Clínica Médica › Medicina Intensiva e Emergências
Sepse: reconhecer e tratar na primeira hora
Sepse e choque séptico: identificação precoce e pacotes iniciais
É sepse — e agora? O pacote de 1 hora executado de verdade: quem colhe, quem prescreve, quem pendura, e como saber, em duas horas, se está funcionando.
Instituto Latino Americano de Sepse. Implementação de Protocolo Gerenciado de Sepse — Protocolo Clínico: atendimento ao paciente adulto com sepse e choque séptico. Revisado em julho de 2026, em substituição à revisão de agosto de 2018. São Paulo: ILAS, 2026
Instituto Latino Americano de Sepse. Programa de Melhoria de Qualidade — Protocolos Gerenciados de Sepse: Relatório Nacional, ano de referência 2023. Publicado em 2024
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Responda antes de ler
Plantão de pronto-socorro. Mulher de 34 anos, previamente hígida, com dor lombar à direita, disúria e calafrios há dois dias. Ao exame: PA 118×76 mmHg, FC 118, FR 26, temperatura axilar 38,9 °C, alerta e orientada, extremidades discretamente frias. O lactato colhido na triagem retorna 39 mg/dL (referência do laboratório: até 18). Diante desses dados, o que você faz AGORA?
O paciente que você vai ver
Sete e dez da manhã, enfermaria de clínica médica. A passagem de plantão terminou há dez minutos e você está revendo as prescrições do dia quando a técnica de enfermagem te chama pelo nome: "o seu Waldemar não quis o café". Você levanta a cabeça. Seu Waldemar, 76 anos, leito 12, internado há três dias para compensar uma insuficiência cardíaca, quase de alta. Ontem ele reclamou do café — disse que estava frio e fraco, e reclamou com detalhes, porque seu Waldemar é desses. Hoje ele não reclamou de nada.
Você vai até o leito. Ele está de olhos abertos, mas demora a te achar com o olhar. Responde o próprio nome, erra o nome do hospital, diz que a filha "já vem" — a filha não vem há dois dias, você sabe porque conversou com ela por telefone. A respiração incomoda você antes de qualquer número: rápida, superficial, com as narinas abrindo. Você conta olhando o tórax, relógio na mão: 28 por minuto. O monitor de transporte que a técnica trouxe mostra 104 de frequência cardíaca. A pressão sai 98 por 60. Você folheia a papeleta: ontem à tarde, 138 por 82; anteontem, 142 por 88. A temperatura axilar é 36,2 °C — e é exatamente por isso que ninguém soou alarme nenhum até agora: todo mundo estava esperando febre.
Você segura a mão dele para examinar o pulso e a mão está fria. Comprime a polpa do indicador por cinco segundos e conta o retorno da cor: quatro, quase cinco segundos. No papagaio pendurado na grade, a urina da madrugada: escura, escassa. Na evolução da enfermagem de ontem à noite, uma linha que ninguém sublinhou: "paciente refere ardência ao urinar". Não há cateter, não há ferida operatória, não há flebite no acesso. Há um homem de 76 anos que ontem reclamava do café e hoje está confuso, taquipneico, com a pressão 40 mmHg abaixo da dele e a periferia fria.
A fotografia exige reconhecer deterioração antes de descobrir sua causa: alteração aguda do sensório, taquipneia, extremidades frias e baixa diurese são sinais de alarme. Infecção urinária com sepse é uma hipótese importante; insuficiência cardíaca com baixo débito, efeito de medicamentos, hipoglicemia e outras causas precisam ser avaliadas em paralelo. Ausência de febre não exclui sepse. A queda da pressão em relação ao habitual acrescenta preocupação, mas nenhum destes achados isoladamente confirma o diagnóstico. Chame o médico responsável e avalie ABCDE e glicemia já no leito.
Com suspeita consistente de infecção e disfunção orgânica aguda, inicie o tratamento enquanto investiga: culturas quando obteníveis sem atraso relevante, antimicrobiano prontamente, suporte respiratório e circulatório conforme necessidade. Registre quando a deterioração foi percebida, quando surgiu a suspeita de sepse e quando cada medida foi executada. A abertura posterior do formulário não reinicia o relógio. Estudos associam atraso no tratamento apropriado a pior prognóstico; eles não permitem calcular uma probabilidade individual de morte por hora nem transformar qualquer deterioração em infecção confirmada.
Os capítulos vizinhos já fizeram a parte deles: o dos primeiros 5 minutos te deu a sequência de estabilização de qualquer paciente que deteriora, e o de febre no internado te ensinou a perguntar "este paciente febril está séptico?" e a caçar o foco. Este capítulo começa onde os dois terminam. A suspeita está de pé, a disfunção está na sua frente. A pergunta daqui é outra: é sepse — e agora? O que fazer nos próximos 60 minutos, em que ordem, com que dose, e como saber, duas horas depois, se está funcionando ou se é hora de escalar.
Quem adoece disso
O SPREAD avaliou uma amostra de UTIs brasileiras e encontrou letalidade elevada, de 55,7% na população estudada. O dado descreve aquela coorte, seu período e sua seleção; não é a probabilidade atual de morte de cada pessoa com sepse que chega à enfermaria. Para aprender, observe como local de inclusão, gravidade e definição alteram o denominador. A gravidade da síndrome sustenta reconhecimento e tratamento precoces sem transformar estatística coletiva em prognóstico individual.
O relatório do ILAS de 2023 apresentou letalidade de 29,1% nos hospitais participantes. Comparar diretamente esse valor ao SPREAD não mede o efeito causal de executar um protocolo: as populações, períodos, instituições e critérios de inclusão diferem. Indicadores são úteis para acompanhar processos e resultados dentro de contextos comparáveis. Uma análise honesta distingue associação, melhoria observada ao longo do tempo e causalidade demonstrada.
No relatório citado, os resultados diferiram conforme o local de reconhecimento, incluindo pronto-socorro e enfermaria. Isso pode refletir atraso, complexidade, comorbidades, seleção e organização do cuidado. O interno participa ao reconhecer mudança, chamar ajuda, comunicar dados e conferir execução; não controla sozinho todos os determinantes do desfecho. Use esses dados para discutir gargalos reais com a equipe, sem atribuir uma morte a um único profissional ou etapa por inferência estatística.
O estudo de Nova York com 49.331 pacientes encontrou associação entre atraso do antimicrobiano e maior odds ajustada de mortalidade, cerca de 1,04 por hora. Odds ratio não é aumento de quatro pontos percentuais nem uma previsão individual por hora. Trata-se de observação, sujeita a confundimento e diferenças de gravidade. A implicação assistencial é evitar atrasos evitáveis quando o antimicrobiano está indicado e executar suporte e diagnóstico em paralelo; não administrar indiscriminadamente a todo paciente com um sinal de alerta.
Por que acontece o que acontece
Sepse não é "infecção forte". É a resposta do hospedeiro que sai do controle e passa a causar dano próprio — a definição atual diz disfunção orgânica ameaçadora à vida causada por resposta desregulada à infecção, e cada palavra dessa frase muda algo na beira do leito. O agressor inicial é o micro-organismo, mas o que mata é o que o corpo faz na tentativa de contê-lo: uma inflamação que era para ser local vira sistêmica, e o órgão que ela mais agride é um que você não vê em exame de imagem — o endotélio, a camada de células que forra por dentro cada vaso do corpo. São centenas de metros quadrados de superfície que, em condições normais, mantêm o sangue fluido, o tônus vascular calibrado e a parede impermeável. Na sepse, essa superfície inteira é ativada de uma vez.
Três consequências do endotélio ativado explicam quase tudo o que você vai ver e fazer. Primeira: vasoplegia. Mediadores inflamatórios — óxido nítrico à frente — dilatam arteríolas que deviam estar em tônus, e a resistência vascular sistêmica despenca; é um choque distributivo, de continente grande demais para o conteúdo. Segunda: extravasamento. A camada de açúcares e proteínas que reveste o endotélio (o glicocálice) se degrada, as junções entre as células se abrem e plasma vaza para o interstício — o paciente fica ao mesmo tempo edemaciado e hipovolêmico, e parte do cristaloide que você infundir vai seguir o mesmo caminho. Terceira: microtrombose. O endotélio inflamado vira superfície pró-coagulante; microtrombos ocluem capilares, consomem plaquetas e fatores — é por isso que plaquetopenia e alargamento de INR são disfunção orgânica, não achado de menor importância.
Junte as três e você entende o conceito central da hemodinâmica séptica: má distribuição. O problema não é primariamente débito baixo — no início, com as arteríolas abertas, o débito cardíaco costuma estar normal ou alto. O problema é para onde o fluxo vai: na microcirculação séptica, capilares hiperperfundidos correm ao lado de capilares sem fluxo nenhum, shunts levam sangue arterial de volta à veia sem passar pelo tecido, e a célula fica sem oxigênio num paciente cuja oferta global de oxigênio, no papel, está adequada. É a assinatura da sepse: hipóxia tecidual com números macro-hemodinâmicos apresentáveis.
É essa fisiologia que explica o exame central do capítulo. O lactato sobe na sepse por três vias que se somam: células hipoperfundidas fazendo glicólise anaeróbia; a própria descarga adrenérgica do estresse acelerando a glicólise mesmo com oxigênio presente; e o fígado — ele próprio hipoperfundido — depurando menos. Leia o lactato com essa honestidade: ele é um excelente marcador de gravidade e de resposta ao tratamento, mas não é um dosímetro puro de hipóxia, e é por isso que o protocolo nacional manda buscar o clareamento com cuidado, e não perseguir a normalização a qualquer custo — um lactato residual isolado, num paciente que clinicamente melhorou, não é indicação automática de mais volume.
A mesma fisiologia explica por que a pressão arterial normal engana. Diante da vasoplegia e da hipovolemia relativa, o simpático responde com taquicardia e vasoconstrição dos territórios "sacrificáveis" — pele, músculo, rim, esplâncnico. A pressão no manguito se sustenta às custas de fluxo regional que já caiu: a mão fria, o enchimento capilar lento, a urina que some e a confusão são esses territórios avisando, horas antes de a pressão ceder. Hipotensão, na sepse, é evento tardio — é a falência da compensação, não o início do problema. Quem espera PA baixa para agir está tratando o fim do filme. E quando a pressão média cai abaixo de mais ou menos 65 mmHg, ela cruza o piso de autorregulação de cérebro e rim — abaixo disso, o fluxo desses órgãos passa a despencar linearmente com a pressão. É daí que vem o alvo de PAM que você vai perseguir com volume e noradrenalina.
Vasoplegia e alterações de distribuição de fluxo podem coexistir com déficit de volume, disfunção cardíaca e congestão. Cristaloide ajuda quando aumenta fluxo de modo necessário e tolerado; não resolve toda hipotensão. Noradrenalina trata perda de tônus quando indicada e pode precisar começar cedo. Persistência após uma carga não prova vasoplegia isolada: reavaliar o conjunto.
O antimicrobiano adequado atua sobre a infecção; controle de foco também é tratamento etiológico e pode ser indispensável. Oxigênio, ventilação, volume quando indicado e vasopressores sustentam funções enquanto o tratamento atua. Esses componentes trabalham em paralelo. A resposta imune e as disfunções não desaparecem imediatamente após a primeira dose; persistência ou piora exigem reavaliação, sem concluir automaticamente que o antibiótico falhou ou que basta esperar mais 24–48 horas.

Como se apresenta de verdade
Sepse pode apresentar-se com febre e foco evidente ou com sinais menos específicos, especialmente no idoso e imunossuprimido. Nenhuma apresentação garante reconhecimento ou prognóstico. Diante de deterioração aguda, investigar infecção entre as causas, avaliar gravidade e estabilizar. A probabilidade clínica e a presença de choque orientam a urgência do antimicrobiano, com revisão contínua do diagnóstico.
Note o que isso faz com a sua rotina: transforma sinais que a enfermaria normaliza em gatilhos de protocolo. "Ficou confuso mas é idoso", "a pressão está um pouco baixa mas ele é magrinho", "urinou pouco mas estava dormindo" — cada uma dessas frases, dita na passagem de plantão, é uma disfunção orgânica sendo arquivada. As seções abaixo percorrem os pacientes em que a sepse mais engana, e o que procurar em cada um.
