Outras Especialidades › Medicina de Família e Comunidade
A queixa é o passaporte
Método clínico centrado na pessoa e abordagem familiar: genograma e ecomapa
Método clínico centrado na pessoa, agenda oculta e as ferramentas de abordagem familiar
Brasil. Ministério da Educação. Comissão Nacional de Residência Médica. Resolução CNRM nº 9, de 30 de dezembro de 2020 — aprova a matriz de competências dos Programas de Residência Médica em Medicina de Família e Comunidade no Brasil.
Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade. Currículo Baseado em Competências para Medicina de Família e Comunidade. Organizador: Nulvio Lermen Junior.
Brasil. Ministério da Saúde; Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde; Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Abordagem familiar no território da APS. E-book 14 do Programa Saúde com Agente. Brasília: Ministério da Saúde, 2023.
Wenceslau LD, Fonseca VKT, Dutra LA, Caldeira LG. Um roteiro de entrevista clínica centrada na pessoa para a graduação médica. Rev Bras Med Fam Comunidade. 2020;15(42):2154.
Mello DF, Viera CS, Simpionato E, Biasoli-Alves ZMM, Nascimento LC. Genograma e ecomapa: possibilidades de utilização na estratégia de saúde da família. Rev Bras Cresc Desenv Hum. 2005;15(1).
Brasil. Ministério da Saúde. e-SUS Atenção Primária à Saúde: manual de uso do Prontuário Eletrônico do Cidadão — capítulo de atendimentos.
Singh Ospina N, Phillips KA, Rodriguez-Gutierrez R, Castaneda-Guarderas A, Gionfriddo MR, Branda ME, Montori VM. Eliciting the Patient's Agenda — Secondary Analysis of Recorded Clinical Encounters. J Gen Intern Med. 2019;34(1):36-40.
Penteado P. Genograma e atenção primária à saúde. Rev Bras Med Fam Comunidade. 2025;20(47):4621.
Stewart M, Brown JB, Weston W, McWhinney IR, McWilliam CL, Freeman T. Medicina centrada na pessoa: transformando o método clínico. 3ª edição.
Stuart MR e colaboradores — estudo de 185 consultas de médicos de família com medida de preocupações levantadas por consulta e do efeito do treino em explorar demandas adicionais.
Smith RC. Smith's Patient-Centered Interviewing: An Evidence-Based Method. E: Cole SA, Bird J. The Medical Interview: The Three Function Approach.
McGoldrick M, Gerson R, Petry S. Genogramas: avaliação e intervenção familiar.
Brasil. Ministério da Saúde. Política Nacional de Atenção Básica — Anexo XXII da Portaria de Consolidação nº 2, de 28 de setembro de 2017.
Wenceslau e colaboradores. Roteiro de entrevista clínica centrada na pessoa, 2020
American College of Radiology. Appropriateness Criteria: Headache
Ministério da Saúde. Saúde do Adolescente e Jovens: orientações para atendimento
Responda antes de ler
Uma mulher de 39 anos conta, na consulta, que a mãe mudou para a casa dela após uma fratura de fêmur e que ela é a única dos quatro irmãos na cidade. Ela é sua paciente; a mãe não é. O que entra no prontuário dela sobre a mãe e sob que forma?
O paciente que você vai ver
Quinta-feira, 14h05, unidade básica de saúde de um bairro que tem duas linhas de ônibus e nenhuma delas passa em frente ao posto. A terceira da sua agenda da tarde é Cordelia Nader, 52 anos, diarista, e é a terceira vez que ela vem por dor de cabeça em quatro meses. O prontuário está impecável. Na primeira consulta: cefaleia holocraniana, em aperto, sem náusea, sem fotofobia, sem sinais de alarme, exame neurológico normal, pressão 128 por 84 — dipirona, orientação de retorno. Na segunda, sete semanas depois: a dor continua, agora quase diária, mesma caracterização, hemograma normal, glicemia normal, hormônio tireoestimulante normal — troca para paracetamol com cafeína, orientação de retorno. Hoje é a terceira.
Você caracteriza localização, tipo, intensidade, frequência e sintomas associados e encontra padrão que pode lembrar cefaleia tensional. O exame neurológico, inclusive fundo de olho e marcha, é normal. Mas ainda há um alerta: se a dor começou há quatro meses, ela surgiu depois dos 50 anos. O diagnóstico registrado deve ser revisto; ausência de déficit, febre ou início súbito não resolve sozinha essa questão.
No minuto doze ela diz, no meio de uma resposta sobre horário da dor, que não tem dormido. Você anota sono ruim na margem e volta para a pergunta seguinte, porque a pergunta seguinte estava na sua lista e o sono não estava. No minuto quinze ela diz que a dor piora à noite, e você registra piora vespertina. No minuto dezoito você explica o que é cefaleia tensional, orienta higiene do sono, prescreve, escreve retorno em oito semanas e vira a cadeira para o computador.
Com a receita na mão, já de pé, ela pergunta: 'Doutor, dor de cabeça pode ser da cabeça mesmo? Tipo, de preocupação?' Você responde que sim, que estresse pode dar dor de cabeça, que é importante tentar relaxar. Ela agradece e sai. A consulta durou vinte e um minutos, o quarto paciente já está na porta, e o registro de hoje vai dizer o mesmo que o de fevereiro e o de abril: cefaleia tensional, orientada, medicada, retorno.
O que o prontuário não diz, e o que você não sabe, é o seguinte. O marido de Cordelia, Gumercindo, morreu há três anos. A filha mais velha, Ifigenia, saiu de casa há oito meses e levou o neto. O filho mais novo, Dalmo, 26 anos, ficou dois anos sem beber e voltou a beber em janeiro — a primeira consulta por dor de cabeça foi em fevereiro. Ele chega em casa de madrugada e Cordelia não dorme até ouvir a porta. A dor começa por volta das nove da noite, que é a hora em que ela começa a esperar. Nada disso está escondido: nada disso foi perguntado.
Este capítulo ensina a integrar a queixa e o motivo da consulta. A preocupação com o filho é relevante para Cordelia e pode contribuir para insônia e dor, mas não estabelece causa única. O interno precisa reunir experiência de adoecimento, história clínica e sinais de alerta, construir um plano compartilhado e reconhecer quando a família ajuda ou aumenta a sobrecarga. Genograma e ecomapa tornam relações e apoios visíveis sem substituir o cuidado da pessoa sentada à frente.
Quem adoece disso
Aqui a epidemiologia mede processo, e não doença. A pergunta que ela responde é quantas vezes, num serviço qualquer, a consulta termina sem que o motivo da consulta tenha sido dito — e a resposta está medida.
Numa análise secundária de 112 consultas gravadas, o profissional pediu a agenda da pessoa em 40 delas, ou 36%; nas outras 72, não. Das 40 em que pediu, o paciente foi interrompido em 27, ou 67%, e o tempo mediano até a interrupção foi de 11 segundos, com intervalo interquartílico de 7 a 22 segundos e amplitude de 3 a 234 segundos. Das 112 consultas, 61 eram de atenção primária e 51 de especialidade focal. Não é um dado brasileiro e o capítulo não o apresenta como se fosse; é o dado que existe, e a ordem de grandeza que ele fixa é a que importa: onze segundos é menos do que o tempo de uma frase inteira.
Onze segundos de fala livre é pouco por um motivo aritmético. A pessoa não vem com uma queixa: vem com mais de uma. Num estudo com 185 consultas de médicos de família britânicos, citado pelo grupo brasileiro que traduziu o método clínico centrado na pessoa em roteiro de entrevista, a média foi de 2,1 preocupações levantadas por consulta — e o mesmo estudo mediu o efeito do treino: médicos treinados para perguntar por demandas adicionais o fizeram em 92,6% das vezes, e não treinados, em 7%. Não abri esse estudo no original e por isso não afirmo nada além do que a fonte brasileira reporta; o que interessa aqui é o tamanho do salto, de 7% para 92,6%, que é grande demais para ser talento e pequeno demais para ser milagre. É treino.
A média de 2,1 preocupações por consulta, cruzada com a estrutura da anamnese que se ensina, produz o resultado da cena de abertura. O modelo tradicional pede queixa principal, no singular, e história da doença atual, também no singular. Quem escreve queixa principal escolhe uma das 2,1 e descarta o resto, e o descarte acontece antes de a pessoa terminar de falar, porque a escolha é feita pelo entrevistador e não por ela. A crítica não é retórica: é o argumento dos autores do roteiro brasileiro, que atribuem a dificuldade dos estudantes justamente à ausência de um roteiro alternativo ao tradicional, para o qual eles recorrem como um modelo de segurança.
Do lado do que o Brasil exige, existe um documento e ele é preciso. O Currículo Baseado em Competências para Medicina de Família e Comunidade, da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, organiza a área 1.2.2, Abordagem Familiar, em 12 itens distribuídos por quatro colunas — pré-requisitos, essencial, desejável e avançado. Conferindo item por item pela posição na tabela, os 12 têm entrada na coluna essencial. Nenhum deles é opcional, nenhum é de residente avançado, nenhum foi deixado para quem tiver vocação. Realizar entrevista familiar é essencial; usar genograma, ecomapa, círculo familiar e escala de Coelho é essencial; só o P.R.A.C.T.I.C.E. aparece como desejável.
O mesmo currículo põe o método clínico centrado na pessoa em duas áreas diferentes e nas duas ele é degrau de entrada. Na área 1.2.1, conhecer e utilizar os componentes da abordagem centrada na pessoa aparece entre os itens da abordagem individual. Na área 2.1.1, conhecer o método é pré-requisito, e aplicar seus componentes com habilidades de comunicação é essencial. E a agenda oculta está nomeada, com essas palavras, na área 1.2.4, entre as características da especialidade que afetam a tomada de decisão, ao lado do acesso fácil, das doenças indiferenciadas e da incerteza sobre a importância do problema — coluna essencial.
Do lado do que o Brasil ensina, há um vazio que este capítulo mediu. O material federal mais recente sobre o assunto é o e-book 14 do Programa Saúde com Agente, Abordagem familiar no território da APS, publicado em 2023 pelo Ministério da Saúde com o Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul. A apresentação promete, com essas palavras, ensinar a construir genograma e montar ecomapa. No arquivo inteiro — 85 páginas de PDF, numeradas até 83 —, a palavra genograma aparece cinco vezes e a palavra ecomapa aparece cinco vezes. Duas de cada estão na bibliografia; as outras são a promessa da apresentação, uma menção numa fala de personagem e a retrospectiva final. Não há uma definição, um símbolo, um exemplo desenhado nem um passo a passo: no ponto em que o assunto começaria, o texto oferece um endereço externo e um código de barras bidimensional.
O mesmo documento não contém as palavras APGAR familiar, F.I.R.O., círculo familiar nem escala de Coelho — e as duas últimas são, no currículo da sociedade de especialidade, competência essencial nominal. O material é dirigido ao agente comunitário de saúde e ao agente de combate às endemias, e é honesto quanto a isso desde a capa; o problema não é o público, é que não existe equivalente para o médico. O interno que procurar a régua federal do genograma vai encontrar um convite para clicar.
Estudos de entrevista e documentos de formação têm propósitos distintos e não demonstram que o tema seja ausente de todo ensino brasileiro. Para o interno, a lacuna a resolver é prática: transformar escuta em decisões, examinar riscos, fazer um mapa que responda a uma pergunta e verificar se o plano aconteceu. Uma consulta observada, com consentimento e devolutiva do preceptor, permite avaliar isso melhor que decorar símbolos, datas normativas ou contagens de palavras de um manual.
Por que acontece o que acontece
O erro deste capítulo tem mecanismo, e o mecanismo é estrutural: a anamnese que se ensina no Brasil executa um filtro antes de existir a informação que decidiria o filtro. A sequência é identificação, queixa principal, história da doença atual, história patológica pregressa, história familiar, história fisiológica, história psicossocial e revisão de sistemas. Repare no segundo item. Ele está no singular, e é preenchido no primeiro minuto — antes da fala livre, antes de a pessoa saber que pode falar mais de uma coisa, antes de qualquer sinal de qual das coisas é a que ela veio resolver. Escolher a queixa principal no minuto um é decidir a consulta com a informação de menor qualidade que ela terá.
