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Prevenção quaternária e multimorbidade
Prevenção quaternária e manejo da multimorbidade na APS
Quando não fazer é a conduta — e como saber que não virou omissão
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Ministério da Saúde. Rename e consulta em tempo real
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Homem de 69 anos fez tomografia de abdome por dor abdominal aguda, já resolvida, sem diagnóstico definido. O laudo descreve, além do abdome normal, nódulo adrenal esquerdo de 1,8 cm, homogêneo, com atenuação de 8 HU na fase sem contraste, compatível com adenoma. O paciente é normotenso, não tem sinais de hipercortisolismo nem de excesso de catecolaminas, e chega à consulta muito assustado. Feita a avaliação funcional recomendada, que resulta normal, qual é a conduta?
O paciente que você vai ver
Quarta-feira, dez e vinte, unidade básica de saúde de bairro. Dona Ivone Marques do Carmo, 76 anos, aposentada, ex-costureira, entra com a filha e uma sacola plástica de supermercado. Ela senta, coloca a sacola em cima da mesa e diz que caiu no domingo, no corredor de casa, indo ao banheiro de madrugada. Não bateu a cabeça, não quebrou nada, ficou com um hematoma roxo em toda a coxa esquerda e um susto que não passou. Foi a terceira queda em cinco meses.
A filha abre a sacola e alinha as caixas na mesa. São quatorze: hidroclorotiazida 25 mg pela manhã, losartana 50 mg de manhã e à noite, anlodipino 10 mg pela manhã, furosemida 40 mg pela manhã, metformina 850 mg no almoço e no jantar, glibenclamida 5 mg antes das duas refeições maiores, sinvastatina 20 mg à noite, ácido acetilsalicílico 100 mg pela manhã, omeprazol 20 mg em jejum, diclofenaco 50 mg duas vezes ao dia, clonazepam 2 mg às nove da noite, amitriptilina 25 mg junto com o clonazepam, carbonato de cálcio com colecalciferol duas vezes ao dia e alendronato 70 mg às segundas-feiras. Somando as tomadas, são dezoito doses por dia, mais o comprimido semanal.
A filha também traz um pedido de exames de um cardiologista que a mãe viu uma vez, em consulta particular, há sete meses: hemograma, glicemia, hemoglobina glicada, ureia, creatinina, sódio, potássio, perfil lipídico, TSH, T4 livre, vitamina D, vitamina B12, ácido úrico, urina tipo I, eletrocardiograma, ecocardiograma, ultrassonografia de abdome total, ultrassonografia de carótidas e densitometria óssea. Nenhum deles foi colhido. A filha quer saber se a senhora pode fazer tudo pelo SUS e pergunta, com todas as letras, se não seria melhor um check-up completo, porque a mãe está caindo e a família quer descobrir o motivo.
Você pergunta há quanto tempo ela usa cada medicamento e quem indicou. O clonazepam começou há doze anos, depois que o marido morreu, com um psiquiatra que ela não vê mais; a receita é renovada na unidade desde então, sem que ninguém tenha perguntado por quê. A amitriptilina foi acrescentada há quatro anos por causa da dor no joelho e do sono ruim. O diclofenaco foi para o joelho, para tomar quando doesse, e ela toma todo dia há mais de dois anos. O omeprazol entrou junto com o diclofenaco, para proteger o estômago, e continua. A furosemida foi prescrita há dois anos, num pronto-atendimento, porque as pernas estavam inchadas — as pernas incharam alguns meses depois de o anlodipino ter sido aumentado de 5 para 10 mg. Ninguém, em nenhum momento, retirou nada.
No exame, a pressão deitada é 138 por 76 mmHg; sentada, 126 por 70; em pé, ao terceiro minuto, 96 por 58, e ela diz que fica com a vista escura quando levanta rápido — foi exatamente isso que aconteceu na madrugada de domingo. A frequência é de 78 batimentos por minuto. A boca está seca, a língua está aderida à espátula. Não há estase jugular, não há crepitação pulmonar, não há hepatomegalia e não há refluxo hepatojugular; há edema mole, sem cacifo profundo, até o terço médio das pernas, simétrico, pior no fim do dia. Ela levanta da cadeira sem apoio, mas leva onze segundos para levantar, andar três metros, virar e sentar de novo. Ela erra três dos dez itens de orientação e diz, sem que se pergunte, que anda esquecida.
Os exames que ela trouxe do posto, colhidos há duas semanas por outro motivo, mostram sódio de 128 mEq/L, potássio de 3,2 mEq/L, creatinina de 1,4 mg/dL — era 0,9 mg/dL há dois anos — e hemoglobina glicada de 6,4%. A glicemia capilar de agora, quatro horas depois do café, é 68 mg/dL, e ela conta que sente tremor e suor no meio da manhã quase todo dia, e que come um pão a mais para melhorar.
A iatrogenia é hipótese prioritária, com mecanismos plausíveis e danos já presentes, mas não exclui doença concomitante. A tarefa inicial é tratar a hipoglicemia e reavaliar os distúrbios hidroeletrolíticos, enquanto se investiga a queda e se reconcilia a prescrição. A história permite corrigir riscos sem atribuir retrospectivamente acerto ou erro a cada colega antes de conhecer as indicações originais.
Quem adoece disso
O paciente com uma doença só é a exceção, não a regra. Na Pesquisa Nacional de Saúde, com 11.697 brasileiros de 60 anos ou mais entrevistados em 2013 e 2014, 53,1% referiram diagnóstico de duas ou mais doenças crônicas: 58,3% entre as mulheres e 45,1% entre os homens, 50,8% na faixa de 60 a 69 anos, 56,8% de 70 a 79 e 53,9% acima dos 80. A consequência clínica é direta e desconfortável: mais da metade dos idosos que o interno atende está fora da população em que as diretrizes de doença única foram testadas. Aplicar cada diretriz por inteiro a esse paciente não é seguir a evidência — é extrapolá-la para gente que não estava nos ensaios.
O que sai dessa aritmética é medicamento. A Pesquisa Nacional sobre Acesso, Utilização e Promoção do Uso Racional de Medicamentos ouviu 9.019 idosos em áreas urbanas de todo o país entre setembro de 2013 e fevereiro de 2014: entre os que tinham doença crônica, 93% usavam pelo menos um medicamento contínuo e 18% usavam cinco ou mais. A polifarmácia acompanha o número de doenças de forma quase linear — 3% entre quem tem uma doença crônica e 60% entre quem tem quatro ou mais. Quatro doenças, portanto, é o ponto em que a maioria absoluta dos pacientes atravessa a linha dos cinco medicamentos.
A mesma pesquisa mostrou que a polifarmácia não se distribui por igual: 25% dos idosos da Região Sul contra 3% dos da Região Norte, 20% entre as mulheres, 26% entre os obesos, 32% entre os que haviam sido hospitalizados e 37% entre os que avaliavam a própria saúde como ruim ou muito ruim. E mostrou que a lista é curta: hidroclorotiazida (8,3%), losartana (7,6%), sinvastatina (6,7%) e metformina (5,5%) lideram, e os dez medicamentos mais citados respondem por cerca de metade de todas as citações. Quem domina bem uma dúzia de fármacos domina quase tudo o que o idoso brasileiro toma — e é nessa dúzia que estão os problemas.
Parte dessa lista já nasce marcada. Num estudo transversal com 496 idosos acompanhados por equipes de Saúde da Família em Alfenas, Minas Gerais, 32,9% usavam pelo menos um medicamento potencialmente inapropriado pelos Critérios de Beers de 2019 e 27,6% pelo Consenso Brasileiro de Medicamentos Potencialmente Inapropriados para Idosos. Ou seja: entre um quarto e um terço dos idosos atendidos na atenção primária brasileira carrega, na receita, algo que um painel de especialistas nacionais recomenda evitar. Isso não é raridade a ser lembrada em prova — é a cada terceira ou quarta pessoa da agenda da manhã.
A distância entre as doenças que a pessoa tem e os medicamentos que ela toma tem uma explicação aritmética que já foi medida. Quando se aplicam a uma única paciente idosa hipotética, com cinco doenças crônicas comuns, todas as recomendações das diretrizes específicas de cada uma dessas doenças, o resultado é uma prescrição de 12 medicamentos, 19 doses por dia distribuídas em cinco horários, mais um comprimido semanal, além de quatorze recomendações não farmacológicas e um custo mensal que, nos preços do estudo, chegava a 406 dólares. Nenhum desses medicamentos foi prescrito por engano; a soma é que é o erro.
Do outro lado da mesma conta está o que não se faz. O rastreamento de câncer do colo do útero, que reduz mortalidade e é recomendado com o grau máximo pelo próprio Ministério da Saúde, não chega a todas as mulheres que dele precisariam; a hipertensão diagnosticada frequentemente não está controlada; o diabetes segue com boa parte dos pacientes fora de meta. Um capítulo que ensinasse apenas a subtrair estaria treinando a metade errada da régua. O problema do sistema brasileiro não é excesso ou falta: é excesso concentrado em quem já procura muito o serviço e falta concentrada em quem procura pouco, muitas vezes na mesma unidade, no mesmo turno.
Um último número, para calibrar o tamanho do que está em jogo na consulta de dona Ivone. As reações adversas a medicamentos são a forma mais comum de iatrogenia no idoso, e seu risco aumenta com o uso de medicamentos inapropriados; o uso desses medicamentos está associado a quedas, imobilidade, confusão mental, fratura de quadril, hospitalização e mortalidade. O interno que revisa uma lista de medicamentos não está fazendo burocracia nem economia: está intervindo sobre a causa mais frequente de dano evitável na população que mais atende.
Por que acontece o que acontece
Excesso de medicina é uma causa de doença, e ela tem mecanismo — dois, na verdade, que funcionam em paralelo e se alimentam. Um é diagnóstico: procura-se doença em quem não tem sintoma, acha-se alguma coisa, investiga-se a coisa achada, trata-se o que a investigação encontrou, e a complicação do tratamento cai sobre uma pessoa que estava bem. O outro é farmacológico: prescreve-se um medicamento, ele produz um efeito adverso, o efeito adverso é lido como doença nova, e prescreve-se um segundo medicamento para tratá-lo. Nenhum dos dois exige má prática. Os dois funcionam melhor quanto mais competente e mais zeloso for quem os aciona.
O valor de um resultado positivo depende tanto da probabilidade pré-teste quanto da sensibilidade e especificidade. No exemplo didático de prevalência de 0,5%, mil testes com sensibilidade de 100% e especificidade de 80% produzem cinco verdadeiros positivos e 199 falsos positivos: valor preditivo positivo de aproximadamente 2,45%. A especificidade de 80% é apenas uma premissa do exercício, não um selo de qualidade para rastreamento.
Ausência de sintomas não equivale a doença rara: a probabilidade depende também de idade, exposições, antecedentes e população selecionada. Reduzir um ponto de corte costuma aumentar sensibilidade e diminuir especificidade, mas o balanço deve ser avaliado pelo objetivo do programa. Um teste bem indicado pode ajudar mesmo na atenção primária; é o conjunto de contexto, desempenho e consequência clínica que decide.
O segundo degrau é mais desconfortável, porque nele o exame acerta. Existe, em muitos órgãos, um reservatório de doença verdadeira que nunca se manifestaria. Numa revisão sistemática de autópsias de homens que morreram por outras causas, 37% dos homens entre 40 e 50 anos tinham achado histológico compatível com câncer de próstata, e essa proporção subia para 60% acima dos 79 anos. Estima-se que pelo menos um terço dos adultos abrigue pequenos carcinomas papilíferos de tireoide, a esmagadora maioria dos quais jamais produzirá sintoma. Encontrar essas lesões não é erro de laboratório: é acerto diagnóstico sem benefício possível, porque não havia o que prevenir.
A demonstração mais limpa de que esse reservatório pode ser escavado veio da Coreia do Sul. Depois que a ultrassonografia de tireoide passou a ser oferecida como acréscimo barato — de 30 a 50 dólares — aos programas de rastreamento já existentes, a taxa de diagnóstico de câncer de tireoide em 2011 era quinze vezes a de 1993, e todo o aumento é atribuível ao carcinoma papilífero. Mais de 40 mil pessoas foram diagnosticadas em 2011, contra 300 a 400 mortes por câncer de tireoide por ano ao longo da década — mais de cem diagnósticos para cada morte. E a mortalidade permaneceu estável durante todo o período. Incidência que multiplica por quinze com mortalidade que não se move é a assinatura do sobrediagnóstico: se aqueles cânceres a mais fossem os que matam, a mortalidade teria caído.
O passo seguinte é o que transforma o rótulo em dano. Praticamente todos os diagnosticados foram operados — cerca de dois terços com tireoidectomia radical e um terço com tireoidectomia subtotal. Numa análise de registros de mais de 15 mil coreanos operados, 11% ficaram com hipoparatireoidismo e 2% com paralisia de corda vocal: em números absolutos, mais de mil e seiscentas pessoas com distúrbio do cálcio e mais de trezentas com paralisia de corda vocal, boa parte delas por causa de um câncer que nunca as teria incomodado. Esse é o desfecho concreto da cadeia inteira, e ele não aparece em nenhuma estatística de mortalidade por câncer.
Nem é preciso um programa de rastreamento para entrar na cadeia: basta pedir a imagem por outro motivo. Uma revisão guarda-chuva de 20 revisões sistemáticas, reunindo 240 estudos primários, encontrou achado incidental em 45% das tomografias de tórax (IC95% 36% a 55%), em 34% das ressonâncias cardíacas, em 22% das ressonâncias de crânio e em 22% das ressonâncias de coluna. A proporção desses achados que é maligna varia muito conforme o órgão: em torno de 42% nos achados de mama, um quarto nos de rim, tireoide e ovário, entre 10% e 20% nos de próstata e cólon, e menos de 5% nos de cérebro, parótida e adrenal. Traduzindo: na maior parte das vezes, o que a imagem encontrou de brinde não é câncer — mas alguém vai ter de provar isso, e a prova custa exames, tempo e procedimento.
Achado incidental exige classificação pelo órgão, aspecto, risco individual e possibilidade de ação: investigar, acompanhar com prazo ou dispensar seguimento fundamentadamente. Ausência de relação com a queixa não significa ausência de importância. Para massa adrenal homogênea com até 10 HU em TC sem contraste, a diretriz ESE 2023 dispensa imagem adicional, independentemente do tamanho; isso não substitui a avaliação hormonal inicial indicada. Estimativas históricas de exposição à radiação de protocolos antigos ilustram um risco, mas não descrevem a conduta atual para todos os incidentalomas. Não aplicar uma cifra única de câncer induzido a qualquer paciente ou abandonar investigação de lesão suspeita por esse motivo.
No meio dessa engrenagem existe uma peça cognitiva, e ela é a razão de o mecanismo passar despercebido por médicos que sabem tudo sobre a doença: risco relativo e risco absoluto descrevem o mesmo desfecho e produzem impressões opostas. O ensaio europeu de rastreamento do câncer de próstata, com 16 anos de seguimento, comparou 72.890 homens convidados ao rastreamento com 89.351 controles. Morreram de câncer de próstata 520 no braço rastreado e 793 no controle, com razão de taxas de 0,80 (IC95% 0,72 a 0,89). Dito assim, o rastreamento "reduz em 20% a mortalidade por câncer de próstata", e a frase é verdadeira.
Com os dados absolutos desse ensaio, a mortalidade específica acumulada é aproximadamente 7,13 por mil versus 8,88 por mil, diferença de 1,74 por mil em dezesseis anos. A divisão bruta sugere cerca de 574 convidados por morte evitada; a estimativa publicada é 570, com métodos e arredondamentos próprios. Os 18 diagnósticos adicionais por morte evitada não identificam quais pessoas sofreram sobrediagnóstico e não significam que dezessete diagnósticos individuais eram desnecessários. Separar mortalidade específica, incidência adicional, sobretratamento e qualidade de vida torna a conversa mais fiel.
