enquanto o manual federal de eventos adversos pós-vacinação já prescreve 0,35 a 0,4 mL para 35 a 45 kg e 0,5 mL a partir de 46 kg. Este capítulo segue a conta por peso com teto único de 0,5 mL, porque é a que não subdosa o adolescente de 45 quilos.
50 kg ou mais — 0,50 mL, e para por aí
Acima de 50 kg a conta por peso ultrapassaria o teto, e o teto vence: 0,5 mL da ampola de 1 mg/mL, que é meia ampola. Vale para o adulto de 60 quilos e para o de 120 quilos; o que muda no obeso não é a dose, é a agulha, que precisa ser longa o bastante para atravessar o subcutâneo e alcançar o músculo. Os protocolos do SAMU sugerem agulha 25x7 e consideram a 30x8 em obesidade ou hipertrofia.
Os dois critérios diagnósticos: o que cada porta exige, e o que ela dispensa
| Critério | O que exige | O que NÃO exige | Exemplo que preenche |
|---|---|---|---|
| Critério 1 — pele mais um sistema | Início agudo, de minutos a algumas horas, com envolvimento simultâneo de pele, mucosa ou ambos (urticária generalizada, prurido, rubor, edema de lábios, língua ou úvula) E pelo menos um destes: comprometimento respiratório; queda da pressão arterial ou sintoma de disfunção de órgão-alvo (hipotonia, síncope, incontinência); sintoma gastrintestinal grave (cólica intensa, vômitos repetidos). | Não exige exposição conhecida. Não exige hipotensão. Não exige estridor. | Homem com rubor e urticas no tronco que começa a sibilar dez minutos depois do antibiótico. Criança com edema de lábio e vômitos repetidos logo após a festa. |
| Critério 2 — um sistema crítico após exposição | Início agudo de hipotensão, OU broncoespasmo, OU envolvimento laríngeo, após exposição a alérgeno conhecido ou altamente provável para aquele paciente, de minutos a algumas horas. | Não exige nenhum sinal de pele. Não exige dois sistemas. Não exige que o agente esteja confirmado por exame. | Mulher com alergia conhecida a formiga que fica hipotensa após picada, sem placas. Adolescente que amendoim já causou reação e agora tem voz abafada e aperto na garganta. |
| Queda de pressão arterial — definição que acompanha os critérios | Queda maior que 30% em relação à pressão sistólica basal daquela pessoa; OU sistólica abaixo de 90 mmHg em adultos e crianças acima de 10 anos; OU sistólica menor que 70 mmHg somados ao dobro da idade em anos, em bebês e crianças abaixo de 10 anos. | Não exige que o valor esteja abaixo de 90 mmHg em todo mundo: a queda percentual sobre a própria basal já conta. | Adulto que costuma ter 140 mmHg de sistólica e chega com 95 mmHg teve queda de 32%: preenche. |
| Envolvimento laríngeo — o que conta | Estridor, alteração da voz ou odinofagia. | Não exige estridor audível à distância. Voz mudada já conta. | Paciente que diz que a garganta está fechando e fala com voz abafada, sem qualquer ruído respiratório. |
| Sintoma gastrintestinal grave — o que conta | Cólica abdominal intensa ou vômitos repetitivos, especialmente após exposição a alérgeno não alimentar. | Não exige diarreia. Não exige que o sintoma persista por horas: a régua anterior falava em sintomas persistentes, e a atual fala em graves. | Mulher que vomita três vezes em cinco minutos com prurido palmar, logo após injeção de anti-inflamatório. |
Da balança para a seringa: adrenalina intramuscular, ampola de 1 mg/mL (1:1.000)
| Peso | Dose (0,01 mg/kg) | Volume da ampola de 1 mg/mL | Observação |
|---|---|---|---|
| 5 kg | 0,05 mg | 0,05 mL | Piso: o manual federal registra dose mínima de 0,05 mL |
| 8 kg | 0,08 mg | 0,08 mL | Seringa de 1 mL, graduação em centésimos |
| 10 kg | 0,1 mg | 0,10 mL | Coincide com a faixa até 10 kg dos protocolos de sala de vacina |
| 15 kg | 0,15 mg | 0,15 mL | Equivale à dose fixa do autoinjetor pediátrico usado fora do Brasil |
| 20 kg | 0,2 mg | 0,20 mL | |
| 27 kg | 0,27 mg | 0,27 mL | Arredondar para 0,3 mL é aceitável e não é sobredose |
| 30 kg | 0,3 mg | 0,30 mL | É exatamente o teto pediátrico citado nos documentos |
| 40 kg | 0,4 mg | 0,40 mL | Ponto de divergência entre documentos brasileiros — ver notas |
| 50 kg | 0,5 mg | 0,50 mL | A partir daqui o teto vence a conta por peso |
| 70 kg | teto: 0,5 mg | 0,50 mL | A conta daria 0,7 mL; o teto é 0,5 mL |
| 95 kg | teto: 0,5 mg | 0,50 mL | Mesma dose, agulha mais longa |
O que se dá depois da adrenalina — e o que cada coisa não faz
| Medida | Dose | Para que serve | O que ela NÃO faz |
|---|---|---|---|
| Posição | Decúbito dorsal com membros inferiores elevados; lateral se vômito ou inconsciência; semirreclinada em decúbito lateral esquerdo na gestante | Preserva o retorno venoso num leito vascular dilatado e permeável | Não substitui volume nem adrenalina — mas sentar ou levantar o paciente pode matá-lo sozinho |
| Oxigênio | Alto fluxo por máscara não reinalante; indicado se saturação abaixo de 94% a 95%, em desconforto respiratório e em quem precisou de mais de uma dose | Corrige hipoxemia enquanto a droga age | Não reverte broncoespasmo, edema de laringe nem hipotensão |
| Expansão volêmica | Na hipotensão, usar cristaloide em bolus e reavaliar perfusão e congestão após cada um. Neste esquema: adulto, 500–1.000 mL inicialmente; criança, 10 mL/kg inicialmente, repetindo conforme resposta e protocolo. Não fixar um teto de volume na primeira hora que impeça tratar choque persistente nem infundir sem reavaliar. | Repõe o plasma que extravasou para o interstício | Não reverte a vasodilatação: sem adrenalina, o líquido infundido também extravasa |
| Beta-2 agonista inalatório | Salbutamol 4 a 8 jatos com espaçador a cada 20 minutos no adulto; na criança, 1 jato para cada 2 kg até o máximo de 10 jatos, ou 4 a 8 jatos, a cada 20 minutos até três vezes | Alivia o broncoespasmo residual | Não age em via aérea superior nem em hipotensão, e não substitui a repetição da adrenalina |
| Anti-histamínico H1 | Após estabilização, anti-histamínico pode aliviar prurido e urticária, preferindo via oral e agente pouco sedativo quando possível. Não trata choque ou obstrução respiratória. Corticoide não é tratamento rotineiro da anafilaxia nem prevenção comprovada de reação bifásica; considerar apenas indicação adicional específica, como asma concomitante, sem atrasar adrenalina. Broncoespasmo persistente pode receber broncodilatador inalatório como adjuvante. | Alivia prurido, urticária e angioedema cutâneo | Não trata estridor, dispneia, hipotensão nem choque; é agente de segunda linha, e em alguns documentos já é terceira, pelo risco de atrasar a adrenalina |
| Corticoide sistêmico | Após estabilização, anti-histamínico pode aliviar prurido e urticária, preferindo via oral e agente pouco sedativo quando possível. Não trata choque ou obstrução respiratória. Corticoide não é tratamento rotineiro da anafilaxia nem prevenção comprovada de reação bifásica; considerar apenas indicação adicional específica, como asma concomitante, sem atrasar adrenalina. Broncoespasmo persistente pode receber broncodilatador inalatório como adjuvante. | Uso tradicional para sintomas prolongados, sobretudo em quem tem asma | Não age em minutos, porque depende de transcrição gênica; o benefício em prevenir reação bifásica é objeto de discordância entre documentos |
| Glucagon | 1 a 5 mg por dose; alternativamente 5 a 15 microgramas por minuto em infusão contínua | Aumenta o AMP cíclico por receptor próprio no paciente em uso de betabloqueador que não responde à adrenalina | Não é droga de rotina, e não substitui a adrenalina em quem não usa betabloqueador |
| Adrenalina intravenosa | Anafilaxia refratária é persistência de comprometimento respiratório ou circulatório apesar de duas doses IM adequadas. Acionar equipe experiente cedo, manter adrenalina IM a cada cinco minutos enquanto prepara infusão e titular cristaloide à resposta. Adrenalina intravenosa deve ser infusão por bomba em linha exclusiva, com monitorização contínua e protocolo institucional; não ensinar bolus IV de 0,1 mg como escalada habitual. Exemplo RCUK: 1 mg em volume final de 100 mL de solução salina produz 10 microgramas/mL; iniciar 0,5–1 mL/kg/h e titular por resposta, por equipe experiente. Conferir concentração, peso, unidade, bomba e acesso em dupla checagem. Parada cardíaca tem protocolo próprio, distinto da anafilaxia com pulso. | Resgata o paciente que não respondeu à via intramuscular com volume | Não é a via inicial. Bolus intravenoso da ampola pura pode causar arritmia fatal |
O diferencial, e o sinal que separa
| Hipótese | O que a torna provável | O sinal que a separa da anafilaxia |
|---|---|---|
| Reação vasovagal | Desmaio logo após agulha, dor ou emoção forte; palidez e sudorese fria | Bradicardia e ausência de urticária ou angioedema; na anafilaxia há taquicardia, e bradicardia só em fase pré-terminal |
| Crise asmática | Asmático conhecido, pródromo de dias, sem exposição nova | Broncoespasmo isolado, sem envolvimento de outro sistema e sem exposição plausível nos minutos anteriores |
| Angioedema por inibidor da ECA ou hereditário | Edema de lábios, língua e face, instalação mais lenta, uso da droga ou história familiar | Ausência de urticária e de prurido, e ausência de resposta à adrenalina |
| Obstrução por corpo estranho | Engasgo presenciado, início súbito durante a refeição | Ausência de qualquer sintoma cutâneo, gastrintestinal ou circulatório |
| Síndrome coronariana aguda | Dor torácica, idoso, fatores de risco | Ausência de urticária, prurido e broncoespasmo; alteração eletrocardiográfica compatível |
| Choque séptico | Febre, foco infeccioso, horas a dias de evolução | Instalação lenta e ausência de relação temporal com exposição alergênica |
| Escombroidose | Rubor intenso, cefaleia e palpitação após peixe malconservado, várias pessoas juntas | Vários acometidos na mesma refeição e ausência de sensibilização prévia |
| Crise de ansiedade | Hiperventilação, parestesias, sensação de morte iminente | Ausência de achado objetivo: sem urticária, sem sibilos, sem hipotensão, oximetria normal |
Quanto tempo observar antes da alta
| Situação | Tempo de observação adotado neste capítulo | Por quê |
|---|---|---|
| Quadro leve, revertido com uma única dose, sem hipotensão e sem envolvimento respiratório grave | 6 a 8 horas | Faixa do guia da Sociedade Brasileira de Pediatria para casos leves; metade das reações bifásicas ocorre nas primeiras 6 a 12 horas |
| Quadro com hipotensão, envolvimento laríngeo ou broncoespasmo, ou que exigiu duas ou mais doses | Observação prolongada ou internação, conforme gravidade, evolução, protocolo e acesso após alta. | Mesmo guia, faixa dos casos graves; são os pacientes com maior risco de curso protraído e bifásico |
| Anafilaxia após vacina, em qualquer gravidade | Transferência hospitalar imediata e monitoramento de pelo menos 12 horas | Determinação do manual federal de eventos adversos pós-vacinação para todo vacinado que recebeu adrenalina de emergência |
| Asma mal controlada, reação bifásica prévia, absorção continuada do alérgeno, morar longe do serviço ou estar desacompanhado | Prolongar o tempo, qualquer que seja a gravidade | São os fatores que aumentam risco de recorrência tardia e reduzem a chance de socorro no retorno |
As doses da primeira tabela saem de uma única conta, 0,01 mg por quilo, aplicada à única apresentação que a Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024 lista, que é a solução injetável de 1 mg/mL. Como a concentração é de 1 mg em 1 mL, o número em miligramas e o número em mililitros coincidem, e essa coincidência é a razão pela qual a conta é segura. Ela deixa de valer no instante em que alguém troca a apresentação.
