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Pare de fumar não é conduta
Promoção da saúde e mudança de comportamento na consulta: intervenção breve no tabagismo, no uso de álcool, na atividade física e na alimentação
Por que as três frases mais ditas do ambulatório brasileiro rendem tão pouco, o que cabe em três a cinco minutos e tem efeito medido, e o que o SUS de fato oferece a quem decide parar
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Portaria Conjunta nº 10, de 16 de abril de 2020 — aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Tabagismo (anexo).
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Departamento de Promoção da Saúde. Guia de Atividade Física para a População Brasileira. Brasília: Ministério da Saúde, 2021. 54 p. ISBN 978-85-334-2885-0.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Guia Alimentar para a População Brasileira. 2. ed., 1. reimpr. Brasília: Ministério da Saúde, 2014. 156 p. ISBN 978-85-334-2176-9.
IBGE. Pesquisa Nacional de Saúde 2019: percepção do estado de saúde, estilos de vida, doenças crônicas e saúde bucal — Brasil e Grandes Regiões. Rio de Janeiro: IBGE, 2020.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Vigitel Brasil 2023: vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico. Brasília: Ministério da Saúde, 2023.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Cadernos de Atenção Básica nº 34 — Saúde Mental. Brasília: Ministério da Saúde, 2013.
Brasil. Ministério da Saúde. Política Nacional de Promoção da Saúde (PNPS): Anexo I da Portaria de Consolidação nº 2, de 28 de setembro de 2017 (origem: Portaria GM/MS nº 2.446, de 11 de novembro de 2014). Brasília: Ministério da Saúde, 2018. 40 p. ISBN 978-85-334-2670-2.
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde.
Brasil. Ministério da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 29, de 27 de novembro de 2025 — aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica.
MS/Conitec. PCDT do Tabagismo
FDA — advertência sobre abstinência de benzodiazepínicos
Prefeitura de São Paulo — elenco local, emergência e dispensação
Ministério da Saúde — Rename 2024, financiamento, p. 17 (cópia oficial municipal)
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Paciente retornou ao cigarro após uma semana de abstinência com tratamento. Como conduzir o retorno?
O paciente que você vai ver
Quarta-feira, sete e quarenta da manhã. A unidade básica fica num bairro que cresceu depois da fábrica e antes do asfalto, e a agenda da manhã tem dezessete nomes, cinco deles de retorno de exame. Você é o interno desta unidade às quartas e às sextas, e a preceptora atende na sala ao lado com a porta encostada, do jeito que ela chama de estar por perto sem estar em cima.
O terceiro nome é Álvaro Manhuaçu, 54 anos, montador de móveis planejados. Ele vem buscar receita de hidroclorotiazida, aferir a pressão e mostrar um hemograma que a enfermeira pediu no mês passado. A pressão está 138 por 84, o hemograma está normal, e a consulta inteira poderia caber em seis minutos. No campo de hábitos da ficha de cadastro está escrito, com a letra de outra pessoa e sem data: tabagista.
Você pergunta há quanto tempo ele fuma. Trinta e seis anos, ele diz. Um maço por dia, às vezes um e meio quando a oficina atrasa entrega. Você diz que ele precisa parar de fumar. Ele responde que sabe, que todo mundo fala isso, que o médico do ano passado também falou, e que o irmão dele parou sozinho de um dia para o outro e ele nunca conseguiu. Vocês dois ficam em silêncio por dois segundos, e a consulta continua para a receita.
Foram doze segundos, e não aconteceu absolutamente nada. Nenhum dos dois mentiu, nenhum dos dois foi grosseiro, e nenhum dos dois saiu daquela troca em posição diferente da que entrou. Você fez o que se espera de um médico e não fez nada que mude o desfecho dele. É essa a distância que este capítulo quer medir.
Pare de fumar, faça exercício, coma menos sal. São, muito provavelmente, as três frases mais ditas do ambulatório brasileiro, e são também as de menor rendimento. Não porque estejam erradas — as três são verdadeiras, e o benefício de cada uma é grande — mas porque nenhuma das três é uma conduta. Uma conduta tem um sujeito, um ato, um prazo e um retorno. Aquelas três frases têm apenas um conteúdo informativo, e o conteúdo informativo, no caso de Álvaro, já estava lá antes de você chegar.
O que existe do outro lado dessa distância não é uma frase melhor. É uma sequência curta, com nome, com tempo medido e com um documento federal que a descreve passo a passo. Ela leva de três a cinco minutos, cabe na consulta que você tem, e termina com três coisas escritas: uma data, um plano para os primeiros dias e um retorno marcado. E, se a avaliação indicar, termina também com uma prescrição — porque o Sistema Único de Saúde fornece medicamento para parar de fumar, e quase nenhum interno sabe quais são, em que apresentação, e por qual porta eles chegam.
Este capítulo é sobre esse ato, e sobre as quatro mudanças de comportamento que o ambulatório brasileiro mais tenta produzir: parar de fumar, beber menos, mexer o corpo e mudar o que se come. Ele não é sobre convencer ninguém, e faz questão de não ser. A pessoa que fuma sabe que fumar faz mal; a informação não é o que falta, e tratar a falta de mudança como falta de vontade é o erro que este capítulo mais quer desmontar.
Duas fronteiras já se declaram aqui, e nas duas direções. A doutrina da prevenção — os níveis primário, secundário, terciário e quaternário, o rastreamento, os critérios que autorizam rastrear, o paradoxo da prevenção — é do capítulo O nível não está no exame, na posição 8 desta apostila. Ele é dono da taxonomia; este capítulo é dono do ato dentro da consulta. Aquele capítulo mostra, na tabela-resumo do caderno federal de rastreamento, que perguntar sobre tabagismo e sobre uso de álcool, com intervenção, é uma das poucas coisas recomendadas para todo adulto assintomático. É exatamente a porta que este capítulo atravessa: ele não repete que a recomendação existe, mostra como se cumpre.
A segunda fronteira é mais delicada e por isso vem cedo. Quando o plano que você escreve não cabe na vida da pessoa — porque o dinheiro acaba antes da comida, porque o ônibus custa duas conduções, porque a jornada não deixa hora livre — o assunto é do capítulo Não aderiu, na posição 11 desta apostila, e ele já enuncia por que o conselho padrão falha em quem tem pouco. Este capítulo usa o que ele ensina e não o reescreve: quando a barreira é da camada das condições de vida, a conduta certa deixa de ser insistir na orientação. O que fica aqui é o outro lado — o que dizer e o que fazer quando a barreira não é essa, e a pessoa está diante de você com quinze minutos e uma decisão possível.
Álvaro vai voltar no bloco de conduta, e a manhã inteira dele está reconstruída ali, minuto a minuto. Antes disso, três blocos: quantas pessoas estão nessa situação no Brasil, por que o conselho não funciona e o que funciona no lugar dele.
Quem adoece disso
A epidemiologia deste capítulo só faz sentido em duas metades, e uma não se lê sem a outra. A primeira é a de sempre: quantos brasileiros fumam, bebem demais, não se movem e comem mal. A segunda é a que quase nunca se mede e que decide o capítulo: quantos deles receberam, de um profissional de saúde, alguma coisa além de uma frase.
Comece pelo tabaco. Na Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, a prevalência de usuários atuais de produtos derivados do tabaco, fumados ou não, de uso diário ou ocasional, foi de 12,8% entre as pessoas de 18 anos ou mais — cerca de 20,4 milhões de pessoas. Considerando só o tabaco fumado, 12,6%, sendo 11,4% de fumantes diários. O número médio de cigarros por dia foi de 12,6. No Vigitel de 2023, restrito às 27 capitais, a frequência de adultos fumantes foi de 9,3%, variando de 4,8% em Manaus a 13,8% em Porto Alegre. As duas medidas não se contradizem: são populações diferentes, em anos diferentes, e a queda entre elas é compatível com a tendência de décadas.
O gradiente social importa e é preciso dizê-lo sem eufemismo: fumar é mais frequente entre quem estudou menos. Na PNS 2019, a prevalência foi de 17,6% entre pessoas sem instrução ou com fundamental incompleto e de 7,1% entre as de superior completo — uma razão de 2,5 vezes. E cai conforme sobe o rendimento domiciliar por pessoa, de 17,2% entre quem não tem rendimento a 8,6% entre quem tem mais de cinco salários mínimos.
Agora a segunda metade, que é onde este capítulo nasce. A mesma pesquisa perguntou sobre tentativa de parar e sobre ajuda profissional. Entre os fumantes atuais e os ex-fumantes que pararam há menos de doze meses, 46,6% fizeram uma tentativa de parar naquele período — 43,8% dos homens e 50,8% das mulheres. Dessas pessoas que tentaram parar, 15,9% usaram aconselhamento de profissional de saúde.
Leia os dois números na mesma frase, porque juntos eles dizem o que nenhum deles diz sozinho. Quase metade dos fumantes brasileiros tenta parar a cada ano, e de cada seis que tentam, um encontra ajuda profissional. A motivação não é o insumo escasso. O insumo escasso é o encontro estruturado — e o encontro existe, é gratuito, está previsto em protocolo federal e acontece na mesma unidade onde a pessoa já vai buscar receita.
Um contraste da mesma pesquisa ajuda a afinar o diagnóstico, e ele desmente uma explicação fácil. Entre as pessoas que referiram diagnóstico médico de colesterol alto, as recomendações relatadas foram: manter alimentação saudável em 94,1% dos casos, manter o peso adequado em 88,3%, praticar atividade física regular em 87,9%, tomar medicamentos em 74,2%, fazer acompanhamento regular em 74,0% e não fumar em 60,7%. Ou seja: quando há um diagnóstico na mesa, o conselho é dado, e é dado a quase todo mundo. O que falta não é a frase. É o que vem depois dela.
Sobre álcool, os números federais precisam ser lidos com uma ressalva metodológica que quase ninguém faz. A PNS 2019 encontrou 17,1% de consumo abusivo nos últimos 30 dias — 26,0% entre homens e 9,2% entre mulheres — definindo consumo abusivo como cinco ou mais doses numa única ocasião, para os dois sexos. O Vigitel usa outro corte: cinco ou mais doses para homens e quatro ou mais para mulheres. São duas réguas federais para o mesmo nome de indicador, e o corte mais baixo para mulheres no Vigitel eleva mecanicamente a prevalência feminina em relação à régua da PNS. Comparar as duas prevalências como se fossem a mesma coisa é erro de leitura, não de fonte.
E há um dado sobre álcool que serve de vacina contra o moralismo clínico. Na PNS 2019, o consumo de bebida alcoólica ao menos uma vez por semana foi de 36,0% entre adultos com superior completo e de 19,0% entre os sem instrução ou com fundamental incompleto. O gradiente do álcool é o inverso do gradiente do tabaco: beber com frequência é mais comum entre quem estudou mais. Quem imagina o bebedor de risco como um homem pobre está errando o alvo em quase duas vezes.
A atividade física traz o achado mais desconcertante do capítulo, e ele está em dois números que a PNS 2019 publica em páginas seguidas. A proporção de adultos que praticavam o nível recomendado de atividade física no lazer foi de 30,1% no país, e cresce com o nível de instrução. A proporção de adultos fisicamente ativos no trabalho foi de 42,6%, e faz o caminho contrário: 55,8% entre as pessoas sem instrução ou com fundamental incompleto, contra 25,1% entre as de superior completo. Quem estudou menos se move mais — trabalhando. Quem estudou mais se move mais — no lazer.
A consequência clínica disso é direta e quase ninguém a tira. A frase faça exercício pressupõe tempo livre, e o tempo livre não está distribuído por igual. Dizer a um montador de móveis que ele precisa de atividade física é, do ponto de vista dele, uma informação estranha: ele passou o dia inteiro carregando MDF. O que ele não faz é atividade física de lazer, e a diferença entre as duas coisas não é semântica — o guia nacional divide a atividade física em quatro domínios (tempo livre, deslocamento, trabalho ou estudo, e tarefas domésticas) exatamente porque elas não são intercambiáveis na conversa.
O deslocamento fecha o quadro. Na PNS 2019, 31,7% dos adultos despendiam pelo menos 30 minutos diários indo e voltando a pé ou de bicicleta, e a prevalência foi de 38,9% entre pessoas pretas e 28,6% entre brancas. É o único domínio em que a desigualdade brasileira aparece como vantagem de saúde — e é também o domínio que some assim que a pessoa consegue comprar um carro.
Sobre alimentação, a medida nacional mais usada é grosseira de propósito: quantos grupos de alimentos ultraprocessados a pessoa consumiu no dia anterior. Na PNS 2019, 14,3% dos adultos consumiram cinco ou mais grupos, com 24,6% entre os de 18 a 24 anos e 7,1% entre os de 60 anos ou mais; na área rural, 7,4%, contra 15,4% na urbana. No Vigitel 2023, nas capitais, 17,7%, sendo 22,0% entre homens e 14,1% entre mulheres. Duas coisas ficam claras: o consumo é muito maior entre jovens, e é maior onde há mais comércio. Nenhuma das duas se resolve com uma frase dita numa consulta.
