Outras EspecialidadesMedicina Preventiva e Saúde Coletiva

Falta gente na conta

Territorialização, adscrição de clientela e diagnóstico de saúde comunitária

Como se conhece um território e o que se faz com o que se descobre: a microárea, o cadastro e a caminhada; por que quem não aparece é achado e não ausência de doença; e o que um interno consegue mudar na agenda em seis semanas.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Política Nacional de Atenção Básica. Anexo XXII do Anexo I da Portaria de Consolidação GM/MS nº 2, de 28 de setembro de 2017 (origem: Portaria GM/MS nº 2.436, de 21 de setembro de 2017). Diário Oficial da União, nº 190, 3 de outubro de 2017, Seção 1.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. e-SUS APS: Ficha de Cadastro Individual, versão 5.3 (rodapé CI/e-SUS AB v.5.3). Formulário oficial do Sistema e-SUS APS, publicado entre as fichas vigentes da Coleta de Dados Simplificada.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. e-SUS APS: Ficha de Cadastro Domiciliar e Territorial, versão 3.2 (rodapé CD/e-SUS AB v.3.2). Formulário oficial do Sistema e-SUS APS, entre as fichas vigentes da Coleta de Dados Simplificada.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. e-SUS APS: Ficha de Visita Domiciliar e Territorial, versão 5.3 (rodapé VD/e-SUS AB v.5.3). Formulário oficial do Sistema e-SUS APS, entre as fichas vigentes da Coleta de Dados Simplificada.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Departamento de Estratégias e Políticas de Saúde Comunitária. Nota Técnica nº 30/2025-CGESCO/DESCO/SAPS/MS: componente de vínculo e acompanhamento territorial. Processo SEI nº 25000.178857/2024-41, documento nº 0049700833.

01

Responda antes de ler

A recepção de uma unidade marca como fora de área todos os moradores de uma rua recém-ocupada, porque o nome do logradouro não consta na base do sistema. Essas pessoas são atendidas normalmente e têm prontuário. O interno revisa a lista e confirma, no mapa, que a rua está dentro do perímetro da equipe. Qual é a conduta correta?

02

O paciente que você vai ver

Sete e meia de uma segunda-feira, unidade básica de saúde do Alto Serrano, num município de 238 mil habitantes. Você está na segunda das seis semanas do estágio de saúde da família e já sabe onde ficam as coisas: a sala de vacina, o armário das fitas de glicemia, a fila que se forma antes de a porta abrir. O que você ainda não sabe é para quem esta unidade trabalha, e é isso que a manhã vai começar a mostrar.

A Dra. Carmosina Parintins, médica de família da equipe 2, senta ao seu lado antes da primeira consulta e faz um pedido que não é sobre paciente nenhum. Daqui a três semanas há reunião de planejamento com as duas equipes e com a gerência, e ela quer levar uma resposta a uma pergunta simples: quanta gente mora na microárea 4. Não quantas estão cadastradas — quantas moram. Ela diz que a diferença entre as duas respostas é o assunto da reunião, e passa a manhã inteira sem explicar por quê.

O que existe para responder cabe em três lugares. Na parede do corredor há um mapa impresso do bairro, com as seis microáreas da equipe pintadas em seis cores; no canto inferior direito, a lápis, alguém escreveu o ano em que ele foi feito, e o ano é 2019. Na tela do computador da sala da enfermagem há um relatório do sistema que diz, em letras grandes, 1.147 pessoas cadastradas na equipe 2. E há uma pasta sanfonada em cima do armário, com fichas de papel que ninguém digitou porque a digitadora saiu de licença em abril.

A microárea 4 não tem agente comunitário desde março. Remédios Pirapora se aposentou depois de dezenove anos na mesma rua e não foi substituída, e desde então a área dela é coberta, nas palavras da enfermeira Salete Sumidouro, quando dá. Quem dá é Teodolinda Imbituba, agente da microárea 3, que atravessa a avenida quando sobra tempo e que, quando você pergunta quantas casas ela consegue visitar por lá num mês, responde com um número honesto e pequeno.

Do outro lado da linha que o mapa de 2019 desenha como limite da microárea 4, há uma rua que o mapa não tem. Ela se chama Rua do Pinhal na boca do povo e não tem placa; as casas não têm número, têm ponto de referência — depois da igreja, no fundo do terreno da dona que vende bolo. Ninguém sabe dizer quantas são. Ariadne Uruaçu, agente de combate às endemias, sabe: ela passa por lá de dois em dois meses no ciclo do vetor e tem, no aplicativo dela, um croqui com cada imóvel marcado. É a única pessoa daquela unidade que tem um desenho atualizado do território, e o motivo não é vocação: manter mapas e croquis atualizados é atribuição escrita da categoria dela, e não da equipe de saúde da família.

Duas pessoas atravessam a manhã e vão atravessar o capítulo. Acrísio Cravinhos tem 74 anos, mora na microárea 4, teve um acidente vascular cerebral há três anos e não sai de casa; o último registro de visita no prontuário dele é de onze meses atrás, assinado pela agente que se aposentou. Iluminata Canabrava tem 26 anos, chegou à Rua do Pinhal há oito meses, foi atendida duas vezes na unidade e está cadastrada — a recepcionista fez o que sabia fazer: como a rua não aparecia na lista de logradouros do sistema, marcou o quadrinho que a própria ficha oferece para esse caso, o que se chama Fora de Área.

Repare no que acabou de acontecer com a Iluminata, porque é a chave da manhã. Ela existe no sistema, tem prontuário, foi atendida e será atendida de novo. E, pela regra de contagem que hoje define quanta gente uma equipe conhece, ela não conta: cadastro com o registro Fora de Área é expressamente excluído do cálculo. Ela não é invisível ao serviço; é invisível ao número que descreve o serviço. As duas coisas se parecem tanto que ninguém percebe a diferença até precisar de uma conta.

É por isso que 1.147 não responde à pergunta da Dra. Carmosina. Esse número não é a população da área: é a soma de quem tem cadastro que o sistema aceitou, dentro do prazo em que o sistema o considera fresco, sem os que estão marcados como fora de área, sem os que foram registrados às pressas no balcão e sem os que mudaram de território e ninguém deu baixa. Cada uma dessas exclusões tem uma razão administrativa defensável. Somadas, produzem um número que se parece com uma população e não é.

Este capítulo é sobre o método de descobrir a diferença, e sobre o que se faz com ela. Como se organiza uma unidade básica em torno de uma lista de gente — o que é território, o que é adscrição, quem faz o quê na equipe, como funciona o acolhimento — é o capítulo Quem é seu, mesmo quando não está na sala, na posição 7 desta apostila, e nada disso se repete aqui. Como se calcula um coeficiente e o que é um denominador é o capítulo Quem tem, e quem passou a ter, na posição 5. De onde vem o dado de cada sistema de informação é A ficha que ninguém devolve, na posição 9. O que a vida da pessoa faz com o plano que você escreveu é Não aderiu, na posição 11. Genograma e ecomapa são do capítulo A queixa é o passaporte, da apostila de Medicina de Família e Comunidade. Sobra para este capítulo o trabalho que ninguém tem por atribuição exclusiva e que, mesmo assim, é a base de todos eles: sair da unidade, olhar o território, contar quem mora, decidir por quem começar e voltar com uma lista que a equipe possa usar.

03

Quem adoece disso

A epidemiologia deste capítulo não é de doença nem de serviço: é do conhecimento. A pergunta que ela responde é quanto do território a equipe sabe, e a resposta depende inteiramente de uma régua de contagem que quase nenhum interno já leu. Vale ler, porque ela decide o que aparece nas listas com que você vai trabalhar — e porque, ao contrário do que se imagina, a régua não descreve a população: descreve o cadastro.

A régua tem quatro palavras, e as quatro estão definidas numa nota técnica de setembro de 2025. Pessoa cadastrada é quem tem cadastro individual e cumpre integralmente os requisitos de validação do sistema — e a mesma nota avisa que o cadastro rápido, aquele simplificado que se faz no módulo do cidadão para conseguir atender alguém agora, não vale para essa contagem. Pessoa com cadastro completo é quem tem os dois cadastros, o individual e o domiciliar e territorial, ambos válidos. Pessoa com cadastro atualizado é quem teve informação incluída ou alterada nos últimos 24 meses. E pessoa acompanhada é quem teve mais de um contato assistencial em 12 meses, com pelo menos um deles sendo uma prática de cuidado.

Comece pelo relógio, porque é o que mais surpreende. Vinte e quatro meses. Um cadastro feito num mutirão de março de 2024 e nunca mais tocado deixa de ser considerado atualizado em março de 2026, sem que ninguém tenha se mudado, adoecido ou morrido — a pessoa continua lá, o dado continua no banco, e o relógio simplesmente venceu. A nota técnica explica de onde tirou o prazo: da regra de atualização do Cadastro Único para Programas Sociais, para que as duas políticas conversem. É uma escolha razoável e tem uma consequência prática que ninguém avisa à equipe: metade do trabalho de cadastro de uma unidade é recadastro, e recadastro não parece trabalho novo para quem o faz.

O segundo detalhe da régua é um peso, e ele muda a ordem das tarefas. Quem tem só o cadastro individual entra na conta multiplicado por 0,75; quem tem o individual mais o domiciliar e territorial entra multiplicado por 1,5. É exatamente o dobro. E há uma regra de queda: se o cadastro domiciliar não foi incluído nem atualizado nos mesmos 24 meses, a pessoa volta ao fator de 0,75, ainda que o cadastro individual dela esteja em dia. Traduzindo para a tarde de trabalho: cadastrar pessoas sem cadastrar casas rende metade. E, como o cadastro domiciliar é o que carrega saneamento, tipo de imóvel, número de moradores e número de cômodos, é também o único que descreve o território — de modo que a régua financeira e a régua sanitária, neste ponto, pedem a mesma coisa.

O terceiro detalhe é a lista de quem está deliberadamente fora da conta, e é a mais importante para este capítulo. A nota técnica exclui do cálculo, com essas palavras, os usuários cujo cadastro individual contenha o registro Fora de Área e os que contenham o registro Mudança de território. E exclui as pessoas identificadas apenas por cadastro rápido, por atendimento individual ou por outras formas de entrada no sistema. Guarde a estranheza: a ficha oficial de cadastro individual oferece um quadrinho impresso para Fora de Área, ao lado do campo da microárea, e a norma que conta manda ignorar quem for marcado nele. O sistema pede que você registre a pessoa e depois não a conta.

O quarto detalhe é o que significa acompanhar. Não basta um contato: são precisos mais de um em 12 meses, e a combinação admitida é prática de cuidado com procedimento, ou prática de cuidado com outra prática de cuidado. A nota técnica de 2025 lista, entre as práticas de cuidado, o atendimento individual, o odontológico, a atividade coletiva, os marcadores de consumo alimentar e a visita domiciliar e territorial. O material que o Ministério escreveu no mesmo ano para as equipes lerem usa outra palavra na mesma frase e produz outra conclusão sobre a visita domiciliar; a divergência está no bloco próprio deste capítulo, e ela decide se o seu Acrísio, que não sai de casa, é uma pessoa acompanhada ou não.

Junte as quatro palavras e você tem a anatomia do número que apareceu na tela da enfermagem. Ele é uma contagem ponderada de cadastros válidos, dentro do prazo, dos quais se subtraíram categorias inteiras de gente que existe. A distância entre esse número e a população que dorme naquelas ruas tem nome próprio em cada pedaço — cadastro vencido, cadastro incompleto, cadastro rápido, fora de área, mudança de território não registrada, casa nunca visitada — e cada nome desses aponta para uma tarefa diferente. Diagnosticar a saúde de uma comunidade começa por decompor essa distância, e não por sair perguntando o que as pessoas têm.

Falta dizer o que a régua faz com o resultado, porque é onde ela decide o que a equipe vai ouvir na reunião. As duas metades do componente têm pesos diferentes: a dimensão do cadastro vale 30% e a do acompanhamento vale 70%. Cada uma é convertida num escore de quatro degraus — ótimo, bom, suficiente e regular — e os degraus da dimensão do cadastro são publicados assim: acima de 85, de 65 a 84,9, de 45 a 64,9 e abaixo de 45. Recalculei as faixas em Python: um resultado de exatamente 85,0 não pertence a nenhuma delas. O achado está detalhado nas notas do bloco de critério, com a conta.

Uma última medida, e ela é sobre o que a política pede e não define. A palavra microárea aparece uma única vez no texto da Política Nacional de Atenção Básica que li — não numa definição, mas numa alínea que trata da Estratégia de Agentes Comunitários de Saúde, para dizer que cada agente deve ter uma microárea cuja população não ultrapasse 750 pessoas. A mesma política manda a equipe fazer territorialização, mapeamento, diagnóstico demográfico, social, cultural, ambiental, epidemiológico e sanitário do território, diagnóstico situacional e planejamento local — e não descreve nenhum método, não nomeia nenhum instrumento e não fixa nenhuma periodicidade. Enquanto isso, microárea é campo obrigatório em três fichas do sistema de informação. A unidade de trabalho de todo este capítulo é obrigatória no formulário e indefinida na política.

Duas coisas ficam de fora, e é melhor dizê-las agora. A primeira é qualquer medida de quanto do país tem equipe de saúde da família: proporção, contagem de equipes ou evolução no tempo não aparecem aqui, porque a fonte primária delas não foi aberta. A segunda é quanto os municípios de fato recebem por essas classificações. O dinheiro da atenção primária é assunto do capítulo da Política Nacional de Atenção Básica, na posição 7, que abriu as portarias e as auditou; aqui as regras de contagem entram porque decidem quem aparece nas listas, e não porque decidem o repasse.

04

Por que acontece o que acontece

A confusão que este capítulo desfaz cabe numa frase: território não é endereço. A política define território como unidade geográfica única, de construção descentralizada do sistema, destinada a dinamizar a ação em saúde pública e o estudo social, econômico, epidemiológico, assistencial, cultural e identitário daquele espaço. Repare que a definição é de um espaço e do que se estuda dentro dele, não de uma lista de moradores. E, algumas linhas adiante, ao descrever a responsabilização sanitária, o mesmo texto diz de quem a equipe responde ali: da população com residência fixa, dos itinerantes — e a política enumera população em situação de rua, ciganos, circenses, andarilhos, acampados, assentados — e mesmo dos trabalhadores da área. Quem trabalha na obra da esquina e dorme em outro município está, pela letra da política, dentro do território de alguém.

Se o território é um espaço, ele se conhece por varredura, e a unidade da varredura é a microárea. Uma microárea é o pedaço que uma pessoa consegue percorrer a pé, casa a casa, com regularidade. Não é uma divisão administrativa nem um recorte estatístico: é uma unidade de trabalho definida pelo alcance de uma pessoa. Daí decorrem duas propriedades que só existem se alguém as garantir. As microáreas de uma equipe precisam cobrir o território inteiro, sem buraco entre elas — buraco é gente que nenhum agente visita. E precisam não se sobrepor — sobreposição é casa visitada duas vezes enquanto outra não é visitada nenhuma. Nada no sistema de informação verifica nem uma coisa nem outra: microárea é um número que alguém digita.

