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Emergências ambientais no adulto
As quatro invertem regra que você acabou de aprender. No hipotérmico grave não se declara morte antes de reaquecer, e mexer nele desfibrila. No afogado ventila-se antes de comprimir. Na insolação o que salva é resfriar, não medicar. No choque elétrico a lesão que mata está por dentro, com a pele quase intacta. E os dois que voltam piores são justamente os que chegam andando.
Bernoche C, Timerman S, Polastri TF, Giannetti NS, Siqueira AWS, Piscopo A, et al. Atualização da Diretriz de Ressuscitação Cardiopulmonar e Cuidados Cardiovasculares de Emergência da Sociedade Brasileira de Cardiologia – 2019. Arq Bras Cardiol. 2019;113(3):449-663
Szpilman D. Afogamento. Diretriz de Ressuscitação 2017. Sociedade Brasileira de Salvamento Aquático (SOBRASA), 2017
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ERC/RCUK — Special circumstances guidelines, 2025
AHA — Adult and pediatric special circumstances, 2025
Wilderness Medical Society — Heat illness update, 2024
Responda antes de ler
Domingo, 11h40, posto médico do quilômetro 8 de uma corrida de rua, 34 °C e umidade alta. Uma corredora de 61 anos é trazida carregada por voluntários. Ela não responde adequadamente às perguntas, tem o olhar parado, tenta se levantar e cai sentada, e não sabe dizer onde está. A pele está quente e suada. A temperatura retal, medida no posto, é de 41,8 °C. Há no local gelo em abundância, uma banheira inflável, lonas, água, oxigênio e material para acesso venoso. A ambulância chegou e o hospital de referência fica a trinta minutos de viagem. Qual é a conduta imediata?
O paciente que você vai ver
Domingo de janeiro, sete e quarenta da noite. Hospital municipal de sessenta leitos numa cidade de trinta mil habitantes na beira de uma represa. Tem raio-X, tem laboratório com gasometria, tem duas macas na sala de emergência e um respirador. O hospital de referência fica a setenta minutos de ambulância. Você é o interno do plantão, e o médico do plantão está no centro obstétrico há vinte minutos com uma cesárea que não vai acabar tão cedo.
Na maca 1 está Armindo Bocaiuva, 34 anos, pedreiro. Ele veio andando, sozinho, com o chinelo na mão. Conta que por volta das seis da tarde estava na represa com uns amigos, entrou na água depois de duas latas de cerveja, pisou num degrau que não esperava e afundou. Os amigos tiraram ele em menos de um minuto, diz ele, e ele tossiu muito, vomitou uma vez e sentou na areia. O resgate do corpo de bombeiros chegou, ofereceu levar, e ele recusou: estava bem, estava andando, estava conversando. Foi para casa de moto. Uma hora e meia depois, veio ao pronto-socorro porque a tosse não passou e porque, nas palavras dele, o peito ficou apertado. Está sentado, fala frases inteiras, não parece grave. Frequência respiratória 26. Saturação 93% em ar ambiente. À ausculta, estertores finos nas duas bases.
Na maca 2 está Marcelino Lídio, 31 anos, eletricista de manutenção. Estava trocando o disjuntor do quadro que alimenta a bomba d'água de um condomínio quando levou um choque. Não caiu de altura nenhuma; segundo o colega que veio junto, ele ficou preso ao quadro por alguns segundos, com o braço rígido, até o colega desligar a chave geral. Ficou confuso por um minuto e depois voltou ao normal. Chegou andando também. Ao exame, o que se vê é quase nada: uma lesão puntiforme, esbranquiçada, do tamanho de uma lentilha, na base do quarto dedo da mão direita, e uma outra parecida no calcanhar esquerdo. Nenhuma dessas duas marcas, somadas, chega a 1% da superfície corporal. Ele está com pressa, diz que amanhã tem serviço às sete, e pergunta se dá para assinar alguma coisa e ir embora.
Os dois chegaram andando. Os dois disseram que estavam bem. E os dois são exatamente o tipo de paciente que este capítulo trata: o que não parece grave. O afogado que sai da água pelo próprio pé e o eletrocutado sem queimadura visível são, os dois, os que voltam piores — um porque a lesão pulmonar leva horas para se declarar, outro porque a corrente atravessou tecido que ninguém vê pela pele. Enquanto você decide o que fazer com eles, vale saber que as duas outras emergências ambientais deste capítulo, a hipotermia e o golpe de calor, vão exigir de você a mesma inversão de reflexo: parar de fazer o que você aprendeu a fazer depressa, e fazer outra coisa.
Este capítulo é do adulto. Afogamento e hipotermia na criança têm fisiologia, superfície corporal e prognóstico próprios, e vão para os capítulos de Pediatria; a prevenção do afogamento na primeira infância — cerca de água, supervisão, o balde e a piscina de plástico do quintal — é de Acidentes na infância: prevenção, afogamento, queimadura e intoxicação exógena, na apostila de Emergências Pediátricas, e se faz na consulta de puericultura.
Quem adoece disso
Comece pelo afogamento, que é o que tem número brasileiro. A diretriz brasileira de afogamento registra 17 mortes por afogamento por dia no Brasil, dado de 2014. Multiplicando: 17 vezes 365 dá 6.205 mortes por ano. É mais gente do que morre por muitas doenças que ocupam capítulo inteiro de livro-texto, e a diretriz insiste que se está contando mal — a Classificação Internacional de Doenças não captura afogamento em enchente, acidente de navegação e tsunami, de modo que o número é piso, não teto.
No mundo, o mesmo documento cita a estimativa da Organização Mundial da Saúde: mais de 372 mil mortes por ano, ou 0,7% de todas as mortes. A conta fecha: 372.000 dividido por 0,007 dá 53,1 milhões de mortes anuais no mundo, que é a ordem de grandeza correta para 2014. É uma conferência que dá certo, e vale registrar as que dão certo tanto quanto as que falham.
Uma frase da mesma fonte não fecha do mesmo jeito. Ela diz que o afogamento tem risco de óbito 200 vezes maior quando comparado aos eventos de trânsito. Lida como está, sem denominador declarado, a frase não se sustenta: o trânsito mata muito mais gente no Brasil do que a água. O que ela quer dizer, quase certamente, é letalidade por incidente — a chance de morrer dado que o evento aconteceu —, e não risco populacional. Registre-se que o documento não declara o denominador, e que quem repetir a frase sem ele estará repetindo uma comparação impossível.
O raio é a área em que o Brasil é campeão mundial e quase ninguém sabe. A diretriz da SBC de 2019 registra que, de todos os países do mundo, o Brasil é o mais atingido por descargas elétricas, com cerca de 100 milhões de raios por ano, e que entre 2000 e 2009 ocorreram 1.321 mortes por raio no país, média de 132 mortes por ano. A divisão confere: 1.321 dividido por 10 dá 132,1. A mortalidade da eletrocussão por raio, no mesmo documento, chega a 30%.
A injúria elétrica em geral tem no documento uma taxa mundial: cerca de 0,54 morte por 100 mil pessoas por ano. Aplicada à população brasileira de cerca de 215 milhões, essa taxa daria 1.161 mortes por ano — 0,54 dividido por 100 mil, multiplicado por 215 milhões. É uma projeção, não um dado brasileiro, e é assim que ela deve ser lida: o documento não traz série nacional de mortes por eletricidade fora do raio, e este capítulo não vai fingir que traz. O perfil, esse sim, o documento declara: em adultos as lesões elétricas são comuns em ambiente de trabalho e por choques de alta voltagem; em crianças, o ambiente é o domicílio, onde a voltagem é menor.
Da hipotermia acidental no Brasil não há denominador nenhum nas fontes lidas. Nem a diretriz da SBC nem o protocolo do SAMU trazem incidência, mortalidade ou série temporal brasileira — o protocolo do SAMU traz apenas o grupo de risco, que é uma lista de gente: idosos, crianças, moradores de rua, pessoas com deficiência intelectual, tetraplégicos, diabéticos, pessoas com transtorno por uso de álcool, usuários de outras drogas, politraumatizados, pacientes de afogamento, grandes queimados e quem está exposto a vento, umidade e temperatura baixa. Repare que quase toda essa lista descreve vulnerabilidade social, não geografia. Hipotermia no Brasil não é doença de montanha: é doença de quem passa a noite na rua, de quem foi encontrado caído e ficou horas no chão, de quem foi resgatado da água, de quem chegou politraumatizado e ficou nu numa sala fria.
Do golpe de calor não há número brasileiro em nenhuma das fontes normativas lidas, e não há por uma razão anterior: não há documento normativo brasileiro sobre golpe de calor. A página do Ministério da Saúde sobre ondas de calor traz orientação de prevenção à população e nenhum critério clínico. O posicionamento da Sociedade Brasileira de Cardiologia de 2026 sobre emergências em eventos esportivos toca no assunto de raspão, e é o único a fixar uma regra. O resto do que se sabe em números vem de literatura estrangeira ou de tradução antiga. Esse vazio é o achado mais importante deste bloco, e ele reaparece na seção de critérios com nome e sobrenome.
Por que acontece o que acontece
As quatro emergências deste capítulo são problemas de energia atravessando um corpo. Em três delas a energia é calor: sai demais na hipotermia, entra demais na insolação, e entra de uma vez só e por dentro no choque elétrico. Na quarta, o afogamento, o que falta é oxigênio, e o que sobra é água onde deveria haver ar. Ver assim explica por que os quatro algoritmos divergem do padrão exatamente nos pontos em que divergem — e por que dois deles, a hipotermia e o afogamento, se encontram no mesmo paciente com uma frequência que surpreende quem nunca pensou nisso.
No corpo frio, o miocárdio fica irritável e o resto fica lento. Abaixo de aproximadamente 33 °C aparece no eletrocardiograma a onda J, também chamada onda de Osborn, que o protocolo do SAMU descreve como deflexão proeminente na junção entre o complexo QRS e o segmento ST. À medida que a temperatura cai, a bradicardia se aprofunda, a fibrilação atrial aparece e depois cede lugar a arritmia ventricular. O ponto que muda conduta é este: o coração hipotérmico entra em fibrilação ventricular com estímulos que num coração normotérmico não fariam nada — e mobilização brusca é um desses estímulos. O protocolo do SAMU escreve a frase em uma linha só, sem justificar: evitar manuseio brusco com o paciente para não desencadear arritmia cardíaca. A diretriz da SBC diz o mesmo pelo outro lado, mandando restringir movimentos a partir da hipotermia moderada. É a razão pela qual tirar um hipotérmico grave da maca para a mesa de raio-X é um ato com risco próprio.
Ao mesmo tempo em que o frio torna o coração irritável, ele protege o cérebro, e é essa segunda metade que sustenta a regra de não declarar morte. O consumo cerebral de oxigênio cai com a temperatura. Aqui os dois documentos brasileiros dão números diferentes para a mesma constante, e a diferença tem consequência aritmética. A diretriz brasileira de afogamento registra queda de cerca de 5% a cada 1 °C, no intervalo de 37 °C a 20 °C. A diretriz da SBC de 2019 registra 6% a cada 1 °C, sem intervalo declarado. Nenhum dos dois diz se a queda é aditiva ou multiplicativa, e a diferença não é acadêmica: lida de forma aditiva, a taxa de 6% zera o metabolismo cerebral a 20,3 °C, porque 100 dividido por 6 dá 16,67 graus abaixo de 37 — e temperatura abaixo dessa é rotina em hipotermia acidental sobrevivida, já que o próprio Swiss Staging System só reserva a categoria de óbito para valores abaixo de 13,7 °C. Lida de forma multiplicativa, a mesma taxa deixa 34,9% do metabolismo basal a 20 °C, e a taxa de 5% deixa 41,8%. Só a leitura multiplicativa é fisicamente possível, e nenhum dos dois documentos avisa isso ao leitor.
O reaquecimento tem uma armadilha própria, e é a razão de o hipotérmico grave piorar justamente quando começa a melhorar. O sangue represado nas extremidades frias está mais frio que o núcleo; quando a vasoconstrição periférica cede — porque alguém massageou o braço, porque alguém pôs bolsa quente na perna, porque a pessoa se moveu —, esse sangue retorna e derruba mais um pouco a temperatura central. O protocolo do SAMU proíbe as duas coisas em uma linha: não utilizar compressas quentes nem massagear as extremidades para aquecer. Junto disso, o mesmo protocolo manda manter o paciente em posição horizontal, registrando que a posição ortostática aumenta o risco de convulsões. A diretriz da SBC acrescenta um detalhe mecânico que ninguém espera: a hipotermia enrijece a parede torácica, e isso dificulta tanto ventilar quanto comprimir.
No extremo oposto do termômetro, a distinção que decide tudo é entre exaustão pelo calor e golpe de calor. Na exaustão, a termorregulação ainda funciona: a pessoa sua, vasodilata, perde volume e sal, e o que aparece é fraqueza, tontura, náusea, cãibra e taquicardia, com temperatura central em geral abaixo de 40 °C e sem alteração do sistema nervoso central. No golpe de calor, a termorregulação falhou: a temperatura central passa de 40 °C e aparece disfunção do sistema nervoso central — confusão, comportamento estranho, ataxia, convulsão, coma. A definição operacional que o artigo brasileiro sobre colapso pelo calor por esforço usa é exatamente essa dupla, temperatura retal acima de 40 °C associada a funcionamento anormal do sistema nervoso central, e o texto descreve o achado clínico de um jeito que gruda: o atleta com olhar parado, luzes acesas e ninguém em casa. Daí decorre a inversão terapêutica do calor. A febre é elevação do ponto de ajuste hipotalâmico, e antitérmico funciona porque abaixa esse ponto. No golpe de calor o ponto de ajuste não está elevado: o corpo está tentando dissipar calor e não consegue. Antitérmico não tem em que agir, e ainda soma hepatotoxicidade a um fígado que já está sendo agredido pelo calor. O que reverte é retirar calor do corpo por condução, e o artigo brasileiro é explícito ao dizer que tanto a imersão quanto a toalha com gelo são medidas condutivas — a evaporação com ventilador e névoa perde quase metade da eficiência, e perde ainda mais em ambiente úmido, que é o do Brasil.
O afogamento é uma parada por hipóxia, e é isso que reordena as letras. Água na via aérea provoca laringoespasmo e apneia; a hipóxia se instala antes de qualquer coisa acontecer com o coração; quando o coração para, o faz por asfixia. A diretriz brasileira de afogamento registra que a parada no afogamento ocorre em assistolia quando não há comorbidade ou fator precipitante, e a diretriz da SBC diz o mesmo com outras palavras — a parada de causa respiratória ocorre predominantemente em ritmo não chocável. A consequência prática é que comprimir um tórax cheio de sangue sem oxigênio não resolve nada: é preciso pôr oxigênio no sangue primeiro. Por isso a ressuscitação do afogado volta ao ABC, com abertura de via aérea, ventilação de resgate e só então compressão. E por isso a modalidade só com compressões, que é uma alternativa razoável para o leigo diante de uma parada cardíaca de rua, tem, nas palavras da própria diretriz da SBC, menor impacto no cenário do afogamento.
A água aspirada faz um segundo estrago, mais lento, e é ele que explica o paciente da maca 1. Água doce e água salgada causam graus semelhantes de lesão, apesar da diferença osmótica: as duas lavam o surfactante alveolar, e alvéolo sem surfactante colaba e enche. Titular ventilação e PEEP à resposta pulmonar e hemodinâmica; não manter valor fixo por prazo presumido de regeneração do surfactante. Também por isso a tentativa de drenar a água é inútil e prejudicial: a água que importa já não está na traqueia, está no alvéolo e no interstício, e virar a vítima de cabeça para baixo só produz vômito. O documento quantifica: essa manobra aumenta em mais de cinco vezes a chance de vômito e se associa a aumento de 19% na mortalidade.
