Clínica MédicaMedicina Intensiva e Emergências

O íon que ninguém pediu

Distúrbios do cálcio, magnésio e fósforo (hipercalcemia/hipocalcemia)

Cálcio, magnésio e fósforo no plantão: ler o número certo, decidir quem precisa de íon na veia agora e fazer a conta do sal antes de a bomba começar

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde. Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 70, de 5 de agosto de 2026 — aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Hipoparatireoidismo (revoga a Portaria SAS/MS nº 450/2016)

Turner J, Gittoes N, Selby P; Society for Endocrinology Clinical Committee. Society for Endocrinology Endocrine Emergency Guidance: Emergency management of acute hypocalcaemia in adult patients. Endocrine Connections 2016;5(5):G7-G8, doi 10.1530/EC-16-0056; adendo em Endocrine Connections 2019;8(6):X1, doi 10.1530/EC-16-0056a

Walsh J, Gittoes N, Selby P; Society for Endocrinology Clinical Committee. Society for Endocrinology Endocrine Emergency Guidance: Emergency management of acute hypercalcaemia in adult patients. Endocrine Connections 2016;5(5):G9-G11, doi 10.1530/EC-16-0055

Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais / Ebserh. Protocolo Assistencial nº 296 — Abordagem do paciente adulto com hipofosfatemia. Versão 01, dezembro de 2021

Okino VT. Hipomagnesemia na Sala de Urgência. Revista Qualidade HC, Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, artigo 215; última alteração em 24 de julho de 2017

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Responda antes de ler

Mulher de 45 anos, 70 kg, em ventilação mecânica, falha no teste de respiração espontânea; fósforo de 0,8 mg/dL, potássio de 3,6 mmol/L e creatinina normal. O hospital só tem fosfato de potássio a 2 mEq/mL, que traz 1,12 mmol de fosfato e 2,02 mEq de potássio em cada mL. A equipe prescreve 0,25 mmol/kg de fosfato. Qual é o volume da ampola e a carga de potássio dessa dose?

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O paciente que você vai ver

Madrugada de plantão, 3h10. O seu celular vibra no bolso do jaleco, e a técnica de enfermagem fala baixo, para não acordar o quarto inteiro: a paciente do leito 14 está com a mão travada e diz que a boca formiga. Genoveva Furtado, 57 anos, 62 quilos, internada há 36 horas por pancreatite aguda alcoólica, em jejum, com soro fisiológico correndo e analgesia prescrita. Você é o interno do plantão, e o residente está na sala de emergência atendendo uma parada.

Ela está sentada na beira da cama, respirando depressa, e segura a mão direita com a esquerda como quem segura um objeto quebrado. Os dedos estão estendidos e colados, o polegar dobrado para dentro da palma, o punho fletido. Conta que começou pelos lábios, passou para a ponta dos dedos, e que a mão fechou sozinha quando a técnica inflou o manguito para medir a pressão das três horas. A voz está normal, não há ruído na inspiração, a frequência respiratória é 28 e a saturação, 97% em ar ambiente. Quando você percute com a ponta do dedo à frente da orelha dela, o canto da boca repuxa.

No prontuário, os exames das 22 horas: cálcio total de 6,6 mg/dL, albumina de 2,4 g/dL, potássio de 3,1 mmol/L, creatinina de 0,8 mg/dL. Abaixo, a evolução da tarde: hipocalcemia por hipoalbuminemia, cálcio corrigido de 7,9, praticamente normal, repetir amanhã. Magnésio e fósforo não foram pedidos em nenhum momento da internação. A conta está certa — 6,6 somado a 0,8 vezes a diferença entre 4,0 e 2,4 dá 7,9. O que está errado é o que se concluiu dela.

A técnica traz o eletrocardiógrafo. O ritmo é sinusal, a 104 por minuto, e o intervalo QT corrigido que o aparelho imprime é de 520 milissegundos. Às três da manhã você não precisa ser cardiologista para entender o recado: alguma coisa está deixando a repolarização lenta, e a mão travada e o QT longo contam a mesma história por dois caminhos.

Nos próximos cinco minutos você precisa responder perguntas que o livro separa em capítulos e que a paciente junta numa pessoa só. O cálcio corrigido de 7,9 absolve ou condena? Dá para esperar o cálcio iônico, ou a mão fechada já é a resposta? Quanto gluconato, diluído em quê, correndo em quanto tempo — e quantos miligramas de cálcio existem, de fato, numa ampola? Por que o magnésio, que ninguém pediu, pode fazer o cálcio que você vai dar não se sustentar? E o que vai acontecer com o fósforo no terceiro dia, quando a dieta recomeçar?

Este capítulo é sobre esses três íons quando chegam alterados ao plantão: o cálcio que trava a mão e o coração, o magnésio que impede os outros de se corrigirem e o fósforo que falta em silêncio até o diafragma cansar. Genoveva acompanha o capítulo da mão travada até a alta, e o que se decide por ela nas próximas horas é o roteiro do bloco de conduta.

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Quem adoece disso

Dos três íons, o fósforo é o único com número de enfermaria escrito num documento brasileiro. O protocolo de hipofosfatemia do Hospital das Clínicas da UFMG, de dezembro de 2021, reúne a literatura assim: a hipofosfatemia aparece em 5% dos pacientes internados e em 20% a 80% dos internados em terapia intensiva; é mais frequente na sepse, onde chega a 65% a 80%, no trauma, com 75%, na doença pulmonar obstrutiva crônica, com 21,5%, no alcoolismo crônico, entre 2,5% e 30,4%, e na síndrome de realimentação; e se associa a internação e permanência em terapia intensiva mais longas. Leia a faixa larga da terapia intensiva como o retrato de um exame que só existe quando alguém o pede: o paciente com 0,9 mg/dL que não sai do ventilador costuma ter, no prontuário, um fósforo em branco.

A hipercalcemia tem um número que organiza o raciocínio do plantão inteiro. Segundo a orientação de emergência da Society for Endocrinology, de 2016, noventa por cento das hipercalcemias vêm de duas causas: hiperparatireoidismo primário ou câncer. As duas se separam por um único exame, o paratormônio, colhido junto com o cálcio: alto ou inapropriadamente normal no hiperparatireoidismo, baixo no câncer e nas causas menos comuns. Os dez por cento restantes são uma lista longa — tiazídico, lítio, excesso de vitamina D, doença granulomatosa, imobilização, tireotoxicose, insuficiência adrenal, síndrome leite-álcali — e é nela que mora o idoso que chega confuso sem câncer e sem nódulo cervical.

Para a hipocalcemia, o documento federal fala de uma doença só. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Hipoparatireoidismo, aprovado em agosto de 2026, estima a prevalência do hipoparatireoidismo crônico em 37 e 40 casos por 100.000 habitantes nos Estados Unidos e na Escócia, com o pós-cirúrgico entre 22 e 29 por 100.000, e registra o dano cirúrgico na tireoide, na paratireoide e no pescoço como a causa mais comum. É a hipocalcemia do cirurgião de cabeça e pescoço. Na enfermaria de clínica, a lista de onde vem o cálcio baixo é outra: pancreatite, sepse, transfusão de muitas bolsas, magnésio baixo, alcalose, rabdomiólise, lise tumoral, insuficiência renal.

Disponibilidade terapêutica precisa ser confirmada na farmácia e no formulário do hospital. A Rename 2024 é uma referência de elenco de uma data específica; ausência nela não prova que o SUS inteiro não ofereça o medicamento nem que ele não exista no serviço. Conferir sal, concentração e apresentação reais antes de calcular. Gluconato e cloreto de cálcio, sulfato de magnésio 10% e 50%, fosfatos com sódio ou potássio e apresentações de antirreabsortivos não são intercambiáveis apenas pelo nome do íon. Quando falta um produto, discutir alternativa validada e recursos de monitorização.

As referências deste capítulo têm escopos distintos: hipoparatireoidismo crônico, emergências endócrinas, reposição hospitalar e lise tumoral. Reconhecer essa diferença evita aplicar uma faixa de um grupo a todos os pacientes. Documentos institucionais orientam prática local e precisam de revisão; eles não demonstram a inexistência de outras recomendações. Divergências de unidade exigem conferência farmacêutica e clínica, enquanto diferenças de dose podem refletir gravidade, produto e ambiente. Usar a fonte como apoio ao raciocínio, com atualização e supervisão.

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Por que acontece o que acontece

Comece pelo que o laboratório mede e pelo que a célula enxerga, porque não são a mesma coisa. O cálcio do sangue circula em três formas: livre, ligado à albumina e preso a pequenos ânions como citrato, fosfato e bicarbonato. Só a fração livre — o cálcio iônico — atravessa canais, estabiliza membranas e contrai músculo. O exame de rotina mede o total, e a fórmula de correção do PCDT de 2026 (somar 0,8 mg/dL para cada 1 g/dL de albumina abaixo de 4,0) tenta estimar o total ajustado à albumina, sem medir diretamente o livre supondo que a albumina segura sempre a mesma proporção. O próprio PCDT dá o exemplo em que a suposição funciona: na gravidez a albumina cai com a expansão do plasma, o total cai junto, e o iônico não se move. A fórmula falha quando a ligação muda sem a albumina mudar.

Três situações do plantão mudam essa ligação. A alcalose — inclusive a respiratória de quem hiperventila de dor ou de medo — tira hidrogênio da albumina e abre lugar para o cálcio, que sai da fração livre sem sair do sangue: o total fica igual e o iônico cai, e é por isso que Genoveva, respirando a 28 por minuto, fecha a mão com um corrigido de 7,9. O citrato das bolsas de sangue quela o cálcio livre enquanto o fígado não o metaboliza. E o fosfato alto da insuficiência renal e da lise tumoral prende cálcio em complexo. Nas três, o número corrigido pode parecer aceitável enquanto a fração que importa está baixa — e o que decide é o sintoma, o eletrocardiograma e o iônico, nunca a conta sozinha.

O cálcio livre é mantido pelo paratormônio, que tira cálcio do osso, segura cálcio no túbulo renal, manda o rim ativar a vitamina D para absorver cálcio no intestino e, ao mesmo tempo, faz o rim jogar fósforo fora. O elo que o plantão esquece é o magnésio: sem ele a paratireoide não secreta e o tecido não responde. O PCDT de 2026 chama isso de hipoparatireoidismo funcional — causado tanto pelo magnésio baixo quanto pelo alto, e reversível quando o magnésio se corrige. Na prática, hipocalcemia com magnésio baixo é um balde furado: o gluconato sobe o cálcio por algumas horas, e o eixo que deveria segurá-lo continua desligado.

Por que o cálcio baixo trava a mão? O PCDT descreve o mecanismo: a hipocalcemia diminui o limiar de despolarização da membrana do axônio, e o nervo passa a disparar sozinho. Os primeiros a disparar são os de maior sensibilidade — parestesia em torno da boca e na ponta dos dedos —, depois os motores, com o espasmo carpopedal, e no extremo a laringe, que fecha, e o córtex, que convulsiona. O manguito inflado acima da pressão sistólica deixa o nervo do antebraço em isquemia e baixa ainda mais o limiar, e é esse o sinal de Trousseau que a técnica provocou sem querer. No coração, a fase de platô do potencial de ação se alonga, e o intervalo QT se estica com ela.

A hipercalcemia faz o contrário na membrana — sobe o limiar, e o paciente fica fraco, lento, constipado, confuso, com QT curto — e faz algo pior no rim. O cálcio alto impede o túbulo de concentrar a urina: o paciente urina muito, bebe pouco porque está nauseado, e desidrata. Com menos volume, o rim filtra menos e reabsorve mais sódio no túbulo proximal, e o cálcio vai junto com o sódio. Mais cálcio retido, mais poliúria, menos volume: é uma espiral, e ela explica as duas regras de ouro do tratamento de urgência. A primeira intervenção é devolver volume com soro fisiológico. E diurético de alça antes de o volume voltar aprofunda a espiral — a orientação britânica de 2016 o reserva para a sobrecarga de volume e registra que ele não é eficaz para baixar o cálcio.

O magnésio vive quase todo dentro das células e no osso, e o que circula é uma fração pequena do total. Por isso o protocolo da emergência de Ribeirão Preto manda decidir o tratamento pela clínica e pelos fatores de risco, e não só pelo número: magnésio sérico normal não prova estoque normal. Quando falta, três coisas acontecem ao mesmo tempo. O rim perde potássio, e a hipocalemia não sobe com a reposição — mecanismo detalhado no capítulo Potássio: hipo e hipercalemia na enfermaria, da apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado. A paratireoide desliga, e a hipocalcemia não se sustenta. E a membrana fica excitável, com tremor, fasciculação, convulsão e a taquicardia ventricular polimórfica do QT longo, a torção das pontas.

O rim é a principal via de eliminação do magnésio. Acúmulo pode produzir hiporreflexia, sonolência, hipotensão, bradicardia, bloqueios e depressão respiratória, sem sequência clínica obrigatória. Cálcio EV antagoniza temporariamente parte dos efeitos, mas não remove magnésio. Suspender a fonte, garantir ventilação quando necessário e avaliar eliminação, incluindo diálise nos quadros graves. Não esperar o desaparecimento dos reflexos para suspeitar de toxicidade nem interpretar o retorno deles como prova de resolução completa.