A mesma dupla contabilidade aparece no rastreamento que o Brasil recomenda. As diretrizes brasileiras de detecção precoce do câncer de mama, de 2015, registram a estimativa de que, a cada 2 mil mulheres convidadas ao rastreamento mamográfico ao longo de dez anos, uma teria a vida prolongada, dez mulheres saudáveis sofreriam sobrediagnóstico e sobretratamento, e duzentas sofreriam danos psicológicos importantes por resultado falso-positivo. Por mil convidadas: meia vida prolongada, cinco sobrediagnosticadas, cem com dano psicológico relevante. Isso não é um argumento contra a mamografia — é o argumento que define onde ela vale a pena, e é exatamente por isso que o convite ativo brasileiro é bienal e limitado a uma faixa de idade. Qual faixa mudou: a Nota Técnica nº 626/2025 do Ministério da Saúde ampliou o rastreamento populacional para 50 a 74 anos, contra os 50 a 69 anteriores, e registrou que o Sistema Único de Saúde não restringe o acesso, por demanda, da mulher assintomática de 40 a 49 anos ou acima de 74 que deseje o exame, desde que orientada sobre riscos e benefícios. O que não mudou é a aritmética que decide essa conversa: fora da faixa convidada o benefício rareia e o dano não.
A segunda engrenagem, a farmacológica, tem nome próprio: cascata de prescrição. Ela começa quando um medicamento é prescrito, produz um evento adverso, o evento adverso é interpretado como uma nova condição médica, e um segundo medicamento é prescrito para tratá-lo. O exemplo mais bem documentado é o que está na receita de dona Ivone. Numa coorte populacional de Ontário com 338.619 idosos hipertensos, a incidência de início de diurético de alça em 90 dias foi de 1,4% entre os 41.086 que começaram um bloqueador de canal de cálcio, contra 0,7% entre os 66.494 que começaram outro anti-hipertensivo e 0,5% entre os 231.439 que começaram um medicamento não relacionado — 577, 466 e 1.157 pessoas, respectivamente. A razão de risco contra o comparador anti-hipertensivo cresceu ao longo do trimestre: 1,68 (IC95% 1,38 a 2,05) nos primeiros trinta dias, 2,26 (1,76 a 2,92) no segundo mês e 2,40 (1,84 a 3,13) no terceiro. Em termos absolutos, a diferença de 0,7 ponto percentual significa que, a cada cerca de 140 idosos que recebem um bloqueador de canal de cálcio em vez de outro anti-hipertensivo, um recebe um diurético de alça em noventa dias que não teria recebido.
Outras cascatas têm medida parecida. Numa coorte de 44.884 idosos com demência, 4,5% dos 20.491 que receberam inibidor de colinesterase passaram a receber um anticolinérgico para incontinência urinária, contra 3,1% dos 24.393 que não receberam, com razão de risco ajustada de 1,55 (IC95% 1,39 a 1,72) — o mesmo médico prescrevendo, no mesmo paciente, uma droga colinérgica e uma anticolinérgica, que se anulam. Num estudo caso-controle com 1.253 idosos que iniciaram levodopa e 16.435 controles, o uso de metoclopramida associou-se a razão de chances de 3,09 (IC95% 2,25 a 4,26) para início de levodopa, com relação dose-resposta: o parkinsonismo induzido pelo antiemético foi tratado como doença de Parkinson.
Um painel Delphi internacional de 38 clínicos de seis países avaliou 139 cascatas candidatas e chegou a uma lista de nove consideradas clinicamente importantes, todas montadas sobre pares de classes que convivem na mesma receita.
A régua, porém, tem de valer também contra a própria tese. Quando essas nove cascatas foram testadas empiricamente num banco nacional irlandês com 533.464 adultos de 65 anos ou mais, apenas cinco se confirmaram, e a de anti-inflamatório para anti-hipertensivo apareceu invertida, com razão de sequência ajustada de 0,42 (IC95% 0,40 a 0,44) — o oposto do que um estudo caso-controle americano de 1994 havia encontrado, com razão de chances de 1,66 (IC95% 1,54 a 1,80). Plausibilidade farmacológica não é prova de que a cascata acontece na prática, e afirmar cascata sem número é o mesmo erro de raciocínio que este capítulo combate, só que virado do avesso.
O que torna a cascata difícil de enxergar é o tempo e a divisão do trabalho. As cascatas identificadas na revisão sistemática mais ampla do tema — 101 estudos — apareceram entre três meses e um ano depois do medicamento inicial. Nesse intervalo o paciente muda de serviço, de médico e de receita; quem prescreve o segundo medicamento raramente é quem prescreveu o primeiro, e quase nunca tem a data em que o primeiro começou. Sem a linha do tempo, o edema de dona Ivone é edema, e não efeito do anlodipino.
Há ainda um dano de classe que se acumula sem produzir nenhum evento reconhecível no dia a dia. Num estudo caso-controle aninhado com 58.769 casos de demência e 225.574 controles pareados na atenção primária inglesa, a exposição cumulativa a fármacos com forte atividade anticolinérgica associou-se a risco crescente de demência, com razão de chances ajustada de 1,06 (IC95% 1,03 a 1,09) na faixa de menor exposição e 1,49 (1,44 a 1,54) na maior, e associações mais fortes para antipsicóticos (1,70) e antimuscarínicos vesicais (1,65). Os autores estimam fração atribuível populacional de 10,3% — condicionada, como eles próprios anotam, à hipótese de que a associação seja causal, que um desenho observacional não pode provar. Na receita de dona Ivone, a amitriptilina tem forte carga anticolinérgica; o clonazepam acrescenta sedação, sem ser classificado como fortemente anticolinérgico.
Por fim, o mecanismo pelo qual a multimorbidade quebra a diretriz é aritmético, não conceitual. Cada diretriz foi construída em torno de uma doença, em ensaios que costumam excluir quem tem as outras. Somá-las não soma apenas comprimidos: soma alvos farmacológicos sobre os mesmos órgãos. Na receita de dona Ivone, o anti-inflamatório, o bloqueador de receptor de angiotensina e os dois diuréticos convergem sobre o mesmo glomérulo; o benzodiazepínico e o tricíclico convergem sobre o mesmo sistema nervoso; o anti-inflamatório e o antiagregante convergem sobre a mesma mucosa gástrica, e o inibidor de bomba de prótons foi acrescentado para segurar a consequência dessa convergência em vez de desfazê-la. As alterações farmacocinéticas do envelhecimento — queda de filtração glomerular, aumento da fração de gordura corporal, redução da albumina — amplificam cada uma dessas somas, e o ajuste de dose que elas exigem é assunto de capítulo próprio.

Como se apresenta de verdade
O dano por excesso de medicina não se apresenta com um nome. Ele se apresenta como queda, tontura, confusão, cansaço, inapetência, edema, obstipação, incontinência, insônia, dor de cabeça, ansiedade — o repertório inteiro de queixas inespecíficas do idoso. É por isso que ele passa: cada uma dessas queixas tem um diagnóstico diferencial longo e respeitável, e o diagnóstico que não está na lista de nenhum livro-texto de especialidade é o tratamento que o paciente já recebe.
Há, ainda assim, um punhado de apresentações típicas. Reconhecê-las é o equivalente, aqui, a reconhecer a dor precordial típica: não fecha diagnóstico, mas põe a hipótese na mesa antes de o exame ser pedido.
A sacola sem dono: polifarmácia acumulada
A apresentação mais comum é a que abre este capítulo: o paciente chega com mais medicamentos do que doenças, e nenhum deles tem um responsável atual. Cada item foi acrescentado por alguém que resolvia um problema real, num momento em que aquilo fazia sentido, e nenhum foi revisto desde então. O sinal de reconhecimento é a resposta à pergunta "quem indicou isso e quando": quando o paciente não sabe, ou nomeia um médico que ele não vê há anos, o medicamento perdeu o dono.
A polifarmácia acumulada tem uma marca temporal característica: ela cresce em degraus, e os degraus coincidem com passagens por serviços de urgência, internações e consultas com especialistas focais. Cada passagem acrescenta e nenhuma retira, porque retirar exige conhecer a história inteira, e nenhum desses pontos de contato a tem. A atenção primária deve buscar e manter uma lista completa, integrando informações de outros serviços — o que faz da revisão da lista uma competência da atenção primária, não uma gentileza.
Um detalhe de exame que costuma passar: a receita e o que o paciente toma não são a mesma lista. Quando as caixas vêm para a mesa, aparecem os medicamentos comprados por conta própria, os que sobraram de tratamentos antigos, os fitoterápicos, os anti-inflamatórios de balcão e as duas caixas do mesmo princípio ativo com nomes comerciais diferentes, tomadas as duas.
O sintoma novo que é o medicamento velho: a cascata montada
A cascata se apresenta como uma coincidência temporal que ninguém checou. O paciente relata um sintoma que começou "há um tempo", e o medicamento que o causa foi iniciado ou aumentado semanas ou meses antes. A revisão sistemática mais ampla do tema descreve o intervalo típico entre três meses e um ano, o que é tempo suficiente para que a associação desapareça da memória de todo mundo, inclusive do paciente.
O padrão que grita é o par que se anula ou o par que se soma. Anulam-se: inibidor de colinesterase com anticolinérgico vesical; betabloqueador com broncodilatador beta-agonista; diurético com medicação para bexiga hiperativa. Somam-se: dois anti-hipertensivos com um terceiro que foi acrescentado para tratar o edema causado pelo primeiro; um benzodiazepínico com um tricíclico e um anti-histamínico, todos sedativos; um anti-inflamatório com um antiagregante e um corticoide sobre a mesma mucosa. Quando duas drogas da mesma receita trabalham em sentidos opostos, uma delas quase sempre está lá para consertar a outra.
A cascata clássica da atenção primária brasileira é a do edema. O bloqueador de canal de cálcio di-hidropiridínico produz edema de tornozelo por vasodilatação arteriolar, sem retenção de sódio e sem congestão; o edema é lido como insuficiência cardíaca ou como "retenção de líquido"; entra o diurético de alça; o diurético não resolve, porque o mecanismo não é volêmico; a dose sobe; e o paciente ganha hipotensão postural, hiponatremia, hipopotassemia e piora de função renal. O exame que reduz a probabilidade de congestão: ausência de estase jugular, de crepitação, de hepatomegalia e de refluxo hepatojugular, com edema mole, simétrico, vespertino e sem dispneia.
A segunda cascata mais frequente é a psicotrópica, e ela é mais difícil de enxergar porque o sintoma que ela produz — lentidão, esquecimento, apatia — é atribuído à idade. Um benzodiazepínico crônico produz comprometimento cognitivo; o comprometimento é lido como demência inicial; entra um anticolinesterásico; o anticolinesterásico produz sintomas urinários; entra um anticolinérgico vesical; o anticolinérgico piora a cognição. O paciente termina com três medicamentos para um problema que o primeiro deles criou.

O achado que virou o paciente
Uma segunda apresentação é a do paciente que chega trazendo um laudo, não uma queixa. O exame foi pedido por outro motivo — dor abdominal que já passou, investigação de trauma, avaliação pré-operatória, um pacote de check-up — e voltou com um nódulo, um cisto, uma placa, uma "imagem a esclarecer". A partir daí a pessoa passa a se apresentar pelo achado: ela não vem por sintoma, vem por causa da coisa que está dentro dela.
O que caracteriza clinicamente essa apresentação é a ausência de correlato. Não há sintoma que combine com o achado, não há sinal no exame físico, não havia hipótese diagnóstica antes do exame. É a situação em que a probabilidade pré-teste da doença era baixa e o exame subiu a probabilidade pós-teste muito menos do que o laudo faz parecer — porque o laudo descreve a imagem, não o risco.
O achado incidental não é raro nem excepcional: em quase metade das tomografias de tórax há algo que não se estava procurando. A conduta correta quase nunca é ignorar, e quase nunca é investigar tudo — é classificar o achado numa das três categorias que decidem a conduta, e registrar a categoria por escrito.
A pré-doença: o rótulo que chega antes do sintoma
Uma terceira apresentação é a do paciente que não tem doença e tem diagnóstico. Osteopenia, pré-diabetes, pré-hipertensão, esteatose hepática leve, tireoidite subclínica com hormônios normais, insuficiência de vitamina D: categorias construídas a partir de pontos de corte em variáveis contínuas, que descrevem risco e são lidas como enfermidade. A pessoa sai da consulta com um nome, e o nome muda o comportamento dela, o comportamento da família e o número de consultas do ano seguinte.
O sinal clínico dessa apresentação é a pergunta que o paciente faz: "então eu tenho, ou eu não tenho?". A resposta honesta é que ele tem um número, e que o número indica uma probabilidade um pouco maior de alguma coisa acontecer daqui a muitos anos. Dizer isso é mais difícil do que prescrever, e é a conduta.
O paradoxo que sustenta essa apresentação foi enunciado há décadas e está no material do Ministério da Saúde: uma medida preventiva pode trazer grande benefício à comunidade e oferecer muito pouco a cada indivíduo que participa dela. Reduzir em 3% a média da pressão arterial de uma população, ou em um quilograma o peso médio, reduz cerca de um quarto dos problemas clínicos e dos tratamentos daquela população — e não muda quase nada para a pessoa sentada à sua frente. Quando a lógica populacional é aplicada individualmente sem essa tradução, ela vira rótulo e prescrição para quem não ia adoecer.
O paciente que veio pedindo o exame
Muito frequentemente o excesso não é oferecido: é solicitado. O paciente chega pedindo o check-up, o PSA, a ressonância, a ultrassonografia de tireoide, a vitamina D. Quase sempre há uma história por trás do pedido — alguém da família adoeceu, uma reportagem, uma campanha, um exame que o vizinho fez e "descobriu a tempo". O pedido é uma pergunta emocional disfarçada de pedido técnico, e ela costuma ser: eu vou ficar bem?
O Ministério da Saúde é explícito sobre a obrigação nesse ponto: cada vez que o paciente demandar uma intervenção de rastreamento que não corresponda às recomendações de melhor comprovação científica, o profissional tem a responsabilidade ética de esclarecer os motivos da não indicação e de pactuar com ele, juntos, qual a melhor opção. Não é uma sugestão de estilo de comunicação; é a conduta descrita no documento que orienta o rastreamento na atenção primária brasileira.
Quando o tempo é curto: o idoso frágil e a expectativa de vida
A mesma intervenção muda de sinal conforme o tempo que a pessoa tem pela frente, e isso é medível. No ensaio europeu de rastreamento de câncer de próstata, o número de homens que precisam ser convidados ao rastreamento para evitar uma morte caiu de 1.947 aos nove anos de seguimento para 962 aos onze, 742 aos treze e 570 aos dezesseis. Aos nove anos a redução de mortalidade sequer alcançava significância estatística — razão de taxas 0,84, com intervalo de confiança de 0,70 a 1,00. O benefício do rastreamento é uma função do tempo: ele existe, mas leva mais de uma década para aparecer.
O dano, ao contrário, é imediato. A biópsia é hoje, a incontinência é neste ano, a ansiedade começa no dia do resultado. Uma intervenção cujo benefício só se materializa em dez ou quinze anos e cujo dano se materializa em semanas tem balanço favorável para quem tem vinte anos pela frente e desfavorável para quem tem cinco. É por isso que a régua de rastreamento no idoso não é a idade cronológica, e sim a expectativa de vida somada à preferência da pessoa — e é por isso que as próprias sociedades que defendem o rastreamento de próstata condicionam a discussão a uma expectativa de vida maior que dez anos.
Fragilidade pode ser avaliada por perda ponderal não intencional, lentidão, fadiga, fraqueza e baixa atividade, junto da funcionalidade. Ela aumenta vulnerabilidade, mas não determina sempre fazer menos: reabilitação, nutrição, prevenção de quedas e tratamentos de benefício próximo podem precisar ser intensificados. Não inferir sobrevida individual apenas de um teste.