No choque elétrico, o que engana é a pele. A pele seca é o tecido de maior resistência do trajeto, e é justamente por isso que ela queima nos pontos de entrada e saída — resistência alta transforma corrente em calor localizado. Por dentro, músculo, vaso e nervo conduzem bem, aquecem de forma difusa e sofrem além do que a superfície sugere. A diretriz da SBC lista os determinantes da gravidade e nenhum deles é visível na pele: tipo de corrente, alternada ou contínua; voltagem; magnitude da energia; resistência dos tecidos; trajeto da corrente pelo paciente; área exposta; e duração do contato. Ela acrescenta que choques de baixa voltagem costumam causar queimaduras brandas nos locais de entrada, sendo os membros superiores os pontos mais comuns. Dois desses determinantes valem sublinhar. O primeiro é o trajeto: corrente que entra na mão e sai na mão oposta ou no pé atravessa o tórax, e o que está no caminho é coração e músculo respiratório. O segundo é a duração: a corrente alternada domiciliar provoca contração tetânica do músculo esquelético, e é a tetania que impede a vítima de soltar a fonte — foi o que prendeu Marcelino ao quadro por alguns segundos, e é o que transforma um contato de instante em contato prolongado.

Como se apresenta de verdade
Cada uma das quatro tem uma apresentação que engana de um jeito diferente. A hipotermia engana porque parece morte. A insolação engana porque parece desidratação. O afogamento engana porque a vítima anda. E o choque elétrico engana porque a pele está quase intacta. As seis seções abaixo estão organizadas por essa lógica: primeiro o que você vê, depois por que aquilo não é o que parece.
Competência ao concluir este capítulo. Adaptar suporte à exposição ambiental e usar temperatura, ventilação e perfusão para orientar decisões. Ao discutir com o supervisor, separe achados observados, hipótese, risco imediato e plano com reavaliação. A prática deve mostrar o raciocínio que sustenta a decisão, além da execução técnica.
O hipotérmico, que parece morto e não está
O quadro se instala em estágios, e o mais útil de saber é que o tremor desaparece — e o desaparecimento do tremor é piora, não melhora. Na hipotermia leve, entre 32 e 35 °C pelo Swiss Staging System que a diretriz da SBC adota, a consciência está preservada e há tremor. O protocolo do SAMU, que usa outra régua e chama essa faixa de leve também, descreve o quadro com mais detalhe clínico: taquicardia, hipertensão arterial, taquipneia, broncorreia, broncoespasmo, tremor e rigidez musculares, pele fria e pálida, cianose de extremidades, confusão com desorientação ou apatia, ataxia, incoordenação, hiper-reflexia e diurese induzida pelo frio.
Na faixa seguinte tudo se inverte. O tremor cessa, a taquicardia vira bradicardia, a hipertensão vira hipotensão, a taquipneia vira bradipneia, e aparecem arritmias atriais como fibrilação atrial e taquicardia juncional, torpor ou coma, hiporreflexia, pupilas não reativas e alucinações. É aqui que o exame físico começa a mentir: pupila não reativa num hipotérmico não é sinal de morte encefálica, é sinal de temperatura.
Na hipotermia grave, o paciente está sem consciência, com depressão profunda do sistema nervoso central, arreflexia, rigidez, bradicardia grave, hipotensão, bradipneia ou apneia, e pode ter edema pulmonar e arritmia ventricular. Onda J pode apoiar suspeita de hipotermia, mas não mede temperatura nem estabelece um corte exato e não é exclusiva do frio. E é aqui que a apresentação vira armadilha diagnóstica: rigidez, ausência de resposta, pupilas fixas, pulso imperceptível e respiração que não se vê são, todos, achados de hipotermia grave viva. A diretriz da SBC responde a essa armadilha com uma instrução operacional simples e que quase ninguém cumpre: checar pulso em artéria de grande calibre por um minuto inteiro, usando Doppler se houver, e — a frase importa — em caso de dúvida, sempre instituir ressuscitação.
Suspeite de hipotermia por exposição ao frio, que é a primária, e por doença que predispõe, que é a secundária. A diretriz da SBC lista entre as causas secundárias anorexia nervosa, transecção medular, acidente vascular cerebral, toxinas, cetoacidose diabética, acidose láctica e hipoglicemia. Traduzindo para o pronto-socorro brasileiro: o paciente encontrado caído na rua numa madrugada de junho no Sul ou no Sudeste, o alcoolizado que dormiu na calçada, o idoso que caiu em casa e passou a noite no chão, o politraumatizado que ficou nu na sala de emergência com ar-condicionado, e o afogado — que é hipotérmico por definição de exposição.
Exaustão pelo calor, insolação e os dois impostores
A exaustão pelo calor é o quadro comum e é o que a orientação federal descreve: transpiração excessiva, fraqueza, tontura, náusea, cefaleia, cãibra muscular e diarreia. A pessoa está suando, está lúcida, e a temperatura central em geral não chega a 40 °C. É um quadro de depleção de volume e de sal com vasodilatação, e ele responde a sombra, repouso, retirada de roupa e reidratação. Se você observar por meia hora e a pessoa melhorar francamente, era exaustão.
O golpe de calor — insolação, no uso corrente — é outra doença. O que o define é a dupla: temperatura central acima de 40 °C e disfunção do sistema nervoso central. E o sinal neurológico costuma vir antes da queixa de calor. Confusão, agressividade inexplicada, comportamento inadequado, ataxia — o artigo brasileiro sobre colapso pelo calor observa que a alteração de coordenação de membros inferiores é comum, e que a perda de memória do episódio pode ser confundida com traumatismo craniano. A pele pode estar seca e quente, o que é o ensinamento clássico, mas pode perfeitamente estar suada, sobretudo na forma por esforço: pele suada não afasta golpe de calor, e quem usa esse sinal para descartar vai errar no jovem que colapsou na corrida.
As duas formas se apresentam em pacientes diferentes e em ritmos diferentes. A forma clássica, não relacionada a esforço, é a do idoso, do acamado, de quem toma medicação que atrapalha a sudorese ou a sede, de quem mora em cômodo sem ventilação, e ela se instala ao longo de dias de onda de calor. A forma por esforço é a do jovem saudável em atividade física intensa, e se instala em horas ou menos. A primeira chega ao pronto-socorro por rebaixamento; a segunda chega carregada da linha de chegada.
Dois quadros roubam a cena e precisam ser nomeados, porque a diferença muda o tratamento inteiro. A síndrome neuroléptica maligna aparece dias após início ou aumento de antipsicótico, e a marca é rigidez muscular difusa, do tipo chumbo, com hipertermia, disautonomia e rebaixamento; a instalação é lenta, em dias. A síndrome serotoninérgica aparece em horas depois de acrescentar ou aumentar droga serotoninérgica, e a marca é hiper-reflexia com clônus, sobretudo em membros inferiores, além de agitação, midríase, diarreia e tremor. O que separa as três é história medicamentosa mais o tônus: golpe de calor não tem rigidez em cano de chumbo nem clônus, e tem contexto ambiental ou de esforço. Este capítulo assume apenas essa separação, que é diagnóstica e é feita à beira do leito. O manejo específico das duas síndromes é matéria de quem cuida de droga psicotrópica, e não há capítulo do nível que o assuma hoje — fica registrado que este capítulo cede o manejo e fica com o reconhecimento. Vale saber que nem dantroleno nem ciproheptadina figuram no elenco da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024, o que significa que o manejo específico dessas duas síndromes depende, no SUS, de compra fora do elenco.
O afogado que sai andando
A classificação brasileira de afogamento começa antes do grau 1, com uma categoria que quase ninguém usa e que resolve metade dos casos: resgate. Resgate é a pessoa retirada viva da água que não apresenta tosse nem dificuldade respiratória. Segundo a diretriz brasileira de afogamento, esse caso é avaliado e liberado no próprio local, sem necessidade de cuidado médico, desde que não haja comorbidade ou doença associada. Registrar isso importa porque a alternativa — mandar todo mundo que entrou na água para o pronto-socorro — congestiona serviço e não protege ninguém.
O grau 1 é tosse com ausculta pulmonar normal. Não precisa de oxigênio nem de suporte ventilatório e pode ir para casa, se não houver comorbidade. O grau 2 é o divisor de águas deste capítulo, e é o paciente da maca 1: ausculta com estertores. Segundo a mesma diretriz, 93,2% desses pacientes precisam apenas de oxigênio em baixo fluxo e se recuperam de forma satisfatória em 6 a 24 horas de observação hospitalar. A palavra que decide é hospitalar: o grau 2 fica, o grau 1 vai. E a diferença entre os dois é uma ausculta feita com atenção — não é sintoma, não é saturação, não é radiografia.
O que faz o grau 2 ser subestimado é o intervalo. A pessoa saiu da água andando, ficou bem por um tempo, e o edema pulmonar por perda de surfactante se instala ao longo de horas. Quem examina no minuto cinco pode não ouvir nada; quem examina no minuto noventa ouve. Foi exatamente essa a sequência de Armindo — bem na areia, recusa do transporte, piora em casa. E é por isso que a pergunta na triagem não é apenas o que aconteceu, mas há quanto tempo aconteceu.
Uma correção de vocabulário, porque a expressão errada circula muito: não existe afogamento seco nem afogamento secundário como categorias em uso. Em 2002, no primeiro congresso mundial sobre afogamentos, a definição foi unificada e passou a ser adotada pela Organização Mundial da Saúde — afogamento é a aspiração de líquido não corporal por submersão ou imersão, e o que existe depois disso é afogamento fatal e afogamento não fatal. O paciente que piora horas depois não teve outro tipo de afogamento: teve o mesmo afogamento, e a lesão pulmonar dele se declarou no tempo dela.
O afogado grave, do grau 3 ao 6
O grau 3 é edema agudo de pulmão sem hipotensão arterial. A diretriz brasileira de afogamento registra que apenas 27,6% desses pacientes conseguem permanecer sem tubo com oxigênio a 15 litros por minuto em máscara facial, e que a maioria — 72,4% — acaba precisando de intubação e ventilação mecânica. As duas frações somam exatamente 100%, o que é a conferência que se espera de uma casuística bem apresentada.
O grau 4 é edema agudo de pulmão com hipotensão arterial, e o documento diz que ele precisa de intubação em 100% dos casos. Aqui há uma diferença de definição entre as duas réguas brasileiras que vale conhecer antes de aplicar qualquer uma: o protocolo do SAMU acrescenta a palavra consciente à definição dos graus 1 a 4, de modo que, na régua do pré-hospitalar, um paciente com edema agudo e hipotensão que não esteja consciente não tem grau. Na régua da Sociedade Brasileira de Salvamento Aquático, consciência não entra na definição dos graus 3 e 4 — o que os separa é a pressão arterial.
O grau 5 é parada respiratória com pulso presente. A diretriz brasileira de afogamento orienta manter apenas a ventilação, de 10 a 12 vezes por minuto, até o retorno da respiração espontânea, e registra que isso costuma acontecer antes de terminar as dez ventilações. É provavelmente o grau em que a intervenção mais rende: ventilar um afogado em apneia com pulso é das poucas coisas em medicina que resolvem em segundos.
O grau 6 é a parada cardiorrespiratória, e o ritmo esperado é assistolia. O documento é categórico ao dizer que a parada no afogamento ocorre em assistolia quando não há comorbidade nem fator precipitante, e que a fibrilação ventricular aparece em adultos com doença coronariana ou como consequência da própria terapia avançada, com o uso de drogas pró-arrítmicas. Isso não significa não usar o desfibrilador externo automático: a diretriz da SBC diz que ele pode ser usado depois de secar o tórax da vítima. Significa saber, antes de aplicar, que o mais provável é que ele diga que não há choque indicado — e que isso não é falha do aparelho.
Acima do grau 6 há a categoria cadáver, e ela tem definição estrita. Temperatura isolada, tempo de RCP, pupila fixa ou rigidez por frio não determinam interrupção. Avaliar circunstâncias, lesões incompatíveis com vida, sinais inequívocos de morte e viabilidade de reaquecimento com equipe experiente. Na hipotermia potencialmente reversível, manter suporte e discutir centro extracorpóreo; prognóstico hospitalar pode utilizar HOPE no contexto adequado. A frase “acima de 34 °C e assistolia” não é regra universal suficiente para declarar morte. Fora dessas condições, inicia-se a ressuscitação. O documento registra casos de sucesso após duas horas de manobras e recuperação sem dano cerebral com até uma hora de submersão, e um serviço do Rio de Janeiro com 13 casos de parada com submersão maior que sete minutos, oito deles com mais de catorze minutos, ressuscitados com sucesso.
O eletrocutado que parece bem
A apresentação típica do choque de baixa voltagem é o paciente de pé, lúcido, com uma ou duas marcas pequenas e esbranquiçadas, que a diretriz da SBC descreve como queimaduras brandas nos locais de entrada, mais comuns nos membros superiores. Nada nessa cena assusta, e é por isso que ela é perigosa. Três perguntas mudam completamente o peso do quadro, e nenhuma delas é sobre a marca: houve perda de consciência? houve tetania com incapacidade de soltar a fonte? qual foi o trajeto provável, isto é, onde entrou e onde saiu?
O que se procura no exame é o trajeto e o que está no caminho dele. Corrente que entra numa mão e sai na outra ou num pé cruza o tórax. Coração no caminho significa risco de arritmia; músculo no caminho significa risco de lesão muscular extensa; nervo no caminho significa déficit que pode aparecer imediatamente ou tardiamente. A diretriz da SBC registra ainda que os danos se relacionam a contrações musculares intensas, com rabdomiólise e fraturas ósseas, e à liberação de catecolaminas — vale dizer, o próprio espasmo pode fraturar osso e luxar articulação sem que tenha havido queda.
A paralisia muscular é o achado que mais surpreende quem nunca viu. A diretriz da SBC alerta que, especialmente após choques de alta voltagem, a paralisia muscular pode persistir por horas, e que o suporte ventilatório é necessário durante esse período. Traduzindo: existe eletrocutado que não ventila e cujo problema não é o cérebro nem o pulmão, é o músculo respiratório parado, e ele só precisa de tempo com ventilação.
Na queimadura elétrica, a regra dos nove engana. Ela mede superfície, e a superfície é justamente o que a lesão elétrica poupa. O cálculo de superfície corporal queimada e a classificação de profundidade são conteúdo do capítulo Superfície queimada e profundidade, e a fórmula de reposição é do capítulo A conta que a urina corrige, ambos da apostila de Queimados, e é para lá que se deve ir para calcular. O que este capítulo assume é o aviso de que, no queimado elétrico, o número que sair daquele cálculo vai subestimar a lesão, porque o volume de tecido destruído no trajeto não tem correspondência com a área de pele acometida.
A vítima de raio, que é outra coisa
A eletrocussão por raio não é um choque elétrico grande: é um evento com física própria. A diretriz da SBC registra que os raios podem liberar até 300 kV em poucos milissegundos e que, diferentemente da corrente domiciliar, emitem corrente de altíssima voltagem e contínua. A consequência clínica é que o mecanismo de morte muda: embora o automatismo cardíaco costume reiniciar a atividade elétrica sozinho, na maioria dos casos o dano do sistema nervoso central leva a uma parada respiratória mais duradoura, que facilita uma parada cardiorrespiratória secundária e fibrilação ventricular por hipóxia.
Isso tem uma consequência de triagem que inverte tudo o que se ensina em desastre. Numa cena com múltiplas vítimas de raio — e é comum haver várias, porque o raio atinge um grupo —, a prioridade é justamente quem parece morto, porque é quem está em parada respiratória e pode voltar com ventilação. Quem está gritando está respirando. É a única situação de triagem em que a ordem habitual se inverte, e vale saber que a mesma descarga produz gravidade muito diferente entre pessoas: a diretriz registra que o padrão e a gravidade do trauma variam consideravelmente mesmo em um grupo atingido por uma única descarga.
A segurança da cena, no raio e na eletricidade em geral, é regra e não formalidade. A diretriz da SBC manda garantir que qualquer fonte de eletricidade esteja desligada antes de começar o atendimento, e registra o motivo com um dado que se esquece: correntes elétricas de alta voltagem podem arquear e ser conduzidas pelo solo por até alguns metros. Socorrista eletrocutado ao lado da vítima transforma um atendimento em dois.
Como fechar o diagnóstico
Em três das quatro emergências deste capítulo, o exame que decide é um número que a maioria dos serviços mede errado: a temperatura. Comece por ela, e trate o resto como consequência.
