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Metade não vira nome

Sintomas indiferenciados e queixas comuns na atenção primária: cansaço, tontura, dor difusa e o tempo como instrumento diagnóstico

A queixa que não fecha diagnóstico, o exame que decide menos aqui do que na enfermaria, e o retorno marcado como conduta

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Acolhimento à demanda espontânea. 1. ed.; 1. reimpr. Brasília: Ministério da Saúde, 2013. 56 p. (Cadernos de Atenção Básica, n. 28, Volume I). ISBN 978-85-334-1843-1. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/acolhimento_demanda_espontanea_cab28v1.pdf

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Acolhimento à demanda espontânea: queixas mais comuns na Atenção Básica. 1. ed.; 1. reimpr. Brasília: Ministério da Saúde, 2013. 290 p. (Cadernos de Atenção Básica, n. 28, Volume II). ISBN 978-85-334-1973-5. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/acolhimento_demanda_espontanea_queixas_comuns_cab28v2.pdf

Santos KPB, Ribeiro MTAM. Motivos de consulta mais comuns das pessoas atendidas por uma equipe de saúde da família em Fortaleza - CE. Rev Bras Med Fam Comunidade. 2015 Out-Dez;10(37):1-11. DOI 10.5712/rbmfc10(37)831.

Rio Grande do Sul. Secretaria da Saúde. Uso da CIAP2 no PEC e-SUS AB. Porto Alegre: SES-RS, 2019. Disponível em: https://atencaoprimaria.rs.gov.br/upload/arquivos/201909/09104712-ciap2-no-e-sus-ab.pdf

Brasil. Ministério da Saúde. e-SUS Atenção Primária à Saúde: Manual de uso do sistema com Coleta de Dados Simplificada (CDS), capítulo 3 — Ficha de Atendimento Individual. Disponível em: https://sisaps.saude.gov.br/sistemas/esusaps/docs/manual/CDS/CDS_03/

01

Responda antes de ler

Homem de 56 anos, com diagnóstico conhecido de diabetes tipo 2 em acompanhamento na equipe, chega à unidade básica queixando-se de fraqueza. Segundo a lógica da Classificação Internacional de Atenção Primária adotada no registro da atenção primária brasileira, o que deve ser registrado como motivo da consulta?

02

O paciente que você vai ver

São oito e dez de uma quinta-feira. A unidade tem duas equipes, e o consultório 3 fica no fundo do corredor, tão perto da sala de vacina que dá para ouvir as crianças chorando. Catorze nomes marcados na manhã, mais quatro vagas de demanda espontânea — e três dessas quatro a recepção já preencheu antes das sete e meia. Às quintas o interno da unidade é você, e a preceptora está no consultório 1, de porta fechada.

A terceira da lista é Vicencia Tiradentes, 58 anos, diarista, mora a nove quadras daqui e vem a pé. Ela entra, senta, tira do bolso da bolsa dois papéis dobrados em quatro e coloca em cima da mesa antes de qualquer pergunta. Um é um hemograma de março. O outro é um TSH de maio. Os dois estão dentro dos valores de referência, e ela sabe disso, porque alguém já lhe disse.

Você pergunta o que a trouxe. Ela diz: cansaço. Você pergunta desde quando, e ela diz que não sabe direito, que faz um tempo, e que já veio por isso em março e de novo em maio. Você abre o prontuário e as duas consultas estão lá. Na de março, no campo de avaliação, está escrito queixas inespecíficas. Na de maio, está escrito o mesmo, com a mesma letra de outro profissional, mais a palavra exames entre parênteses.

Você pergunta o que ela quer dizer com cansaço, e ela responde com uma coisa que não é a resposta que a pergunta pedia: diz que antes ela varria a casa toda antes de sair para trabalhar e que agora deixa a metade. Você pergunta se dorme bem, e ela diz que dorme. Você pergunta se emagreceu, e ela diz que não; a roupa serve igual. Você pergunta se sente falta de ar subindo escada, e ela para um segundo e diz que subir escada ela já não subia mesmo antes.

Enquanto ela fala, você lista hipóteses: anemia, alterações da tireoide, diabetes, condições cardiopulmonares, doença renal, problemas do sono e outras. Hemograma e TSH anteriores informam as hipóteses correspondentes, mas não equivalem a excluí-las para sempre. Antes de pedir mais, precisa caracterizar o que ela chama de cansaço, sua trajetória e o impacto funcional.

A consulta inteira se resolve neste ponto, e se resolve antes de a caneta tocar o papel.

A pergunta deste capítulo é o que fazer no lugar disso. Não é como não pedir exame: é o que se faz, o que se diz e o que se escreve numa consulta em que a queixa é real, o exame já foi normal duas vezes, o diagnóstico pode não existir e a pessoa vai sair pela porta em treze minutos precisando de alguma coisa que não seja um pedido de exame.

03

Quem adoece disso

O primeiro número que muda a cabeça de quem sai da enfermaria não é sobre doença: é sobre o que chega. Numa equipe de saúde da família de Fortaleza, ao longo de seis meses de 2012, 1.044 consultas médicas produziram 1.985 motivos de consulta codificados em CIAP-2. Distribuídos pelos capítulos da classificação, o maior deles não foi respiratório, nem circulatório, nem endócrino: foi o capítulo A, Geral e Inespecífico, com 243 motivos, 12,24% do total. O capítulo cujo nome é literalmente inespecífico é o mais frequente.

O segundo número é ainda mais direto. Classificados por componente, e não por capítulo, 51,1% dos motivos de consulta pertenciam ao componente 1, que é o dos sinais e sintomas. Mais da metade do que entra pela porta entra como sintoma, não como doença. É a diferença de partida entre a unidade básica e a enfermaria: no hospital, o paciente chega com uma síndrome já filtrada por alguém, e a pergunta é qual doença é. Aqui, a pergunta anterior ainda está aberta — se há doença.

O terceiro número desmonta uma ilusão do interno. No mesmo estudo, 24,8% dos motivos de consulta eram diagnósticos definitivos, do componente 7, trazidos pelas próprias pessoas e aceitos como motivo mesmo quando a avaliação do profissional não confirmava a doença em questão. Um quarto do que se registra como razão da vinda é um rótulo que a pessoa trouxe pronto de outro lugar — de uma consulta anterior, de um exame, de um vizinho, da internet. Quem escuta o rótulo como se fosse o achado começa a consulta com uma hipótese que não é sua.

Vale reparar no que não aparece. Entre os trinta motivos mais frequentes, que somam pouco mais da metade de todos os contatos, não há nenhum código de cansaço, de fraqueza generalizada ou de dor difusa. O capítulo Geral e Inespecífico é o maior de todos, mas se reparte: medicina preventiva, febre, resultado de exames, e depois uma poeira de códigos pequenos demais para entrar em lista. A queixa indiferenciada é assim — está em toda parte na consulta e em lugar nenhum na estatística. É por isso que ela some do planejamento e some do currículo.

Some também da régua. O Ministério da Saúde tem um documento, e um só, que se propõe a nomear as queixas mais comuns da atenção básica: o volume II do Caderno de Atenção Básica 28, de 2013. Ele traz vinte e oito seções, de anafilaxia a reanimação cardiopulmonar, passando por cefaleia, dispneia, disúria, dor abdominal, dor lombar, tontura, saúde mental e situações administrativas. Nenhuma delas é cansaço, fadiga, fraqueza, dor difusa ou mal-estar. A única seção que chega perto do assunto deste capítulo é a 2.26, sobre usuários hiperutilizadores, e ela tem uma página e meia.

A tontura mostra o mesmo desenho em miniatura, e mostra dentro do próprio documento nacional. A seção que o Caderno 28 dedica a ela informa que a vertigem responde por 54% das tonturas na atenção primária, que 93% dessas vertigens são vertigem posicional paroxística benigna, doença de Ménière ou vestibulopatia periférica aguda, e que cerca de 91% delas se manejam na própria unidade. Multiplicando, pouco mais de metade de todas as tonturas que chegam cai em três causas periféricas benignas. O complemento é o que interessa aqui: 46% das tonturas não são vertigem. A seção nomeia os quatro subtipos no primeiro parágrafo e depois dedica o algoritmo e o tratamento ao subtipo majoritário — quase metade da queixa fica nomeada e sem roteiro, e é essa metade que este capítulo assume.

Não se trata de acusar o documento de esquecimento — a Carteira de Serviços da APS, de 2020, diz com todas as letras que os documentos do Ministério não pretendem esgotar os sinais e sintomas da atenção primária, e que a não menção de um sintoma não significa que ele não seja da APS. Trata-se de saber o que o aluno tem e o que não tem. Para dor torácica na unidade básica existe fluxograma nacional. Para o cansaço de cinco meses que já veio com dois exames normais, não existe: o que existe é o que este capítulo vai montar, e a honestidade de dizer que ele está montando na falta de régua, não copiando uma.

O último número é o que fecha o argumento e é aritmética pura, não medida: um exame com 90% de sensibilidade e 90% de especificidade, aplicado numa enfermaria onde 40 de cada 100 pessoas têm a doença, devolve 6 resultados falsamente positivos para cada 36 verdadeiros. O mesmo exame, com o mesmo desempenho, aplicado numa população em que 1 de cada 100 tem a doença, devolve 11 falsos positivos para cada verdadeiro. Não mudou o exame. Mudou o corredor. A conta inteira está na tabela de conversão do bloco de critério, e o conceito que a sustenta — sensibilidade, especificidade e valor preditivo — é do capítulo 'A metade que o laboratório não sabe', da apostila de Medicina Preventiva e Saúde Coletiva; aqui ele é aplicado, não ensinado.

04

Por que acontece o que acontece

O interno que chega à unidade básica não traz um defeito de conhecimento. Traz um raciocínio bem treinado para outro lugar, e é o lugar que mudou. Três mecanismos explicam por que o mesmo raciocínio que funciona na enfermaria produz dano aqui, e vale entender os três separadamente, porque a correção de cada um é diferente.

O significado de um teste depende da probabilidade pré-teste e de seu desempenho na população examinada. No exercício com sensibilidade e especificidade fixadas em 90%, prevalência de 40% produz 360 verdadeiros e 60 falsos positivos por mil; a 1%, são nove e 99. Esses percentuais são cenários didáticos, não estimativas da enfermaria ou da UBS. Na prática, espectro clínico, limiar e método também podem modificar sensibilidade e especificidade.

Em baixa probabilidade pré-teste, o resultado positivo de um teste imperfeito pode ser predominantemente falso. Isso não torna todo exame em APS inútil: testes negativos podem reduzir probabilidades, e positivos bem interpretados podem direcionar cuidado. Formular uma hipótese, selecionar teste apropriado e prever a decisão após cada resultado evita tanto cascatas quanto omissão diagnóstica.

O segundo mecanismo é o do filtro, e é o que faz o interno errar de boa-fé. Todo paciente que ele viu na enfermaria já tinha passado por três peneiras antes de existir para ele: alguém decidiu procurar o serviço, alguém decidiu que aquilo era grave, alguém decidiu internar. A enfermaria é o resíduo de um processo de seleção, e por isso lá quase toda queixa tem mesmo uma doença atrás. Na unidade básica não houve peneira nenhuma. Quem entra pela porta é a população, não o resíduo dela — e a população, em qualquer país, sente sintomas quase o tempo todo sem estar doente. Aprender atenção primária é, em boa parte, desaprender a prevalência da enfermaria.

O terceiro mecanismo é o do sintoma sem doença, e é aquele em que o interno mais se atrapalha, porque ele foi treinado a tratar 'sem doença' como sinônimo de 'sem nada'. Sintoma é uma leitura que o corpo faz de si mesmo, e essa leitura muda com sono, com esforço, com humor, com atenção e com contexto. Um sinal corporal que sempre existiu passa a ser percebido quando alguma coisa dirige a atenção para ele — um susto, uma morte na família, uma notícia, um exame alterado. O sintoma é real, a percepção é real, e a ausência de doença não desmente nenhum dos dois. Quem diz ao paciente que não tem nada está fazendo uma afirmação que a própria consulta não sustenta.