Abaixo da microárea, o instrumento de varredura é a ficha de cadastro domiciliar e territorial, e ela é mais larga do que o nome sugere. O campo obrigatório dela não é domicílio: é tipo de imóvel, e a lista impressa na própria folha tem quatorze opções, das quais só a primeira é domicílio. As outras são comércio, terreno baldio, ponto estratégico, escola, creche, abrigo, instituição de longa permanência para idosos, unidade prisional, unidade de medida socioeducativa, delegacia, estabelecimento religioso e outros. Quando o imóvel não é domicílio, o sistema desliga os blocos de condições de moradia, animais e famílias, e mantém o registro territorial. Ou seja: existe um instrumento nacional para cadastrar o território físico inteiro, e não apenas as casas — e ele é usado, na maior parte das unidades, como se fosse um formulário de moradores.

Dentro do domicílio, o cadastro separa três coisas que a conversa junta. O domicílio é o imóvel. A família, ou núcleo familiar, é a unidade que divide despesa e renda dentro dele, e um mesmo domicílio pode conter mais de uma; cada uma tem seu responsável familiar, definido pelos próprios moradores e não pela equipe, e ninguém pode ser responsável familiar em dois domicílios ao mesmo tempo. E a pessoa é a unidade do cadastro individual. Essa separação não é burocrática: é ela que permite dizer que numa casa moram nove pessoas em três cômodos e em duas famílias, que é uma frase de risco, e não apenas que ali moram nove pessoas, que é uma frase de recenseamento.

Agora o ponto que dá nome ao capítulo. Uma equipe que conhece a própria população apenas por quem aparece na unidade tem uma amostra, e uma amostra enviesada pelo mesmo mecanismo, todos os dias: quem chega é quem pode chegar. Não chega quem trabalha no horário em que a unidade abre, quem depende de alguém para sair de casa, quem tem vergonha, quem tem medo, quem já foi mal atendido, quem não fala a língua, quem mora depois de onde o ônibus para e quem simplesmente não sabe que aquela unidade é a dele. Nenhuma dessas pessoas é saudável por não aparecer. A ausência delas na lista de atendimentos não é informação sobre a saúde delas: é informação sobre o acesso. Por isso não aparecer é achado — um achado sobre o serviço, que se investiga como se investiga qualquer outro.

A única correção sistemática desse viés é ir até onde a pessoa está, e o instrumento é a visita domiciliar. Ela não é apenas um ato assistencial: é o método amostral do território, porque percorre casas independentemente de alguém ter procurado a unidade. Isso muda a leitura de qualquer número que venha da visita. Uma microárea sem nenhum acamado registrado não é uma microárea sem acamados: é uma microárea em que as visitas pararam. Uma equipe cuja lista de crianças fora da puericultura está vazia não descobriu que todas estão em dia; descobriu que ninguém foi ver. Numa microárea sem agente há meses, como a 4 do Alto Serrano, todo indicador que dependa de busca ativa melhora sozinho — e a melhora é o próprio defeito.

A caminhada pelo território responde ao que nenhuma ficha pergunta, porque as fichas olham para dentro das casas e o território está entre elas. A política lista os elementos da cartografia — ambientais, históricos, demográficos, geográficos, econômicos, sanitários, sociais, culturais — e para aí; não diz como se faz. O que se procura a pé é a barreira que o mapa não mostra: a avenida que ninguém atravessa a pé com um idoso, o córrego que separa duas quadras do mesmo quarteirão, o muro do condomínio, a linha de trem, o trecho de rua sem iluminação, o horário em que o ônibus deixa de passar. E se procura o equipamento coletivo, que é onde a população está quando não está em casa: escola, creche, igreja, mercado, ponto de ônibus, borracharia, a casa de repouso que ninguém sabia que existia. Há uma assimetria curiosa aqui: manter atualizados os mapas, os croquis e o reconhecimento geográfico do território é atribuição escrita do agente de combate às endemias, e não da equipe de saúde da família, cuja atribuição comum é participar do processo de territorialização e mapeamento. A mesma política recomenda que as duas equipes trabalhem sobre um território único. Na prática, isso significa que o mapa atualizado quase sempre existe — na mão de outra pessoa, no mesmo prédio.

Falta desfazer a confusão de vocabulário que atrapalha a última etapa. Três coisas diferentes se chamam risco na atenção primária. A classificação de risco do acolhimento é sobre a pessoa que chegou hoje e decide a saída dela nesta manhã; é assunto do capítulo da posição 7. A estratificação de risco é sobre o indivíduo com condição crônica e decide a intensidade do seguimento dele ao longo dos anos; é do capítulo da posição 7 e dos capítulos clínicos de cada doença. A classificação de risco familiar é sobre a família como unidade e serve para uma pergunta só: por qual casa a equipe começa. Essa terceira não tem dono em nenhum capítulo deste nível, e este capítulo a assume, com o instrumento, a aritmética e o defeito que ele tem. Priorizar visita não é atenção domiciliar: quem é elegível para atenção domiciliar, quem vai e com que frequência é assunto que este nível ainda não tem, e este capítulo também não o assume — registro a lacuna em vez de mandar o leitor a um capítulo que não existe.

Vista aérea baixa de uma quadra dividida em duas metades por um muro contínuo: à direita, casas térreas alinhadas em rua asfaltada reta; à esquerda, casas autoconstruídas de tamanhos irregulares, lajes com caixas d'água e becos estreitos de terra batida que não seguem o alinhamento da rua.
As duas partes da quadra representam condições diferentes de moradia e acesso. Territorializar exige reconhecer também domicílios sem endereço formal, atualizar o cadastro e organizar busca ativa conforme necessidades. A ausência de numeração não exclui pessoas da responsabilidade sanitária.
05

Como se apresenta de verdade

O território não chega ao interno em forma de mapa. Chega em seis situações banais, e em todas a pergunta é a mesma: o que este número, esta ausência ou este quadrinho marcado está escondendo. Cada situação abaixo é lida em três camadas: o que aparece na sua frente, a engrenagem do método que aquilo aciona, e a linha que sai da sua mão.

Competência ao final deste capítulo. Estimar população e risco do território com dados, campo e proteção de informações. No internato, demonstre o raciocínio e a execução supervisionada: o que verificar, o que fazer agora, quando chamar ajuda e como garantir continuidade.

O número que a tela mostra

A enfermeira abre o relatório e aponta: 1.147 pessoas cadastradas na equipe 2. O número é grande, redondo e vem de um sistema oficial, o que lhe dá uma autoridade que ele não merece. A tentação é usá-lo como denominador da manhã: dizer que a cobertura vacinal é tantos por cento de 1.147, que a prevalência de hipertensão é tantos por cento de 1.147.

A peça em jogo é a diferença entre população e cadastro. Aquele número não conta quem está marcado como fora de área, quem foi registrado por cadastro rápido no balcão, quem teve mudança de território anotada e quem tem cadastro que passou de 24 meses sem toque. Cada uma dessas exclusões é uma regra escrita, e todas juntas produzem um número menor que a população — de quanto, ninguém sabe sem ir olhar.

O que muda na sua conduta é o verbo. Você para de dizer que a equipe tem 1.147 pessoas e passa a dizer que a equipe tem 1.147 cadastros que o sistema aceitou. São frases diferentes e a segunda é verdadeira. Como se escolhe e se defende um denominador é o capítulo Quem tem, e quem passou a ter, na posição 5 desta apostila. Este capítulo fica com a pergunta anterior: por quais subtrações, todas com nome, este denominador específico foi construído.

O que se escreve: peça o relatório com as três quebras que o sistema oferece — por microárea, por tipo de cadastro (individual apenas, ou individual mais domiciliar) e por data da última atualização. Anote os três totais numa folha e leve à reunião. Um número global não é pauta; três números que não fecham entre si são.

A microárea sem agente

A microárea 4 está sem agente comunitário desde março. Ninguém esconde isso — está dito no primeiro dia, com naturalidade, como se fosse uma vaga de escala. E, olhando os indicadores da equipe, nada piorou: as listas de busca ativa daquela área não cresceram, o número de acamados registrados não subiu, as faltas ao pré-natal não aumentaram.

A peça em jogo é o viés da fonte. Praticamente todo indicador de território que a unidade produz depende de alguém ter ido ver. Sem agente, param de nascer os registros que geram as listas — e a curva fica bonita justamente porque o instrumento de medida foi desligado. É o oposto do que a intuição diz: numa microárea abandonada, os indicadores de busca ativa melhoram.

O que muda na sua conduta é o que você faz com a estabilidade. Estabilidade de indicador em área sem agente é sinal de alarme, não de tranquilidade. A pergunta correta na reunião não é por que a microárea 4 vai bem; é quantos registros de visita a microárea 4 gerou nos últimos seis meses comparada com as outras cinco, e o número esperado é próximo de zero.

O que se escreve: uma linha, com número. Microárea 4, sem agente desde março; registros de visita domiciliar no período, tantos, contra tantos da microárea 3 no mesmo período. Isso é comparação interna, feita com o dado da própria unidade, e é a forma mais barata de mostrar um buraco que ninguém vê.

A rua que não tem número

A Rua do Pinhal não está na lista de logradouros do sistema. As casas não têm número; têm ponto de referência. Quando alguém de lá chega à unidade, a recepção resolve o problema do jeito que o sistema permite, e o problema volta na consulta seguinte, porque nada foi resolvido — foi contornado.

A peça em jogo é o cadastro domiciliar e territorial, que é feito para isso. A ficha tem campo de ponto de referência, tem a opção sem número, tem tipo de logradouro e nome de logradouro, e o aplicativo do agente tem função de criar e de mesclar logradouros duplicados, justamente porque rua nova nasce duplicada em qualquer base. Nada disso se resolve no balcão: resolve-se no território, com quem sabe onde a rua começa.

O que muda na sua conduta é a ordem. Antes de discutir a quem aquela rua pertence, alguém precisa saber quantas casas ela tem. A pergunta de pertencimento sem a contagem produz uma reunião de opiniões; a mesma pergunta com noventa e quatro casas contadas produz uma decisão. E a contagem é a parte que um interno consegue fazer em uma tarde, com o agente de endemias, que já tem o croqui.

O que se escreve: uma lista de imóveis com ponto de referência, tipo de imóvel e se há alguém morando, mesmo antes de haver cadastro de ninguém. Isso já é território cadastrado. E uma pergunta para a gerência: esta rua está dentro do limite da microárea 4 no sistema, ou só no mapa da parede?

O cadastro que envelheceu

Você abre o cadastro de uma família e ele está completo, bonito, preenchido campo a campo. Embaixo, a data: novembro de 2023. Ninguém mentiu, ninguém errou, ninguém deixou de trabalhar. O cadastro simplesmente envelheceu, e um cadastro envelhecido descreve uma casa que talvez não exista mais daquele jeito.

A peça em jogo é o relógio de 24 meses. Passado o prazo, aquela pessoa deixa de ser contada como cadastro atualizado, e a atualização é avaliada separadamente para cada tipo de cadastro: dá para ter o individual em dia e o domiciliar vencido, e nesse caso o peso da pessoa na conta cai do fator maior para o menor. O que envelhece primeiro é sempre o domiciliar, porque atualizar casa exige ir à casa.

O que muda na sua conduta é a leitura do que é trabalho novo. Recadastro parece burocracia e não é: a metade domiciliar do cadastro é onde estão saneamento, número de moradores e número de cômodos — os dados de que sai qualquer leitura de risco da família. Um recadastro é uma visita com formulário, e uma visita é a única forma de saber que o filho voltou a morar ali com três crianças.

O que se escreve: a lista dos cadastros por data, em ordem crescente, por microárea. Os mais velhos primeiro. Essa lista existe no sistema e quase nunca é impressa, e é a mais fácil de transformar em roteiro de visita da semana.

O quadrinho do fora de área

No cadastro da Iluminata, ao lado do campo da microárea, há um quadrinho marcado com duas letras: FA, de fora de área. Foi marcado por alguém que fez a coisa certa dentro do que sabia — a rua não existia na lista, e a ficha oferece exatamente essa saída. A pessoa foi cadastrada, é atendida, tem prontuário.

A peça em jogo é uma incoerência entre o formulário e a regra de contagem. A ficha impressa oferece o campo; a nota técnica que define quem conta manda excluir do cálculo os cadastros que trazem o registro fora de área. As duas coisas estão certas do ponto de vista de quem as escreveu: o cadastro precisa poder registrar quem não é da área, e a conta de vínculo precisa não contar duas vezes a mesma pessoa entre equipes. O efeito conjunto, porém, é uma categoria de gente que existe no sistema e não existe na conta.

O que muda na sua conduta é que fora de área passa a ser uma hipótese a verificar, e não um dado. Há duas situações debaixo do mesmo quadrinho: quem de fato mora fora do território da equipe, e quem mora dentro mas na parte do território que a base de endereços não conhece. A primeira é correta e pede aviso à equipe de referência da pessoa. A segunda é erro de cadastro, e o conserto é criar o logradouro e refazer o cadastro com microárea.

O que se escreve: separe a lista de cadastros marcados como fora de área e confira endereço por endereço contra o mapa. É uma tarefa de duas horas, cabe num turno e costuma devolver gente à conta. E, para os que forem mesmo de fora, uma linha no prontuário dizendo de qual equipe a pessoa é e que a informação foi passada — o que a equipe deve a quem não é da área é o capítulo da posição 7.

A família que pontua e ninguém visita

Na casa do seu Acrísio moram cinco pessoas em três cômodos. Ele é acamado há três anos, tem hipertensão e diabetes, a esposa tem 71 anos, o esgoto corre a céu aberto no fundo do lote e o filho está desempregado desde o ano passado. Nada disso é novidade para ninguém da equipe, e a última visita registrada é de onze meses atrás.

A peça em jogo é a diferença entre saber e priorizar. A informação existe, dispersa: parte no cadastro domiciliar, parte no individual, parte na memória de quem já foi lá. O que não existe é a operação que transforma essas peças num lugar na fila. Sem uma régua explícita, a fila da visita domiciliar se organiza sozinha por proximidade, por simpatia e por quem reclama — três critérios que nada têm a ver com necessidade.

O que muda na sua conduta é adotar uma régua e dizer qual é. A escala de risco familiar publicada em 2004 é a mais usada em português: soma pontos de sentinelas que já estão no cadastro — acamado, deficiência, baixas condições de saneamento, desnutrição, drogadição, desemprego, analfabetismo, menor de seis meses, maior de setenta anos, hipertensão, diabetes — e acrescenta a razão entre moradores e cômodos, que os autores identificaram como a sentinela que mais discrimina. A casa do seu Acrísio, somada, cai no topo.