Medir para acompanhar, sem falsa precisão. No golpe de calor, temperatura retal é referência prática; na hipotermia em reaquecimento rápido, medidas retais podem atrasar em relação ao núcleo, e temperatura esofágica no intubado pode ser mais útil. Estadiamento clínico é aproximação, afetada por álcool, fármacos, trauma e doença neurológica. Temperatura axilar e um valor no limite inferior do aparelho não excluem hipotermia grave. Nunca converter ausência de tremor ou onda J em termômetro exato.
A temperatura que vale, e por que a axilar não serve
A temperatura que governa a conduta é a central, e a axilar não é central. Ela mede pele e músculo periférico, ou seja, exatamente o compartimento que a vasoconstrição do frio e a vasodilatação do calor desconectam do núcleo. No hipotérmico, o periférico está mais frio que o núcleo, e a axilar subestima a gravidade porque o paciente encolhido pode nem fechar a axila direito. No golpe de calor, a pele suada e a evaporação puxam a leitura para baixo, e a axilar subestima justamente no paciente em que subestimar é fatal. Some-se a isso um problema mecânico banal: o termômetro clínico comum não tem escala para baixo — a maioria começa em torno de 32 a 35 °C e simplesmente não registra abaixo disso, devolvendo o valor de fundo de escala como se fosse a temperatura do paciente.
As vias que valem, na ordem prática do pronto-socorro brasileiro: retal, esofágica e vesical. A retal é a que qualquer serviço consegue fazer hoje, com termômetro de leitura baixa; a esofágica, com sonda posicionada no terço distal, é a mais fiel no paciente intubado e é a preferida quando se está reaquecendo ou resfriando ativamente, porque acompanha a mudança sem atraso; a vesical, por sonda com sensor, é conveniente em quem já vai ser sondado. A retal tem um atraso conhecido durante resfriamento rápido, e é preciso saber disso para não interpretar como falha do método algo que é inércia da medida. O timpânico não serve para decisão nestes quadros, e a fita de testa muito menos.
Aqui é preciso ser honesto sobre a régua brasileira, porque ela é frouxa neste ponto exato. A diretriz da SBC de 2019 escreve, sobre hipotermia, que a medida precisa da temperatura central com termômetro bem calibrado é importante na tomada de decisão, mas muitas vezes não está disponível, e emenda: termômetros convencionais dispõem da mesma acurácia. Essa última frase, lida ao pé da letra, contradiz o parágrafo acima e contradiz a física do instrumento — termômetro clínico comum não lê abaixo do fundo de escala, e leitura axilar não é temperatura central. A leitura mais generosa é que a frase queira dizer que, dentro da faixa em que ambos leem, a acurácia é comparável. É uma frase que precisa ser lida com essa ressalva, e este capítulo a lê assim, dizendo com todas as letras que essa é uma leitura sua e não uma citação. O protocolo do SAMU, do seu lado, define o critério de inclusão da hipotermia como temperatura central abaixo de 35 °C e não diz por qual via se mede. Nenhum documento brasileiro lido especifica a via de medida da temperatura no golpe de calor — o posicionamento de 2026 pede termômetro digital de alta precisão no material do evento e para por aí. O corte de 40 °C só tem sentido operacional se for medido por via central, e essa amarração falta.
Uma consequência prática, e ela é de gestão tanto quanto de clínica: se o seu serviço não tem termômetro de leitura baixa, você não consegue estadiar hipotermia por temperatura. A diretriz da SBC prevê isso e dá a saída: nas situações em que não se consiga aferir a temperatura, usar o Swiss Staging System, que se baseia em sinais clínicos. Ou seja, existe uma régua clínica oficial para quando o número não existe — e vale conhecê-la antes de precisar dela às três da manhã.
O eletrocardiograma, que quer dizer coisa diferente em cada uma
No hipotérmico, o eletrocardiograma serve para confirmar e para estadiar. Onda J pode apoiar suspeita de hipotermia, mas não mede temperatura nem estabelece um corte exato e não é exclusiva do frio. Um ponto de conduta: a fibrilação atrial do hipotérmico costuma reverter sozinha com o reaquecimento e não é motivo para cardioversão.
No eletrocutado, o eletrocardiograma serve para decidir destino. A diretriz da SBC lista anormalidade eletrocardiográfica entre os motivos para monitorar em hospital todo sobrevivente de dano elétrico — e é justamente aqui que se resolve o caso do paciente que parece bem. O que se procura não é infarto: é arritmia, distúrbio de condução, extrassistolia ventricular frequente e alteração de repolarização. A arritmia inicial mais comum após choque com corrente alternada é a fibrilação ventricular, e o tratamento é desfibrilação imediata — mas essa é a vítima que chega em parada, não a que chega andando.
No afogado e no paciente com golpe de calor, o eletrocardiograma serve para outra pergunta: o que veio primeiro. Afogamento precipitado por síncope arrítmica, por infarto ou por convulsão muda tudo o que vem depois, e a diretriz brasileira de afogamento registra que afogamentos podem ser precipitados por convulsão, traumatismo, doença cardiopulmonar e acidente de mergulho. No golpe de calor, o traçado interessa pela repercussão — alteração isquêmica secundária e arritmia por distúrbio eletrolítico. Leitura sistemática do traçado e os padrões em si são conteúdo do capítulo ECG na prática, da apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito, e das apostilas de Cardiologia; o que este capítulo assume é para que se pede o exame em cada uma destas quatro situações.
Uma advertência que vale para os quatro quadros: monitorização contínua não é o mesmo que eletrocardiograma de doze derivações, e nenhuma das duas substitui a outra. O eletrocutado que fica em observação precisa das duas coisas, e o hipotérmico em reaquecimento também.
Os exames que decidem, e quando eles decidem
No afogado, o exame que decide é a gasometria arterial. A diretriz brasileira de afogamento a coloca como o principal exame complementar na decisão entre unidade intensiva, enfermaria, observação na emergência e alta, junto de anamnese completa, antecedentes, exame físico detalhado e radiografia de tórax. Ela acrescenta hemograma, eletrólitos, ureia e creatinina, registrando honestamente que alterações nesses exames são incomuns — o que é uma informação útil ao contrário: se vierem muito alterados, procure outra coisa acontecendo.
No eletrocutado, os exames que decidem são os da lesão que não se vê: creatinofosfoquinase, potássio, creatinina e exame de urina procurando urina escura sem hemácias, que é mioglobinúria. O raciocínio da rabdomiólise e da injúria renal aguda que dela decorre — como estadiar, quanto repor, quando indicar diálise — pertence ao capítulo Injúria renal aguda, da apostila de Nefrologia. O que fica aqui é a indicação: no queimado elétrico, esses exames são de rotina e não de exceção, e a urina escura no coletor é achado de beira de leito que antecede qualquer laboratório.
No golpe de calor, o painel é o de disfunção de múltiplos órgãos, porque é disso que se trata: transaminases, coagulograma, plaquetas, creatinina, creatinofosfoquinase, sódio, potássio, glicemia e gasometria. O artigo brasileiro sobre colapso pelo calor registra que a depressão do músculo cardíaco encontrada nesses pacientes pode ser completamente revertida pelo resfriamento rápido, e que a função renal também pode voltar ao normal se o resfriamento ocorrer antes da morte celular — o que reorganiza a prioridade de forma clara: os exames não param o resfriamento, eles acompanham.
No hipotérmico, dois exames mudam conduta imediata e ambos são de ponta de dedo ou de gasometria: a glicemia capilar e o potássio. O protocolo do SAMU já traz glicemia capilar na monitorização e manda administrar glicose se o valor estiver abaixo de 70 mg/dL — hipoglicemia é causa e é consequência de hipotermia, e tratar uma sem medir a outra é apostar. O potássio interessa porque a hipercalemia acentuada é um dos poucos marcadores que se usam para não iniciar ou para encerrar esforços num hipotérmico em parada, e porque o próprio reaquecimento o desloca.
A radiografia de tórax do afogado, e o que ela não responde
A radiografia entra na avaliação hospitalar do afogado, e a diretriz brasileira de afogamento a inclui entre os exames que ajudam a decidir o destino. Mas ela não decide o grau. O grau é clínico e é estabelecido, nas palavras do documento, no local do afogamento ou no primeiro atendimento — a classificação não tem caráter evolutivo. Ou seja: quem classifica é a ausculta e a pressão arterial, não a imagem.
O erro que a imagem induz é o de tranquilizar. Radiografia normal em paciente com estertores e saturação de 93% não muda o grau 2 para grau 1 e não autoriza alta: a lesão alveolar precoce pode não ter tradução radiológica ainda. O inverso também vale — infiltrado difuso num paciente que está confortável, sem estertores e saturando bem em ar ambiente pede que se procure outra explicação antes de escalar cuidado.
Leitura sistemática da radiografia de tórax é conteúdo do capítulo Radiografia de tórax, da apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito. O que este capítulo assume é a indicação e o limite: pede-se no afogado a partir do grau 2, pede-se no eletrocutado com suspeita de trauma associado ou com paralisia muscular respiratória, e não se pede na exaustão pelo calor de quadro típico.
O que não se pede, e por quê
Não se pede exame para começar a tratar em nenhuma das quatro. O hipotérmico começa a ser aquecido antes de qualquer resultado; o afogado começa a ser ventilado antes de qualquer resultado; o paciente com golpe de calor começa a ser resfriado antes de qualquer resultado. O único exame que precede a conduta é o termômetro, e ele não é laboratório.
Não se pede tomografia de crânio de rotina no paciente com golpe de calor apenas porque está confuso. A confusão faz parte da definição da doença, e o tempo gasto no tomógrafo é tempo com a temperatura alta — que é exatamente a variável que determina o prognóstico. Tomografia entra se houver trauma associado, se o quadro neurológico não melhorar com a normalização da temperatura, ou se a história não fecha.
Não se pede antibiótico nem cultura de rotina no afogado. A diretriz da SBC é explícita: antibióticos profiláticos não estão indicados, embora seja comum a ocorrência de pneumonia após afogamento. Traduzindo para a prática: espera-se a pneumonia acontecer e trata-se a pneumonia que aconteceu, com o material colhido no momento em que ela acontecer.
E não se pede eletroencefalograma nem prognóstico neurológico no hipotérmico ainda frio. Todo exame que avalia função do sistema nervoso central está distorcido pela temperatura, e prognosticar em cima de exame distorcido é o mecanismo do erro mais grave possível neste capítulo.
Quem se observa, por quanto tempo, e com base em quê
No afogamento, os prazos são explícitos e vêm da diretriz brasileira de afogamento. Resgate e grau 1 vão para casa, se não houver comorbidade nem doença associada. Grau 2 fica em observação hospitalar de 6 a 24 horas, e a maior parte se resolve nesse intervalo com oxigênio em baixo fluxo; grau 2 que piora vai para unidade de cuidados intermediários com observação prolongada. Graus 3 a 6 vão para unidade de terapia intensiva, e o documento resume a indicação de internação numa frase: cuidados hospitalares são indicados para afogados de graus 2 a 6.
No choque elétrico, a régua brasileira é a lista de motivos da diretriz da SBC, e ela é generosa. Devem ser monitorados em hospital todos os sobreviventes de dano elétrico que tenham história de problemas cardiorrespiratórios, ou que tenham apresentado perda de consciência, parada cardiorrespiratória, anormalidade eletrocardiográfica, dano tissular em partes moles ou queimadura. Aplicada ao paciente da maca 2, essa lista já o interna por dois motivos independentes — houve confusão transitória, que é perda de consciência para efeito da lista, e há queimadura, mesmo que puntiforme. O que a diretriz não fixa é por quanto tempo, e essa ausência precisa ser dita: não há prazo brasileiro de observação para o eletrocutado assintomático com eletrocardiograma normal.
No golpe de calor, o critério de observação não é tempo, é a curva. O que se acompanha é a temperatura caindo e o estado neurológico voltando; enquanto a temperatura não normalizar e a consciência não voltar ao basal, o paciente não está estável. E o paciente cujo quadro neurológico não melhora depois de normalizada a temperatura precisa de outra explicação, não de mais tempo.
Na hipotermia, o desfecho da observação é a temperatura-alvo, e o caminho até ela é medido em horas. Pelas taxas que a própria diretriz da SBC declara para os métodos invasivos, reaquecer 6 °C — de 26 para 32 °C, por exemplo — leva 2 horas por lavagem torácica, 1,5 a 3 horas por hemodiálise e 2 a 6 horas por diálise peritoneal. Saber essa ordem de grandeza antes de começar muda a conversa com a família e muda a decisão de transferir.
As réguas, e onde elas não fecham
Este bloco põe lado a lado o que os documentos brasileiros dizem, e reporta o que não fecha quando se faz a conta. Boa parte do valor está nas notas, não nas tabelas: cinco conferências falharam, três deram certo, e duas ausências de norma são o achado central do capítulo.
- 1Meça a temperatura por via central. Se não houver termômetro de leitura baixa, estadie por sinais clínicos — a diretriz da SBC prevê isso e diz para usar o Swiss Staging System.
- 2Abaixo de 35 °C: hipotermia. Restrinja movimento a partir dos 32 °C, aqueça, e não use compressa quente nem massageie extremidade.
- 3Acima de 40 °C com disfunção do sistema nervoso central: golpe de calor. Resfrie por condução antes de transportar, e não dê antitérmico.
- 4Saiu da água: classifique pela ausculta e pela pressão, no local. Estertor é grau 2 e fica no hospital de 6 a 24 horas.
- 5Levou choque: procure o trajeto, não a marca. Perda de consciência, tetania, queimadura ou eletrocardiograma alterado internam.
- 6Temperatura isolada, tempo de RCP, pupila fixa ou rigidez por frio não determinam interrupção. Avaliar circunstâncias, lesões incompatíveis com vida, sinais inequívocos de morte e viabilidade de reaquecimento com equipe experiente. Na hipotermia potencialmente reversível, manter suporte e discutir centro extracorpóreo; prognóstico hospitalar pode utilizar HOPE no contexto adequado. A frase “acima de 34 °C e assistolia” não é regra universal suficiente para declarar morte.