A fronteira com o fim da vida precisa ficar clara, porque as duas coisas se confundem e não são a mesma. Retirar um medicamento de alguém que ainda tem anos pela frente porque o balanço entre benefício e dano ficou desfavorável é prevenção quaternária. Suspender tratamentos que não servem mais ao objetivo do cuidado numa pessoa em fim de vida é cuidado paliativo, tem outra lógica, outro momento e outra conversa — e tem capítulo próprio. O erro de confundir as duas produz dois danos simétricos: tratar o paciente em fim de vida como se fosse crônico estável, e desassistir o crônico estável como se estivesse morrendo.
A apresentação inversa: como o subuso chega à consulta
O paciente subtratado não chega com sacola. Ele chega tarde, chega pouco, ou não chega. Quando aparece, aparece com a doença já instalada: o câncer de mama que já é palpável, a insuficiência cardíaca que já descompensou, o pé diabético que já ulcerou, o acidente vascular cerebral em quem tinha fibrilação atrial documentada e nenhum anticoagulante.
A pista clínica de que se está diante de subuso, e não de excesso, é sempre a mesma: existe uma intervenção com benefício demonstrado, disponível, cujo efeito é grande em termos absolutos, e o paciente não a está recebendo. Anticoagulação em fibrilação atrial de alto risco, controle pressórico em hipertensão estabelecida, tratamento da tuberculose até o fim, vacinação, citopatológico de colo em mulher que nunca fez, insulina em quem precisa de insulina. Nesses casos, a conduta de não fazer não é prudência: é a mesma omissão que este capítulo ensina a evitar, com o sinal trocado — e o tamanho do problema no Brasil está na tabela deste capítulo.
Como fechar o diagnóstico
Neste capítulo o exame que fecha o diagnóstico não sai do laboratório: é a lista de medicamentos lida uma a uma, e a linha do tempo que liga cada medicamento ao sintoma que apareceu depois dele. Nenhum exame de imagem, nenhuma dosagem sérica e nenhum encaminhamento substituem essas duas coisas, e as duas cabem numa consulta.
A ordem importa. Primeiro se estabelece o que a pessoa quer daquele tratamento; depois se lê a lista; depois se procura a cascata; depois se decide o que sai; e só então se pensa em pedir alguma coisa — quase sempre pouca.
A pergunta que precede qualquer pedido: que decisão isto muda?
Antes de assinar qualquer exame, a pergunta é uma só: qual conduta eu vou tomar se o resultado vier alterado, e qual conduta eu vou tomar se vier normal? Se as duas respostas forem iguais, o exame não é necessário — no melhor caso ele não muda nada, e no pior ele encontra alguma coisa que não se estava procurando e transforma uma consulta em uma investigação.
Essa régua tem consequência operacional imediata sobre o pedido de check-up. Um painel de vinte exames pedido a uma pessoa assintomática não é uma decisão; é vinte decisões tomadas de uma vez sem que nenhuma tenha sido pensada. E cada exame de um painel carrega a mesma aritmética do rastreamento: valores de referência são construídos para conter 95% da população saudável, de modo que, mesmo numa pessoa perfeitamente hígida, a chance de pelo menos um resultado cair fora da faixa cresce com o número de exames pedidos. Vinte exames independentes com 5% de chance de resultado fora da faixa cada um dão 64% de chance de pelo menos um resultado alterado — em alguém que não tem nada.
A segunda pergunta, imediatamente depois, é: este resultado vai mudar a conduta a tempo de importar para esta pessoa? Um exame cujo resultado só mudaria uma decisão daqui a dez anos não muda decisão nenhuma em quem tem expectativa de vida de três. Benefício preventivo é uma função do tempo, e o tempo é do paciente, não do protocolo.
A revisão da lista: quatro perguntas por medicamento
Peça as caixas, não a receita, e disponha tudo sobre a mesa. Para cada item, quatro perguntas, sempre na mesma ordem. Primeira: para que serve — qual é a indicação registrada, com que diagnóstico. Segunda: ainda serve — a indicação continua existindo, o objetivo do tratamento continua alcançável, e o benefício continua maior que o risco nesta pessoa, com esta idade e esta função renal. Terceira: quem indicou e quando — se ninguém sabe, o medicamento está órfão, e órfão é candidato prioritário à revisão. Quarta: o que este medicamento faz de mal, e o paciente tem isso — cada classe tem um efeito adverso característico, e a pergunta dirigida a esse efeito descobre mais do que qualquer exame.
A quarta pergunta é a que mais rende, porque transforma a revisão em anamnese. Para benzodiazepínico e tricíclico, pergunte por queda, tontura ao levantar, sonolência diurna e esquecimento. Para anti-inflamatório, por epigastralgia, melena, edema e piora de pressão. Para bloqueador de canal de cálcio, por inchaço de tornozelo que piora no fim do dia. Para anticolinérgico, por boca seca, obstipação, dificuldade para urinar e confusão. Para sulfonilureia e insulina, por tremor, sudorese e fome no meio da manhã ou de madrugada. Para inibidor de bomba de prótons, por há quanto tempo, e para quê.
O exame físico dirigido dessa revisão é curto e tem quatro itens que quase ninguém faz: pressão arterial deitada e depois em pé ao primeiro e ao terceiro minuto, um teste de levantar e andar cronometrado, uma avaliação breve de cognição e um exame de boca. Hipotensão ortostática, marcha lenta, déficit cognitivo novo e boca seca são os quatro sinais que mais frequentemente denunciam que a receita está causando o problema.
Registre a revisão como se fosse um exame: data, lista completa, indicação de cada item, quem indicou, decisão tomada para cada um — manter, reduzir, suspender ou substituir — e o motivo. Essa anotação é o exame de comparação da próxima consulta, e é o único jeito de outro médico saber que o item não foi esquecido, e sim mantido de propósito.
Os instrumentos, e por que o brasileiro vem primeiro
Existem listas explícitas de medicamentos que devem ser evitados em idosos, e usá-las é mais rápido e mais confiável do que confiar na memória. O Brasil tem a sua: o Consenso Brasileiro de Medicamentos Potencialmente Inapropriados para Idosos, construído por técnica Delphi de duas etapas com dez especialistas de quatro regiões do país, a partir dos Critérios de Beers de 2012 e do STOPP de 2006, com verificação item a item da disponibilidade de cada fármaco no mercado brasileiro. Resultaram 118 critérios: 43 que valem independentemente da condição clínica e 75 que dependem de uma doença específica.
A razão de começar pelo brasileiro é prática, não patriótica: as listas internacionais contêm fármacos que não existem aqui e omitem os que só existem aqui, e a lista que menciona o que está na sacola do paciente é a que serve. Na receita de dona Ivone, cinco itens caem em critérios nominais do consenso brasileiro — glibenclamida (critério 26), uso prolongado de anti-inflamatório não seletivo (34), benzodiazepínico (5), antidepressivo tricíclico terciário (9) e diurético de alça para edema de tornozelo na ausência de sinais clínicos de insuficiência cardíaca (18). Nenhum desses cinco exigiu exame para ser identificado.
As listas internacionais continuam úteis onde são mais recentes e mais detalhadas. Os Critérios de Beers da Sociedade Americana de Geriatria estão na edição de 2023, publicada no Journal of the American Geriatrics Society, e o STOPP/START chegou à versão 3 em 2023, com 190 critérios — 133 do STOPP e 57 do START —, contra 114 na versão 2 de 2015, um aumento de dois terços. A escolha razoável é usar o consenso brasileiro como filtro primário, por ser o que reflete o que se dispensa nas farmácias daqui, e recorrer às listas internacionais para as classes que surgiram depois de 2016.
A metade do STOPP/START que quase nunca é citada é o START, e ela é justamente a que impede o capítulo de virar panfleto. Os 57 critérios START listam tratamentos que devem ser iniciados e frequentemente não são — o instrumento foi construído com os dois lados desde a origem, porque prescrição inadequada, na definição que o próprio consenso brasileiro reproduz, inclui explicitamente a subutilização de medicamentos benéficos, clinicamente indicados, que deixam de ser prescritos por discriminação de idade ou por razões ilógicas. Revisar uma lista de medicamentos sem procurar o que falta é fazer meio trabalho.
Um instrumento é ponto de partida, não sentença. O próprio consenso brasileiro é explícito: classificar um fármaco como potencialmente inapropriado não é contraindicação absoluta, e a decisão exige considerar risco e benefício, alternativas disponíveis, menor dose necessária, interações e monitoramento. Vários critérios trazem exceções escritas — o benzodiazepínico continua apropriado em crise convulsiva, abstinência, transtorno de ansiedade generalizada grave e cuidados paliativos; o tricíclico pode ser apropriado no tratamento da dor e da depressão grave.
O teste que diagnostica a cascata: a linha do tempo
Para procurar cascata existe um procedimento, e ele é diagnóstico no sentido estrito. Desenhe uma linha do tempo com duas faixas: em cima, a data de início e de mudança de dose de cada medicamento; embaixo, a data de aparecimento de cada sintoma e de cada diagnóstico novo. A cascata aparece como um sintoma que nasce depois de um medicamento e antes do medicamento seguinte.
Em pessoa polimedicada, incluir evento adverso desde o início do diferencial de um sintoma novo. Isso não autoriza presumir iatrogenia até prova em contrário nem usar suspensão como único teste. Gravidade, cronologia, exame e investigações dirigidas correm em paralelo; fármacos essenciais não são retirados apenas para testar a hipótese.
As nove cascatas do painel internacional servem de lista de checagem rápida, e vale decorá-las pelo par de classes — elas estão na tabela deste capítulo, com o resultado do teste empírico ao lado. Encontrar qualquer um desses pares na mesma receita é indicação de abrir a linha do tempo.
Encontrar o par não prova a cascata, e a prova exige o mesmo rigor que se cobra do lado oposto. Quando essas nove foram testadas empiricamente em 533.464 idosos irlandeses, cinco se confirmaram e uma apareceu invertida. O par é motivo de investigação, não veredito: a confirmação vem da cronologia no prontuário deste paciente e, sobretudo, da resposta à retirada.
O que não pedir, e o que custa pedir
O check-up anual de exames laboratoriais em adulto assintomático não é recomendado; a solicitação deve ser individualizada por fator de risco, e é uma das cinco recomendações de "não faça" que a Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade selecionou por votação entre seus membros. As outras quatro da mesma lista são não rastrear câncer de próstata de rotina com PSA ou toque retal, não prescrever inibidor de bomba de prótons de forma continuada, não dosar vitamina D em adultos de baixo risco e não prescrever antibiótico para infecção de vias aéreas superiores de provável origem viral.
Sobre o PSA, a posição do Ministério da Saúde é escrita e recente: não se recomenda o rastreamento populacional do câncer de próstata, e não se devem fazer campanhas para convocar homens assintomáticos ao exame; a quem procurar espontaneamente, informa-se o balanço entre benefícios e riscos e decide-se em conjunto. O material do próprio Ministério dá os números que sustentam a conversa: cerca de dois terços dos homens com PSA elevado não têm câncer detectado na biópsia, até 20% dos cânceres clinicamente significativos cursam com PSA normal, e o tratamento do câncer localizado carrega risco de incontinência urinária em torno de 20% e de impotência em torno de 60%. Este capítulo assume, com o de níveis de prevenção e rastreamento, em Medicina Preventiva e Saúde Coletiva, a decisão de rastrear um homem sem sintoma, e os dois ensinam a conversa anterior à coleta. Na apostila de Urologia, a leitura do PSA de quem tem sintoma urinário fica com o capítulo de hiperplasia prostática benigna, STUI e retenção urinária aguda, e o que se faz com o PSA que já voltou alterado até o laudo da biópsia, depois que o homem decide investigar, fica com o capítulo de câncer de próstata.
Sobre imagem de coluna na dor lombar sem bandeira vermelha, sobre ecocardiograma no sopro inocente da criança e sobre antibiótico na faringoamigdalite viral, a régua é a mesma e cada um tem capítulo próprio nesta coleção. Vale reter o padrão comum: nos três casos o exame ou a droga não muda a conduta no cenário mais provável, e nos três casos o custo do pedido não é o dinheiro — é o achado sem significado, a cascata que ele inicia e a mensagem de que a segurança do paciente dependia daquilo.
O custo de pedir tem uma parcela que raramente entra na conta: a fila. Cada ecocardiograma, cada ultrassonografia e cada tomografia pedida sem indicação é uma vaga a menos para quem tem indicação, no mesmo município e no mesmo mês. Numa unidade em que a demanda espontânea acaba antes das sete da manhã, a consulta gasta com um check-up sem indicação é uma consulta que alguém com sintoma não terá. Prevenção quaternária, no SUS, é também alocação — e é por isso que a decisão de não pedir precisa ser tomada com a mesma seriedade da decisão de pedir, e não como quem economiza.
O diferencial: três motivos diferentes para não fazer
"Não fazer" descreve três situações clinicamente distintas, que exigem condutas distintas, e confundi-las é o erro que transforma prevenção quaternária em negligência. A primeira: não fazer porque o balanço entre benefício e dano é desfavorável para esta pessoa. A segunda: não fazer agora porque o benefício é real mas leva mais tempo do que esta pessoa tem, ou porque há prioridades maiores nesta consulta. A terceira: não fazer porque não há — o exame não existe no município, a fila é de dez meses, o medicamento está em falta.
As três se distinguem por três perguntas. Existe benefício demonstrado desta intervenção em pessoas como esta? Se não, é a primeira situação, e a conduta é explicar e registrar. Se sim, o benefício aparece dentro do tempo de vida e de projeto desta pessoa? Se não, é a segunda, e a conduta é explicar, registrar e reabrir quando o quadro mudar. Se sim para as duas, a intervenção está indicada — e se ela não acontece, é a terceira, e a conduta muda completamente de natureza.
A terceira situação não é decisão clínica, é falta de acesso, e tratá-la como se fosse decisão clínica é o modo mais elegante de o serviço esconder a própria deficiência. A conduta correta aqui tem três partes: registrar no prontuário que a intervenção está indicada e não foi realizada por indisponibilidade, com a data; acionar o mecanismo formal que existir — regulação, notificação, comunicação à gestão; e manter o paciente na fila com seguimento ativo, em vez de devolvê-lo à demanda espontânea. Registrar "não indicado" quando o correto é "indicado e indisponível" apaga do sistema o único dado que poderia corrigir a falta.
Prevenção quaternária avalia proporcionalidade de qualquer intervenção, inclusive a de benefício comprovado. Compare benefício absoluto, danos, tempo até benefício, preferências, carga terapêutica e acesso; não existe corte universal de NNT que dispense essa avaliação. Polifarmácia não contraindica anticoagulação indicada, mas contraindicações, sangramento, função renal e objetivos do cuidado precisam ser considerados.
A gravidade da quarta situação no Brasil está medida, e os números são grandes. Hipertensão, diabetes, pós-infarto, fibrilação atrial, rastreamento de colo e de mama, estadiamento ao diagnóstico e analgesia oncológica: a tabela deste capítulo reúne o número brasileiro de cada um. O padrão que atravessa todos é o mesmo, e vale mais que qualquer número isolado — o vazamento maior não está no acesso ao medicamento nem à primeira consulta, está no resultado. Entre os hipertensos tratados, 54,4% têm a pressão controlada; entre os diabéticos tratados, 48,1% chegam a hemoglobina glicada abaixo de 7,0%; e o inibidor de P2Y12 depois de uma síndrome coronariana cai de 92% na admissão para 46,8% em doze meses. Prescrever não é tratar.
Há ainda uma armadilha de medida que muda a leitura do problema. Por autorrelato, 81,3% das mulheres de 25 a 64 anos declaram ter feito exame preventivo de colo do útero nos três anos anteriores; medida pelo sistema de informação do câncer, a cobertura no triênio de 2021 a 2023 foi de 35,6%, contra a meta de 70% da Organização Mundial da Saúde. Os dois denominadores são diferentes — o autorrelato inclui quem tem plano de saúde — e por isso os números não se subtraem, mas a direção da distância é sempre a mesma. E o desfecho da falta é aferível: cerca de 40% dos cânceres de mama e 49,9% dos cânceres invasivos de colo do útero chegam ao diagnóstico em estádio III ou IV.