O que se escreve: a pontuação, a data e a lista ordenada, com nome e microárea. E uma ressalva honesta no papel: a escala foi construída sobre um formulário que não existe mais, e a tradução dela para os campos de hoje perde uma sentinela inteira. A conferência campo a campo está na tabela do bloco de critério, e a conclusão prática é que a régua serve, desde que a equipe saiba o que ela deixou pelo caminho.

06

Como fechar o diagnóstico

Investigar um território é uma sequência, e a ordem importa: as três primeiras perguntas se respondem sentado, com o que já existe, e não fazê-las antes de sair a campo é o desperdício mais comum de um estágio curto. As três últimas só se respondem andando, e são as que produzem decisão.

Pergunta 1 — quantos o sistema diz que são, e quantos moram?

Antes de qualquer caminhada, esgote o que já está escrito. Do próprio sistema de informação da atenção primária saem os totais de cadastro por microárea, por tipo de cadastro e por data de atualização, além da lista de quem tem cadastro individual sem cadastro domiciliar. Do croqui do agente de combate às endemias sai a contagem de imóveis do ciclo mais recente, que é a única contagem física atualizada que a maioria das unidades possui. Da escola e da creche da área sai o número de matriculados que moram ali. Do cadastro dos programas sociais, quando a equipe tem acesso, sai o número de famílias beneficiárias por endereço.

Com essas quatro fontes já dá para montar a primeira aproximação, e ela costuma ser desconfortável. Se o croqui do agente de endemias registra mais imóveis habitados do que o sistema de saúde tem cadastros domiciliares, a diferença é a sua primeira medida de território desconhecido — e é uma medida boa, porque as duas contagens foram feitas por gente diferente, com finalidade diferente, sobre o mesmo chão.

Uma advertência sobre subtrair números de origens diferentes: imóvel não é domicílio e domicílio não é pessoa. Um imóvel pode estar vazio, pode ser comércio, pode abrigar duas famílias. A diferença entre as contagens não é a população faltante; é o tamanho da pergunta. Quem quiser transformá-la em estimativa de gente precisa de uma média de moradores por domicílio, e essa média se mede na própria área, na caminhada, e não se importa de outro bairro.

Pergunta 2 — as microáreas cobrem tudo, sem buraco e sem sobreposição?

Pegue o mapa da parede e o limite que está no sistema e ponha os dois lado a lado. Não é raro que discordem, e a discordância tem sempre a mesma forma: o mapa da parede foi desenhado quando o bairro terminava numa rua, e o bairro continuou. O teste é banal e ninguém faz: percorra o perímetro da área com o dedo e pergunte, em cada trecho, a qual microárea pertence o que está do lado de dentro.

Buraco e sobreposição têm assinaturas diferentes nos dados. O buraco aparece como um conjunto de cadastros marcados como fora de área concentrados numa mesma rua, ou como uma rua que existe no croqui do agente de endemias e não tem nenhum cadastro domiciliar. A sobreposição aparece como pessoa cadastrada por duas equipes — e para esse caso existe até regra de desempate publicada, que decide o vínculo pelo maior número de atendimentos no ano, depois pelo atendimento mais recente e por fim pelo cadastro mais atualizado. Existir regra de desempate é a prova de que o problema é comum.

O que se faz com o achado não é redesenhar o mapa. Redesenhar território é ato de gestão: a política diz que cabe à gestão definir o território de responsabilidade de cada equipe, e à equipe conhecê-lo. O que cabe ao interno é documentar a discordância com precisão suficiente para que a decisão possa ser tomada: qual rua, quantos imóveis, desde quando, e quem está atendendo aquelas pessoas hoje.

Pergunta 3 — o que este território tem que não é casa?

A lista de tipos de imóvel do cadastro territorial é, lida de trás para a frente, um roteiro de reconhecimento. Escola e creche concentram crianças e são onde se encontra quem nunca vem à unidade. Abrigo e instituição de longa permanência para idosos concentram pessoas de altíssimo risco e costumam estar fora de qualquer lista de visita. Unidade prisional, unidade socioeducativa e delegacia abrigam gente que a equipe responde e nunca vê. Estabelecimento religioso é onde se marca grupo. Terreno baldio e ponto estratégico — cemitério, borracharia, ferro-velho, depósito de sucata, garagem de ônibus — são o vocabulário do controle de vetores, e estão na mesma ficha porque o território é único.

Para os imóveis de permanência, o cadastro pede algo que quase ninguém preenche: o nome da instituição, se há profissionais de saúde vinculados a ela e a identificação do responsável técnico, com nome, documento, cargo e telefone. Esse bloco é a ponte formal entre a equipe e uma casa de repouso da esquina, e ele existe no formulário há anos.

O que muda na sua conduta é o que você conta como visita útil. Passar numa instituição de longa permanência e sair com o nome e o telefone do responsável técnico rende, em termos de território conhecido, mais do que quatro visitas domiciliares — e leva vinte minutos. É o tipo de tarefa que cabe num estágio curto e que fica depois que você sai.

Pergunta 4 — quem está cadastrado e não é acompanhado?

Aqui a régua oficial ajuda, porque ela já separa duas coisas que a equipe mistura. Cadastro é identificação; acompanhamento é contato. A pessoa acompanhada é a que teve mais de um contato assistencial em doze meses, com pelo menos um deles sendo uma prática de cuidado. Cruzar as duas listas produz quatro grupos, e cada um pede uma conduta diferente.

Cadastrado e acompanhado é o caso feliz e não precisa de nada. Cadastrado e não acompanhado é a lista central deste capítulo: gente que a equipe sabe que existe e não viu no último ano. Acompanhado e não cadastrado é falha de registro e se resolve no balcão, cadastrando quem já está sendo atendido. E não cadastrado e não acompanhado é a população que só a caminhada encontra — a que não aparece em lista nenhuma, por definição.

A ordem de trabalho segue o custo. O terceiro grupo é o mais barato: são pessoas que já vêm à unidade, e cadastrá-las custa cinco minutos por pessoa. O segundo é o mais rendoso clinicamente, porque contém os idosos, os acamados e as condições crônicas sem contato. O quarto é o mais caro e o mais importante, e é onde um estágio de seis semanas consegue, na melhor das hipóteses, abrir uma rua.

Uma nota de cautela sobre o segundo grupo, para não transformá-lo em lista de culpados. Uma pessoa com condição crônica sem contato há um ano é uma falha de seguimento do serviço antes de ser uma escolha dela, e a pergunta que se leva à visita é sobre disponibilidade, nunca sobre comportamento. O que se pergunta, e como se pergunta sem ofender, é o capítulo Não aderiu, na posição 11 desta apostila.

Pergunta 5 — quais famílias pontuam, e por qual sentinela?

A régua de prioridade domiciliar mais usada em português soma pontos de sentinelas que já estão no cadastro. Valem três pontos: acamado, deficiência física, deficiência mental, baixas condições de saneamento e desnutrição grave. Valem dois: drogadição e desemprego. Vale um ponto cada: analfabetismo, menor de seis meses, maior de setenta anos, hipertensão arterial e diabetes. E há a razão entre moradores e cômodos, que vale três pontos quando é maior que um, dois quando é igual a um e nenhum quando é menor.

Repare no que essa lista faz e no que ela não faz. Ela não mede gravidade clínica: uma família com dois hipertensos controlados soma dois pontos, e uma casa com nove pessoas em três cômodos soma três de uma vez. Foi de propósito. Os autores estavam atrás do que a visita resolve, e o que a visita resolve é quase sempre condição de vida, não descompensação. Eles próprios registram que a razão morador por cômodo foi a sentinela que mais discriminou nas comunidades em que aplicaram a escala.

Duas ressalvas que você precisa dizer em voz alta ao apresentar a lista. A primeira é de tradução: a escala foi construída sobre a ficha A de um sistema de informação que não é mais o vigente, e um dos sentinelas — desnutrição grave — não tem campo equivalente no cadastro de hoje, que pergunta apenas como a própria pessoa considera o seu peso. A segunda é de calibração: os autores mandam a equipe decidir, na reunião, quais eventos pontuam naquela comunidade, e dão o exemplo de que, onde ninguém tem saneamento, o saneamento deixa de ser risco familiar e passa a ser risco de área. Régua aplicada sem essa etapa devolve uma lista em que todo mundo pontua e nada é prioridade.

Pergunta 6 — o que disso vira prioridade, e o que se decide não fazer?

Um diagnóstico de saúde da comunidade que termina numa descrição não é diagnóstico: é apresentação de slides. O que o transforma em decisão é a etapa que a política nomeia sem detalhar — programar as atividades de acordo com as necessidades, priorizando as intervenções segundo critérios de frequência, risco, vulnerabilidade e resiliência. Quatro critérios, e vale usá-los explicitamente, um a um, sobre a lista que você produziu.

Frequência é quantas famílias o problema atinge; risco é o dano que ele causa a quem atinge; vulnerabilidade é a capacidade de resposta de quem está exposto; e resiliência, que é o critério mais esquecido, é o que aquela comunidade já tem e que a equipe pode usar — a associação de moradores, a igreja com salão, a escola que empresta a quadra, o grupo de caminhada que já existe. Um plano que só olha os três primeiros produz sempre a mesma conduta, que é pedir mais gente e mais dinheiro.

E a etapa que ninguém escreve na ata: decidir o que não fazer. As horas da equipe são fixas. Se a lista de visitas passa a ser ordenada por risco familiar, alguém que era visitado por hábito deixa de ser visitado toda semana, e isso precisa ser dito na reunião, com nome, e não descoberto pela pessoa na semana seguinte. Se o grupo novo vai ocupar a quinta à tarde, alguma coisa saía da quinta à tarde. Priorização sem despriorização declarada não é plano: é acúmulo, e acúmulo é como equipe boa vira equipe exausta.

Por fim, a pergunta que fecha o método e devolve o assunto à clínica: o que dessa lista muda o que acontece na consulta de amanhã. Se a resposta for nada, o diagnóstico de território foi um exercício. Se a resposta for que a agenda passa a ter duas vagas de visita por semana, que a busca ativa da microárea 4 tem dono e prazo, e que três famílias entram no roteiro nomeadas, então houve planejamento local — que é a expressão que a política usa quatro vezes e nunca define.

07

De quantos você responde, e por qual casa começa

Três decisões, nesta ordem. A primeira é de perímetro: onde começa e onde termina a área desta equipe, em quantas microáreas ela se divide e se a soma delas cobre tudo. A segunda é de contagem: quantas pessoas o sistema reconhece, por qual regra, e quem ficou de fora dela — porque quem ficou de fora não é ausência de gente, é ausência de registro. A terceira é de ordem: por qual casa se começa, com qual régua, e o que se deixa de fazer para caber. As tabelas trazem as unidades do território, a tradução da escala de risco familiar para os campos de hoje, a lista de quem conta e quem não conta, e o que cada prazo vira em trabalho por dia. As notas ao final registram, uma a uma, as contas refeitas em Python sobre os números publicados — tanto as que reproduziram o publicado quanto as que não reproduziram.

  1. 11 · Antes de sair a campo, esgote o papel. Peça três relatórios do sistema: cadastros por microárea, cadastros por tipo (individual isolado ou individual mais domiciliar) e cadastros por data da última atualização. Sem esses três números, a caminhada vira turismo.
  2. 22 · Some ao papel a contagem física que já existe. O croqui do agente de combate às endemias é a única contagem de imóveis atualizada na maioria das unidades, porque manter mapas e croquis é atribuição escrita da categoria dele. Peça a contagem do ciclo mais recente.
  3. 33 · Compare as duas contagens e escreva a diferença como pergunta, não como conclusão. Imóvel não é domicílio e domicílio não é pessoa: a diferença mede o tamanho do desconhecido, não a população faltante.
  4. 44 · Percorra o perímetro no mapa e no sistema ao mesmo tempo, trecho a trecho. Procure as duas assinaturas: cadastros marcados como fora de área concentrados numa mesma rua, que é buraco; e pessoa cadastrada por duas equipes, que é sobreposição — e para essa existe até regra publicada de desempate.
  5. 55 · Levante o que no território não é casa. Escola, creche, abrigo, instituição de longa permanência, unidade prisional, estabelecimento religioso e ponto estratégico têm tipo próprio na ficha territorial, e cada um concentra gente que a unidade responde e não vê.
  6. 66 · Só então caminhe, e caminhe com quem mora ali. O que se procura a pé é o que nenhuma ficha pergunta: barreira, horário de ônibus, trecho sem iluminação, muro, córrego, e onde a rua deixa de ter número.
  7. 77 · Cruze cadastro com acompanhamento e separe os quatro grupos. Cadastrado e acompanhado não precisa de nada; acompanhado e não cadastrado se resolve no balcão; cadastrado e não acompanhado é a lista clínica central; não cadastrado e não acompanhado só a caminhada encontra.
  8. 88 · Aplique a régua de risco familiar depois de calibrá-la com a equipe, e não antes. Os próprios autores mandam decidir na reunião quais sentinelas pontuam naquela comunidade — onde ninguém tem saneamento, saneamento é risco de área e não de família.
  9. 99 · Diga em voz alta o que a régua não mede. Ela não mede gravidade clínica, não tem campo para desnutrição no cadastro de hoje e trata como uma coisa só o que hoje são duas caixas. Régua apresentada sem suas perdas vira número mágico.
  10. 1010 · Priorize pelos quatro critérios que a política nomeia — frequência, risco, vulnerabilidade e resiliência — e use o quarto, que é o esquecido: o que a comunidade já tem e a equipe pode usar.
  11. 1111 · Escreva o que deixa de ser feito. Toda prioridade nova ocupa uma hora que já tinha dono, e a hora que perdeu dono precisa ser dita na reunião, com nome, e não descoberta pela pessoa na semana seguinte.
  12. 1212 · Feche com a pergunta da consulta de amanhã. Se nada na agenda muda, não houve diagnóstico de território: houve descrição. Se duas vagas de visita por semana passam a existir e três famílias entram no roteiro nomeadas, houve planejamento local.