Percurso de aprendizagem
Na visita, descreva primeiro o que mudou: consciência, respiração, perfusão e função renal, comparando com a basal. Em seguida, formule a hipótese infecciosa e pelo menos uma alternativa plausível. Justifique a urgência do antimicrobiano por probabilidade clínica e choque.
Treine decisões sucessivas de ressuscitação: por que oferecer volume, que sinal demonstrará benefício, o que fará interromper a expansão e quando iniciar vasopressor. Faça a conta de concentração e vazão, confira base versus sal e explique como será monitorizado o acesso.
Após estabilizar, reveja foco, culturas, toxicidade, volume acumulado, nutrição e recuperação funcional. A aprendizagem termina quando você consegue planejar o cuidado das próximas horas e a transição de setor, não quando recita o pacote inicial.
O idoso: a confusão chega antes da febre
O idoso é o paciente-tipo da sepse — a idade média dos casos brasileiros passa dos 65 anos — e é também o que menos segue o roteiro. A resposta febril embota com a idade: uma fração substancial dos idosos com infecção grave não faz febre, e alguns fazem o contrário, hipotermia. O tremor muscular que gera o calafrio enfraquece, a resposta taquicárdica é amortecida por betabloqueador e doença do nó sinusal, e a leucocitose pode não vir. O que sobra como sinal de apresentação é justamente o que a família e a equipe mais atribuem à idade: confusão nova ou piora da basal, prostração, recusa alimentar, queda da própria altura, incontinência nova.
Mudança aguda de atenção, interação ou alimentação no idoso exige avaliação, mesmo sem febre. Buscar basal com paciente, acompanhante e equipe e considerar delirium, hipóxia, hipoglicemia, medicações, retenção e infecção. Sepse pode ser provável quando há foco e disfunção atribuível, mas uma porta de entrada apenas plausível não confirma o diagnóstico. O subtipo hipoativo pode passar despercebido; percentuais de prognóstico pertencem às coortes estudadas e não tornam todo paciente quieto o mais grave.
Avaliar sinais que o paciente apresenta: frequência e esforço respiratórios, pressão e tendência, perfusão periférica, diurese e estado mental. Queda relativa relevante acrescenta preocupação, mas uma redução de 40 mmHg não demonstra sozinha choque. A ausência de taquicardia, febre ou leucocitose não exclui infecção em pessoas vulneráveis.
Hipotermia: o sinal que ninguém respeita
Febre assusta; hipotermia tranquiliza — e deveria ser o contrário. Temperatura central abaixo de 36 °C (nos protocolos brasileiros de triagem, axilar abaixo de 35 °C) é critério de resposta inflamatória tanto quanto a febre, e carrega pior prognóstico: o paciente séptico hipotérmico morre mais que o febril, porque a falha em montar febre já é, em si, um marcador de resposta exaurida — e porque ninguém abre protocolo para 35,2 °C. A cena típica é a técnica anotando "afebril" num paciente gelado, e o plantonista lendo "afebril" como "sem infecção".
Hipotermia em paciente com suspeita de infecção merece avaliação urgente e pode indicar gravidade. Confirmar medida e considerar exposição, fármacos, endocrinopatias e outras causas; aquecer quando indicado e tratar a causa provável. Não transformar temperatura isolada em ordem universal de antibiótico. Em imunossuprimidos, sinais podem ser discretos, exigindo história e exame cuidadosos e menor limiar para avaliação e tratamento quando a suspeita é alta.
O neutropênico: pouca célula, pouco sinal, nenhum tempo
Neutropenia grave corresponde a neutrófilos abaixo de 500/mm³, ou queda prevista para esse nível em contexto apropriado. Febre nessa situação exige abordagem urgente própria, culturas quando viáveis sem atraso e antimicrobiano conforme protocolo. Quimioterapia recente aumenta preocupação conforme esquema e história, mas não comprova neutropenia em toda pessoa. A inflamação pode ser atenuada, embora pus e infiltrados não sejam impossíveis. Não aguardar deterioração para tratar suspeita forte.
Neutropenia febril pode existir sem sepse, pois nem todo episódio tem disfunção orgânica. Ainda assim, pode exigir antimicrobiano urgente antes de tal disfunção. A avaliação de risco, escolha do esquema e possibilidade de seguimento fora do hospital seguem critérios específicos, discutidos com a equipe oncológica; pressão normal sozinha não libera o paciente.
Choque críptico: o lactato alto de pressão boa
A expressão choque críptico descreve situações de provável hipoperfusão com pressão preservada, frequentemente acompanhadas de lactato elevado. Não significa que todo lactato alto prove choque. Avaliar consciência, pele, enchimento, diurese, oxigenação, metabolismo e depuração. A urgência é reconhecer o mecanismo e tratar, com volume apenas quando indicado e monitorizado. Enchimento capilar lento isolado não determina automaticamente 30 mL/kg.
Dosar lactato em contexto compatível ajuda a não perder gravidade em quem mantém pressão. O exame físico oferece informação complementar e repetível, mas não é equivalente a um lactato gratuito: ambos têm limitações e podem discordar. Uma discordância deve provocar nova avaliação, não escolha automática de qual número obedecer. Acompanhar resposta, incluindo risco de excesso de volume.
Diabético, renal crônico, cirrótico: os que descalibram a régua
Três doenças de base bagunçam os critérios e pedem leitura ajustada. No diabético, a infecção frequentemente estreia como descompensação glicêmica — a glicemia que dispara sem mudança de dieta ou insulina é pista de foco oculto, e a cetoacidose do adulto obriga a procurar a infecção que a precipitou. No renal crônico, a creatinina de 2 pode ser a basal dele: o critério de disfunção renal é a elevação em relação à base e a oligúria das últimas horas, não o valor absoluto — abra a papeleta e compare, em vez de olhar um número isolado. No cirrótico, tudo conspira: a pressão basal já é baixa (vasodilatação esplâncnica), o lactato depura mal mesmo sem sepse, e a peritonite bacteriana espontânea dói pouco — ascite mais qualquer deterioração (encefalopatia, creatinina subindo, icterícia que aprofunda) é indicação de paracentese diagnóstica, e o limiar para tratar é baixo.
O fio comum dos três: quanto pior a reserva do paciente, menos a apresentação respeita o livro e mais cedo a disfunção orgânica aparece para quem procura. A régua não é "parece infectado?"; é "há disfunção nova sem outra explicação, num paciente com porta de entrada plausível?". Se a resposta é sim, o próximo bloco — o que colher, em que ordem — já está valendo.
Da primeira intervenção à recuperação: continuidade do cuidado na sepse
O raciocínio inicial deve ser apresentado como uma hipótese fundamentada. Descreva a deterioração, a provável fonte de infecção, as disfunções novas e as alternativas relevantes. Explique por que a probabilidade é alta ou por que ainda existe dúvida, sem confundir segurança para investigar com ausência de gravidade. A mesma alteração de consciência pode ocorrer por infecção, hipoglicemia ou medicamento; o contexto e a avaliação imediata orientam a decisão. Quando há choque, o suporte não aguarda uma etiqueta definitiva. O interno contribui reunindo dados e comunicando urgência enquanto a equipe responsável inicia o tratamento.
Registrar o momento do reconhecimento exige honestidade com a cronologia. A técnica pode ter notado mudança antes da avaliação médica, e o formulário pode ter sido aberto depois das primeiras medidas. Esses horários têm significados diferentes e devem ser distinguidos. Não ajustar o início artificialmente para que a meta pareça cumprida. A finalidade do registro é reconstruir o atendimento e encontrar atrasos evitáveis, não transformar a documentação em objetivo principal. Quando uma informação é estimada ou vem de relato, explicitar isso ajuda. A história real também permite interpretar a evolução dos exames e a resposta às intervenções.
Na escolha do antimicrobiano, formule uma pergunta que a equipe possa responder: qual foco é mais provável, quais organismos precisam de cobertura e quais fatores aumentam resistência ou toxicidade? Alergias, exposições, culturas anteriores e dispositivos podem mudar o esquema. A gravidade exige rapidez, mas não torna todo paciente candidato ao espectro máximo disponível. Confirme dose, apresentação, diluição e início efetivo da administração. Depois, inclua manutenção e reavaliação, especialmente quando a função renal muda. Um bom primeiro esquema pode tornar-se inadequado se for mantido sem revisão de culturas, controle de foco e efeitos adversos.
A reavaliação de volume deve distinguir três perguntas: o paciente precisa de mais fluxo, pode responder ao fluido e consegue tolerá-lo? Elas não são equivalentes. Um teste pode sugerir aumento de débito sem demonstrar que existe necessidade de expandir naquele momento. Um paciente ainda hipoperfundido pode ser intolerante a volume e precisar de outra estratégia. Ao discutir com o supervisor, apresente os dados que sustentam cada resposta, incluindo limites do exame ou da técnica utilizada. Essa separação evita usar uma medida isolada como autorização para repetir bolsas até alcançar uma conta por peso.
A resposta após uma intervenção deve ser observada em diferentes dimensões. A pressão pode subir enquanto consciência e perfusão continuam ruins; o lactato pode cair mais lentamente que a melhora clínica; a diurese pode permanecer baixa por lesão renal ou obstrução. Nenhum desses comportamentos deve ser interpretado automaticamente como sucesso ou fracasso global. Rever causa, função cardíaca, volume, medicamentos e foco ajuda a decidir. Se a informação não é suficiente, a equipe pode precisar de imagem ou monitorização adicional. O objetivo é escolher o próximo passo útil, sem repetir indefinidamente a primeira intervenção apenas porque ela era apropriada no início.
Controle de foco começa com a pergunta sobre uma estrutura que precisa de intervenção. Uma coleção, uma via obstruída ou um dispositivo infectado podem manter a agressão apesar do antimicrobiano. O acionamento de cirurgia, urologia, endoscopia ou equipe intervencionista deve ocorrer cedo quando houver suspeita consistente. Isso não dispensa avaliar riscos e organizar suporte para o procedimento. Também não permite atribuir toda refratariedade a foco não controlado; falência de bomba, hemorragia e outros mecanismos podem coexistir. A passagem do caso deve explicar a evidência disponível e a decisão solicitada, em vez de apenas dizer que o antibiótico não funcionou.
Quando a necessidade de vasopressor diminui e a perfusão melhora, o plano precisa mudar de fase. Reavaliar fluidos ainda prescritos, nutrição, balanço e sinais de sobrecarga ajuda a evitar manutenção por inércia. Suspender uma carga que perdeu indicação é diferente de restringir todo líquido sem avaliar necessidades. A equipe deve considerar perdas, ingestão, função renal e resposta. A recuperação da pressão não significa que todos os órgãos se recuperaram simultaneamente. Manter acompanhamento e metas claras permite detectar tanto nova deterioração quanto oportunidade de reduzir intervenções que passaram a oferecer mais risco que benefício.
A revisão diária do antimicrobiano deve trazer uma decisão explícita. Há infecção ainda provável? O foco foi controlado? O organismo e a sensibilidade permitem reduzir espectro? A via e a duração continuam adequadas? Culturas negativas podem ocorrer após tratamento ou por limitações da coleta; positivas podem representar contaminação ou colonização. Interpretar essas possibilidades exige clínica. Evite manter por segurança sem explicar qual risco está sendo tratado, e evite suspender apenas porque um frasco não cresceu. A resposta deve gerar um plano de duração e acompanhamento compreensível para os próximos profissionais e para o paciente.
A transição da terapia intensiva ou emergência para a enfermaria precisa acompanhar o risco atual. Entregue diagnóstico provável, disfunções que persistem, suporte recém-retirado, culturas pendentes, medicamentos e critérios de retorno à avaliação urgente. Um paciente pode estar sem vasopressor e ainda precisar de vigilância mais próxima por respiração, consciência ou função renal. A passagem não deve pressupor que todos lerão a história inteira antes do próximo chamado. Resuma os dados decisivos e confirme quem acompanhará cada pendência. Comunicação concreta reduz a chance de confundir uma melhora parcial com resolução da síndrome.
Depois da fase aguda, avalie recuperação funcional e cognitiva, sono, alimentação e capacidade de participar do cuidado. A pessoa pode ter sobrevivido ao choque e ainda apresentar fraqueza, perda de autonomia ou dificuldade para compreender o tratamento. Pergunte como era antes, o que mudou e que apoio está disponível. Reabilitação, nutrição e planejamento da alta devem ser discutidos conforme necessidade. Não atribuir toda limitação à idade nem prometer retorno rápido à basal. Acompanhamento permite identificar complicações, adequar metas e organizar suporte que continue após o último dia de antibiótico.