O que existe no SUS, e o que isso muda na conduta
Rename informa seleção e financiamento nacional, não o estoque de cada UBS. Confirmar lista municipal/estadual, indicação coberta, local de dispensação e disponibilidade real. Ausência na edição impressa não prova ausência de qualquer acesso público; presença na lista também não garante entrega hoje. Se houver barreira, negociar alternativa clinicamente apropriada e acompanhar o acesso. Na hipoglicemia por glibenclamida, suspender e monitorar antes de pressupor necessidade de substituição; gliclazida pode ser alternativa em contexto apropriado, mas também causa hipoglicemia.
A solução oral de clonazepam permite reduções menores quando acessível, mas concentração em mg/mL não basta para converter em gotas: conferir o gotejador e a bula do produto dispensado. Comprimidos têm características diferentes e nem todo sulco autoriza quartos. A limitação da apresentação exige apoio farmacêutico e acesso à formulação adequada, não um desmame mais rápido que a pessoa tolera.
Onde a alternativa não existe, a conduta muda de forma e não desaparece. Substituir um anti-inflamatório crônico por analgesia sem anti-inflamatório, fisioterapia e exercício exige que haja fisioterapia e exercício acessíveis; quando não há, a resposta honesta não é manter o anti-inflamatório em silêncio, é usar a menor dose pelo menor tempo, monitorar função renal e mucosa gástrica, insistir no que existe — e registrar a limitação com o nome dela.
A revisão de medicamentos, passo a passo
A revisão de uma lista de medicamentos é um procedimento com etapas fixas, e faz-se em consulta comum, sem material nenhum além do prontuário e das caixas que o paciente trouxe. O que muda o resultado não é o tempo gasto — é a ordem, porque decidir o que sai antes de saber o que a pessoa quer produz uma lista mais curta e um paciente mais insatisfeito.
- 1Avalie riscos imediatos e trate hipoglicemia antes da revisão eletiva. Reconcilie receitas, caixas, automedicação e uso real.
- 2Antes de olhar a lista, pergunte o que mais atrapalha a vida dela hoje e o que ela espera do tratamento.
- 3Escreva cada item com dose, horário, data de início e quem indicou; marque os que não têm dono atual.
- 4Passe a lista pelo Consenso Brasileiro de Medicamentos Potencialmente Inapropriados e, depois, pela lista START, à procura do que está faltando.
- 5Desenhe a linha do tempo: medicamentos em cima, sintomas e diagnósticos novos embaixo; procure sintoma que nasce depois de um fármaco e antes do próximo.
- 6Meça pressão deitada e em pé ao primeiro e ao terceiro minuto, cronometre o levantar-e-andar, avalie cognição e olhe a boca.
- 7Priorize as mudanças pelo risco: suspensões simultâneas podem ser necessárias no dano agudo; sequencie retiradas eletivas quando isso facilitar monitoramento.
- 8Escreva a retirada como se escreve uma prescrição: fármaco, degrau, intervalo entre degraus, o que monitorar, em que prazo e o que fazer se piorar.
- 9Combine explicitamente que voltar atrás é permitido, e que a decisão será revista, não defendida.
- 10Registre o que ficou, o que saiu, o que foi substituído — e o que NÃO foi pedido, com o motivo escrito por extenso.
Sai direto, sem desmame
Anti-inflamatório e sulfonilureia causadores de dano podem sair sem desmame; diuréticos podem ser suspensos após avaliar indicação e congestão, com monitoramento. Anti-histamínicos de primeira geração usados como hipnóticos são candidatos à retirada. Antipsicóticos não entram automaticamente neste grupo: dose, duração, indicação e risco de retirada precisam ser examinados.
Desce degrau a degrau
Benzodiazepínicos, antidepressivos e corticoides prolongados requerem plano de redução apropriado à classe e à pessoa. Antipsicóticos e medicamentos para demência exigem avaliação de benefício, indicação e vigilância de piora. Não incluir sulfonilureia como droga que exige desmame por abstinência; insulina é ajustada pela necessidade metabólica, preservando basal no diabetes tipo 1.
Não sai: troca-se
Se a indicação persiste, substituir pode ser melhor que retirar, mas a troca não é automática. Na hipoglicemia com glicada abaixo da meta, primeiro suspender glibenclamida e monitorar; decidir depois se precisa de outro agente. Gliclazida ainda pode causar hipoglicemia. Avaliar função renal, proteção cardiorrenal quando indicada, acesso e preferências.
As oito classes que se revisam primeiro: por que sai, como se retira e o que se monitora
| Classe | Por que entra na fila | Como se retira | O que se monitora, e quando |
|---|---|---|---|
| Benzodiazepínico e agonista do receptor benzodiazepínico (clonazepam, diazepam, zolpidem) | Critério 5 do consenso brasileiro: comprometimento cognitivo, delirium, quedas, fraturas e acidentes automobilísticos. Exceções escritas no próprio critério: crise convulsiva, distúrbio do sono REM, abstinência de benzodiazepínico e de etanol, transtorno de ansiedade generalizada grave, anestesia perioperatória e cuidados paliativos | Após estabilizar os riscos agudos, planejar redução individualizada do clonazepam: começar com cerca de 5–10% da dose atual a cada 2–4 semanas, com passos menores e pausas conforme tolerância; uso por doze anos pode exigir meses. Conferir apresentação e concentração por gota com a farmácia, sem converter mg/mL em gotas automaticamente. Não impor retirada completa em oito semanas, saltos de 50% ou dias alternados. Reavaliar abstinência e a indicação original; convulsão, delirium ou alucinações exigem urgência. | Acompanhar após cada redução e oferecer contato entre consultas. Pausar ou diminuir os passos se houver sintomas; avaliar sono e ansiedade sem desqualificá-los. Convulsão ou confusão aguda exige urgência, não apenas orientação de retomar comprimido em casa. |
| Antipsicótico para sintomas comportamentais da demência | Critério 3 do consenso brasileiro: aumento de acidente vascular cerebral e de mortalidade. Em um ano, morte 3,5% contra 2,3% e acidente vascular cerebral 1,9% contra 0,9% — um dano a mais a cada 83 e a cada 100 pessoas tratadas, respectivamente | Revisar a indicação antes de reduzir: o roteiro para sintomas comportamentais da demência não se aplica automaticamente a esquizofrenia ou transtorno bipolar. Em estabilidade, planejar redução gradual conforme dose, duração, risco e apoio disponível; mesmo no uso para insônia, exposição prolongada pode justificar desmame. | A cada uma a duas semanas. Se os sintomas comportamentais voltarem, reiniciar na menor dose possível e tentar de novo em três meses; ao menos duas tentativas de retirada devem ser feitas antes de considerar o antipsicótico necessário |
| Inibidor de bomba de prótons sem indicação persistente | Prescrição continuada é uma das cinco recomendações de 'não faça' escolhidas por votação pelos membros da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade. Muito frequentemente entrou junto com um anti-inflamatório que já saiu | Duas opções igualmente recomendadas com força: reduzir para a dose de manutenção — omeprazol de 20 para 10 mg, pantoprazol de 40 para 20 mg, lansoprazol de 30 para 15 mg — ou parar e passar a usar sob demanda. Não há evidência de que um esquema de retirada seja melhor que outro. Não desprescrever em esôfago de Barrett, esofagite grave de grau C ou D, ou história documentada de úlcera com sangramento | Reavaliar sintomas após mudança do IBP e investigar alarmes. Pirose, regurgitação e dispepsia exigem distinção; testar H. pylori quando houver indicação, não automaticamente por poucos dias de rebote ácido. Organizar preparo do teste e tratamento conforme resultado. |
| Sulfonilureia de alto risco (glibenclamida) | Critério 26 do consenso brasileiro: maior risco de hipoglicemia prolongada grave no idoso. É, ao mesmo tempo, um dos itens mais prescritos da atenção básica | Na hipoglicemia ou glicemia abaixo da meta, suspender glibenclamida sem desmame e monitorar. Se ainda houver necessidade farmacológica, escolher alternativa pelo perfil clínico; gliclazida de liberação prolongada reduz, mas não elimina, risco de hipoglicemia. Confirmar apresentação e acesso antes de prescrever. | Individualizar metas pela funcionalidade, cognição, comorbidades e risco de hipoglicemia, e não pela idade isolada. Em idosos saudáveis, HbA1c em torno de 7–7,5% pode ser razoável; em saúde complexa, alvo abaixo de 8% é referência possível. Em saúde muito comprometida, priorizar evitar hipoglicemia e hiperglicemia sintomática, sem depender de uma meta de HbA1c. Uma glicada aparentemente boa não justifica hipoglicemias recorrentes. Não retirar toda a insulina em diabetes tipo 1. |
| Anti-inflamatório não esteroide de uso crônico | Critério 34 do consenso brasileiro: hemorragia digestiva e úlcera péptica, especialmente acima de 75 anos ou em uso de corticoide, anticoagulante ou antiagregante — e o inibidor de bomba de prótons reduz, mas não elimina, esse risco. Critério dependente de condição na doença renal crônica estágios IV e V. Em uso simultâneo com bloqueador do receptor de angiotensina e diurético, converge sobre o mesmo glomérulo | Suspender, sem desmame, e substituir por analgesia sem anti-inflamatório associada a exercício e reabilitação. Quando não houver alternativa, usar a menor dose pelo menor tempo, com gastroproteção, e registrar a limitação | Dor e função são reavaliadas em semanas. Se já houver suspeita de lesão renal, hipovolemia ou distúrbio eletrolítico, avaliar e obter exames hoje, com controle precoce conforme gravidade; o intervalo eletivo de 2–4 semanas não serve para o caso de Ivone. |
| Anticolinérgicos (tricíclico terciário, anti-histamínico de primeira geração, antimuscarínico vesical, antiespasmódico, antiparkinsoniano anticolinérgico) | Critérios 1, 2 e 9 do consenso brasileiro e vários dependentes de condição. A carga cumulativa importa: a exposição mais alta associou-se a razão de chances de 1,49 para demência, com 1,70 para antipsicóticos e 1,65 para antimuscarínicos vesicais, em estudo com 58.769 casos e 225.574 controles | Retirar anti-histamínico ou antiespasmódico inapropriado conforme indicação. Para amitriptilina crônica, planejar redução gradual e individualizada, conferindo se o comprimido pode ser partido e a tolerância a cada etapa; não impor metade por poucas semanas e suspensão a todos. Tratar dor, sono e saúde mental em paralelo. | Boca seca, obstipação, dificuldade para urinar e cognição a cada duas a quatro semanas; e, em paralelo, o sintoma que motivou a prescrição — sono, dor ou urgência urinária —, para separar retorno da doença de sintoma de retirada |
| Inibidor de colinesterase e memantina sem benefício demonstrado | A retirada é decisão individual e não é isenta: em média, descontinuar piorou desfechos cognitivos, com diferença padronizada de 0,40 em sete estudos e 949 participantes, evidência de baixa qualidade. Entra na fila quando não há benefício perceptível para o paciente e para quem cuida, ou quando a doença avançou a ponto de o objetivo do tratamento não existir mais | Metade da dose — ou o degrau seguinte entre as apresentações disponíveis — a cada quatro semanas, até a menor dose, e então suspender: donepezila de 10 para 5 mg; galantamina de 24 para 16 e para 8 mg; memantina de 20 para 10 mg. O esquema é recomendação de boa prática, não conclusão de revisão sistemática | A cada quatro semanas, a cada redução e também depois de suspender. Piora importante em menos de uma semana: voltar imediatamente à dose anterior. Piora entre duas e seis semanas: contatar e considerar retomar. Depois de três meses, piora é mais provavelmente progressão da doença |
| Diurético de alça iniciado para edema sem insuficiência cardíaca | Critério 18 do consenso brasileiro: não há evidência de eficácia, e meias de compressão costumam ser mais apropriadas. Quase sempre é o segundo elo de uma cascata que começou num bloqueador de canal de cálcio | Quando edema medicamentoso for provável e não houver outra indicação de diurético, suspender o diurético e reduzir ou trocar o bloqueador de canal de cálcio. Elevação dos membros e compressão dependem de tolerância e ausência de contraindicação vascular. A resposta apoia a hipótese, sem excluir definitivamente doença cardíaca. | Peso, edema, pressão em pé, sódio, potássio e creatinina em uma a duas semanas. Se o edema piorar francamente e surgir dispneia, estase jugular ou crepitação, a hipótese de insuficiência cardíaca volta à mesa e passa a exigir investigação |
O mesmo desfecho, dito de duas maneiras
| Intervenção e desfecho | Como costuma ser dito | O mesmo dado em risco absoluto | Número necessário |
|---|---|---|---|
| Rastreamento de câncer de próstata; morte por câncer de próstata em 16 anos | Reduz 20% a mortalidade específica (razão de taxas 0,80; IC95% 0,72 a 0,89) | 7,1 mortes por mil no braço convidado ao rastreamento contra 8,9 por mil no controle: 1,7 morte a menos por mil homens em dezesseis anos | Estimativa publicada: 570 convidados e 18 diagnósticos adicionais por morte específica evitada; não identifica sobrediagnóstico individual. |
| Rastreamento mamográfico em dez anos | Reduz a mortalidade por câncer de mama | A cada 2 mil convidadas: uma tem a vida prolongada, dez saudáveis são sobrediagnosticadas e sobretratadas, duzentas sofrem dano psicológico importante por falso-positivo | 2 mil convidadas por vida prolongada; um sobrediagnóstico a cada 200; um dano psicológico a cada 10 |
| Bloqueador de canal de cálcio; início de diurético de alça em 90 dias | Mais que dobra o risco no terceiro mês (razão de risco 2,40; IC95% 1,84 a 3,13) | 1,4% contra 0,7% em noventa dias — 577 pessoas em 41.086 contra 466 em 66.494 | Um diurético de alça a mais a cada 142 idosos que recebem bloqueador de canal de cálcio em vez de outro anti-hipertensivo |
| Antipsicótico para sintomas comportamentais da demência, em um ano | Aumenta mortalidade e acidente vascular cerebral | Morte 3,5% contra 2,3%; acidente vascular cerebral 1,9% contra 0,9% | Uma morte a mais a cada 83 tratados; um acidente vascular cerebral a mais a cada 100 |
| Folheto de desprescrição entregue ao próprio paciente; suspensão do benzodiazepínico em seis meses | Razão de chances ajustada de 8,3; odds não são probabilidade e não equivalem a multiplicar por oito a proporção de sucesso. | 40 de 148 pessoas (27,0%) contra 7 de 155 (4,5%): diferença de 23 pontos percentuais | Diferença absoluta bruta de 22,5 pontos percentuais: NNT aproximado de 4,4, ou 5 arredondado para cima. |
| Farmacêutico e médico atuando juntos sobre um medicamento inapropriado; suspensão em seis meses | Mais que triplica a chance de suspensão (risco relativo 3,55; IC95% 2,45 a 5,15) | 106 de 248 pacientes (42,7%) contra 29 de 241 (12,0%) | Diferença absoluta bruta de 30,7 pontos percentuais: NNT aproximado de 3,3, ou 4 arredondado para cima; efeitos por classe variam. |
As nove cascatas do painel internacional, e o que o teste empírico mostrou
| Fármaco que inicia | Efeito adverso lido como doença nova | Fármaco que costuma entrar | Teste em 533.464 idosos |
|---|---|---|---|
| Bloqueador de canal de cálcio | Edema periférico | Diurético | Confirmada (razão de sequência 1,93; IC95% 1,79 a 2,09) |
| Inibidor de recaptação de serotonina ou de serotonina e noradrenalina | Insônia | Hipnótico | Confirmada (1,54; 1,40 a 1,69) |
| Bloqueador alfa-1 | Hipotensão ortostática e tontura | Sedativo vestibular | Confirmada (1,63; 1,46 a 1,81) |
| Benzodiazepínico | Agitação paradoxal ou de retirada | Antipsicótico | Confirmada (1,15; 1,08 a 1,21) |
| Antipsicótico | Sintomas extrapiramidais | Antiparkinsoniano | Limítrofe (1,20; 1,00 a 1,43) |
| Anticolinérgico urinário | Comprometimento cognitivo | Anticolinesterásico ou memantina | Não confirmada (1,29; 0,94 a 1,76) |
| Diurético | Incontinência urinária | Medicação para bexiga hiperativa | Associação inversa (0,81; 0,72 a 0,92) |
| Benzodiazepínico | Comprometimento cognitivo | Anticolinesterásico ou memantina | Associação inversa (0,66; 0,58 a 0,75) |
| Anti-inflamatório não esteroide | Hipertensão | Anti-hipertensivo | Associação inversa (0,42; 0,40 a 0,44), contra razão de chances de 1,66 num estudo caso-controle de 1994 |
Onde o subuso machuca: o número brasileiro
| Situação | O que se espera | O que os dados brasileiros mostram | De onde vem o número |
|---|---|---|---|
| Hipertensão arterial | Pressão controlada | 32,3% de prevalência; 60,8% sabem do diagnóstico; 90,6% desses tratam; e, entre os tratados, 54,4% têm a pressão controlada | Pesquisa Nacional de Saúde, 59.226 pessoas com pressão aferida |
| Diabetes mellitus | Hemoglobina glicada na meta | 8,6% de prevalência; 68,2% conhecem o diagnóstico; 92,2% desses tratam; e, entre os tratados, 48,1% têm hemoglobina glicada abaixo de 7,0% | Pesquisa Nacional de Saúde, subamostra laboratorial |
| Depois de uma síndrome coronariana aguda | Manter as classes indicadas por doze meses | Prescrição completa na admissão de 62,1%; em doze meses, inibidor de P2Y12 cai de 92% para 46,8%, ácido acetilsalicílico de 97,7% para 85,9% e inibidor da enzima conversora de 67,2% para 52,9% | Registro brasileiro de síndromes coronarianas agudas, 4.782 pacientes |
| Fibrilação atrial com indicação de anticoagulação | Anticoagular | 23,5% das mulheres e 18,2% dos homens com indicação não estavam anticoagulados | 1.955 pacientes em 32 hospitais terciários de seis estados |
| Rastreamento de câncer do colo do útero | Cobertura de 70%, meta da Organização Mundial da Saúde | 35,6% no triênio de 2021 a 2023 — 10.720.808 mulheres rastreadas para uma população-alvo dependente do SUS de 30.149.313 | Sistema de Informação do Câncer |
| Rastreamento mamográfico na faixa convidada (50 a 74 anos desde 2025) | Mamografia bienal | 24,2% no biênio de 2023 a 2024, variando de 5,3% em Roraima a 33,6% no Espírito Santo — indicador calculado sobre a faixa de 50 a 69 anos, anterior à ampliação | Sistema de Informação do Câncer |
| Câncer de mama ao diagnóstico | Estádio inicial | Cerca de 40% em estádio III ou IV em 2021 e 2022, depois de ter caído a 36,7% em 2014 | Registros hospitalares de câncer |
| Câncer do colo do útero ao diagnóstico | Estádio inicial | 49,9% em estádio III ou IV entre 2016 e 2020, excluídos os casos in situ | Registros hospitalares de câncer |
| Dor oncológica | Analgesia adequada | Consumo de opioides no Brasil de 512 doses diárias definidas por milhão de habitantes por dia entre 2016 e 2018, contra 1.363 no Chile e 756 na Argentina | Órgão internacional de controle de narcóticos, por meio de revisão publicada |
Uma mudança eletiva por vez pode facilitar atribuição de efeitos. Essa estratégia não deve manter fármacos que estejam produzindo hipoglicemia, distúrbio eletrolítico ou lesão renal; nesses cenários a segurança decide a sequência.
