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Não aderiu

Determinantes sociais da saúde e o modelo de Dahlgren-Whitehead: iniquidade, acesso e negociação do plano possível

As camadas de Dahlgren-Whitehead lidas dentro da consulta, a diferença entre desigualdade e iniquidade, o que se pergunta sobre comida, transporte e jornada, e como se negocia um plano executável sem terminar escrevendo que o paciente não colaborou.

Fontes deste capítulo

Comissão Nacional sobre Determinantes Sociais da Saúde. As causas sociais das iniqüidades em saúde no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2008. 215 p. ISBN 978-85-7541-160-5 (impresso); 978-85-7541-591-7 (eletrônico). DOI 10.7476/9788575415917.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Nota Técnica nº 51/2024-CGAN/DEPPROS/SAPS/MS. Regras de uso da Triagem para o Risco de Insegurança Alimentar (TRIA) para relatórios públicos no SISAB. Processo nº 25000.073061/2024-01, SEI nº 0040812725. Brasília, maio de 2024.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Departamento de Prevenção e Promoção da Saúde. Instrutivo sobre cuidado às crianças com desnutrição na Atenção Primária à Saúde. Brasília: Ministério da Saúde, 2023. ISBN 978-65-5993-475-1. CDU 613.22.

Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 11.527, de 9 de junho de 2026. Institui a Política Nacional de Qualidade do Cuidado e Segurança do Paciente (PNQSP). Diário Oficial da União, 10 jun. 2026, edição 106, seção 1, p. 164.

Poblacion A, Segall-Corrêa AM, Cook J, Taddei JAAC. Validity of a 2-item screening tool to identify families at risk for food insecurity in Brazil. Cadernos de Saúde Pública. 2021;37(6):e00132320. DOI 10.1590/0102-311X00132320.

01

Responda antes de ler

A nota técnica federal que rege a triagem de risco de insegurança alimentar determina que, para definir a situação do domicílio, só seja considerada a última resposta registrada nos últimos seis meses do período avaliado. A mesma nota recomenda reaplicar a triagem entre seis e doze meses nos domicílios que não estão em risco. Uma equipe decide reaplicar a triagem exatamente a cada doze meses nesses domicílios. Qual é a consequência dessa escolha sobre o relatório do serviço?

02

O paciente que você vai ver

Quarta-feira, quatro e quarenta da tarde, ambulatório de egressos de um hospital de ensino. É o ambulatório que existe para ver, uma vez, quem teve alta da enfermaria — e a lista da tarde tem nove nomes, todos com um resumo de alta impresso e grampeado na frente da pasta. O sétimo nome é Veridiana Nantes, 61 anos, internada há cerca de sete semanas por descompensação de diabetes com uma úlcera infectada no pé direito. Ficou nove dias. Você era o interno da equipe e foi você quem escreveu o resumo de alta que está agora na sua mão.

Você reconhece a própria letra digitada. O plano tem seis linhas e é um bom plano. Dieta com restrição de sal e de açúcar de adição. Caminhada de trinta minutos, cinco vezes por semana. Curativo trocado em dias alternados. Retorno na unidade básica em trinta dias com glicemia de jejum e creatinina. Fundoscopia agendada no centro de especialidades. Manter metformina, insulina humana NPH e losartana conforme a receita entregue na alta.

Foram quarenta e três dias, não trinta. Veridiana entra devagar, senta, e responde ao que você pergunta com uma economia que você vai levar a consulta inteira para entender. A fundoscopia não foi feita. O retorno na unidade básica não aconteceu. Os exames não foram colhidos. O curativo, ela diz, foi trocado "quando dava". A insulina, ela tomou; a metformina, às vezes; a losartana ela não sabe dizer se acabou ou se ela parou.

Na pasta há uma folha a mais, de duas semanas atrás: um atendimento de demanda espontânea na própria unidade, por dor no pé. A conduta está escrita em três linhas, e a última delas diz, com todas as letras, paciente não aderente ao tratamento. Você lê aquilo e sente o alívio de uma explicação pronta. O plano estava certo. O plano não foi cumprido. Logo, a falha é dela.

A preceptora, a Dra. Albertina Rotta, está do outro lado da mesa e leu a mesma folha. Ela não discute a frase. Ela pede outra coisa: que você leia as suas seis linhas em voz alta, uma por uma, e diga, depois de cada uma, o que aquela linha está supondo que existe na vida de Veridiana.

É um exercício constrangedor porque é rápido. Dieta com restrição de sal e de açúcar supõe que exista escolha sobre o que entra em casa, e que exista onde guardar o que estraga. Caminhada de trinta minutos cinco vezes por semana supõe trinta minutos que não estejam vendidos a alguém, e supõe rua onde caminhar. Curativo em dias alternados supõe gaze, soro e mão livre — a dela ou de outra pessoa. Retorno em trinta dias com exames supõe uma manhã inteira, porque a coleta é em jejum e o resultado volta depois. Fundoscopia no centro de especialidades supõe deslocamento até o centro, num horário marcado por quem marcou. E manter três medicamentos supõe que os três estejam na farmácia da unidade no dia em que a cartela acabar.

Aí a Dra. Albertina faz a segunda pergunta, e é a que reorganiza a tarde: o que Veridiana faz da vida. Ela cuida de uma senhora acamada, na casa da senhora, seis dias por semana, sem carteira assinada. Sai de casa às seis e vinte, pega dois ônibus, volta depois das sete da noite. Nos dias em que ela não vai, ela não recebe. E na casa dela moram dois netos, de nove e de quatro anos, que ficam com a vizinha até ela chegar — e a vizinha também trabalha.

Com essas duas informações, as seis linhas do seu plano mudam de natureza. Nenhuma delas era clinicamente errada. Todas as seis eram inexequíveis para essa pessoa, e cinco delas eram inexequíveis por motivos que você poderia ter perguntado em noventa segundos na beira do leito, na véspera da alta. A frase da folha de demanda espontânea, a essa altura, já não descreve Veridiana. Descreve o plano.

Este capítulo é sobre isso: sobre a distância entre a conduta correta e a conduta executável, sobre o que se pergunta para medir essa distância antes de escrever o plano, e sobre o que se faz quando o ideal não cabe na vida da pessoa à frente. Não é um capítulo sobre a injustiça do mundo. É um capítulo sobre a quinta-feira à tarde: sobre o que muda no que você escreve, no que você pede e no que você registra.

Ele também é sobre a frase. Não aderiu é um diagnóstico de comportamento formulado sem exame — e, como todo diagnóstico formulado sem exame, ele encerra a investigação em vez de abri-la. Quando entra no prontuário, ele passa a ser lido pelo próximo profissional como dado clínico, e o próximo profissional vai partir dele. É o único achado deste capítulo que se propaga sozinho de consulta em consulta, sem que ninguém precise reafirmá-lo.

03

Quem adoece disso

A pergunta que abre este bloco não é quanta desigualdade existe no Brasil. É outra, mais estreita e mais útil ao interno: o que o Brasil mede, com que instrumento, e o que ele deixa de fora. Sem isso, o assunto vira opinião — e opinião não muda conduta.

Comece pelo que existe e é bom. A Pesquisa Nacional de Saúde de 2019 publica quase todos os seus indicadores estratificados por sexo, faixa etária, cor ou raça e nível de instrução, com intervalo de confiança. Isso permite ler o gradiente diretamente, sem inferência. A autoavaliação de saúde como boa ou muito boa foi de 66,1% no total do país; entre pessoas sem instrução ou com fundamental incompleto foi de 47,9%; entre pessoas com superior completo, de 84,4%. São 36,5 pontos percentuais de diferença entre os dois extremos da mesma variável, na mesma pesquisa, no mesmo ano.

O detalhe que interessa à clínica é que o gradiente é monotônico: 47,9%, depois 67,1%, depois 75,6%, depois 84,4%, subindo a cada degrau de escolaridade. Um gradiente contínuo não é o retrato de um grupo carente contra o resto da população. É o retrato de uma escada em que cada degrau tem saúde um pouco melhor que o de baixo e um pouco pior que o de cima — inclusive nos degraus de cima. Essa é a razão pela qual não existe um ponto de corte de pobreza abaixo do qual a conversa deste capítulo começa: ela vale para a lista inteira da tarde.

A mesma pesquisa traz um dado que é quase clínico. A proporção de pessoas com sintomas de angina de grau 2 pela versão resumida da escala de Rose que não dispunham de meio de locomoção foi de 4,5% no país, variando de 7,2% entre as pessoas sem instrução ou com fundamental incompleto a 1,7% entre as de superior completo. É uma razão de 4,2 vezes. E o que está sendo medido ali é exatamente o objeto deste capítulo: a pessoa tem o sintoma e não tem o meio de chegar.

Dois números da mesma fonte servem de vacina contra a leitura preguiçosa do gradiente. O consumo recomendado de frutas e hortaliças cresce com a escolaridade — 22,4% entre quem tem superior completo, cerca de dez pontos percentuais acima dos demais níveis. Mas o consumo regular de feijão faz o caminho inverso: cai conforme sobe a classe de rendimento domiciliar per capita, e é menor entre pessoas de cor branca do que entre pretas e pardas. Quem tem menos não come pior em tudo; come diferente, e come dentro do que é possível comprar, guardar e preparar. Confundir as duas coisas é a forma mais comum de escrever uma orientação alimentar que soa como repreensão.

Sobre comida, o país passou a ter, desde novembro de 2023, algo que antes não tinha: uma medida coletada dentro da consulta e agregada nacionalmente. As duas perguntas da Triagem para o Risco de Insegurança Alimentar, a TRIA, entraram na Ficha de Cadastro Individual do Prontuário Eletrônico do Cidadão, e a Nota Técnica nº 51/2024 fixou as regras para que virem relatório público. Antes disso, o que havia era inquérito populacional periódico, que estima prevalência nacional e não identifica o domicílio à sua frente. A mesma nota técnica registra que a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua de 2023 apurou 3,2 milhões de domicílios brasileiros em insegurança alimentar grave.

Agora o que não existe, dito com todas as letras, porque a ausência muda o que você pode e não pode afirmar na apresentação de caso.

O prontuário do Sistema Único de Saúde não carrega renda. Escolaridade e ocupação estão na Ficha de Cadastro Individual, e a partir de novembro de 2023 as duas perguntas da TRIA também estão; renda familiar, não. Isso significa que o gradiente de renda que a Pesquisa Nacional de Saúde mostra tão bem não pode ser reproduzido dentro do registro clínico de rotina. Quando alguém afirma, numa reunião de serviço, que os pacientes mais pobres da área têm pior controle, essa afirmação não vem do sistema de informação: vem de outro lugar, e vale a pena perguntar de qual.

O Brasil também não tem uma política nacional de letramento em saúde, nem uma medida oficial dele. O termo aparece como diretriz em normas federais recentes — a Política Nacional de Qualidade do Cuidado e Segurança do Paciente, instituída pela Portaria GM/MS nº 11.527, de 9 de junho de 2026, lista a promoção do letramento em saúde entre seus objetivos — mas aparece sem definição, sem instrumento e sem indicador. Há instrumentos traduzidos e validados em pesquisa brasileira; nenhum deles é régua nacional. Na prática isso quer dizer que, quando você quiser saber se a pessoa entendeu a receita, não há escore para aplicar: há a conversa, e ela precisa ser feita de um jeito que funcione.

E o documento que organiza o assunto no Brasil é de 2008. O relatório da Comissão Nacional sobre Determinantes Sociais da Saúde, publicado pela Editora Fiocruz naquele ano, é a referência nacional sobre o tema, adotou explicitamente o modelo de Dahlgren e Whitehead e nunca teve segunda edição. A comissão que o produziu tinha mandato temporário e se encerrou com a entrega. Dezoito anos depois, um capítulo brasileiro sobre determinantes sociais ainda se apoia nele — o que é ao mesmo tempo um elogio ao relatório e um problema, porque os dados que ele analisa são os da primeira metade dos anos 2000.