A família precisa de atualizações que reflitam a trajetória. Explique o que melhorou, o que permanece comprometido e quais decisões estão previstas, sem usar apenas a palavra estável. Estabilidade sob suporte intenso e recuperação sem suporte não significam a mesma situação. Quando houver incerteza de causa ou prognóstico, diga isso e descreva como será reavaliado. Evite garantias de recuperação ou porcentagens individuais retiradas de coortes. Ouvir perguntas repetidas pode revelar dificuldade de compreensão ou necessidade de novo apoio. A comunicação é parte do cuidado e deve ter responsável e oportunidade de continuidade.
Na alta, o resumo deve permitir reconstruir a infecção e suas consequências. Informar foco provável ou confirmado, organismos, tratamentos e duração, procedimentos de controle, disfunções e estado atual ajuda a rede a continuar o cuidado. Descrever medicamentos modificados, exames pendentes, retorno e sinais de alarme evita que intervenções temporárias sejam mantidas indefinidamente ou que uma pendência desapareça. Confirmar entendimento e viabilidade das orientações é tão importante quanto imprimir o documento. A revisão do internato termina quando o estudante consegue conectar reconhecimento, tratamento, resposta e seguimento, explicando por que cada decisão foi adequada àquela pessoa.
Ao revisar um atendimento com o supervisor, escolha uma decisão de início e uma de interrupção. Por que o antimicrobiano foi iniciado naquele momento? Por que o próximo bolus foi evitado? Que dados sustentaram retirar suporte ou transferir de setor? Esse exercício mostra que bom cuidado envolve agir e também reconhecer quando uma intervenção deixou de ajudar. Use o resultado para refletir, mas julgue cada escolha pelas informações disponíveis na ocasião. Um desfecho favorável não valida automaticamente todas as medidas, e uma complicação não prova que o atendimento inicial estava errado. A aprendizagem depende de reconstruir o raciocínio com clareza.
Como fechar o diagnóstico
A investigação busca gravidade, foco, agente e causas alternativas, enquanto o suporte começa conforme necessidade. A decisão de antimicrobiano considera probabilidade de infecção e choque; abrir um protocolo não encerra esse raciocínio. Culturas e exames ajudam a revisar o diagnóstico e reduzir espectro depois, mas não devem atrasar tratamento urgente quando a suspeita é alta.
Uma regra operacional antes dos itens: tudo abaixo sai de uma única rodada de punções, junto com o acesso que você já está pegando. A ordem de prioridade importa porque recurso e gente são finitos — se só der para fazer uma coisa nos primeiros 15 minutos, que seja colher o lactato e as hemoculturas e liberar a primeira dose do antimicrobiano.
Lactato: risco, perfusão e tendência
Lactato elevado aumenta a preocupação com gravidade, mas também depende de estímulo adrenérgico, metabolismo e depuração. Interpretá-lo com exame, pressão, oxigenação e evolução; não mede diretamente uma quantidade de tecido isquêmico. Lactato venoso pode ser utilizado conforme o método do serviço. Se é preciso avaliar PaO2/FiO2 ou ventilação, a gasometria arterial responde a outra pergunta. Solicitar processamento rápido, sem condicionar suporte a um prazo ideal do laboratório.
Sobre unidades, uma armadilha boba que confunde plantão inteiro: os laboratórios podem reportar em mg/dL ou em mmol/L. A referência usual é até cerca de 18 mg/dL, que corresponde a 2 mmol/L; "duas vezes a referência" — o gatilho de hipoperfusão — fica em torno de 36 mg/dL ou 4 mmol/L. Antes de reagir a um número, olhe a unidade. E já deixe agendado o que muita equipe esquece: se este primeiro lactato vier alto, o segundo está automaticamente marcado para depois da intervenção inicial e dentro de 4 horas da abertura do protocolo — é o item de pior aderência do pacote no Brasil, e o bloco de reavaliação explica o que fazer com ele.
Culturas: duas, de sítios distintos, antes do antibiótico — e quando não esperar
Colher dois conjuntos de hemoculturas antes do antimicrobiano quando viável sem atraso significativo. Em adulto, conferir o volume por frasco e a composição de cada conjunto; dois frascos não equivalem necessariamente a dois conjuntos. Identificar sítio, hora e antimicrobianos já recebidos. Culturas de urina, secreções ou coleções dependem do foco. Punção lombar só após avaliação de segurança; instabilidade não permite colocá-la automaticamente no kit inicial.
Agora a exceção, que o protocolo nacional escreve em negrito e que você vai usar mais do que gostaria: se a coleta não sai — acesso difícil, laboratório sem coletor de madrugada, kit em falta —, o antimicrobiano não espera. A regra tem hierarquia explícita: cultura antes do antibiótico sempre que possível; antibiótico sem cultura quando a coleta atrasar. A hemocultura pós-antibiótico perde rendimento, mas paciente vivo colhe cultura amanhã; o contrário não é verdadeiro. Na prática da enfermaria, o gargalo real costuma ser logístico — quem colhe, com que material, quem leva ao laboratório — e a resposta certa é resolver a logística em paralelo (peça ajuda, delegue a segunda punção), nunca sequestrar o relógio do antimicrobiano. A técnica detalhada da hemocultura — volume por frasco, antissepsia, por que dois sítios — está no capítulo de febre no paciente internado; use de lá.
O painel de disfunções: sete perguntas num mesmo tubo
Pesquisar disfunções com hemograma, creatinina e tendência, eletrólitos, bilirrubina, coagulação e exames de oxigenação quando indicados. Comparar com valores prévios: creatinina de 1,4 mg/dL pode representar lesão renal aguda se a basal era 0,7. Plaquetopenia e INR elevado têm diferenciais, como hepatopatia, fármacos e consumo; um INR de 1,5 sozinho não fecha coagulação intravascular disseminada. A causa provável de cada alteração e seu caráter agudo devem aparecer na avaliação.
Duas leituras práticas desse painel. Primeira: ele é o denominador da gravidade — cada disfunção somada muda a conversa com a UTI e com a família, e o paciente com duas ou mais disfunções é formalmente um paciente de alta prioridade. Segunda: ele é a linha de base das próximas 48 horas — a creatinina de amanhã só ganha significado contra a de hoje. A PCR merece nota à parte, pelo mau uso: ela marca inflamação, não decide nada na primeira hora — não segura antibiótico se vier baixa, não muda dose se vier alta; seu valor é seriado, dias depois, acompanhando resposta. Não deixe um número de PCR adiar aquilo que a clínica já mandou fazer.
Imagem: dirigida pelo exame, depois da primeira dose
Escolher imagem pela pergunta clínica: radiografia ou ultrassom para comprometimento pulmonar, ultrassom de vias urinárias diante de obstrução, investigação hepatobiliar e abdominal conforme o foco. Imagem à beira do leito pode ocorrer em paralelo ao tratamento; não precisa aguardar formalmente a primeira dose. Transporte exige equipe, monitorização e suporte apropriados, ponderando benefício e risco. Diagnóstico que demanda intervenção urgente não deve ser adiado por uma sequência rígida de exames.
O erro de fluxo clássico é o inverso: mandar o paciente instável "dar uma passada na tomografia" antes de ressuscitar e antes da primeira dose. A sala de tomografia é o pior lugar do hospital para chocar — sem monitor decente, sem droga, sem gente. Estabilize primeiro, trate primeiro; a imagem confirma depois. A busca sistemática de foco — os quatro sítios prováveis, o exame físico dirigido do paciente febril — é o coração do capítulo de febre no internado; aqui ela só muda de urgência: se o foco achado for drenável (abscesso, colangite, empiema, via urinária obstruída), a imagem vira ponte para o controle de foco, que tem relógio próprio nas primeiras horas e está detalhado no capítulo de choque séptico e sepse cirúrgica, na apostila de Pré e Pós-operatório.
Triagem: SRIS ainda serve de rede, qSOFA não é porteiro
Uma nota sobre as ferramentas de triagem, porque a nomenclatura confunde. A definição de sepse mudou (infecção + disfunção orgânica), mas a triagem nacional continua usando a velha SRIS como rede de captura: dois critérios — temperatura, frequência cardíaca, frequência respiratória, leucograma — em paciente com suspeita de infecção abrem protocolo na classificação de risco, pelo enfermeiro, sem esperar médico. É uma escolha deliberada de sensibilidade: melhor abrir protocolo demais do que deixar sepse passar. E uma disfunção clínica isolada — hipotensão, rebaixamento, dispneia ou dessaturação, oligúria — abre protocolo sozinha, sem SRIS nenhuma.
O qSOFA (frequência respiratória ≥ 22, PAS ≤ 100, alteração do sensório) não é ferramenta de abertura: a posição nacional e a internacional coincidem — a sensibilidade dele é baixa demais para triagem, e usá-lo como porteiro atrasa exatamente os diagnósticos que ele deveria acelerar. O lugar dele é outro: positivo (dois de três), marca o paciente já triado que tem risco alto de morrer — um sinal de "não me deixe para depois". Os escores de deterioração NEWS2 e MEWS, que os hospitais usam para vigilância contínua de enfermaria, estão no capítulo dos primeiros 5 minutos; se o seu serviço os usa, a sepse é uma das principais causas de escore subindo.
O que NÃO pedir na primeira hora — e o custo de pedir
Procalcitonina para decidir se inicia antimicrobiano: não. Onde existe, ela tem papel lá na frente, encurtando duração de tratamento; na primeira hora, esperar seu resultado para "confirmar" é trocar mortalidade por elegância diagnóstica. Tomografia de corpo inteiro no instável sem pergunta definida: não — é passeio de risco para achado incidental. Aguardar resultado de cultura para começar a tratar: nunca — cultura leva 48 horas para positivar; a sepse mata em menos. Swab de vigilância, sorologias, marcadores reumatológicos "para não perder nada": nada disso muda a primeira hora; cada tubo a mais é tempo de coleta e atenção desviados do que muda.
O princípio por trás dos vetos: na primeira hora, todo exame se justifica por uma decisão que ele muda Agora. Lactato muda (dispara volume e agenda reavaliação), cultura muda (permite descalonar depois — a decisão é agora, o benefício é depois), painel muda (gravidade, UTI, linha de base). O resto é para as próximas horas — e lá tem valor, desde que o pacote já tenha corrido.
O que existe no SUS — e o que fazer onde falta
Nada no pacote de 1 hora é sofisticado, e essa é a notícia boa: lactato, hemocultura, cristaloide, antimicrobiano de amplo espectro e noradrenalina existem na rede pública — há protocolo gerenciado de sepse rodando em UPA e emergência municipal, com kit sepse de um clique no sistema e meta institucional auditada. Onde o sistema é mais fraco, os gargalos são conhecidos: lactato que não volta em 30 minutos, frasco de hemocultura em falta, vaga de UTI que não existe.
Para cada gargalo há conduta digna. Sem lactato em tempo hábil: a hipoperfusão se diagnostica na beira do leito — enchimento capilar, livedo, pele fria, oligúria, sensório — e a revisão de 2026 do protocolo nacional trata o enchimento capilar acima de 3 segundos como gatilho de ressuscitação mesmo com lactato normal, e manda avaliar o volume diante de livedo, oligúria e sensório alterado. Sem frasco de hemocultura: colha o que houver (urocultura é quase sempre viável) e não atrase o antimicrobiano — registre o motivo. Sem vaga de UTI: o paciente recebe o tratamento integral onde estiver — pacote completo, reavaliação em horário, noradrenalina em bomba na sala amarela se preciso — enquanto a regulação corre; "sem vaga" não é autorização para tratar menos, e o protocolo nacional diz isso com todas as letras.
Abrir, classificar e executar: os gatilhos e o pacote de 1 hora
Aprender a reconhecer deterioração e estimar a probabilidade de sepse, estabilizar com supervisão e reavaliar a resposta, distinguindo alertas de diagnóstico e metas de protocolo de decisões individuais.
- 1Deterioração aguda: avaliar ABCDE, glicemia e gravidade, chamar ajuda e considerar sepse entre os diagnósticos. Acionar o fluxo institucional sem aguardar concordância burocrática; registrar o reconhecimento. SIRS, NEWS/NEWS2 e outros alertas organizam rastreamento, mas não confirmam infecção.