Estadiamento da hipotermia: as duas réguas brasileiras, lado a lado
| Faixa de temperatura central | Diretriz da SBC 2019 (Swiss Staging System) | Protocolo SAMU AC27 (rev. abr/2015) | O que a divergência muda |
|---|---|---|---|
| 32 a 35 °C | Hipotermia I — leve. Consciência preservada, com tremor | Hipotermia leve. Taquicardia, hipertensão, taquipneia, tremor, confusão, ataxia | Nenhuma. As duas réguas coincidem nesta faixa |
| 30 a 32 °C | Hipotermia II — moderada. Rebaixamento de consciência, tremor ausente | Hipotermia moderada. Bradicardia, hipotensão, fibrilação atrial, torpor ou coma, pupilas não reativas | Nenhuma no rótulo; a SBC acrescenta a ordem de restringir movimentos, que o SAMU só traz como observação de rodapé |
| 28 a 30 °C | Ainda Hipotermia II — moderada | Já é hipotermia grave | Aqui elas se separam. Mesmo paciente, dois rótulos: moderado por uma régua, grave pela outra |
| 24 a 28 °C | Hipotermia III — grave. Sem consciência, com sinais vitais presentes | Hipotermia grave (faixa não desdobrada) | A SBC indica ECMO na grave com instabilidade; o SAMU não menciona ECMO nem lavagem torácica |
| Abaixo de 24 °C | Hipotermia IV — parada cardiorrespiratória ou sinais vitais mínimos | Sem categoria própria: continua hipotermia grave | A SBC tem conduta específica de parada nesta faixa; o SAMU remete ao protocolo geral de parada |
| Abaixo de 13,7 °C | Hipotermia V — óbito | Sem categoria | É o único limiar de irreversibilidade declarado em documento brasileiro |
| Valores exatos 32 °C e 28 °C | Pertencem às duas classes vizinhas ao mesmo tempo (32–35 e 28–32; 28–32 e 24–28) | O valor 32 °C pertence a leve e a moderada (32–35 e 30–32) | Ambigüidade de tabela; ver a nota de auditoria |
Graus de afogamento (classificação brasileira): achado, conduta e destino
| Categoria | O que define | Conduta imediata | Destino |
|---|---|---|---|
| Resgate | Retirado vivo da água, sem tosse e sem dificuldade respiratória | Ausência sustentada de sintomas e exame normal podem permitir liberação após avaliação apropriada; sintomas respiratórios, hipoxemia ou fatores de risco exigem observação e seguimento conforme protocolo. | Casa, se não houver comorbidade ou doença associada |
| Grau 1 | Tosse com ausculta pulmonar normal | Sem oxigênio e sem suporte ventilatório | Casa, se não houver comorbidade ou doença associada |
| Grau 2 | Ausculta com estertores, de leve a moderada intensidade | Oxigênio em baixo fluxo — 93,2% precisam só disso | Hospital, 6 a 24 h de observação; piora leva a cuidados intermediários |
| Grau 3 | Edema agudo de pulmão sem hipotensão arterial | Oxigênio a 15 L/min em máscara facial; 72,4% acabam intubados | Unidade de terapia intensiva |
| Grau 4 | Edema agudo de pulmão com hipotensão arterial | Intubação em 100% dos casos; cristaloide rápido antes de vasoativo | Unidade de terapia intensiva |
| Grau 5 | Parada respiratória com pulso presente | Só ventilação, 10 a 12 por minuto, até retorno da respiração; depois seguir grau 4 | Unidade de terapia intensiva |
| Grau 6 | Parada cardiorrespiratória | Ressuscitação em sequência ABC; ritmo esperado é assistolia | Unidade de terapia intensiva |
| Cadáver | Sinais inequívocos de morte ou lesões incompatíveis com vida; duração de submersão é fator prognóstico, não critério isolado universal no hipotérmico. | Não iniciar ressuscitação | Instituto médico-legal |
Da ampola para a seringa: as drogas destas quatro emergências, num adulto de 70 kg, contra a apresentação real e contra a Rename 2024
| Droga e apresentação | Dose citada pela fonte | Volume correspondente | Consta na Rename 2024? |
|---|---|---|---|
| Epinefrina, solução injetável 1 mg/mL | 1 mg por dose na parada, intervalo habitual de 3 a 5 min | 1 mL = 1 ampola inteira | Sim, componente Básico. Procurar por adrenalina devolve zero: a denominação da lista é epinefrina |
| Epinefrina no hipotérmico acima de 30 °C | Mesma dose, intervalo dobrado: 6 a 10 min | 1 mL por dose | Sim. Em 30 min de manobras, 3 doses em vez de 7 |
| Epinefrina no hipotérmico abaixo de 30 °C | Adiar adrenalina abaixo de 30 °C no ERC/RCUK 2025; desfibrilação tem regra própria e pode ser tentada inicialmente no ritmo chocável. | Zero | Sim, mas fora de indicação nesta faixa |
| Epinefrina no afogado, dose inicial da SOBRASA | 0,01 mg/kg = 0,7 mg em 70 kg | 0,7 mL — 30% menos que a dose padrão de 1 mg | Sim. Ver a nota de auditoria sobre esta divergência |
| Epinefrina no afogado, dose escalonada da SOBRASA | 0,1 mg/kg = 7 mg em 70 kg | 7 mL = 7 ampolas por dose, a cada 3 a 5 min | Sim. É 7× a dose padrão |
| Glicose, solução injetável 500 mg/mL (50%) | 30 a 50 mL se glicemia abaixo de 70 mg/dL (SAMU AC27) | 30 mL = 15 g; 50 mL = 25 g | Sim, como insumo, nas concentrações de 5%, 10% e 50% |
| Tiamina 100 mg por via intramuscular | SAMU AC27, se sinais de intoxicação alcoólica aguda | Não há apresentação injetável para calcular | NÃO. A Rename só tem cloridrato de tiamina 300 mg comprimido |
| Cristaloide aquecido a 39 °C | SAMU AC27: infundir se disponível | 1 L entrega 46 kJ e eleva 0,19 °C num corpo de 70 kg | Sim: cloreto de sódio 0,9% e solução ringer + lactato |
| Solução ringer + lactato | Reposição volêmica no queimado e no afogado grau 4 | Bolsa de 500 mL ou 1.000 mL | Sim, listada pela composição (lactato de sódio + cloretos), não pelo nome usual |
| Dantroleno | Antídoto da hipertermia maligna, citado como diferencial | Sem apresentação no elenco | NÃO consta |
| Ciproheptadina | Tratamento da síndrome serotoninérgica, citada como diferencial | Sem apresentação no elenco | NÃO consta |
| Gluconato de cálcio e manitol | Hipercalemia e rabdomiólise após lesão elétrica | Sem apresentação no elenco | NÃO constam |
| Bicarbonato de sódio 8,4% (1 mEq/mL) | Alcalinização na rabdomiólise — conduta do capítulo de Nefrologia | 1 mL = 1 mEq | Sim, componente Básico |
| Dipirona e paracetamol | Não têm indicação no golpe de calor | Não se calcula o que não se indica | Sim, ambos — e é por isso que são dados por engano |
Choque elétrico: o que a régua brasileira manda fazer, e onde ela cala
| Pergunta | O que a diretriz da SBC 2019 responde | O que ela não responde |
|---|---|---|
| Quem fica internado? | Todo sobrevivente com história de problema cardiorrespiratório, perda de consciência, parada, anormalidade eletrocardiográfica, dano tissular em partes moles ou queimadura | Por quanto tempo. Não há prazo de observação declarado |
| O que determina a gravidade? | Tipo de corrente, voltagem, magnitude da energia, resistência dos tecidos, trajeto pelo paciente, área exposta e duração do contato | Como estimar o volume de tecido lesado a partir desses dados |
| O que se espera de arritmia? | Fibrilação ventricular é a arritmia inicial mais comum após corrente alternada; tratamento é desfibrilação imediata | Qual arritmia tardia justifica manter o paciente monitorado, e por quanto tempo |
| E a via aérea? | Queimadura de face ou pescoço pede avaliação imediata da via aérea; edema progressivo, obstrução, insuficiência ventilatória e evolução prevista orientam intubação precoce, não localização isolada. | Nada sobre extubação ou critério de desmame nesse cenário |
| Existe tratamento específico? | Não existe terapia específica para o dano elétrico; o manejo é de suporte, e a prevenção é o melhor modo de reduzir prevalência e gravidade | — |
| Existe protocolo pré-hospitalar? | Não no conjunto do SAMU: o protocolo de queimadura, AT25, é explicitamente térmico (chamas, líquidos e superfícies quentes) | Toda a fase pré-hospitalar da lesão elétrica fica sem protocolo nacional |
| Segurança da cena | Garantir que a fonte esteja desligada antes de iniciar; alta voltagem pode arquear e ser conduzida pelo solo por alguns metros | Distância segura em metros não é declarada |
Conferência que FALHOU — e nenhuma outra deste capítulo pesa tanto: as duas réguas brasileiras de hipotermia em uso discordam sobre o que é hipotermia grave. O protocolo AC27 do SAMU, revisto em abril de 2015, define leve como 32 a 35 °C, moderada como 30 a 32 °C e grave como abaixo de 30 °C. A diretriz da SBC de 2019 adota o Swiss Staging System, com hipotermia I de 32 a 35 °C, II de 28 a 32 °C, III de 24 a 28 °C e IV abaixo de 24 °C. A faixa de 28 a 30 °C, portanto, é grave para o pré-hospitalar federal e moderada para a diretriz da sociedade — o mesmo paciente, com o mesmo número, recebe dois rótulos. Na parada por hipotermia, iniciar RCP, oxigenação e reaquecimento e discutir transferência para centro com suporte extracorpóreo. No esquema ERC/RCUK 2025, realizar até três tentativas de desfibrilação se o ritmo for chocável; se persistir abaixo de 30 °C, adiar novas tentativas até ultrapassar 30 °C. Adrenalina é adiada abaixo de 30 °C; de 30–35 °C, usar intervalo de 6–10 minutos conforme protocolo, retornando ao habitual após reaquecimento. Amiodarona tem orientação própria no ERC 2025: dose inicial de 300 mg no ritmo chocável indicado e novas doses após 30 °C. Não ensinar que nenhum choque ou fármaco funciona abaixo de 30 °C. Protocolos devem ser usados integralmente, sem misturar algoritmos de sociedades diferentes.
Conferência que FALHOU: valor exato pertencendo a duas classes, nas duas tabelas. Na régua da SBC, 32 °C está em hipotermia I (32–35) e em hipotermia II (28–32); 28 °C está em II (28–32) e em III (24–28). Na régua do SAMU, 32 °C está em leve (32–35) e em moderada (30–32). E há um efeito de borda no critério de inclusão do próprio AC27: ele manda suspeitar de hipotermia com temperatura central abaixo de 35 °C, mas a faixa leve que ele define vai até 35 °C inclusive — de modo que o paciente com exatamente 35,0 °C tem estágio na tabela e não tem critério de inclusão no protocolo.
Conferência que FALHOU, com inversão de sentido: o artigo brasileiro sobre colapso pelo calor por esforço contradiz a si mesmo na legenda da Figura 1. Suspeitar de golpe de calor diante de exposição e disfunção neurológica, mesmo que a temperatura já tenha caído com resfriamento. Iniciar resfriamento ativo imediatamente e organizar transporte e suporte em paralelo. Imersão em água fria é muito eficiente, especialmente na forma por esforço, quando há equipe capaz de proteger e acessar a via aérea; alternativas incluem resfriamento evaporativo e condutivo conforme recursos. Não aguardar banheira nem retardar suporte vital para cumprir uma regra de resfriar antes de transportar. Monitorar temperatura central; interromper resfriamento intenso em torno de 38–39 °C, conforme método e protocolo, evitando hipotermia. Não usar antitérmico como tratamento. A legenda, porém, atribui aproximadamente 50 graus-minuto à Série 1, descrita como jogadores de futebol não identificados imediatamente, resfriados com ventoinha e esponja, em que todos morreram; e aproximadamente 200 graus-minuto à Série 2, corredores identificados na linha de chegada, resfriados por imersão em banheira, em que todos sobreviveram. Os rótulos estão trocados: quem morreu tem o número menor que o limiar e quem sobreviveu tem o número quatro vezes maior. Lida como está, a legenda ensina o oposto da tese do artigo. É erro de figura, não de conceito — o texto corrido está correto —, mas é o tipo de erro que sobrevive em resumo e em aula.
Conferência que FALHOU: o protocolo AC27 do SAMU manda administrar 100 mg de tiamina por via intramuscular no hipotérmico com sinais de intoxicação alcoólica aguda, e a Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024, do mesmo Ministério da Saúde, não traz nenhuma apresentação injetável de tiamina — só cloridrato de tiamina 300 mg comprimido, componente Básico. A conta do que sobra é desconfortável: a única apresentação do elenco é oral, tem o triplo da dose pedida pelo protocolo e é inaplicável num paciente torporoso, que é justamente o paciente do protocolo. Procurou-se no texto normalizado pelos dois nomes, tiamina e cloridrato de tiamina, com correspondência exata em ambos.
Conferência que FALHOU por ambiguidade na aritmética: os dois documentos brasileiros dão constantes diferentes para a queda do metabolismo cerebral com a temperatura, e nenhum diz se a queda é aditiva ou multiplicativa. A SOBRASA registra cerca de 5% a cada 1 °C, entre 37 e 20 °C; a SBC registra 6% a cada 1 °C, sem intervalo. Lidas de forma aditiva, a taxa de 5% zera o metabolismo a 17 °C e a de 6% zera a 20,33 °C — e temperatura abaixo desses valores é compatível com sobrevida, já que o próprio Swiss Staging System só chama de óbito abaixo de 13,7 °C. Lidas de forma multiplicativa, sobram 41,8% do basal a 20 °C pela taxa de 5% e 34,9% pela taxa de 6%. Só a leitura multiplicativa é possível, e nenhum dos dois documentos avisa isso.
Conferência que DEU CERTO: mortes por raio no Brasil. A diretriz da SBC registra 1.321 mortes entre 2000 e 2009 e média de 132 por ano. A divisão confere: 1.321 dividido por 10 dá 132,1.
Conferência que DEU CERTO: as frações do grau 3 de afogamento. A diretriz da SOBRASA diz que 27,6% dos pacientes conseguem permanecer sem tubo e que 72,4% precisam de intubação e ventilação mecânica. A soma é exatamente 100%.
Conferência que DEU CERTO: a estimativa mundial de afogamento. O documento cita mais de 372 mil mortes por ano e 0,7% de todas as mortes do mundo. Dividindo 372.000 por 0,007 chega-se a 53,1 milhões de mortes anuais, que é a ordem de grandeza correta para o ano da estimativa. Nota de método: esse número vem do relatório da Organização Mundial da Saúde, que não foi aberto no original — a conferência é sobre a coerência interna da citação, não sobre o relatório.
Conta própria, feita para este capítulo e declarada como tal: quanto reaquece 1 litro de cristaloide a 39 °C. Usando calor específico de 4,18 kJ por kg e por grau para a solução e 3,47 kJ por kg e por grau para o corpo, um litro a 39 °C infundido num paciente de 70 kg a 28 °C entrega 46 kJ e eleva a temperatura central em 0,19 °C. Dois litros elevam 0,38 °C; seriam necessários 5,3 litros para 1 °C. A conclusão que essa conta impõe é clínica: cristaloide aquecido serve para não esfriar mais o paciente, não para reaquecê-lo. O protocolo do SAMU manda infundir cristaloide a 39 °C sem dizer isso, e é fácil sair dali com a impressão de que essa é a medida de reaquecimento.
Conta própria, declarada como tal: o orçamento de graus-minuto que justifica resfriar antes de transportar. Suspeitar de golpe de calor diante de exposição e disfunção neurológica, mesmo que a temperatura já tenha caído com resfriamento. Iniciar resfriamento ativo imediatamente e organizar transporte e suporte em paralelo. Imersão em água fria é muito eficiente, especialmente na forma por esforço, quando há equipe capaz de proteger e acessar a via aérea; alternativas incluem resfriamento evaporativo e condutivo conforme recursos. Não aguardar banheira nem retardar suporte vital para cumprir uma regra de resfriar antes de transportar. Monitorar temperatura central; interromper resfriamento intenso em torno de 38–39 °C, conforme método e protocolo, evitando hipotermia. Não usar antitérmico como tratamento. Um transporte de 30 minutos sem resfriamento, num paciente a 42 °C, consome o orçamento inteiro antes de chegar. Não usar antitérmico como tratamento.
Conta própria: as taxas de resfriamento do artigo brasileiro, convertidas em tempo. Para baixar 3 °C, de 41,5 para 38,5 °C, a imersão em banheira com gelo (que pode exceder 8 °C por hora) leva cerca de 22 minutos; a toalha com gelo (cerca de 7 °C por hora) leva cerca de 26 minutos; e a ventilação com névoa, que o artigo estima em aproximadamente metade da eficiência, leva cerca de 45 minutos. Uma ressalva de peso da evidência: a taxa da toalha com gelo é declarada no próprio artigo como observação pessoal do autor, o que significa que a frase quase tão eficaz não está apoiada em dado publicado.
Ausência de norma, primeiro achado: não existe documento clínico brasileiro sobre golpe de calor. A diretriz da SBC de 2019, que dedica seções à hipotermia acidental, à eletrocussão e ao afogamento, não tem seção de hipertermia ambiental. O conjunto de protocolos do SAMU tem o AC27 para hipotermia e não tem nenhum protocolo de doença pelo calor. A página do Ministério da Saúde sobre ondas de calor é material de prevenção dirigido à população. Suspeitar de golpe de calor diante de exposição e disfunção neurológica, mesmo que a temperatura já tenha caído com resfriamento. Iniciar resfriamento ativo imediatamente e organizar transporte e suporte em paralelo. Imersão em água fria é muito eficiente, especialmente na forma por esforço, quando há equipe capaz de proteger e acessar a via aérea; alternativas incluem resfriamento evaporativo e condutivo conforme recursos. Não aguardar banheira nem retardar suporte vital para cumprir uma regra de resfriar antes de transportar. Monitorar temperatura central; interromper resfriamento intenso em torno de 38–39 °C, conforme método e protocolo, evitando hipotermia. Não usar antitérmico como tratamento. Uma frase, num documento sobre arena e prova de rua, é toda a régua nacional para uma doença que mata em onda de calor.