Fosfato participa do ATP, das membranas e do 2,3-DPG das hemácias. Concentração sérica não mede diretamente estoque corporal: perdas, baixa ingestão e redistribuição podem coexistir. Insulina, alcalose e realimentação podem reduzir rapidamente o fósforo; queda grave por redistribuição também pode ter consequências clínicas e não deve ser declarada inofensiva por esse mecanismo. Reposição depende de sintomas, gravidade, contexto e função renal. Na deficiência importante, fraqueza respiratória, disfunção muscular e alterações hematológicas podem ocorrer. No excesso, especialmente com lise tumoral ou falência renal, há risco de queda do cálcio e precipitação de fosfato de cálcio. Esses mecanismos explicam por que a correção de um íon exige acompanhar os outros.

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Como se apresenta de verdade

Cada um dos seis distúrbios costuma chegar ao nível preso a uma doença, e a doença tem dono. Por isso, antes das apresentações, o mapa. Este capítulo assume o que não tem outro dono: ler o cálcio e saber quando a correção pela albumina engana; a hipocalcemia aguda sintomática fora da tireoidectomia; a abordagem de urgência da hipercalcemia que vale para qualquer causa — volume, o que colher antes, o que não fazer, quando chamar; a hipomagnesemia e a hipermagnesemia fora da gestante; a hipofosfatemia, com a reposição venosa e a conta do potássio que vem junto; e a hiperfosfatemia, inclusive o reconhecimento e o manejo de plantão da lise tumoral, que não tem capítulo dono neste nível e fica assumida aqui.

E cede, pelo nome, o que já tem dono. A hipercalcemia da malignidade — mecanismo, gravidade e tratamento específico, com o bisfosfonato e o caminho dele no Sistema Único de Saúde — pertence ao capítulo Câncer de pulmão (não-pequenas células, estadiamento, ressecabilidade), da apostila de Cirurgia Torácica. O hiperparatireoidismo primário é de Hiperparatireoidismo e nódulo/massa cervical, e a hipocalcemia depois da tireoidectomia é de Bócio, hipertireoidismo e indicações de tireoidectomia, ambos da apostila de Cirurgia de Cabeça e Pescoço. O potássio, inclusive o gluconato de cálcio da hipercalemia e o magnésio que acompanha a reposição de potássio, é de Potássio: hipo e hipercalemia na enfermaria. A síndrome de realimentação como decisão de dieta é de Dieta hospitalar: escolha, jejum, progressão e via alternativa, ambos da apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado; a realimentação da anorexia nervosa segue no capítulo de transtornos alimentares da apostila de Psiquiatria, que a assumiu por inteiro. O sulfato de magnésio na gestante é de Eclâmpsia: manejo da crise e sulfato de magnésio (esquemas e toxicidade). O fósforo da cetoacidose é de Cetoacidose diabética; o metabolismo mineral da doença renal é de Doença renal crônica: estadiamento e manejo; a rabdomiólise e a indicação de diálise, de Injúria renal aguda: pré-renal, renal e pós-renal. A leitura do eletrocardiograma é de ECG na prática: leitura sistemática em 8 passos; a torção das pontas, de Taquiarritmias supraventriculares e ventriculares no pronto-socorro; o cálcio da transfusão maciça no trauma, de Choque hemorrágico no trauma e reposição volêmica / transfusão maciça; e a pancreatite, de Pancreatite aguda (Ranson, Atlanta, biliar x alcoólica) — a hipercalcemia que causa pancreatite é abordada aqui como hipercalcemia.

Percurso de aprendizagem

Compare total, albumina, iônico, pH e sintomas. Explique o que cada medida representa e qual incerteza permanece. Antes de calcular uma ampola, diga se o paciente precisa de suporte ou reposição imediata e quem deve estar presente.

Para cada bolsa, escreva indicação, sal, concentração original, quantidade do íon, cátions associados, volume final e velocidade. Refaça a conta de trás para frente e confira função renal, outras infusões, compatibilidade e horário do controle.

Acompanhe a evolução: identifique perdas persistentes, realimentação ou lise tumoral; reveja a necessidade de repetir, reduzir ou suspender a reposição. Prepare uma passagem de cuidado com valores mínimos, resposta, pendências e plano de alta.

A hipocalcemia que trava: da boca formigando ao laringoespasmo

A apresentação segue a ordem da excitabilidade descrita no mecanismo. Primeiro a parestesia em torno da boca e na ponta dos dedos, que o paciente descreve como formigamento ou dormência. Depois as cãibras e o espasmo carpopedal — punho fletido, dedos estendidos e colados, polegar dentro da palma — e o sinal de Chvostek, a contração do canto da boca quando se percute o nervo facial à frente da orelha. No extremo, o que o PCDT de 2026 lista como manifestações agudas de hipocalcemia grave: tetania, convulsão, laringoespasmo, broncoespasmo e falência cardíaca. O eletrocardiograma mostra QT longo, e o ritmo pode degenerar.

O que transforma a hipocalcemia em emergência não é um número isolado. A Society for Endocrinology define hipocalcemia grave como cálcio abaixo de 1,9 mmol/L — cerca de 7,6 mg/dL — ou sintomática em qualquer valor abaixo da referência. Leia a segunda metade com atenção: um paciente com espasmo carpopedal e cálcio corrigido de 7,9 está na categoria grave, porque é sintomático. A velocidade da queda também conta, e o PCDT registra que a intensidade e a rapidez da instalação se correlacionam com os sintomas — quem cai em horas trava a mão com valores que o renal crônico tolera calado.

Na enfermaria de clínica, quem faz hipocalcemia aguda é quem tem um motivo para perder cálcio livre depressa: pancreatite, em que o cálcio se deposita na gordura necrosada; sepse; transfusão de muitas bolsas, pelo citrato; alcalose, inclusive a da hiperventilação; magnésio baixo, que desliga a paratireoide; lise tumoral e insuficiência renal, pelo fosfato alto; o início da rabdomiólise; e o bisfosfonato dado a quem tem vitamina D baixa ou paratormônio suprimido, efeito que a orientação britânica de hipercalcemia registra. O pós-operatório de tireoide e de paratireoide, com a fome óssea depois da paratireoidectomia, pertence aos capítulos de cabeça e pescoço.

Um detalhe clínico que evita erro: a gestante tem cálcio total mais baixo pela diluição da albumina, e o PCDT lembra que o iônico e o corrigido permanecem inalterados na gravidez. O total baixo da gestante sem sintoma não comprova hipocalcemia, e é o iônico que decide.

Vista oblíqua palmar de uma mão com punho e articulações metacarpofalângicas flexionados, quatro dedos longos estendidos nas interfalângicas e polegar aduzido junto à palma.
Postura do espasmo carpopedal associado ao sinal de Trousseau. A figura mostra a configuração da mão, sem representar a execução da manobra com manguito. O achado sugere hiperexcitabilidade neuromuscular e deve ser interpretado junto com cálcio ionizado, magnésio, equilíbrio ácido-base e contexto clínico; não confirma sozinho hipocalcemia. Ilustração sintética educacional.

A hipercalcemia que confunde: o idoso lento e o paciente que parou de comer

A hipercalcemia raramente se anuncia pelo nome. A orientação britânica de 2016 lista o que ela produz, e a lista parece a de dez doenças diferentes: sede e poliúria; anorexia, náusea e constipação; alteração de humor, déficit cognitivo, confusão e coma; perda de função renal; QT curto e arritmias; cálculo e nefrocalcinose; pancreatite; úlcera péptica; hipertensão; fraqueza muscular. O paciente típico do plantão é o idoso que a família traz porque está lento, parou de comer e dorme o dia inteiro — e cujo cálcio ninguém pediu, porque a hipótese era infecção urinária ou acidente vascular.

A mesma orientação dá as faixas que decidem a urgência, em mmol/L, que multiplicadas por quatro dão mg/dL. Abaixo de 3,0 mmol/L — 12 mg/dL —, a hipercalcemia costuma ser assintomática e não exige correção urgente. Entre 3,0 e 3,5 mmol/L — 12 a 14 mg/dL —, pode ser bem tolerada se subiu devagar, mas pode dar sintoma, e o tratamento imediato costuma estar indicado. Acima de 3,5 mmol/L — 14 mg/dL —, a correção é urgente, pelo risco de arritmia e coma. Todos esses valores são de cálcio ajustado à albumina.

A velocidade da subida e a história separam, de novo, as duas causas que respondem por noventa por cento. O hiperparatireoidismo primário costuma dar hipercalcemia crônica, estável e moderada, descoberta num exame de rotina ou numa litíase; o capítulo de hiperparatireoidismo trata dela. A hipercalcemia do câncer sobe em semanas, costuma ser mais alta e aparece num paciente que emagreceu, tosse, tem dor óssea ou já tem o diagnóstico; no paciente com câncer que fica confuso, o cálcio entra na primeira coleta, e o manejo específico é do capítulo de câncer de pulmão. A lista curta de causas de menos de dez por cento inclui o que o plantão prescreve e esquece: tiazídico, lítio, suplemento de vitamina D e imobilização prolongada.

A hipercalcemia também causa pancreatite, e a pancreatite também pode esconder uma hipercalcemia, porque a necrose da gordura consome cálcio. O cálcio total da primeira coleta de uma pancreatite sem cálculo e sem álcool é um exame que responde a duas perguntas opostas, e o capítulo de pancreatite ensina a lê-lo; se ele vier alto, a abordagem do cálcio alto é a deste capítulo.

O magnésio que se esconde atrás dos outros dois

A hipomagnesemia quase nunca é o diagnóstico de chegada. Ela aparece como o potássio que não sobe apesar da reposição, como o cálcio que cai de novo três horas depois do gluconato, como a torção das pontas num paciente com QT longo, ou como tremor, fasciculação, fraqueza e convulsão. O protocolo da emergência de Ribeirão Preto resume as manifestações assim: hipocalemia, hipocalcemia, alterações de eletrocardiograma — QT longo, QRS alargado, depressão do segmento ST, torção das pontas — e hiperexcitabilidade neuromuscular.

O mesmo protocolo lista quem perde magnésio no doente grave: perda gastrointestinal, com diarreia, vômito e fístula; diurese osmótica, como na cetoacidose; alcoolismo; e medicamentos — cisplatina, furosemida, aminoglicosídeo, anfotericina B e insulina. O PCDT de 2026 acrescenta um que a atenção primária produz em série e o hospital recebe sem suspeitar: o uso prolongado de inibidor de bomba de prótons pode levar a hipomagnesemia grave. Um paciente de 70 anos com omeprazol há oito anos e diurético de alça, que chega com câimbras, potássio de 2,9 e cálcio corrigido de 7,6, está contando essa história.

Potássio refratário e cálcio que volta a cair justificam investigar magnésio e perdas persistentes. Reposição de emergência pode preceder o resultado quando houver indicação forte e ambiente monitorizado, mas o déficit não se confirma apenas pela história. Estimar risco de acúmulo e rever medicações, ingestão e função renal.

O magnésio que sobra: o reflexo que some antes da respiração

A hipermagnesemia de enfermaria quase sempre é iatrogênica e quase sempre acontece num rim que não filtra: sulfato de magnésio prescrito sem ajuste para quem tem depuração baixa, reposição repetida sem dosagem intermediária, laxante ou antiácido com magnésio num renal crônico. A gestante em sulfato de magnésio é o caso mais conhecido, e o esquema e a vigilância dela pertencem ao capítulo de eclâmpsia; o que está aqui vale para todos os outros pacientes.

Sulfato de magnésio é usado em indicações distintas, com doses e velocidades próprias. Regimes de asma, arritmias e obstetrícia não devem ser somados ou transplantados para reposição de deficiência. Doença renal não impede toda dose de emergência, mas aumenta a necessidade de supervisão, individualização e monitorização. Conferir a concentração: 10 mL a 50% contêm 5 g do sal; a mesma quantidade a 10% contém 1 g. Prescrever em gramas do sal e equivalência do íon, sem decidir por número de ampolas.

As manifestações podem se sobrepor, sem sequência obrigatória. O paciente pode o paciente fica sonolento, com rubor e náusea, e os reflexos profundos diminuem até sumir; também podem ocorrer hipotensão e bradicardia; nos casos graves a respiração deprime e o coração bloqueia. O reflexo patelar é, por isso, o exame que se faz antes de cada dose de magnésio num rim que não filtra: ausente, a dose não entra e o médico é chamado. O PCDT de 2026 lembra ainda um efeito menos óbvio — o magnésio alto também desliga a paratireoide e pode baixar o cálcio, o que soma fraqueza à fraqueza.

O fósforo que falta em silêncio

A hipofosfatemia leve não dá sintoma, e a grave dá sintomas de outra coisa. O protocolo do Hospital das Clínicas da UFMG lista o que a deficiência grave produz: fraqueza muscular, dor óssea, insuficiência respiratória aguda, insuficiência cardíaca, anemia hemolítica, disfunção de plaquetas com sangramento, rabdomiólise, disfunção hepática e alterações neurológicas — parestesia, convulsão, ataxia, tremor e coma. No plantão, isso tem três rostos: o paciente em ventilação mecânica que não passa no teste de respiração espontânea sem motivo aparente, o alcoolista que recomeçou a comer e ficou fraco e dispneico no terceiro dia, e o paciente em tratamento de cetoacidose que piora a força enquanto a glicose melhora.

O mesmo protocolo organiza as causas por mecanismo. Redistribuição para dentro da célula: síndrome de realimentação, tratamento da cetoacidose, alcalose respiratória, proliferação celular acelerada, síndrome da fome óssea e medicamentos como insulina, beta-2-agonista e corticoide. Menor absorção: dieta pobre, antiácido que prende fósforo, diarreia, vômito e falta de vitamina D. Perda urinária: hiperparatireoidismo, doenças tubulares, alcoolismo crônico, diuréticos, acidose metabólica, transplante renal e reposição de ferro. A sepse e o trauma entram pela soma de mecanismos.