A observação é uma estratégia ativa para pessoa estável com avaliação suficiente, retorno possível e orientação de segurança. Persistência, por si só, não manda pedir painel amplo nem autoriza esperar indefinidamente. Rever história, exame, medicamentos e investigação já realizada; o prazo depende de evolução, risco, função e acesso. Doença pode permanecer estável, e melhora não prova ausência de doença.

O tempo, porém, só funciona sob duas condições, e é aí que o aluno costuma quebrar o instrumento sem perceber. A primeira é que ele seja marcado: um retorno com data, não a frase 'se piorar, procure'. A segunda é que a pessoa saia sabendo o que estamos esperando ver e o que faria a espera terminar antes. Sem essas duas coisas, o que se ofereceu não foi tempo — foi ausência, e a pessoa vai lê-la exatamente assim, porque do lado de dentro da consulta 'esperar' e 'ser dispensado' têm a mesma aparência.

Identificar instabilidade desde a chegada: dispneia importante, dor torácica, síncope, confusão, déficit focal, hipoxemia, sangramento volumoso ou incapacidade de hidratar-se exigem avaliação imediata e suporte. Outros sinais, como perda ponderal significativa, febre persistente e mudança progressiva de sintomas, pedem investigação prioritária com prazo individualizado. O relato conta mesmo sem alteração medida no consultório; uma temperatura normal agora não exclui febre intermitente. A presença ou ausência de um alerta muda prioridades, mas não determina sozinha probabilidade de malignidade; cada hipótese exige contexto.

Duas lupas iguais sobre grupos de silhuetas: cinco de seis em terracota à esquerda e uma de quarenta à direita.
Exemplo didático, sem estimar prevalências reais: à esquerda, 5 de 6 pessoas estão em terracota; à direita, 1 de 40. A cor representa a condição investigada, e as lupas iguais representam o mesmo teste. Mantidas sensibilidade e especificidade, a prevalência modifica os valores preditivos. O que importa é a proporção com a condição, não a quantidade de pessoas reunidas na sala.
05

Como se apresenta de verdade

A queixa indiferenciada não tem uma apresentação: tem seis, e elas exigem condutas diferentes o bastante para valer a pena separá-las. O que as une é o que falta — nenhuma delas aponta para um órgão, e por isso nenhuma delas dispara sozinha um roteiro pronto de investigação.

Uma advertência antes de começar, porque ela vale para as seis. Nada aqui autoriza a conclusão de que a pessoa 'não tem nada'. Todas as seis apresentações são compatíveis com doença, e três delas são apresentações reconhecidas de doenças graves. A leitura correta não é 'provavelmente é nada': é 'a probabilidade de doença específica é baixa o bastante para que o exame decida pouco, e alta o bastante para que a reavaliação seja obrigatória'.

O cansaço que já veio com exame normal

Exames normais reduzem a probabilidade das condições que efetivamente avaliam, na data em que foram colhidos. Hemograma sem anemia e TSH normal não excluem toda causa de cansaço, não eliminam deficiência de ferro sem anemia e não reduzem automaticamente a probabilidade de doenças não investigadas. Comparar evolução e resultado completo; repetir ou ampliar quando houver uma nova pergunta clínica.

A pergunta que separa este cansaço de todos os outros não é sobre o cansaço: é sobre o que ele impediu. Cansaço que não mudou nada do que a pessoa faz é um dado; cansaço que fez ela deixar metade da casa por varrer, largar o segundo emprego ou parar de sair é outro. A perda de função é o eixo que organiza tudo o que vem depois, porque ela é objetiva, é comparável entre consultas e é o que vai dizer, daqui a três semanas, se melhorou.

A segunda pergunta é temporal, e é a que localiza o problema fora do corpo com mais frequência do que qualquer exame: em que mês começou, e o que mais estava acontecendo naquela época. Não é pergunta de triagem psicológica — é pergunta de anamnese, e o capítulo 'A queixa é o passaporte', o segundo desta apostila, é dono do método que a organiza. Aqui ela entra por um motivo específico: num cansaço de início datável, a resposta a essa pergunta costuma decidir se o próximo passo é exame ou conversa.

Investigar sono, turnos, alimentação e medicamentos. Dormir poucas horas pode contribuir para fadiga, mas não encerra o diagnóstico, especialmente se há perda funcional. Perguntar por ronco/apneias, sonolência, esforço, perdas sanguíneas e sintomas emocionais; manter possibilidades clínicas e sociais em paralelo.

O diferencial deve ser orientado pelos dados, sem limite de cinco diagnósticos. Considerar causas metabólicas, cardiopulmonares, renais, hematológicas/nutricionais, infecciosas, do sono, medicamentosas e de saúde mental conforme história. Duração e exame normal ajudam a estimar urgência, mas não eliminam doença. O preceptor deve receber uma lista priorizada e uma justificativa para o que investigar agora.

A tontura que não vira vertigem

Na tontura, organizar início, duração, recorrência e gatilhos além da descrição subjetiva. Dizer “não gira” não exclui causa vestibular ou vascular. Avaliar marcha, sinais neurológicos, audição e contexto cardiovascular conforme quadro. Os capítulos de vertigem e emergência aprofundam manobras e síndromes; aqui permanece a responsabilidade de identificar gravidade e causas medicamentosas/metabólicas.

O resto é grande e tem nome próprio na prática: a tontura que a pessoa descreve como cabeça leve, como se fosse desmaiar, como se estivesse andando em cima de algodão, ou como um mal-estar que ela chama de tontura por falta de outra palavra. O primeiro trabalho é justamente esse — não aceitar a palavra e pedir a descrição sem sugerir a resposta. Perguntar 'gira ou é como se fosse desmaiar' já oferece as duas alternativas e a pessoa escolhe uma; perguntar 'me descreve o que você sente, sem usar a palavra tontura' costuma render mais.

O segundo trabalho é separar o que se parece com tontura e não é. Hipotensão ortostática se mede em pé, e é medida, não impressão. Hipoglicemia tem horário. Ansiedade com hiperventilação tem contexto e tem formigamento perioral. Medicamento novo tem data de início, e a lista de quem tomou o quê é do capítulo 'A dose que já foi certa', da apostila de Geriatria — mas conferir se a tontura começou depois de um remédio é obrigação de quem atende, não do especialista.

O terceiro trabalho é a única parte dessa apresentação em que não se espera: tontura acompanhada de sintoma neurológico focal, de cefaleia nova e intensa, de perda auditiva súbita ou de instabilidade que impede a marcha não é queixa indiferenciada. Sai deste capítulo na hora e entra na avaliação de urgência, e a régua de para onde vai está na tabela de bandeiras vermelhas.

A dor que muda de lugar

A terceira apresentação é a dor difusa: dói o corpo, dói tudo, doem lugares diferentes em semanas diferentes, e o exame físico de cada um desses lugares é normal ou quase. É a apresentação que mais gera pedido de exame de imagem, e a que menos ganha com ele — porque a imagem de uma região que dói sem sinal objetivo devolve, com altíssima frequência, um achado degenerativo compatível com a idade que passa a ser tratado como a causa.

Fibromialgia é diagnóstico clínico que pode coexistir com outras doenças: não se exige a exclusão de toda doença, mas se procuram explicações alternativas e comorbidades conforme os achados. Esta apostila adota os critérios do Colégio Americano de Reumatologia de 2010, que a Sociedade Brasileira de Reumatologia recomenda desde 2017 e que o protocolo de encaminhamento reproduz — índice de dor difusa de 7 ou mais com escala de gravidade de 5 ou mais, ou índice de 3 a 6 com escala de 9 ou mais, com sintomas por pelo menos três meses —; a revisão de 2016, que pede dor generalizada em quatro de cinco regiões e aceita índice de 4 a 6, fica registrada. O diagnóstico e a conduta estão no capítulo Fibromialgia e dor musculoesquelética crônica, na apostila de Reumatologia.

Reconhecer fibromialgia precisa abrir um plano inicial na APS. Explicar dor nociplástica sem negar o sintoma, definir uma meta funcional, revisar sono e comorbidades e oferecer atividade física adaptada à tolerância, educação e apoio psicológico quando indicado. Se necessário, discutir fármaco com benefício e riscos individuais, começando baixo e reavaliando função e efeitos adversos. Persistência incapacitante, dúvida diagnóstica ou sinais atípicos pedem apoio especializado, mantendo a equipe responsável pelo seguimento.

Rename informa seleção e financiamento nacional, não o estoque de cada UBS. Confirmar lista municipal/estadual, indicação coberta, local de dispensação e disponibilidade real. Ausência na edição impressa não prova ausência de qualquer acesso público; presença na lista também não garante entrega hoje. Se houver barreira, negociar alternativa clinicamente apropriada e acompanhar o acesso.

Não estou bem: a queixa sem substantivo

A quarta apresentação é a que mais desconcerta, porque não tem sintoma nenhum. A pessoa senta e diz que não está bem, que está estranha, que não é ela mesma, que anda ruim. Não há dor, não há órgão, não há começo. O interno pergunta 'ruim como?' e recebe a mesma frase de volta com outras palavras.

Perguntar o que mudou na vida ajuda a compreender mal-estar sem causa definida, mas a resposta pode ser clínica, social ou ambas. Avaliar sinais vitais, função e evolução desde o primeiro encontro. Não assumir que um acontecimento pessoal é a explicação mais provável antes de examinar a pessoa.

Há, no entanto, três coisas que se apresentam exatamente assim e que não podem ser lidas como contexto. Uma é a fase inicial de doença sistêmica em idoso, em que mal-estar difuso precede em semanas qualquer achado objetivo — é a razão pela qual idade avançada muda o limiar de investigar. Outra é o efeito de medicamento iniciado ou ajustado nas últimas semanas. A terceira é o sofrimento que se apresenta em linguagem de corpo, e essa tem fronteira declarada.

A APS pode avaliar, diagnosticar e manejar transtornos mentais comuns, com supervisão no internato e apoio matricial quando necessário. Investigar sintomas, duração, prejuízo funcional, uso de substâncias, episódios de mania e risco de suicídio antes de escolher tratamento. Sintomas físicos e sofrimento emocional podem coexistir; nem exames normais provam origem psíquica, nem reconhecer contexto dispensa investigação clínica.

Um detalhe operacional que muda o rendimento desta apresentação: dê o tempo do silêncio. A queixa sem substantivo costuma ter uma segunda frase, e a segunda frase é a que traz o assunto — mas ela só sai se ninguém preencher os cinco segundos que vêm depois da primeira. Interromper com uma pergunta fechada nesse intervalo é o modo mais eficiente de terminar a consulta sem saber por que a pessoa veio.

A terceira vez pela mesma coisa

A quinta apresentação não é uma queixa nova: é a mesma queixa voltando. Ela merece seção própria porque é o ponto em que a equipe muda de atitude sem perceber, e a mudança costuma ser para pior — a pessoa vira 'aquela que vem toda semana', a consulta encurta, e a escuta afrouxa exatamente onde deveria apertar.

O documento brasileiro que trata disso é curto e é bom, e vale seguir o que ele diz: quando as queixas clínicas da mesma pessoa se repetem, é hora de reavaliar o diagnóstico e a propedêutica, verificar se a queixa está sendo conduzida ou apenas paliada, e prestar atenção a mudanças sutis no caráter da queixa, porque a equipe já se acostumou com a pessoa e com o que ela diz. Ele também registra, com todas as letras, que comentários e preconceitos contra quem procura muito o serviço são comuns, e propõe que isso seja tratado em reunião de equipe.

O mesmo documento acrescenta duas causas de retorno que não são clínicas e que o interno nunca considera. Uma é organizativa: quando consulta, agendamento de exame, curativo, vacina e farmácia funcionam em dias e horários diferentes, o serviço obriga a pessoa a voltar várias vezes, e depois registra isso como se fosse comportamento dela. A outra é territorial: em muitos lugares a unidade básica é, junto com a escola, o único equipamento público existente, e parte do que chega ali é necessidade social que nenhum exame resolve.

