Pediatria › Nefrologia Pediátrica
Infecção urinária na criança
Infecção do trato urinário na criança e investigação de malformações
Antes de interpretar a urocultura, confira a coleta. Depois, integre idade, gravidade, exame de urina e evolução para tratar o episódio e decidir a investigação.
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Menina de 10 meses, 9 kg, primeiro episódio de infecção urinária febril, com urocultura por cateterismo positiva para Escherichia coli, tratada por 10 dias com boa resposta e afebril após 36 horas do início do antibiótico. Não há história familiar de doença renal, o crescimento segue o canal e a pressão arterial é normal. A ultrassonografia de rins e vias urinárias, feita duas semanas após o episódio, é normal. Segundo a NICE NG224, qual é a conduta de investigação por imagem?
O paciente que você vai ver
Sofia tem um ano e dois meses, nove quilos e meio, e está no colo da mãe há três dias de febre. Ela é a terceira da fila amarela de uma unidade de pronto atendimento numa quinta-feira de manhã, e não é a primeira vez que vem: esteve aqui na segunda, quando a febre tinha começado. Naquele dia ninguém achou foco. Ouvido sem alteração, orofaringe sem alteração, pulmão limpo, abdome sem nada, pele sem exantema. O colega que a atendeu fez o que se faz: pediu urina rotina e urocultura, e mandou colher em casa com saco coletor, porque a fila estava grande e a criança não estava mal.
A mãe volta hoje com um envelope. Dentro dele, o resultado: Escherichia coli, mais de cem mil unidades formadoras de colônia por mililitro. No verso, a receita que alguém deu por telefone: cefalexina, oito em oito horas, por sete dias. Sofia está no terceiro dia de antibiótico e continua com trinta e nove graus. E há um terceiro papel no envelope, escrito à mão, que é o que mais preocupa a mãe: um pedido de uretrocistografia miccional, com a palavra malformação escrita ao lado, e o telefone de um serviço de referência que não atende.
A mãe pergunta se o antibiótico está fraco. O pai, que veio junto, pergunta se o rim da filha está estragado. A técnica de enfermagem pergunta se pode já deixar a urina de hoje coletada, e está com o saco coletor na mão. E o preceptor, que passa pelo corredor, diz de longe que se a febre não cedeu em setenta e duas horas provavelmente é resistência e que talvez seja hora de internar para ceftriaxona.
Nada disso é a pergunta certa. A pergunta certa é anterior a todas elas e ninguém a fez ainda: essa urocultura significa alguma coisa? Porque ela foi colhida com saco coletor, e um saco coletor positivo é o achado mais enganoso da pediatria de porta. Colado à pele por meia hora, ele recolhe a urina e recolhe junto tudo o que mora na região perineal — e essa mistura, num pote em temperatura ambiente até o laboratório, é um meio de cultura excelente. Entre as culturas positivas colhidas assim, oitenta a oitenta e cinco por cento podem ser falso-positivas. Não é uma imprecisão de margem: é a maioria dos resultados.
Se essa cultura for falsa, quase tudo o que aconteceu com Sofia nos últimos três dias foi construído sobre nada. O antibiótico está tratando uma infecção que talvez não exista, e por isso a febre não cede. O foco verdadeiro da febre não foi procurado, porque o caso já tinha nome. E o encaminhamento para investigar malformação vai levar uma criança de um ano à uretrocistografia miccional, que é sondagem vesical, contraste dentro da bexiga e radiação — por causa de um diagnóstico que talvez nunca tenha sido feito.
Se essa cultura for verdadeira, o problema é outro e igualmente concreto: houve três dias de antibiótico que talvez não seja o certo, e a partir de agora a urina de Sofia está estéril pela droga, o que significa que a janela para colher uma cultura confiável se fechou. Colher agora, sob antibiótico, produzirá provavelmente uma cultura negativa que não prova nada. O erro de coleta não é apenas um erro de coleta: ele contamina todas as decisões seguintes e algumas delas são irreversíveis.
Infecção urinária é a segunda infecção bacteriana mais frequente da pediatria e é a doença em que a coleta define tudo — e é justamente a coleta que ninguém supervisiona. Ela é feita por uma técnica ocupada, ou pela mãe em casa, com um saco de plástico e uma orientação de trinta segundos, enquanto o médico está em outra sala. Depois o resultado volta em papel timbrado, com número, nome de bactéria e antibiograma, e ganha uma autoridade que a amostra não tem.
O papel do interno neste caso tem cinco partes, e nenhuma delas é escolher o antibiótico mais forte. Decidir que essa criança precisa de urina colhida. Colher direito, ou garantir que alguém colheu, sabendo o que cada método vale. Ler o exame de urina sabendo o que ele antecipa e o que ele não exclui. Iniciar o antimicrobiano certo pela via certa, no tempo certo, com a dose que a família consegue dar. E abrir ou não a investigação de imagem com critério — porque é o interno quem escreve o encaminhamento, e o encaminhamento escrito hoje é o exame que a criança fará daqui a dois meses, com ou sem indicação.
Quem adoece disso
A infecção do trato urinário é a segunda infecção bacteriana mais prevalente da pediatria. O Departamento Científico de Nefrologia da Sociedade Brasileira de Pediatria trabalha com uma incidência acumulada de 8,4% nas meninas e 1,7% nos meninos menores de sete anos de idade. Traduzido para a porta de um pronto atendimento: de cada doze meninas que chegarão aos sete anos, uma terá tido pelo menos um episódio. Não é doença de subespecialista, não é diagnóstico de exclusão e não é evento raro que se pensa depois de esgotar as outras hipóteses — é uma das primeiras coisas em que se pensa diante de uma criança pequena com febre.
A distribuição por sexo se inverte com a idade, e essa inversão muda a suspeita. No primeiro ano de vida a doença atinge igualmente meninos e meninas; nas séries brasileiras e internacionais, nesse período, a incidência chega a ser maior em meninos — 3,7% contra 2%. Entre neonatos febris dos dois primeiros meses de vida, a prevalência descrita é de 5% nas meninas e de 20,3% nos meninos não circuncidados, em coorte prospectiva de mais de mil pacientes com urina colhida por cateterismo. Depois do primeiro ano a proporção vira e não volta mais: predomínio feminino que pode chegar a vinte casos de menina para um de menino. Consequência prática: no lactente pequeno com febre, ser menino não afasta nada; na criança maior, ser menino aumenta a chance de haver alteração estrutural por trás.
O dado brasileiro que melhor descreve o que entra numa porta pública vem de um levantamento de dois anos no pronto-atendimento de pediatria do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo. Foram 5.300 uroculturas colhidas entre janeiro de 2006 e dezembro de 2007, com 176 casos de infecção urinária confirmada — uma positividade de 3,3%. Dos 176 casos, 133 (76%) em meninas e 84 (48%) em crianças de dois anos ou menos. O agente foi Escherichia coli em 122 culturas (69,3%) e Proteus mirabilis em 33 (18,7%), este último com predomínio masculino. As duas leituras que importam: a maioria esmagadora das uroculturas pedidas volta negativa, e quase metade dos casos confirmados está na faixa etária em que a criança não sabe dizer o que sente e não controla o esfíncter.
É por isso que a febre sem foco no lactente é o cenário que dá existência clínica a este tema. A prevalência média de infecção urinária em lactentes febris sem sinais localizatórios descrita na literatura é de cerca de 7%, e materiais de ensino brasileiros trabalham com 5%. Um em cada quinze a vinte lactentes que chegam com febre e exame físico sem foco tem infecção urinária — e ela é, nesse grupo, a infecção bacteriana grave que mais se encontra quando se procura. A régua da Sociedade Brasileira de Pediatria é direta: a suspeita diagnóstica deve ser feita em todo lactente com febre sem foco aparente há mais de vinte e quatro horas. A régua brasileira de rede pública acrescenta que o diagnóstico deve ser considerado mesmo com menos de vinte e quatro horas de febre, porque o risco de cicatriz renal cresce com o tempo de febre antes do antibiótico.
Dois números explicam por que este capítulo existe dentro de uma apostila de nefrologia e não só de infectologia. O primeiro: em até 85% dos lactentes e crianças com infecção urinária febril a cintilografia com DMSA na fase aguda mostra alteração do parênquima, e de 10% a 40% dessas crianças ficam com cicatriz renal permanente — de cada cem lactentes com pielonefrite, portanto, entre oito e trinta e quatro carregam cicatriz depois. O segundo: em 30% das crianças com anomalia congênita do rim e do trato urinário, a infecção urinária é o primeiro sinal da anomalia. A infecção é, ao mesmo tempo, uma doença aguda que se trata em dez dias e um evento-sentinela que pode denunciar um rim que já nasceu diferente.
A recorrência é regra, não exceção: até 30% dos lactentes e crianças têm novo episódio nos seis a doze meses seguintes ao primeiro. E o fator que mais explica a recorrência não é anatômico, é funcional — a disfunção vesical e intestinal está presente em 30% a 50% das crianças já na apresentação do primeiro episódio de infecção urinária. Constipação e padrão miccional infantilizado depois do controle esfincteriano fazem a criança reter urina, e urina retida é meio de cultura. Isso desloca boa parte da prevenção do consultório do nefrologista para a conversa de alta: a criança que sai tratada e constipada volta. O manejo detalhado da disfunção vesical e intestinal é tema próprio desta apostila e sai remetido daqui; o que não sai é a obrigação de perguntar.
Por fim, o que a epidemiologia diz sobre a gravidade imediata. Recém-nascidos e lactentes de até três meses têm probabilidade elevada de bacteremia e sepse a partir do foco urinário, com letalidade descrita em torno de 10% em protocolo público brasileiro — é a razão de esse grupo ter regra própria de internação e de coleta. Fora dele, o prognóstico da infecção urinária é bom desde que o diagnóstico e o tratamento sejam precoces. As crianças que evoluem para doença renal crônica são, em sua maioria, as que já tinham anormalidade renal congênita — hipoplasia e displasia bilateral, rim único, uropatia obstrutiva — ou alteração da função renal desde o início. O manejo da doença renal crônica e o da injúria renal aguda são temas próprios e saem remetidos.
Por que acontece o que acontece
A infecção urinária da criança é, quase sempre, uma infecção ascendente. A bactéria que causa a doença é a que já mora no intestino da própria criança: coloniza a região perineal, sobe pela uretra, chega à bexiga e, em parte dos casos, continua subindo pelo ureter até o parênquima renal. Todo o resto do capítulo decorre dessa frase — inclusive o problema da coleta, porque o caminho que a bactéria percorre para causar doença é exatamente o caminho que ela percorre para contaminar a amostra.
Escherichia coli responde por 80% a 90% das pielonefrites comunitárias da criança e por cerca de 70% do total de infecções urinárias em casuística brasileira de pronto-atendimento. Ela não é a bactéria mais abundante do intestino por acaso ser a mais frequente aqui: as cepas uropatogênicas carregam adesinas — fímbrias tipo 1 e fímbrias P — que se ligam a receptores do urotélio e do epitélio tubular renal, e é essa aderência que impede que o fluxo urinário as lave para fora. Quando a bactéria isolada não é E. coli, a probabilidade de haver alteração estrutural por trás sobe, e esse é um dos poucos dados microbiológicos que mudam a decisão de investigar com imagem.
As defesas que a criança tem contra isso são mecânicas antes de serem imunológicas, e é por isso que atrapalhá-las adoece. A principal é o esvaziamento vesical completo e frequente: urina que sai leva bactéria junto. Tudo o que deixa urina parada na bexiga aumenta o risco — resíduo pós-miccional, adiamento habitual da micção, manobras de contenção, jato fraco, e a ampola retal cheia de fezes comprimindo a bexiga. É por esse mecanismo, e não por outro, que constipação intestinal causa infecção urinária de repetição, e é por isso que tratar constipação reduz recorrência tanto quanto um antibiótico profilático em algumas crianças. A segunda defesa é a extensão da uretra, que explica a inversão epidemiológica por sexo depois do primeiro ano.
A febre é o sinal que separa duas doenças com o mesmo nome. Enquanto a multiplicação bacteriana fica restrita à mucosa vesical, o quadro é cistite: disúria, urgência, polaciúria, dor suprapúbica, urina turva ou fétida, sem febre e sem repercussão sistêmica, porque não há invasão de tecido profundo. Quando a bactéria alcança o parênquima renal, a resposta inflamatória deixa de ser local: interleucinas e outros mediadores ganham a circulação, aparecem febre alta, prostração, vômitos e dor lombar, e o processo passa a se chamar pielonefrite. Essa distinção não é acadêmica — ela decide a droga, a via, o tempo de tratamento e a investigação que vem depois.
Da mesma distinção sai uma regra farmacológica que derruba prescrições todo mês. Nitrofurantoína e ácido nalidíxico atingem concentração excelente na urina e concentração ruim no tecido renal. São, por isso, drogas boas para cistite e drogas erradas para infecção urinária febril: a bactéria que está dentro do parênquima não vê a droga. A recomendação da Sociedade Brasileira de Pediatria é explícita ao contraindicá-las na presença de febre. Prescrever nitrofurantoína a um lactente febril é tratar a bexiga de uma criança cuja doença está no rim.
O dano que justifica todo o cuidado é a cicatriz renal. O infiltrado inflamatório que combate a bactéria no parênquima produz também lesão tubulointersticial; quando a inflamação é intensa ou prolongada, parte do parênquima é substituída por fibrose. Cicatriz extensa e bilateral reduz massa renal funcionante, e daí saem as consequências tardias que importam: hipertensão arterial, proteinúria, redução da filtração glomerular e, na minoria, doença renal crônica. O tempo de febre antes do início do antibiótico é um dos determinantes do risco — é o argumento fisiopatológico para não adiar a primeira dose depois que a urina foi colhida. O manejo da injúria renal aguda e o da doença renal crônica são temas próprios e saem remetidos; aqui a cicatriz entra como o motivo de investigar, não como doença a tratar.
E é aqui que está a virada que reorganizou a conduta nas últimas duas décadas, e que explica por que a investigação por imagem encolheu. A leitura antiga era linear: refluxo vesicoureteral leva bactéria da bexiga ao rim, o rim se infecta, o rim cicatriza, a cicatriz vira doença renal crônica. Se essa cadeia fosse verdadeira em todos os casos, faria sentido procurar refluxo em toda criança que tivesse uma infecção. O que se demonstrou com a ultrassonografia pré-natal de rotina e com os registros de doença renal crônica é que boa parte das cicatrizes atribuídas a sequela de pielonefrite era, na verdade, alteração do desenvolvimento renal — displasia congênita, com ou sem refluxo associado. O rim já era diferente antes da primeira infecção. A infecção foi o evento que o revelou, não o que o produziu.