O filtro não é arbitrário: ele obedece a uma regra, e a regra é a plausibilidade orgânica. Entre as duas ou três coisas que a pessoa traz, o campo queixa principal recebe a que se parece com um sintoma de livro. Dor de cabeça entra; não durmo desde janeiro fica de fora, ou entra rebaixada a sono ruim, que é um dado e não um motivo. Foi exatamente isso que aconteceu no minuto doze da cena de abertura. Nada ali foi omitido pela paciente e nada foi mal ouvido pelo interno: a informação foi ouvida, classificada como acessória e arquivada onde a estrutura mandava arquivar.
A segunda engrenagem é a distinção entre doença e adoecimento, e ela é o núcleo teórico do método clínico centrado na pessoa. Doença é a condição clínica cuja hipótese precisa ser sustentada; no exemplo, cefaleia tensional é hipótese e não conclusão definitiva. Adoecimento é o que a pessoa vive por ter aquilo — quatro meses acordando às três da manhã, o medo de que a dor seja um tumor, a suspeita de que o problema seja da cabeça mesmo. As duas coisas correm em paralelo, existem sempre as duas e são independentes: a mesma doença produz adoecimentos muito diferentes em duas pessoas, e é o adoecimento, não a doença, que decide se a pessoa vai voltar, se vai tomar o remédio e se vai contar o resto.
Uma entrevista que explora apenas os atributos da dor pode perder tanto o motivo da consulta quanto dados que mudam o diagnóstico. Em Cordelia, reconhecer o contexto não corrige por si a falha anterior: cefaleia nova após os 50 anos exige avaliação. A resolução clínica combina uma hipótese provisória segura, atenção ao sofrimento, tratamento apropriado e acompanhamento; não depende de classificar a consulta prévia como tecnicamente perfeita.
Perguntas dirigidas são úteis para esclarecer gravidade e hipóteses, mas interrupção precoce pode eliminar informações diagnósticas. Alterne narrativa livre e perguntas específicas, explique a transição e retome assuntos relevantes. O tempo médio de interrupção de um estudo descreve aquele conjunto de consultas, não define quantos segundos se deve esperar para agir.
O método clínico centrado na pessoa, na formulação de Stewart e colaboradores que o currículo brasileiro da especialidade adota, tem quatro componentes: explorar a saúde, a doença e a experiência de doença; entender a pessoa como um todo; elaborar um plano conjunto de manejo dos problemas; e fortalecer a relação entre a pessoa e o médico. As versões anteriores tinham seis, e a redução para quatro não foi corte de conteúdo, foi reclassificação — ser realista deixou de ser componente e passou a ser comentário sobre o contexto em que o método opera. Não abri a obra de Stewart no original; registro aqui apenas o que a fonte brasileira que a traduziu em roteiro reporta, e digo de quem é o relato.
O que transforma esses quatro componentes em conduta, e não em declaração de princípios, é um acrônimo. A proposta brasileira é o AIPFES, publicado em 2020 por um grupo da Universidade Federal de Viçosa a partir dos modelos de Smith e de Cole-Bird: A de abertura narrativa livre, I de ideias sobre a causa, P de preocupações, F de funcionalidade — como isso atrapalha o dia —, E de expectativa sobre o que o médico pode fazer, e S de sentimentos. Ele funde dois acrônimos anteriores, o IPE internacional e o SIFE do próprio método centrado na pessoa, e a ordem tem razão de ser: sentimentos vem por último porque é a pergunta que os pacientes entendem como mais íntima, e abrir por ela fecha a conversa em vez de abri-la. Os próprios autores anotam que não é preciso fazer as seis perguntas — duas costumam bastar, e às vezes uma.
A engrenagem familiar é a mesma, deslocada de pessoa. A anamnese individual pergunta a uma pessoa sobre o corpo dela, e o campo história familiar, no modelo tradicional, é uma lista de doenças de parentes: pai hipertenso, mãe diabética, tio com câncer de intestino. Isso é genética, não é família. O que decide a insônia de Cordelia não é a hipertensão da avó dela — é quem mora na casa, quem chega tarde, quem parou de chegar, quem morreu, quem cuida de quem e quem deixou de cuidar. Nenhum desses dados cabe no campo que existe, e dado que não tem campo não é colhido, nem por quem sabe que ele importa. O genograma não é enfeite acadêmico: é o campo que faltava, com a vantagem de caber numa folha e de ser perguntável dentro de uma consulta.

Como se apresenta de verdade
A consulta que respondeu à pergunta errada não se apresenta como erro. Ela se apresenta como consulta normal, com diagnóstico correto, conduta razoável e paciente educado, e o único sinal externo é a repetição: a mesma pessoa, pelo mesmo assunto, pela terceira vez. Repetição sem piora é o achado semiológico deste capítulo. Quando a doença está bem tratada e a pessoa continua voltando, ou a doença não é a que se pensa — e isso é raciocínio clínico, que tem capítulo próprio — ou a doença nunca foi o assunto.
Abaixo estão seis apresentações. Nenhuma delas exige tempo extra para ser reconhecida; todas exigem que a pergunta seja feita. E vale dizer o que este capítulo não sustenta: na maior parte das consultas a queixa é mesmo o assunto, a pessoa quer o que pediu e a resposta direta é a resposta certa. Procurar agenda oculta em toda consulta é o mesmo vício de excesso, com o sinal trocado, que o capítulo de prevenção quaternária e multimorbidade descreve — e o gasto ali é o tempo de quem está na fila.
A queixa da porta, e o que a denuncia
A queixa física pode coexistir com preocupações ainda não exploradas. Cordelia tem dor real, mas seu diagnóstico permanece em revisão e a preocupação familiar merece espaço. Tanto dor quanto preocupação são motivos legítimos de atendimento; perguntar o que trouxe a pessoa hoje evita presumir uma agenda oculta.
Três sinais denunciam a queixa da porta, e os três são de graça. O primeiro é o descompasso entre o tempo do sintoma e o tempo da procura: a dor existe há dois anos e ela veio hoje. A pergunta que resolve é uma só — se está acontecendo desde então, o que fez a senhora procurar ajuda agora? Ela está no roteiro brasileiro de entrevista centrada na pessoa, dentro da letra P, de preocupações, e é a pergunta de maior rendimento por segundo gasto de toda a consulta.
O segundo sinal é a resposta desproporcional à tranquilização. Você diz que o exame está normal e a pessoa não relaxa, ou relaxa por três segundos e volta a perguntar. Tranquilização que não tranquiliza significa que a pergunta respondida não era a pergunta feita — normalmente porque a pessoa teme uma coisa específica que ainda não nomeou, e o exame normal não exclui aquela coisa específica na cabeça dela.
O terceiro é a pergunta do batente: a frase dita de pé, com a receita na mão, quando a consulta já acabou. Ela costuma ser a mais importante do encontro e chega no pior momento possível, porque a estrutura da consulta empurra tudo o que é difícil para o fim. Não é acaso nem má-fé: é o resultado previsível de uma entrevista que não pediu a lista completa no começo. Uma consulta que pergunta o que mais? até a pessoa responder que não tem mais nada muda a pergunta do batente de lugar — para o minuto dois, onde ela pode ser trabalhada.
O sofrimento que se apresenta como sintoma físico
Uma segunda apresentação é a do sofrimento que chega em linguagem de corpo: dor de cabeça, dor no peito, falta de ar, tontura, dor lombar, queimação no estômago, fraqueza, formigamento. É a apresentação mais frequente do sofrimento mental na atenção primária brasileira, e é frequente por um motivo prático além do cultural — o sintoma físico é o que o serviço aceita como ingresso. Ninguém marca consulta dizendo que o filho voltou a beber.
A linha do tempo do contexto ajuda a compreender adoecimento, enquanto evolução e atributos do sintoma orientam hipóteses clínicas. Na cefaleia nova de Cordelia, ambas são necessárias. Um acontecimento familiar próximo do início não comprova a causa da dor nem elimina sinais de alerta.
A APS pode avaliar, diagnosticar e manejar transtornos mentais comuns, com supervisão no internato e apoio matricial quando necessário. Investigar sintomas, duração, prejuízo funcional, uso de substâncias, episódios de mania e risco de suicídio antes de escolher tratamento. Sintomas físicos e sofrimento emocional podem coexistir; nem exames normais provam origem psíquica, nem reconhecer contexto dispensa investigação clínica.
A pessoa que veio por causa de outra pessoa
Uma terceira apresentação é a da pessoa cujo problema mora em outro corpo. Ela vem com queixa própria, verdadeira, e o que a fez marcar foi o outro. A mãe que dorme mal por causa do filho; a filha que tem gastrite desde que a mãe teve o acidente vascular cerebral; o marido que pede exame de próstata na semana em que a mulher recebeu um diagnóstico. A queixa é dela e o motivo é da casa.
Há uma variante próxima e diferente, que é a pessoa que traz outra pessoa e fala por ela. Essa tem dono nesta coleção. A consulta em que quem descreve o problema é a acompanhante, e não o paciente, é o assunto de A queixa é da filha, entre os capítulos de Geriatria; a quem se dirigir, quem responde e como se conduz a consulta a três estão resolvidos lá. O que fica aqui é o inverso: a pessoa que vem sozinha, com queixa própria, movida por alguém que não está na sala.
O sinal de reconhecimento é simples e quase nunca é usado: pergunte com quem ela mora, e depois pergunte como estão as coisas em casa. As duas perguntas estão, nessa ordem e com essas palavras, no roteiro brasileiro de entrevista centrada na pessoa, no item de mapeamento familiar, social e ocupacional. Elas não são conversa fiada e não são invasão; são coleta de dados sobre a variável que decide a queixa.
Quando a resposta trouxer uma pessoa — e ela costuma trazer —, o passo seguinte não é aconselhar. É desenhar. Quem mora na casa, quem é de quem, quem entrou e quem saiu no último ano: são três perguntas e o genograma está começado.
O pedido concreto: exame, atestado, encaminhamento, receita
Uma quarta apresentação não traz sintoma nenhum: traz um pedido. Um exame, um atestado, um encaminhamento para especialista, a renovação de uma receita. O pedido é o passaporte mais eficiente que existe, porque é objetivo, cabe em trinta segundos e dispensa a pessoa de explicar por quê.
O erro simétrico aqui tem dois lados, e os dois são comuns. Um é atender o pedido sem perguntar de onde ele vem, e o outro é recusar o pedido sem perguntar de onde ele vem. Nos dois casos a consulta acaba no pedido. A pergunta que abre é a letra I do roteiro, de ideias: o que a senhora está achando que pode ser? Ou, mais direto ainda: o que fez o senhor querer esse exame agora, aconteceu alguma coisa?
Quando a resposta for uma pessoa — meu vizinho descobriu um câncer, minha irmã morreu com quarenta e dois anos —, a conversa passou a ser sobre medo, e responder ao medo com um exame quase sempre falha, porque o exame normal não desfaz o motivo do medo. A decisão sobre pedir ou não pedir, e a doutrina do exame que não muda conduta, são de Prevenção quaternária e multimorbidade, o capítulo anterior desta apostila; o que é daqui é descobrir, antes de decidir, qual é a pergunta que o pedido está fazendo.
A casa que aparece de a um por vez
Uma quinta apresentação só é visível de longe, e por isso quase sempre passa: várias pessoas do mesmo domicílio começam a aparecer no serviço no mesmo trimestre, cada uma com uma queixa diferente e nenhuma delas grave. A mãe com dor de cabeça, a filha com atraso vacinal do neto, o avô que faltou à consulta de rotina pela primeira vez em cinco anos, o adolescente com dor abdominal recorrente e exames normais.
Vistas uma a uma, são cinco consultas comuns em cinco prontuários diferentes. Vistas juntas, são um evento. A unidade de análise que revela isso não é a pessoa, é o domicílio — e é essa a razão prática, e não ideológica, de a atenção primária brasileira organizar o cadastro por família e por território.
Quem enxerga esse padrão primeiro quase nunca é o médico: é a agente comunitária de saúde, que entra nas casas. O uso disso na prática — como se organiza a equipe, o que a agente registra, quem é da sua área e como o território define o seu paciente — é de Quem é seu, mesmo quando não está na sala, nos capítulos de Medicina Preventiva e Saúde Coletiva. Aqui fica só o gesto clínico correspondente, que é perguntar à agente, antes da consulta de amanhã, o que está acontecendo naquela casa — e depois registrar a resposta.