O teto adotado aqui é de 0,5 mg, e ele passa a valer a partir de 50 kg, porque 0,5 dividido por 0,01 dá exatamente 50. O teto pediátrico de 0,3 mg, citado nos protocolos do SAMU e no guia da Sociedade Brasileira de Pediatria, corresponde ao mesmo cálculo em 30 kg. Abaixo de 30 kg as duas réguas dão o mesmo número; entre 30 e 50 kg elas divergem, e o manual federal de eventos adversos pós-vacinação fica do lado da conta por peso, prescrevendo 0,35 a 0,4 mL para 35 a 45 kg e 0,5 mL a partir de 46 kg.
O Quadro 46 do manual federal, que é a tabela de doses por faixa etária mais usada na sala de vacina do país, tem um vão na coluna de idade: ela salta de 7 a 16 meses direto para 37 a 59 meses. A criança entre 17 e 36 meses só é localizável pela coluna de peso, que é contínua. Como a dose é definida por peso e não por idade, isso não produz erro em quem usa a conta, mas produz hesitação em quem procura a linha da idade.
A diluição para uso intravenoso é a operação mais perigosa deste capítulo. Anafilaxia refratária é persistência de comprometimento respiratório ou circulatório apesar de duas doses IM adequadas. Acionar equipe experiente cedo, manter adrenalina IM a cada cinco minutos enquanto prepara infusão e titular cristaloide à resposta. Adrenalina intravenosa deve ser infusão por bomba em linha exclusiva, com monitorização contínua e protocolo institucional; não ensinar bolus IV de 0,1 mg como escalada habitual. Exemplo RCUK: 1 mg em volume final de 100 mL de solução salina produz 10 microgramas/mL; iniciar 0,5–1 mL/kg/h e titular por resposta, por equipe experiente. Conferir concentração, peso, unidade, bomba e acesso em dupla checagem. Parada cardíaca tem protocolo próprio, distinto da anafilaxia com pulso. Quem aspira 1 mL da ampola pura acreditando estar com a solução diluída administra 1 mg, dez vezes a dose pretendida. É por isso que a via intravenosa é reservada a ambiente monitorizado e a quem tem experiência em diluir.
As frequências brasileiras citadas ao longo do capítulo vêm das contagens da casuística do Registro Brasileiro de Anafilaxia, não dos percentuais impressos: manifestações respiratórias apareceram em 168 dos 237 pacientes, o que corresponde a 70,9%, e cardiovasculares em 83, ou 35,0%.
Após estabilização, anti-histamínico pode aliviar prurido e urticária, preferindo via oral e agente pouco sedativo quando possível. Não trata choque ou obstrução respiratória. Corticoide não é tratamento rotineiro da anafilaxia nem prevenção comprovada de reação bifásica; considerar apenas indicação adicional específica, como asma concomitante, sem atrasar adrenalina. Broncoespasmo persistente pode receber broncodilatador inalatório como adjuvante. Na prática isso significa que um adulto de 70 kg receberia menos hidrocortisona que uma criança de 27 kg. Como o corticoide não é medida de resgate e não muda o desfecho imediato, essa incoerência não altera conduta de sala, mas explica por que prescrições diferentes convivem em serviços vizinhos.
A conduta, hora a hora
A linha do tempo da anafilaxia não é medida em dias, e sim em minutos na primeira meia hora e em horas até a alta. Por isso os marcos abaixo estão em minutos no começo e vão se abrindo. Uma advertência de leitura: os quatro primeiros marcos acontecem praticamente ao mesmo tempo, e a ordem em que estão escritos é a ordem de prioridade quando falta gente, não a ordem cronológica quando a equipe está completa.
Todas as doses estão escritas para a apresentação que existe no Brasil, a ampola de epinefrina 1 mg/mL com 1 mL, que é a única listada na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024. Nessa concentração, o número em miligramas é igual ao número em mililitros, e é essa igualdade que torna a conta segura à beira do leito.
Observação deve ser contada após resolução e individualizada por gravidade, doses necessárias, recorrência, comorbidades, acesso à emergência e apoio domiciliar. Resposta rápida a dose única, baixo risco e condições adequadas podem permitir período menor sob protocolo; múltiplas doses, choque, comprometimento respiratório grave ou acesso difícil pedem observação prolongada e possível internação. Não existe garantia de impedir toda reação bifásica por cumprir um número fixo de horas. Entregar plano escrito, ensinar uso de adrenalina de resgate conforme dispositivo realmente acessível e encaminhar à alergologia.
Volume e dose precisam de reavaliação. A adrenalina IM é 0,01 mg/kg da solução 1 mg/mL, com teto de 0,5 mg; esquemas pediátricos por idade podem usar 0,3 mg e devem ser identificados como tais, sem criar um teto de 30 kg que depois se contradiz. Usar agulha que alcance músculo; peso estimado é preferível a atrasar a dose para procurar balança. Na hipotensão, cristaloide em bolus com reavaliação: no adulto, 500–1.000 mL inicialmente; na criança, 10 mL/kg inicialmente no esquema RCUK, repetindo segundo perfusão e congestão. Outros protocolos usam 20 mL/kg; escolher um protocolo explicitamente e evitar volume automático sem reexaminar.
Minuto 0 — reconhecer, e não pedir exame nenhum
Reconhecer instalação aguda e comprometimento de via aérea, respiração ou circulação, com ou sem pele, aplicando os critérios completos; sintomas gastrointestinais graves podem integrar a apresentação. Se sim, o tratamento começa agora. Diga em voz alta a palavra anafilaxia, porque nomear é o que faz a equipe mudar de marcha, e anote o horário do início dos sintomas: esse horário vai definir a janela da triptase, o tempo de observação e a leitura da resposta.
Prescrição- Diagnóstico clínico, sem exame confirmatório na fase aguda: o tratamento é iniciado imediatamente, sem aguardar confirmação (SES-RS, Nota Informativa DAPPS/CEVS: Anafilaxia na Atenção Primária à Saúde, 5 de junho de 2024)
- Suspender, se possível, a exposição ao agente desencadeante: interromper a infusão, fechar o equipo do soro heterólogo, retirar o ferrão raspando, suspender o contraste — sem que isso atrase a adrenalina (Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, Suporte Avançado de Vida, AC33 e APed26)
- Estimar ou aferir o peso corporal, porque é ele que define a dose (Manual de vigilância epidemiológica de eventos adversos pós-vacinação, MS, 4ª ed. atual., 2021, seção 26.5 e Quadros 46 a 49)
Minuto 0 — adrenalina intramuscular, antes de qualquer outra droga
É a única droga de primeira linha e a única que reverte o mecanismo. Não depende de acesso venoso, não depende de monitor e não tem contraindicação absoluta neste contexto. Aspire a ampola numa seringa de 1 mL, com graduação em centésimos, e aplique na face ântero-lateral do terço médio da coxa, perpendicular à pele. Se a roupa atrapalhar, aplique por cima dela ou corte a perna da calça: perder trinta segundos tirando uma calça justa é perder trinta segundos. Registre a hora da aplicação.
Prescrição- Epinefrina 1 mg/mL (solução 1:1.000), 0,01 mg/kg = 0,01 mL/kg, por via intramuscular na face ântero-lateral do terço médio da coxa, com dose máxima de 0,5 mg (0,5 mL) no adulto (Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, Suporte Avançado de Vida, AC33 e APed26; World Allergy Organization Anaphylaxis Guidance 2020, Tabela 6 e seção de tratamento agudo)
- O cálculo por peso nesta revisão utiliza 0,01 mg/kg IM até 0,5 mg; regimes por faixa etária devem ser identificados explicitamente e não misturados com essa conta.
- Repetir a cada 5 a 15 minutos conforme a gravidade e a resposta à aplicação anterior (SBP, Departamento Científico de Alergia, Anafilaxia: atualização 2021, Quadro 3; World Allergy Organization Anaphylaxis Guidance 2020, Tabela 6 e seção de tratamento agudo)
- Preparar preferencialmente em seringa de 1 mL e injetar na coxa com agulha 25x7; considerar 30x8 em obesidade ou hipertrofia (Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, Suporte Avançado de Vida, AC33 e APed26)
- Aplicar sobre a roupa, ou cortar rapidamente a perna da calça, para não perder tempo (Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, Suporte Avançado de Vida, AC33 e APed26, APed26)
- NÃO há contraindicação para administração de adrenalina no contexto da anafilaxia (Manual de vigilância epidemiológica de eventos adversos pós-vacinação, MS, 4ª ed. atual., 2021, seção 26.5 e Quadros 46 a 49)
- Não usar a via subcutânea: a absorção é mais lenta e errática, e a via intramuscular no vasto lateral é a via de escolha em qualquer situação (World Allergy Organization Anaphylaxis Guidance 2020, Tabela 6 e seção de tratamento agudo; SBP, Departamento Científico de Alergia, Anafilaxia: atualização 2021, Quadro 3)
- Não usar a via intravenosa como tratamento inicial: bolus intravenoso pode causar arritmia fatal (World Allergy Organization Anaphylaxis Guidance 2020, Tabela 6 e seção de tratamento agudo)
Minuto 0 a 1 — deitar o paciente, e não deixar que ele levante
Este marco custa zero real e evita mortes que não aparecem em estatística de erro. Com o leito vascular dilatado e o plasma extravasando, o retorno venoso está no limite: sentar, levantar ou pedir que o paciente caminhe até a sala de emergência transfere volume para os membros inferiores, esvazia o ventrículo e pode produzir parada. O paciente vai até a maca ou a maca vai até ele; ele não caminha.
Prescrição- Colocar em decúbito dorsal e elevar os membros inferiores (Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, Suporte Avançado de Vida, AC33 e APed26; SBP, Departamento Científico de Alergia, Anafilaxia: atualização 2021, Quadro 3)
- Se houver dispneia ou vômitos, posição de conforto com leve elevação da cabeceira, mantendo os membros inferiores elevados (Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, Suporte Avançado de Vida, AC33 e APed26, APed26)
- Vômito ou inconsciência: decúbito lateral (Manual de vigilância epidemiológica de eventos adversos pós-vacinação, MS, 4ª ed. atual., 2021, seção 26.5 e Quadros 46 a 49)
- Gestante: semirreclinada em decúbito lateral esquerdo, com as pernas elevadas, monitorando pressão e pulso a cada cinco minutos (Manual de vigilância epidemiológica de eventos adversos pós-vacinação, MS, 4ª ed. atual., 2021, seção 26.5 e Quadros 46 a 49)
- Não permitir que o paciente sente ou se levante bruscamente, nem colocá-lo em posição vertical, pelo risco de morte súbita por síndrome da veia cava e do ventrículo vazios (Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, Suporte Avançado de Vida, AC33 e APed26)
Minuto 1 a 3 — pedir ajuda, oxigênio, monitor, acesso e volume
Tudo isto vem depois da adrenalina e em paralelo entre si. Dentro do hospital, chamar a equipe e levar o paciente para a sala de emergência. Fora dele, unidade básica, sala de vacina, consultório, acionar o SAMU 192 no mesmo minuto da primeira dose, e não depois de ver se melhora. O acesso venoso serve para volume e para as drogas seguintes, nunca para a primeira dose de adrenalina.