Duas consequências práticas saem daí, e elas atravessam o capítulo inteiro. A primeira: procurar refluxo agressivamente em toda criança encontra muito refluxo e muda pouco desfecho, ao custo de radiação, cateterismo e ansiedade — a própria história natural ajuda, porque a maioria dos refluxos desaparece espontaneamente nos primeiros anos de vida. A segunda: a criança que mais interessa encontrar não é a que tem refluxo, é a que tem rim malformado ou obstrução — e essa se encontra com ultrassonografia, que não usa radiação, não exige cateter e está disponível na rede. A investigação moderna é uma peneira de malha larga primeiro, e exame invasivo só para quem a peneira reteve.
Falta o mecanismo do erro mais comum do capítulo, que é o do saco coletor. A bexiga é estéril; a urina que sai dela também é, se nada a contaminar no caminho. O saco coletor é colado à pele da região perineal e fica ali por até meia hora, em contato com a flora que coloniza exatamente aquela região — a mesma que causa a doença. Basta uma evacuação, ou uma higiene insuficiente, ou tempo demais, e a amostra recebe bactérias que nunca estiveram na bexiga. Depois, essa urina segue para o laboratório em temperatura ambiente, e a urina é um meio de cultura razoável: as poucas bactérias contaminantes se multiplicam durante o transporte e chegam ao laboratório em contagem alta. O resultado é um número grande, de uma bactéria plausível, produzido inteiramente fora do paciente. É por isso que a mesma amostra que quase não vale nada quando positiva vale bastante quando negativa: se nem com todo esse favorecimento cresceu bactéria, é porque provavelmente não havia bactéria na bexiga.

Como se apresenta de verdade
A infecção urinária da criança não tem apresentação própria antes da idade em que a criança sabe dizer onde dói. Nos primeiros dois anos ela se apresenta como febre, e só. Não há disúria relatada, não há dor lombar apontada, não há sinal físico que a denuncie, e a criança não parece diferente de outra com um quadro viral. Essa é a única razão pela qual o tema é difícil: o diagnóstico depende de uma decisão de colher urina tomada por quem não tem nenhum sinal específico para se apoiar.
O espectro tem quatro degraus e eles se separam por idade e por localização: o neonato e o lactente pequeno, em que a doença pode ser sistêmica desde o início; o lactente e o pré-escolar, em que ela é febre sem foco; a criança que verbaliza, em que aparecem os sintomas clássicos e a separação entre cistite e pielonefrite fica visível; e a criança que já tem história — uropatia conhecida, episódios anteriores, disfunção miccional — em que o episódio novo significa outra coisa.
Febre sem foco no lactente: por que a urina entra na conta
A regra que organiza o plantão é curta: no lactente com febre e exame físico sem foco, infecção urinária é hipótese obrigatória. A Sociedade Brasileira de Pediatria fixa a suspeita em todo lactente com febre sem foco aparente há mais de vinte e quatro horas. Protocolo público brasileiro acrescenta que a hipótese deve ser considerada também com menos de vinte e quatro horas de febre, porque o risco de cicatriz cresce com o tempo de febre antes do antibiótico e esperar para completar um dia é escolher atrasar.
Os fatores que aumentam a probabilidade nesse grupo, identificados em estudo caso-controle e reproduzidos em protocolo brasileiro, são: idade abaixo de doze meses; temperatura máxima relatada de 39 °C ou mais; sexo feminino; sexo masculino não circuncidado; e ausência de outro foco definido. A leitura prática é que a decisão de colher urina se toma com idade, temperatura e ausência de foco — três dados que qualquer plantão tem em trinta segundos.
Há um detalhe que engana muito e vale isolar: a presença de outro foco potencial não exclui infecção urinária. Estudo observacional em meninos abaixo de doze meses e meninas abaixo de dois anos mostrou que otite média aguda, infecção de vias aéreas superiores, gastroenterite, bronquiolite ou outra síndrome viral coexistem com infecção urinária com frequência suficiente para que o achado de um foco banal não encerre a investigação em criança pequena com febre alta. O foco encontrado reduz a probabilidade; não a zera. Na prática: lactente de oito meses com coriza e 39,5 °C que segue febril no terceiro dia continua devendo uma urina.
Também vale saber o que a febre por si só não faz. Relato familiar de urina com mau cheiro e sintomas gastrointestinais — vômito, diarreia, aceitação alimentar ruim — tem sensibilidade e especificidade baixas para o diagnóstico. São dados que se anotam, não dados que decidem. A estratificação geral da criança febril sem sinais localizatórios, com as faixas etárias, os escores e as regras de decisão de quando também colher sangue, liquor e hemocultura, é tema próprio da apostila de emergências pediátricas e sai remetida daqui. O que não sai é a régua urinária: lactente febril sem foco, colhe urina.

O recém-nascido e o lactente de até três meses
Nessa faixa etária a infecção urinária se apresenta com sinais vagos e inespecíficos: baixo ganho de peso, hipotermia tanto quanto febre, letargia, irritabilidade, recusa alimentar, vômitos, distensão abdominal e icterícia — esta última principalmente às custas de bilirrubina direta, às vezes com elevação da indireta. Icterícia prolongada em recém-nascido é indicação clássica de colher urina, e é um dos poucos sinais dirigidos que existem nessa idade.
O que diferencia esse grupo não é a apresentação, é o risco. A probabilidade de bacteremia e de sepse a partir do foco urinário é elevada, com letalidade descrita em torno de 10% em protocolo público brasileiro. Por isso a régua muda em três pontos ao mesmo tempo: a coleta é obrigatoriamente por método confiável, a via inicial do antibiótico é parenteral e a criança abaixo de dois meses de idade tem indicação de internação, independentemente de como esteja o estado geral.
Uma consequência de fluxo que o interno de unidade básica precisa saber: recém-nascido e lactente abaixo de dois meses com suspeita de infecção urinária, e qualquer criança toxemiada, não ficam na unidade básica — são avaliados e encaminhados. A investigação começa no serviço com retaguarda, não onde a criança chegou.
A criança febril com aspecto toxêmico, má perfusão, rebaixamento do nível de consciência ou instabilidade hemodinâmica sai deste capítulo por outra porta: ela é uma criança gravemente doente com foco possivelmente urinário, e o que a governa é o manejo da sepse, em Choque na criança: hipovolêmico, séptico e distributivo, na apostila de Emergências Pediátricas. Meningite bacteriana na infância é de Meningites bacterianas e virais na infância, na apostila de Infectologia Pediátrica; o lactente febril com sinais meníngeos, fontanela abaulada ou irritabilidade que não cede ao colo não é assunto de urina até que aquela hipótese seja resolvida.
O lactente e o pré-escolar que ainda não verbaliza
Entre três meses e a idade em que a criança sabe localizar sintoma, a apresentação mais comum e mais frequente é febre isolada. Os demais achados são inespecíficos e aparecem em qualquer infecção: vômitos, letargia, irritabilidade, anorexia, dor abdominal, ganho de peso insuficiente. Podem aparecer hematúria, urina fétida e urina turva, que chamam a atenção da família e ajudam a levantar a hipótese, mas não a confirmam.
Estudos observacionais mostram que a infecção urinária é mais comum nas crianças pequenas com temperatura máxima igual ou acima de 39 °C do que naquelas com febre mais baixa. A altura da febre não faz diagnóstico, mas desloca a probabilidade e entra na decisão de colher.
Um sinal específico e frequentemente esquecido nessa idade é o padrão do jato urinário. Jato fraco, gotejante ou intermitente em lactente do sexo masculino é achado que pede investigação por si, porque pode significar válvula de uretra posterior — a uropatia obstrutiva que mais leva criança a doença renal crônica. A pergunta se faz à família com estas palavras: quando ele urina, sai forte, num jato só, ou sai pingando? A resposta muda o caso mesmo antes de qualquer exame.
O exame físico dessa criança tem itens que não podem ser pulados, e nenhum deles é caro: palpação e percussão das lojas renais com pesquisa do sinal de Giordano; palpação abdominal procurando bexiga distendida e massas; aferição da pressão arterial comparada à tabela por idade, sexo e estatura; peso e comprimento plotados na curva; inspeção da região lombossacra procurando estigmas cutâneos de disrafismo — hemangioma, tufo de pelos, fosseta, apêndice cutâneo, assimetria de pregas glúteas; e inspeção da genitália externa, procurando sinéquia de pequenos lábios, vulvovaginite ou balanopostite, que causam sintoma urinário e resultado falso-positivo sem que haja infecção do trato urinário.
A criança que verbaliza: cistite e pielonefrite ficam visíveis
Acima de dois anos os sintomas passam a ser dirigidos, e a metanálise dos achados clínicos em crianças verbais aponta quatro como os mais úteis: dor abdominal, dor lombar, disúria com polaciúria, e incontinência urinária de início recente. Esse último merece destaque porque é o mais fácil de perder: criança que já estava seca e voltou a se molhar, de dia ou à noite, pode estar com infecção urinária, e enurese secundária é sintoma, não regressão de comportamento.
Cistite é o quadro sem febre e sem repercussão sistêmica: disúria, polaciúria, urgência, dor suprapúbica, às vezes hematúria macroscópica ao final da micção. A criança está bem, come, brinca, e o desconforto é local.
Pielonefrite é o quadro com febre. A tríade que a sugere é febre alta, calafrios e dor no flanco, com prostração, vômitos e às vezes ausência completa de sintoma urinário. É importante desfazer uma expectativa comum: a criança com pielonefrite pode não ter nenhuma queixa miccional. A ausência de disúria não afasta infecção urinária febril — em lactente ela é a regra.
A separação entre as duas tem consequência imediata em três decisões. O tempo de tratamento: dez dias na infecção urinária febril e na recorrente, sete dias na primeira cistite afebril de criança maior de dois anos. A escolha da droga: nitrofurantoína é opção razoável na cistite e é proibida na febril. E a investigação por imagem: quem entra na régua de ultrassonografia é a criança com infecção febril, não a que teve uma cistite isolada.
O que se parece com infecção urinária e não é
Vulvovaginite é o imitador mais frequente na menina pré-escolar e produz exatamente a queixa que faz pensar em infecção urinária: ardência ao urinar. A diferença é onde arde — na vulvovaginite arde por fora, quando a urina toca a mucosa inflamada, e a criança costuma ter secreção, hiperemia e prurido. Ela também produz leucocitúria e cultura contaminada, o que fecha o círculo do falso diagnóstico.
Balanopostite e fimose com orifício prepucial estreito fazem o mesmo no menino, e entram na lista de causas de resultado falso-positivo em protocolo público brasileiro. Sinéquia de pequenos lábios acumula urina e produz gotejamento pós-miccional que a família descreve como incontinência.
Oxiuríase, corpo estranho vaginal ou uretral e irritantes locais — sabonete líquido, espuma de banho, roupa de banho úmida por horas — compõem o restante do diagnóstico diferencial de cistite descrito pela Sociedade Brasileira de Pediatria. Hipercalciúria causa disúria e hematúria com urocultura negativa e é diagnóstico que se lembra quando os sintomas repetem sem que a cultura confirme nada.
A disfunção do trato urinário inferior produz urgência, incontinência e polaciúria sem bacteriúria, e é o diferencial que mais consome antibiótico desnecessário: cada episódio de sintoma vira um curso de tratamento, sem cultura que o justifique. O quadro é de Enurese noturna e distúrbios miccionais funcionais, nesta apostila; o que fica aqui é a regra que impede o dano — sintoma urinário sem urocultura positiva colhida por método confiável não é infecção urinária.
Glomerulonefrite pós-estreptocócica e síndrome nefrótica entram no diferencial por outro caminho: a criança chega com urina alterada, edema ou hematúria e alguém pede urocultura. Nas duas, o achado urinário é de doença glomerular e não de infecção — hematúria com cilindros hemáticos e proteinúria na primeira, proteinúria maciça na segunda — e as duas são temas próprios desta apostila e saem remetidas.
Por fim, o diferencial que se faz na direção contrária. Febre com dor abdominal e piúria também é apendicite e é doença de Kawasaki; febre sem foco também é pneumonia oculta e bacteremia oculta. Piúria não é sinônimo de infecção urinária: ela indica inflamação, e há inflamação no trato urinário por vizinhança em qualquer processo abdominal.
E há o item que aparece na lista de diagnósticos diferenciais de cistite dos documentos brasileiros e que não se pode fingir que não está lá: violência sexual. Protocolo público brasileiro pede que se pesquise atividade sexual em adolescentes e que se considere a possibilidade de violência sexual em crianças e adolescentes. Não é um exame a mais e não é uma pergunta a fazer de qualquer jeito — é uma hipótese que se mantém aberta diante de sintoma urinário recorrente sem explicação, lesão genital, sangramento ou mudança de comportamento, e que, quando levantada, tem caminho de notificação e de proteção próprio, com equipe, e não termina numa consulta de pronto atendimento.
Bacteriúria assintomática: o achado que se trata errado
Bacteriúria assintomática é a presença de mais de 100.000 unidades formadoras de colônia por mililitro de uma única bactéria na urocultura de uma criança que, após anamnese e exame físico minuciosos, não tem sintoma. Não há inflamação do uroepitélio, e essa condição não se trata.
O motivo de ela existir como problema é operacional: alguém pediu urocultura em criança assintomática. Cultura de urina só deve ser solicitada na presença de sinais e sintomas de infecção urinária — não como rastreio de rotina, não como exame pré-operatório de rotina, não como parte de um pacote de check-up.
Tratar bacteriúria assintomática produz três danos e nenhum benefício: seleciona flora resistente na própria criança, expõe a efeito adverso de antibiótico e cria um rótulo de infecção urinária de repetição que abrirá investigação por imagem que ela não precisava. É um dos poucos lugares da pediatria em que a conduta correta diante de um exame alterado é não fazer nada com ele.
A criança que já vem com história
Criança com uropatia conhecida — refluxo vesicoureteral de alto grau, válvula de uretra posterior, estenose de junção, megaureter, rim policístico, bexiga neurogênica — que apresenta um episódio novo não está no quadro comum. Nela a chance de germe diferente de E. coli e de resistência é maior, a coleta precisa ser por método confiável sem exceção, e o antibiótico empírico deve considerar o histórico de culturas anteriores da própria criança, que costuma estar no prontuário e quase nunca é consultado.