Abstinência, rebote e recorrência podem se sobrepor. A relação com cada redução, o tipo de sintoma e a trajetória ajudam, mas o calendário isolado não faz o diagnóstico. Reavaliar causas clínicas e ajustar o ritmo; quadros graves exigem atendimento imediato.
Individualizar metas pela funcionalidade, cognição, comorbidades e risco de hipoglicemia, e não pela idade isolada. Em idosos saudáveis, HbA1c em torno de 7–7,5% pode ser razoável; em saúde complexa, alvo abaixo de 8% é referência possível. Em saúde muito comprometida, priorizar evitar hipoglicemia e hiperglicemia sintomática, sem depender de uma meta de HbA1c. Uma glicada aparentemente boa não justifica hipoglicemias recorrentes. Não retirar toda a insulina em diabetes tipo 1.
Instrumento de rastreio de medicamento inapropriado é ponto de partida. O próprio consenso brasileiro registra que classificar um fármaco como potencialmente inapropriado não configura contraindicação absoluta, e vários critérios trazem exceção escrita.
A lista START, com 57 critérios na versão 3 de 2023, existe para a pergunta oposta: o que deveria estar sendo prescrito e não está. Revisar uma lista sem passá-la pelo START é fazer metade do trabalho.
Duas medidas do mesmo cuidado podem discordar por construção. A cobertura de rastreamento por autorrelato e a cobertura medida pelo sistema de informação têm denominadores diferentes — uma inclui quem tem plano de saúde, a outra só a população dependente do SUS — e por isso não se subtraem, embora a direção da diferença seja sempre a mesma.
A conduta, hora a hora
A conduta deste capítulo é uma prescrição escrita ao contrário, e ela exige o mesmo rigor: qual fármaco, qual degrau, em quanto tempo, o que se monitora, quando se volta e o que se faz se piorar. "Suspender o clonazepam" não é conduta pela mesma razão que "iniciar antibiótico" não é conduta.
A linha do tempo é um exemplo de raciocínio longitudinal, não promessa de resolver quatorze medicamentos em duas consultas breves. A avaliação aguda acontece hoje e a revisão completa se distribui conforme riscos, preferências, capacidade da equipe e acesso a monitoramento.
No internato, apresente-se como estudante e peça concordância para participar. Conduza história e exame, formule hipóteses e apresente ao preceptor um plano com prioridades, justificativas e prazo. Mudanças de prescrição e decisões diagnósticas são pactuadas com o médico responsável; sinais de gravidade exigem chamá-lo imediatamente. Registre com identificação própria o que foi observado, discutido e combinado, sem inserir dados pessoais em material de estudo.
Individualizar metas pela funcionalidade, cognição, comorbidades e risco de hipoglicemia, e não pela idade isolada. Em idosos saudáveis, HbA1c em torno de 7–7,5% pode ser razoável; em saúde complexa, alvo abaixo de 8% é referência possível. Em saúde muito comprometida, priorizar evitar hipoglicemia e hiperglicemia sintomática, sem depender de uma meta de HbA1c. Uma glicada aparentemente boa não justifica hipoglicemias recorrentes. Não retirar toda a insulina em diabetes tipo 1. Rever indicação de AAS: prevenção primária e secundária têm balanços diferentes. Confirmar doença cardiovascular estabelecida antes de retirar; em prevenção primária no idoso com risco hemorrágico, discutir descontinuação. Para osteoporose, verificar fraturas, duração do bisfosfonato, função renal, ingestão de cálcio e necessidade de seguimento, sem supor que tratamento prévio torna densitometria inútil.
Imediatamente — segurança e reconciliação
Glicemia de 68 mg/dL exige tratamento agora: se consciente e com deglutição segura, oferecer 15 g de carboidrato de absorção rápida e repetir glicemia em 15 minutos, repetindo a correção se persistir abaixo de 70. Alteração de consciência ou incapacidade de engolir exige suporte e tratamento parenteral pela equipe; não dar alimento por boca. Pelo risco de recorrência com glibenclamida, suspender o fármaco hoje, sem desmame, monitorar e definir observação ou encaminhamento conforme evolução e recursos. Em paralelo, a equipe organiza as caixas e reconcilia o uso real; a sacola não deve atrasar a estabilização.
Prescrição- Tratar hipoglicemia e avaliar estabilidade; reconciliar caixas, receitas e uso real em paralelo.
- Anotar, para cada item: dose, horário, há quanto tempo usa e quem indicou
- Contar em voz alta o total de medicamentos e o total de tomadas por dia
Minuto 5 a 10 — o que a pessoa quer, antes do que o protocolo quer
A pergunta que ordena todo o resto: o que mais atrapalha a sua vida hoje, e o que a senhora espera do tratamento. Dona Ivone quer parar de cair e voltar a sair de casa sozinha; não fala de pressão nem de glicemia. A prioridade da consulta deixa de ser a doença com o pior número e passa a ser a queda — que tem, sobre a mesa, cinco causas medicamentosas identificáveis.
Prescrição- Perguntar, com estas palavras: o que mais atrapalha a sua vida hoje?
- Perguntar: o que a senhora espera deste tratamento? E: se fosse para tirar um remédio, qual a senhora tiraria?
- Registrar a resposta no prontuário com as palavras do paciente — é ela que define a prioridade da lista
Minuto 10 a 20 — a lista pelo consenso, e a linha do tempo
Cada item passa pelas quatro perguntas e pelo Consenso Brasileiro de Medicamentos Potencialmente Inapropriados. Na lista de dona Ivone, cinco itens caem em critérios nominais: glibenclamida, uso prolongado de anti-inflamatório não seletivo, benzodiazepínico, tricíclico terciário e diurético de alça para edema sem sinais de insuficiência cardíaca. A linha do tempo mostra a cascata: o anlodipino subiu de 5 para 10 mg, o edema apareceu meses depois, a furosemida entrou por causa do edema. E o exame físico fecha o raciocínio: hipotensão postural ao terceiro minuto, boca seca, e os eletrólitos e a creatinina que ela já trazia.
Prescrição- Passar a lista pelos 118 critérios do consenso brasileiro — 43 independentes de condição e 75 dependentes
- Passar a lista pelo START, procurando o que falta: vacinação em dia, cálcio e vitamina D em quem usa bisfosfonato, anticoagulação se houver fibrilação atrial
- Desenhar a linha do tempo com medicamentos em cima e sintomas embaixo
- Medir pressão deitada e em pé ao 1º e ao 3º minuto; cronometrar levantar, andar 3 metros, virar e sentar
Minuto 20 a 30 — a decisão desta consulta, escrita como prescrição
Nesta consulta saem os itens que não exigem desmame e que explicam diretamente a queda e os distúrbios hidroeletrolíticos, e começa o desmame do que precisa descer devagar. Não se mexe em tudo: mexe-se no que o paciente já quer que mexa, no que tem maior dano e menor benefício, e no que é a origem de uma cascata. Tudo o que sai é escrito com o motivo ao lado, e tudo o que fica é escrito com o motivo de ficar.
Prescrição- SUSPENDER diclofenaco 50 mg — hoje, sem desmame. Motivo: critério 34 do consenso brasileiro; converge com a losartana e os dois diuréticos sobre o mesmo glomérulo e com o AAS sobre a mesma mucosa
- SUSPENDER furosemida 40 mg — hoje. Motivo: critério 18; não há estase jugular, crepitação, hepatomegalia nem refluxo hepatojugular, e o edema é vespertino, mole e simétrico, compatível com o anlodipino
- SUSPENDER hidroclorotiazida 25 mg — hoje. Motivo: sódio de 128 mEq/L e potássio de 3,2 mEq/L em uso de dois diuréticos
- REDUZIR anlodipino de 10 mg para 5 mg pela manhã — a dose que ela usava antes de o edema aparecer
- SUSPENDER glibenclamida hoje, sem desmame: hipoglicemia documentada e risco de recorrência. Tratar e monitorar glicemia antes de definir destino.
- Após estabilizar os riscos agudos, planejar redução individualizada do clonazepam: começar com cerca de 5–10% da dose atual a cada 2–4 semanas, com passos menores e pausas conforme tolerância; uso por doze anos pode exigir meses. Conferir apresentação e concentração por gota com a farmácia, sem converter mg/mL em gotas automaticamente. Não impor retirada completa em oito semanas, saltos de 50% ou dias alternados. Reavaliar abstinência e a indicação original; convulsão, delirium ou alucinações exigem urgência.
- Repetir eletrólitos e função renal hoje, definir monitoramento precoce e destino pela segurança; avaliar ECG e outros exames conforme achados.
- Reavaliar também amitriptilina, omeprazol e AAS pelas indicações, sedação e risco de sangramento. Planejar as mudanças eletivas sem obrigar esperar o clonazepam terminar; a urgência de cada risco determina a sequência.
- Registrar exames indicados hoje e os pedidos sem indicação atual, individualmente. Hemograma, B12, ECG e densitometria podem ser pertinentes conforme anemia/sangramento, neuropatia/metformina, síncope e acompanhamento da osteoporose; não recusar todo o painel por princípio.
Ainda na consulta — o combinado que autoriza a retirada
A retirada só acontece se o paciente entender três coisas: que ele não está sendo abandonado, que pode aparecer sintoma nos primeiros dias e que voltar atrás é permitido. Sem essas três frases ditas em voz alta, a paciente para o desmame sozinha na primeira noite ruim e não conta na consulta seguinte. Entregue por escrito o esquema de retirada, com os degraus e as datas, do mesmo jeito que se entrega uma receita — a intervenção que multiplicou por seis a proporção de pessoas que conseguiram suspender o benzodiazepínico em ensaio randomizado — de 4,5% para 27,0% em seis meses — foi exatamente isso: um folheto de oito páginas, escrito em linguagem simples e letra grande, com um protocolo visual de retirada de 21 semanas, entregue pelo correio à própria pessoa.
Prescrição- Escrever o esquema de retirada em papel, com as datas de cada degrau, e entregar junto com a receita
- Dizer, em voz alta: se piorar, a senhora me procura e a gente volta — voltar atrás não é fracasso
- Avisar quais sintomas podem aparecer no desmame do clonazepam: insônia, ansiedade, irritabilidade, sudorese e desconforto no estômago, geralmente leves e por dias a poucas semanas
- Envolver a equipe: agente comunitário de saúde na visita da semana seguinte e farmacêutico da unidade na conferência do esquema
Hoje e primeiras 24–48 horas — confirmar segurança
Os eletrólitos trazidos têm duas semanas e não definem a segurança de hoje. Reavaliar imediatamente consciência, hidratação, pressão, glicemia e possibilidade de síncope/trauma; repetir sódio, potássio e função renal ainda hoje, com ECG conforme quadro. Se não houver acesso oportuno, hipoglicemia recorrente, sintomas neurológicos, instabilidade ou distúrbio importante, encaminhar para observação. No manejo ambulatorial estável, assegurar contato e nova avaliação laboratorial precoce, em geral em 24–48 horas conforme resultado e intervenção; não esperar 7–14 dias. Corrigir volume e potássio conforme avaliação médica e função renal, evitando hidratação livre indiscriminada e correção rápida de hiponatremia.
Prescrição- Repetir eletrólitos e função renal hoje e definir controle precoce conforme resultados; encaminhar se não houver monitoramento seguro.
- Pressão deitada e em pé ao 3º minuto, medidas de novo e anotadas com os números
- Perguntar por edema, dispneia, ganho de peso — e pesar
- Glicemia capilar em jejum e no meio da manhã, com mais frequência nas duas primeiras semanas após a mudança da glibenclamida
- Avaliar estabilidade antes de iniciar ou prosseguir desmame do clonazepam; o degrau seguinte depende de tolerância, não de calendário fixo.
Semanas e meses seguintes — retirada acompanhada
Após estabilizar os riscos agudos, planejar redução individualizada do clonazepam: começar com cerca de 5–10% da dose atual a cada 2–4 semanas, com passos menores e pausas conforme tolerância; uso por doze anos pode exigir meses. Conferir apresentação e concentração por gota com a farmácia, sem converter mg/mL em gotas automaticamente. Não impor retirada completa em oito semanas, saltos de 50% ou dias alternados. Reavaliar abstinência e a indicação original; convulsão, delirium ou alucinações exigem urgência.
Prescrição- Clonazepam: doses e datas individualizadas pelo preceptor com apoio farmacêutico, sem exigir suspensão em oito semanas.