Consultas repetidas podem indicar doença não reconhecida, tratamento insuficiente, barreiras de acesso, sofrimento ou expectativas ainda não compreendidas. Esses fatores podem coexistir. Refazer perguntas e exame e, quando indicado, ampliar investigação; não proibir exames apenas porque há uma explicação organizativa possível.

A bandeira vermelha escondida na queixa vaga

A sexta apresentação é a que justifica todas as cautelas das outras cinco: a doença grave que se apresenta, no começo, exatamente como queixa indiferenciada. Neoplasia, tuberculose, endocardite, doença inflamatória sistêmica, insuficiência adrenal e infecção crônica não chegam à unidade básica com síndrome montada. Chegam como cansaço, como falta de apetite, como febre que vai e volta, como 'não estou bem'.

Se essa apresentação existe, por que não investigar todo mundo? Pela conta do bloco anterior: investigar todos, numa população em que a doença é rara, produz muito mais falso positivo do que diagnóstico, e cada falso positivo consome a consulta seguinte. A saída não é escolher entre investigar tudo e não investigar nada — é ter um conjunto pequeno, memorizado e explícito de achados que mudam o limiar, e usá-los como gatilho.

Sinais de alerta podem vir da história ou do exame: sangramento referido, perda ponderal percebida, cefaleia explosiva e déficit transitório precisam ser valorizados mesmo ausentes na consulta. A tabela orienta prioridades, mas não é regra validada de exclusão de doença grave; integrar risco, trajetória e julgamento clínico.

Um último ponto sobre esta seção, e ele é de método: bandeira vermelha se procura ativamente, não se espera que apareça. A pessoa que vem por cansaço não vai dizer espontaneamente que perdeu seis quilos, porque para ela isso é notícia boa. Quem não perguntar e não pesar não vai saber.

06

Como fechar o diagnóstico

Investigar uma queixa que não fecha não é uma versão encolhida da investigação hospitalar. É outra operação, com outra ordem de passos, e o passo que ela acrescenta — marcar o retorno — não existe no hospital porque lá o paciente já está do lado de dentro.

A ordem que este bloco propõe é: estimar a probabilidade daqui, varrer bandeira vermelha, decidir o núcleo mínimo, prever o que o exame vai devolver, combinar o tempo e registrar de um jeito que sirva para a próxima consulta. Seis passos, e o interno costuma pular do primeiro para o terceiro.

Antes dos seis passos, o que fica fora deles — e o nome de quem cuida de cada coisa.

Exemplo de revisão de resultado: Vicencia volta com ferritina abaixo da referência e hemoglobina normal. Isso não deve ser chamado automaticamente de incidental nem atribuído de imediato como causa única do cansaço. Conferir valor e contexto, investigar ingestão, perdas menstruais ou digestivas conforme história, doação de sangue e má absorção quando pertinentes. Discutir reposição e investigação da origem com o preceptor, mantendo avaliação das outras hipóteses. Se, ao contrário, o resultado for limítrofe e sem significado definido, explicar a incerteza, decidir se precisa confirmar e registrar prazo e responsável. O mesmo raciocínio se aplica a uma alteração renal discreta: comparar com valores prévios e medicamentos pode mudar cuidado antes de existir um diagnóstico etiológico completo.

A probabilidade daqui não é a probabilidade de lá

O primeiro passo é uma estimativa, e ela precisa ser feita com o denominador certo. A pergunta não é 'esta pessoa pode ter doença celíaca?' — pode. É 'de cada cem pessoas que sentam nesta cadeira com esta queixa, quantas têm?'. A resposta muda o significado de tudo o que vier depois, e é a razão pela qual o mesmo exame que fecha diagnóstico na enfermaria fabrica dúvida na unidade.

Exames normais reduzem a probabilidade das condições que efetivamente avaliam, na data em que foram colhidos. Hemograma sem anemia e TSH normal não excluem toda causa de cansaço, não eliminam deficiência de ferro sem anemia e não reduzem automaticamente a probabilidade de doenças não investigadas. Comparar evolução e resultado completo; repetir ou ampliar quando houver uma nova pergunta clínica. Estimar risco pela história, exame, trajetória, idade e comorbidades. Um percentual escolhido para exemplo matemático não pode ser aplicado à paciente sem dados apropriados.

O conceito que sustenta este passo — sensibilidade, especificidade, valor preditivo e o modo como a prevalência os move — é do capítulo 'A metade que o laboratório não sabe', da apostila de Medicina Preventiva e Saúde Coletiva, e o leitor que quiser entendê-lo deve ir lá. Viés, confundimento e validade, que dizem quando acreditar num número desses, são de 'Quem entrou, quem mediu, o que mais mudou', da mesma apostila. Este capítulo não ensina nenhum dos dois: usa.

Na fadiga persistente com limitação, uma investigação direcionada pode mudar a conduta. Definir para cada teste a hipótese, o resultado que exige ação e a responsabilidade de revisão. Não usar a ausência de sinais de urgência para presumir que todo resultado será normal ou irrelevante.

Uma delimitação que evita confusão frequente: nada disto se aplica a quem não tem queixa. Oferecer exame a pessoa assintomática é outra decisão, com outra lógica e outra régua, e ela é do capítulo 'O nível não está no exame'. A conta da prevalência é a mesma nos dois casos — e a última linha da tabela de conversão deste capítulo mostra o que ela faz quando a prevalência cai para meio por cento —, mas o que se decide com ela não é. Aqui há uma pessoa que veio dizer que está mal, e essa diferença muda tudo o que se conclui.

As bandeiras vermelhas, que se procuram e não se esperam

Este passo vem em segundo lugar, e não em último, de propósito. Ele é o único do capítulo que não admite adiamento, e por isso precisa ser feito antes de qualquer raciocínio sobre probabilidade — a probabilidade decide o que investigar; a bandeira vermelha decide se há tempo para decidir.

Identificar instabilidade desde a chegada: dispneia importante, dor torácica, síncope, confusão, déficit focal, hipoxemia, sangramento volumoso ou incapacidade de hidratar-se exigem avaliação imediata e suporte. Outros sinais, como perda ponderal significativa, febre persistente e mudança progressiva de sintomas, pedem investigação prioritária com prazo individualizado. O relato conta mesmo sem alteração medida no consultório; uma temperatura normal agora não exclui febre intermitente.

A tabela é uma síntese didática de alerta e priorização, não regra validada para excluir doença em qualquer queixa. O Caderno 28 é referência histórica, complementada por diretrizes específicas e avaliação atual. Para cefaleia, início explosivo, déficit, sintomas sistêmicos e início após os 50 merecem atenção; para fadiga, ampliar conforme trajetória, exame e fatores de risco, sem tratar a lista como exaustiva.

Perda de peso pode ser espontaneamente relatada e merece atenção mesmo sem medida anterior. Sempre que possível, quantificar a variação e relacioná-la ao tempo, à intenção, à ingestão e ao estado funcional. A balança contribui para a avaliação; não substitui o relato nem exclui investigar por não haver pesagem histórica.

O núcleo mínimo, e por que ele é curto

Se a decisão for pedir alguma coisa — e frequentemente será, porque a probabilidade não é zero —, o pedido tem uma forma: pequeno, justificado item a item, e com o resultado já pensado antes de sair. Núcleo mínimo quer dizer o conjunto de exames em que cada item responde a uma pergunta específica que você consegue enunciar em voz alta antes de assinar.

Selecionar exames pela hipótese e pela consequência do resultado. Hemograma pode ser pertinente na fadiga; ultrassonografia abdominal não se indica apenas por cansaço com exame normal, mas pode ser apropriada se a história ou laboratório trouxerem uma pergunta específica. A hipótese orienta o exame, e um resultado inesperado não deve ser desprezado por não ter sido previsto.

O número de exames e seu agrupamento dependem da hipótese e do acesso. Fazer em etapas é útil quando a primeira resposta define o próximo teste; pedir juntos os exames já indicados pode evitar atraso e deslocamentos. Dividir o mesmo painel em “três agora e três depois” não diminui sua taxa total de falsos positivos se todos forem realizados.

Para fadiga persistente, selecionar investigação conforme história: hemograma para anemia/citopenias; glicemia ou HbA1c para alterações glicêmicas; creatinina e eletrólitos conforme risco renal/medicamentos; TSH conforme contexto; ferritina em risco de deficiência de ferro, inclusive sem anemia. Outros testes — função hepática, inflamação, urina, sorologia celíaca, B12 ou infecções — dependem de hipóteses e do que já foi feito. A lista não é painel obrigatório nem teto de investigação.

Prever o achado incidental antes de assinar

Antes de solicitar, prever quais resultados mudariam a conduta e como revisar achados inesperados. Essa preparação permite explicar limites e reduzir cascatas sem transformar uma expectativa de normalidade em compromisso de ignorar resultados.

Uma alteração leve exige leitura do valor, unidade, referência, tendência, contexto e relevância clínica; não pode ser descartada antes de chegar. Ferritina baixa pode indicar deficiência de ferro sem anemia e merece investigação da causa e tratamento conforme contexto. Um achado sem relação com o sintoma pode exigir cuidado próprio; documentar se será investigado, acompanhado ou dispensado de seguimento e por quê.

Antes da coleta, explicar o propósito dos exames e quem revisará o resultado. Antecipar possíveis caminhos reduz incerteza, mas não prometer que qualquer alteração pequena será ignorada. O plano inclui também a resposta a um resultado grave e como contatar a pessoa rapidamente.

A cascata que nasce desse achado — a doutrina, os mecanismos e a decisão de não investigar — é do capítulo 'Prevenção quaternária e multimorbidade'. O que fica aqui é só o momento anterior a ela: a assinatura que a abre.

Combinar o tempo de um jeito que ele seja conduta

O tempo só tem poder diagnóstico se for combinado, e combinar tem forma. São quatro elementos, e faltar um transforma conduta em dispensa: uma data, um critério de melhora, um critério de piora e um nome.

A observação é uma estratégia ativa para pessoa estável com avaliação suficiente, retorno possível e orientação de segurança. Persistência, por si só, não manda pedir painel amplo nem autoriza esperar indefinidamente. Rever história, exame, medicamentos e investigação já realizada; o prazo depende de evolução, risco, função e acesso. Doença pode permanecer estável, e melhora não prova ausência de doença.

O critério de melhora tem de ser funcional, e tem de ser dito pela pessoa, não por você. 'Da última vez você me disse que estava deixando metade da casa por varrer. Daqui a três semanas eu vou te perguntar se ainda está.' Isso é mensurável, é comparável e é dela. Já 'ver se melhora' não é critério de coisa nenhuma.

Dar orientações vinculadas ao risco, sem número obrigatório de sinais. Na fadiga, perda ponderal progressiva, febre persistente ou queda de capacidade pedem avaliação antecipada; dispneia importante, dor torácica, síncope, déficit ou confusão exigem urgência. Explicar onde procurar ajuda e verificar compreensão; não recomendar esperar três dias diante de mal-estar grave.

O quarto elemento é o nome, e é o que faz a diferença entre esperar e ser abandonado: quem ela vai encontrar da próxima vez, e onde. Retorno com a mesma equipe é o que o volume I do Caderno 28 chama de continuidade do cuidado, e é o que a unidade básica tem e o pronto-socorro não tem — o mesmo documento diz, com essas palavras, que a atenção básica se diferencia porque tem conhecimento prévio da população, registro anterior à queixa aguda e possibilidade de retorno com a mesma equipe. É o instrumento da casa; usar não é fazer menos, é fazer o que só aqui se pode fazer.

Há uma condição zero, anterior aos quatro elementos, e ela não é clínica: o retorno precisa ser possível. Marcar volta em três semanas para quem perde uma diária por vir à unidade, mora a duas conduções e cuida sozinha de uma pessoa acamada não é conduta — é uma exigência que a consulta não tem como sustentar. A pergunta é direta e leva dez segundos: a senhora consegue voltar dia 12? Se a resposta for não, o plano muda, e muda antes de ser escrito: adianta-se o que dá para adiantar na mesma visita, usa-se a visita domiciliar ou o contato pela equipe de agentes comunitários como forma de reavaliação, ou negocia-se um dia em que ela consiga. O tratamento dos determinantes sociais como determinantes, e não como falta de vontade da pessoa, é do capítulo 'Não aderiu', da apostila de Medicina Preventiva e Saúde Coletiva; o que se assume aqui é a consequência operacional: um plano inexequível não é um plano rigoroso, é um plano que não vai acontecer.