Ausência de norma, segundo achado: não existe protocolo pré-hospitalar brasileiro de lesão elétrica. O conjunto de protocolos de suporte avançado do SAMU tem o AT25 para queimadura térmica, cuja regra de inclusão fala em chamas, líquidos e superfícies quentes, e nenhum protocolo de choque elétrico ou eletrocussão. A única régua brasileira do tema é a seção 9.3.4 da diretriz da SBC, que é uma diretriz de cardiologia — o que explica por que ela cobre bem a parada e a arritmia e cobre mal a lesão de partes moles, a rabdomiólise e a reposição.
Datação, com a conta explícita: o conjunto de protocolos do SAMU não foi revisto por inteiro. A ficha catalográfica registra 2ª edição, 2016, e é datada de fevereiro de 2016; o texto de apresentação, datado de março de 2015, ainda se refere a si mesmo como 1ª edição, o que é uma contradição interna do próprio documento. Mais importante, cada protocolo carrega a sua data: o algoritmo de parada no adulto foi revisto em janeiro de 2016 e traz no título a menção às diretrizes internacionais de 2015; a hipotermia foi revista em abril de 2015 e o afogamento em maio de 2015, ambos anteriores à publicação daquelas diretrizes, em outubro de 2015. Ou seja, dentro do mesmo livro, a parada foi atualizada e as duas emergências ambientais não. A vigência do conjunto é por ausência de substituto, e essa é a expressão exata.
Licenças, levantadas com o espaço e o hífen normalizados antes da procura, já que o extrator de PDF gruda palavras vizinhas: a diretriz da SBC de 2019 declara no rodapé que é artigo de acesso aberto sob licença de atribuição Creative Commons; o posicionamento de 2026 declara Creative Commons; a Rename 2024 declara Creative Commons Atribuição–Não Comercial–Compartilhamento pela mesma licença 4.0, logo abaixo da ficha catalográfica; o documento da SOBRASA e o conjunto de protocolos do SAMU não têm cláusula visível, e foi procurado também por todos os direitos reservados, reprodução permitida, vedada a reprodução e não comercial.
Nota de nomenclatura, e ela já custou dose errada em outro capítulo: procurar por adrenalina na Rename 2024 devolve zero resultado, tanto no índice quanto no texto bruto. A denominação da lista é epinefrina, e ela está lá, solução injetável 1 mg/mL, componente Básico, código C01CA03. Quem concluir que o SUS não fornece adrenalina terá concluído a partir do nome, não do elenco. Pelo mesmo motivo, noradrenalina devolve zero e norepinefrina devolve hemitartarato de norepinefrina 2 mg/mL. E a solução ringer com lactato está no elenco, mas listada pela composição — lactato de sódio 3 mg/mL com cloreto de sódio, cloreto de potássio e cloreto de cálcio —, o que faz uma busca pelo nome usual falhar; foi conferida à mão sobre o texto normalizado.
A conduta, hora a hora
Os marcos abaixo não são uma linha do tempo de um paciente só: são os oito pontos em que a conduta destas quatro emergências se separa do que você faria em qualquer outro paciente grave. Cada marco diz a qual das quatro se aplica. Os dois primeiros valem para todas, e são os que mais se pulam.
Afogamento e eletricidade: reavaliar função, não só categoria. Afogamento é emergência hipóxica: ventilar precocemente, combinar com compressões quando indicado e usar DEA assim que disponível sem atrasar ventilação. Não drenar água com manobras abdominais. Coluna exige precaução quando mecanismo sugere trauma, sem impedir oxigenação. Um grau registrado na cena não congela a evolução: reavaliar saturação, esforço, ausculta, consciência e perfusão. Alta depende de estabilidade sustentada e orientação, não apenas de tosse isolada inicial. Antibiótico profilático não é rotineiro; água muito contaminada ou infecção mudam avaliação. Lesão elétrica exige ECG e busca de lesão profunda, rabdomiólise, distúrbios de potássio e síndrome compartimental; queimadura de face exige avaliar via aérea, mas não obriga intubação só pela localização se não houver outros sinais de risco.
Minuto zero — a cena, antes do paciente (as quatro)
Em nenhuma outra emergência clínica a cena mata o socorrista com a frequência com que mata aqui. No choque elétrico, a diretriz da SBC manda garantir que qualquer fonte de eletricidade esteja desligada antes de começar o atendimento, e registra que corrente de alta voltagem pode arquear e ser conduzida pelo solo por até alguns metros — não basta não tocar no fio. No afogamento, a orientação é evitar a submersão e usar uma boia ou outro objeto de flutuação como intermediário entre socorrista e vítima. No calor, a primeira medida é tirar o paciente do sol e da fonte de calor. No frio, é tirá-lo do vento e do chão frio e retirar as roupas molhadas, que continuam esfriando enquanto estiverem no corpo. Nada disso é preâmbulo: é a primeira intervenção terapêutica.
Prescrição- Desligar a chave geral e confirmar o desligamento antes de tocar a vítima de choque elétrico; não confiar em disjuntor visualmente desligado sem confirmação
- Não entrar na água sem treinamento e sem flutuação; oferecer flutuação à vítima é a intervenção do leigo
- Retirar roupas frias e molhadas para impedir queda adicional da temperatura, e aquecer com manta metálica (SAMU AC27)
- Retirar do sol e da fonte de calor, e retirar roupa e equipamento antes de qualquer outra coisa
Minuto zero a dois — medir a temperatura pela via que vale (hipotermia e golpe de calor)
A decisão inteira depende de um número que a axilar não dá. Meça por via retal, com termômetro de leitura baixa se houver suspeita de hipotermia, ou esofágica no paciente intubado. Se o serviço não tiver o instrumento, não improvise um número: estadie pela clínica. A diretriz da SBC prevê exatamente esse cenário e manda usar o Swiss Staging System nas situações em que não se consiga aferir a temperatura, que se baseia em sinais clínicos — presença ou ausência de tremor, nível de consciência, presença de sinais vitais. Anote a hora da primeira medida, porque o que vai governar o resto é a curva, não o ponto.
Prescrição- Temperatura central por via retal ou esofágica; registrar valor e horário
- Se não houver termômetro de leitura baixa: estadiar por sinais clínicos pelo Swiss Staging System, e registrar que o estágio é clínico
- Glicemia capilar em todo paciente com alteração de consciência nestes quadros — hipoglicemia é causa e consequência de hipotermia
- Monitorização contínua de ritmo, oximetria e pressão arterial
Hipotermia sem parada — aquecer, e sobretudo não fazer (hipotermia)
No hipotérmico consciente e estável, aquecer, proteger do ambiente e oferecer bebida morna apenas se deglutição segura; não obrigar exercício nem marcha em pessoa exausta ou instável. A partir de 32 °C tudo se inverte: a diretriz da SBC manda restringir movimentos para evitar arritmias e aquecer com técnicas minimamente invasivas, e o protocolo do SAMU acrescenta as duas proibições que mais se violam por boa intenção: não usar compressa quente e não massagear as extremidades. O motivo é o mesmo nas duas: quebrar a vasoconstrição periférica devolve ao núcleo o sangue mais frio da periferia. Mantenha o paciente na posição horizontal — o protocolo registra que a posição ortostática aumenta o risco de convulsões — e trate a mobilização, inclusive a transferência de maca, como um procedimento com risco.
Prescrição- No hipotérmico consciente e estável, aquecer, proteger do ambiente e oferecer bebida morna apenas se deglutição segura; não obrigar exercício nem marcha em pessoa exausta ou instável.
- Hipotermia II (28 a 32 °C): restringir movimentos; manta térmica, ambiente aquecido e cristaloide aquecido a 39 °C
- Hipotermia III (24 a 28 °C): tudo o acima, mais via aérea assegurada preferencialmente com gases aquecidos; considerar ECMO nos casos refratários
- Não usar compressa quente, não massagear extremidades, manter o paciente horizontal
- Glicose 50%, 30 a 50 mL por via intravenosa ou intraóssea, se glicemia abaixo de 70 mg/dL
- Cristaloide aquecido a 39 °C — lembrando que 1 litro eleva cerca de 0,19 °C num adulto de 70 kg: serve para não esfriar mais, não para reaquecer
Hipotermia em parada — o algoritmo muda, e a morte não se declara (hipotermia)
Na parada por hipotermia, iniciar RCP, oxigenação e reaquecimento e discutir transferência para centro com suporte extracorpóreo. No esquema ERC/RCUK 2025, realizar até três tentativas de desfibrilação se o ritmo for chocável; se persistir abaixo de 30 °C, adiar novas tentativas até ultrapassar 30 °C. Adrenalina é adiada abaixo de 30 °C; de 30–35 °C, usar intervalo de 6–10 minutos conforme protocolo, retornando ao habitual após reaquecimento. Amiodarona tem orientação própria no ERC 2025: dose inicial de 300 mg no ritmo chocável indicado e novas doses após 30 °C. Não ensinar que nenhum choque ou fármaco funciona abaixo de 30 °C. Protocolos devem ser usados integralmente, sem misturar algoritmos de sociedades diferentes. Temperatura isolada, tempo de RCP, pupila fixa ou rigidez por frio não determinam interrupção. Avaliar circunstâncias, lesões incompatíveis com vida, sinais inequívocos de morte e viabilidade de reaquecimento com equipe experiente. Na hipotermia potencialmente reversível, manter suporte e discutir centro extracorpóreo; prognóstico hospitalar pode utilizar HOPE no contexto adequado. A frase “acima de 34 °C e assistolia” não é regra universal suficiente para declarar morte.
Prescrição- Verificar sinais de vida por até um minuto em hipotérmico inconsciente; se não há sinais ou persistir dúvida, iniciar RCP.
- Medir temperatura central com instrumento apropriado e mobilizar com cuidado.
- Seguir algoritmo de hipotermia adotado, com particularidades de choque e fármacos; contatar precocemente centro com reaquecimento extracorpóreo.
Suspeitar de golpe de calor diante de exposição e disfunção neurológica, mesmo que a temperatura já tenha caído com resfriamento. Iniciar resfriamento ativo imediatamente e organizar transporte e suporte em paralelo. Imersão em água fria é muito eficiente, especialmente na forma por esforço, quando há equipe capaz de proteger e acessar a via aérea; alternativas incluem resfriamento evaporativo e condutivo conforme recursos. Não aguardar banheira nem retardar suporte vital para cumprir uma regra de resfriar antes de transportar. Monitorar temperatura central; interromper resfriamento intenso em torno de 38–39 °C, conforme método e protocolo, evitando hipotermia. Não usar antitérmico como tratamento.
Suspeitar de golpe de calor diante de exposição e disfunção neurológica, mesmo que a temperatura já tenha caído com resfriamento. Iniciar resfriamento ativo imediatamente e organizar transporte e suporte em paralelo. Imersão em água fria é muito eficiente, especialmente na forma por esforço, quando há equipe capaz de proteger e acessar a via aérea; alternativas incluem resfriamento evaporativo e condutivo conforme recursos. Não aguardar banheira nem retardar suporte vital para cumprir uma regra de resfriar antes de transportar. Monitorar temperatura central; interromper resfriamento intenso em torno de 38–39 °C, conforme método e protocolo, evitando hipotermia. Não usar antitérmico como tratamento.
Prescrição- Resfriamento imediato com monitorização central, via aérea e transporte coordenados.
- Cristaloide guiado por perfusão, eletrólitos e comorbidades; não oferecer líquidos por boca ao rebaixado.
- Avaliar função renal, CK, eletrólitos, fígado, plaquetas e coagulação e acompanhar evolução; lesão de órgão pode aparecer ou piorar depois da queda de temperatura.
Afogado — ABC, cinco ventilações, e o que nunca se faz (afogamento)
A ressuscitação do afogado volta ao ABC, e a diretriz da SBC diz o porquê em cinco palavras: pela natureza de sua parada ser hipóxica. Abra a via aérea, ventile e só então comprima, na relação de 30 compressões para 2 ventilações. Manter ventilação adequada e reavaliar sinais de circulação e resposta, sem pressupor recuperação após um número fixo de ventilações. E as proibições, que aqui são tão importantes quanto as prescrições: nada de manobra para tirar água. A compressão abdominal nunca deve ser feita com esse fim, e virar a vítima de cabeça para baixo aumenta em mais de cinco vezes a chance de vômito, com aumento associado de 19% na mortalidade. A imobilização da coluna cervical não é rotina: a diretriz da SBC a reserva para afogamento em local pouco profundo, politraumatizado, acidente presenciado com mecanismo compatível — e o mergulho de cabeça em água rasa é precisamente essa bifurcação. Nesse caso, e só nesse, o paciente passa a ser um politraumatizado e o atendimento segue o do capítulo Atendimento inicial ao politraumatizado, da apostila de Trauma. O desfibrilador externo automático pode ser usado depois de secar o tórax, sabendo que o ritmo esperado é assistolia.
Prescrição- Sequência ABC: abrir via aérea, ventilação de resgate, depois compressões, 30:2
- Cinco ventilações iniciais; dentro d'água, cinco a dez ventilações apenas se houver treinamento e segurança, e só com pulso presente
- Não tentar drenar água aspirada; não fazer compressão abdominal para esse fim; não posicionar a cabeça abaixo do corpo
- Não imobilizar coluna cervical de rotina; imobilizar se água rasa, politrauma, acidente presenciado ou mecanismo compatível
- Secar o tórax antes de aplicar as pás do desfibrilador externo automático
- Via aérea avançada precoce, com restrição ao uso de dispositivo supraglótico, porque pode ser necessária pressão positiva expiratória final alta
- Sem antibiótico profilático
Afogado — classificar no local e decidir o destino (afogamento)
Classifique no local ou no primeiro atendimento, porque a classificação brasileira não tem caráter evolutivo: o grau é o do momento em que se estabeleceu, e é ele que orienta conduta e prognóstico. O que decide é a ausculta e a pressão arterial. Ausência sustentada de sintomas e exame normal podem permitir liberação após avaliação apropriada; sintomas respiratórios, hipoxemia ou fatores de risco exigem observação e seguimento conforme protocolo. Estertores: grau 2, fica no hospital de 6 a 24 horas com oxigênio em baixo fluxo. Edema agudo sem hipotensão: grau 3, oxigênio a 15 litros por minuto e unidade intensiva, sabendo que quase três em cada quatro acabam intubados. Edema agudo com hipotensão: grau 4, intubação e cristaloide rápido antes de vasoativo. Uma advertência de sistema: no atendimento avançado ao afogamento grave, o documento orienta preparar-se para ficar de quinze a trinta minutos no local, porque levar o equipamento à vítima poupa mais tempo do que levar a vítima ao equipamento.
Prescrição- Estabelecer o grau na cena, por ausculta e pressão arterial; anotar o horário
- Grau 2: internar, oxigênio em baixo fluxo, reavaliar em 6 a 24 horas
- Graus 3 a 6: unidade de terapia intensiva; ventilação protetora com pressão positiva expiratória final titulada
- Grau 4: volume corrente de pelo menos 5 mL/kg, fração inspirada de oxigênio reduzida assim que possível, pressão positiva expiratória final inicial de 5 cmH2O e incrementos de 2 a 3 cmH2O
- Titular PEEP, oxigênio e ventilação à oxigenação, mecânica e hemodinâmica; não fixar PEEP por 48–72 horas independentemente da evolução.
