Outras EspecialidadesMedicina Preventiva e Saúde Coletiva

O desenho decide a pergunta

Tipos de estudo epidemiológico (coorte, caso-controle, transversal, ensaio clínico)

Por qual porta a pessoa entrou no estudo, que medida sai daí, que viés vem de fábrica com cada desenho — e por que “associação” e “causa” não são a mesma frase.

Fontes deste capítulo

Brasil. Lei nº 14.874, de 28 de maio de 2024. Dispõe sobre a pesquisa com seres humanos e institui o Sistema Nacional de Ética em Pesquisa com Seres Humanos. Publicada no DOU de 29/05/2024; em vigor desde 27/08/2024 (art. 65). Partes vetadas promulgadas em 01/07/2025 (DOU de 02/07/2025).

Brasil. Decreto nº 12.651, de 7 de outubro de 2025. Regulamenta a Lei nº 14.874/2024. Publicado no DOU de 08/10/2025; em vigor na data da publicação (art. 41).

Conselho Nacional de Saúde (Brasil). Resolução nº 466, de 12 de dezembro de 2012. Aprova as diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos. Publicada no DOU de 13/06/2013.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos. Departamento de Ciência e Tecnologia. Diretrizes metodológicas: elaboração de revisão sistemática e metanálise de estudos observacionais comparativos sobre fatores de risco e prognóstico. Brasília: Ministério da Saúde, 2014. 132 p. ISBN 978-85-334-2171-4.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Vigitel Brasil 2023: vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico. Brasília: Ministério da Saúde, 2023. 1ª edição, versão eletrônica.

01

Responda antes de ler

Um inquérito domiciliar entrevista e mede 6.400 adultos numa única visita e encontra prevalência de uma doença crônica de 22,4% entre trabalhadores de turno noturno e 14,1% entre os demais. Os autores concluem que o trabalho noturno aumenta o risco da doença. Qual é a objeção que decorre diretamente do desenho?

02

O paciente que você vai ver

Quinta-feira, 7h10, enfermaria de clínica médica de dezoito leitos num hospital de ensino do interior. A visita começa às oito. Sobre o balcão do posto, ao lado da pilha de prescrições impressas da noite, há três papéis que não são de paciente nenhum, e os três chegaram até aqui pelo mesmo motivo: alguém quer mudar uma conduta por causa deles.

O primeiro é uma folha dobrada em quatro que a filha da dona Cassilda Bitencurt deixou na recepção ontem à noite, com um bilhete pedindo que o médico leia. É a impressão de uma matéria de site, e dentro dela há um estudo: pessoas que tomam um suplemento têm menos de uma certa doença. A filha sublinhou a frase com caneta azul e escreveu ao lado, com letra firme, uma pergunta de três palavras: por que não?

O segundo é uma cópia de artigo com o carimbo da biblioteca, deixada pelo plantonista da noite com um bilhete mais curto ainda — “vale a pena?”. É um trabalho grande, de um país que não é este, comparando dois esquemas de antibiótico numa infecção que a enfermaria trata quase toda semana. O resumo termina dizendo que o esquema novo se associou a menos dias de internação.

O terceiro papel é o mais próximo de você. É uma planilha impressa: o Teobaldo, residente do primeiro ano, levantou de prontuário todos os pacientes internados com uma mesma condição nos últimos três anos, separou os que receberam uma medicação dos que não receberam, contou quantos morreram em cada grupo e escreveu no alto, à mão, a frase que ele pretende submeter a um congresso: o uso da medicação reduziu a mortalidade. Ele quer que você seja coautor. A planilha tem noventa e uma linhas.

A preceptora, dra. Sinésia Maximiano, passa pelo posto com o café na mão, olha os três papéis de longe e não pergunta se os estudos são bons. Pergunta outra coisa, e é a única pergunta que este capítulo ensina a responder: cada um desses estudos pode sustentar o que ele diz que sustenta? Ela dá o prazo — dez horas, depois da visita — e vai embora.

A tentação, aqui, é procurar um selo. Revista boa, número grande de participantes, valor de p pequeno, palavra “multicêntrico” no título. Nenhum desses selos responde à pergunta, e é por isso que este capítulo não é de metodologia: é de internato. O interno lê estudo o tempo todo — no resumo que o colega manda, no folheto que o representante deixa, na diretriz que a chefia adota, na frase que o paciente traz de casa — e quase nunca tem tempo de ler o artigo inteiro. O que ele precisa é de uma pergunta que caiba no tempo que ele tem e que responda pelo resto.

Essa pergunta é o desenho do estudo. Não o nome que os autores deram ao trabalho, e sim o modo como os dados foram coletados: quem entrou, por qual porta, e em que ordem as coisas foram observadas. O desenho decide que pergunta pode ser respondida e qual medida sai dali. Coorte dá incidência e permite falar de risco. Caso-controle não dá incidência, e é exatamente por isso que dele só sai razão de chances. Transversal fotografa tudo ao mesmo tempo e por isso não separa causa de consequência. Randomização favorece comparabilidade em expectativa, sem garantir equilíbrio exato, ausência de outros vieses ou aplicabilidade a todos os pacientes.

Os três papéis do balcão são de três desenhos diferentes, e cada um vai falhar de um jeito próprio. Um deles vai dizer “associado a menos” quando o que os dados mostram é que quem toma o suplemento é diferente de quem não toma, antes do suplemento. Outro vai dizer “reduziu” a partir de uma comparação em que ninguém sorteou nada e quem recebeu a medicação estava melhor desde o começo. E um terceiro vai dizer uma coisa verdadeira sobre um desfecho que não é o que interessa ao paciente.

No fim do capítulo, os três voltam e a resposta de cada um está escrita. O que você vai levar para o resto do internato, porém, não é a resposta: é o hábito de ler o resumo procurando primeiro por como as pessoas entraram no estudo — e de saber, antes de qualquer outra coisa, o que aquele desenho não permite concluir.

03

Quem adoece disso

Vale começar pela epidemiologia do próprio problema, porque ela explica por que esta habilidade é de plantão e não de pós-graduação. A imensa maioria do que o interno lê no internato não é ensaio clínico randomizado. É estudo observacional: alguém olhou o que já estava acontecendo, contou, comparou e publicou. As decisões que o interno acompanha na enfermaria vêm, quase sempre, de uma diretriz que resumiu uma mistura de desenhos, com pesos diferentes, sem que a diretriz explique qual peso deu a qual.

O Brasil produz muito estudo observacional e pouco ensaio. O maior inquérito de saúde do país é transversal e é feito por telefone: o Vigitel, do Ministério da Saúde, completou em 2023 a sua 17ª coleta e, somadas as edições, entrevistou 305.682 homens e 500.487 mulheres — 806.169 pessoas ao todo. Só na edição de 2023 foram 21.690 entrevistas nas 26 capitais e no Distrito Federal, metade por telefone fixo e metade por celular. Tudo isso é fotografia: mede quantas pessoas têm hoje aquele hábito ou aquela doença, e não mede quantas passaram a ter.

A maior coorte brasileira de adultos é o ELSA-Brasil, o Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto: 15.105 participantes recrutados em seis centros de universidades e instituições públicas, com a linha de base concluída em dezembro de 2010 e seguimento por telefone e reexames periódicos, montada para medir incidência de doença cardiovascular e diabetes. Repare no detalhe que decide tudo o que se pode dizer com ela: os participantes são servidores dessas instituições. É uma população fixa, localizável, que fica — e que, por isso mesmo, não é uma amostra do Brasil.

Ensaio clínico randomizado brasileiro existe, e o país mostrou na pandemia que consegue fazê-lo em escala. O Coalizão Covid-19 Brasil I randomizou pacientes internados com covid-19 leve a moderada em 55 hospitais para hidroxicloroquina, hidroxicloroquina com azitromicina ou cuidado usual, e não encontrou melhora do estado clínico no décimo quinto dia. Foi um ensaio caro, difícil, montado em meses — e a resposta que ele deu contradisse uma pilha inteira de séries e estudos observacionais que vinham dizendo o contrário.

Essa é a distribuição que importa para o dia a dia: muita fotografia, alguma coorte, pouquíssimo ensaio, e quase todo o resto sem grupo de comparação. Quando um interno lê “estudo mostra que”, a probabilidade a priori é de que ele esteja lendo um estudo que não pode responder à pergunta que a manchete respondeu.

Há um segundo dado epidemiológico, menos citado e mais incômodo: os desenhos erram em direções conhecidas. A história da terapia hormonal do climatério é o exemplo canônico, e está escrita dentro de um documento do próprio Ministério da Saúde: estudos observacionais mostraram redução de eventos cardiovasculares em mulheres que faziam reposição hormonal, e ensaios randomizados posteriores não confirmaram o benefício. A explicação não é fraude nem má-fé. É que as mulheres que faziam reposição — ou cujos médicos a indicavam — tinham também melhor condição socioeconômica, praticavam mais atividade física e faziam mais exames periódicos. O tratamento estava marcando quem já ia bem.

Guarde a forma do erro, porque ela se repete em todo lugar: o grupo que recebeu a coisa boa já era diferente do grupo que não recebeu, antes de receber. É essa diferença de partida que o desenho do estudo controla ou deixa passar. E é por isso que a primeira coisa a procurar num resumo nunca é o resultado.

04

Por que acontece o que acontece

O mecanismo é mais simples do que a linguagem faz parecer. Todo estudo comparativo tem duas variáveis: uma exposição (o remédio, o hábito, o fator, a característica) e um desfecho (a doença, a morte, a internação, a cura). E todo desenho se define por uma pergunta só: por qual porta a pessoa entrou no estudo — pela exposição, pelo desfecho, por nenhuma das duas, ou por sorteio?

Quando as pessoas entram pela exposição, o estudo é uma coorte. O pesquisador identifica quem está exposto e quem não está, com todo mundo ainda sem o desfecho, e acompanha os dois grupos ao longo do tempo contando quantos passam a ter o desfecho em cada um. Como ele sabe quantas pessoas entraram e por quanto tempo cada uma foi observada, ele tem denominador: pessoas, e pessoas-tempo. Ter denominador é o que permite falar de incidência — quantos casos novos por pessoa observada, ou por pessoa-ano — e é o que permite comparar risco entre expostos e não expostos. Nenhum outro desenho observacional entrega isso de graça.

Quando as pessoas entram pelo desfecho, o estudo é um caso-controle. O pesquisador junta quem já tem a doença (os casos), junta um grupo de comparação sem a doença (os controles) e olha para trás para ver quem estava exposto. A economia é enorme: para uma doença rara, uma coorte precisaria acompanhar dezenas de milhares de pessoas por anos para juntar cem casos; o caso-controle começa com os cem casos na mão. O preço é estrutural e não tem conserto: quem decide quantos controles vai ter é o pesquisador. Ele podia ter escolhido um controle por caso, ou quatro, ou dez. Se o número de controles é uma escolha de quem desenhou o estudo, a proporção de doentes na amostra é uma escolha também — e uma proporção escolhida não mede nada sobre o mundo. Por isso não sai incidência, não sai prevalência, não sai risco absoluto. Sai a comparação de chances de exposição entre casos e controles, que é a razão de chances.

Vale ver isso com números reais, porque a intuição resiste. Um documento metodológico do Ministério da Saúde traz, como exemplo de caso-controle, um estudo de estatina e câncer colorretal com 101 casos e 132 controles, dos quais 20 casos e 68 controles tinham usado estatina antes. Dá para calcular a razão de chances: 20 vezes 64 dividido por 81 vezes 68, ou 1.280 sobre 5.508, igual a 0,23. Refizemos a conta e ela bate com o valor bruto publicado no artigo original. O que não dá para calcular, com esses mesmos quatro números, é qualquer coisa parecida com risco de câncer: 101 sobre 233 não é a frequência de câncer colorretal em lugar nenhum do mundo — é a razão de 1,31 controle por caso que os autores decidiram usar.