Duas fronteiras ficam declaradas aqui. A definição de incidência, prevalência, coeficiente e indicador de saúde, e o modo de calculá-los, são do capítulo "Quem tem, e quem passou a ter", na posição 5 desta apostila. O funcionamento dos sistemas de informação — quem preenche, para onde vai, o que se perde no caminho — é de "A ficha que ninguém devolve", na posição 9. Este capítulo não repete nenhum dos dois: usa o que eles ensinam para responder a uma pergunta que é sua, e só sua — o que os números disponíveis autorizam você a dizer sobre a pessoa que está sentada na sua frente, e o que eles não autorizam.

04

Por que acontece o que acontece

O modelo que o Brasil adotou para organizar este assunto é o de Dahlgren e Whitehead, de 1991, e a Comissão Nacional sobre Determinantes Sociais da Saúde explicou por que o escolheu: não por ser o mais completo, e sim por ser o mais legível. Existem modelos que detalham melhor as mediações entre um nível e outro; nenhum deles cabe na cabeça de quem está numa consulta de quinze minutos. Este cabe. Ele arruma os determinantes em faixas concêntricas, partindo de quem está no meio e afastando-se dali, e o que faz dele uma ferramenta clínica, e não um cartaz, é que cada camada responde a uma pergunta diferente — e a pergunta diz onde a sua conduta pode ou não alcançar.

Na base ficam as características individuais: idade, sexo e fatores hereditários. É a camada que não se negocia. Ela influencia o potencial de saúde da pessoa e não é objeto de intervenção; está no modelo para ficar clara a diferença entre o que é biológico e fixo e o que apenas parece fixo. Confundir uma coisa com a outra é o erro que produz frases como "é o perfil dele": quase nunca é.

A camada imediatamente externa é a do comportamento e do estilo de vida. É a camada mais mal compreendida do modelo, e a Comissão a descreve com uma precisão que vale decorar: ela está no limiar entre os fatores individuais e os determinantes sociais, porque o comportamento depende do livre-arbítrio, sim, mas também do acesso a informação, da propaganda, da pressão dos pares e da existência, ao alcance da pessoa, de alimento saudável para comprar e de lugar onde ter lazer. Essa é a camada onde mora a frase "não aderiu". Ela não é uma camada falsa; é uma camada de fronteira. Tratar tudo o que acontece nela como escolha é tão errado quanto tratar tudo como imposição.

A camada seguinte é a das redes sociais e comunitárias, e é a mais fácil de esquecer numa consulta individual. Quem mais mora na casa. Quem pode ir junto. Quem fica com as crianças. Quem lembra do remédio. Quem levaria a pessoa ao pronto-socorro às três da manhã. Coesão social, nessa altura do modelo, não é conceito abstrato: é a lista de nomes que existe ou não existe atrás do paciente. É também a camada em que uma intervenção pequena — descobrir que existe uma filha que pode acompanhar — muda o desfecho de um plano inteiro.

Depois vêm as condições de vida e de trabalho: moradia, ambiente de trabalho, disponibilidade de alimentos, acesso a serviços essenciais como saúde e educação. A Comissão descreve o efeito dessa camada em duas palavras que vale separar — pessoas em desvantagem social têm exposição maior e vulnerabilidade maior aos mesmos riscos, por habitação inadequada, por condições de trabalho mais perigosas ou mais estressantes e por menor acesso aos serviços. É aqui que a maioria dos planos de alta fracassa, e é aqui que a maioria das perguntas que este capítulo ensina se dirige, porque é a camada mais distante do indivíduo que ainda é alcançável dentro de uma consulta.

Por fim, a camada externa: as condições socioeconômicas, culturais e ambientais gerais, os macrodeterminantes. Renda nacional, mercado de trabalho, política de proteção social, ambiente construído da cidade. Essa camada não é acionável na sua consulta, e dizer isso não é derrotismo — é higiene de raciocínio. Quando você identifica que a barreira está na camada externa, a conduta correta deixa de ser convencer o paciente e passa a ser registrar o achado, adaptar o plano ao que existe e acionar quem tem mandato para agir ali. Confundir a camada externa com a camada do comportamento é o que produz a orientação que responsabiliza a pessoa por uma coisa que ela não decide.

O que transforma esse desenho de camadas em explicação é o segundo modelo que a Comissão usa junto com ele, o de Diderichsen e Hallqvist, adaptado com Evans e Whitehead. Ele descreve como a posição social vira diferença de saúde por três mecanismos distintos. Exposição diferencial: pessoas em posições sociais diferentes encontram quantidades diferentes do mesmo risco — a mesma cidade, mais horas de deslocamento, mais ruído, mais calor, mais poeira. Vulnerabilidade diferencial: diante da mesma dose do mesmo risco, o dano é maior em quem já acumula outras desvantagens — a mesma infecção respiratória num domicílio com e sem aquecimento, comida e repouso. E consequências diferenciais: depois de instalada a mesma doença, o que acontece com a vida da pessoa é diferente — perder três dias de trabalho é um contratempo para um assalariado com carteira e é a conta de luz para uma diarista.

Junte as duas coisas e você tem o método deste capítulo, que é o exercício que a preceptora pediu na cena de abertura. Toda linha de plano supõe alguma coisa. Essa coisa mora numa camada. Descobrir em qual delas mora é o que decide se a conduta certa é ensinar, é providenciar, é adaptar ou é encaminhar — e, principalmente, é o que impede que uma falha da camada de condições de vida seja registrada como falha da camada do comportamento. Esse deslizamento de uma camada para outra tem um custo clínico exato: ele encerra a investigação. A partir do momento em que o prontuário diz que a pessoa não colabora, ninguém mais pergunta por quê.

Pessoa observa cinco portais arquitetônicos; o portal central ocre é mais estreito que os demais.
Os portais representam barreiras que podem dificultar o cuidado. Identificar a dificuldade concreta — compreensão, acesso, custo, rotina, efeitos adversos ou apoio — permite pactuar um plano viável. O portal estreito destaca uma barreira possível, sem estabelecer uma sequência universal.
05

Como se apresenta de verdade

Determinante social não chega à consulta como queixa. Ninguém senta e diz que mora longe do serviço, que a geladeira quebrou em março ou que perder meio dia de trabalho custa o gás do mês. Chega como outra coisa: como um exame que não foi feito, como uma resposta curta demais, como um retorno que não aconteceu, como uma frase pronta escrita por um colega três semanas antes. As seis apresentações abaixo são as formas em que isso aparece, e o que cada uma delas costuma esconder.

Uma advertência antes: reconhecer estas apresentações não autoriza presumir. Nenhuma delas prova que existe barreira social; todas indicam que vale a pena perguntar. A diferença entre um interno que aprendeu este capítulo e um que decorou uma lista de estereótipos é essa — o primeiro pergunta, o segundo conclui.

Competência ao final deste capítulo. Investigar barreiras e pactuar um plano viável sem rotular a pessoa como não aderente. No internato, demonstre o raciocínio e a execução supervisionada: o que verificar, o que fazer agora, quando chamar ajuda e como garantir continuidade.

A resposta curta

A apresentação mais frequente é a mais silenciosa. Você pergunta se a pessoa conseguiu fazer o que foi combinado e ela diz que não. Você pergunta por quê e ela diz que não deu. Você espera, e não vem mais nada. A conversa terminou em duas frases e você tem duas leituras possíveis: ou não há explicação, ou a explicação não é dizível naquela sala, naquele momento, para você.

Quase sempre é a segunda. Dizer em voz alta que não havia dinheiro para a passagem, que a comida acabou antes do fim do mês, que a filha não pôde faltar ao trabalho para acompanhar, é expor a própria vida a um estranho de jaleco que acabou de dizer o que era para ser feito. A pessoa calcula, corretamente, que a resposta longa a expõe mais do que a resposta curta a prejudica. E então ela escolhe a resposta curta, que é a escolha racional.

O sinal para reconhecer é a assimetria: a pessoa responde com detalhe às perguntas clínicas — quando a dor começou, como era, o que melhorava — e responde em monossílabos às perguntas sobre o plano. Não é falta de colaboração nem falta de vocabulário. É a diferença entre um assunto sobre o qual ela pode falar sem risco e um assunto sobre o qual ela não pode.

O que abre essa porta não é insistir. É trocar a pergunta aberta, que exige que ela mesma nomeie a dificuldade, por uma pergunta fechada que já contenha a dificuldade dentro. Perguntar "por que a senhora não fez?" obriga a pessoa a se acusar. Perguntar "a senhora precisou pagar passagem para chegar lá?" oferece uma resposta que não custa nada admitir. A técnica está no bloco de investigação; o que importa aqui é reconhecer que a resposta curta é um achado, e não o fim do assunto.

O exame que não foi feito

Um exame pedido e não feito é o achado mais comum deste capítulo e o mais mal interpretado. Ele tem, na prática, cinco causas que exigem cinco condutas diferentes, e as cinco chegam à consulta com a mesma aparência: um pedido em branco.

A primeira é recusa informada — a pessoa entendeu, considerou e decidiu não fazer. É legítima, e a conduta é registrar a decisão e o que foi explicado. A segunda é esquecimento genuíno, que responde a lembrete e a agendamento no ato. A terceira é falha do serviço: o exame foi pedido, a marcação não saiu, a fila estava fechada, o aparelho estava parado. A quarta é barreira de acesso: a marcação saiu, mas para um lugar, um horário ou uma data que a pessoa não tinha como cumprir. E a quinta é a que quase nunca é perguntada: a pessoa não entendeu que era para fazer, ou não entendeu o que estava escrito no papel.

Só a primeira e a segunda dizem respeito à decisão da pessoa. As outras três são falhas do plano ou do serviço, e as três seriam invisíveis para quem lê o pedido em branco e conclui que o paciente não quis. A separação entre as cinco não custa tempo: custa três perguntas, e elas estão no bloco de investigação.

Há um sinal que aponta para a quarta causa e que se colhe olhando o papel, não a pessoa: onde o exame foi marcado e para que horário. Um exame marcado no centro da cidade, às oito da manhã de uma quarta-feira, para alguém que trabalha das sete às sete, não é um exame agendado. É um exame agendado para outra pessoa.

O padrão de uso do serviço

O prontuário conta uma história que a consulta não conta, e ela está no padrão, não no conteúdo. Alguém que aparece cinco vezes no pronto atendimento e nenhuma vez na consulta agendada não é alguém que prefere emergência. É alguém para quem o único horário disponível é aquele em que o serviço abre sem hora marcada — porque é o único horário que não exige negociar falta com o empregador, ou porque é o único em que há alguém em casa com as crianças.

O inverso também é apresentação: a pessoa que só aparece com acompanhante, sempre a mesma, e nunca sozinha. Isso pode ser dependência funcional, e nesse caso é achado clínico; pode ser também que essa seja a única pessoa da casa que sabe ler a receita, ou a única que sabe o caminho, ou a única com dinheiro de passagem para os dois.

Um terceiro padrão é a consulta que só acontece quando dói. Ele costuma ser lido como despreocupação com a própria saúde e quase sempre é o oposto: é priorização sob restrição. Uma manhã de trabalho perdida tem preço, e uma consulta preventiva não tem retorno imediato visível; uma dor tem. A escolha de gastar a manhã na dor e não na prevenção é a escolha que a maioria das pessoas faria com o mesmo orçamento.

O que se faz com esse achado não é comentar com o paciente que ele usa mal o serviço. É usar a informação para desenhar o plano: se o único acesso possível é a demanda espontânea, o retorno tem de ser marcado dentro dela, ou o exame tem de ser colhido na mesma visita, ou a conduta tem de caber num único encontro.

A cartela e a caixa

Duas apresentações opostas dizem coisas opostas, e são confundidas com frequência. A caixa que chega vazia e a caixa que chega cheia.