- 2Classificar probabilidade de infecção, disfunções novas e presença de choque. Avaliar causas associadas. Limitações de tratamento dependem de objetivos de cuidado individualmente acordados; doença avançada não determina automaticamente suspensão de todo tratamento da infecção.
- 3Colheu — numa única rodada: lactato (resultado em 30 minutos), duas hemoculturas de sítios distintos, culturas do foco, painel de disfunções. Nada disso atrasa o passo seguinte.
- 4Tratar a causa provável: antimicrobiano imediatamente no choque suspeito e na sepse provável/definida, idealmente em uma hora; na sepse apenas possível sem choque, investigação rápida com decisão em até três horas se a suspeita persistir. Conferir dose, infusão, manutenção e administração efetiva.
- 5Tratar hipoperfusão conforme mecanismo: cristaloide com reavaliação de resposta e tolerância; vasopressor precoce quando necessário. Não exigir conclusão de 30 mL/kg nem aguardar 30–40 minutos de hipotensão para iniciar noradrenalina.
- 6Marcou a prova dos nove — segundo lactato agendado para dentro de 4 horas da abertura, reavaliação de perfusão com dono e horário, decisão de UTI encaminhada com gravidade objetiva.
- 7Fechou o diagnóstico com calma — cultura em 48-72 horas descalona o esquema; infecção afastada suspende antimicrobiano. Abrir protocolo é decisão de minutos; fechar diagnóstico é trabalho de dias — e um não atrapalha o outro.
Infecção sem disfunção — vigiar de perto
Infecção sem disfunção orgânica não é sepse. Tratar conforme síndrome e risco, observando sinais de deterioração. A janela de investigação de até três horas da sepse possível sem choque é outra situação: admite dúvida sobre a causa de uma doença aguda, inclusive sobre disfunções presentes, e exige investigação ativa e monitorização.
Sepse — o pacote inteiro, agora
Suspeita de infecção com disfunção orgânica aguda atribuível a resposta desregulada exige considerar sepse. Estimar a probabilidade clínica e pesquisar alternativas; alteração crônica não conta como disfunção nova. Na sepse provável ou definida, iniciar antimicrobiano imediatamente, idealmente em uma hora, associado às medidas de suporte indicadas. Não esperar o cálculo completo de SOFA para agir.
Sepse com hipoperfusão — a urgência do choque, sem a hipotensão
Pressão normal não exclui hipoperfusão. Lactato elevado, alteração do sensório, enchimento capilar prolongado ou oligúria motivam avaliação urgente integrada. Eles não demonstram, isoladamente, falta de volume. Iniciar reposição quando indicada, avaliar resposta e tolerância, e acompanhar o lactato elevado em série. O cuidado é tão urgente quanto na hipotensão, mas o tratamento depende do mecanismo identificado.
Choque séptico — vasopressor sem esperar
Hipotensão que não corrige com a reposição volêmica inicial e exige vasopressor: PAM ≤ 65 mmHg apesar do cristaloide, na tabela do protocolo nacional. Letalidade de 53,5% — mais que o dobro da sepse sem choque. Noradrenalina dentro da primeira hora, em veia periférica, com acesso central se a necessidade se prolongar; PAM-alvo de 65 mmHg numa faixa estreita, com 60 a 65 admitidos no idoso em situação selecionada; pressão invasiva quando a dose sobe ou as medidas do manguito não batem, e vaga de UTI solicitada com prioridade máxima.
| Item do pacote | Prazo | O que exige na prática | Onde trava na vida real |
|---|---|---|---|
| Lactato | Colhido o quanto antes, resultado em 30 min | Colher prontamente; lactato venoso pode ser útil na avaliação e tendência. Gasometria arterial quando a pergunta exigir oxigenação/ventilação. Registrar método, hora e intervenção, sem atrasar suporte | Conferir processamento e comunicar urgência ao laboratório; o prazo operacional local não define segurança para aguardar |
| Duas hemoculturas de sítios distintos + culturas do foco | Antes do antimicrobiano, dentro da 1ª hora | Duas punções separadas, aeróbio + anaeróbio; urocultura e demais culturas conforme o foco; registrar horário de coleta | Acesso difícil e falta de coletor viram desculpa para atrasar o antibiótico — a regra é a inversa: coleta impossível não posterga a dose |
| Antimicrobiano EV de amplo espectro | Imediato no choque suspeito ou sepse provável/definida, idealmente em uma hora; incerteza sem choque exige decisão rápida pelo contexto | Escolher cobertura e dose pelo foco e risco; ataque quando indicado, infusão própria de cada produto e manutenção individualizada, inclusive função renal. Primeira dose não significa bolus EV indiscriminado | Prescrito não é administrado: a dose para na farmácia, na diluição, na checagem — conferir pessoalmente que foi pendurado é parte da prescrição |
| Cristaloide quando houver indicação de expansão | Iniciar prontamente na hipoperfusão com necessidade de volume, reavaliando desde a primeira etapa | Referência de 30 mL/kg contextualizada; total e velocidade individualizados. Avaliar resposta, tolerância e congestão, inclusive em cardiopatia e doença renal. Vasopressor pode ser necessário precocemente | "Correndo lento" de manutenção não é ressuscitação; medo genérico de congestão substitui a reavaliação que diria se cabe mais |
| Noradrenalina | Prontamente quando necessário para corrigir hipotensão com hipoperfusão | Se hipotensão com hipoperfusão persistir, iniciar/titular noradrenalina prontamente com monitorização; não aguardar 30–40 minutos nem acesso central | Espera-se acesso central, vaga de UTI ou 'a próxima reavaliação' com o paciente hipotenso — os três atrasos são evitáveis |
| Segundo lactato | Depois da intervenção inicial, dentro de 4 h da abertura do protocolo | Se inicialmente elevado, repetir após intervenção em prazo definido, em geral 2–4 h, e interpretar tendência com a clínica | A ausência do segundo lactato limita a tendência, mas o exame clínico continua útil. Não adiar reavaliação ou tratar apenas o número |
| Reavaliação de perfusão e volemia | Seriada, ao longo das 6 primeiras horas | Enchimento capilar, diurese, sensório, PA e um teste de responsividade antes de cada novo bolus; registrada em prontuário | Definir responsável e passagem de cuidado; registro incompleto exige esclarecimento, não prova automática de que não houve reavaliação |
Sinais de possível disfunção orgânica — confirmar caráter agudo, contexto e relação com a infecção
| Sistema | Critério (ILAS) | Onde você a vê primeiro |
|---|---|---|
| Cardiovascular | Hipotensão ou necessidade de vasopressor; queda relativa importante é sinal de alerta, interpretado com perfusão e basal | Na comparação com a papeleta — o número de hoje contra a basal de ontem |
| Renal | Oligúria ou aumento agudo da creatinina; considerar aumento ≥ 0,3 mg/dL em 48 h ou ≥ 1,5 vez a basal em sete dias, sem exigir creatinina > 2 | No papagaio e no balanço que ninguém somou; no renal crônico, vale a elevação sobre a basal |
| Respiratória | PaO2/FiO2 < 300 ou necessidade de O2 para manter SpO2 > 90% | No paciente que 'só' precisou de cateter de O2 novo — isso já é disfunção |
| Hematológica | Plaquetas < 100.000/mm³ ou queda de 50% em relação ao maior valor dos últimos 3 dias | No hemograma de rotina que caiu sem sangramento aparente |
| Metabólica | Lactato acima da referência de 2 mmol/L ou 18 mg/dL | No exame que só aparece se alguém pedir — dose no paciente que 'não parece tão grave' |
| Neurológica | Rebaixamento do nível de consciência, agitação ou delirium | No idoso que 'desligou': parou de reclamar, de comer, de perguntar |
| Hepática | Bilirrubina > 2× o valor de referência | Na icterícia discreta de escleras que a luz ruim da enfermaria esconde |
Sinais de possível hipoperfusão — avaliação integrada, sem bolus automático
| Sinal | Como avaliar | O que significa |
|---|---|---|
| Enchimento capilar lentificado | Comprimir a polpa digital 5 segundos e cronometrar o retorno da cor; anormal acima de 3 segundos | Achado de perfusão periférica influenciado por temperatura, técnica e condições locais; acompanhar com os demais parâmetros |
| Livedo (pele mosqueada) | Rendilhado violáceo em joelhos e extremidades | Hipoperfusão cutânea grave; na sepse, marcador tardio e de mau prognóstico |
| Oligúria | Diurese das últimas 1-2 h; anormal ≤ 0,5 mL/kg/h — 35 mL/h num adulto de 70 kg | Pode refletir hipoperfusão, congestão, lesão renal ou obstrução; verificar medida, duração e mecanismo |
| Alteração do sensório | Confusão nova, sonolência, agitação — contra a basal informada por quem conhece o paciente | Perfusão cerebral comprometida ou inflamação sistêmica agindo no órgão mais sensível |
| Extremidades frias | Dorso da sua mão contra a pele do paciente, comparando segmentos | Descarga adrenérgica compensatória em curso — a pressão de agora está sendo sustentada no músculo liso |
Quem abre o protocolo e com que gatilho — o desenho de uma rede pública em operação (RioSaúde)
| Situação | Gatilho | Quem age |
|---|---|---|
| Chegada na emergência | 2 critérios de SRIS (temperatura axilar > 37,8 °C ou < 35 °C; FC > 90; FR > 20; leucócitos > 12.000, < 4.000 ou > 10% de formas jovens) com suspeita de infecção | Enfermeiro da classificação de risco abre o protocolo imediatamente, sem esperar médico |
| Qualquer ponto do atendimento | 1 disfunção clínica isolada: hipotensão, rebaixamento, dispneia ou dessaturação, oligúria | Quem identificou abre; a disfunção dispensa SRIS |
| Paciente já internado | Mesmos gatilhos durante a internação | Abertura em comum acordo entre enfermagem e equipe médica |
| Depois da prescrição | Kit sepse no sistema; antimicrobiano liberado imediatamente pela farmácia; administração confirmada no sistema pelo técnico | Farmácia, laboratório (lactato em 30 min) e enfermagem — cada elo com obrigação própria |
| Auditoria | Indicador institucional: antimicrobiano em até 2 h da abertura, meta de 100%, mirando 1 h | Núcleo de qualidade — o horário que você registra é o que será auditado |
Unidades de lactato: 2 mmol/L = 18 mg/dL — a referência que a revisão de 2026 do protocolo nacional passou a escrever, e a conta fecha: com massa molar de 90,08 g/mol, 2 mmol/L são 180,2 mg/L, ou 18,0 mg/dL. O gatilho de hipoperfusão — duas vezes a referência — fica em torno de 4 mmol/L ou 36 mg/dL. Confira a unidade do seu laboratório antes de reagir ao número.
Abrir protocolo não é fechar diagnóstico: o protocolo aberto que se revela pneumonite química ou embolia amanhã cumpriu seu papel — e o antimicrobiano se suspende imediatamente quando a infecção é afastada. O medo de 'abrir à toa' custa mais que o excesso de abertura.
Choque séptico tem duas definições em circulação: a operacional dos protocolos gerenciados (hipotensão que não corrige com a reposição volêmica inicial e exige vasopressor, independentemente do lactato — ILAS, que na revisão de 2026 pôs a necessidade de vasopressor no texto da definição) e a do consenso Sepsis-3 (vasopressor para manter PAM ≥ 65 MAIS lactato acima de 2 mmol/L após volume — adotada, por exemplo, pelo protocolo da RioSaúde, que escreve maior ou igual a 2). Saiba qual o seu serviço usa para fins de registro; a conduta na primeira hora é a mesma.
No choque em uso de vasopressor, a revisão de 2026 do protocolo nacional indica pressão arterial invasiva quando a dose de vasopressor é intermediária ou alta, está subindo ou soma mais de uma droga, quando as gasometrias arteriais são frequentes e quando as medidas do manguito não se sustentam entre si; fora disso, e onde a invasiva não existe, o manguito serve em medidas seriadas e com vigilância clínica. A revisão de 2018 dizia que o manguito não é fidedigno em quem usa vasopressor (ILAS).