Entre essas crianças, a da bexiga neurogênica pede leitura própria, porque nela a urina engana. Pelo livro Urologia Fundamental, da Sociedade Brasileira de Urologia (2010), mielomeningocele e lipomeningocele são as causas mais comuns na criança, e a malformação anorretal, associada a disrafismo espinhal em 30% dos casos, é outra; o estigma lombossacro do exame físico deste capítulo é a pista das formas fechadas. A diretriz clínica brasileira de linha de cuidado para o disrafismo espinhal aberto, da Fiocruz (2023), mostra o que está em jogo: mais de 90% das crianças com mielomeningocele têm bexiga neurogênica; a bexiga que não esvazia, contra um esfíncter que não relaxa, leva a refluxo, hidronefrose e infecção; e a insuficiência renal segue sendo a complicação mais grave e a principal causa de morte nesse grupo. O trato urinário superior costuma estar preservado ao nascer e se deteriora sem tratamento; por isso o seguimento começa ao nascer e, ainda no primeiro ano, inclui ultrassonografia, função renal, uretrocistografia e urodinâmica, e o cateterismo vesical intermitente limpo — sonda por técnica limpa, não necessariamente asséptica, em geral cinco vezes ao dia — é ensinado a um cuidador antes da alta, com anticolinérgico quando a urodinâmica mostra hiperatividade; a oxibutinina não consta da Rename 2024. O erro de plantão: essa bexiga vive colonizada, e urocultura positiva sem sintomas não é infecção nem se trata. A diretriz propõe pelo menos dois sintomas — febre acima de 38 °C, dor abdominal ou lombar, incontinência nova ou pior, dor ao cateterismo ou à micção, urina turva ou com mau cheiro — com mais de 100.000 UFC/mL de um único germe e mais de 10 leucócitos por campo, régua escrita para essa bexiga e não para a coleta por sonda da criança sem uropatia. Incontinência que piora ou infecções que passam a se repetir numa criança estável podem ser, em alguns casos, o único sinal inicial de medula ancorada. A criança sem esse seguimento vai ao nefrologista pediátrico, como manda o encaminhamento deste capítulo, e à equipe de neurologista, urologista, pediatra e fisioterapia que o livro da Sociedade Brasileira de Urologia pede.
Criança com hidronefrose detectada em ultrassonografia pré-natal é um grupo à parte: a alteração antenatal é dado de anamnese que muda a investigação e que a família raramente oferece por conta própria. A pergunta se faz assim: no ultrassom da gravidez falaram alguma coisa do rim do bebê?
Criança com infecção urinária de repetição precisa de definição antes de rótulo, porque o rótulo abre exames. Considera-se recorrente: dois ou mais episódios de pielonefrite; um de pielonefrite mais um ou mais de cistite; ou três ou mais de cistite — contando apenas episódios com urocultura positiva colhida por método confiável.
Criança em uso recente de antibiótico merece atenção dupla. O uso nos noventa dias anteriores, em tratamento ou em profilaxia, aumenta a chance de resistência bacteriana, e o risco é maior quando o intervalo é inferior a trinta dias. E o antibiótico em curso esteriliza a urina, o que produz cultura falso-negativa — motivo pelo qual a coleta feita depois da primeira dose vale muito menos do que a coleta feita antes.
Criança com constipação intestinal crônica, incontinência diurna, manobras de contenção, adiamento da micção ou enurese está com disfunção vesical e intestinal, presente em 30% a 50% das crianças já no primeiro episódio. Ela é o principal fator modificável de recorrência e é o que separa a criança que trata uma infecção da criança que trata quatro. O manejo é de Enurese noturna e distúrbios miccionais funcionais, nesta apostila; a identificação, não — ela se faz na alta, com perguntas sobre frequência das micções, perdas, esforço, formato e frequência das fezes.
Como fechar o diagnóstico
A investigação da infecção urinária da criança tem uma inversão em relação ao resto do internato: o exame que decide o caso é barato, está disponível em toda unidade e leva quarenta e oito horas — a urocultura. O que a torna difícil é que ela não é um exame que se pede, é um exame que se colhe. Duas uroculturas do mesmo laboratório, do mesmo dia, da mesma criança, com o mesmo número impresso no papel, significam coisas radicalmente diferentes conforme a urina tenha vindo de um saco colado à pele ou de um cateter dentro da bexiga. Nenhum outro exame do internato depende tanto de um procedimento que o médico não presencia.
Daí a regra que organiza este bloco inteiro e que vale como frase de beira de leito: antes de acreditar na urocultura, pergunte como ela foi colhida. Não é uma pergunta de qualidade, é uma pergunta diagnóstica — a resposta muda o que o resultado autoriza a fazer.
1. A primeira decisão é colher, e a segunda é como
A decisão de colher urina se toma pela clínica: lactente com febre sem foco, criança com sintoma urinário, recém-nascido com icterícia prolongada ou baixo ganho de peso, criança com quadro séptico sem foco. Fora dessas situações, não se pede urocultura — cultura em criança assintomática só produz bacteriúria assintomática e tratamento errado.
Tomada a decisão, o método se escolhe por dois dados apenas: a idade e o controle esfincteriano. Criança que já controla o esfíncter colhe jato médio, com higiene prévia da genitália com água e sabão, sem antisséptico, desprezando o primeiro jato e recolhendo o intermediário sem interromper a micção, em frasco estéril. Criança que não controla o esfíncter, e que por isso não consegue produzir jato médio sob comando, é o problema inteiro deste capítulo — e nela a recomendação da Sociedade Brasileira de Pediatria é cateterismo vesical ou punção suprapúbica.
Existe um terceiro caminho não invasivo descrito e validado para o lactente, o clean catch: vinte e cinco minutos depois de oferecer líquido na proporção de 25 mL/kg, segura-se o lactente pelas axilas e aplicam-se estímulos na região sacral e suprapúbica para desencadear a micção, recolhendo o jato intermediário direto no frasco estéril. Dá trabalho, exige alguém dedicado ao procedimento por meia hora e falha em parte das tentativas, mas produz amostra de qualidade muito superior à do saco coletor sem passar cateter. É a opção que mais se subutiliza no Brasil, e é a que resolve a maioria dos impasses com famílias que recusam o cateterismo.
O saco coletor tem um lugar, e é um lugar estreito: triagem. Ele serve para obter uma amostra para exame de urina e para excluir o diagnóstico quando a cultura vem negativa. Se o exame de urina do saco coletor for sugestivo, ou se a suspeita clínica for alta, a amostra para cultura precisa ser recolhida por método confiável. A técnica, quando o saco for usado, tem regras que quase ninguém cumpre e que mudam o resultado: higiene com água e sabão antes de colar, troca do saco a cada trinta minutos sem micção com nova higiene, troca imediata se houver evacuação, criança preferencialmente de pé no colo, e processamento imediato ou refrigeração da amostra.
Punção suprapúbica é o padrão de referência absoluto — a bexiga é estéril, e qualquer crescimento em amostra puncionada confirma o diagnóstico. Na prática brasileira ela é reservada a situações específicas: lactente pequeno, fimose importante, sinéquia labial fechada, infecção genital externa ou anormalidade genital que impeça o cateterismo. Feita com ultrassonografia à beira do leito para confirmar bexiga cheia, é segura; feita às cegas em bexiga vazia, é uma punção improdutiva.
2. Quanto vale cada método, em número
O argumento contra o saco coletor não é estético, é aritmético, e vale fazer a conta uma vez para nunca mais esquecer. O estudo de McGillivray comparou, em 303 crianças não desfraldadas menores de três anos atendidas numa emergência pediátrica, a fita reagente feita em amostra de saco coletor com a fita feita em amostra de cateterismo, tendo a cultura por cateter como padrão de referência. A fita do saco coletor foi mais sensível — 0,85 contra 0,71 — e muito menos específica: 0,62 contra 0,97.
Aplicando esses valores a mil lactentes febris sem foco, população em que a prevalência de infecção urinária é de cerca de 7%, ou seja, 70 doentes e 930 sem a doença: a fita do saco coletor acerta 59,5 dos 70 doentes e marca positivo em 353,4 dos 930 sadios. De cada 100 fitas positivas colhidas por saco coletor, portanto, cerca de 14 correspondem a doença e 86 não. O valor preditivo positivo é de 14,4%.
A mesma conta com a fita do cateterismo: 49,7 verdadeiros positivos e 27,9 falsos positivos, o que dá valor preditivo positivo de 64,0%. O mesmo exame, na mesma criança, no mesmo dia: 14% de chance de doença se a amostra veio do saco, 64% se veio do cateter. Em razão de verossimilhança, a diferença fica ainda mais crua — a fita do saco coletor positiva multiplica a chance por 2,24, e a do cateter, por 23,67.
O outro lado da mesma conta é o que salva o saco coletor de ser inútil. O valor preditivo negativo da fita do saco coletor nessa população é de 98,2%, praticamente igual ao do cateterismo, que é de 97,8%. É essa assimetria — péssimo para confirmar, ótimo para excluir — que sustenta a regra brasileira de que a coleta por saco coletor só tem utilidade para descartar diagnóstico, e a afirmação, com nível de evidência A, de que o diagnóstico de infecção urinária não pode ser feito de modo confiável em amostra de saco coletor.
Vale ver o efeito da prevalência, porque ele é o que engana no plantão. Se a criança não é um lactente febril qualquer, e sim uma criança com quadro clínico muito sugestivo, em que a probabilidade pré-teste sobe para 30%, a fita do saco coletor positiva passa a valer 48,9% e a do cateter, 91,0%. A ordem não muda nunca: o método de coleta continua valendo mais do que qualquer refinamento na leitura do exame.
Sobre a urocultura em si, a comparação direta é ainda mais favorável ao cateterismo: a urina obtida por cateter para cultura tem sensibilidade de 95% e especificidade de 99% quando comparada à obtida por punção suprapúbica. E as séries de saco coletor descrevem falso-positivo em até 80% a 85% das culturas positivas. O número que o interno precisa carregar é esse: uma cultura positiva de saco coletor tem mais chance de ser falsa do que de ser verdadeira.
3. Os cortes de contagem por método — e a divergência brasileira
O número de unidades formadoras de colônia que define infecção depende do método de coleta, e essa é a segunda razão pela qual a pergunta sobre a coleta é diagnóstica. Punção suprapúbica: qualquer contagem, com o mínimo de dez colônias idênticas. Jato médio com coleta limpa: 100.000 UFC/mL de um único uropatógeno, ou mais de 50.000 UFC/mL associado a piúria. Saco coletor: não há corte que o torne confiável quando positivo, e é por isso que ele não aparece com número próprio nas réguas brasileiras.
O cateterismo é onde os documentos brasileiros divergem entre si, e a divergência é de cinquenta vezes: as réguas nacionais vão de 1.000 a 50.000 UFC/mL, e dois documentos do mesmo departamento de nefrologia, com dois anos de intervalo, adotam os dois extremos sem que nenhum deles registre a mudança. Quem sustenta cada posição está no bloco de divergências.
A régua adotada neste capítulo é a do protocolo público brasileiro: 10.000 UFC/mL em amostra de cateterismo, de um único uropatógeno, na criança com quadro clínico compatível. A escolha tem três razões. Ela está dentro de todas as faixas propostas, o que a torna compatível com qualquer das fontes. Ela é a que um serviço público brasileiro efetivamente usa e ensina, o que importa para quem vai trabalhar nele. E ela erra para o lado menos perigoso na faixa etária de maior risco — o corte de 50.000 deixaria de tratar lactentes com contagens intermediárias, e é justamente o lactente pequeno quem mais sofre com atraso de tratamento.
Duas travas acompanham essa escolha, e sem elas o corte baixo vira excesso de tratamento. A primeira: contagem entre 1.000 e 50.000 UFC/mL só é considerada diagnóstica se houver piúria ou sintoma compatível; número isolado, em criança sem sintoma, é bacteriúria assintomática e não se trata. A segunda: cultura com crescimento de mais de um microrganismo indica contaminação, qualquer que seja o método e qualquer que seja a contagem — cultura mista não é infecção polimicrobiana até prova em contrário, é amostra ruim.
Há ainda um detalhe que trabalha na direção oposta e protege contra o excesso de confiança no corte alto: em crianças com infecção urinária comprovada, 20% têm urocultura de jato médio com crescimento abaixo de 100.000 UFC/mL. Um em cada cinco casos verdadeiros ficaria de fora se o número fosse aplicado sozinho, sem clínica e sem sedimento. Corte é referência, não veredito.
4. O exame de urina: o que ele antecipa e o que ele não exclui
A urocultura leva de 24 a 48 horas, e a criança febril não pode esperar por ela para começar o tratamento. O papel do exame de urina, portanto, é antecipar: dizer se vale a pena tratar agora, enquanto a cultura anda. Os achados que sugerem infecção são piúria acima de 5 a 10 leucócitos por campo de grande aumento, nitrito positivo, esterase leucocitária positiva, presença de bactérias na bacterioscopia e cilindros leucocitários.
Nenhum deles, isoladamente, é bom o suficiente para confirmar. Usando a sensibilidade e a especificidade publicadas pela Sociedade Brasileira de Pediatria e a mesma população de mil lactentes febris com prevalência de 7%: a esterase leucocitária, com sensibilidade de 83% e especificidade de 78%, produz 58,1 verdadeiros positivos contra 204,6 falsos positivos — valor preditivo positivo de 22,1%. A contagem leucocitária, com 73% e 81%, dá 22,4%. O nitrito, com sensibilidade de apenas 50% e especificidade de 92%, produz 35 verdadeiros e 74,4 falsos positivos: valor preditivo positivo de 32,0%. Todos com valor preditivo negativo entre 96% e 98%.
A leitura prática dessas contas é a que muda conduta: no lactente febril sem foco, um exame de urina alterado não confirma infecção urinária, e um exame de urina normal quase a exclui. É um exame para tranquilizar, não para acusar — e quem trata com base apenas nele, sem cultura colhida antes, trata cerca de três crianças sem doença para cada uma com doença.
O nitrito merece um parágrafo próprio, porque seu resultado negativo é mal interpretado todos os dias. Ele depende de duas condições: que a bactéria seja capaz de converter nitrato em nitrito, o que as gram-negativas fazem e as gram-positivas não, e que a urina tenha permanecido tempo suficiente na bexiga para a conversão acontecer. Um lactente que urina de duas em duas horas produz nitrito negativo com bexiga infectada. Nitrito negativo não afasta infecção urinária; nitrito positivo, com sua especificidade de 92%, é um achado forte.