Antes de tratar, desconfie do número. O protocolo registra que a pseudo-hipofosfatemia acontece depois de manitol, no mieloma múltiplo, com bilirrubina elevada e em leucemias agudas — o analisador lê fósforo baixo que o paciente não tem. E lembre que o fósforo varia com o ciclo circadiano e com a alimentação: o protocolo pede a dosagem de manhã e em jejum, sempre que possível, para que o número de hoje seja comparável ao de amanhã.

O fósforo que sobra: lise tumoral, rim que parou e músculo que se desfez

A hiperfosfatemia não tem sintoma próprio; os sintomas são os do cálcio que ela derruba e os do rim que ela entope. Três cenários concentram os casos de plantão. A insuficiência renal, aguda ou crônica, em que o fósforo simplesmente não sai — o metabolismo mineral da doença renal crônica é do capítulo de nefrologia. A rabdomiólise, em que o músculo que se desfaz libera fosfato, derruba o cálcio no começo e pode devolvê-lo em excesso na recuperação — o raciocínio da rabdomiólise é do capítulo de injúria renal aguda. E a lise tumoral, que fica com este capítulo.

O protocolo de emergência oncológica de Ribeirão Preto define a síndrome de lise tumoral como a destruição maciça de células tumorais, espontânea ou provocada pelo tratamento, que despeja no sangue eletrólitos intracelulares e produtos do metabolismo dos ácidos nucleicos. Os fatores de risco que ele lista desenham o paciente: neoplasia hematológica, sobretudo linfoma de alto grau e leucemia com muitas células; tumor sólido muito sensível à quimioterapia, como os germinativos e os de pequenas células; grande carga tumoral, com massas volumosas; desidratação; doença renal crônica prévia; e ácido úrico ou fósforo já altos antes do tratamento.

O quadro clínico da mesma fonte começa inespecífico — náusea, vômito, astenia — e evolui para lesão renal aguda, arritmia por potássio alto e cálcio baixo, convulsão e tetania pelo cálcio baixo, calcificação de tecidos e resposta inflamatória sistêmica. O cenário típico é o do linfoma com massa no mediastino que recebeu a primeira quimioterapia ontem e hoje urina pouco, tem câimbras e náusea. Mas a lise pode ser espontânea, antes de qualquer tratamento, na leucemia com contagem muito alta — e o paciente chega ao pronto-socorro com o diagnóstico da doença e da complicação ao mesmo tempo.

06

Como fechar o diagnóstico

Primeiro avaliar se o paciente está em perigo; estabilização não aguarda conferência de toda a amostra. Em paralelo, interpretar o número, fração e unidade, pesquisar artefatos e construir a hipótese etiológica. A informação pré-tratamento é valiosa quando prontamente obtenível. Depois, registrar intervenção e hora da coleta permite interpretar resultados posteriores e ajustar com segurança.

Uma regra que economiza metade dos erros: os três íons se pedem juntos. Cálcio sem magnésio deixa escondida a causa de a hipocalcemia não se sustentar; magnésio sem fósforo deixa escondido o paciente que vai falhar no desmame; fósforo sem potássio deixa sem conta a prescrição de fosfato de potássio. E o primeiro painel sai numa única punção, preferencialmente antes das intervenções, quando isso não atrasar tratamento urgente.

O cálcio: total, corrigido ou iônico — e em que unidade

O PCDT de 2026 dá as faixas que o capítulo usa: cálcio total de 8,5 a 10,2 mg/dL, que são 2,12 a 2,55 mmol/L, e cálcio iônico de 4,8 a 5,6 mg/dL, que são 1,20 a 1,40 mmol/L. A conversão é uma multiplicação por quatro — cada mmol/L de cálcio vale 4,0 mg/dL e 2 mEq/L — e vale a pena fazê-la de cabeça, porque o cálcio iônico da gasometria costuma sair em mmol/L e o total do laboratório central, em mg/dL. Um iônico de 0,9 mmol/L é 3,6 mg/dL, bem abaixo do corte de hipocalcemia do próprio PCDT, de 4 mg/dL.

A fórmula usual soma 0,8 mg/dL ao cálcio total para cada 1 g/dL de albumina abaixo de 4,0. Ela estima um total ajustado e não mede o cálcio livre; pode classificar incorretamente mesmo pacientes aparentemente estáveis. Hipoalbuminemia importante, doença aguda, alterações de pH, disfunção renal e discordância clínica ampliam a incerteza. Medir cálcio iônico quando esse resultado muda a decisão, sem atrasar tratamento de hipocalcemia clinicamente grave. Um corrigido normal não demonstra sozinho que toda a redução do total seja explicada pela albumina.

O PCDT tem um defeito nos próprios cortes, e ele importa para quem lê laudo em mmol/L. Na seção de diagnóstico, a hipocalcemia é o corrigido abaixo de 8 mg/dL, convertido ali em 2,2 mmol/L, ou o iônico abaixo de 4 mg/dL, convertido em 1,1 mmol/L; na seção de pseudo-hipoparatireoidismo, os mesmos 8 e 4 mg/dL vêm convertidos em 2 e 1 mmol/L. As conversões certas são as da segunda seção. A conta está nas notas do critério.

Um cuidado de coleta que muda o número: o cálcio iônico depende do pH da própria amostra. Bolha de ar na seringa tira gás carbônico, alcaliniza o sangue e baixa o iônico medido. Colha em seringa de gasometria sem bolha, bem vedada, e mande analisar logo; um iônico baixo de amostra com bolha, num paciente sem sintoma e com eletrocardiograma normal, pede nova coleta antes de pedir gluconato.

O magnésio e o fósforo: pedir junto, e pedir de novo

O magnésio se pede em quatro situações: toda hipocalcemia, porque o PCDT de 2026 manda determiná-lo depois da avaliação do cálcio para afastar o hipoparatireoidismo funcional; todo potássio que não sobe com a reposição; todo QT longo ou arritmia ventricular; e todo paciente com fator de risco — diarreia, alcoolismo, diurético, inibidor de bomba de prótons prolongado, cisplatina, anfotericina, aminoglicosídeo. O número normal não encerra a pergunta: o protocolo da emergência de Ribeirão Preto lembra que a concentração sérica não reflete o total do corpo, e a decisão de tratar leva em conta a clínica e os fatores de risco.

Durante magnésio EV, acompanhar pressão, frequência respiratória, consciência, reflexos quando pertinentes, diurese e função renal. Dosar magnésio após a dose, observando o intervalo do protocolo para não interpretar apenas um pico de infusão. Reavaliar antes de repetir, sobretudo em lesão renal ou necessidade de doses adicionais. Em emergência arrítmica, a decisão clínica pode preceder o resultado, com monitorização e equipe habilitada.

O fósforo se pede em quem tem motivo para ele cair — o desnutrido que vai começar dieta, o alcoolista, o paciente em terapia intensiva, o ventilado que não desmama, o paciente em tratamento de cetoacidose — e em quem tem motivo para ele subir, como a lise tumoral e a insuficiência renal. O protocolo do Hospital das Clínicas da UFMG pede que o fósforo seja monitorado durante toda reposição venosa e define a frequência em quem recebe nutrição enteral ou parenteral: a cada dois dias no bem nutrido, todo dia no desnutrido ou em risco nutricional. Na lise tumoral, o protocolo de Ribeirão Preto amarra a frequência ao risco: exames diários no risco baixo, a cada 12 horas no intermediário, a cada 8 horas no alto e a cada 4 a 6 horas na lise já instalada.

Quando a causa da hipofosfatemia permanece incerta, a excreção urinária de fosfato pode ajudar a distinguir perda renal de conservação apropriada. Amostras de sangue e urina devem ser interpretadas com função renal, momento da reposição e contexto. Um limiar amplo de reabsorção entre 85% e 95% não fecha sozinho o diagnóstico. Discutir a medida e sua interpretação com equipe experiente quando ela mudar a investigação.

O eletrocardiograma: o exame que decide a velocidade

Todo paciente com cálcio ou magnésio fora da faixa, e sintoma, faz eletrocardiograma na chegada — e o paciente que vai receber cálcio venoso fica monitorizado durante o bolus, como exige a orientação britânica de hipocalcemia. Ler o traçado passo a passo cabe ao capítulo ECG na prática: leitura sistemática em 8 passos; o que interessa aqui é o que cada íon faz com ele.

Hipocalcemia e hipomagnesemia alongam o intervalo QT, e o magnésio baixo acrescenta, segundo o protocolo de Ribeirão Preto, alargamento do QRS e depressão do segmento ST, com risco de torção das pontas — que, quando aparece, é tratada pelo capítulo de taquiarritmias. A hipercalcemia encurta o QT e, segundo a orientação britânica, pode causar distúrbio de condução e arritmia. A hipermagnesemia grave bloqueia a condução. O potássio, que viaja junto com os três na lise tumoral, na cetoacidose e na prescrição de fosfato de potássio, tem as próprias alterações, descritas no capítulo de potássio.

O ECG ajuda a acompanhar a resposta, mas não substitui os eletrólitos. Conferir QT manualmente e considerar frequência, fórmula de correção, fármacos e outros distúrbios: o valor automático pode ser impreciso, especialmente na taquicardia. QT que encurta não prova normalização do cálcio; nova prolongação não identifica sozinha a causa nem autoriza repetição automática da infusão. Sintomas, ritmo e dados laboratoriais orientam a próxima decisão.

O paratormônio: o exame que separa as causas

Na hipercalcemia, o paratormônio é o primeiro exame de causa, e a orientação britânica de 2016 resume a leitura: cálcio alto com paratormônio alto é hiperparatireoidismo primário ou terciário; cálcio alto com paratormônio baixo é câncer ou uma das causas menos comuns. A mesma orientação registra a exceção que confunde: a hipercalcemia hipocalciúrica familiar pode ter paratormônio normal ou alto e ser tomada por hiperparatireoidismo primário, mas a hipercalcemia costuma ser leve e raramente chega como emergência.

Colher PTH junto com cálcio antes do tratamento se for prontamente viável, registrando o contexto. Não adiar hidratação ou tratamento específico de hipercalcemia grave para obter a amostra ou aguardar seu resultado. Se já houve intervenção, interpretar o par cálcio–PTH com os horários e repetir quando indicado; a investigação não se torna impossível por ter tratado primeiro.

Na hipocalcemia, o PCDT de 2026 define o hipoparatireoidismo pela hipocalcemia com paratormônio baixo — menor que 20 pg/mL, ou 2,1 pmol/L — ou inapropriadamente normal para o cálcio baixo, e manda completar com fósforo, magnésio, creatinina, vitamina D e calciúria de 24 horas. Na enfermaria de clínica, o paratormônio da hipocalcemia aguda raramente muda a conduta da primeira hora — a mão travada recebe gluconato com ou sem ele —, mas muda o seguimento: o paciente com paratormônio baixo e magnésio normal fora de pós-operatório de pescoço precisa de investigação que não termina na alta.

Função renal, gasometria e potássio: os vizinhos que mudam a leitura

Função renal e diurese condicionam segurança de volume, magnésio, fosfato e antirreabsortivos. Creatinina isolada normal não garante depuração preservada em pessoa com pouca massa muscular, nem exclui lesão renal inicial. Em lesão aguda, estimativas de filtração têm limitações. Reduzir e individualizar reposições quando necessário, monitorizar e pedir apoio especializado em doença avançada; não assumir que qualquer dose abaixo de um teto fixo seja segura.

A gasometria responde a duas perguntas. A primeira é o pH, porque a alcalose explica um cálcio iônico baixo com total quase normal e porque a alcalose respiratória empurra fósforo para dentro das células. A segunda é o próprio cálcio iônico, que a maioria dos analisadores de gasometria mede na mesma amostra.

O potássio acompanha os três íons em todas as prescrições deste capítulo. Na hipomagnesemia, ele é o sinal de que o magnésio falta. Na reposição de fosfato, ele é a metade escondida da ampola, porque a única forma venosa do elenco nacional é o fosfato de potássio — e o protocolo mineiro manda escolher fosfato de sódio ou glicerofosfato quando o potássio passa de 4,0 mmol/L, dois produtos que não constam da Rename 2024. Na lise tumoral, ele é o que mata primeiro. A régua de reposição e de tratamento do potássio é do capítulo Potássio: hipo e hipercalemia na enfermaria.

Os exames da causa: o que pedir no plantão e o que deixar para o dono

O painel de plantão para qualquer um dos seis distúrbios é curto e cabe numa punção: cálcio total com albumina e, quando indicado, iônico; magnésio; fósforo; potássio, sódio, ureia e creatinina; glicemia; gasometria quando houver dúvida de pH; eletrocardiograma. Na hipercalcemia, acrescente o paratormônio. Na suspeita de lise tumoral, o protocolo de Ribeirão Preto acrescenta ácido úrico e a medida da diurese — que é exame, e se prescreve com horário.

Combinações de eletrólitos orientam hipóteses. Magnésio baixo pode contribuir para hipocalcemia por alteração do PTH; fósforo alto com função renal alterada pede avaliar retenção e lise; fósforo alto com PTH inadequado pode sugerir hipoparatireoidismo; cálcio e fósforo baixos podem ocorrer com deficiência de vitamina D ou outros mecanismos. Nenhuma combinação isolada prova a causa. Cálcio iônico normal afasta deficiência da fração ativa naquele momento, mas a diferença com o total deve ser interpretada por albumina, pH e contexto.