Protocolos têm versões e finalidades distintas. Ao estudar uma atualização, separar definição de sepse, rastreamento, indicador de qualidade e prescrição à beira do leito. Nenhum indicador substitui avaliação de via aérea, ventilação e perfusão. Na prática, conferir o protocolo vigente do serviço e a informação farmacêutica da apresentação disponível; diferenças de redação entre documentos não autorizam inferir intenção dos autores nem transplantar uma dose ou prazo sem contextualização.
Conferência que falhou nas duas revisões. O protocolo do ILAS escreve hemoglobina abaixo de 7 mg/dL como limiar para transfundir o paciente com sinais de hipoperfusão — em 2018 com devem receber, em 2026 com podem receber. Hemoglobina se expressa em g/dL: 7 g/dL equivalem a 7.000 mg/dL, e os 7 mg/dL escritos são 0,007 g/dL, mil vezes abaixo do limiar pretendido e de qualquer valor compatível com a vida. A prescrição deste capítulo usa 7 g/dL, o limiar restritivo que a frase quer dizer.
O consenso Sepsis-3 operacionaliza disfunção orgânica por aumento agudo de pelo menos dois pontos no SOFA em contexto de infecção. O SOFA não contém lactato. Listas institucionais mais sensíveis servem para rastreamento e acionamento; a presença de um item nelas não equivale automaticamente ao diagnóstico definitivo. Registrar o estado basal e a interpretação clínica. Uma ambiguidade de redação de protocolo deve ser esclarecida com o serviço, sem afirmar como fato que uma negação foi omitida na edição.
PAM é medida contínua, sujeita a erro e variação. Um valor exato de 65 mmHg não separa de forma absoluta paciente seguro de paciente em choque. A meta deve ser interpretada com perfusão, tendência e dose de vasopressor. No idoso selecionado, pode-se aceitar alvo individualizado, inclusive 60–65 mmHg, com vigilância. Não converter um prazo de auditoria em permissão para manter hipotensão clinicamente relevante.
Hipotensão relativa é uma queda relevante em relação a uma basal confiável. A redução de mais de 40 mmHg aparece em protocolos de rastreamento e merece atenção, mas não demonstra por si só choque ou disfunção cardiovascular: uma pessoa pode cair de 180 para 135 mmHg e continuar bem perfundida. Inversamente, queda menor pode ser grave quando acompanhada de sinais de hipoperfusão. Comparar técnica de medida, medicamentos, contexto e evolução.
O volume de 30 mL/kg é uma referência usada em recomendações de ressuscitação da hipoperfusão séptica. Redações como até e pelo menos não são equivalentes; documentar a fonte e a versão, sem declarar que o autor quis escrever outra coisa. Clinicamente, individualizar a indicação, o total, a velocidade e os critérios de interrupção. Observar resposta e risco de sobrecarga desde o primeiro bolus, especialmente em cardiopatia e doença renal.
Vasopressor e inotrópico respondem a problemas diferentes. Noradrenalina é o vasopressor inicial habitual no choque séptico; dobutamina é uma opção adjuvante quando existe disfunção cardíaca com hipoperfusão persistente apesar de volume e pressão adequados. Adrenalina pode ser alternativa em situações selecionadas. Não deduzir uma prescrição a partir da suposição de erro tipográfico em outro documento: escolher e justificar o esquema com supervisão e monitorização.
A conduta, hora a hora
O pacote de 1 hora não é uma lista de intenções; é uma corrida de revezamento em que você é, ao mesmo tempo, corredor e fiscal de bastão. Cada item tem um executor diferente — o coletor que leva o lactato, o segundo profissional que punciona a outra hemocultura, o farmacêutico que libera, o técnico que pendura, a bomba que alguém precisa buscar — e o pacote inteiro anda na velocidade do elo mais lento. A consequência prática: prescrever é o começo da sua tarefa, não o fim. A pergunta profissional não é 'prescrevi?', é 'foi feito? que horas?'. Os protocolos institucionais auditam exatamente esses horários, e o telefonema para a farmácia cobrando a liberação é tão conduta médica quanto a dose que você escreveu.
A linha do tempo começa no reconhecimento clínico e organiza ações paralelas. Os intervalos não autorizam esperar: suporte vital, avaliação do foco e antibiótico indicado começam assim que possível. Doses são exemplos de aprendizagem e precisam ser transformadas em prescrição completa, com apresentação, diluição, tempo de administração e manutenção individualizados. No internato, confirme essas decisões com o médico responsável e a equipe que administrará o tratamento.
Minuto 0 a 20 — abrir, colher e liberar a primeira dose
Reconheça a deterioração, peça ajuda e avalie via aérea, respiração, circulação, consciência e glicemia. Enquanto corrige ameaças imediatas, distribua tarefas à equipe: acesso, culturas, lactato, prescrição e preparo do antimicrobiano. No choque suspeito ou na sepse provável/definida, a primeira dose deve começar imediatamente, idealmente em até uma hora do reconhecimento. Oxigenação, ventilação, ressuscitação e controle urgente do foco não aguardam a liberação da droga. Registre horários reais e confirme a execução; o formulário acompanha o atendimento.
Prescrição- Acionar o protocolo e o médico responsável/time de resposta conforme o serviço. Documentar separadamente reconhecimento da deterioração, suspeita de sepse, acionamento e administração. Contar os prazos clínicos desde o reconhecimento, sem deslocá-los para a abertura formal.
- Colher prontamente lactato, hemograma, creatinina, eletrólitos, bilirrubinas, coagulograma e glicemia conforme o quadro. Lactato venoso pode apoiar a avaliação e o seguimento; preferir o mesmo método para comparar a tendência. Gasometria arterial quando necessária para avaliar oxigenação ou ventilação, sem atrasar suporte. Comunicar a urgência ao laboratório e conferir a hora efetiva do resultado.
- Colher, idealmente antes do antimicrobiano, dois conjuntos de hemoculturas periféricas de sítios distintos, com técnica asséptica. Em adulto, cada conjunto geralmente contém frascos aeróbio e anaeróbio, preenchidos segundo o fabricante, habitualmente 8–10 mL por frasco. Identificar sítio e horário. Colher culturas do foco quando indicadas, sem atrasar tratamento. Suspeita de meningite exige avaliar segurança da punção lombar: choque, comprometimento respiratório, coagulopatia ou sinais de hipertensão intracraniana podem exigir adiamento; o antibiótico não espera o líquor.
- Antimicrobiano EV apropriado ao foco, gravidade, alergias, exposições prévias e resistência local. Usar dose de ataque quando indicada; a manutenção deve considerar desde o início função renal dinâmica, diálise, peso, toxicidade e monitorização disponível. Dose de ataque plena não autoriza manter qualquer antibiótico sem ajuste por 24–72 horas. Respeitar diluição e tempo de infusão de cada produto: primeira dose rápida no fluxo assistencial não significa injeção EV em bolus. Infusão estendida de betalactâmicos, quando indicada, ocorre após dose inicial e conforme estabilidade e protocolo farmacêutico.
- Exemplos iniciais em adulto, sujeitos ao protocolo local: pielonefrite comunitária sem risco de resistência pode receber ceftriaxona 2 g EV; pneumonia comunitária grave pode exigir ceftriaxona 2 g EV associada a azitromicina 500 mg EV. Conferir contraindicações, QT e infusão própria de cada fármaco. Foco desconhecido não determina automaticamente vancomicina mais meropeném: selecionar cobertura conforme gravidade e risco concreto de MRSA, bacilos resistentes e anaeróbios, com infectologia/CCIH quando possível. Não adiar a primeira dose enquanto busca uma escolha excessivamente ampla ou supostamente perfeita.
Minuto 0 a 60, em paralelo — volume para quem tem gatilho
Avalie se há hipoperfusão atribuível à sepse e necessidade de expansão. Os 30 mL/kg nas primeiras três horas são uma referência de diretriz com evidência limitada, não uma ordem para administrar litros sem observar resposta. Sepse sem hipoperfusão não requer carga automática. No paciente com insuficiência cardíaca, doença renal ou congestão, avalie com cuidado volumes menores e necessidade precoce de vasopressor. Após cada etapa, reveja pressão, perfusão, respiração e sinais de sobrecarga. Confusão, oligúria ou lactato alto isolados não demonstram hipovolemia.
Prescrição- Cristaloide isotônico para hipoperfusão com indicação de volume; geralmente solução balanceada, conforme contexto e disponibilidade. Iniciar bolus com avaliação imediata da resposta; por exemplo, 250–500 mL em adulto, ajustando velocidade e volume à gravidade e tolerância. A referência de 30 mL/kg corresponde a 2.100 mL para 70 kg e 2.400 mL para 80 kg, mas não é prescrição incondicional desses totais. Trauma craniano requer escolha específica de solução isotônica pelo protocolo correspondente.
- Cardiopatia, doença renal avançada ou sinais de congestão: individualizar volume e velocidade, reavaliar frequentemente e interromper expansão sem benefício ou com piora respiratória. Reduzir apenas a velocidade não torna obrigatório atingir o mesmo total. Se houver choque vasoplégico, considerar noradrenalina precocemente com equipe experiente.
- Documentar volume administrado, resposta e motivo para continuar ou interromper. Ausência de responsividade, intolerância e recuperação da perfusão são razões distintas para não oferecer novos bolus. Vasopressor é indicado pela pressão/perfusão e mecanismo do choque; não substitui indiscriminadamente todo volume que foi evitado.
- Sobre qual cristaloide: o ensaio brasileiro BaSICS não encontrou diferença de mortalidade entre solução balanceada e SF 0,9%; a diretriz internacional sugere balanceado, e a revisão de 2026 do protocolo nacional passou a preferir o Ringer lactato quando disponível, com SF 0,9% no trauma craniano. Onde só houver SF 0,9%, use-o — a escolha do frasco nunca justifica atraso (SSC 2021, com o dado do BaSICS; ILAS, Nota Técnica e Protocolo Clínico de 2026)
Durante a avaliação inicial — vasopressor conforme necessidade, sem espera por um minuto predeterminado
Hipotensão importante com hipoperfusão exige correção imediata. Se persistir durante a expansão indicada, inicie noradrenalina com monitorização e supervisão; no choque muito instável, volume e vasopressor podem começar simultaneamente. Não existe janela de 30–40 minutos durante a qual seja aceitável deixar o paciente hipoperfundido. Acesso periférico adequado pode permitir início enquanto se organiza acesso definitivo, com vigilância frequente e protocolo de extravasamento. A necessidade de cuidado intensivo deve ser comunicada desde o reconhecimento.
Prescrição- Noradrenalina em bomba, com dose inicial exemplificativa de 0,05–0,1 µg/kg/min e titulação a cada poucos minutos conforme pressão e perfusão, por equipe habilitada. Meta inicial usual de PAM em torno de 65 mmHg; individualizar no idoso e conforme resposta. Não atrasar por acesso central ou vaga. Inspecionar continuamente a segurança do acesso periférico e migrar para acesso apropriado se uso prolongado ou necessidade crescente.
- Conferir a quantidade de NORADRENALINA BASE por ampola: apresentação expressa em sal não é automaticamente a mesma massa de base. Exemplo aritmético, se o preparo contém efetivamente 16 mg de base em volume FINAL de 250 mL: concentração de 64 µg/mL. A 0,1 µg/kg/min em 70 kg, a vazão é 0,1 × 70 × 60 / 64 = 6,56 mL/h. Usar diluente compatível e concentração padronizada do serviço; fazer dupla conferência da apresentação, dose, peso e bomba. Nunca aplicar esta vazão a outra concentração.
- Hipotensão ameaçadora à vida: iniciar o vasopressor antes ou durante o volume, sem pré-requisito de 'volume completo' (ILAS)
- Choque em vasopressor: pressão arterial invasiva quando a dose é intermediária ou alta, está subindo ou soma drogas, quando há gasometrias arteriais frequentes ou quando o manguito dá medidas incoerentes; sem ela, manguito em medidas seriadas e com vigilância clínica (ILAS, revisão de 2026)
Hora 1 a 3 — o segundo lactato e a pergunta que salva
Reavaliar desde a primeira intervenção e durante toda a ressuscitação: pressão, perfusão, consciência, respiração, diurese e sinais de sobrecarga. Lactato elevado deve ser acompanhado após tratamento inicial, sem esperar a coleta para agir. Novo bolus depende de necessidade, responsividade e tolerância. Vasoplegia, falência de bomba, fonte persistente e diagnósticos associados exigem respostas diferentes. Choque ou disfunção grave pede discussão de terapia intensiva desde cedo.