A consulta que já vem com a família dentro
A sexta apresentação é a menos frequente e a mais decisiva: a consulta em que a família chega junto, por decisão dela, porque alguma coisa aconteceu. Alta hospitalar de um idoso que vai precisar de cuidado, diagnóstico novo de doença crônica em criança, adolescente trazido pelos pais, gravidez não planejada, retorno de alguém que teve um episódio de uso de álcool ou de outra droga.
Quando familiares chegam juntos, confirmar com a pessoa se deseja sua participação e oferecer momento privado. A reunião pode ajudar a planejar cuidado, mas não é obrigatória nem substitui consulta individual. Em suspeita de coerção ou violência, preservar segurança antes de reunir versões.
O que caracteriza clinicamente essa apresentação é a divergência de versões. Cada pessoa da sala descreve um problema diferente com a mesma sinceridade, e a divergência não é conflito a resolver: é o dado. Onde as versões divergem está a fronteira de quem sabe o quê dentro daquela casa, e essa fronteira decide o plano — porque um plano combinado com quem não vai executá-lo não é plano.
Como fechar o diagnóstico
A entrevista fornece informação clínica e organiza o cuidado; genograma e ecomapa são ferramentas complementares. O roteiro brasileiro é um relato de experiência educacional, não validação de superioridade de uma sequência rígida. No internato, praticar com observação do preceptor permite corrigir escuta, exame e decisão no mesmo encontro.
O roteiro orienta a entrevista, mas a sequência e o número de perguntas se adaptam à pessoa, ao risco e ao tempo. Abrir espaço, verificar outras demandas e negociar prioridades ajuda; não há número obrigatório de segundos, duas perguntas máximas nem garantia de que toda preocupação será revelada. Uma revelação tardia pede acolhimento e avaliação imediata de segurança antes de decidir o que pode ficar para outro encontro.
A pergunta que abre, e o que fazer com o silêncio que vem depois
A entrevista começa com uma pergunta propiciatória, e ela tem uma forma. Em que posso lhe ajudar hoje. O que lhe fez procurar este serviço hoje. Me conta: o que lhe traz aqui hoje. Repare no que essas frases não fazem — nenhuma pergunta o que a pessoa está sentindo, e a diferença não é estética. Perguntar o que você está sentindo pede um sintoma; perguntar o que lhe traz aqui pede um motivo. As duas perguntas recebem respostas diferentes da mesma pessoa.
Depois da pergunta vem a fala livre, e a única técnica dela é não interromper. O roteiro brasileiro é explícito sobre o que se faz durante esse tempo, e é tudo não verbal: mão no queixo ou na têmpora, movimento afirmativo de cabeça, rosto e olhar e tronco voltados para a pessoa, peito aberto e nenhum objeto entre vocês. Não é etiqueta — é o que substitui a pergunta que você não vai fazer. O silêncio de quem escuta precisa parecer escuta, ou a pessoa para de falar achando que perdeu a vez.
O tempo disso é menor do que o medo faz supor. A referência internacional que temos é do lado do erro: mediana de onze segundos até a interrupção, quando há interrupção. Não conheço estudo brasileiro que meça quanto tempo a fala livre dura quando ninguém a corta, e por isso este capítulo não publica um número de segundos como se fosse régua nacional. O que se pode dizer com segurança é o formato: a fala livre acaba sozinha, e acaba antes do que o interno espera.
Uma advertência de calibração, porque o roteiro é de graduação e o leitor é interno. Nada disso pressupõe consulta longa. O roteiro existe justamente porque a alternativa — dirigir desde o primeiro segundo e recolher a agenda em pedaços ao longo de vinte minutos — é mais lenta, não mais rápida. O tempo que se ganha nos primeiros dois minutos costuma ser gasto três vezes na terceira consulta.
Esgotar a lista antes de escolher: o e o que mais
Terminada a fala livre, vem o passo que quase ninguém executa e que sozinho muda a consulta: checar demandas aditivas até esgotá-las. E o que mais? Alguma outra coisa lhe preocupa quanto à sua saúde? Há mais alguma coisa que a senhora queira avaliar, pedir ou trazer? O roteiro brasileiro é literal quanto ao critério de parada — perguntar até a pessoa responder que não.
O estudo citado pelo roteiro brasileiro encontrou mais exploração de demandas adicionais após treinamento e média de 2,1 preocupações por consulta. Isso apoia treinar a escuta, mas não mede quantas demandas seu serviço deixa de registrar nem prova que cada consulta tem um terceiro assunto. Use observação e revisão de prontuários com o preceptor para avaliar a própria prática.
Depois de esgotar, sumariza-se com as palavras da própria pessoa: então, veja se eu entendi bem, a senhora nos procurou hoje por isso, isso e isso. A sumarização não é gentileza, é conferência de dado — é o momento em que um erro de escuta ainda custa cinco segundos para corrigir.
E então se pactua a agenda, que é o passo que impede o roteiro de virar promessa impossível. Numa consulta comum cabem um ou dois problemas, e isso se diz com todas as letras: vamos programar a avaliação de tudo o que a senhora trouxe, mas qual seria a sua prioridade para hoje? A escolha é dela, conciliada com o que for mais grave do ponto de vista médico; o que não é escolhido vai para a agenda de retorno, com data. Pactuar agenda é o oposto de recusar demanda: é o único jeito honesto de dizer que hoje não dá tudo sem mandar a pessoa embora com nada.
Vale registrar o que a pactuação faz com a pergunta do batente. Quando a lista foi esgotada no minuto dois, a frase difícil não tem mais para onde ir: ou ela foi dita ali, e entrou na agenda, ou a pessoa decidiu não dizer — o que também é informação, e diferente de não ter tido a chance.
AIPFES: as seis perguntas, e por que duas bastam
Explorar a experiência de adoecimento é o primeiro componente do método clínico centrado na pessoa, e o AIPFES é a tradução brasileira dele em perguntas. A é a abertura narrativa: conte-me mais sobre isso, como é essa dor, como isso começou, como tem estado nos últimos dias. Os autores chamam atenção para o uso intencional do como, que pede descrição, contra o quando e o onde, que pedem dado.
I é ideias sobre a causa: o que a senhora acha que pode ter causado isso? Aconteceu alguma coisa na sua vida que a senhora ache que tem a ver? Essa é a pergunta que mais frequentemente resolve a consulta inteira, porque a maioria das pessoas tem uma hipótese e quase nunca é convidada a dizê-la. P é preocupações: tem alguma coisa nesse problema que está preocupando mais a senhora? E, na variante que localiza a virada, se isso está acontecendo desde janeiro, o que fez a senhora procurar ajuda hoje?
F é funcionalidade: como isso vem atrapalhando o seu dia a dia? É a pergunta que transforma sintoma em desfecho — dor de cabeça é um dado; não conseguir passar roupa é o que a pessoa quer resolver, e é por ele que ela vai avaliar o tratamento. E é expectativa: como a senhora espera que eu possa lhe ajudar hoje com isso? Perguntar expectativa não obriga ninguém a atendê-la; obriga a saber o que se está recusando quando se recusa.
S é sentimentos: como a senhora se sente em relação a isso? Como isso tem mexido com a senhora? Ela vem por último por decisão dos autores do roteiro, porque é a pergunta que os pacientes entendem como mais íntima — e uma pergunta íntima feita antes do vínculo é recebida como intrusão, não como cuidado.
O que impede o AIPFES de virar questionário é uma instrução escrita no próprio roteiro: não é preciso fazer todas as perguntas. Avalie o que a pessoa já informou nas falas anteriores e escolha, de início, duas que pareçam mais úteis. Os autores voltam ao ponto na discussão e chegam a dizer que duas, talvez uma, já bastam. É a diferença entre uma técnica e um formulário: o formulário faz as seis sempre; a técnica faz a que falta.
Há um segundo antídoto contra o tom de entrevista, e ele é de forma. Use as palavras da pessoa, não as suas. Se ela disse aperto, pergunte pelo aperto, não pela cefaleia holocraniana. Se ela disse preocupação, use preocupação. Traduzir a fala dela para o vocabulário médico e devolvê-la traduzida é o gesto que mais rápido faz uma conversa virar interrogatório.
O genograma: o que se desenha, quais símbolos importam, em quantos minutos
O genograma é a árvore da família desenhada como instrumento de avaliação clínica, e não como curiosidade genealógica. Ele fornece, na descrição do trabalho brasileiro que o Ministério da Saúde cita como referência do tema, informação demográfica, posição funcional de cada um, recursos e acontecimentos críticos da dinâmica familiar. O que se vê nele é a composição da família, o gênero de cada membro, a ordem de nascimento, as relações entre os membros e a intensidade dessas ligações — a estrutura interna — mais a família de origem de cada lado, que é a estrutura externa.
Use convenções reconhecíveis e legenda em todo desenho. Quadrado e círculo são símbolos tradicionais; registrar identidade de gênero e relações conforme a pessoa descreve, com respeito a famílias diversas, adoção e vínculos de cuidado. Marcar caso-índice, falecimentos, uniões, filiação e domicílio atual. Um símbolo isolado não decide direitos, consentimento ou capacidade.
As linhas de relação são o que separa um genograma de uma árvore genealógica. Uma linha simples entre duas pessoas indica relação forte; duas linhas paralelas, relação muito forte. Convenções mais amplas acrescentam a linha em ziguezague para conflito e a linha cortada para vínculo rompido, mas é honesto dizer de onde vem cada coisa: a distinção de uma e duas linhas está descrita no trabalho brasileiro que o Ministério cita; o repertório maior de linhas de conflito e rompimento é convenção internacional consolidada, e não a encontrei fixada em documento oficial brasileiro. Se você usar as linhas extras, ponha a legenda na própria folha.
Três gerações costumam oferecer informação útil, mas não constituem limite rígido. Selecionar a extensão pela pergunta clínica, podendo começar pelo domicílio atual e ampliar depois. Um mapa de avós, pessoa e netos já envolve cinco gerações se também incluir pais e filhos; escolher e explicitar quais gerações estão representadas, sem usar a palavra “três” para qualquer árvore.
O tempo é a objeção real, e ela merece resposta honesta. Um genograma de três gerações, feito com a pessoa na frente, leva de oito a dez minutos quando a família é pequena e passa disso quando não é. Ele não cabe numa consulta de demanda espontânea de dez minutos — e não precisa caber. Ele se faz em três lugares: numa consulta agendada de retorno marcada para isso; na visita domiciliar, que é quando a família inteira está disponível e o roteiro do Ministério aponta como o momento em que as pessoas falam mais; e em pedaços, ao longo de várias consultas, o que é a forma mais comum e a mais realista, com a folha guardada e completada a cada vez.
A regra que impede o genograma de virar interrogatório é fazê-lo com a pessoa vendo. Vire o papel, desenhe enquanto ela fala, mostre o que você entendeu e deixe que ela corrija. O trabalho brasileiro sobre o assunto observa exatamente isso: as famílias se sentiram valorizadas por estar contribuindo, e a construção do desenho facilitou a comunicação. E há uma advertência do mesmo trabalho que vale como regra: a informação é contínua, não pode haver um único ponto isolado de coleta, e o desenho precisa ser atualizado — um genograma de dois anos atrás é um documento sobre uma família que não existe mais.
As três perguntas que começam qualquer genograma são estas, nesta ordem: quem mora nesta casa com a senhora? Quem é de quem? E quem entrou ou saiu de casa no último ano? A terceira rende mais que as duas primeiras somadas e quase nunca é feita, porque mudança de composição do domicílio é o evento que mais frequentemente antecede uma série de consultas novas.
O ecomapa: onde a rede está rompida
Se o genograma desenha para dentro, o ecomapa desenha para fora. Ele parte de uma linha fechada em volta do núcleo familiar — na descrição brasileira, um círculo não uniforme — e sai dela em conexões para as pessoas e instituições com as quais aquela família tem contato significativo: a unidade de saúde, a escola, a creche, a igreja, o trabalho, a vizinha da frente, o benefício social, o serviço de assistência, a família que ficou em outro estado.
O que o ecomapa mede não é quantas ligações existem, é a qualidade de cada uma, e é isso que se desenha na espessura e no traço da linha: ligação forte, ligação fraca, ligação que consome mais do que devolve, ligação rompida. A pergunta que produz cada linha é sempre a mesma e é curta — a senhora conta com eles para quê, e com que frequência? A resposta separa a instituição que está no papel da instituição que está na vida.