O registro, o campo que não existe e o pior registro possível

O último passo é o que decide a consulta seguinte, e é o que a formação hospitalar não treina. Numa enfermaria o prontuário registra evolução de um diagnóstico já feito. Aqui, com frequência, não há diagnóstico — e o registro precisa carregar outra coisa: a queixa nas palavras da pessoa, o que foi investigado, o que se combinou e quando.

A régua brasileira do registro existe e tem nome. É a Classificação Internacional de Atenção Primária, segunda edição, que o país adota nos sistemas de informação da atenção primária. Ela foi feita para o problema exato deste capítulo: classificar questões relacionadas às pessoas, e não a doenças, permitindo registrar o motivo da consulta mesmo quando ele não é uma doença objetivamente demonstrada por exame. Está organizada em dezessete capítulos, por sistema orgânico mais um geral e um social, e sete componentes, dos quais o primeiro é o dos sinais e sintomas.

Na prática, isso quer dizer que existe um código para o que a Vicencia tem. Fraqueza e cansaço geral é código do capítulo geral e inespecífico; o documento oficial que descreve o uso da classificação no prontuário eletrônico dá exatamente esse exemplo — homem de 56 anos, sabidamente diabético, que chega com queixa de fraqueza: o motivo de consulta é fraqueza, e não diabetes, mesmo sabendo que o diabetes pode explicá-la. Registrar a queixa como ela é dita, sem convertê-la na doença que se suspeita, é a regra, e é o oposto do reflexo hospitalar.

Na coleta simplificada, os campos codificados referem-se a problemas e condições avaliados, e sintomas podem ser registrados como tais pela CIAP-2. Falta de campo separado para motivo não exige diagnóstico etiológico fictício. No prontuário clínico, manter a narrativa, achados, hipóteses e plano; a ficha de produção não substitui esse registro.

Daí a última frase deste bloco, e ela é a razão de o capítulo insistir tanto no registro. 'Queixas inespecíficas' é o pior registro possível, e é pior por três motivos somados. Não diz o que a pessoa sentiu, então o próximo profissional recomeça a anamnese do zero. Não diz o que foi investigado, então o próximo pede de novo o que já veio normal — foi o que aconteceu com a Vicencia entre março e maio. E carrega um julgamento sobre a queixa, e não uma descrição dela: inespecífico é adjetivo sobre a pessoa, não informação sobre o quadro. O registro que serve tem quatro linhas e cabe no mesmo tempo: a queixa nas palavras dela, a função perdida, o que foi investigado com data, e o que se combinou.

Caracterizar a limitação antes de chamar tudo de fadiga

Comece pela atividade que ficou difícil e peça um exemplo recente. Se Vicencia precisa parar ao varrer, pergunte por falta de ar, desconforto torácico, palpitação ou sensação de desmaio durante o esforço; reduzir a tarefa pode ser uma adaptação que esconde sintomas. Se o problema é adormecer durante o dia, investigar sono e sonolência. Se não consegue levantar de uma cadeira ou erguer os braços, avaliar força e distribuição da fraqueza. Se descreve falta de energia, explorar tempo, repouso, alimentação, contexto e sintomas associados. Os termos podem coexistir; não escolher uma única categoria cedo demais.

A história cronológica inclui o estado funcional anterior, o início, a velocidade da mudança e o que já foi tentado. Pergunte se o repouso alivia, se há dias melhores e se a atividade desencadeia piora tardia prolongada. Registre uma tarefa relevante para a pessoa e o esforço envolvido, sem transformar produtividade doméstica em obrigação ou definir recuperação como voltar a trabalhar apesar dos sintomas. A meta pode ser caminhar até a esquina, preparar uma refeição sem exaustão ou conseguir cuidar de si com menos ajuda.

O exame começa pelos sinais vitais e estado geral e continua conforme hipóteses. Saturação, frequência e esforço respiratório ganham importância na dispneia; ortostatismo é útil quando há tontura ao levantar e pode ser medido se for seguro; força objetiva e marcha ajudam quando a queixa é fraqueza. Não fazer uma pessoa instável caminhar para demonstrar limitação. Se a história sugerir risco imediato, chamar o preceptor e interromper a agenda eletiva. Ausência de uma alteração ao exame não elimina um sintoma intermitente bem descrito.

Transformar a hipótese em um pedido e acompanhar sua resposta

Apresente ao preceptor três elementos para cada hipótese prioritária: o que a favorece, o que a enfraquece e qual informação falta para decidir. Por exemplo, um hemograma antigo sem anemia enfraquece anemia naquela data, mas sangramento novo pode justificar repetir. Ferritina pode ser pertinente por perdas, dieta ou suspeita de deficiência de ferro mesmo sem queda de hemoglobina. Creatinina ajuda na avaliação de uma pessoa hipertensa em uso de medicamentos que dependem da função renal, mas não fecha sozinha a causa do cansaço. Um teste não precisa explicar toda a queixa para identificar um problema que merece cuidado.

Evite tanto o painel automático quanto a restrição automática a dois exames. Se a história sustenta várias perguntas necessárias hoje, coletar juntas pode ser mais seguro e mais acessível; se um resultado define o próximo passo, a investigação em etapas evita exames sem utilidade. A decisão deve considerar o que já existe no prontuário, o tempo desde a coleta, as mudanças clínicas e a capacidade de retorno. Na suspeita de síndrome específica, seguir sua investigação própria em vez de usar a lista didática deste capítulo como limite.

Antes da saída, atribua a leitura dos resultados a um profissional ou equipe e confirme contato seguro. Um exame crítico não espera a consulta marcada. Um exame pendente precisa continuar na lista de tarefas mesmo depois de encaminhar a paciente. Se ela não conseguir coletar, a equipe deve conhecer a barreira e decidir alternativa ou nova prioridade; falta de resultado não se registra como resultado normal. Na consulta seguinte, explicar quais hipóteses se fortaleceram, quais perderam força e por que o próximo passo mudou ou foi mantido.

Cuidado inicial quando o sintoma persiste

Não é necessário aguardar um nome definitivo para oferecer medidas proporcionais. Revisar sono, ingestão, hidratação conforme condições clínicas, medicamentos, carga de trabalho e apoio disponível pode melhorar segurança e função. Essas intervenções devem ser propostas como cuidado de necessidades identificadas, sem insinuar que o sintoma é culpa da paciente. Definir o que será experimentado e como se avaliará benefício; se algo piorar, revisar a proposta. Suplementos, sedativos ou analgésicos não são substitutos neutros de uma investigação que ainda precisa ser concluída.

Em dor difusa, explicar que a intensidade pode ser importante mesmo sem lesão em exames de imagem. Investigar padrão, regiões, duração, sono e função, avaliar sinais inflamatórios e neurológicos e reconhecer critérios clínicos quando presentes. O plano não depende de mandar a pessoa comprar um medicamento específico. Educação, atividade ajustada, cuidado do sono e abordagem de comorbidades podem começar na APS. Dor nova focal, fraqueza objetiva, febre ou perda ponderal continuam exigindo reavaliação mesmo após diagnóstico de fibromialgia.

Na consulta de seguimento, melhora parcial da função é informação útil, mas não prova que toda hipótese orgânica foi excluída. Se nada mudou, não repetir a mesma frase de tranquilização: revisar a formulação e perguntar o que foi possível executar. Se houver agravamento ou achado novo, atualizar urgência e investigação. Se o plano já foi adequadamente executado e a limitação continua, discutir apoio matricial ou encaminhamento com uma pergunta explícita e manter o seguimento pela equipe de origem.

07

O encontro com a queixa que não fecha, passo a passo

Este roteiro organiza uma consulta, sem duração obrigatória. Gravidade é avaliada desde o início; história, exame e probabilidade são revistos juntos. O resultado esperado é uma hipótese proporcional aos dados e um plano viável de investigação e acompanhamento.

  1. 1Peça a queixa nas palavras da pessoa e não converta em termo técnico enquanto ela fala. Anote a frase que ela usou.
  2. 2Pergunte o que a queixa impediu de fazer. A função perdida é o que vai ser comparável daqui a três semanas.
  3. 3Ancore no tempo: em que mês isso começou, e o que estava acontecendo na vida dela então.
  4. 4Identificar instabilidade desde a chegada: dispneia importante, dor torácica, síncope, confusão, déficit focal, hipoxemia, sangramento volumoso ou incapacidade de hidratar-se exigem avaliação imediata e suporte. Outros sinais, como perda ponderal significativa, febre persistente e mudança progressiva de sintomas, pedem investigação prioritária com prazo individualizado. O relato conta mesmo sem alteração medida no consultório; uma temperatura normal agora não exclui febre intermitente.
  5. 5Rever exames com data, valor e hipótese que avaliam; normalidade reduz probabilidades específicas e não exclui toda doença.
  6. 6Confira a lista de medicamentos e a data de início de cada um, procurando o sintoma que começou depois do remédio.
  7. 7Estime a probabilidade com o denominador daqui, e não o da enfermaria.
  8. 8Decida o núcleo mínimo: só o exame cujo resultado, normal ou alterado, muda o que você fará nas próximas semanas. Enuncie a pergunta de cada item em voz alta antes de assinar.
  9. 9Planejar como interpretar resultados normais, limítrofes ou relevantes; não prometer ignorar achados antes de conhecê-los.
  10. 10Combine o tempo com os quatro elementos: data marcada, critério de melhora funcional dito por ela, três critérios concretos de piora e o nome de quem vai atender.
  11. 11Registre a queixa como queixa, o que foi examinado, o que foi investigado com data, e o que se combinou. Não escreva queixas inespecíficas.

Exercício hipotético: sensibilidade e especificidade de 90% em 1.000 pessoas, variando apenas a prevalência

Prevalência hipotéticaQuem tem a doença (em 1.000)Positivos verdadeirosPositivos falsosChance de ter a doença com exame positivoFalsos positivos por verdadeiro
40% — cenário hipotético4003606085,7%0,17
20% — cenário hipotético2001808069,2%0,44
10% — cenário hipotético100909050,0%1,00
5% — cenário hipotético50459532,1%2,11
2% — cenário hipotético20189815,5%5,44
1% — cenário hipotético109998,3%11,00
0,5% — cenário hipotético54,599,54,3%22,11

Bandeiras vermelhas na queixa indiferenciada: o que se mede, o que dispara e em que janela

AchadoComo se obtém, e por que não basta perguntarJanela em que decideO que muda na conduta
Perda de peso não intencionalComparar medidas e investigar também perda referida, mudança de roupa, apetite, alimentação e acesso a comida; não exigir pesagem anterior para levar o relato a sério.Não espera a reavaliação: investiga na mesma semanaSai da conduta de tempo. Exame dirigido por sistema e busca ativa de neoplasia, infecção crônica e doença sistêmica — o painel e o encaminhamento estão no capítulo Sinais de alarme e diagnóstico precoce de neoplasias na APS, na apostila de Oncologia.
Febre que persiste ou que vai e volta por semanasValor e padrão referidos, aferição quando possível, antitérmicos e sinais associados. Sensação de febre merece esclarecimento; temperatura normal na consulta não exclui episódios.Hoje se toxemia, instabilidade ou alto risco; nos demais, avaliação e investigação prioritárias conforme duração e contexto.Sai da conduta de tempo. Hemograma, urina, radiografia de tórax e busca de foco; considerar tuberculose e endocardite conforme contexto.
Sinal neurológico focal, marcha alterada ou confusão novaExame neurológico feito, não presumido. Inclui a marcha, que a maioria não examina em queixa de cansaço.Mesmo diaSai da unidade. Avaliação de urgência.
Sangramento de qualquer sítioPergunta dirigida por sítio (fezes, urina, gengiva, pele, útero) mais exame. A pessoa não associa sangramento a cansaço.Imediatamente se volumoso, instabilidade ou sintomas importantes; nos casos estáveis, prazo pela origem, intensidade e risco.Sai da conduta de tempo. Hemograma e investigação do sítio.
Dor que acorda a pessoa à noitePergunta na forma direta: 'a dor te acorda?'. 'Dor noturna' é entendido como 'dor à noite', que é outra coisa.Mesma semanaEsclarecer local, evolução e sinais associados. Dor que desperta aumenta atenção em certos contextos, mas não é marcador isolado universal de doença grave.
Cefaleia de início abrupto e forte, ou que mudou de padrão, ou que começou após os 50 anosInvestigar tempo até pico, padrão anterior, idade de início, câncer, imunossupressão, gestação/puerpério, sintomas visuais e achados neurológicos.Início explosivo, déficit, alteração visual sugestiva de arterite ou meningismo: urgência. Demais alertas: avaliação prioritária individualizada.Início abrupto vai para urgência. As demais saem da conduta de tempo e vão para investigação dirigida.
Sinal objetivo novo em qualquer sistema (massa, adenomegalia, sopro novo, edema, icterícia)Exame físico completo, e não dirigido só à queixa. É a razão de examinar quem veio por cansaço.Mesma semanaA queixa deixa de ser indiferenciada: passa a ser conduzida pelo sinal, não pela queixa.
Idade acima de 65 anos com mal-estar difuso e sem causa aparenteIdade, fragilidade, comorbidades, mudança funcional e apoio disponível modificam risco. Não presumir doença sistêmica nem estabilidade apenas pela idade.Prazo individualizado; não há regra de dividir a janela pela metade.Declínio agudo exige avaliação hoje; evolução estável pode admitir retorno breve com plano, conforme achados e possibilidade de acesso.