Por último, o dado que fecha a segunda metade. O Brasil não tem uma medida nacional de quantas consultas contêm uma abordagem estruturada de mudança de comportamento. Nenhum dos inquéritos usados aqui pergunta isso — a PNS chega mais perto, ao perguntar sobre aconselhamento entre quem tentou parar de fumar, e nada equivalente existe para álcool, atividade física ou alimentação. Registrar essa ausência é parte do capítulo: não se sabe, no Brasil, com que frequência o ato central deste capítulo é feito.
Por que acontece o que acontece
O mecanismo deste capítulo não é fisiopatológico: é o mecanismo pelo qual uma frase dita numa consulta se transforma, ou não, em comportamento diferente na terça-feira seguinte. Vale desmontá-lo em partes, porque cada parte tem uma conduta correspondente e a maioria dos internos só conhece a primeira.
A primeira parte é a informação. O conselho clássico age aqui: ele fornece o dado de que fumar mata, de que sal sobe a pressão, de que sedentarismo adoece. É a parte de que menos se precisa, e a razão está na epidemiologia deste capítulo: 46,6% dos fumantes brasileiros tentaram parar no ano anterior. Quem tenta já sabe. Repetir a informação a quem já a tem não é neutro — é o que faz a pessoa concluir que a consulta não tem nada a lhe oferecer sobre aquilo, e é assim que se ensina alguém a não trazer mais o assunto.
A segunda parte é a intenção, e é onde mora o mal-entendido central da prática. Todo mundo aprende que primeiro se convence e depois se age, e por isso a conversa costuma ser gasta inteira tentando produzir intenção. Mas a intenção, no agregado brasileiro, é abundante: quase metade tenta a cada ano. O que é escasso é o que vem entre a intenção e o comportamento — e é isso que a intervenção estruturada fornece.
A terceira parte é a que o conselho não tem e que a abordagem breve tem: um ato. O protocolo federal do tabagismo descreve duas versões, e a diferença entre elas é uma letra e um mundo. A abordagem breve ou mínima chama-se PAAP — perguntar e avaliar, aconselhar, preparar — e o protocolo diz que ela pode ser realizada em 3 minutos, sobretudo por quem não tem como acompanhar o paciente depois, como o profissional de pronto-socorro ou de triagem. A abordagem básica chama-se PAAPA e acrescenta um quinto verbo, acompanhar; tem duração mínima de 3 e máxima de 5 minutos em cada contato, e o protocolo a indica para todos os fumantes e a considera mais recomendada do que a anterior, justamente porque prevê o retorno na fase crítica da abstinência.
Entenda o que essa quinta letra faz. Sem ela, a conversa termina no consultório; com ela, a conversa termina numa data e numa próxima consulta, e é a próxima consulta que transforma uma recaída em episódio de um tratamento, em vez de fracasso pessoal. É esse o mecanismo pelo qual três minutos rendem mais que quinze de argumentação: não porque a técnica seja mágica, mas porque ela produz um objeto — data marcada, plano dos primeiros dias, retorno — e o objeto sobrevive ao fim da consulta.
A quarta parte é farmacológica, e nela o tabaco é diferente das outras três mudanças. A nicotina chega ao sistema de recompensa poucos segundos depois da tragada e tem meia-vida de cerca de duas horas; passado esse tempo, a queda dos níveis plasmáticos produz irritação, ansiedade, depressão do humor e aumento do apetite, e fumar de novo alivia o desconforto. É por isso que existe reposição de nicotina e é por isso que ela é dada em forma lenta, de liberação contínua, com uma forma rápida por cima para os picos de fissura. Não há equivalente disso para comida, movimento ou bebida: para o tabaco, o Brasil tem fármaco no elenco público; para as outras três, não tem nenhum.
A quinta parte é o ambiente, e ela existe para impedir que este capítulo se torne o que ele critica. Nenhuma das quatro mudanças se decide inteiramente dentro da cabeça de quem muda. O guia alimentar brasileiro tem um capítulo inteiro sobre isso e nomeia seis obstáculos — informação, oferta, custo, habilidades culinárias, tempo e publicidade —, dos quais só o primeiro e, em parte, o quarto estão ao alcance do que se diz numa consulta. Os outros quatro são propriedades do bairro, do salário e da jornada. Quando a barreira está lá, insistir na orientação não é persistência clínica, é ruído — e a conduta é a do capítulo Não aderiu: identificar em que camada a barreira mora, adaptar o plano ao que existe e registrar o achado.
Junte as cinco partes e você tem a regra operacional do capítulo, que cabe numa linha: a informação quase nunca é o que falta; a intenção com frequência já está lá; o que falta é o ato, e o ato leva de três a cinco minutos. Quando ele também não funciona, a pergunta seguinte não é o que mais eu digo, e sim em que camada está a barreira — porque a resposta a essa segunda pergunta decide se a conduta é ensinar, prescrever, adaptar ou encaminhar.

Como se apresenta de verdade
As quatro mudanças não chegam à consulta como queixa. Chegam como campo preenchido de qualquer jeito, como frase de rotina, como resposta defensiva a uma pergunta mal feita, e às vezes como uma pergunta do próprio paciente que passa despercebida. Reconhecer a forma em que cada uma aparece é o que separa a consulta em que alguma coisa acontece da consulta em que nada acontece.
Uma advertência antes das seis seções. Nenhuma dessas apresentações autoriza presumir nada sobre a pessoa. Todas indicam que vale a pena perguntar — e o roteiro abaixo só funciona nas mãos de quem pergunta em vez de deduzir.
Competência ao final deste capítulo. Construir e acompanhar plano de cessação do tabagismo com manejo de fissura e recaída. No internato, demonstre o raciocínio e a execução supervisionada: o que verificar, o que fazer agora, quando chamar ajuda e como garantir continuidade.
O tabagista que ninguém perguntou este ano
A apresentação mais comum do tabagismo no Brasil não é o paciente que pede ajuda para parar: é uma palavra num campo de cadastro, escrita por alguém, em algum momento, sem data. Tabagista. Ex-tabagista. Nega tabagismo. As três aparecem centenas de vezes por unidade e as três compartilham o mesmo defeito: descrevem um estado, não um momento, e não dizem nada sobre o que se fez a respeito.
O protocolo federal do tabagismo é explícito sobre o que deveria estar ali: todos os profissionais de saúde devem ser treinados para perguntar sobre o uso do tabaco, registrar as respostas no prontuário, dar breves conselhos sobre o abandono e encaminhar para o tratamento mais adequado disponível localmente, e a abordagem breve deve ser implementada como componente essencial do protocolo de atuação. Ou seja: perguntar e registrar são atos previstos em norma, e a norma prevê o registro justamente para que o próximo profissional saiba de onde continuar.
O que se vê na prática é o oposto disso. O campo diz tabagista há oito anos, e ninguém sabe se ele já tentou parar, quantas vezes, com o quê, e o que aconteceu. Essa informação é gratuita, leva vinte segundos e muda a conduta de hoje — porque o protocolo diz para valorizar as experiências vividas nas tentativas anteriores e considerar os eventos adversos relatados na escolha do novo medicamento.
Há uma variante que vale nomear porque engana: o ex-tabagista recente. A pessoa que parou há três semanas e está no período de maior risco de recaída aparece no prontuário exatamente igual à que parou há vinte anos, e as duas recebem o mesmo silêncio. Uma delas precisava de consulta de retorno esta semana.
Quem já tentou e não conta
Quase metade dos fumantes brasileiros tentou parar no último ano, e a consulta quase nunca sabe disso. A razão é simples e não é psicológica: ninguém pergunta. A pergunta padrão é você fuma, que produz sim ou não e encerra o assunto; a pergunta que abre é você já tentou parar, e a que abre de verdade é a seguinte, que o protocolo traz textualmente: o que aconteceu.
O protocolo explica para que serve essa segunda pergunta — permite identificar o que ajudou e o que atrapalhou a deixar de fumar, de modo que esses dados sejam trabalhados na próxima tentativa. Na prática, ela devolve três tipos de resposta, e cada um leva a uma conduta diferente. A pessoa que parou por dez dias e voltou numa noite de bebida está descrevendo um gatilho identificável. A pessoa que parou e voltou por causa de irritabilidade e insônia intoleráveis está descrevendo síndrome de abstinência e é candidata a farmacoterapia. E a pessoa que nunca chegou a marcar uma data está descrevendo uma tentativa que nunca começou.
Uma quarta resposta é a mais valiosa e a mais fácil de perder: eu parei, fiquei sete meses sem fumar e voltei quando meu pai adoeceu. Essa pessoa já provou que consegue. O protocolo é claro em como se recebe alguém assim — acolher, reforçar os ganhos, destacar a importância da decisão de parar e esclarecer que ter recaído não significa impossibilidade de cessar. Não é gentileza: é a conduta escrita.
Quem bebe demais e não é dependente
Esta seção começa declarando a fronteira, porque ela é fina e as duas metades se tratam de modo diferente. A dependência do álcool, a síndrome de abstinência, o delirium tremens, a tiamina antes da glicose e o manejo do internado que muda no segundo dia são do capítulo A abstinência que não pode esperar, da apostila de Psiquiatria. Ele é dono também do instrumento de rastreio de dez perguntas, das suas quatro faixas de conduta e da divergência que ele mediu entre as duas versões brasileiras em circulação. Este capítulo não repete nada disso e manda o leitor para lá.
O que fica aqui é a outra metade: a pessoa que bebe numa faixa que produz dano mensurável, não tem sintoma nenhum, recusaria o rótulo de bebedora se alguém lho oferecesse, e por vários critérios correntes teria razão. Ela é a maioria de quem bebe demais no Brasil — na PNS 2019, 17,1% dos adultos referiram consumo abusivo nos últimos trinta dias, e a esmagadora maioria deles não tem síndrome de dependência.
A apresentação característica dessa faixa é a de não ter apresentação: corpo sem sinal, laboratório sem alteração e consulta sem queixa. O que existe são pistas indiretas que o interno costuma atribuir a outra coisa: transaminases discretamente elevadas sem outra causa, hipertensão que não responde como deveria, insônia crônica, refluxo, e — a mais frequente de todas — a consulta em que a pessoa está bem e a agenda anda rápido.
Uma segunda apresentação é o encontro na porta: a pessoa que chega por trauma, briga, queda, acidente de trânsito. É a oportunidade mais desperdiçada do sistema, e é para ela que o protocolo do tabagismo inventou a versão mais curta da técnica — a de três minutos, sem acompanhamento, para quem atua em pronto-socorro e triagem. Não existe documento brasileiro equivalente dizendo o mesmo para álcool na emergência, e essa ausência está registrada no bloco de critério.
O sedentário que trabalha em pé o dia inteiro
A apresentação mais comum da inatividade física no ambulatório brasileiro é uma pessoa que se move muito. O montador de móveis, a diarista, o ajudante de pedreiro, a auxiliar de limpeza: todos passam o dia carregando peso, e todos ouvem que precisam fazer exercício. Os números nacionais explicam por que essa frase soa absurda para eles — 55,8% das pessoas sem instrução ou com fundamental incompleto são fisicamente ativas no trabalho, contra 25,1% das de superior completo, e a atividade de lazer faz o caminho inverso.
A consequência prática é que a conversa precisa nomear o domínio antes de nomear a quantidade. O guia nacional divide a atividade física em quatro domínios — tempo livre, deslocamento, trabalho ou estudo e tarefas domésticas — e a recomendação de 150 minutos semanais de intensidade moderada não pergunta em qual deles. Alguém que caminha 25 minutos até o ponto e 25 na volta, cinco dias por semana, já ultrapassou os 150 minutos sem nunca ter entrado numa academia, e provavelmente não sabe disso.
A segunda apresentação é o oposto e engana na outra direção: o trabalhador de escritório que corre aos sábados e passa nove horas sentado nos outros seis dias. O guia trata os dois assuntos como distintos e dá recomendação própria para o segundo — a cada uma hora sentado, movimentar-se por pelo menos 5 minutos —, o que é uma conduta que cabe numa frase e não depende de tempo livre nenhum.
A terceira apresentação é a que exige mais cuidado clínico: a pessoa que quer começar e pergunta se pode. O guia responde com uma frase que vale citar porque contraria o reflexo de pedir exames: ter um dia a dia fisicamente ativo é bastante seguro, e a preocupação com lesões ou problemas de saúde não deve impedir a prática. A avaliação pré-participação de atleta e a prescrição de exercício supervisionado em cardiopata são de outros capítulos; o que este capítulo sustenta é que a orientação de caminhar não exige exame prévio.
Eu como de tudo, doutor
A frase eu como de tudo é a apresentação padrão da alimentação na consulta brasileira, e o capítulo Não aderiu já demonstrou que ela é ambígua entre três leituras que pedem condutas diferentes — de variedade real, de resignação diante do que houver, e de defesa diante de uma pergunta ouvida como cobrança. Este capítulo não repete essa análise nem o instrumento de duas perguntas para insegurança alimentar, que é de lá, e manda o leitor para lá.