Prescrição- Se o lactato inicial estiver elevado, repetir após a intervenção inicial, frequentemente em 2–4 horas, registrando o ponto inicial e a evolução clínica. Definir dosagens seguintes pela tendência e contexto; não restringir nova coleta apenas à deterioração, nem administrar volume para normalizar um resultado residual isolado.
- Reavaliar PA, perfusão periférica, diurese, consciência, respiração e congestão. Quando a decisão sobre novo volume for incerta, usar teste dinâmico adequado: na elevação passiva de pernas, medir mudança de débito ou volume sistólico, por exemplo VTI com técnica apropriada. Elevação da pressão isolada não demonstra responsividade. Variação de pressão de pulso tem limitações em arritmia, respiração espontânea e outras condições. Responsividade não equivale, por si só, a necessidade ou tolerância a volume.
- Choque séptico ou disfunção orgânica grave: solicitar vaga de UTI agora, informando disfunções presentes, lactato com horário, volume já infundido e dose de noradrenalina; enquanto não há vaga, o tratamento integral continua no setor atual — sem rebaixar a meta (ILAS)
Hora 3 a 6 — o checkpoint formal e o choque que não dobra
A persistência do choque exige revisar em paralelo perfusão, funcionamento das infusões, cobertura antimicrobiana, foco passível de intervenção e diagnósticos associados. Obstrução urinária infectada, colangite obstrutiva, abscesso ou empiema podem precisar de drenagem urgente. Resistência, baixo débito, hemorragia, embolia, tamponamento e insuficiência adrenal também podem participar; não atribua toda refratariedade a um único mecanismo. Acione as equipes apropriadas cedo, sem esperar a sexta hora ou estabilidade perfeita para discutir controle de foco.
Prescrição- Hemoglobina < 7 g/dL em paciente com sinais de hipoperfusão: a transfusão de concentrado de hemácias pode ser indicada, salvo situação que peça individualização (ILAS, revisão de 2026 — o documento escreve a unidade errada, ver notas do critério)
- No choque séptico com necessidade persistente de vasopressor, considerar hidrocortisona EV 200 mg/dia, por exemplo 50 mg a cada seis horas, com equipe responsável. Avaliar glicemia, sódio, infecção e evolução da necessidade de vasopressor. Não indicar automaticamente a todo paciente com sepse ou por um episódio isolado de hipotensão.
- Hipoperfusão persistente apesar de volume adequado e pressão corrigida: investigar disfunção cardíaca, preferencialmente com ecocardiografia/POCUS qualificado e integração clínica. Dobutamina pode ser considerada quando há disfunção cardíaca e baixo débito, com vigilância de hipotensão e arritmias; lactato ou oligúria isolados não autorizam sua prescrição. Na vasoplegia com doses crescentes de noradrenalina, a equipe de terapia intensiva pode associar vasopressina conforme protocolo. São decisões distintas: inotrópico para disfunção de bomba e vasopressor adicional para pressão insuficiente.
- Foco passível de controle (abscesso, colangite com obstrução, empiema, pionefrose): acionar a equipe cirúrgica, endoscópica ou intervencionista imediatamente — o roteiro completo do controle do foco está no capítulo de choque séptico e sepse cirúrgica, na apostila de Pré e Pós-operatório (remissão; princípio do controle de foco: ILAS/SSC)
Depois das 6 horas — o que muda de estatuto
Vencida a corrida, o cuidado muda de natureza: da ressuscitação para a manutenção inteligente. Os erros desta fase são mais lentos e igualmente letais — o espectro que ninguém estreita, o soro que ninguém desliga, a glicemia à deriva, o paciente que sobrevive ao choque e se perde na enfermaria por falta de plano. O descalonamento guiado por cultura (48 a 72 horas) e a duração do tratamento são território do capítulo de febre no internado; o que este capítulo fixa é o princípio: sepse tratada não é sepse resolvida — é paciente de alto risco pelos próximos dias, com reavaliação diária de disfunções, e a suspensão do antimicrobiano é obrigatória no dia em que a infecção for afastada.
Prescrição- Culturas com antibiograma em mãos: restringir o espectro, e reavaliar todo dia se o antimicrobiano ainda é necessário (ILAS, revisão de 2026, que restringe a terapia combinada à suspeita de múltiplos agentes e a casos selecionados de multirresistência; roteiro no capítulo de febre no internado)
- Diagnóstico infeccioso afastado: suspender o antimicrobiano imediatamente (RioSaúde)
- Paciente intubado com SDRA: ventilação protetora — volume corrente de 6 mL/kg de peso predito e pressão de platô limitada a 30 cmH2O; sem SDRA, 6 a 8 mL/kg do mesmo peso; FiO2 titulada para evitar hipoxemia e hiperóxia (ILAS, revisão de 2026, que deixou de citar a driving pressure)
- No paciente crítico, iniciar protocolo de insulina quando houver hiperglicemia persistente a partir de 180 mg/dL; alvo usual de 140–180 mg/dL, individualizado. Prever frequência de glicemia, ajuste à nutrição e conduta para hipoglicemia. Uma meta apenas escrita como abaixo de 180 é incompleta.
- Acidose lática: bicarbonato não indicado para melhorar a hemodinâmica nem para reduzir vasopressor — o tratamento da acidose de perfusão é perfusão; na acidose metabólica grave com lesão renal aguda importante, pode ser avaliado (ILAS, revisão de 2026; a de 2018 usava o corte de pH 7,15)
Como saber se está funcionando
O tratamento começa com uma hipótese clínica e a informação disponível, nunca às cegas de propósito. A resposta a cada intervenção ajuda a atualizar o mecanismo e a necessidade de suporte. Reavaliar durante o bolus, após ajuste de vasopressor e diante de qualquer mudança; a revisão formal das primeiras horas complementa esse acompanhamento contínuo.
Reavaliação de verdade tem três propriedades: tem hora (escrita na prescrição, não 'ao longo do plantão'), tem dono (um nome que volta ao leito — se o plantão virar, o dono é passado adiante nominalmente na passagem) e tem critério de ação (para cada parâmetro, o que fazer se não melhorou — decidido antes, não improvisado às 3 da manhã). A pressão arterial sozinha não cumpre nenhuma das três: ela é o parâmetro que o mecanismo deste capítulo mostrou ser o último a cair e o primeiro a enganar. Reavalia-se perfusão, e perfusão se lê em cinco lugares — pele, rim, cérebro, lactato e a própria pressão — mais a pergunta de responsividade antes de cada bolus novo.
Quando a resposta for 'não melhorou', resista ao reflexo de repetir a última intervenção. Não-melhora tem diagnóstico diferencial próprio, e ele tem três ramos: falta perfusão (volume no responsivo, vasopressor no vasoplégico, inotrópico no coração que falha), falta controle da causa (o foco drenável que segue lá — a causa mais esquecida de 'choque refratário') e o diagnóstico está errado (a 'sepse' que era embolia, pancreatite, insuficiência adrenal, tamponamento). Os parâmetros abaixo dizem qual ramo abrir.
Esperado: PAM sustentada em 65 mmHg ou mais, com tendência estável ou de queda da dose de noradrenalina
Se não melhora: PAM abaixo da meta com hipoperfusão: agir imediatamente. Conferir medida, acesso, solução e bomba; titular vasopressor conforme prescrição e reavaliar volume, coração e causas associadas. Acionar ajuda e intensificar monitorização, sem aguardar 30–40 minutos.
Esperado: Queda franca em direção ao clareamento — o paciente que caiu de 40 para 26 mg/dL está respondendo; a normalização completa pode demorar e não é pré-requisito de melhora
Se não melhora: Lactato estável ou subindo com clínica ruim: reexamine perfusão e responsividade, procure o foco não controlado e considere baixo débito (dobutamina se sinais de débito baixo). Lactato residual isolado num paciente clinicamente melhorando NÃO é gatilho automático de mais volume — perseguir o número com litros é dano documentado; trate o paciente, não o exame (ILAS)
Esperado: Retorno em até 3 segundos, com pele aquecendo dos joelhos para as extremidades e livedo regredindo
Se não melhora: Enchimento persistentemente lento pede conferir técnica, temperatura e demais sinais de perfusão. Avaliar responsividade e tolerância antes de novo volume, e pesquisar vasoplegia, baixo débito ou outras causas. O ANDROMEDA-SHOCK apoia estudar essa estratégia, mas sua análise primária não comprovou equivalência entre os grupos.
Esperado: Acima de 0,5 mL/kg/h: pelo menos 35 mL/h num adulto de 70 kg
Se não melhora: Oligúria persistente exige conferir coleta e permeabilidade, avaliar volemia, congestão, pressão, creatinina e possibilidade de obstrução. Não significa automaticamente falta de soro. Diurético pode ser necessário na sobrecarga, mas não trata lesão renal apenas por elevar o volume urinário. Discutir complicações e suporte renal quando indicado.
Esperado: O sensório clareando é dos melhores sinais de perfusão restaurada — o seu Waldemar voltando a reclamar do café é dado clínico
Se não melhora: Confusão que persiste com hemodinâmica corrigida pede diferencial: hipoglicemia (meça), CO2 retendo (gasometria), medicação sedativa somada, ou o delirium da doença crítica que persiste dias — o capítulo de delirium assume daqui. Rebaixamento que APROFUNDA é bandeira vermelha de via aérea: Glasgow caindo obriga a pensar em proteção de via aérea, e rebaixamento do nível de consciência e via aérea desprotegida estão entre as indicações de considerar a intubação (ILAS)
Esperado: Frequência caindo junto com a correção da perfusão e da acidose; musculatura acessória em repouso
Se não melhora: Taquipneia que persiste apesar de PAM e lactato melhorando: gasometria — pode ser acidose ainda compensando, pode ser o pulmão virando SDRA. Frequência subindo com paciente cansando (frases curtas, sudorese, acessória) é falência ventilatória anunciada: não espere a parada para intubar; intubado, ventilação protetora desde o primeiro ajuste (ILAS)
Esperado: Mudança de débito/volume sistólico em teste dinâmico adequado, como elevação passiva de pernas com VTI/medida de fluxo. Pressão isolada não comprova resposta. Considerar limitações do teste, necessidade e tolerância
Se não melhora: Não responsivo = mais volume é só edema: o caminho é vasopressor (vasoplegia), inotrópico (débito) ou foco (controle). A lista nacional aceita qualquer forma disponível de avaliação — da PVC à elevação de pernas — e a regra de ouro é a mais simples: quem não testa responsividade trata o próprio hábito, não o paciente (ILAS)
Onde o erro machuca
O dano: Aguardar confirmação microbiológica pode atrasar perigosamente o tratamento de sepse provável ou choque. Culturas têm tempos variáveis para positivar e ainda exigem interpretação. Estudos observacionais relacionam atraso ao pior prognóstico, sem permitir calcular a chance individual de morte por hora.
Como pegar a tempo: Estimar probabilidade de infecção e gravidade, colher culturas prontamente quando viável e iniciar o antimicrobiano no prazo clínico apropriado. A coleta não pode atrasar o tratamento urgente. Reconhecer que deterioração pode ter causas não infecciosas e reavaliar o diagnóstico.
O dano: A dose que ficou 'em preparo' na farmácia, presa na checagem ou aguardando acesso conta como zero para o paciente — e como 'feito' na sua cabeça. O relatório nacional avisa que o tempo real até a droga é a soma de dois relógios (o do reconhecimento e o da execução), e cada elo que assume que o outro executou estica o segundo relógio em silêncio. O indicador auditado usa o horário de ADMINISTRAÇÃO, e o corpo do paciente também.
Como pegar a tempo: Feche o ciclo pessoalmente: prescreveu, ligou para a farmácia, e em 30 minutos voltou ao leito para ver o frasco pendurado — ou pendurar. 'Foi feito? Que horas?' é pergunta de médico, não de auditor.
O dano: Tanto expansão insuficiente no hipovolêmico quanto volume excessivo no não responsivo podem causar dano. Não existe proporção universal de desfechos atribuível a esse erro. O benefício do próximo bolus precisa ser revisto em cada paciente.
Como pegar a tempo: Todo bolus nasce com a reavaliação agendada: segundo lactato com horário na prescrição, retorno ao leito com hora marcada e dono nomeado, e teste de responsividade antes de qualquer volume adicional.