O rendimento clínico do ecomapa está inteiro nas linhas ausentes e nas rompidas. Uma família cujo único vínculo desenhado é o posto de saúde é uma família em risco, e o desenho torna isso visível em segundos para quem nunca ouviu a história. Uma família cuja única linha grossa vai para uma pessoa só — a vizinha que aplica a insulina, a filha que mora a duas horas — está a um evento de perder o cuidado inteiro, e o plano precisa levar isso em conta antes do evento.
Vale a mesma advertência de escopo do genograma: o ecomapa mostra a rede que aquela família usa, não a rede que existe no território. Mapear a rede do território, quem oferta o quê, como se articula intersetorialidade e como se aciona a assistência social é competência de abordagem comunitária, e neste nível ela está em Quem é seu, mesmo quando não está na sala. O ecomapa é a metade individual dessa conta: a rede vista de dentro de uma casa.
O registro: escrever de um jeito que outra pessoa consiga usar
No SOAP, distinguir a narrativa subjetiva da avaliação clínica. Usar CIAP-2 conforme o campo e a versão do sistema e registrar texto suficiente para continuidade. Informação familiar relevante pode ser escrita em linguagem factual, mesmo quando não existe ferramenta gráfica própria.
Motivo da consulta descreve a perspectiva da pessoa; avaliação contém a síntese clínica e seu grau de certeza. Os dois podem legitimamente ser “cefaleia” se esse for o motivo e ainda não houver etiologia definida. O erro é copiar sem escutar ou converter uma hipótese em diagnóstico confirmado; o texto deve conservar preocupações e contexto relevantes.
O que o sistema não tem é campo para o desenho. Li o capítulo de atendimentos do manual do prontuário eletrônico do cidadão e não há ali campo de genograma, de ecomapa nem de composição familiar; não afirmo que não exista em nenhuma outra tela do sistema, porque não li o manual inteiro, e registro isso como limite do que conferi. Na prática das unidades, o genograma vive em papel, na pasta da família ou na folha de evolução digitalizada, e a consequência é conhecida: ele se perde na troca de equipe.
A saída que funciona é escrever, em texto, o que o desenho mostra — porque texto o sistema guarda. Cinco linhas resolvem: quem mora no domicílio, com idade e vínculo; o que mudou na composição no último ano; quem é o cuidador principal e quem é a retaguarda dele; quais são os dois ou três vínculos externos que a família de fato usa; e o que dessa história a pessoa pediu que não fosse repetido na frente de quem. A última linha é a mais importante e a mais esquecida.
E aqui vai a fronteira, porque metade deste assunto não é minha. Como se escreve um registro que outra pessoa consegue usar, o que nunca pode entrar no prontuário, quem pode lê-lo, o que se faz quando a família pede sigilo de alguma coisa e como se corrige o que entrou errado é de O documento que você mais escreve, nos capítulos de Comunicação desta apostila. O que é deste capítulo é o conteúdo específico: que o genograma e o que a família contou precisam existir por escrito, em que forma, e com que cuidado — porque um dado sobre a família é um dado sobre pessoas que não consentiram nada e que não estão na sala.
Da agenda da pessoa ao plano da consulta
O motivo da consulta é um ponto de partida que pode ser simples: renovar receita, tratar dor ou obter orientação. Não é obrigatório descobrir outro assunto por trás dele. Pergunte o que a pessoa espera, esclareça o pedido e confira se há algo mais que deseja abordar. Quando o pedido já está claro, responda a ele com avaliação e decisão clínica. Quando a pessoa não quiser falar de família ou sentimentos, preserve esse limite e deixe uma porta aberta para outro momento, mantendo a mesma qualidade de assistência.
A pactuação combina preferência e risco. Em Cordelia, a dor é prioridade dela e seu início depois dos 50 é prioridade clínica; as duas cabem no mesmo plano. Explicar essa relação evita que a investigação pareça desautorizar a preocupação com o filho. O estudante pode dizer: “Quero entender o que está acontecendo em casa e também conferir causas desta dor que começou recentemente. Primeiro vamos verificar o que precisa de atenção hoje, depois organizar o restante.” O preceptor ajuda a definir investigação, prazo e destino conforme os achados reais.
O plano precisa conter ações que a equipe executará e ações que a pessoa aceitou tentar. Não escrever apenas “orientada higiene do sono” quando a paciente permanece acordada por medo de uma chegada de madrugada: investigar se há ameaça, quais recursos de segurança existem e o que ela deseja. Uma recomendação pode ser tecnicamente adequada e impossível naquela casa. Nesse caso, a tarefa é adaptá-la e buscar apoio, não repetir a mesma orientação nem classificar a pessoa como não aderente.
Construir um mapa sem transformar a família em diagnóstico
Antes de desenhar, explique para que o mapa ajudará e pergunte quem a pessoa considera família. Relações de cuidado podem incluir amigos, vizinhos e pessoas sem vínculo formal. Identifique quem mora junto, quem depende de quem e quem está disponível fora do domicílio. Não pressupor que uma filha será cuidadora, que o cônjuge conhece toda informação ou que quem mora longe não pode ajudar. Registrar a voz da paciente é mais útil que preencher um modelo de família ideal.
O desenho deve incluir legenda, data e fonte. Se uma relação de conflito foi descrita por uma pessoa, marque como relato dela; não registrar a mesma avaliação como fato comprovado sobre todos os envolvidos. Atualize o que mudou sem apagar a história de modo informal. Informação de terceiros só entra quando necessária ao cuidado e com detalhe proporcional. Um estudante pode usar um caso fictício para treinar símbolos, mas não copiar nomes, datas identificáveis e diagnósticos de uma família real para exercícios fora do prontuário institucional.
Depois do mapa, escolha uma pergunta de ação. Quem poderia acompanhar uma coleta? Quem aceitaria dividir uma tarefa duas vezes por semana? A igreja citada oferece ajuda prática ou apenas vínculo afetivo? Há um profissional de referência na equipe para o próximo contato? Confirmar disponibilidade é necessário antes de tratar uma linha do ecomapa como recurso garantido. A pessoa pode recusar envolver um familiar mesmo que ele pareça a melhor opção; discutir alternativas preserva confiança e reduz risco de exposição.
Quando o problema inclui uso de álcool de familiar ausente, a consulta atual cuida dos efeitos sobre quem está presente. Perguntar sobre segurança, sono, despesas e sobrecarga pode ser pertinente. Não é possível diagnosticar dependência ou prescrever ao ausente apenas pelo relato. Pode-se facilitar um convite seguro para avaliação própria, sem responsabilizar a mãe por convencer ou tratar o filho. Se houver risco de violência, não usar a consulta conjunta como primeira intervenção automática.
Observar o retorno para saber se o cuidado aconteceu
No retorno, comece pelo que a pessoa entendeu e pelo que conseguiu fazer, além da evolução clínica. Cordelia realizou a investigação combinada? A cefaleia mudou? A equipe revisou o resultado? Houve oportunidade segura de descansar ou pedir ajuda? Se o plano não aconteceu, identificar se faltou acesso, compreensão, tempo, apoio ou concordância. Uma mudança de preferência também é informação legítima. Rever a estratégia pode ser mais adequado que insistir na decisão anterior.
A continuidade pode ser de uma equipe, mesmo quando o interno muda de estágio. Antes dessa transição, deixar registro que outro profissional consiga usar: problema e hipótese, sinais relevantes, exames e resultados pendentes, decisão familiar autorizada, próximo passo e prazo. Se um contato precisar ser discreto, registrar como fazê-lo sem revelar conteúdo sensível. A pessoa deve saber onde procurar ajuda e não depender de encontrar exatamente o mesmo estudante na próxima semana.
Uma atividade formativa útil é apresentar ao preceptor um resumo breve do encontro e perguntar qual decisão mudaria se a hipótese principal estivesse errada. Depois, revisar o próprio registro: ele contém o motivo da paciente, o risco clínico, a incerteza e uma ação executável? O desenho familiar acrescentou informação que mudou o cuidado? Houve alguma pergunta desnecessariamente invasiva? Essa revisão transforma a ferramenta em competência clínica e permite corrigir tanto omissão quanto excesso de coleta.
A consulta centrada na pessoa, passo a passo, e o desenho da família
O roteiro orienta a entrevista, mas a sequência e o número de perguntas se adaptam à pessoa, ao risco e ao tempo. Abrir espaço, verificar outras demandas e negociar prioridades ajuda; não há número obrigatório de segundos, duas perguntas máximas nem garantia de que toda preocupação será revelada. Uma revelação tardia pede acolhimento e avaliação imediata de segurança antes de decidir o que pode ficar para outro encontro.
- 1Chame a pessoa pelo nome que ela usa, apresente-se dizendo a sua função e cumprimente quem veio com ela, pelo nome e pelo vínculo.
- 2Pergunte o que a trouxe aqui hoje — não o que ela está sentindo — e não interrompa; sustente a escuta com o corpo, sem objeto nenhum entre vocês.
- 3Verificar se existem outras demandas com convite aberto, sem pressionar por revelações; depois resumir e pactuar prioridades.
- 4Sumarize a lista com as palavras dela e pactue a agenda: um ou dois problemas hoje, e os outros com data marcada.
- 5Explore ideias, preocupações, funcionalidade, expectativas e sentimentos conforme lacunas da narrativa, sem número fixo de perguntas.
- 6Anuncie a transição antes de mudar de registro: agora vou fazer algumas perguntas sobre isso, para eu entender melhor.
- 7Integre desde o início perguntas clínicas de segurança; aprofunde atributos do sintoma, antecedentes e medicamentos conforme necessidade.
- 8Pergunte com quem ela mora e como estão as coisas em casa; se aparecer uma pessoa na resposta, vire o papel e comece o genograma.
- 9Desenhe as três gerações com a pessoa vendo, corrija o que ela corrigir, e feche a linha em volta de quem dorme naquela casa hoje.
- 10Pergunte quem entrou e quem saiu de casa no último ano: rende mais que qualquer outra e quase nunca é feita.
- 11Faça o ecomapa em três minutos: quem sustenta essa casa por fora, e a senhora conta com eles para quê.
- 12Negocie o plano com quem vai executá-lo, e diga em voz alta o que foi decidido e o que ficou para o retorno.
- 13Registre em texto o que o desenho mostra — composição, mudanças do ano, cuidador principal, retaguarda, vínculos externos — e, na última linha, o que a pessoa pediu que não fosse repetido e para quem.
Os quatro componentes, e o que cada um muda na consulta
Os quatro componentes do método integram saúde e experiência de adoecimento, compreensão da pessoa, plano conjunto e relação terapêutica. AIPFES é um apoio possível para explorar a narrativa; genograma e ecomapa ajudam quando a família ou rede mudam a decisão. O método não depende obrigatoriamente desses instrumentos em toda consulta. Vínculo se constrói desde o primeiro encontro e se acompanha longitudinalmente.