Quando as pessoas não entram por nenhuma das duas portas, e sim são encontradas todas ao mesmo tempo, o estudo é transversal. Mede-se exposição e desfecho na mesma visita, no mesmo telefonema, no mesmo dia. É rápido, é barato, e é o que o país mais faz. O que ele mede bem é prevalência: quanta gente tem aquilo agora. O que ele não consegue fazer é ordenar as duas coisas no tempo — e sem ordem no tempo, não há como saber quem veio antes. Se um inquérito mostra que quem faz atividade física tem menos dor lombar, a leitura de que o exercício protege a coluna é possível; a de que a dor impede o exercício é igualmente possível, e o estudo não decide entre elas. Isso se chama causalidade reversa, e não é um defeito de execução: é o desenho.

Há uma segunda armadilha do transversal, mais silenciosa. A prevalência não é feita só de casos novos: ela é feita de casos novos multiplicados pelo tempo que cada caso dura. Uma doença que mata em três dias quase não aparece numa fotografia; uma que dura trinta anos aparece demais. Assim, um transversal que encontra muita gente com uma condição pode estar medindo sobrevida, não ocorrência — e um fator que apareça associado à condição pode estar associado a durar com ela, não a desenvolvê-la. Quem lê depressa conclui causa; o que estava lá era duração.

A quarta porta é o sorteio, e ela existe para resolver um problema específico. Nos três desenhos anteriores, quem recebe a exposição e quem não recebe são grupos formados pela vida: por indicação médica, por acesso, por renda, por gravidade, por preferência. Tudo o que difere entre os grupos e também afeta o desfecho é uma variável de confusão, e o resultado observado é uma soma do efeito da exposição com o efeito dessas diferenças. Análise estatística ajusta o que se conhece e mediu; não ajusta o que não se conhece, e não ajusta bem o que se mediu mal. Quando o pesquisador sorteia quem recebe o quê, as diferenças conhecidas e as desconhecidas se distribuem por acaso entre os grupos, e passam a ser comparáveis por construção, não por argumento. É isso — e só isso — que a randomização compra.

Repare no “só isso”, porque é onde o interno se perde. Randomizar não impede que o desfecho medido seja um substituto sem importância clínica. Não impede que o comparador seja fraco de propósito. Não impede que quem avaliou o desfecho soubesse quem recebeu o quê — isso é papel do cegamento, que é outra coisa. Não impede que quem alocou soubesse, de antemão, para onde o próximo paciente iria — isso é papel do sigilo da alocação, que é outra coisa ainda. Não impede que o estudo seja interrompido cedo, num momento favorável. Não impede que a população estudada não se pareça com a sua. Randomização favorece comparabilidade em expectativa, sem garantir equilíbrio exato, ausência de outros vieses ou aplicabilidade a todos os pacientes. Tudo o mais continua em aberto, e é sobre esse resto que o restante deste capítulo trata.

Sala de espera de ambulatório vista de cima, com fileiras de cadeiras plásticas parcialmente ocupadas e cadeiras vazias entre as pessoas.
Quem está sentado ali já foi selecionado por alguma coisa antes de você olhar — pela distância até o serviço, pelo horário do ônibus, pela gravidade que fez valer a viagem. Todo estudo começa por uma sala de espera dessas, e o desenho é a regra que diz quem entrou nela.
05

Como se apresenta de verdade

Um desenho não se reconhece pelo nome que o autor deu, e sim pelo modo como os dados foram coletados. O nome está no título, e o título é escrito por quem quer que o trabalho seja lido. O modo de coleta está no método, e aparece no resumo em duas ou três frases que quase ninguém lê com atenção. As seis seções abaixo são o treino de olhar para essas frases.

Em cada uma, a pergunta é sempre a mesma: por qual porta a pessoa entrou. Responda essa, e a medida que pode sair do estudo já está decidida — independentemente do que os autores tenham calculado.

Competência ao final deste capítulo. Reconhecer desenho, vieses e aplicabilidade e distinguir associação de efeito causal demonstrado. No internato, demonstre o raciocínio e a execução supervisionada: o que verificar, o que fazer agora, quando chamar ajuda e como garantir continuidade.

Coorte: o sinal é que ninguém tinha o desfecho no começo

A frase que denuncia uma coorte é a que descreve a linha de base: “foram incluídos participantes livres da doença”, “no momento da inclusão nenhum tinha o desfecho”, “os participantes foram acompanhados por X anos”. Se existe um começo em que todo mundo estava sem o desfecho, e um seguimento depois disso, é coorte — mesmo que o artigo chame o trabalho de “estudo longitudinal”, “estudo de seguimento” ou “registro”.

O segundo sinal é o denominador de tempo. Coorte publica pessoas-ano, ou tempo mediano de seguimento, ou taxa por mil pessoas-ano. Quem escreve isso está dizendo que sabe quanto tempo cada participante ficou sob observação — e é essa contabilidade que permite calcular incidência.

Um exemplo com números que dá para conferir: um documento metodológico do Ministério da Saúde resume uma coorte de catarata com 24.593 mulheres, 184.698 pessoas-ano de seguimento e 2.497 casos novos. Divida 2.497 por 184.698 e você tem 13,5 casos por mil pessoas-ano. Divida 2.497 por 24.593 e tem 10,2% de incidência acumulada no período. As duas contas existem porque o denominador existe. Num caso-controle, nenhuma das duas seria possível.

Repare de passagem numa conta que parece não fechar e fecha: 24.593 mulheres vezes 8,2 anos daria 201.663 pessoas-ano, e o documento registra 184.698. A divisão dá 7,5 anos por mulher. Não é erro — é censura: quem morre, quem tem o desfecho e quem sai do estudo para de contribuir com tempo. Sempre que pessoas-ano for menor que o número de participantes vezes a duração do estudo, a diferença é gente que saiu antes do fim, e quanto maior essa diferença, mais o resultado depende de por que essas pessoas saíram.

Coorte prospectiva é aquela em que o pesquisador definiu a exposição e esperou o desfecho acontecer. Coorte retrospectiva — também chamada histórica — é aquela em que exposição e desfecho já aconteceram, e o pesquisador reconstrói a linha do tempo a partir de registros. A estrutura lógica é a mesma: entra-se pela exposição, sem o desfecho, e conta-se para a frente. A diferença está na qualidade do dado: na prospectiva, mede-se o que se planejou medir; na retrospectiva, mede-se o que alguém anotou no prontuário para outra finalidade.

Caso-controle: o sinal é a razão de controles por caso

A frase que denuncia um caso-controle é a que descreve como o grupo de comparação foi montado: “para cada caso foram selecionados dois controles”, “controles pareados por idade e sexo”, “controles selecionados entre pacientes submetidos ao mesmo exame sem o diagnóstico”. Onde há uma regra escolhida pelo pesquisador para produzir o grupo sem a doença, há caso-controle.

Uma vez identificado o desenho, três frases ficam proibidas ao leitor, por mais que apareçam no texto. A primeira é incidência: não há denominador populacional. A segunda é prevalência da doença: a proporção de doentes foi fixada pelo desenho. A terceira é risco absoluto e diferença de risco: são contas que precisam de denominador. Só sobra a razão de chances.

Isso vale mesmo quando o próprio título do artigo diz o contrário. O estudo de estatina usado como exemplo pelo Ministério da Saúde se intitula, em tradução direta, “o uso de estatina está associado a uma incidência reduzida de câncer colorretal: um estudo caso-controle com controles de colonoscopia”. A palavra incidência está no título de um desenho que não a estima, e o apêndice do mesmo documento brasileiro diz, com todas as letras, que no caso-controle “o risco é estimado de maneira indireta pelo odds ratio”. É leitura nossa, e vale registrar como leitura: o título usa uma palavra que o desenho não sustenta, e isso não é raro nem escandaloso — é o vício de linguagem mais comum da literatura clínica.

Há uma exceção importante que precisa ser dita para não virar superstição. Quando os casos e os controles vêm de uma coorte identificada — o chamado caso-controle aninhado, ou o desenho de caso-coorte — o denominador existe em algum lugar, porque a população de origem é conhecida, e aí é possível recuperar medidas de incidência. O sinal, no resumo, é a frase “dentro da coorte X”. Sem essa frase, vale a regra geral.

O desenho caso-controle com teste negativo, muito usado no Brasil e no mundo para medir efetividade de vacina, é uma variante engenhosa da mesma lógica: casos são os que testaram positivo, controles são os que procuraram o mesmo serviço com os mesmos sintomas e testaram negativo. A ideia é que ambos tiveram o mesmo comportamento de busca por atendimento, o que reduz um viés específico. Continua sendo caso-controle, e continua sem incidência.

Transversal: o sinal é que tudo foi medido no mesmo momento

A frase que denuncia um transversal é a que junta as duas medidas na mesma ocasião: “os participantes responderam a um questionário sobre hábitos e foram submetidos a aferição de pressão na mesma visita”, “inquérito domiciliar”, “entrevista telefônica”, “estudo de prevalência”. Não há antes nem depois; há um retrato.

O Vigitel é o exemplo brasileiro de maior porte, e ele é honesto sobre o que é: o Ministério da Saúde o descreve como sistema de vigilância por inquérito telefônico, com amostra sorteada a partir do cadastro de linhas da Anatel, e diz explicitamente que a amostra “só permite inferências populacionais para a população adulta com telefone em cada uma das localidades”. Essa frase, que quase ninguém cita, é a fronteira exata do que aquele número pode dizer.

O transversal responde muito bem a perguntas de carga: quanta gente tem hipertensão, quanta gente fuma, quanta gente não faz atividade física, quanto isso mudou de um ano para o outro. Essas perguntas planejam serviço, compram medicamento e definem meta. É trabalho de saúde pública de primeira ordem, e é o que o interno usa quando quer saber o tamanho de um problema no seu território.

O que ele não responde é qualquer pergunta que contenha a palavra “causa”, e o motivo é que a foto não tem eixo do tempo. Some-se a isso a questão da duração: prevalência é aproximadamente incidência multiplicada pela duração média da doença, então tudo o que faz a doença durar mais aumenta a prevalência sem aumentar um único caso novo. Um tratamento que não cura mas prolonga a vida aumenta a prevalência da doença — e num transversal isso pode aparecer como se o tratamento fosse fator de risco.

Há um caso especial que engana muito: o transversal repetido, ou série temporal de inquéritos. Ele mostra que a prevalência de uma coisa subiu junto com a prevalência de outra ao longo dos anos. É um argumento ecológico — sobre populações, não sobre pessoas — e transferir para o indivíduo o que se observou no agregado é a falácia ecológica. Serve para gerar hipótese. Não serve para dizer ao seu paciente o que acontece com ele.

Ensaio clínico randomizado: o sinal é o sorteio, e onde ele parou

A frase que denuncia um ensaio é a que descreve a alocação: “os pacientes foram alocados aleatoriamente na proporção 1:1”, “randomização em blocos estratificada por centro”, “lista gerada por computador”. Sem sorteio não é ensaio randomizado, por mais que o trabalho se chame “ensaio clínico”: um estudo em que o médico escolheu quem recebia o quê é um estudo de intervenção não randomizado, e a confusão volta inteira.

Depois de confirmar que houve sorteio, procure três coisas em sequência, porque cada uma protege contra um problema diferente. Primeiro, o sigilo da alocação: quem recrutou o paciente sabia, antes de incluí-lo, para qual grupo ele iria? Se sabia, pode ter incluído o mais grave no grupo que preferia, e o sorteio não valeu nada. As frases boas são “envelopes opacos, lacrados e numerados sequencialmente” e “alocação central por sistema”.

Segundo, o cegamento, e de quem. Cegar o paciente reduz efeito de expectativa; cegar quem trata reduz diferença de cuidado entre os grupos; cegar quem avalia o desfecho reduz erro de classificação. São proteções distintas, e um estudo pode ter uma e não as outras. Ensaio aberto com desfecho duro e adjudicado às cegas por um comitê independente é razoável; ensaio aberto com desfecho subjetivo avaliado por quem tratou é frágil.

Terceiro, quem entrou na análise. A análise por intenção de tratar mantém cada paciente no grupo para o qual foi sorteado, mesmo que ele não tenha tomado o remédio — e é ela que preserva a comparabilidade que o sorteio produziu. A análise por protocolo, que só conta quem aderiu, desfaz a randomização, porque aderir não é sorteado: quem adere é diferente de quem não adere. Estudo que apresenta só a análise por protocolo está mostrando um estudo observacional dentro de um ensaio.