- Corrigir hipotensão do grau 4 primeiro com oxigênio e cristaloide, antes de reduzir a pressão expiratória ou iniciar vasoativo
Choque elétrico — procurar por dentro e decidir quem fica (choque elétrico)
Não existe terapia específica para o dano elétrico: o manejo é de suporte, e a diretriz da SBC registra a frase nesses termos. O que existe é uma busca dirigida. Procure o trajeto — onde entrou, onde saiu, o que estava no caminho. Procure o que a contração tetânica pode ter feito: rabdomiólise, fratura, luxação, sem que tenha havido queda. Procure paralisia muscular respiratória, que pode persistir por horas após choque de alta voltagem e exige suporte ventilatório durante esse período. Queimadura de face ou pescoço pede avaliação imediata da via aérea; edema progressivo, obstrução, insuficiência ventilatória e evolução prevista orientam intubação precoce, não localização isolada. E na hora de decidir o destino, aplique a lista: interna quem tem antecedente cardiorrespiratório, quem teve perda de consciência, quem teve parada, quem tem eletrocardiograma alterado, quem tem dano de partes moles ou queimadura. A régua brasileira não fixa quanto tempo, e o capítulo registra essa ausência em vez de inventar um número. Para a queimadura em si, o capítulo Superfície queimada e profundidade, da apostila de Queimados, é o dono da superfície e da profundidade, e o capítulo A conta que a urina corrige, da mesma apostila, é o dono da reposição volêmica; o que fica aqui é o aviso de que ali o número vai subestimar a lesão. Para a rabdomiólise e a injúria renal que dela decorre, o dono é o capítulo Injúria renal aguda, da apostila de Nefrologia.
Prescrição- Eletrocardiograma de doze derivações e monitorização contínua em todo eletrocutado que preencha a lista de internação
- Creatinofosfoquinase, potássio, creatinina, gasometria e exame de urina procurando mioglobinúria
- Queimadura de face ou pescoço pede avaliação imediata da via aérea; edema progressivo, obstrução, insuficiência ventilatória e evolução prevista orientam intubação precoce, não localização isolada.
- Suporte ventilatório enquanto durar a paralisia muscular, que pode persistir por horas
- Desfibrilação imediata se fibrilação ventricular, que é a arritmia inicial mais comum após corrente alternada
- Considerar intervenção cirúrgica precoce em dano térmico grave
- Avaliar fratura e luxação sem história de queda — a contração tetânica basta para produzi-las
Como saber se está funcionando
Nas quatro emergências deste capítulo, a variável que decide não é um valor: é uma curva. A temperatura subindo ou descendo, o trabalho respiratório aumentando ou cedendo, a urina clareando ou escurecendo. Por isso a reavaliação aqui não é uma conferência ao fim do turno — é o próprio tratamento sendo medido enquanto acontece. Registre valor e horário de tudo o que segue: sem horário, não há curva.
Esperado: No golpe de calor, queda consistente rumo aos 38,5 °C — pelas taxas do artigo brasileiro, 3 °C levam cerca de 22 minutos por imersão em gelo e cerca de 26 minutos por toalha gelada. Na hipotermia, subida na ordem de grandeza do método: cerca de 3 °C por hora na lavagem torácica, 2 a 4 °C por hora na hemodiálise, 1 a 3 °C por hora na diálise peritoneal.
Se não melhora: No calor, se a temperatura não cai, o método está errado ou insuficiente: troque evaporação por condução, aumente a superfície coberta, some gelo em virilha, pescoço e axila. No frio, se não sobe, procure o que continua esfriando o paciente — roupa molhada esquecida, sala fria, fluido em temperatura ambiente — e escale para método invasivo. Lembre que a retal tem atraso durante resfriamento rápido: antes de trocar o método, confirme com via esofágica se houver.
Esperado: No hipotérmico, o desaparecimento da onda J e a normalização da frequência acompanham o reaquecimento, e a fibrilação atrial costuma reverter sozinha. No eletrocutado, ausência de nova arritmia ao longo da observação. No afogado, ritmo estável sem extrassistolia nova.
Se não melhora: Arritmia ventricular no hipotérmico abaixo de 30 °C não se trata com droga nem com choque: trata-se com reaquecimento, e a diretriz da SBC é explícita ao dizer que se pode observar refratariedade a droga vasoativa, marca-passo e desfibrilação nessa faixa. Arritmia nova no eletrocutado é motivo para prolongar a monitorização e chamar quem decide, e não para alta.
Esperado: No grau 2, resolução em 6 a 24 horas com oxigênio em baixo fluxo — é o que acontece em 93,2% dos casos. Frequência respiratória caindo, estertores diminuindo, saturação subindo em ar ambiente.
Se não melhora: Grau 2 que piora não vai para casa e não fica na enfermaria comum: vai para cuidados intermediários com observação prolongada. Necessidade crescente de oxigênio, frequência respiratória em ascensão e estertores que sobem das bases para os campos médios anunciam a evolução para grau 3, que é indicação de terapia intensiva. Não espere a saturação despencar para reclassificar: reclassifique pelo trabalho respiratório.
Esperado: No golpe de calor, a consciência volta ao basal à medida que a temperatura normaliza. No hipotérmico, melhora acompanhando o reaquecimento. No eletrocutado, retorno completo em minutos após a confusão inicial.
Se não melhora: Aqui está a regra que separa o quadro simples do complicado: paciente com golpe de calor cuja temperatura normalizou e cujo estado neurológico não voltou precisa de outra explicação — trauma, sangramento, hipoglicemia, distúrbio de sódio, intoxicação — e não de mais tempo. No hipotérmico, ao contrário, não se conclui nada sobre o neurológico enquanto ele estiver frio: todo exame está distorcido pela temperatura, e prognosticar aí é o erro mais grave do capítulo.
Esperado: Débito urinário adequado e urina clara. No eletrocutado, urina que se mantém clara ao longo da observação é o melhor sinal de que a lesão muscular foi pequena.
Se não melhora: Urina escura, cor de coca-cola ou de chá forte, sem hemácias no sedimento, é mioglobinúria até prova em contrário, e é o achado de beira de leito que antecede o laboratório. Ela indica rabdomiólise significativa e muda o cuidado por inteiro — reposição, alcalinização e vigilância renal são conduta do capítulo Injúria renal aguda, da apostila de Nefrologia, que é onde esse raciocínio está inteiro. O que este capítulo pede é que a cor da urina no coletor seja olhada, e não apenas o volume.
Esperado: Potássio estável, glicemia acima de 70 mg/dL, acidose corrigindo com a perfusão. No afogado, a gasometria é o exame que decide destino, e a diretriz da SOBRASA registra que hemograma, eletrólitos, ureia e creatinina costumam vir normais.
Se não melhora: Potássio subindo durante o reaquecimento é esperado e precisa ser antecipado, não descoberto. Hipoglicemia recorrente no hipotérmico exige repor e procurar a causa, porque o protocolo do SAMU já a coloca na monitorização de rotina. E se no afogado o hemograma, os eletrólitos e a função renal vierem muito alterados, a leitura correta não é que o afogamento fez isso: é que existe outra coisa acontecendo, possivelmente a que causou o afogamento.
Esperado: Na hipotermia leve, o tremor é sinal bom: o paciente ainda tem reserva metabólica para gerar calor. O reaparecimento do tremor num paciente que estava sem tremor é sinal de que ele está subindo de temperatura.
Se não melhora: Tremor intenso durante o resfriamento do golpe de calor é contraproducente, porque gera calor exatamente enquanto se tenta retirá-lo, e é o principal motivo pelo qual equipes interrompem a imersão cedo demais. A decisão de suprimi-lo farmacologicamente é julgamento de quem está à beira do leito e não está fixada em documento brasileiro — registre-se aqui que a régua nacional é silente. O que não se faz, em hipótese nenhuma, é interromper o resfriamento porque o paciente treme.
Onde o erro machuca
O dano: É o erro mais grave possível neste capítulo, porque é irreversível e porque cada achado que sustenta a decisão é, na verdade, achado de hipotermia grave viva: rigidez, arreflexia, pupilas fixas e não reativas, ausência de resposta, bradipneia que se confunde com apneia e pulso que não se palpa. O protocolo do SAMU lista pupilas não reativas já na faixa moderada. A diretriz da SBC responde com uma instrução operacional que quase nunca se cumpre: checar pulso em artéria de grande calibre por um minuto inteiro, usando Doppler se houver, e sempre instituir ressuscitação em caso de dúvida. Temperatura isolada, tempo de RCP, pupila fixa ou rigidez por frio não determinam interrupção. Avaliar circunstâncias, lesões incompatíveis com vida, sinais inequívocos de morte e viabilidade de reaquecimento com equipe experiente. Na hipotermia potencialmente reversível, manter suporte e discutir centro extracorpóreo; prognóstico hospitalar pode utilizar HOPE no contexto adequado. A frase “acima de 34 °C e assistolia” não é regra universal suficiente para declarar morte. A base fisiológica está medida: o consumo cerebral de oxigênio cai a cada grau, e a 20 °C sobra em torno de um terço do basal. Some-se o dado da SOBRASA de recuperação sem dano cerebral com até uma hora de submersão e de sucesso após duas horas de manobras, e fica claro que o relógio da parada normotérmica não se aplica.
Como pegar a tempo: Temperatura isolada, tempo de RCP, pupila fixa ou rigidez por frio não determinam interrupção. Avaliar circunstâncias, lesões incompatíveis com vida, sinais inequívocos de morte e viabilidade de reaquecimento com equipe experiente. Na hipotermia potencialmente reversível, manter suporte e discutir centro extracorpóreo; prognóstico hospitalar pode utilizar HOPE no contexto adequado. A frase “acima de 34 °C e assistolia” não é regra universal suficiente para declarar morte. Se qualquer resposta faltar, a resposta é continuar.
O dano: O miocárdio frio fibrila com estímulo que não faria nada num coração normotérmico, e a mobilização brusca é um desses estímulos — o protocolo do SAMU o proíbe em uma linha, sem justificar, e a diretriz da SBC diz o mesmo pelo outro lado, mandando restringir movimentos a partir da hipotermia moderada. Massagear extremidade e aplicar calor externo direto acrescentam um segundo dano: quebram a vasoconstrição periférica e devolvem ao núcleo o sangue mais frio da periferia, derrubando ainda mais a temperatura central justo quando parecia que se estava aquecendo. É um erro de boa intenção — quem massageia está tentando ajudar —, e é por isso que a proibição precisa estar escrita e dita.
Como pegar a tempo: Trate cada transferência de decúbito e de maca como procedimento, com equipe suficiente e movimento em bloco, e prefira levar o equipamento ao paciente. Aqueça pelo tronco e pelo ambiente, com manta térmica, ambiente aquecido, gases aquecidos e fluido aquecido, e não pelas pontas. Mantenha horizontal. E diga em voz alta para a equipe que este é um paciente que não se mexe: numa sala movimentada, a instrução não dita não é seguida.
O dano: A manobra não tira água nenhuma do alvéolo, atrasa a única coisa que resolve, que é ventilar, e provoca vômito. A diretriz da SOBRASA quantifica o estrago: posicionar a cabeça abaixo do nível do corpo durante a ressuscitação aumenta em mais de cinco vezes a chance de vômito, e essa chance a mais está associada a aumento de 19% na mortalidade. O contexto piora tudo, porque o vômito é comum de qualquer jeito — o documento cita casuística australiana com vômito em mais de 65% dos que precisam de ventilação de urgência, em 86% dos que precisam de respiração assistida ou ressuscitação, e em 50% mesmo dos que não precisam de intervenção alguma. Cada vômito é uma chance de broncoaspiração adicional numa via aérea que já está lesada, e é também o que faz o socorrista leigo desistir da ventilação boca a boca.
Como pegar a tempo: Aprenda a instrução pelo positivo, porque é assim que ela se lembra sob pressão: a água aspirada não deve ser retirada, e o que se faz é ventilar. Diante de vômito, vire a cabeça lateralmente, remova com o dedo indicador usando um lenço ou aspiração, e retome a ventilação. Ensine isso a quem vai chegar antes de você — guarda-vidas, socorrista de praia, familiares —, porque a manobra errada é feita quase sempre antes de o paciente chegar ao serviço.
O dano: A parada do afogado é hipóxica e o ritmo esperado é assistolia. Comprimir um tórax cujo sangue não tem oxigênio circula sangue sem oxigênio: o problema não é bomba, é conteúdo. A diretriz da SBC inverte a ordem exatamente por isso e diz que a ressuscitação no afogamento deverá continuar utilizando o ABC, pela natureza hipóxica da parada, e registra que a modalidade só com compressões, embora possa ser alternativa para o socorrista leigo, tem menor impacto no cenário do afogamento. Há um segundo dano, mais sutil: a equipe que espera ritmo chocável interpreta o desfibrilador dizendo que não há choque indicado como evidência de que o paciente está irrecuperável, quando isso é o esperado. O algoritmo padrão de parada no adulto é do capítulo Parada cardiorrespiratória na enfermaria, da apostila de Síndromes do Paciente Internado; o que muda no afogamento e na hipotermia é matéria deste, e a remissão vale nos dois sentidos.
Como pegar a tempo: Diga em voz alta, ao assumir a ressuscitação de um afogado, que é ABC. Comece por cinco ventilações. Só depois entre em 30:2. E antecipe para a equipe que o desfibrilador provavelmente vai dizer que não há choque indicado, e que isso não muda nada na condução.
O dano: São dois erros com a mesma raiz: tratar golpe de calor como se fosse febre. Antitérmico abaixa o ponto de ajuste hipotalâmico, e no golpe de calor esse ponto não está elevado — não há em que agir, e o paracetamol ainda soma agressão a um fígado que o calor já está agredindo. Dipirona e paracetamol estão na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais e à mão em qualquer sala, e é por isso que são dados. Suspeitar de golpe de calor diante de exposição e disfunção neurológica, mesmo que a temperatura já tenha caído com resfriamento. Iniciar resfriamento ativo imediatamente e organizar transporte e suporte em paralelo. Imersão em água fria é muito eficiente, especialmente na forma por esforço, quando há equipe capaz de proteger e acessar a via aérea; alternativas incluem resfriamento evaporativo e condutivo conforme recursos. Não aguardar banheira nem retardar suporte vital para cumprir uma regra de resfriar antes de transportar. Monitorar temperatura central; interromper resfriamento intenso em torno de 38–39 °C, conforme método e protocolo, evitando hipotermia. Não usar antitérmico como tratamento. Não usar antitérmico como tratamento.
Como pegar a tempo: Substitua a pergunta o que eu prescrevo por como eu retiro calor deste corpo agora. Encha a banheira, ou molhe as toalhas, antes de pedir a ambulância. Resfrie no local até a temperatura cair e só então transporte, mantendo o resfriamento no caminho. E não peça tomografia de crânio só porque o paciente está confuso: a confusão é a doença, e o tempo no tomógrafo é tempo em temperatura alta.
O dano: Os dois erros vêm do mesmo engano: usar a superfície para medir uma lesão que é de volume. A pele seca é o tecido de maior resistência do trajeto, e por isso queima só nos pontos de contato, enquanto músculo, vaso e nervo, que conduzem bem, sofrem ao longo de todo o caminho. Nenhum dos determinantes de gravidade que a diretriz da SBC lista é visível na pele: tipo de corrente, voltagem, energia, resistência dos tecidos, trajeto, área exposta e duração do contato. A consequência da alta indevida é a rabdomiólise que se instala em horas, a injúria renal que vem depois e a arritmia tardia em quem foi mandado para casa sem eletrocardiograma. A consequência do cálculo pela regra dos nove é reposição subdimensionada, porque o número que sai dali descreve dois pontinhos de pele e não o volume de músculo destruído entre eles.
Como pegar a tempo: Aplique a lista da diretriz da SBC sem descontos: interna quem tem antecedente cardiorrespiratório, quem perdeu a consciência, quem teve parada, quem tem eletrocardiograma alterado, quem tem dano de partes moles ou queimadura. Pergunte sempre pelas três coisas que não aparecem no exame — perda de consciência, tetania com incapacidade de soltar a fonte, e trajeto provável. E quando for calcular a superfície pelo capítulo Superfície queimada e profundidade, e a reposição pelo capítulo A conta que a urina corrige, ambos da apostila de Queimados, escreva no prontuário que, no queimado elétrico, aquele número é piso e não medida.
O que dizer ao paciente e à família
Nestas quatro emergências, o que se diz é parte da conduta, e por um motivo específico: quase todas as decisões parecem erradas para quem está olhando. Continuar manobras em alguém rígido e sem pulso parece obstinação. Encher uma banheira de gelo em vez de correr para a ambulância parece perda de tempo. Internar um homem que anda e fala parece exagero. As sete falas abaixo existem para que essas decisões sobrevivam ao olhar de quem está do lado de fora — família, equipe, e o próprio paciente.