As três réguas brasileiras deste capítulo, e o que cada uma faz
| Documento | Natureza e data | O que exige, nominalmente | O que ele não faz |
|---|---|---|---|
| Resolução CNRM nº 9, de 30 de dezembro de 2020, e a matriz de competências anexa | Norma federal do Ministério da Educação. Publicada no Diário Oficial da União de 4 de janeiro de 2021; em vigor desde 8 de janeiro de 2021; aplicação obrigatória em todo o território nacional a partir de 1º de março de 2022 | Ao término do R1: dominar a utilização dos componentes da abordagem centrada na pessoa, e dominar a utilização de instrumentos de abordagem familiar — genograma, ECOMAPA, Círculo Familiar, Escala de Coelho —, conhecendo os demais. Ao término do R2: realizar entrevista familiar e conferência familiar, e avaliar a agenda oculta entre as características que afetam a decisão | Não descreve nenhum dos instrumentos, não define símbolo, não fixa carga horária e não indica material de ensino |
| Currículo Baseado em Competências para Medicina de Família e Comunidade, da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade | Documento de sociedade de especialidade, sem força normativa. Oficina inicial em maio de 2014, revisão Delphi de junho a novembro de 2014, consulta pública em dezembro de 2014, painel final em fevereiro de 2015 | Área 1.2.2, Abordagem Familiar: 12 itens, todos com entrada na coluna essencial, incluindo realizar entrevista familiar e usar genograma, ECOMAPA, Círculo Familiar e Escala de Coelho; o P.R.A.C.T.I.C.E. fica como desejável. Área 2.1.1: conhecer o método clínico centrado na pessoa é pré-requisito e aplicar seus componentes é essencial | Também não descreve os instrumentos. Prevê no próprio texto revisão a cada dois anos; não encontrei segunda edição publicada |
| Abordagem familiar no território da APS, e-book 14 do Programa Saúde com Agente | Material de ensino do Ministério da Saúde com o Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Brasília, 2023, 1ª edição eletrônica, ISBN 978-65-5993-512-3, licença Creative Commons Atribuição–Não Comercial–Compartilhamento pela mesma licença 4.0 | Dirigido ao agente comunitário de saúde e ao agente de combate às endemias. Anuncia na apresentação que vai ensinar a construir genograma e a montar ecomapa | Não ensina. Genograma e ecomapa aparecem cinco vezes cada em 83 páginas numeradas, duas delas na bibliografia; não há definição, símbolo, exemplo desenhado nem passo a passo. Círculo Familiar, Escala de Coelho, APGAR familiar e F.I.R.O. não aparecem nenhuma vez |
| Prontuário eletrônico do cidadão do e-SUS APS, manual do Ministério da Saúde | Manual de sistema, do Ministério da Saúde, revisado por versão do software | Registro estruturado em SOAP. O motivo da consulta é registrado no subjetivo e codificado pela Classificação Internacional de Atenção Primária, a CIAP-2; na escuta inicial o campo motivo da consulta em CIAP-2 é obrigatório. Na avaliação, exige ao menos um código, em CIAP-2 ou em CID-10 | No capítulo de atendimentos não há campo para genograma, ecomapa ou composição familiar; o desenho vive em papel e se perde na troca de equipe |
Os símbolos do genograma que mudam conduta, e de onde vem cada convenção
| Símbolo | O que significa | De onde vem | O que muda na consulta |
|---|---|---|---|
| Quadrado e círculo | Homem e mulher, respectivamente; a idade vai dentro ou ao lado da figura | Convenção internacional consolidada, reproduzida na literatura brasileira sobre o instrumento | Nada sozinho; é o alfabeto que faz o resto ser legível por quem não estava na consulta |
| Contorno duplo em volta de uma figura | É a pessoa da consulta — o caso-índice | Convenção internacional consolidada | Diz de quem é o prontuário em que o desenho está guardado; sem isso, um genograma achado numa pasta não se sabe de quem é |
| X dentro da figura, com idade e ano ao lado | A pessoa morreu | Convenção internacional consolidada | É o dado que mais frequentemente explica a data de início dos sintomas; luto recente e sintoma novo na mesma folha é uma hipótese pronta |
| Linha horizontal contínua entre duas figuras | Casamento | Descrita na literatura brasileira sobre a aplicação do instrumento na Estratégia Saúde da Família | Mostra o vínculo informado. Estado civil não define sozinho quem pode decidir nem autoriza compartilhamento de informação. |
| Linha horizontal tracejada entre duas figuras | Moram juntos sem casamento | Descrita na mesma literatura brasileira | Evita que a pessoa que de fato cuida seja tratada como visita pela equipe e pelo serviço |
| Uma ou duas barras cortando a linha do casal | Separação e divórcio | Convenção internacional consolidada; a mesma literatura brasileira descreve a interrupção da linha para divórcio | Explica quem saiu de casa e quando, que é a informação mais frequentemente associada ao início de uma série de consultas |
| Linha vertical descendo da linha do casal, com os filhos pendurados da esquerda para a direita | Filiação, em ordem de nascimento | Convenção internacional consolidada | Ajuda a organizar a composição; quem cuida deve ser perguntado, sem inferir obrigação pela ordem de nascimento ou pelo gênero. |
| Uma linha simples entre dois membros; duas linhas paralelas | Relação forte; relação muito forte | Descrita explicitamente na literatura brasileira sobre a aplicação do instrumento | Mostra de quem a pessoa depende de fato, que costuma ser diferente de quem a lei ou a equipe supõe |
| Linha em ziguezague; linha cortada | Conflito; vínculo rompido | Convenção internacional consolidada. Não a encontrei fixada em documento oficial brasileiro — se usar, ponha a legenda na própria folha | Aponta tensão relatada que merece exploração em privado; não prevê automaticamente fracasso do plano nem prova violência. |
| Linha fechada envolvendo um subconjunto das figuras | Quem mora no mesmo domicílio hoje | Convenção internacional consolidada, e a informação de uso mais frequente na atenção primária | Ajuda a planejar visitas e apoio; confirmar quem a pessoa autoriza a envolver, inclusive na comunicação de alta. |
Tabela de conversão: os dezessete passos do roteiro brasileiro dentro de uma consulta, minuto a minuto
| Bloco da entrevista | Passos do roteiro | Tempo | Acumulado |
|---|---|---|---|
| Acolher, identificar e pedir consentimento para o atendimento com estudante | 1 e 2 | 1,0 min | 1,0 min |
| Pergunta propiciatória e fala livre sem interrupção | 3 e 4 | 1,5 min | 2,5 min |
| Esgotar demandas aditivas até o não e sumarizar com as palavras da pessoa | 5 e 6 | 1,0 min | 3,5 min |
| Pactuar a agenda: um ou dois problemas hoje, o resto com data | 7 | 1,0 min | 4,5 min |
| AIPFES: abertura narrativa e duas das cinco perguntas | 8 e 9 | 2,5 min | 7,0 min |
| Sumarizar a experiência de adoecimento e anunciar a transição | 10 e 11 | 1,0 min | 8,0 min |
| Agenda médica: sete atributos do sintoma e nova sumarização | 12 e 13 | 3,0 min | 11,0 min |
| Antecedentes e mapeamento familiar, social e ocupacional | 14 e 15 | 2,0 min | 13,0 min |
| Rastreamentos verbais oportunos: familiar e de comportamentos | 16 e 17 | 2,0 min | 15,0 min |
| Total da entrevista, antes do exame físico, da conduta e do registro | 1 a 17 | 15,0 min | 15,0 min |
Objetivo do internato: realizar uma entrevista que integre segurança clínica, experiência de adoecimento e contexto. O estudante deve conseguir apresentar ao preceptor a pergunta da paciente, a hipótese com seu grau de certeza, os sinais de alerta, as decisões compartilhadas e o seguimento. Não se exige domínio autônomo de todas as competências de um residente de MFC; espera-se reconhecer limites, pedir ajuda e aprender com observação direta.
O roteiro orienta a entrevista, mas a sequência e o número de perguntas se adaptam à pessoa, ao risco e ao tempo. Abrir espaço, verificar outras demandas e negociar prioridades ajuda; não há número obrigatório de segundos, duas perguntas máximas nem garantia de que toda preocupação será revelada. Uma revelação tardia pede acolhimento e avaliação imediata de segurança antes de decidir o que pode ficar para outro encontro.
Cefaleia iniciada aos 52 anos é sinal de alerta, mesmo com exame neurológico normal. Confirmar se é realmente nova, comparar padrão prévio, revisar uso de analgésicos e procurar sintomas visuais, claudicação mandibular, dor temporal, febre, câncer, imunossupressão e outros achados. Discutir investigação dirigida e neuroimagem com o preceptor; suspeita de arterite de células gigantes com alteração visual exige urgência. A relação com preocupação e sono não exclui causa secundária.
O genograma organiza hipóteses e recursos, não determina culpa, diagnóstico de um familiar ausente ou autorização para compartilhar informação. Confirmar com a pessoa quem participa do cuidado e o que pode ser comunicado. Registrar apenas o necessário, com data, fonte do relato e acesso protegido; convivência, casamento ou posição na árvore não tornam alguém representante automático.
Mapa útil responde a uma pergunta concreta. Se a paciente não dorme porque cuida de alguém, identificar quais tarefas realiza, em que horários, que ajuda aceita e quem poderia substituí-la. Confirmar a disponibilidade dessa pessoa antes de escrever seu nome como responsável. Um parente distante ou uma instituição desenhada não garante ajuda prática; distância, conflitos, trabalho e recursos podem mudar o plano.
Na entrevista familiar, ouvir versões sem escolher de imediato uma como verdade e sem transformar divergência em prova de disfunção. Perguntar a cada pessoa o que espera e combinar regras de fala. Oferecer momento individual quando houver informação sensível. Se houver suspeita de violência, não usar uma reunião com o possível agressor para obter confirmação: priorizar entrevista protegida e segurança.
O registro distingue observação própria, fala da paciente e informação de outro profissional. Escrever “segundo relato da paciente” evita transformar a história do filho em diagnóstico dele. O cuidado com a filha pode exigir anotar a dependência da mãe, mas não reproduzir toda a história médica ou conflitos íntimos de terceiros. Guardar o desenho em meio institucional protegido e identificar data e autoria.
Na tarefa prática, observar se a pergunta de abertura foi compreendida, se a pessoa teve oportunidade de acrescentar demandas e se as prioridades foram negociadas. Não avaliar a qualidade por repetir palavras exatas ou atingir uma média de 2,1 assuntos. Uma pessoa pode vir por uma única questão; outra pode revelar uma preocupação só no retorno. Preservar essa liberdade também é cuidado centrado na pessoa.
Os tempos da tabela são estimativas didáticas, não cronometragem validada nem limite de atendimento. Intercorrência clínica, sofrimento intenso, barreira de linguagem, deficiência auditiva ou necessidade de intérprete podem exigir mais tempo. Identificar tarefas que precisam acontecer hoje e organizar o restante com a equipe. Se não houver agenda disponível, definir uma alternativa concreta em vez de prometer retorno impossível.
Genograma e ecomapa podem começar pequenos. Primeiro perguntar quem a pessoa reconhece como família, quem mora com ela e quem de fato ajuda. Acrescentar relações relevantes com sua autorização e retornar a informações ainda incertas. O mapa pode ser feito em consulta, visita ou vários encontros; não deve impedir acolhimento de demanda espontânea nem atrasar uma urgência.
A APS pode avaliar, diagnosticar e manejar transtornos mentais comuns, com supervisão no internato e apoio matricial quando necessário. Investigar sintomas, duração, prejuízo funcional, uso de substâncias, episódios de mania e risco de suicídio antes de escolher tratamento. Sintomas físicos e sofrimento emocional podem coexistir; nem exames normais provam origem psíquica, nem reconhecer contexto dispensa investigação clínica.
No encerramento, pedir que a pessoa explique com suas palavras o que fará, qual resultado está sendo esperado e quem procurará se piorar. Verificar acesso ao exame, à medicação e ao retorno. Na consulta seguinte, perguntar o que foi possível executar e o que mudou. A responsabilidade pelo cuidado é da equipe, enquanto decisões e metas são construídas com a pessoa, respeitando recusa e revisando alternativas.
A conduta, hora a hora
Abaixo está a quarta consulta de Cordelia Nader, marco a marco, e o retorno que saiu dela. Não é uma consulta longa nem uma consulta especial: são os mesmos vinte minutos que as três anteriores tiveram, com os passos em outra ordem. O único acréscimo de tempo do capítulo inteiro é o retorno agendado — e ele foi agendado porque a consulta descobriu que valia a pena, não porque alguém tinha uma hora sobrando.
Cefaleia iniciada aos 52 anos é sinal de alerta, mesmo com exame neurológico normal. Confirmar se é realmente nova, comparar padrão prévio, revisar uso de analgésicos e procurar sintomas visuais, claudicação mandibular, dor temporal, febre, câncer, imunossupressão e outros achados. Discutir investigação dirigida e neuroimagem com o preceptor; suspeita de arterite de células gigantes com alteração visual exige urgência. A relação com preocupação e sono não exclui causa secundária. O retorno familiar mais longo é organizado conforme necessidade e recursos; é possível começar um mapa breve hoje e completá-lo longitudinalmente, inclusive em demanda espontânea quando útil.
No internato, apresente-se como estudante e peça concordância para participar. Conduza história e exame, formule hipóteses e apresente ao preceptor um plano com prioridades, justificativas e prazo. Mudanças de prescrição e decisões diagnósticas são pactuadas com o médico responsável; sinais de gravidade exigem chamá-lo imediatamente. Registre com identificação própria o que foi observado, discutido e combinado, sem inserir dados pessoais em material de estudo.