O que fica aqui é o que fazer com a resposta quando a barreira não é de acesso. E a primeira coisa a fazer é abandonar a frase coma menos sal, por um motivo que surpreende quem consulta a fonte: a régua alimentar brasileira não é feita de nutrientes. O guia nacional não traz meta de sal, não traz caloria, não traz porção. Ele organiza a alimentação por grau de processamento e resume tudo numa regra de ouro — preferir sempre alimentos in natura ou minimamente processados e preparações culinárias a alimentos ultraprocessados.
Isso muda o que se pergunta e o que se orienta. A pergunta deixa de ser quanto sal você usa, que ninguém sabe responder, e passa a ser o que a senhora comeu ontem, do café ao jantar. E a orientação deixa de ser um número e passa a ser uma troca nomeada: água, leite e fruta no lugar de refrigerante, bebida láctea e biscoito recheado; comida feita na hora no lugar do que dispensa preparo.
Há uma quarta apresentação que o interno precisa aprender a não julgar, e ela vem medida do capítulo vizinho, que mostrou com dados nacionais que renda menor não produz alimentação pior em toda linha, e sim outra alimentação, moldada pelo que dá para comprar, armazenar e cozinhar. Tomar diferença por deficiência é o atalho mais curto para uma orientação alimentar com timbre de repreensão — e uma orientação que soa como repreensão custa o assunto inteiro nas consultas seguintes.
A pergunta que o paciente faz e que passa em branco
A última apresentação não vem do prontuário nem do corpo: vem de uma frase que o paciente diz de passagem, geralmente enquanto guarda a receita, e que quase sempre é ouvida como conversa fiada. Minha mulher está me enchendo por causa do cigarro. Eu ando cansado demais, acho que é falta de exercício. Depois que meu pai teve derrame eu fiquei pensando nessas coisas.
Essas frases são o equivalente comportamental de uma dor torácica relatada na porta. Elas dizem que a pessoa está pensando no assunto agora, e o protocolo federal organiza a conduta a partir exatamente disso: a conduta deve estar de acordo com o interesse do fumante em deixar de fumar, ou não, no momento da consulta, e quem não estiver disposto a parar nos próximos trinta dias deve ser estimulado a pensar sobre o assunto e abordado no próximo contato.
O erro clínico aqui não é dizer a coisa errada. É deixar passar. Uma janela dessas aparece poucas vezes por ano na vida de uma pessoa, e ela quase sempre aparece na consulta marcada para outra coisa. A conduta é interromper o que estava fazendo por noventa segundos e perguntar: o senhor está pensando em parar?
Como fechar o diagnóstico
Investigar, aqui, não é pedir exame — nenhuma das quatro mudanças tem exame que decida alguma coisa, e o protocolo federal do tabagismo é taxativo ao dizer que o diagnóstico de dependência à nicotina é clínico e que não se usam exames físicos, laboratoriais ou de imagem para esse fim. A investigação é feita de perguntas, e o trabalho está em escolher quais, em formulá-las de modo que possam ser respondidas, e em saber o que fazer com cada resposta.
As seis seções abaixo cabem, somadas, em bem menos tempo do que parece. As quatro perguntas centrais do tabaco levam cerca de um minuto; o teste de dependência, mais um; e as perguntas de atividade física e alimentação, trinta segundos cada uma quando se sabe qual fazer.
As perguntas do PAAPA, na ordem em que o protocolo as escreve
O protocolo federal do tabagismo lista textualmente as perguntas sugeridas para a abordagem breve e para a básica, e cada uma vem com a razão de existir entre parênteses no próprio documento. Vale conhecê-las na ordem, porque a ordem é a técnica.
A primeira é você fuma, há quanto tempo — e o protocolo explica que ela permite diferenciar a experimentação do uso regular. A segunda é quantos cigarros fuma por dia, com a nota de que quem fuma 20 ou mais provavelmente terá maior chance de desenvolver sintomas fortes de abstinência. A terceira é quanto tempo após acordar acende o primeiro cigarro, com a mesma advertência para quem fuma nos primeiros 30 minutos. A quarta é o que você acha de marcar uma data para deixar de fumar, e o protocolo diz para que ela serve: avaliar se o fumante está pronto para iniciar o processo; em caso afirmativo, pergunta-se quando.
Depois vêm as duas perguntas sobre o passado, que são as que ninguém faz: já tentou parar; e, se sim, o que aconteceu. Seis perguntas, todas curtas, e a última é a que carrega mais informação clínica por segundo gasto.
O quarto verbo, preparar, também está descrito e é o que faltava na cena de abertura. O protocolo instrui a sugerir que a pessoa marque uma data, a explicar os sintomas da abstinência, a sugerir estratégias para controlar a vontade de fumar — beber água repetidamente e escovar os dentes são os exemplos que ele dá — e a sugerir estratégias para quebrar os estímulos, como restringir café e bebida alcoólica, desfazer-se de isqueiros e evitar ambientes que estimulem o fumar. Não é conselho genérico: é uma lista curta de atos, e cada um deles cabe numa linha de prontuário.
O quinto verbo é acompanhar, e é o que separa a abordagem básica da mínima. Na prática do interno, ele significa uma linha na agenda: retorno em quinze dias, ou na semana da data marcada. Sem isso, você fez a abordagem de três minutos do pronto-socorro dentro de uma unidade básica que podia ter feito melhor.
O teste de dependência, e as duas lacunas que ele tem
O grau de dependência se afere pelo teste de Fagerström, que o protocolo reproduz em seis perguntas, com escore de zero a dez. As perguntas são: quanto tempo após acordar você fuma o primeiro cigarro; você acha difícil não fumar em lugares proibidos; qual o cigarro do dia que traz mais satisfação; quantos cigarros você fuma por dia; você fuma mais frequentemente pela manhã; e você fuma mesmo doente, quando precisa ficar acamado a maior parte do tempo.
As faixas de leitura do total são cinco: 0 a 2, dependência muito baixa; 3 a 4, baixa; 5, média; 6 a 7, elevada; 8 a 10, muito elevada. Essa parte fecha — a soma dos escores máximos das seis perguntas é exatamente 10, e as cinco faixas cobrem os onze valores possíveis sem lacuna e sem sobreposição. É uma conferência que dá certo e vale dizer que deu, porque nem toda tabela oficial fecha.
A quarta pergunta, porém, não fecha, e o defeito é do tipo que passa despercebido por anos. As alternativas impressas são menos de 10, 11 a 20, 21 a 30 e mais de 31. Rodada a conta sobre todos os valores inteiros, dois números não pertencem a nenhuma classe: quem fuma exatamente 10 cigarros por dia e quem fuma exatamente 31. Não é bizantinice — dez cigarros por dia é uma resposta comuníssima, e o profissional que aplica o teste tem de decidir sozinho, na hora, se pontua 0 ou 1. A conta completa está no bloco de critério.
Uma segunda observação sobre limiares, e esta é leitura deste capítulo, não citação. O protocolo diz que o teste indica que o tabagista poderá experimentar sintomas desconfortáveis de abstinência quando o resultado for acima de 6 pontos; e, em outro item, dispensa a farmacoterapia quando a pontuação for igual ou inferior a 4. Os escores 5 e 6 caem entre os dois: não dispensam medicamento por um critério e não predizem abstinência pelo outro. Não é contradição — são perguntas diferentes — mas quem aplica o teste sem notar a faixa intermediária decide de um jeito ou de outro sem saber que está decidindo.
Prontidão: a pergunta dos trinta dias
A pergunta que organiza a conduta inteira não é sobre quanto a pessoa fuma: é sobre o que ela pretende fazer. O protocolo fixa a janela em trinta dias, e a conduta se bifurca ali. Quem não estiver disposto a parar nos próximos trinta dias deve ser estimulado a pensar sobre o assunto e abordado no próximo contato, e é importante que o profissional se mostre disposto a apoiá-lo nesse processo. Quem estiver interessado passa à etapa de preparação.
Repare no que essa regra impede: ela impede que a consulta com quem não quer parar seja tratada como perda de tempo, e impede que a consulta com quem quer parar termine sem data. As duas coisas acontecem o tempo todo, e as duas são falhas do mesmo tipo — não perguntar em que ponto a pessoa está antes de decidir o que oferecer.
Há uma pergunta auxiliar que vale usar quando a resposta é o clássico eu quero parar, mas agora não dá. Pergunte o que precisaria mudar para dar. A resposta costuma ser concreta e às vezes acionável na mesma consulta — depois que a obra acabar, depois que minha mãe melhorar, se minha mulher parasse junto —, e ela transforma um não vago numa data possível.
A leitura por estágios de motivação é citada pelo próprio protocolo, que a inclui na etapa de avaliação, e o protocolo da doença pulmonar obstrutiva crônica de 2025 remete ao mesmo referencial. Este capítulo usa a régua operacional dos trinta dias, que é a que está no texto normativo, e não desenvolve a teoria dos estágios, que é matéria de outra ordem.
Álcool: o que se pergunta antes de chegar ao instrumento
A fronteira está declarada e vale repetir aqui na direção contrária: o instrumento de rastreio de dez perguntas, suas faixas de conduta e a divergência entre as versões brasileiras pertencem ao capítulo A abstinência que não pode esperar, da apostila de Psiquiatria. Este capítulo os cita e não os refaz. O que este capítulo assume é o que vem antes e o que vem depois do instrumento.
Antes do instrumento há uma pergunta de triagem que cabe em qualquer consulta e que não depende de formulário: numa semana comum, em quantos dias o senhor bebe, e quanto num dia desses. Duas informações, em unidades que a pessoa reconhece — latas, garrafas, copos, doses. Ela não substitui o instrumento; ela decide se vale aplicá-lo.
A forma da pergunta importa mais aqui do que em qualquer outro assunto do capítulo, e a razão é que a resposta socialmente correta é conhecida por todo mundo. O senhor bebe é uma pergunta de sim ou não feita sobre um comportamento já criticado, e tem baixa sensibilidade por construção. Perguntar quantidade e frequência não pede confissão: pede medida.
Depois do instrumento vem a conduta, e é aqui que o Brasil tem duas réguas diferentes para a mesma técnica. Para o tabaco, o protocolo federal indica a abordagem breve para todos os fumantes. Para o álcool, o caderno federal reserva a intervenção breve a uma faixa estreita de escore, com orientação básica abaixo dela e encaminhamento acima. A comparação está feita, com os números, no bloco de critério.
E há uma ausência a registrar, porque ela muda o que se pode afirmar: não existe protocolo clínico e diretrizes terapêuticas federal para transtorno por uso de álcool no Brasil — o levantamento é do capítulo vizinho de Psiquiatria, que o mediu contra a lista oficial de protocolos. O contraste com o tabagismo é o dado: um tem protocolo federal, fluxograma e elenco de medicamentos; o outro não tem protocolo.
Atividade física: três perguntas e um número
A investigação da atividade física tem uma armadilha embutida no vocabulário, e a primeira pergunta serve para desarmá-la. Não pergunte se a pessoa faz exercício — pergunte como ela vai e volta do trabalho, quanto tempo leva a pé, e o que ela faz no sábado e no domingo. As três perguntas cobrem os quatro domínios do guia nacional e produzem minutos, que é a unidade da recomendação.
O número a comparar é o do guia: pelo menos 150 minutos semanais de atividade física de intensidade moderada, ou pelo menos 75 minutos de intensidade vigorosa, ou uma combinação das duas; e, como parte da prática semanal, atividades de fortalecimento de músculos e ossos em pelo menos dois dias. O guia também diz que a prática pode ser dividida em pequenos blocos de tempo, o que é a permissão que a maioria das pessoas precisa ouvir.
A intensidade é aferida por conversa, não por frequencímetro, e o guia dá o critério em palavras que o paciente entende. Na atividade moderada, a pessoa consegue conversar com dificuldade e não consegue cantar; na vigorosa, não consegue nem conversar; na leve, respira tranquilamente e conseguiria até cantar. Esse teste da fala é o instrumento mais barato do capítulo, e ele resolve a dúvida que sempre aparece: a caminhada da pessoa conta como moderada.
A terceira pergunta é sobre o tempo sentado, porque o guia trata isso como assunto próprio: evitar longos períodos sentado ou deitado e, a cada uma hora, movimentar-se por pelo menos 5 minutos. Para quem trabalha sentado, essa é frequentemente a única recomendação executável na semana em que a conversa acontece.
Uma advertência sobre os números nacionais que o interno vai ver citados. O indicador de atividade física no lazer da PNS 2019 conta como ativo quem pratica por mais de 150 minutos, enquanto a recomendação do guia é de pelo menos 150; e o texto da PNS descreve a recomendação como sendo de atividades de intensidade leve ou moderada, quando o guia recomenda moderada e classifica a leve como uma faixa separada, de percepção de esforço 1 a 4 numa escala de 0 a 10. As duas divergências, com a conta, estão no bloco de critério.
Alimentação: a pergunta que cabe em trinta segundos
A investigação alimentar que cabe numa consulta de quinze minutos não é um recordatório e não é uma frequência alimentar. É uma pergunta única, aberta e sem juízo: o que o senhor comeu ontem, do café da manhã até a noite. Ela produz uma lista concreta, e é sobre a lista concreta que a orientação vai incidir.