Para a família do hipotérmico em parada, ainda na primeira hora de manobras
“Eu preciso te explicar uma coisa que vai parecer estranha. O corpo dele está muito frio, e o frio faz o corpo parecer morto sem que ele esteja: fica rígido, as pupilas não reagem, o pulso não se sente. Só que o mesmo frio protege o cérebro, e por isso as regras aqui são outras. A regra que a gente segue é que uma pessoa fria não pode ser considerada morta enquanto não for aquecida. Então nós vamos continuar por horas, não por minutos, e vamos ao mesmo tempo aquecendo o corpo dele por dentro. Eu não posso te prometer resultado. O que eu posso te prometer é que a decisão não vai ser tomada com ele frio, porque com ele frio nenhum exame que eu faça vale.”
Não diga: Infelizmente não há mais nada a fazer. Ele já chegou sem sinais vitais. As pupilas estão fixas, é sinal de morte cerebral. Vamos tentar mais uns minutos por respeito à família.
Para a equipe, quando alguém pede adrenalina ou o choque no hipotérmico a 27 °C
“Vamos manter compressões, ventilação e reaquecimento e definir o ritmo. Ritmo organizado sem pulso não recebe choque; se surgir fibrilação ventricular, usamos o algoritmo de hipotermia, que permite tentativas iniciais mesmo abaixo de 30 graus. Adrenalina e novas doses dependem da temperatura e do protocolo. Precisamos comunicar agora o centro de reaquecimento e registrar temperatura, ritmo e intervenções.”
Não diga: Vamos fazer o protocolo padrão mesmo, não custa nada tentar. Já demos quatro adrenalinas, mais uma não vai piorar. Choca aí para ver se pega.
Para o afogado que chegou andando, tossindo, e quer ir para casa
“Você está andando e conversando, e eu sei que isso te faz achar que já passou. Mas eu ouvi um chiado nas duas bases do seu pulmão, e isso quer dizer que entrou água onde deveria ter ar. Essa lesão não aparece de uma vez: ela se declara ao longo de horas, e é justamente por isso que quem sai da água andando é quem às vezes volta pior. O que a gente vai fazer é simples e não dói: oxigênio no cateter e você fica aqui de seis a vinte e quatro horas para eu ouvir seu pulmão de novo. Na maior parte dos casos, nesse tempo resolve e você vai para casa. Se eu te liberar agora, o que pode acontecer é você piorar em casa, de madrugada, longe daqui.”
Não diga: É melhor você ficar por precaução. Vamos internar para investigar. Fica aqui que depois a gente vê. Você engoliu água, pode dar afogamento secundário.
Para o eletrocutado que quer assinar a alta e voltar ao trabalho amanhã
“Eu entendo a pressa, e vou ser direto sobre por que eu não vou te liberar. Essas duas marquinhas na sua mão e no seu pé são o começo e o fim do caminho que a corrente fez dentro de você. O que importa é o meio do caminho, e o meio do caminho passou pelo seu peito. Do lado de fora não tem quase nada; do lado de dentro pode ter músculo machucado, e o coração pode dar arritmia horas depois. Você me contou duas coisas que já decidem isso sozinhas: você ficou confuso por um minuto, e você ficou preso ao quadro sem conseguir soltar. Então você vai ficar monitorado, eu vou fazer um eletrocardiograma e alguns exames de sangue e de urina, e eu vou te avisar assim que eu tiver como te liberar com segurança.”
Não diga: É só uma queimadurinha, mas vamos fazer uns exames por precaução. Se você quiser assinar o termo de responsabilidade, tudo bem. Volta se sentir alguma coisa.
Para o organizador da prova ou o treinador, enquanto se enche a banheira em vez de embarcar o atleta
“Eu sei que parece errado a gente parar para encher isso aqui em vez de sair correndo com ela. É o contrário: correr agora é o que piora. O que decide o desfecho dela não é a temperatura mais alta que ela chegou, é quanto tempo ela ficou acima de quarenta graus. Cada minuto que ela passa a quarenta e dois graus dentro da ambulância é um minuto de dano. A regra que a gente segue é resfriar primeiro e transportar depois, e a forma mais rápida de tirar calor de um corpo é água com gelo. Em cerca de vinte minutos a gente tira três graus. Aí sim ela viaja, e viaja com a gente continuando a resfriar no caminho.”
Não diga: Vamos levar para o hospital que lá tem estrutura. No caminho a gente coloca soro gelado. Deixa que os médicos de lá resolvem. Não dá para colocar atleta em banheira de gelo, é perigoso.
Para o acompanhante do idoso trazido de casa numa onda de calor, confuso
“A senhora fez certo em trazê-lo. O que ele tem não é só desidratação: a temperatura dele subiu tanto que passou a afetar o cérebro, e é por isso que ele está confuso desse jeito. Vou te fazer perguntas que parecem estranhas e que são importantes: quantos dias ele está assim, ele estava suando ou parou de suar, ele tomou algum remédio novo, e o quarto dele tem ventilação. A primeira coisa que a gente vai fazer é baixar a temperatura dele, com pano gelado e gelo em pontos específicos — não é remédio para febre, porque isso não é febre e o remédio não resolveria. Quando a temperatura descer, a gente vê o quanto da confusão volta ao normal, e é isso que vai me dizer o tamanho do problema.”
Não diga: É desidratação, vamos hidratar e melhora. Vou dar uma dipirona para baixar a febre. Idoso é assim mesmo no calor. Depois a senhora dá bastante água em casa.
Para quem pergunta se a pessoa engoliu água e se pode dar afogamento seco depois
“Essa é uma dúvida comum e a resposta ajuda a decidir o que fazer. Afogamento seco e afogamento secundário são nomes antigos, que saíram de uso desde que a definição foi unificada, e hoje o que existe é afogamento fatal e não fatal. Quem aspirou água e piora horas depois não teve um segundo afogamento: teve o mesmo, e a lesão do pulmão dele apareceu no tempo dela. Por isso a pergunta que vale não é se engoliu, é se tossiu e se tem chiado no pulmão. Se não tossiu e o pulmão está limpo, pode ir para casa. Se tem chiado, fica no hospital pelas próximas horas. O que decide é o exame, não a quantidade de água.”
Não diga: Se engoliu muita água, pode dar afogamento secundário até uma semana depois. Fica de olho em casa e volta se piorar. Não tem como saber, é melhor ficar internado por garantia.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Abaixo de 30 °C é grave — Protocolo AC27, Ministério da Saúde / SAMU 192, elaborado em agosto de 2014 e revisto em abril de 2015, publicado na 2ª edição de 2016
O protocolo nacional do pré-hospitalar trabalha com três faixas: leve de 32 a 35 °C, moderada de 30 a 32 °C e grave abaixo de 30 °C. A descrição clínica da faixa grave é a de depressão profunda do sistema nervoso central, arreflexia, rigidez, bradicardia grave, hipotensão, bradipneia ou apneia, com possibilidade de edema pulmonar e arritmia ventricular, e ondas J proeminentes evidentes abaixo de 33 °C. O argumento a favor desse recorte é operacional: numa ambulância, com termômetro comum e sem laboratório, três faixas são memorizáveis e o corte em 30 °C marca o ponto a partir do qual o paciente precisa de recurso hospitalar que a viatura não tem. O argumento contra é que o protocolo não desdobra o que fazer diferente dentro dessa faixa larga, e não menciona a suspensão de drogas, marca-passo e desfibrilação nem a indicação de ECMO.
Brasil. Ministério da Saúde. Protocolos de Intervenção para o SAMU 192 — Suporte Avançado de Vida, protocolo AC27 (Hipotermia), elaboração ago/2014, revisão abr/2015; 2ª ed., Brasília, 2016
Abaixo de 28 °C é grave — Atualização da Diretriz de Ressuscitação Cardiopulmonar da Sociedade Brasileira de Cardiologia, 2019, adotando o Swiss Staging System
A diretriz da sociedade adota quatro estágios com uma categoria a mais de óbito: I de 32 a 35 °C, com consciência preservada e tremor; II de 28 a 32 °C, com rebaixamento e sem tremor; III de 24 a 28 °C, sem consciência e com sinais vitais presentes; IV abaixo de 24 °C, em parada ou com sinais vitais mínimos; e V abaixo de 13,7 °C, óbito. O argumento a favor é que cada estágio vem com conduta própria e escalonada, e que a estratificação mais fina sustenta decisões que o recorte grosseiro não sustenta — ECMO consensual nos graus III com instabilidade e IV, lavagem torácica como alternativa, e o uso de sinais clínicos quando não há termômetro. O argumento contra é que a régua depende de medir bem uma temperatura que o serviço muitas vezes não consegue medir, e que os valores exatos de 32 e 28 °C pertencem a duas classes cada.
Bernoche C, Timerman S, Polastri TF, et al. Atualização da Diretriz de Ressuscitação Cardiopulmonar e Cuidados Cardiovasculares de Emergência da Sociedade Brasileira de Cardiologia – 2019. Arq Bras Cardiol. 2019;113(3):449-663, seção 9.2.4 e Quadro 9.2
Registrar temperatura central, método, consciência, ritmo e perfusão, identificando o protocolo utilizado. Na parada por hipotermia, iniciar RCP, oxigenação e reaquecimento e discutir transferência para centro com suporte extracorpóreo. No esquema ERC/RCUK 2025, realizar até três tentativas de desfibrilação se o ritmo for chocável; se persistir abaixo de 30 °C, adiar novas tentativas até ultrapassar 30 °C. Adrenalina é adiada abaixo de 30 °C; de 30–35 °C, usar intervalo de 6–10 minutos conforme protocolo, retornando ao habitual após reaquecimento. Amiodarona tem orientação própria no ERC 2025: dose inicial de 300 mg no ritmo chocável indicado e novas doses após 30 °C. Não ensinar que nenhum choque ou fármaco funciona abaixo de 30 °C. Protocolos devem ser usados integralmente, sem misturar algoritmos de sociedades diferentes. Temperatura isolada, tempo de RCP, pupila fixa ou rigidez por frio não determinam interrupção. Avaliar circunstâncias, lesões incompatíveis com vida, sinais inequívocos de morte e viabilidade de reaquecimento com equipe experiente. Na hipotermia potencialmente reversível, manter suporte e discutir centro extracorpóreo; prognóstico hospitalar pode utilizar HOPE no contexto adequado. A frase “acima de 34 °C e assistolia” não é regra universal suficiente para declarar morte.
Considerar imobilização como parte da conduta — Protocolo AT29, Ministério da Saúde / SAMU 192, elaborado em agosto de 2014 e revisto em maio de 2015
O protocolo do afogamento lista, entre os passos numerados da conduta, realizar a mobilização cuidadosa e considerar a necessidade de imobilização adequada da coluna cervical, tronco e membros, em prancha longa com alinhamento anatômico, sem atraso para o transporte. O verbo considerar dá margem, mas a instrução aparece como item de rotina da sequência e não como exceção condicionada a achado. O argumento a favor é a coerência com o restante do protocolo traumático do serviço, a impossibilidade frequente de saber o mecanismo no pré-hospitalar — quem chega depois raramente sabe se a vítima mergulhou de cabeça —, e a assimetria de consequência entre imobilizar sem necessidade e deixar de imobilizar uma lesão cervical.
Brasil. Ministério da Saúde. Protocolos de Intervenção para o SAMU 192 — Suporte Avançado de Vida, protocolo AT29 (Afogamento), elaboração ago/2014, revisão mai/2015; 2ª ed., Brasília, 2016
Não imobilizar de rotina — Diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia, 2019, e diretriz de afogamento da SOBRASA, 2017
As duas dizem o mesmo. A diretriz da SBC afirma que a imobilização da coluna cervical não é recomendada rotineiramente, exceto em afogamento em local pouco profundo, em politraumatizados, em acidentes presenciados ou com mecanismo compatível. O documento da SOBRASA justifica com dois argumentos: a baixa incidência de trauma raquimedular nos salvamentos aquáticos e a possibilidade de desperdício de tempo precioso para iniciar ventilação e oxigenação — numa parada hipóxica, o tempo gasto imobilizando é tempo sem oxigênio. O argumento a favor é que a intervenção tem custo mensurável em atraso e benefício raro; o argumento contra é que a exceção depende de informação que às vezes não existe na cena.
Atualização da Diretriz de Ressuscitação Cardiopulmonar da Sociedade Brasileira de Cardiologia – 2019, Arq Bras Cardiol. 2019;113(3):449-663, seção 9.4.1; e Szpilman D. Afogamento. Diretriz de Ressuscitação 2017, SOBRASA
Pergunte pelo mecanismo antes de decidir, e pergunte a quem viu. Mergulho ou queda de cabeça em água rasa, piscina, laje de represa, banco de areia: imobilize e trate como politraumatizado, seguindo o capítulo Atendimento inicial ao politraumatizado, da apostila de Trauma. Afogamento em água profunda, sem queda, sem mergulho, sem trauma referido: não imobilize e ventile. E se a informação não existe, deixe explícito no prontuário que a decisão foi tomada sem mecanismo conhecido — porque quem receber o paciente vai precisar saber disso. O que nenhuma das posições autoriza é atrasar ventilação para imobilizar um paciente em apneia.
Dose escalonada e 15:2 com dois socorristas — Diretriz de afogamento da SOBRASA, 2017
O documento recomenda dose inicial de 0,01 mg/kg por via intravenosa após três minutos de manobras e, na ausência de resposta, aumento para 0,1 mg/kg a cada três a cinco minutos. Num adulto de 70 kg isso significa 0,7 mg na primeira dose, que é 30% menos que o miligrama padrão, e 7 mg nas seguintes, que é sete ampolas de 1 mg/mL por dose. Sobre a relação, o texto recomenda 30 compressões para 2 ventilações com um socorrista e 15 para 2 com dois socorristas, especificamente para afogamento. O argumento apresentado é que o intervalo entre a parada e o início das manobras varia muito mais no afogamento do que em outras causas, e que dose alta ou progressiva aumentaria a chance de retorno da circulação. O próprio documento registra a fragilidade dessa posição ao dizer, no parágrafo anterior, que dose alta de adrenalina não é recomendada como rotina e que não se demonstrou melhora de sobrevida nem de prognóstico neurológico com ela.
Szpilman D. Afogamento. Diretriz de Ressuscitação 2017. Sociedade Brasileira de Salvamento Aquático (SOBRASA), seções de suporte avançado de vida no local e ressuscitação do grau 6
Dose padrão e 30:2 sempre — Atualização da Diretriz de Ressuscitação Cardiopulmonar da Sociedade Brasileira de Cardiologia, 2019
A diretriz da sociedade, ao tratar do afogamento, muda a ordem das letras e não muda a aritmética: manda abrir a via aérea, ventilar e iniciar compressões na relação de 30 compressões para 2 ventilações, sem prever exceção para dois socorristas, e não cria dose especial de adrenalina para o afogado — o que vale é o algoritmo geral. O argumento a favor é a segurança de não multiplicar variantes de um algoritmo que precisa ser executado sob estresse por equipe que treina o padrão, e a ausência de evidência de benefício da dose alta, que a própria SOBRASA reconhece. O argumento contra é que a diretriz não discute a especificidade fisiológica que a SOBRASA invoca.
Atualização da Diretriz de Ressuscitação Cardiopulmonar da Sociedade Brasileira de Cardiologia – 2019, Arq Bras Cardiol. 2019;113(3):449-663, seção 9.4.1
Com o paciente à frente, decida pelo que a sua equipe treina e pelo que não atrasa a ventilação. Se todos na sala executam 30:2, execute 30:2 — trocar a relação no meio da manobra produz confusão e pausa, e pausa é o que mais custa. Sobre a adrenalina, registre que a divergência existe e que a própria fonte que propõe a dose alta declara não haver demonstração de benefício em sobrevida ou desfecho neurológico; se optar por qualquer coisa diferente do miligrama padrão, escreva no prontuário a dose, o horário e a razão. O que é comum às duas posições, e o que de fato muda desfecho no afogado, não é a dose: é ventilar antes de comprimir.