O Coalizão Covid-19 Brasil I é um exemplo nacional útil justamente por ser aberto: os pacientes e as equipes sabiam o que estava sendo dado, e o desenho compensou isso com um desfecho ordinal avaliado de forma padronizada e com adjudicação independente. O resultado — nenhuma melhora do estado clínico no décimo quinto dia — sobreviveu ao fato de o estudo não ser cego, porque a proteção que faltava não era a que aquele desfecho exigia.

Os nomes que enganam

“Estudo prospectivo” não quer dizer coorte. Quer dizer que os dados foram coletados a partir de agora, para esta finalidade. Um ensaio é prospectivo; um registro de pacientes é prospectivo; um caso-controle pode coletar dados prospectivamente. A palavra fala do calendário da coleta, não da porta de entrada.

“Estudo de coorte retrospectivo” e “caso-controle” são confundidos o tempo todo, e a diferença é objetiva: no primeiro, o pesquisador define os grupos pela exposição e conta desfechos; no segundo, define os grupos pelo desfecho e conta exposições. A planilha do Teobaldo, lá no começo do capítulo, separou os pacientes por ter recebido ou não a medicação e contou óbitos — isso é uma coorte retrospectiva, não uma série de casos, e não é um ensaio. O que ela não tem é sorteio, e por isso não sustenta o verbo “reduziu”.

“Estudo comparativo” e “estudo controlado” não implicam randomização. Controlado quer dizer que existe grupo de comparação; randomizado quer dizer que o grupo foi formado por sorteio. Há ensaios controlados não randomizados, e o resumo raramente destaca isso.

“Mundo real”, “vida real”, “base de dados administrativa” e “estudo pragmático” descrevem a fonte dos dados ou a ambição do estudo, não o desenho. Existe ensaio randomizado pragmático — sorteio de verdade, conduzido dentro da rotina do serviço — e existe estudo de mundo real puramente observacional. Os dois se apresentam com as mesmas palavras.

“Série de casos” com grupo de comparação não é série de casos. E “coorte” sem grupo de comparação é apenas uma descrição de evolução: útil, publicável, e incapaz de sustentar comparação nenhuma. Quando o resumo não deixa claro se existe um grupo que não recebeu a exposição, a resposta é quase sempre que não existe.

Sem grupo de comparação: relato, série e o que ainda assim serve

Relato de caso e série de casos descrevem o que aconteceu com um paciente ou um punhado deles. Não há grupo de comparação, portanto não há como saber o que teria acontecido sem a exposição. Nenhuma frase comparativa se sustenta: nem “melhorou com”, nem “reduziu”, nem “foi eficaz”.

Isso não os torna inúteis, e o internato precisa saber disso porque a primeira produção científica de quase todo mundo é uma série. Relato serve para alertar sobre um efeito adverso raro, para descrever uma apresentação incomum, para documentar uma técnica. Série serve para descrever o perfil de quem chega àquele serviço com aquela condição — e essa descrição planeja escala, compra material e treina equipe.

A pergunta que separa uma série honesta de uma série que virou propaganda é: o texto usa verbo de comparação em algum lugar? Se o resumo diz “dos 40 pacientes tratados, 32 tiveram boa evolução”, é descrição. Se diz “o tratamento resultou em boa evolução em 80% dos casos, superior ao esperado”, apareceu uma comparação com um grupo que não existe.

Há um parente próximo que merece nome: a comparação com controle histórico, em que o grupo de comparação são os pacientes tratados no mesmo serviço em anos anteriores. Parece um estudo comparativo, e é uma armadilha, porque tudo mudou junto com o tratamento — o exame que diagnostica, o antibiótico da casa, o critério de internação, a equipe. A diferença encontrada mistura o efeito da intervenção com dez anos de medicina.

Finalmente, revisões. Revisão narrativa é a opinião organizada de alguém; revisão sistemática é um método com pergunta estruturada, busca documentada em várias bases, critérios de elegibilidade explícitos e avaliação de risco de viés. Metanálise é a etapa opcional em que os resultados são combinados numericamente. Uma revisão sistemática de estudos observacionais não vira ensaio: somar dez coortes com o mesmo problema de confusão produz uma estimativa mais precisa do mesmo erro.

06

Como fechar o diagnóstico

Cada desenho carrega um conjunto de vieses de fábrica — não porque quem o conduziu foi desleixado, mas porque a estrutura do desenho abre aquela porta. Saber qual é o viés característico de cada um economiza tempo: em vez de procurar defeito em tudo, procura-se primeiro onde ele mora.

As seis seções abaixo percorrem os vieses na ordem em que compensa verificá-los ao ler um resumo, e cada uma termina com a frase que, no texto do artigo, indica que o autor pensou naquilo.

Viés de seleção: quem entrou, e por que essa pessoa e não outra

Viés de seleção acontece quando a relação entre exposição e desfecho na amostra estudada é diferente da relação na população de onde a amostra veio, por causa da regra que decidiu quem entra. Ele é o viés característico do caso-controle, porque ali a escolha dos controles é uma decisão humana explícita.

A regra de ouro para julgar um caso-controle é simples de enunciar: os controles deveriam ser pessoas que, se tivessem adoecido, teriam virado casos daquele estudo. Se os casos vieram do hospital terciário e os controles vieram de doadores de sangue, essa condição não se cumpre — doador de sangue que adoecesse provavelmente não iria parar naquele serviço. A pergunta a fazer é sempre: de que população estes casos saíram, e os controles saíram da mesma?

O caso-controle de estatina que já usamos ilustra a solução elegante e o preço dela. Os controles foram pacientes sintomáticos submetidos a colonoscopia sem diagnóstico de câncer — ou seja, gente que percorreu exatamente o mesmo caminho até o exame. Isso é forte contra viés de seleção. Em compensação, 51,5% desses controles usavam estatina, contra 19,8% dos casos: quem faz colonoscopia por sintoma e não tem câncer é, em média, mais velho, mais acompanhado e mais medicado. A comparação ficou boa para uma coisa e difícil para outra.

A coorte tem sua própria versão do problema, e ela costuma ser esquecida porque a coorte tem fama de limpa: o viés está em quem aceitou entrar. O ELSA-Brasil recrutou servidores de universidades e instituições públicas justamente porque são uma população estável e seguível; o preço é que estabilidade de emprego, escolaridade e acesso a plano de saúde vêm juntos. Nada disso invalida a coorte — invalida apenas a frase “no Brasil, a incidência é de tanto”.

No ensaio, o viés de seleção reaparece com outro nome: critérios de elegibilidade. Um ensaio que excluiu quem tem clearance abaixo de 30, quem tem mais de 75 anos e quem usa anticoagulante testou o remédio numa população que quase não existe na sua enfermaria. A frase a procurar é a lista de exclusão, e ela quase nunca está no resumo.

Viés de informação: medir errado, e medir errado de forma desigual

Viés de informação é erro na medida da exposição ou do desfecho. Ele vem em dois sabores, e a diferença entre eles decide para que lado o resultado escorrega. Quando o erro atinge os dois grupos igualmente, chama-se não diferencial e, na comparação de duas categorias, tende a aproximar a estimativa da neutralidade — o estudo subestima o efeito. Quando o erro atinge mais um grupo que o outro, é diferencial, e aí pode empurrar o resultado para qualquer lado, inclusive criando associação onde não há.

O viés de memória é a forma clássica do erro diferencial, e é doméstico do caso-controle. Mãe de criança com malformação lembra melhor o que tomou na gravidez que mãe de criança saudável, porque passou meses procurando explicação. Não é mentira: é atenção desigual ao passado. O antídoto de desenho é medir a exposição em registro feito antes do desfecho — receita dispensada, prontuário, banco de dados — e não em entrevista.

No estudo de estatina, os autores usaram questionário estruturado e prontuário médico. Prontuário é registro anterior ao desfecho, e isso protege; questionário é memória, e isso não protege. Quando as duas fontes convivem, vale perguntar qual delas define a exposição quando elas discordam — e essa informação está no método, não no resumo.

No transversal, o erro característico é de outra natureza: o instrumento. O Vigitel mede peso e altura por informação do próprio entrevistado, ao telefone, e o Ministério da Saúde chega a manter uma seção metodológica sobre imputação de peso e altura. Quem responde ao telefone tende a se dizer um pouco mais alto e um pouco mais magro. O documento sabe disso e diz; o leitor apressado não sabe e não diz.

No ensaio, o erro de informação é combatido pelo cegamento de quem avalia o desfecho, e o quanto isso importa depende do desfecho. Óbito por qualquer causa é quase imune; “melhora clínica”, “resposta ao tratamento” e escalas de sintoma são altamente sensíveis a quem avalia.

Perda de seguimento: o viés que é da coorte, e como medir o estrago

Coorte perde gente. Muda de cidade, troca de telefone, cansa do estudo, morre de outra coisa. O problema não é a perda em si: é a perda correlacionada com o desfecho. Se quem piorou parou de comparecer, a coorte termina medindo a evolução dos que ficaram bem.

A conta de triagem é rápida e vale a pena fazer em qualquer coorte: compare o tamanho da perda com o tamanho do efeito. Se 18% se perderam e a diferença absoluta entre os grupos foi de 3 pontos percentuais, basta que os perdidos tenham se comportado de maneira modestamente diferente para o resultado virar. Se a perda foi de 2% e a diferença foi de 20 pontos, a perda não explica nada.

A segunda pergunta é se a perda foi igual nos dois grupos. Perda de 10% em ambos é ruído; perda de 5% de um lado e 20% do outro é sinal de que algo sistemático aconteceu — efeito adverso que fez gente abandonar, por exemplo. Estudo bom relata as perdas por grupo e o motivo; estudo que só relata o total está escondendo a informação que importa.

Em coorte retrospectiva de prontuário, a perda tem outro nome: dado ausente. O paciente não sumiu; a anotação nunca existiu. E aqui o viés é traiçoeiro, porque a ausência de anotação costuma significar coisa diferente em cada grupo — quem está bem é evoluído em duas linhas, quem está mal gera exame, parecer e registro. A planilha do Teobaldo tem noventa e uma linhas e, com quase certeza, um punhado de células vazias que não estão vazias por acaso.

A frase a procurar no texto é a análise de sensibilidade: “assumindo que todos os perdidos tiveram o desfecho”, “imputação múltipla”, “análise de cenário extremo”. Quando ela existe e o resultado se mantém, a perda está domada. Quando ela não existe, o leitor tem que fazê-la de cabeça.

Confusão, e a variante que mais engana o interno

Variável de confusão é aquela que se associa à exposição e também causa o desfecho, sem estar no caminho entre os dois. O clássico brasileiro está escrito no material metodológico do Ministério da Saúde: café e infarto, com tabagismo no meio — quem toma mais café fuma mais, e quem fuma infarta mais. A associação entre café e infarto aparece sem que o café faça nada.

A distinção que economiza confusão mental: confundidor distorce a associação e deve ser ajustado; modificador de efeito muda a magnitude da associação em subgrupos e deve ser mostrado separado, não ajustado. O mesmo documento traz o exemplo: tabagismo com álcool dá razão de chances de 8,9 para câncer de esôfago, e tabagismo em quem não bebe ainda dá 3,0. O álcool não explica a associação do tabagismo — modifica o tamanho dela.

O ajuste estatístico tem um limite que o interno precisa saber de cor, porque ele é a razão de existirem ensaios: só é possível ajustar o que se conhece, se mediu e se mediu bem. E os documentos oficiais dizem isso: o mesmo texto do Ministério registra que estudos observacionais publicados em revistas de alto impacto relatam quais confundidores foram controlados, mas quase nunca explicam como escolheram e como mediram. Uma coluna de “análise ajustada” não é um certificado de ausência de confusão.

No exemplo de estatina, a OR passa de 0,23 para 0,43 após ajuste. A diferença entre estimativa bruta e ajustada é uma pista para examinar variáveis, modelo, seleção da amostra e pressupostos causais; não mede diretamente o confundimento. Mudança pequena não prova comparabilidade, e mudança grande não informa sozinha quanto do efeito era espúrio. A OR também é não colapsável: estimativas condicionais e marginais podem diferir mesmo sem confundimento. Avaliar escolha e qualidade das covariáveis e possibilidade de confundimento residual. Publicar ambas facilita a leitura, mas a distância numérica não separa por si só as explicações.