O que se procura na lista não é sal nem caloria, porque a régua brasileira não trabalha com nenhum dos dois. Procura-se grau de processamento, que é o eixo do guia nacional: quanto da lista é comida feita na hora e quanto é produto que dispensa preparo. O guia divide os alimentos em in natura ou minimamente processados, ingredientes culinários (óleo, gordura, sal e açúcar), processados e ultraprocessados, e é essa a distinção que orienta a conversa.
Uma segunda pergunta, quando há tempo, é sobre quem cozinha e quando. O guia dedica dois dos seus dez passos exatamente a isso — desenvolver, exercitar e partilhar habilidades culinárias, e planejar o uso do tempo para dar à alimentação o espaço que ela merece — e trata tempo e habilidade culinária como dois dos seis obstáculos que ele nomeia. Perguntar quem cozinha na casa muda a orientação mais do que perguntar o que a pessoa come.
E há uma pergunta que este capítulo não faz, por fronteira declarada: a de insegurança alimentar. Existe instrumento brasileiro de duas perguntas para isso, ele está dentro do sistema de informação da atenção primária, e quem o descreve é o capítulo Não aderiu, na posição 11 desta apostila. Quando a resposta ao que o senhor comeu ontem sugerir que a comida acabou antes do dinheiro, a conduta é a de lá, e é diferente da deste capítulo: adapta-se o plano e registra-se o achado, em vez de orientar melhor.
Quatro tabelas, e as contas dos documentos federais que fecham e as que não fecham
Os eixos das quatro tabelas foram montados aqui, a partir da leitura dos documentos citados; nenhuma delas reproduz a estrutura de tabela oficial alguma. Os números são dos documentos; a organização e as diferenças calculadas são deste capítulo. As notas ao final trazem as conferências — as que deram certo e as que não deram — com a conta explícita.
- 11. Antes de qualquer pergunta, decida qual das três intensidades cabe no seu cenário de hoje. Pronto-socorro e triagem: a de 3 minutos, sem retorno. Consulta de unidade básica com agenda: a de 3 a 5 minutos, com retorno. Serviço habilitado ao programa: encaminhar ao aconselhamento estruturado, que é o tratamento, e continuar fazendo a abordagem básica em paralelo.
- 22. Pergunte e registre com data. Fuma? Há quanto tempo? Quantos por dia? Quanto tempo depois de acordar acende o primeiro? A resposta vai para o prontuário com a data de hoje, porque a palavra tabagista sem data não serve para o próximo profissional.
- 33. Pergunte o passado: já tentou parar, e o que aconteceu. Anote o que ajudou, o que atrapalhou e qual medicamento, se houve, e por que foi interrompido.
- 44. Pergunte a prontidão com a régua dos trinta dias: o senhor está pensando em parar nos próximos trinta dias? Se não, a conduta é convidar a pensar, mostrar-se disponível e retomar no próximo contato — e isso é conduta, não desistência.
- 55. Se sim, avalie a dependência com o teste de seis perguntas e anote o escore, não o adjetivo. Escore igual ou inferior a 4, com menos de cinco cigarros por dia, primeiro cigarro mais de uma hora depois de acordar e sem relato de sintomas de abstinência: o protocolo prefere a abordagem intensiva isolada, sem medicamento.
- 66. Nos demais casos, ofereça farmacoterapia como complemento — nunca como substituto — do aconselhamento. A combinação de forma lenta e forma rápida de nicotina é a preferida por maior eficácia; bupropiona isolada, nicotina isolada ou bupropiona associada a uma forma de nicotina são as alternativas.
- 77. Calcule a dose inicial pela faixa de cigarros por dia, não pela impressão. Até 5: sem adesivo. De 6 a 10: 7 mg. De 11 a 19: 14 mg. Vinte ou mais: 21 mg. Acima de 20 com dificuldade de reduzir: associação de adesivos, até o teto de 42 mg/dia.
- 88. Marque a data de parada e diga a frase que a norma exige: a reposição de nicotina só começa no dia em que a pessoa deixar de fumar, e não se usa junto com o cigarro.
- 99. Prepare os primeiros dias por escrito: o que esperar da abstinência, o que fazer na fissura, e quais estímulos quebrar. Café, bebida alcoólica, isqueiros e ambientes de fumo entram nessa lista por indicação do próprio protocolo.
- 1010. Verifique as contraindicações antes de prescrever, e verifique as certas. Para o adesivo: infarto nos últimos 15 dias, arritmia grave, angina instável, doença vascular isquêmica periférica, úlcera péptica, doenças cutâneas, gravidez e lactação. Para a bupropiona: epilepsia, convulsão febril na infância, tumor do sistema nervoso central, traumatismo cranioencefálico prévio, anormalidade no eletroencefalograma e uso de inibidor da monoaminoxidase — neste último caso, respeitando 15 dias desde a suspensão.
- 1111. Em gestantes e nutrizes, não prescreva: o protocolo é expresso em que devem tentar parar sem tratamento medicamentoso, por inexistirem evidências suficientes de eficácia e segurança. Em menores de 18 anos, bupropiona não é preconizada, e a conduta é o aconselhamento estruturado.
- 1212. Marque o retorno antes de a pessoa sair da sala, e escreva na agenda. Sem essa linha, você fez a abordagem de pronto-socorro numa unidade que podia ter feito a básica.
- 1313. Para as outras três mudanças, o roteiro é o mesmo com conteúdo diferente: pergunte em unidades que a pessoa reconheça (doses por dia de consumo, minutos de deslocamento, o que comeu ontem), devolva a comparação com a régua nacional, negocie um passo pequeno e nomeie o retorno.
- 1414. Antes de escrever qualquer plano, faça a pergunta do capítulo vizinho: isto cabe na vida desta pessoa? Se a barreira for de custo, de transporte ou de jornada, a conduta é adaptar e registrar, e não insistir na orientação.
As três intensidades de abordagem, como o protocolo federal as define
| Abordagem | Verbos | Duração declarada na norma | Onde cabe | O que ela exige do serviço |
|---|---|---|---|---|
| Breve ou mínima (PAAP) | Perguntar e avaliar, aconselhar, preparar | Pode ser realizada em 3 minutos | Pronto-socorro, pronto-atendimento, triagem — o protocolo cita esses cenários por nome | Nada além do tempo do profissional; não prevê retorno |
| Básica (PAAPA) | Os quatro anteriores mais acompanhar | Mínimo de 3 e máximo de 5 minutos em cada contato | Consulta de rotina de qualquer profissional de saúde | Uma vaga de retorno na agenda; é a indicada para todos os fumantes e a preferida sobre a anterior |
| Aconselhamento estruturado / intensiva | Terapia cognitivo-comportamental em sessões periódicas, de preferência em grupo | Quatro sessões iniciais preferencialmente semanais; duas quinzenais de manutenção; sessões mensais até completar 1 ano — tratamento total de 12 meses | Unidade habilitada, com profissional de nível superior capacitado e material de apoio (Manual do Coordenador e Manuais do Participante) | Coordenador capacitado, sala, insumos e a estrutura de grupo; é o tratamento a que todos os que estão em tratamento devem ter acesso |
| Intervenção breve para álcool e outras drogas (caderno federal) | Identificar e dimensionar por instrumento padronizado; aconselhar, orientar e monitorar as metas pactuadas | De cinco a trinta minutos | Consulta de rotina, por qualquer categoria profissional | Um instrumento de rastreio aplicado e a rede de cuidados mapeada para quem precisar de encaminhamento |
Reposição de nicotina: o que a regra do protocolo pede e o que a tabela dele entrega, num adulto de 70 kg
| Consumo declarado | mg pela regra de 1 mg por cigarro | Apresentação inicial pelo item de esquemas | Diferença (entregue menos pedido) | Observação |
|---|---|---|---|---|
| Até 5 cigarros/dia | Até 5 mg | Sem adesivo; goma ou pastilha de 2 mg | — | O protocolo cita aqui, como alternativa, 3 gomas ou pastilhas de 4 mg — apresentação que ele mesmo não lista entre os fármacos e que não consta da Rename 2024 |
| 6 a 10 cigarros/dia | 6 a 10 mg | Adesivo de 7 mg/dia | de +1 a −3 mg | Coincide exatamente em 7 cigarros/dia; abaixo disso repõe mais, acima repõe menos |
| 11 a 19 cigarros/dia | 11 a 19 mg | Adesivo de 14 mg/dia | de +3 a −5 mg | Coincide exatamente em 14 cigarros/dia |
| 20 cigarros/dia (um maço) | 20 mg | Adesivo de 21 mg/dia | +1 mg | É a faixa mais comum do ambulatório brasileiro |
| 21 a 30 cigarros/dia | 21 a 30 mg | 21 mg + 7 mg = 28 mg/dia (associação de adesivos) | de +7 a −2 mg | A associação só é indicada a quem fuma mais de 20 e tem dificuldade de reduzir, estando motivado a parar |
| Acima de 30 até 40 cigarros/dia | 31 a 40 mg | 21 mg + 14 mg = 35 mg/dia | de +4 a −5 mg | Coincide exatamente em 35 cigarros/dia |
| Mais de 40 cigarros/dia | 41 mg ou mais | 21 mg + 21 mg = 42 mg/dia | +1 mg em 41; −18 mg em 60 | 42 mg/dia é o teto declarado pelo próprio protocolo, e é o que trava a regra de 1 mg por cigarro acima de 42 cigarros |
Medicamentos no elenco nacional: confirmar indicação e acesso local
| Item | Consta na Rename 2024 | Apresentação | Componente | Consequência prática |
|---|---|---|---|---|
| Nicotina de liberação lenta | Sim | Adesivo transdérmico de 7, 14 e 21 mg | Estratégico | Não é medicamento de prateleira de farmácia de unidade básica: chega por outra via, à unidade habilitada ao programa |
| Nicotina de liberação rápida | Sim | Goma de mascar de 2 mg e pastilha de 2 mg | Estratégico | Só a apresentação de 2 mg existe no elenco; a de 4 mg citada no protocolo não consta |
| Cloridrato de bupropiona | Sim | Comprimido de liberação prolongada de 150 mg | Estratégico | Sujeito a prescrição e controle especial, conforme a portaria de substâncias sob controle citada pelo próprio protocolo |
| Vareniclina | Não consta | — | — | O fármaco que boa parte da literatura internacional posiciona como primeira linha não está no elenco público brasileiro |
| Citisina | Não consta | — | — | Também ausente; nenhuma alternativa oral além da bupropiona |
| Fármaco para uso de risco de álcool | Não se aplica | — | — | Não há protocolo federal de transtorno por uso de álcool e nenhum fármaco é preconizado para a faixa de uso de risco; o tratamento é a conversa |
| Fármaco para inatividade física ou para alimentação | Não se aplica | — | — | Não existe; as duas mudanças dispõem de guia nacional e de nenhum insumo dispensável |
A régua brasileira de cada uma das quatro mudanças, e o que cada régua não cobre
| Mudança | Documento nacional que a governa | Data e teste de vigência | O que ele fixa em número | O que ele não diz |
|---|---|---|---|---|
| Tabagismo | Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Tabagismo, anexo à Portaria Conjunta nº 10 | 16 de abril de 2020; vigência confirmada por documento mais novo citando-o como o protocolo em uso (protocolo da doença pulmonar obstrutiva crônica, novembro de 2025) | 3 minutos (abordagem mínima); 3 a 5 minutos (básica); 4 sessões semanais e 12 meses de tratamento total; 1 mg de nicotina por cigarro; teto de 42 mg/dia; bupropiona 150 mg até 300 mg/dia por 84 dias | Não descreve o degrau de retirada de quem começa a reposição em 7 ou em 14 mg — só o esquema de 21 para 14 para 7 |
| Uso de álcool | Cadernos de Atenção Básica nº 34, capítulo de saúde mental na atenção básica | 2013; vigência por ausência de substituto — e é preciso dizer com essas palavras, porque é um teste fraco | Intervenção breve de cinco a trinta minutos; quatro faixas de escore no instrumento de rastreio | Não há protocolo clínico federal de transtorno por uso de álcool; não há fármaco preconizado para a faixa de uso de risco; não há documento nacional sobre abordagem breve de álcool na emergência |
| Atividade física | Guia de Atividade Física para a População Brasileira | 2021; vigência por ausência de substituto | 150 minutos semanais de intensidade moderada ou 75 de vigorosa; fortalecimento em pelo menos 2 dias; 5 minutos de movimento a cada hora sentado; escala de esforço de 0 a 10 | Não traz limite superior de benefício, ao contrário da recomendação internacional que fixa faixa de 150 a 300 minutos; não descreve como conduzir a conversa na consulta |
| Alimentação | Guia Alimentar para a População Brasileira, 2ª edição | 2014; vigência por ausência de substituto para o público adulto | Nenhum. Não há caloria, grama de sal, porção nem meta numérica em todo o guia | Não fixa alvo aferível, o que é decisão declarada do documento; e nomeia seis obstáculos, quatro dos quais não estão ao alcance do que se diz numa consulta |
| O ato de promoção da saúde em si | Política Nacional de Promoção da Saúde, Anexo I da Portaria de Consolidação nº 2/2017 (origem: Portaria GM/MS nº 2.446/2014) | Consolidada em 28 de setembro de 2017 e vigente | Sete temas prioritários, quatro deles os deste capítulo | Não descreve o ato clínico: no documento inteiro, consultório aparece zero vez, profissional de saúde zero, consulta uma e aconselhamento duas |
Conferência que não fecha, e é a mais consequente do capítulo. Na quarta pergunta do teste de Fagerström, como impressa no protocolo federal, as alternativas são: menos de 10, com 0 ponto; 11 a 20, com 1; 21 a 30, com 2; mais de 31, com 3. Rodada a conta sobre todos os valores inteiros de 0 a 60 cigarros por dia, dois valores não pertencem a nenhuma classe: 10 e 31. Dez cigarros por dia é meio maço e é uma das respostas mais frequentes do ambulatório; quem aplica o teste tem de arbitrar entre 0 e 1 ponto, e como o próprio protocolo usa o corte de escore igual ou inferior a 4 para dispensar farmacoterapia, um ponto arbitrado pode decidir se a pessoa recebe medicamento.