A caixa vazia antes do tempo, ou a frase "acabou e eu não consegui pegar", quase nunca é problema de compreensão. É logística: a farmácia da unidade estava sem, o horário da farmácia não coincide com o horário livre da pessoa, a receita venceu, a receita ficou com outro serviço, o vínculo com a unidade caiu. Todos os medicamentos crônicos que aparecem neste capítulo — metformina em comprimidos de 500 mg e 850 mg, losartana potássica de 50 mg, insulina humana NPH de 100 UI/mL, hidroclorotiazida, enalapril, anlodipino, sinvastatina — constam do Componente Básico da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais. O elenco não é a barreira. A barreira está entre o elenco e a mão da pessoa, e é uma barreira de horário, de estoque e de papel.

A caixa cheia, ou quase cheia, com a data de retirada antiga, é outra coisa. Ali há decisão, e a decisão tem motivo: efeito adverso que ninguém perguntou, medo de dependência, crença de que remédio contínuo faz mal ao rim ou ao fígado, ou a experiência concreta de ter passado mal com aquele comprimido. Nenhum desses motivos se resolve com repetição da mesma orientação em voz mais firme.

Um terceiro caso, mais silencioso, é a caixa que está sendo dividida. Comprimido partido para durar o dobro, insulina aplicada em dias alternados para a caneta chegar ao fim do mês, dose noturna omitida para o frasco render. Isso não é erro de administração: é racionamento, e o racionamento é sinal de que a pessoa acredita que aquele medicamento pode acabar e não ser reposto. Quem raciona não desconfia do tratamento; desconfia do abastecimento.

"Eu como de tudo"

A orientação alimentar é o lugar do plano em que a distância entre o correto e o executável costuma ser maior, e onde a apresentação é mais enganosa. A frase padrão é "eu como de tudo, doutor", e ela pode significar três coisas incompatíveis: que a alimentação é de fato variada, que a pessoa come o que aparece, ou que a pergunta foi entendida como cobrança e a resposta é defensiva.

Há um sinal indireto que ajuda a separar: quando a pessoa descreve o que come, ela descreve preparações ou descreve itens? Quem tem escolha descreve preparações. Quem come o que há descreve itens, e costuma descrever poucos, repetidos.

Insegurança alimentar não se apresenta como fome declarada. Apresenta-se como a comida que acaba antes do dinheiro, como a variedade que encolhe na última semana do mês, como o adulto que come menos para a criança comer. A pessoa raramente traz isso, por dois motivos: porque tem vergonha e porque não considera aquilo um assunto médico. Existe instrumento brasileiro de duas perguntas para trazer o assunto para dentro da consulta sem depender de que a pessoa o traga, e ele está no bloco de investigação.

A leitura oposta é igualmente errada e mais ofensiva: presumir insegurança alimentar pela aparência da pessoa, pelo bairro em que mora ou pela ocupação que declarou. A triagem existe justamente porque a inspeção não funciona. Aplica-se a mesma pergunta a todo mundo, e é aplicando a todo mundo que ela deixa de ser humilhante.

A frase escrita por outro profissional

A sexta apresentação não vem do paciente: vem do prontuário. Um vocabulário pequeno e muito estável carrega, no registro clínico brasileiro, o mesmo conteúdo — paciente não aderente, faltoso, refratário à orientação, não compreende as orientações, desorganizado, pouco colaborativo. Todas essas expressões descrevem comportamento e nenhuma delas descreve causa.

O problema não é que sejam grosseiras. O problema é que funcionam como diagnóstico. Uma vez escritas, elas são lidas pelo profissional seguinte como informação clínica já apurada, e o profissional seguinte parte delas em vez de investigar. É a única variável deste capítulo que se propaga sozinha de consulta em consulta: ninguém precisa reafirmá-la para que ela continue produzindo efeito.

Encontrar uma dessas frases no prontuário é, portanto, uma apresentação com conduta própria. A conduta não é apagar o registro alheio nem contestá-lo: é tratá-lo como hipótese não testada e testá-la. Na prática, significa fazer, naquela consulta, as perguntas que a frase substituiu — e escrever o que se apurou, porque é assim que a frase deixa de ser a única coisa que o próximo profissional vai ler.

Vale também para o que você mesmo escreve daqui em diante. Cada vez que a explicação para um plano não cumprido couber inteira numa palavra sobre o caráter do paciente, é sinal de que a investigação parou cedo demais.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação deste capítulo não usa exame, não usa escore validado brasileiro na maior parte dos itens e não exige tempo que a consulta não tem. Usa perguntas — e o trabalho está em escolher quais, formulá-las de um jeito que possam ser respondidas, e saber o que fazer com cada resposta.

Um princípio governa as seis seções abaixo e é o que separa investigação de suposição: pergunte a todo mundo. Selecionar quem vai receber a pergunta sobre comida pela aparência, pelo bairro, pela ocupação ou pelo modo de falar é o mecanismo pelo qual uma boa intenção vira constrangimento — porque a pessoa percebe que foi escolhida, e percebe por quê. Uma pergunta feita a todos os pacientes da tarde é rotina; a mesma pergunta feita a três deles é julgamento.

Onde e quando as perguntas entram

O lugar natural destas perguntas não é o começo da consulta nem o fim. É o momento em que o plano começa a ser montado, imediatamente antes de escrever a primeira linha. Ali elas não soam como interrogatório social: soam como o que são, que é levantamento de exequibilidade.

A transição que funciona é declarar o objetivo. Uma frase do tipo "antes de eu escrever o que a gente vai fazer, preciso saber duas ou três coisas do seu dia a dia, para não escrever uma coisa que não caiba" muda o enquadramento inteiro. A pessoa deixa de ser examinada e passa a ser consultada sobre o próprio plano. É a mesma informação, colhida sem custo de dignidade.

O tempo real disso, em consulta de retorno, é de noventa segundos a dois minutos: comida, deslocamento, jornada, quem mais está na casa, e a leitura da receita em voz alta. Nem toda consulta comporta as cinco. A ordem de prioridade, quando só cabem duas, é a que segue o plano que você está prestes a escrever — se o plano tem exame fora da unidade, pergunte deslocamento e jornada; se tem orientação alimentar, pergunte comida; se tem procedimento domiciliar, pergunte quem mais está na casa.

Uma observação sobre registro, que volta no bloco de conduta: o que for apurado aqui precisa ser escrito, e escrito como achado e não como impressão. "Refere que a comida acabou antes do dinheiro nos últimos três meses" é dado. "Paciente de baixa renda" é rótulo, não acrescenta nada ao próximo profissional e não sustenta nenhuma decisão.

Comida: as duas perguntas que o Brasil adotou

Existe instrumento brasileiro para isto, ele é curto e está dentro do sistema. A Triagem para o Risco de Insegurança Alimentar tem duas perguntas, ambas referidas aos últimos três meses: se os alimentos acabaram antes de haver dinheiro para comprar mais comida, e se a pessoa comeu apenas alguns alimentos que ainda tinha porque o dinheiro acabou. O Ministério da Saúde recomenda seu uso na Atenção Primária desde 2022, as duas perguntas entraram na Ficha de Cadastro Individual do Prontuário Eletrônico do Cidadão em novembro de 2023, e a Nota Técnica nº 51/2024 fixou as regras de apuração.

O ponto de corte é o dos dois sins. O domicílio é considerado em risco de insegurança alimentar quando pelo menos um morador adulto responde afirmativamente às duas perguntas — e, pela regra da nota técnica, esse único respondente coloca todos os integrantes daquele domicílio em risco. Uma resposta afirmativa isolada não classifica o domicílio, o que tem uma consequência prática importante: um sim único não é ruído a descartar, é um achado que a triagem não captura e que a sua consulta captura.

Quem pode aplicar: qualquer profissional de saúde da Atenção Primária, e o instrutivo do Ministério lista acolhimento, consulta individual, visita domiciliar, atividade em grupo, escola, pré-natal e puericultura como oportunidades. Não é tarefa exclusiva de médico nem de nutricionista.

O que a triagem não faz, e é preciso saber para não confiar demais nela: ela foi construída como filtro rápido contra a Escala Brasileira de Insegurança Alimentar, com sensibilidade de 79,31% no estudo brasileiro que a validou. Isso quer dizer que cerca de um em cada cinco domicílios que a escala completa classificaria como positivos passa pela triagem sem ser identificado. Uma triagem negativa não é prova de que a casa está bem abastecida; é ausência de um sinal de alta especificidade.

E há um detalhe do padrão-ouro daquele estudo que muda a leitura clínica: os domicílios classificados na faixa de insegurança alimentar leve foram tratados, na análise, como seguros. Ou seja, o desempenho publicado da triagem descreve a sua capacidade de encontrar insegurança moderada e grave — a faixa em que já há restrição quantitativa e fome. A casa em que a comida acaba na última semana do mês, sem que ninguém passe fome, é exatamente a casa que fica fora dessa medida. É também exatamente a casa em que uma orientação de dieta irrealista causa mais dano relacional.

Como introduzir sem constranger: nomeie que é rotina e nomeie o objetivo. "Faço estas duas perguntas para todo mundo, porque elas mudam o que eu vou orientar sobre alimentação" resolve o problema em uma frase, e resolve porque as duas afirmações são verdadeiras. O que não funciona é o preâmbulo pedindo desculpas: pedir licença para perguntar sinaliza que a pergunta é vexatória, e a pessoa responde ao sinal, não à pergunta.

Deslocamento, jornada e o preço de faltar

Três perguntas cobrem quase tudo, e nenhuma delas usa a palavra dinheiro na primeira frase. Quantos ônibus são daqui até a sua casa. Em que horário a senhora trabalha, e o que acontece se faltar meio dia. E, se o plano prevê exame ou consulta em outro lugar: para chegar lá, quantas conduções e quanto tempo.

A pergunta sobre falta é a que mais rende, e rende porque a resposta separa três situações com condutas diferentes. Quem tem carteira assinada e atestado perde o dia sem perder o salário, e para essa pessoa o custo é de tempo e de constrangimento com a chefia. Quem trabalha sem vínculo formal perde o dia inteiro de renda, e para essa pessoa o exame tem preço em reais. Quem trabalha por conta própria pode remanejar, mas costuma remanejar contra o descanso. Um plano que exige três deslocamentos custa coisas radicalmente diferentes nas três situações, e a conta de quanto custa está na tabela do bloco de critério.

A pergunta sobre quem fica com quem é a que mais frequentemente explica uma falta que parece inexplicável. Criança pequena, pessoa acamada em casa, alguém que não pode ficar só — qualquer uma das três transforma um exame de duas horas num arranjo de meio dia envolvendo outra pessoa, que por sua vez também trabalha.

O que se faz com a resposta é imediato e cabe no mesmo encontro. Se o exame pode ser colhido na própria unidade, colha ali. Se a coleta é em jejum e a pessoa não pode voltar, verifique se há coleta no turno em que ela consegue vir. Se o encaminhamento é para outro município, escreva no pedido o que a regulação precisa saber para não marcar num horário impossível. E se nada disso for viável, diga isso em voz alta, com a pessoa, antes de escrever — porque um plano combinado como difícil é diferente de um plano entregue como se fosse fácil.

Este capítulo assume o assunto do custo de deslocamento e de jornada porque nenhum outro do nível o tem. Cede, e cede pelo nome: a lesão relacionada ao trabalho, o nexo causal e a comunicação de acidente são de "A lesão que só vira acidente se alguém escrever" e de "Em que o senhor trabalha", da apostila de Medicina do Trabalho. O que fica aqui é a jornada como barreira ao cuidado, e não o trabalho como causa de doença.

Quem mais está nessa casa

A camada de redes sociais e comunitárias se investiga com três perguntas de contagem, não de sentimento. Quem mora com a senhora. Quem poderia vir junto se precisasse. E, quando o plano prevê alguma coisa feita em casa: quem faria isso nos dias em que a senhora estiver trabalhando.

