Outras EspecialidadesMedicina Preventiva e Saúde Coletiva

Quantas vezes, e quantos pacientes

Medidas de associação: risco relativo, odds ratio, risco atribuível e NNT

Ler risco relativo, razão de chances, risco atribuível e número necessário para tratar sem transformar um ganho pequeno em promessa grande

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Rastreamento. Brasília: Ministério da Saúde, 2013. 95 p. (Cadernos de Atenção Primária, n. 29, Volume II). 1ª edição, 1ª reimpressão. ISBN 978-85-334-1729-8.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dislipidemia: prevenção de eventos cardiovasculares e pancreatite. Brasília: Ministério da Saúde, 2020. 36 p. ISBN 978-85-334-2807-2. Conteúdo da Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 8, de 30 de julho de 2019.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Portaria Conjunta nº 10, de 16 de abril de 2020. Aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Tabagismo.

Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (INCA). Diretrizes para a detecção precoce do câncer de mama no Brasil. Rio de Janeiro: INCA, 2015. 168 p. ISBN 978-85-7318-273-6 (impressa); 978-85-7318-274-3 (eletrônica).

Brandão AA, Barroso WKS, Feitosa ADM, et al. Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – 2025. Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250624. Realização: Sociedade Brasileira de Cardiologia, Sociedade Brasileira de Hipertensão e Sociedade Brasileira de Nefrologia. Edição anterior: Barroso WKS, et al. Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial – 2020. Arq Bras Cardiol. 2021;116(3):516-658.

01

Responda antes de ler

Uma análise de eventos adversos graves de uma intervenção relata razão de risco de 4,44 com intervalo de confiança de 95% de 0,76 a 25,85, sem diferença estatisticamente significativa. Qual é a leitura correta desse resultado?

02

O paciente que você vai ver

Quinta-feira, sete e cinquenta. A sala é a terceira do corredor num ambulatório-escola de clínica médica, e a agenda da manhã tem quinze nomes; três deles são retorno de exame, o que na prática significa três conversas em que alguém vai perguntar se vale a pena. A preceptora, Gerusa, abre a sala ao lado com a porta encostada e diz a frase que organiza o seu dia: os três primeiros são seus, e ela entra quando você chamar.

Sobre a mesa há três pastas e, em cima das três, três papéis que não são exames. São números.

O primeiro está escrito à mão no verso de um pedido, letra de residente, e diz que a estatina reduz em vinte e cinco por cento os eventos cardiovasculares. O paciente é Nicanor Prudêncio, sessenta e um anos, pedreiro aposentado, hipertenso, glicemia de jejum sempre no limite de cima, nunca teve infarto nem derrame, não fuma há doze anos. Ele quer saber uma coisa só, e vai perguntar de um jeito que não deixa escapatória: doutor, isso aí me ajuda em quanto?

O segundo é um recorte de jornal dobrado em quatro, com uma frase circulada a caneta: a mamografia reduz em vinte por cento a mortalidade por câncer de mama. Quem trouxe foi Joselita Bragantino, quarenta e cinco anos, auxiliar de cozinha, sem caso na família, sem nódulo, sem queixa. Ela veio porque leu, e quer o pedido.

O terceiro não é papel: é uma frase que Anilzo Melquíades, cinquenta e sete anos, motorista, repete há três consultas. Ele parou de fumar em janeiro depois de trinta e oito anos e quer saber se ainda adianta — se, como ele diz, o estrago já não está feito. Na última consulta alguém respondeu que o cigarro causa setenta por cento dos cânceres de pulmão, e ele entendeu que setenta por cento dos fumantes têm câncer de pulmão. Não é a mesma frase. Não é nem parecido.

Os três números são verdadeiros. Os três estão publicados. Nenhum dos três responde à pergunta que foi feita, e é por isso que este capítulo existe.

Existe uma diferença entre saber que uma coisa funciona e saber o quanto ela funciona, e essa diferença tem nome, tem conta e cabe numa frase: o risco relativo diz quantas vezes, o risco absoluto diz quantos pacientes. Vinte e cinco por cento a menos de alguma coisa pode significar uma vida salva a cada cem pessoas tratadas ou uma a cada dez mil, e a única informação que decide entre essas duas hipóteses — o risco que a pessoa já tinha antes de você fazer qualquer coisa — é exatamente a que o número relativo apaga.

Isso não é estatística. É a diferença entre prescrever uma coisa e prescrever uma coisa sabendo o que ela vale. O interno que sai daqui capaz de transformar uma porcentagem numa quantidade de pessoas ganhou uma ferramenta que vai usar todo dia, em todo estágio, por toda a vida profissional — na visita, quando a residente disser que a evidência é forte; no ambulatório, quando o paciente perguntar se vale; e na hora, muito mais frequente do que se imagina, em que a resposta honesta é que o ganho existe mas é pequeno, e que a pessoa à sua frente tem o direito de saber disso antes de decidir.

As três conversas de hoje vão terminar de forma diferente. Nicanor vai sair com uma receita e com um número que faz sentido para ele. Joselita vai sair sem o pedido que veio buscar, mas com uma explicação que ela vai conseguir repetir para a irmã. Anilzo vai sair sabendo que o estrago não está feito e por que não está. Nenhum desses três desfechos depende de você saber mais medicina do que sabe hoje. Dependem de você saber ler quatro números numa tabela de quatro casas.

Este capítulo assume a leitura das medidas de efeito e o que elas mudam para o paciente da frente. Cede a leitura dos testes diagnósticos — sensibilidade, especificidade, valores preditivos e curva de características operacionais — ao capítulo irmão desta mesma apostila, que trata de acurácia diagnóstica. Cede os desenhos de estudo e as medidas de frequência, incidência e prevalência, aos capítulos próprios desta apostila: aqui o desenho entra só quando ele decide qual medida pode ser calculada. E cede cada decisão concreta de rastreamento — quem rastrear, com que exame, em que intervalo, e o dano de rastrear — aos capítulos donos de cada rastreio, que estão nas apostilas de Ginecologia, de Coloproctologia e de Cardiologia. O que fica aqui é a aritmética, e o que ela obriga você a dizer.

03

Quem adoece disso

A pergunta que abre este bloco não é quantas pessoas têm a doença. É outra: com que frequência o interno encontra um número relativo sem o número absoluto ao lado, e o que os documentos brasileiros fazem a respeito.

A resposta é desigual, e vale conhecer o mapa antes de sair lendo. Há documento federal que publica o número necessário para tratar com todas as letras, e há documento federal que publica só a razão. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dislipidemia, aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 8, de 30 de julho de 2019, está no primeiro grupo: ao discutir o ensaio de Yusuf e colaboradores em pacientes de risco cardiovascular moderado, o protocolo escreve a diferença absoluta de 1,1% e, entre parênteses, o número necessário para tratar de 90 em 5,6 anos. Faz o mesmo mais três vezes no mesmo trecho, para o acidente cerebrovascular isolado, para o segundo desfecho composto e para a revascularização. As quatro contas fecham quando refeitas: o inverso de 1,1% é 90,9; o de 0,5% é 200; o de 1,3% é 76,9; o de 0,4% é 250.

O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Tabagismo, aprovado pela Portaria Conjunta nº 10, de 16 de abril de 2020, faz diferente e faz bem: as tabelas de avaliação da qualidade da evidência trazem, lado a lado, a contagem de cada braço, a medida relativa e a medida absoluta expressa em pessoas por mil. Para o aconselhamento estruturado comparado ao aconselhamento breve, estão na mesma linha as 1.234 cessações em 9.021 pessoas, as 810 em 7.782 do grupo de comparação, a razão de risco de 1,26 e a tradução: vinte e sete a mais por mil. Quem sabe dividir um por vinte e sete milésimos chega ao que interessa — trinta e sete pessoas aconselhadas para uma parar de fumar a mais.

O Caderno de Atenção Primária nº 29, do Ministério da Saúde, dedicado ao rastreamento, é o documento brasileiro que ensina a conta. Ele diz, com todas as letras, que a tomada de decisão requer medidas absolutas, que a razão interessa sobretudo ao pesquisador, e que duplicar um risco insignificante o mantém insignificante enquanto duplicar um risco comum o torna alarmante. É a régua conceitual nacional para este capítulo, e é uma régua velha: a obra tem copyright de 2010 e a versão que circula é a primeira reimpressão, de 2013. A vigência dela se sustenta apenas pela falta de substituto publicado pelo Ministério da Saúde para o caderno metodológico geral — um teste fraco, que o leitor precisa saber que é fraco.

Nos quinze anos seguintes o Ministério da Saúde não parou: renovou réguas de rastreamentos específicos, e a mais recente é a Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 13, de 29 de julho de 2025, que aprovou as diretrizes brasileiras de rastreamento do câncer do colo do útero com teste molecular. O que envelheceu não foi a política de rastrear: foi o manual que ensina a ler o número.

Há um segundo documento que ensina estas medidas em português e circula pela Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério: o módulo de princípios de epidemiologia publicado em Brasília pela Organização Pan-Americana da Saúde, também de 2010. Ele cobre risco relativo, razão de chances, risco atribuível nos expostos e frações atribuíveis, com um exemplo trabalhado do começo ao fim. E tem uma ausência que diz muito: a expressão número necessário não aparece nele nenhuma vez. Some-se isso ao caderno de rastreamento e o retrato fica completo — os dois textos brasileiros que ensinam a ler medidas de efeito são de 2010, e o número que traduz a medida em pessoas só é ensinado por um deles, e ainda assim sob o nome de número necessário para rastrear.

Do lado da razão de chances, o mapa é mais pobre, e convém dizer isso de frente: nenhum dos documentos federais lidos para este capítulo estabelece uma regra sobre quando relatar razão de chances e quando relatar razão de riscos. A régua mais próxima disso é acadêmica e é brasileira. Em 2003, Aluísio Barros e Vânia Hirakata, do programa de pós-graduação em epidemiologia da Universidade Federal de Pelotas, publicaram a comparação empírica que virou referência: em três desfechos de prevalência crescente, mostraram a razão de chances afastando-se da razão de prevalências à medida que o desfecho fica comum. Com prevalência de 4,1%, a razão de chances excedeu a de prevalências em 6,3%; com 31,2%, em 11,0%; com 51,4%, a razão de chances foi de 3,75 contra razão de prevalências de 1,68, uma diferença de 122,6% — mais que o dobro.

Há uma consequência prática nisso que não é sobre estatística e sim sobre onde o interno trabalha. Grande parte do que se sabe sobre a saúde da população brasileira vem de inquéritos, que são estudos de corte transversal: o inquérito telefônico de vigilância de fatores de risco e a pesquisa nacional de saúde medem prevalências, e prevalências no Brasil costumam ser altas. Hipertensão, excesso de peso, sedentarismo e dor crônica não são desfechos raros. Quando o desfecho é comum, a razão de chances deixa de ser uma aproximação inocente da razão de riscos e passa a ser um número maior, sistematicamente maior, na direção que faz a associação parecer mais forte do que é.

E há um terceiro território, o das medidas de impacto populacional, em que os documentos brasileiros publicam bastante e o interno lê pouco. A Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – 2025 registra a estimativa da Organização Mundial da Saúde de que 54% das mortes por causa cardiovascular no Brasil em 2019 seriam atribuídas à hipertensão, e traz o dado do estudo de carga global de doença de que a hipertensão foi o fator de risco responsável pela maior mortalidade no país, com 104,8 por 100 mil em 2019. O Protocolo do Tabagismo traz as frações da Organização Mundial da Saúde: 71% das mortes por câncer de pulmão, 42% das doenças respiratórias crônicas e cerca de 10% das doenças cardiovasculares atribuídas ao fumo.

Vale notar o que aconteceu entre duas edições da mesma diretriz brasileira, porque ensina mais do que o número em si. A edição de 2020 afirmava que as estimativas mais conservadoras atribuem 49% dos infartos e 62% dos acidentes vasculares encefálicos à pressão arterial superior a 115/75 mmHg. Essa frase, e o limiar de 115/75, não reaparecem na edição de 2025, que traz em lugar dela a fração de 54% das mortes cardiovasculares. Não é contradição: são frações atribuíveis a coisas diferentes — desfechos diferentes, contrafactuais diferentes, fontes diferentes. Mas quem cita a diretriz sem dizer qual edição e qual limiar transporta um número para um lugar onde ele não vale.

O quadro geral, então, é este. O interno brasileiro trabalha num sistema que publica medidas absolutas em alguns dos seus protocolos, publica frações atribuíveis nas suas diretrizes de sociedade, e não tem manual metodológico atualizado que ensine a converter uma coisa na outra. A conversão, portanto, é dele. É trabalho de dividir um por um número pequeno, e é o que o resto deste capítulo ensina a fazer sem errar a casa decimal.