O que se escreve quando não há diagnóstico: o registro pobre, o que ele custa e o que entra no lugar

O registro pobreO que ele impede na consulta seguinteO que entra no lugarOnde isso cabe no sistema
Queixas inespecíficasO próximo profissional recomeça a anamnese do zero e repete o exame que já veio normal — foi o que aconteceu entre março e maio no caso que abre o capítulo.A queixa transcrita nas palavras da pessoa, entre aspas, mais desde quando.Motivo da consulta, no prontuário eletrônico. Na ficha em papel não há campo próprio: vai no texto.
Sem alterações / exame físico normalNão distingue o que foi examinado do que não foi. Um exame neurológico não feito e um exame neurológico normal ficam iguais no papel.O que foi examinado e estava normal, nomeado: marcha, força, tireoide, linfonodos, abdome.Objetivo, no prontuário eletrônico; texto livre na ficha em papel.
Solicito examesNão diz quais nem por quê, então o resultado volta sem pergunta associada e vira achado solto.Cada exame com a pergunta que ele responde, e a previsão do que provavelmente virá.Plano. A classificação de atenção primária tem componente próprio para procedimento diagnóstico.
Retornar se necessárioTransfere para a pessoa a decisão que é sua, e é lida como dispensa. Produz retorno tarde ou retorno demais.Data marcada, critério de melhora funcional, três critérios concretos de piora e o nome de quem vai atender.Plano, mais agendamento efetivo — sem a vaga na agenda, o resto é intenção.
Fraqueza — provável anemia (sem exame que a sustente)Converte a queixa na doença suspeitada. A suspeita vira antecedente e volta como fato nas consultas seguintes.A queixa como queixa, e a hipótese como hipótese, separadas. É a regra da classificação de atenção primária.Motivo da consulta recebe a queixa; problema avaliado recebe o que se avaliou, com o grau de certeza que se tem.

Exemplos da Rename 2024: conferir atualização, indicação e dispensação local antes de prescrever

Fármaco perguntadoConsta da Rename 2024?Componente e apresentaçãoO que isso muda na conduta da unidade
AmitriptilinaSimBásico. Comprimido de 25 mg e de 75 mg.Pode ser opção em dor crônica selecionada, mas não é início obrigatório. Avaliar sedação, efeitos anticolinérgicos, risco cardiovascular, quedas e preferências.
DuloxetinaNão constaAusência na edição consultada não exclui padronização local ou outra via pública. Confirmar acesso sem presumir incapacidade de compra pela profissão ou meio de transporte.
PregabalinaNão constaConferir indicação, lista e fluxo locais; não prometer fornecimento nem concluir que toda prescrição é inexequível.
CiclobenzaprinaNão constaA disponibilidade local precisa ser confirmada. Avaliar risco de sedação e não usar por hábito para qualquer dor difusa.
GabapentinaSim, mas não no básicoEspecializado. Cápsula de 300 mg e de 400 mg.O componente especializado tem critérios de acesso e organização regional; o local de retirada depende do fluxo pactuado. Confirmar elegibilidade e dispensação.
DipironaSimBásico. Comprimido de 500 mg; solução oral e solução injetável de 500 mg/mL.Existe, e é justamente a que se prescreve por quatro meses no lugar de conduzir a queixa.
ParacetamolSimBásico. Comprimido de 500 mg; solução oral de 200 mg/mL.Existe. Mesma ressalva da linha anterior.
IbuprofenoSimBásico. Comprimido de 200, 300 e 600 mg; cápsula de 600 mg; suspensão oral de 50 mg/mL.Existe, e é o que alimenta o uso crônico de anti-inflamatório em dor difusa — problema que o primeiro capítulo desta apostila trata.
FluoxetinaSimBásico. Cápsula e comprimido de 20 mg.Existe, mas a indicação é do diagnóstico psiquiátrico, que é dos capítulos de Psiquiatria, e não desta fronteira.

Objetivo do internato: conduzir uma queixa sem etiologia definida sem fabricar certeza. Ao apresentar o caso, separar a palavra da paciente, o sintoma clínico caracterizado, as hipóteses priorizadas e o plano. “Cansaço” pode significar sonolência, dispneia ao esforço, fraqueza muscular ou falta de energia, e cada significado abre um caminho diferente. Pergunta aberta e esclarecimentos dirigidos são complementares.

Exames normais reduzem a probabilidade das condições que efetivamente avaliam, na data em que foram colhidos. Hemograma sem anemia e TSH normal não excluem toda causa de cansaço, não eliminam deficiência de ferro sem anemia e não reduzem automaticamente a probabilidade de doenças não investigadas. Comparar evolução e resultado completo; repetir ou ampliar quando houver uma nova pergunta clínica.

Identificar instabilidade desde a chegada: dispneia importante, dor torácica, síncope, confusão, déficit focal, hipoxemia, sangramento volumoso ou incapacidade de hidratar-se exigem avaliação imediata e suporte. Outros sinais, como perda ponderal significativa, febre persistente e mudança progressiva de sintomas, pedem investigação prioritária com prazo individualizado. O relato conta mesmo sem alteração medida no consultório; uma temperatura normal agora não exclui febre intermitente.

A observação é uma estratégia ativa para pessoa estável com avaliação suficiente, retorno possível e orientação de segurança. Persistência, por si só, não manda pedir painel amplo nem autoriza esperar indefinidamente. Rever história, exame, medicamentos e investigação já realizada; o prazo depende de evolução, risco, função e acesso. Doença pode permanecer estável, e melhora não prova ausência de doença.

Uma alteração leve exige leitura do valor, unidade, referência, tendência, contexto e relevância clínica; não pode ser descartada antes de chegar. Ferritina baixa pode indicar deficiência de ferro sem anemia e merece investigação da causa e tratamento conforme contexto. Um achado sem relação com o sintoma pode exigir cuidado próprio; documentar se será investigado, acompanhado ou dispensado de seguimento e por quê.

A tabela de probabilidades é um exercício de Bayes com desempenho fixo. Não mede a prevalência real de doença em cada serviço nem permite inferir risco após dois exames de naturezas diferentes. Também não representa a probabilidade de “qualquer doença”: refere-se a uma condição-alvo definida. Use-a para compreender o efeito da probabilidade pré-teste e, no paciente, explicite os dados clínicos que sustentam sua estimativa.

Fibromialgia é diagnóstico clínico que pode coexistir com outras doenças: não se exige a exclusão de toda doença, mas se procuram explicações alternativas e comorbidades conforme os achados. Esta apostila adota os critérios do Colégio Americano de Reumatologia de 2010, que a Sociedade Brasileira de Reumatologia recomenda desde 2017 e que o protocolo de encaminhamento reproduz — índice de dor difusa de 7 ou mais com escala de gravidade de 5 ou mais, ou índice de 3 a 6 com escala de 9 ou mais, com sintomas por pelo menos três meses —; a revisão de 2016, que pede dor generalizada em quatro de cinco regiões e aceita índice de 4 a 6, fica registrada. O diagnóstico e a conduta estão no capítulo Fibromialgia e dor musculoesquelética crônica, na apostila de Reumatologia.

Na suspeita de síndrome de fadiga crônica/encefalomielite miálgica, investigar mal-estar pós-esforço, sono não reparador e dificuldades cognitivas, além da fadiga e perda funcional. Uma piora desproporcional horas ou dias após esforço não deve ser tratada impondo aumentos fixos de exercício. Ajustar atividade ao limite individual e discutir avaliação com o preceptor. Fadiga persistente isolada não basta para fechar esse diagnóstico.

Rename informa seleção e financiamento nacional, não o estoque de cada UBS. Confirmar lista municipal/estadual, indicação coberta, local de dispensação e disponibilidade real. Ausência na edição impressa não prova ausência de qualquer acesso público; presença na lista também não garante entrega hoje. Se houver barreira, negociar alternativa clinicamente apropriada e acompanhar o acesso.

A investigação deve responder à persistência e às lacunas reais. Rever sinais vitais, dieta, perdas sanguíneas, sono, exposições, medicamentos e humor antes de acrescentar testes. O PCDT de dor crônica e protocolos por doença complementam a avaliação; uma fonte de 2013 pode ser histórica e não deve ser apresentada como única orientação nacional atual para todas as queixas.

CIAP-2 permite registrar sinais e sintomas como problema avaliado. A ausência de diagnóstico etiológico não impede documentação clínica adequada. O prontuário pode conter a hipótese com incerteza explícita e o código de sintoma correspondente, sem inventar uma doença para obter autorização. Se o fluxo recusar, discutir com a regulação e manter o paciente acompanhado.

Na reavaliação, comparar função, peso quando pertinente, trajetória dos sintomas e resultados; atualizar hipóteses em vez de repetir automaticamente o plano. Confirmar que o paciente recebeu orientação e teve acesso ao que foi solicitado. Definir quem verifica exames pendentes, quem entra em contato e o que acontece se o retorno não ocorrer. Encaminhamento transfere uma pergunta, não toda a responsabilidade da APS.

08

A conduta, hora a hora

A consulta de Vicencia organiza escuta, avaliação, investigação e seguimento. Os minutos da narrativa são apenas estimativas didáticas: o interno precisa de tempo para discutir com a preceptora e garantir decisões seguras. Achados novos, barreiras de comunicação ou risco podem exigir interromper o roteiro e ampliar o atendimento.

Uma observação sobre a forma. Aqui não há prescrição de fármaco na maior parte dos marcos, e isso é o assunto e não uma lacuna: a conduta é o que se pergunta, o que se mede, o que se combina e o que se registra. Nos marcos em que há algo a prescrever, ele aparece — e o que a farmácia da unidade tem de fato está na tabela do bloco anterior.

No internato, apresente-se como estudante e peça concordância para participar. Conduza história e exame, formule hipóteses e apresente ao preceptor um plano com prioridades, justificativas e prazo. Mudanças de prescrição e decisões diagnósticas são pactuadas com o médico responsável; sinais de gravidade exigem chamá-lo imediatamente. Registre com identificação própria o que foi observado, discutido e combinado, sem inserir dados pessoais em material de estudo.