As unidades do território — quem define cada uma, e onde ela existe

UnidadeQuem a defineOnde ela existe no sistemaO que quebra quando ela falta
Território da equipeA gestão municipal define; a equipe tem o dever de conhecê-lo, e a política manda refazer a territorialização sempre que necessário, porque o território é vivoNão tem campo próprio: existe na vinculação da equipe ao estabelecimento e no mapa afixado na unidadeSem limite acordado não há denominador, e todo indicador da equipe passa a medir a fila em vez da população
MicroáreaDefinição local. A política cita a palavra uma única vez, para fixar teto de 750 pessoas por agente na Estratégia de Agentes Comunitários de Saúde — e não define o que é uma microáreaCampo obrigatório em três fichas: cadastro individual, cadastro domiciliar e territorial, e visita domiciliar e territorialSem microárea não há varredura: a visita passa a depender de quem pede, e buraco e sobreposição ficam invisíveis
ImóvelO agente, na visita, escolhendo entre catorze tipos — só o primeiro é domicílioCampo tipo de imóvel da ficha de cadastro domiciliar e territorialSem cadastro do imóvel que não é casa, escola, creche, abrigo, instituição de longa permanência e unidade prisional ficam fora do território conhecido
DomicílioO imóvel do tipo domicílio, que habilita os blocos de condições de moradia, animais e famíliasFicha de cadastro domiciliar e territorial, blocos de condições de moradia e saneamentoSem ele somem saneamento, número de moradores e número de cômodos — a base de qualquer leitura de risco da casa
Família, ou núcleo familiarOs próprios moradores, ao indicar quem é o responsável familiar; a documentação pede pessoa maior de dezesseis anos, com ou sem parentesco, e ninguém pode ser responsável em dois domicíliosBloco famílias da ficha domiciliar, com prontuário familiar, renda e número de membrosSem núcleo, duas famílias na mesma casa viram uma, e a razão entre moradores e cômodos passa a mentir para menos
PessoaO cadastro individual, quando cumpre integralmente os requisitos de validação do sistemaFicha de cadastro individual; o cadastro rápido do balcão não vale para a contagemSem cadastro individual válido a pessoa não entra em conta nenhuma, ainda que seja atendida toda semana

A escala de risco familiar de 2004 e o campo que a sustenta hoje

Sentinela da escala (2004)PontosCampo equivalente no cadastro em vigorO que se perde na tradução
Acamado3Ficha de cadastro individual: Está acamado? Sim ou Não — e, ao lado, Está domiciliado?Nada; é a tradução mais direta. Vale ler os dois campos: domiciliado não é acamado, e a escala pontuava só o segundo
Deficiência física3Ficha individual, bloco de deficiência: opção FísicaNada de substancial; a lista de hoje separa seis tipos onde a de 2004 tinha dois
Deficiência mental3Ficha individual, bloco de deficiência: Intelectual/Cognitiva, com Transtorno do Espectro Autista em opção própriaMudou o nome e se desdobrou em duas caixas. Quem pontuar as duas na mesma pessoa conta duas vezes o que a escala contava uma
Baixas condições de saneamento3Ficha domiciliar: abastecimento de água, forma de escoamento do banheiro, destino do lixo e água para consumoNão há campo único. A equipe precisa definir, na reunião, qual combinação conta como baixa — e a definição escolhida muda quem entra na lista
Desnutrição grave3Não existe campo. O mais próximo é a pergunta Sobre seu peso, você se considera: abaixo do peso, peso adequado, acima do pesoÉ a perda maior: autopercepção não é medida, e o cadastro não tem peso nem altura. Antropometria existe na ficha de visita, não na de cadastro
Drogadição2Ficha individual: Faz uso de outras drogas? Sim ou NãoUso não é dependência. O campo de hoje marca qualquer uso, e a escala pontuava o transtorno
Desemprego2Ficha individual, situação no mercado de trabalho: Desempregado — e, em caixa vizinha, Não trabalhaDuas caixas para o que a escala tratava como uma. Quem contar só Desempregado perde a dona de casa e o que desistiu de procurar
Analfabetismo1Ficha individual, curso mais elevado que frequenta ou frequentou: Nenhum, com Alfabetização para Adultos em opção separadaEscolaridade nula não é analfabetismo, e analfabetismo funcional não tem campo nenhum
Menor de seis meses1Derivável da data de nascimentoNada: melhora, porque deixa de depender de alguém lembrar de marcar
Maior de setenta anos1Derivável da data de nascimentoNada. Atenção ao descompasso: a ponderação oficial de vulnerabilidade usa sessenta anos, não setenta
Hipertensão arterial1Ficha individual: Tem hipertensão arterial? Sim ou NãoAutorreferida, como já era em 2004
Diabetes1Ficha individual: Tem diabetes? Sim ou NãoAutorreferida, como já era em 2004
Razão entre moradores e cômodos3 se maior que 1; 2 se igual a 1; 0 se menor que 1Ficha domiciliar: Nº de moradores e Nº de cômodos, os dois presentes na folhaOs dois campos existem e o sistema não calcula a razão. A conta é da equipe, e é a sentinela que os autores apontaram como a que mais discrimina

Quem entra na conta do território, e quem não entra

SituaçãoComo fica no cadastroEntra na contagem?O que fazer
Mora na área, cadastro individual e domiciliar válidos e dentro dos 24 mesesMicroárea preenchida, os dois cadastros ativosSim, com fator 1,5Nada. É o alvo, e é o único arranjo que carrega os dados de risco da casa
Mora na área, só com cadastro individualMicroárea preenchida, sem cadastro domiciliarSim, com fator 0,75Agendar visita de cadastro domiciliar: dobra o peso da pessoa na conta e é onde estão saneamento, moradores e cômodos
Mora na área, individual em dia e domiciliar vencidoOs dois existem; o domiciliar passou dos 24 mesesSim, mas cai para o fator 0,75Recadastro domiciliar. É a perda mais silenciosa das quatro, porque nada na tela avisa que caiu
Mora na área, numa rua que a base de logradouros não conheceMarcada como fora de áreaNãoCriar o logradouro e refazer o cadastro com microárea. É erro de base, não questão de pertencimento
Mora fora da área e é atendida na unidadeFora de área, corretamenteNãoAtender, registrar e avisar a equipe de referência dela. O que a unidade deve a quem não é da área é o capítulo da posição 7 desta apostila
Foi atendida sem cadastro, ou registrada por cadastro rápido no balcãoIdentificada no sistema, sem cadastro individual válidoNãoCadastro individual completo na próxima passagem dela. É o grupo mais barato de recuperar, porque essas pessoas já vêm
Mudou de território e alguém deu baixaRegistro de saída por mudança de territórioNãoCorreto, e é o que impede a pessoa de ser contada em dois lugares. Baixa não dada é o defeito oposto e infla a conta
Trabalha na área e mora em outro municípioQuase sempre sem cadastro nenhumNãoA política inclui os trabalhadores da área na responsabilidade sanitária da equipe; a régua de contagem não os inclui. Ver a segunda divergência deste capítulo

Uma microárea no teto de 750 pessoas — o que cada regra vira em trabalho, recalculado em Python

Regra e origemNúmero publicadoA contaO que dá por dia útil
Teto de população por agente, na Estratégia de Agentes Comunitários de Saúde750 pessoas por microárea3.000 pessoas adscritas dividido por 750 dá 4 microáreas; 4.500 dividido por 750 dá 6Não é trabalho diário: é o piso de quantos agentes a equipe precisa para que a varredura exista
Validade do cadastro individual e do domiciliar24 meses desde a inclusão ou a última alteração750 pessoas divididas por 24 meses dão 31,25 pessoas por mês só para não perder terreno; com 21 dias úteis, 1,49 pessoa por dia1 a 2 cadastros individuais por dia útil, indefinidamente
A mesma validade, contada por casa24 meses, e o domiciliar é avaliado à parte do individualCom média de 3 moradores por domicílio, 750 pessoas são 250 casas; 250 divididas por 24 dão 10,4 casas por mêsMeia casa por dia útil, o que é factível — e é exatamente o que não se faz
Visita mensal a todos os domicílios da microáreaPeriodicidade que a equipe define no planejamento, sem número na política atual250 casas divididas por 21 dias úteis11,9 visitas por dia útil, todos os dias, sem falta e sem férias — a régua que explica por que a visita universal cede lugar à visita priorizada
Peso do cadastro completo contra o individual isoladoFator 1,5 contra 0,75750 pessoas com os dois cadastros pesam 1.125; as mesmas 750 só com o individual pesam 562,5A diferença é de 562,5 pessoas de peso — mais do que o dobro do que rende um mutirão de recepção
Faixa de classificação da dimensão do cadastroAcima de 85; de 65 a 84,9; de 45 a 64,9; abaixo de 45Num parâmetro de 3.000 pessoas, e sendo o índice a soma ponderada dividida pelo parâmetro, bastam 1.700 pessoas com cadastro completo para passar de 85 — 57% do parâmetroLeitura minha, e não citação: a fórmula não aparece no texto extraído da nota. Ver a nota de auditoria correspondente

Comece pela datação, que neste capítulo é o próprio achado: para o método, não há régua brasileira nenhuma. A Política Nacional de Atenção Básica manda a equipe participar do processo de territorialização e mapeamento, manda o agente comunitário e o de combate às endemias realizarem diagnóstico demográfico, social, cultural, ambiental, epidemiológico e sanitário do território, manda o gerente participar e orientar o processo de territorialização e o diagnóstico situacional, e manda a equipe participar do planejamento local. Não diz como se faz nenhum deles. Contei no texto que li, de 30.181 palavras: estimativa rápida participativa, zero ocorrências; transecto, zero; georreferenciamento, zero; cartografia, uma, e apenas para listar adjetivos dos elementos a considerar. Não há etapas, não há instrumento nomeado, não há periodicidade — a única indicação temporal é a frase de que é importante refazer ou complementar a territorialização sempre que necessário, já que o território é vivo. O que existe de nacional e datado é uma regra de contagem, publicada em 2024 e detalhada em 2025, que diz quem conta como cadastrado e acompanhado. Método e contagem não são a mesma coisa, e este capítulo trata a segunda como o que ela é: um efeito colateral útil, não uma diretriz de trabalho.

A palavra que dá nome à unidade de trabalho aparece uma vez. Microárea ocorre exatamente uma vez em todo o Anexo XXII que li, e não numa definição: está na alínea que descreve a Estratégia de Agentes Comunitários de Saúde, para dizer que cada agente deve ter uma microárea sob sua responsabilidade cuja população não ultrapasse 750 pessoas. Não há definição do que é uma microárea, não há obrigação de que uma equipe de saúde da família tenha microáreas, e não há regra de que a soma delas cubra o território sem buraco. Enquanto isso, microárea é campo obrigatório em três fichas vigentes do sistema de informação. A unidade sobre a qual repousa toda a busca ativa do país é obrigatória no formulário e indefinida na política.

Quem tem, por escrito, o dever de fazer e manter o mapa. Entre as atribuições específicas do agente de combate às endemias está realizar e manter atualizados os mapas, croquis e o reconhecimento geográfico de seu território. Não há atribuição equivalente para a equipe de saúde da família: o que o texto lhe dá, entre as atribuições comuns a todos os profissionais, é participar do processo de territorialização e mapeamento da área de atuação da equipe. Participar não é manter. A mesma política recomenda território único para a atenção básica e a vigilância em saúde, com o agente de endemias trabalhando junto com o agente comunitário. A consequência prática, verificável em qualquer unidade, é que o desenho atualizado do território costuma existir — na mão de outra equipe, no mesmo prédio.

A grafia da palavra que dá título ao capítulo não é uniforme dentro do próprio documento. No texto do Anexo XXII publicado no Diário Oficial de 3 de outubro de 2017, contei, depois de normalizar espaço e hifenização de quebra de linha, 20 ocorrências da família adscri — adscrita 16, adscritas 2, adscrição 2 — e 9 da família adstri — adstrita 5, adstrição 2, adstrito 1, adstritos 1. As duas formas designam a mesma coisa, e o desencontro está justamente nos lugares nobres: o artigo 3º lista, entre as diretrizes, população adscrita; e o item 1.2 do anexo, que descreve a mesma diretriz, intitula-a Territorialização e Adstrição. Não muda conduta nenhuma. Muda a busca: quem procura o dispositivo por uma das grafias não acha os parágrafos escritos na outra. Ressalva de datação: li o texto da consolidação de 2017 e não a versão consolidada de hoje; se alguma das dez portarias que alteraram o anexo uniformizou a grafia, este capítulo não alcança.

Três fichas vigentes do mesmo sistema, dois intervalos diferentes para o mesmo campo. A legenda da ficha de cadastro individual, versão 5.3, diz: usar 01 a 99 para o número da microárea. A da ficha de cadastro domiciliar e territorial, versão 3.2, diz exatamente o mesmo. Já a da ficha de visita domiciliar e territorial, versão 5.3, diz: usar FA para fora de área ou 00 a 99 para o número da microárea. As três estão publicadas lado a lado na página de fichas vigentes. O efeito é estreito e real: uma microárea numerada 00 pode receber registro de visita e não pode ser o endereço de um domicílio nem de uma pessoa. As três frases foram lidas na camada de texto dos arquivos, não em imagem, e conferidas uma a uma.

A mesma coisa com quatro nomes, em documentos todos em vigor. As três fichas trazem no rodapé de cada página as siglas CI/e-SUS AB, CD/e-SUS AB e VD/e-SUS AB, com a sigla da Atenção Básica — enquanto o cabeçalho da própria ficha domiciliar diz Atenção Primária e o portal do Ministério chama o sistema de e-SUS APS. O manual do aplicativo, de 2020, tem capa que diz Sistema e-SUS Atenção Primária à Saúde e, dentro, legenda de figura que diz aplicativo e-SUS AB Território. E a nota técnica de setembro de 2025 chama o banco de Sistema de Informação em Atenção Primária à Saúde, Siaps, seis vezes no corpo, e de SISAB duas vezes na nota de rodapé que descreve as validações; o material de perguntas frequentes do mesmo ano usa apenas Sisab. Nenhum cálculo muda. Muda a chance de o interno procurar o relatório certo: quem pesquisa por Siaps não acha o manual, e quem pesquisa por e-SUS APS não acha o rodapé da ficha que tem na mão.

Uma faixa que não pertence a classe nenhuma, e ela é exatamente o número redondo. A nota técnica classifica a dimensão do cadastro em quatro degraus, publicados assim: acima de 85, ótimo; de 65 a 84,9, bom; de 45 a 64,9, suficiente; abaixo de 45, regular. Varri o intervalo de 40 a 90 em Python, de cinco em cinco centésimos, testando cada valor contra as quatro regras como escritas. Três valores não caem em nenhuma: 64,95, 84,95 e 85,00. Os dois primeiros são artefato de precisão e desaparecem se o resultado for divulgado com uma casa decimal, que é a precisão das próprias faixas. O terceiro não desaparece: 85,0 é um valor de uma casa decimal, é o número que a régua usa como fronteira, e a faixa de baixo termina em 84,9 enquanto a de cima começa acima de 85. Uma equipe que fecha o quadrimestre com exatamente 85,0 não tem classificação pelo texto publicado. O mesmo defeito, nos mesmos números, está na tabela da dimensão do acompanhamento.