04

Por que acontece o que acontece

Tudo começa numa tabela de quatro casas. De um lado, quem recebeu a intervenção ou tem a exposição; do outro, quem não recebeu nem tem. Em cada lado, quantos tiveram o desfecho e quantos não tiveram. Quatro números, e todas as medidas deste capítulo saem deles — a diferença é apenas o que se faz com os quatro.

A primeira operação possível é dividir dentro de cada coluna: quantos tiveram o desfecho sobre o total daquele grupo. Isso dá dois riscos, um para cada grupo, e cada um deles é uma proporção de pessoas — não um número abstrato. O risco de 5% quer dizer cinco pessoas em cada cem, e é possível apontar para elas.

A segunda operação é comparar os dois riscos, e aqui abre-se a bifurcação que decide o capítulo inteiro. Comparar por divisão dá o risco relativo: quantas vezes o risco de um grupo é o risco do outro. Comparar por subtração dá a diferença de risco: quantas pessoas em cada cem separam um grupo do outro. As duas comparações usam exatamente os mesmos quatro números, as duas estão certas, e as duas dizem coisas que não se substituem.

A divisão tem uma propriedade que é ao mesmo tempo a sua utilidade e o seu perigo: ela cancela o tamanho. Cinco por cento comparados a quatro por cento dão a mesma razão que cinco em cem mil comparados a quatro em cem mil. Essa estabilidade é útil para o pesquisador, porque significa que o efeito biológico de uma droga tende a ser parecido em populações de risco diferente, e é isso que permite levar o resultado de um ensaio para outro país. Mas ela é cega para o único dado que interessa a quem prescreve: quanta doença havia ali para evitar.

A subtração faz o contrário. Ela guarda o tamanho e por isso não viaja bem — a mesma droga que evita um evento a cada cem pessoas numa população doente evita um a cada dez mil numa população sadia —, mas é ela, e só ela, que responde à pergunta do paciente. O documento brasileiro que ensina isso, o Caderno de Atenção Primária nº 29, monta um quadro com três doenças em que a redução relativa é sempre de vinte por cento: mortalidade de 5% que cai para 4%, de 0,5% que cai para 0,4%, e de 0,05% que cai para 0,04%. As três reduções relativas são idênticas. As três diferenças absolutas são 1%, 0,1% e 0,01%. As três contas fecham quando refeitas, e é isso que o quadro serve para mostrar: um número relativo igual escondendo três realidades que diferem por um fator de cem entre a primeira e a última.

Daí sai o número necessário para tratar, que não é uma medida nova: é a mesma diferença de risco escrita de cabeça para baixo. Um dividido pela diferença. Se a diferença é um em cem, o número necessário é cem; se é um em dez mil, é dez mil. A inversão parece um truque de contabilidade e é, na verdade, uma tradução — troca uma porcentagem, que ninguém sente, por uma quantidade de pessoas, que qualquer um imagina. O gêmeo dessa medida se constrói igual, com a diferença calculada sobre um desfecho ruim: o número necessário para causar dano, quantas pessoas precisam ser tratadas para que uma seja prejudicada.

A razão de chances entra por outro caminho e é aqui que o desenho do estudo passa a mandar. Chance não é risco: risco é quem teve sobre todo mundo, chance é quem teve sobre quem não teve. Enquanto o desfecho é raro, os dois quase coincidem, porque o denominador da chance — os que não tiveram — é quase o total. Quando o desfecho fica comum, o denominador da chance encolhe visivelmente, a chance sobe mais rápido que o risco, e a razão entre duas chances passa a ser maior que a razão entre os dois riscos. Um risco que vai de 1% para 2% dá razão de risco de 2,00 e razão de chances de 2,02. O mesmo dobro partindo de 40% para 80% dá razão de risco de 2,00 e razão de chances de 6,00.

A última peça do mecanismo é a que o interno mais confunde, porque ela muda de pergunta sem avisar. Até aqui tudo era sobre uma pessoa: o quanto o risco dela muda. O risco atribuível populacional pergunta outra coisa — quanto de toda a doença que existe numa população desapareceria se a exposição desaparecesse. E a resposta não depende só da força da associação: depende também de quantas pessoas estão expostas. Uma exposição violenta que atinge pouca gente responde por pouca doença; uma exposição fraca que atinge quase todo mundo responde por muita. É a razão de o cigarro e a pressão alta ocuparem o topo das listas brasileiras de fatores de risco por motivos diferentes — um por ser violento, a outra por ser onipresente.

Dois conjuntos de silhuetas do mesmo tamanho: 5 de 50 e 50 de 500 estão em terracota, correspondendo a 10% em cada conjunto.
Exemplo didático com a mesma proporção: à esquerda, 5 de 50 pessoas; à direita, 50 de 500. Os dois grupos têm 10% em destaque, mas representam quantidades absolutas diferentes. Proporção e contagem respondem a perguntas complementares.
05

Como se apresenta de verdade

Uma medida de efeito raramente chega ao interno com o nome dela. Chega vestida de frase — na boca do preceptor, na margem de uma bula, no meio de um parágrafo de diretriz, na manchete que o paciente trouxe dobrada no bolso. Reconhecer a medida por trás da frase é a primeira metade do trabalho; a segunda é saber o que aquela medida se recusa a responder.

As seis formas abaixo cobrem quase tudo o que aparece na prática. Vale ler cada uma pensando na frase, não no símbolo: é a frase que você vai ouvir.

Competência ao final deste capítulo. Comunicar benefício e dano absolutos com população, comparador e horizonte explícitos. No internato, demonstre o raciocínio e a execução supervisionada: o que verificar, o que fazer agora, quando chamar ajuda e como garantir continuidade.

"Reduz vinte e cinco por cento" — a razão, e as três frases que ela produz

É a forma mais comum e a mais escorregadia, porque a mesma conta gera três frases que soam diferentes e dizem a mesma coisa. Se o risco cai de 8% para 6%, pode-se dizer que a razão de risco é 0,75, que houve redução relativa de 25%, ou que o grupo tratado teve três quartos do risco do grupo controle. As três são a mesma divisão.

Nenhuma das três contém a informação de que o risco de partida era 8%. Troque 8% e 6% por 0,8% e 0,6%, ou por 0,08% e 0,06%: as três frases continuam idênticas, palavra por palavra. É esse o ponto que o Caderno de Atenção Primária nº 29 monta em quadro, com mortalidades de 5%, 0,5% e 0,05% todas caindo os mesmos 20% relativos e produzindo números necessários de 100, 1.000 e 10.000 pessoas.

Um detalhe de vocabulário que confunde muito interno: quando a razão é maior que 1, a diferença costuma ser dita como aumento percentual, e o desconto do 1 é feito de cabeça. Razão de 1,26 vira "26% a mais". Razão de 4,44 vira "mais de quatro vezes". A segunda forma é honesta; a primeira, quando o desfecho de partida é raro, faz um aumento minúsculo soar como epidemia.

O que fazer com a frase, na prática, é uma pergunta só: vinte e cinco por cento de quanto. Enquanto não houver resposta para isso, a frase não autoriza nem prescrever nem deixar de prescrever.

"Um em cada tantos" — a diferença absoluta e o número necessário para tratar

É a forma que responde à pergunta do paciente, e por isso é a que menos aparece. A diferença absoluta é a subtração dos dois riscos, e o número necessário para tratar é o inverso dela. Se o risco cai de 8% para 6%, a diferença é de 2 pontos percentuais e o número necessário é 50: cinquenta pessoas tratadas pelo tempo do estudo para que uma se beneficie.

Duas armadilhas de leitura, as duas frequentes. A primeira é esquecer o prazo. Número necessário para tratar sem horizonte de tempo não significa nada: o protocolo federal de dislipidemia escreve "NNT 90 por 5,6 anos" e "NNT 200 por 5,6 anos" justamente porque tratar por cinco anos e tratar por cinco meses não são a mesma oferta. A segunda é imaginar que as outras quarenta e nove pessoas do exemplo tomaram remédio à toa. Não tomaram: elas tomaram porque ninguém sabe, no início, qual das cinquenta é a que vai se beneficiar. É a mesma lógica do cinto de segurança.

O gêmeo dessa medida tem o mesmo desenho e a direção oposta: o número necessário para causar dano é um dividido pela diferença absoluta de um desfecho ruim. Quando o mesmo tratamento tem um número necessário para tratar de 50 e um número necessário para causar dano de 300, a conversa com o paciente ganha as duas metades — o que se ganha e o que se arrisca, nas mesmas unidades, que são pessoas.

Um cuidado que o Internato exige mais do que o curso: nem tudo que se chama de número necessário é um inverso de diferença. O mesmo Caderno de Atenção Primária nº 29 que define número necessário para rastrear como inverso da redução do risco absoluto usa, no trecho sobre triagem auditiva neonatal, um número necessário para rastrear de 878 crianças "para o diagnóstico de um caso". Um dividido por 878 é 1,14 por mil, que é ordem de grandeza de prevalência da perda auditiva ao nascer, e não de redução de risco de desfecho. São duas contas diferentes com o mesmo rótulo dentro do mesmo documento: uma responde quantos exames para achar um caso, a outra quantos exames para evitar uma morte. Ao ler qualquer número necessário, confira qual das duas perguntas ele está respondendo.

"Tem três vezes mais chance" — a razão de chances, e por que a palavra importa

Chance, em estatística, não é sinônimo de risco, e é essa confusão de vocabulário — herdada do inglês, em que a mesma armadilha existe — que produz a maior parte dos erros de leitura. Risco é quantos tiveram o desfecho sobre todos. Chance é quantos tiveram sobre quantos não tiveram. Num grupo em que metade adoece, o risco é 0,5 e a chance é 1; num grupo em que quatro de cinco adoecem, o risco é 0,8 e a chance é 4.

A razão de chances divide duas chances. Ela é a medida natural de um estudo de caso-controle, e por um motivo que não é preferência: nesse desenho o pesquisador escolhe quantos doentes e quantos não doentes vai estudar, de modo que o risco em cada grupo é um artefato da escolha dele e não da natureza. A única comparação que sobrevive a essa escolha é a das chances. Em ensaio clínico e em coorte, ao contrário, os riscos são observados e a razão de riscos pode ser calculada — quando aparece razão de chances ali, é opção do autor, não imposição do desenho.

O tamanho do desvio depende de o desfecho ser comum. Barros e Hirakata, na Universidade Federal de Pelotas, mostraram isso empiricamente em 2003 com três desfechos do mesmo conjunto de dados: com prevalência de 4,1%, a razão de chances excedeu a razão de prevalências em 6,3%; com 31,2%, em 11,0%; com 51,4%, a razão de chances foi de 3,75 contra 1,68 de razão de prevalências, uma diferença de 122,6% — mais que o dobro. É o mesmo fenômeno da aritmética pura: um risco que dobra de 1% para 2% dá razão de chances de 2,02, e um risco que dobra de 40% para 80% dá razão de chances de 6,00.

Isso tem consequência direta para quem lê estudo brasileiro, porque grande parte do que se sabe sobre a população daqui vem de inquérito transversal, e prevalências brasileiras de hipertensão, excesso de peso e sedentarismo não são pequenas. Os autores de Pelotas propõem, para esse caso, estimar a razão de prevalências diretamente — por regressão de Poisson com variância robusta, regressão de Cox com variância robusta ou regressão log-binomial — em vez de relatar a razão de chances da regressão logística.

Leia a medida pelo nome: OR compara chances e RR compara riscos. Em desfechos raros podem ser numericamente próximos, mas não há corte universal que os torne iguais. Com riscos maiores, a distância pode crescer bastante; se a pergunta é risco, obter riscos ou contagens e converter quando houver base compatível. A distorção surge ao interpretar uma OR como se fosse RR, não de a OR ser uma medida ilegítima.

"O cigarro causa setenta por cento" — o risco atribuível e a pergunta que ele responde

Aqui a pergunta muda de sujeito, e é por isso que a frase confunde tanto. Todas as medidas anteriores falam de uma pessoa: o quanto o risco dela sobe, desce ou muda. O risco atribuível fala de um estoque de doença: quanto da doença que existe se deve àquela exposição.

Há duas versões, e vale separá-las com clareza porque respondem a interlocutores diferentes. O risco atribuível ao exposto é a diferença de risco vista de outro ângulo: quanto do risco de quem fuma se deve a fumar. Responde ao paciente. Se a incidência sem exposição é 0,4% e com exposição é 1,2%, o risco atribuível ao exposto é 0,8% — um caso a cada 125 expostos, que é a mesma conta do número necessário, com o sinal invertido.

A fração atribuível populacional responde ao gestor, e depende de duas coisas: da força da associação e de quantas pessoas estão expostas. Com a mesma associação triplicando o risco, uma exposição presente em 2% da população responde por 3,8% dos casos; presente em 20%, por 28,6%; presente em 60%, por 54,5%. A associação não mudou em nenhuma das três — mudou o tamanho do território.