Prescrição- Acionar o serviço de emergência imediatamente; na indisponibilidade, transferir o paciente para serviço de urgência (SES-RS, Nota Informativa DAPPS/CEVS: Anafilaxia na Atenção Primária à Saúde, 5 de junho de 2024; SES-DF, Protocolo de Atenção à Saúde: manejo básico da anafilaxia em ambiente não hospitalar pós-vacinação, 2024)
- Oxigênio suplementar em alto fluxo por máscara não reinalante se saturação abaixo de 94%; oferecer a todos os pacientes com desconforto respiratório e aos que precisaram de doses adicionais de adrenalina (Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, Suporte Avançado de Vida, AC33 e APed26; World Allergy Organization Anaphylaxis Guidance 2020, Tabela 6 e seção de tratamento agudo)
- Reavaliar aos cinco minutos e repetir adrenalina IM se persistirem problemas de via aérea, respiração ou circulação. Urticária residual isolada não indica repetição automática; hipotensão ou estridor persistentes não devem esperar quinze minutos. Tremor e palpitação podem ser efeitos transitórios, mas não comprovam dose correta nem excluem toxicidade; dor torácica, arritmia ou hipertensão importante exigem avaliação.
- Monitorizar oximetria, ritmo cardíaco, pressão arterial e estado respiratório e mental em intervalos regulares (Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, Suporte Avançado de Vida, AC33 e APed26)
- Acesso venoso periférico com cateter de grosso calibre, 14 ou 16 gauge no adulto; considerar via intraóssea na criança se necessário (World Allergy Organization Anaphylaxis Guidance 2020, Tabela 6 e seção de tratamento agudo; Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, Suporte Avançado de Vida, AC33 e APed26, APed26)
- Na hipotensão, usar cristaloide em bolus e reavaliar perfusão e congestão após cada um. Neste esquema: adulto, 500–1.000 mL inicialmente; criança, 10 mL/kg inicialmente, repetindo conforme resposta e protocolo. Não fixar um teto de volume na primeira hora que impeça tratar choque persistente nem infundir sem reavaliar.
- Na hipotensão, usar cristaloide em bolus e reavaliar perfusão e congestão após cada um. Neste esquema: adulto, 500–1.000 mL inicialmente; criança, 10 mL/kg inicialmente, repetindo conforme resposta e protocolo. Não fixar um teto de volume na primeira hora que impeça tratar choque persistente nem infundir sem reavaliar.
Minuto 5 a 15 — a segunda dose, e a terceira
Reavaliar aos cinco minutos e repetir adrenalina IM se persistirem problemas de via aérea, respiração ou circulação. Urticária residual isolada não indica repetição automática; hipotensão ou estridor persistentes não devem esperar quinze minutos. Tremor e palpitação podem ser efeitos transitórios, mas não comprovam dose correta nem excluem toxicidade; dor torácica, arritmia ou hipertensão importante exigem avaliação.
Prescrição- Registrar horário, dose, via e resposta; reavaliar ABC, perfusão e estado mental.
- Repetir IM a cada cinco minutos enquanto persistir comprometimento relevante; preparar escalada se refratário.
Minuto 10 a 20 — o que se acrescenta depois, e jamais antes
Após estabilização, anti-histamínico pode aliviar prurido e urticária, preferindo via oral e agente pouco sedativo quando possível. Não trata choque ou obstrução respiratória. Corticoide não é tratamento rotineiro da anafilaxia nem prevenção comprovada de reação bifásica; considerar apenas indicação adicional específica, como asma concomitante, sem atrasar adrenalina. Broncoespasmo persistente pode receber broncodilatador inalatório como adjuvante.
Prescrição- Broncodilatador inalatório para broncoespasmo persistente conforme protocolo e faixa etária, sempre como complemento.
- Antihistamínico apenas para manifestações cutâneas após estabilizar; corticoide não integra tratamento rotineiro.
Quando não responde — refratariedade, betabloqueador e via aérea
Anafilaxia refratária é persistência de comprometimento respiratório ou circulatório apesar de duas doses IM adequadas. Acionar equipe experiente cedo, manter adrenalina IM a cada cinco minutos enquanto prepara infusão e titular cristaloide à resposta. Adrenalina intravenosa deve ser infusão por bomba em linha exclusiva, com monitorização contínua e protocolo institucional; não ensinar bolus IV de 0,1 mg como escalada habitual. Exemplo RCUK: 1 mg em volume final de 100 mL de solução salina produz 10 microgramas/mL; iniciar 0,5–1 mL/kg/h e titular por resposta, por equipe experiente. Conferir concentração, peso, unidade, bomba e acesso em dupla checagem. Parada cardíaca tem protocolo próprio, distinto da anafilaxia com pulso.
Prescrição- Anafilaxia refratária é persistência de comprometimento respiratório ou circulatório apesar de duas doses IM adequadas. Acionar equipe experiente cedo, manter adrenalina IM a cada cinco minutos enquanto prepara infusão e titular cristaloide à resposta. Adrenalina intravenosa deve ser infusão por bomba em linha exclusiva, com monitorização contínua e protocolo institucional; não ensinar bolus IV de 0,1 mg como escalada habitual. Exemplo RCUK: 1 mg em volume final de 100 mL de solução salina produz 10 microgramas/mL; iniciar 0,5–1 mL/kg/h e titular por resposta, por equipe experiente. Conferir concentração, peso, unidade, bomba e acesso em dupla checagem. Parada cardíaca tem protocolo próprio, distinto da anafilaxia com pulso.
- No paciente betabloqueado com refratariedade, considerar glucagon com equipe experiente: adulto, 1–5 mg IV ao longo de cinco minutos, seguido, se necessário, de infusão de 5–15 microgramas/minuto conforme resposta e protocolo. Vigiar vômito, proteger via aérea e monitorar glicemia; não substituir adrenalina.
- Edema progressivo de via aérea exige ajuda especializada precoce, oxigenação e plano de via aérea difícil. Adrenalina nebulizada é adjuvante, não substituta da IM.
Situações especiais, sem mudar a droga
Nenhuma das situações abaixo muda a droga, a via ou a conta da dose. O que muda é a posição, a logística ou o que se faz com a exposição que ainda está acontecendo. Guardar isso evita a hesitação que custa minutos.
Prescrição- Gestante: mesma dose, mesma via; posicionar semirreclinada em decúbito lateral esquerdo com as pernas elevadas e monitorar pressão e pulso a cada cinco minutos (Manual de vigilância epidemiológica de eventos adversos pós-vacinação, MS, 4ª ed. atual., 2021, seção 26.5 e Quadros 46 a 49)
- Sala de vacina: a anafilaxia pós-vacinal tem definição de caso e conduta próprias; todo vacinado que recebeu adrenalina de emergência deve ser transferido imediatamente para hospital, e o caso é notificado como evento adverso pós-vacinação (Manual de vigilância epidemiológica de eventos adversos pós-vacinação, MS, 4ª ed. atual., 2021, seção 26.5 e Quadros 46 a 49)
- Unidade básica, após penicilina benzatina: mesma conduta deste capítulo, com a caixa de emergência conferida ao lado; o contexto da indicação e a conversa com a equipe estão no capítulo de sífilis na gestação
- Durante infusão de soro antiveneno: interromper imediatamente o gotejamento do antiveneno, manter o soro fisiológico correndo pelo mesmo acesso e tratar como anafilaxia; o contexto da soroterapia está no capítulo de acidentes por animais peçonhentos (Manual de vigilância epidemiológica de eventos adversos pós-vacinação, MS, 4ª ed. atual., 2021, seção 26.5 e Quadros 46 a 49)
- Reação a medicamento identificado: registrar no prontuário o nome da droga, a via, o tempo até o sintoma e o quadro observado, e notificar à farmacovigilância
- Obeso: mesma dose, agulha mais longa, para não depositar no subcutâneo (Capelo AV e col., Anafilaxia: atualizando as recomendações do Practice Parameter 2023, Arq Asma Alerg Imunol 2024;8(3):225-34; Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, Suporte Avançado de Vida, AC33 e APed26)
Hora 1 a 6 — o que se faz enquanto observa
Estabilizado não é resolvido. Este é o período em que o quadro pode recrudescer sem nova exposição, e em que se constrói tudo o que vai proteger o paciente depois. O paciente permanece deitado, monitorizado e com acesso, e a equipe usa esse tempo para completar a história e escrever o que vai virar receita e plano.
Prescrição- Manter o paciente em posição reclinada e sob monitoramento próximo depois de receber adrenalina (Manual de vigilância epidemiológica de eventos adversos pós-vacinação, MS, 4ª ed. atual., 2021, seção 26.5 e Quadros 46 a 49)
- Reavaliar em intervalos regulares pressão arterial, frequência cardíaca, perfusão, estado respiratório e estado mental (World Allergy Organization Anaphylaxis Guidance 2020, Tabela 6 e seção de tratamento agudo)
- Se houver possibilidade, colher triptase sérica dentro de duas horas do início dos sintomas, sem interromper o tratamento, e programar uma segunda coleta basal após a recuperação (Capelo AV e col., Anafilaxia: atualizando as recomendações do Practice Parameter 2023, Arq Asma Alerg Imunol 2024;8(3):225-34)
- Completar a história dirigida: agente suspeito, via de administração, dose, sequência dos sintomas, tempo até o início, tratamento aplicado em situação semelhante anterior, cofatores como exercício e medicamentos (SBP, Departamento Científico de Alergia, Anafilaxia: atualização 2021, Quadro 3)
- Registrar no prontuário o horário da exposição, o horário do início, o horário de cada dose de adrenalina e a resposta obtida
Hora 6 a 48 — a alta, que é onde este capítulo mais falha na vida real
Dar alta em uma hora com uma receita de anti-histamínico é o desfecho mais comum e o mais frágil. A alta da anafilaxia tem quatro peças: tempo de observação compatível com a gravidade, prescrição escrita, plano de ação escrito e encaminhamento. Sem as quatro, o próximo episódio vai acontecer na cozinha de casa, que é onde acontecem 46,8% deles, com as mesmas pessoas sem saber o que fazer.
Prescrição- Observação deve ser contada após resolução e individualizada por gravidade, doses necessárias, recorrência, comorbidades, acesso à emergência e apoio domiciliar. Resposta rápida a dose única, baixo risco e condições adequadas podem permitir período menor sob protocolo; múltiplas doses, choque, comprometimento respiratório grave ou acesso difícil pedem observação prolongada e possível internação. Não existe garantia de impedir toda reação bifásica por cumprir um número fixo de horas. Entregar plano escrito, ensinar uso de adrenalina de resgate conforme dispositivo realmente acessível e encaminhar à alergologia.