A terceira é a que decide a exequibilidade de curativo, de aplicação de insulina, de sonda e de qualquer cuidado que dependa de horário. Um plano que supõe uma pessoa disponível numa casa em que todos os adultos trabalham fora não é um plano com baixa adesão: é um plano sem executor.

Aqui vai uma fronteira explícita, nas duas direções. O instrumento de mapear família e rede — o método clínico centrado na pessoa, o genograma, o ecomapa, como se desenham e o que cada símbolo significa — é do capítulo "A queixa é o passaporte", da apostila de Medicina de Família e Comunidade. Quem quiser aprender a construir os dois vai lá, e este capítulo não os ensina nem os resume. O que fica aqui é a outra metade: por que aquele desenho importa, o que ele revela que a anamnese padrão não revela, e o que se faz com o achado quando a rede está rompida. Nem o instrumento sem a explicação, nem a explicação sem o instrumento, resolvem sozinhos.

Duas remissões mais, para não deixar o leitor com a impressão de que este capítulo cobre o que não cobre. A atenção domiciliar propriamente dita — quem é elegível, quem vai, com que frequência — não tem capítulo neste nível ainda e não é assumida aqui. E violência doméstica, quando aparece nessa camada, tem capítulos próprios em Ginecologia e em Emergências Pediátricas; a suspeita levantada aqui vai para lá, e não se resolve com as ferramentas deste capítulo.

A receita lida em voz alta

Não há régua nacional para medir letramento em saúde no Brasil. O termo aparece como diretriz em norma federal — a Política Nacional de Qualidade do Cuidado e Segurança do Paciente, de junho de 2026, o inclui entre seus objetivos — mas sem definição, sem instrumento e sem escore a aplicar. Na ausência de medida, o que resta é uma técnica, e ela é boa.

A técnica é pedir que a pessoa conte de volta. Não "a senhora entendeu?", que só admite uma resposta educada, mas "me conta como a senhora vai tomar, para eu ver se eu escrevi direito". A segunda formulação faz três coisas ao mesmo tempo: obtém a informação, põe o erro do lado de quem escreveu, e transforma a checagem num ato de conferência conjunta em vez de exame oral.

O que se descobre com isso, com frequência incômoda, não é analfabetismo. É ambiguidade da própria receita. Quantas vezes ao dia, em que intervalo, antes ou depois de comer, por quanto tempo, e o que fazer se esquecer uma dose — quatro dessas cinco informações costumam estar implícitas no que o médico escreveu e explícitas apenas no que ele falou, que é a parte que não vai para casa. A pessoa não esquece a orientação: ela nunca teve a orientação por escrito.

Duas medidas resolvem a maior parte disso e não custam tempo. Escrever a posologia em palavras, com horários concretos, em vez de abreviaturas e siglas — "um comprimido de manhã e um à noite" em vez de notação — e escrever o nome do medicamento pelo nome que estará na caixa que a pessoa vai receber. E, quando houver alguém acompanhando, fazer a conferência com os dois presentes, porque quem administra o medicamento em casa nem sempre é quem esteve na consulta.

O que já foi tentado, e o que o serviço fez

A última seção investiga o outro lado da relação, que é o lado que costuma ficar sem exame. Duas perguntas ao paciente e duas ao prontuário.

Ao paciente: o que a senhora já tentou fazer disso, e o que atrapalhou? A formulação importa. Ela pressupõe tentativa, o que quase sempre é verdade e é o oposto do que a frase "não aderiu" pressupõe, e pede um obstáculo, o que dá à pessoa uma resposta que ela pode dar sem se acusar. A segunda pergunta é o que já foi orientado antes por outra pessoa, porque orientações contraditórias vindas de serviços diferentes são causa frequente de paralisia — e a paralisia diante de duas ordens incompatíveis não é desorganização, é prudência.

Ao prontuário: o exame foi de fato solicitado, e existe registro de que a marcação saiu? A receita estava válida na data em que a cartela acabou? Muitas vezes a resposta a uma dessas duas encerra o caso, e ela não depende de perguntar nada ao paciente. Verificar isso antes de conversar sobre adesão é uma questão de ordem: investiga-se primeiro o que está sob controle do serviço, depois o que depende da pessoa.

Uma última fronteira, cedida pelo nome: quando a pergunta for se aquele exame ou aquele medicamento deveria existir no plano — se há excesso de intervenção, cascata diagnóstica ou dano por medicalização —, o capítulo é "Prevenção quaternária e multimorbidade", da apostila de Medicina de Família e Comunidade. Este aqui pergunta se o plano é executável; aquele pergunta se ele deveria ser feito. As duas perguntas são diferentes e as duas precisam ser feitas.

07

A régua brasileira, e a conta de quanto custa cumpri-la

Três tabelas organizam o que decide a conduta: o que cada camada do modelo contém e o que ela permite fazer; a diferença entre desigualdade e iniquidade, que é a distinção que mais muda o que se escreve no prontuário; e a conta, em reais e em horas, do que um plano comum custa a quem precisa cumpri-lo. As notas ao final registram a conferência das fontes oficiais, item por item, incluindo as conferências que fecharam.

  1. 1Antes de escrever a primeira linha do plano, pergunte o que precisa ser perguntado — comida, deslocamento, jornada, quem mais está na casa — e pergunte a todos os pacientes, não aos que parecem precisar.
  2. 2Escreva o plano ideal em rascunho e leia linha por linha, dizendo em voz alta o que cada linha supõe que exista na vida daquela pessoa.
  3. 3Para cada suposição, identifique em que camada ela mora: comportamento, rede, condições de vida e trabalho, ou macrodeterminante.
  4. 4Suposição da camada de comportamento com restrição identificada: ensine, escreva por extenso e confira pedindo que a pessoa conte de volta.
  5. 5Suposição da camada de rede: descubra quem existe e recrute; se não há executor, o plano tem de mudar, e não a pessoa.
  6. 6Suposição da camada de condições de vida e trabalho: adapte o que dá para adaptar dentro da consulta — turno, local de coleta, número de idas — e providencie o que depende do serviço antes de cobrar o que depende da pessoa.
  7. 7Suposição da camada externa que a consulta não alcança: escolha, junto com a pessoa, a versão executável do plano, diga em voz alta que é a versão possível e não a ideal, e registre a barreira pelo nome.
  8. 8Registre o que foi apurado e o que foi combinado como achado e como acordo — nunca como julgamento de caráter do paciente.

A triagem de comida em quatro linhas

As duas perguntas, ambas referidas aos últimos três meses: se os alimentos acabaram antes de haver dinheiro para comprar mais comida; e se a pessoa comeu apenas alguns alimentos que ainda tinha porque o dinheiro acabou. O corte: o domicílio é considerado em risco quando um morador adulto responde sim às duas — e essa resposta classifica todos os moradores daquele domicílio. Quem aplica: qualquer profissional de saúde de nível médio ou superior, no acolhimento, na consulta, na visita domiciliar, no grupo, no pré-natal ou na puericultura. Quando reaplicar, segundo a nota técnica de 2024: entre três e seis meses para quem vive em domicílio em risco, e entre seis e doze meses para quem não vive. As perguntas estão na Ficha de Cadastro Individual do prontuário eletrônico desde novembro de 2023.

As camadas do modelo lidas dentro da consulta

CamadaO que ela contémPergunta que ela respondeComo aparece na consultaO que a sua conduta alcança aqui
Características individuais (base)Idade, sexo, fatores hereditáriosO que nesta pessoa é fixo?Vem da anamnese padrão, sem esforço adicionalNada a modificar; serve para não confundir o que é fixo com o que apenas parece fixo
Comportamento e estilo de vidaUso de tabaco e álcool, alimentação, atividade física, uso efetivo do medicamentoO que esta pessoa faz, e sob que restrição?"Não consegui", "às vezes eu tomo", cartela divididaMuito — desde que a restrição seja identificada antes de a orientação ser dada
Redes sociais e comunitáriasQuem mora junto, quem acompanha, quem cuida, quem lembra do horárioQuem mais existe atrás desta pessoa?Acompanhante sempre o mesmo, ou ausência total de acompanhanteRecrutar quem existe; reconhecer quando o plano ficou sem executor
Condições de vida e de trabalhoMoradia, jornada, ambiente de trabalho, comida disponível, acesso a serviçosO que a vida dela permite executar?Exame não feito, retorno perdido, comida que acaba antes do dinheiroA maior parte da conduta deste capítulo: adaptar, providenciar e encaminhar
Condições socioeconômicas, culturais e ambientais geraisRenda do país, mercado de trabalho, proteção social, cidade construídaQue arranjo maior produziu esta restrição?Aparece como padrão repetido em muitos pacientes da mesma área, não num sóRegistrar e levar à equipe e ao território; nunca converter em cobrança individual

Desigualdade e iniquidade: a distinção que muda o que se escreve

PerguntaDesigualdadeIniquidade
O que a palavra descreveQualquer diferença mensurável entre gruposA parcela dessa diferença que é evitável, injusta e produzida socialmente
Exige juízo de valor?Não; é descrição empírica e se resolve com dadoSim; exige julgar se a diferença poderia ter sido evitada
Exemplo dentro da mesma pesquisaPessoas de 75 anos ou mais avaliam a própria saúde pior que as de 18 a 29 anos (41,1% contra 80,7%)Pessoas sem instrução avaliam a própria saúde pior que as de superior completo (47,9% contra 84,4%)
Por que o exemplo cai desse ladoEnvelhecer não é evitável nem distribuído por decisão de ninguémEscolaridade é distribuída por política pública, e o gradiente acompanha a distribuição
O que muda na sua condutaDescrever e calibrar a expectativa clínicaProcurar a barreira concreta, agir sobre o que a consulta alcança e registrar o que não alcança
Erro típico de cada ladoChamar toda diferença de injustiça, o que esvazia a palavra e paralisaChamar toda injustiça de diferença natural, o que naturaliza a barreira e a torna invisível

O que custa cumprir o plano — conta recalculada sobre premissas declaradas

Ato prescritoPassagensHoras foraCusto diretoCusto do tempoTotal% do salário mínimo do mês
A pé até a própria unidade, retorno em 30 dias02 hR$ 0,00R$ 14,74R$ 14,740,9%
Retorno na unidade, um ônibus em cada sentido23 hR$ 10,40R$ 22,10R$ 32,502,0%
Exame agendado no centro, dois ônibus em cada sentido46 hR$ 20,80R$ 44,21R$ 65,014,0%
A mesma ida ao centro, com acompanhante que também falta ao trabalho812 hR$ 41,60R$ 88,42R$ 130,028,0%
Exame, retorno para o resultado e busca do laudo — três idas ao centro1215 hR$ 62,40R$ 110,52R$ 172,9210,7%
Doze retornos mensais na unidade ao longo de um ano2436 hR$ 124,80R$ 265,25R$ 390,0524,1%

Começar pelo que fechou: uma verificação que dá certo informa tanto quanto uma que falha. O estudo brasileiro que validou a triagem de duas perguntas publica sensibilidade de 79,31%, especificidade de 92,95%, valor preditivo positivo de 74,62% e valor preditivo negativo de 94,5%, sobre prevalência de insegurança alimentar de 21%. Recalculando os dois preditivos a partir dos três primeiros números: o positivo dá 74,94% e o negativo dá 94,41%. As diferenças são de 0,32 e de 0,09 ponto percentual, ambas dentro do arredondamento da prevalência publicada com dois dígitos — a prevalência de 20,8% reproduz 74,71%, e a de 20,9% reproduz 74,83%. Os quatro números são mutuamente consistentes.