É por isso que a frase que Anilzo ouviu tem um sujeito que ele não percebeu. Quando a Organização Mundial da Saúde estima, no protocolo federal do tabagismo, que 71% das mortes por câncer de pulmão são atribuídas ao fumo, a frase é sobre os mortos por câncer de pulmão, não sobre os fumantes: ela diz que sete em cada dez dessas mortes não teriam acontecido num mundo sem cigarro. Não diz, nem de longe, que sete em cada dez fumantes morrem disso.

A mesma estrutura aparece na hipertensão. A Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – 2025 registra que a Organização Mundial da Saúde estimou, para 2019, que 54% das mortes por causa cardiovascular no Brasil seriam atribuídas à hipertensão, e que a hipertensão foi, no estudo de carga global de doença, o fator responsável pela maior mortalidade do país, com 104,8 por 100 mil. A hipertensão não é o fator que mais multiplica o risco de um indivíduo — há fatores muito mais violentos por pessoa. Ela lidera porque está em toda parte, e a fração atribuível é a única medida deste capítulo capaz de dizer isso.

"Entre 0,86 e 1,08" — o intervalo, e onde está o 1

Toda medida de efeito estimada numa amostra vem acompanhada de uma faixa de valores compatíveis com os dados. Para as medidas que são razões — risco relativo, razão de chances, razão de riscos —, o valor sem efeito é 1: quando o intervalo contém o 1, os dados são compatíveis com nenhuma diferença. Para as medidas que são diferenças, o valor sem efeito é 0.

O que essa compatibilidade não significa é que o efeito seja zero. O protocolo federal de dislipidemia traz um exemplo limpo disso: cita o estudo de Studer e colaboradores com razão de risco de 0,96 e intervalo de 0,86 a 1,08 para mortalidade, e conclui que isso sugere ausência de benefício. A frase é defensável, mas o intervalo diz outra coisa além dela. Ele diz que os dados são compatíveis com uma redução de 14% do risco e também com um aumento de 8%. Num paciente com risco de 10% em cinco anos, o limite favorável corresponde a tratar 71 pessoas para evitar um óbito, e o limite desfavorável, a tratar 125 para causar um. O intervalo não escolhe entre essas duas histórias; ele diz que o estudo não teve tamanho para separá-las.

A distância entre os limites é, por si, uma informação — e às vezes a informação principal. O protocolo federal do tabagismo relata, para eventos adversos graves com terapia de reposição de nicotina combinada, uma razão de risco de 4,44 com intervalo de 0,76 a 25,85, e registra que não houve diferença estatisticamente significativa. O limite superior é trinta e quatro vezes o inferior. Um intervalo dessa largura não é uma medida de efeito: é o registro de que quase nada se sabe, e o próprio documento explica por quê ao mostrar as contagens brutas — seis eventos entre 1.475 pessoas contra um entre 1.413.

A leitura correta de um intervalo que cruza o 1 é, portanto, dupla e desconfortável: não há prova de efeito, e não há prova de ausência de efeito. Quando o intervalo é estreito e cerca o 1 de perto, a segunda metade fica forte — um efeito grande foi razoavelmente descartado. Quando é largo, só a primeira metade vale, e a conclusão honesta é que a pergunta segue aberta.

"Reduziu a mortalidade" — qual mortalidade, exatamente

A última forma não é uma medida: é o buraco na frase. Toda medida de efeito é medida sobre um desfecho específico, e trocar o desfecho troca o número inteiro sem trocar uma palavra da frase.

O quadro de evidências das diretrizes do INCA para detecção precoce do câncer de mama mostra isso lado a lado, e é raro ver tão explícito num documento brasileiro. Para mortalidade específica por câncer de mama entre 60 e 69 anos, a razão de risco é 0,68, com intervalo de 0,54 a 0,87. Para mortalidade geral considerando todas as faixas etárias estudadas, a razão de risco é 0,99, com intervalo de 0,95 a 1,03. O mesmo rastreamento, a mesma população, dois desfechos: um efeito claro sobre a causa específica e nenhum efeito detectável sobre morrer.

O próprio documento oferece a explicação aritmética para a diferença, e ela é importante: como a mortalidade por câncer de mama corresponde a menos de 5% de todas as mortes nas mulheres estudadas, é provável que os ensaios existentes não tivessem tamanho para detectar impacto na mortalidade geral, mesmo se ele existisse. Repare que esse raciocínio é exatamente o da seção anterior — ausência de detecção não é ausência de efeito.

Duas outras trocas de desfecho merecem alerta. A primeira é o desfecho composto, que soma eventos de gravidade muito diferente: o protocolo federal de dislipidemia registra que o composto de morte cardiovascular, infarto não fatal e acidente cerebrovascular não fatal teve diferença absoluta de 1,1%, mas que, avaliados isoladamente, o único que manteve diferença significativa foi o acidente cerebrovascular, com diferença absoluta de 0,5%. Metade do efeito do composto, num componente só. A segunda é o desfecho substituto — colesterol, pressão, densidade óssea, carga viral —, que é um número que se move antes e por isso é tentador, mas que só vale como promessa do desfecho verdadeiro se essa promessa já tiver sido demonstrada para aquela intervenção específica.

06

Como fechar o diagnóstico

Interrogar um número é um procedimento, e como todo procedimento tem ordem. As seis perguntas abaixo se fazem sempre na mesma sequência, porque cada uma só faz sentido depois da anterior, e porque a terceira — a do risco de partida — é a que resolve a maior parte dos casos sozinha.

Vale dizer o que este bloco não é. Ele não ensina a julgar a qualidade do estudo, que é assunto dos capítulos de desenho de estudo desta apostila, nem a ler um teste diagnóstico, que é do capítulo irmão de acurácia. Ele ensina a extrair de um resultado publicado a quantidade de pessoas que aquele resultado representa.

1. Qual desfecho, exatamente, e em quanto tempo

A pergunta parece burocrática e é a que mais muda o número. Antes de qualquer conta, escreva por extenso o que foi contado: morte por qualquer causa, morte por esta causa, um evento composto, uma internação, um exame alterado.

Depois, o prazo. Um efeito de 1,1% em 5,6 anos e um efeito de 1,1% em seis meses são ofertas radicalmente diferentes, e o protocolo federal de dislipidemia acerta ao carimbar o horizonte junto de cada número necessário para tratar que publica. Quando o prazo não estiver escrito, ele existe mesmo assim — é o tempo de seguimento do estudo — e você precisa achá-lo antes de dizer qualquer coisa ao paciente.

Se o desfecho for composto, procure a decomposição. Se for substituto, pergunte se a ligação com o desfecho que importa já foi demonstrada para aquela intervenção, e não para a classe.

Uma nota sobre o vocabulário brasileiro dos documentos: mortalidade específica e mortalidade geral aparecem como linhas vizinhas em quadros de evidência, e a diferença entre elas costuma ser a diferença entre um efeito e nenhum. O quadro do INCA sobre mamografia é o exemplo de casa.

2. Comparado com o quê

Toda medida deste capítulo é uma comparação, e uma comparação tem dois lados. Placebo, nenhum tratamento, tratamento habitual, outro tratamento ativo e uma dose diferente do mesmo tratamento não são o mesmo comparador, e a mesma intervenção rende números muito diferentes contra cada um.

O protocolo federal do tabagismo é um bom lugar para ver isso funcionando, porque as suas perguntas são formuladas em pares explícitos: aconselhamento estruturado contra aconselhamento breve ou cuidado usual; tratamento medicamentoso associado ao aconselhamento contra aconselhamento estruturado isolado; reposição de nicotina combinada contra reposição isolada. Três comparações, três números, e nenhum deles autoriza a frase solta "o tratamento aumenta a cessação em tantos por cento".

A pergunta prática, no ambulatório, é se o comparador do estudo se parece com o que este paciente receberia se você não fizesse nada. Quando o comparador é placebo e o seu paciente já receberia cuidado ativo, o efeito publicado é maior do que o efeito que você vai conseguir.

3. Qual era o risco de quem não recebeu nada

Esta é a pergunta que resolve o capítulo, e é a que costuma exigir procurar na tabela em vez de aceitar o texto. O risco do grupo de comparação é o denominador moral de tudo: é ele que transforma uma razão numa quantidade de pessoas.

Quando a diretriz publica as contagens, a conta é imediata. No quadro do INCA sobre mamografia, a faixa de 60 a 69 anos tem 155 óbitos por câncer de mama em 18.377 mulheres do grupo de comparação, o que dá risco de 0,84%; a razão de risco publicada é 0,68; a redução absoluta publicada é 0,0027, e refazer a conta — 0,84% multiplicado por 0,32 — devolve exatamente 0,0027. Um dividido por isso é 370: trezentas e setenta mulheres convidadas para uma morte evitada.

A mesma conta na faixa de 39 a 49 anos parte de 625 óbitos em 195.919 mulheres, risco de 0,32%, razão de risco de 0,85, redução absoluta publicada de 0,0005 — e o inverso disso é 2.000. Duas mil mulheres convidadas para uma morte evitada, contra trezentas e setenta. As diretrizes afirmam, no texto corrido, que o número necessário é mais de cinco vezes maior entre 40 e 49 anos do que entre 60 e 69, e a divisão confirma: 2.000 dividido por 370 é 5,4.

Repare no que produziu essa diferença de cinco vezes e meia. Não foi a eficácia do exame: as razões de risco das duas faixas são parecidas. Foi o risco de partida, que é duas vezes e meia maior aos sessenta do que aos quarenta. A mesma mamografia, a mesma redução relativa, e cinco vezes mais mulheres examinadas por benefício quando a doença é mais rara.

Quando o documento não publica o risco basal, ele quase sempre existe em outro lugar do mesmo documento — na descrição da população, na tabela de características ou no texto de epidemiologia. Se não existir mesmo, o número relativo continua sem tradução, e a frase honesta ao paciente é que se sabe a direção do efeito e não o tamanho.

4. Que desenho produziu isso — e o que ele deixa calcular

Este capítulo não ensina desenhos de estudo, que são tema próprio desta apostila. Mas há uma consequência dos desenhos que pertence aqui, porque é aritmética: cada desenho permite calcular um conjunto diferente de medidas, e pedir a um estudo uma medida que ele não pode dar é um erro de leitura, não de opinião.

Em ensaio clínico e em coorte, o pesquisador acompanha grupos definidos pela exposição e observa quem adoece. Os riscos de cada grupo são observados, e daí saem risco relativo, diferença de risco, número necessário para tratar e razão de chances — todos.

Em caso-controle, o pesquisador define quantos doentes e quantos não doentes vai incluir. A proporção de doentes na amostra é escolha dele, então nenhum risco daquela amostra é o risco da população, e nem risco relativo nem número necessário podem ser calculados. Sobra a razão de chances, que é justamente a medida que sobrevive a essa escolha.

Em corte transversal, exposição e desfecho são medidos no mesmo momento. Mede-se prevalência, não incidência, e a medida de associação natural é a razão de prevalências. É exatamente aqui que mora o problema apontado pelos autores de Pelotas: quando o desfecho é comum, interpretar a razão de chances da regressão logística como se fosse razão de prevalências pode superestimar a magnitude nesta escala — em até mais que o dobro, no exemplo com prevalência de 51,4%.

A regra de bolso para o interno é curta. Se o texto trouxer número necessário para tratar, o desenho por trás tem de permitir estimar risco. Se trouxer razão de chances num ensaio clínico com desfecho frequente, esse número está maior do que a razão de riscos correspondente, e vale procurar a razão de riscos antes de repetir a frase.

5. É risco ou é chance — e o que fazer quando for chance

A distinção não é preciosismo de linguagem quando o desfecho é comum, e é fácil de testar. Procure as contagens dos dois braços. Se o desfecho ocorre em menos de 10% do grupo de comparação, a razão de chances está perto o bastante da razão de riscos para você repetir a frase sem culpa. Acima disso, vale converter.

A conversão precisa apenas do risco do grupo de comparação e da razão de chances, e existe justamente porque o número publicado não serve para conversar com o paciente. Mas atenção a uma armadilha: converter razão de chances ajustada por múltiplas variáveis em risco usando o risco basal bruto produz um número aproximado, não exato. Quando a diferença importar para a decisão, o caminho honesto é procurar as contagens originais.