Conferência que deu certo, e ela é do tipo que vale registrar porque desarma um alarme falso. A tabela do escore final tem o mesmo tipo de vão: acima de 8,5 é ótimo, de 7 a 8,5 é bom, de 5,0 a 6,9 é suficiente e abaixo de 5,0 é regular — o intervalo aberto entre 6,9 e 7,0 não pertence a ninguém. Só que o escore final não é contínuo: é a soma de um escore de cadastro, que só pode valer 0,75, 1,50, 2,25 ou 3,00, com um escore de acompanhamento, que só pode valer 1,75, 3,50, 5,25 ou 7,00, mais um bônus de satisfação de 0, 0,15 ou 0,30 aplicado antes do teto de 7,00. Enumerei em Python as 40 somas distintas possíveis. Todas as 40 caem numa das quatro classes; nenhuma cai no vão. O defeito existe no texto e é inalcançável na prática — ao contrário do 85,0 da nota anterior, que é alcançável.

Duas tabelas escrevem a preposição errada, e a terceira escreve a certa. Na tabela da dimensão do cadastro, a faixa intermediária está grafada de 65 a 84,9; na tabela da dimensão do acompanhamento, a mesma faixa aparece como 65 e 84,9; e na tabela do escore final, a faixa do meio é 5,0 e 6,9. Trocar a por e num intervalo não muda o cálculo de ninguém, e por isso não é achado grave. Registro porque é o tipo de descuido que costuma andar junto com o anterior, e porque quem transcreve uma faixa escrita com e tende a transcrevê-la como igualdade.

O bônus que não tem linha para o zero. A nota técnica concede pontuação extra pela avaliação do usuário no aplicativo do Ministério, e a distribui em duas faixas: equipes que apresentarem avaliações inferiores a 5% do total de atendimentos recebem 0,15, e as que alcançarem 5% ou mais recebem 0,30. Não há terceira faixa. Uma equipe cujos usuários não fizeram avaliação nenhuma tem 0% de avaliações, e 0% é inferior a 5% — pela letra, ela recebe 0,15. Ou seja, ou o acréscimo mínimo é universal e não distingue quem participou de quem não participou, ou existe uma situação sem regra. Não decido qual das duas leituras é a pretendida; registro que a tabela, como publicada, não separa o zero.

As duas fórmulas do cálculo são anunciadas e não aparecem. O passo 2 da dimensão do cadastro diz, com dois-pontos, calcular o resultado do cadastro, índice ponderado cadastro — e o que vem em seguida, na cópia que li, é a tabela dos fatores de multiplicação. O passo 3 da dimensão do acompanhamento diz, também com dois-pontos, calcular o resultado do acompanhamento — e o que vem em seguida é diretamente a tabela de classificação. Em nenhum dos dois lugares há uma fórmula na camada de texto do arquivo. Não afirmo que ela esteja ausente do documento publicado: pode estar como imagem, e nesse caso quem lê a página a vê e a extração não. Registro o que li, na versão que li, porque a consequência é concreta: quem consulta a nota pelo texto fica sabendo o que multiplicar e não fica sabendo por que dividir.

A leitura que decorre disso, e ela é minha, não é citação — está marcada como tal também na quarta tabela. Se o índice ponderado for a soma das pessoas multiplicadas pelos seus fatores dividida pelo parâmetro de pessoas da equipe, então, num município acima de 100 mil habitantes, onde o parâmetro de uma equipe de saúde da família é 3.000, bastam 1.700 pessoas com cadastro completo para ultrapassar 85 — porque 1.700 vezes 1,5 dá 2.550, e 2.550 sobre 3.000 dá 85,0. São 57% do parâmetro. E, com as 3.000 pessoas cadastradas de forma completa, o índice daria 150. Isso significa que a escala não é uma porcentagem de população cadastrada, embora se pareça com uma: ótimo não quer dizer 85% da gente cadastrada. Se essa leitura estiver certa, é uma armadilha de interpretação séria numa reunião de equipe; se estiver errada, é porque a fórmula é outra, e a fórmula é o que não está no texto. Levo a dúvida ao leitor em vez de escondê-la.

A escala de risco familiar de 2004 tem um escore que não pertence a nenhuma classe, e é o escore alto. O quadro que define a classificação diz: escore 5 ou 6 é risco 1; escore 7 ou 8 é risco 2; maior que 9 é risco 3. Uma família com exatamente 9 pontos não é R1, não é R2 e não é R3. E a contradição está dentro do mesmo artigo: a tabela de resultados, duas páginas antes, rotula a mesma faixa como escore 9 ou maior. Testei em Python os inteiros de 0 a 27 — 27 é o máximo possível, somando as doze sentinelas fixas, que dão 24, com os 3 pontos da razão entre moradores e cômodos: pelo quadro da definição, o único inteiro órfão é o 9; pela tabela de resultados, nenhum. Nove pontos é uma casa com acamado, saneamento ruim, um idoso, um hipertenso e um diabético — exatamente a casa por onde a régua existe para começar.

Uma tabela do artigo de 2004 contradiz o texto do próprio artigo, e a diferença é de duas famílias. O texto descreve a microárea 1 de uma segunda equipe dizendo que, entre 217 famílias, 21 foram classificadas como de risco, sendo 8 de risco 1, 11 de risco 2 e 2 de risco 3. Oito mais onze mais dois são 21, e 21 sobre 217 dá 9,68%, que é o percentual impresso: o texto fecha consigo mesmo. A tabela que apresenta a mesma microárea publica as mesmas três parcelas — 08, 11 e 02 — e um total de 19. A linha seguinte da mesma tabela, com 6, 2 e 2, publica total 10 e fecha. Ressalva honesta: a cópia disponível é digitalizada com reconhecimento óptico imperfeito, e na tabela vizinha duas células ficaram ilegíveis na minha extração; não afirmo que o 19 esteja impresso assim no original em papel, afirmo que é o que a única versão eletrônica disponível traz, e que ele não fecha com o texto nem com a própria linha.

Conferências que deram certo no mesmo artigo, e são a maioria. A tabela da primeira equipe soma 922 famílias com escore abaixo de 5, mais 19 de risco 1, mais 13 de risco 2, mais 6 de risco 3, e declara 960: fecha exatamente. As três parcelas de risco somam 38, que é o número que o texto usa. As colunas da tabela por microárea somam 19, 13 e 6, batendo com os totais publicados, e as linhas somam 38. Os percentuais fecham: 219 sobre 3.870 dá 5,66%, impresso 5,66; 10 sobre 236 dá 4,24%, impresso 4,24; 56 sobre 810 dá 6,91%, impresso 6,91; 8, 11 e 2 sobre 217 dão 3,69%, 5,07% e 0,92%, todos impressos assim. Um único percentual está truncado em vez de arredondado: 38 sobre 960 dá 3,958%, e o artigo imprime 3,95%. Vinte anos depois, a aritmética do artigo que fundou a prática brasileira de priorizar visita continua de pé, com um total de tabela fora e um arredondamento para baixo.

Uma conferência independente que confirma o achado do capítulo vizinho, e que por isso não repito. A nota técnica de 2025 reproduz o quadro de parâmetros de pessoas por equipe. Recalculei as doze células: para a equipe de atenção primária de 30 horas, três das quatro faixas são exatamente 0,75 do parâmetro da equipe de saúde da família — 1.500, 1.875 e 2.250 — e a quarta publica 2.063 onde três quartos de 2.750 dão 2.062,5. As quatro células da modalidade de 20 horas são exatamente metade. O arredondamento de 2.062,5 para 2.063 e o que ele produz adiante já foram descritos, na fonte primária, pelo capítulo sobre a Política Nacional de Atenção Básica, na posição 7 desta apostila. Registro que a conferência refeita sobre outro documento devolve o mesmo número, e devolvo o assunto ao dono.

Este capítulo não prescreve fármaco nenhum, e digo isso em vez de fingir uma tabela. Nenhum marco da conduta escolhe medicamento, dose, via ou frequência: a conduta inteira é de método — contar, caminhar, cadastrar, priorizar, registrar e levar à reunião. Por isso não há tabela de conversão entre miligrama, mililitro e apresentação, e não há conferência de elenco na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais, que não teria o que conferir. A tabela numérica que ocupa esse lugar é a dos prazos e dos pesos, recalculada em Python contra os números publicados, e está na quarta tabela deste bloco.

Os limites declarados deste capítulo, para que ninguém leia aqui o que não está. Um: nada sobre quanto do país tem equipe de saúde da família — nem proporção, nem contagem de equipes, nem evolução no tempo; a fonte primária desses dados não foi aberta. Segundo: nada sobre o texto consolidado atual da Política Nacional de Atenção Básica além das seções 4 e 5, que li na versão de 2017 e cuja estabilidade nesses pontos conferi contra os defeitos de numeração já documentados; se houve alteração posterior nas passagens que cito, este capítulo não alcança. Terceiro: nada sobre o conteúdo da portaria que estabeleceu a metodologia de cálculo, que não abri — tudo o que digo sobre as definições vem da nota técnica e do material de perguntas frequentes que a reproduzem, inclusive a divergência entre eles, que pode ser divergência de redação dos dois derivados e não da norma de origem. Quarto: nada sobre médias nacionais de moradores por domicílio ou de imóveis por microárea; os números de exemplo da quarta tabela são hipóteses declaradas, feitas para mostrar a ordem de grandeza do trabalho, e não estimativas de nada.

08

A conduta, hora a hora

A linha do tempo aqui é a de um estágio de seis semanas, e é deliberadamente curta, porque é essa a duração real que um interno tem. Cada marco traz a fala literal — o pedido, a pergunta, a linha escrita —, porque a diferença entre um interno que produz um diagnóstico de território e outro que produz uma impressão sobre o bairro está quase toda em ter pedido o relatório certo na segunda-feira certa.

Atravessam os marcos as mesmas pessoas da segunda-feira no Alto Serrano: a microárea 4 sem agente desde a aposentadoria de Remédios Pirapora; a Rua do Pinhal, que o mapa de 2019 não tem; o seu Acrísio Cravinhos, 74 anos, acamado, com a última visita registrada há onze meses; a Iluminata Canabrava, cadastrada com o quadrinho de fora de área marcado; e o croqui atualizado que a agente de endemias Ariadne Uruaçu tem no aplicativo e que ninguém da equipe nunca pediu.

Uma régua para o conjunto, para não prometer o que não cabe: nada aqui exige recurso novo, nenhum marco leva mais de uma manhã, e o mais demorado — a caminhada — leva duas tardes. O que não cabe em seis semanas é recadastrar uma microárea inteira, e é honesto dizer isso na primeira reunião em vez de na última.

Denominador, privacidade e prioridade. Cadastro validado para financiamento não é sinônimo de população residente nem denominador pronto de cobertura vacinal; usar faixa etária, vacina, território e período correspondentes, incluindo pessoas ainda invisíveis ao sistema. Corrigir cadastros com o responsável autorizado e preservar trilha; o interno não redefine território unilateralmente. Compartilhar listas nominativas só na equipe autorizada. Escalas de risco apoiam priorização, não negam atendimento: registrar adaptações, não alegar validação da versão modificada e manter visível o risco coletivo, como ausência de saneamento.

  1. Primeira semana, uma hora sentado — antes de qualquer caminhada

    Todo estágio curto que fracassa em território fracassa aqui: a pessoa sai a campo antes de esgotar o papel, gasta três semanas descobrindo a pé o que estava num relatório, e chega à reunião com anedota. Comece pedindo os três recortes que o sistema já produz e a contagem física que já existe. Uma hora de tela poupa duas semanas de rua e, o que importa mais, transforma a caminhada seguinte numa verificação de hipótese em vez de num passeio.

    Prescrição
    • À enfermeira ou a quem opera o sistema: "consigo três relatórios? Cadastros por microárea, cadastros com e sem o domiciliar, e cadastros pela data da última atualização."
    • Ao mesmo interlocutor, a pergunta que ninguém faz: "quantos cadastros desta equipe estão marcados como fora de área, e em quais ruas?"
    • À agente de combate às endemias: "você tem o croqui do último ciclo? Quantos imóveis habitados tem a microárea 4 no seu levantamento?"
    • Ao caderno próprio, três números e uma data: total de cadastros, total com domiciliar, total vencido — e o dia em que você os pegou, porque eles vão mudar
    • O que NÃO se faz: aceitar o número global da tela como população da área. Ele é uma contagem de cadastros válidos, e a diferença entre as duas coisas é o assunto do seu estágio
  2. Primeira semana, meia hora em pé no corredor — o mapa contra o sistema

    Ponha lado a lado o mapa afixado na parede e o limite que o sistema reconhece, e percorra o perímetro trecho a trecho perguntando, em cada um, a qual microárea pertence o que está do lado de dentro. O defeito quase sempre tem a mesma forma: o mapa foi desenhado quando o bairro terminava numa rua, e o bairro continuou. Redesenhar território é ato de gestão e não é seu; documentar a discordância com precisão é, e é o que torna a decisão possível.

    Prescrição
    • À preceptora, apontando o mapa: "este desenho é de quando? E o limite que está no sistema é o mesmo?"
    • A si mesmo, dedo no perímetro: onde o mapa termina numa rua que hoje tem casas do outro lado?
    • Ao papel, uma linha por trecho duvidoso: rua, quantos imóveis, a qual microárea pertence no mapa, a qual pertence no sistema
    • À gerência, quando houver discordância: "há uma rua com noventa e quatro imóveis que não aparece na base de logradouros. Quem decide a qual microárea ela pertence?"
    • O que NÃO se faz: redesenhar o mapa por conta própria, nem pintar quarteirão novo na folha da parede. Território é definido pela gestão, e mapa alterado sem decisão vira duas verdades no mesmo corredor
  3. Segunda semana, duas tardes — a caminhada, com quem mora ali

    Agora, sim, a rua. E com a agente comunitária ou com a de endemias, nunca sozinho: metade do que se aprende numa caminhada é o que a pessoa que mora ali comenta de passagem. O que se procura não está em ficha nenhuma, porque as fichas olham para dentro das casas e o território está entre elas. Volte com uma contagem, e não com uma impressão.

    Prescrição
    • À agente, no começo: "vamos fazer o caminho que a senhora faz. Eu conto as casas e a senhora me diz o que eu não estou vendo."
    • A cada trecho, quatro perguntas: onde a rua deixa de ter número; até onde passa o ônibus e até que hora; o que separa esta quadra da vizinha; e onde as pessoas se juntam
    • À agente, diante de cada casa fechada: "quem mora aqui? Trabalha fora? Tem alguém que não sai?"
    • Ao caderno: contagem de imóveis por trecho, com ponto de referência, e a marca de quais parecem habitados
    • O que NÃO se faz: entrar em casa sem convite, nem perguntar sobre saúde de terceiros na porta. A caminhada é reconhecimento de território, e o cadastro é outra visita, com outra combinação
  4. Segunda e terceira semanas, duas horas — a fila do fora de área

    Peça a lista de cadastros marcados como fora de área e confira endereço por endereço contra o mapa. Debaixo do mesmo quadrinho moram duas situações diferentes e a conduta é oposta. Quem de fato mora fora do território é caso de atendimento com aviso à equipe de referência, e o assunto é do capítulo da posição 7. Quem mora dentro, numa rua que a base de logradouros não conhece, é erro de cadastro — e conserto de erro de cadastro devolve gente à conta.