Segunda conferência que fechou, e que à primeira vista parecia um erro. O mesmo artigo diz que a versão da escala usada na pesquisa de origem tinha 16 questões, e logo adiante apresenta as faixas de classificação como 0 afirmações para segurança alimentar, 1 a 5 para insegurança leve, 6 a 10 para moderada e 11 a 15 para grave — um teto de 15, e não de 16. A explicação está no próprio texto: a questão 5 havia sido dividida em duas partes na coleta e foi recombinada numa só para a análise. São 16 menos 1, igual a 15. As faixas batem com a escala recombinada.

Achado que muda a leitura clínica da triagem, e que não está no material de divulgação. No estudo de validação, os domicílios classificados na faixa de insegurança alimentar leve foram agrupados com os seguros na dicotomia usada para calcular o desempenho — a própria discussão do artigo diz que se considerou seguro todo domicílio com até cinco respostas afirmativas na escala completa. Logo, a sensibilidade de 79,31% descreve a capacidade de encontrar insegurança moderada e grave, e não insegurança de qualquer grau. A casa em que a comida acaba na última semana do mês, sem que ninguém passe fome, está do lado que a métrica chama de seguro. Uma triagem negativa, portanto, não afasta a barreira alimentar que mais frequentemente inviabiliza uma orientação de dieta.

Janela de recordação incompatível com a periodicidade que o próprio documento recomenda. As duas perguntas da triagem se referem aos últimos três meses. A nota técnica de 2024 recomenda reaplicá-la entre seis e doze meses para quem não vive em domicílio em risco. No intervalo máximo recomendado, a conta é direta: 12 menos 3 são 9 meses de vida daquele domicílio sobre os quais nenhuma pergunta é feita, ou 75% do ciclo. Mesmo no intervalo mínimo de seis meses, 6 menos 3 são 3 meses fora de qualquer janela de recordação, ou 50%. Para o domicílio já em risco, reaplicado no mínimo de três meses, a cobertura é contígua e o vão é zero — e sobe a 50% se a reaplicação for no máximo de seis meses.

Duas regras do mesmo item da mesma nota técnica se contradizem na prática, e a conta é de subtração. O item que define o risco manda considerar apenas a última resposta de cada respondente registrada nos últimos seis meses do período avaliado. O item seguinte recomenda reaplicar a triagem entre seis e doze meses para quem não vive em domicílio em risco. Um serviço que siga a recomendação à risca, no intervalo máximo de doze meses, deixa o domicílio sem resposta válida durante 6 dos 12 meses — metade do período. Reaplicações a nove meses deixam 3 de 9, ou 33%. Só a reaplicação no piso de seis meses mantém cobertura integral, e ela é o extremo inferior da faixa recomendada, não a recomendação. O efeito é que o domicílio que está bem some do relatório com mais frequência do que o domicílio que está mal — e some por ter seguido a regra.

Leitura aritmética própria, declarada como dedução e não como afirmação do documento. A nota técnica determina que a resposta sim para as duas perguntas, dada por um único morador adulto, classifique todos os integrantes daquele domicílio como em risco, e que essa resposta se sobreponha a todas as outras. A consequência é que a classificação passa a depender de quantos adultos responderam. Supondo respostas independentes e probabilidade individual de 10%, um domicílio com um respondente é classificado em risco em 10,0% das vezes; com dois, 19,0%; com quatro, 34,4%; com seis, 46,9%. A razão entre quatro respondentes e um é de 3,44 vezes. O documento não discute esse efeito, e ele empurra a medida na direção dos domicílios maiores.

Duas exclusões da mesma nota técnica retiram da conta exatamente os arranjos mais expostos, e isto também é leitura própria a partir das regras escritas. Ficam de fora os responsáveis familiares com trinta ou mais membros vinculados, e ficam de fora as pessoas que responderam a triagem, informaram documento próprio, declararam não ser o responsável familiar e não informaram o documento do responsável. A primeira exclusão remove domicílios coletivos e cadastros de instituições de acolhimento; a segunda remove quem não sabe ou não quer identificar o responsável do domicílio em que mora. Nos dois casos, o vínculo domiciliar frouxo é ele próprio um marcador de vulnerabilidade, e é o que determina a exclusão.

As duas validações em que a nota técnica de 2024 se apoia não cobrem a mesma população, e só uma delas foi aberta no original aqui. A que foi aberta, publicada em 2021, construiu a triagem em domicílios com crianças, a partir de uma pesquisa nacional de demografia e saúde da mulher e da criança de 2006 e 2007, com 3.920 domicílios. A nota técnica, porém, manda aplicar a triagem a todo respondente de 18 anos ou mais na ficha de cadastro, com ou sem criança no domicílio. A segunda validação citada, de 2022, declara no título cobrir diversos estratos da população brasileira e cobriria justamente esse vão — mas não foi aberta no original neste capítulo, e por isso nada se afirma aqui sobre sua amostra, seus pontos de corte ou seu desempenho.

Uma norma federal de 2026 grafa de dois modos o conceito central deste capítulo. A Portaria GM/MS nº 11.527, de 9 de junho de 2026, escreve inequidades duas vezes — nos princípios, ao tratar de interseccionalidades e marcadores sociais, e nas práticas educacionais — e escreve iniquidades duas vezes, ao tratar do enfrentamento étnico-racial e do cuidado baseado em valor. Contagem exata sobre o texto normalizado: quatro ocorrências ao todo, duas de cada grafia, no mesmo documento, para a mesma ideia. A palavra equidade, essa sim, aparece cinco vezes e sem variação.

Norma frequentemente citada em edição já revogada. A Política Nacional de Promoção da Saúde é o instrumento que coloca os determinantes sociais entre os temas transversais do Sistema Único de Saúde, e costuma ser citada pela Portaria GM/MS nº 2.446, de 11 de novembro de 2014. Essa portaria foi revogada pela Portaria de Consolidação nº 2, de 28 de setembro de 2017; o texto da política vive hoje como anexo dessa consolidação. Citar a portaria de 2014 como vigente é apontar para um veículo que deixou de existir, ainda que o conteúdo tenha sido preservado.

Conferência do elenco nacional de medicamentos, feita por busca exata sobre o texto normalizado. Todos os fármacos que aparecem nas prescrições crônicas deste capítulo constam do Componente Básico da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024: cloridrato de metformina em comprimidos de 500 mg e 850 mg; losartana potássica de 50 mg; insulina humana NPH em suspensão injetável de 100 UI/mL; hidroclorotiazida de 12,5 mg e 25 mg; maleato de enalapril de 5 mg, 10 mg e 20 mg; besilato de anlodipino de 5 mg e 10 mg; sinvastatina de 10 mg, 20 mg e 40 mg. Nenhuma barreira deste capítulo, portanto, é barreira de elenco. Todas estão entre o elenco e a mão da pessoa.

Este é um capítulo sem prescrição própria: não há fármaco cuja dose ele decida, e a tabela de conversão entre miligrama, mililitro e apresentação não teria o que converter. A tabela que cabe ao tema é a de custo, e ela foi recalculada em Python sobre premissas declaradas: salário mínimo mensal de R$ 1.621,00, jornada de 220 horas mensais e, portanto, hora de R$ 7,3682, arredondada nas linhas para duas casas; tarifa urbana de R$ 5,20 por embarque. Cada linha soma passagens vezes tarifa mais horas vezes valor da hora. A última linha, de doze retornos mensais, mostra por que o número que importa não é o de uma ida: um ano de acompanhamento mensal, no arranjo mais barato que envolve ônibus, consome 24,1% de um salário mínimo mensal.

O que a tabela de custo deliberadamente não inclui, para que ninguém a leia como estimativa completa: dia perdido por remarcação, tempo de espera dentro do serviço além do previsto, custo de alimentação fora de casa, custo de deixar criança com terceiro e perda de renda de quem trabalha por produção. Todos empurram o total para cima. A linha do acompanhante é a única dessas categorias que está representada, e representa só o caso em que o acompanhante é assalariado que perde as mesmas horas.

Conferência dos gradientes brasileiros usados no bloco de epidemiologia, recalculados a partir dos números publicados. A autoavaliação de saúde boa ou muito boa por nível de instrução é monotônica e sobe a cada degrau: 47,9%, 67,1%, 75,6% e 84,4%, com amplitude de 36,5 pontos percentuais entre os extremos. A proporção de pessoas com sintomas de angina de grau 2 sem meio de locomoção cai de 7,2% para 1,7% entre os mesmos extremos, razão de 4,24 vezes. Os totais nacionais publicados, 66,1% e 4,5%, ficam dentro do intervalo definido pelos estratos em ambos os indicadores, como deve ser numa média ponderada.

Qual régua o Brasil usa para este assunto, e desde quando. O documento nacional que organiza os determinantes sociais da saúde é o relatório da Comissão Nacional sobre Determinantes Sociais da Saúde, publicado em 2008, que adotou explicitamente o modelo de Dahlgren e Whitehead de 1991 e o articulou ao modelo de Diderichsen e Hallqvist de 1998. Ele nunca teve segunda edição, e a comissão que o produziu tinha mandato temporário encerrado com a entrega. A vigência aqui se sustenta por ausência de substituto, que é o teste mais fraco de todos, e o leitor precisa saber disso: o que existe de mais novo são políticas que citam os determinantes como tema transversal, e não um documento nacional que os analise com dados posteriores.

08

A conduta, hora a hora

A conduta deste capítulo cabe numa consulta e nada nela exige material, exame ou serviço que a unidade já não possua. Ela custa, medida em consulta de retorno, dois a três minutos a mais — e economiza a consulta inteira que teria sido perdida daqui a trinta dias com o mesmo plano não cumprido pelo mesmo motivo não perguntado.

Os oito marcos abaixo estão em ordem de execução, e a ordem importa em dois pontos: as perguntas vêm antes de escrever, não depois de o plano falhar; e o que é falha do serviço se corrige antes de qualquer conversa sobre o que a pessoa fez ou deixou de fazer.

Barreiras e escolhas coexistem. Perguntar com respeito e adaptar a profundidade às necessidades, sem presumir pobreza, incapacidade ou desinteresse. Falha do serviço merece correção, mas não encerra a escuta sobre efeitos adversos, crenças, preferências e capacidade de execução. Triagem alimentar negativa não exclui toda insegurança; qualquer relato de falta de comida merece acolhimento e avaliação. Acionar apoio escolhido pelo paciente, sem impor à família uma tarefa para a qual não tenha condições.

  1. Perguntar antes de escrever, e perguntar a todos

    As perguntas entram no momento em que o plano começa a ser montado, e são anunciadas pelo que são. Uma frase basta: antes de escrever o que vamos fazer, preciso saber duas ou três coisas do seu dia a dia, para não escrever uma coisa que não caiba. Depois dela vêm as perguntas que o plano exigir — comida, deslocamento, jornada, quem mais está na casa —, e não as cinco sempre. O ponto que não se negocia é a universalidade: quem seleciona os pacientes que vão receber a pergunta sobre comida está fazendo julgamento social com cara de triagem clínica, e a pessoa selecionada percebe. Feita a todos, a pergunta é rotina; feita a alguns, é constrangimento. É pelo mesmo motivo que a triagem alimentar existe em duas perguntas padronizadas: para dispensar a inspeção, que não funciona e ofende.

  2. Ler o plano contra a vida, linha por linha

    Escreva o plano ideal primeiro, em rascunho, e leia cada linha perguntando o que ela supõe. É o exercício da cena de abertura e ele leva menos de um minuto num plano de seis linhas. Restrição de sal supõe controle sobre o que entra em casa e lugar para guardar o que estraga. Caminhada supõe tempo não vendido e rua onde caminhar. Curativo em dias alternados supõe material e mão disponível no horário. Coleta em jejum supõe uma manhã inteira. Exame em outro serviço supõe deslocamento e horário decidido por terceiros. Cada suposição mora numa camada, e a camada decide a conduta: comportamento pede ensino, rede pede recrutamento, condições de vida pedem adaptação ou providência, macrodeterminante pede registro e articulação. O erro que este marco previne é o mais caro do capítulo: tratar uma falha de condições de vida como se fosse falha de comportamento, o que produz orientação repetida em voz mais firme e nenhum resultado.