Há um caso brasileiro que vale ver, porque mostra a confusão acontecendo dentro de um documento federal. O Caderno de Atenção Primária nº 29, ao resumir a revisão sistemática sobre pesquisa de sangue oculto nas fezes, escreve que houve redução no risco de morrer por câncer colorretal de 16%, e coloca entre colchetes uma razão de chances de 0,84. Chamar de redução de risco uma razão de chances é, tecnicamente, trocar as medidas. No caso concreto o dano é pequeno, porque morte por câncer colorretal é desfecho raro nessa população e as duas medidas quase coincidem — e o próprio parágrafo, mais adiante, traz também uma razão de risco, de 0,75, para a análise ajustada por realização do exame. Mas a mesma troca feita sobre desfecho comum produziria um erro grande.

Guarde a distinção pelo vocabulário do paciente, que é o que importa no fim: risco responde "em quantos de nós isso acontece"; chance responde "para cada um que teve, quantos não tiveram". A primeira pergunta é a que se faz num consultório.

6. Onde está o 1, e o que cabe dentro do intervalo

A última pergunta se faz olhando os dois limites, não o valor do meio, e ela tem duas partes.

A primeira parte é posicional: o 1 está dentro ou fora? Fora, e o resultado é compatível com efeito numa direção só. Dentro, e as duas direções continuam possíveis. Para medidas de diferença, o valor de referência é 0, e a mesma leitura vale.

A segunda parte é de tamanho, e é a que quase ninguém faz: traduza os dois limites em pessoas, usando o risco basal do seu paciente. Foi assim que o intervalo de 0,86 a 1,08 do estudo citado pelo protocolo de dislipidemia virou, num risco de 10% em cinco anos, tratar 71 pessoas para evitar um óbito de um lado e tratar 125 para causar um do outro. Com os dois números na mesa, a frase "não houve diferença estatisticamente significativa" deixa de encerrar a conversa e passa a ser o começo dela.

Há uma versão dessa pergunta que serve como conferência rápida e que já pegou erro em documento oficial. Para uma medida que é razão, o valor publicado deve ficar aproximadamente no centro geométrico do intervalo — a raiz do produto dos dois limites. No quadro de evidências das diretrizes do INCA sobre mama, a linha que resume o estudo de Miller e colaboradores para a faixa de 40 a 59 anos traz razão de risco de 1,15 com intervalo de 0,85 a 1,30. A raiz do produto de 0,85 por 1,30 é 1,05, e não 1,15; e as contagens impressas na mesma linha — 505 óbitos em 44.910 no grupo de comparação e 500 em 44.925 no grupo rastreado — dão razão de 0,99. São três números diferentes na mesma linha da mesma tabela.

Não é preciso descobrir qual dos três é o certo para tirar proveito da conferência: basta saber que a linha não fecha, e não repetir nenhum dos três como se fechasse. Um capítulo mais adiante desta apostila cuida da decisão de rastrear mama; aqui a lição é de leitura.

07

Da razão ao paciente: as quatro conversões, e o que conferimos nas fontes

Este bloco é a mesa de trabalho do capítulo. São quatro conversões, sempre na mesma ordem, e cada uma responde a um interlocutor diferente: a primeira responde ao paciente, a segunda ao gestor, a terceira a quem lê estudo brasileiro e a quarta a quem precisa decidir com evidência incerta. Depois das tabelas vêm as notas de conferência — o que refizemos das contas dos documentos oficiais, e o que fechou ou não fechou.

Nomear a medida antes de calcular. Em estudo transversal, proporções descrevem prevalências; em coorte, o risco cumulativo exige período e pessoas inicialmente em risco. Odds ratio não é erro por diferir do risco relativo. NNT e NNH dependem de desfecho, comparação, risco basal e tempo; intervalos que incluem ausência de efeito tornam a inversão instável. Fração atribuível pressupõe interpretação causal e não mede a chance individual de adoecer.

  1. 11 · Escreva o desfecho por extenso e o prazo. Sem esses dois, nenhuma conta abaixo significa alguma coisa. Se o desfecho for composto, procure a decomposição.
  2. 22 · Ache o risco de quem não recebeu nada. Está na tabela de contagens, na descrição da população, ou não está em lugar nenhum — e nesse caso pare aqui e diga ao paciente que se conhece a direção do efeito, não o tamanho.
  3. 33 · Identifique a medida antes da conversão. Para RR de um efeito protetor e risco basal R0 compatível: RAR = R0 × (1−RR), no mesmo horizonte. OR não é RR: se houver R0 apropriado, R1 = OR × R0 / (1−R0 + OR × R0), e a diferença é R0−R1. Não aplicar a fórmula do RR a qualquer razão publicada.
  4. 44 · Inverta a diferença. Um dividido por ela é quantas pessoas se trata para que uma se beneficie, naquele prazo e não em outro.
  5. 55 · Faça a mesma conta com o desfecho ruim. O resultado é o número necessário para causar dano, e ele entra na mesma conversa, nas mesmas unidades.
  6. 66 · Razão de chances compara chances, não riscos. A aproximação OR ≈ RR melhora quando o desfecho é raro; 10% é uma referência prática, não fronteira matemática. Com desfecho frequente, interpretar OR como RR distorce a magnitude. Exemplo: risco basal de 20% e OR de 0,5 correspondem a risco de cerca de 11,1%, não 10%. Procurar riscos ou contagens quando a pergunta exigir risco absoluto.
  7. 77 · Olhe os dois limites do intervalo, não o valor do meio. Traduza cada limite em pessoas, com o risco do seu paciente. Só então decida.
  8. 88 · Escolha a medida pela pergunta e pelo horizonte. Para o paciente, riscos absolutos e diferenças ajudam a comunicar benefício e dano. Para a população, podem interessar incidência, diferença de riscos, número de eventos evitáveis ou fração atribuível populacional. Esta última também depende da frequência da exposição e de pressupostos causais; não substitui todas as demais medidas.

Conversão 1 — a mesma redução relativa de 25% sobre oito riscos de partida

Risco sem tratamentoRisco com tratamentoDiferença absolutaPessoas tratadas por uma que se beneficiaEventos evitados por 1.000 tratados
40,0%30,00%10,00 pp10100,0
20,0%15,00%5,00 pp2050,0
10,0%7,50%2,50 pp4025,0
5,0%3,75%1,25 pp8012,5
2,0%1,50%0,50 pp2005,0
1,0%0,75%0,25 pp4002,5
0,5%0,38%0,13 pp8001,3
0,1%0,07%0,03 pp4.0000,2

Conversão 2 — três fatores de risco, duas réguas, ordens invertidas (coorte de Framingham como publicada no módulo de princípios de epidemiologia da Organização Pan-Americana da Saúde, Brasília, 2010)

Fator de riscoRisco relativoPrevalência da exposiçãoFração atribuível na populaçãoPosição em cada régua
Hipertensão sistólica2,92,0%3,6%primeiro por risco relativo, último por fração atribuível
Cardiomegalia ao raio X2,110,0%9,8%no meio nas duas réguas
Tabagismo1,971,9%39,5%último por risco relativo, primeiro por fração atribuível

Conversão 3 — o mesmo dobro de risco visto como razão de chances, conforme o desfecho vai ficando comum

Risco sem exposiçãoRisco com exposiçãoRazão de riscosRazão de chancesOR ÷ RR: erro de ler chances como riscos
0,5%1,0%2,002,011%
1,0%2,0%2,002,021%
5,0%10,0%2,002,116%
10,0%20,0%2,002,2512%
20,0%40,0%2,002,6733%
30,0%60,0%2,003,5075%
40,0%80,0%2,006,00200%

Conversão 4 — os dois limites de um intervalo traduzidos em pessoas, num paciente com risco de 10% em cinco anos

Leitura do intervaloRazão de riscoRisco tratadoDiferença absolutaO que isso significa em pessoas
Limite que mais protege0,868,6%1,4 ponto percentual a menostratar 71 para evitar um óbito
Estimativa pontual0,969,6%0,4 ponto percentual a menostratar 250 para evitar um óbito
Limite que mais prejudica1,0810,8%0,8 ponto percentual a maistratar 125 para causar um óbito

Conferência que fechou — o quadro dos três riscos do Caderno de Atenção Primária nº 29. O documento apresenta três doenças com mortalidade de 5%, 0,5% e 0,05%, todas com redução relativa de 20%, e publica números necessários para rastrear de 100, 1.000 e 10.000. Refazendo: 5% menos 4% é 1%, e um dividido por 0,01 é 100; 0,5% menos 0,4% é 0,1%, e um dividido por 0,001 é 1.000; 0,05% menos 0,04% é 0,01%, e um dividido por 0,0001 é 10.000. Os três batem exatamente. É a demonstração central deste capítulo, e ela está correta num documento federal.

Conferência que não fechou — a Tabela 3.1 do mesmo caderno, atribuída a Rembold (1998). Em duas linhas, o valor publicado fica fora do próprio intervalo de confiança impresso ao lado dele. Na linha da pesquisa de sangue oculto nas fezes lê-se número necessário de 8.008 com intervalo de 562 a 1.648 — o ponto é quase cinco vezes maior que o limite superior do seu próprio intervalo. Na linha da mamografia entre 40 e 49 anos lê-se 4.576 com intervalo de 92.001 a 6.584: além de o ponto ficar fora, os dois limites estão trocados de lugar, com o inferior catorze vezes maior que o superior. Um intervalo não pode excluir a estimativa que ele acompanha, e um limite inferior não pode ser maior que o superior.

Ainda na Tabela 3.1, a relação que o próprio caderno define não se sustenta em duas linhas. O texto afirma, com todas as letras, que o número necessário para rastrear é o inverso da redução do risco absoluto. Na linha do sangue oculto, a redução absoluta impressa é 0,12%, cujo inverso é 833 — contra os 8.008 publicados na mesma linha, um fator de quase dez. Na linha da mamografia entre 50 e 59 anos, a redução absoluta impressa é 0,02%, cujo inverso é 5.000 — contra os 1.532 publicados, um fator de três. Nas outras três linhas a relação fecha dentro do arredondamento: 0,05% devolve 2.000 contra 1.887 publicados; 0,14% devolve 714 contra 695; 0,02% devolve 5.000 contra 4.576.

As duas linhas de mortalidade total da mesma tabela merecem leitura separada, porque ali o problema é de definição e não de digitação. Para a mamografia lê-se número necessário de menos 7.660, redução relativa de menos 1,4% e redução absoluta de zero — e um dividido por zero não existe. Para o sangue oculto lê-se 4.894 com intervalo que vai de 253 a menos 235, atravessando o zero. Isso não é erro de conta: é a propriedade conhecida de que, quando a diferença de risco é compatível com zero, o inverso dela deixa de ser um número e passa a ser dois pedaços de reta separados pelo infinito. Vale como advertência ao interno: número necessário negativo não significa efeito pequeno — significa que a conta saiu do outro lado do zero e o rótulo mudou de benefício para dano.

O mesmo caderno usa um rótulo para duas contas diferentes, e essa é a armadilha de leitura mais fácil de cair. Depois de definir número necessário para rastrear como o inverso da redução do risco absoluto — quantas pessoas rastrear para evitar uma morte —, o texto sobre triagem auditiva neonatal informa que o número necessário para rastrear num programa universal é de 878 crianças para o diagnóstico de um caso. Um dividido por 878 é 1,14 por mil, que é ordem de grandeza de prevalência de perda auditiva ao nascer, e não de redução de risco. São duas perguntas — quantos exames para achar um caso, quantos exames para evitar uma morte — sob o mesmo nome, no mesmo documento.

Troca de medida no mesmo parágrafo, também no Caderno nº 29. Ao resumir a evidência sobre pesquisa de sangue oculto nas fezes, o texto registra redução da mortalidade de 16% e coloca ao lado uma razão de chances de 0,84, com intervalo de 0,78 a 0,89; em seguida, para a periodicidade bienal, 15% com razão de chances de 0,85; e, para a análise ajustada pela realização do exame, redução do risco relativo de 25% com razão de risco de 0,75. Chamar de redução de risco o complemento de uma razão de chances é trocar as medidas. Aqui o dano prático é pequeno, porque morte por câncer colorretal é desfecho raro nessa população e as duas medidas quase coincidem — e a terceira cifra, com razão de risco explícita, mostra o autor sabendo a diferença. Num desfecho comum, a mesma troca produziria um exagero grande, e é por isso que o capítulo insiste na distinção.

Leitura nossa, e registrada como leitura nossa: o mesmo trecho conclui que o rastreamento pode evitar um em cada seis casos de câncer de cólon e reto. Um em cada seis é 16,7%, que é o complemento da razão de chances de 0,84 — e essa cifra veio de análise de mortalidade, não de incidência. A frase, como está, transporta para casos um número que foi medido em mortes. Cabe a ressalva de que rastrear com pesquisa de sangue oculto seguida de colonoscopia também reduz incidência, pela remoção de adenomas, de modo que a afirmação pode ser defendida — mas não com esse número, que é o da mortalidade.