O genograma organiza hipóteses e recursos, não determina culpa, diagnóstico de um familiar ausente ou autorização para compartilhar informação. Confirmar com a pessoa quem participa do cuidado e o que pode ser comunicado. Registrar apenas o necessário, com data, fonte do relato e acesso protegido; convivência, casamento ou posição na árvore não tornam alguém representante automático. Perguntar em privado sobre medo de voltar para casa, ameaças, agressões e risco de suicídio quando houver indícios. Não convocar o familiar potencialmente agressor sem avaliar segurança e vontade da paciente. Acionar o preceptor e a rede de proteção conforme necessidade; combinar contato que não aumente risco.
14h02 — dois minutos antes de chamar
Você abre o prontuário e lê as três consultas anteriores de uma vez, procurando o que se repetiu e o que apareceu uma vez só. A repetição está clara: mesma dor, mesma conduta, mesmo retorno, três vezes. O que apareceu uma vez só está na segunda consulta, escrito na margem, com duas palavras: sono ruim. Na sala ao lado, dona Pousada, a agente comunitária da microárea, está separando as fichas da tarde. Você pergunta se ela conhece a casa. Ela conhece, e diz uma frase de dez segundos que muda a consulta inteira: 'A dona Cordelia? O filho dela voltou a beber, doutor. Desde o começo do ano.'
Prescrição- Leia as consultas anteriores procurando o que apareceu uma vez e nunca mais — é ali que costuma estar o que ninguém perguntou
- Quando pertinente ao cuidado, discutir com o ACS em ambiente reservado o mínimo necessário, indicando fonte e confirmando o relato com a paciente.
- O que ela contar é ponto de partida da sua pergunta, nunca conteúdo da sua fala: você não sabe disso pela Cordelia ainda, e ela precisa poder contar ou não contar
14h05 — a pergunta que abre, e noventa segundos de silêncio
Ela senta e você não pergunta pela dor. Você pergunta: 'Dona Cordelia, o que a senhora quer resolver hoje?' — e depois não fala mais nada por noventa segundos. Ela começa pela dor de cabeça, porque é o que ela veio dizer, e em quarenta segundos a dor acaba e ela continua falando: que anda cansada, que não está dando conta da casa, que dorme mal. Você não interrompe, não anota e não olha para a tela; fica de frente, com o tronco voltado para ela e a mesa livre entre vocês. Ela para sozinha, no minuto e meio, e a última coisa que ela diz antes de parar é: 'Mas o principal é a cabeça mesmo.'
Prescrição- Pergunte o que a pessoa quer resolver, não o que ela está sentindo — as duas perguntas recebem respostas diferentes da mesma pessoa
- Priorizar contato e escuta; se precisar anotar dados, explicar o gesto e evitar que a tela impeça a conversa.
- Deixe a mesa vazia entre vocês e o corpo voltado para ela; é o que sustenta a escuta enquanto você não fala
14h07 — e o que mais, até o não
Aqui vem o passo de maior rendimento da consulta, e ele custa noventa segundos. 'E o que mais?' Ela fala do joelho. 'E o que mais?' Ela diz que precisa renovar a receita da pressão. 'Mais alguma coisa que a senhora queira ver hoje, perguntar, trazer?' Silêncio de três segundos — e é esse silêncio que produz o item que interessa. 'Ah, doutor, eu ia perguntar se dor de cabeça pode ser de nervoso. Porque meu filho tá me dando trabalho.' Você pergunta mais uma vez, porque a regra é perguntar até o não. 'E o que mais?' 'Não, é isso.'
Prescrição- Convidar a acrescentar demandas até a pessoa indicar que concluiu, respeitando recusa e urgência; não insistir de forma mecânica.
- Sustente o silêncio de três segundos depois da última pergunta; é nele que sai o item que a pessoa estava decidindo se contava
- Sumarize com as palavras dela: a senhora veio pela dor de cabeça, pelo joelho, pela receita da pressão e por causa do seu filho
14h09 — pactuar a agenda, e deixar a escolha com ela
Depois de ouvir dor de cabeça, joelho, receita e preocupação com o filho, você pactua prioridades. O alerta da cefaleia nova após os 50 entra hoje, junto do que Cordelia considera mais urgente. Renovar receita inclui conferir uso real, pressão, efeitos adversos e segurança, sem copiar em trinta segundos. O joelho pode receber orientação inicial e retorno definido se não houver gravidade. Registrar uma data não substitui verificar se ela consegue voltar.
Prescrição- Diga em voz alta que cabem um ou dois assuntos, e que os outros terão data — sem a segunda metade, a frase vira recusa
- Deixe a escolha com a pessoa e aceite a escolha dela, inclusive quando não é a sua; a sua entra se houver gravidade
- Escreva a data do que ficou para depois no papel que ela leva, não só no sistema
14h11 — duas perguntas do AIPFES, e a virada
Você começa por ideias e preocupações e amplia conforme a narrativa. Cordelia teme uma doença na cabeça e relaciona noites ruins ao retorno do filho ao uso de álcool. Escuta sem transformar a associação em certeza e pergunta como isso afeta o dia. Em privado, verifica também se há ameaça ou medo em casa. Esse contexto vai orientar o cuidado junto da avaliação da cefaleia nova, não substituí-la.
Prescrição- Escolha as perguntas sobre ideias, preocupações, função e expectativas conforme o que falta; amplie se necessário, sem cota fixa.
- Pergunte o que mudou perto do início da dor e integre a resposta à caracterização clínica; coincidência temporal não prova causalidade.
- Quando a pessoa chorar, não peça desculpa e não mude de assunto; espere, e a próxima frase dela costuma ser a mais importante
14h18 — fechar a consulta de hoje sem abrir o que não cabe
Cefaleia iniciada aos 52 anos é sinal de alerta, mesmo com exame neurológico normal. Confirmar se é realmente nova, comparar padrão prévio, revisar uso de analgésicos e procurar sintomas visuais, claudicação mandibular, dor temporal, febre, câncer, imunossupressão e outros achados. Discutir investigação dirigida e neuroimagem com o preceptor; suspeita de arterite de células gigantes com alteração visual exige urgência. A relação com preocupação e sono não exclui causa secundária. Você explica: “A preocupação pode estar contribuindo, e eu quero cuidar dela. Também preciso investigar esse início recente de dor na sua idade. Vamos combinar os dois caminhos e um retorno que seja possível para a senhora.” Antes de adiar a conversa familiar, pergunte em privado se há medo, ameaça, agressão ou risco de autoagressão.
Prescrição- Nomeie o medo que ela nomeou e responda a ele; tranquilização genérica não desfaz medo específico
- Antes de agendar conversa mais longa, verificar segurança hoje: violência, risco de suicídio, incapacidade de cuidar de si e sinais clínicos de urgência não ficam para o retorno.
- Registre hoje, em texto, a frase dela sobre o filho e a data de dezembro; se ficar só na sua memória, some no próximo plantão
Dez dias depois, 8h30 — o genograma em nove minutos
Retorno agendado, trinta minutos. Você pega uma folha, vira para ela e desenha enquanto ela fala. Começa por três perguntas: quem mora nesta casa com a senhora; quem é de quem; e quem entrou ou saiu de casa no último ano. Sai isto: Cordelia, 52, círculo; Gumercindo, o marido, quadrado com X dentro, morto há três anos aos 58; dois filhos pendurados na vertical, Ifigenia, 30, à esquerda, e Dalmo, 26, à direita; Ifigenia saiu de casa há oito meses e levou Wilfrido, 6, o neto; Dalmo mora com a mãe. A linha fechada em volta de quem dorme ali hoje envolve duas pessoas: Cordelia e Dalmo. Você desenha duas linhas paralelas entre Cordelia e Ifigenia — vínculo muito forte — e uma linha em ziguezague entre Cordelia e Dalmo, com a legenda escrita ao lado, porque ziguezague é convenção que nem todo leitor conhece. E aí a folha diz, sem você ter perguntado nada disso, uma coisa que quatro meses de consulta não disseram: a casa perdeu três pessoas em três anos e ganhou um problema, e a única pessoa de quem Cordelia depende mudou de endereço oito meses atrás.
Prescrição- Desenhe com a pessoa vendo e deixe que ela corrija; um genograma feito de costas é um interrogatório com papel
- Feche a linha do domicílio antes de qualquer outra coisa — quem dorme ali hoje é o dado que decide visita, plano e aviso de alta
- Escreva a legenda das linhas que você usar na própria folha; o desenho vai ser lido por quem não estava aqui
8h39 — o ecomapa em três minutos, e o plano com quem vai executá-lo
Um círculo em volta das duas pessoas da casa e três minutos de perguntas: com quem a senhora conta, e conta para quê. Saem quatro linhas — a unidade de saúde, grossa; a igreja, fina e semanal; uma vizinha, fina; e a Ifigenia, grossa, mas a duas horas de ônibus. Nenhuma linha sai do Dalmo para fora da casa: nem trabalho, nem amigo, nem serviço. É a linha que falta que decide o plano. E o plano se negocia com quem vai executá-lo — que é ela: 'Dona Cordelia, do jeito que está, a senhora está sozinha nisso. Eu queria propor três coisas, e a senhora me diz o que dá.' A analgesia continua. A segunda coisa é a Ifigenia — não para resolver o Dalmo, mas para a Cordelia não ser a única. A terceira é abrir a porta para o Dalmo, e aqui a frase é dela, não sua: 'O que a senhora acha que ele aceitaria?' — 'Vir junto comigo ele talvez venha, doutor. Sozinho ele não vem.'
Prescrição- Pergunte com quem a pessoa conta e para quê; a resposta separa a instituição que está no papel da que está na vida
- Ausência de rede externa pede perguntar sobre isolamento e desejo de apoio; não rotular a pessoa como problema futuro.
- Combine o plano com quem vai executá-lo e registre o que ela concordou em fazer, não o que você orientou; e registre, na última linha, o que ela pediu que não fosse dito na frente de quem
Como saber se está funcionando
Uma consulta centrada na pessoa não se avalia pela sensação de que correu bem — corre bem com frequência e não muda nada. Ela se avalia por sete parâmetros observáveis, e a maior parte deles se mede no próprio prontuário, sem depender da memória de ninguém.
O horizonte de tempo é diferente do de um capítulo clínico. Alguns desses parâmetros respondem na mesma consulta; outros só respondem na seguinte, porque o que se está tratando é uma relação e não um sintoma. Não confunda: ausência de resposta em uma semana quase nunca significa que a abordagem falhou, e presença de resposta imediata quase nunca significa que ela funcionou.
Esperado: Registrar o motivo que a pessoa expressou, inclusive quando ele for apenas cefaleia, e preocupações adicionais se relatadas. Na avaliação, indicar síntese clínica e incertezas.
Se não melhora: Se o motivo foi cefaleia e a pessoa não indicou outra demanda, isso pode ser suficiente. Se restou dúvida sobre o que esperava, registrar a dúvida sem inventar conteúdo e retomar quando oportuno.
Esperado: Verificar se a pessoa teve oportunidade de apresentar suas demandas e se as prioridades foram pactuadas. A média de um estudo não é meta de número de assuntos por consulta.
Se não melhora: Observar uma consulta com consentimento e discutir com o preceptor se há interrupção ou documentação incompleta; um assunto único também pode ser legítimo.
Esperado: Revisar o diagnóstico e a experiência do paciente quando a evolução divergir do esperado; não aguardar uma terceira consulta como limiar obrigatório.
Se não melhora: Se a repetição continuar depois de a agenda ter sido explorada, reabra o diagnóstico — pode ser que o assunto seja mesmo o sintoma e que o diagnóstico esteja errado, e isso é raciocínio clínico, não abordagem familiar
Esperado: A pessoa consegue explicar a hipótese, o que ficou menos provável, o que permanece incerto e quando procurar ajuda. Não exigir que repita uma exclusão definitiva que a avaliação não demonstrou.
Se não melhora: Se ela voltar com o mesmo medo depois de exame normal, o medo respondido não era o medo dela. Pergunte de novo, com outra palavra: o que a senhora tinha medo de que fosse
Esperado: Uma lista de quem mora ali, com idade e vínculo, e a data. Um genograma sem data é um documento sobre uma família que talvez não exista mais
Se não melhora: Confirmar mudanças relevantes sem presumir que toda família necessariamente mudou. Atualizar a data e registrar estabilidade quando confirmada.