A investigação etiológica continua após estabilizar, mas permanece responsabilidade da equipe atual até haver transferência efetiva do cuidado. PTH suprimido amplia a pesquisa de causas independentes de PTH, incluindo câncer; PTH inadequadamente normal/alto sugere causas dependentes de PTH. Pancreatite não exclui outra causa concomitante de hipocalcemia persistente. Colher exames oportunos quando possível, sem transformar a coleta pré-tratamento em requisito para medidas urgentes.

07

Quem recebe íon na veia agora, quanto e em quanto tempo

Interpretar cálcio, magnésio e fósforo no paciente real, reconhecer emergências, conferir unidades e preparar uma reposição monitorizada com supervisão, sem transformar uma fórmula ou apresentação de farmácia em regra universal.

  1. 11. Há sintoma neuromuscular, convulsão, laringoespasmo, depressão respiratória, bloqueio ou QT alterado que um desses íons explique? Trate agora, antes do número que falta, e colha o painel inteiro na mesma punção: cálcio com albumina e iônico, magnésio, fósforo, potássio, creatinina e, na hipercalcemia, paratormônio.
  2. 22. Interpretar cálcio total com albumina e contexto. A correção é uma estimativa imperfeita do total ajustado, não uma medida do cálcio livre. Preferir iônico quando a decisão clínica depende da fração ativa, sobretudo em doença aguda, hipoalbuminemia importante, alteração de pH ou discordância entre sintomas e total.
  3. 33. Hipocalcemia grave — sintomática em qualquer valor abaixo da referência, ou abaixo de 1,9 mmol/L (7,6 mg/dL): gluconato de cálcio 10%, 10 a 20 mL em 50 a 100 mL de glicose 5%, em 10 minutos, monitorizado; repetir até o sintoma ceder; em seguida, infusão contínua de 1,1 a 2,2 mmol de cálcio por hora.
  4. 44. Dosar magnésio na hipocalcemia e na hipocalemia refratária. Reposição EV conforme gravidade, ritmo cardíaco e função renal; em paciente estável, usar infusão mais lenta. Dose diária e duração são individualizadas, com controles após as doses e revisão antes de repeti-las. Doença renal avançada exige orientação especializada, não aplicação automática de um teto de 3 g.
  5. 55. Hipercalcemia grave ou sintomática: avaliar ABCDE, monitorizar, colher PTH quando viável sem atraso, revisar medicamentos e iniciar SF 0,9% se hipovolêmico, com reavaliação. Volume total depende da resposta e tolerância; não fixar 4–6 L para todo idoso ou paciente renal. Diurético de alça é reservado à sobrecarga quando indicado.
  6. 66. Investigar causa e iniciar tratamento específico em paralelo à reidratação. PTH suprimido pede investigar causas independentes de PTH, incluindo malignidade; não confirma câncer. Hipercalcemia grave não espera resultado de PTH para discutir anti-reabsortivo e outras medidas apropriadas. Insuficiência renal grave ou refratariedade pode exigir diálise.
  7. 77. Hipermagnesemia com reflexo abolido, depressão respiratória ou bloqueio: suspender todo magnésio, gluconato de cálcio por veia, suporte ventilatório e diálise se o rim não filtra.
  8. 88. Hipofosfatemia: interpretar gravidade, sintomas, causa e nutrição. EV na deficiência grave/sintomática ou quando via enteral é inadequada, com dose individualizada, produto conferido e monitorização de todos os eletrólitos envolvidos. Transição e suspensão dependem da evolução, não só de um corte fixo.
  9. 99. Hiperfosfatemia: avaliar lise tumoral, lesão renal e fontes exógenas. Hipocalcemia assintomática na lise geralmente não recebe cálcio; manifestações graves ou necessidade de proteção cardíaca por hipercalemia podem justificar cálcio monitorizado. Ajustar hidratação à avaliação volêmica e chamar hematologia/nefrologia precocemente.
DistúrbioO que torna urgentePrimeira horaO que não fazerRégua
HipocalcemiaSintoma neuromuscular, convulsão, laringoespasmo ou QT longo em qualquer valor abaixo da referência; ou cálcio abaixo de 1,9 mmol/L (7,6 mg/dL)Gluconato de cálcio 10%, 10 a 20 mL em 50 a 100 mL de glicose 5% em 10 minutos, monitorizado e repetível; infusão contínua em seguida; magnésio dosado e repostoEsperar o iônico com a mão travada; absolver o paciente pelo corrigido; cloreto de cálcio em veia periféricaPCDT do Hipoparatireoidismo, 2026; Society for Endocrinology, 2016 e adendo de 2019
HipercalcemiaAcima de 3,5 mmol/L (14 mg/dL); entre 3,0 e 3,5 mmol/L (12 a 14 mg/dL) com sintoma ou subida rápidaAvaliar gravidade, PTH sem atrasar medidas urgentes, SF 0,9% individualizado se hipovolemia, revisão de medicamentos e tratamento da causa em paraleloExpansão fixa em paciente sem tolerância; furosemida para calciúria rotineira; adiar tratamento específico esperando o PTHSociety for Endocrinology, 2016
HipomagnesemiaAbaixo de 1 mg/dL com hiperexcitabilidade, hipocalemia ou alteração de eletrocardiograma; torção das pontasSulfato de magnésio EV com dose e velocidade conforme manifestação, protocolo e função renal; monitorizar e revisar antes de repetir. Infusão rápida exige emergência e ambiente apropriadosTrocar a ampola de 10% pela de 50%; repor sem olhar a creatininaPCDT do Hipoparatireoidismo, 2026; HCFMRP-USP, 2017
HipermagnesemiaReflexo profundo abolido, sonolência, hipotensão, bradicardia, depressão respiratória ou bloqueio de conduçãoSuspender todo magnésio; gluconato de cálcio 10%, 10 a 20 mL em 10 minutos; suporte ventilatório; diálise se o rim não filtraAchar que o cálcio resolveu: ele protege a membrana e não retira magnésioRaciocínio do antídoto e da remoção; na gestante, o capítulo de eclâmpsia
HipofosfatemiaAbaixo de 1,0 mg/dL; ou sintomática — fraqueza respiratória, falha de desmame, hemólise, rabdomióliseReposição de fosfato pela via apropriada, dose individualizada e conferência de sódio/potássio do produto; monitorizar fósforo, cálcio, potássio, magnésio e função renalRepor automaticamente um número; improvisar produto; ignorar cargas associadas, risco de realimentação ou função renalHC-UFMG, Protocolo nº 296, 2021; Rename 2024
HiperfosfatemiaLise tumoral ou injúria renal com hipocalcemia sintomática, arritmia ou oligúriaSuspender fósforo exógeno; hidratação pela meta de diurese; cálcio só se houver sintoma; potássio e diálise pelos capítulos donosCálcio venoso para hipocalcemia sem sintoma; alcalinizar a urina de rotinaHCFMRP-USP, lise tumoral, 2017

Da dose à ampola, num adulto de 70 quilos

PrescriçãoApresentaçãoContaEm volumeVelocidade e cuidado
Gluconato de cálcio, bolus da hipocalcemia grave e da hipermagnesemiaAmpola de 10 mL a 10%, com 2,2 mmol de cálcio (cerca de 90 mg de cálcio elementar) — não consta da Rename 20241 a 2 ampolas = 2,2 a 4,4 mmol = 90 a 180 mg de cálcio elementar; a dose não depende do peso10 a 20 mL em 50 a 100 mL de glicose 5%10 minutos, monitorizado; repetir até o sintoma ceder; acesso calibroso, checar extravasamento
Gluconato de cálcio, infusão contínua10 ampolas (100 mL) em volume final de 1 litro de soro fisiológico ou glicose 5% = 22 mmol/L50 a 100 mL/h = 1,1 a 2,2 mmol/h = 44 a 88 mg de cálcio por hora = 0,6 a 1,3 mg/kg/h em 70 kg1,2 a 2,4 L em 24 horas, que entram no balanço hídricoTitular pelo iônico e pelo sintoma; manter até a causa ser tratada
Cloreto de cálcio no lugar do gluconatoA concentração varia entre fabricantes; o adendo britânico cita 10 mL a 7,35% e 5 mL a 14,7%, ambos com 5 mmolEquivalente a 1 ampola de gluconato = 2,2 mmol: 4,4 mL a 7,35% ou 2,2 mL a 14,7%Calcular pelos milimoles do rótulo, nunca por ampolaSó em acesso venoso central
Sulfato de magnésio 10%Ampola de 10 mL com 1 g do sal heptaidratado, 0,81 mEq de magnésio por mL (Rename, Componente Básico)1 g = 4,1 mmol = 8,1 mEq de magnésio; 2 g = 16,2 mEqExemplo: 2 g = 20 mL a 10%; o total diário depende de indicação, resposta, perdas e função renalEm reposição estável, infusão lenta conforme protocolo; emergência arrítmica exige esquema próprio. Monitorizar após doses e individualizar na doença renal
Sulfato de magnésio 50%Ampola de 10 mL com 5 g, 4,05 mEq de magnésio por mL (Rename, Componente Básico)1 g = 2 mL; a ampola inteira de 10 mL contém 5 g do sal, dose que não deve ser aspirada por hábito2 g = 4 mL; 6 g = 12 mLDiluir antes de infundir; conferir a concentração no rótulo antes de aspirar
Fosfato de potássio, hipofosfatemia graveAmpola a 2 mEq/mL: 1,12 mmol de fosfato e 2,02 mEq de potássio em cada mL (Rename, Componente Básico)0,25 mmol/kg = 17,5 mmol = 15,6 mL = 31,6 mEq de potássio; 0,5 mmol/kg = 35 mmol = 31,2 mL = 63 mEq de potássioEm veia periférica, até 40 mEq/L de potássio: 0,25 mmol/kg em 1 L; 0,5 mmol/kg em 1,6 LEm 12 horas, 2,6 a 5,3 mEq de potássio por hora; na enfermaria, nunca acima de 10 mEq/h
Soro fisiológico na hipercalcemia de urgênciaCloreto de sódio 0,9%, 0,154 mEq de sódio por mL (Rename)Exemplo de carga: 4–6 L conteriam 616–924 mEq de sódio; não é volume obrigatório nem adequado a todo pacientePrescrever volume e velocidade pela hipovolemia, resposta e tolerânciaReavaliar após cada etapa; no instável ou alto risco de sobrecarga, não aguardar horas para conferir resposta
Ácido zoledrônico na hipercalcemiaÁcido zoledrônico para hipercalcemia exige apresentação, dose, diluição e infusão específicas; conferir bula e função renal com a farmácia4 mg podem corresponder matematicamente a 80 mL de uma solução de 5 mg/100 mL; isso não autoriza fracionar ou substituir apresentações destinadas a indicações diferentesUsar a apresentação adequada ou alternativa validada formalmente pela equipe responsávelAntirreabsortivo selecionado conforme causa, função renal e risco de hipocalcemia; não aguardar resultado de PTH em uma emergência para discutir tratamento

Interpretar cálcio total, albumina e fração iônica

SituaçãoCálcio totalCálcio livreO que pedir
Albumina baixa, paciente estável, pH normalCai junto com a albuminaPode estar preservado, mas não é garantido pela fórmulaCorreção é estimativa; medir iônico se houver dúvida relevante para conduta
GestaçãoCai pela diluição da albuminaInalterado, segundo o PCDT de 2026Interpretar com referência e contexto; total baixo sem sintomas não prova nem exclui hipocalcemia
Alcalose, inclusive a da hiperventilaçãoNão mudaCai, porque a albumina liga mais cálcioIônico na gasometria
Transfusão de várias bolsasPode ficar normalCai pelo citratoIônico seriado
Fósforo alto — lise tumoral, injúria renalCaiCai, e parte do cálcio fica presa ao fosfatoIônico e quadro clínico; avaliar cuidadosamente indicação de cálcio, inclusive hipercalemia com alteração elétrica
Acidose importanteNão mudaSobe, e pode esconder uma hipocalcemia que aparece quando o pH se corrigeIônico antes e depois de corrigir o pH

Lise tumoral no plantão: os critérios do protocolo e o que cada alteração pede

AlteraçãoCritério laboratorial do protocoloO que se faz no plantãoDono
Ácido úrico8 mg/dL ou mais, ou aumento de 25% sobre o basalHidratação para diurese acima de 100 mL/m² por hora; alopurinol (Rename, 100 e 300 mg) ou rasburicase (fora da Rename, contraindicada na deficiência de G6PD)Este capítulo
Potássio6 mmol/L ou mais, ou aumento de 25% — o protocolo escreve mg/dL, ver notaEletrocardiograma e o tratamento da hipercalemiaPotássio: hipo e hipercalemia na enfermaria
Fósforo4,5 mg/dL ou mais, ou aumento de 25%Suspender fósforo exógeno; hidratação; diálise se o rim não dá contaEste capítulo; a diálise, Injúria renal aguda: pré-renal, renal e pós-renal
Cálcio7 mg/dL ou menos, ou queda de 25%Cálcio EV na hipocalcemia sintomática relevante ou indicação específica de proteção cardíaca; não em qualquer alteração inespecífica do ECGEste capítulo
Lise clínicaLise laboratorial com insuficiência renal aguda, arritmia, morte súbita ou convulsãoTerapia intensiva ou sala de emergência, exames a cada 4 a 6 horas, nefrologia juntoEste capítulo, com o capítulo de injúria renal aguda

Cálcio não repõe fósforo. Hipocalcemia sintomática/grave tem indicação própria de cálcio EV; hipofosfatemia pode exigir fosfato. Outras indicações de cálcio, como proteção cardíaca na hipercalemia ou antagonismo de hipermagnesemia grave, permanecem válidas. Uma redação ambígua de documento não substitui a avaliação da indicação e não deve ser apresentada como uma alternativa terapêutica legítima.