Conferência que fechou — a frase das cinco vezes, nas diretrizes do Instituto Nacional de Câncer para detecção precoce do câncer de mama. O texto afirma que o número de mulheres convidadas ao rastreamento é mais de cinco vezes maior entre 40 e 49 anos do que entre 60 e 69. Refazendo pelas reduções absolutas publicadas no quadro do próprio documento: 0,0005 na faixa mais jovem devolve 2.000 mulheres, e 0,0027 na faixa mais velha devolve 370; a divisão dá 5,4. A afirmação do texto corrido está sustentada pela tabela do mesmo documento.

Conferência que fechou em parte — as reduções absolutas do mesmo quadro. Na faixa de 39 a 49 anos, as contagens do grupo de comparação, 625 óbitos em 195.919, dão risco de 0,319%; multiplicado pela redução relativa publicada de 15%, devolve 0,00048, contra 0,0005 impresso: fecha. Na faixa de 60 a 69 anos, 155 óbitos em 18.377 dão 0,843%; multiplicado por 32%, devolve 0,0027, contra 0,0027 impresso: fecha na casa decimal. Na faixa de 50 a 59 anos, 410 óbitos em 69.849 dão 0,587%; multiplicado por 14%, devolve 0,00082, contra 0,0007 impresso — diferença de 17%, que muda o número de mulheres convidadas de 1.220 para 1.429. A diferença é compatível com as medidas virem de sínteses diferentes, e o quadro de fato mistura revisões; mas quem refizer a conta pela linha vai encontrar o desencontro.

Conferência que não fechou — a linha do estudo canadense no mesmo quadro do Instituto Nacional de Câncer. Para mortalidade específica entre 40 e 59 anos estão impressos, na mesma linha, 505 óbitos em 44.910 no grupo de comparação, 500 óbitos em 44.925 no grupo rastreado, e razão de risco de 1,15 com intervalo de 0,85 a 1,30. São três números incompatíveis entre si. As duas contagens dão razão de 0,99, que aponta na direção protetora. A estimativa pontual de uma razão deve cair perto do centro geométrico do seu intervalo, que aqui é a raiz de 0,85 vezes 1,30, ou seja 1,05. O teste de simetria confirma: com 1,05, as duas metades do intervalo medem 0,211 e 0,214 em escala logarítmica, praticamente iguais; com 1,15, medem 0,302 e 0,123, uma quase três vezes a outra. O intervalo impresso é compatível com 1,05 e não com 1,15. Não é preciso decidir qual dos três números é o correto para tirar a lição: a linha não fecha, e nenhum dos três deve ser repetido como se fechasse.

Ambiguidade de notação, no mesmo quadro. Uma das linhas de mortalidade específica entre 50 e 59 anos traz riscos de 0,61% e 0,48% e, ao lado, uma redução absoluta escrita como menos 1,099 por um milhão. A diferença entre os dois percentuais impressos na própria linha é de 0,13 ponto percentual, que são 1.300 por milhão. Se o 1,099 for decimal, o valor é mil vezes menor do que a linha comporta; se for milhar, aproxima-se de 1.300 mas não bate. Não dá para decidir pela grafia qual das duas leituras o documento quis, e a ambiguidade em si já é motivo para não transportar esse número para lugar nenhum.

Conferência que fechou inteira — o exemplo de Framingham no módulo de princípios de epidemiologia publicado em Brasília pela Organização Pan-Americana da Saúde. O documento traz as contagens brutas dos 1.112 homens e, adiante, uma tabela-resumo com risco relativo, prevalência da exposição e fração atribuível na população para três fatores. Refizemos os nove valores a partir das contagens: hipertensão dá risco relativo 2,89 contra 2,9 publicado, prevalência 1,98% contra 2,0%, fração atribuível 3,60% contra 3,6%; cardiomegalia dá 2,09 contra 2,1, 9,98% contra 10,0%, 9,80% contra 9,8%; tabagismo dá 1,91 contra 1,9, 71,94% contra 71,9%, 39,51% contra 39,5%. Os nove batem. É a melhor demonstração brasileira disponível de que ordenar fatores de risco pela razão e ordená-los pelo impacto populacional produz duas listas invertidas.

Conferência que não fechou — transposição de dígitos no mesmo módulo. O texto calcula corretamente o risco atribuível nos expostos da hipertensão como 545,5 menos 189,0, igual a 356,5 por mil, e duas frases depois se refere à mesma quantidade como excesso de risco de 365,5 por mil. O valor correto aparece duas vezes no documento e o transposto uma só, o que identifica qual dos dois é a digitação errada. As demais contas do trecho estão certas: a fração atribuível nos expostos, 356,5 sobre 545,5, dá 65,4%, exatamente como publicado; e o risco atribuível na população, 196,0 menos 189,0, dá 7,0 por mil, também como publicado.

Conferência que fechou — os quatro números necessários para tratar do protocolo clínico federal da dislipidemia. O documento publica diferença absoluta de 1,1% com número necessário de 90 em 5,6 anos; 0,5% com 200; 1,3% com 77; e 0,4% com 250. Os inversos são 90,9, 200,0, 76,9 e 250,0. Os quatro fecham. Vale registrar o acerto editorial: o protocolo carimba o horizonte de tempo junto de cada um dos quatro, que é justamente o que a maior parte dos textos esquece de fazer.

Espelho que engana — quatro cópias do protocolo da dislipidemia, e uma delas é outra edição. Comparamos, com espaço e hífen normalizados antes da comparação, quatro arquivos do mesmo protocolo. Duas cópias hospedadas pelo Ministério da Saúde são o mesmo texto, caractere por caractere; a terceira é o texto da portaria conjunta de 30 de julho de 2019 e traz as mesmas passagens. A quarta, hospedada por uma secretaria estadual sob nome de arquivo cuja data é posterior à da portaria, não contém cinco das oito passagens centrais deste capítulo: faltam os quatro números necessários para tratar e o número necessário de 50 da ezetimiba, e sobram apenas as duas passagens mais antigas. Não é cópia corrompida: é uma edição anterior do protocolo, sob um nome de arquivo que sugere ser mais nova. Quem citasse essa cópia diria, de boa-fé, que o protocolo federal não publica números necessários para tratar — e diria o contrário do que o protocolo vigente publica.

Onde nasce o número absoluto no protocolo federal do tabagismo — e por que isso não é erro. As tabelas de avaliação da qualidade da evidência trazem, na mesma linha, as contagens dos dois braços, o efeito relativo e o efeito absoluto por mil. Para o aconselhamento estruturado: 1.234 cessações em 9.021 contra 810 em 7.782, razão de risco de 1,26, e 27 a mais por mil. As contagens brutas dariam razão de 1,31 e 32,7 a mais por mil. O 27 sai de aplicar a razão agrupada da metanálise ao risco do grupo de comparação — é número de modelo, não aritmética daquela linha. A consequência prática: o número necessário para tratar é 37 pelo valor publicado e 31 pelas contagens brutas. Os dois estão certos; o que muda é de onde vieram. Na segunda tabela, medicamento somado ao aconselhamento, o publicado é 26 por mil e as contagens brutas dão 25,6 — números necessários de 38 e 39, praticamente iguais.

O intervalo mais eloquente do capítulo, também do protocolo do tabagismo. Para eventos adversos graves com reposição de nicotina combinada, o documento relata razão de risco de 4,44 com intervalo de 0,76 a 25,85 e registra ausência de diferença estatisticamente significativa — e faz o que poucos fazem: imprime as contagens ao lado, seis eventos entre 1.475 pessoas contra um entre 1.413. As contagens brutas dão razão de 5,75, e o intervalo publicado vai do limite inferior ao superior multiplicando por 34. Um intervalo que comporta ao mesmo tempo uma redução de 24% e um aumento de vinte e seis vezes não é uma medida de efeito: é o registro de que a pergunta segue aberta. Ler ali que não há diferença é o erro que este capítulo existe para evitar.

O que o Sistema Único fornece, procurado princípio por princípio na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024, com acento e hífen removidos do texto extraído antes de cada busca. Constam sinvastatina, atorvastatina, ácido nicotínico, bupropiona e nicotina. Não constam ezetimiba nem vareniclina. A ausência da ezetimiba não é acaso, e fecha o argumento deste capítulo: o próprio protocolo federal da dislipidemia registra que havia um único ensaio com desfecho clínico duro, com tamanho de efeito — número necessário para tratar de 50 — de relevância questionável, e cita a decisão de não incorporação da comissão nacional, formalizada em portaria de 2018. Foi um número absoluto, e não uma razão, que decidiu se um medicamento entraria no elenco do Sistema Único de Saúde. Registre-se o limite da conferência: o componente de financiamento de cada item não é legível na extração do arquivo, porque as colunas se embaralham; afirmamos presença e ausência, não componente.

Detalhe de arredondamento no artigo brasileiro que sustenta a discussão sobre razão de chances. Barros e Hirakata publicam, para o desfecho mais frequente, razão de prevalências de Mantel-Haenszel impressa como 1,69 numa tabela e usada como 1,68 na tabela de comparação. A diferença percentual publicada entre a razão de chances de 3,75 e essa razão de prevalências é de 122,6%; refazendo com os valores arredondados chega-se a 121,9% partindo de 1,69 e a 123,2% partindo de 1,68. Nada disso muda a conclusão — a razão de chances mais que dobra a razão de prevalências quando o desfecho ocorre em metade da amostra —, mas explica por que refazer uma conta a partir de valores impressos raramente devolve o último dígito publicado.

08

A conduta, hora a hora

O relógio deste capítulo não marca a piora de ninguém: marca uma manhã de ambulatório com três conversas, e o que se faz entre uma e outra. Os marcos abaixo cobrem os noventa minutos que separam abrir a primeira pasta de fechar a terceira.

Duas advertências antes de começar. A primeira é que nenhum dos três desfechos depende de encontrar um número novo: os três números já estão sobre a mesa, e o trabalho é de tradução. A segunda é que o interno não decide sozinho o que prescrever nem o que rastrear — decide o que dizer, e é isso que o capítulo treina. A preceptora entra em todas as três, e o que ela confere é a conta.

Decisão de rastreamento hoje. Números de ensaios antigos ilustram magnitude, sem decidir sozinhos indicação atual. Na orientação federal para mamografia, oferta populacional bienal dos 50 aos 74 anos; dos 40 aos 49, acesso sob demanda com informação sobre benefícios e danos. Alto risco e sintomas têm avaliação própria. Usar frequências com mesmo denominador e horizonte, explicar sobrediagnóstico e garantir seguimento.

  1. 07h50 — antes de chamar o primeiro nome, cinco minutos com as três pastas

    Antes de qualquer conversa, separe o que cada uma das três traz. A pergunta de Nicanor é sobre benefício individual: quanto isto me ajuda. A de Joselita é sobre um exame que ela quer e que talvez não lhe sirva agora, o que é uma pergunta de balanço entre benefício e dano numa pessoa sem sintoma. A de Anilzo é sobre uma fração atribuível que ele entendeu ao contrário. Três perguntas diferentes exigem três medidas diferentes, e confundi-las é o erro que produz as três conversas ruins. Escreva, no verso de cada pasta, o desfecho e o prazo que a resposta vai usar. Nicanor: evento cardiovascular maior, cinco anos. Joselita: morte por câncer de mama, dez anos. Anilzo: risco de câncer de pulmão depois de parar, tempo longo e sem número exato disponível. Já aqui se descobre qual das três respostas vai ter número e qual não vai.

    Prescrição
    • Anote em cada pasta duas palavras: o desfecho e o prazo.
    • Marque qual das três perguntas é sobre a pessoa e qual é sobre a população.
    • Deixe a calculadora do celular aberta. Vai usar nas três.
  2. 08h05 — Nicanor entra, e a pergunta chega inteira na primeira frase

    Ele senta e pergunta antes de você: doutor, isso aí me ajuda em quanto. A frase que a residente anotou no verso do pedido diz que a estatina reduz em vinte e cinco por cento os eventos cardiovasculares, e essa frase, sozinha, não responde nada — porque vinte e cinco por cento de um risco de 20% e vinte e cinco por cento de um risco de 2% são ofertas que diferem por um fator de dez. O que falta é o risco de partida dele, e esse é um cálculo de estratificação que pertence ao capítulo de dislipidemias e risco cardiovascular global, na apostila de Cardiologia. Aqui o trabalho é outro: pegar o risco que aquele capítulo produz e transformá-lo em pessoas. Se o risco de Nicanor em cinco anos for de 10%, a redução de um quarto leva para 7,5%, a diferença é de 2,5 pontos percentuais, e quarenta pessoas como ele precisam tomar o remédio por cinco anos para que uma escape de um evento. Se o risco for de 2%, o mesmo quarto produz meio ponto percentual e duzentas pessoas. A conversa muda de tom quando esse número aparece, e muda nos dois sentidos. Há paciente que ouve quarenta e acha pouco; há paciente que ouve quarenta e acha muito razoável para um comprimido barato de tomada diária. Nenhuma das duas reações é errada, e é exatamente essa a razão de entregar o número: a decisão tem uma parte que não é sua.