Na fibromialgia, o plano inicial inclui explicação do diagnóstico, meta funcional negociada, cuidado do sono, atividade física adaptada e tratamento de comorbidades. Se considerar amitriptilina, discutir dose inicial baixa e apresentação com o preceptor, conferindo efeitos anticolinérgicos, sedação, risco de quedas, glaucoma de ângulo fechado, retenção urinária, arritmias e interações; a inclusão na lista não determina indicação. Reavaliar benefício e tolerância em prazo definido e evitar AINE crônico ou opioide como resposta automática à dor nociplástica. Encaminhar quando houver dúvida, sinais atípicos ou limitação persistente apesar de plano adequado, sem esperar seis meses diante de gravidade.

  1. Minuto 0 a 2 — a queixa, nas palavras dela

    Ela senta e põe os dois papéis na mesa antes de você perguntar qualquer coisa. O primeiro movimento é não pegar os papéis. Deixe-os onde estão e pergunte o que a trouxe, e depois espere o silêncio terminar sem preenchê-lo. Quando ela diz 'cansaço', não converta para astenia nem para fadiga: escreva cansaço. Se ela disser 'moleza', escreva moleza. O termo técnico apaga a informação de como a pessoa vive o sintoma, e essa informação vai fazer falta em três semanas.

    Prescrição
    • Pergunta aberta única, e silêncio depois dela.
    • Transcrever a palavra da pessoa, entre aspas, no motivo da consulta.
    • Não tocar nos exames trazidos antes de ter a queixa inteira.
  2. Minuto 2 a 4 — o que o cansaço impediu, e desde quando

    Aqui a pergunta muda de eixo: não é sobre o sintoma, é sobre o que ele tirou. 'O que a senhora parou de fazer desde que isso começou?' A Vicencia responde que varria a casa toda antes de sair e agora deixa a metade. Isso é ouro: é objetivo, é comparável, é dela, e é o que vai medir melhora daqui a três semanas — coisa que hemograma nenhum mede. Em seguida, a âncora temporal: em que mês isso começou, e o que estava acontecendo na vida dela então. Se a resposta for uma data e um acontecimento, a consulta já mudou de rumo.

    Prescrição
    • Anotar a função perdida na forma concreta em que ela foi dita.
    • Perguntar o mês de início e o que mudou naquele mês.
    • Não sugerir alternativas na pergunta — quem oferece opções recebe a opção, não a resposta.
  3. Desde a chegada — avaliar gravidade

    Identificar instabilidade desde a chegada: dispneia importante, dor torácica, síncope, confusão, déficit focal, hipoxemia, sangramento volumoso ou incapacidade de hidratar-se exigem avaliação imediata e suporte. Outros sinais, como perda ponderal significativa, febre persistente e mudança progressiva de sintomas, pedem investigação prioritária com prazo individualizado. O relato conta mesmo sem alteração medida no consultório; uma temperatura normal agora não exclui febre intermitente. Em seguida, comparar peso, função e sintomas com registros anteriores. A lista é apoio e se adapta à queixa, sem pretensão de excluir todas as urgências.

    Prescrição
    • Pesar, e registrar o peso com data mesmo quando normal.
    • Aferir temperatura na unidade.
    • Perguntar sangramento por sítio, um a um, porque a pessoa não associa sangramento a cansaço.
  4. Minuto 6 a 8 — o exame físico que se faz justamente porque a queixa é vaga

    Na fadiga persistente, examinar sinais vitais e estado geral e escolher um exame abrangente guiado pela história: cardiopulmonar, mucosas, tireoide, linfonodos, abdome, edema, força e marcha quando apropriados. Explicar, obter concordância e preservar privacidade. Não confundir abrangência com exame íntimo sem indicação, nem comprimir tudo em dois minutos por obrigação.

    Prescrição
    • Exame clínico proporcional à queixa, ao risco e às hipóteses, com sinais vitais e registro dos sistemas efetivamente examinados.
    • Examinar a marcha, sempre.
    • Nomear no registro o que foi examinado e estava normal — não escrever apenas 'sem alterações'.
  5. Minuto 8 a 10 — o que já foi feito, e a lista do que ela toma

    Exames normais reduzem a probabilidade das condições que efetivamente avaliam, na data em que foram colhidos. Hemograma sem anemia e TSH normal não excluem toda causa de cansaço, não eliminam deficiência de ferro sem anemia e não reduzem automaticamente a probabilidade de doenças não investigadas. Comparar evolução e resultado completo; repetir ou ampliar quando houver uma nova pergunta clínica. Conferir uso real, doses e mudanças de medicamentos; efeitos adversos também podem aparecer após uso antigo por interação, desidratação ou mudança da função renal.

    Prescrição
    • Transcrever exames anteriores com data e resultado no registro desta consulta.
    • Listar medicamentos com data de início, incluindo o que ela compra por conta.
    • Procurar coincidência temporal entre início de fármaco e início da queixa.
  6. Minuto 10 a 11 — a decisão, e a previsão dita em voz alta

    Fadiga por cinco meses com perda funcional exige uma formulação além de “dois exames normais”. Caracterizar se há dispneia ao esforço, fraqueza objetiva, sonolência ou intolerância pós-esforço; revisar dieta, perdas sanguíneas, sono, medicamentos e saúde mental. Glicemia e função renal são pertinentes no caso, e outros exames dependem das lacunas identificadas. Não calcular risco de 1% a partir de hemograma e TSH normais; a tabela é hipotética.

    Prescrição
    • Núcleo mínimo com a pergunta de cada item enunciada antes de assinar.
    • Explicar que resultados podem vir normais ou alterados e serão avaliados pelo significado clínico, sem prometer ignorar alterações pequenas.
    • Não pedir imagem de abdome com exame abdominal normal e sem bandeira vermelha.
  7. Minuto 11 a 13 — combinar o tempo, com os quatro elementos

    A observação é uma estratégia ativa para pessoa estável com avaliação suficiente, retorno possível e orientação de segurança. Persistência, por si só, não manda pedir painel amplo nem autoriza esperar indefinidamente. Rever história, exame, medicamentos e investigação já realizada; o prazo depende de evolução, risco, função e acesso. Doença pode permanecer estável, e melhora não prova ausência de doença. Para Vicencia estável, pactuar reavaliação em duas a três semanas, com responsável pela leitura dos exames antes disso se necessário. Perguntar pela função escolhida por ela. Procurar avaliação antes se surgirem perda de peso, febre persistente ou piora de esforço; dispneia em repouso, dor torácica, desmaio, confusão ou sangramento importante pedem urgência, sem aguardar três dias. Confirmar canal e possibilidade de retorno.

    Prescrição
    • Agendar a data efetivamente, na agenda, antes de ela sair da sala.
    • Dizer o critério de melhora usando a função que ela própria nomeou.
    • Dar três critérios de piora concretos, ligados à queixa dela, e não a frase 'se piorar, volte'.
    • Dizer o nome de quem vai atender no retorno.
  8. Depois que ela sai — o registro, que é o que vai decidir a consulta seguinte

    O registro leva dois minutos e vale mais do que qualquer exame desta consulta. Quatro linhas: a queixa entre aspas com a data de início; a função perdida; o que foi investigado, com exame e data; e o que se combinou, com a data do retorno e os critérios. Não escreva queixas inespecíficas — foi o que a consulta de março escreveu e o que fez a de maio repetir o hemograma. Se a equipe usa o prontuário eletrônico, a queixa vai no motivo da consulta, com o código de fraqueza e cansaço geral do capítulo geral e inespecífico; se usa a ficha em papel, não há campo próprio para o motivo e a queixa precisa ir no texto livre, o que torna o texto ainda mais importante.

    Prescrição
    • Quatro linhas: queixa entre aspas, função perdida, o que foi investigado com data, o que se combinou.
    • Codificar a queixa como queixa no motivo da consulta, e a hipótese como hipótese no campo de avaliação.
    • Nunca registrar 'queixas inespecíficas' como avaliação.
09

Como saber se está funcionando

Reavaliar é o exame diagnóstico deste capítulo, e como todo exame ele tem parâmetros, valores esperados e conduta para quando o resultado não é o esperado. O que segue é o que se olha no retorno de três semanas, na ordem em que se olha.

Comparar com registros anteriores melhora a continuidade. Se faltam peso ou função, reconstruir a trajetória pelo relato e começar a registrar agora, sem atribuir uma perda numérica de poder diagnóstico que não foi medida.

A função que ela nomeou na primeira consultaConforme risco e evolução; no exemplo estável, duas a três semanas, com contato antecipado se houver piora ou resultado relevante.

Esperado: Retorno parcial ou total da função — voltou a varrer a casa toda, ou varre mais do que varria. É o desfecho que importa, e ele é mais informativo do que qualquer exame pedido na primeira consulta.

Se não melhora: Vicencia já tem cinco meses de sintomas: não se torna persistente só no próximo retorno. Se continuar com limitação, revisar diferencial, adequação da investigação e plano terapêutico, discutindo com o preceptor necessidade de ampliar avaliação ou encaminhar.

Peso medido, contra o peso anotado na consulta anteriorToda reavaliação, sem exceção, mesmo que a pessoa diga que não emagreceu.

Esperado: Comparar tendência com condições de pesagem, hidratação, edema e percentual de mudança; não atribuir automaticamente um a dois quilos à roupa.

Se não melhora: Perda não intencional relevante ou progressiva exige investigação. No caso de 75 para 68 kg, a perda de 9,3% em sete meses é significativa. Flutuações pequenas devem ser contextualizadas, sem ignorar relato consistente por falta de medida anterior.

O caráter da queixa: é a mesma queixa ou é outra?No retorno, e em qualquer contato intercorrente.

Esperado: A mesma queixa, com a mesma descrição e a mesma distribuição.

Se não melhora: Mudança sutil de caráter é o achado que a equipe acostumada com a pessoa mais perde, e o Caderno 28 alerta para isso com essas palavras. Cansaço que virou cansaço com falta de ar, ou dor que era migratória e fixou num lugar, é queixa nova — recomece a avaliação, não continue a anterior.

O que os exames do núcleo mínimo devolveram, e a previsão que você fezNo retorno, com os resultados em mãos.

Esperado: Interpretar todos os resultados com valores, tendência e contexto, sem pressupor normalidade ou irrelevância.

Se não melhora: Uma alteração leve exige leitura do valor, unidade, referência, tendência, contexto e relevância clínica; não pode ser descartada antes de chegar. Ferritina baixa pode indicar deficiência de ferro sem anemia e merece investigação da causa e tratamento conforme contexto. Um achado sem relação com o sintoma pode exigir cuidado próprio; documentar se será investigado, acompanhado ou dispensado de seguimento e por quê.

O número de vindas pela mesma queixa, contado no prontuárioA cada consulta, olhando para trás no registro.

Esperado: Uma vinda inicial e um retorno combinado. Retorno agendado por você não conta como repetição — conta como conduta cumprida.

Se não melhora: Três ou mais vindas espontâneas pela mesma queixa dizem uma de quatro coisas: diagnóstico errado, tratamento não executado, o que incomoda ainda não foi dito, ou o serviço está produzindo o retorno por sua própria organização de horários. As quatro se distinguem perguntando, e a pergunta que o Caderno 28 sugere é solidária e não acusatória — percebemos que você tem vindo com frequência, há outra coisa que queira nos contar?

O que ela entendeu do plano, dito de volta por elaAo fim de toda consulta em que se combinou tempo.

Esperado: Ela repete, com as próprias palavras, a data do retorno e pelo menos dois dos três critérios de piora.

Se não melhora: Se ela repete 'o senhor disse que não é nada', a conversa falhou e a consulta precisa de mais um minuto. Não é detalhe de comunicação: é o mecanismo pelo qual espera vira abandono, e é a causa mais comum de a pessoa voltar ao pronto-socorro na semana seguinte com a mesma queixa.

O que ficou escrito, lido pelos olhos de quem vai atender depoisAo fechar o registro, antes de chamar o próximo.

Esperado: Um profissional que nunca a viu consegue, lendo quatro linhas, saber a queixa, a função perdida, o que foi investigado com data e o que foi combinado.

Se não melhora: Se o que está escrito é 'queixas inespecíficas', ou 'sem alterações', ou 'solicito exames', a próxima consulta vai recomeçar do zero e repetir o que já veio normal. Reescreva antes de chamar o próximo: custa menos do que a consulta que se vai perder.