    Prescrição
    • À recepção: "quando alguém chega e a rua não está na lista, o que vocês fazem? Alguém avisa a equipe depois?"
    • À lista, endereço por endereço: mora dentro do perímetro ou fora? Se dentro, é erro de base e não de pertencimento
    • A quem opera o sistema: "consigo criar este logradouro? Existe função de mesclar logradouro duplicado no aplicativo do território."
    • À Iluminata, se ela voltar: "a senhora está cadastrada aqui como se morasse fora da nossa área, e não mora. Vou corrigir isso, e a partir daí a agente da microárea passa na sua casa."
    • Ao prontuário, quando a pessoa for mesmo de fora: uma linha dizendo de qual equipe ela é, e que a informação foi passada — e a data
  5. Terceira semana, na reunião de equipe — calibrar a régua antes de aplicá-la

    A escala de risco familiar não se aplica antes de a equipe decidir o que pontua ali. Os próprios autores mandam fazer isso na reunião, e dão o exemplo que salva o instrumento: numa comunidade em que ninguém tem saneamento, saneamento deixa de ser risco familiar e passa a ser risco de área — se ficar na escala, todo mundo pontua três, e uma régua em que todo mundo pontua não ordena nada. Essa meia hora de reunião é o que separa uma lista útil de uma planilha.

    Prescrição
    • À equipe: "trouxe a escala de 2004. Antes de aplicar, quais sentinelas fazem sentido aqui? O que é risco de família e o que é condição de todo o bairro?"
    • À equipe, sobre a perda conhecida: "desnutrição vale três pontos na escala e não tem campo no cadastro de hoje. O que a gente usa no lugar, e quem confere?"
    • À equipe, sobre a única sentinela que exige conta: "os campos de número de moradores e número de cômodos existem, e o sistema não divide um pelo outro. Alguém precisa fazer isso à mão."
    • Ao papel, com data: a lista das sentinelas que a equipe decidiu pontuar, assinada pela reunião, para que a próxima pessoa saiba com que régua a lista foi feita
    • O que NÃO se faz: aplicar a escala sozinho, no computador, e chegar com o ranking pronto. O ranking pronto sem calibração é o começo de uma discussão sobre o método em vez de sobre as famílias
  6. Quarta semana, uma manhã — o que no território não é casa

    A lista de tipos de imóvel do cadastro territorial é um roteiro de reconhecimento lido de trás para a frente: escola, creche, abrigo, instituição de longa permanência para idosos, unidade prisional, unidade socioeducativa, delegacia, estabelecimento religioso. Cada um concentra pessoas por quem a equipe responde e que ela não vê. E, para as instituições de permanência, a ficha pede o nome da instituição e a identificação do responsável técnico, com cargo e telefone — um bloco que existe há anos e quase nunca é preenchido.

    Prescrição
    • À agente: "quais imóveis da microárea não são casa? Tem escola, creche, casa de repouso, igreja com atividade?"
    • Na casa de repouso, ao responsável técnico: "quantas pessoas moram aqui, e quantas são da nossa área? Quem é o médico delas hoje?"
    • Ao cadastro territorial: nome da instituição, responsável técnico, cargo e telefone — é o bloco que transforma um prédio numa ponte
    • À escola: "quantos alunos moram na Rua do Pinhal?" — é a contagem mais barata de crianças de uma rua sem cadastro
    • À reunião: "a instituição de longa permanência da rua de cima tem dezenove idosos e não está no cadastro territorial de ninguém."
  7. Quinta semana, na reunião de planejamento — o que se leva, e como

    É o marco para o qual os outros cinco existem, e ele se ganha ou se perde pela forma. Reunião de planejamento não decide sobre impressão; decide sobre número com nome. Leve a diferença entre as contagens, a lista ordenada, a proposta de quem faz o quê e — a parte que quase ninguém leva — o que vai deixar de ser feito para caber. Priorização sem despriorização declarada não é plano, é acúmulo.

    Prescrição
    • Abrindo, com o número: "o sistema conta 1.147 pessoas na equipe. O croqui da vigilância tem tantos imóveis habitados na microárea 4, e o cadastro domiciliar tem tantos. A diferença é esta."
    • Em seguida, com a lista: "são tantas famílias com escore igual ou maior que o corte que combinamos, por microárea, com nome. As cinco primeiras estão aqui."
    • A proposta, sempre junto com o problema: "proponho duas vagas de visita por semana na agenda, cobrindo as cinco primeiras em cinco semanas, com a enfermeira e comigo."
    • A parte que dói e é obrigatória: "para caber, sai a visita de rotina de quinta à tarde na microárea 1, que hoje repete as mesmas quatro casas. Precisamos avisar essas quatro famílias."
    • O pedido de decisão que não é seu: "a Rua do Pinhal precisa entrar na base de logradouros e ter microárea. Quem decide isso, e até quando?"
    • O que NÃO se leva: adjetivo. A microárea 4 está abandonada não é pauta; a microárea 4 gerou tantos registros de visita em seis meses contra tantos da microárea 3 é
  8. Sexta semana — o que fica depois que você sai

    Quase tudo o que um interno faz num território vai embora com ele, e três coisas não vão: uma contagem escrita, uma lista ordenada com dono, e um logradouro criado na base. As três cabem no tempo do estágio e as três continuam servindo em janeiro. Escolha o que deixar, deixe com nome de responsável na ata, e diga em voz alta o que não deu tempo — porque a lista do que não deu tempo é, ela mesma, um achado do diagnóstico.

    Prescrição
    • À preceptora: "deixo três coisas: a contagem da microárea 4 com data, a lista de risco familiar calibrada pela equipe, e a Rua do Pinhal criada na base com noventa e quatro imóveis."
    • À ata, sem exceção: quem fica responsável por cada uma depois da sua saída, com nome e não com cargo
    • À agente Teodolinda, se ela seguir cobrindo a microárea 4: "a lista está por ordem. Se a senhora conseguir três casas por semana, as cinco primeiras saem em duas semanas."
    • À preceptora, com honestidade: "o que não deu tempo foi recadastrar a microárea inteira; são cerca de 250 casas e dez por mês é o ritmo possível. Isso é decisão de equipe, não tarefa de interno."
    • Ao seu próprio caderno, para o resto do curso: a data em que você fez a contagem. Toda contagem de território envelhece, e a sua começou a envelhecer no dia em que ficou pronta
09

Como saber se está funcionando

Trabalho de território tem um problema de retorno que a clínica não tem: ninguém reclama. A casa que ninguém visitou não liga; a rua que não entrou na base não protesta; o cadastro que venceu não avisa. O estrago aparece meses depois, numa internação que ninguém previu, e nunca com o nome da causa. Por isso estes parâmetros e não outros: cada um é verificável com o dado que a própria unidade já produz, sem sistema novo e sem pedir nada a ninguém de fora. Os três primeiros medem se o território ficou mais conhecido; os quatro últimos medem se o conhecimento virou conduta — que é onde este tipo de trabalho costuma morrer.

A diferença entre a contagem física de imóveis e o número de cadastros domiciliaresRefeita ao fim do estágio e a cada seis meses, comparando com a data da primeira medida

Esperado: A diferença encolhe, e o que encolheu é explicável casa a casa

Se não melhora: Se a diferença não encolhe, há três causas e elas se distinguem com uma pergunta cada. Faltou quem cadastre — e aí é escala, não método. Faltou base de logradouro para cadastrar — e aí é a rua que não existe no sistema, que se resolve na gerência. Ou o que se cadastrou não foi validado pelo sistema, que é a causa mais frustrante e a menos visível: cadastro com documento inconsistente ou com dado de profissional errado não entra na conta, e ninguém é avisado. Peça o relatório de inconsistências antes de concluir que ninguém trabalhou.

Cadastros com o domiciliar e territorial associado, sobre o total de cadastrosMensal, no mesmo relatório, por microárea

Esperado: A proporção sobe, e sobe mais depressa nas microáreas onde havia mais cadastro individual isolado

Se não melhora: Cadastro individual sem domiciliar é o que a recepção consegue fazer sozinha, e por isso é o que mais cresce quando a unidade se esforça. A correção não é insistir com a recepção: é combinar que todo cadastro individual feito no balcão gera um pedido de visita para o domiciliar, com dono e com prazo. E vale lembrar à equipe a metade que não é dinheiro: o cadastro domiciliar é o único que traz saneamento, número de moradores e número de cômodos — sem ele não há leitura de risco da casa, com ou sem financiamento.

Registros de visita domiciliar por microárea, no mêsMensal, comparando as microáreas entre si e cada uma consigo mesma

Esperado: Nenhuma microárea com número próximo de zero; e a que estava zerada sobe depois que alguém assume a cobertura

Se não melhora: Microárea sem registro de visita é microárea sem varredura, e todo indicador de busca ativa dela vai parecer bom. Se o número não sobe depois de a cobertura ser combinada, confira duas coisas antes de cobrar a pessoa: se as fichas de papel estão sendo digitadas — pilha de ficha não digitada é a causa mais comum de área que parece parada — e se quem está cobrindo tem tempo protegido para isso na escala, e não apenas boa vontade quando sobra.

Cadastros marcados como fora de área, e quantos deles eram erro de baseUma vez, ao revisar a lista, e depois a cada trimestre sobre os novos

Esperado: A lista encolhe, e a parte que encolheu volta para dentro de uma microárea

Se não melhora: Se a lista volta a crescer depois de revisada, a causa está no balcão e não no território: alguém continua marcando fora de área porque é a única saída que o sistema oferece quando a rua não está na lista. O conserto é anterior e é de base — criar o logradouro. Enquanto ele não existe, combine com a recepção que todo fora de área novo entra numa folha, com endereço, para conferência semanal. Uma folha resolve o que um sistema não resolve.

Pessoas cadastradas e sem nenhum contato assistencial registrado em doze mesesTrimestral, com a lista impressa por microárea e por nome

Esperado: A lista existe, é entregue dividida entre quem visita, e o número cai entre uma medida e a seguinte

Se não melhora: Quando a lista não encolhe, duas causas explicam quase tudo, e nenhuma delas é falta de empenho. A primeira: ela saiu do sistema como bloco único, sem divisão por microárea, e o que não tem dono não anda — o conserto é recortar e nomear. A segunda: os telefones estão vencidos, e quem sai para procurar bate em número que mudou de dono. Essa segunda se corrige no balcão, em trinta segundos por consulta, conferindo endereço, ponto de referência e um contato alternativo de alguém que saiba onde a pessoa está. Sem ponto de referência não se acha casa de fundos.

As famílias do topo da lista de risco receberam visita, e em quanto tempoQuinzenal, sobre as cinco primeiras da lista calibrada

Esperado: Cada uma tem data de visita realizada, ou uma razão escrita para não ter

Se não melhora: Se a lista existe e as visitas não acontecem, o problema não é de priorização: é de agenda. Duas vagas por semana precisam estar na agenda como estão as consultas, e não no espaço que sobrar — porque não sobra. E confira o desfecho registrado: a ficha de visita só admite três, visita realizada, visita recusada e ausente, e uma sequência de ausente na mesma casa é informação, não fracasso. Ausente três vezes em horário comercial costuma significar que a família trabalha, e a correção é o horário da visita, não a insistência.

O que a reunião de planejamento decidiu, e o que apareceu na agenda depoisQuatro semanas depois da reunião, lendo a ata contra a agenda

Esperado: Cada decisão da ata tem correspondência visível na semana de trabalho, e cada uma tem nome de responsável

Se não melhora: Decisão de reunião que não muda agenda não foi decisão; foi concordância. O padrão típico é a ata dizer que a equipe vai priorizar a busca ativa sem que nenhuma hora tenha sido liberada para isso — e nesse caso a culpa não é de quem não fez. Volte à reunião com a pergunta que fecha o ciclo: o que saiu da agenda para isto entrar? Se a resposta for nada, o plano não foi aprovado, foi elogiado.

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Onde o erro machuca

Tomar o número de cadastros como população da área

O dano: É o erro fundador, e ele contamina tudo o que vier depois: virando denominador, esse número infla cobertura vacinal, infla prevalência e faz parecer que a equipe conhece quem não conhece. O número exclui, por regra escrita, quem está marcado como fora de área, quem tem registro de mudança de território, quem foi identificado apenas por cadastro rápido e quem passou dos 24 meses sem atualização — quatro exclusões que ninguém vê na tela.

Como pegar a tempo: Troque o verbo e a frase muda de valor: a equipe não tem 1.147 pessoas, tem 1.147 cadastros que o sistema aceitou. E peça sempre as três quebras — por microárea, por tipo de cadastro e por data de atualização — antes de usar qualquer total. Como se escolhe e se defende um denominador é o capítulo Quem tem, e quem passou a ter, na posição 5 desta apostila.

Ler indicador estável de microárea sem agente como boa notícia

O dano: É o erro mais silencioso do capítulo, porque produz tranquilidade. Quase todo indicador de território depende de alguém ter ido ver: sem visita param de nascer os registros que alimentam as listas de busca ativa, e as curvas ficam lisas. Uma microárea sem acamado registrado não é uma microárea sem acamados; é uma microárea onde ninguém entrou nas casas.

Como pegar a tempo: Antes de interpretar qualquer indicador de território, pergunte quantos registros de visita aquela microárea gerou no período, e compare com as vizinhas dentro da mesma unidade. Estabilidade em área descoberta é alarme. E a comparação interna é grátis: usa o dado que a própria equipe produziu.

Usar o quadrinho de fora de área como resposta em vez de como hipótese

O dano: Debaixo do mesmo campo moram duas situações opostas: quem realmente mora fora do território, e quem mora dentro numa rua que a base de logradouros não conhece. A segunda é erro de cadastro, e mantê-la produz gente que é atendida, tem prontuário e não entra em conta nenhuma — nem na de vínculo, nem na lista de busca ativa, nem no planejamento. A pessoa não fica invisível ao serviço; fica invisível ao número que descreve o serviço.

Como pegar a tempo: Revise a lista inteira de fora de área contra o mapa, endereço por endereço; é tarefa de duas horas. Quem estiver dentro do perímetro tem erro de base, e o conserto é criar o logradouro e refazer o cadastro com microárea. Quem estiver mesmo fora é atendimento com aviso à equipe de referência, e esse assunto é do capítulo da posição 7.