A variante mais perigosa na clínica é a confusão por indicação: o remédio foi dado justamente a quem estava pior, ou justamente a quem estava melhor. É o que corrói qualquer comparação retrospectiva de tratamento em prontuário. Na planilha do Teobaldo, a pergunta que desmonta o trabalho inteiro cabe numa frase: quem decidiu quem recebia a medicação, e com base em quê? Se a resposta for “o plantonista, olhando o paciente”, a comparação está medindo o julgamento do plantonista.

Causalidade reversa, sobrevivente e imortal: os erros de tempo

Três vieses diferentes têm a mesma raiz — o tempo foi tratado de maneira errada — e é útil vê-los juntos porque o interno os encontra na mesma semana.

Causalidade reversa é do transversal: exposição e desfecho medidos juntos, e a seta pode apontar para os dois lados. Baixo peso associado a maior mortalidade em idosos pode ser peso causando morte, ou doença ainda não diagnosticada causando emagrecimento e morte. Só um desenho com tempo separa as duas leituras.

Viés do sobrevivente é de quem só consegue estudar quem chegou. Se a amostra é formada por pacientes que sobreviveram até o momento da inclusão, tudo o que mata rápido some da análise, e fatores associados a durar aparecem como fatores associados a estar bem. Vale para transversal e vale para coorte que recruta prevalentes em vez de casos incidentes — daí a exigência, no bom caso-controle, de selecionar casos incidentes e não prevalentes.

Viés do tempo imortal é o mais sutil e o mais frequente nas comparações de prontuário. Ele aparece quando a definição de “exposto” exige sobreviver até um certo momento. Se o grupo exposto é “quem recebeu o antibiótico no terceiro dia de internação”, todo paciente do grupo exposto necessariamente sobreviveu três dias, enquanto no grupo não exposto entram os que morreram no primeiro. O exposto ganha um tempo em que era impossível morrer, e o remédio parece salvar vidas mesmo sendo água.

A frase a procurar no texto é a definição do tempo zero: “o seguimento começou na data da primeira prescrição”, “o tempo até a exposição foi tratado como covariável dependente do tempo”. Quando o artigo não diz quando o relógio começou a contar para cada grupo, o interno deve supor que ele começou em momentos diferentes.

O que ainda pode estar errado num ensaio randomizado

Randomização resolve a confusão e nada mais, e cada uma das fragilidades restantes tem endereço. A primeira é o desfecho: se o estudo mediu queda de um marcador laboratorial, de um exame de imagem ou de uma escala, ele mediu um substituto, e substituto já traiu muitas vezes na história da medicina. A pergunta é se aquele desfecho é o que o paciente sentiria falta se não melhorasse.

A segunda é o comparador. Um remédio comparado com placebo mostra que faz mais que nada; comparado com o melhor tratamento disponível, mostra que vale a troca. As duas informações são diferentes, e apenas a segunda muda conduta em enfermaria onde já existe tratamento. Vale registrar que a norma brasileira de ética em pesquisa é explícita sobre isso: a Resolução CNS nº 466/2012 exige que o novo método seja comparado com os melhores métodos atuais, e só admite placebo quando não existem métodos comprovados — regra que também põe em xeque, eticamente, o comparador fraco.

A terceira é o tamanho e a parada. Estudo pequeno com resultado espetacular é candidato a acaso; estudo interrompido cedo por benefício tende a superestimar o efeito, porque a interrupção acontece justamente num pico favorável da variação aleatória. A frase a procurar é a regra de parada pré-especificada e quantas análises interinas foram feitas.

A quarta é a análise. Muitos desfechos secundários e muitos subgrupos produzem achados “significativos” por sorte. Análise de subgrupo só é confiável quando foi pré-especificada, quando o número de subgrupos é pequeno e quando existe teste formal de interação. Sem isso, é geradora de hipótese, e a hipótese que ela gera precisa de outro ensaio.

A quinta é a aplicabilidade, e é a que mais atrapalha o interno. O ensaio foi feito com quem? Em que sistema de saúde? Com que dose, que tempo, que estrutura de apoio? Um ensaio impecável realizado numa população que não se parece com a sua responde perfeitamente a uma pergunta que não é a sua. E essa limitação não se resolve com estatística nenhuma — resolve-se dizendo em voz alta, na visita, que a extrapolação está sendo feita e por quê.

07

Ler um resumo: o que se decide, e em que ordem

Três decisões, sempre nesta ordem, e nenhuma delas é sobre o resultado. A primeira é de desenho: por qual porta a pessoa entrou no estudo. A segunda é de medida: o que aquele desenho pode produzir, dito antes de olhar o que ele produziu. A terceira é de limite: qual frase o estudo não sustenta, mesmo que tudo nele esteja certo. O fluxo abaixo faz isso em nove movimentos; as quatro tabelas trazem o mapa dos desenhos com a medida e o viés de cada um, as frases de resumo que denunciam o desenho, o que cada salvaguarda do ensaio compra separadamente, e a régua brasileira que um estudo feito aqui tem de cumprir. As notas ao fim trazem as contas que refizemos nos documentos oficiais usados neste capítulo — as que fecharam e as que não fecharam.

O desenho limita, mas não proíbe pensar causalmente. Estudos observacionais podem informar efeitos sob pressupostos explícitos, bom comparador e controle adequado de vieses; nesta planilha, isso ainda não foi demonstrado. Tempo de internação também importa ao paciente, embora seja influenciado por fluxo e decisão de alta. Parecer ético obtido depois não regulariza automaticamente coleta já realizada; comunicar a situação real ao comitê e seguir orientação antes de continuar ou divulgar.

  1. 11 · Ache a frase da porta de entrada, e só depois leia o resultado. Procure, no resumo, quem foi incluído e por qual critério: livres do desfecho e acompanhados (coorte), com e sem a doença (caso-controle), todos ao mesmo tempo (transversal), alocados aleatoriamente (ensaio). Se nenhuma dessas frases existir, o desenho não está declarado — e a chance de ser uma série sem grupo de comparação é alta.
  2. 22 · Diga em voz alta a medida que aquele desenho pode produzir, antes de olhar a que ele produziu. Coorte: incidência, risco, taxa. Caso-controle: razão de chances. Transversal: prevalência e razão de prevalências. Ensaio: diferença de risco entre grupos sorteados. Se a medida impressa não estiver nessa lista, ou o desenho não é o que você achou, ou a medida foi obtida por um caminho que precisa ser conferido.
  3. 33 · Procure a palavra proibida. “Incidência” num caso-controle, “risco” num transversal, “eficácia” numa comparação sem sorteio, “reduziu” em qualquer estudo observacional. Encontrar uma dessas não invalida o estudo — invalida aquela frase, e o interno passa a ler o resto sabendo que o autor foi generoso com o próprio dado.
  4. 44 · Confira se existe grupo de comparação e como ele foi montado. Sem grupo de comparação, nenhuma frase comparativa se sustenta. Com grupo, a pergunta é se ele veio da mesma população de onde vieram os expostos ou os casos — e, no ensaio, se veio de sorteio com sigilo da alocação.
  5. 55 · Priorize os vieses capazes de mudar a conclusão naquele estudo. Caso-controle: seleção e memória; coorte: perdas e confusão por indicação; transversal: temporalidade e seleção por duração; ensaio: alocação, perdas, desfecho e aplicabilidade. Essa priorização não dispensa outros problemas relevantes de seleção, informação ou análise.
  6. 66 · A diferença entre estimativa bruta e ajustada é uma pista para examinar variáveis, modelo, seleção da amostra e pressupostos causais; não mede diretamente o confundimento. Mudança pequena não prova comparabilidade, e mudança grande não informa sozinha quanto do efeito era espúrio. A OR também é não colapsável: estimativas condicionais e marginais podem diferir mesmo sem confundimento. Avaliar escolha e qualidade das covariáveis e possibilidade de confundimento residual.
  7. 77 · Pergunte se o desfecho é o que importa ao paciente à sua frente, e em que prazo. Marcador laboratorial, achado de imagem e escala são substitutos; morte, internação, dor, função e retorno ao trabalho não são. Um estudo pode estar perfeitamente certo sobre um desfecho que não muda nada na vida de quem está no leito.
  8. 88 · Pergunte se a população estudada se parece com a sua, e diga em voz alta quando não se parecer. Idade, gravidade, comorbidade, acesso, sistema de saúde e critérios de exclusão. Extrapolar é legítimo e acontece o tempo todo; o que não é legítimo é extrapolar em silêncio.
  9. 99 · Termine escrevendo a frase que o estudo NÃO permite concluir. É o passo que quase ninguém faz e o único que sobrevive à visita: escrever, em uma linha, o que ficaria por provar mesmo que tudo no estudo estivesse certo. Essa linha é a sua resposta quando alguém disser “mas o estudo mostrou”.
DesenhoPor qual porta a pessoa entraMedida que saiO que não sai de jeito nenhumViés de fábrica
Coorte prospectivaPela exposição, com todos ainda sem o desfecho; segue-se para a frenteIncidência acumulada, taxa por pessoa-tempo, risco relativo, diferença de riscoNada de estrutural; o limite é tempo, custo e perdaPerda de seguimento e confusão por indicação
Coorte retrospectiva (histórica)Pela exposição, reconstruída em registro já existenteAs mesmas da prospectiva, com a qualidade do registroPrecisão de medida que ninguém coletou para issoDado ausente não aleatório e tempo imortal
Caso-controlePelo desfecho: casos com a doença, controles escolhidos pelo pesquisadorRazão de chances (bruta e ajustada)Incidência, prevalência, risco absoluto, diferença de risco, número necessário para tratarSeleção dos controles e viés de memória
Caso-controle aninhado em coortePelo desfecho, dentro de uma coorte conhecidaRazão de chances que aproxima a razão de taxas da coorte de origemNada além do que a coorte-mãe sustentaHerda os vieses da coorte de origem
Caso-controle com teste negativoPelo resultado do teste em quem procurou o mesmo serviço com os mesmos sintomasRazão de chances, lida como efetividade contra doença que busca atendimentoIncidência; efetividade contra infecção que não procura serviçoDiferença de comportamento de testagem entre expostos e não expostos
Transversal (inquérito)Por nenhuma das duas: todos são encontrados no mesmo momentoPrevalência, razão de prevalências, distribuição por estratoIncidência, sequência temporal, causaCausalidade reversa, viés do sobrevivente e efeito da duração
Transversais repetidos / ecológicoPor agregado: cidades, estados, anos — não pessoasTendência temporal e correlação entre indicadores populacionaisQualquer afirmação sobre indivíduosFalácia ecológica
Ensaio clínico randomizadoPor sorteio, depois de aceito e elegívelDiferença de risco, risco relativo e número necessário para tratar entre grupos comparáveis por construçãoEfeito em quem não seria elegível; efeito sobre desfechos que não foram medidosDesfecho substituto, comparador fraco, parada precoce, elegibilidade estreita
Estudo de intervenção não randomizadoPor decisão de alguém — médico, serviço, protocoloComparação descritiva entre gruposQualquer alegação de eficácia atribuída à intervençãoConfusão por indicação, do tamanho da decisão que formou os grupos
Série de casos / relatoPor ter recebido a exposição ou ter a condição; não há grupo de comparaçãoDescrição: quantos, com o quê, com que evoluçãoToda frase comparativa, incluída “melhorou com”Seleção de quem chegou e de quem valeu a pena relatar
Revisão sistemática com metanálisePelos estudos, segundo critérios de elegibilidade declaradosEstimativa combinada com medida de heterogeneidadeUm desenho melhor do que o dos estudos incluídosViés de publicação e soma coerente do mesmo erro de confusão

Reconhecer o desenho pela frase do resumo (não pelo nome do estudo)