    Prescrição
    • Peça o risco basal ao capítulo que estratifica — não o invente.
    • Se a medida é RR, calcular RAR = risco basal × (1−RR) e, quando apropriado, NNT = 1/RAR, usando proporções e o mesmo horizonte. Se a medida é OR, converter com risco basal compatível antes de calcular diferença; não aplicar o atalho do RR.
    • Diga o número em pessoas e diga o prazo na mesma frase.
    • Ofereça o outro lado antes que ele pergunte: o que pode dar errado, e em quantas pessoas.
  3. 08h20 — ainda com Nicanor: o número necessário para causar dano entra na conversa

    Entregar só o benefício é meia informação, e a metade que falta é a que o paciente vai descobrir sozinho na bula. A mesma aritmética serve: pegue a frequência do efeito adverso que importa no grupo tratado e no grupo de comparação, subtraia, inverta. O resultado é quantas pessoas se trata para que uma seja prejudicada, e ele entra na frase ao lado do benefício, nas mesmas unidades. Duas honestidades pertencem a esse momento. A primeira é que os efeitos adversos costumam ser medidos com menos cuidado do que os benefícios — os ensaios são desenhados para detectar o desfecho principal, e um evento raro de segurança quase nunca tem tamanho de amostra para ser detectado. A segunda é que, quando o intervalo do dano é largo, dizer que não houve diferença é errado; o certo é dizer que não se sabe. Se ele perguntar qual dos dois números é mais confiável, a resposta honesta é o do benefício, e a razão é justamente essa: foi o desfecho para o qual o estudo foi feito.

    Prescrição
    • Traga o efeito adverso que muda a vida dele, não a lista inteira da bula.
    • Use a mesma unidade dos dois lados: pessoas tratadas, mesmo prazo.
    • Se o intervalo do dano for largo, diga que não se sabe — não diga que não há.
  4. 08h40 — Joselita, o recorte de jornal e a frase dos vinte por cento

    Ela tem 45 anos, veio porque leu, e quer o pedido. A frase do jornal — a mamografia reduz em vinte por cento a mortalidade por câncer de mama — é uma redução relativa sem risco de partida, exatamente como a de Nicanor, e sofre do mesmo problema com uma agravante: aqui o risco de partida muda muito com a idade, e é isso que decide. O quadro de evidências das diretrizes brasileiras de detecção precoce traz os dois extremos na mesma página. Entre 60 e 69 anos, a redução absoluta publicada corresponde a trezentas e setenta mulheres convidadas por uma morte evitada. Entre 39 e 49, corresponde a duas mil. A razão entre as duas é 5,4, e o texto do próprio documento afirma que o número é mais de cinco vezes maior na faixa mais jovem. A eficácia do exame quase não mudou entre as duas faixas; o que mudou foi quanta doença havia para encontrar. O que fazer com a Joselita não é assunto deste capítulo, e vale dizer isso a ela e a você mesmo: quem rastrear, com que exame e em que intervalo é do capítulo de rastreamento do câncer de mama, na apostila de Ginecologia, que também cuida do dano do rastreio — falso-positivo, biópsia desnecessária, sobrediagnóstico. O que este capítulo entrega é a frase que faz ela entender por que a régua tem idade: não é que o exame funcione menos aos quarenta e cinco; é que, para encontrar uma morte evitável, é preciso convidar cinco vezes mais mulheres, e cada uma dessas mulheres corre os riscos do próprio exame.

    Prescrição
    • Diga o número das duas faixas etárias, não só o da dela.
    • Explique que o que mudou foi o risco de partida, não a qualidade do exame.
    • Mande a decisão de rastrear para o capítulo dono, e diga que vai mandar.
    • Não termine sem perguntar o que a fez recortar o jornal — às vezes há um caso na família que ela não contou.
  5. 09h00 — Anilzo, e a frase que ele entendeu ao contrário

    Ele parou de fumar em janeiro depois de trinta e oito anos e quer saber se ainda adianta. Na consulta anterior alguém lhe disse que o cigarro causa setenta por cento dos cânceres de pulmão, e ele saiu entendendo que setenta por cento dos fumantes têm câncer de pulmão. As duas frases têm as mesmas palavras e sujeitos opostos. A fração atribuível é uma frase sobre os doentes, não sobre os expostos. Dizer que setenta e um por cento das mortes por câncer de pulmão são atribuídas ao fumo — como registra o protocolo federal do tabagismo, citando a Organização Mundial da Saúde — é dizer que, de cada dez pessoas que morrem dessa doença, sete não teriam morrido num mundo sem cigarro. Não diz nada sobre a probabilidade de um fumante adoecer, que é muito menor que setenta por cento. A correção precisa vir sem alívio falso, e é aqui que a conversa fica delicada. Anilzo não tem setenta por cento de chance de ter câncer, e isso é um alívio verdadeiro. Mas o risco dele é maior que o de quem nunca fumou, e parar reduz esse excesso ao longo do tempo sem zerá-lo. As duas coisas cabem na mesma frase, e ele tem direito às duas. Há uma pergunta que ele não fez e que vale responder: por que tanta gente fala de cigarro se o risco individual não é setenta por cento. A resposta é o capítulo inteiro em uma frase — porque a fração atribuível é alta quando muita gente está exposta, e é por isso que o cigarro domina as listas de saúde pública. O protocolo registra a prevalência de tabagismo entre homens brasileiros caindo de 43,3% em 1989 para 18,9% em 2013, e entre mulheres de 27,0% para 11,0%. Quando a prevalência cai pela metade, a fração atribuível cai junto, mesmo que o risco de cada fumante não tenha mudado nada.

    Prescrição
    • Nomeie o sujeito da frase: é sobre os mortos pela doença, não sobre os fumantes.
    • Dê o alívio verdadeiro e não dê o falso.
    • Reforce que parar reduz o excesso ao longo do tempo, sem prometer zerar.
    • Registre a cessação no prontuário como conduta, porque é conduta.
  6. 09h20 — a preceptora entra e pede as contas

    Gerusa entra depois da terceira consulta e faz a pergunta que a preceptoria boa faz: qual foi o risco de partida que você usou em cada uma. É a única pergunta necessária, porque quem sabe responder a ela fez todo o resto certo. O que se mostra a ela são três linhas. Na de Nicanor, o risco basal, a redução relativa, a diferença absoluta e o número de pessoas, com o prazo. Na de Joselita, os dois números das duas faixas etárias e a razão entre eles. Na de Anilzo, a distinção de sujeito, que não tem conta e tem consequência. Se alguma das três não tiver risco de partida — e uma delas não tem, porque a pergunta de Anilzo não é desse tipo —, diga isso. Um capítulo sobre medidas de efeito que não ensina a reconhecer a pergunta que não pede medida de efeito ensinou pela metade.

    Prescrição
    • Apresente cada caso pela ordem: desfecho, prazo, risco basal, medida, diferença, pessoas.
    • Diga em voz alta qual conta você não fez, e por quê.
    • Peça a ela o que você não sabe conferir: se o risco basal que você usou é o certo para aquele paciente.
  7. 09h35 — o que fica escrito no prontuário

    Conversa sobre magnitude de efeito é conduta, e conduta se registra. O registro não precisa ser longo: precisa dizer qual número foi entregue, com que prazo, e qual foi a resposta do paciente. Isso tem duas utilidades práticas, e nenhuma delas é burocrática. A primeira é que o paciente vai voltar, e quem o atender precisa saber o que já foi dito — repetir um número diferente na consulta seguinte destrói a confiança mais rápido que qualquer erro técnico. A segunda é que decisão compartilhada registrada é o que sustenta a conduta de quem escolheu não tratar: um paciente que recusou uma estatina depois de ouvir que quarenta pessoas se tratam por um benefício não é um paciente não aderente, é um paciente informado, e a diferença entre essas duas frases no prontuário é enorme.

    Prescrição
    • Registre: desfecho, prazo, número absoluto entregue, decisão do paciente.
    • Escreva a decisão dele com as palavras dele, entre aspas, quando ela contrariar a sua sugestão.
    • Não registre o número relativo sozinho — foi o que criou a confusão em primeiro lugar.
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Como saber se está funcionando

Não há sinal vital para conferir aqui, e mesmo assim há reavaliação — a de que a conta que você fez está certa e a de que a frase que você disse foi entendida. Os parâmetros abaixo se conferem no mesmo dia, alguns antes mesmo de falar.

Em cada linha estão o achado que confirma a conta e a saída para quando ele não aparece. Cinco dos sete se resolvem em menos de um minuto, e o primeiro é o que mais salva.

A ordem de grandeza do número necessárioImediatamente, antes de dizer qualquer coisa em voz alta

Esperado: O número necessário para tratar cai entre a dezena e o milhar em quase toda intervenção clínica útil. Valores de um dígito são raros e ocorrem em situações de risco muito alto e efeito muito grande; valores acima de dez mil são de intervenção populacional, não de consultório.

Se não melhora: Número de um dígito quase sempre significa que você usou o risco basal em porcentagem onde a fórmula pedia proporção — o erro de casa decimal por fator cem. Refaça com o risco escrito como fração de um.

O sinal da diferençaJunto com a primeira conferência

Esperado: Diferença positiva quando o tratamento reduz um desfecho ruim, e o número resultante é número necessário para tratar. Diferença negativa quando o tratamento aumenta, e o número é necessário para causar dano.

Se não melhora: Se o sinal saiu invertido em relação ao que você esperava, não corrija o sinal: releia qual grupo estava em cada coluna. Foi isso que produziu, nas tabelas oficiais que conferimos, números necessários negativos impressos como se fossem benefício.

O prazo dito em voz altaNa própria frase, sem intervalo

Esperado: Toda entrega de número absoluto sai acompanhada do horizonte: quarenta pessoas em cinco anos, trezentas e setenta convidadas ao longo do seguimento do estudo.

Se não melhora: Se você disse o número sem o prazo, volte e diga o prazo antes de mudar de assunto. Número sem horizonte é a forma mais comum de exagerar sem mentir.

A devolução do pacienteTrinta segundos depois da frase

Esperado: Pergunte o que ele entendeu e escute a resposta com as palavras dele. O esperado é que ele consiga repetir a quantidade de pessoas e o prazo, ainda que com números arredondados.

Se não melhora: Se ele devolver a porcentagem em vez da quantidade de pessoas, a tradução não pegou. Repita usando um grupo que ele consiga imaginar — a rua dele, o turno da fábrica, a fila da unidade — em vez de repetir o mesmo número mais devagar.

A frequência do desfecho no grupo de comparaçãoAntes de repetir qualquer razão de chances

Esperado: A medida está nomeada corretamente e não foi traduzida de chances para riscos sem base. No exemplo de risco duplicado, OR passa de cerca de 2,02 com risco basal de 1% para 6,00 com risco basal de 40%; o RR continua 2. A comparação ilustra por que não são intercambiáveis.

Se não melhora: Se o desfecho for frequente e só houver razão de chances publicada, procure as contagens dos dois braços no mesmo artigo. Se não houver contagens, diga a direção do efeito e não diga o tamanho.

A posição do 1 e a largura do intervaloAntes de concluir qualquer coisa sobre significância

Esperado: Intervalo estreito que cerca o 1 de perto autoriza dizer que um efeito grande foi razoavelmente descartado. Intervalo largo que contém o 1 autoriza dizer apenas que não se sabe.

Se não melhora: Se o limite superior for muitas vezes o inferior — como no 0,76 a 25,85 que conferimos —, a conclusão honesta é ignorância, não equivalência. Escreva ignorância no prontuário se for o caso.

Quem é o sujeito da frase de fração atribuívelSempre que a palavra atribuível aparecer

Esperado: A fração atribuível fala dos doentes ou dos mortos pela doença, e responde ao gestor. O número necessário fala dos tratados, e responde ao paciente. Os dois não se substituem em nenhuma direção.

Se não melhora: Se a frase que você formulou permite ser entendida como probabilidade individual, ela está errada mesmo que o número esteja certo. Reescreva começando por de cada dez pessoas que morrem desta doença.

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Onde o erro machuca

Repetir a redução relativa sem o risco de partida

O dano: É o erro que produz todos os outros, e ele não parece erro porque a frase é verdadeira. Dizer que a intervenção reduz um quarto do risco sem dizer um quarto de quanto transfere ao paciente uma decisão que ele não tem como tomar, e transfere com viés: a redução relativa soa sempre grande, inclusive quando corresponde a uma pessoa em quatro mil. O Caderno de Atenção Primária nº 29 escreve isso de frente — duplicar um risco insignificante o mantém insignificante, duplicar um risco comum o torna alarmante, e a tomada de decisão requer medidas absolutas.