O mesmo PCDT escreve a manutenção como gliconato de cálcio em infusão contínua de 0,5 a 2,0 mg/kg de peso, sem unidade de tempo e sem dizer se a massa é de cálcio elementar ou do sal. Conta num adulto de 70 kg, com a ampola que o próprio PCDT declara (90 mg de cálcio por 10 mL): lida como mg/kg/h de cálcio elementar, a faixa dá 35 a 140 mg por hora, ou 0,87 a 3,5 mmol/h, ou 3,9 a 15,6 mL/h de gluconato a 10%; lida como mg/kg/h do sal, dá 3,2 a 12,6 mg de cálcio por hora, ou 0,08 a 0,31 mmol/h, ou 0,35 a 1,4 mL/h — onze vezes menos. A Society for Endocrinology fixa 1,1 a 2,2 mmol/h, alcançada só pela primeira leitura. Esta apostila adota o esquema britânico (ver divergências).

O PCDT converte os cortes de hipocalcemia de dois jeitos. Na seção 3.2, cálcio corrigido abaixo de 8 mg/dL (2,2 mmol/L) ou iônico abaixo de 4 mg/dL (1,1 mmol/L); na seção 6.1, os mesmos cortes como 2 e 1 mmol/L. Conta: cálcio tem 40,08 g/mol, e 8 mg/dL são 80 mg/L, ou 2,0 mmol/L; 4 mg/dL são 1,0 mmol/L. Os números da 3.2 correspondem a 8,8 e 4,4 mg/dL. Um laudo de 2,1 mmol/L (8,4 mg/dL) de corrigido, ou de 1,05 mmol/L (4,2 mg/dL) de iônico, é hipocalcemia pela conversão da 3.2 e não é pelos mg/dL nem pela 6.1. Leia sempre em mg/dL, ou converta multiplicando por quatro.

O PCDT do Hipoparatireoidismo (2026) recomenda, na seção 7.2.4, reposição oral de magnésio de 800 mg a 1.600 mg por dia, equivalentes a 40 a 80 mEq ou 20 a 40 mmol, sem dizer de que sal. Conta: 20 a 40 mmol de magnésio só pesam 800 a 1.600 mg se o sal for óxido de magnésio (40,3 g/mol) — o mesmo que o protocolo de Ribeirão Preto nomeia —, e óxido de magnésio não consta da Rename 2024 nem da lista de medicamentos do próprio PCDT. A única forma oral do elenco é o sulfato de magnésio em pó, heptaidratado (246,5 g/mol): 800 a 1.600 mg dele dão 3,2 a 6,5 mmol, um sexto do pretendido, e os 20 a 40 mmol exigiriam 4,9 a 9,9 g por dia, dose que provoca diarreia e agrava a perda. Prescreva magnésio oral sempre pelo nome do sal e em milimoles.

A unidade de fósforo do laudo e da prescrição deve ser conferida: 2 g/dL equivalem a 2.000 mg/dL e não são um alvo clínico. Isso não permite concluir que toda reposição deva ser suspensa em 2 mg/dL. Interrupção, via e meta dependem do protocolo validado, referência laboratorial, sintomas, perdas e risco de realimentação.

O mesmo protocolo declara segura a infusão de até 45 mmol de fosfato na velocidade de até 20 mmol/h. A única forma venosa da Rename 2024 é o fosfato de potássio, com 1,12 mmol de fosfato e 2,02 mEq de potássio por mL (a tabela do protocolo arredonda para 1,1 mmol e 2 mEq). Conta: 45 mmol são 40 mL e 81 mEq de potássio; 20 mmol/h são 18 mL/h e 36 mEq de potássio por hora — acima do teto de 20 mmol/h, habitualmente 10, que o Protocolo nº 295 do mesmo hospital fixa para potássio venoso fora de emergência, e mais de três vezes o teto de enfermaria do capítulo de potássio. Além disso, a dose da hipofosfatemia grave, até 0,5 mmol/kg, ultrapassa o teto de 45 mmol em quem pesa mais de 90 kg: 100 kg vezes 0,5 dá 50 mmol.

O Protocolo nº 296 dá as classes de hipofosfatemia em mmol/L e em mg/dL, e elas não coincidem. Moderada: 0,4 a 0,5 mmol/L e 1,0 a 1,9 mg/dL. Conta, com fósforo de 30,97 g/mol (1 mmol/L = 3,1 mg/dL): 0,4 a 0,5 mmol/L são 1,24 a 1,55 mg/dL; 1,0 a 1,9 mg/dL são 0,32 a 0,61 mmol/L. Um fósforo de 1,7 mg/dL, ou 0,55 mmol/L, é moderado em mg/dL — reposição pela boca — e não cabe em classe nenhuma em mmol/L, entre a moderada e a leve, que não se trata. Leia em mg/dL, a unidade em que as três classes fecham.

O protocolo de lise tumoral da emergência do HCFMRP-USP (2017) escreve o critério laboratorial de potássio como 6 mg/dL ou mais. Potássio se mede em mmol/L. Conta: 1 mmol/L de potássio são 3,91 mg/dL; 6 mg/dL são 1,53 mmol/L, e um potássio perfeitamente normal de 4,0 mmol/L equivale a 15,6 mg/dL. Ao pé da letra, todo paciente preencheria o critério de potássio, e bastaria mais uma alteração para a lise laboratorial parecer instalada. O critério usado neste capítulo é 6 mmol/L ou aumento de 25% sobre o basal.

08

A conduta, hora a hora

A conduta acompanha Genoveva Furtado da mão travada das três da manhã até a alta. A pancreatite dela — volume, analgesia, quando e como recomeçar a dieta — é conduzida pela equipe e pelo capítulo de pancreatite, e a progressão da dieta segue a régua de realimentação do capítulo de dieta hospitalar; o potássio, que também está baixo, segue a régua do capítulo de potássio, em outro acesso. O que está abaixo é só o que cabe a este capítulo: o cálcio, o magnésio e o fósforo, hora a hora, com a conta de cada bolsa.

As prioridades são ameaça imediata, suporte, reposição indicada e reavaliação. Colher antes quando possível, mas nunca atrasar uma intervenção urgente. Distúrbios concomitantes frequentemente precisam de tratamento paralelo por acessos compatíveis, em ritmo definido pela gravidade. Cálcio, magnésio e fósforo não formam uma fila fixa; conhecer interações serve para coordenar o tratamento, não para deixar uma deficiência grave esperando por outra.

  1. Madrugada, 3h15 — mão travada e QT de 520: tratar antes do número

    Genoveva apresenta tetania e QT prolongado com hipocalcemia conhecida: chamar imediatamente o residente ou outro médico disponível, avaliar via aérea, respiração, circulação e glicemia, colocar monitor e tratar. Não aguardar o resultado do cálcio iônico para iniciar cálcio EV nesse contexto. Colher amostras antes da infusão se isso for prontamente possível, sem atrasar tratamento. Usar gluconato com dose, concentração, diluente, volume final e tempo claramente escritos; não misturar com bicarbonato ou fosfato. Avaliar a taquipneia, inclusive dor e causas respiratórias/metabólicas; não a atribuir apenas ao medo. Acompanhar a paciente durante a administração.

    Prescrição
    • Gluconato de cálcio 10%, 20 mL da apresentação com 2,2 mmol por 10 mL (4,4 mmol de cálcio), diluir em SF 0,9% compatível até volume FINAL de 100 mL e administrar em 10 minutos, com monitorização cardíaca e acesso adequado. Conferir a bula da apresentação, permeabilidade e extravasamento. Reavaliar sintomas e ECG ao término; repetição depende da resposta e supervisão.
    • Colher cálcio iônico com pH, magnésio, fósforo, potássio, sódio, creatinina e glicemia prontamente; preferir amostra pré-tratamento se não atrasar a correção urgente. Registrar hora da coleta em relação à administração.
    • Eletrocardiograma de 12 derivações ao fim do bolus
    • Monitor cardíaco à beira do leito até nova ordem; observar o local da punção durante a infusão
  2. 3h40 — o laboratório responde: iônico de 0,78, magnésio de 0,9 e pH de 7,49

    A resposta clínica ao cálcio apoia o mecanismo suspeitado. O painel mostra hipocalcemia iônica importante, hipomagnesemia, hipofosfatemia e hipocalemia. Cálcio corrigido de 7,9 mg/dL já é baixo e não é diretamente comparável ao iônico de 3,1 mg/dL: são frações diferentes. A alcalose pode agravar a queda do iônico, mas pancreatite e déficit de magnésio também contribuem. Decidir manutenção do cálcio pela gravidade e persistência, com controles precoces. Corrigir magnésio e potássio conforme necessidade, sem uma sequência rígida que deixe outro risco sem tratamento. Fósforo de 1,4 mg/dL exige avaliar absorção, nutrição e perdas; evitar reposição venosa precipitada, sobretudo durante hipocalcemia grave, e definir um plano monitorizado.

    Prescrição
    • Sulfato de magnésio 10%, 20 mL = 2 g do sal heptaidratado, aproximadamente 8,1 mmol ou 16,2 mEq de magnésio. Diluir até volume FINAL de 100 mL em solução compatível; após resolução da tetania e sem arritmia instável, administrar em cerca de uma hora, conforme protocolo local e supervisão. Reposição mais rápida é reservada a emergência específica com monitorização contínua.
    • Se déficit persistente, considerar mais 4 g de sulfato de magnésio diluídos até volume FINAL de 250 mL, ao longo de 20 horas, revendo a indicação pelo controle laboratorial, diurese e função renal. O total de 6 g neste exemplo não é um teto universal nem uma dose obrigatória para todos.
    • Gluconato de cálcio 10%, 100 mL (10 ampolas) em 900 mL de soro fisiológico 0,9% (volume final de 1.000 mL; 22 mmol de cálcio), intravenoso em bomba, 50 mL/h, via exclusiva, titular pelo cálcio iônico
    • Reposição de potássio pela régua do capítulo Potássio: hipo e hipercalemia na enfermaria, em outro acesso
    • Reavaliar cálcio iônico cerca de 1–2 horas após iniciar ou ajustar a infusão, antecipando se houver sintomas; conferir magnésio após a dose e programar potássio e fósforo conforme gravidade e reposição. Não deixar o primeiro controle apenas para a visita.
  3. 9h — a visita: por que o cálcio caiu e por que o corrigido enganou

    Na visita, a melhora clínica e a tendência dos exames permitem rever cada infusão. Pancreatite, uso de álcool, déficit nutricional, hipomagnesemia e alcalose podem coexistir; não é possível provar necrose pancreática apenas pelo cálcio baixo. Faixas de cálcio iônico variam conforme laboratório. Buscar controle dos sintomas e valor seguro, evitando normalização agressiva e sobrecarga de cálcio. PTH e investigação adicional podem ser necessários se persistir hipocalcemia após corrigir causas evidentes. Rever indicação de jejum e risco de realimentação com a equipe de nutrição desde o início, incluindo tiamina e monitorização.

    Prescrição
    • Titular o gluconato pela resposta clínica, cálcio iônico e concentração efetiva da solução. A bolsa de 22 mmol/L a 50 mL/h entrega 1,1 mmol/h; a 75 mL/h, 1,65 mmol/h. Ajustar com o médico responsável e repetir controle após mudanças. A faixa de 50–100 mL/h só se refere a esta diluição e não constitui limite universal para qualquer paciente ou preparo.
    • Manter a infusão de sulfato de magnésio prescrita às 3h40
    • Cálcio iônico e ECG após ajustes e conforme evolução; controles programados não substituem reavaliação imediata se voltar tetania, alteração respiratória ou arritmia.
    • Magnésio, fósforo, potássio e função renal conforme reposições e risco; em alto risco de realimentação, considerar controles a cada 12 h inicialmente, mais frequentes se instável. Não manter jejum nem adiar coleta urgente para padronizar horário.
  4. Dia 2 — reavaliar a retirada do cálcio e o plano de fósforo e nutrição

    No segundo dia, o iônico de 1,18 mmol/L sem sintomas pode permitir redução da infusão, conforme referência local e estabilidade, com controle após a suspensão. Não há obrigação de desmame em degraus para todo paciente, mas a causa ainda ativa pode provocar recorrência. Magnésio exige reavaliação de perdas e estoque, sem programar vários dias de EV automaticamente. Fósforo de 1,2 mg/dL com ingestão insuficiente merece plano de reposição e nutrição. Preferir via enteral quando viável; se EV for necessária, escolher sal, dose, diluição e monitorização considerando potássio, cálcio e função renal. Não usar a ordem cálcio–magnésio–fósforo como regra que atrase o tratamento de distúrbios simultaneamente graves.