Conferência que fecha, sobre o mesmo teste. Os escores máximos das seis perguntas são 3, 1, 1, 3, 1 e 1, e somam exatamente 10, que é o máximo declarado. As cinco faixas de leitura — 0 a 2, 3 a 4, 5, 6 a 7, 8 a 10 — cobrem os onze valores possíveis sem lacuna e sem sobreposição. Vale registrar, porque nem toda tabela oficial fecha.
Observação sobre limiares no mesmo documento, e esta é leitura deste capítulo, não citação. O protocolo diz que o teste indica possível desconforto de abstinência quando o escore for acima de 6, e diz, noutro item, que a abordagem intensiva isolada é preferível quando a pontuação for igual ou inferior a 4. Os escores 5 e 6 ficam entre os dois critérios: não dispensam medicamento por um e não predizem abstinência pelo outro. Não são critérios contraditórios — respondem a perguntas diferentes — mas a faixa intermediária existe e não está nomeada.
Divergência interna entre uma regra e a tabela que deveria aplicá-la. O protocolo manda considerar 1 mg de nicotina para cada cigarro fumado e, na sequência, dá faixas de dose inicial por número de cigarros. Rodadas as duas regras juntas, elas coincidem em exatamente um valor por faixa: 7 cigarros na faixa de 6 a 10, 14 na de 11 a 19 e 21 na de 20 ou mais. Fora desses três pontos, a faixa entrega mais ou menos do que a regra pede — no pior caso interno, 19 cigarros por dia recebem 14 mg, cinco miligramas abaixo do que a regra pediria. E, para quem fuma 40 cigarros por dia e não é candidato à associação de adesivos, a diferença chega a 19 mg.
Conferência que fecha, sobre as faixas de dose. As quatro faixas de dose inicial — até 5, de 6 a 10, de 11 a 19, e 20 ou mais — cobrem todos os inteiros sem lacuna e sem sobreposição. O mesmo vale para a associação de adesivos: 20 cigarros recebem 21 mg isolados; de 21 a 30, 21 mais 7; acima de 30 até 40, 21 mais 14; acima de 40, 21 mais 21. Somando, 28, 35 e 42 mg — e 42 é exatamente o teto de nicotina diária que o próprio protocolo declara. As duas metades da regra são coerentes entre si.
Apresentação citada que não existe no elenco. No item de esquemas, ao tratar de quem fuma até 5 cigarros por dia, o protocolo escreve: não ultrapassar 5 gomas ou pastilhas de 2 mg ou 3 gomas ou pastilhas de 4 mg. Mas a lista de fármacos do próprio protocolo traz apenas goma de 2 mg e pastilha de 2 mg, e a busca exata na Rename 2024 confirma que a apresentação de 4 mg não consta do elenco público. Antes de usar essa apresentação, conferir produto, dose e acesso locais; a ausência na edição consultada não demonstra impossibilidade de execução em toda a rede.
Três tetos diferentes para a mesma apresentação, dentro do mesmo documento. Para a goma de 2 mg, o protocolo diz, na linha da reposição combinada da sua tabela de esquemas, que a boa prática recomenda não ultrapassar 5 por dia; diz o mesmo nas orientações para quem fuma até 5 cigarros; e diz, na linha da reposição isolada da mesma tabela, que a quantidade máxima é de 15 gomas de 2 mg por dia. A razão entre os dois tetos é de três vezes: 10 mg contra 30 mg diários de nicotina pela via rápida. Os contextos são de fato diferentes — na combinada já há adesivo entregando nicotina — mas o documento não diz isso em nenhum dos três lugares, e as duas linhas estão na mesma tabela.
Lacuna de esquema, não de dose. A tabela de esquemas descreve a retirada em três degraus — 21 mg nas semanas 1 a 4, 14 mg nas semanas 5 a 8, 7 mg nas semanas 9 a 12 — e o item de administração condiciona a dose inicial ao número de cigarros. Juntando os dois, o protocolo não descreve como se retira quem começou em 7 ou em 14 mg. Para a associação de adesivos ele descreve, e com precisão: retirada paulatina de 7 mg por semana, avaliada pela intensidade dos sintomas. Para o degrau de baixo, não. Quem prescreve 7 mg a um fumante de oito cigarros por dia decide sozinho quando parar.
Conta do curso completo, feita em Python contra a apresentação real. Um curso padrão de 12 semanas com adesivos consome 28 unidades de 21 mg, 28 de 14 mg e 28 de 7 mg — 84 adesivos, somando 1.176 mg de nicotina nominal em 84 dias, ou 14 mg por dia em média. O mesmo paciente, fumando 20 cigarros por dia, teria recebido pela régua do próprio protocolo 1.680 mg no mesmo período: o curso repõe 70,0% do nominal, com redução programada. É uma conta que vale ter na cabeça quando o paciente pergunta se o adesivo é a mesma coisa que fumar.
Conta da bupropiona, também recalculada. O esquema é de 1 comprimido de 150 mg pela manhã do 1º ao 3º dia e de 150 mg pela manhã mais 150 mg oito horas depois, do 4º ao 84º dia. São 3 comprimidos nos três primeiros dias e 162 nos 81 dias restantes: 165 comprimidos de 150 mg, ou 24,75 g de cloridrato de bupropiona no curso inteiro. Em caixas de 30 comprimidos, 5,5 caixas — ou seja, 6 caixas, e a última sobra pela metade. O teto de 300 mg/dia é respeitado em todo o esquema, e é o mesmo teto ao qual o protocolo associa risco de convulsão de 1 para 1.000.
Duas réguas federais para a mesma técnica, com durações que quase não se tocam. O protocolo do tabagismo declara que a abordagem básica leva no mínimo 3 e no máximo 5 minutos em cada contato. O caderno federal de saúde mental declara que as intervenções breves podem durar de cinco a trinta minutos. A interseção das duas faixas é um único valor: 5 minutos. As duas se referem à mesma família de técnica, aplicada a comportamentos diferentes, e um serviço que planeje agenda por uma delas planeja errado para a outra.
Duas réguas federais para a mesma técnica, agora quanto a quem a recebe. O protocolo do tabagismo indica a abordagem básica para todos os fumantes, sem corte de escore. O caderno federal de saúde mental reserva a intervenção breve a uma faixa estreita do instrumento de rastreio de álcool, com orientação básica abaixo dela e encaminhamento acima — as faixas exatas são do capítulo A abstinência que não pode esperar, da apostila de Psiquiatria, que as mediu. A consequência prática é que o mesmo profissional, na mesma consulta, opera com dois critérios de indicação opostos conforme o comportamento em questão.
Duas réguas federais para o mesmo indicador populacional. A PNS 2019 define consumo abusivo de álcool como cinco ou mais doses numa única ocasião nos últimos 30 dias, para homens e mulheres. O Vigitel usa cinco ou mais para homens e quatro ou mais para mulheres. Como o corte feminino do Vigitel é mais baixo, a prevalência feminina que ele mede não é comparável à da PNS, e a diferença entre as duas não mede mudança de comportamento. Nenhum dos dois documentos está errado; comparar os dois números como se medissem a mesma coisa, sim.
Divergência entre o documento que recomenda e o que mede, sobre atividade física. O guia nacional de 2021 recomenda pelo menos 150 minutos semanais de intensidade moderada, e classifica a intensidade leve como faixa separada, de percepção de esforço de 1 a 4 numa escala de 0 a 10, em que a pessoa consegue até cantar. A PNS 2019, ao definir o indicador de atividade física no lazer, descreve a recomendação como sendo de 150 minutos semanais de atividades de intensidade leve ou moderada. Contar a atividade leve infla mecanicamente a proporção de brasileiros classificados como suficientemente ativos, e as duas fontes são federais. Vale notar que a PNS de 2019 é anterior ao guia de 2021 e cita a recomendação internacional de 2010 — não é norma revogada citada como vigente, é uma régua anterior que continua sendo lida junto com a nova.
Detalhe de limiar entre os mesmos dois documentos. O indicador da PNS conta como fisicamente ativo no lazer quem pratica por mais de 150 minutos por semana; a recomendação do guia é de pelo menos 150 minutos. Quem faz exatamente 150 minutos cumpre a recomendação e não é contado como ativo pelo indicador. É um único valor, mas é justamente o valor em que a recomendação está escrita, e é o alvo que qualquer paciente orientado por este capítulo vai mirar.
Faixa que não pertence a nenhuma classe, no guia de atividade física. A escala de percepção de esforço é apresentada de 0 a 10, e as três faixas nomeadas são: leve, de 1 a 4; moderada, 5 e 6; vigorosa, 7 e 8. Os valores 9 e 10 — o esforço máximo — não recebem nome, e o 0 também não. Na prática clínica isso não muda conduta, porque a conversa usa o teste da fala e não o número; mas quem usa a escala como ela está impressa fica sem categoria para o esforço máximo.
Conferência que fecha, no caderno federal de saúde mental. O exemplo aritmético que ele oferece para a intervenção breve — um fumante que gaste três reais por dia economizaria noventa reais em um mês e quinhentos e quarenta em seis meses — está correto: 3 vezes 30 são 90, e 90 vezes 6 são 540. É uma conta pequena e é a única do documento, e ela fecha.
Ausência declarada, e ela é o achado de régua deste capítulo. Não existe documento normativo brasileiro que descreva o ato de promoção da saúde dentro da consulta para nenhuma das quatro mudanças, exceto o protocolo do tabagismo. A Política Nacional de Promoção da Saúde traz quatro dos assuntos deste capítulo entre os seus sete temas prioritários, mas é um texto de ação coletiva e intersetorial: na leitura integral, consultório não aparece nenhuma vez, profissional de saúde nenhuma, consulta uma e aconselhamento duas. Os guias de alimentação e de atividade física são dirigidos à população, não ao profissional, e nenhum dos dois descreve como conduzir a conversa. Um interno que procurar, em norma brasileira, como fazer promoção da saúde numa consulta, vai encontrar um único documento, e ele é sobre cigarro.
Ausência declarada, segunda. Não há documento nacional que oriente a abordagem breve de álcool na porta de emergência, apesar de o protocolo do tabagismo ter criado exatamente essa figura para o tabaco, citando pronto-socorro e triagem por nome. É uma assimetria entre os dois comportamentos que nenhuma evidência justifica e que o capítulo apenas registra.
Honestidade da fonte, que merece registro porque é rara. O próprio protocolo do tabagismo marca, com asterisco, que dois dos quatro critérios para dispensar farmacoterapia — o horário do primeiro cigarro e a pontuação no teste de Fagerström — foram inseridos durante o painel de especialistas, com base em suas práticas assistenciais, e não derivados da revisão de evidências. Saber quais recomendações são consenso de painel e quais vêm de revisão sistemática muda o peso que se dá a cada uma diante de um paciente que não se encaixa.
Termo de consentimento incompleto em relação ao próprio protocolo. O Termo de Esclarecimento e Responsabilidade anexo ao protocolo nomeia, no título e no campo de assinalar, apenas adesivo de nicotina e cloridrato de bupropiona. A lista de fármacos do protocolo, porém, inclui também goma e pastilha de 2 mg, e os eventos adversos da goma e da pastilha estão descritos no corpo do próprio termo. Quem prescreve goma ou pastilha assina um termo cujo campo de medicamento não as contempla.
A conduta, hora a hora
O que segue é a mesma consulta da cena de abertura, refeita. Álvaro Manhuaçu, 54 anos, montador de móveis planejados, 36 anos de tabagismo, um maço por dia e às vezes um e meio. Ele veio buscar receita de hidroclorotiazida e mostrar um hemograma normal. A pressão está 138 por 84. A consulta tem quinze minutos marcados e a sala ao lado tem uma preceptora com a porta encostada.
O relógio está no texto de propósito. O argumento deste capítulo é que o ato cabe no tempo que existe, e um argumento desses só vale se for cronometrado. Some tudo o que está abaixo e dê cinco minutos e meio — dentro de uma consulta de quinze, com a renovação de receita, a aferição de pressão e o hemograma já resolvidos.