Aplicar a escala de risco familiar sem calibrar e sem dizer o que ela perdeu

O dano: Aplicada crua, a régua devolve uma lista em que quase todo mundo pontua — porque numa comunidade sem saneamento a sentinela do saneamento dá três pontos a todas as casas — e uma lista em que todo mundo pontua não ordena nada. Aplicada sem ressalva, ela é apresentada como se medisse gravidade clínica, o que ela não faz e nunca pretendeu fazer.

Como pegar a tempo: Faça a calibração na reunião, como os próprios autores mandam: a equipe decide quais sentinelas pontuam naquela comunidade, e o que é condição de todo o bairro sai da escala de família e vira risco de área. E diga as perdas em voz alta: desnutrição grave vale três pontos e não tem campo no cadastro de hoje; deficiência mental virou duas caixas; desemprego virou duas; e a razão entre moradores e cômodos existe como dois campos que o sistema não divide.

Sair a campo antes de esgotar o que já está escrito

O dano: Num estágio de seis semanas, três delas se perdem descobrindo a pé o que estava num relatório de dois cliques ou no croqui que a agente de endemias tem no aplicativo. Pior: sem os números de partida, a caminhada não tem hipótese para verificar, e o que volta dela é impressão — que não entra em reunião de planejamento e não muda agenda nenhuma.

Como pegar a tempo: Uma hora de tela e meia hora de corredor antes da primeira caminhada. Três relatórios do sistema, a contagem de imóveis do último ciclo do controle de vetores, e o mapa da parede conferido contra o limite que está no sistema. Depois disso a rua responde perguntas em vez de gerar impressões.

Entregar prioridade nova sem dizer o que deixa de ser feito

O dano: As horas da equipe são fixas, e toda visita nova ocupa uma hora que já tinha dono. Quando a despriorização não é declarada, ela acontece de qualquer jeito — em silêncio, escolhida por quem tem a agenda na mão, quase sempre às custas de quem não reclama. E a família que era visitada toda semana descobre a mudança pela ausência, o que queima o vínculo que o agente levou anos construindo.

Como pegar a tempo: Toda proposta de priorização entra na ata com o par completo: o que passa a ser feito e o que sai para caber, com nome das famílias afetadas e com combinação de quem avisa cada uma. Se ninguém consegue dizer o que sai, é porque a proposta não foi aceita — foi elogiada.

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O que dizer ao paciente e à família

As conversas deste capítulo acontecem quase todas em pé, na porta de uma casa ou no corredor da unidade, e nenhuma é sobre doença. São sobre desconfiança, sobre fila e sobre limite do que você pode prometer. Duas regras atravessam todas. A primeira: nunca use a régua como explicação para quem está do lado de fora dela — dizer que o cadastro precisa ser atualizado a cada 24 meses não significa nada para quem abriu a porta, e soa a cobrança. A segunda: diga sempre o que acontece depois, com data, mesmo quando o que acontece depois é pouco.

E uma regra sobre a assimetria de quem pergunta. Numa caminhada de território você está pedindo informação a pessoas que não pediram nada. Isso muda o tom: pergunta-se menos, escuta-se mais, e não se entra em casa nenhuma sem convite. O cadastro é outra visita, com outra combinação.

Na porta de uma casa, durante a caminhada: "vocês só aparecem quando querem alguma coisa."

"A senhora tem razão de estranhar. Eu sou o interno e vim com a dona Teodolinda porque a gente está refazendo o levantamento das casas desta rua — a última vez foi há muito tempo e várias casas nem constam. Não vim pedir nada hoje e não preciso entrar. Só queria saber quantas pessoas moram aqui e se tem alguém que não consegue ir ao posto. Se a senhora preferir, a gente volta outro dia com a agente e a senhora escolhe a hora."

Não diga: Explicar a regra de atualização do cadastro, que não interessa a ela e soa a burocracia; e prometer o que não depende de você — mais consulta, mais remédio, mais visita — para comprar boa vontade na porta. Promessa não cumprida numa rua se espalha pela rua inteira, e quem paga é a agente, que continua ali depois que você sai.

A agente comunitária, olhando a lista ordenada: "se a gente fizer assim, as famílias que eu visito toda semana vão achar que eu abandonei elas."

"Vão mesmo, se ninguém falar com elas. Então não é a senhora que muda sozinha: a equipe decide na reunião, fica em ata, e a gente combina quem avisa cada uma. Eu proponho que a senhora avise pessoalmente as quatro da microárea 1, dizendo que vai continuar passando, só que a cada quinze dias, e o motivo verdadeiro — que apareceram casas que estão há um ano sem ninguém. E se alguma delas piorar, ela volta para o topo. A lista não é sentença, é ordem de começar."

Não diga: Tratar como detalhe operacional o que é vínculo de anos; e transferir para a agente a tarefa de justificar uma decisão que foi da equipe. Também o extremo oposto: recuar da priorização para não desagradar, o que devolve a fila ao critério que ela tinha antes — proximidade, simpatia e quem reclama.

Um morador da rua sem base de logradouro: "aqui não é do posto de vocês, moço. Já me disseram lá."

"Foi isso mesmo que disseram, e eu vim justamente conferir. O que eu já sei é que esta rua não está na lista de ruas do sistema, e por isso quem chega de cá é marcado como se morasse fora da nossa área. Não é a mesma coisa que ser de outro posto — é a rua que não existe no computador. Eu estou contando as casas hoje para levar isso para a reunião. Não posso prometer o resultado, mas posso prometer a pergunta: até o dia tal, alguém vai ter dito de quem é esta rua."

Não diga: Afirmar que a partir de agora eles são da unidade antes de a gestão decidir — território é definido pela gestão, e prometer pertencimento que você não pode entregar produz uma segunda decepção pior que a primeira. E também dizer apenas não sei, que devolve a pessoa ao ponto de partida.

Ao telefone, a esposa do seu Acrísio: "ele não vai ao posto, e ninguém vem aqui há mais de um ano."

"A senhora está certa, e eu conferi antes de ligar: a última visita registrada é de onze meses. Isso é falha nossa, não de vocês. A microárea de vocês está sem agente desde março e ninguém assumiu direito. Eu queria marcar uma visita com a enfermeira nesta semana, e queria que fosse num horário em que a senhora possa estar, porque preciso ver as caixas de remédio e conversar com o senhor Acrísio. Que dia e que hora são bons?"

Não diga: Perguntar por que eles não procuraram a unidade — a pergunta transfere ao paciente uma obrigação que é do serviço e fecha a conversa. E marcar a visita em horário comercial só porque é o horário da equipe: três registros de ausente na mesma casa quase sempre significam que a família trabalha, e a correção é o horário, não a insistência.

A recepcionista, quando você aparece com a lista de fora de área: "eu marco assim porque o sistema não deixa passar de outro jeito."

"Eu sei, e é por isso que eu trouxe a lista para a gente ver junto e não para apontar erro. O quadrinho está na ficha exatamente para essa situação, e você fez o que dava para fazer. O problema é lá atrás: essa rua não está cadastrada na base. O que eu queria propor é o seguinte — enquanto ninguém cria a rua no sistema, todo fora de área novo você anota nesta folha com o endereço, e uma vez por semana a gente confere quais são de fora mesmo e quais são desta rua. São dois minutos por semana."

Não diga: Chegar com a lista como se fosse auditoria de trabalho alheio: quem opera o balcão é quem mais depende de o sistema funcionar, e transformar a recepção em ré fecha a única porta de conserto rápido. E também aceitar a explicação e ir embora, que é como o problema se perpetua por anos com todo mundo sabendo dele.

A preceptora, na reunião: "isso é trabalho da gestão, não é do interno."

"Concordo, e não vim propor que eu decida nada. Definir território é da gestão, e eu não redesenhei mapa nenhum. O que eu trouxe é a contagem: noventa e quatro imóveis numa rua que não está na base, e trinta e um cadastros marcados como fora de área que são todos dessa rua. A decisão continua sendo da senhora e da gerência. Eu só achei que ela ficava mais fácil de tomar com o número na mesa."

Não diga: Insistir no mérito da decisão, que de fato não é seu; e o extremo oposto, recolher o achado e guardá-lo por prudência, que é como um interno passa seis semanas numa unidade sem deixar nada. Documentar não é decidir, e a diferença entre as duas coisas cabe numa frase.

O responsável técnico de uma casa de repouso da área: "aqui já tem médico particular, não precisa de posto."

"Entendo, e não vim substituir ninguém. O que a gente precisa é saber quem mora aqui e quantos são da nossa área, porque, do jeito que está, essas pessoas não aparecem em lista nenhuma nossa — inclusive nas de vacina e nas de campanha. Eu queria só registrar a instituição no nosso cadastro territorial, com o seu nome e um telefone, para que a gente saiba a quem ligar quando houver alguma coisa que dependa do serviço público. Se depois vocês quiserem alguma coisa a mais, a gente conversa."

Não diga: Discutir competência com quem controla a porta, o que garante que ela não se abra; e aceitar o não e ir embora, que deixa dezenove pessoas de alto risco fora do território conhecido. O pedido mínimo — nome da instituição, responsável e telefone — é o que a própria ficha de cadastro territorial prevê, e quase nunca é recusado.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

A visita domiciliar conta como acompanhamento da pessoa?

A nota técnica de setembro de 2025 inclui a visita entre as práticas de cuidado

A nota define pessoa acompanhada como a que apresenta mais de um contato assistencial em doze meses, sendo necessário que ao menos um seja uma prática de cuidado, e admite duas combinações: prática de cuidado com procedimento, ou prática de cuidado com outra prática de cuidado. E define o que são práticas de cuidado numa lista fechada de cinco modelos de informação, que inclui expressamente o de visita domiciliar e territorial, ao lado do atendimento individual, do odontológico, da atividade coletiva e dos marcadores de consumo alimentar. Nessa leitura, duas visitas domiciliares registradas no ano tornam a pessoa acompanhada, o que alcança justamente quem não sai de casa.

Nota Técnica nº 30/2025-CGESCO/DESCO/SAPS/MS, itens 2.6.4 e 2.6.4.4, assinada em 23 de setembro de 2025

O material de perguntas frequentes do mesmo ano exige atendimento nas duas pontas

O FAQ começa a resposta listando as visitas domiciliares e territoriais entre as possibilidades de contato, e termina restringindo: entende-se por mais de um contato com profissional de saúde o atendimento combinado com procedimento, ou o atendimento combinado com atendimento. Atendimento é outra coisa que visita — tem ficha própria, inclusive na modalidade domiciliar, e é preenchida por outro profissional. Lida ao pé da letra, a resposta exclui do par qualificador exatamente o registro que o agente comunitário produz, e a pessoa visitada todo mês e nunca atendida não é acompanhada.

FAQ do novo modelo de cofinanciamento federal da Atenção Primária à Saúde, Ministério da Saúde, 2025, resposta 21

Como decidir

Diante do seu Acrísio, que não sai de casa há três anos, a pergunta não é qual documento prevalece — é o que fazer nesta semana. Cumprir a exigência mais restritiva satisfaz as duas leituras, e ela é barata: garantir que, além das visitas do agente, haja no ano pelo menos um registro de atendimento domiciliar feito por profissional da equipe, com ficha própria. Uma visita conjunta da enfermeira por semestre resolve a divergência inteira e é, de qualquer modo, o que a clínica pediria para alguém com hipertensão e diabetes sem consulta há onze meses. E há um segundo teste, que é de honestidade da leitura: se a equipe descobre que só é considerada acompanhada a pessoa que recebe atendimento, isso não deve mudar quem ela visita — deve mudar quem ela leva junto na visita. Se mudar quem se visita, a régua passou a governar a clínica, que é o inverso do que ela existe para fazer.

De quem é a pessoa que trabalha na área e dorme em outro lugar

A política inclui trabalhadores e itinerantes na responsabilidade sanitária da equipe

O texto descreve a responsabilização sanitária como o papel que as equipes devem assumir em seu território de referência, contribuindo com intervenções clínicas e sanitárias nos problemas de saúde da população com residência fixa, dos itinerantes — e a política enumera população em situação de rua, ciganos, circenses, andarilhos, acampados e assentados — ou mesmo dos trabalhadores da área. E, ao tratar do acesso, repete que a unidade deve responder às necessidades da população residente e itinerante. Nessa leitura, o pedreiro da obra da esquina, que dorme em outro município, está dentro do território de alguém, e esse alguém é a equipe daquele chão.

Política Nacional de Atenção Básica, Anexo XXII, item 5, subitem II — Responsabilização Sanitária (texto do Diário Oficial de 3 de outubro de 2017)

A régua de contagem só reconhece quem tem cadastro com microárea

A norma de contagem exclui do cálculo os cadastros com o registro fora de área e os com registro de mudança de território, e considera apenas quem tem cadastro individual válido. As fichas oferecem duas saídas para quem não mora ali: o número da microárea, que pressupõe residência no território, e o quadrinho fora de área, que exclui a pessoa da conta. Não há categoria de trabalhador da área, nem de itinerante, nem de população flutuante. Nessa leitura, a responsabilidade existe e a contabilidade não a acompanha — quem cuidar dessas pessoas cuidará delas fora de qualquer número que descreva o serviço.

Nota Técnica nº 30/2025, item 3.4, alíneas b e c; e a legenda impressa das fichas de cadastro individual e domiciliar

Como decidir

A decisão de política não é sua, mas a do turno é. Diante da pessoa, a responsabilidade da política é expressa e não depende de cadastro: atende-se, avalia-se risco e resolve-se o que é de hoje. Depois, três perguntas separam os casos que a equipe consegue tratar diferente. A pessoa dorme em outro território mas passa o dia inteiro neste, todos os dias? Então há duas equipes envolvidas e a única conduta que impede o cuidado órfão é avisar a de residência, dizendo a conduta desta semana e o que ficou pendente. A pessoa é itinerante, sem residência fixa? Então o cadastro individual tem bloco próprio para situação de rua, com tempo de rua, alimentação, higiene e referência familiar, e preenchê-lo é o que existe. A pessoa é população sazonal — safra, obra, temporada? Então isso não é caso individual: é característica do território, e entra no diagnóstico como entra um córrego ou uma linha de trem, com contagem e com época do ano. Nenhuma dessas três é resolvida pela régua de contagem, e é por isso que ela não deve ser a única lista que a equipe olha.

Visitar todo mundo ou visitar primeiro quem pontua

A cobertura universal da microárea é a obrigação escrita do agente

A política manda o agente trabalhar com adscrição de indivíduos e famílias em base geográfica definida e cadastrar todas as pessoas de sua área, mantendo os dados atualizados e utilizando-os de forma sistemática para a análise da situação de saúde. E manda realizar visitas domiciliares com periodicidade estabelecida no planejamento da equipe e conforme as necessidades de saúde da população. Todas as pessoas, sem exceção declarada. Quem abandona a varredura universal perde exatamente o que a torna diferente de um ambulatório: a informação sobre quem nunca procura o serviço, que só existe porque alguém passa em todas as casas.