- Anafilaxia pós-vacinal: transferência hospitalar e monitoramento de pelo menos 12 horas, porque o curso bifásico ocorre em até 23% dos adultos e 11% das crianças (Manual de vigilância epidemiológica de eventos adversos pós-vacinação, MS, 4ª ed. atual., 2021, seção 26.5 e Quadros 46 a 49)
- Orientar sobre a possibilidade de recorrência dos sintomas em até 12 horas, sobretudo nos casos idiopáticos, quando há absorção continuada do alérgeno, em asma mal controlada ou com história prévia de reação bifásica (SBP, Departamento Científico de Alergia, Anafilaxia: atualização 2021, Quadro 3)
- Corticoide oral na alta: prednisona ou prednisolona 1 a 2 mg/kg por dia, em dose única, por 5 a 7 dias (SBP, Departamento Científico de Alergia, Anafilaxia: atualização 2021, Quadro 3)
- Anti-histamínico H1 de segunda geração na alta: fexofenadina, cetirizina ou desloratadina, nas doses habituais, por pelo menos 7 dias (SBP, Departamento Científico de Alergia, Anafilaxia: atualização 2021, Quadro 3)
- Plano de ação escrito, em linguagem clara, com nome e dose dos medicamentos, sinais precoces de novo episódio e o que fazer (SBP, Departamento Científico de Alergia, Anafilaxia: atualização 2021, Quadro 3)
- Identificação portátil com diagnóstico, telefone de contato e plano de ação; em criança, a escola precisa ser avisada e orientada (SBP, Departamento Científico de Alergia, Anafilaxia: atualização 2021, Quadro 3; Capelo AV e col., Anafilaxia: atualizando as recomendações do Practice Parameter 2023, Arq Asma Alerg Imunol 2024;8(3):225-34)
- Encaminhamento a serviço de alergia e imunologia para investigação etiológica, avaliação de risco e prevenção de novos episódios (SBP, Departamento Científico de Alergia, Anafilaxia: atualização 2021, Quadro 3)
- Adrenalina de resgate exige verificar disponibilidade e regularização do produto específico no momento da prescrição. Não generalizar uma medida sanitária sobre produto ou lote para todo dispositivo. Autoinjetor, quando legalmente acessível e indicado, requer treinamento prático e plano escrito; se inacessível, organizar alternativa individualizada com alergologia e rede, reconhecendo a maior dificuldade e risco de preparo manual.
- Orientar que o serviço de emergência seja acionado em qualquer reação nova, e que ninguém dirija o próprio carro até o hospital durante um episódio
Depois da alta — o que impede o próximo episódio
A prevenção é o único tratamento que reduz incidência, e ela é quase toda informação. No registro brasileiro, 95,8% dos pacientes foram instruídos sobre o desencadeante e 78,1% receberam plano escrito, mas apenas 20,7% receberam identificação de anafilaxia. É um sistema que orienta e não equipa.
Prescrição- Investigação etiológica com o alergista: história detalhada, testes cutâneos de leitura imediata, IgE sérica específica e, quando indicado, teste de provocação, adiados de 4 a 6 semanas em relação ao episódio (Capelo AV e col., Anafilaxia: atualizando as recomendações do Practice Parameter 2023, Arq Asma Alerg Imunol 2024;8(3):225-34)
- Triptase basal quando houver anafilaxia por himenópteros com hipotensão, anafilaxia idiopática de repetição ou suspeita de mastocitose (Capelo AV e col., Anafilaxia: atualizando as recomendações do Practice Parameter 2023, Arq Asma Alerg Imunol 2024;8(3):225-34)
- Imunoterapia específica com veneno, eficaz na anafilaxia por himenópteros, sempre sob supervisão do alergista (SBP, Departamento Científico de Alergia, Anafilaxia: atualização 2021, Quadro 3)
- Alergia ao látex: evitar contato e inalação e programar procedimentos em ambiente sem materiais que contenham a substância (SBP, Departamento Científico de Alergia, Anafilaxia: atualização 2021, Quadro 3)
- Revisão de medicações que interferem no tratamento: a decisão sobre manter ou suspender betabloqueador e inibidor da enzima conversora de angiotensina passou a ser individualizada, porque interromper pode ter mais risco que a chance de uma anafilaxia mais grave (Capelo AV e col., Anafilaxia: atualizando as recomendações do Practice Parameter 2023, Arq Asma Alerg Imunol 2024;8(3):225-34)
- Educação continuada do paciente e da família, porque mesmo quem foi treinado relata insegurança e medo na hora de aplicar (Capelo AV e col., Anafilaxia: atualizando as recomendações do Practice Parameter 2023, Arq Asma Alerg Imunol 2024;8(3):225-34)
- Reforçar que o episódio anterior não prediz a gravidade do próximo: no registro brasileiro, 97,0% dos que já haviam tido episódio prévio relataram que o anterior tinha sido mais grave, e ainda assim reagiram de novo (Felix MMR e col., Registro Brasileiro de Anafilaxia (RBA-ASBAI), Arq Asma Alerg Imunol 2024;8(1):35-42)
Como saber se está funcionando
A anafilaxia tem uma vantagem rara entre as emergências: a resposta ao tratamento é rápida e visível, e aparece em minutos, não em dias. Isso significa que reavaliar é fácil e que não reavaliar é indefensável. O relógio da reavaliação é de cinco minutos, e ele começa a contar no instante em que a agulha sai da coxa.
Existe uma armadilha de leitura embutida. O sinal mais visível, que é a pele, é o menos importante; e o sinal mais importante, que é a via aérea superior, é o mais discreto. Um paciente cujas urticas sumiram mas cuja voz continua abafada não melhorou. Um paciente cujas urticas aumentaram mas que voltou a falar normalmente, com pressão estável, melhorou.
Rever dose, via, agulha, exposição, resposta ao volume e uso de betabloqueador em paralelo à escalada. Não aguardar terminar uma lista para reconhecer comprometimento respiratório ou circulatório persistente após duas doses IM adequadas e pedir suporte avançado.
E vale saber de antemão que nem tudo responde. Mesmo com administração rápida, até 10% das reações podem não ser revertidas, e quanto mais a hipotensão se agrava ao longo da evolução, menor tende a ser a resposta à adrenalina. Isso não é argumento para desistir: é argumento para dar a droga cedo, quando ela ainda funciona bem.
Esperado: A voz volta ao timbre habitual, o pigarro cessa, a sensação de aperto na garganta diminui e o estridor desaparece. Peça de novo que a pessoa diga o próprio nome e engula a saliva: é o mesmo teste da avaliação inicial, agora usado como medida.
Se não melhora: Repetir a adrenalina intramuscular imediatamente e acionar quem possa assegurar a via aérea. Voz que continua abafada, sialorreia, recusa de deitar ou estridor que persiste depois de duas doses é indicação de decidir a via aérea antes que o edema torne a laringoscopia impraticável. Considerar adrenalina nebulizada como medida adicional, nunca substitutiva.
Esperado: Redução do esforço, dos sibilos e da frequência respiratória. Em quem tinha broncoespasmo, é comum que a melhora seja parcial com a adrenalina e se complete com o beta-2 agonista inalatório.
Se não melhora: Repetir a adrenalina e acrescentar ou repetir o broncodilatador inalatório. Broncodilatador não substitui a repetição da adrenalina em quem continua sintomático. Sibilância que não cede com asma mal controlada de base é sinal de risco de desfecho grave, e esse paciente não sai da monitorização.
Esperado: Elevação em direção à basal habitual do paciente, e não a um número universal. Em quem tem hipertensão conhecida, voltar a 100 mmHg de sistólica ainda é hipotensão relativa.
Se não melhora: Na hipotensão, usar cristaloide em bolus e reavaliar perfusão e congestão após cada um. Neste esquema: adulto, 500–1.000 mL inicialmente; criança, 10 mL/kg inicialmente, repetindo conforme resposta e protocolo. Não fixar um teto de volume na primeira hora que impeça tratar choque persistente nem infundir sem reavaliar. Hipotensão que persiste após duas ou três doses intramusculares com volume adequado é indicação de adrenalina intravenosa em ambiente monitorizado. Revisar se a exposição continua e se o paciente foi mantido deitado.
Esperado: Taquicardia é o esperado, tanto pela reação quanto pela droga, e não é motivo para suspender a próxima dose. Ela tende a acompanhar a melhora da perfusão e a ceder aos poucos.
Se não melhora: Bradicardia é sinal de alarme: na anafilaxia ela aparece em situação pré-terminal, e a exceção é o paciente em uso de betabloqueador, em que a bradicardia persistente é indicação de atropina e de considerar glucagon. Bradicardia com palidez, sudorese fria e sem urticária desde o início sugere reação vasovagal, e nesse caso o diagnóstico é outro.
Esperado: Saturação subindo acima de 94% a 95% com oxigênio suplementar.
Se não melhora: Saturação abaixo de 95% é, por si, indicação de que será necessária mais de uma dose de adrenalina. Persistindo, revisar via aérea, aumentar o fluxo de oxigênio, considerar ventilação assistida e antecipar a decisão de intubação.
Esperado: Retorno da lucidez e desaparecimento da sensação de morte iminente, da lipotimia e da agitação. Melhora do sensório é um dos primeiros sinais de que a perfusão voltou.
Se não melhora: Sonolência, confusão ou perda de consciência indicam hipoperfusão ou hipoxemia mantidas: repetir a adrenalina, expandir, proteger a via aérea e posicionar em decúbito lateral se houver risco de vômito.
Esperado: Os vômitos cessam e a cólica cede. Em criança, é frequentemente o primeiro parâmetro a normalizar e o mais fácil de perguntar aos pais.
Se não melhora: Vômitos repetidos que continuam contam como sintoma persistente e pesam a favor de repetir a dose e de não considerar alta. Mais de dois episódios de vômito depois do tratamento é um dos critérios descritos para não observar o paciente em casa.
Esperado: Redução do prurido e das placas. Este é o parâmetro que não deve governar a decisão: urticas novas ou eritema que aparecem isolados, sem qualquer outro sintoma, depois de uma dose de adrenalina que resolveu o restante, são situação de observação e não de escalonamento.
Se não melhora: Se persistem apenas prurido ou urticária e via aérea, respiração e circulação normalizaram, considerar anti-histamínico não sedativo e manter observação. Recorrência de comprometimento de ABC exige adrenalina IM. Sintomas gastrointestinais intensos ou progressivos com manifestações sistêmicas exigem reavaliar prontamente o conjunto para anafilaxia; não reduzir a decisão a qualquer sintoma isolado.
Esperado: A maioria responde a uma dose, e cerca de 10% precisam de duas ou mais. Esse número é, ele mesmo, um parâmetro prognóstico e deve ser anotado.
Se não melhora: Ter precisado de duas ou mais doses classifica o episódio como grave para efeito de tempo de observação, muda o plano de alta e reforça a indicação de encaminhamento e de treinamento familiar. Quem precisou de várias doses não recebe alta em seis horas.
Esperado: Ausência de retorno dos sintomas. Metade das reações bifásicas ocorre nas primeiras 6 a 12 horas, e o uso precoce da adrenalina reduz esse risco.
Se não melhora: O plano de alta deve explicar quais sinais sugerem nova anafilaxia: dificuldade respiratória, alteração da voz, desmaio ou sinais de má perfusão exigem adrenalina de resgate conforme orientação e acionamento imediato da emergência. Sintomas cutâneos isolados exigem reavaliação e vigilância, mas não são automaticamente nova anafilaxia. Na dúvida diante de reação em progressão, seguir o plano de ação e buscar ajuda imediatamente.
Esperado: Elevação da pressão, melhora do enchimento capilar e do sensório, redução da taquicardia.