Esperado: Que a pessoa relate ter feito o que ela concordou em fazer. O teste do plano negociado é você conseguir dizer, antes do retorno, o que ela aceitou — se você só consegue dizer o que orientou, não houve negociação
Se não melhora: Plano não executado é primeiro um problema de acordo e só depois um problema de adesão. Refaça a pergunta de expectativa antes de refazer o plano
Esperado: Vínculo pode aparecer como confiança, compreensão do plano, liberdade para discordar e continuidade possível. Revelar assuntos novos é um indicador, não a única prova de vínculo.
Se não melhora: Se a pessoa deixa de vir, isso é dado e não fracasso pessoal — mas vale checar duas coisas antes de concluir: se ela ganhou dificuldade de acesso ao serviço, e se a última consulta terminou com ela sendo corrigida
Onde o erro machuca
O dano: A palavra oculta põe a responsabilidade na pessoa e, com ela, um tom de desconfiança que atravessa a consulta inteira. Quem entra numa consulta procurando o que o paciente esconde encontra resistência, e a resistência confirma a suspeita — o erro se retroalimenta e termina em rótulos como paciente difícil ou queixoso
Como pegar a tempo: Trate como agenda não perguntada, que é o que ela é. Na esmagadora maioria das vezes a pessoa contaria se a pergunta fosse feita e se houvesse tempo de responder. Troque o que ela está escondendo por o que eu ainda não perguntei, e a técnica muda sozinha
O dano: A consulta vira questionário. As perguntas de experiência de adoecimento só funcionam quando parecem interesse; enfileiradas, parecem protocolo, e a pessoa passa a responder por educação. Ainda por cima estoura o tempo, e o roteiro deixa de ser praticado por ter sido praticado errado uma vez
Como pegar a tempo: Duas perguntas, escolhidas pelo que falta. Os próprios autores do roteiro escrevem que não é necessário explorar todos os itens e que duas, talvez uma, bastam. Se a pessoa já disse a ideia dela sobre a causa, não pergunte a ideia; pergunte outra coisa
O dano: É o pior dos dois mundos: a pessoa gastou o esforço de contar e o serviço não guardou. Na consulta seguinte, com outro profissional, ela vai ter que contar tudo de novo — e a segunda vez custa mais que a primeira, porque a primeira não serviu para nada. É a forma mais eficiente de ensinar alguém a não contar
Como pegar a tempo: Cinco linhas em texto, no mesmo dia: quem mora, o que mudou no último ano, quem é o cuidador principal, quais vínculos externos a família usa, e o que não pode ser repetido na frente de quem. Se o desenho ficou em papel, escreva o que ele mostra — texto o sistema guarda
O dano: Vira interrogatório genealógico. A pessoa responde a uma sequência de perguntas sobre parentes sem saber para onde vão, o profissional escreve de costas, e o instrumento perde a metade que mais rende: a correção. Boa parte do valor clínico do genograma vem do que a pessoa corrige quando vê o desenho errado
Como pegar a tempo: Vire o papel, desenhe enquanto ela fala, mostre o que você entendeu e pergunte se está certo. O trabalho brasileiro sobre o instrumento observa exatamente isso — as famílias se sentiram valorizadas por estar contribuindo, e a construção facilitou a comunicação
O dano: Quebra de sigilo, e das piores, porque acontece com boa intenção e no meio de uma conversa de cuidado. O genograma agrava o risco: ele concentra, numa folha só, informação sobre pessoas que nunca consentiram nada e que não estavam na sala. Um genograma lido em voz alta numa reunião de equipe pode expor uma paternidade, um diagnóstico ou uma violência
Como pegar a tempo: Pergunte, na hora do registro, o que pode ser dito e para quem, e escreva a resposta. A doutrina do sigilo, de quem pode ler o prontuário e do que nunca entra nele é de O documento que você mais escreve, nos capítulos de Comunicação; o que é seu é lembrar que família não é uma pessoa e que consentimento de uma não é consentimento das outras
O dano: É o erro simétrico e o mais difícil de enxergar, porque parece virtude. A consulta explora, acolhe, negocia — e termina sem diagnóstico, sem conduta e sem data. Perguntar a expectativa da pessoa não transfere para ela a responsabilidade técnica, e plano conjunto não significa plano da pessoa: significa plano seu, apresentado, discutido e ajustado ao que ela vai conseguir fazer
Como pegar a tempo: Ao fim da consulta, confira três coisas por escrito: qual é a hipótese, o que foi decidido e quando é o retorno. Se as três não estiverem no registro, a consulta foi uma conversa. E vale o inverso do capítulo de prevenção quaternária e multimorbidade: explorar contexto nunca é motivo para deixar de fazer o que estava indicado
O que dizer ao paciente e à família
Sete situações em que a frase certa custa dez segundos e decide a consulta. Elas não substituem os capítulos que ensinam a conduzir conversa difícil — má notícia, prognóstico e consentimento têm cada um o seu capítulo nesta apostila, e a técnica da conversa pesada está resolvida lá. O que está aqui é a frase curta de quem está fazendo outra coisa e precisa abrir, fechar ou proteger um assunto sem quebrar o ritmo.
Duas delas são ditas quando a consulta já acabou, e são as mais difíceis exatamente por isso. Treine essas duas antes das outras: com o próximo paciente na porta, quem não tem a frase decorada não a improvisa.
Você abre espaço e a pessoa fecha: é só a dor mesmo, doutor
“"Tudo bem, e a gente vai cuidar da dor. Só uma coisa antes: a senhora tem essa dor desde fevereiro e veio hoje. Tem alguma coisa que mudou por volta de janeiro, em casa, no trabalho, com alguém?"”
Não diga: Respeitar se a pessoa não quiser explorar o contexto. Explicar por que a pergunta pode ajudar e manter a assistência clínica; não insistir como se tivesse direito a uma revelação.
A pergunta do batente: a pessoa já está de pé e diz só mais uma coisa
“"Espera, senta um minuto. Isso que a senhora acabou de falar é importante e eu não quero ouvir na porta. Hoje eu tenho três minutos: me conta o essencial, e se for maior que três minutos eu marco a senhora para semana que vem, num horário que dê."”
Não diga: Ouvir de pé, com a mão na maçaneta, e responder alguma coisa genérica para encerrar. Evite também a saída oposta, de abrir um assunto de vinte minutos com o próximo paciente esperando — prometer tempo que não existe custa a consulta seguinte e a sua credibilidade
Perguntar quem mora na casa sem soar como fiscalização
“"Dona Cordelia, eu preciso entender a sua casa, porque isso muda o que eu vou propor. Quem mora aí com a senhora hoje? E mudou alguém no último ano, alguém saiu ou chegou?"”
Não diga: Perguntar quantas pessoas moram na casa e quanto ganham, na sequência, que é a estrutura de um cadastro e é lida como avaliação de benefício. Evite também explicar demais antes de perguntar: uma frase de motivo basta, e três frases de justificativa fazem a pergunta parecer maior do que é
Pedir para desenhar a família, com a pessoa vendo
“"Eu vou desenhar aqui a sua família enquanto a senhora fala, e vou virar o papel para a senhora ver — se eu errar alguma coisa, a senhora me corrige. Não é ficha nem cadastro; é para eu enxergar de uma vez quem é quem e quem está com quem."”
Não diga: Desenhar de costas, com a folha voltada para você. Evite também chamar o desenho de genograma sem explicar — a palavra não diz nada para a pessoa e cria a impressão de exame, quando a coisa toda é uma árvore de família
A pessoa conta algo sobre outra pessoa da casa e você vai registrar
“Vou registrar o necessário para cuidar da senhora e evitar que precise recontar tudo. Informação sobre seu filho será identificada como relato seu, sem fechar diagnóstico dele. Podemos conversar sobre o que lhe preocupa no registro e proteger o acesso; há informações essenciais à segurança que preciso documentar, explicando por quê.”
Não diga: Escrever sem avisar, e escrever adjetivo em vez de fato — filho alcoolista é rótulo sobre alguém que não é seu paciente; retomou uso de álcool em dezembro, segundo relato da mãe é fato, com fonte. Evite também prometer que ninguém mais vai ler: você não controla isso e não precisa prometer para ser confiável
Perguntar sobre o uso de álcool de um familiar sem transformar a casa em réu
“"A senhora falou que ele voltou a beber. Eu não vou tratar ele por tabela, e ele não é meu paciente hoje. O que eu preciso saber é o que isso está fazendo com a senhora: a senhora dorme? Come? Tem alguém dividindo isso com a senhora?"”
Não diga: Não diagnosticar nem tratar o familiar ausente por tabela. Perguntas proporcionais sobre álcool, ameaças e comportamento podem ser necessárias para avaliar a segurança e a sobrecarga da paciente; faça-as sem rótulos ou culpabilização.
A pessoa pergunta o que você vai fazer com aquele desenho
“"Fica no seu prontuário e serve para três coisas: eu não esquecer, quem me substituir não precisar recomeçar do zero, e a gente enxergar quem pode ajudar. Se algum dia a senhora quiser que eu tire alguma coisa dali, me fala que a gente vê o que dá."”
Não diga: Responder que é só para o serviço, que é verdade e soa como se a informação não fosse dela. Evite também prometer apagar o que já foi escrito: o que se corrige no prontuário se corrige por registro novo, e como se faz isso é do capítulo sobre prontuário, documentação e sigilo
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
É do profissional de saúde graduado, e há quem restrinja à enfermagem
O trabalho brasileiro que descreve a aplicação do genograma e do ecomapa na Estratégia Saúde da Família conclui que os instrumentos devem ser utilizados por profissional de saúde graduado, e registra que alguns estudos enfatizam a utilização somente por enfermeiro. O argumento é de conteúdo: o desenho concentra informação sensível sobre relações, doenças e mortes, e a leitura clínica dele exige conhecimento técnico-científico e habilidade de observação e comunicação.
Mello DF, Viera CS, Simpionato E, Biasoli-Alves ZMM, Nascimento LC. Genograma e ecomapa: possibilidades de utilização na estratégia de saúde da família. Rev Bras Cresc Desenv Hum, 2005 (a paginação declarada diverge entre o cabeçalho e a citação do próprio arquivo).
É competência do agente comunitário de saúde no território
O material de ensino federal mais recente sobre abordagem familiar é dirigido ao agente comunitário de saúde e ao agente de combate às endemias, e anuncia na apresentação que vai ensiná-los a construir genograma e a montar ecomapa. O argumento é de posição: quem entra nas casas, conhece a composição real dos domicílios e acompanha as mudanças ao longo do ano é o agente, não o médico — e o dado colhido por quem não entra na casa é sempre de segunda mão.
Brasil. Ministério da Saúde; Conasems; UFRGS. Abordagem familiar no território da APS. E-book 14 do Programa Saúde com Agente. Brasília, 2023.
É competência obrigatória do médico residente, exigível ao fim do primeiro ano
A matriz federal de competências dos programas de residência em Medicina de Família e Comunidade exige, entre as competências ao término do R1, dominar a utilização de instrumentos de abordagem familiar — genograma, ECOMAPA, Círculo Familiar e Escala de Coelho. O argumento é de responsabilidade: quem responde pelo plano terapêutico precisa dominar o instrumento que o fundamenta, e delegar a coleta não delega a decisão.
Resolução CNRM nº 9, de 30 de dezembro de 2020, e a matriz anexa; obrigatória em todo o território nacional a partir de 1º de março de 2022.
Os documentos descrevem públicos e objetivos diferentes; isso não estabelece competição ou exclusividade profissional. A equipe pode colaborar na coleta conforme capacitação, atribuições e sigilo. O interno confirma os dados relevantes com a pessoa e discute sua interpretação com o preceptor. Uma matriz de residência é referência de progressão, não requisito de autonomia do estudante.
Antes — a experiência primeiro, o interrogatório depois
A recomendação principal do roteiro brasileiro de entrevista clínica centrada na pessoa, seguindo o modelo de Smith, é que a exploração da experiência de adoecimento anteceda a agenda médica, isto é, as perguntas voltadas para os diagnósticos orgânicos. O argumento é que a pergunta fechada muda o registro da conversa: depois de meia dúzia de perguntas de sim ou não, a pessoa passa a responder no formato que lhe foi ensinado ali, e a narrativa não volta.