O achado mais subutilizado da rede pública brasileira é a bacterioscopia por Gram de gota de urina não centrifugada, que o protocolo de Belo Horizonte pede de rotina junto com a urina de rotina e a cultura. Com sensibilidade de 93% e especificidade de 95%, ela produz, na mesma população de mil lactentes, 65,1 verdadeiros positivos contra 46,5 falsos: valor preditivo positivo de 58,3% e valor preditivo negativo de 99,4%. É o melhor exame imediato disponível, custa quase nada, sai em minutos e ainda informa se o germe é gram-negativo ou gram-positivo — o que permite escolher o antibiótico empírico com fundamento em vez de por hábito. Pedir Gram de gota é uma das poucas mudanças de conduta deste capítulo que dependem só de escrever uma linha a mais no pedido.
Duas armadilhas de interpretação fecham a seção. Urina de rotina sem alterações não exclui infecção urinária, sobretudo no lactente pequeno e no início do quadro. E piúria não é sinônimo de infecção urinária: existe piúria sem infecção em febre de qualquer origem, apendicite, doença de Kawasaki, vulvovaginite e desidratação. As causas de falso-negativo listadas no protocolo brasileiro valem decorar porque explicam resultados que parecem inexplicáveis: pH urinário abaixo de 5,0, densidade abaixo de 1.003, contaminação com bacteriostático ou resto de sabão, uso de antimicrobiano, curto período de incubação da urina na bexiga e obstrução total da drenagem do rim acometido.
5. A criança chegou com a cultura do saco coletor positiva. E agora?
É a cena mais comum do tema e a que quase nunca é ensinada, porque não está escrita como algoritmo em nenhum documento. O que segue é a régua que decorre das evidências dos blocos anteriores, e ela se decide por duas perguntas: a criança já tomou antibiótico, e a criança está bem?
Se a criança ainda não tomou a primeira dose, o caso é simples e a janela está aberta: recolha a urina por método confiável agora, antes de qualquer antibiótico. Cateterismo se não há controle esfincteriano, jato médio se há. A cultura do saco coletor não é descartada — ela levantou a hipótese e cumpriu seu papel de triagem —, mas quem vai autorizar dez dias de tratamento, e a investigação por imagem que vem depois, é a segunda amostra. Colher antes da primeira dose é a única decisão deste capítulo que não se pode desfazer depois.
Se a criança já está em antibiótico e está melhorando — febre cedendo em 48 a 72 horas, aceitação recuperada, criança ativa —, a conduta é completar o tratamento e não recolher cultura sob antibiótico, porque ela virá negativa e não provará nada. O que muda é o peso do diagnóstico dali para a frente: o episódio fica registrado como infecção urinária provável, não comprovada, e não deve ser contado como episódio na definição de infecção recorrente nem usado sozinho para abrir investigação por imagem. Escrever isso no prontuário e na carta de alta, com essas palavras, é o que impede a criança de acumular um histórico de infecções que nunca foram documentadas.
Se a criança já está em antibiótico e não está melhorando, que é o caso de Sofia, a cultura do saco coletor positiva passa a ser um problema ativo e não um dado de apoio. Falha em 48 a 72 horas tem quatro explicações possíveis e três delas nada têm a ver com resistência: o diagnóstico está errado e a febre tem outro foco, que não foi procurado porque o caso já tinha nome; a cultura era falso-positiva e nunca houve infecção urinária; há infecção urinária verdadeira com germe resistente à droga escolhida; ou há infecção verdadeira com obstrução, abscesso ou anormalidade que impede a resposta. A conduta que cobre as quatro é a mesma: reexaminar a criança inteira procurando foco, recolher urina por método confiável para nova cultura, e, quando o quadro é febril e a criança tem má resposta ao tratamento adequado, indicar ultrassonografia de rins e vias urinárias agora, e não depois — porque a ausência de resposta esperada é uma das indicações de imagem precoce.
Duas frases resumem a regra e cabem no prontuário. Cultura de saco coletor positiva não é diagnóstico de infecção urinária: é indicação de recoleta por método confiável. E a janela para recolher é antes da primeira dose.
6. O que NÃO pedir — e o que custa pedir
Proteína C reativa não precisa ser feita de rotina na avaliação da criança com suspeita de infecção urinária, embora ajude nos casos com bacteremia ou toxemia. O custo de pedi-la de rotina não é o preço: é que um valor intermediário em criança bem gera internação e antibiótico venoso que a clínica não pedia. Há, aqui, uma inconsistência entre documentos brasileiros que vale conhecer — o documento da Sociedade Brasileira de Pediatria de 2023 lista infecção urinária febril com proteína C reativa positiva entre as indicações de iniciar quimioprofilaxia, enquanto o protocolo público não pede o exame de rotina. Diante da divergência, a régua deste capítulo é não solicitar proteína C reativa apenas para decidir profilaxia.
Creatinina sérica também não é rotina em criança com suspeita de infecção urinária. Ela é indicada em três situações concretas: história de infecções múltiplas, suspeita de comprometimento renal, e antes de iniciar aminoglicosídeo. Essa última é a que mais se esquece, e é a que tem consequência direta — aminoglicosídeo em criança com função renal desconhecida é nefrotoxicidade evitável.
Não se pede urocultura de controle após o tratamento quando houve resposta clínica e sensibilidade confirmada; não se pede urocultura em criança assintomática, porque só encontra bacteriúria assintomática, que não se trata; e não se pede antibiograma de amostra que não presta — quando a cultura veio de saco coletor, o antibiograma descreve a sensibilidade de uma bactéria que talvez nunca tenha estado na bexiga, e é sobre ele que se escolhe, todos os dias, o antibiótico da criança.
Uretrocistografia miccional não se pede a toda criança abaixo de dois anos após a primeira infecção, e cintilografia com DMSA não se pede na fase aguda para confirmar pielonefrite. O DMSA realmente mostra alteração aguda em até 85% das crianças com infecção febril, mas essa informação não muda a conduta: a criança febril com urocultura positiva receberá dez dias de antibiótico com ou sem o exame, e o exame acrescenta radiação, custo e uma punção venosa a uma decisão já tomada.
Tomografia e urografia excretora não têm lugar na investigação de rotina da infecção urinária não complicada da criança. A comparação de protocolos mostra que a estratégia mais agressiva, o Top Down Approach, é a de maior custo e maior exposição à radiação; a norte-americana é a de menor exposição; e a inglesa, a de menor custo. Protocolos agressivos aumentam a sensibilidade para detectar refluxo e cicatriz, com benefício questionável.
7. A investigação por imagem: quem, quando, e o que encolheu
A comparação entre os documentos da própria Sociedade Brasileira de Pediatria mostra o tamanho da mudança melhor do que qualquer argumento. O documento de dezembro de 2016 afirmava que toda criança com diagnóstico de certeza de infecção urinária merece investigação por imagem, que a ultrassonografia deve ser feita em todos os que apresentaram infecção urinária, e que a cintilografia com DMSA deve ser realizada em todos os lactentes com infecção febril e em todas as crianças com quadro clínico de pielonefrite, mesmo com ultrassonografia normal de rins e vias urinárias. O documento de setembro de 2023, do mesmo departamento, registra que não há evidência científica que sustente um protocolo específico de investigação, que a maioria das diretrizes concorda apenas quanto à ultrassonografia como avaliação inicial em menores de dois anos com pielonefrite, e que os demais exames são solicitados em situações específicas.
Essa é a razão pela qual o interno ainda vê pedir o que não se pede mais: a régua anterior circulou por anos, formou uma geração e continua escrita em roteiro antigo. O que mudou não foi moda — foi a compreensão de que boa parte das cicatrizes é congênita, e de que encontrar refluxo de baixo grau não muda desfecho.
A ultrassonografia de rins e vias urinárias é o primeiro e, para a maioria das crianças, o único exame. Ela é indicada ao menor de dois anos com primeiro episódio febril, à criança com infecção recorrente em qualquer idade, à que tem história familiar de doença renal ou urológica, baixo crescimento ou hipertensão, à que não responde como esperado ao tratamento e à que teve ultrassonografia fetal alterada. Fora dessas situações — o exemplo típico é a menina de seis anos com primeira cistite afebril —, não há indicação.
O momento importa. A ultrassonografia deve ser feita preferencialmente após a fase aguda, porque a inflamação renal do episódio produz achados falso-positivos, e não é necessário realizá-la durante a internação. A exceção é a criança que não melhora, aquela com suspeita de urossepse, massa palpável ou jato urinário fraco: nessas, o exame precoce é útil justamente para identificar uropatia obstrutiva ou abscesso enquanto ainda dá tempo.
O que a ultrassonografia responde e o que ela não responde precisa ficar claro no pedido. Ela mostra tamanho e forma dos rins, aspecto do parênquima, dilatação de pelve e ureteres, espessura de parede vesical, resíduo pós-miccional e cálculos. Ela não diagnostica refluxo vesicoureteral com confiabilidade e não exclui refluxo de alto grau; e não é confiável para cicatriz renal. O pedido bem escrito lista o que precisa ser medido: volume renal, aspecto do parênquima, diâmetro anteroposterior da pelve renal no corte transversal, diâmetro dos ureteres proximal e distal, volume e espessura da parede vesical, resíduo pós-miccional e diâmetro da ampola retal. Esse último item é o que mais se esquece e é o que documenta constipação — ampola retal acima de 2,5 cm é achado que muda a conduta de prevenção.
A uretrocistografia miccional é o exame que separa quem investiga de verdade de quem investiga por hábito, e seus critérios estão na tabela de imagem. A cintilografia renal com DMSA fica para casos complexos, após avaliação do especialista, quatro a seis meses depois do episódio, quando responde o que realmente interessa: existe cicatriz e qual a função relativa de cada rim. É exame de alto custo, radiação significativa e oferta limitada na rede pública — pedi-lo sem indicação clara é ocupar vaga escassa de quem precisa dele.
O que existe no SUS, e que por isso é o que se pode prometer à família: a ultrassonografia está amplamente disponível e costuma sair em semanas; a uretrocistografia existe, é regulada e agendada, e exige preparo e sondagem; o DMSA é escasso e concentrado em centros de referência. A urocultura está disponível em toda a rede e leva de 24 a 48 horas; a fita reagente e o Gram de gota são imediatos. Encaminhamento ao nefrologista pediátrico tem indicações próprias: infecção recorrente confirmada por urocultura, jato urinário fraco ou rins palpáveis, infecção por microrganismo diferente de E. coli, apresentação incomum na criança mais velha, ultrassonografia pré-natal alterada, ultrassonografia ou cintilografia alteradas, refluxo vesicoureteral, disfunção do trato urinário inferior que não responde ao tratamento da constipação e das micções frequentes, e disfunção neurogênica da bexiga.

8. O diferencial, aqui dentro: o exame que confirma um exclui o outro
A urocultura colhida por método confiável é o exame que separa infecção urinária de tudo o que a imita. Negativa em criança sintomática, ela empurra o caso para vulvovaginite, balanopostite, oxiuríase, corpo estranho, hipercalciúria e disfunção do trato urinário inferior — nenhuma delas tratada com antibiótico. Positiva, ela fecha o diagnóstico e abre a discussão de localização.
A febre é o exame clínico que separa cistite de pielonefrite, e ela decide droga, tempo e investigação. Onde a dúvida persistir em criança verbal, dor lombar e sinal de Giordano positivo pesam para cima; disúria isolada com criança bem pesa para baixo.
O exame de urina separa infecção de contaminação melhor do que a contagem sozinha: cultura positiva sem piúria, em criança assintomática, é bacteriúria assintomática; cultura polimicrobiana é contaminação; cultura positiva com piúria e sintoma, colhida por método confiável, é infecção.
O Gram de gota separa gram-negativo de gram-positivo antes da cultura e, com isso, separa o antibiótico empírico que cobre E. coli daquele que precisa cobrir Enterococcus ou Staphylococcus saprophyticus — este último típico da adolescente com atividade sexual.
E a hemocultura, no lactente pequeno gravemente doente, separa infecção urinária de urossepse — e a criança com sinais de sepse deixa de ser assunto deste capítulo, remetida ao manejo da criança gravemente doente com foco infeccioso.
Um teste de raciocínio que resume o bloco: se o resultado do exame não vai mudar o que você faz nas próximas 24 horas nem nas próximas 8 semanas, ele não é investigação — é curiosidade cara, e nesta doença ela se paga com radiação, cateter e diagnóstico que não muda conduta.
Da decisão de colher ao encaminhamento: o caminho inteiro em um lugar
O fluxo abaixo cobre a criança com suspeita de infecção urinária da porta até a carta de alta, e é escrito na ordem em que as decisões aparecem no plantão, não na ordem em que os assuntos aparecem nos livros. As tabelas trazem o que não cabe em fluxograma: o que cada método de coleta autoriza, quanto vale cada achado do exame de urina, qual antibiótico em qual apresentação e em quantos mililitros, quem faz qual imagem e quem recebe profilaxia.
- 11. Febre sem foco no lactente, sintoma urinário, icterícia prolongada, baixo ganho de peso ou quadro séptico sem foco: colha urina.
- 22. Antes de colher, separe em três grupos: menor de 2 meses; 2 a 3 meses ou toxemiado em qualquer idade; maior de 3 meses e clinicamente bem.
- 33. Lactente pequeno ou criança com toxemia: avaliação urgente, suporte e transferência com comunicação ao destino. Coleta e primeira dose seguem a urgência clínica e os recursos do serviço; a transferência não deve criar atraso evitável no antibiótico.
- 44. Escolha o método pelo controle esfincteriano, nunca pela fila: com controle, jato médio; sem controle, cateterismo ou punção suprapúbica, tendo o clean catch como alternativa não invasiva.
- 55. Saco coletor só como triagem, com a técnica cumprida — e positivo obriga recoleta.
- 66. Peça na mesma requisição urina de rotina, Gram de gota de urina não centrifugada e urocultura, com o método de coleta anotado.
- 77. Urina para cultura antes do antibiótico, quando obtida prontamente. Registre método, horário e doses prévias; a coleta não deve atrasar o tratamento da criança instável.
- 88. Exame de urina sugestivo em criança febril: comece o tratamento empírico sem esperar a cultura. Exame normal em lactente febril: mantenha a cultura andando e reavalie em 24 horas.