Se não melhora: Repetir o bolus e escalonar a adrenalina antes de introduzir outra droga vasoativa. Choque que não responde a volume e a adrenalina repetida obriga a rever o diagnóstico: choque cardiogênico, séptico, obstrutivo e hemorrágico têm caminhos próprios, e a reposição em choque hemorrágico é assunto de capítulo específico.
Onde o erro machuca
O dano: É o erro mais frequente do país neste quadro, e o único desta lista que já matou de forma documentada em casuística brasileira. No Registro Brasileiro de Anafilaxia, 87,3% dos pacientes receberam anti-histamínico e 83,1% receberam corticoide, contra 61,1% que receberam adrenalina: as duas drogas que não revertem o mecanismo foram usadas mais vezes que a única que reverte. O anti-histamínico bloqueia um receptor de um dos muitos mediadores liberados e alivia prurido e urticária; não faz nada contra vasodilatação, extravasamento, edema de laringe ou broncoespasmo. O corticoide depende de transcrição gênica e leva horas para agir, num quadro cuja janela de morte é de minutos. Enquanto isso, o edema de laringe avança e o plasma continua saindo do vaso.
Como pegar a tempo: Inverta a ordem mentalmente e trate as duas classes como o que elas são: adjuvantes que entram depois. Uma regra que funciona no plantão é não deixar que nenhuma outra medicação seja aspirada antes de a adrenalina ter sido aplicada. Se a equipe já preparou prometazina, ela espera; a coxa vem primeiro.
O dano: Choque foi documentado em apenas 8 dos 237 pacientes do registro brasileiro, e hipotensão em 56. Se a hipotensão fosse requisito, a maioria absoluta dos casos ficaria sem diagnóstico. Pior: quanto mais a hipotensão se agrava, menor é a resposta à adrenalina, de modo que esperar por ela é esperar justamente o momento em que a droga funciona menos. O paciente que chega com pressão normal e voz mudada é o paciente em quem o tratamento ainda tem alto rendimento.
Como pegar a tempo: Guarde os dois critérios e note que nenhum dos dois exige hipotensão. Dispneia com urticária fecha o critério 1. Broncoespasmo isolado após exposição conhecida fecha o critério 2. E, quando a pressão for medida, compare com a basal daquela pessoa: queda maior que 30% já conta, mesmo com sistólica acima de 90 mmHg.
O dano: Dezessete dos 237 pacientes brasileiros, um em cada catorze, fizeram anafilaxia sem nenhuma manifestação cutânea, e esses são preferencialmente os quadros que se apresentam por via aérea ou por circulação, que é onde se morre. Sob anestesia geral, a regra é essa: o paciente não coça, não fala, está coberto, e o que aparece é hipotensão inexplicada e dificuldade de ventilar.
Como pegar a tempo: Repita a frase do critério 2 em voz alta na hora da dúvida: início agudo de hipotensão, ou broncoespasmo, ou envolvimento laríngeo, após exposição a alérgeno conhecido ou provável, mesmo sem envolvimento cutâneo típico. E lembre que envolvimento laríngeo inclui alteração de voz e odinofagia, não só estridor.
O dano: É um dano que não deixa rastro no prontuário, porque a parada será atribuída à gravidade do quadro. A postura vertical num paciente com o leito vascular dilatado e o plasma extravasando esvazia o ventrículo e pode produzir parada súbita: os protocolos do SAMU nomeiam isso de síndrome da veia cava e do ventrículo vazios e proíbem explicitamente a manobra, e o guia da Sociedade Brasileira de Pediatria registra que levantar-se ou sentar-se subitamente se associa a desfechos fatais. O erro é quase sempre de logística, e não de conhecimento: quem pede que o paciente caminhe até a sala de emergência costuma ser quem está no balcão.
Como pegar a tempo: Institua uma regra fixa: o paciente com suspeita de anafilaxia não anda. A maca vai até ele. Deite-o com as pernas elevadas, e se ele estiver com dispneia, eleve a cabeceira sem baixar as pernas. Se precisar vomitar, vira de lado deitado. Essa instrução precisa ser dita à equipe inteira, porque quem costuma pedir que o paciente vá até a sala é quem está no balcão.
O dano: O subcutâneo é mal perfundido, e num paciente já vasoconstrito a absorção fica lenta e imprevisível: a dose certa chega tarde e em concentração insuficiente. No deltoide, o volume muscular é pequeno; no glúteo, a espessura de gordura frequentemente impede que a agulha alcance o músculo. O resultado clínico é indistinguível de refratariedade, e o time escalona para adrenalina intravenosa um paciente que nunca recebeu adrenalina intramuscular de verdade.
Como pegar a tempo: Um único ponto anatômico, sempre: face ântero-lateral do terço médio da coxa, agulha perpendicular à pele. Escolha a agulha pelo paciente, não pelo hábito — 25x7 na maioria, 30x8 em obesidade ou hipertrofia, e agulha mais curta na criança pequena, cuja coxa fina traz risco de alcançar o osso. E confira: alguns documentos brasileiros ainda listam a via subcutânea como alternativa, e ela não é.
O dano: É o erro fatal por excesso deste capítulo, e ele acontece porque existe uma única apresentação no país, a de 1 mg/mL, e duas maneiras completamente diferentes de usá-la. Anafilaxia refratária é persistência de comprometimento respiratório ou circulatório apesar de duas doses IM adequadas. Acionar equipe experiente cedo, manter adrenalina IM a cada cinco minutos enquanto prepara infusão e titular cristaloide à resposta. Adrenalina intravenosa deve ser infusão por bomba em linha exclusiva, com monitorização contínua e protocolo institucional; não ensinar bolus IV de 0,1 mg como escalada habitual. Exemplo RCUK: 1 mg em volume final de 100 mL de solução salina produz 10 microgramas/mL; iniciar 0,5–1 mL/kg/h e titular por resposta, por equipe experiente. Conferir concentração, peso, unidade, bomba e acesso em dupla checagem. Parada cardíaca tem protocolo próprio, distinto da anafilaxia com pulso. Quem aspira 1 mL da ampola pura pensando estar com a diluída administra 1 mg, ou seja, dez vezes a dose. Bolus intravenoso de adrenalina pode causar arritmia fatal.
Como pegar a tempo: Trate a via intravenosa como procedimento, não como dose. Ela é reservada a choque estabelecido ou iminente, em ambiente monitorizado, por quem tem experiência em diluir, preferencialmente em infusão contínua por bomba. Verbalize a diluição em voz alta com um segundo profissional antes de infundir, e rotule a seringa diluída. Na dúvida entre uma seringa e outra, a via intramuscular com a ampola pura continua sendo segura.
O dano: Reavaliar aos cinco minutos e repetir adrenalina IM se persistirem problemas de via aérea, respiração ou circulação. Urticária residual isolada não indica repetição automática; hipotensão ou estridor persistentes não devem esperar quinze minutos. Tremor e palpitação podem ser efeitos transitórios, mas não comprovam dose correta nem excluem toxicidade; dor torácica, arritmia ou hipertensão importante exigem avaliação. Interpretá-los como intoxicação leva a suspender a segunda dose exatamente no paciente que continua sintomático. Como a meia-vida da droga é de poucos minutos e o gatilho geralmente continua presente, suspender a repetição é deixar o quadro voltar.
Como pegar a tempo: Separe efeito esperado de efeito tóxico antes de aplicar, e diga isso à equipe e ao paciente no momento da injeção. O gatilho para repetir é sintoma que persiste ou piora, e não a ausência de tremor. O intervalo é de 5 a 15 minutos.
O dano: Idosos se apresentam preferencialmente por hipotensão e com menos sinais de pele, e são justamente os que mais precisam da droga cedo. A hesitação nasce de uma contraindicação que não existe: o manual federal de eventos adversos pós-vacinação registra em destaque que não há contraindicação para administração de adrenalina no contexto da anafilaxia. Na gestante, o raciocínio se inverte de forma perigosa: a hipotensão e a hipoxemia maternas são o que ameaça o feto, e revertê-las é o tratamento fetal.
Como pegar a tempo: Decore a frase e cite a fonte quando alguém hesitar na sala. Depois trate o que existe de real: no idoso e no cardiopata, monitorize; na gestante, mude a posição para semirreclinada em decúbito lateral esquerdo. Nenhuma dessas medidas é motivo para adiar a injeção.
O dano: Asma mal controlada é o fator de risco mais consistentemente associado a desfecho fatal em anafilaxia, e o broncoespasmo agudo depois de exposição a alérgeno conhecido preenche sozinho o critério 2. Tratar só com salbutamol resolve uma parte do broncoespasmo e deixa sem tratamento a vasodilatação, o extravasamento e o edema de via aérea superior. O paciente melhora um pouco, é observado como crise asmática e piora depois.
Como pegar a tempo: Faça as três perguntas de separação: houve exposição nova plausível nos minutos anteriores? Há qualquer outro sistema envolvido? A instalação foi em minutos, sem pródromo de dias? Uma resposta afirmativa move o paciente para a adrenalina intramuscular. O manejo do broncoespasmo isolado tem capítulo próprio, e a dúvida sempre se resolve a favor de tratar como anafilaxia.
O dano: Antibiótico que segue correndo na bomba, soro antiveneno que segue gotejando, contraste que segue sendo injetado, ferrão que segue no subcutâneo — em todos esses casos a dose do gatilho continua aumentando enquanto se trata o efeito. O quadro fica refratário por um motivo mecânico, não farmacológico, e a equipe escalona doses contra um alvo que não para de crescer.
Como pegar a tempo: Torne a interrupção parte da mesma ordem verbal da adrenalina: pare a infusão e aplique a adrenalina. Delegue os dois atos a pessoas diferentes para que nenhum atrase o outro. No caso do soro heterólogo, interrompa o antiveneno e mantenha o soro fisiológico correndo pelo mesmo acesso.
O dano: É a falha mais comum e a mais silenciosa, porque o paciente sai bem. Metade das reações bifásicas ocorre nas primeiras 6 a 12 horas, e 46,8% das reações da casuística brasileira aconteceram na residência do paciente, onde não há nem droga nem quem reconheça. A alta apressada devolve para casa uma pessoa cujo próximo episódio vai começar do mesmo jeito e sem plano.
Como pegar a tempo: Individualizar observação após resolução, prolongando-a ou internando nos quadros graves e quando o acesso a resgate for difícil. O plano de alta deve explicar quais sinais sugerem nova anafilaxia: dificuldade respiratória, alteração da voz, desmaio ou sinais de má perfusão exigem adrenalina de resgate conforme orientação e acionamento imediato da emergência. Sintomas cutâneos isolados exigem reavaliação e vigilância, mas não são automaticamente nova anafilaxia. Na dúvida diante de reação em progressão, seguir o plano de ação e buscar ajuda imediatamente.
O dano: O registro vago tem dois efeitos opostos e igualmente ruins. Para menos, faz o paciente perder para sempre uma classe de medicamentos que talvez nunca o tenha feito mal, o que no caso da penicilina tem consequências clínicas próprias, tratadas no capítulo de faringoamigdalites. Para mais, deixa de sinalizar um risco real e permite que o mesmo agente seja prescrito de novo. E, no caminho, joga fora a matéria-prima do alergista, que é a cronologia exata do episódio.
Como pegar a tempo: Escreva no prontuário e na alta: nome do agente, via, dose, horário da exposição, horário do início dos sintomas, quais sistemas foram acometidos, o que foi administrado e a resposta. Notifique à farmacovigilância quando o agente for medicamento, e como evento adverso pós-vacinação quando for vacina, que tem definição de caso e fluxo próprios.