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Onde o erro machuca

Pedir o painel largo para excluir tudo de uma vez

O dano: Numa população em que a doença procurada é rara, o painel largo não exclui: fabrica. Cada exame acrescenta uma chance de resultado fora da faixa em quem não tem doença nenhuma, e basta um para que a consulta seguinte deixe de ser sobre a pessoa e passe a ser sobre o número. É a porta de entrada da cascata, e ela se abre com uma assinatura feita de boa-fé.

Como pegar a tempo: Justificar cada exame pela hipótese e consequência clínica. Pedir juntos os exames indicados quando isso facilita diagnóstico e acesso; não existe quota de três nem benefício em fracionar o mesmo painel sem razão clínica.

Ler exame anterior normal como etapa vencida em vez de informação

O dano: É o erro que fez a consulta de maio da Vicencia repetir o hemograma de março. Quem trata o normal como 'não achamos nada' recomeça a busca; quem o trata como probabilidade removida avança. O custo não é só o exame repetido: é a mensagem que a pessoa recebe de que ninguém está acompanhando nada.

Como pegar a tempo: Exames normais reduzem a probabilidade das condições que efetivamente avaliam, na data em que foram colhidos. Hemograma sem anemia e TSH normal não excluem toda causa de cansaço, não eliminam deficiência de ferro sem anemia e não reduzem automaticamente a probabilidade de doenças não investigadas. Comparar evolução e resultado completo; repetir ou ampliar quando houver uma nova pergunta clínica.

Dizer que não tem nada

O dano: É factualmente insustentável — a consulta não demonstrou ausência de doença, demonstrou ausência de achado — e é lido como acusação. A pessoa entende que você não acreditou nela, e a consequência prática mais comum é que ela procure outro serviço na semana seguinte, onde a investigação recomeça do zero. O dano é duplo: quebra o vínculo e multiplica exame.

Como pegar a tempo: Explicar o que foi examinado, o que ficou menos provável e o que segue em investigação, sem prometer certeza de exclusão. Vincular essa explicação ao próximo passo e aos sinais de retorno antecipado.

Oferecer tempo sem os quatro elementos

O dano: 'Vamos observar' e 'se piorar, volte' têm, do lado de dentro da consulta, a mesma aparência de 'não tenho nada a te oferecer'. O instrumento mais poderoso do capítulo vira abandono por falta de forma. Além disso, sem critério de piora concreto a pessoa volta tarde demais ou volta toda semana, e as duas coisas são falha nossa e não dela.

Como pegar a tempo: Data marcada na agenda, critério de melhora funcional dito por ela, três critérios de piora concretos e o nome de quem vai atender. Peça que ela repita a data e dois critérios antes de sair.

Escrever 'queixas inespecíficas' no campo de avaliação

O dano: É o pior registro possível por três motivos somados: não diz o que a pessoa sentiu, então o próximo recomeça a anamnese; não diz o que foi investigado, então o próximo repete o exame; e é um adjetivo sobre a pessoa em vez de uma descrição do quadro. Além disso, desaparece da informação em saúde — não gera dado, não aparece em relatório e não sustenta planejamento nenhum.

Como pegar a tempo: Queixa entre aspas no motivo da consulta, com o código correspondente do capítulo geral e inespecífico da classificação de atenção primária; hipótese, se houver, no campo de avaliação, com o grau de certeza que ela tem. Na ficha em papel, onde o campo de motivo não existe, isso vai no texto livre e por isso o texto precisa ser melhor, não pior.

Tratar a pessoa que volta muito como problema de comportamento

O dano: O rótulo de hiperutilizadora encurta a consulta exatamente onde ela precisaria ser mais longa, e é o mecanismo pelo qual a mudança sutil de caráter da queixa passa despercebida — a equipe já sabe o que ela vem dizer e para de escutar. É também nesse ponto que se perde o diagnóstico que estava se declarando devagar. O Caderno 28 registra que comentários e preconceitos contra quem procura muito o serviço são frequentes.

Como pegar a tempo: Tratar a repetição como informação diagnóstica e não como ruído. Ao terceiro retorno, refazer a varredura inteira, reler o que foi escrito nas vindas anteriores e perguntar de forma solidária se há outra coisa que ela queira contar. E levar o caso à reunião de equipe, que é o lugar onde o rótulo se desfaz.

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O que dizer ao paciente e à família

Nenhuma consulta deste capítulo se resolve pelo raciocínio. Ela se resolve pelo que a pessoa leva para casa, e o que ela leva é o que foi dito. As falas abaixo são as sete situações em que a frase errada desfaz tudo o que a consulta construiu.

Um princípio antes delas: nunca prometa exame para encerrar a conversa, e nunca tranquilize para encurtá-la. Tranquilizar por conveniência é a versão educada de dispensar, e produz exatamente o mesmo retorno que a dispensa grosseira — só que mais tarde.

Uma fronteira, para que ninguém procure aqui o que está em outro lugar: as habilidades de comunicação em si — como dar má notícia, como conduzir conversa difícil, como comunicar risco — são dos capítulos de Comunicação, e o método clínico centrado na pessoa que organiza a entrevista inteira é do segundo capítulo desta apostila, 'A queixa é o passaporte'. O que está abaixo é só o repertório específico da consulta em que não há diagnóstico a oferecer, que é a situação em que as frases de sempre falham.

Quando ela pergunta se tem alguma coisa grave

O exame de hoje não mostrou sinais de urgência. Os exames anteriores ajudam, mas não explicam todo o cansaço. Vamos investigar o que a história indica e combinar como acompanhar seu esforço e suas atividades. Se surgir falta de ar importante, dor no peito, desmaio ou confusão, procure urgência antes do retorno.

Não diga: Não é nada. Está tudo normal. A senhora está bem. Frases que afirmam ausência de doença quando a consulta só demonstrou ausência de achado — e que a pessoa ouve como 'ele não acreditou em mim'.

Quando ela pede o exame que você decidiu não pedir

Eu entendo o pedido e vou te explicar por que a minha conduta é outra. Esse exame, feito agora, tem chance grande de mostrar alguma coisinha que a senhora tem há anos e que não tem nada a ver com o cansaço — e aí a gente ia gastar a próxima consulta atrás dessa coisinha em vez de atrás do que a senhora sente. Se em três semanas não tiver melhorado, ele volta para a mesa.

Não diga: Não precisa. Não tem indicação. O SUS não cobre. Todas as três encerram a conversa sem responder ao que foi pedido, e a pessoa sai entendendo que lhe negaram alguma coisa.

Quando você vai propor esperar, e sabe que isso soa a não fazer nada

Vamos acompanhar sua evolução com uma data e um plano. Algumas causas melhoram e outras ficam mais claras com o acompanhamento, mas não quero que a senhora espere se piorar. Também vamos rever os resultados e decidir se precisamos investigar mais. O retorno será com nossa equipe, no dia combinado.

Não diga: Vamos observar. Vamos esperar para ver. Se piorar, a senhora volta. As três descrevem a mesma conduta e todas soam como ausência, porque nenhuma tem data, critério nem nome.

Quando ela diz que já veio três vezes e ninguém resolveu

Eu li os resultados anteriores: naquele momento o hemograma não mostrou anemia e o TSH não sugeriu alteração da tireoide. Isso ajuda, mas não descarta todas as causas. Como o cansaço continua atrapalhando sua vida, vamos revisar o que falta avaliar e registrar um plano para que o próximo encontro continue de onde paramos.

Não diga: Infelizmente nem sempre a gente acha. É comum não achar nada. Frases que descrevem o serviço como impotente e transferem a frustração para a natureza das coisas, em vez de nomear o que já foi feito.

Quando o exame volta com uma alteração pequena que não explica nada

Este resultado veio fora da referência. Vou conferir se explica o cansaço, se precisa ser confirmado e se merece acompanhamento por outro motivo. Nem toda alteração exige uma sequência de exames, mas não podemos decidir só pelo tamanho da diferença. Vou registrar o motivo do que combinarmos.

Não diga: Deu uma alterazinha, vamos repetir daqui a um mês para ver. É a frase que abre a cascata, e ela abre porque parece prudente.

Quando você suspeita que a queixa é a porta e não o assunto

A senhora falou que isso começou por volta de março. Me conta o que mais estava acontecendo na sua vida naquela época.

Não diga: A senhora anda nervosa? Isso pode ser emocional. Não é nada físico. As três já entregam a conclusão dentro da pergunta, e a pessoa ou concorda por educação ou se fecha por ter sido desacreditada.

Quando aparece uma bandeira vermelha no meio de uma consulta que ia ser de rotina

A senhora perdeu cinco quilos desde março e não estava tentando emagrecer. Isso muda o meu plano: em vez de esperar três semanas, eu quero investigar essa semana. Não é para a senhora se assustar — é porque perder peso sem querer é o tipo de coisa que a gente não deixa esperar. Vou te explicar exatamente o que vamos fazer e em que ordem.

Não diga: Mudar de conduta em silêncio, pedindo mais exames sem explicar por quê. A pessoa percebe a mudança de tom e preenche o silêncio com a pior hipótese que conhece.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Núcleo mínimo dirigido ou painel único e largo na primeira consulta, quando a pessoa tem dificuldade de voltar

Investigação dirigida e continuidade viável

Pedir pouco e pedir dirigido é o que a aritmética da baixa prevalência recomenda: cada exame a mais numa população de baixo risco aumenta a chance de achado incidental sem aumentar proporcionalmente a chance de diagnóstico. A conduta de tempo, com retorno marcado, é o que substitui o volume de exame — e a atenção básica é justamente o lugar que pode oferecer isso, porque tem vínculo e continuidade.

Decorre da tabela de conversão deste capítulo e da doutrina do capítulo 'Prevenção quaternária e multimorbidade', primeiro desta apostila.

Onde a pessoa não consegue voltar, pedir de uma vez é o que é factível

A conduta de tempo pressupõe que a pessoa possa voltar, e essa premissa não se sustenta em toda parte. Quem mora longe, trabalha por diária e perde o dia de trabalho para vir à unidade pode não ter uma segunda consulta. Nessa realidade, o painel um pouco mais largo na única consulta disponível não é excesso: é a adaptação de uma conduta ideal a um acesso que não existe. A alternativa real não é 'núcleo mínimo com retorno', é 'núcleo mínimo sem retorno'.

É a leitura que decorre do próprio Caderno de Atenção Básica 28, volume II, quando ele registra que a organização do serviço — horários e dias distintos para consulta, exame, curativo e farmácia — obriga as pessoas a voltarem várias vezes; e da discussão de acesso e barreiras do mesmo documento.

Como decidir

A dificuldade de retorno pede organizar acesso e, quando apropriado, concentrar exames clinicamente indicados na mesma visita. Não transforma um painel indiscriminado em boa prática. Confirmar responsável por revisar todos os resultados, meio seguro de contato e conduta se a pessoa não for localizada. Diante de risco que exige monitoramento indisponível na UBS, usar outro ponto de atenção hoje.

O que se codifica quando não há diagnóstico: a queixa como queixa, ou uma hipótese diagnóstica

A queixa é o registro, e é para isso que a classificação de atenção primária existe

A Classificação Internacional de Atenção Primária foi construída para classificar questões relacionadas às pessoas e não a doenças, e para permitir registrar o motivo da procura mesmo quando ele não é uma doença demonstrada por exame. O exemplo é do próprio documento oficial: pessoa sabidamente diabética que chega com fraqueza tem como motivo de consulta a fraqueza, e não o diabetes. Codificar hipótese no lugar da queixa converte suspeita em fato, e a suspeita volta como antecedente nas consultas seguintes.

Uso da CIAP2 no PEC e-SUS AB, SES-RS, e manual do e-SUS Atenção Primária do Ministério da Saúde, capítulo da ficha de atendimento individual.