Frase que aparece no resumoDesenho que ela denunciaO que conferir em seguida
“participantes livres do desfecho na inclusão”, “acompanhados por X anos”, “pessoas-ano”CoorteQuantos se perderam, e se a perda foi igual nos dois grupos
“para cada caso foram selecionados N controles”, “controles pareados por”Caso-controleDe que população saíram os casos, e se os controles saíram da mesma
“dentro da coorte X, foram identificados os casos incidentes”Caso-controle aninhadoSe a coorte-mãe é descrita e se o tempo de risco foi respeitado
“testaram positivo (casos) e negativo (controles) no mesmo serviço”Caso-controle com teste negativoSe o critério de testagem foi o mesmo nos dois grupos
“inquérito domiciliar”, “entrevista telefônica”, “estudo de prevalência”TransversalQuem ficou de fora da base amostral, e a medida foi autorrelatada?
“alocados aleatoriamente 1:1”, “randomização em blocos por centro”Ensaio randomizadoSigilo da alocação, quem foi cegado e se a análise é por intenção de tratar
“os pacientes que receberam X foram comparados aos que não receberam”, sem sorteioCoorte retrospectiva de tratamentoQuem decidiu quem recebia, e com base em quê
“comparados a controles históricos”, “antes e depois da implantação”Comparação temporal sem grupo concorrenteO que mais mudou no serviço entre os dois períodos
“foram analisados os 62 pacientes tratados no período”Série de casosSe aparece verbo de comparação em algum lugar do texto
“estudo multicêntrico de mundo real com base administrativa”Não diz o desenho — pode ser coorte ou transversalSe há linha de base sem desfecho e se há seguimento
“estudo prospectivo”Não diz o desenho — fala do calendário da coletaPor qual porta a pessoa entrou
“análise post hoc”, “análise exploratória de subgrupo”Análise dentro de outro estudo, não desenho novoSe foi pré-especificada e se houve teste de interação

O que cada salvaguarda do ensaio compra — e o que ela não compra

SalvaguardaContra o que protegeO que continua desprotegidoFrase a procurar no método
RandomizaçãoDiferenças de partida entre os grupos, conhecidas e desconhecidasTudo o mais: desfecho, comparador, aplicabilidade, análise“alocados aleatoriamente”, com a proporção e a estratificação
Sigilo da alocaçãoEscolher para qual grupo o próximo paciente vaiO que acontece depois da inclusão“envelopes opacos, lacrados e numerados” ou “alocação central”
Cegamento do participanteExpectativa e relato influenciados pelo que se acredita receberDiferença de cuidado dada pela equipe“placebo idêntico em aparência, sabor e apresentação”
Cegamento de quem trataCointervenção desigual entre os gruposErro de quem julga o desfecho“a equipe assistente desconhecia a alocação”
Cegamento de quem avalia o desfechoClassificação errada de desfecho subjetivoNada quanto a desfecho duro; nada quanto a comparador“desfechos adjudicados por comitê independente e cego”
Análise por intenção de tratarPerda da comparabilidade por abandono e troca de grupoDiluição do efeito quando a adesão é baixa“todos os randomizados foram analisados no grupo de alocação”
Registro prévio do protocoloTroca de desfecho primário depois de ver o resultadoQualidade da conduçãoNúmero de registro em base pública e data anterior à inclusão
Regra de parada pré-especificadaInterromper num pico favorável do acasoEfeito de longo prazo, que deixa de ser observado“duas análises interinas planejadas, com limite de O’Brien-Fleming”

A régua brasileira: o que um estudo com seres humanos feito no Brasil tem de cumprir, e desde quando

ObrigaçãoOnde está escritoDesde quandoO que muda para o interno
Análise ética prévia por Comitê de Ética em Pesquisa, antes de começarLei nº 14.874/2024, art. 6º; Resolução CNS nº 466/2012Lei em vigor desde 27/08/2024 (90 dias após a publicação de 29/05/2024); Resolução em vigor desde 13/06/2013Levantar prontuário para apresentar em congresso é pesquisa e precisa de parecer antes da coleta
Pesquisa com seres humanos inclui o manejo de dados e de material biológico, direta ou indiretamenteResolução CNS nº 466/2012, item II.1413/06/2013Prontuário eletrônico, banco de exames e registro de dispensação entram na regra
Consentimento livre e esclarecido, com dispensa apenas justificada e aprovadaResolução CNS nº 466/2012, itens II.23 e IV; Lei nº 14.874/2024, art. 3º, VI13/06/2013 e 27/08/2024A dispensa é pedida ao comitê e por ele deferida; não é decisão do pesquisador
Comparar o novo método com os melhores métodos atuais; placebo só na ausência de método comprovadoResolução CNS nº 466/2012, item III.3, alínea b13/06/2013Comparador fraco não é só fragilidade metodológica: é questão ética declarada em norma
Registro do ensaio clínico em base de dados públicaLei nº 14.874/2024, art. 3º, parágrafo único, V27/08/2024Ensaio sem registro prévio permite trocar o desfecho depois de ver o resultado
Sistema Nacional de Ética em Pesquisa: uma instância nacional e os CEPs, com credenciamento e acreditação por grau de riscoLei nº 14.874/2024, arts. 5º, 8º e 9º; Decreto nº 12.651/2025Lei em 27/08/2024; regulamento em 08/10/2025Pesquisa de risco elevado só pode ser analisada por comitê acreditado
Fornecimento pós-estudo do produto investigado quando for a melhor alternativa para o participanteLei nº 14.874/2024, arts. 30 e 33; art. 33, VI, veio das partes vetadas promulgadas depoisLei em 27/08/2024; o inciso do prazo de 5 anos foi promulgado em 01/07/2025O paciente que entrou no ensaio não fica sem o remédio no dia seguinte ao fim dele
Normas do Conselho Nacional de Saúde continuam valendo no que não contrariarem a Lei e o DecretoDecreto nº 12.651/2025, art. 3908/10/2025, até que a instância nacional publique normas própriasA Resolução CNS nº 466/2012 não foi revogada, mas passou a valer de forma condicionada
Comissão Nacional de Ética em Pesquisa segue como instância recursal até a posse da instância nacionalDecreto nº 12.651/2025, art. 4008/10/2025, com termo indefinidoQuem recorre de um parecer hoje ainda recorre à estrutura antiga

Conferência que fechou — Vigitel Brasil 2023, Quadro 1. Somamos em Python as dez colunas do quadro que traz, por capital, linhas sorteadas, elegíveis e entrevistas realizadas: as 27 linhas batem exatamente com todos os dez totais impressos (350.000 e 230.000 linhas sorteadas; 18.503 e 44.897 elegíveis; 10.858 e 10.832 entrevistas; 3.327 e 4.805 homens; 7.531 e 6.027 mulheres). Homens mais mulheres fecham com o total em todas as 54 células de checagem. As taxas também fecham: 10.858/18.503 = 58,68% (impresso 58,7%), 10.832/44.897 = 24,13% (impresso 24,1%), 21.690/63.400 = 34,21% (impresso 34%) e 2.115.460 ligações divididas por 21.690 entrevistas = 97,5 (impresso “cerca de 98”). Documento grande e cheio de números que não erra é notícia tanto quanto o contrário.

Conferência que não fechou — Vigitel Brasil 2023, precisão declarada. O documento diz que a amostra histórica de “cerca de 2 mil indivíduos” em cada cidade permitia estimar, com 95% de confiança, “erro máximo de dois pontos percentuais”. A conta binomial na pior hipótese (proporção de 0,5) dá 1,96 vezes a raiz de 0,25 dividido por 2.000, ou 2,19 pontos percentuais — não dois. Para caber em 2,0 pontos seriam necessários 2.401 participantes. O mesmo vale para a estimativa por sexo: com mil pessoas o erro é 3,10 pontos, e o texto declara três. Curiosamente, os números da edição de 2023 estão arredondados para o outro lado e sobram: com 800 entrevistas o erro é 3,46 e o documento declara quatro; com 400, é 4,90 e o documento declara cinco. Duas convenções de arredondamento no mesmo documento, e a mais antiga arredonda para o lado que favorece.

Erro na fonte oficial — Diretrizes metodológicas do Ministério da Saúde (2014), faixas de I². O documento manda interpretar a inconsistência assim: “0% a 25% – heterogeneidade pode não ser importante; 25% – 50% – heterogeneidade moderada; > 50% – heterogeneidade alta”. O valor exato de 25% pertence a duas faixas ao mesmo tempo, e quem calcular I² = 25,0% tem duas respostas igualmente autorizadas pelo texto. É a falha clássica de intervalo com extremo compartilhado, e ela some se a segunda faixa começar acima de 25%.

Erro na fonte oficial — Diretrizes metodológicas do Ministério da Saúde (2014), as 86 ferramentas. Ao resumir uma revisão de instrumentos de avaliação de risco de viés, o documento diz que “15% foram desenvolvidas especificamente para serem utilizadas em revisões sistemáticas; 36% foram desenvolvidas para contexto geral de tipos de estudo e 34% foram desenvolvidas para serem utilizadas apenas em contextos específicos”. Somando: 15 + 36 + 34 = 85%. Faltam 15 pontos percentuais, ou 12,9 das 86 ferramentas, sem categoria. As três classes são apresentadas como se esgotassem o conjunto, e não esgotam.

Erro na fonte oficial — Diretrizes metodológicas do Ministério da Saúde (2014), o exemplo de coorte. O documento resume um estudo de suplementos e catarata e informa “hazard ratio de 1,09 (intervalo de 95% de confiança 0,94 – 1,25) para usuárias de suplementos contendo vitamina C em relação às não usuárias”, concluindo que não houve associação. Fomos ao artigo original: esse 1,09 (0,94–1,25) é o resultado do braço dos polivitamínicos com cerca de 60 mg de vitamina C. O resultado principal do estudo, para o suplemento isolado de vitamina C, é 1,25 (1,05–1,50) — associação estatisticamente significativa e no sentido oposto, com os próprios autores concluindo que o suplemento pode estar associado a maior risco de catarata. O documento brasileiro cita o braço nulo e não menciona o principal, e ainda emenda que a metanálise posterior “também não encontrou associação”. Repare na coincidência que explica como esse tipo de troca acontece: 1,25 é o limite superior de um intervalo e o valor central do outro.

Conferência que fechou, e que parecia não fechar — o mesmo exemplo de coorte. O documento diz “seguidas por 8,2 anos (184.698 pessoas-ano)” para 24.593 mulheres. Multiplicando, 24.593 × 8,2 = 201.663 pessoas-ano, e não 184.698; a divisão dá 7,51 anos por mulher. Não é erro: 8,2 anos é a duração do seguimento do estudo, e pessoas-ano é menor porque quem morre, quem tem o desfecho e quem sai deixa de contribuir com tempo. Registramos porque a conta parece denunciar algo e não denuncia — e porque a diferença entre as duas contas, aqui de 8,4%, é justamente o que mede quanta gente saiu antes do fim.

Conferência que fechou — o exemplo de caso-controle. Com 101 casos (20 expostos) e 132 controles (68 expostos), a razão de chances bruta é (20 × 64) ÷ (81 × 68) = 1.280 ÷ 5.508 = 0,2324, com intervalo de 95% recalculado de 0,128 a 0,422. Bate com o valor bruto publicado no artigo original, 0,23 (0,13–0,42). O documento brasileiro só imprime o ajustado, 0,43 (0,25–0,80): o ajuste quase dobra a estimativa, e essa distância entre bruto e ajustado é a informação que some quando um artigo publica apenas um dos dois. Conferimos também as subdivisões do artigo original: por duração, 14 + 23 + 31 = 68 controles e 8 + 7 + 5 = 20 casos; por dose, 28 + 40 = 68 e 12 + 8 = 20. Tudo fecha.

Detalhe de datação — Resolução CNS nº 466/2012. O rodapé do documento oficial registra “Publicada no DOU nº 12 – quinta-feira, 13 de junho de 2013”. O dia da semana confere: 13 de junho de 2013 foi mesmo uma quinta-feira. O número da edição não: 13 de junho é o 118º dia útil do ano, e a edição nº 12 do Diário Oficial cai em meados de janeiro. É quase certamente um dígito perdido de “112”. Registramos por causa da consequência prática de datar: a resolução tem 2012 no nome, é assinada em 12 de dezembro de 2012 e só entrou em vigor com a publicação, 183 dias depois. Quem cita “desde 2012” está errando por meio ano.