O que dizer ao paciente e à família
Há três conversas neste quadro, e elas acontecem em tempos muito diferentes. A primeira dura quinze segundos e é feita com uma agulha na mão. A segunda é com a equipe, e costuma ser a mais difícil, porque envolve contrariar uma ordem já dada ou uma rotina antiga. A terceira é a da alta, é longa, e é a que mais muda o futuro daquela pessoa.
Na primeira, a regra é falar enquanto se faz, e não antes de fazer. O consentimento aqui é o consentimento de uma emergência: informa-se de forma curta e clara e prossegue-se. Ninguém deve segurar a seringa esperando que o paciente termine de entender.
Na terceira, o objetivo é específico: sair dali com uma pessoa que sabe reconhecer o começo do próximo episódio e sabe o que fazer. O melhor teste de que a conversa funcionou é pedir que o paciente ou o acompanhante repita, com as próprias palavras, quando aplicar e o que fazer depois.
Enquanto aplica a primeira dose, no paciente consciente
“Você está tendo uma reação alérgica grave, e eu vou te dar agora um remédio que corta isso. É uma injeção na coxa, e ela é o tratamento certo para o que você tem. Ela age em minutos. Você vai sentir o coração acelerar, um tremor nas mãos e talvez um pouco de dor de cabeça: isso é esperado, é o remédio funcionando, e passa. Eu preciso que você fique deitado, não levante e não sente, mesmo que se sinta melhor. Se enjoar, avisa que eu viro você de lado.”
Não diga: Vou te dar uma coisa para a alergia. É só uma alergiazinha. Fica calmo que não é nada. Você prefere um comprimido? Vou dar um antialérgico primeiro e a gente vê como fica.
Quando o paciente resiste, quer ir embora ou minimiza
“Eu entendo que você esteja se sentindo melhor, e quero que você entenda por que eu não vou te liberar agora. Esse tipo de reação pode voltar horas depois, sem você encostar em nada de novo, e quando volta pode ser mais forte. Por isso a gente fica com você aqui por algumas horas, com monitor e com acesso, e eu volto para te reavaliar. Se voltar algum sintoma aqui dentro, a gente trata em segundos. Se voltar em casa, você vai estar sozinho.”
Não diga: É protocolo. Se você sair é por sua conta e risco. Não posso fazer nada, é a norma. Assina aqui então.
Com a equipe, quando alguém já preparou prometazina e hidrocortisona
“Segura esses dois um minuto: a adrenalina vai primeiro. Prepara 0,5 mL da ampola de 1 mg por mL numa seringa de 1 mL, agulha 25 por 7, coxa direita, terço médio, face lateral. Depois disso a gente faz o acesso, o oxigênio e o soro, e aí sim o corticoide e o antialérgico entram como complemento. Anota a hora da adrenalina no prontuário, por favor, porque em cinco minutos eu vou reavaliar e talvez repetir.”
Não diga: Não é assim que se faz. Quem mandou preparar isso? Depois eu explico. Faz do meu jeito.
Com o colega ou a chefia que hesita por causa da idade ou da cardiopatia
“Eu entendo a preocupação, e ela é razoável em quase todo contexto — só que não neste. Não há contraindicação para adrenalina na anafilaxia, e isso está escrito em destaque no manual federal de eventos adversos pós-vacinação. O que a idade e a coronariopatia mudam é a monitorização, não a indicação. E o risco maior desse paciente agora não é a taquicardia: é o edema de laringe que já mudou a voz dele.”
Não diga: Você está errado. Isso é básico. Na faculdade ensinam assim. Se der problema a responsabilidade é sua.
Com a família, na sala de espera, enquanto o quadro ainda está em curso
“Ele está tendo uma reação alérgica grave. Já demos o remédio que corta a reação, e ele age rápido; às vezes precisamos repetir, e repetir faz parte do tratamento, não quer dizer que piorou. Ele vai ficar aqui algumas horas em observação, porque esse tipo de reação pode voltar. Assim que ele estabilizar, eu venho conversar com vocês com calma e vou precisar da ajuda de vocês para descobrir o que causou isso.”
Não diga: Não sabemos ainda o que ele tem. Vai ficar tudo bem, pode ficar tranquilo. É uma alergia, não é grave. Prometo que ele sai daqui hoje.
A conversa da alta, com o paciente e com quem mora com ele
“O que você teve tem nome: anafilaxia. É uma reação alérgica que atinge o corpo inteiro e pode ser grave. Vou te explicar três coisas, e depois vou pedir que você me repita. Primeira: como reconhecer o começo — coceira na palma da mão, garganta apertando, voz mudando, falta de ar, vômito, tontura, tudo isso começando junto e rápido depois de comer, tomar remédio ou levar picada. Segunda: o que fazer — deitar, não levantar, chamar o SAMU no 192 e aplicar o remédio da receita, que é a injeção na coxa. Terceira: quem mora com você precisa saber aplicar também, e por isso vou treinar vocês dois agora. Está tudo escrito neste papel, com a dose já calculada para o seu peso.”
Não diga: Volte se piorar. Toma esse antialérgico por sete dias e evita camarão. Qualquer coisa procura um alergista. Se acontecer de novo, você já sabe.
Quando o paciente pergunta pela caneta de adrenalina
“Essa caneta existe em outros países e é mais fácil de usar, mas hoje não há nenhuma com registro sanitário no Brasil, e a Anvisa proibiu a venda das que estavam sendo importadas sem registro. Não vou te mandar comprar uma coisa que pode não ser o que diz ser. O que dá para fazer, e funciona, é você andar com a ampola, a seringa e a agulha, e treinar até ficar automático. A dose já está escrita aqui em mililitros, calculada para o seu peso. Vamos treinar agora, e você vai treinar de novo com o alergista.”
Não diga: Infelizmente não temos nada para te oferecer. Você teria que importar. Isso é caro demais. Peça na justiça.
Quando o agente não foi identificado
“Ainda não sabemos o que causou. Isso acontece em cerca de uma em cada dez pessoas, e não significa que o exame foi mal feito nem que você fez algo errado. O que muda com isso é que a gente precisa ser mais cuidadoso: até descobrir, você anda com o remédio e com o plano, e vai investigar com o alergista, que tem exames que a gente não faz aqui. Enquanto isso, anota tudo que você comeu, tomou e onde estava nas duas horas antes de começar. Essa lista vale mais que qualquer exame.”
Não diga: Deve ter sido alguma coisa que você comeu. Provavelmente foi o camarão. Não descobrimos, mas não se preocupe. É idiopática, não tem o que fazer.
Com os pais de uma criança, incluindo a escola
“Ela teve uma reação alérgica grave e melhorou com o tratamento. Agora vem a parte que protege a próxima vez. A escola precisa saber, por escrito, o que ela não pode comer e o que fazer se acontecer de novo, e vocês vão levar esse plano lá. Vocês dois precisam saber aplicar a injeção, e vamos treinar hoje aqui. E é importante que ela também aprenda a avisar um adulto assim que sentir a boca coçar ou a garganta apertar, sem esperar para ver se passa.”
Não diga: É só evitar o alimento. A escola vai saber lidar. Ela é pequena, não precisa saber disso. Não deixa comer nada fora de casa.
Quando houve atraso no atendimento e a família pergunta
“Vocês têm razão em perguntar. O remédio certo para essa reação é a adrenalina, e ela deveria ter sido dada assim que o quadro foi reconhecido. Vou registrar no prontuário a cronologia inteira, com os horários, e isso vai ser revisado pelo serviço. Agora o que eu posso fazer é cuidar dele da forma correta daqui para a frente, e explicar a vocês exatamente o que estamos fazendo e por quê.”
Não diga: Fizemos tudo o que era possível. Foi a gravidade do caso. Não houve erro nenhum. Isso é normal aqui, o plantão estava cheio.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Dois critérios, com a porta que dispensa envolvimento cutâneo
A revisão internacional de 2020 fundiu os dois primeiros critérios antigos, trocou sintoma gastrintestinal persistente por grave e criou um segundo critério que se fecha com hipotensão isolada, broncoespasmo isolado ou envolvimento laríngeo isolado após exposição a alérgeno conhecido ou altamente provável, mesmo sem qualquer sinal de pele. O argumento é que a pele está ausente em uma parcela relevante das reações e que os critérios anteriores deixavam de fora justamente quadros graves de apresentação respiratória ou cardiovascular. No Brasil, essa régua já é a do guia da Sociedade Brasileira de Pediatria de 2021, a da revisão da ASBAI de 2024 e a do protocolo de anafilaxia da Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal de 2024.
World Allergy Organization Anaphylaxis Guidance 2020 (Cardona V e col., WAO Journal 2020;13(10):100472); SBP, Anafilaxia: atualização 2021, Quadro 1; Capelo AV e col., Arq Asma Alerg Imunol 2024;8(3):225-34, Tabela 1; SES-DF, Protocolo de manejo básico da anafilaxia em ambiente não hospitalar pós-vacinação, 2024
Três critérios, com exigência de dois sistemas ou de queda pressórica
A régua anterior organiza o diagnóstico em três critérios: pele mais um sistema; dois ou mais sistemas após exposição a alérgeno provável; ou queda isolada de pressão após exposição a alérgeno conhecido. Ela continua vigente em documentos brasileiros de serviço que estruturam o atendimento de urgência e a atenção primária, e o argumento a favor de mantê-la é operacional: é a régua com a qual as equipes foram treinadas, está impressa em fluxogramas de sala e trocá-la exige recapacitação. Os protocolos federais de intervenção do SAMU 192 e a nota informativa estadual do Rio Grande do Sul de junho de 2024 trabalham com ela.
Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, Suporte Avançado de Vida, AC33 e APed26 (MS); SES-RS, Nota Informativa DAPPS/CEVS: Anafilaxia na Atenção Primária à Saúde, 5 de junho de 2024
A divergência não é simétrica no que produz de dano: a régua de três critérios diagnostica tudo o que a de dois diagnostica, exceto os quadros de sistema único sem envolvimento de pele, e são exatamente esses que se apresentam por via aérea e por circulação. Diante do paciente, portanto, use a régua mais larga: se o quadro preenche qualquer uma das duas versões, é anafilaxia. Nenhuma delas exige urticária no critério de sistema único, e nenhuma delas contraindica tratar. Se o seu serviço tem fluxograma impresso com três critérios, ele não está errado; ele está incompleto, e o que falta nele é a linha do broncoespasmo e da laringe sem pele. Quando precisar defender a conduta por escrito, cite a régua de dois critérios e diga qual documento a sustenta.
Administrar, inclusive no pré-hospitalar, para prevenir a fase tardia
Documentos brasileiros de urgência e de vigilância prescrevem o corticoide como medida sequencial depois da adrenalina, com a justificativa explícita de prevenir a reação bifásica e os sintomas prolongados. O protocolo pediátrico do SAMU chega a dizer que a hidrocortisona deve ser administrada no atendimento pré-hospitalar apesar do início de ação mais tardio, porque pode ajudar a prevenir a anafilaxia bifásica, e o manual federal de eventos adversos pós-vacinação lista os corticosteroides entre as medidas sequenciais com a mesma finalidade. O guia da Sociedade Brasileira de Pediatria mantém a prescrição de corticoide oral por 5 a 7 dias na alta.
Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, APed26; Manual de vigilância epidemiológica de eventos adversos pós-vacinação, MS, 4ª ed. atual., 2021, seção 26.5 e Quadro 49; SBP, Anafilaxia: atualização 2021
Não usar de rotina, porque o benefício é duvidoso e o risco de atraso é real
A revisão internacional de 2020 registra evidência crescente de que os glicocorticoides podem não trazer benefício no manejo agudo da anafilaxia e até serem prejudiciais, e que o uso rotineiro está se tornando controverso. A nota estadual do Rio Grande do Sul afirma que corticoides podem ser prescritos como terapia adjuvante após a adrenalina, mas que não há indicação desses fármacos na prevenção da anafilaxia bifásica. O próprio guia da Sociedade Brasileira de Pediatria reconhece que os corticosteroides têm pouca ou nenhuma ação no tratamento agudo e que a padronização de doses não está estabelecida.
World Allergy Organization Anaphylaxis Guidance 2020, seção de tratamento agudo; SES-RS, Nota Informativa DAPPS/CEVS, 5 de junho de 2024; SBP, Anafilaxia: atualização 2021, considerações sobre acompanhamento
Separe a decisão em duas. A primeira é de ordem, e nela não há divergência nenhuma: o corticoide nunca vem antes nem no lugar da adrenalina, e nenhum documento defende isso. A segunda é se ele entra depois, e aí decida pelo paciente: em quem tem asma e broncoespasmo, o corticoide sistêmico tem indicação por asma, independentemente da anafilaxia, e a decisão é fácil. Em quem não tem componente broncoespástico e respondeu a uma dose, prescrevê-lo muda pouco, e não prescrevê-lo é defensável. O que não é defensável em nenhuma das duas posições é usar o corticoide como razão para abreviar o tempo de observação, porque nenhuma das duas escolas afirma que ele evita a reação bifásica com segurança.
Observação individualizada após resolução, prolongada ou internação nos quadros graves e acesso difícil; preparar plano escrito e resgate antes da alta.
O guia da Sociedade Brasileira de Pediatria estabelece tempos explícitos, com o argumento de que a reação bifásica ocorre entre 8 e 12 horas em cerca de 10% dos casos e que o paciente precisa estar sob observação nesse intervalo. A vantagem prática é ter um número: equipes decidem melhor com regra do que com julgamento aberto, e um paciente com hipotensão ou envolvimento laríngeo permanece internado por definição.
SBP, Anafilaxia: atualização 2021, considerações sobre acompanhamento
Internação com pelo menos 12 horas de monitoramento para todo quem recebeu adrenalina, no contexto pós-vacinal
O manual federal de eventos adversos pós-vacinação determina que todos os vacinados que recebem adrenalina de emergência sejam imediatamente transferidos a hospital para avaliação e observação, e registra que os pacientes geralmente são monitorados por pelo menos 12 horas, porque o curso bifásico ocorre em até 23% dos adultos e 11% das crianças e é mais provável quando a administração de adrenalina foi retardada.
Manual de vigilância epidemiológica de eventos adversos pós-vacinação, MS, 4ª ed. atual., 2021, seção 26.5
Sem tempo fixo: observar de acordo com gravidade e número de doses, reconhecendo que não há consenso
A revisão internacional de 2020 afirma que os pacientes precisam ser observados, com ênfase especial nas reações graves e nas que exigiram múltiplas doses de adrenalina, e lista explicitamente a falta de consenso sobre quanto tempo observar como uma das necessidades não atendidas da área. O dado que sustenta a posição é que cerca de metade das reações bifásicas ocorre nas primeiras 6 a 12 horas, o que orienta uma faixa sem fixar um número.
World Allergy Organization Anaphylaxis Guidance 2020, seções de tratamento agudo e de necessidades não atendidas
Use a gravidade e o contexto social como as duas variáveis, e não a preferência do serviço: a tabela de tempo de observação do bloco de critérios já traz as faixas, e o que ela não resolve é o caso limítrofe. Resolva-o assim: na dúvida entre duas faixas, fique com a maior, e prolongue sempre que houver asma mal controlada, história prévia de reação bifásica, absorção continuada do alérgeno, distância grande até um serviço de urgência ou paciente que vai ficar sozinho em casa. Reação após vacina não admite julgamento, porque ali a régua é norma federal. E note o que as três posições têm em comum: nenhuma delas comporta o desfecho mais frequente da vida real, que é a alta em uma hora.
Teto de três aplicações
O manual federal de eventos adversos pós-vacinação instrui repetir a cada 5 a 15 minutos, no máximo por três vezes, e protocolos estaduais dirigidos à sala de vacina e à atenção primária reproduzem o mesmo teto, com a lógica de que, esgotadas as três doses no ambiente não hospitalar, o que falta é transporte para serviço de urgência e não mais medicação.
Manual de vigilância epidemiológica de eventos adversos pós-vacinação, MS, 4ª ed. atual., 2021, seção 26.5; SES-RS, Nota Informativa DAPPS/CEVS, 5 de junho de 2024; SES-DF, Protocolo de manejo básico da anafilaxia em ambiente não hospitalar pós-vacinação, 2024
Sem teto declarado: repetir enquanto os sintomas forem refratários
A revisão internacional de 2020 e os protocolos federais de urgência descrevem a repetição a cada 5 a 15 minutos com base na gravidade e na resposta à aplicação anterior, sem estabelecer número máximo de doses, e reservam a escalada para a via intravenosa em ambiente monitorizado quando a via intramuscular não resolve. O argumento é que o limite útil é a resposta clínica, e não uma contagem.
World Allergy Organization Anaphylaxis Guidance 2020, seção de tratamento agudo; Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, AC33 e APed26
As duas posições descrevem contextos diferentes, e é o contexto que decide. Corticoide não é rotina nem substitui escalada. Persistindo comprometimento de ABC, continuar adrenalina IM a cada cinco minutos até iniciar infusão ou chegar suporte avançado; chamar transporte desde a primeira dose, sem interromper tratamento após a terceira. Num pronto-socorro com monitor, acesso e equipe, o número deixa de fazer sentido, porque o que se faz depois de duas ou três doses sem resposta é escalonar para adrenalina intravenosa com volume, não parar de tratar. Em qualquer dos dois cenários, o erro real é o oposto do teto: é a primeira dose que não foi dada, e a segunda que não foi repetida por medo do tremor.
Elevar sempre que houver hipotensão
Documentos brasileiros de urgência, de pediatria e de vigilância instruem colocar o paciente em decúbito dorsal e elevar os membros inferiores como parte da conduta inicial, mantendo as pernas elevadas mesmo quando é preciso elevar a cabeceira por desconforto respiratório. O raciocínio é o do retorno venoso: com o leito vascular dilatado e o plasma extravasando, deslocar volume dos membros para o tronco é uma medida imediata e gratuita.
Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, AC33 e APed26; SBP, Anafilaxia: atualização 2021, Quadro 3; Manual de vigilância epidemiológica de eventos adversos pós-vacinação, MS, 4ª ed. atual., 2021
Manter em decúbito dorsal, reconhecendo que o benefício de elevar as pernas é controverso
A revisão internacional de 2020 recomenda posicionar o paciente conforme a apresentação — supino na maioria, sentado quando há desconforto respiratório, semirreclinado em decúbito lateral esquerdo na gestante, posição lateral de segurança no inconsciente — e registra expressamente que o benefício da elevação dos membros inferiores é controverso, sem transformá-la em item obrigatório.
World Allergy Organization Anaphylaxis Guidance 2020, seção de tratamento agudo
Observe que a divergência é estreita e não toca o que importa. As duas posições concordam integralmente no ponto que mata, que é não deixar o paciente sentado ou de pé, e discordam apenas sobre o benefício adicional de levantar as pernas de quem já está deitado. Como elevar as pernas não custa nada, não atrasa nada e não impede nenhuma outra medida, faça-o no paciente hipotenso e não perca um segundo discutindo. Deixe de elevá-las quando isso atrapalhar a ventilação de quem está com dispneia, quando o paciente estiver vomitando e precisar do decúbito lateral, e na gestante, em que a posição correta é semirreclinada sobre o lado esquerdo. E jamais transforme a discussão sobre as pernas em atraso para a adrenalina.
Sim, sempre, com transferência imediata
No contexto pós-vacinal, o manual federal determina que todos os vacinados que recebem adrenalina de emergência sejam imediatamente transferidos a um hospital para avaliação e observação, e as notas estaduais orientam acionar o SAMU 192 imediatamente diante de suspeita de anafilaxia, com transferência para serviço de urgência quando o atendimento móvel não estiver disponível com brevidade. A justificativa é o risco de curso bifásico e a impossibilidade de monitorização fora do serviço.
Manual de vigilância epidemiológica de eventos adversos pós-vacinação, MS, 4ª ed. atual., 2021; SES-RS, Nota Informativa DAPPS/CEVS, 5 de junho de 2024; SES-DF, Protocolo de manejo básico da anafilaxia em ambiente não hospitalar pós-vacinação, 2024
Nem sempre: decisão compartilhada quando a resposta foi imediata, completa e duradoura
A revisão da ASBAI sobre as recomendações internacionais de 2023 registra a mudança em relação à orientação anterior de acionar o serviço de emergência em qualquer caso: acionar pode não ser necessário se o paciente apresentar resposta imediata, completa e duradoura ao tratamento e ainda portar outro dispositivo de adrenalina. O acionamento fica indicado na anafilaxia grave, nos sintomas que não desaparecem quase completamente e nos sintomas que retornam ou pioram, e a decisão deve ser compartilhada, considerando as limitações pessoais e sociais do paciente.
Capelo AV e col., Anafilaxia: atualizando as recomendações do Practice Parameter 2023, Arq Asma Alerg Imunol 2024;8(3):225-34, Tabela 6
Repare em que mundo cada posição foi escrita. Conferir situação regulatória e acesso reais do dispositivo específico, sem presumir que toda pessoa disponha dele ou que uma restrição a um produto proíba universalmente a estratégia. Sem esse dispositivo de reserva, a premissa da decisão compartilhada não se sustenta aqui, e a conduta prudente no país é a primeira: quem recebeu adrenalina vai para o serviço de emergência e é observado. Reserve a lógica da segunda posição para orientar o paciente já em seguimento com alergista, com plano escrito, com o que aplicar em casa e com quem o leve ao serviço; nesse caso, o que muda não é deixar de ir, e sim quanto correr. E, em qualquer cenário, sintoma que retorna ou piora, dificuldade respiratória, estridor, alteração de consciência, instabilidade, cianose, mais de dois episódios de vômito, disfonia persistente, disfagia, sibilância ou tontura tiram a decisão da mesa: é emergência.