O dano: O jovem taquicárdico de pressão boa e o idoso 'estável' com lactato de 40 mg/dL sustentam a fachada por horas à custa de vasoconstrição — e desabam de uma vez, tipicamente depois que a equipe já baixou a guarda. Perfusão ruim com PA normal mata com a mesma fisiologia da hipotensão; só mata com menos testemunhas.
Como pegar a tempo: Pesquisar hipoperfusão mesmo com pressão normal: consciência, pele, enchimento, diurese, lactato e tendência. Iniciar suporte de acordo com mecanismo e necessidade. Pressão normal não garante segurança; lactato alto não prescreve automaticamente 30 mL/kg.
O dano: Hipotensão com hipoperfusão precisa ser corrigida prontamente. Esperar acesso central ou vaga pode prolongar o dano; não há período seguro fixo de 30–40 minutos para aguardar.
Como pegar a tempo: PAM < 65 apesar do volume — ou hipotensão ameaçadora desde o início — liga a noradrenalina AGORA, em veia periférica calibrosa, no setor em que o paciente estiver. Central e UTI vêm depois da pressão de perfusão, não antes.
O dano: O erro simétrico ao de ignorá-lo: perseguir a normalização com bolus repetidos num paciente que já melhorou clinicamente. Lactato residual tem causas que volume não trata — clearance hepático lento, descarga adrenérgica — e cada litro extra vai para pulmão, alças e ferida operatória. O protocolo nacional avisa com todas as letras: a meta é a queda do lactato, não necessariamente a normalização, sob risco de intervenções desnecessárias e potencialmente deletérias.
Como pegar a tempo: Interprete o segundo lactato SEMPRE junto do exame de perfusão: caindo com clínica melhorando, vitória — reduza o ritmo; alto com clínica ruim, aja pelos três ramos; alto com clínica boa, reavalie em vez de infundir.
O dano: Atrasar escalonamento pode deixar um paciente sem a intensidade de monitorização e suporte de que necessita. A letalidade de uma coorte de enfermaria não mede o risco individual nem prova o efeito de uma decisão isolada. Reconhecer gravidade cedo e comunicar o que já foi feito ajuda a organizar o cuidado.
Como pegar a tempo: Escale cedo e escale com números: disfunções nomeadas, lactato com horário, dose de noradrenalina, resposta ao volume. E use a estrutura da sua instituição — time de resposta rápida tem gatilho objetivo; o capítulo dos primeiros 5 minutos ensina a chamada em quatro passos.
O que dizer ao paciente e à família
A sepse cria duas conversas difíceis que a faculdade não ensaia com você. A primeira é com a família, e tem uma dificuldade específica: você vai explicar que está tratando com pressa uma coisa da qual não tem certeza — antibiótico na veia, soro correndo, talvez uma droga 'para segurar a pressão' — sem ter ainda nome de germe, resultado de cultura ou diagnóstico fechado. Feita errada, essa conversa soa como 'os médicos não sabem o que ele tem' (pânico) ou como 'é só uma infecçãozinha' (e a piora das próximas horas vira traição). Feita certa, ela planta as duas ideias de que você vai precisar depois: é grave, e estamos à frente do problema.
A segunda conversa é com o sistema — o plantonista da UTI, a regulação, o cirurgião. Aqui a moeda é informação objetiva: quem descreve gravidade com número consegue vaga; quem descreve com adjetivo espera. Antes de qualquer ligação dessas, monte mentalmente a ficha de quatro linhas: quem é o paciente e o que motivou a internação; o que aconteceu e quando (disfunções, com horários); o que já foi feito e a resposta (volume infundido, dose de noradrenalina, lactatos com horário); e o que você está pedindo, com todas as letras. A estrutura de chamada em quatro passos do capítulo dos primeiros 5 minutos vale inteira aqui.
A filha chega e pergunta o que o pai tem, com o soro e o antibiótico já correndo
“Seu pai está com um quadro que chamamos de sepse: uma infecção — tudo indica que na urina — que passou a comprometer o funcionamento do corpo todo. Por isso ele está confuso e com a pressão baixa. É uma situação grave, e é por isso que a senhora está me vendo correr: já colhemos os exames, o antibiótico já está na veia há vinte minutos e estamos repondo líquido para sustentar a pressão. Nas próximas horas vou reavaliá-lo várias vezes e volto a falar com a senhora ainda hoje, mesmo que seja para dizer que está tudo igual.”
Não diga: Não use 'infecção generalizada' sem tradução — a família ouve sentença de morte — nem o oposto minimizador ('é só uma infecção de urina'). Não prometa desfecho ('vai ficar bem'); prometa processo: o que está sendo feito e quando você volta. E não espere ter 'todas as respostas' para aparecer — silêncio de equipe é o maior gerador de conflito da sepse.
A família pergunta, diretamente: 'ele vai morrer?'
“Pode acontecer, e eu não vou esconder isso da senhora: a sepse é uma das condições mais graves que existem, e no caso dele, com a pressão precisando de medicação, o risco é real. O que eu posso garantir é o nosso lado: o tratamento começou cedo, está completo — antibiótico, reposição, remédio para a pressão — e ele está sendo reavaliado de perto, hora a hora. As próximas 24 a 48 horas vão nos dizer muito. Assim que houver qualquer mudança, para melhor ou para pior, a senhora será a primeira a saber.”
Não diga: Os dois extremos mentem: '100% de chance de recuperação' e 'prepare-se para o pior' são chutes vestidos de certeza. Não dê porcentagens de sobrevida individuais — os números que você conhece são de população. E jamais responda essa pergunta em pé no corredor com pressa: sente, nem que por três minutos.
Ligação para o plantonista da UTI pedindo a vaga
“Boa noite, aqui é o interno da clínica, com o Dr. responsável ciente. Tenho um paciente de 76 anos, internado há três dias por insuficiência cardíaca, que abriu quadro de sepse de foco urinário hoje às 7h da manhã. Neste momento: confuso, PAM de 62 apesar de 2.100 mL de cristaloide, noradrenalina iniciada em periférico há 40 minutos e subindo, lactato de 38 caindo para 29 na segunda dosagem, diurese de 20 mL na última hora. Antibiótico — ceftriaxona 2 g — administrado às 7h40. É choque séptico em vasopressor: estou pedindo vaga de UTI com prioridade, e enquanto ela não sai, orientação do que mais posso otimizar aqui embaixo.”
Não diga: Nada de 'paciente ruinzinho', 'meio hipotenso', 'acho que precisa de vocês'. Não esconda dado desfavorável para 'vender' o caso — o intensivista decide certo com informação certa. E não desligue sem duas coisas: a resposta objetiva sobre a vaga e uma orientação de conduta para o intervalo.
Reavaliação da noite: o paciente piorou apesar do tratamento correto, e a família está na porta
“Ele piorou e precisa de apoio mais intenso. Estamos revendo a infecção, os medicamentos, o funcionamento do coração e a possibilidade de algum foco precisar de um procedimento. A evolução pode ser grave mesmo quando começamos o tratamento corretamente, mas essa piora exige agir agora. A equipe de terapia intensiva foi acionada e vamos manter o suporte enquanto organizamos os próximos passos. Vou explicar o que já sabemos, o que falta esclarecer e quando voltaremos a conversar.”
Não diga: Não trate a ida à UTI como derrota escondida — anunciada de surpresa ('ele está sendo levado agora') ela quebra a confiança construída. Não culpe elos do sistema na frente da família ('demoraram com a vaga'). E não suma depois da transferência: a continuidade que você prometeu de manhã vale à noite.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
ILAS: documentos operacionais com redações de volume e prazo que variaram entre versões
Até julho de 2026, o protocolo gerenciado brasileiro mantinha os 30 mL/kg de cristaloide iniciados na primeira hora para hipotensão ou hipoperfusão, com válvulas de escape explícitas: velocidade ajustada no cardiopata e permissão de não infundir integralmente após avaliação de fluido-responsividade, desde que a decisão fosse registrada e a pressão de perfusão garantida com vasopressor. A lógica era de saúde pública: numa rede onde o diagnóstico já chega horas atrasado e a reavaliação hemodinâmica fina nem sempre existe, uma dose-padrão simples, auditável e imediata salva mais vidas do que uma individualização que na prática vira sub-ressuscitação. A revisão de julho de 2026 manteve o início na primeira hora e a exigência de registro, e passou a escrever até 30 mL/kg, a terminar em 3 horas, com velocidade e total decididos pela condição clínica, pela fluido-responsividade e pela fluido-tolerância.
ILAS — Protocolo Clínico, revisão de julho de 2026, que substituiu a de agosto de 2018; Nota Técnica sobre a SSC 2021 (2022)
SSC 2021 e 2026: pelo menos 30 mL/kg nas primeiras 3 horas, como sugestão condicional, com o volume ajustado ao paciente — posição desta apostila, na forma de volume de referência
A diretriz internacional de 2021 rebaixou os 30 mL/kg de recomendação forte para fraca, refletindo a fragilidade da evidência por trás do número fixo e os sinais de dano por sobrecarga em subgrupos (cardiopatas, renais, SDRA). A leitura internacional favorece bolus inicial seguido de reavaliação dinâmica precoce — dar volume enquanto houver prova de responsividade, parar quando ela sumir. A edição de 2026 manteve a sugestão, condicional e com certeza baixa, de pelo menos 30 mL/kg de cristaloide nas primeiras 3 horas, pedindo que o volume inicial considere as características do paciente e o contexto, e acrescentou ao pacote a preocupação com o depois: remoção ativa de fluido terminada a fase de ressuscitação.
Surviving Sepsis Campaign 2026, recomendação 10, lida no original; SSC 2021 (via análise de acesso aberto e Nota Técnica do ILAS)
Usar volume inicial como decisão clínica documentada. A referência de 30 mL/kg não obriga expansão adicional no paciente já perfundido, não responsivo ou congestionado. O risco de subressuscitação também existe: repetir exame e testes apropriados para decidir. O intervalo de três horas é um horizonte de ressuscitação, não uma justificativa para adiar suporte.
Consenso Sepsis-3: qSOFA como sinalizador rápido de risco à beira do leito
O consenso que redefiniu sepse propôs o qSOFA — sensório alterado, frequência respiratória ≥ 22, PAS ≤ 100 — como identificador rápido, sem laboratório, do paciente infectado com maior risco de morrer fora da UTI. A força dele é a especificidade prognóstica: dois de três positivos apontam um paciente que não pode esperar, com validação retrospectiva de boa acurácia para óbito.
Sepsis-3 (Singer et al., JAMA 2016), conforme discutido na revisão de 2018 do protocolo do ILAS
ILAS e SSC: sensibilidade baixa demais para servir de porteiro
O protocolo nacional veta o qSOFA como triagem pela baixa sensibilidade, e na revisão de 2026 registra que a diretriz internacional daquele ano também não o recomendou para esse fim: esperar dois critérios para abrir protocolo deixa passar exatamente a sepse precoce que o rastreio existe para pegar. A SSC 2021 transformou isso em recomendação forte contra o uso isolado, preferindo SIRS, NEWS ou MEWS como rede de captura. A rede pública brasileira seguiu: os protocolos institucionais abrem por SRIS + suspeita ou por disfunção isolada, e alguns declaram em texto que não usam qSOFA.
ILAS — Protocolo Clínico, revisão de julho de 2026; SSC 2021; RioSaúde PTC.DEA.001 (2023)
Na prática a pergunta é 'que papel dou ao qSOFA no meu plantão?', e a resposta cabe numa linha: positivo aciona, negativo não tranquiliza. Use o gatilho de abertura que o SEU serviço definiu (SRIS + suspeita, disfunção isolada, NEWS/MEWS) — abrir protocolo é decisão de sensibilidade. Encontrou qSOFA ≥ 2 em qualquer momento? É um paciente marcado para agora: priorize, reavalie mais cedo, escale mais baixo. O erro real não é usar uma ferramenta ou outra — é usar a negativa de uma ferramenta específica de prognóstico para desacelerar um paciente que outros critérios já apontaram.