- 99. Escolha a via pela capacidade de receber e reter medicação: oral acima de 3 meses em quem aceita líquido e não está toxemiado; parenteral nos demais.
- 1010. Interne só por critério: menor de 2 meses, urossepse ou toxemia, imunossupressão, vômitos, ausência de acompanhamento ambulatorial possível, falha da terapia ambulatorial.
- 1111. Reavalie em 48 a 72 horas com o antibiograma: descalone, troque se resistente, e complete 10 dias na infecção febril ou recorrente e 7 dias na primeira cistite afebril de maior de 2 anos.
- 1212. Sem melhora em 48–72 horas, ou piora a qualquer momento: reexaminar, conferir dose e administração, recuperar cultura e sensibilidade e procurar outro foco, obstrução ou abscesso. Indicar ultrassonografia na evolução atípica. Ajustar espectro e via pela gravidade e pelos dados disponíveis; febre isolada não determina ampliação automática.
- 1313. Terminado o tratamento, não colha urocultura de controle se houve resposta clínica e sensibilidade confirmada.
- 1414. Indique ultrassonografia após a fase aguda a quem tem critério; uretrocistografia só com critério próprio; DMSA só em caso complexo, com especialista, meses depois.
- 1515. Na alta, trate constipação, oriente hábito miccional e ingesta hídrica, registre o método de coleta usado e defina quem reavalia e quando.
- 1616. Encaminhe ao nefrologista pediátrico quem tem infecção recorrente comprovada, jato fraco ou rins palpáveis, germe diferente de E. coli, imagem alterada, refluxo, disfunção que não responde ao tratamento da constipação, ou bexiga neurogênica.
A escada da coleta — quanto vale cada método
Saco coletor: só serve para excluir; positivo, exige recoleta. Jato médio na criança com controle esfincteriano: bom, se a higiene e a técnica forem cumpridas. Cateterismo: sensibilidade de 95% e especificidade de 99% comparado à punção suprapúbica. Punção suprapúbica: padrão de referência, qualquer crescimento confirma. A contaminação cai a cada degrau, e é ela que decide o que um resultado positivo autoriza.
Graus de refluxo vesicoureteral, I a V
A gradação vai do refluxo que atinge apenas o ureter, sem dilatação, até o refluxo maciço com ureter tortuoso e perda da impressão papilar. Ela importa em um ponto e só nele: os graus IV e V são os que entram como indicação de quimioprofilaxia enquanto se define a conduta. Os graus baixos, que são a maioria, tendem a desaparecer espontaneamente nos primeiros anos de vida.
Invasividade e radiação da investigação por imagem
Ultrassonografia: sem radiação, sem cateter, disponível na rede — é o exame de todos que têm indicação. Uretrocistografia miccional: sondagem vesical, contraste intravesical e radiação em pelve — só para quem tem critério. Cintilografia com DMSA: radiação significativa, punção venosa, custo alto e oferta escassa — casos complexos, com especialista, meses depois.
Corte de contagem por método de coleta
Punção suprapúbica: qualquer crescimento, com no mínimo dez colônias idênticas. Cateterismo vesical: 10.000 UFC/mL de um único uropatógeno é a régua adotada aqui, dentro das faixas propostas pelas fontes brasileiras, que vão de 1.000 a 50.000. Jato médio: 100.000 UFC/mL, ou mais de 50.000 com piúria. Quanto mais confiável o método, menor o número necessário para significar doença.
| Método de coleta | Quando usar | Corte de UFC | O que um resultado POSITIVO autoriza | O que um resultado NEGATIVO autoriza |
|---|---|---|---|---|
| Saco coletor | Triagem, criança sem controle esfincteriano, quadro leve e sem urgência diagnóstica | Não há corte que o torne confiável quando positivo | Nada. Até 80% a 85% das culturas positivas são falsas; valor preditivo positivo da fita em torno de 14% no lactente febril. Positivo obriga recoleta por método confiável | Praticamente excluir infecção urinária: valor preditivo negativo em torno de 98% |
| Jato médio, criança com controle esfincteriano | Toda criança que urina sob comando, com higiene prévia com água e sabão, sem antisséptico | ≥ 100.000 UFC/mL de um único uropatógeno, ou > 50.000 com piúria | Diagnóstico, se houver sintoma e piúria. 20% das crianças com ITU comprovada ficam abaixo do corte | Excluir com boa segurança, se a técnica foi cumprida e não há antibiótico em curso |
| Clean catch com estímulo sacral e suprapúbico | Lactente sem controle esfincteriano quando o cateterismo não é possível ou é recusado | Mesma régua do jato médio | Diagnóstico, com contaminação bem menor que a do saco coletor | Excluir com boa segurança |
| Cateterismo vesical | Método de escolha na criança sem controle esfincteriano, junto com a punção suprapúbica | ≥ 10.000 UFC/mL de um único uropatógeno (régua deste capítulo; as fontes vão de 1.000 a 50.000) | Diagnóstico. Sensibilidade de 95% e especificidade de 99% contra a punção suprapúbica; valor preditivo positivo da fita em torno de 64% no lactente febril | Excluir infecção urinária |
| Punção suprapúbica | Lactente pequeno, fimose importante, sinéquia labial fechada, infecção genital externa ou anomalia que impeça o cateterismo | Qualquer crescimento, mínimo de dez colônias idênticas | Diagnóstico definitivo — é o padrão de referência | Excluir infecção urinária |
| Qualquer método, cultura polimicrobiana | — | Irrelevante | Nada: crescimento de mais de um microrganismo indica contaminação, e a amostra precisa ser repetida | — |
Valor preditivo de cada achado do exame de urina em 1.000 lactentes febris sem foco (prevalência de ITU de 7%: 70 doentes e 930 sadios)
| Achado | Sensibilidade | Especificidade | Verdadeiros positivos | Falsos positivos | Valor preditivo positivo | Valor preditivo negativo |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Fita reagente em amostra de saco coletor | 0,85 | 0,62 | 59,5 | 353,4 | 14,4% | 98,2% |
| Fita reagente em amostra de cateterismo | 0,71 | 0,97 | 49,7 | 27,9 | 64,0% | 97,8% |
| Esterase leucocitária | 83% | 78% | 58,1 | 204,6 | 22,1% | 98,4% |
| Nitrito | 50% | 92% | 35,0 | 74,4 | 32,0% | 96,1% |
| Contagem leucocitária (piúria) | 73% | 81% | 51,1 | 176,7 | 22,4% | 97,6% |
| Bacterioscopia | 81% | 83% | 56,7 | 158,1 | 26,4% | 98,3% |
| Gram de gota de urina não centrifugada | 93% | 95% | 65,1 | 46,5 | 58,3% | 99,4% |
Antibiótico, apresentação da Rename 2024 e volume por peso — contas feitas para 6 kg, 12 kg e 20 kg
| Droga, indicação e via | Dose | Apresentação | 6 kg | 12 kg | 20 kg |
|---|---|---|---|---|---|
| Cefalexina oral — 1ª escolha na ITU febril de quem tolera via oral | 50 a 100 mg/kg/dia, 6/6 h; teto 4.000 mg/dia | Suspensão oral 50 mg/mL (250 mg/5 mL) | 300 a 600 mg/dia = 1,5 a 3 mL por dose | 600 a 1.200 mg/dia = 3 a 6 mL por dose | 1.000 a 2.000 mg/dia = 5 a 10 mL por dose |
| Sulfametoxazol + trimetoprima oral — conforme antibiograma ou protocolo com sensibilidade local adequada | 40 + 8 mg/kg/dia, 12/12 h | Suspensão oral 40 + 8 mg/mL (200 + 40 mg/5 mL) | 240 mg SMZ + 48 mg TMP/dia = 3 mL por dose | 480 + 96 mg/dia = 6 mL por dose | 800 + 160 mg/dia = 10 mL por dose |
| Amoxicilina + clavulanato oral — reserva, pelo efeito sobre a flora intestinal | 50 mg/kg/dia de amoxicilina, 8/8 h; teto 1.500 mg/dia | Suspensão oral 50 + 12,5 mg/mL | 300 mg/dia = 2 mL por dose | 600 mg/dia = 4 mL por dose | 1.000 mg/dia = 6,7 mL por dose |
| Nitrofurantoína oral — CISTITE apenas; proibida na ITU febril | 5 a 7 mg/kg/dia, 6/6 h | Suspensão oral 5 mg/mL | 30 a 42 mg/dia = 1,5 a 2,1 mL por dose | 60 a 84 mg/dia = 3 a 4,2 mL por dose | 100 a 140 mg/dia = 5 a 7 mL por dose |
| Ceftriaxona parenteral — quem não tolera via oral, toxemiado, menor de 3 meses | 50 a 100 mg/kg/dia, 1 a 2 doses; recém-nascido abaixo de 14 dias não ultrapassar 50 mg/kg | Pó para solução injetável 250 mg, 500 mg e 1 g; a 100 mg/mL após reconstituição | 300 a 600 mg/dia = 3 a 6 mL/dia | 600 a 1.200 mg/dia = 6 a 12 mL/dia | 1.000 a 2.000 mg/dia = 10 a 20 mL/dia |
| Profilaxia — sulfametoxazol + trimetoprima, acima de 2 meses de idade | 2 mg de TMP/kg/dia, dose única à noite | Suspensão oral 40 + 8 mg/mL | 12 mg TMP/dia = 1,5 mL | 24 mg TMP/dia = 3 mL | 40 mg TMP/dia = 5 mL |
| Profilaxia — nitrofurantoína | 1 a 2 mg/kg/dia, dose única à noite; teto 100 mg/dia | Suspensão oral 5 mg/mL | 6 a 12 mg = 1,2 a 2,4 mL | 12 a 24 mg = 2,4 a 4,8 mL | 20 a 40 mg = 4 a 8 mL |
| Profilaxia — cefalexina, reservada ao lactente abaixo de 2 meses | 15 mg/kg/dia, dose única | Suspensão oral 50 mg/mL | 90 mg = 1,8 mL | 180 mg = 3,6 mL | 300 mg = 6 mL |
Quem faz qual exame de imagem, e quando
| Exame | Quem | Quando | O que responde | O que NÃO responde |
|---|---|---|---|---|
| Ultrassonografia de rins e vias urinárias | Menor de 2 anos com 1º episódio febril; ITU recorrente em qualquer idade; história familiar de doença renal ou urológica, baixo crescimento ou hipertensão; má resposta ao tratamento; ultrassonografia fetal alterada | Preferencialmente após a fase aguda; imediatamente se houver má resposta, suspeita de urossepse, massa ou jato fraco | Tamanho e forma dos rins, parênquima, dilatação de pelve e ureteres, parede e resíduo vesical, cálculos, diâmetro da ampola retal | Refluxo vesicoureteral e cicatriz renal — não diagnostica nem exclui com confiabilidade |
| Uretrocistografia miccional | Dois ou mais episódios febris; ou 1º episódio febril com ultrassonografia alterada, ou temperatura ≥ 39 °C com germe diferente de E. coli, ou baixo crescimento ou hipertensão | Após o tratamento do episódio agudo | Refluxo vesicoureteral e seu grau, válvula de uretra posterior, divertículo, anatomia uretral | Cicatriz renal e função renal relativa |
| Cintilografia renal com DMSA | Casos complexos, após avaliação do especialista | 4 a 6 meses depois do episódio agudo | Cicatriz renal e função relativa de cada rim | Refluxo vesicoureteral e obstrução |
Cistite, pielonefrite e bacteriúria assintomática
| Cistite | Pielonefrite (ITU febril) | Bacteriúria assintomática | |
|---|---|---|---|
| Febre | Ausente | Presente, em geral alta | Ausente |
| Sintomas | Disúria, polaciúria, urgência, dor suprapúbica, incontinência recente | Prostração, vômitos, dor lombar; no lactente, febre isolada | Nenhum |
| Piúria | Presente | Presente | Ausente |
| Tratamento | 7 dias no 1º episódio afebril de maior de 2 anos | 10 dias | Não tratar |
| Nitrofurantoína | Opção válida | Contraindicada — não atinge o parênquima renal | Não se aplica |
| Ultrassonografia | Só se recorrente ou com outro critério | Sim, se menor de 2 anos ou outro critério | Não |
| Conta como episódio para definir ITU recorrente | Sim, se comprovada por cultura confiável | Sim, se comprovada por cultura confiável | Não |
Quimioprofilaxia: quem recebe, com o quê, por quanto tempo
| Situação | Indicação | Droga preferida | Duração |
|---|---|---|---|
| Primeiro episódio febril, ultrassonografia normal, criança sem uropatia | Não indicada | — | — |
| Alteração na ultrassonografia, antenatal ou atual | Indicada até o término da investigação | Nitrofurantoína ou sulfametoxazol + trimetoprima acima de 2 meses; cefalexina abaixo disso | Até concluir a investigação |
| Refluxo vesicoureteral graus IV ou V | Indicada | Nitrofurantoína ou sulfametoxazol + trimetoprima | Até definição de conduta, reavaliada periodicamente |
| Uropatia obstrutiva | Indicada | Nitrofurantoína ou sulfametoxazol + trimetoprima | Até a correção cirúrgica |
| ITU recorrente: 2 ou mais pielonefrites; 1 cistite + 1 pielonefrite; 3 ou mais cistites | Indicada | Nitrofurantoína ou sulfametoxazol + trimetoprima | Reavaliar em 6 meses |
| Reinfecção precoce, novo episódio em menos de 2 semanas | Não usar profilaxia | — | — |
| Germe resistente à droga profilática isolado em cultura | Suspender ou trocar | Guiar por antibiograma | — |
O cenário muda a conduta
| Cenário | Tratamento e destino | Investigação e seguimento |
|---|---|---|
| Lactente menor de 3 meses ou criança sistemicamente doente | Avaliação pediátrica urgente; investigar infecção invasiva conforme idade e apresentação. Via e internação segundo risco. | Urina confiável e culturas indicadas; não atrasar tratamento na instabilidade. |
| Primeira ITU febril, acima de 3 meses e estável | Via oral possível com aceitação e seguimento. O esquema de 10 dias deste capítulo é o da referência brasileira adotada. | Revisão em 48–72 h; ultrassom conforme idade e evolução. |
| Primeira cistite afebril em criança maior | Escolher antibiótico por protocolo e cultura. O esquema de 7 dias apresentado é o protocolo adotado, não uma duração universal. | Não pedir imagem de rotina sem fatores adicionais; avaliar constipação e hábito miccional. |
| Recorrência comprovada | Tratar episódio atual; revisar culturas, uso prévio e disfunção vesical/intestinal. | Individualizar imagem, profilaxia e referência; não contar cultura de saco como episódio confirmado. |
| Anomalia conhecida ou evolução atípica | Reavaliar obstrução, abscesso, resistência e necessidade de via parenteral. | Imagem precoce e discussão especializada conforme achados; não esperar terminar o curso. |
Sobre o corte do cateterismo. As fontes brasileiras divergem em cinquenta vezes, e a comparação com quem sustenta cada posição está no bloco de divergências. A régua deste capítulo é 10.000 UFC/mL de um único uropatógeno com sintoma ou piúria: cabe dentro de todas as faixas propostas, é a que um serviço público brasileiro usa e ensina, e erra para o lado de tratar o lactente pequeno, que é quem mais perde com o atraso.