As falas estão entre aspas porque a forma importa. Não há nenhuma frase abaixo que ameace, que dramatize, que compare Álvaro ao irmão dele ou que sugira que ele não quer parar. Essa disciplina não é gentileza: é o que impede que a próxima consulta perca o assunto.
O caso é de tabagismo por um motivo declarado: é a única das quatro mudanças que tem, no Brasil, um documento normativo descrevendo o ato passo a passo, e por isso é a que se pode cronometrar contra uma norma. As outras três seguem o mesmo esqueleto — perguntar em unidade que a pessoa reconheça, devolver a comparação com a régua nacional, negociar um passo pequeno, nomear o retorno — e aparecem em cena nas falas do bloco de conversa e nos dois casos ao final.
Prescrever e acompanhar, sem automatismo. Confirmar dependência, preferência, tentativas, contraindicações e acesso; o escore ajuda, mas não substitui avaliação. Na bupropiona, pesquisar convulsões, transtornos alimentares, uso de IMAO e retirada abrupta de álcool ou sedativos, além de interações e pressão. Na reposição de nicotina, ensinar uso e sinais de excesso, ajustar à fissura e tolerância e revisar após lapso, sem culpabilizar. Um cigarro durante a tentativa pede contato e revisão, não abandono do tratamento. Doses maiores ou combinação de adesivos exigem indicação individual, não apenas contar cigarros.
Minuto 0 — perguntar e registrar com data (40 segundos)
Você lê o campo de hábitos, que diz tabagista sem data nem autor, e faz as três perguntas do protocolo com o prontuário aberto: há quanto tempo, quantos por dia, quanto tempo depois de acordar acende o primeiro. Álvaro responde 36 anos, um maço, e o primeiro logo que levanta, antes do café. Você registra as três respostas com a data de hoje. "Vou anotar isso aqui com a data, porque isso muda o que eu posso te oferecer, e da próxima vez a gente não precisa começar do zero."
Prescrição- Prontuário, com data de hoje: tabagismo há 36 anos.
- Consumo atual: 20 cigarros/dia.
- Primeiro cigarro nos primeiros minutos após acordar.
Minuto 0:40 — perguntar o passado (50 segundos)
"O senhor já tentou parar alguma vez?" Álvaro conta que sim, duas: uma há uns dez anos, quando ficou quatro dias e voltou; e outra há três anos, quando ficou quase dois meses, usando adesivo que comprou na farmácia, e voltou num fim de semana de churrasco. "E o que aconteceu nas duas vezes?" Na primeira, insônia e irritação; na segunda, o cigarro voltou junto com a cerveja. Você anota as duas coisas, porque as duas são conduta: sintoma de abstinência pede farmacoterapia, e gatilho identificado pede plano específico. "O senhor já ficou dois meses sem fumar. Isso não é pouco — isso é prova de que dá."
Prescrição- Prontuário: duas tentativas prévias de cessação.
- 1ª tentativa — interrompida em 4 dias por insônia e irritabilidade.
- 2ª tentativa — reposição de nicotina adquirida por conta própria; abstinência de cerca de 8 semanas.
- Recaída da 2ª tentativa associada a consumo de álcool (gatilho nomeado pelo paciente).
Minuto 1:30 — aconselhar, uma frase só (20 segundos)
O aconselhamento aqui é curto e é dirigido a ele, não à humanidade. Não é a estatística de mortalidade, que ele já ouviu, é a ligação com o que está na mesa hoje: "O senhor está com a pressão em 138 por 84 e toma remédio para isso. Parar de fumar é a coisa que mais muda o risco do seu coração, mais do que qualquer ajuste que eu faça na hidroclorotiazida hoje. E eu tenho como ajudar, não é só o senhor tentar de novo sozinho."
Prescrição- —
Minuto 1:50 — a pergunta dos trinta dias (30 segundos)
"O senhor está pensando em parar nos próximos trinta dias?" Álvaro hesita e diz que pensa direto, mas que agora tem uma entrega grande na oficina, e que depois do dia 20 aliviaria. Isso é um sim com data. Se fosse um não, a conduta seria outra e igualmente escrita: convidar a pensar, dizer que a porta fica aberta e retomar no próximo contato. "Então vamos marcar para depois do dia 20. Que dia o senhor escolhe?" Ele escolhe o dia 23, uma segunda-feira.
Prescrição- Prontuário: prontidão para cessação nos próximos 30 dias — sim.
- Data de parada pactuada com o paciente: dia 23 (segunda-feira, após a entrega da oficina).
Minuto 2:20 — avaliar a dependência (1 minuto)
Você aplica o teste de seis perguntas. Primeiro cigarro nos primeiros 5 minutos, 3 pontos; acha difícil não fumar em lugar proibido, 1; o cigarro mais gostoso é o primeiro da manhã, 1; fuma 20 por dia — e aqui a alternativa impressa que corresponde é a de 11 a 20, 1 ponto; fuma mais de manhã, 1; e fuma mesmo doente e acamado, 1. Escore 8, dependência muito elevada. Você anota o número, não o adjetivo. "Esse resultado quer dizer que, se o senhor parar sem ajuda, o corpo vai cobrar. Não é fraqueza, é química — e é isso que o remédio resolve."
Prescrição- Prontuário: teste de Fagerström = 8 (dependência muito elevada).
- Componentes do escore: 3 + 1 + 1 + 1 + 1 + 1.
Minuto 3:20 — prescrever, e explicar a regra que quase ninguém diz (1 minuto)
Vinte cigarros por dia cai na faixa de 20 ou mais: adesivo de 21 mg. Escore 8, com relato prévio de sintomas de abstinência, indica farmacoterapia, e a reposição combinada — forma lenta mais forma rápida — é a preferida do protocolo por maior eficácia. Sem contraindicação: não teve infarto, não tem arritmia conhecida, não tem doença de pele nem úlcera. Você prescreve e diz a frase que a norma exige e que quase ninguém transmite: "O adesivo só começa no dia 23, no dia em que o senhor parar. Não é para usar junto com o cigarro. E ele se coloca de manhã, na parte de cima do peito ou no braço, trocando de lugar a cada dia."
Prescrição- Adesivo transdérmico de nicotina 21 mg — 1 adesivo a cada 24 h, com início no dia 23 (data de parada).
- Semanas 1 a 4: 21 mg/dia — 28 unidades.
- Semanas 5 a 8: 14 mg/dia — 28 unidades.
- Semanas 9 a 12: 7 mg/dia — 28 unidades.
- Goma de mascar de nicotina 2 mg — nos momentos de maior fissura, sem ultrapassar 5 por dia.
- Orientar aplicação do adesivo pela manhã, em área coberta, com rodízio de local e troca no mesmo horário.
- Orientar mascar a goma devagar por cerca de 30 minutos, com pausas mantendo-a entre a bochecha e a gengiva.
Minuto 4:20 — preparar os primeiros dias, e o gatilho que ele mesmo nomeou (50 segundos)
A preparação é a lista curta do protocolo, dita em voz alta e escrita num papel: o que esperar (irritação, vontade forte que passa em minutos, insônia nos primeiros dias), o que fazer na fissura (água, escovar os dentes, sair do lugar), e quais estímulos quebrar. Aqui entra o que Álvaro contou sozinho: "O senhor me disse que da outra vez voltou num churrasco. Então esse é o ponto fraco conhecido: nas primeiras semanas, ou a cerveja fica de fora, ou o senhor vai para o churrasco sabendo que aquela hora é a hora do risco e com a goma no bolso." Você também sugere que ele se desfaça dos isqueiros na véspera.
Prescrição- Orientação escrita entregue ao paciente, com quatro itens.
- Data de parada: dia 23.
- Três estratégias para a fissura: beber água, escovar os dentes, sair do ambiente.
- Restrição de bebida alcoólica nas primeiras semanas — gatilho da recaída anterior.
- Retirar isqueiros e cinzeiros de casa na véspera da data de parada.
Minuto 5:10 — acompanhar, que é o verbo que muda tudo (20 segundos)
Você abre a agenda antes de ele levantar. "Vou te marcar para o dia 30, uma semana depois de parar, que é quando é mais difícil. Se o senhor fumar antes disso, vem do mesmo jeito — não é para desmarcar por causa disso." E encaminha ao grupo de tratamento do tabagismo da unidade, que é o aconselhamento estruturado, sabendo que a abordagem básica continua sendo sua em cada consulta até lá. Álvaro sai com receita, data, papel e retorno. A consulta durou quinze minutos.
Prescrição- Retorno agendado para o dia 30 — 7 dias após a data de parada.
- Encaminhamento ao grupo de abordagem intensiva da unidade.
- Registrar no prontuário a data de parada pactuada, para que o próximo profissional continue de onde este parou.
Como saber se está funcionando
Reavaliar, aqui, não é repetir o conselho: é verificar se o que foi combinado aconteceu, e o que aconteceu quando não aconteceu. Os parâmetros abaixo são de processo, não de exame — nenhuma das quatro mudanças tem laboratório que a acompanhe.
Um princípio governa a coluna da direita inteira: recaída não encerra tratamento. O protocolo é explícito ao mandar acolher, reforçar os ganhos e esclarecer que ter recidivado não significa impossibilidade de cessar, e ao registrar que, seja qual for o fármaco usado antes, ele continua eficaz numa nova tentativa.
Esperado: A pessoa parou na data, ou parou com atraso de poucos dias, ou adiou a data por um motivo que sabe nomear
Se não melhora: Não trate como falha. Pergunte o que aconteceu no dia, remarque a data e mantenha o restante do plano. Se o motivo do adiamento se repetir (a obra, o plantão, a mudança), o plano é que precisa mudar, não a pessoa.
Esperado: Irritabilidade, insônia, aumento do apetite e fissura presentes mas toleráveis, decrescendo ao longo das semanas
Se não melhora: Reveja se a reposição foi de fato iniciada e na dose certa, e se a forma rápida está sendo usada nos picos. Sintoma intenso com adesivo de dose baixa para o consumo prévio é indicação de revisar a faixa — e é exatamente onde a regra de 1 mg por cigarro e a tabela de faixas divergem.
Esperado: Adesivo aplicado de manhã, em área coberta, com rodízio de local; goma mascada devagar por cerca de 30 minutos, com pausas, e não como chiclete
Se não melhora: Irritação de pele: rodízio mais amplo e a orientação do próprio protocolo de creme de corticoide no local na véspera e no dia seguinte, com limpeza antes da aplicação. Soluços e irritação de garganta apontam para uso rápido demais da goma ou da pastilha.
Esperado: O gatilho que a pessoa nomeou na primeira consulta foi enfrentado ao menos uma vez, com plano
Se não melhora: Se a recaída veio pelo gatilho previsto, o plano funcionou como diagnóstico e falhou como proteção: refaça a estratégia daquela situação específica, em vez de refazer a conversa inteira.
Esperado: Aumento progressivo em direção aos 150 minutos semanais de intensidade moderada, contados em qualquer domínio
Se não melhora: Antes de aumentar a meta, verifique se o domínio proposto existe na vida da pessoa. Se o alvo era lazer e não há tempo livre, mude o alvo para deslocamento; se não há deslocamento ativo possível, mude para o corte do tempo sentado, que é a única recomendação do guia que não depende de tempo livre.
Esperado: Menos itens que dispensam preparo e mais comida feita na hora, sem meta numérica — porque a régua nacional não tem nenhuma
Se não melhora: Se a lista não muda e a pessoa não traz obstáculo, pergunte por qual dos seis obstáculos do guia ela está passando: oferta, custo, tempo, habilidade culinária, informação ou publicidade. Quatro deles não se resolvem com orientação, e a conduta então é a do capítulo Não aderiu.
Esperado: Data da avaliação, escore, data de parada pactuada, fármaco e dose, gatilho nomeado e data do retorno — em texto, não em adjetivo
Se não melhora: Se você escreveu apenas orientado a parar de fumar, o próximo profissional vai começar do zero, e a pessoa vai ouvir a mesma frase pela terceira vez. O registro é parte da conduta, e o protocolo o exige nominalmente.
Onde o erro machuca
O dano: A consulta consome o assunto sem produzir nada, e ensina o paciente que aquele tema não tem nada a lhe oferecer ali. Na próxima vez ele não traz. Como quase metade dos fumantes brasileiros tenta parar por conta própria a cada ano, o que se perdeu foi a chance de encontrar alguém no meio de uma tentativa.
Como pegar a tempo: Termine a conversa com três coisas escritas: uma data, um plano para os primeiros dias e um retorno marcado. Se você não tem os três, você fez informação e não conduta — e a norma federal chama isso pelo nome, reservando a versão sem acompanhamento para pronto-socorro e triagem.
O dano: O protocolo é expresso: a reposição, isolada ou combinada, só deve ser iniciada na data em que o paciente deixar de fumar, e não deve ser usada de forma concomitante com o cigarro. Iniciar antes soma nicotina à nicotina, produz efeito adverso — tremor e palpitação são os sinais de dose excessiva que o próprio protocolo aponta — e a pessoa conclui que o remédio lhe fez mal.