Régua brasileira, dito por inteiro — qual norma governa hoje a pesquisa com seres humanos no Brasil. A Resolução CNS nº 466/2012 não foi revogada: fizemos o teste em duas direções e a resposta é mais interessante que um sim ou um não. A Lei nº 14.874/2024 criou o Sistema Nacional de Ética em Pesquisa e entrou em vigor em 27/08/2024; o Decreto nº 12.651/2025 a regulamentou em 08/10/2025 e diz, no art. 39, que “até que sejam publicadas as normas regulamentadoras sobre ética em pesquisa pela Instância Nacional de Ética em Pesquisa, permanecem válidas as normas do Conselho Nacional de Saúde que não contrariem” a lei e o decreto. Ou seja: a 466 vale, mas com vigência condicionada e por prazo indeterminado, e cede em cada ponto de conflito. O art. 40 mantém a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa como instância recursal até a posse dos membros da instância nacional. Quem disser hoje “vale a 466” ou “a 466 caiu” está, nas duas frases, dizendo menos do que a norma diz.

08

A conduta, hora a hora

O que segue é a manhã inteira, do balcão do posto às dez horas, com os três papéis. Não é um roteiro de pesquisador: é o que cabe entre a visita e o almoço, feito por alguém que não vai ler os artigos completos e não precisa ler para responder à pergunta que lhe foi feita.

Cada marco traz, em “o que escrever ou dizer”, as frases prontas — porque a diferença entre saber isso e usar isso é conseguir dizer em voz alta, na frente do preceptor e do paciente, sem soar arrogante e sem soar evasivo.

  1. 7h10 — antes de abrir qualquer resultado

    Separe os três papéis pelo que cada um está pedindo. O da filha da dona Cassilda pede uma decisão sobre um suplemento; o do plantonista pede uma decisão sobre um esquema de antibiótico; a planilha do Teobaldo pede a sua assinatura num achado. São três pedidos diferentes, e o terceiro tem consequência ética que os outros dois não têm. Nos três, a primeira leitura é do método, não do resultado — e o método, num resumo, são duas ou três frases perto do começo.

    Prescrição
    • Em cada resumo, sublinhe a frase que diz quem foi incluído e como.
    • Escreva ao lado, em uma palavra: coorte, caso-controle, transversal, ensaio, série.
    • Só depois leia o resultado.
  2. 7h25 — o papel da filha (o suplemento)

    O texto descreve pessoas que usam o suplemento e pessoas que não usam, medidas na mesma ocasião, com a frequência da doença em cada grupo. Não há linha de base sem desfecho e não há seguimento: é transversal. Isso já resolve metade da pergunta — a medida que pode sair dali é prevalência, e o texto está falando de proteção. A outra metade é a que a história da terapia hormonal do climatério ensinou: quem toma suplemento por conta própria é sistematicamente diferente de quem não toma, em renda, escolaridade, alimentação e frequência de consultas.

    Prescrição
    • Anote a frase proibida encontrada: “protege contra”.
    • Anote a leitura alternativa que o desenho não exclui: quem já está melhor é quem compra suplemento.
    • Decida: não muda conduta hoje; a conversa com a filha é sobre isso, e não sobre o suplemento.
  3. 7h45 — o artigo do plantonista (os dois antibióticos)

    Aqui há sorteio: os pacientes foram alocados aleatoriamente entre os dois esquemas. Randomização com sigilo de alocação reduz confundimento em expectativa; grupos podem diferir por acaso, sobretudo em amostras pequenas, e perdas, desvios e mensuração ainda podem gerar viés. Agora vêm as outras quatro perguntas, e é nelas que este estudo vai decidir o seu voto: o desfecho é dias de internação, que é desfecho de sistema e não de paciente, e é sensível a quem decide a alta; o estudo é aberto; o comparador é o esquema que a sua enfermaria já usa ou outro; e a população incluída exclui quem tem disfunção renal, que é metade dos seus internados.

    Prescrição
    • Confira, nesta ordem: sigilo da alocação, quem foi cegado, análise por intenção de tratar, critérios de exclusão.
    • Escreva a frase que o estudo não sustenta: “funciona nos nossos pacientes com disfunção renal”.
    • Decida: leva à visita como pergunta para a chefia, não como proposta de troca de protocolo.
  4. 8h00 — a visita, e o que fazer com o estudo no meio dela

    Na visita, o estudo entra como pergunta e não como afirmação. A formulação que funciona é objetiva e nomeia a limitação: dizer que existe um ensaio randomizado com resultado favorável a um esquema, que o desfecho é tempo de internação, que o estudo é aberto e que excluiu disfunção renal — e perguntar se vale discutir com a infectologia. Essa frase é curta, é honesta e não exige que ninguém acredite em você.

    Prescrição
    • Diga o desenho antes do resultado: “é um ensaio randomizado aberto”.
    • Diga o desfecho por extenso: “o desfecho foi tempo de internação”.
    • Termine com a pergunta, não com a conclusão.
  5. 9h10 — a planilha do Teobaldo, primeira parte: o desenho

    A planilha separou os pacientes por terem recebido ou não a medicação e contou óbitos. Isso é uma coorte retrospectiva. Não é série de casos, porque há grupo de comparação; não é ensaio, porque ninguém sorteou. A pergunta que desmonta o achado tem uma linha: quem decidiu quem recebia a medicação? Se a resposta for “o plantonista, olhando o paciente”, então a comparação está medindo o julgamento do plantonista — confusão por indicação — e o verbo “reduziu” não se sustenta em nenhuma hipótese.

    Prescrição
    • Peça a ele o critério de indicação vigente no serviço naquele período.
    • Peça a data em que o relógio começou a contar em cada grupo — se ser “exposto” exigiu sobreviver até a prescrição, há tempo imortal.
    • Peça quantos prontuários tinham a informação ausente, e em qual grupo.
  6. 9h25 — a planilha do Teobaldo, segunda parte: a ética

    Antes de discutir o resultado, há uma trava que não é opinativa. Levantamento de prontuário para apresentar em congresso é pesquisa com seres humanos: a Resolução CNS nº 466/2012 define pesquisa envolvendo seres humanos como aquela que envolve a pessoa direta ou indiretamente, incluído o manejo de seus dados. A Lei nº 14.874/2024 exige análise ética prévia. Prévia quer dizer antes da coleta, e a coleta já foi feita. Isso não é motivo para brigar com o residente: é motivo para ele procurar o comitê da instituição hoje, e para você não assinar nada até que o protocolo tenha parecer.

    Prescrição
    • Diga a regra sem acusação: “isso é pesquisa e precisa de parecer do CEP; a análise é prévia à coleta”.
    • Ofereça o caminho: procurar o comitê da instituição e submeter com pedido justificado de dispensa do termo de consentimento.
    • Não assine coautoria enquanto não houver número de parecer.
  7. 9h40 — a conversa com a filha da dona Cassilda

    A conversa que funciona não começa pelo estudo: começa pelo motivo de ela ter trazido o papel. Alguém que imprime uma matéria e entrega na recepção está pedindo para participar do cuidado da mãe. A explicação do desenho vem depois, em português comum, e a imagem que costuma funcionar é a da fotografia: o estudo tirou uma foto de muita gente num dia só, e numa foto não dá para saber o que veio antes.

    Prescrição
    • Comece reconhecendo: “a senhora trouxe isso porque quer ajudar, e isso ajuda mesmo”.
    • Explique o limite com a imagem: “esse estudo é uma foto de um dia; ele não mostra o que veio antes do quê”.
    • Ofereça o que existe: a decisão que de fato muda o quadro da mãe dela hoje.
  8. 10h00 — a resposta à preceptora

    A resposta cabe em três frases, uma por papel, e cada uma nomeia o desenho, a medida e a frase não sustentada. O suplemento: transversal, mede prevalência, não sustenta proteção. O antibiótico: ensaio randomizado aberto, sustenta diferença de tempo de internação naquela população, não sustenta uso em quem tem disfunção renal. A planilha: coorte retrospectiva sem sorteio, descreve o que aconteceu, não sustenta “reduziu a mortalidade” — e precisa de comitê de ética antes de qualquer submissão.

    Prescrição
    • Diga o desenho, a medida e a frase não sustentada, nesta ordem, para cada papel.
    • Não use “o estudo é ruim”: use “este desenho não responde a essa pergunta”.
    • Registre por escrito a frase não sustentada de cada um — é o que sobrevive à semana.
09

Como saber se está funcionando

Um estudo entra na rotina do serviço e fica. Estas são as revisitas que valem a pena, e o gatilho de cada uma. Nenhuma exige ler o artigo de novo do começo.

O desenho que você anotouSempre que alguém repetir o achado em voz alta na visita

Esperado: A palavra que você escreveu ao lado do resumo continua sendo a mesma quando outra pessoa conta a história

Se não melhora: Se o estudo virou “ensaio” na boca de terceiros e era coorte, corrija com o nome do desenho na hora — o erro cresce em silêncio e depois vira protocolo

A frase não sustentadaToda vez que a conduta baseada no estudo for aplicada a um paciente que não se parece com os do estudo

Esperado: A extrapolação é dita em voz alta e registrada na evolução

Se não melhora: Se a extrapolação já virou rotina sem nunca ter sido nomeada, leve o caso à discussão de equipe com os critérios de exclusão do estudo em mãos

Bruto contra ajustadoQuando o achado observacional for citado como razão de mudar conduta

Esperado: Os dois valores estão disponíveis e a distância entre eles é pequena

Se não melhora: Se só o ajustado está publicado, buscar contagens, modelo e justificativa das covariáveis. A ausência do bruto limita uma comparação, mas sua presença também não permite decompor automaticamente exposição e confundimento. Julgar causalidade pelo conjunto do desenho e da análise.

Perda de seguimento contra tamanho do efeitoEm qualquer coorte ou ensaio com seguimento longo

Esperado: A perda é menor que a diferença absoluta encontrada, e é parecida nos dois grupos

Se não melhora: Se a perda é maior que o efeito, ou desigual entre os grupos, procure a análise de cenário extremo; sem ela, o resultado não resiste

Desfecho substituto contra desfecho do pacienteAntes de prescrever com base no estudo pela primeira vez

Esperado: O desfecho medido é algo de que o paciente sentiria falta se não melhorasse

Se não melhora: Se o desfecho é laboratorial ou de imagem, procure se existe estudo com desfecho clínico; se não existir, diga isso ao paciente antes de prescrever

Confirmação por outro desenhoSeis a doze meses depois de o achado entrar na rotina

Esperado: Um estudo de desenho diferente aponta para o mesmo lado

Se não melhora: Achado observacional que nunca foi testado em ensaio randomizado, e que já dura anos, costuma ser achado que ninguém quis testar — vale perguntar por quê

Situação ética do trabalho do próprio serviçoAntes de cada submissão, e de novo antes da publicação

Esperado: Há número de parecer do comitê emitido antes do início da coleta, e o escopo aprovado cobre o que foi analisado

Se não melhora: Se a coleta antecedeu o parecer, ou se a análise saiu do escopo aprovado, o caminho é emenda ao protocolo, não submissão — e nenhum coautor deve assinar antes disso

10

Onde o erro machuca

Julgar o estudo pela revista, pelo tamanho da amostra ou pelo valor de p, e não pelo desenho

O dano: Um transversal de cem mil pessoas numa revista de alto impacto continua sem conseguir separar causa de consequência. Amostra grande reduz o acaso e não toca no viés: aumenta a precisão em torno de uma estimativa que pode estar deslocada. Valor de p pequeno com viés grande é precisão sobre o número errado.

Como pegar a tempo: Leia a frase do método antes do resultado, sempre. Se a pergunta “por qual porta a pessoa entrou” não tiver resposta no resumo, essa já é a informação mais importante do texto.

Ler “associado a” e entender “causa”

O dano: É o erro que sustenta a maior parte das condutas que depois caem. Associação é a constatação de que duas coisas andam juntas na amostra estudada; causa exige que a exposição tenha vindo antes, que outras explicações tenham sido afastadas e, de preferência, que alguém tenha conseguido mexer na exposição e ver o desfecho mudar. Os estudos observacionais entregam a primeira parte e quase nunca as outras.