Sobre a fórmula de capacidade vesical impressa em protocolo público. O protocolo do SUS-BH lista, entre os critérios mínimos da ultrassonografia, o volume esperado da bexiga: para menores de 2 anos, 38 + 2,5 × idade em meses; para maiores de 2 anos, 30 + (idade × 30). A segunda fórmula está com os parênteses trocados. A expressão clássica para essa faixa é (idade em anos + 2) × 30, e a diferença é fixa: 30 mL a menos em qualquer idade — 90 mL em vez de 120 aos 2 anos, 180 em vez de 210 aos 5. Há uma prova interna disso no próprio texto: aplicada aos 24 meses, a fórmula do lactente dá 98 mL, e a fórmula impressa para maiores de 2 anos dá 90 mL, ou seja, a capacidade da bexiga cairia ao a criança completar dois anos. Com a fórmula correta ela sobe para 120 mL, como tem de ser. Use (idade + 2) × 30 e desconfie de laudo que diga capacidade aumentada por pouca margem.
Sobre a regra de bolso da profilaxia. O documento da SBP orienta usar, na profilaxia, um terço a metade da dose terapêutica, uma vez ao dia. Aplicada ao sulfametoxazol + trimetoprima, cuja dose terapêutica é de 8 mg de TMP/kg/dia, a regra produz 2,7 a 4 mg de TMP/kg/dia — de 33% a 100% acima dos 2 mg/kg/dia que os protocolos escrevem por extenso. O mesmo acontece com a nitrofurantoína: um terço a metade de 5 a 7 mg/kg/dia dá 1,7 a 3,5 mg/kg/dia, contra 1 a 2 mg/kg/dia escritos por extenso. Prescreva a dose por extenso, não a fração.
Sobre o que a Rename financia. Das drogas listadas nos quadros de tratamento da SBP, a Rename 2024 não inclui cefuroxima, cefaclor, ácido nalidíxico nem fosfomicina; gentamicina aparece apenas em apresentações oftálmicas e amicacina, como componente estratégico. O que a relação financia para esta indicação, em apresentação pediátrica, é cefalexina 50 mg/mL, sulfametoxazol + trimetoprima 40 + 8 mg/mL, nitrofurantoína 5 mg/mL, amoxicilina 50 mg/mL, amoxicilina + clavulanato 50 + 12,5 mg/mL e, por via parenteral, ceftriaxona e cefotaxima. Prescrever o que não existe no serviço é transferir para a família o custo e o atraso do tratamento.
Sobre o volume que a família precisa dar. Cefalexina a 100 mg/kg/dia numa criança de 20 kg são 10 mL por dose, quatro vezes ao dia — 40 mL por dia e 400 mL em dez dias, ou seja, quatro frascos de 100 mL. Numa criança de 12 kg a 100 mg/kg/dia são 24 mL por dia e 240 mL no total. Receita que não contempla a quantidade de frascos termina em tratamento interrompido no sexto dia, e tratamento interrompido no sexto dia é recidiva com germe selecionado.
Sobre contar episódios. Só entra na definição de infecção urinária recorrente o episódio comprovado por urocultura colhida por método confiável. Episódio tratado por sintoma, ou com base em cultura de saco coletor, não conta — e é assim que crianças chegam ao nefrologista com histórico de cinco infecções das quais nenhuma foi documentada, e saem com uretrocistografia marcada.
A conduta, hora a hora
O atendimento se organiza em quatro decisões: reconhecer gravidade, obter uma amostra confiável, iniciar tratamento adequado ao paciente e rever a resposta. Idade, função renal, culturas anteriores, resistência local e tolerância oral mudam a escolha. A duração depende de cistite ou infecção febril, do protocolo adotado e da evolução; os esquemas deste capítulo precisam ser lidos dentro desses cenários.
Colha urina para cultura antes do antibiótico sempre que isso puder ser feito prontamente. Na criança instável, a dificuldade de coleta não pode atrasar estabilização, antimicrobiano ou transferência. A via oral é apropriada para a criança acima de três meses clinicamente estável, que recebe e retém o medicamento e tem acompanhamento garantido. Sepse, idade pequena, desidratação, vômitos e impossibilidade de seguimento mudam essa decisão, mesmo que ela consiga engolir uma dose.
Toda dose abaixo vem com a fonte que a sustenta e com o volume calculado na apresentação que a Rename 2024 financia. Onde as fontes divergem, a escolha está dita e justificada.
Minuto 0 — antes de qualquer prescrição: a criança está grave?
A primeira triagem não é sobre urina, é sobre gravidade. Criança com aspecto toxêmico, hipotensão, enchimento capilar lentificado, rebaixamento do nível de consciência ou sinais de má perfusão é uma criança gravemente doente com foco possivelmente urinário, e o que a governa é o manejo da sepse, em Choque na criança: hipovolêmico, séptico e distributivo, na apostila de Emergências Pediátricas. Nela, hemocultura, acesso, expansão e antibiótico parenteral precoce vêm antes da discussão de método de coleta — mas a urina se colhe por cateterismo no mesmo momento do acesso, porque depois não haverá mais janela.
Prescrição- Sinais vitais completos com temperatura, frequência cardíaca, frequência respiratória, saturação, enchimento capilar e pressão arterial comparada à tabela por idade, sexo e estatura.
- Peso aferido na balança, não estimado — todas as doses seguintes dependem dele.
- Na unidade básica, criança toxemiada ou lactente pequeno com risco de infecção grave: iniciar estabilização e organizar transferência imediata. Colher culturas e administrar o antimicrobiano indicado pelo protocolo de sepse conforme os recursos disponíveis, sem esperar a chegada ao destino se isso atrasar o tratamento.
- Criança gravemente doente: hemocultura, glicemia capilar, acesso venoso, expansão conforme o protocolo de sepse, e urina colhida por cateterismo no mesmo momento.
Minuto 5 — decidir colher, e escolher o método pela criança
A decisão de colher é clínica: lactente febril sem foco, criança com sintoma urinário, recém-nascido com icterícia prolongada ou baixo ganho de peso. A escolha do método depende de um dado só, o controle esfincteriano — e não da fila, do horário ou da disponibilidade de quem colhe. É neste minuto que se ganha ou se perde o caso inteiro.
Prescrição- COM controle esfincteriano — jato médio: higienizar a genitália com água e sabão, sem antisséptico; desprezar o primeiro jato e recolher o intermediário sem interromper a micção, em frasco estéril; supervisionar a coleta sempre que possível.
- SEM controle esfincteriano, primeira escolha — cateterismo vesical: técnica estéril, sonda de calibre adequado ao tamanho da criança, lubrificante estéril, desprezar as primeiras gotas e recolher a urina que vem em seguida, retirar a sonda ao final. A técnica geral da sondagem vesical é tema próprio e sai remetida; o que é específico da criança é o calibre menor, a fixação por um segundo profissional e o fato de a sonda ser retirada imediatamente após a coleta, sem permanência.
- SEM controle esfincteriano, alternativa não invasiva — clean catch: oferecer líquido a 25 mL/kg, aguardar 25 minutos, segurar o lactente pelas axilas e estimular a região sacral e suprapúbica até a micção, recolhendo o jato intermediário em frasco estéril.
- SEM controle esfincteriano, situações específicas — punção suprapúbica: lactente pequeno, fimose importante, sinéquia labial fechada, infecção genital externa ou anomalia que impeça o cateterismo; confirmar bexiga cheia com ultrassonografia à beira do leito antes de puncionar.
- Saco coletor — apenas triagem: higiene prévia, trocar a cada 30 minutos sem micção com nova higiene, trocar imediatamente após evacuação, criança de pé no colo quando possível, processar ou refrigerar a amostra logo. Positivo, obriga recoleta.
- Escrever no pedido e no prontuário QUAL método foi usado. Sem essa linha, quem ler o resultado depois não sabe o que ele significa.
Minuto 10 — o que pedir junto, e o que não pedir
Três exames saem no mesmo pedido, e o terceiro é o que quase ninguém escreve. Urina de rotina responde se há piúria, nitrito e esterase. A urocultura confirma e traz o antibiograma em 24 a 48 horas. O Gram de gota de urina não centrifugada, que o protocolo público brasileiro pede de rotina, sai em minutos, tem sensibilidade de 93% e especificidade de 95% e diz se o germe é gram-negativo ou gram-positivo — o que transforma a escolha empírica em escolha informada.
Prescrição- Urina de rotina + Gram de gota de urina não centrifugada + urocultura com antibiograma, na mesma requisição, com o método de coleta anotado.
- Proteína C reativa e hemograma: não de rotina; apenas se houver toxemia ou suspeita de bacteremia.
- Creatinina sérica: apenas se houver história de infecções múltiplas, suspeita de comprometimento renal, ou antes de iniciar aminoglicosídeo.
- Hemocultura: no lactente pequeno gravemente doente e em quem se interna com quadro séptico.
- Não pedir urocultura em criança assintomática. Não pedir urocultura de controle após o tratamento.
- Não pedir exame de imagem neste momento, salvo má resposta ao tratamento, suspeita de urossepse, massa palpável ou jato urinário fraco.
Hora 0 — a primeira dose, por via oral, na criança acima de 3 meses que aceita líquido
A escolha empírica deve cobrir os uropatógenos prováveis conforme o protocolo do serviço e seu perfil de resistência, considerando culturas e antibióticos anteriores. A cefalexina apresentada abaixo é uma opção em cenários com sensibilidade adequada; uma casuística regional não define a resistência de todo o Brasil. Se a resistência local torna essa opção inadequada, escolha outro esquema já no início. Disponibilidade e apresentação importam para a adesão, mas não compensam cobertura insuficiente. Revise cultura e resposta em 48–72 horas, ou antes se houver piora.
Prescrição- Cefalexina suspensão oral 50 mg/mL — 50 a 100 mg/kg/dia divididos de 6 em 6 horas, teto de 4.000 mg/dia. Criança de 6 kg: 300 a 600 mg/dia, ou seja, 1,5 a 3 mL por dose. Criança de 12 kg: 600 a 1.200 mg/dia, ou 3 a 6 mL por dose. Criança de 20 kg: 1.000 a 2.000 mg/dia, ou 5 a 10 mL por dose. Fonte: Protocolo Colaborativo do SUS-BH, 2020, Tabela 4; SBP, Documento Científico nº 101, 2023, Quadro 3.
- Administrar a primeira dose no próprio serviço, para testar aceitação e tolerância e para conferir se o responsável entendeu a dose.
- Prescrever a quantidade de frascos: a 100 mg/kg/dia, a criança de 12 kg consome 24 mL por dia e 240 mL em 10 dias; a de 20 kg consome 40 mL por dia e 400 mL em 10 dias.
- Guardar a suspensão reconstituída de cefalexina na geladeira e desprezar após 7 a 14 dias conforme o fabricante; agitar o frasco antes de cada uso.
- Alternativa oral quando o antibiograma indicar e a cefalexina não servir — amoxicilina + clavulanato suspensão 50 + 12,5 mg/mL, 50 mg/kg/dia de amoxicilina de 8 em 8 horas, teto de 1.500 mg/dia: 2 mL por dose aos 6 kg, 4 mL aos 12 kg, 6,7 mL aos 20 kg. É reserva, pelo maior efeito sobre a flora intestinal.
- NÃO usar nitrofurantoína nem ácido nalidíxico na presença de febre: não atingem concentração suficiente no parênquima renal. Fonte: SBP, Documentos Científicos nº 7/2021 e nº 101/2023.
- Sulfametoxazol + trimetoprima: evitar uso empírico quando a resistência local é elevada; considerar quando o antibiograma ou o protocolo local o sustentar. Esquema aqui descrito: 40 + 8 mg/kg/dia, dividido de 12/12 horas. Na suspensão 40 + 8 mg/mL, são 3 mL por dose aos 6 kg, 6 mL aos 12 kg e 10 mL aos 20 kg. Conferir idade, função renal e contraindicações.
- Antitérmico e analgésico conforme desconforto, e hidratação oral frequente.
Hora 0 — a primeira dose por via parenteral, para quem tem critério
A via parenteral é para quem não pode receber por boca ou para quem tem risco que não permite errar: menor de 3 meses, toxemia, vômitos, desidratação, imunossupressão. A Rename 2024 financia ceftriaxona e cefotaxima; não financia cefuroxima nem gentamicina sistêmica, o que na prática torna a ceftriaxona o parenteral disponível na maioria dos serviços públicos brasileiros para esta indicação.
Prescrição- Ceftriaxona: as doses pediátricas da tabela precisam ser escolhidas pelo foco, gravidade e protocolo; 50 a 100 mg/kg/dia é uma faixa de referência, não autorização para usar a dose maior em todo caso. Se o preparo resultar em 100 mg/mL, dividir a dose em mg por 100 para obter mL, com diluição final e infusão conforme protocolo. Recém-nascidos seguem protocolo neonatal próprio: hiperbilirrubinemia e cálcio intravenoso são restrições relevantes, e o esquema de crianças maiores não deve ser extrapolado.
- Alternativa parenteral quando houver aminoglicosídeo disponível no serviço — gentamicina 5 a 7,5 mg/kg/dia em dose única diária, intravenosa ou intramuscular, com creatinina sérica dosada antes de iniciar e atenção à nefrotoxicidade. Fonte: SBP, Documento Científico nº 101, 2023, Quadro 3; SUS-BH, 2020, Tabela 5. A dose diária única reduz a nefrotoxicidade em relação ao fracionamento.
- Amicacina 15 mg/kg/dia em dose única, quando indicada e disponível, com a mesma cautela renal.
- Uma dose parenteral diária, aplicada em hospital-dia, pode evitar internação em criança selecionada acima de 2 meses que não tolera via oral, não está toxemiada, está bem hidratada, não tem anormalidade urológica e cujos cuidadores conseguem aderir ao regime ambulatorial.