    Prescrição
    • Reduzir ou suspender o cálcio EV conforme sintomas, iônico e causa; documentar decisão e programar iônico após a mudança. Transição enteral quando indicada e possível, sem depender de alcançar o limite superior da referência.
    • Reavaliar a necessidade de magnésio adicional; se prescritos 4 g de sulfato de magnésio em 24 h neste exemplo, conferir magnésio, diurese e função renal antes e durante a manutenção. Não repetir a bolsa apenas porque é o segundo dia.
    • Exemplo de cálculo, a ser validado com a farmácia: fosfato de potássio contendo 1,12 mmol de fosfato e 2,02 mEq de potássio por mL, 9 mL = 10,08 mmol de fosfato e 18,18 mEq de potássio. Diluir até volume FINAL de 500 mL em solução compatível e infundir em oito horas, a 62,5 mL/h, se essa reposição for indicada e autorizada. Conferir volume total, acesso, cálcio, potássio e função renal. Não compartilhar a linha com cálcio; se ambas as reposições forem indispensáveis, planejar acessos distintos e monitorização com equipe especializada.
    • Cálcio iônico às 12h e às 22h; fósforo e potássio às 22h
  5. Dia 3 — a dieta recomeça e o fósforo despenca para 0,9

    Fraqueza e dispneia novas com fósforo de 0,9 mg/dL após iniciar alimentação exigem avaliação imediata de respiração, ECG, perfusão e distúrbios associados. Realimentação é uma hipótese forte no contexto, mas não dispensa pesquisar outras causas da dispneia. Acionar o responsável, nutrição e farmácia para ajustar a progressão calórica e repor eletrólitos com segurança. Potássio de 4,3 não autoriza uma substituição automática de fosfato de sódio por fosfato de potássio: calcular a carga adicional e revisar função renal e todas as fontes de potássio. Se não houver apresentação ou monitorização adequada, organizar alternativa e cuidado em setor apropriado com urgência, em vez de improvisar um protocolo próprio.

    Prescrição
    • Hipofosfatemia grave/sintomática: discutir reposição EV imediata pelo protocolo institucional, com escolha do sal e dose individualizadas. Referência de cálculo: 0,25 mmol/kg em 62 kg = 15,5 mmol de fosfato; na apresentação de 1,12 mmol/mL, são 13,84 mL e aproximadamente 28 mEq de potássio. Esta conta NÃO autoriza a bolsa quando o potássio ou a função renal tornam a apresentação inadequada. Farmácia e médico responsável devem definir produto, arredondamento mensurável, volume final, acesso, velocidade e monitorização antes de administrar.
    • Monitorizar ECG e condição respiratória conforme gravidade; repetir fósforo, potássio, cálcio e magnésio durante e após a reposição, por exemplo em 4–6 h neste quadro, antecipando se houver alteração clínica, de diurese ou ritmo. Interromper e reavaliar diante de elevação excessiva de potássio, hipocalcemia relevante ou intolerância; não depender apenas de um limiar único.
    • Reavaliar magnésio e sua reposição pelo resultado atual, perdas e função renal; não repetir automaticamente 4 g/dia. Contabilizar magnésio, potássio e fósforo já presentes na nutrição e em outras soluções.
    • Comunicar imediatamente suspeita de síndrome de realimentação; revisar aporte de carboidratos, tiamina, eletrólitos e ritmo de progressão com a equipe. Não aguardar a visita seguinte diante de dispneia e fraqueza.
  6. Dia 4 — fósforo de 1,6: sair da veia e saber quando parar

    Fósforo de 1,6 mg/dL com melhora permite discutir redução da reposição venosa e transição enteral, mas não garante que apenas a dieta será suficiente. A decisão depende de perdas, ingestão, absorção, evolução da realimentação e apresentação disponível. O ponto de 2 mg/dL usado em um protocolo para suspender reposição não é normalidade universal: a referência do laboratório e o risco de nova queda continuam relevantes. Monitorizar enquanto a oferta nutricional muda. A ausência de um produto na Rename não comprova ausência no hospital nem autoriza substituição improvisada.

    Prescrição
    • Reavaliar suspensão do fosfato EV e adequação de reposição enteral/dieta conforme tendência e perdas, com plano definido pela equipe.
    • Fósforo, potássio, magnésio e cálcio conforme risco durante progressão nutricional; controles ao menos diários quando estável, mais frequentes na fase de queda/reposição. Sem exigir jejum.
    • Sulfato de magnésio 10%, 20 mL (2 g) em 250 mL de soro fisiológico 0,9%, em 24 horas — quarto dia
    • Se houver nova queda importante do fósforo ou piora de força/respiração, reavaliar imediatamente o conjunto clínico e os eletrólitos e definir nova reposição; não copiar a bolsa anterior sem revisar indicação, apresentação e monitorização.
  7. Dia 5 — o potássio que agora sobe sozinho e o cálcio que segura

    No quinto dia, interpretar tendência, ingestão e sintomas para decidir se reposições EV ainda são necessárias. Normalização sérica do magnésio pode preceder reposição dos estoques; isso exige plano individual, não duração obrigatória de EV. O total de 16 g de sulfato de magnésio citado no exemplo só é válido se essas doses foram efetivamente indicadas e administradas com controles. Fósforo de 2,1 mg/dL ainda pode estar abaixo da referência e merece seguimento no contexto da realimentação. Planejar nutrição, abordagem do álcool e eventual reposição enteral com sal e quantidade claramente especificados.

    Prescrição
    • Suspender sulfato de magnésio venoso
    • Cálcio iônico, magnésio, fósforo e potássio em 48 horas
    • Registrar na evolução o valor mínimo e o tratamento de cada íon, para o resumo de alta
  8. Alta — o resumo que evita voltar pelo mesmo íon

    O resumo de alta de Genoveva leva os três íons escritos por extenso, porque quem a receber no posto ou no pronto-socorro não sabe que ela fechou a mão com um corrigido de 7,9. Ele diz qual foi o mínimo de cada um, o que foi dado e por quanto tempo, e qual é o risco de repetir — alcoolismo e desnutrição esvaziam de novo o magnésio e o fósforo. A conversa sobre o álcool e o seguimento da pancreatite são das equipes donas; o que cabe aqui é a orientação que ela entende e o exame com data.

    Prescrição
    • Resumo de alta: registrar valores mínimos de cálcio iônico, magnésio e fósforo, manifestações, causas prováveis, doses e duração efetivamente administradas, resposta e função renal. Não copiar automaticamente 32 horas, 16 g ou fosfato de potássio se o plano individual foi modificado. Indicar medicações de alta, necessidade de exames e seguimento.
    • Cálcio, magnésio, fósforo e potássio na unidade básica em uma semana
    • Orientação por escrito: voltar se houver formigamento na boca ou nos dedos, cãibra, mão travada, fraqueza nova ou palpitação
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Como saber se está funcionando

Reavaliar um distúrbio de íon é conferir se a dose chegou onde devia antes de o erro virar outro distúrbio. Cada prescrição deste capítulo tem dois lados: o cálcio que não sobe e o que sobe demais, o magnésio que falta e o que se acumula, o fósforo que não repõe e o que precipita. Por isso toda reavaliação tem hora escrita na prescrição e um critério que diz o que fazer se o esperado não vier.

Os sete parâmetros abaixo cobrem os seis distúrbios e a lise tumoral. O que é do dono vizinho — o potássio, a diálise, a pancreatite — aparece só no ponto em que muda a decisão sobre o íon.

Sintoma neuromuscular e intervalo QT depois do gluconatoAo fim de cada bolus e a cada revisão da infusão contínua

Esperado: Parestesia e espasmo cedem em minutos; o QT encurta no traçado seguinte; laringe e respiração tranquilas

Se não melhora: Repita o bolus, como a orientação britânica permite até o sintoma ceder; confira se o gluconato entrou de fato — bomba parada, veia infiltrada —; dose e reponha o magnésio; e reveja o diagnóstico se o iônico colhido antes do bolus vier normal

Cálcio iônico durante a infusão contínuaControle inicial precoce, por exemplo 1–2 h após começar/ajustar em quadro grave; depois intervalos individualizados, frequentemente 4–6 h quando estável, e controle após suspensão

Esperado: Sintomas controlados e iônico em faixa segura conforme referência e causa, sem arritmia ou hipercalcemia; a vazão depende da concentração efetiva

Se não melhora: Reexaminar sintomas, ECG, concentração, bomba, acesso, magnésio, pH e causa da perda. Ajustar ou repetir cálcio com supervisão conforme gravidade, monitorizando; não apenas aumentar a vazão por um corte fixo. Valor excessivo exige interromper/reduzir conforme o quadro e repetir medida em tempo adequado.

Magnésio, reflexo patelar e creatinina durante a reposiçãoAvaliação clínica durante a infusão e magnésio após a dose conforme protocolo; reavaliar antes de nova administração, especialmente em lesão renal

Esperado: Reflexo presente, frequência respiratória normal, diurese mantida, magnésio subindo e — o sinal de que funcionou — potássio e cálcio passando a responder à reposição

Se não melhora: Hiporreflexia nova, sonolência ou respiração lenta exigem suspender a infusão, pedir ajuda e avaliar toxicidade e outras causas; garantir ventilação. Na queda da função renal, interromper a repetição automática e individualizar. Hipocalemia persistente requer rever perdas, redistribuição, reposição efetiva e magnésio, sem concluir que uma dosagem sérica normal resolveu todo o déficit.

Fósforo, potássio e cálcio durante o fosfato venosoNa sexta hora e ao fim de cada bolsa; depois, todo dia pela manhã em jejum enquanto a dieta progride

Esperado: Fósforo em recuperação com melhora clínica, sem elevação excessiva de potássio nem queda importante do cálcio. Transição para via enteral e suspensão dependem de tendência, perdas e oferta nutricional

Se não melhora: Conferir dose administrada, mecanismo, nutrição, perdas e função renal antes de repetir ou aumentar fosfato. Não dobrar automaticamente a dose. Potássio em ascensão, oligúria, hipocalcemia ou arritmia exigem interrupção/revisão imediata conforme gravidade e novo planejamento com equipe responsável.

Hipercalcemia: volume, diurese, sensório e cálcioReavaliar volume após cada etapa; controle mais próximo durante instabilidade ou risco de sobrecarga. Cálcio e função renal em intervalos adequados à gravidade, antecipando diante de piora

Esperado: Diurese que volta, sede e vômito que cedem, sensório que clareia, creatinina e cálcio em queda; depois do bisfosfonato, o menor valor do cálcio vem em 2 a 4 dias

Se não melhora: Estertor, edema ou saturação caindo: reduza o soro e só então considere o diurético de alça. Cálcio que não cai com rim que não filtra: diálise, pelo capítulo de injúria renal aguda. Cálcio que cai demais depois do bisfosfonato em quem tem vitamina D baixa: é a hipocalcemia que a orientação britânica prevê, e ela se trata como qualquer outra

Hipermagnesemia: reflexo, respiração e ritmoContínuo, à beira do leito e no monitor, até o reflexo voltar; magnésio e creatinina a cada poucas horas

Esperado: Reflexo que reaparece e respiração que normaliza à medida que o rim elimina o magnésio; o efeito do gluconato aparece em minutos

Se não melhora: Depressão respiratória: ventilação; sintoma que volta depois do gluconato: nova dose, porque o cálcio dura menos que o magnésio acumulado; rim que não filtra: diálise, sem esperar a queda espontânea

Lise tumoral: diurese horária, potássio, fósforo, cálcio, ácido úrico e creatininaDiurese horária; na lise estabelecida, ECG contínuo e painel em geral a cada 4–6 h. Após tratamento da hipercalemia, repetir potássio mais cedo, frequentemente em 1–2 h, com glicemias conforme protocolo de insulina

Esperado: Diurese acima de 100 mL por metro quadrado por hora; potássio e fósforo estáveis ou em queda; creatinina que não sobe; cálcio sem sintoma

Se não melhora: Diurese que não vem apesar do volume, potássio ou fósforo subindo, sobrecarga ou creatinina em ascensão: nefrologista agora, com os números, e decisão de diálise pelo capítulo de injúria renal aguda

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Onde o erro machuca

Absolver a hipocalcemia pelo cálcio corrigido — ou tratar o total baixo sem corrigir

O dano: É a evolução da tarde de Genoveva: corrigido de 7,9, praticamente normal, repetir amanhã. O iônico era 0,78 mmol/L, a mão fechou e o QT passou de 500 milissegundos; laringoespasmo é uma complicação possível, mas não uma próxima etapa inevitável. O erro do outro lado também existe: gluconato para um total de 7,2 com albumina de 2,5 e iônico normal, num paciente sem sintoma, trata um número de laboratório e dá cálcio a quem não precisa.

Como pegar a tempo: Interpretar sintomas, ECG, total, albumina e iônico quando indicado. Corrigido normal não exclui hipocalcemia ativa; total baixo também não justifica gluconato automaticamente. Em tetania com evidência de hipocalcemia, tratar com supervisão e monitorização sem aguardar a confirmação tardia.

Prescrever cálcio em gramas, magnésio em ampolas e fosfato em miliequivalentes sem dizer de quê

O dano: Uma ampola de gluconato a 10% tem 2,2 mmol de cálcio, e a mesma dose em cloreto cabe em 4,4 mL de uma apresentação de 7,35% — trocar ampola por ampola dá mais que o dobro de cálcio numa veia periférica. Duas ampolas de sulfato de magnésio a 50% são 10 g, quantidade potencialmente perigosa se administrada rapidamente e sem indicação individual, quando a intenção eram 2 g da solução a 10%. E fosfato de potássio 20 mEq pode ser lido como 20 mEq de potássio (10 mL, 11 mmol de fosfato) ou como 20 mmol de fosfato (18 mL, 36 mEq de potássio).