Como pegar a tempo: Traduza mentalmente toda frase de resultado observacional para a forma neutra: “entre as pessoas estudadas, quem tinha X também tinha mais Y”. Se a frase continuar interessante nessa forma, o achado é real; se perder a graça, o que interessava era a causa que ninguém demonstrou.

Aceitar “análise ajustada para os fatores de confusão” como se fosse randomização

O dano: O ajuste só alcança o que foi conhecido, medido e bem medido. Todo confundidor não pensado, não coletado ou coletado de forma grosseira continua inteiro dentro do resultado. Em comparação de tratamento em prontuário, o confundidor mais forte costuma ser o julgamento clínico que indicou o tratamento — e ele não está em coluna nenhuma da planilha.

Como pegar a tempo: Pergunte que variável, se tivesse sido medida, mudaria o resultado. Se a resposta for “a gravidade percebida pelo médico na hora”, o ajuste não a alcança, e o estudo não decide.

Tirar incidência, risco ou prevalência de um caso-controle

O dano: É o erro mais fácil de cometer porque o artigo às vezes o comete primeiro, inclusive no título. A proporção de doentes num caso-controle foi escolhida pelo pesquisador: com 101 casos e 132 controles, os 43,3% de doentes na amostra não são a frequência da doença em lugar nenhum. Qualquer conta que use esse denominador produz um número que parece epidemiologia e não é.

Como pegar a tempo: Assim que reconhecer o desenho, escreva ao lado as três palavras que ficam proibidas: incidência, prevalência, risco absoluto. Se o texto usá-las, é o texto que está errado.

Tratar ausência de significância estatística como prova de ausência de efeito

O dano: Um intervalo de confiança de 0,94 a 1,25 é compatível com 6% de redução e com 25% de aumento: ele não afirma que nada acontece, afirma que o estudo não distinguiu entre essas possibilidades. Estudos pequenos produzem intervalos largos, e concluir “não há efeito” a partir de um intervalo largo é concluir a partir da própria falta de informação.

Como pegar a tempo: Leia o intervalo, não o valor de p. Pergunte se o limite mais favorável do intervalo seria clinicamente relevante: se for, o estudo não excluiu benefício importante, e a conclusão honesta é que ainda não se sabe.

Levantar prontuário e só depois pensar em ética

O dano: Prontuário é dado de pessoa identificável, e levantá-lo para produzir conhecimento é pesquisa com seres humanos pela definição da própria norma brasileira. Análise ética é prévia, e um parecer obtido depois não conserta a coleta feita antes: o trabalho fica sem submissão possível, e o residente que passou seis meses juntando dados perde os seis meses.

Como pegar a tempo: A ordem é sempre pergunta, protocolo, comitê, coleta. Se o trabalho já começou, pare a coleta e leve ao comitê como está, com a pergunta honesta — comitê existe para orientar, e chegar cedo com um problema é diferente de chegar tarde com um artigo pronto.

11

O que dizer ao paciente e à família

As sete falas abaixo aparecem todas na mesma semana de plantão, e por isso vale deixar cada uma pronta antes de precisar dela. Todas têm a mesma estrutura: nomear o desenho, nomear o limite, e oferecer o que existe no lugar da certeza que não existe.

O que faz essas conversas darem errado quase nunca é o conteúdo. É o tom: quem corrige um estudo soa arrogante, quem corrige uma pessoa soa pior. Corrija a frase, nunca a pessoa, e sempre ofereça a próxima coisa a fazer.

A filha traz um estudo da internet sobre um suplemento

“A senhora trouxe isso porque quer ajudar, e ajuda mesmo — é bom que a gente decida junto. Esse estudo aí é uma fotografia: eles perguntaram, no mesmo dia, quem tomava o suplemento e quem tinha a doença. Numa foto a gente não consegue ver o que veio antes do quê. Pode ser que o suplemento ajude, e pode ser que quem toma suplemento já seja quem come melhor e vai mais ao médico. Não dá para saber com esse tipo de estudo. O que a gente sabe que muda a situação da sua mãe hoje é outra coisa, e é sobre isso que eu queria falar com a senhora.”

Não diga: “Isso aí não tem evidência” e “internet não é fonte”. As duas frases fecham a conversa, humilham quem se esforçou e não ensinam nada — e a família volta na semana seguinte com o mesmo papel, sem ter contado a você.

O colega cita um estudo para justificar uma conduta, na visita

“Esse é aquele estudo de coorte, né? Eu li o resumo hoje de manhã. Uma coisa que me chamou atenção: eles compararam quem recebeu com quem não recebeu, mas quem decidiu isso foi o médico assistente. Vale a pena a gente ver se o bruto e o ajustado estão muito diferentes antes de mudar o protocolo?”

Não diga: “Esse estudo não vale nada” e qualquer variação de “isso é só observacional”. Observacional não é xingamento: metade do que a medicina sabe veio daí. O que não vale é a frase causal, não o estudo.

O residente pede coautoria numa série de prontuário

“Cara, o levantamento está bem feito, e é uma pergunta boa. Duas coisas antes de eu assinar. A primeira: isso é uma coorte retrospectiva, não um ensaio, então a gente pode dizer o que aconteceu, mas não pode dizer que a medicação reduziu — quem escolhia quem recebia era o plantonista. A segunda é mais chata: levantamento de prontuário é pesquisa e precisa de parecer do comitê antes da coleta. Vamos no CEP hoje ver como regularizar? Eu vou com você.”

Não diga: Assinar “para não criar problema” e resolver depois. Coautoria é responsabilidade pelo conteúdo e pela conduta ética do trabalho, e “eu não sabia” não é defesa que funcione em nenhuma instância.

O representante deixa um folheto com um gráfico e um valor de p

“Obrigado. Só para eu entender: qual foi o comparador? E o desfecho aqui do gráfico é clínico ou é laboratorial? Se você puder me mandar o artigo completo, eu leio — o folheto não traz os critérios de exclusão, e é isso que decide se serve para os nossos pacientes.”

Não diga: Discutir o mérito do remédio ali, de pé, no corredor. As duas perguntas — comparador e desfecho — resolvem a maior parte dos casos e não exigem que você conheça o remédio.

O paciente pergunta se o tratamento funciona

“Funciona, e eu consigo dizer em que sentido. Nos estudos, de cada cem pessoas parecidas com o senhor que tomaram, um número menor voltou a internar do que entre as que não tomaram. Isso não quer dizer que vai funcionar com o senhor especificamente — quer dizer que a chance melhora. E vou lhe dizer também o que a gente não sabe: esses estudos foram feitos em gente até setenta e cinco anos, e o senhor tem oitenta e um. Eu acho que vale, e quero que o senhor saiba de onde vem esse acho.”

Não diga: “É comprovado cientificamente.” A frase é vazia, não distingue desenho nenhum e destrói a sua credibilidade no dia em que a recomendação mudar.

A chefia quer mudar o protocolo do serviço por causa de um estudo

“Eu li o estudo. É randomizado, e isso resolve a comparação entre os grupos. Duas coisas que eu queria pôr na mesa antes: o desfecho primário é tempo de internação, que é sensível a quem decide a alta e o estudo é aberto; e eles excluíram clearance abaixo de trinta, que é uma fatia grande da nossa enfermaria. Não é razão para não mudar — é razão para escrever no protocolo em quem a gente vai aplicar.”

Não diga: Silenciar por hierarquia e depois reclamar no corredor. A objeção metodológica dita com o nome do desenho e o número do critério de exclusão é ouvida; a mesma objeção dita como desconfiança não é.

O preceptor pergunta, na frente de todos, o que você achou do artigo

“É um caso-controle, com 101 casos e 132 controles. A medida é razão de chances, não incidência. A OR bruta é 0,23 e a ajustada é 0,43; precisamos examinar o ajuste e suas covariáveis. Essa mudança, sozinha, não quantifica confundimento e pode envolver não colapsabilidade. Também não permite calcular diretamente o risco de câncer de quem toma estatina.”

Não diga: Responder “achei interessante” ou resumir o resultado. A resposta que impressiona e que serve é a que nomeia o desenho, a medida e o que fica de fora — nessa ordem, e sem adjetivo nenhum.

12

Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

A Resolução CNS nº 466/2012 ainda governa a ética em pesquisa no Brasil, ou já foi substituída pela Lei nº 14.874/2024?

Continua valendo, por determinação expressa do regulamento

O Decreto nº 12.651, de 7 de outubro de 2025, que regulamentou a lei, diz no art. 39 que, até que a Instância Nacional de Ética em Pesquisa publique as normas regulamentadoras, permanecem válidas as normas do Conselho Nacional de Saúde que não contrariem a lei e o decreto. O art. 40 mantém a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa como instância recursal até a posse dos membros da nova instância. Por essa leitura, a 466 é a régua em uso, não foi revogada por norma nenhuma, e continua sendo o texto que os comitês aplicam no dia a dia.

Brasil. Decreto nº 12.651/2025, arts. 39 e 40 (DOU de 08/10/2025).

Cedeu ponto a ponto, e a competência normativa mudou de dono

A mesma lei transferiu à instância nacional a atribuição de editar normas regulamentadoras sobre ética em pesquisa (art. 8º, I) e já dispôs, ela própria, sobre matérias que a 466 tratava de outro modo — a organização do sistema, o credenciamento e a acreditação dos comitês por grau de risco (art. 9º) e o fornecimento pós-estudo (arts. 30 e 33). Como a validade residual da 466 é condicionada a “não contrariar”, cada um desses pontos é um ponto em que ela deixou de valer, sem que nenhum ato diga qual. Por essa leitura, citar “a 466” como norma íntegra é citar um texto que já está parcialmente vencido.

Brasil. Lei nº 14.874/2024, arts. 5º, 8º, 9º, 30 e 33 (em vigor desde 27/08/2024).

Como decidir

Para o interno, a divergência não se resolve por leitura jurídica e sim por endereço: quem decide o que se aplica ao seu projeto é o comitê de ética da sua instituição, e a decisão vem antes da coleta. A conduta prática é submeter cedo e perguntar ao próprio comitê qual régua ele está aplicando naquele mês — a resposta varia entre instituições justamente porque o período é de transição. Não é aceitável, em nenhuma das duas leituras, coletar primeiro e perguntar depois.

Vale a pena combinar estudos observacionais numa metanálise?

Vale, e o Estado brasileiro escreveu um manual para isso

O Ministério da Saúde publicou, em 2014, uma diretriz metodológica inteira sobre como fazer revisão sistemática e metanálise de estudos observacionais comparativos sobre fatores de risco e prognóstico — 132 páginas, com busca, elegibilidade, extração, avaliação de risco de viés e síntese. A justificativa do documento é direta: para pergunta de fator de risco e de prognóstico, ensaio randomizado em geral não existe e não vai existir, e a alternativa adequada são os estudos observacionais. Recusar-se a sintetizá-los é deixar a decisão para a impressão de quem fala mais alto.

Brasil. Ministério da Saúde. Diretrizes metodológicas: elaboração de revisão sistemática e metanálise de estudos observacionais comparativos sobre fatores de risco e prognóstico. Brasília, 2014, seções 1.3 e 1.4.

A soma pode potencializar o erro, e quem diz isso é o mesmo documento

Na seção de limitações, o próprio manual registra que as variáveis de confusão não conhecidas ou não controladas geram estimativas não fidedignas e que as metanálises desses estudos “poderão potencializar esse erro”, e usa como exemplo a terapia hormonal do climatério, em que os observacionais apontaram benefício cardiovascular que os ensaios não confirmaram. Combinar dez estudos que compartilham o mesmo confundidor produz um intervalo de confiança estreito em torno de um número deslocado — e um número preciso e errado convence mais do que dez números imprecisos.

O mesmo documento, seção 1.5 (Limitações das revisões sistemáticas de estudos observacionais).

Como decidir

À beira do leito, a pergunta útil não é se a metanálise observacional é legítima, e sim o que ela acrescenta ao estudo individual. Se os estudos incluídos compartilham o mesmo problema de confusão, a metanálise dá precisão, não corrige viés — e a decisão continua sendo tomada sobre uma estimativa possivelmente deslocada. Use a estimativa combinada para dimensionar a incerteza e o sentido do efeito; não a use para elevar a certeza de causa.