O raciocínio, em voz alta
Volte ao domingo de janeiro, sete e quarenta da noite, hospital municipal de sessenta leitos na beira da represa. Na maca 1, Armindo Bocaiuva, 34 anos, pedreiro: submerso por menos de um minuto por volta das seis da tarde, retirado pelos amigos, tossiu muito, vomitou uma vez, recusou o transporte, foi para casa de moto e voltou uma hora e meia depois porque a tosse não passou. Está sentado, fala frases inteiras. Frequência respiratória 26, saturação 93% em ar ambiente, estertores finos nas duas bases. Na maca 2, Marcelino Lídio, 31 anos, eletricista: choque ao trocar o disjuntor do quadro da bomba d'água, ficou preso ao quadro com o braço rígido por alguns segundos até o colega desligar a chave geral, confuso por cerca de um minuto e depois normal. Lesão puntiforme esbranquiçada na base do quarto dedo da mão direita e outra no calcanhar esquerdo, somando menos de 1% da superfície corporal. Está com pressa e quer ir embora. Você é o interno, e o médico do plantão está no centro obstétrico.
o que penso agora
Os dois me foram entregues como casos leves porque os dois chegaram andando, e é exatamente por isso que eu vou desacreditar da primeira impressão nos dois. Em Armindo, o dado que decide já está no meu estetoscópio: estertores nas duas bases. Pela classificação brasileira, isso não é grau 1 — grau 1 é tosse com ausculta normal. Estertor é grau 2, e grau 2 é indicação de cuidado hospitalar. A saturação de 93% e a frequência respiratória de 26 confirmam o quadro, mas não são o que classifica: quem classifica é a ausculta e a pressão. O tempo desde o evento — quase duas horas — explica por que ele estava bem na areia e não está mais: a perda de surfactante e o edema alveolar se instalam ao longo de horas, e ele está exatamente dentro dessa janela. Em Marcelino, o que decide não é o que eu vejo, é o que ele me contou. Ele perdeu a consciência, ou pelo menos teve alteração transitória do nível de consciência, e ficou preso ao quadro sem conseguir soltar, o que é contração tetânica por corrente alternada. As duas marcas me dão o trajeto: mão direita e calcanhar esquerdo, ou seja, a corrente cruzou o tórax na diagonal. Coração e músculo respiratório estavam no caminho. A área queimada é irrelevante aqui, e se eu calcular pela regra dos nove vou obter um número que descreve dois pontinhos e não o volume de tecido no trajeto.
o que eu faço nos primeiros minutos
Trato os dois em paralelo, porque nenhum dos dois exige procedimento que ocupe minhas duas mãos. Armindo: oxigênio em baixo fluxo por cateter nasal, monitorização de oximetria, acesso venoso, gasometria arterial — que é o exame que decide destino no afogado — e radiografia de tórax. Marcelino: monitorização contínua de ritmo, eletrocardiograma de doze derivações, acesso venoso, e a coleta que interessa na lesão elétrica, que é creatinofosfoquinase, potássio, creatinina, gasometria e exame de urina procurando urina escura sem hemácias. Peço à técnica que instale sonda vesical ou, se ele urinar espontaneamente, que guarde a primeira urina no coletor para eu ver a cor com meus olhos. Nos dois, anoto o horário do evento e o horário de cada medida — porque o que vai me guiar nas próximas horas é a curva, não o ponto.
o que eu procuro no exame que ainda não fiz
Em Armindo, procuro o que pode ter causado o afogamento, e não só o que ele causou: ele bebeu, e álcool é o maior fator contribuinte segundo a diretriz brasileira, mas eu ainda pergunto sobre convulsão, sobre dor no peito antes de entrar na água e sobre como exatamente ele entrou. Se ele tivesse mergulhado de cabeça naquele degrau, eu estaria diante de um politraumatizado com suspeita de lesão cervical, e o atendimento mudaria por inteiro para o do capítulo Atendimento inicial ao politraumatizado. Ele nega mergulho — pisou e afundou de pé. Sem mecanismo compatível, não imobilizo, e a diretriz da SBC e a da SOBRASA concordam nisso. Em Marcelino, procuro o que a tetania pode ter feito sem queda: examino ombros, cotovelos e coluna procurando dor à mobilização, porque a contração muscular intensa fratura e luxa sozinha. Procuro déficit neurológico focal no membro do trajeto. E pergunto se a mão ficou fraca ou dormente depois — paralisia muscular que persiste é achado descrito e não é histeria.
o que eu decido, e com que régua
Armindo fica. Grau 2 tem indicação de cuidado hospitalar, com observação de 6 a 24 horas, e a diretriz brasileira registra que 93,2% desses pacientes precisam apenas de oxigênio em baixo fluxo e se recuperam nesse intervalo. Não vou tratá-lo com antibiótico profilático, porque a diretriz da SBC diz explicitamente que não está indicado, ainda que pneumonia depois de afogamento seja comum. E vou dizer a ele, com essas palavras, que o motivo de ficar não é precaução: é que eu ouvi líquido no pulmão dele. Marcelino também fica, e por dois motivos independentes da lista da diretriz da SBC — houve alteração do nível de consciência e há queimadura, ainda que mínima. Aqui há um limite da régua brasileira que eu preciso reconhecer: ela diz quem interna e não diz por quanto tempo. Como não há prazo nacional, eu decido pelo que estou vigiando — mantenho monitorização e reavalio com novo eletrocardiograma e nova dosagem de creatinofosfoquinase, e registro no prontuário que a duração da observação foi decisão minha por ausência de norma.
o que eu digo, e a quem
Para Armindo: você está andando e conversando, e eu sei que isso te faz achar que passou, mas eu ouvi um chiado nas duas bases do seu pulmão, e isso quer dizer que entrou água onde deveria ter ar; essa lesão se declara ao longo de horas, e é por isso que quem sai da água andando às vezes é quem volta pior. Para Marcelino: essas duas marquinhas são o começo e o fim do caminho que a corrente fez dentro de você, e o que importa é o meio, que passou pelo seu peito; você me contou duas coisas que já decidem isso sozinhas, que você ficou confuso e que ficou preso sem conseguir soltar. Para o médico do plantão, por telefone, em três frases: tenho um afogado grau 2 em observação com oxigênio e um eletrocutado com perda de consciência e trajeto transtorácico em monitorização, nenhum dos dois instável, e queria conferir com você o tempo de observação do segundo, porque não há prazo em protocolo.
o que eu escrevo no prontuário
Nos dois, escrevo o horário do evento e o horário do meu exame, porque a diferença entre eles é o dado clínico mais importante dos dois casos. Em Armindo, registro afogamento não fatal grau 2 pela classificação brasileira de seis graus, com a ausculta descrita e a saturação em ar ambiente, e registro que não houve mergulho e que por isso não foi imobilizada a coluna cervical. Em Marcelino, registro os dois pontos de contato, o trajeto presumido, a duração aproximada do contato, a alteração transitória do nível de consciência, e cada um dos itens da lista de internação que ele preenche. E registro, nos dois, a orientação de retorno com os sinais que a família deve procurar.
Faça você
Terça-feira, 5h20 de uma madrugada de julho, hospital de uma cidade serrana do Sul, sete graus na rua e chuva fina desde a meia-noite. O SAMU traz Clóvis Sertão, 58 anos, morador de rua conhecido da equipe, encontrado por um varredor deitado sob a marquise de uma loja, com roupa encharcada. Chega sem resposta a estímulo, rígido, com a mandíbula travada. A equipe do SAMU relata que não conseguiu palpar pulso radial nem carotídeo, que iniciou compressões há doze minutos e que o monitor mostra um ritmo lento e bizarro, largo, com uma deflexão proeminente logo depois do QRS. As pupilas estão médio-fixas e não reagem à luz. Não há rigidez cadavérica nem livores, e não há sinal externo de trauma. O termômetro axilar da sala marca 34,0 °C e não desce mais que isso. A enfermeira pergunta, com o desfibrilador na mão, se ela carrega e se você quer adrenalina. O residente já pediu que se anotasse o horário do óbito.
o que penso agora
Antes de qualquer decisão, eu nomeio o que estou vendo: este é um paciente frio, e todo achado que está sendo usado para concluir morte é achado que a hipotermia produz em gente viva. Onda J pode apoiar suspeita de hipotermia, mas não mede temperatura nem estabelece um corte exato e não é exclusiva do frio. O número de 34,0 °C da axila não é a temperatura dele por duas razões somadas: axila não mede temperatura central, e o termômetro clínico comum tem fundo de escala em torno desse valor e devolve o fundo de escala como se fosse leitura. A pergunta que a enfermeira e o residente estão me fazendo é sobre o algoritmo padrão de parada, e o algoritmo padrão não é o que se aplica aqui.
o que eu faço antes de responder à pergunta
Peço três coisas ao mesmo tempo, em voz alta, para que a equipe pare de operar no modo automático. Primeiro: temperatura retal com termômetro de leitura baixa, agora, e se não houver, estadiamento por sinais clínicos, que é o que a própria diretriz da SBC manda fazer quando não se consegue aferir. Segundo: checagem de pulso em artéria de grande calibre por um minuto inteiro, com Doppler se o serviço tiver — e digo que, em caso de dúvida, a instrução é sempre instituir ressuscitação. Terceiro: parem de mexer nele além do necessário, retirem a roupa molhada, manta térmica, ambiente aquecido, movimento em bloco, porque mobilização brusca desencadeia fibrilação em coração frio. Peço glicemia capilar, porque hipoglicemia é causa e consequência de hipotermia, e um acesso venoso com cristaloide aquecido — sabendo que um litro a 39 graus vai elevar a temperatura central dele em cerca de 0,19 °C, ou seja, serve para ele não esfriar mais, não para reaquecê-lo.
o que eu respondo sobre o choque e sobre a adrenalina
O monitor descrito mostra ritmo organizado lento com possível onda J, não fibrilação ventricular. Procurar sinais de vida com cuidado; se ausentes, manter RCP e reaquecimento. Onda J não é indicação de choque. Se o ritmo se tornar chocável, usar o algoritmo específico, sem proibição absoluta abaixo de 30 graus. Na parada por hipotermia, iniciar RCP, oxigenação e reaquecimento e discutir transferência para centro com suporte extracorpóreo. No esquema ERC/RCUK 2025, realizar até três tentativas de desfibrilação se o ritmo for chocável; se persistir abaixo de 30 °C, adiar novas tentativas até ultrapassar 30 °C. Adrenalina é adiada abaixo de 30 °C; de 30–35 °C, usar intervalo de 6–10 minutos conforme protocolo, retornando ao habitual após reaquecimento. Amiodarona tem orientação própria no ERC 2025: dose inicial de 300 mg no ritmo chocável indicado e novas doses após 30 °C. Não ensinar que nenhum choque ou fármaco funciona abaixo de 30 °C. Protocolos devem ser usados integralmente, sem misturar algoritmos de sociedades diferentes.
o que eu digo sobre o horário do óbito
Não concluir óbito pelos sinais descritos. Temperatura isolada, tempo de RCP, pupila fixa ou rigidez por frio não determinam interrupção. Avaliar circunstâncias, lesões incompatíveis com vida, sinais inequívocos de morte e viabilidade de reaquecimento com equipe experiente. Na hipotermia potencialmente reversível, manter suporte e discutir centro extracorpóreo; prognóstico hospitalar pode utilizar HOPE no contexto adequado. A frase “acima de 34 °C e assistolia” não é regra universal suficiente para declarar morte. Registrar intervenções, obter temperatura central apropriada e acionar centro capaz de orientar reaquecimento avançado. Comunicar à equipe e família que a hipotermia altera o exame e que ainda há causa potencialmente reversível.
o que eu preparo para as próximas horas
Preparo a equipe para uma ressuscitação longa e para uma transferência. Reaquecimento ativo interno é o que muda o desfecho, e a diretriz da SBC registra que há consenso na indicação de ECMO na hipotermia grau III com instabilidade e no grau IV; onde não há ECMO, a alternativa indicada é a lavagem torácica, que reaquece cerca de 3 °C por hora, e há descrição de diálise peritoneal, de 1 a 3 °C por hora, e de hemodiálise, de 2 a 4 °C por hora. Faço a conta na frente da equipe para que todos saibam o tamanho do compromisso: se ele estiver a 26 °C, chegar a 32 °C são 6 graus, isto é, cerca de duas horas por lavagem torácica e de uma hora e meia a três horas por hemodiálise. Aciono a regulação com essa informação e com uma frase que não pode faltar: paciente em parada por hipotermia, manobras em curso, não interromper no transporte. E converso com quem estiver no corredor por ele, avisando que vai demorar horas e que nenhuma decisão será tomada com ele frio.
Ver como fecharíamos
Clóvis deve receber avaliação de sinais de vida, RCP se ausentes, oxigenação, mobilização cuidadosa e reaquecimento. O valor axilar não permite estadiamento seguro. O ritmo organizado lento descrito não é chocável: a razão para não desfibrilar agora é o ritmo, não uma proibição absoluta pelo frio. Na parada por hipotermia, iniciar RCP, oxigenação e reaquecimento e discutir transferência para centro com suporte extracorpóreo. No esquema ERC/RCUK 2025, realizar até três tentativas de desfibrilação se o ritmo for chocável; se persistir abaixo de 30 °C, adiar novas tentativas até ultrapassar 30 °C. Adrenalina é adiada abaixo de 30 °C; de 30–35 °C, usar intervalo de 6–10 minutos conforme protocolo, retornando ao habitual após reaquecimento. Amiodarona tem orientação própria no ERC 2025: dose inicial de 300 mg no ritmo chocável indicado e novas doses após 30 °C. Não ensinar que nenhum choque ou fármaco funciona abaixo de 30 °C. Protocolos devem ser usados integralmente, sem misturar algoritmos de sociedades diferentes. Temperatura isolada, tempo de RCP, pupila fixa ou rigidez por frio não determinam interrupção. Avaliar circunstâncias, lesões incompatíveis com vida, sinais inequívocos de morte e viabilidade de reaquecimento com equipe experiente. Na hipotermia potencialmente reversível, manter suporte e discutir centro extracorpóreo; prognóstico hospitalar pode utilizar HOPE no contexto adequado. A frase “acima de 34 °C e assistolia” não é regra universal suficiente para declarar morte. Investigar causas associadas, glicemia, trauma e intoxicação, sem atrasar suporte e contato com centro de referência.
Suspeitar de golpe de calor diante de exposição e disfunção neurológica, mesmo que a temperatura já tenha caído com resfriamento. Iniciar resfriamento ativo imediatamente e organizar transporte e suporte em paralelo. Imersão em água fria é muito eficiente, especialmente na forma por esforço, quando há equipe capaz de proteger e acessar a via aérea; alternativas incluem resfriamento evaporativo e condutivo conforme recursos. Não aguardar banheira nem retardar suporte vital para cumprir uma regra de resfriar antes de transportar. Monitorar temperatura central; interromper resfriamento intenso em torno de 38–39 °C, conforme método e protocolo, evitando hipotermia. Não usar antitérmico como tratamento.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Compare hipotermia em parada, golpe de calor e afogamento: diga qual ação inicia imediatamente e demonstre diferenças do algoritmo adotado.
Em 30 dias
Retome Clóvis durante reaquecimento e Armindo com piora respiratória: reavalie conduta e destino por evolução, sem decidir por temperatura ou grau isolados.
Agora atenda
Agora atenda: domingo, onze e quarenta da manhã, posto médico do quilômetro 8 de uma corrida de rua de 10 km, temperatura de 34 graus e umidade alta. Dois corredores são trazidos com poucos minutos de diferença. Marina Viotti, 26 anos, chega apoiada por dois voluntários, sentada, suando muito, queixando-se de tontura, náusea e cãibra na panturrilha, orientada e conversando. Geraldina Milagres, 61 anos, chega carregada, não responde direito às perguntas, tenta se levantar e cai sentada de novo, tem o olhar parado e não sabe dizer onde está; a pele dela está quente e também suada. Você tem no posto água, gelo em abundância, lonas, uma banheira inflável, oxigênio, acesso venoso, soro e um termômetro. A ambulância está a caminho e o hospital fica a trinta minutos. Decida qual das duas é a emergência, meça o que precisa ser medido e pela via que vale, aja na ordem certa antes de embarcar quem quer que seja, e diga ao coordenador da prova, por rádio, o que você está fazendo e por quê.