Wenceslau LD, Fonseca VKT, Dutra LA, Caldeira LG. Um roteiro de entrevista clínica centrada na pessoa para a graduação médica. Rev Bras Med Fam Comunidade, 2020;15(42):2154.
Depois — ou entremeado, conforme o problema
O mesmo relato admite explicitamente a inversão: nada impede que, após a pactuação da agenda e da primeira pergunta aberta, o entrevistador siga para a exploração dos atributos do sintoma e, na sequência, explore alguns dos componentes seguintes. O argumento é de segurança clínica: em queixa com potencial de gravidade, adiar a caracterização do sintoma para depois de cinco perguntas de contexto atrasa a identificação do que não pode esperar.
O mesmo artigo, na discussão — a divergência está dentro da própria fonte, e não entre fontes.
Decida pela gravidade possível da queixa, e não pela sua preferência de estilo. Quando a queixa admite hipótese que exige ação imediata — dor torácica, dispneia, sangramento, febre em imunossuprimido, dor abdominal aguda —, caracterize primeiro e explore depois; a exploração não some, só muda de lugar. Quando a queixa é crônica, recorrente ou inespecífica, que é a maior parte da atenção primária, explore antes: nesses casos a caracterização feita primeiro consome o tempo inteiro e a experiência nunca chega.
Registra-se, porque é informação clínica do seu paciente
O que a família faz, o que ela adoeceu e como ela se organiza determina a conduta e o prognóstico do paciente que está na sua frente; sem isso no registro, a próxima equipe recomeça do zero e o plano não se sustenta na troca de plantão. O sistema brasileiro de registro reforça essa lógica ao separar o motivo da consulta, no subjetivo, do problema avaliado, na avaliação: o motivo pode ser uma pessoa, e há campo para ele.
Manual do prontuário eletrônico do cidadão do e-SUS APS, Ministério da Saúde, capítulo de atendimentos.
Registra-se o mínimo, porque são dados de terceiros que não consentiram
Um genograma concentra, numa folha, diagnóstico, uso de substância, paternidade, morte e conflito de pessoas que nunca entraram no consultório, não foram informadas e não consentiram com nada. Cada uma dessas pessoas pode ser paciente de outro profissional da mesma unidade, e o registro no prontuário de um terceiro escapa de qualquer controle que ela pudesse exercer sobre a própria informação.
Não encontrei documento brasileiro que trate especificamente do registro de dados de familiares no prontuário do paciente; a posição está formulada aqui a partir da doutrina geral de sigilo e proteção de dados, e registro que a formulação é minha.
O genograma organiza hipóteses e recursos, não determina culpa, diagnóstico de um familiar ausente ou autorização para compartilhar informação. Confirmar com a pessoa quem participa do cuidado e o que pode ser comunicado. Registrar apenas o necessário, com data, fonte do relato e acesso protegido; convivência, casamento ou posição na árvore não tornam alguém representante automático. Explicar quando a documentação de informação essencial à segurança precisa ser mantida apesar de pedido de omissão; acolher a preocupação e restringir detalhes e acesso, sem prometer apagar ou nunca registrar.
O raciocínio, em voz alta
Terça-feira, 9h20, unidade básica de saúde. Rosaura Xerem tem 71 anos, é aposentada, e é a terceira vez em dois meses que ela vem por dor no estômago. As duas consultas anteriores registram epigastralgia, sem sinais de alarme, sem perda de peso, sem vômito, sem melena; a primeira prescreveu omeprazol por quatro semanas e a segunda repetiu e pediu endoscopia, que está na fila. Hoje ela chega vinte minutos antes do horário, senta na primeira cadeira do corredor e fica olhando a porta. Quando entra, senta na ponta da cadeira, com a bolsa no colo, e diz que a dor continua igual. Ao longo da consulta ela pergunta duas vezes se o senhor não pode ver a neta dela também, que tem dezesseis anos e está com o intestino preso.
O que salta antes de qualquer pergunta
A repetição de epigastralgia aos 71 anos exige conferir evolução e prioridade da endoscopia. Chegar cedo e sentar na ponta da cadeira não distingue ansiedade de dor ou urgência. O pedido sobre a neta abre outra demanda, mas não substitui a investigação da paciente presente.
A pergunta que abre, e o esgotamento da lista
'Dona Rosaura, o que a senhora quer resolver hoje?' Noventa segundos sem interromper. Ela fala da dor, fala da fila da endoscopia, e para. 'E o que mais?' — a neta. 'E o que mais?' — silêncio de quatro segundos. 'É que eu tô com uma coisa presa aqui, doutor.' 'E o que mais?' 'Não, é isso.' A lista está fechada, e o item que interessa apareceu no terceiro pedido, depois de dois silêncios.
Pactuar, e escolher duas perguntas
'A gente cuida bem de um ou dois assuntos por consulta. A endoscopia já está marcada e eu vou conferir a fila hoje. A neta eu marco para a semana que vem, com ela presente, porque eu não posso atender alguém que não está aqui. E essa coisa presa, a senhora quer falar hoje?' Ela quer. Aí vão duas perguntas do AIPFES, e nenhuma delas é sobre o estômago. Preocupações, na variante da data: 'A dor começou em setembro. O que mudou por volta de setembro?' E sentimentos, por último: 'Como isso tem mexido com a senhora?'
O que aparece
A neta, de dezesseis anos, está grávida de quatro meses. Rosaura descobriu em setembro, é a única que sabe, e a mãe da menina — filha de Rosaura — não sabe. A menina pediu segredo. Rosaura não dorme, não come direito e vem tendo dor desde então. O intestino preso da neta é o passaporte que ela inventou para trazer a menina ao serviço sem contar nada a ninguém.
Desenhar antes de decidir
O mapa registra Rosaura, filha e neta no mesmo domicílio, com vínculos relatados e legenda. A avó é fonte da informação de gravidez, que ainda deve ser confirmada em atendimento próprio da adolescente. Proximidade e idade não definem capacidade, representação ou autorização para quebrar sigilo; o mapa orienta apoio, sem decidir automaticamente a quem contar.
O ecomapa, em dois minutos
Um círculo em volta das três e as perguntas de sempre: com quem a senhora conta, e para quê. Sai uma linha grossa para a igreja, uma fina para uma irmã em outra cidade e uma para a unidade — que hoje é a única linha que sabe do assunto, e sabe há dez minutos. Nenhuma linha sai da neta para fora de casa: ela parou de ir à escola em agosto. Essa é a linha ausente que decide tudo.
O que é da consulta de hoje, e o que não é
Manter cuidado de Rosaura: reavaliar sintomas e prioridade da endoscopia, garantir acesso e investigar sua alimentação e sono. Em paralelo, facilitar avaliação breve da adolescente com atraso de pré-natal. Não transferir toda a consulta para uma pessoa ausente; combinar contato seguro e atendimento próprio, com privacidade.
A frase que fecha, e o combinado
“Vamos continuar investigando sua dor e organizar seu retorno. Sua neta também pode ser atendida aqui, inclusive sozinha, e merece começar o pré-natal o quanto antes. Quero ouvi-la em particular e explicar a ela o sigilo e seus limites. Vamos combinar uma forma segura de convidá-la, sem expor sua informação?”
O registro, em cinco linhas, e a linha que quase todo mundo esquece
Registrar o mínimo necessário do relato de Rosaura e a forma segura de contato. Ao atender a adolescente, avaliar capacidade, vontade, rede de apoio, violência e necessidades clínicas; a gravidez aos 16 anos não autoriza automaticamente contar à mãe. Explicar exceções de proteção e dever legal quando presentes, compartilhar apenas o necessário e não condicionar o atendimento à presença de responsável.
Faça você
Quarta-feira, 15h40. Ermelina Lombardi tem 39 anos, trabalhava como auxiliar administrativa e hoje diz que está 'em casa'. É a terceira consulta em três meses: as duas anteriores registram queimação epigástrica e insônia, exames sem alteração, omeprazol prescrito e mantido. Hoje ela entra pedindo, antes de sentar, um pedido de exame do estômago e um encaminhamento para o gastroenterologista. Diz que a queimação começou 'faz uns seis meses' e que não dorme direito. Enquanto você digita, ela olha o relógio duas vezes e comenta que precisa sair às quatro porque 'não dá para deixar sozinha muito tempo'.
Passo 1 — o que você faz nos primeiros noventa segundos
Antes de responder ao pedido, qual é a sua primeira pergunta, e por que essa e não outra? Escreva a frase que você diria, palavra por palavra.
Passo 2 — a lista
Ela trouxe pelo menos três coisas, contando o que disse de pé e o que disse olhando o relógio. Quais são? Que pergunta você faz para saber se há uma quarta?
Passo 3 — a data
Pergunte o que mudou próximo ao início da queimação e investigue também evolução, uso correto do tratamento, AINEs, sangramento, disfagia, perda de peso e outros sinais de alarme. Como esses dois conjuntos de dados mudam o plano?
Passo 4 — o desenho
Suponha que a resposta traga outra pessoa. Quais são as três primeiras perguntas do genograma, na ordem, e qual delas raramente é feita? O que você fecha com uma linha antes de qualquer outra coisa?
Passo 5 — o pedido original
Ela pediu endoscopia e encaminhamento. Depois de tudo o que apareceu, o que você faz com o pedido — e qual é a diferença entre recusar o pedido e responder à pergunta que ele estava fazendo?
Passo 6 — o registro
Escreva as cinco linhas que vão para o prontuário, incluindo a última. Qual dado sobre outra pessoa entra, em que forma, e qual não entra?
Ver como fecharíamos
Comece ouvindo o pedido de Ermelina e verificando outras demandas, sem cronômetro obrigatório. Avalie a queimação persistente, uso de omeprazol, AINEs, resposta e sinais de alarme; a pergunta sobre mudanças próximas do início complementa essa investigação. Ela relata que a mãe fraturou o fêmur em fevereiro, mudou para sua casa em março e que Ermelina deixou o emprego em abril. Confirme com quem mora, tarefas de cuidado, apoios disponíveis e o que ela deseja mudar. Um genograma breve com legenda mostra os vínculos; o ecomapa ajuda a localizar suporte real, que precisa ser confirmado. Não atribua a dispepsia automaticamente à sobrecarga nem cancele um exame indicado porque o contexto apareceu. Avalie investigação de H. pylori, tratamento e necessidade de endoscopia conforme história e protocolo, discutindo com o preceptor. Em paralelo, pactue uma ação concreta para reduzir sobrecarga e um retorno. Registre o relato como fonte, a função perdida, hipóteses clínicas, decisões e responsabilidade. Informações sobre a mãe entram apenas se pertinentes ao cuidado da filha; explique privacidade e limites de omissão de dados essenciais à segurança. A paciente mantém direito de não explorar um assunto, e isso não deve impedir a assistência.
O genograma organiza hipóteses e recursos, não determina culpa, diagnóstico de um familiar ausente ou autorização para compartilhar informação. Confirmar com a pessoa quem participa do cuidado e o que pode ser comunicado. Registrar apenas o necessário, com data, fonte do relato e acesso protegido; convivência, casamento ou posição na árvore não tornam alguém representante automático. Dados essenciais à segurança podem precisar de registro; explicar isso sem prometer omissão absoluta.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Simule a consulta de Cordelia: abra a agenda, reconheça o alerta da cefaleia nova após os 50 e explore contexto sem concluir que é emocional. Desenhe um mapa breve com legenda e formule duas ações úteis, verificando consentimento para envolver familiares. Peça ao colega que explique o plano recebido.
Em 30 dias
Realize uma consulta observada com consentimento, discutindo com o preceptor escuta, sinais de alerta, registro mínimo de dados familiares e continuidade. Complete um genograma ou ecomapa apenas se responder a uma pergunta clínica. Verifique no retorno se a ajuda combinada ocorreu e quais barreiras persistem.
Agora atenda
Atenda Cordelia, de 52 anos, com cefaleia iniciada há quatro meses e preocupação familiar. Explore agenda e função, investigue sinais de alerta e uso de analgésicos e discuta com o preceptor a investigação da cefaleia nova. Construa um mapa familiar se útil, com legenda e consentimento, sem diagnosticar o filho ausente. Encerre com prioridades, responsabilidades e retorno viável; registre relato, hipóteses e informação familiar mínima.