Como pegar a tempo: Escreva sempre o volume da concentração que existe na farmácia e ponha a conta entre parênteses, dizendo de que íon é cada número: sulfato de magnésio 10%, 20 mL (2 g; 16,2 mEq de magnésio); fosfato de potássio 2 mEq/mL, 14 mL (15,7 mmol de fosfato; 28 mEq de potássio). Cloreto de cálcio se calcula pelos milimoles do rótulo, e só em acesso central.

Repor cálcio e potássio e esquecer o magnésio

O dano: O gluconato sobe o cálcio por algumas horas e ele cai de novo, porque a paratireoide sem magnésio não secreta; o potássio recebe bolsa sobre bolsa e não sobe, porque o rim continua perdendo; e o QT longo que sobra é o substrato da torção das pontas. O paciente acumula três dias de reposição e nenhum íon corrigido.

Como pegar a tempo: Dosar magnésio nas situações de risco e tratar deficiência documentada conforme gravidade. Reposição empírica antes do resultado exige indicação clínica forte, como emergência arrítmica, revisão de função renal e monitorização; câimbras ou fator de risco isolados não autorizam uma carga EV automática.

Dar furosemida para baixar o cálcio antes de devolver o volume

O dano: O hipercalcêmico chega desidratado pela poliúria que o próprio cálcio provoca. O diurético aprofunda a desidratação, o rim filtra ainda menos, reabsorve mais sódio e mais cálcio, e a creatinina sobe junto com o cálcio. A orientação britânica de 2016 registra que o diurético de alça não é eficaz para reduzir o cálcio.

Como pegar a tempo: Reidratar se houver hipovolemia, com SF 0,9% em volume individualizado e resposta observada. Não forçar 4–6 L em idoso, cardiopata ou renal sem tolerância. Furosemida não é medida rotineira para baixar cálcio; considerar na sobrecarga em contexto apropriado.

Contar o fosfato de potássio só pelo fósforo

O dano: Cada milimol de fosfato da ampola traz 1,8 mEq de potássio. A velocidade de 20 mmol/h, que um protocolo institucional declara segura, entrega 36 mEq de potássio por hora; a dose de 0,5 mmol/kg num adulto de 70 kg traz 63 mEq de potássio; e 15 mL da ampola em 250 mL de soro dão uma concentração de potássio perto de 115 mEq/L numa veia periférica. No renal, o fósforo corrigido vem com uma hipercalemia.

Como pegar a tempo: Conferir fósforo e todos os cátions da apresentação, acesso, concentração final, volume e velocidade. Não converter uma disponibilidade limitada em autorização para improvisar fosfato de potássio. Se a carga for inadequada ou a monitorização insuficiente, discutir outra apresentação e nível de cuidado. Qualquer reposição EV exige reavaliação de função renal, cálcio e potássio.

Gluconato para a hipocalcemia sem sintoma de quem tem fósforo alto

O dano: Na lise tumoral e na injúria renal com fósforo de 8, o cálcio baixo é consequência do fosfato que prende cálcio. O gluconato não corrige a causa e acrescenta cálcio a um plasma saturado de fosfato, que precipita no rim e nos tecidos. O paciente troca um número baixo por mais lesão renal.

Como pegar a tempo: Nesse paciente, cálcio venoso só para sintoma — tetania, convulsão — ou alteração de eletrocardiograma, inclusive a da hipercalemia que costuma vir junto, cuja proteção de membrana segue o capítulo de potássio. O que corrige o cálcio é tirar o fósforo: suspender a fonte, hidratar e dialisar quando o rim não dá conta.

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O que dizer ao paciente e à família

Distúrbio de íon parece assunto de laboratório, e por isso as conversas que ele exige costumam ser feitas mal ou não ser feitas. Três grupos precisam ouvir de você frases diferentes: o paciente e a família, que veem uma mão travada ou um avô confuso e imaginam o pior; a enfermagem e a farmácia, que vão preparar a bolsa e precisam da concentração, não da intenção; e o colega da terapia intensiva ou da nefrologia, que decide pelo telefone e precisa dos números.

As falas abaixo são as que se repetem no plantão, cada uma com o que dizer e o que evitar.

Genoveva, com a mão fechada e a respiração acelerada: “Doutor, eu estou tendo um derrame?”

O cálcio baixo pode explicar o formigamento e a mão travada. Vou examinar também sua força, fala e respiração e chamar o médico responsável. Vamos iniciar o tratamento pela veia e acompanhar o coração e a resposta. A equipe ficará com você durante a administração. Avise imediatamente se sentir falta de ar, piora ou ardor no acesso.

Não diga: “Não é nada, fica calma”, que é falso e ela sabe, e “é uma tetania hipocalcêmica”, que é verdadeiro e não diz nada a quem está com medo. Também não saia do quarto enquanto o bolus corre.

A técnica de enfermagem, com a prescrição na mão: “No carrinho tem gluconato e cloreto de cálcio. Tanto faz?”

Não faz. É gluconato de cálcio a 10%, 20 mL, que são duas ampolas, em 100 mL de soro fisiológico, correndo em 10 minutos na bomba. O cloreto tem mais cálcio por ampola e queima a veia se extravasar — só se usa em acesso central, e com outra conta. Confere comigo o rótulo antes de aspirar? E, se ela reclamar de ardor no braço ou o soro parar de correr, para a bomba e me chama, porque pode estar infiltrando.

Não diga: “Tanto faz, é cálcio”, e prescrever “cálcio 2 g” sem sal, sem concentração e sem volume, deixando a conta para quem prepara a bolsa às três da manhã.

A farmacêutica, pelo telefone: “Não temos glicerofosfato nem fosfato de sódio. Só fosfato de potássio a 2 mEq/mL.”

Obrigado por avisar. Ela precisa de reposição, mas temos de conferir a carga de potássio e a segurança desta apresentação. Vou discutir agora com o médico responsável e a farmácia o produto adequado, a dose, o acesso e a monitorização. Se a alternativa disponível não for segura aqui, precisamos organizar outra apresentação ou um setor com os recursos necessários sem deixar o caso aguardando até amanhã.

Não diga: Prescrever “fosfato 20 mEq” sem dizer de que íon, ou manter o nome de um produto que o hospital não tem e deixar a paciente sem reposição até a visita do dia seguinte.

A filha de Zoroastro Lameira, na sala de espera: “Ele ficou assim de repente. É Alzheimer? É da idade?”

Não é da idade, e confusão que chega em dias não costuma ser Alzheimer. O cálcio no sangue do seu pai está muito alto, e cálcio alto deixa a pessoa sonolenta, confusa, com sede, urinando muito e vomitando — tudo o que a senhora me contou. Isso tem tratamento, e a primeira parte é soro na veia, que já começou; o esperado é que ele fique mais alerta nos próximos dias. Ao mesmo tempo, preciso descobrir por que o cálcio subiu, e alguns exames já foram colhidos para isso. Quando eu tiver os resultados, sento com a senhora e explico cada um.

Não diga: “É desidratação, vai passar”, que esconde a pergunta que importa, e o oposto — anunciar câncer antes de o paratormônio e a investigação responderem. A causa se comunica quando existe, e com quem é dono dela.

O plantonista da terapia intensiva, pelo telefone, para uma vaga para Assuero Ventura

Tenho um paciente de 34 anos, 70 quilos, com linfoma de alto grau e massa no mediastino, 30 horas depois da primeira quimioterapia, com lise tumoral clínica. Potássio de 6,2 com onda T apiculada, já recebeu a proteção de membrana; fósforo de 8,4; cálcio de 6,8 sem sintoma, que não estou tratando; ácido úrico de 11,6; creatinina de 2,3, que era 0,9 ontem; diurese de 120 mL nas últimas seis horas apesar de 3 litros de hidratação. Pressão de 138 por 86, pulmões limpos. Preciso de monitorização e de exames a cada quatro a seis horas, e já acionei a nefrologia para avaliar diálise. A proteção com cálcio é temporária: também estamos tratando a hipercalemia e conferindo potássio precocemente e glicemias após insulina. Exames a cada quatro a seis horas não substituem esse controle imediato.

Não diga: “Tenho um paciente oncológico com a função renal alterada, você pode avaliar?” — sem números, a vaga vira fila. E não omita que o potássio mexeu no eletrocardiograma: é o dado que muda a prioridade.

Alvina Elias, 69 anos, com magnésio de 0,8 mg/dL: “Mas o omeprazol foi o médico do posto que passou, faz oito anos.”

Precisamos revisar por que ele foi prescrito e se ainda é necessário. Esse medicamento pode contribuir para magnésio baixo em algumas pessoas, mas a diarreia e outras causas também contam. A equipe vai avaliar a indicação e decidir se mantém, ajusta ou substitui, explicando o plano no resumo de alta. Não precisamos esperar uma nova consulta para resolver uma suspeita de efeito importante durante esta internação.

Não diga: “Esse remédio fez mal, pode parar” — a indicação pode continuar existindo — e qualquer frase que coloque a culpa no colega que prescreveu.

Genoveva, no dia da alta: “Por que eu tenho que voltar para fazer exame, se já estou boa?”

O cálcio baixo aconteceu num contexto de pancreatite, magnésio baixo e alteração da respiração. O fósforo também caiu, especialmente com a mudança da alimentação. Precisamos conferir se os níveis continuam adequados e cuidar da nutrição e do uso de álcool com você. O exame tem uma data, mas se voltar formigamento, mão travada, fraqueza, palpitação ou falta de ar, procure atendimento antes e leve este resumo.

Não diga: O sermão sobre o álcool no lugar da explicação do exame — a conversa sobre o álcool existe, é necessária e tem hora e equipe próprias — e a alta sem data de exame escrita.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Infusão de manutenção do cálcio: 0,5 a 2,0 mg/kg sem unidade de tempo, ou 1,1 a 2,2 mmol por hora

Manutenção por peso, sem tempo e sem dizer se é sal ou cálcio elementar — PCDT do Hipoparatireoidismo, agosto de 2026

Depois do bolus de gluconato na hipocalcemia grave com manifestação aguda, o PCDT escreve que a dose de manutenção do gluconato de cálcio em infusão contínua é de 0,5 a 2,0 mg/kg de peso, diluído em glicose a 5%. A frase não diz por hora nem por dia, e não diz se a massa é de cálcio elementar ou do sal. Lida como cálcio elementar por hora, dá 0,87 a 3,5 mmol/h num adulto de 70 kg; lida como sal por hora, dá onze vezes menos.

Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 70, de 5 de agosto de 2026, PCDT do Hipoparatireoidismo, seção 7.2.1

Manutenção em volume e em milimoles por hora — Society for Endocrinology, 2016, com adendo de 2019

Depois do bolus, 100 mL de gluconato de cálcio a 10%, as dez ampolas, em volume FINAL de 1 litro com soro fisiológico ou glicose a 5%, a 50 a 100 mL/h, titulado até a normocalcemia e mantido até a causa ser tratada. O adendo de 2019 traduz o esquema em milimoles para quem usa outra apresentação: bolus de 2,2 a 4,4 mmol e manutenção de 1,1 a 2,2 mmol de cálcio por hora.

Society for Endocrinology Endocrine Emergency Guidance, acute hypocalcaemia in adult patients, Endocrine Connections 2016;5(5):G7-G8, com adendo em 2019;8(6):X1

Como decidir

Toda prescrição de manutenção deve explicitar cálcio elementar ou sal, unidade por tempo, concentração e volume final. Para a bolsa de 22 mmol/L, 50–100 mL/h entregam 1,1–2,2 mmol/h; isso é um exemplo operacional, sujeito a titulação e tolerância. Não escrever mL/h da solução a 10% quando o que será infundido é uma bolsa diluída, pois isso permite erro de cem vezes. Conferir a concentração real com a farmácia e registrar a equivalência.

Velocidade da bolsa de fosfato de potássio: pelo fósforo ou pelo potássio

Até 45 mmol de fosfato, a até 20 mmol por hora — Protocolo nº 296 do HC-UFMG, dezembro de 2021

O protocolo de hipofosfatemia declara segura a infusão de até 45 mmol de fosfato na velocidade de até 20 mmol/h, com dose de 0,25 a 0,5 mmol/kg em 6 a 12 horas na hipofosfatemia grave. Lista entre as apresentações o fosfato de potássio a 2 mEq/mL e o glicerofosfato de sódio, e manda preferir fosfato de sódio ou glicerofosfato quando o potássio passa de 4,0 mmol/L.

Hospital das Clínicas da UFMG/Ebserh, Protocolo Assistencial nº 296, Abordagem do paciente adulto com hipofosfatemia, versão 01, 2021

Potássio venoso a até 20 mmol por hora, habitualmente 10 — Protocolo nº 295 do mesmo hospital, dezembro de 2021

O protocolo de hipocalemia fixa a concentração da solução de potássio entre 20 e 40 mmol/L, sem exceder 60 mmol/L em veia periférica, e a velocidade em até 20 mmol/h, habitualmente 10 mmol/h, reservando até 40 mmol/h em acesso central para a emergência. O capítulo de potássio, dono do assunto neste nível, trabalha na enfermaria com 5 a 10 mEq por hora e 40 mEq por litro em veia periférica.

Hospital das Clínicas da UFMG/Ebserh, Protocolo Assistencial nº 295, Abordagem do paciente adulto com hipocalemia, versão 01, 2021

Como decidir

A segurança da infusão depende tanto do fosfato quanto do cátion associado, da concentração, acesso e função renal. Uma velocidade descrita num estudo ou protocolo não se transfere automaticamente para outra apresentação. Mesmo fosfato de sódio ou glicerofosfato precisa de protocolo próprio; retirar potássio não torna 20 mmol/h uma velocidade rotineira segura. Selecionar produto, dose e duração validados e monitorizar eletrólitos, sem extrapolação criada pela apostila.