- NÃO manter via venosa por 10 dias por princípio: assim que a criança melhorar e aceitar líquido, sequenciar para via oral.
Hora 1 — decidir quem interna, e é menos gente do que se interna
A lista de indicações de internação é curta e fechada. Fora dela, a criança vai para casa com antibiótico oral, primeira dose supervisionada e retorno marcado — e isso inclui a maioria dos lactentes acima de três meses com pielonefrite, que é justamente o grupo que mais se interna sem necessidade. Internar sem critério expõe a criança a infecção hospitalar, a acesso venoso e a jejum, e ocupa leito pediátrico que costuma faltar.
Prescrição- Internar: idade abaixo de 2 meses.
- Internar: urossepse clínica, toxemia aparente, hipotensão ou enchimento capilar lentificado.
- Internar: paciente imunocomprometido.
- Internar: vômitos ou incapacidade de tolerar medicação oral.
- Internar: ausência de acompanhamento ambulatorial possível — sem telefone, morando longe da unidade, cuidador sem condição de administrar a medicação.
- Internar: falha da terapia ambulatorial.
- Não internar apenas porque a febre está alta, porque a criança é pequena mas tem mais de 3 meses, ou porque a família está assustada. Para a última, a resposta é conversa e retorno marcado, não leito.
Hora 6 a hora 24 — o que se acompanha no primeiro dia
No primeiro dia não se espera que a febre tenha cedido. O que se acompanha é a tolerância à medicação, a hidratação e a ausência de piora — e é a janela para combinar com a família o que é sinal de retorno, porque a próxima consulta programada só será em 48 a 72 horas.
Prescrição- Hidratação oral frequente, se tolerada; líquidos por via intravenosa apenas na impossibilidade.
- Antitérmico por desconforto, não por número no termômetro.
- Conferir se a criança reteve as duas primeiras doses e se a família mede o volume com seringa dosadora, e não com colher.
- Escrever no papel que a família leva os sinais de retorno imediato: vômitos que impeçam a medicação, prostração, recusa de líquidos, piora do estado geral, ou febre que persista após 72 horas.
- Não repetir exame de urina nem urocultura neste momento.
48 a 72 horas — a reavaliação com o antibiograma, que não é opcional
Reveja a criança e o resultado da cultura em 48–72 horas: há melhora clínica, a amostra confirma ITU e o antibiótico é ativo? Reduza o espectro quando possível; mude o esquema se resistência e contexto indicarem; suspenda tratamento de um diagnóstico não confirmado quando a reavaliação o permitir. Quem consulta o resultado, como a família será contatada e onde retorna precisam estar definidos. Resistência in vitro em uma série regional não equivale à probabilidade individual de falha.
Prescrição- Ler o antibiograma e ajustar: descalonar para o menor espectro eficaz quando possível; trocar se o germe for resistente à droga em uso, ainda que a criança esteja melhorando pouco.
- Se houve resposta clínica e o germe é sensível: manter a droga e completar o tempo. Não colher urocultura de controle.
- Definir o tempo total: 10 dias na infecção urinária febril e na recorrente; 7 dias no primeiro episódio de infecção afebril em criança acima de 2 anos. Fonte: SBP, Documento Científico nº 101, 2023; SUS-BH, 2020, Tabela 6.
- Reforçar a contagem de frascos e o horário das doses, que é onde a adesão se perde a partir do terceiro dia.
- Se a cultura veio de saco coletor e não foi recolhida: registrar o episódio como infecção urinária provável, e não comprovada — ele não conta para a definição de infecção recorrente nem abre, sozinho, investigação por imagem.
48 a 72 horas — quando a febre NÃO cedeu
Falha em 48 a 72 horas tem quatro explicações, e três delas não são resistência: o diagnóstico está errado e a febre tem outro foco; a cultura era falso-positiva e não havia infecção urinária; o germe é resistente à droga escolhida; ou há obstrução, abscesso ou anormalidade que impede a resposta. A conduta cobre as quatro ao mesmo tempo, e é aqui que a ultrassonografia deixa de ser exame de seguimento e passa a ser exame de agora.
Prescrição- Reexaminar a criança inteira procurando outro foco — otoscopia, orofaringe, ausculta, abdome, pele, articulações, sinais meníngeos.
- Recolher urina por método confiável para nova cultura, registrando que a coleta se dá sob antibiótico e que resultado negativo, nesse contexto, não exclui infecção.
- Indicar ultrassonografia de rins e vias urinárias agora: má resposta ao tratamento antimicrobiano apropriado é indicação de imagem precoce, e é o que identifica uropatia obstrutiva e abscesso renal ou perirrenal.
- Rever antibiótico, dose, administração e cultura. Na criança em deterioração, iniciar suporte e adequar rapidamente cobertura e via; na criança estável, investigar a causa da não resposta antes de ampliar automaticamente o espectro.
- Dosar creatinina sérica e reavaliar hidratação; considerar hemocultura se ainda não colhida.
- Reavaliar a necessidade de internação: falha da terapia ambulatorial é, por si, critério de internação.
Dia 7 a dia 10 — o encerramento do tratamento
Terminados os dias prescritos, o tratamento acaba. O que não acaba é o caso: é neste momento que se decide, com a cabeça fria e a criança bem, quem faz imagem e quem não faz — e essa decisão é escrita pelo interno, na carta de alta, e será executada por outro serviço dali a semanas.
Prescrição- Completar 10 dias na infecção febril ou recorrente; 7 dias na primeira cistite afebril de criança acima de 2 anos.
- Não colher urocultura de controle se houve resposta clínica e sensibilidade confirmada.
- Indicar ultrassonografia de rins e vias urinárias, a ser realizada após a fase aguda, para quem tem critério — a lista está na tabela de imagem.
- Escrever no pedido de ultrassonografia o que precisa ser medido: volume renal, aspecto do parênquima, diâmetro anteroposterior da pelve renal, diâmetro dos ureteres proximal e distal, volume e espessura da parede vesical, resíduo pós-miccional e diâmetro da ampola retal.
- NÃO pedir uretrocistografia miccional nem cintilografia com DMSA na alta sem que os critérios próprios de cada uma estejam preenchidos.
Alta — a prevenção que decide se a criança volta
Metade da prevenção de recorrência é comportamental e cabe na consulta de alta. Disfunção vesical e intestinal está presente em 30% a 50% das crianças já no primeiro episódio, e constipação intestinal crônica tratada com laxante reduz significativamente as recorrências. O manejo detalhado da disfunção vesical e intestinal é de Enurese noturna e distúrbios miccionais funcionais, nesta apostila; o que fica aqui é o conjunto mínimo que se orienta em toda alta.
Prescrição- Ir ao banheiro a cada 3 horas, mesmo sem vontade, e urinar antes de dormir.
- Sentar bem no vaso, sem pressa, com assento redutor e com os pés apoiados — banquinho, se os pés não alcançam o chão. Para meninas, afastar bem as pernas.
- Não segurar a urina quando der vontade.
- Ingesta hídrica ao longo do dia, com pelo menos 1 litro por dia na criança maior, e evitar líquidos nas 2 horas antes de dormir, incluindo mamadeiras.
- Avaliar e tratar constipação: escala de fezes de Bristol pediátrica, horário para evacuar sentado no vaso por 10 minutos após uma das refeições, frutas e legumes diariamente, e laxante quando indicado.
- Micção em dois tempos, se houver resíduo vesical significativo.
- Registrar por escrito quem reavalia, quando e onde — e anexar o resultado da urocultura com o método de coleta anotado.
Semana 4 a semana 8 — a consulta da investigação, e a decisão sobre profilaxia
Com a ultrassonografia na mão e a criança bem, a investigação termina para a maioria: exame normal em criança que respondeu ao tratamento encerra o assunto. Para a minoria com achado, a decisão seguinte é se abre uretrocistografia e se inicia quimioprofilaxia — e essa é a decisão que mais precisa de número, porque o benefício é real e modesto.
Prescrição- Ultrassonografia normal, primeiro episódio, criança que respondeu: encerrar a investigação por imagem, manter orientação de hábito miccional e intestinal, e orientar a família a procurar avaliação com urocultura em novo episódio febril sem foco.
- Ultrassonografia alterada — hidronefrose, dilatação ureteral, cicatriz, sinais sugestivos de refluxo de alto grau ou uropatia obstrutiva: indicar uretrocistografia miccional e encaminhar ao nefrologista pediátrico.
- Quimioprofilaxia: indicada em alteração na ultrassonografia antenatal ou atual, refluxo vesicoureteral graus IV ou V, uropatias obstrutivas até a correção, e infecção urinária recorrente — mantida até o término da investigação. Fonte: SBP, Documento Científico nº 101, 2023.
- Sulfametoxazol + trimetoprima 2 mg de TMP/kg/dia, dose única à noite, acima de 2 meses de idade: 1,5 mL aos 6 kg, 3 mL aos 12 kg, 5 mL aos 20 kg da suspensão 40 + 8 mg/mL. Fonte: SUS-BH, 2020, Tabela 7.
- Nitrofurantoína 1 a 2 mg/kg/dia, dose única à noite, teto de 100 mg/dia: 1,2 a 2,4 mL aos 6 kg, 2,4 a 4,8 mL aos 12 kg, 4 a 8 mL aos 20 kg da suspensão 5 mg/mL.
- Cefalexina 15 mg/kg/dia em dose única, reservada ao lactente abaixo de 2 meses: 1,8 mL aos 6 kg da suspensão 50 mg/mL.
- Não iniciar profilaxia em reinfecção precoce, ou seja, novo episódio em menos de 2 semanas. Suspender ou trocar a profilaxia se cultura isolar germe resistente à droga usada.
- Dizer o número à família: em ensaio controlado por placebo, a profilaxia com sulfametoxazol + trimetoprima reduziu os episódios de 55 em 288 crianças (19,1%) para 36 em 288 (12,5%) — 6,6 pontos percentuais de diferença absoluta, o que corresponde a tratar cerca de 15 crianças para evitar um episódio. O estudo relata razão de risco de 0,61 com intervalo de confiança de 95% entre 0,40 e 0,93; calculada diretamente dos números brutos publicados, a razão é 0,65, o que indica ajuste no modelo original. É benefício real e modesto, e é assim que ele deve ser apresentado.
Como saber se está funcionando
Esta é a doença em que o aluno sabe prescrever e não sabe dizer se funcionou. O parâmetro principal — a febre — demora, e a demora é normal: esperar resposta em doze horas leva a trocar antibiótico que estava certo. O parâmetro que confirma — o antibiograma — chega quando a decisão já foi tomada, e é por isso que a consulta de 48 a 72 horas é parte do tratamento e não uma cortesia.
Abaixo, o que se acompanha, em quanto tempo, o que significa melhora, e o que fazer quando não melhora.
Esperado: Queda progressiva a partir das 24 a 48 horas do início do antibiótico, com desaparecimento em até 72 horas. Picos isolados no segundo dia, em criança que está aceitando líquido e brincando entre eles, não indicam falha.
Se não melhora: Reavaliar antes se houver piora; persistência da febre em 48–72 horas pede exame completo, conferência da administração e das culturas e pesquisa de complicação. Ultrassonografia é indicada na evolução atípica. Ajustar via e cobertura conforme gravidade e resultados, sem ampliação automática apenas por febre.
Esperado: Criança que volta a aceitar líquido, a interagir e a brincar entre os picos. Este parâmetro melhora antes da febre e é o primeiro sinal de que o tratamento está certo.
Se não melhora: Prostração que não cede, recusa de líquidos ou vômitos que impedem a medicação convertem o caso em indicação de internação e de via parenteral, independentemente do valor da temperatura.
Esperado: Germe sensível à droga em uso. Havendo resposta clínica e sensibilidade confirmada, mantém-se a droga, completa-se o tempo e não se colhe urocultura de controle.
Se não melhora: Germe resistente à droga em uso obriga trocar, mesmo que a criança pareça estar melhorando — sobretudo na infecção febril, em que a concentração no parênquima renal é o que importa. Germe diferente de Escherichia coli é, além disso, critério para pensar em anormalidade estrutural e entra na decisão de imagem.
Esperado: Volume administrado compatível com o prescrito. A pergunta útil não é se está dando o remédio: é quanto sobrou no frasco. Uma criança de 12 kg em cefalexina a 100 mg/kg/dia consome 24 mL por dia; se no quarto dia ainda há quase um frasco cheio, o tratamento não está acontecendo.
Se não melhora: Adesão insuficiente se corrige com seringa dosadora, horários escritos, número de frascos suficiente e, quando necessário, dose administrada na unidade. Não se troca antibiótico por falha de adesão — troca-se o plano de administração.
Esperado: Redução progressiva junto com a febre.
Se não melhora: Dor lombar que persiste ou piora com febre mantida sugere abscesso renal ou perirrenal, ou obstrução — e é indicação de ultrassonografia imediata, não de aumento de analgesia.
Esperado: Diurese preservada, jato contínuo e forte.
Se não melhora: Jato fraco, gotejante ou intermitente, ou redução da diurese, é achado de possível uropatia obstrutiva — válvula de uretra posterior no menino — e indica ultrassonografia e encaminhamento ao nefrologista pediátrico, independentemente da resposta ao antibiótico.
Esperado: Creatinina dentro do esperado para idade e estatura.
Se não melhora: Creatinina elevada muda o caso de infecção urinária para criança com comprometimento renal: ajustar doses, suspender nefrotóxicos e encaminhar. O manejo da injúria renal aguda é tema próprio e sai remetido.
Esperado: Exame normal, que em criança com primeiro episódio febril e boa resposta encerra a investigação por imagem.
Se não melhora: Hidronefrose, dilatação ureteral, assimetria de tamanho renal, parênquima alterado, parede vesical espessada ou resíduo pós-miccional significativo abrem a etapa seguinte: uretrocistografia miccional quando houver critério, e encaminhamento ao nefrologista pediátrico.
Esperado: Nenhum novo episódio. Cada novo episódio febril exige urocultura colhida por método confiável antes do antibiótico — não se trata recorrência por telefone.
Se não melhora: Dois ou mais episódios de pielonefrite, um de pielonefrite mais um de cistite, ou três ou mais cistites, todos comprovados por cultura, definem infecção urinária recorrente e mudam três coisas ao mesmo tempo: indicam ultrassonografia se ainda não feita, indicam uretrocistografia miccional, e colocam a quimioprofilaxia em discussão.