- Se sintoma de retirada incomodar: manter a dose atual por 1 a 2 semanas antes do próximo degrau
- Reavaliar pressão arterial com o anlodipino em 5 mg e sem hidroclorotiazida, e ajustar a losartana se necessário
- Reavaliar a necessidade do omeprazol quatro semanas depois de o anti-inflamatório ter saído: reduzir de 20 para 10 mg ao dia ou passar a uso sob demanda
Mês 3 — a segunda rodada
Depois de controlar os riscos imediatos, reavaliar a carga anticolinérgica da amitriptilina e organizar uma retirada tolerável. A sequência em relação ao clonazepam depende da sedação, da hipotensão e da possibilidade de acompanhamento; não é obrigatório aguardar a suspensão completa do benzodiazepínico durante meses. A dor no joelho precisa de avaliação própria, exercício adaptado, reabilitação e analgesia proporcional. Reexaminar indicações de AAS, omeprazol e prevenção de fraturas.
Prescrição- Amitriptilina: planejar redução individualizada conforme apresentação, duração de uso, dor, sono e tolerância; discutir com o preceptor.
- Reavaliar o ácido acetilsalicílico com decisão compartilhada e registro do que foi decidido e por quê
- Repetir a contagem em voz alta: quantos medicamentos e quantas tomadas por dia agora
- Reaplicar a lista START: o que ainda falta e deveria estar sendo feito
Mês 6 — o plano inteiro, e o que voltou a fazer sentido
No acompanhamento longitudinal, comparar quedas, hipoglicemia, ortostatismo, eletrólitos, função renal e capacidade de sair de casa. A contagem de remédios é secundária: o objetivo não é alcançar seis ou sete itens, mas manter tratamentos proporcionais e retirar danos. Alguns desmames podem durar mais de seis meses. Refazer reconciliação após transições de cuidado e revisar a lista periodicamente, com prazo individualizado.
Prescrição- Refazer a revisão completa a cada 6 meses e depois de toda internação, consulta com especialista focal ou passagem por pronto-atendimento
- Manter no prontuário a lista de decisões de não fazer, com data e motivo, para que o próximo médico não reabra
- Reavaliar o alendronato quanto ao tempo total de uso e à indicação atual
- Verificar o que o START aponta e ainda não foi feito: vacinas, rastreamentos recomendados na faixa etária, tratamento de condição subtratada
Quando piora — reintroduzir é conduta, não fracasso
Uma parte das retiradas não dá certo, e isso estava previsto. O guia de desprescrição de antipsicóticos é explícito ao recomendar reiniciar na menor dose possível se os sintomas voltarem e tentar de novo em três meses, com pelo menos duas tentativas antes de aceitar que o medicamento é necessário. A mesma lógica vale para as outras classes: a retirada é um teste diagnóstico, e um teste que dá positivo — o sintoma volta, com a mesma cara, no tempo da doença e não no tempo da abstinência — significa que a indicação existia. Reintroduzir com essa informação é melhor do que nunca ter testado.
Prescrição- Reintroduzir na menor dose eficaz, não na dose anterior
- Registrar que houve tentativa, quando, com que resultado, e quando será a próxima
- Distinguir, no registro, sintoma de retirada (dias, mais intenso, autolimitado) de retorno da doença (mais tarde, mesma apresentação, persistente)
- Programar nova tentativa em 3 meses quando o quadro que motivou a reintrodução for controlado
Como saber se está funcionando
Retirar medicamento sem plano de reavaliação é tão inseguro quanto prescrever sem plano de reavaliação, e o intervalo importa mais aqui do que em quase qualquer outra conduta: sintoma de retirada e volta da doença ocupam janelas de tempo diferentes, e é o calendário que os separa.
Monitoramento depende dos riscos e dos recursos disponíveis. Se a UBS não conseguir obter exames ou observação no prazo seguro, organizar acesso a outro ponto da rede e manter responsabilidade pelo seguimento.
Esperado: Retorno leve ou ausente, e função preservada. No caso do inibidor de bomba de prótons, sintoma ocasional que não atrapalha a rotina é resultado esperado e não indica falha
Se não melhora: Reavaliar indicação, intensidade, alarmes e causas alternativas. No IBP, distinguir rebote e doença persistente e testar H. pylori se indicado; na dor, rever mecanismo e opções. Não reintroduzir ou investigar infecção por regra de três a sete dias.
Esperado: Insônia, ansiedade, irritabilidade, sudorese e desconforto gastrointestinal leves, que melhoram sozinhos em dias a poucas semanas. É o esperado, não é complicação
Se não melhora: Convulsão, confusão aguda, alucinações ou instabilidade durante retirada exigem avaliação de urgência e suporte. Sintomas leves ou moderados pedem contato com a equipe, revisão de outras causas e ajuste do ritmo; não manejar sinais graves apenas voltando ao degrau anterior em casa.
Esperado: Desaparecimento da queda de pressão postural em semanas, e ausência de nova queda. É o desfecho que a paciente pediu, e por isso é o que mais importa
Se não melhora: Se a hipotensão postural persistir com os sedativos e diuréticos fora, procurar causa não medicamentosa: desidratação, disautonomia, anemia, insuficiência adrenal. Persistência não significa que a retirada foi inútil — significa que havia mais de uma causa
Esperado: Edema estável ou menor com a redução do bloqueador de canal de cálcio; peso sem variação relevante; ausência de dispneia, estase jugular e crepitação
Se não melhora: Ganho de peso com dispneia, estase jugular ou crepitação muda a hipótese: a insuficiência cardíaca passa a estar na mesa e exige investigação e tratamento. A retirada, nesse caso, cumpriu o papel de teste diagnóstico
Esperado: Correção da hiponatremia e da hipopotassemia e queda da creatinina em direção ao valor prévio quando o anti-inflamatório e o excesso de diurético eram a causa
Se não melhora: Piora de creatinina, oligúria, sintomas ou alterações importantes de potássio/sódio exigem reavaliação imediata. Um valor de dois anos antes não comprova o tempo de instalação nem distingue lesão aguda de doença crônica. Reavaliar volemia, medicamentos e obstrução; não esperar quatro a seis semanas para agir.
Esperado: Fim dos episódios de tremor, sudorese e fome no meio da manhã; glicemias sem hipoglicemia. A hemoglobina glicada pode levar meses para se mover, e subir um pouco pode ser exatamente o objetivo
Se não melhora: Hiperglicemia sintomática ou glicemias persistentemente acima de 216 a 270 mg/dL indicam retomar o tratamento — preferencialmente com fármaco de menor risco de hipoglicemia, não com o que saiu
Esperado: Melhora ou estabilidade da atenção, da memória de curto prazo e da capacidade de fazer sozinha o que fazia antes. Quem convive com a pessoa costuma perceber antes de qualquer teste
Se não melhora: Na retirada de anticolinesterásico ou memantina, piora importante em menos de uma semana manda voltar imediatamente à dose anterior; entre duas e seis semanas, contatar e considerar retomar; depois de três meses, piora é mais provavelmente progressão da doença que efeito da retirada
Esperado: Tratamento mais seguro e executável, com função melhor ou preservada. A quantidade final de medicamentos não é meta obrigatória.
Se não melhora: Lista que volta a crescer sem doença nova indica que a revisão não está sendo refeita nos pontos em que ela cresce: alta hospitalar, consulta com especialista focal e pronto-atendimento. A conduta é agendar a revisão logo depois desses eventos, não depois
Esperado: Progresso no objetivo declarado — voltar a sair de casa, dormir a noite inteira, parar de cair —, e não apenas nos números
Se não melhora: Se os números melhoraram e o objetivo da pessoa não, o plano está otimizando a coisa errada. Reabrir a pergunta e recomeçar pela prioridade dela
Esperado: Nenhuma intervenção de benefício grande em falta: vacinação em dia, anticoagulação quando indicada, rastreamento recomendado dentro da faixa e do intervalo, tratamento efetivo das doenças que a pessoa tem
Se não melhora: Se falta alguma, a conduta não é justificar com o conceito de prevenção quaternária: é providenciar, e, se não houver acesso, registrar 'indicado e indisponível' com data e acionar a regulação
Onde o erro machuca
O dano: É o mecanismo pelo qual a polifarmácia se torna permanente. O medicamento que entrou por um motivo temporário — um benzodiazepínico depois de um luto, um inibidor de bomba de prótons junto com um anti-inflamatório, um diurético num pronto-atendimento — atravessa anos porque cada renovação é uma cópia da anterior, e cópia não é decisão. Na receita de dona Ivone, doze anos de clonazepam são doze anos de renovações que nunca foram reavaliadas.
Como pegar a tempo: Trate renovação de receita como consulta, não como assinatura. Regra prática: nenhuma receita é renovada sem que ao menos um item da lista tenha sido perguntado — para que serve, ainda serve, quem indicou. Uma pergunta por consulta, ao longo de um ano de acompanhamento, revisa a lista inteira.
O dano: Rotina institucional não é indicação clínica, e o pedido automático carrega a aritmética inteira do falso-positivo: numa doença de prevalência de 0,5%, mesmo um exame de sensibilidade de 100% e especificidade de 80% produz quarenta alarmes falsos por doente encontrado. Cada alarme falso vira investigação, e a investigação tem risco próprio.
Como pegar a tempo: Antes de assinar, escreva a hipótese que o exame vai testar e diga o que muda se vier alterado e o que muda se vier normal. Se as duas respostas forem iguais, o exame sai do pedido. Se o pedido é do serviço e não seu, pergunte a quem o instituiu qual é a decisão que ele muda.
O dano: Achado incidental exige classificação pelo órgão, aspecto, risco individual e possibilidade de ação: investigar, acompanhar com prazo ou dispensar seguimento fundamentadamente. Ausência de relação com a queixa não significa ausência de importância. Para massa adrenal homogênea com até 10 HU em TC sem contraste, a diretriz ESE 2023 dispensa imagem adicional, independentemente do tamanho; isso não substitui a avaliação hormonal inicial indicada.
Como pegar a tempo: Ao receber um achado incidental, classifique-o por escrito em uma de três categorias — investigar agora, seguir com prazo definido, não fazer nada — antes de pedir o exame seguinte. Registre a categoria e o motivo no prontuário, porque a categoria 'nada' é a que o próximo médico vai reabrir se não a encontrar escrita.
O dano: Mudanças eletivas simultâneas podem dificultar a atribuição de efeitos e a compreensão do plano. Em dano agudo, contudo, manter medicamentos nocivos apenas para separar efeitos é inseguro. Distinguir o que precisa sair hoje do que pode ser retirado de modo sequencial e acompanhado.
Como pegar a tempo: Sequenciar mudanças eletivas ajuda a interpretar efeitos, mas vários medicamentos nocivos podem precisar ser suspensos juntos diante de risco imediato. Documente a razão de cada mudança e o que será monitorado; sedativos de uso prolongado exigem plano individualizado, e não uma regra absoluta de um item por consulta.
O dano: Produz síndrome de retirada que o paciente e o médico leem como prova de que a droga era necessária, o que encerra qualquer tentativa futura. No benzodiazepínico, a retirada abrupta produz insônia, ansiedade, sudorese e, em casos graves, confusão e convulsão. No antipsicótico e no anticolinesterásico, produz piora que se confunde com progressão da doença.
Como pegar a tempo: Benzodiazepínicos e corticoide sistêmico prolongado exigem retirada planejada; avaliar também antidepressivos e antipsicóticos conforme dose, duração e indicação. Sulfonilureias não causam síndrome de abstinência e podem ser suspensas imediatamente se houver hipoglicemia. Insulina exige ajuste pelo tipo de diabetes e pelo perfil glicêmico, nunca retirada indiscriminada.
O dano: Destrói a confiança e é factualmente errado. O paciente que ouve 'o SUS não paga' entende que existe um exame melhor do qual ele está sendo privado, e a mensagem que fica é a oposta da pretendida — a de que a saúde dele depende daquilo. O dano é duradouro: esse paciente busca o exame por outra via, sem acompanhamento, e volta com o achado incidental na mão.
Como pegar a tempo: A justificativa é sempre clínica e vem primeiro: este exame não muda a conduta, ou o dano dele supera o benefício para a senhora. O custo é argumento verdadeiro e secundário, e vale como alocação — a vaga que não se usa aqui é a vaga de quem precisa —, nunca como motivo principal.
O dano: É o erro mais grave do capítulo, porque usa vocabulário correto para produzir omissão. Os números brasileiros de subuso — controle da hipertensão e do diabetes entre os tratados, manutenção das classes depois de um infarto, cobertura real de rastreamento, estadiamento ao diagnóstico — descrevem um sistema em que, para muita gente, o problema dominante não é excesso de investigação. Nenhum deles é corrigido por prevenção quaternária.
Como pegar a tempo: Prevenção quaternária avalia proporcionalidade de qualquer intervenção, inclusive a de benefício comprovado. Compare benefício absoluto, danos, tempo até benefício, preferências, carga terapêutica e acesso; não existe corte universal de NNT que dispense essa avaliação. Polifarmácia não contraindica anticoagulação indicada, mas contraindicações, sangramento, função renal e objetivos do cuidado precisam ser considerados.
O dano: Apaga do sistema o único dado capaz de corrigir a falta. Se cada médico anota que não indicou, a fila de espera não aparece em nenhum indicador, a regulação não é acionada e o problema é lido como resolvido. É a forma mais elegante de o serviço esconder a própria deficiência, e ela é feita de boa-fé.
Como pegar a tempo: Escreva as palavras exatas no prontuário: 'indicado e não realizado por indisponibilidade', com a data e o que foi acionado. Mantenha o paciente em seguimento ativo em vez de devolvê-lo à demanda espontânea, e registre cada tentativa.
O dano: Decisão não registrada vira exame pedido pelo próximo. O paciente conta ao médico seguinte que ninguém investigou a queda dele, o médico seguinte não tem como saber que a hipótese era iatrogenia e que o teste foi a retirada, e pede o pacote inteiro. A revisão de medicamentos que ninguém escreveu é uma revisão que não aconteceu.
Como pegar a tempo: Reserve duas linhas do prontuário para as decisões negativas, com esta forma: exames não solicitados, quais, e por quê. É o registro mais econômico e mais útil da consulta, e é o que impede a cadeia de recomeçar.
O dano: O especialista focal decide dentro do próprio recorte, que é exatamente o que a multimorbidade quebra. Somar diretrizes de doença única a uma pessoa com cinco doenças produz 12 medicamentos e 19 doses por dia — nenhum deles prescrito por engano, e a soma sendo o erro. Encaminhar sem a lista completa e sem a pergunta certa devolve mais um item para a sacola.
Como pegar a tempo: Encaminhe com a lista inteira anexada e com a pergunta escrita, que raramente é 'o que acrescentar' e frequentemente é 'o que, do que já está prescrito, pode sair'. A coordenação do cuidado é da atenção primária, e é lá que a lista completa existe.
O dano: Produz o paciente que está na meta e passa mal. Dona Ivone tem hemoglobina glicada de 6,4% — abaixo de muitas metas usuais — e hipoglicemia sintomática quase diária, porque o alvo foi tratado como objetivo em si. O mesmo ocorre com pressão arterial, colesterol e densidade óssea: o número descreve risco populacional, e é o desfecho individual que interessa.
Como pegar a tempo: Antes de ajustar qualquer alvo, pergunte o que a pessoa quer daquele tratamento e registre com as palavras dela. Depois verifique se o alvo escolhido corresponde à idade, à fragilidade, à comorbidade e ao tempo até o benefício — a mesma glicada de 8,5% que seria frouxa numa pessoa de 55 anos pode ser a meta correta numa de 85.
O dano: Resolve o pedido técnico e ignora a pergunta emocional que o gerou, que quase sempre é 'eu vou ficar bem?'. O paciente sai com vinte exames e com a mesma insegurança, e volta com um achado. Além disso, a mensagem implícita — a de que a segurança depende do exame — é o que faz o pedido se repetir todo ano.
Como pegar a tempo: Responda à pergunta que foi feita: pergunte o que motivou o pedido, o que ele está com medo de ter, e o que aconteceu com quem ele conhece. Depois explique por que a conduta é outra, ofereça o que de fato reduz o risco dele e registre a conversa.