Hipofosfatemia grave: cálcio venoso ou fosfato venoso

Cálcio intravenoso indicado na hipofosfatemia grave — PCDT do Hipoparatireoidismo, agosto de 2026

O PCDT escreve, duas vezes, que o tratamento urgente com cálcio intravenoso está indicado na hipocalcemia grave com manifestações agudas ou na hipofosfatemia grave, e que o gluconato de cálcio deve ser administrado apenas nesses casos, em ambiente hospitalar, até a resolução do quadro clínico.

Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 70, de 5 de agosto de 2026, PCDT do Hipoparatireoidismo, seções 7.2.1 e 7.4

Fosfato intravenoso na hipofosfatemia grave — Protocolo nº 296 do HC-UFMG, dezembro de 2021

O protocolo de hipofosfatemia indica reposição venosa de fosfato para o fósforo abaixo de 1,0 mg/dL, 0,25 a 0,5 mmol/kg em 6 a 12 horas, com passagem para a via oral em 1,5 mg/dL, e avisa que a reposição venosa pode levar a fósforo alto, com hipocalcemia, disfunção renal, hipotensão e arritmia — por isso o fósforo é dosado durante a infusão.

Hospital das Clínicas da UFMG/Ebserh, Protocolo Assistencial nº 296, Abordagem do paciente adulto com hipofosfatemia, versão 01, 2021

Como decidir

Cálcio não trata hipofosfatemia. Se há deficiência simultânea grave de cálcio e fósforo, coordenar prioridades pela manifestação clínica, com médico responsável e farmácia. Tratar tetania prontamente; avaliar necessidade de fósforo em paralelo. Nunca misturar cálcio e fosfato na mesma solução/linha sem compatibilidade formal. Acesso separado e monitorização podem ser necessários quando não é possível aguardar; a ordem fixa de dias não deve atrasar correção indispensável.

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O raciocínio, em voz alta

Pronto-socorro, 16 horas. Zoroastro Lameira, 71 anos, 58 quilos, aposentado, chega trazido pela filha porque há dez dias está sonolento, confuso no fim da tarde, com muita sede, urinando muito e comendo quase nada; hoje vomitou três vezes. É hipertenso em uso de hidroclorotiazida 25 mg por dia, fumou por cinquenta anos, perdeu 6 quilos em dois meses e tosse há um mês. Pressão de 96 por 60, frequência cardíaca de 108, mucosas secas, sonolento mas despertável e orientado só no nome, sem sinal focal, pulmões com murmúrio diminuído na base direita. Exames da triagem: cálcio total de 14,2 mg/dL, albumina de 3,0 g/dL, creatinina de 2,1 mg/dL (1,0 há seis meses), ureia de 88 mg/dL, sódio de 146 e potássio de 3,4 mmol/L, fósforo de 2,4 mg/dL, magnésio de 1,8 mg/dL. Eletrocardiograma: ritmo sinusal, QT curto. O plantonista anterior escreveu desidratação e pediu furosemida depois do primeiro soro, para proteger o rim.

  1. O que o número diz, e com que pressa

    Primeiro a conta: 14,2 somado a 0,8 vezes a diferença entre 4,0 e 3,0 dá um cálcio corrigido de 15,0 mg/dL, que são 3,7 mmol/L. Pela orientação britânica de 2016, acima de 3,5 mmol/L a correção é urgente, pelo risco de arritmia e coma — e Zoroastro já está na trilha: sonolento, confuso, com QT curto. A desidratação é real, mas é consequência: a poliúria do cálcio alto somada ao vômito tirou volume, a creatinina dobrou, e o rim que filtra menos segura ainda mais cálcio. Tratar só a desidratação sem nomear o cálcio deixaria a espiral girando.

  2. O que colho antes de tratar

    Na mesma punção, se possível antes da intervenção, sem atrasá-la: paratormônio, junto com o cálcio corrigido, o fósforo, o potássio, a creatinina e a gasometria; hemograma; e a radiografia de tórax, porque a história de tabagismo, emagrecimento, tosse e murmúrio diminuído na base pede. O paratormônio colhido agora é o exame que separa as duas causas que respondem por noventa por cento das hipercalcemias; depois de litros de soro e de um bisfosfonato, ele já não conta a mesma história.

  3. O que começo na primeira hora

    Zoroastro está hipovolêmico e precisa de SF 0,9% com monitorização. Iniciar em etapas, ajustando velocidade e volume à resposta de pressão, perfusão, pulmões e diurese; não fixar 5,4 L para um homem de 58 kg com função renal alterada. Reavaliar durante a expansão, sem esperar quatro horas. Suspender hidroclorotiazida e revisar outras fontes de cálcio, vitamina D e fármacos. Monitorizar ECG, corrigir potássio conforme necessidade e discutir tratamento específico da hipercalcemia desde já.

  4. O que não faço, e por quê

    Não prescrever furosemida para proteger o rim de um paciente hipovolêmico. Colher PTH se prontamente possível, mas não aguardar seu resultado nem terminar toda a hidratação para discutir tratamento específico. Hipercalcemia grave, sobretudo com suspeita de malignidade, pode exigir antirreabsortivo e calcitonina injetável como medida temporária conforme disponibilidade e indicação. Spray nasal não é substituto para a formulação usada nessa emergência. Escolha do antirreabsortivo depende de função renal e risco de hipocalcemia; acionar a equipe responsável precocemente.

  5. O que o paratormônio responde, e quem conduz daqui

    PTH de 8 pg/mL com hipercalcemia sugere causa independente de PTH. A massa hilar e a história aumentam a suspeita de malignidade, mas não fecham diagnóstico histológico. Manter tratamento da emergência e organizar investigação especializada. A equipe atual continua responsável por acompanhar cálcio, volemia, função renal e efeitos do tratamento, sem esperar a definição do câncer para cuidar da hipercalcemia.

  6. Como sei que está funcionando

    Nas primeiras 24 horas espero a diurese de volta, o vômito cessado, o sensório clareando, a creatinina e o cálcio em queda — dosados em 12 e 24 horas. Se aparecerem estertores ou queda de saturação, reduzo o soro e só então penso em diurético, agora para a sobrecarga. Se o cálcio não cair e o rim não voltar a filtrar, o próximo passo é a diálise, que a própria orientação britânica prevê na insuficiência renal grave e que o capítulo de injúria renal aguda indica. E, se o bisfosfonato for dado pela equipe dona, lembro que o menor valor do cálcio vem em 2 a 4 dias, e que hipocalcemia depois dele é risco de quem tem vitamina D baixa.

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Faça você

Enfermaria de hematologia, 23 horas. Assuero Ventura, 34 anos, 70 quilos, 1,80 metro, com linfoma de alto grau e massa volumosa no mediastino, recebeu a primeira quimioterapia há 30 horas. Está com hidratação venosa de 3 litros por dia e alopurinol 300 mg por dia. Queixa câimbras nas panturrilhas e náusea; a enfermagem mediu 120 mL de urina nas últimas seis horas. Pressão de 138 por 86, frequência cardíaca de 96, pulmões limpos, sem edema, sem sinal de Chvostek nem de Trousseau. Exames das 22 horas: potássio de 6,2 mmol/L, fósforo de 8,4 mg/dL, cálcio total de 6,8 mg/dL com albumina de 3,8 g/dL, ácido úrico de 11,6 mg/dL, creatinina de 2,3 mg/dL (0,9 na véspera). O eletrocardiograma mostra ondas T apiculadas e QT de 440 ms. O residente de hematologia sugere gluconato de cálcio para o cálcio de 6,8 e bicarbonato para alcalinizar a urina.

  1. Enquadramento

    Conte, com os valores dele, quantos critérios laboratoriais do protocolo de lise tumoral de Ribeirão Preto estão preenchidos — atenção à unidade do potássio — e diga se a lise é laboratorial ou clínica, e por quê.

  2. O que ameaça primeiro

    Ordene o potássio de 6,2 com onda T apiculada, o fósforo de 8,4, o cálcio de 6,8 sem sintoma e a creatinina que subiu, e diga qual capítulo é dono de cada decisão.

  3. As duas sugestões do residente

    Responda ao residente: o gluconato entra ou não entra, e com que indicação? E o bicarbonato para alcalinizar a urina?

  4. Volume, diurese e telefone

    Calcule a meta de diurese dele pelo protocolo e compare com o que ele está urinando. Diga quem você chama agora, com que números, e o que muda na vigilância laboratorial.

Ver como fecharíamos

Enquadramento: os quatro critérios laboratoriais estão preenchidos — ácido úrico de 11,6 (8 mg/dL ou mais), potássio de 6,2 (6 mmol/L ou mais; o protocolo escreve mg/dL, que é erro de unidade), fósforo de 8,4 (4,5 mg/dL ou mais) e cálcio de 6,8, corrigido 7,0 (7 mg/dL ou menos). Com a creatinina de 0,9 para 2,3 em um dia, é lise tumoral clínica, que o protocolo define como lise laboratorial com insuficiência renal aguda, arritmia, morte súbita ou convulsão. Prioridade: primeiro o potássio com alteração de eletrocardiograma — monitor e a sequência da hipercalemia do capítulo Potássio: hipo e hipercalemia na enfermaria, que começa pela proteção de membrana com gluconato de cálcio; depois o rim, com volume e nefrologia; o fósforo se trata tirando fósforo; o cálcio sem sintoma não se trata. As sugestões do residente: o gluconato entra, sim, mas pela onda T apiculada, como proteção de membrana contra o potássio — não para corrigir o cálcio de 6,8, que é consequência do fósforo alto, não dá sintoma e, se tratado com cálcio, acrescenta matéria-prima à precipitação de fosfato de cálcio no rim. O bicarbonato não: o protocolo registra que a alcalinização da urina não é indicada de rotina, e alcalose baixaria ainda mais o cálcio livre. Volume e diurese: superfície corporal de cerca de 1,87 m² (raiz de 180 vezes 70 dividido por 3.600), meta de diurese acima de 100 mL/m² por hora, cerca de 187 mL/h; ele urina 20 mL/h com 3 litros por dia, e a lesão renal já está estabelecida — o próprio protocolo pede parcimônia no volume nessa situação. Isso muda o telefonema: nefrologia agora, com potássio de 6,2 e eletrocardiograma alterado, fósforo de 8,4, creatinina de 0,9 para 2,3 em 24 horas e oligúria de 20 mL/h apesar da hidratação, para decidir diálise pelo capítulo de injúria renal aguda. Transferência para monitorização em terapia intensiva ou sala de emergência, exames a cada 4 a 6 horas e diurese horária. O ácido úrico: alto risco pede rasburicase se disponível — ela não consta da Rename e é contraindicada na deficiência de G6PD — ou alopurinol, com a dose revista pela creatinina de hoje; a decisão é da hematologia, que é chamada junto. Atenção: Assuero relata câimbras, portanto não é correto descrever ausência absoluta de sintomas; avaliar se estão relacionadas à hipocalcemia e medir iônico. O cálcio corrigido é 6,96 mg/dL, aproximadamente 7,0. A indicação imediata de cálcio neste caso é a hipercalemia com alteração elétrica, enquanto se executam medidas para deslocar e remover potássio. Após insulina/glicose, repetir potássio precocemente e monitorizar glicemia para hipoglicemia; não aguardar quatro a seis horas para a primeira checagem. Diurese-alvo preventiva não autoriza empilhar soro num paciente já oligúrico com lesão renal. Rasburicase e diálise devem ser discutidas urgentemente; alopurinol reduz formação de urato novo, mas não remove o já acumulado.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

A dose é 0,25 × 70 = 17,5 mmol de fosfato. Dividindo por 1,12 mmol/mL, são 15,625 mL; multiplicando por 2,02 mEq/mL, entram 31,56 mEq de potássio. A alternativa correta arredonda para 15,6 mL e cerca de 32 mEq. Essa conta não define sozinha diluição ou tempo: respeitar protocolo validado, acesso, volume tolerável, função renal e velocidades de fosfato e potássio. Se o limite local periférico for 40 mEq/L, o volume final matemático mínimo seria aproximadamente 0,79 L; o preparo final deve ser validado, sem inferir que a conta exige exatamente um litro e doze horas.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Explique ao supervisor três decisões: tratar tetania antes do iônico, não repor automaticamente cálcio total baixo e escolher uma apresentação de fosfato sem ignorar potássio e função renal. Faça uma prescrição completa com dupla conferência.

Em 30 dias

Revise uma reposição real do serviço, com farmácia/enfermagem e supervisor: indicação, concentração, volume final, resultado e efeitos adversos. Mostre como ajustaria o plano se surgissem oligúria, sobrecarga, arritmia ou nova queda durante a alimentação.

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Agora atenda

Agora atenda: Alvina Elias, 69 anos, 61 quilos, hipertensa em uso de furosemida e com omeprazol há oito anos, está internada há três dias por diarreia. Recebe a terceira bolsa de cloreto de potássio e o potássio não passa de 2,9 mmol/L. Hoje queixa câimbras, tremor nas mãos e um formigamento na boca que vai e volta; o eletrocardiograma mostra QT corrigido de 510 milissegundos. Ninguém dosou magnésio nem cálcio iônico. Antes de assinar a quarta bolsa, decida o que colher, o que dar agora, em que ordem e com que conta.

Distúrbios do cálcio, magnésio e fósforo – O íon que ninguém pediu — Internato | OsceLabs