  3. Corrigir primeiro o que é do serviço

    Antes de qualquer conversa sobre adesão, verifique três coisas que não dependem do paciente e que respondem sozinhas por boa parte dos planos não cumpridos. O exame foi de fato solicitado e a marcação saiu? A receita estava válida na data em que a cartela acabou, e o vínculo com a unidade está ativo para retirada? O agendamento foi feito para um local e um horário compatíveis com o que a pessoa declarou? Qualquer resposta negativa encerra a discussão sobre comportamento e transfere a conduta para onde ela pertence: refazer a solicitação, revalidar a receita, reagendar. Fazer isto primeiro é questão de ordem lógica e também de justiça na consulta — investiga-se primeiro o que está sob controle de quem tem poder, depois o que depende de quem tem menos.

  4. Negociar a versão possível, e dizer que é a versão possível

    Quando o plano ideal não cabe, a alternativa não é insistir nem desistir: é construir com a pessoa a versão executável, e nomeá-la em voz alta como versão possível. A negociação tem três movimentos. Primeiro, escolher o que fica: das cinco linhas, qual é a que mais muda o desfecho se for a única cumprida? Segundo, reduzir o número de idas: exame colhido na mesma visita, resultado conferido por telefone, três consultas transformadas em uma. Terceiro, combinar o piso, e não a meta: caminhar dez minutos três vezes por semana é um piso que se cumpre e se aumenta; trinta minutos cinco vezes é uma meta que se abandona na primeira semana. Dizer em voz alta que aquilo é o possível e não o ideal tem função clínica: protege a pessoa da sensação de estar falhando e protege o próximo profissional de ler o plano reduzido como se fosse o plano completo. O que se registra é o acordo, com as duas versões e o motivo da diferença.

  5. Escrever a receita de modo que ela sobreviva ao caminho de volta

    A receita sai da consulta e vai para uma casa onde ninguém explica nada. Tudo o que foi dito e não escrito se perde. Quatro medidas resolvem quase todo o problema e não custam tempo: posologia em palavras, com horários concretos, no lugar de abreviaturas e notação; o nome do medicamento como estará na caixa que a pessoa vai receber, e não o nome comercial que ela não vai encontrar na farmácia da unidade; a instrução do que fazer se esquecer uma dose, que quase nunca é escrita e é uma das dúvidas mais frequentes; e a conferência final pedindo que a pessoa conte de volta como vai tomar. A formulação da conferência importa — me conta como a senhora vai tomar, para eu ver se eu escrevi direito — porque põe o erro do lado de quem escreveu e transforma o teste em revisão conjunta. Quando houver acompanhante, faça a conferência com os dois, porque quem administra em casa nem sempre é quem esteve na sala.

    Prescrição
    • Metformina 850 mg: um comprimido depois do almoço e um comprimido depois do jantar
    • Losartana 50 mg: um comprimido pela manhã, todos os dias, mesmo nos dias em que a pressão estiver boa
    • Insulina humana NPH: aplicar a dose combinada sempre no mesmo horário da manhã, antes do café
    • Se esquecer uma dose, tomar assim que lembrar no mesmo dia; se já for a hora da próxima, tomar só a próxima e não dobrar
    • Levar esta folha e as caixas na próxima consulta
  6. Recrutar quem existe e nomear o executor de cada tarefa

    Toda tarefa do plano feita fora do serviço precisa de um nome próprio associado a ela. Quem troca o curativo, nos dias em que a pessoa trabalha. Quem aplica a insulina, se a mão não alcança ou a vista não enxerga a escala. Quem acompanha até o exame no outro serviço. Quem busca o medicamento no dia em que a farmácia abre. Se alguma dessas linhas ficar sem nome, ela não está com baixa adesão: está sem executor, e a conduta é mudar a linha, não cobrar a pessoa. Quando existe agente comunitário de saúde vinculado àquele domicílio, ele é o elo mais barato e mais eficaz para as tarefas de lembrete, de busca ativa e de verificação — e é também quem entra na casa e vê o que a consulta não vê. Como se mapeia e se desenha essa rede é assunto do capítulo "A queixa é o passaporte", da apostila de Medicina de Família e Comunidade, que ensina genograma e ecomapa; o que fica aqui é a regra operacional de que tarefa sem executor nomeado não é tarefa.

  7. Acionar o intersetorial pelo nome, e não como conselho

    Barreira que a consulta não resolve não vira conselho: vira encaminhamento com destinatário. Insegurança alimentar identificada pela triagem tem destino definido — o instrutivo do Ministério da Saúde determina que as famílias em vulnerabilidade sejam encaminhadas aos setores governamentais pertinentes, e a assistência social do território é o interlocutor. A diferença entre dizer à pessoa que ela procure a assistência social e escrever um encaminhamento nominal, com o motivo e o achado, é a diferença entre transferir o problema para quem tem menos recurso e usar o mandato que o seu papel tem. Vale o mesmo para transporte sanitário quando existe no município, para o registro do achado na ficha de cadastro individual e para a comunicação à equipe da unidade que acompanha aquele território. Um limite honesto fecha este marco: nem toda barreira tem destinatário, e quando não tiver, o que resta é adaptar o plano e registrar a barreira — o que já é mais do que quase todo prontuário faz.

  8. Registrar o achado e o acordo, nunca o caráter

    O último marco é o que determina o que o próximo profissional vai encontrar, e é o único cujo efeito se propaga sozinho. A regra é simples: registre o que foi apurado e o que foi combinado, em terceira pessoa e com o dado que sustenta cada afirmação, e não registre juízo sobre a pessoa. Refere que os alimentos acabaram antes do dinheiro nos últimos três meses e que comeu apenas o que havia é achado, tem origem declarada e permite ao próximo profissional agir. Trabalha seis dias por semana sem vínculo formal, sai às seis e vinte e retorna após as dezenove horas é achado, e explica o horário de qualquer agendamento futuro. Combinado plano reduzido a duas prioridades por inviabilidade de deslocamento, registradas ambas as versões é acordo. Paciente não aderente é juízo, não tem origem declarada, encerra a investigação e será lido como dado clínico por quem vier depois. Quando encontrar essa frase escrita por outro profissional, trate-a como hipótese não testada: faça as perguntas que ela substituiu e escreva o que apurou, porque é assim, e só assim, que ela deixa de ser a única informação disponível sobre aquela pessoa.

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Como saber se está funcionando

Reavaliar aqui não é medir se o paciente melhorou: é medir se o plano era executável e se continua sendo. Os sete parâmetros abaixo se colhem numa consulta de retorno comum e nenhum deles exige exame. Cinco olham para o plano e para o serviço; dois olham para a vida da pessoa, que muda mais rápido do que a doença.

Cumprimento medido contra o plano combinado, e não contra o plano ideal

É o parâmetro que precisa vir primeiro, porque a régua errada contamina todos os outros. Se na consulta anterior foram combinadas duas prioridades e a pessoa cumpriu as duas, o resultado é cumprimento integral — ainda que o plano ideal tivesse cinco linhas. Avaliar contra as cinco produz a leitura falsa de adesão parcial e reproduz o erro que o capítulo inteiro tenta desfazer. Isso só funciona se as duas versões estiverem registradas, o que é o motivo prático do último marco da conduta.

Número de idas ao serviço que o plano exigiu, e quantas de fato aconteceram

É a medida mais direta do custo que você impôs, e é uma medida do seu comportamento, não do da pessoa. Conte quantos deslocamentos o plano anterior exigia e quantos ocorreram. A razão entre as duas coisas costuma explicar sozinha o que se chamaria de baixa adesão. Um plano que exigia quatro idas e obteve uma não é um paciente que compareceu 25% das vezes: é um plano desenhado para uma pessoa com quatro manhãs livres. A conduta que decorre disso é reduzir o número de idas antes de aumentar a insistência.

A triagem alimentar reaplicada dentro do prazo, e o que ela mostrou

A periodicidade recomendada é de três a seis meses para quem vive em domicílio classificado em risco e de seis a doze meses para quem não vive. Reaplicar no piso de cada faixa tem uma vantagem que a nota técnica não explicita e a aritmética mostra: só o piso mantém o domicílio dentro da janela de seis meses que o próprio relatório usa para considerar a resposta válida. Além da reaplicação formal, vale a pergunta clínica que a triagem não faz — se houve mudança na última semana do mês, que é onde a restrição aparece primeiro. Uma triagem negativa não encerra o assunto: ela não foi construída para detectar insegurança alimentar leve.

A cartela, contada e não perguntada

Peça que a pessoa traga as caixas e conte. É o parâmetro mais objetivo do capítulo e o menos usado, e ele distingue com precisão as três situações que a pergunta verbal confunde: a caixa cheia com data antiga aponta decisão de não tomar, e a decisão tem motivo a investigar; a caixa vazia antes do tempo aponta falha de reposição, e o problema é de farmácia, de receita ou de horário; a caixa com quantidade intermediária persistente, mês após mês, aponta racionamento, e racionamento é sinal de que a pessoa não confia no abastecimento. As três exigem condutas diferentes e nenhuma delas é reforçar a orientação.

O executor nomeado de cada tarefa ainda existe

A camada de rede é a que muda mais depressa e a que ninguém reavalia. A filha que acompanhava mudou de emprego, a vizinha que ficava com as crianças se mudou, o marido que aplicava a insulina adoeceu. Qualquer uma dessas mudanças transforma um plano que funcionava num plano sem executor, sem que nada tenha mudado na doença nem na pessoa. A reavaliação é uma pergunta só, feita por tarefa: quem está fazendo isso hoje? Se a resposta mudou, o plano precisa ser refeito antes de a próxima falha acontecer.

O que mudou na vida entre uma consulta e outra

Quatro eventos concentram a maior parte das mudanças que inviabilizam um plano estável: perda ou troca de emprego, mudança de endereço, entrada ou saída de alguém do domicílio e mudança na composição da renda de quem sustenta a casa. Perguntar por eles é rápido porque são eventos, e evento se responde com sim ou não. Vale registrar quando a resposta é não, porque a estabilidade também é informação — e porque a pergunta feita de rotina, a cada retorno, deixa de parecer investigação sobre a vida particular e passa a ser o que é.

A linguagem que o prontuário passou a usar sobre esta pessoa

É o parâmetro de qualidade do seu próprio trabalho, e o mais desconfortável de olhar. Leia os registros feitos desde a última consulta, inclusive os seus, e procure as expressões que descrevem comportamento sem descrever causa. Se elas apareceram de novo, alguma coisa no encadeamento falhou: ou o achado não foi registrado de forma a ser encontrado, ou foi registrado e não foi lido. A correção não é apagar o registro de ninguém — é acrescentar o achado que faltava, com a origem declarada, no lugar onde o próximo profissional vai olhar primeiro.

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Onde o erro machuca

Os seis erros abaixo foram escolhidos por dois critérios: cada um aparece em consulta de internato com frequência alta, e cada um tem uma correção que cabe na mesma consulta. Os dois primeiros são erros opostos, e é preciso ver os dois juntos — quem foge do primeiro sem cuidado costuma cair no segundo.

Escrever que o paciente não aderiu antes de ter investigado por quê

O dano: É o erro central do capítulo, e o único cujo dano se propaga sem que ninguém o repita. A frase descreve comportamento e não descreve causa, mas entra no prontuário com a forma de um dado apurado — e o profissional seguinte parte dela. A partir daí, a investigação está encerrada para todos os que vierem depois. O que o torna especialmente traiçoeiro é que ele é confortável: oferece uma explicação completa, absolve o plano e não custa tempo nenhum.

Como pegar a tempo: Antes da frase, três perguntas — o exame foi de fato marcado, a receita estava válida, e o que a pessoa tentou fazer e o que atrapalhou. Se sobrar comportamento depois das três, registre o comportamento com o motivo que a pessoa deu, e não com o adjetivo que você deduziu.