O que dizer ao paciente e à família
A conversa deste capítulo é mais difícil do que a de dar uma má notícia, e por um motivo simples: aqui o médico está pedindo ao paciente que abra mão de alguma coisa que ele veio buscar, sem oferecer nada palpável em troca. Não existe fórmula que resolva isso, mas existem frases que funcionam melhor do que outras, e uma regra que vale para todas: nomeie o motivo clínico antes de qualquer outro, e não termine sem dizer o que você vai fazer.
As falas abaixo são para dizer em voz alta, com estas palavras ou palavras muito parecidas.
Quando o paciente pede o check-up completo
“Eu entendo o pedido, e vou explicar por que a minha conduta é outra. Exame não é como olhar dentro de uma pessoa e ver tudo: cada exame responde a uma pergunta específica. Quando a gente pede vinte exames sem uma pergunta, a chance de pelo menos um vir fora do normal em alguém que não tem nada passa de sessenta por cento — e aí a gente sai atrás de uma coisa que não existe, com mais exames, às vezes com uma agulha. O que eu vou fazer é olhar o que a senhora tem, o que a senhora toma e o que a senhora está sentindo, e pedir só o que muda o que eu vou fazer. E isso eu vou pedir hoje.”
Não diga: Não precisa, isso é exagero. Não tem indicação. O SUS não cobre. Check-up não existe. Frases que negam sem explicar deixam o paciente com a impressão de que existe um exame melhor do qual ele está sendo privado.
Quando o pedido é o PSA
“O PSA pode encontrar um câncer relevante e também levar à investigação de alterações benignas ou tumores que nunca causariam problemas. Um resultado elevado não determina biópsia imediata em todos: primeiro avaliamos contexto, repetição quando indicada e estratificação com urologia. Se houver diagnóstico, as opções incluem vigilância em casos selecionados e tratamentos com riscos urinários e sexuais diferentes. Vamos discutir o que o senhor prefere, sua saúde e o benefício possível ao longo dos anos.”
Não diga: O Ministério da Saúde não recomenda, ponto. Também não: o senhor tem que fazer, todo homem tem que fazer. As duas versões trocam a decisão do paciente pela do médico, em direções opostas.
Quando se propõe retirar um medicamento antigo
“Eu quero tentar tirar um dos seus remédios, e não é porque a senhora está sendo abandonada nem porque a gente vai economizar. É porque esse remédio, hoje, está fazendo mais mal do que bem para a senhora — ele é uma das razões de a senhora estar caindo. A gente vai tirar devagar, em degraus, com data marcada, e eu escrevi tudo neste papel. Se piorar, a senhora me procura e a gente volta atrás. Voltar atrás não é fracasso: faz parte do teste.”
Não diga: A senhora não precisa mais disso. Esse remédio é ruim. Esse remédio não pode. O paciente ouve que estava sendo mal tratado até agora e desconfia dos dois médicos: do anterior e de você.
Quando o paciente diz que sem o remédio não dorme
“A dificuldade para dormir é real. A redução pode provocar sintomas de retirada ou fazer reaparecer um problema que precisa de tratamento. Vamos ajustar o ritmo com a senhora, sem prazo rígido; se incomodar, entre em contato antes do próximo passo. Confusão, alucinações ou convulsão precisam de urgência. Também vamos cuidar do sono e da ansiedade enquanto a dose diminui.”
Não diga: Isso é psicológico. É só o vício. Você vai ver que não precisa. Desqualificar o sintoma é o modo mais rápido de o paciente parar o desmame sozinho e não contar.
Quando aparece um achado incidental no exame
“O exame encontrou uma coisa que a gente não estava procurando. Isso é comum: em quase metade das tomografias de tórax aparece algum achado assim. Na maioria das vezes não é nada, e o que decide não é o susto, é o tipo de achado. Este aqui, pelo que está descrito, é do grupo que não precisa de investigação nem de repetição — e eu vou escrever isso no seu prontuário com esta explicação, para que ninguém recomece a busca daqui a seis meses. Se aparecer sintoma, a gente reabre.”
Não diga: Não é nada, esquece. Vamos ficar de olho. As duas encerram a conversa sem dar critério: a primeira nega o achado, a segunda deixa o paciente vigiando indefinidamente uma coisa que ele não sabe o que é.
Quando é preciso dizer que o benefício demora mais do que o tempo que a pessoa tem
“Esse exame serve para encontrar uma doença que levaria muitos anos para causar problema — dez, quinze anos. O benefício dele aparece nesse prazo. O incômodo e o risco aparecem já. Do jeito que a saúde do senhor está hoje, eu acho que a gente cuida melhor do senhor olhando para o que pode acontecer nos próximos anos, e não para o que aconteceria em quinze. Isso não quer dizer que eu desisti do senhor — quer dizer que eu escolhi onde vou colocar a nossa atenção.”
Não diga: Na sua idade não vale mais a pena. O senhor não vai viver o suficiente. A informação é a mesma e a frase é insuportável; o que se diz é sobre o horizonte do benefício, não sobre o prazo de validade da pessoa.
Quando a família quer que se faça tudo
“Eu vejo que vocês querem o melhor para ela, e eu quero a mesma coisa. Fazer tudo não é o mesmo que fazer o melhor: cada exame a mais aumenta a chance de a gente encontrar alguma coisa que não tem relação com o que está acontecendo e que vai levar a mais exames, e às vezes a um procedimento com risco. O que eu proponho é a gente escolher juntos duas ou três coisas que importam para ela agora — parar de cair, dormir melhor, voltar a sair de casa — e ir atrás delas com o que de fato ajuda. Se em algum momento surgir sinal de outra coisa, eu vou atrás na hora.”
Não diga: Isso não vai adiantar nada. Não tem mais o que fazer. A família ouve abandono onde havia proposta, e a conversa acaba.
Quando o remédio foi prescrito por outro médico
“Vamos conferir por que esse remédio entrou e como ajudou. Sua saúde, o rim e os outros tratamentos podem ter mudado. Quero revisar se ele ainda faz mais bem do que mal e, se for preciso, conversar com quem o prescreveu. Não precisamos desqualificar um colega nem afirmar que a indicação anterior estava correta sem conhecê-la.”
Não diga: Quem foi que te passou isso? Isso está errado. Não devia estar tomando. Desautorizar o colega na frente do paciente derruba a adesão a qualquer plano — inclusive ao seu.
Quando a resposta honesta é 'não sei'
“Minha principal suspeita é que os medicamentos contribuam para as quedas, mas outras causas podem coexistir. Vamos corrigir a glicose baixa agora e conferir os sais do sangue e o rim. Vou explicar o que retiraremos, o que precisamos monitorar e quais sinais fazem a senhora procurar ajuda antes do retorno.”
Não diga: Vamos pedir uns exames para ver. Pedir exame para preencher o silêncio da incerteza é o gatilho mais comum de toda a cadeia deste capítulo.
Quando é preciso insistir — o outro lado da régua
“Esse tratamento pode reduzir seu risco de AVC, mas também tem riscos, como sangramento. Vamos avaliar se o benefício continua maior no seu caso e o que dificulta tomá-lo ou monitorá-lo. Quero decidir com a senhora uma opção segura e possível, respeitando suas dúvidas e preferências.”
Não diga: A senhora tem que tomar. Se não tomar, o problema é seu. A ordem sem a razão e sem a oferta de resolver o obstáculo é o que produz a não adesão que depois se atribui ao paciente.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Não oferecer o exame nem convocar; decidir junto com quem o procura — Ministério da Saúde, pelo INCA, desde 2013, reafirmado pelo INCA em julho de 2025. É a posição que esta apostila adota
O Ministério da Saúde não recomenda o rastreamento populacional do câncer de próstata e orienta que não sejam feitas campanhas para convocar homens assintomáticos ao PSA ou ao toque retal; a quem procurar espontaneamente, cabe informar o balanço entre benefícios e riscos e decidir em conjunto. A justificativa está em revisões sistemáticas que mostram aumento significativo do diagnóstico sem redução significativa da mortalidade específica e com danos importantes, e no reservatório de doença indolente documentado em autópsias — 37% dos homens de 40 a 50 anos e 60% acima de 79 anos com achado histológico de câncer de próstata. Em julho de 2025, a nota técnica do INCA sobre parâmetros de programação do diagnóstico precoce do câncer de próstata repete essa posição como a do Ministério da Saúde em vigor.
Brasil. Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 9/2023-COSAH/CGACI/DGCI/SAPS/MS, itens 2.5, 2.10 e 2.13; e Instituto Nacional de Câncer, Rastreamento do câncer de próstata, 2013; reafirmada na nota técnica do INCA Parâmetros de programação para o diagnóstico precoce do câncer de próstata, 2025
Discutir o PSA com todo homem acima de 50 anos com expectativa de vida maior que 10 anos, e dos 40 aos 50 com fator de risco — SBU, SBOC e SBRT, novembro de 2023. Registrada, e não adotada por esta apostila
As Sociedades Brasileiras de Urologia, de Oncologia Clínica e de Radioterapia recomendam discussão individual sobre rastreamento com PSA para homens acima de 50 anos com expectativa de vida maior que dez anos, e para homens de 40 a 50 anos com histórico familiar, etnia negra ou mutação patogênica em BRCA. O argumento central é que os dados dos grandes ensaios internacionais não abrangem a população brasileira, com maior proporção de afrodescendentes, e que 27% dos pacientes diagnosticados no SUS já se apresentam com doença metastática.
Sociedade Brasileira de Urologia, Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica e Sociedade Brasileira de Radioterapia. Posicionamento sobre o rastreamento do câncer de próstata, novembro de 2023
Esta apostila adota a posição federal: não se oferece o PSA ao homem sem sintoma que não o pediu, não se convoca nem se faz campanha, e a quem procura o exame se conduz a decisão compartilhada, com benefícios e danos em números e a decisão registrada no prontuário. O desempate segue a régua de divergência desta apostila. O escopo empata, porque as duas posições falam do mesmo homem sem sintoma. Decide a data: a posição do Ministério da Saúde foi reafirmada como vigente numa nota técnica do INCA de julho de 2025, posterior ao posicionamento conjunto das sociedades de urologia, de oncologia clínica e de radioterapia, de novembro de 2023; e, se as datas fossem tomadas como empatadas, a natureza pesaria para o mesmo lado, porque é a posição do órgão federal, e não a de sociedades de especialistas. O relatório preliminar do PCDT do adenocarcinoma de próstata, submetido à Consulta Pública nº 86/2026 e ainda sem vigência, aponta na mesma direção: registra as recomendações europeia e norte-americanas de detecção precoce individualizada e, ainda assim, não recomenda a oferta nem as campanhas de rastreamento em homens assintomáticos, e manda decidir junto com quem busca o exame. O lado das sociedades fica no texto, com a data, porque é o que o homem vai ouvir no consultório de urologia, e o argumento delas sobre a população negra e o diagnóstico tardio no SUS precisa ser conhecido. Duas coisas não mudam com o lado escolhido: ao homem que pede o exame nenhuma das posições manda recusar, e diante de sintoma, de toque alterado ou de PSA já alterado não há rastreamento em discussão — há investigação, com decisão informada. Para quem procura o exame, a decisão se toma com três perguntas: qual a expectativa de vida dele, o que ele faria com um diagnóstico de tumor indolente, e o que pesa mais para ele — a chance pequena de evitar uma morte daqui a mais de dez anos ou a chance concreta de incontinência e disfunção erétil. Registre a decisão e a data, porque ela vale para os anos seguintes e evita que a conversa recomece do zero. Sobre o homem negro e o homem com história familiar da doença: quem os chama mais cedo à conversa, dos 40 aos 50 anos, são as sociedades; o relatório preliminar de 2026 registra a recomendação norte-americana de começar aos 40 nesses grupos e, ainda assim, não abre exceção para eles.
Bienal, dos 50 aos 74 anos, com acesso por demanda fora da faixa
O Ministério da Saúde orienta o rastreamento mamográfico populacional de 50 a 74 anos, com periodicidade bienal. A régua é a Nota Técnica nº 626/2025, que ampliou o limite superior antes fixado em 69 anos e, na conclusão, se declara o documento orientativo até a publicação de novas diretrizes nacionais e torna sem efeito todas as recomendações anteriores que contenham orientações distintas — entre elas a graduação por faixa etária da diretriz de 2015, que trazia recomendação contrária forte abaixo dos 50 anos, contrária fraca dos 70 aos 74 e contrária forte acima dos 75. Fora da faixa convidada não há convocação ativa, mas há acesso: o Sistema Único de Saúde não restringe a mamografia de rastreamento da mulher de 40 a 49 anos ou acima de 74, sem sinais nem sintomas suspeitos, que deseje realizá-la por demanda, contanto que seja orientada por profissional de saúde sobre os riscos e benefícios; e a Lei nº 15.284/2025 assegurou o exame a todas as mulheres a partir dos 40 anos, conforme diretrizes do Ministério. O balanço que sustenta a régua populacional continua sendo o da diretriz de 2015: a cada 2 mil convidadas em dez anos, uma vida prolongada, dez sobrediagnósticos com sobretratamento e duzentos danos psicológicos por falso-positivo.
Brasil. Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 626/2025-CGCAN/DECAN/SAES/MS; Lei nº 15.284, de 18 de dezembro de 2025; e, para o balanço de benefícios e danos, Diretrizes para a detecção precoce do câncer de mama no Brasil. INCA, 2015
Anual, dos 40 aos 74 anos
O Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem, a Sociedade Brasileira de Mastologia e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia recomendam rastreamento mamográfico anual para mulheres de risco habitual entre 40 e 74 anos, e acima dos 75 anos reservado às que tenham expectativa de vida maior que sete anos. Sustentam que os benefícios demonstrados para mulheres acima de 40 anos superam os efeitos adversos potenciais.
Urban LABD, Chala LF, Paula IB, e col. Recomendações do Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem, da Sociedade Brasileira de Mastologia e da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia para o rastreamento do câncer de mama no Brasil. Radiol Bras. 2023;56(4):207-214
A divergência estreitou, mas não acabou. Depois da Nota Técnica nº 626/2025 e da Lei nº 15.284/2025, as duas posições concordam em que a mulher de 40 a 49 anos que pede o exame tem acesso a ele; o que segue em disputa é se ela deve ser convidada, e com que intervalo. As duas leem os mesmos ensaios e pesam de forma diferente o sobrediagnóstico contra a morte evitada. Para a mulher à sua frente, três coisas decidem. Primeira, o que ela faria com um diagnóstico de lesão que talvez nunca a incomodasse — há mulheres para quem essa possibilidade é intolerável e há mulheres para quem o risco de perder a chance é pior; a pergunta pode ser feita. Segunda, o acesso: a cobertura medida na população convidada é de 24,2% — indicador calculado sobre a faixa de 50 a 69 anos, antes da ampliação —, e antecipar convite sem garantir a faixa central significa, na prática, retirar exame de quem tem mais a ganhar para dar a quem tem menos. Terceira, o que está pactuado no município, porque a paciente precisa de um plano que se cumpra. Fora da faixa convidada, a resposta não é recusa nem convite: é a conversa sobre riscos e benefícios que a própria nota exige, com a decisão e o motivo registrados no prontuário — e não deixe a diferença entre as recomendações virar sorteio conforme o médico que a atendeu naquele dia.
Percentual da dose atual, com passos menores no fim
A diretriz canadense de 2018 reúne exemplos de reduções progressivas de agonistas benzodiazepínicos. Esses esquemas históricos não estabelecem que passos de 25–50% ou dias sem droga sejam adequados a todo idoso. Dose, duração e sintomas mudam o ritmo; no uso crônico prolongado de clonazepam, aplicar a orientação individualizada descrita em “Como decidir”.
Pottie K, Thompson W, Davies S, e col. Deprescribing benzodiazepine receptor agonists: evidence-based clinical practice guideline. Can Fam Physician. 2018;64(5):339-351
Degrau fixo, definido pelo que o comprimido permite partir
O protocolo brasileiro de 2020 propôs degraus fixos de clonazepam por consenso Delphi. Trata-se de validação de conteúdo, sem demonstrar que esse ritmo seja mais seguro ou mais eficaz para toda pessoa. Conferir apresentação e precisão das doses; disponibilidade restrita não autoriza impor um degrau excessivo, especialmente próximo do final do desmame.