Como pegar a tempo: Regra pessoal e sem exceção: nenhuma porcentagem relativa sai da sua boca sem a quantidade de pessoas ao lado. Se você não tem o risco de partida, não tem a frase — e dizer isso ao paciente é melhor do que entregar metade dela.

Errar a casa decimal na inversão

O dano: Um dividido por 2,5 dá 0,4; um dividido por 0,025 dá 40. É o mesmo erro de escrever a diferença em pontos percentuais onde a fórmula pede proporção, e ele muda o número por um fator de cem — na direção de prometer benefício enorme, porque produz números necessários de um dígito. Um paciente a quem se diz que duas pessoas se tratam por um benefício sai do consultório com uma ideia falsa e forte.

Como pegar a tempo: Converta tudo para proporção de um antes de dividir: 2,5 pontos percentuais viram 0,025. E use a conferência de ordem de grandeza — número de um dígito em intervenção de prevenção é praticamente sempre erro de casa decimal.

Tratar razão de chances como se fosse risco quando o desfecho é comum

O dano: Num desfecho que ocorre em 40% do grupo de comparação, um risco que dobra produz razão de chances de 6,00 — três vezes a razão de riscos verdadeira. Repetir esse 6,00 como se fosse risco multiplica por três a força aparente da associação. Em inquérito brasileiro isso é rotina, porque prevalências de hipertensão, excesso de peso e sedentarismo não são pequenas, e a regressão logística é o padrão de análise.

Como pegar a tempo: Antes de repetir qualquer razão de chances, procure a frequência do desfecho no grupo de comparação. Abaixo de um décimo, siga; acima, procure a razão de prevalências ou as contagens. Barros e Hirakata, na Universidade Federal de Pelotas, mostraram o tamanho do desvio em três desfechos do mesmo conjunto de dados: 6,3% de exagero com prevalência de 4,1%, 11,0% com 31,2% e 122,6% com 51,4%.

Ler intervalo que contém o 1 como prova de que não há efeito

O dano: É a confusão entre não encontrar e não existir, e ela fecha portas nas duas direções: descarta tratamento que talvez funcione e absolve dano que talvez exista. Quando o protocolo federal do tabagismo relata razão de risco de 4,44 com intervalo de 0,76 a 25,85 para eventos adversos graves, ler ali ausência de dano é o erro exato — o intervalo comporta desde uma redução de um quarto até um aumento de vinte e seis vezes.

Como pegar a tempo: Olhe a largura antes de olhar a posição. Intervalo estreito em torno do 1 permite dizer que efeito grande foi descartado; intervalo largo permite dizer apenas que não se sabe. Traduza os dois limites em pessoas com o risco do seu paciente — é a conta que transforma uma conclusão estatística numa conversa clínica.

Transportar fração atribuível para a probabilidade de uma pessoa

O dano: É o erro do Anilzo, e ele é comum entre profissionais, não só entre pacientes. Setenta e um por cento das mortes por câncer de pulmão atribuídas ao fumo não é setenta e um por cento dos fumantes com câncer de pulmão. A fração atribuível é uma frase sobre os doentes; o risco é uma frase sobre os expostos. Trocar os sujeitos produz pânico injustificado num paciente e descrédito quando ele descobre que o número não era sobre ele.

Como pegar a tempo: Comece a frase pelo sujeito certo: de cada dez pessoas que morrem desta doença, sete não morreriam num mundo sem cigarro. Se a frase que você montou puder ser lida como probabilidade individual, ela está errada mesmo com o número certo.

Aceitar o número necessário sem perguntar de qual conta ele veio

O dano: Nem todo número com esse nome é o inverso de uma diferença de risco. O próprio Caderno nº 29 define número necessário para rastrear como inverso da redução do risco absoluto e, páginas adiante, usa o mesmo nome para 878 crianças por um diagnóstico — que é rendimento de detecção, não redução de risco. Confundir as duas contas faz um rastreamento parecer eficiente quando o que se mediu foi apenas quantos casos ele encontra.

Como pegar a tempo: Faça sempre a pergunta: este número responde quantos exames para achar um caso, ou quantos exames para evitar um desfecho? Se o texto não disser, o inverso do número costuma denunciar — quando bate com a prevalência da condição, é rendimento de detecção.

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O que dizer ao paciente e à família

As falas deste capítulo têm uma dificuldade própria: você precisa entregar um número que quase sempre é menor do que o paciente esperava, sem que isso soe como desistência da conduta. A saída não é suavizar o número — é dar a ele um tamanho que a pessoa consiga imaginar, e devolver a decisão junto.

Repare que nenhuma das respostas abaixo usa porcentagem como unidade final. Todas terminam em pessoas, em prazo, ou nos dois.

"Doutor, esse remédio me ajuda em quanto?"

"Vou responder com gente, que é mais fácil de entender do que porcentagem. Pelo seu risco hoje, se a gente pegasse quarenta pessoas iguais ao senhor e todas tomassem esse remédio por cinco anos, uma delas escaparia de um infarto ou derrame que teria acontecido. As outras trinta e nove tomariam sem que fizesse diferença para elas — só que ninguém sabe, no começo, qual das quarenta é a que vai se beneficiar. É por isso que se oferece para todas."

Não diga: "Reduz vinte e cinco por cento o seu risco", que é verdadeiro e não informa nada. E "é muito importante o senhor tomar", que substitui o número por autoridade.

"Quarenta pessoas para uma? Então não vale a pena."

"Pode ser que não valha para o senhor, e essa parte da decisão é sua mesmo. Só quero que a conta esteja completa antes: é um comprimido por dia, barato, que o posto entrega, com efeito colateral incomum. Uma chance em quarenta de evitar um infarto pode parecer pouca escrita no papel e ser bastante quando é a sua. Se o senhor preferir não tomar, eu registro isso e a gente segue cuidando do resto — e a conversa fica aberta para o senhor mudar de ideia."

Não diga: Insistir com um número maior, ou trocar para a redução relativa porque ela soa melhor. Trocar de medida no meio da conversa para convencer é manipulação, ainda que com números verdadeiros.

"Li que a mamografia reduz vinte por cento das mortes. Quero fazer."

"Esse número é verdadeiro, e ele muda muito com a idade — não porque o exame funcione diferente, mas porque a quantidade de doença é diferente. Depois dos sessenta, é preciso convidar cerca de trezentas e setenta mulheres para evitar uma morte. Na sua faixa, são cerca de duas mil. É mais de cinco vezes mais gente examinada, e cada exame tem os seus próprios riscos. Quem decide quando começar e de quanto em quanto tempo é a régua do programa, e eu vou te explicar exatamente o que ela diz e por quê."

Não diga: "A senhora ainda não tem idade", que soa como recusa administrativa e não explica nada. E prometer o pedido para encerrar a consulta.

"Me disseram que o cigarro causa setenta por cento dos cânceres de pulmão. Eu já era?"

"Essa frase não é sobre o senhor, é sobre quem morre dessa doença. Ela quer dizer que, de cada dez pessoas que morrem de câncer de pulmão, cerca de sete não teriam morrido se ninguém fumasse. Não quer dizer que sete em cada dez fumantes tenham câncer — isso está muito longe de ser verdade. O seu risco é maior que o de quem nunca fumou, sim, e ele diminui com o tempo desde que o senhor parou. Parar em janeiro não apagou o passado, mas mudou o futuro."

Não diga: "Não se preocupe", que descarta a pergunta. E confirmar o mal-entendido por omissão, deixando-o achar que tem setenta por cento de chance de adoecer.

"O estudo deu que não tem diferença, então esse remédio não funciona?"

"Não é bem isso, e a diferença entre as duas frases importa. O que o estudo diz é que não conseguiu separar as duas possibilidades. Os números dele são compatíveis com o remédio reduzir um pouco o risco e também com ele aumentar um pouco. Quando a faixa de resultados possíveis é larga assim, a conclusão certa é que não se sabe, e não que não funciona. Para o senhor, na prática, isso significa que eu não vou prometer benefício — e também não vou dizer que está descartado."

Não diga: "Não funciona", que é uma conclusão que os dados não sustentam. E "deu negativo", que embaralha teste diagnóstico com estudo.

Na visita: "a evidência é forte, esse é o tratamento padrão" — e você quer perguntar sem parecer arrogante

"Fiquei com uma dúvida de leitura, não de conduta: qual era o risco no grupo controle desse estudo? Estou tentando montar o número em pessoas para explicar ao paciente, e sem o risco de partida eu não consigo fechar a conta."

Não diga: Contestar a conduta quando a sua dúvida é sobre a magnitude. São conversas diferentes, e misturá-las faz a segunda parecer a primeira.

A família pergunta: "mas em porcentagem, quanto é?"

"Em porcentagem são dois pontos e meio a menos, de dez por cento para sete e meio. Só que porcentagem engana a gente nos dois sentidos, e por isso eu prefiro dizer em pessoas: são quarenta tratadas para uma se beneficiar, em cinco anos. Os dois jeitos dizem exatamente a mesma coisa — é a mesma conta escrita de duas formas."

Não diga: Recusar-se a dar a porcentagem. Se a família pede, entregue as duas e mostre que são a mesma conta — esconder uma das formas cria desconfiança.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Em corte transversal com desfecho comum, relatar razão de chances ou razão de prevalências?

Estimar a razão de prevalências diretamente

Quando o desfecho é frequente, a razão de chances se afasta de forma sistemática da razão de prevalências, e sempre na direção de fazer a associação parecer mais forte. A recomendação é estimar a razão de prevalências por regressão de Poisson com variância robusta, regressão de Cox com variância robusta ou regressão log-binomial, em vez de relatar a razão de chances da regressão logística. No exemplo com desfecho em 51,4% da amostra, a razão de chances publicada foi 3,75 contra razão de prevalências de 1,68 — mais que o dobro.

Barros AJD, Hirakata VN, Programa de Pós-graduação em Epidemiologia da Universidade Federal de Pelotas, BMC Medical Research Methodology, 2003

Manter a razão de chances da regressão logística

A regressão logística permanece o método de ajuste mais usado na literatura epidemiológica, tem propriedades estatísticas bem estabelecidas, converge onde os modelos alternativos às vezes não convergem, e produz medidas comparáveis com décadas de publicações anteriores. Nesta leitura, o problema não está em estimar a razão de chances e sim em interpretá-la como se fosse risco; a solução seria de redação, não de método.

Prática consolidada refletida nos próprios inquéritos e artigos brasileiros que relatam razão de chances para desfechos frequentes; posição reconstruída a partir do uso corrente, sem documento normativo brasileiro que a estabeleça

Como decidir

Para o interno que lê e não publica, a decisão é de leitura e resolve-se no mesmo minuto: procure a frequência do desfecho no grupo de comparação. Abaixo de um décimo, leia a razão de chances quase como razão de riscos e siga. Acima disso, saiba que o número está inflado, procure as contagens no mesmo artigo e, se não houver, entregue ao paciente a direção do efeito e não o tamanho. Nenhum documento federal brasileiro lido para este capítulo fixa regra sobre isso, de modo que a escolha continua sendo do autor de cada estudo — e a defesa é do leitor.

Intervalo largo que contém o 1: dizer ao paciente que não há benefício, ou que não se sabe?

Ausência de benefício demonstrado é razão suficiente para não oferecer

Diante de razão de risco de 0,96 com intervalo de 0,86 a 1,08 para mortalidade, o protocolo federal da dislipidemia lê o resultado como sugerindo ausência de benefício e, com base nisso, restringe o uso do ácido nicotínico às situações de intolerância a estatinas em que não haja critério para fibratos. É a posição de que política pública e prescrição se fazem com benefício demonstrado, e que a incerteza deve pesar contra a intervenção, não a favor dela.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dislipidemia, Ministério da Saúde, conteúdo da Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 8, de 30 de julho de 2019

O intervalo comporta benefício relevante, e isso é informação do paciente

O mesmo intervalo de 0,86 a 1,08 é compatível com redução de 14% do risco. Num paciente com risco de 10% em cinco anos, o limite favorável corresponde a tratar 71 pessoas para evitar um óbito e o desfavorável a tratar 125 para causar um. Nesta leitura, resumir os dois cenários como ausência de benefício descarta metade do que os dados dizem, e o paciente tem direito a saber que a pergunta segue aberta em vez de ouvir que foi respondida.