Presumir a barreira pela aparência, pelo bairro ou pela ocupação

O dano: É o erro de quem entendeu o capítulo pela metade, e ele ofende exatamente quem o capítulo pretendia proteger. Deduzir insegurança alimentar da roupa, do sotaque ou do endereço; falar mais devagar com quem tem menos escolaridade; oferecer a versão reduzida do plano sem perguntar, porque se supôs que a pessoa não daria conta da versão completa. Tudo isso é decidir pela pessoa em vez de perguntar a ela, e é a definição operacional de condescendência.

Como pegar a tempo: Pergunta padronizada, feita a todos, com o objetivo declarado. É por isso que a triagem alimentar tem duas perguntas fixas em vez de um julgamento clínico: a padronização é o que a torna aplicável sem humilhar.

Repetir a orientação em voz mais firme quando a barreira é de outra camada

O dano: A pessoa não faz a caminhada; você explica de novo a importância do exercício. A pessoa não faz o exame; você explica de novo por que ele é necessário. Reexplicar só funciona quando a barreira é de compreensão — e a compreensão é a camada mais rara das quatro. Quando a barreira é de tempo, de dinheiro, de deslocamento ou de executor, repetir a orientação não aumenta a chance de cumprimento e diminui a chance de a pessoa contar a verdade da próxima vez, porque cada repetição sinaliza que a resposta esperada é outra.

Como pegar a tempo: Antes de repetir qualquer orientação, identifique em que camada mora a suposição que falhou. Se não for a de comportamento, mude o plano em vez do tom.

Aceitar a pergunta "entendeu?" como conferência

O dano: A pergunta admite uma resposta educada e obtém sempre a mesma. Ela não checa nada e ainda produz falso conforto, porque o profissional sai da consulta acreditando que conferiu. O erro é agravado quando a orientação foi dada só na fala: tudo o que foi dito e não escrito se perde no caminho de volta, e a pessoa fica com uma receita que não diz o horário, não diz por quanto tempo e não diz o que fazer se esquecer uma dose.

Como pegar a tempo: Peça que a pessoa conte de volta, com uma formulação que ponha o erro do lado de quem escreveu — me conta como a senhora vai tomar, para eu ver se eu escrevi direito. O que aparecer ali é quase sempre ambiguidade da receita, e não incompreensão de quem a leu.

Nomear a desigualdade e parar aí

O dano: É o erro específico de quem gostou do assunto. A consulta identifica que a pessoa é pobre, que mora longe, que trabalha demais — e o registro termina numa constatação sociológica correta que não muda uma linha do plano. Constatação sem conduta tem custo: consumiu o tempo da consulta, expôs a intimidade da pessoa e devolveu a ela um diagnóstico social que ela já conhecia melhor do que você.

Como pegar a tempo: Toda barreira identificada precisa terminar numa das quatro saídas — adaptar o plano, providenciar o que é do serviço, recrutar quem existe, ou encaminhar com destinatário nomeado. Quando nenhuma das quatro for possível, a saída é registrar a barreira pelo nome e dizer isso em voz alta à pessoa, o que ao menos impede que o não cumprimento seja atribuído a ela depois.

Reduzir o plano em silêncio

O dano: É o erro mais bem-intencionado dos seis. Percebendo que o plano completo não vai ser cumprido, o profissional entrega uma versão menor sem dizer que é menor e sem registrar que houve redução. O prejuízo é duplo. Para a pessoa, o plano reduzido chega como se fosse o cuidado completo, e ela perde a informação de que está abrindo mão de alguma coisa por um motivo específico e possivelmente transitório. Para o serviço, o próximo profissional lê o plano reduzido como se fosse o ideal, considera que está tudo em ordem e não retoma o que ficou de fora quando a circunstância mudar.

Como pegar a tempo: Negocie explicitamente, nomeie a versão possível como versão possível, e registre as duas versões com o motivo da diferença.

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O que dizer ao paciente e à família

A conversa deste capítulo é a de Veridiana, na consulta do ambulatório de egressos, quarenta e três dias depois de uma alta com seis linhas de plano e nenhuma delas cumprida. O objetivo não é convencê-la de nada: é descobrir onde o plano quebrou e sair da sala com uma versão que ela consiga cumprir.

As sete falas abaixo são as que fazem o trabalho. Nenhuma delas contém a palavra adesão, nenhuma delas começa com uma pergunta que a obrigue a se justificar, e a última é a que impede que tudo isso se perca no registro.

Depois de ela dizer que não fez a fundoscopia e não voltar a falar

"Antes de a gente ver o que fazer agora, me ajuda numa coisa: eu preciso entender o que aconteceu com o papel do exame. A senhora chegou a receber a data marcada?" — A pergunta não é por que não fez. É sobre o papel, que é um objeto fora dela, e a resposta separa de saída falha do serviço de barreira de acesso. Se a data saiu, a próxima pergunta é qual data e qual horário, porque muitas vezes o problema está inteiro ali.

Ela responde que a data saiu, para uma quarta-feira às oito da manhã, no centro de especialidades

"Do jeito que é o seu dia, essa quarta-feira às oito era possível?" — Formulada assim, a pergunta trata o horário como o problema e não a pessoa, e permite que ela responda com o fato, não com uma desculpa. É o que abre a informação de que ela sai de casa às seis e vinte, pega dois ônibus, e que faltar significa não receber.

Trazendo o assunto de alimentação, sem preâmbulo de desculpas

"Faço duas perguntas para todo mundo que atendo aqui, porque elas mudam o que eu vou orientar sobre comida. Nos últimos três meses, os alimentos chegaram a acabar antes de a senhora ter dinheiro para comprar mais? E a senhora chegou a comer só o que ainda tinha em casa porque o dinheiro tinha acabado?" — As duas perguntas vêm juntas e vêm anunciadas como rotina. O que faz a frase funcionar é que as duas afirmações do preâmbulo são verdadeiras: são feitas a todos, e realmente mudam a orientação.

Antes de repetir qualquer coisa sobre a dieta

"Me conta o que a senhora costuma almoçar num dia de trabalho, e onde a senhora almoça." — Perguntar o que ela come, e não se ela come certo, é a diferença entre colher informação e cobrar. E perguntar onde é o que descobre que o almoço acontece na casa em que ela trabalha, com a comida que é feita ali, sobre a qual ela não decide — o que reorganiza a orientação alimentar inteira e torna inútil metade do que estava escrito na alta.

Sobre o curativo, para descobrir se existe executor

"Nos dias em que a senhora está trabalhando, quem é que troca o curativo?" — A pergunta pressupõe que alguém troca, o que evita a resposta defensiva, e obriga a resposta a produzir um nome ou a ausência de um nome. Se não houver nome, o curativo em dias alternados não é uma orientação com baixa adesão: é uma tarefa sem executor, e a conduta é mudá-la — para a unidade, para outro intervalo, ou para uma técnica que ela consiga fazer sozinha à noite.

Fechando o plano, nomeando a redução em voz alta

"Do jeito que a sua semana é, o plano que eu escrevi na alta não cabe. Vamos fazer assim: destas cinco coisas, duas ficam para agora — o exame de sangue, que a gente colhe aqui mesmo hoje, e o remédio, que eu vou reescrever de um jeito mais claro. As outras três a gente retoma quando der. Isso não é o ideal; é o que dá para fazer, e é melhor do que um plano bonito que não sai do papel." — Dizer que é a versão possível protege a pessoa da sensação de estar falhando e protege o próximo profissional de ler o plano reduzido como se fosse o completo.

A última fala é para o prontuário, e não para a paciente

Refere que os alimentos acabaram antes do dinheiro nos últimos três meses e que comeu apenas o que havia em casa; triagem de risco de insegurança alimentar positiva nas duas perguntas, encaminhada à assistência social do território. Trabalha seis dias por semana sem vínculo formal, sai às seis e vinte e retorna após as dezenove horas; falta ao trabalho implica perda da diária. Exame agendado para quarta-feira às oito no centro de especialidades, incompatível com a jornada — solicitada remarcação para turno da tarde ou para sábado. Plano reduzido, por acordo, a duas prioridades das cinco da alta; registradas as duas versões e o motivo. É isto que substitui a frase que estava escrita na folha de duas semanas atrás — e é isto que o próximo profissional vai encontrar.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Cor ou raça: eixo de medida próprio, ou marcador dentro de um conjunto interseccional?

Os inquéritos nacionais tratam cor ou raça como eixo de estratificação independente, ao lado de sexo, idade e nível de instrução, e publicam cada indicador desagregado pelos três. É o que permite ler diferenças que ficariam invisíveis: autoavaliação de saúde boa ou muito boa em 71,0% das pessoas de cor branca contra 62,9% das pretas e 62,1% das pardas; sintomas de angina de grau 2 sem meio de locomoção em 4,0% das brancas contra 4,9% das pardas; consumo regular de feijão menor entre brancos do que entre pretos e pardos. Nessa leitura, a categoria é instrumento de medida, e retirá-la apaga a diferença em vez de resolvê-la.

IBGE. Pesquisa Nacional de Saúde 2019: percepção do estado de saúde, estilos de vida, doenças crônicas e saúde bucal. Rio de Janeiro, 2020 — gráficos 2, 4 e 7

A norma federal mais recente que trata do assunto não isola cor ou raça como eixo próprio: coloca o enfrentamento das iniquidades étnico-raciais dentro de um compromisso mais amplo com equidade, territorialização e redução de desigualdades regionais, e trata os marcadores étnico-raciais como um entre vários, ao lado dos culturais, de gênero e de vulnerabilidade social e econômica, sob a ideia de interseccionalidade. Nessa leitura, a categoria isolada informa pouco e o que decide é o conjunto de exposições que ela costuma acompanhar.

Brasil. Portaria GM/MS nº 11.527, de 9 de junho de 2026, que institui a Política Nacional de Qualidade do Cuidado e Segurança do Paciente — princípios e diretrizes

Como decidir

Para a pessoa à sua frente, as duas posições convergem numa conduta e divergem em outra, e vale separar as duas. Convergem no registro: a cor ou raça autodeclarada deve ser colhida e registrada, porque é ela que permite ao serviço medir depois se o atendimento produz diferença — e porque a autodeclaração é da pessoa, não sua. Divergem quanto a mudar a conduta clínica individual em função da categoria, e nenhum dos dois documentos lidos aqui converte a categoria em conduta individual. Regra prática enquanto isso não estiver resolvido: o que muda o seu plano é o achado concreto — comida, deslocamento, jornada, executor, compreensão —, perguntado a todos os pacientes da tarde. Se alguma vez a sua conduta mudar por causa da categoria e não do achado, você precisa poder dizer qual documento manda mudá-la; se não puder nomeá-lo, a mudança não é conduta, é presunção.

De quanto em quanto tempo repetir a triagem de insegurança alimentar em quem não está em risco

A recomendação explícita de reaplicação, para quem não vive em domicílio classificado em risco, é de no mínimo seis e no máximo doze meses. Espaçar até doze meses reduz a carga sobre a equipe e sobre o cadastro, e reserva a reaplicação frequente para os domicílios que já demonstraram risco — que têm faixa própria, de três a seis meses.

Brasil. Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 51/2024-CGAN/DEPPROS/SAPS/MS, item de periodicidade de reaplicação

A mesma nota técnica manda considerar, para definir o risco, apenas a última resposta registrada nos últimos seis meses do período avaliado. Reaplicar em doze meses, portanto, deixa o domicílio fora da janela de contagem em 6 dos 12 meses; em nove meses, em 3 de 9. Só o piso de seis meses mantém cobertura contígua. Por essa leitura, a reaplicação semestral para todos é o único intervalo compatível com a regra de apuração do próprio documento.