Clareamento de lactato como régua dos protocolos gerenciados, na forma da revisão de 2018 do ILAS
Na revisão de 2018, a meta nacional era o clareamento do lactato, com nova dosagem 2 a 4 horas após o início da ressuscitação — um alvo objetivo, auditável e independente de examinador, que funciona como indicador de qualidade em rede. As limitações são conhecidas do próprio protocolo: o lactato sobe por vias que não são hipoperfusão, demora a responder, depende de laboratório com prazo — e perseguir sua normalização à força é dano.
ILAS — Protocolo Clínico, revisão de agosto de 2018, substituída pela de julho de 2026; RioSaúde (segundo lactato em até 4 horas)
Enchimento capilar como alvo: a via latino-americana do ANDROMEDA-SHOCK
O ANDROMEDA-SHOCK comparou estratégias guiadas por perfusão periférica ou lactato em 424 pacientes. O desfecho primário de mortalidade apresentou diferença numérica, mas não atingiu significância convencional na análise primária (p = 0,06). Isso não demonstra equivalência nem prova que as duas estratégias sejam igualmente eficazes. O exame periférico é um componente útil da avaliação, interpretado com lactato e outros dados, sem substituir o conjunto por uma única régua.
ANDROMEDA-SHOCK (Hernández et al., JAMA 2019); SSC 2021 e 2026
Esta é a falsa rivalidade mais útil do capítulo: na beira do leito os dois se somam em escalas de tempo diferentes — e a revisão de julho de 2026 do protocolo do ILAS passou a escrever essa soma, mandando medir o enchimento capilar em todo paciente com suspeita de sepse, ressuscitar com mais de 3 segundos mesmo com lactato normal, reavaliar o capilar a cada 30 minutos e colher novo lactato depois da intervenção inicial, com meta de queda e não de normalização. Esta apostila adota as duas réguas, cada uma na sua escala. O capilar é o seu guia de minuto a minuto — grátis, repetível de meia em meia hora, imediato após cada intervenção; o lactato é a prova documental de 2 em 2 a 4 em 4 horas, que confirma a tendência e conversa com UTI e auditoria. Discordância entre eles é informação, não ruído: capilar normal com lactato teimando alto num paciente que melhora sugere lactato de causa não-perfusional — reavalie antes de infundir; capilar ruim com lactato 'ainda não colhido' não espera papel para agir. Onde o laboratório demora ou não existe, a decisão está tomada por você: o cronômetro na polpa digital é o alvo disponível.
Indicador nacional: 1 hora a partir do reconhecimento para quem tem disfunção
Protocolos gerenciados usam indicadores para reduzir atrasos no antimicrobiano indicado. O alvo de uma hora deve ser entendido em contexto de sepse reconhecida e gravidade, com suporte em paralelo. Estudos observacionais de atraso não permitem dizer que cada paciente acumula quatro pontos percentuais de mortalidade por hora. Auditoria deve registrar o reconhecimento real e também o uso inadequado de antimicrobianos.
ILAS — Nota Técnica sobre a SSC 2021 (2022) e Relatório Nacional 2023; Seymour et al., NEJM 2017
Probabilidade clínica e choque orientam a urgência do antimicrobiano
A diretriz internacional estratificou: com choque, ou com sepse definida/provável, antimicrobiano imediato, idealmente em 1 hora; sem choque e com sepse apenas possível, investigação rápida e droga em até 3 horas se a suspeita persistir; probabilidade baixa sem choque admite observar sem tratar. A motivação é stewardship e precisão diagnóstica: a meta única de 1 hora para todo suspeito empurra antibiótico de amplo espectro para febres que não são sepse, com custo de resistência, toxicidade e diagnósticos alternativos atropelados.
Surviving Sepsis Campaign 2026 — recomendações de início de antimicrobianos
A distinção é choque e probabilidade de sepse. Choque possível/provável/definido e sepse provável/definida sem choque recebem tratamento imediato, idealmente em uma hora. Sepse apenas possível sem choque permite investigação rápida, com antimicrobiano até três horas se a preocupação persistir. Baixa probabilidade de infecção sem choque permite vigilância estreita sem antimicrobiano. Não reduzir essa decisão a disfunção presente = uma hora, pois a causa da disfunção pode estar em dúvida.
O raciocínio, em voz alta
Pronto-socorro, 22h15. Dona Marlene, 68 anos, diabética tipo 2, 80 kg, trazida pela vizinha porque 'não está conversando direito'. Há três dias com ardência para urinar e urina com cheiro forte, 'tratando com chá'. Hoje à tarde parou de responder com nexo. Na triagem: PA 84×50 mmHg, FC 116, FR 30, temperatura axilar 37,1 °C, saturação 94% em ar ambiente, glicemia capilar 218 mg/dL. Sonolenta, desperta ao chamado, desorientada no tempo. Extremidades frias, enchimento capilar de 5 segundos.
O que penso na porta
Marlene tem provável infecção urinária com hipotensão, alteração do sensório e taquipneia. É uma emergência: avaliar ABCDE, glicemia, oxigenação, perfusão e diagnósticos associados, acionando o responsável. Glicemia de 218 mg/dL não explica sozinha o quadro nem exclui acidose metabólica; examinar e colher os dados necessários. A alta probabilidade de sepse com choque justifica culturas sem atraso, antimicrobiano e ressuscitação imediata.
O que disparo nos primeiros 15 minutos
Distribuir tarefas para acesso, culturas, lactato e painel de disfunções, enquanto o médico prescreve o antimicrobiano conforme foco urinário, alergias, exposições e resistência local. Confirmar que a infusão apropriada começou. Iniciar cristaloide em etapas, observando resposta de pressão e perfusão e sinais respiratórios; para 80 kg, 30 mL/kg correspondem a 2.400 mL, referência que só se completa se a avaliação sustentar benefício e tolerância. Na hipotensão persistente, iniciar noradrenalina em paralelo com supervisão. Registrar horários e avaliar necessidade de cuidado intensivo.
Primeira resposta, 22h50
O lactato inicial de 42 mg/dL equivale a aproximadamente 4,7 mmol/L e reforça a gravidade junto do enchimento capilar lento e da hipotensão. Não é uma medida direta do déficit de volume. Se a pressão continua baixa, não aguardar o fim das bolsas para considerar noradrenalina. Se há melhora sustentada, ajustar o ritmo e acompanhar. Reavaliar também sinais de congestão, oxigenação e foco urinário obstrutivo conforme a apresentação.
O que penso enquanto o volume termina
O passo seguinte depende do exame durante a ressuscitação. Pressão e perfusão em recuperação permitem reduzir a expansão; hipotensão persistente pede vasopressor e revisão do mecanismo. Perfusão ruim com pressão recuperada requer investigar baixo débito, disfunção microcirculatória e outros fatores. Novo bolus só quando houver necessidade e expectativa de benefício com tolerância. Aguardar o total de 2.400 mL não é requisito para nenhuma dessas decisões.
A prova das horas, 1h10
Às 1h10, Marlene está com PA 108×64 sem vasopressor, FC 92, FR 22, desperta e orientada, enchimento capilar de dois segundos e sem novos estertores. A diurese de 80 mL em duas horas é 40 mL/h, exatamente 0,5 mL/kg/h para 80 kg. O lactato caiu de 42 para 27 mg/dL, cerca de 36%. O conjunto sugere resposta, sem exigir mais volume para normalizar imediatamente o lactato. Registrar quanto foi efetivamente infundido e a tolerância; o total de 2.400 mL só seria apropriado se sustentado pela avaliação seriada.
Fechamento — e o que teria mudado tudo
Após a melhora, manter acompanhamento e ajustar sua intensidade à estabilidade, com parâmetros, responsáveis e critérios de chamar ajuda. Definir nova dosagem de lactato pela tendência e contexto; acompanhar diurese, função renal, culturas e possível obstrução urinária. Rever antimicrobiano por foco e resultados, sem supor que toda cultura negativa exclua infecção. A lição do caso é reconhecer cedo e executar medidas em paralelo, sem calcular mortalidade individual por hora nem chamar o quadro de fácil por ter respondido.
Faça você
Enfermaria, 16h30. Seu Osmar, 58 anos, 65 kg, internado há um dia por pneumonia comunitária em tratamento com ceftriaxona + azitromicina. A enfermeira te chama: piorou da tarde para cá. Você encontra: sonolento, FR 32, saturação 89% em ar ambiente, PA 86×52 mmHg (basal 130×80), FC 120, temperatura axilar 38,4 °C, extremidades frias, capilar de 4 segundos, sem diurese anotada desde as 13h. Você abre o protocolo às 16h35, coloca O2 por máscara, e dispara o pacote.
Enquadramento
Osmar apresenta deterioração grave em tratamento de pneumonia, com hipotensão, hipoxemia e sonolência. Sepse pulmonar com choque é provável, mas avaliar também causas associadas, como edema pulmonar, embolia e efeito de medicamentos. Acionar o médico responsável/time, avaliar ABCDE e glicemia e iniciar suporte respiratório e circulatório imediatamente. Registrar o reconhecimento, sem aguardar exames para a estabilização.
Colheita
Kit completo com lactato despachado (resultado em 30 minutos), DUAS novas hemoculturas de sítios distintos — paciente em antibiótico ainda colhe cultura: positividade menor não é positividade zero, e a amostra de agora é a que vai explicar a falha —, e gasometria arterial pela dessaturação. RX de tórax no leito procurando o derrame que muda conduta.
Tratamento imediato
Reavaliar o antimicrobiano já recebido: doses, horários, infusão, risco de resistência e necessidade de ampliar a cobertura, com decisão rápida pela gravidade. Administrar cristaloide se indicado em etapas com reavaliação; 30 mL/kg seriam 1.950 mL para 65 kg, mas não são obrigatórios sem avaliar resposta e tolerância. Se a hipotensão com hipoperfusão persistir, iniciar noradrenalina monitorizada precocemente, sem esperar completar o volume. Procurar foco que exija intervenção e solicitar cuidado intensivo.
Prescrição da reavaliação — complete você
— sua vez —
Ver como fecharíamos
A prescrição da reavaliação inclui responsáveis, parâmetros e critérios de ação. Durante instabilidade, pressão a cada poucos minutos ou continuamente, ECG, oximetria e acompanhamento junto ao leito; observar consciência, perfusão periférica e esforço respiratório após cada intervenção. Conferir administração do antimicrobiano, dose de vasopressor e volume efetivamente infundido. Se lactato elevado, programar nova coleta após tratamento inicial, em geral em 2–4 horas, sem esperar esse resultado para corrigir deterioração. Quantificar diurese e verificar dispositivos. Nova expansão depende de necessidade, responsividade e tolerância; falta de melhora exige rever diagnóstico e foco, não apenas repetir soro. Chamar UTI desde já e manter suporte no setor atual. Na transferência, entregar horários, unidades, tendências, tratamentos, resposta e pendências com responsável definido.
A síndrome sugere pielonefrite com repercussão sistêmica e lactato de aproximadamente 4,3 mmol/L. Pressão normal não elimina gravidade. Avaliar ABCDE e perfusão, colher culturas sem atrasar antimicrobiano e iniciar reposição quando indicada, com reavaliação. O lactato isolado não define choque séptico nem uma dose obrigatória de soro. Noradrenalina é guiada pela necessidade de pressão/perfusão, e não apenas pelo lactato. Imagem pode identificar obstrução ou coleção, mas não justifica adiar medidas urgentes. Repetir lactato após a intervenção e acompanhar a resposta clínica.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Discuta com o supervisor dois pacientes: um com choque e infecção provável e outro sem choque com causa ainda incerta. Explique prioridades, escolha antimicrobiana, volume e monitorização, e quais dados fariam mudar sua hipótese.
Em 30 dias
Revise um atendimento completo com horários reais e resposta clínica. Identifique um atraso evitável, uma decisão que preveniu sobrecarga e uma oportunidade de descalonamento. Elabore plano de seguimento funcional e de revisão das medicações após a alta.
Agora atenda
Agora atenda: um homem de 79 anos internado para investigar anemia está sonolento, taquipneico e sem febre. Antes de decidir que é sepse, apresente ao supervisor sua avaliação ABCDE, glicemia, sinais de perfusão e hipóteses principais. Diga quais achados tornam infecção provável, quais alternativas precisam de avaliação simultânea e que suporte já é necessário. Defina quem fará cada tarefa, a indicação e urgência do antimicrobiano, como decidirá sobre volume e vasopressor e quando reavaliará a resposta. Explique o que mudaria se a probabilidade de infecção fosse baixa e não houvesse choque.