O raciocínio, em voz alta
Volte à Neide Bonfim, 34 anos, auxiliar de limpeza, sete e cinquenta da noite. Chegou com cólica renal, recebeu anti-inflamatório intramuscular na sala de medicação e voltou para a cadeira do corredor. Oito minutos depois, prurido em palmas e orelhas. Dez minutos depois, voz mais grossa, pigarro entre as frases, rosto vermelho, olhos lacrimejando, e um vômito no chão do corredor. Está de pé, apoiada no balcão. Nenhuma placa visível na pele. Nunca teve alergia a nada.
o que penso agora
Antes de qualquer hipótese, conto sistemas e conto minutos. Mucosa e pele: rubor facial e prurido palmar, sem urticas ainda. Via aérea superior: voz alterada e pigarro. Digestivo: vômito. Três sistemas em dez minutos, depois de uma injeção dada dentro do serviço. Isso preenche o primeiro critério com folga, e preencheria o segundo só pela voz, já que envolvimento laríngeo inclui alteração vocal e ela foi exposta a um alérgeno altamente provável. Não preciso de mais nada para decidir. O que me preocupa não é o vômito nem o prurido: é a voz, porque a voz é o edema de mucosa começando na laringe.
o que faço antes de pedir qualquer coisa
Digo a palavra em voz alta, para a equipe mudar de marcha: anafilaxia. Peço a maca para o balcão, não peço que ela caminhe até a sala. Enquanto a maca vem, peço à técnica que aspire uma ampola de epinefrina de 1 mg por mL numa seringa de 1 mL. Neide tem cerca de 70 kg: a conta de 0,01 mg por quilo daria 0,7 mL, mas o teto é 0,5 mL. Aplico 0,5 mL na face ântero-lateral do terço médio da coxa direita, perpendicular à pele, agulha 25 por 7, por cima da calça. Anoto: adrenalina às 19h52. Deito Neide com as pernas elevadas. Nada disso dependeu de acesso venoso, de monitor ou de exame.
o que peço, agora que a droga já foi dada
Máscara não reinalante com alto fluxo, monitorização de ritmo, pressão e oximetria, acesso venoso periférico calibroso. Pergunto três coisas enquanto isso acontece: o que foi aplicado, por que via, há quanto tempo. A técnica confirma: diclofenaco intramuscular, às 19h42. Peso e horário registrados. Nenhum exame de sangue foi pedido, porque nenhum mudaria o que estou fazendo. Se houver tubo de triptase no serviço, colho enquanto o restante corre, sabendo que o resultado não muda a conduta de agora e que vou precisar de uma segunda amostra depois da recuperação.
o que os números dizem
Às 19h53, com a paciente deitada: pressão 96 por 58, frequência cardíaca 122, frequência respiratória 26, saturação 93% em ar ambiente. Voz ainda abafada. Agora aparecem urticas no tronco e no pescoço, que não estavam lá. Leio isso com cuidado: a pressão de 96 não parece grave em número absoluto, mas Neide relata que a pressão dela é sempre alta, em torno de 140. Uma queda de 140 para 96 é de 31%, e isso preenche a definição de pressão reduzida. A saturação abaixo de 95% é, por si, sinal de que vai ser preciso mais de uma dose. As urticas novas depois da adrenalina não me preocupam: elas não são medida de falha.
como a resposta muda o que penso
Às 19h57, cinco minutos depois da primeira dose, reavalio. A voz continua abafada e ela ainda pigarreia; a pressão subiu para 104 por 62 e a saturação está em 96% com oxigênio. Melhorou em parte, e o parâmetro que importa não normalizou. Repito a adrenalina: mais 0,5 mL intramuscular na coxa esquerda, às 19h57. Junto, inicio soro fisiológico 0,9%, 1.000 mL rápido, o que corresponde a cerca de 14 mL por quilo neste peso, com nova avaliação para decidir o segundo litro. Ela pergunta se pode sentar porque está enjoada; respondo que não, e viro a cabeça dela de lado, mantendo o corpo deitado e as pernas altas.
o que acrescento, e só agora
Às 20h05, a voz voltou ao normal, ela consegue engolir a saliva sem esforço, a pressão está 118 por 70 e a saturação em 98%. As urticas ainda estão lá e coçam muito. Este é o momento do anti-histamínico, e a indicação dele é exatamente essa: prurido e urticária. Prescrevo prometazina 25 mg intramuscular. Como não houve broncoespasmo, não há indicação de beta-2 agonista. Corticoide não é rotina nem substitui escalada. Persistindo comprometimento de ABC, continuar adrenalina IM a cada cinco minutos até iniciar infusão ou chegar suporte avançado; chamar transporte desde a primeira dose, sem interromper tratamento após a terceira. O que eu não faço é usar o corticoide como argumento para encurtar a observação.
o que decido sobre a alta
Neide teve queda pressórica de 31%, saturação abaixo de 95% e envolvimento laríngeo, e precisou de duas doses de adrenalina. Observação individualizada após resolução, prolongada ou internação nos quadros graves e acesso difícil; preparar plano escrito e resgate antes da alta. Ela vai reclamar, e a conversa é a do bloco de comunicação: o que pode voltar, quando, e por que aqui é melhor que em casa. Registro no prontuário a cronologia inteira: exposição às 19h42, sintomas às 19h50, adrenalina às 19h52 e às 19h57, resposta obtida, drogas adjuvantes e horários.
o que vai na alta, dois dias depois
Prednisona 60 mg por dia por 5 dias e um anti-histamínico de segunda geração por 7 dias. Prescrição de epinefrina 1 mg por mL, com seringas de 1 mL e agulhas, e a dose escrita por extenso na receita: 0,5 mL por via intramuscular na face lateral da coxa, deitar, não levantar, chamar 192. Treino a aplicação com ela e com o filho de 19 anos, ali mesmo, com uma seringa sem agulha, e entrego o plano de ação escrito com os sinais de alerta nas palavras dela. Encaminho ao serviço de alergia e imunologia e notifico à farmacovigilância. E escrevo, em letras grandes, a linha mais importante do papel inteiro: alergia a anti-inflamatório não esteroide, com a data e o nome do medicamento. Um mês depois, num consultório qualquer, alguém vai perguntar se ela pode tomar diclofenaco, e essa linha é o que vai responder.
Faça você
Sábado, 16h, unidade de pronto atendimento. Menino de 6 anos, 22 kg, trazido pela mãe do aniversário de um primo. Há cerca de 25 minutos comeu um doce que continha castanha; a mãe diz que ele já tinha reagido a castanha aos 3 anos, com vômitos, e que desde então evita. Começou com dor de barriga e vomitou quatro vezes seguidas em dez minutos. A mãe diz que ele está estranho, quieto, não quer levantar a cabeça. Ao exame: sonolento mas responsivo, pele sem urticas, sem placas, sem edema de lábios; ausculta pulmonar com sibilos expiratórios difusos; frequência respiratória 34, frequência cardíaca 148, saturação 92% em ar ambiente, pressão arterial 76 por 40, tempo de enchimento capilar 4 segundos. Não é asmático. A mãe pergunta se pode ser intoxicação alimentar.
o que penso agora
Conto sistemas e conto minutos, como sempre. Digestivo: vômitos repetidos e dor abdominal. Respiratório: broncoespasmo e hipoxemia. Circulatório: taquicardia, enchimento capilar lento e pressão baixa. Neurológico: sonolência. Pele: nada. Vinte e cinco minutos depois de um alimento ao qual ele já reagiu. A ausência de urticária não me atrapalha: ele preenche o critério que dispensa a pele, porque tem broncoespasmo e hipotensão após exposição a alérgeno conhecido, e preencheria também pela combinação de sistemas se houvesse qualquer sinal cutâneo. Confiro a pressão contra a régua pediátrica da tabela de critérios: aos 6 anos o limite é de 82 mmHg de sistólica, e ele está com 76.
o que peço
Nenhum exame. O que peço é a maca, a ampola e a balança. Peso confirmado: 22 kg. Peço à equipe que traga epinefrina 1 mg por mL, seringa de 1 mL, máscara não reinalante e material de acesso venoso, e que alguém fique com a mãe. Peço também que ninguém sente a criança para auscultar melhor.
como a resposta muda o que penso
A conta da dose é a mesma de qualquer paciente: 0,01 mg por quilo, e com 22 kg isso dá 0,22 mg, que na ampola de 1 mg por mL corresponde a 0,22 mL. O cálculo por peso nesta revisão utiliza 0,01 mg/kg IM até 0,5 mg; regimes por faixa etária devem ser identificados explicitamente e não misturados com essa conta. Aplico na face ântero-lateral do terço médio da coxa, agulha adequada ao tamanho da coxa, e anoto a hora. Deito, elevo as pernas e mantenho a cabeça lateralizada, porque ele está vomitando. Oxigênio em alto fluxo. Iniciar cristaloide 10 mL/kg, 220 mL para 22 kg, no esquema aqui adotado, e reavaliar para repetir conforme perfusão e congestão.
e agora, o passo que falta
Cinco minutos depois da primeira dose e do primeiro bolus, ele continua sonolento, os sibilos persistem, a saturação está em 94% com oxigênio, a pressão em 80 por 44 e a frequência cardíaca em 152. Escreva o que você faz nos próximos cinco minutos, com dose, via e volume por extenso, e diga qual parâmetro você vai usar para decidir o passo seguinte. Depois diga, também por extenso, o que precisa constar da alta deste menino.
Ver como fecharíamos
A criança de 22 kg tem anafilaxia com choque e comprometimento respiratório, apesar de não haver urticária. Adrenalina IM 0,22 mg corresponde a 0,22 mL da solução 1 mg/mL; aplicar na coxa e repetir em cinco minutos se persistir comprometimento de ABC. Oxigênio, posição segura com proteção contra aspiração, ajuda imediata e acesso em paralelo. No esquema desta revisão, iniciar cristaloide 10 mL/kg (220 mL), reavaliar e repetir se necessário. Anafilaxia refratária é persistência de comprometimento respiratório ou circulatório apesar de duas doses IM adequadas. Acionar equipe experiente cedo, manter adrenalina IM a cada cinco minutos enquanto prepara infusão e titular cristaloide à resposta. Adrenalina intravenosa deve ser infusão por bomba em linha exclusiva, com monitorização contínua e protocolo institucional; não ensinar bolus IV de 0,1 mg como escalada habitual. Exemplo RCUK: 1 mg em volume final de 100 mL de solução salina produz 10 microgramas/mL; iniciar 0,5–1 mL/kg/h e titular por resposta, por equipe experiente. Conferir concentração, peso, unidade, bomba e acesso em dupla checagem. Parada cardíaca tem protocolo próprio, distinto da anafilaxia com pulso. Em paciente pediátrico, todo preparo deve ser conferido por equipe capacitada. Após estabilizar, observação prolongada conforme gravidade e acesso, orientação da família, plano de resgate e alergologia. Não usar corticoide como garantia contra reação bifásica.
A conta é sempre 0,01 mg por quilo. Em 22 kg isso dá 0,22 mg, e como a apresentação brasileira é de 1 mg em 1 mL, 0,22 mg correspondem a 0,22 mL. O teto pediátrico de 0,3 mg citado nos protocolos não é atingido aqui, porque ele equivale exatamente a 0,01 mg/kg em 30 kg. O volume exige seringa de 1 mL com graduação em centésimos. A via é intramuscular na face ântero-lateral do terço médio da coxa: o subcutâneo é mal perfundido e absorve de forma lenta e imprevisível, e o glúteo frequentemente não é alcançado pela agulha, de modo que ambos entregam menos droga mais tarde. Errar a vírgula para menos, como em 0,022 mL, entrega um décimo da dose; para mais, como em 2,2 mL, entrega dez vezes a dose e mais que duas ampolas.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Simule os primeiros cinco minutos: reconhecimento, pedido de ajuda, dose IM em mg e mL, posição e reavaliação. Explique por que a infusão IV exige outro preparo e equipe.
Em 30 dias
Refaça o caso com betabloqueador, gestação e acesso domiciliar difícil. Justifique escalada, observação e plano de resgate, sem usar corticoide como proteção contra recorrência.
Agora atenda
Agora atenda: mulher de 41 anos levada por familiares à unidade de pronto atendimento vinte minutos depois de uma picada de vespa no quintal de casa. Diz que já foi picada antes e passou mal, mas não lembra o que fizeram. Chega andando, apoiada no marido, falando com a voz um pouco diferente, queixando-se de coceira nas mãos e de tontura ao levantar. Sem placas visíveis na pele. Colha a história enquanto examina, decida se isso preenche critério, aja no tempo certo com dose, via e local por extenso, e depois construa com ela o plano de alta.