Brasil. Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 51/2024-CGAN/DEPPROS/SAPS/MS, item de definição da situação de risco — regra dos últimos seis meses

Como decidir

Para o domicílio à sua frente, a decisão não depende de resolver a contradição da norma, e sim de para que serve a resposta naquele caso. Se a triagem está sendo usada para decidir conduta — orientação alimentar, encaminhamento à assistência social, prioridade de acompanhamento —, repita sempre que houver evento que mude renda ou composição do domicílio, sem esperar prazo: perda de emprego, mudança de endereço, alguém que entrou ou saiu de casa. Se está sendo usada para alimentar o relatório do serviço, o intervalo de seis meses é o que garante que aquele domicílio continue existindo na contagem. Na prática, os dois objetivos se atendem com a mesma escolha, e é a mais frequente das duas.

Aplicar a triagem de duas perguntas a domicílios sem crianças

A regra federal em uso manda aplicar a triagem a todo respondente de dezoito anos ou mais na ficha de cadastro individual, sem qualquer distinção quanto à presença de crianças no domicílio, e organiza toda a apuração nacional sobre essa base desde novembro de 2023.

Brasil. Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 51/2024-CGAN/DEPPROS/SAPS/MS, item de identificação do cidadão respondente

O estudo de validação de 2021 construiu e testou a triagem em domicílios com crianças, a partir de uma pesquisa nacional de demografia e saúde da mulher e da criança de 2006 e 2007, com 3.920 domicílios, e é nessa população que os valores de sensibilidade de 79,31% e especificidade de 92,95% foram estimados. O desempenho fora dessa população não é o que esse estudo mediu.

Poblacion A, Segall-Corrêa AM, Cook J, Taddei JAAC. Cadernos de Saúde Pública, 2021;37(6):e00132320

Como decidir

Aplique a triagem de qualquer forma, inclusive em domicílio sem criança: as duas perguntas custam vinte segundos, e uma resposta positiva é acionável em qualquer arranjo domiciliar. O que muda com esta divergência é a leitura da resposta negativa. Num domicílio com crianças, a negativa foi medida contra a escala completa e carrega o valor preditivo negativo publicado. Num domicílio sem crianças, a negativa vem de um instrumento aplicado fora da população em que foi construído, e vale menos — some-se a isso que o desempenho publicado foi estimado contra um padrão-ouro que classificava insegurança alimentar leve como segurança. Conduta: numa triagem negativa em domicílio sem crianças, faça a pergunta clínica que a triagem não faz — se houve mudança no que se come na última semana do mês — antes de considerar o assunto encerrado.

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O raciocínio, em voz alta

Terça-feira, dez e quarenta, unidade básica de um bairro industrial. Otaviano Corvo, 47 anos, auxiliar de produção numa fábrica de embalagens, vem ao terceiro retorno de hipertensão e diabetes diagnosticado há sete meses. É a terceira vez que ele chega sem os exames pedidos. A pressão de hoje é 162 por 98 e o registro da consulta anterior, feito por outro profissional, termina com a observação de que o paciente demonstra pouco comprometimento com o tratamento. Otaviano é educado, responde ao que se pergunta e não reclama de nada. Sobre os exames, diz que não conseguiu.

  1. Passo 1 — Ler o registro anterior como hipótese, e não como dado

    A frase sobre pouco comprometimento descreve comportamento e não descreve causa. Ela não é apagada nem contestada: é tratada como uma hipótese que ninguém testou, e a consulta de hoje é o teste. O que muda na prática é a ordem — as perguntas que a frase substituiu vêm antes de qualquer orientação sobre a importância do tratamento.

  2. Passo 2 — Verificar primeiro o que é do serviço

    O prontuário mostra que os exames foram solicitados nas três consultas e que as três solicitações estão registradas. A receita anterior venceu há cinco semanas, e a última retirada na farmácia da unidade foi há dois meses. Metade do problema aparece aqui, sem nenhuma pergunta a Otaviano: durante cinco semanas ele não tinha receita válida para retirar medicamento que consta do Componente Básico e está disponível na própria unidade.

  3. Passo 3 — Perguntar sobre o dia, não sobre a intenção

    Em que horário o senhor trabalha. A resposta reorganiza tudo: turno da noite, das vinte e duas às seis, cinco noites por semana. Ele dorme das oito da manhã às quatro da tarde. A unidade abre às sete e a coleta de sangue em jejum é até as nove. O horário em que o serviço coleta é o horário em que ele dorme depois de oito horas em pé — e o exame não é em jejum apenas de comida, é em jejum de sono.

  4. Passo 4 — Identificar a camada de cada suposição

    Exame em jejum pela manhã supõe manhã disponível: camada de condições de vida e de trabalho. Receita válida supõe consulta dentro do prazo de validade: falha do serviço. Caminhada de manhã supõe manhã: mesma camada da primeira. Medicamento tomado em horários fixos supõe rotina diurna: camada de comportamento, mas condicionada pelo turno, porque um esquema escrito para quem acorda às sete não descreve nenhum momento real do dia dele.

  5. Passo 5 — Resolver dentro da consulta o que dá para resolver

    A receita é reescrita hoje, com validade longa e com a posologia ancorada nos horários dele — ao acordar, no meio do turno e ao chegar em casa —, e não em manhã, tarde e noite. A coleta é reagendada para o dia da semana em que ele folga, e a solicitação sai com essa informação escrita. A hemoglobina glicada é pedida junto, para que a mesma ida resolva as duas coisas. Nenhuma dessas três providências depende de recurso que a unidade não tenha.

  6. Passo 6 — Aplicar a triagem alimentar, porque é rotina e não seleção

    As duas perguntas são feitas com o preâmbulo padrão. As duas respostas são não. Isso não encerra o assunto: a pergunta clínica complementar — se muda o que se come na última semana do mês — traz que a alimentação do turno da noite é a que a fábrica oferece na cantina, e que não há escolha ali. É achado de conteúdo, não de renda, e muda a orientação alimentar de restrição genérica para o que é possível escolher dentro do que existe na bandeja.

  7. Passo 7 — Registrar o achado e substituir a frase

    O registro diz: trabalha em turno noturno das vinte e duas às seis, dorme das oito às dezesseis; coleta matinal em jejum incompatível com a jornada, reagendada para o dia de folga. Receita vencida há cinco semanas, reescrita hoje com validade estendida e posologia ancorada nos horários do turno. Triagem de risco de insegurança alimentar negativa nas duas perguntas; refeição do turno fornecida pelo empregador, sem escolha de cardápio. Nenhuma dessas quatro informações estava no prontuário antes de hoje, e as quatro juntas explicam três consultas de exames não realizados sem recorrer a nenhuma afirmação sobre o caráter de Otaviano.

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Faça você

Quinta-feira, sete e meia, reunião de equipe. A agente comunitária de saúde Margarida Tabajara traz um nome da sua microárea: Eugenio Curado, 72 anos, aposentado por invalidez, mora com a filha e dois netos. Ele tem insuficiência cardíaca e hipertensão, e não retira medicamento na farmácia da unidade há dois meses. Margarida esteve na casa ontem. Conta três coisas: que ele está andando menos do que andava, que a filha começou a trabalhar em outro município há seis semanas e sai de casa às cinco da manhã, e que ela viu duas cartelas quase cheias em cima da geladeira. Ninguém da equipe o vê desde a consulta de abril. A médica pergunta o que a equipe vai fazer, e olha para você.

  1. Primeiro

    Diga o que cada uma das três informações de Margarida significa, e em qual camada do modelo ela mora. Depois diga qual delas, sozinha, já muda a conduta da equipe hoje — antes de qualquer consulta acontecer.

  2. Segundo

    Monte a conduta em três partes: o que se verifica no sistema sem sair da sala, o que se pergunta na visita domiciliar, e o que se decide sobre onde e quando Eugenio será atendido. Diga também o que você escreveria no prontuário ao final, e o que deliberadamente não escreveria.

Ver como fecharíamos

O que cada informação significa. Andar menos, num paciente com insuficiência cardíaca, é achado clínico e pode ser descompensação — não é camada social nenhuma e é a única das três que pode exigir avaliação hoje. A filha ter começado a trabalhar em outro município há seis semanas é camada de redes sociais e comunitárias, e é a informação que mais explica o restante: o intervalo bate com os dois meses sem retirada de medicamento, e quem buscava provavelmente era ela. As cartelas quase cheias em cima da geladeira são camada de comportamento na aparência e, quase certamente, camada de rede no fundo — cartela cheia com data antiga aponta medicamento que não está sendo tomado, e a coincidência com a saída da filha aponta que quem organizava as doses também era ela. A informação que já muda a conduta antes de qualquer consulta é a segunda: o plano de Eugenio perdeu o executor há seis semanas e ninguém no serviço soube. O que se verifica sem sair da sala: se a receita está válida, se houve retirada em outra unidade, se há consulta agendada e não comparecida, e se o cadastro registra a mudança de composição do domicílio. O que se pergunta na visita: quem prepara e entrega os remédios hoje; quem faz a comida; quem pode acompanhá-lo a uma consulta e em que dia; se ele consegue ir sozinho até a unidade e quanto tempo leva; e as duas perguntas da triagem de insegurança alimentar, que passam a valer para um domicílio cuja renda e cuja rotina mudaram. O que se decide: dada a queixa de queda da capacidade funcional, a avaliação não espera a próxima agenda — ou visita médica domiciliar, ou consulta com transporte garantido, e não um novo agendamento comum que dependeria da filha que não está mais disponível. E a organização do medicamento passa a ter um responsável nomeado, seja um neto, seja um vizinho, seja a própria equipe por meio de entrega e conferência na visita. O que se escreve: mudança na composição funcional do domicílio há seis semanas, com perda do cuidador que organizava a medicação e fazia a retirada; duas cartelas com sobra compatível com dois meses sem uso; refere redução da tolerância ao esforço, a esclarecer; definido responsável pela organização das doses e agendada avaliação com deslocamento resolvido. O que não se escreve: qualquer variante de abandono de tratamento, de paciente pouco colaborativo ou de família ausente. A família não está ausente; ela está trabalhando em outro município, o que é um fato com data, e é o fato que resolve o caso.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

A conta é de subtração e revela uma incompatibilidade dentro do mesmo documento: doze meses de intervalo menos seis meses de janela de validade deixam metade do ciclo sem resposta que possa ser contada. Reaplicações a nove meses deixariam 3 de 9, ou 33% do ciclo. Só o piso de seis meses, extremo inferior da faixa recomendada, mantém cobertura contígua. O efeito é que o domicílio que está bem some do relatório com mais frequência do que o que está mal, e some justamente por ter seguido a recomendação. Não há reaproveitamento automático da resposta vencida, nem classificação automática em risco, nem exclusão definitiva do cadastro.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Sem consultar o texto, resolva a cena de abertura: Investigar barreiras e pactuar um plano viável sem rotular a pessoa como não aderente. Descreva os achados que sustentam a decisão, um erro evitável e o plano para mudança do quadro; depois compare com o caso resolvido.

Em 30 dias

Retome um caso real acompanhado sob supervisão ou simule o caso do capítulo. Explique o que mudou na sua decisão, confira se o próximo passo ocorreu e identifique uma melhoria concreta. Não use dados identificáveis fora do ambiente autorizado. Competência a demonstrar: Investigar barreiras e pactuar um plano viável sem rotular a pessoa como não aderente.

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Agora atenda

Agora atenda: homem de 58 anos, acompanhado na mesma unidade básica há seis anos, diz que veio só pegar a receita e traz exames que mostram a pressão e o diabetes fora de controle. Antes de escrever que ele não aderiu, descubra por quê: pergunte o que ele tentou fazer e o que atrapalhou, leia o plano contra a vida dele linha por linha, corrija primeiro o que é do serviço, negocie a versão possível — e diga que é a versão possível — e registre o achado e o acordo, nunca o caráter.

Determinantes sociais da saúde e o modelo de Dahlgren-Whitehead – Não aderiu — Internato | OsceLabs