Limitações do formulário exigem solução sem inventar diagnóstico

Encaminhamento, autorização de exame de maior complexidade, atestado e boa parte dos fluxos de regulação pedem código de doença, não código de queixa. Além disso, na coleta de dados simplificada em papel — que muitas equipes ainda usam — não existe campo de motivo da consulta: o único campo codificado registra problema ou condição avaliada. Quem registra só a queixa, nesse cenário, pode não conseguir mover o cuidado adiante.

Manual do e-SUS Atenção Primária, capítulo 3 da coleta de dados simplificada, que descreve os campos como sendo de problemas e condições avaliados e manejados, em dois campos de cada classificação, sem campo de motivo.

Como decidir

Codificar o grau de certeza existente. CIAP-2 e CID incluem códigos de sinais e sintomas, que podem representar o problema avaliado enquanto a etiologia não é definida. Falta de campo específico para motivo não impede registrar sintoma como avaliação. Não selecionar doença inexistente para destravar o sistema; complementar o texto e discutir a barreira com a regulação.

Quando nomear a síndrome dolorosa crônica difusa para quem convive com dor difusa há meses

Critério de 2010, com a cláusula de outra condição — Protocolos de encaminhamento MS/UFRGS, v. 3, 2016

Reproduz o critério do Colégio Americano de Reumatologia de 2010 — índice de dor difusa de 7 ou mais com escala de gravidade de 5 ou mais, ou índice de 3 a 6 com escala de 9 ou mais, sintomas estáveis por pelo menos três meses e ausência de outra condição que os explique — e encaminha ao serviço de dor só depois de seis meses de tratamento clínico otimizado.

Protocolos de encaminhamento da atenção básica para a atenção especializada, volume 3, de 2016, que reproduz o critério de classificação e define tratamento clínico otimizado por seis meses antes do encaminhamento.

Não é diagnóstico de exclusão — Sociedade Brasileira de Reumatologia, 2017

Recomenda os critérios do Colégio Americano de Reumatologia de 2010 e afirma que a fibromialgia não deve ser diagnóstico de exclusão, embora os diferenciais devam ser considerados; registra que a revisão de 2016 dos critérios propõe diagnóstico válido independentemente de outros diagnósticos.

Sociedade Brasileira de Reumatologia. Novas diretrizes para o diagnóstico da fibromialgia (Heymann RE et al.). Rev Bras Reumatol. 2017;57(S2):S467-S476.

Como decidir

Não é conflito de verdade: é cronologia. Primeiro se procura e se trata a condição que poderia explicar os sintomas — a cláusula do critério de 2010 —; controlada ou afastada, a fibromialgia se nomeia, sem esperar a exclusão de toda doença e mesmo em quem tem outra doença reumática, como pede a Sociedade Brasileira de Reumatologia. Esta apostila adota os critérios de 2010 e remete o diagnóstico e o tratamento ao capítulo Fibromialgia e dor musculoesquelética crônica, na apostila de Reumatologia. Registrar e explicar o diagnóstico quando sustentado, independentemente de ter um fármaco específico na farmácia; o plano começa com educação, metas, sono, atividade tolerada e seguimento.

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O raciocínio, em voz alta

Volte à quinta-feira, oito e dez, com Vicencia Tiradentes, 58 anos, diarista, terceira vinda por cansaço em cinco meses, dois papéis dobrados sobre a mesa e dois registros anteriores dizendo queixas inespecíficas. Você tem treze minutos e a preceptora está com a porta fechada no consultório 1. O que segue é o raciocínio inteiro, na ordem em que ele acontece.

  1. o que eu decido antes de perguntar qualquer coisa

    Decido não pegar os papéis. Se eu começar pelos exames, a consulta vira sobre os exames, e é exatamente isso que já aconteceu duas vezes. Os papéis ficam onde estão até eu ter a queixa inteira nas palavras dela.

  2. a queixa, como ela a diz

    Cansaço. Não converto para astenia. Pergunto o que ela deixou de fazer, e a resposta é a informação mais útil da consulta: varria a casa toda antes de sair para trabalhar, agora deixa a metade. Anoto essa frase. É o meu parâmetro de melhora, e ele é dela.

  3. a âncora temporal

    Pergunto quando começou e o que mudou. A saída do filho pode ser relevante, mas não fecha diagnóstico. Avalio humor, prazer, sono, funcionamento e risco conforme respostas; o manejo de saúde mental também pertence à APS, com supervisão. Mantenho a investigação de causas clínicas de fadiga em paralelo.

  4. a varredura que decide se eu tenho tempo

    Peso atual de 61,4 kg, sem medida anterior disponível: registrar e investigar perda referida, roupas, apetite e trajetória. Verificar sinais vitais, sintomas cardiopulmonares, sangramento, sintomas neurológicos e outros alertas. Ausência de achados urgentes favorece continuidade ambulatorial se houver avaliação suficiente e retorno possível; não equivale a exclusão de doença.

  5. o exame físico, que faço inteiro justamente porque a queixa é vaga

    Examino os sistemas pertinentes à fadiga e à história, incluindo sinais vitais, mucosas, cardiopulmonar, abdome, linfonodos, força e marcha conforme necessidade. Registro o que fiz e o que não foi avaliado, sem afirmar exame completo em três minutos nem preencher normalidades presumidas.

  6. o que os exames antigos já resolveram

    Agora pego os papéis. Hemograma de março sem anemia; TSH de maio normal. Transcrevo os dois no registro de hoje, com data e valor. Isso não é burocracia: foi a ausência exata desses dados no prontuário que fez maio repetir março. E digo isso a ela em voz alta, porque muda o que ela entende do que já foi feito.

  7. a lista do que ela toma

    Losartana desde 2021, e um anti-inflamatório que ela compra quando dói a coluna, sem data fixa. Nenhum fármaco novo perto de fevereiro. A checagem cronológica é negativa e leva um minuto — a revisão profunda de prescrição, se fosse o caso, seria assunto do primeiro capítulo desta apostila e não desta consulta.

  8. a conta que decide o que eu peço

    Não atribuo uma probabilidade de 1% a Vicencia: esse valor pertence ao exercício. A fadiga prolongada com limitação pede revisão do diferencial. No caso, glicemia e função renal são pertinentes pela história; reviso também necessidade de eletrólitos, ferro e outros testes conforme achados, sem painel indiscriminado. Não há indicação de ultrassonografia de abdome apenas para “ver tudo”; resultado inesperado será analisado e não previamente descartado.

  9. a previsão, dita antes de ela ir ao laboratório

    Explico o que cada exame procura, quem receberá os resultados e quais respostas mudariam a conduta. Alterações pequenas podem ter ou não significado: a equipe vai interpretá-las junto da história, sem prometer persegui-las todas nem ignorá-las todas.

  10. o tempo, combinado com os quatro elementos, e o que fica escrito

    A observação é uma estratégia ativa para pessoa estável com avaliação suficiente, retorno possível e orientação de segurança. Persistência, por si só, não manda pedir painel amplo nem autoriza esperar indefinidamente. Rever história, exame, medicamentos e investigação já realizada; o prazo depende de evolução, risco, função e acesso. Doença pode permanecer estável, e melhora não prova ausência de doença. Para esta paciente estável, combinamos retorno em duas a três semanas e revisão antecipada de resultados relevantes. Ela explica com suas palavras quando buscar a UBS e quando procurar urgência. O registro contém queixa, perda funcional, dados clínicos, exames com datas, hipóteses e responsável; o preceptor revisa o plano antes de ela sair.

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Faça você

Terça-feira, dez e quarenta, mesma unidade. Alipio Caxambu, 71 anos, aposentado, mora sozinho desde que a mulher morreu, vem à demanda espontânea dizendo que anda 'ruim'. Não sabe explicar melhor. Nega dor, nega febre, nega falta de ar. A filha, que ligou para a recepção na semana passada, disse à agente comunitária que ele 'não é o mesmo'. Na agenda ele tem consulta de rotina marcada para daqui a dois meses. Complete o raciocínio.

  1. a queixa sem substantivo

    Ele diz que anda ruim, que não é ele mesmo, e repete a frase com outras palavras quando você pergunta como. Não há sintoma específico, não há órgão definido, não há começo declarado. A pergunta que abre não é clínica na forma: é o que mudou na vida dele desde que isso começou. A resposta é que não mudou nada — a mulher morreu há três anos e ele já estava assim antes disso, só que menos.

  2. o que a idade faz com o limiar

    A idade e o fato de morar sozinho ampliam a atenção a declínio funcional, nutrição, medicamentos e acesso; não determinam uma fórmula de prazo. A perda de peso encontrada neste caso, e não a idade isolada, exige investigação prioritária.

  3. o que se mede antes de raciocinar

    Peso: 68 kg. No prontuário há um peso de sete meses atrás: 75 kg. Ele não estava tentando emagrecer e diz que nem tinha percebido, que a roupa ficou larga mas ele achou que era a roupa. Temperatura normal. Exame neurológico normal, marcha lenta mas segura. Sem sangramento referido.

  4. o que essa medida faz com o plano

    Complete: com esse dado sobre a mesa, o que deixa de valer, o que passa a valer, em que prazo, e o que precisa ser dito a ele antes de ele sair da sala.

Ver como fecharíamos

A perda de 75 para 68 kg representa 9,3% em sete meses, sem intenção, e exige avaliação e investigação prioritárias, iniciadas nesta consulta. Verificar estabilidade, apetite, ingestão, dentição/deglutição, acesso a alimentos, humor, cognição, medicamentos, sintomas digestivos e infecciosos. Fazer exame guiado pelos achados e selecionar laboratório e imagem conforme hipóteses; hemograma e avaliação metabólica/renal podem integrar o início. Não transformar toque retal ou sangue oculto em testes obrigatórios que excluiriam câncer: suspeita gastrointestinal requer via diagnóstica apropriada, e teste fecal negativo não encerra investigação. Avaliar neoplasia, infecção crônica e outras condições junto das causas sociais e nutricionais, sem presumir uma delas. Organizar retorno breve para resultados e responsável por conferir execução, considerando que mora sozinho; não esperar a consulta de dois meses. Se instável ou incapaz de alimentar-se/hidratar-se, atendimento de urgência. Registrar a queixa como relatada, perda medida, hipóteses e ações.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

O motivo da consulta reflete a perspectiva da pessoa sobre o que está acontecendo com ela, e deve ser codificado como ela se expressa, sem juízo de valor sobre veracidade ou exatidão — o documento oficial brasileiro que descreve o uso da classificação no prontuário eletrônico usa exatamente este exemplo. O que a equipe conclui vai em outro campo, o do problema avaliado, com o grau de certeza que se tem. Registrar a doença conhecida no lugar da queixa apaga a informação de que a pessoa procurou o serviço, e é o mecanismo pelo qual sintoma novo em portador de doença crônica passa a ser atribuído à doença antiga sem avaliação. Deixar o campo vazio até haver diagnóstico é justamente o problema que a classificação foi criada para resolver, já que ela permite registrar o motivo mesmo quando ele não é doença demonstrada por exame.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Diferencie cansaço, sonolência, dispneia e fraqueza muscular em exemplos curtos. Explique o que um hemograma e um TSH normais permitem concluir, quando ampliar a investigação e como orientar urgência. Construa um plano de retorno sem usar a tabela hipotética como risco individual.

Em 30 dias

Acompanhe sob supervisão uma pessoa com sintoma persistente. Compare trajetória, função, achados e exames com datas; atualize as hipóteses e o plano. Se houver dor difusa, verifique critérios clínicos e comorbidades; se houver mal-estar pós-esforço, adapte a orientação de atividade. Avalie acesso e responsável pelos resultados pendentes.

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Agora atenda

Agora atenda: mulher de 58 anos, diarista, terceira vinda à unidade básica em cinco meses por cansaço, trazendo hemograma e TSH normais de consultas anteriores, sem perda de peso, sem febre e com exame físico normal. Conduza a consulta inteira — a queixa nas palavras dela, a função perdida, a varredura de bandeira vermelha, a decisão sobre o que pedir, a previsão do que vai voltar, a combinação do tempo com os quatro elementos e o que ficará escrito no prontuário.

Sintomas indiferenciados e queixas comuns na atenção primária – Metade não vira nome — Internato | OsceLabs