Como pegar a tempo: Prescreva com data de início escrita na receita, e diga a regra em voz alta na sala. É uma frase de dez segundos e é a que mais falta na prática brasileira.
O dano: Subdose deixa a pessoa com síndrome de abstinência apesar do tratamento, e a recaída é lida como falta de vontade. Superdose produz náusea, tremor e palpitação, e a pessoa suspende. Nos dois casos a conclusão errada é a mesma: o adesivo não funciona comigo.
Como pegar a tempo: Use a faixa impressa: até 5 cigarros, sem adesivo; de 6 a 10, 7 mg; de 11 a 19, 14 mg; 20 ou mais, 21 mg. E saiba que, dentro de cada faixa, a regra de 1 mg por cigarro do próprio protocolo pede mais do que a faixa entrega no topo dela — a diferença chega a 5 mg em 19 cigarros por dia, e é aí que mora a maior parte das subdoses.
O dano: Epilepsia, convulsão febril na infância, tumor do sistema nervoso central, traumatismo cranioencefálico prévio, alteração no eletroencefalograma e uso de inibidor da monoaminoxidase são contraindicações absolutas listadas no protocolo. O risco de convulsão declarado é de 1 para 1.000 na dose máxima diária de 300 mg, e ele deixa de ser aceitável em quem já tem limiar baixo.
Como pegar a tempo: Três perguntas antes de prescrever: já teve convulsão alguma vez, inclusive convulsão de febre quando criança; já teve traumatismo na cabeça com perda de consciência; usa algum remédio para depressão do tipo inibidor da monoaminoxidase. Se usa, o protocolo exige 15 dias desde a suspensão antes de iniciar.
O dano: A frase soa absurda para quem a recebe, e o custo não é só o desperdício: ela sinaliza que o profissional não faz ideia de como é o dia dela. Nos números nacionais, 55,8% das pessoas sem instrução ou com fundamental incompleto são fisicamente ativas no trabalho, contra 25,1% das de superior completo — a orientação padrão pressupõe um tempo livre que a maior parte dos pacientes do SUS não tem.
Como pegar a tempo: Nomeie o domínio antes da quantidade. Pergunte como a pessoa vai e volta do trabalho e o que ela faz no fim de semana. Frequentemente a conduta que sobra é a única do guia que não depende de tempo livre: a cada hora sentado, movimentar-se por pelo menos 5 minutos.
O dano: Coma menos sal, coma menos gordura e conte calorias não derivam do guia alimentar nacional, que não traz meta de sal, de caloria nem de porção em nenhuma página. Além de não ter respaldo na régua do país, são orientações que a pessoa não consegue executar nem verificar, e que soam como repreensão — o que custa o assunto inteiro nas consultas seguintes.
Como pegar a tempo: Peça a lista do dia anterior e trabalhe sobre ela pelo eixo do guia, que é o grau de processamento. A regra de ouro do documento é uma frase e cabe na consulta: preferir sempre alimentos in natura ou minimamente processados e preparações culinárias aos ultraprocessados. E, antes de qualquer troca, verifique se a barreira não é de custo ou de acesso — nesse caso a conduta é a do capítulo Não aderiu, e não é orientar melhor.
O que dizer ao paciente e à família
Falar de comportamento sem que o outro escute acusação é a dificuldade comum a todas as falas abaixo. É mais difícil do que parece, porque a maioria das pessoas já ouviu acusação sobre esse mesmo assunto antes de entrar na sua sala — em casa, no trabalho, e às vezes numa consulta anterior.
Duas regras atravessam as sete falas. A primeira é perguntar antes de orientar, sempre, porque a orientação dada sem a pergunta chega como julgamento. A segunda é nunca prometer que a conversa resolve: prometer resultado é o que torna a recaída uma humilhação em vez de uma etapa.
E uma regra de forma: quando a pergunta puder soar constrangedora, nomeie que é rotina e nomeie o objetivo. Faço esta pergunta para todo mundo, porque ela muda o que eu vou te oferecer resolve numa frase, e resolve porque as duas metades dela são verdadeiras. Pedir licença antes de perguntar produz o efeito oposto, e o capítulo Não aderiu já explicou por quê.
Abrir o assunto do cigarro com quem veio por outra coisa
“"Antes de eu renovar a receita — o senhor fuma há quanto tempo, quantos por dia, e quanto tempo depois de acordar acende o primeiro? Pergunto porque isso muda o que eu tenho para te oferecer aqui."”
Não diga: Evite abrir por o senhor sabe que fumar faz mal, né. É uma pergunta retórica que só admite uma resposta e encerra a conversa que ela finge abrir.
Alguém que já tentou e falhou várias vezes
“"O senhor já ficou dois meses sem fumar. Isso é prova de que dá — quase ninguém para na primeira vez, e cada tentativa deixa uma informação aproveitável. O que eu quero saber é o que aconteceu naquele fim de semana, porque é isso que a gente vai planejar diferente desta vez."”
Não diga: Evite desta vez o senhor vai conseguir e o segredo é querer. A primeira promete o que ninguém pode prometer; a segunda transforma dependência química em caráter.
Alguém que diz que não quer parar
“"Tudo bem, e eu não vou insistir hoje. Só quero deixar registrado que, quando o senhor quiser, existe tratamento aqui na unidade, é de graça e tem remédio junto. Da próxima vez eu pergunto de novo — não para te encher, mas porque as pessoas mudam de ideia e eu não quero perder o dia em que o senhor mudar."”
Não diga: Evite terminar a consulta em silêncio depois do não, e evite o mas o senhor não vê que está se matando. O primeiro fecha a porta, o segundo faz a pessoa se fechar.
Perguntar sobre bebida sem que soe como acusação
“"Faço estas duas perguntas para todo mundo aqui: numa semana comum, em quantos dias a senhora bebe alguma coisa? E num dia desses, quanto — em latas, taças, copos, o que for mais fácil de contar?"”
Não diga: Evite a senhora bebe? e a senhora bebe muito?. A primeira tem baixa sensibilidade por construção; a segunda pede um julgamento que a pessoa vai calibrar para baixo.
Devolver um resultado de rastreio de álcool que a pessoa não esperava
“"Esse resultado não quer dizer que a senhora é alcoólatra — não é isso que ele mede. Ele indica que o seu consumo entrou na faixa em que já se mede prejuízo, mesmo sem sintoma nenhum. E é uma faixa em que uma conversa curta como esta, feita algumas vezes, muda o consumo de verdade. Quer que a gente tente?"”
Não diga: Evite a senhora precisa parar de beber, que não é o que a régua indica para esta faixa, e evite qualquer palavra do vocabulário da dependência — o rótulo errado faz a pessoa recusar a conversa certa.
Falar de atividade física com quem trabalha de pé o dia inteiro
“"O senhor já se mexe muito no trabalho, e isso conta. Mas tem uma parte que o trabalho não dá, que é o esforço um pouco mais forte, aquele em que dá para conversar com dificuldade e não dá para cantar. A recomendação nacional é 150 minutos por semana disso, e pode ser em pedaços. Do seu jeito, o que seria mais fácil: a caminhada do ponto até em casa, ou alguma coisa no domingo?"”
Não diga: Evite o senhor precisa fazer exercício e o senhor precisa se matricular numa academia. A primeira ignora o que ele já faz; a segunda supõe dinheiro e horário que a maioria não tem.
Falar de comida sem repreender
“"Me conta o que a senhora comeu ontem, do café até a noite — não para eu avaliar, é para eu entender como é o dia. E, se der, me diz quem cozinha na sua casa e a que horas."”
Não diga: Evite a senhora tem que fazer reeducação alimentar e a senhora precisa cortar o sal. A régua brasileira não fixa números de sal nem de caloria, e as duas frases mandam a pessoa mirar num alvo que ela não consegue nem enxergar nem verificar.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Fixa a abordagem breve ou mínima em 3 minutos e a abordagem básica entre 3 e 5 minutos em cada contato, e é esta última que indica para todos os fumantes. A posição implícita é que a técnica é curta por desenho: seu valor está na cobertura — em ser oferecida a todo mundo — e não na profundidade de cada encontro.
Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Tabagismo, anexo à Portaria Conjunta nº 10, de 16 de abril de 2020 (Ministério da Saúde)
Fixa a intervenção breve entre cinco e trinta minutos e a descreve como uma sequência que inclui rastreio com instrumento padronizado, aconselhamento e monitoramento das metas pactuadas. A posição implícita é que abaixo de certo tempo não se faz a sequência inteira, e o que sobra não é uma versão curta da técnica — é outra coisa.
Cadernos de Atenção Básica nº 34 — Saúde Mental, Ministério da Saúde, 2013
A interseção das duas faixas declaradas é um único valor, cinco minutos, e as duas normas continuam em vigor. Um serviço que dimensione a agenda por uma delas dimensiona errado para a outra, e nenhum documento brasileiro explica a diferença.
Leitura deste capítulo, comparando as duas normas federais vigentes
Decida pelo paciente que está entrando, e decida pelo verbo que você consegue cumprir, não pelo cronômetro. Se você tem como marcar o retorno, faça a versão com acompanhamento, mesmo que ela caiba em quatro minutos: é o retorno que carrega o efeito, e é ele que a norma do tabagismo prefere. Se você está numa porta de emergência e não tem como acompanhar, faça a versão de três minutos e diga isso à pessoa com todas as letras, indicando onde ela pode continuar. Nenhuma das duas posições ampara a conversa de vinte minutos que termina sem data e sem retorno: ela custa o tempo da versão longa e rende menos que o da curta.
Indica a abordagem breve para todos os fumantes, sem corte de instrumento — o teste de dependência serve para escolher o tratamento, não para autorizar a conversa. O argumento é de saúde pública: a maior parte do dano populacional vem de muita gente com risco moderado, e uma intervenção de baixo custo só rende se for universal.
Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Tabagismo, 2020 (Ministério da Saúde)
Condiciona a intervenção breve a uma faixa estreita de escore no instrumento de rastreio de álcool, deixando orientação básica abaixo dela e encaminhamento acima. O argumento é de eficiência: a técnica foi construída e testada para a faixa de uso de risco, e oferecê-la fora dela consome tempo escasso.
Cadernos de Atenção Básica nº 34 — Saúde Mental, 2013 (Ministério da Saúde); faixas de escore medidas no capítulo A abstinência que não pode esperar, apostila de Psiquiatria
As duas posições são aplicadas pelo mesmo profissional, na mesma consulta, a comportamentos diferentes, e nenhum documento brasileiro explica por que os critérios de indicação são opostos.
Leitura deste capítulo, sobre a convivência das duas normas no mesmo serviço
Comece perguntando quanto e com que frequência a pessoa bebe, porque essa parte não é objeto de divergência nenhuma e leva vinte segundos. A partir daí, deixe o instrumento decidir a intensidade do que você oferece — e não se a conversa acontece. Registre no prontuário qual instrumento você usou e qual escore obteve, porque o próximo profissional precisa saber de onde continuar, e porque as versões brasileiras em circulação não pontuam igual.
Organiza toda a orientação por grau de processamento e não fixa nenhum alvo numérico: nem caloria, nem grama de sal, nem porção. A posição é declarada no próprio documento — as recomendações e a regra de ouro são apresentadas como universais e executáveis, e os obstáculos que impedem cumpri-las são nomeados em seis, quatro deles fora do alcance de qualquer consulta.
Guia Alimentar para a População Brasileira, 2ª edição, Ministério da Saúde, 2014
Continuam orientando por nutriente e por número: gramas de sódio, gramas de fibra, percentual de gordura saturada. A posição é que o alvo numérico permite verificar, comparar e ajustar, e que sem número não há como saber se a conduta funcionou.
Prática clínica corrente e diretrizes de sociedades brasileiras por doença (dislipidemia, hipertensão)
Os dois lados se apoiam em documentos vigentes, e o hipertenso sentado à sua frente recebe, no mesmo semestre, orientação organizada por processamento na unidade básica e orientação organizada por sódio no ambulatório de especialidade.
Leitura deste capítulo, sobre o paciente que é alvo dos dois ao mesmo tempo
Decida pelo que a pessoa tem como executar e como verificar amanhã. Para quem não mede nada em casa e cozinha com o que aparece, o eixo do processamento produz uma conduta imediata — uma troca nomeada, hoje — e o número não produz nenhuma. Para quem já mede, já lê rótulo e pergunta quanto, o número é acionável e não há razão para sonegá-lo. O erro nos dois lados é o mesmo: dar o alvo antes de perguntar o que a pessoa comeu ontem e quem cozinha na casa. E, quando a barreira for de custo ou de acesso, nenhuma das duas posições se aplica, e a conduta é a do capítulo Não aderiu.
O raciocínio, em voz alta
Alderico Ouricuri tem 61 anos, é vigilante noturno num condomínio e mora com a filha e dois netos num município de trinta e dois mil habitantes. Ele chega à unidade básica numa quinta-feira de manhã, saindo do plantão, para renovar receita de metformina e de enalapril. Traz também um resultado de glicemia de jejum de 138 mg/dL, feito há duas semanas. Fuma há quarenta e três anos, cerca de trinta cigarros por dia; diz que no plantão fuma mais, porque é o que segura o sono. Nunca tentou parar. Pergunta, enquanto guarda a receita, se é verdade que existe um remédio de graça no posto para largar o cigarro — ele ouviu isso de um colega. A agenda da manhã tem mais nove nomes e a consulta dele já dura onze minutos.