Política Nacional de Atenção Básica, Anexo XXII, item 4.2.6, alínea b, atribuições do ACS

A equidade exige tratar desigualmente os desiguais, e por isso a fila tem ordem

Os autores partem do problema explícito de que a lista de uma equipe excede os parâmetros e perguntam quem visitar primeiro. Invocam a equidade como princípio — tratar desigualmente os desiguais — e concluem que é preciso um critério objetivo para diferenciar famílias, sob pena de a fila ser organizada por proximidade e por quem reclama. A mesma política, aliás, manda dar especial atenção às pessoas com agravos e condições que necessitem de maior número de visitas, e manda priorizar as intervenções segundo frequência, risco, vulnerabilidade e resiliência. Nessa leitura, visitar todos com a mesma frequência é distribuir igualmente um recurso escasso entre necessidades desiguais.

Coelho FLG, Savassi LCM. Rev Bras Med Fam Comunidade. 2004;1(2):19-26, seções de introdução e discussão

Como decidir

As duas obrigações são compatíveis se você separar duas coisas que a discussão junta: cobertura e frequência. Cobertura é universal e não se negocia — toda casa da microárea precisa ter sido vista, cadastrada e ter um responsável conhecido, porque é disso que sai a própria lista de prioridade; abandonar a cobertura é destruir o instrumento que produz a priorização. Frequência é que se diferencia, e é aí que a régua entra: a casa do topo da lista recebe visita a cada quinze dias e a de baixo a cada trimestre, e as duas continuam existindo no mapa. O teste prático, para o caso concreto: quando a equipe discutir a lista, pergunte se a proposta reduz a frequência de alguém ou se elimina alguém da cobertura. Reduzir frequência é priorização; eliminar da cobertura é perder território, e volta em seis meses como uma internação que ninguém viu chegar.

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O raciocínio, em voz alta

Quarta-feira, 14h10, quarta semana do estágio. Na sua mão está a lista de risco familiar que a equipe calibrou na reunião de segunda, e a terceira linha dela é a casa de Acrísio Cravinhos, 74 anos, microárea 4 — a que está sem agente comunitário desde março. O cadastro domiciliar é de setembro de 2023 e registra cinco moradores, três cômodos e escoamento do banheiro a céu aberto. O cadastro individual dele traz acamado, hipertensão e diabetes; o da esposa, 71 anos, traz apenas a idade. A última visita registrada no prontuário é de onze meses atrás, assinada pela agente que se aposentou. A agenda da tarde tem duas vagas de visita, criadas pela reunião de segunda, e a enfermeira Salete Sumidouro tem duas horas.

  1. o que a lista diz, e o que ela não diz

    A casa soma alto: acamado vale três, saneamento ruim vale três, um maior de setenta anos vale um, hipertensão um, diabetes um — e cinco moradores em três cômodos dá razão maior que um, o que vale mais três. Nada disso é diagnóstico. A escala não mede gravidade clínica e não pretende medir: ela responde a uma pergunta de ordem, que é por qual casa começar, e responde bem porque quase todos os seus pontos vêm de condição de vida, que é o que a visita resolve e a consulta não.

  2. conferir a régua antes de bater na porta

    Vale um minuto de conferência, porque a régua é de 2004 e o cadastro é de hoje. Acamado, hipertensão, diabetes e idade têm campo direto. Saneamento não tem campo único: a equipe decidiu, na reunião, que conta como baixa condição o escoamento a céu aberto — e essa decisão está em ata, com data, de modo que a próxima pessoa saiba com que régua a lista foi feita. E a razão entre moradores e cômodos precisou ser calculada à mão: os dois campos existem na ficha e o sistema não divide um pelo outro.

  3. o que o cadastro de 2023 já não garante

    Setembro de 2023 significa que o cadastro domiciliar passou dos 24 meses, e o efeito não é só de contagem: os cinco moradores podem ser três ou sete, o filho pode ter saído ou voltado com crianças, o esgoto pode ter sido ligado à rede. Um cadastro vencido não é um dado errado — é um dado que ninguém sabe se ainda vale. Isso muda o que você leva na pasta: a ficha de cadastro domiciliar vai junto, porque a visita é também um recadastro.

  4. o que se combina antes de ir

    Ligar antes e perguntar o horário em que alguém está em casa, e não o horário em que a equipe pode. Depois combinar quem vai — você e a enfermeira, e não você sozinho, porque metade do que precisa ser feito ali é de enfermagem. E combinar o que se leva: aparelho de pressão, glicosímetro, a ficha de cadastro domiciliar e uma folha em branco para a lista de medicamentos que estiverem na casa.

  5. o que a visita descobre que o cadastro não tinha

    As duas horas devolvem o que nenhum relatório traz. Que a esposa também tem pressão alta e nunca foi cadastrada como tal, porque nunca foi consultada. Que a caixa de metformina está cheia e vencida, o que é decisão de não tomar e tem motivo a investigar. Que a casa tem um degrau na porta que impede a cadeira de rodas de sair, o que explica três anos sem consulta melhor do que qualquer conversa sobre adesão. E que moram ali agora sete pessoas, e não cinco — o que sozinho refaz a pontuação da casa e a move na lista.

  6. os dois registros que a visita gera, e por que são dois

    Aqui há uma regra operacional que quase todo interno erra. A ficha de visita domiciliar e territorial é de uso exclusivo do agente comunitário e do agente de combate às endemias; a documentação do sistema diz isso com todas as letras. O que você e a enfermeira fizeram não se registra nela: registra-se como atendimento, com o local indicado como domicílio. Isso não é detalhe de formulário — é o que faz o seu Acrísio passar a contar como pessoa acompanhada em qualquer das duas leituras divergentes da regra, e é a maneira mais barata de resolver a divergência sem discutir com norma nenhuma.

  7. o cadastro que se atualiza na mesma visita

    Antes de sair, o recadastro: sete moradores, três cômodos, escoamento, a esposa cadastrada com hipertensão, telefone conferido e um segundo telefone de alguém que localize a família. Ponto de referência escrito por extenso, porque sem ponto de referência ninguém acha casa de fundos. Isso leva dez minutos, dobra o peso daquela família em qualquer conta e, o que importa mais, faz a casa aparecer na próxima lista com a pontuação verdadeira.

  8. o que vai para a reunião, e com que número

    Três coisas. A primeira, clínica e individual: seu Acrísio precisa de seguimento definido, com dono e data, e a esposa entrou na lista de hipertensos que ninguém sabia que existia. A segunda, de território: numa casa da microárea 4, o cadastro estava dois anos vencido e subestimava a família em duas pessoas — quantas outras estão assim naquela microárea? A terceira, de agenda: as duas vagas de visita por semana renderam, nesta primeira, um cadastro corrigido, uma hipertensa nova e um caso que estava perdido há onze meses.

  9. a decisão que este caso guarda para as outras cinco semanas

    A decisão que mudou tudo não foi clínica e foi tomada antes da porta: escolher esta casa entre as duzentas e cinquenta da microárea, com uma régua explícita, dita em reunião e escrita em ata. Sem a régua, a visita da quarta-feira teria acontecido em alguma casa — provavelmente na mais perto, ou na de quem ligou reclamando. É essa a diferença entre uma equipe que responde por um território e uma que responde a quem consegue chamá-la.

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Faça você

Sexta-feira, 9h30. Zéfiro Piracaia, 52 anos, chega à unidade pela primeira vez. É vigia de um depósito de materiais de construção da microárea 4 e dorme lá de segunda a sexta, num quarto nos fundos; nos fins de semana volta para a casa da família, num município a quarenta quilômetros. Tem uma úlcera no pé direito há três semanas, diz que é diabético, e a última consulta foi há mais de um ano, na cidade onde a família mora. Não tem o cartão do SUS em mãos e sabe o número do CPF de cor. A recepcionista já perguntou o endereço e ficou com a caneta parada em cima do campo da microárea, sem saber o que escrever. A preceptora está na sala ao lado e a agenda tem uma vaga de encaixe.

  1. a pergunta que NÃO se faz primeiro

    A pergunta de pertencimento não abre este atendimento, e é a que todo mundo faz primeiro. Uma úlcera de três semanas em pé de diabético é um problema de hoje, com risco de hoje, e a decisão sobre a qual equipe ele pertence não muda nada do que precisa acontecer nos próximos vinte minutos. O que a equipe deve a quem não é da área é assunto do capítulo da posição 7 desta apostila, e a regra de lá vale aqui inteira.

  2. o campo em que a caneta parou

    Há duas saídas no formulário e elas não são equivalentes. Escrever um número de microárea afirma que ele mora naquele pedaço do território. Marcar fora de área registra a pessoa e a retira, por regra escrita, de qualquer contagem de vínculo da equipe. Não existe terceira caixa — não há categoria de trabalhador da área nem de população flutuante —, e é exatamente aqui que a divergência entre a responsabilidade e a contabilidade fica visível numa caneta parada.

  3. o imóvel em que ele dorme

    Repare no detalhe que muda a natureza do caso. O depósito de materiais de construção é, na lista de tipos de imóvel do cadastro territorial, um ponto estratégico — a mesma categoria de cemitério, borracharia e ferro-velho, criada para controle de vetores. Quando o tipo escolhido não é domicílio, o sistema desabilita os blocos de condições de moradia, de animais e de famílias. Ou seja: o lugar onde ele dorme cinco noites por semana existe no cadastro do território e não tem onde registrar em que condições se dorme ali.

  4. as três perguntas que separam este caso de um caso individual

    Quantas pessoas dormem naquele depósito. Quantos outros imóveis da microárea abrigam trabalhadores que dormem no serviço. E se essa presença é permanente ou de safra. As respostas não mudam a conduta com o seu Zéfiro e mudam inteiramente o que a equipe faz na semana seguinte: um trabalhador alojado é um caso; doze são uma característica do território, e características de território entram no diagnóstico como entra um córrego.

  5. o que se combina com a outra equipe, e como

    Ele tem equipe de referência onde a família mora, e essa equipe não sabe que ele passa cinco dias fora. Sem aviso, o que acontece aqui vira episódio órfão: exame pedido que ninguém acompanha, curativo iniciado que ninguém continua, mudança de medicação que ninguém registra. O aviso não depende de sistema: depende de três linhas — a conduta de hoje, a prescrição, e o que fica pendente —, com data e com o nome de quem escreveu.

  6. o que se escreve no prontuário, mesmo sem resolver o pertencimento

    A linha que impede este caso de sumir entre duas cidades. Qual é o serviço de referência dele, qual é a jornada — de segunda a sexta neste território, fins de semana no outro —, o que fica com esta unidade nesta semana, o que fica com a equipe de lá, e a data do próximo contato. Sem essa linha, cada uma das duas equipes vai supor que a outra está cuidando.

Ver como fecharíamos

A conduta certa tem seis movimentos, nesta ordem. Primeiro, tratar o que é de hoje sem esperar decisão administrativa: úlcera de três semanas em pé de diabético é avaliação de risco imediata, com exame do pé, pesquisa de sensibilidade, avaliação de perfusão e glicemia, e não há norma nenhuma que condicione isso a cadastro — a própria regra de cofinanciamento veda restringir atendimento por ausência de cadastro prévio. Segundo, cadastrar: com o CPF que ele sabe de cor dá para abrir cadastro individual completo, e cadastro completo é o que o transforma de identificado em cadastrado; sem ele, este atendimento não existirá para nenhuma lista da equipe. Terceiro, decidir o campo da microárea com honestidade e não com conveniência: ele não mora ali, e marcar fora de área é o registro verdadeiro — o que a equipe precisa saber é que essa escolha correta o retira da contagem, e que isso é limitação da régua, não motivo para falsear o dado. Quarto, cadastrar o imóvel: o depósito entra no cadastro territorial como ponto estratégico, e a equipe registra à parte, porque o sistema não tem onde, quantas pessoas dormem ali — essa informação vai para a ata da reunião, que é o único lugar onde ela cabe. Quinto, avisar a equipe de referência dele, em três linhas, com data e nome, e dizer isso a ele: o que eu fiz hoje vai chegar à sua equipe, e o acompanhamento do pé continua sendo lá, nos fins de semana, e aqui, durante a semana, enquanto a ferida não fechar. Sexto, levar à reunião não o caso, mas a pergunta que ele abre: quantos imóveis desta microárea abrigam trabalhadores que dormem no serviço, e quantas pessoas isso soma? Um Zéfiro que apareceu significa outros que não apareceram, e a política é expressa ao incluir os trabalhadores da área na responsabilidade sanitária da equipe, mesmo quando nenhuma régua de contagem os enxerga.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Debaixo do mesmo quadrinho de fora de área moram duas situações opostas. Uma é a pessoa que de fato reside fora do território, e nesse caso a marcação é o registro verdadeiro, o atendimento é obrigatório e o que falta é avisar a equipe de referência dela. A outra é a pessoa que reside dentro, numa rua que a base de logradouros não conhece — e aí não há questão de pertencimento: há erro de base. O conserto é anterior ao cadastro e é técnico: criar o logradouro, o que o aplicativo do território permite fazer, inclusive com função de mesclar ruas duplicadas, e então refazer o cadastro com microárea. Marcar microárea vizinha por conveniência falseia o dado; mandar as pessoas embora contraria a norma que veda restringir atendimento por ausência de cadastro prévio; e registrar atendimento como visita é registro falso, além de ser ficha de uso exclusivo de outra categoria. A conferência da lista inteira contra o mapa é tarefa de duas horas e costuma devolver gente à conta.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Sem consultar o texto, resolva a cena de abertura: Estimar população e risco do território com dados, campo e proteção de informações. Descreva os achados que sustentam a decisão, um erro evitável e o plano para mudança do quadro; depois compare com o caso resolvido.

Em 30 dias

Retome um caso real acompanhado sob supervisão ou simule o caso do capítulo. Explique o que mudou na sua decisão, confira se o próximo passo ocorreu e identifique uma melhoria concreta. Não use dados identificáveis fora do ambiente autorizado. Competência a demonstrar: Estimar população e risco do território com dados, campo e proteção de informações.

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Agora atenda

Agora atenda: menino de 2 anos trazido pela mãe à unidade básica de saúde depois de busca ativa da agente comunitária, que percebeu que ele não vinha à puericultura havia catorze meses; a mãe diz que ele come pouco e vive doente. Resolva primeiro o que é de hoje: história social ampliada e exame completo da criança. Depois faça as perguntas do território: onde exatamente a família mora, quantos dormem na casa, com quem ele passa o dia e quantas crianças dali também sumiram da unidade. Diga em voz alta o que vai registrar no cadastro da família e por quê, e feche a continuidade: quem da equipe responde por ele, quando é o próximo encontro e que serviço da rede precisa saber desta manhã.

Territorialização, adscrição de clientela e diagnóstico de saúde… – Falta gente na conta — Internato | OsceLabs