Baldoni AO, Zadra PF, Vilar LG, e col. Elaboração e validação do protocolo de desprescrição do clonazepam em idosos. Rev Bras Med Fam Comunidade. 2020;15(42):2105
Após estabilizar os riscos agudos, planejar redução individualizada do clonazepam: começar com cerca de 5–10% da dose atual a cada 2–4 semanas, com passos menores e pausas conforme tolerância; uso por doze anos pode exigir meses. Conferir apresentação e concentração por gota com a farmácia, sem converter mg/mL em gotas automaticamente. Não impor retirada completa em oito semanas, saltos de 50% ou dias alternados. Reavaliar abstinência e a indicação original; convulsão, delirium ou alucinações exigem urgência. A validação Delphi de um protocolo histórico estabelece concordância de especialistas, não superioridade clínica demonstrada sobre outros ritmos. Interpretar os exemplos de 2018 e 2020 à luz da recomendação conjunta de 2025 e da resposta individual.
Idade cronológica, com corte explícito
Programas usam faixas etárias específicas por intervenção. A mamografia populacional no SUS é bienal de 50 a 74 anos, com decisão informada por demanda fora da faixa conforme orientação vigente. Não existe regra universal de interromper todo rastreamento aos 75 anos; verificar a diretriz própria, histórico, risco e condições da pessoa.
Brasil. Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 626/2025-CGCAN/DECAN/SAES/MS; Rastreamento. Cadernos de Atenção Primária, n. 29, seção 8.4; e Diretrizes para a detecção precoce do câncer de mama no Brasil. INCA, 2015
Expectativa de vida, com limiar declarado
As recomendações das sociedades brasileiras de radiologia, mastologia e ginecologia condicionam o rastreamento acima dos 75 anos à expectativa de vida maior que sete anos, e as sociedades de urologia, oncologia clínica e radioterapia condicionam a discussão sobre PSA à expectativa de vida maior que dez anos. O argumento é que a idade é apenas um substituto ruim do que de fato importa, e que duas pessoas de 78 anos podem ter horizontes muito diferentes.
Urban LABD e col., Radiol Bras. 2023;56(4):207-214; e Posicionamento da SBU, SBOC e SBRT sobre o rastreamento do câncer de próstata, novembro de 2023
As duas posições estão respondendo a perguntas diferentes: o corte de idade responde 'o que o programa faz', e a expectativa de vida responde 'o que eu faço com esta pessoa'. Para a gestão de um programa de rastreamento, o corte de idade vence, porque é o único critério aplicável em escala e porque a distância entre a cobertura ideal e a real na faixa central já é enorme. Para a decisão individual, a expectativa de vida vence, e ela é estimável de forma grosseira e útil pela funcionalidade: quem tem marcha lenta, perda de peso não intencional, fadiga, fraqueza de preensão e baixa atividade tem horizonte curto, e quem faz sozinho tudo o que fazia aos 65 tem horizonte longo. Escreva a estimativa e o motivo no prontuário. Em quem tem horizonte curto, a regra é a mesma para os dois lados da régua: menos rastreamento e mais atenção ao que causa incapacidade agora — quedas, dor, medicamentos, catarata, isolamento.
O raciocínio, em voz alta
Volte à quarta-feira, dez e vinte, com dona Ivone Marques do Carmo, 76 anos, a sacola de quatorze caixas na mesa, a lista de dezenove exames pedidos por um cardiologista que ela viu uma vez, e a filha perguntando se não seria melhor um check-up completo, porque a mãe caiu três vezes em cinco meses.
o que penso agora
Glicemia de 68 mg/dL exige tratamento agora: se consciente e com deglutição segura, oferecer 15 g de carboidrato de absorção rápida e repetir glicemia em 15 minutos, repetindo a correção se persistir abaixo de 70. Alteração de consciência ou incapacidade de engolir exige suporte e tratamento parenteral pela equipe; não dar alimento por boca. Pelo risco de recorrência com glibenclamida, suspender o fármaco hoje, sem desmame, monitorar e definir observação ou encaminhamento conforme evolução e recursos.
o que faço primeiro
Pergunto o que mais atrapalha a vida dela hoje e o que ela espera do tratamento. Ela quer parar de cair e voltar a sair de casa sozinha. Não menciona pressão, glicemia nem colesterol. Isso reordena tudo: a prioridade da consulta passa a ser a queda, e os alvos numéricos passam a ser meios, não fins. Registro a resposta com as palavras dela.
o que penso agora
Cinco itens da lista podem produzir queda por mecanismos diferentes e somados: clonazepam e amitriptilina por sedação e hipotensão ortostática; hidroclorotiazida e furosemida por depleção de volume e distúrbio eletrolítico; glibenclamida por hipoglicemia. Não preciso escolher entre eles — todos contribuem, e é por isso que a queda dela é multifatorial e por isso que retirar um só não vai resolver.
o exame que peço, e é físico
Pressão deitada, sentada e em pé ao primeiro e ao terceiro minuto, com os números anotados; levantar-e-andar cronometrado; avaliação breve de cognição; inspeção da boca. Encontro 138 por 76 deitada e 96 por 58 em pé ao terceiro minuto, com escurecimento visual referido; onze segundos no levantar-e-andar; três erros em dez itens de orientação; e mucosa oral seca com língua aderida. Nada disso precisou de laboratório, e tudo isso muda conduta.
como a resposta muda o que penso
A hipotensão ortostática sintomática torna o mecanismo medicamentoso muito plausível. Investigar também perda de consciência, palpitações, sintomas ao esforço, sangramento, trauma e déficit neurológico. O achado ortostático não exclui síncope arrítmica nem dispensa ECG ou investigação dirigida quando indicada.
o que os exames que ela já tinha mostram
Os exames que ela já trazia — sódio de 128, potássio de 3,2, creatinina que subiu de 0,9 para 1,4 mg/dL e hemoglobina glicada de 6,4% com hipoglicemia sintomática — contam todos a mesma história, e nenhum deles foi pedido por mim. Hiponatremia e hipopotassemia de diurético; piora de função renal com anti-inflamatório sobre bloqueio do sistema renina-angiotensina e depleção de volume; e hipoglicemia de sulfonilureia num alvo glicêmico que já estava abaixo de qualquer meta razoável para ela.
a linha do tempo, que é o teste diagnóstico
Desenho medicamentos em cima e sintomas embaixo. O anlodipino subiu de 5 para 10 mg; meses depois apareceu o edema; por causa do edema entrou a furosemida num pronto-atendimento; a furosemida somou-se à hidroclorotiazida. O diclofenaco entrou para o joelho e ficou; o omeprazol entrou para proteger o estômago do diclofenaco e ficou também. Duas cascatas completas, montadas por médicos diferentes, cada um resolvendo um problema verdadeiro.
o que decido não pedir
Os eletrólitos trazidos têm duas semanas e não definem a segurança de hoje. Reavaliar imediatamente consciência, hidratação, pressão, glicemia e possibilidade de síncope/trauma; repetir sódio, potássio e função renal ainda hoje, com ECG conforme quadro. Se não houver acesso oportuno, hipoglicemia recorrente, sintomas neurológicos, instabilidade ou distúrbio importante, encaminhar para observação. No manejo ambulatorial estável, assegurar contato e nova avaliação laboratorial precoce, em geral em 24–48 horas conforme resultado e intervenção; não esperar 7–14 dias. Corrigir volume e potássio conforme avaliação médica e função renal, evitando hidratação livre indiscriminada e correção rápida de hiponatremia. Não solicitar o painel automaticamente; justificar separadamente os exames que respondem às hipóteses e os que podem esperar.
o que faço, escrito como prescrição
Suspender glibenclamida, diclofenaco e diuréticos implicados após avaliação médica, reavaliar anti-hipertensivos pela hipotensão e volemia e revisar temporariamente metformina/losartana se houver lesão renal aguda ou desidratação. Não declarar os demais seguros antes de estimar função renal e revisar indicação. Após estabilizar os riscos agudos, planejar redução individualizada do clonazepam: começar com cerca de 5–10% da dose atual a cada 2–4 semanas, com passos menores e pausas conforme tolerância; uso por doze anos pode exigir meses. Conferir apresentação e concentração por gota com a farmácia, sem converter mg/mL em gotas automaticamente. Não impor retirada completa em oito semanas, saltos de 50% ou dias alternados. Reavaliar abstinência e a indicação original; convulsão, delirium ou alucinações exigem urgência.
como sei se funcionou
Os eletrólitos trazidos têm duas semanas e não definem a segurança de hoje. Reavaliar imediatamente consciência, hidratação, pressão, glicemia e possibilidade de síncope/trauma; repetir sódio, potássio e função renal ainda hoje, com ECG conforme quadro. Se não houver acesso oportuno, hipoglicemia recorrente, sintomas neurológicos, instabilidade ou distúrbio importante, encaminhar para observação. No manejo ambulatorial estável, assegurar contato e nova avaliação laboratorial precoce, em geral em 24–48 horas conforme resultado e intervenção; não esperar 7–14 dias. Corrigir volume e potássio conforme avaliação médica e função renal, evitando hidratação livre indiscriminada e correção rápida de hiponatremia. Após estabilização, comparar quedas, glicemias, função, edema e objetivos da paciente. A melhora após mudanças apoia contribuição medicamentosa, sem excluir toda causa concomitante.
Faça você
Segunda-feira de manhã, mesma unidade. Senhor Aparecido Nogueira, 71 anos, pedreiro aposentado, vem à consulta de rotina trazido pelo filho, que abre a conversa dizendo que o pai toma remédio demais e que a família leu na internet que idoso não pode tomar tantos remédios. São nove: losartana 50 mg duas vezes ao dia, hidroclorotiazida 25 mg pela manhã, metformina 850 mg duas vezes ao dia, sinvastatina 40 mg à noite, varfarina conforme o último exame, omeprazol 20 mg em jejum há quatro anos, dipirona quando dói, prometazina 25 mg à noite 'para dormir' há oito meses, e um complexo vitamínico comprado na farmácia. Ele tem fibrilação atrial permanente diagnosticada há seis anos, hipertensão, diabetes tipo 2 e uma prótese de joelho. Relata que anda esquecido nos últimos meses, que a boca vive seca e que tem dificuldade para começar a urinar. O último exame de coagulação foi há cinco meses. Ele conta, sem que ninguém pergunte, que às vezes deixa de tomar a varfarina 'porque é muito remédio' e que o filho acha que essa é a primeira que deveria sair.
leitura da lista
Nove itens, três doenças crônicas e uma prótese. Dois itens não têm indicação atual demonstrada — o omeprazol de quatro anos e o complexo vitamínico —, e um é um anti-histamínico de primeira geração usado como hipnótico, que o Consenso Brasileiro de Medicamentos Potencialmente Inapropriados lista nominalmente por sedação e efeitos anticolinérgicos, com desenvolvimento de tolerância quando usado para dormir.
leitura dos sintomas
Esquecimento de instalação recente, boca seca e dificuldade para iniciar a micção formam uma tríade anticolinérgica clássica, e todos os três começaram depois da introdução da prometazina há oito meses. Em homem, o consenso brasileiro traz critério dependente de condição específico: anticolinérgicos podem diminuir o fluxo urinário e causar retenção.
leitura do risco
Fibrilação atrial permanente aos 71 anos, com hipertensão e diabetes, dá pontuação alta em qualquer escore de risco tromboembólico, e a anticoagulação nessa situação é intervenção de benefício grande em termos absolutos. Um estudo brasileiro em 32 hospitais terciários encontrou 23,5% das mulheres e 18,2% dos homens com indicação sem anticoagulante — e este paciente relata falhas de tomada e está com o controle laboratorial atrasado há cinco meses.
o que a família pediu, e o que ela quis dizer
O filho pediu menos remédios e apontou o que ele julgou o mais dispensável. O pedido é legítimo e a indicação está errada. O trabalho da consulta é atender ao pedido de fato — a lista vai encurtar — sem atender à sugestão, e explicar a diferença de um jeito que a família consiga repetir em casa.
Ver como fecharíamos
Saem a prometazina, o omeprazol e o complexo vitamínico; entra reforço da varfarina, não retirada. A prometazina é o item de maior dano e nenhum benefício demonstrado: é anti-histamínico de primeira geração usado como hipnótico, está nominalmente no consenso brasileiro por sedação, efeitos anticolinérgicos e tolerância, tem critério próprio para sintomas do trato urinário inferior no homem, e é uma hipótese importante para a tríade de esquecimento, boca seca e hesitação urinária que apareceu nos últimos oito meses. Sai sem necessidade de desmame, e o sono é abordado com orientação não farmacológica. O omeprazol, sem indicação persistente registrada e sem esôfago de Barrett, esofagite grave ou úlcera com sangramento documentado, é reduzido de 20 para 10 mg ao dia ou passa a uso sob demanda — as duas opções são recomendação forte —, com reavaliação de sintomas às quatro e às doze semanas. O complexo vitamínico sai por não ter indicação. Isso já são três itens a menos, e a lista cai de nove para seis. A varfarina é exatamente o oposto: intervenção de benefício grande, desfecho duro e número necessário pequeno, num paciente com fibrilação atrial permanente, hipertensão e diabetes. Retirá-la para encurtar a lista seria usar o vocabulário da prevenção quaternária para produzir um acidente vascular cerebral. A conduta é o contrário: repactuar a anticoagulação hoje, refazer o controle laboratorial nesta semana, investigar o que está atrapalhando a tomada — número de comprimidos, medo de sangrar, dificuldade de comparecer à coleta, custo do transporte — e resolver o obstáculo concreto que aparecer. Retirar três medicamentos e reforçar um é uma consulta em que a lista encurtou e o tratamento melhorou, e é isso que se explica à família com estas palavras: alguns remédios estão fazendo mal e vão sair; um deles está evitando um derrame e vai ficar, e a gente vai fazer ele funcionar melhor. Registre tudo — o que saiu, por quê, o que ficou, por quê, e a decisão de reforçar a anticoagulação — porque é esse registro que impede que a próxima consulta recomece a discussão do zero.
Achado incidental exige classificação pelo órgão, aspecto, risco individual e possibilidade de ação: investigar, acompanhar com prazo ou dispensar seguimento fundamentadamente. Ausência de relação com a queixa não significa ausência de importância. Para massa adrenal homogênea com até 10 HU em TC sem contraste, a diretriz ESE 2023 dispensa imagem adicional, independentemente do tamanho; isso não substitui a avaliação hormonal inicial indicada. No caso descrito, a avaliação inicial é normal e o aspecto benigno está caracterizado. Explicar por que não indicar imagem seriada; reavaliar se surgirem manifestações hormonais ou mudanças clínicas relevantes.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Apresente o caso de Ivone ao preceptor: qual risco tratar agora, que hipóteses coexistem, quais medicamentos suspender ou rever e por que o desmame do clonazepam não é fixo? Explique à paciente o plano de segurança e compare a função desejada com uma meta laboratorial. Consulte as tabelas quando precisar; o objetivo é justificar decisões.
Em 30 dias
Com consentimento e supervisão, faça reconciliação de uma lista real e registre indicações, riscos, acesso e prioridades da pessoa. Pactue com o preceptor uma mudança quando indicada, monitoramento e responsável pelo contato. No retorno, compare benefício, dano e função; não retire um remédio apenas para cumprir a atividade.
Agora atenda
Agora atenda: mulher de 73 anos, viúva, aposentada, vem à unidade básica trazendo uma sacola com onze caixas de medicamento e um pedido de exames feito por um especialista em consulta particular. Queixa-se de cansaço e de duas quedas nos últimos quatro meses, e diz que a filha quer que ela faça um check-up completo. Descubra o que ela quer do tratamento, revise a lista item por item, procure a cascata na linha do tempo, decida o que sai nesta consulta e escreva a retirada com degrau, intervalo e reavaliação — e diga a ela, em voz alta, por que os exames não foram pedidos.