O que aconteceu de verdade nesta consulta, e que quase passou
A pergunta que Alderico fez ao guardar a receita é o achado principal do encontro. Ele veio por metformina e por enalapril, e no meio disso abriu uma janela: está pensando no assunto, procurou informação por conta própria e escolheu você para checá-la. O protocolo federal organiza a conduta exatamente pelo interesse da pessoa no momento da consulta — e o momento é este.
Perguntar e registrar, com data
Três perguntas e vinte segundos: há quarenta e três anos, cerca de trinta por dia, e o primeiro cigarro nos primeiros cinco minutos depois de acordar — que, para quem trabalha à noite, é o fim da tarde. Vale registrar o horário real, e não presumir a manhã: o instrumento pergunta quanto tempo após acordar, não que horas do relógio. O prontuário recebe as três respostas com a data de hoje, porque a palavra tabagista sem data não serve para ninguém.
Perguntar o passado, e ouvir o que ele diz sobre o turno
Nunca tentou parar — o que é informação, não ausência dela: significa que não há gatilho conhecido nem eventos adversos prévios a considerar na escolha do fármaco. E há um dado que ele deu sozinho e que muda o plano: fuma mais no plantão, porque é o que segura o sono. O gatilho principal é ocupacional e noturno, e qualquer plano que ignore o turno vai falhar na terceira noite.
A pergunta dos trinta dias
"O senhor está pensando em parar nos próximos trinta dias?" Ele diz que sim, que o neto mais novo tem bronquite e a filha reclama, e que ele mesmo já não consegue subir os dois lances da escada do condomínio. A resposta é sim e vem com motivo próprio — o que não é obrigatório, mas ajuda a escolher a frase de aconselhamento. A data é pactuada para a segunda-feira seguinte, que é a folga dele.
Avaliar a dependência com o instrumento, e anotar o número
O teste de seis perguntas fecha em 9: primeiro cigarro nos primeiros cinco minutos, dificuldade em lugares proibidos, o primeiro é o mais gostoso, fuma mais de manhã, fuma mesmo doente, e o consumo em torno de trinta cigarros por dia cai na alternativa de 21 a 30, com 2 pontos. Dependência muito elevada. Anota-se 9, não a palavra.
A conta da reposição, e por que ela não é o adesivo padrão
Trinta cigarros por dia, pela regra de 1 mg por cigarro, pediriam 30 mg. Um adesivo isolado de 21 mg deixaria 9 mg de diferença. O protocolo prevê exatamente esta situação: quem fuma mais de 20 cigarros por dia, tem dificuldade de reduzir e está motivado a parar é candidato à associação de adesivos, e a combinação indicada para o consumo acima de 20 até 30 é 21 mg mais 7 mg, que somam 28 mg por dia — dentro do teto declarado de 42 mg. A goma de 2 mg entra por cima, nos picos de fissura, sem ultrapassar cinco por dia.
Checar contraindicação antes de escrever
Para o adesivo, procura-se infarto nos últimos quinze dias, arritmia grave, angina instável, doença vascular isquêmica periférica, úlcera péptica e doença de pele. Alderico não tem nenhuma. Bupropiona não entra aqui: a reposição combinada é a preferida do protocolo por maior eficácia, e não há razão para acrescentar um fármaco com contraindicações neurológicas absolutas quando a primeira escolha está disponível e é tolerada.
Preparar os primeiros dias em torno do turno, que é o gatilho real
A preparação padrão — o que esperar da abstinência, o que fazer na fissura, quais estímulos quebrar — é escrita, e a ela se acrescenta o que só este paciente tem: as noites de plantão. "O senhor me disse que o cigarro é o que segura o sono no plantão. Então as primeiras noites vão ser a parte mais difícil, e é para elas que a goma existe. Leve no bolso e use quando bater." A restrição de café à noite, que o protocolo sugere entre os estímulos a quebrar, precisa ser negociada e não imposta, porque ele trabalha acordado.
Onde os medicamentos ficam, e por que essa frase importa
Os fármacos do tabagismo constam da Rename no Componente Estratégico: não são medicamento de prateleira comum da farmácia da unidade. Antes de dizer que existe de graça, confirme com a farmácia da unidade se ela está habilitada ao programa e como a dispensação é feita ali. Prometer o que a unidade não tem é pior do que não prometer — e a resposta a ele deve ser exatamente o que você confirmou, não o que a norma nacional autoriza em tese.
Acompanhar, e o que ficou escrito
Retorno agendado para uma semana depois da data de parada, com a frase que reduz o abandono: se voltar a fumar antes, vem do mesmo jeito. Encaminhamento ao grupo de abordagem intensiva, que é o tratamento propriamente dito, com quatro sessões semanais e manutenção que se estende por doze meses. No prontuário ficam a data de hoje, o consumo, o escore 9, a data de parada, o esquema prescrito, o gatilho ocupacional nomeado e o retorno. A consulta ganhou seis minutos e não perdeu a metformina.
Faça você
Nauside Itaocara tem 38 anos, é auxiliar de costura numa confecção e vem à unidade básica numa terça-feira de tarde por causa de uma dor de cabeça que aparece quase toda semana e que ela associa ao trabalho. A pressão é 126 por 78 mmHg. Ela não fuma. Ao explicar por que dorme mal, conta que na sexta-feira, quando sai da confecção, costuma tomar seis latas de cerveja com as colegas, e que no domingo, na casa da mãe, toma mais três ou quatro ao longo da tarde. Nos outros dias não bebe nada. Diz, sem que ninguém tenha perguntado, que isso é normal e que todo mundo faz. Trabalha sentada nove horas por dia e vai de ônibus, com oito minutos de caminhada de cada lado. Perguntada sobre o dia anterior, lista: café com leite e pão com margarina; marmita da confecção, com arroz, feijão, carne moída e salada; um pacote de biscoito recheado à tarde; e, à noite, macarrão instantâneo com salsicha, porque chegou tarde. Você tem doze minutos.
Primeiro, decida qual é a queixa e o que ela autoriza
A cefaleia recorrente é a razão pela qual ela veio, e a investigação dela é de outro capítulo. O que este capítulo pergunta é diferente: o que apareceu nesta consulta que não vai aparecer na próxima se ninguém registrar hoje?
Classifique o consumo de álcool antes de nomear qualquer coisa
Seis latas numa ocasião na sexta e três ou quatro no domingo, em duas ocasiões por semana. Compare com a definição federal de consumo abusivo — e note que há duas réguas federais, e que uma delas usa corte diferente para mulheres. Decida o que essa diferença muda, e o que ela não muda, no que você vai dizer a ela.
Decida a fronteira: o que é seu e o que é do capítulo de Psiquiatria
Ela tem sinais de dependência? Que perguntas você faria para saber, e qual capítulo desta biblioteca é dono dessa resposta? A conduta muda inteiramente conforme a resposta, e a maior parte do erro clínico aqui é aplicar o vocabulário de uma faixa à outra.
Escolha a técnica e diga quanto tempo ela leva
Se a faixa dela indicar intervenção breve, qual das duas réguas federais de duração você vai usar, e por quê? E qual é a primeira frase que você diz, sabendo que ela já se antecipou dizendo que aquilo é normal e que todo mundo faz?
A atividade física: conte antes de recomendar
Ela caminha oito minutos de ida e oito de volta, cinco dias por semana. Faça a conta em minutos semanais e compare com o número do guia nacional. O que essa comparação autoriza você a dizer, e o que ela não autoriza? E qual é a recomendação do guia que se aplica especificamente a quem passa nove horas sentado?
A lista do dia anterior: leia pelo eixo certo
Percorra os quatro momentos que ela relatou e classifique-os pelo eixo do guia alimentar brasileiro. Qual deles é o alvo com maior rendimento, e por quê? Resista à tentação de dar um número: a régua nacional não tem nenhum, e a orientação precisa ser executável na terça-feira seguinte.
Escreva o que fica no prontuário
Doze minutos não comportam as quatro mudanças. Escolha uma para tratar hoje, decida o que se registra sobre as outras para que a próxima consulta continue de onde esta parou, e nomeie o retorno.
Ver como fecharíamos
São quatro achados sobrepostos e doze minutos, e a primeira decisão é não tentar tratar os quatro. O álcool é o de maior rendimento hoje, por três razões: seis latas numa única ocasião cruzam a definição federal de consumo abusivo pelas duas réguas em circulação, e com folga em ambas; o padrão é de uso de risco sem sinal de dependência, que é exatamente a faixa para a qual a técnica breve foi construída; e ela mesma ligou a bebida ao sono ruim, que é o fio pelo qual a conversa entra sem parecer acusação. A antecipação defensiva — isso é normal, todo mundo faz — não é motivo para recuar: é o sinal de que ela já pensou no assunto. A fronteira está declarada: se ela relatasse tremor ou suor pela manhã, necessidade de beber ao acordar, perda de controle, tolerância crescente ou episódio prévio de passar mal ao parar, o quadro deixaria de ser deste capítulo e passaria a ser do capítulo A abstinência que não pode esperar, da apostila de Psiquiatria — que é também o dono do instrumento de rastreio de dez perguntas, das suas faixas de conduta e da divergência entre as versões brasileiras. Aqui se aplica o instrumento e se registra o escore e a versão usada. A frase de abertura precisa evitar duas palavras: alcoolismo e alcoólatra. O que a régua indica para esta faixa não é parar de beber; é reduzir, com meta pactuada e monitoramento. Sobre a duração, as duas normas federais divergem — 3 a 5 minutos pelo protocolo do tabagismo, 5 a 30 pelo caderno de saúde mental — e a decisão prática não é pelo cronômetro: é pelo verbo que você consegue cumprir. Se há retorno agendável, faça a versão com acompanhamento, mesmo curta. A atividade física é o achado que mais surpreende, e a conta é o argumento: 8 minutos de ida mais 8 de volta são 16 minutos por dia, cinco dias por semana, o que dá 80 minutos semanais de deslocamento ativo. Ela está a pouco mais da metade dos 150 minutos de intensidade moderada recomendados pelo guia nacional, sem nunca ter feito exercício nenhum. Isso autoriza uma frase que muda a conversa — a senhora já faz mais da metade — e não autoriza afirmar que ela cumpre a recomendação. E, como ela passa nove horas sentada, a recomendação do guia que se aplica diretamente é a outra: a cada uma hora, movimentar-se por pelo menos 5 minutos. Na lista do dia anterior, dois itens dispensam preparo e dois não. Café com leite e pão com margarina, e a marmita com arroz, feijão, carne e salada, são comida feita na hora; o biscoito recheado e o macarrão instantâneo com salsicha são ultraprocessados, e são justamente os dois exemplos que o guia nomeia. O alvo de maior rendimento é o jantar, e não o biscoito, porque o jantar é uma refeição inteira substituída e porque o motivo dela é o horário de chegada — o que dá uma conduta concreta em vez de uma repreensão. Antes de propor qualquer troca, porém, cabe a pergunta do capítulo Não aderiu: se a comida acaba antes do dinheiro, nenhuma troca é executável e a conduta é outra. O que se registra: o padrão de consumo de álcool em unidades contadas, o escore e a versão do instrumento, os 80 minutos semanais de deslocamento ativo, a composição do dia anterior em uma linha, e a data do retorno. Nada disso é diagnóstico; tudo isso é o ponto de partida da próxima consulta — e é a diferença entre uma paciente que ouve a mesma frase todo ano e uma que está num processo.
Lapso ou recaída gera informação para o plano. Reforçar estratégias, segurança do medicamento e próximo contato, evitando rótulo moral.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Sem consultar o texto, resolva a cena de abertura: Construir e acompanhar plano de cessação do tabagismo com manejo de fissura e recaída. Descreva os achados que sustentam a decisão, um erro evitável e o plano para mudança do quadro; depois compare com o caso resolvido.
Em 30 dias
Retome um caso real acompanhado sob supervisão ou simule o caso do capítulo. Explique o que mudou na sua decisão, confira se o próximo passo ocorreu e identifique uma melhoria concreta. Não use dados identificáveis fora do ambiente autorizado. Competência a demonstrar: Construir e acompanhar plano de cessação do tabagismo com manejo de fissura e recaída.
Agora atenda
O que este capítulo não consegue ensinar por escrito é a primeira frase. Dizer a alguém que fuma há trinta e seis anos que existe tratamento, sem que a frase soe como cobrança nem como promessa, é uma habilidade motora — depende de tom, de tempo e de saber o que fazer com o silêncio de dois segundos que vem depois. Vale treinar num atendimento simulado: entre na consulta pelo motivo que o paciente trouxe, descubra em que ponto ele está, e tente sair da sala com uma data, um plano e um retorno em menos de cinco minutos, sem nunca dizer que ele precisa querer.