Um levantamento retrospectivo de prontuário pode entrar por uma via simplificada de análise ética?

Não há via automática: a dispensa é pedida e apreciada

A Resolução CNS nº 466/2012 define pesquisa envolvendo seres humanos como aquela que envolve a pessoa direta ou indiretamente, incluído o manejo de seus dados, e trata a dispensa do termo de consentimento como exceção que deve ser “justificadamente solicitada pelo pesquisador responsável ao Sistema CEP/CONEP, para apreciação”. Quem decide é o comitê, caso a caso, e a análise é prévia — a Lei nº 14.874/2024 diz, no art. 6º, que a pesquisa se sujeita a análise ética prévia.

Resolução CNS nº 466/2012, itens II.14 e IV; Lei nº 14.874/2024, art. 6º.

O regulamento novo criou a via simplificada, e o alcance dela está em disputa

O Decreto nº 12.651/2025 prevê, para pesquisa de risco baixo, “procedimento de notificação aos CEPs ou de análise simplificada”. O dispositivo está no capítulo das ciências humanas e sociais (art. 35, § 2º), mas a lei que ele regulamenta declara, no art. 63, que se aplica às pesquisas com seres humanos em todas as áreas do conhecimento, e o sistema inteiro passou a graduar exigências por grau de risco. Há quem leia daí que um levantamento de prontuário sem contato com o participante é candidato natural à via simplificada assim que a instância nacional normatizar.

Brasil. Decreto nº 12.651/2025, art. 35, §§ 2º a 4º; Lei nº 14.874/2024, arts. 9º, § 1º, e 63.

Como decidir

Enquanto a instância nacional não publicar a norma, a única conduta que funciona nas duas leituras é a mesma: protocolo escrito e submissão antes da primeira linha coletada, com pedido justificado de dispensa do termo. Se o comitê da instituição já opera uma via simplificada, ele dirá; se não opera, a submissão comum é o caminho. O que nenhuma das duas leituras autoriza é o inverso — coletar agora porque “é só prontuário” e submeter quando o resumo já estiver escrito.

13

O raciocínio, em voz alta

Terça-feira, 12h40, sessão clínica da enfermaria de clínica médica. O R2, Osmarino Tibiriçá, projeta o resumo de um artigo e propõe mudar a rotina do serviço. O estudo acompanhou 4.812 pacientes internados com uma infecção comum em 14 hospitais de outro país, comparou os que receberam uma medicação adjuvante com os que não receberam, e encontrou mortalidade hospitalar de 8,1% contra 12,6%, com razão de chances ajustada de 0,64 (IC 95% 0,52–0,79). O resumo diz que a medicação “reduziu a mortalidade”. O R2 quer incluir a medicação no protocolo a partir de segunda-feira, e o chefe de enfermaria pede a sua opinião — você é o interno, e é o único que leu o resumo com calma, porque estava na fila do bandejão.

  1. Por qual porta as pessoas entraram

    Não há sorteio em lugar nenhum do resumo. Há dois grupos formados por quem recebeu e quem não recebeu a medicação, com desfecho contado para a frente. Isso é uma coorte — retrospectiva, se os dados vieram de registro; prospectiva, se foram coletados para isso. Nos dois casos, é observacional, e o verbo “reduziu” não pertence a este desenho.

  2. Que medida pode sair, e qual saiu

    De uma coorte sai incidência e sai risco: dá para dizer 8,1% contra 12,6%, uma diferença absoluta de 4,5 pontos percentuais e um risco relativo de 0,64. O artigo publicou razão de chances ajustada, que é legítima, mas repare que ela responde a uma pergunta ligeiramente diferente e, com desfecho tão frequente quanto 12%, se afasta do risco relativo. A medida mais útil para conversar com a equipe é a diferença absoluta: 4,5 pontos significam cerca de 22 pacientes tratados para um óbito a menos, se a associação fosse causal.

  3. A pergunta que desmonta ou salva o achado

    Quem decidiu quem recebia a medicação? Se foi o médico assistente, olhando o paciente, então recebeu quem parecia se beneficiar — ou, dependendo da cultura do serviço, quem parecia grave demais. É confusão por indicação, e ela pode produzir sozinha uma diferença de 4,5 pontos. Procure no método a descrição do critério de indicação; se não houver critério escrito, a comparação está medindo julgamento clínico.

  4. Bruto contra ajustado

    O resumo traz OR ajustada de 0,64. Procurar a OR bruta, as covariáveis e o método no texto completo; não compará-la como se fosse o mesmo estimando do RR calculado pelas proporções. A diferença entre estimativa bruta e ajustada é uma pista para examinar variáveis, modelo, seleção da amostra e pressupostos causais; não mede diretamente o confundimento. Mudança pequena não prova comparabilidade, e mudança grande não informa sozinha quanto do efeito era espúrio. A OR também é não colapsável: estimativas condicionais e marginais podem diferir mesmo sem confundimento. Avaliar escolha e qualidade das covariáveis e possibilidade de confundimento residual.

  5. O relógio de cada grupo

    Se ser “exposto” exigiu receber a medicação em algum momento da internação, todo paciente exposto sobreviveu até aquele momento, e os que morreram nas primeiras horas caíram automaticamente no grupo não exposto. É tempo imortal, e ele fabrica benefício sozinho. A frase a procurar é a definição do tempo zero e o tratamento da exposição como variável dependente do tempo.

  6. O desfecho e a população

    Mortalidade hospitalar é desfecho duro e relevante — este estudo acertou aqui, e vale dizer isso em voz alta. A população é de outro país, com outra rede, outra resistência bacteriana e outro limiar de internação. Isso não impede o uso do achado; impede usá-lo em silêncio.

  7. A frase que o estudo não sustenta

    Escrita em uma linha, para levar à discussão: este estudo não sustenta que dar a medicação a quem hoje não a recebe reduzirá a mortalidade no nosso serviço. Ele sustenta que, naqueles 14 hospitais, os pacientes que receberam morreram menos — e deixa em aberto se morreram menos por causa da medicação ou por serem diferentes desde o começo.

  8. A decisão, e como ela é dita

    A conduta não é “não muda nada” nem “muda tudo”. É: não incorporar ao protocolo com base neste estudo, procurar se existe ensaio randomizado sobre a mesma pergunta, e — se a equipe quiser usar assim mesmo em casos selecionados — registrar por escrito que a decisão se apoia em evidência observacional, com o critério de seleção definido antes e não caso a caso. Escrever o critério antes é, aliás, o começo de um estudo melhor.

14

Faça você

Quinta-feira, 14h20, ambulatório de clínica médica num hospital-escola de porte médio. A preceptora te entrega um envelope com um recorte e uma tarefa de dez minutos. O recorte é o resumo de um estudo brasileiro: inquérito domiciliar em nove capitais, 6.400 adultos entrevistados e medidos numa única visita, mostrando que a prevalência de uma doença crônica foi de 22,4% entre os que relataram trabalhar em turnos noturnos e de 14,1% entre os demais, com razão de prevalências de 1,59 (IC 95% 1,31–1,93) ajustada para idade, sexo, escolaridade e índice de massa corporal. O texto termina afirmando que o trabalho noturno “aumenta o risco” da doença, e a manchete do jornal que acompanha o recorte diz que trabalhar à noite adoece. A preceptora quer três coisas por escrito: o desenho, a frase proibida e o que você diria a um paciente que trabalha em turno e leu a manchete.

  1. 1

    Encontre a frase que revela a porta de entrada. Procure “entrevistados e medidos numa única visita” e diga o nome do desenho em uma palavra.

  2. 2

    Escreva a lista de medidas que esse desenho pode produzir e confira se a medida publicada está nela. Razão de prevalências está? Risco está?

  3. 3

    Aponte a frase proibida no texto do estudo e explique, em uma linha, por que ela não pertence a esse desenho.

  4. 4

    Ofereça pelo menos duas leituras alternativas que o desenho não consegue excluir — uma de causalidade reversa e uma de duração da doença.

  5. 5

    Diga qual seria o desenho capaz de responder à pergunta da manchete, e por que ele é caro.

  6. 6

    Escreva a fala de trinta segundos para o paciente que trabalha em turno noturno e leu o jornal — sem desautorizar a manchete e sem confirmá-la.

Ver como fecharíamos

1) Transversal: exposição e desfecho medidos na mesma visita, sem linha de base sem doença e sem seguimento. 2) O desenho produz prevalência, razão de prevalências e distribuição por estrato; razão de prevalências está na lista, e é a medida certa para o desenho. Incidência, risco e diferença de risco não estão. 3) A frase proibida é “aumenta o risco”: risco é medida de casos novos por pessoa observada, e uma fotografia não tem casos novos. O que o estudo mostrou é que a doença é mais frequente entre trabalhadores de turno, o que é diferente. 4) Causalidade reversa: quem já tem a doença pode ter migrado para o turno noturno, por afastamento, por necessidade de renda extra ou por não conseguir mais o posto do dia — e, no sentido inverso, quem adoece pode ser mandado embora do turno, o que reduziria a associação em vez de criá-la. Duração: se a doença dura mais em quem trabalha à noite, por diagnóstico mais tardio ou por pior seguimento, a prevalência sobe sem um único caso novo a mais. Vale acrescentar uma terceira, de confusão residual: ajustar para idade, sexo, escolaridade e índice de massa corporal não alcança renda, tipo de ocupação, exposição a ruído, tabagismo nem acesso a serviço, e trabalho noturno anda junto com todos eles. 5) Uma coorte prospectiva de trabalhadores sem a doença na linha de base, acompanhados por anos, com registro de mudança de turno ao longo do tempo; ou, mais forte e quase impossível, um estudo que sorteasse escala de turno — o que não é viável nem eticamente trivial. A coorte é cara porque exige tempo, retenção e medida repetida da exposição, que muda de ano para ano. 6) Fala possível: “Esse estudo é uma fotografia — eles perguntaram e mediram tudo no mesmo dia. O que ele mostra é que essa doença é mais comum entre quem trabalha à noite, e isso é verdade e é importante. O que ele não consegue mostrar é se foi o turno que causou a doença ou se as duas coisas andam juntas por outro motivo — renda, sono, comida, acesso a médico. Isso não muda o que a gente vai fazer hoje com o senhor, mas muda uma coisa: eu quero ver o senhor com mais frequência, porque a chance de a doença estar aí é maior.”

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Neste inquérito, a medição simultânea não estabelece se o turno noturno precedeu a doença: causalidade reversa é possível. Isso limita a conclusão causal e não é resolvido apenas por ajuste estatístico. A razão de prevalências é válida, mas não equivale diretamente a risco de adoecer. Cegamento de avaliadores também pode reduzir viés de aferição em estudos observacionais; sua ausência e seus efeitos não foram demonstrados no enunciado. O total de 6.400 pessoas, sem distribuição entre grupos, desenho amostral e intervalos de confiança, não garante precisão. Intenção de tratar se refere à análise segundo alocação em ensaios.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Sem consultar o texto, resolva a cena de abertura: Reconhecer desenho, vieses e aplicabilidade e distinguir associação de efeito causal demonstrado. Descreva os achados que sustentam a decisão, um erro evitável e o plano para mudança do quadro; depois compare com o caso resolvido.

Em 30 dias

Retome um caso real acompanhado sob supervisão ou simule o caso do capítulo. Explique o que mudou na sua decisão, confira se o próximo passo ocorreu e identifique uma melhoria concreta. Não use dados identificáveis fora do ambiente autorizado. Competência a demonstrar: Reconhecer desenho, vieses e aplicabilidade e distinguir associação de efeito causal demonstrado.

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Agora atenda

Agora atenda: homem de 46 anos, motorista de aplicativo, no ambulatório, encaminhado pela medicina do trabalho porque o exame periódico da empresa veio com colesterol e açúcar alterados; ele diz que não sente nada. Faça a consulta inteira, anamnese dirigida e exame, porque o papel que o trouxe pode não ser o que mais importa. Ao estratificar o risco dele, diga de que tipo de estudo saiu o escore que você usar e o que esse desenho permite e não permite afirmar sobre um homem como ele. Termine dizendo, em português comum, a decisão que vocês dois tomam hoje, que tipo de estudo a sustenta e o que faria você mudar de ideia.