Leitura aritmética dos limites publicados no mesmo protocolo, refeita para este capítulo; a tradução em pessoas é dedução nossa a partir de um risco basal hipotético de 10% em cinco anos

Como decidir

Separe as duas decisões, que costumam ser tratadas como uma. A decisão de incorporar ou não uma tecnologia ao Sistema Único é coletiva, orçamentária e não é sua: ali a incerteza pesa contra a intervenção, e o protocolo é o que vale. A decisão sobre o que dizer ao paciente à sua frente é sua, e ali a frase honesta é a que separa não sabemos de não funciona. As duas coisas convivem: você segue o protocolo na conduta e não repete, na conversa, uma certeza que os números não têm.

Número necessário grande: argumento para não oferecer, ou informação a ser entregue?

Acima de certo tamanho, o número decide sozinho

Quando são precisas duas mil pessoas convidadas para um desfecho evitado, e quando cada uma dessas pessoas se expõe a falso-positivo, exame adicional, biópsia e sobrediagnóstico, o número necessário deixa de ser uma informação e passa a ser um argumento: o balanço entre benefício e dano não sustenta o oferecimento. A decisão brasileira de não incorporar a ezetimiba seguiu essa lógica de forma explícita — um único ensaio com desfecho duro e número necessário para tratar de 50, descrito como de relevância questionável.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dislipidemia, Ministério da Saúde, que cita a decisão de não incorporação da comissão nacional formalizada em portaria de 2018; e Diretrizes para a detecção precoce do câncer de mama no Brasil, Instituto Nacional de Câncer, 2015

O número é a informação que torna a decisão do paciente possível

A medida absoluta existe justamente para que a pessoa possa julgar se o ganho vale para ela, e esse julgamento não é transferível: um número que parece pequeno para o serviço pode ser aceitável para quem convive com o medo da doença, e inaceitável para quem já carrega dez comprimidos. Nesta leitura, suprimir o número em nome de uma decisão já tomada devolve ao paciente exatamente a assimetria que a medida absoluta veio corrigir.

Caderno de Atenção Primária nº 29, Ministério da Saúde, que afirma que a tomada de decisão requer medidas absolutas e descreve o número necessário como intuitivamente útil para os profissionais de saúde e seus pacientes

Como decidir

Pergunte de quem é a decisão em questão. Quando o que está em jogo é um programa — quem o sistema convoca, com que exame e em que intervalo —, a decisão é coletiva e o número grande de fato pesa contra oferecer, porque o dano se distribui por todos os convidados. Quando o que está em jogo é o que este paciente faz, o número é dele, e negá-lo por achar que ele vai decidir errado é decidir no lugar dele. No consultório, as duas coisas se resolvem dizendo qual é qual: esta é a régua do programa, e este é o número que ela produz para o senhor.

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O raciocínio, em voz alta

Terça-feira, 14h10, ambulatório de clínica médica de hospital de ensino. Genoveva Escobar tem 58 anos, é auxiliar administrativa de uma transportadora e chega com um envelope de exames e uma pergunta pronta. Na semana passada, num mutirão de saúde da empresa, ouviu de um palestrante que quem tem a pressão alta tem quase três vezes mais risco de doença do coração, e que a hipertensão é a maior causa de morte cardiovascular do país. Ela é hipertensa, toma o remédio quase todos os dias, e quer saber duas coisas: se ela tem três vezes mais risco de morrer do coração e por que, se a pressão é a maior causa, o médico dela nunca falou nisso desse jeito.

  1. o que eu penso antes de responder

    As duas perguntas dela parecem uma e são duas, e vêm de duas medidas diferentes que o palestrante juntou numa frase. A primeira — três vezes mais risco — é uma razão, e fala de uma pessoa. A segunda — maior causa de morte cardiovascular do país — é uma fração atribuível, e fala da população. As duas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo, e nenhuma responde à outra. Também percebo o que ela não perguntou e o que está por baixo: ela toma o remédio quase todos os dias, e essa palavra vale mais para o desfecho dela do que qualquer número que eu vá dizer. Anoto para voltar nisso antes do fim.

  2. separar as duas medidas com um exemplo que ela consiga carregar

    Uso o exemplo que está no módulo de epidemiologia publicado em Brasília pela Organização Pan-Americana da Saúde, porque ele é limpo e tem os três fatores lado a lado. Numa coorte de 1.112 homens acompanhados por dezesseis anos, a hipertensão sistólica tinha risco relativo de 2,9 — o maior dos três — e respondia por apenas 3,6% da doença coronária daquela população. O tabagismo tinha risco relativo de 1,9, o menor dos três, e respondia por 39,5%. A explicação cabe numa frase: naquele grupo, só 2% eram hipertensos e quase 72% fumavam. A hipertensão multiplicava mais o risco de cada pessoa; o cigarro alcançava mais gente. As duas listas — a de quem multiplica mais e a de quem causa mais doença — saíram invertidas uma em relação à outra. Digo a ela que refizemos essas contas e elas fecham, o que importa porque o exemplo é o argumento.

  3. responder a primeira pergunta, que é sobre ela

    "O três vezes é sobre quanto a pressão alta multiplica o risco, não sobre a chance de a senhora morrer do coração. Para saber o que isso significa para a senhora, eu preciso saber de qual número estamos multiplicando — e esse número depende da sua idade, do colesterol, do açúcar no sangue, de fumar ou não. É o que a gente vai calcular hoje. Multiplicar por três um risco pequeno continua dando um risco pequeno; multiplicar por três um risco grande dá um problema sério. Sem o primeiro número, o três não diz nada." Ela entende de imediato, e faz a pergunta certa: então quanto é o meu? Respondo que o cálculo do risco global tem capítulo próprio e é o que vamos fazer com os exames que ela trouxe — e que, com esse número na mão, eu consigo dizer em quantas pessoas como ela o tratamento evita um evento.

  4. responder a segunda pergunta, que é sobre o país

    "A outra frase é verdadeira e é sobre o Brasil, não sobre a senhora. A Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial de 2025 registra a estimativa da Organização Mundial da Saúde de que 54% das mortes por causa cardiovascular no país em 2019 seriam atribuídas à pressão alta, e o estudo de carga global de doença apontou a hipertensão como o fator de risco responsável pela maior mortalidade do país. A pressão alta lidera essa lista não porque seja o fator mais violento por pessoa — há fatores que multiplicam muito mais —, mas porque tem gente demais com ela. É a mesma lógica do cigarro naquele exemplo, ao contrário." Registro no prontuário que essa distinção foi explicada, porque ela vai voltar e alguém vai repetir a frase.

  5. voltar ao que importa mais que os números

    "Agora a parte que muda mais o seu caso do que tudo o que a gente falou: a senhora disse que toma o remédio quase todos os dias. Quantos dias na semana, mais ou menos, a senhora esquece?" É a pergunta que rende. Nenhuma medida de efeito publicada sobrevive à diferença entre tomar e quase tomar, e o ganho de fechar essa lacuna costuma ser maior que o ganho de qualquer ajuste de dose. O que vem depois — meta de pressão, escolha de fármaco, ajuste — é do capítulo de hipertensão arterial sistêmica, na apostila de Cardiologia.

  6. o que fica escrito

    Registro: paciente trouxe duas afirmações de palestra, uma sobre risco relativo individual e outra sobre fração atribuível populacional; explicadas as duas e a diferença entre elas; risco cardiovascular global a ser calculado com os exames trazidos; identificada adesão irregular, quantificada em dias por semana; combinado retorno. Não registro a redução relativa sozinha, e não registro que a paciente foi orientada, que é a frase que não informa nada a quem ler depois.

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Faça você

Quinta-feira, 10h40, enfermaria de clínica médica de dezesseis leitos. Na visita, a residente propõe iniciar um anticoagulante oral novo no leito 9 e sustenta a conduta com uma frase: o estudo mostrou redução de 21% no desfecho combinado, com razão de risco de 0,79 e intervalo de 0,66 a 0,96. O leito 9 é do senhor Orlindo Zubaran, 74 anos, 68 quilos, internado por pneumonia e com fibrilação atrial descoberta na internação. Ele ouve a conversa inteira, e quando a equipe se vira para sair pergunta: "vinte e um por cento é bom, doutor?". Os dois primeiros passos vão resolvidos abaixo; os cinco seguintes são seus.

  1. passo 1 — dado: identificar o que a frase é e o que ela não é

    A frase traz uma razão de risco com intervalo, e o intervalo não contém o 1: vai de 0,66 a 0,96. Isso autoriza dizer que o resultado é compatível com efeito protetor, e não autoriza dizer quanto isso vale para o senhor Orlindo. Falta o risco de partida, e falta o prazo do estudo. Falta também saber o que entrou no desfecho combinado — combinado de quê, e se algum componente sustenta sozinho o resultado.

  2. passo 2 — dado: traduzir os limites do intervalo antes de traduzir o ponto

    Os dois limites são informação, e o hábito de olhar só o valor do meio esconde metade dela. Um limite de 0,66 é uma redução de um terço; um limite de 0,96 é uma redução de 4%. Aplicados a um mesmo risco de partida, esses dois limites produzem números de pessoas muito diferentes, e é esse par de números — não o valor central — que descreve honestamente o que se sabe.

  3. passo 3 — complete: qual pergunta você faz à residente, e por quê

    Escreva a pergunta em uma frase, e escreva por que ela é a pergunta certa. Considere: o risco do grupo de comparação e o tempo de seguimento são o mínimo, mas há uma terceira informação sem a qual o número não serve para este paciente. Pense em quem foi incluído no estudo e no que o senhor Orlindo tem que os participantes talvez não tivessem. Formule a pergunta de modo que ela seja sobre leitura do estudo, não sobre a conduta dela.

  4. passo 4 — complete: as contas, com um risco basal de 6% ao ano

    Suponha que o risco do grupo de comparação tenha sido de 6% ao ano. Calcule: o risco no grupo tratado com a razão de 0,79; a diferença absoluta; quantas pessoas se tratam por um desfecho evitado em um ano. Depois repita as três contas para o limite de 0,66 e para o limite de 0,96, e escreva os três números de pessoas lado a lado. Confira a ordem de grandeza antes de acreditar em qualquer um deles.

  5. passo 5 — complete: o outro lado da conta

    Um anticoagulante tem um desfecho ruim que se mede do mesmo jeito. Escreva qual é, e escreva qual conta você faria para colocá-lo na mesma frase que o benefício. Diga também de onde viria o número — e o que fazer se o intervalo desse desfecho for largo, como costuma ser.

  6. passo 6 — complete: a resposta ao senhor Orlindo, em voz alta

    Escreva a frase que você diria a ele, com estas restrições: no máximo quatro linhas, terminando em pessoas e não em porcentagem, com o prazo dentro da frase, e com o outro lado da conta presente. Depois escreva a frase que você não diria, e por quê.

  7. passo 7 — complete: o que vai para o prontuário

    Em duas linhas: o que se registra desta conversa, e por que a redução relativa sozinha não deve entrar no registro. Inclua o que fazer se ele recusar, e como escrever essa recusa de modo que quem ler depois entenda que foi decisão informada e não falta de adesão.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

A estimativa pontual sugere aumento do risco, mas é muito imprecisa. O intervalo inclui desde redução de 24% até risco aproximadamente 26 vezes maior, incluindo ausência de diferença. Portanto, ausência de significância não demonstra segurança nem ausência de efeito; também não comprova dano. A razão de risco é uma medida de efeito, e o intervalo informa sua incerteza. A comunicação deve apresentar essa limitação e considerar a qualidade do estudo e o risco absoluto.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Sem consultar o texto, resolva a cena de abertura: Comunicar benefício e dano absolutos com população, comparador e horizonte explícitos. Descreva os achados que sustentam a decisão, um erro evitável e o plano para mudança do quadro; depois compare com o caso resolvido.

Em 30 dias

Retome um caso real acompanhado sob supervisão ou simule o caso do capítulo. Explique o que mudou na sua decisão, confira se o próximo passo ocorreu e identifique uma melhoria concreta. Não use dados identificáveis fora do ambiente autorizado. Competência a demonstrar: Comunicar benefício e dano absolutos com população, comparador e horizonte explícitos.

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Agora atenda

Agora atenda: ambulatório, e a Letícia, 22 anos, estudante de enfermagem, chega dizendo que se furou com a agulha de um paciente com HIV há cinco horas e quer saber o que faz agora. Antes de responder, monte o risco de partida dela — o acidente, a fonte e ela mesma — ou reconheça em voz alta o que ainda não se sabe. Depois entregue a resposta em pessoas e em prazo: quanto a conduta que você propõe muda esse risco, se o número que você cita é uma razão ou uma diferença, e o outro lado da conta junto. Nada disso pode atrasar o que é urgente; devolva a escolha a ela sem abandoná-la e termine dizendo o que fica no prontuário e o que ela deve fazer se mudar de ideia.

Medidas de associação – Quantas vezes, e quantos pacientes — Internato | OsceLabs