Esperado: Micções a cada 3 horas sem adiamento, sem manobras de contenção, sem perdas diurnas; evacuações regulares, com fezes de consistência adequada na escala de Bristol pediátrica.
Se não melhora: Incontinência diurna, urgência, manobras de contenção, enurese e constipação persistentes são disfunção vesical e intestinal, causa principal de recorrência. Tratar a constipação reduz recorrência de forma significativa. O manejo detalhado é de Enurese noturna e distúrbios miccionais funcionais, nesta apostila; o encaminhamento ao nefrologista pediátrico está indicado quando a disfunção não responde ao tratamento da constipação e às micções programadas.
Esperado: Pressão arterial dentro do percentil para idade, sexo e estatura; crescimento seguindo o canal na curva; albuminúria ausente.
Se não melhora: Hipertensão, queda de canal de crescimento ou albuminúria em criança com cicatriz ou malformação indicam perda funcional e pertencem ao seguimento da doença renal crônica, que é tema próprio e sai remetido. É por causa deste parágrafo, e não por causa do episódio agudo, que se investiga com imagem quem tem critério.
Onde o erro machuca
O dano: A maioria dessas culturas é falsa. A criança recebe antibiótico que não precisava, com efeito sobre a flora intestinal e seleção de resistência; o foco verdadeiro da febre deixa de ser procurado, porque o caso já tem nome; e o episódio entra no prontuário como infecção urinária, o que abre investigação por imagem que ela não precisava — cateterismo, contraste e radiação por um diagnóstico que nunca existiu.
Como pegar a tempo: Antes de ler o número, leia o método. Cultura positiva de saco coletor não é diagnóstico: é indicação de recoleta por cateterismo, jato médio ou clean catch. E escreva o método de coleta no pedido, para que quem ler o resultado depois saiba o que ele vale.
O dano: Antibiótico prévio pode reduzir o rendimento da cultura e dificultar confirmação e antibiograma. Colher prontamente antes da dose melhora a investigação, mas atrasar tratamento na criança instável também causa dano; a prioridade depende da urgência clínica.
Como pegar a tempo: Colha urina para cultura antes do antibiótico quando isso for prontamente viável. Na criança grave, tente coleta adequada em paralelo ao acesso e ao suporte; dificuldade de coleta não pode atrasar o tratamento indicado. Registre eventual antimicrobiano prévio para interpretar a cultura.
O dano: A droga atinge concentração excelente na urina e ruim no parênquima renal. A bactéria que está no rim não vê o antibiótico: a febre não cede, a inflamação continua e o tempo de febre antes do tratamento eficaz — que é um dos determinantes do risco de cicatriz — aumenta. O erro costuma ser descoberto no terceiro dia, e nesses três dias o rim ficou sem tratamento.
Como pegar a tempo: Amarre a droga ao sinal: nitrofurantoína e ácido nalidíxico são de cistite, e cistite não tem febre. Diante de qualquer febre, os dois estão fora, e a recomendação brasileira é explícita ao contraindicá-los.
O dano: Em casuística pediátrica comunitária brasileira, 45% das cepas de Escherichia coli são resistentes. Quase metade das crianças tratadas empiricamente com essa droga fica sem cobertura, e a falha aparece como febre persistente no terceiro dia — quando o custo já foi pago em tempo de inflamação renal.
Como pegar a tempo: Escolher o antimicrobiano pelo protocolo e sensibilidade locais, culturas anteriores, idade e gravidade. Na ausência de dado local, discutir o esquema de referência do serviço; não presumir que um perfil regional vale para todo o país. Rever a cultura e a evolução em 48–72 horas.
O dano: Expõe a criança a infecção hospitalar, acesso venoso, jejum e separação da família, e ocupa leito pediátrico escasso, sem benefício demonstrável no lactente acima de três meses que aceita líquido. A via oral tem, nesse grupo, o mesmo desfecho da parenteral.
Como pegar a tempo: Interne por critério e não por diagnóstico: menor de 2 meses, urossepse ou toxemia, imunocomprometido, vômitos ou incapacidade de tolerar via oral, ausência de acompanhamento ambulatorial possível, ou falha da terapia ambulatorial. Fora disso, primeira dose supervisionada no serviço e retorno em 48 a 72 horas.
O dano: Cefalexina a 100 mg/kg/dia numa criança de 20 kg são 10 mL por dose, quatro vezes ao dia, 400 mL em dez dias — quatro frascos de 100 mL. Uma receita com um frasco significa tratamento interrompido no terceiro dia, e tratamento interrompido é recidiva com germe selecionado. O mesmo acontece quando a família mede com colher de sobremesa em vez de seringa dosadora.
Como pegar a tempo: Escreva a dose em mililitros, não só em miligramas; escreva quantos frascos; entregue seringa dosadora; e pergunte na reavaliação quanto sobrou no frasco, que é a única medida honesta de adesão.
O dano: Encontra bacteriúria assintomática, que não causa inflamação do uroepitélio e não se trata. O tratamento seleciona flora resistente, expõe a efeito adverso e cria um rótulo de infecção de repetição que abrirá exames por imagem.
Como pegar a tempo: Cultura de urina só se pede na presença de sinais e sintomas de infecção urinária. Diante de bacteriúria assintomática já encontrada, a conduta correta é registrar e não tratar.
O dano: Sondagem vesical, contraste intravesical e radiação em pelve de criança pequena, com achado mais frequente de refluxo de baixo grau — que na maioria desaparece espontaneamente nos primeiros anos e que, uma vez encontrado, tende a gerar profilaxia prolongada e consultas que nada mudam. É o exame que mais se pede por hábito neste tema.
Como pegar a tempo: Indique uretrocistografia apenas com critério: dois ou mais episódios febris; ou primeiro episódio febril com ultrassonografia alterada, ou temperatura igual ou acima de 39 °C com germe diferente de E. coli, ou baixo crescimento ou hipertensão.
O dano: Acrescenta radiação, custo e punção venosa a uma decisão já tomada: a criança febril com urocultura positiva receberá dez dias de antibiótico com ou sem o exame. E consome vaga de um exame escasso na rede pública, que faz falta para quem precisa avaliar cicatriz meses depois.
Como pegar a tempo: Pergunte, antes de assinar: este resultado muda o que eu faço nas próximas 24 horas ou nas próximas 8 semanas? Se não muda, não peça. O DMSA fica para casos complexos, com especialista, 4 a 6 meses depois.
O dano: Perde-se vulvovaginite, balanopostite e sinéquia de pequenos lábios, que produzem exatamente a queixa urinária e ainda contaminam a amostra — e a criança recebe antibiótico por uma inflamação de mucosa externa. Perde-se também estigma cutâneo de disrafismo — hemangioma, tufo de pelos, fosseta, assimetria de pregas glúteas —, que aponta bexiga neurogênica e explica infecções de repetição que nenhum antibiótico resolverá.
Como pegar a tempo: Inclua os dois itens na rotina do exame da criança com sintoma urinário, com a criança acompanhada e com explicação prévia à família. São dez segundos e mudam a hipótese.
O dano: Disfunção vesical e intestinal está presente em 30% a 50% das crianças já no primeiro episódio e é o principal fator modificável de recorrência. A criança que sai tratada e constipada volta — e a segunda ida abre investigação por imagem por 'infecção de repetição' que seria evitável com laxante e banquinho para apoiar os pés.
Como pegar a tempo: Pergunte frequência e consistência das fezes com a escala de Bristol pediátrica, frequência das micções, perdas diurnas, manobras de contenção e adiamento. Trate a constipação e escreva as orientações de hábito miccional no papel que a família leva.
O dano: Quanto mais tempo o saco fica em contato com a pele, mais bactérias entram na amostra; se houver evacuação, a amostra vira cultura de fezes. Somando o tempo até o laboratório em temperatura ambiente, o resultado que volta descreve a multiplicação de contaminantes, com contagem alta e bactéria plausível.
Como pegar a tempo: Se o saco for usado, cumpra a técnica: higiene com água e sabão sem antisséptico, troca a cada 30 minutos sem micção com nova higiene, troca imediata após evacuação, criança de pé no colo, e processamento imediato ou refrigeração. E lembre que, mesmo assim, ele só serve para excluir.
O dano: A criança acumula um histórico de quatro ou cinco 'infecções urinárias' tratadas por sintoma, atinge a definição de recorrente sem nunca ter tido uma comprovada, e entra no caminho de uretrocistografia, cintilografia e profilaxia prolongada. Em geral, o que ela tem é disfunção do trato urinário inferior — que não melhora com antibiótico e piora com a seleção de flora.
Como pegar a tempo: Só conta episódio com urocultura positiva colhida por método confiável. Ao receber uma criança com histórico de repetição, procure as culturas antes de aceitar o rótulo; se elas não existirem, o rótulo também não.
O dano: A resposta esperada leva de 24 a 72 horas. Trocar no primeiro dia descarta uma droga que estava certa, escala o espectro sem necessidade e ainda apaga a possibilidade de avaliar a resposta da segunda droga — porque agora há duas variáveis mudando ao mesmo tempo.
Como pegar a tempo: Marque a reavaliação para 48 a 72 horas, explique à família que a febre pode durar até lá, e reserve a mudança precoce para quem piora clinicamente, não para quem apenas continua febril no dia seguinte.
O que dizer ao paciente e à família
Três conversas decidem o desfecho deste tema, e nenhuma delas é sobre antibiótico. A primeira é pedir permissão para passar uma sonda numa criança pequena, diante de pais que acabaram de ouvir que já existe um exame positivo. A segunda é dizer que não vai pedir o exame de imagem que a família esperava, ou que veio pedido de outro serviço. A terceira é a conversa de alta, que é onde se ganha ou se perde a prevenção da recorrência.
O que atravessa as três é a mesma dificuldade: explicar que um exame já feito não vale, sem passar a mensagem de que o serviço anterior foi incompetente, e sem transferir para a família a sensação de que ninguém sabe o que está fazendo.
Explicar por que a urina precisa ser colhida por sonda, num lactente
“"Para tratar direito eu preciso ter certeza de qual bactéria é, e isso depende de a urina sair limpa. Nessa idade ela ainda não urina quando a gente pede, então existem dois jeitos: colar um saquinho e esperar, ou passar uma sondinha fininha, que colhe direto da bexiga e sai na hora. O saquinho encosta na pele e recolhe junto o que está por fora — em mais da metade das vezes o resultado dá positivo sem que exista infecção, e aí a criança toma antibiótico à toa e faz exame à toa. A sondinha incomoda por alguns segundos, não fica colocada, e o resultado vale. Eu vou explicar tudo o que vou fazer e vocês podem ficar do lado dela."”
Não diga: "É só um procedimento de rotina." Não é rotina para essa família, e chamar de rotina fecha a conversa antes de a pergunta ser feita. Também não diga "não dói": diga que incomoda e dura pouco, que é verdade e sustenta a confiança depois.
Quando os pais recusam o cateterismo
“"Eu entendo, e a decisão é de vocês. Existe um outro jeito que não usa sonda: a gente oferece líquido, espera uns vinte minutos e estimula as costinhas dele até ele fazer xixi, e eu recolho no meio do jato. Dá mais trabalho e às vezes não dá certo na primeira tentativa, mas a amostra é boa. Se não conseguirmos, aí a gente conversa de novo. O que eu não quero é tratar dez dias e mandar fazer exames com base numa amostra que pode estar errada."”
Não diga: Ceder para o saco coletor e tratar com o resultado dele como se fosse equivalente. Se a família recusa e o clean catch falha, o correto é registrar a recusa, explicar a limitação por escrito e tomar a decisão clínica sabendo que o diagnóstico ficou provável, e não comprovado — inclusive para não abrir investigação por imagem depois.
A família chega com uma cultura positiva colhida em casa, com saco coletor
“"Esse exame ajudou: ele levantou a suspeita e foi por causa dele que vocês vieram. O problema é que esse tipo de coleta engana com frequência — pega bactéria de fora e o laboratório conta como se viesse da bexiga. Por isso ele serve muito bem para descartar quando dá negativo, e não serve para confirmar quando dá positivo. Vou colher de novo do jeito que vale, e é importante colher antes de começar o antibiótico, porque depois da primeira dose a urina fica limpa e o exame não diz mais nada."”
Não diga: "Esse exame não presta." A frase desqualifica o serviço anterior e a própria família, que fez o que foi orientada. O exame prestou para o que serve; o que não se pode é usá-lo para o que ele não serve.
Explicar por que a criança não vai fazer o exame de imagem que veio pedido
“"Esse exame existe e às vezes é necessário, mas ele passa uma sonda, coloca contraste dentro da bexiga e usa raio-X na barriga dela. Faz sentido quando o ultrassom mostra alguma coisa ou quando a criança tem mais de uma infecção comprovada. Nesse momento a Sofia não está nesse grupo. O que eu vou pedir é o ultrassom, que não usa radiação nenhuma e responde as perguntas mais importantes. Se o ultrassom mostrar algo, aí sim conversamos sobre o outro exame — e eu explico exatamente por quê."”
Não diga: "Isso aí é exagero, não precisa." Além de desautorizar o colega, deixa a família com a impressão de que está sendo privada de um cuidado. Diga o que se ganha e o que se paga, e diga qual achado abriria a indicação.
Explicar por que a criança VAI fazer o ultrassom
“"Em criança pequena, a primeira infecção urinária com febre às vezes é o primeiro aviso de que o rim ou o caminho da urina tem alguma diferença de nascença. Na maioria das vezes está tudo normal — e o ultrassom serve exatamente para encerrar essa dúvida. É um exame simples, sem agulha, sem radiação, com gel na barriga. Vou marcar para depois que ela estiver boa, porque durante a infecção o exame pode mostrar coisa que não é."”
Não diga: Falar em malformação sem qualificar. A palavra assusta e fica. Diga "diferença de nascença que às vezes existe e que a gente precisa afastar", e diga desde o começo que o resultado mais provável é normal.
Quando o ultrassom mostra alteração
“"O ultrassom mostrou uma diferença no caminho da urina. Isso explica por que ela teve essa infecção e é uma informação boa de ter agora, e não daqui a cinco anos. O próximo passo é um exame que olha isso melhor, e uma consulta com o nefrologista pediátrico. Ainda não sei se vai precisar de tratamento, de remédio de prevenção ou de nada além de acompanhamento — e eu prefiro dizer que ainda não sei a inventar uma resposta hoje."”
Não diga: Antecipar cirurgia, diálise ou prognóstico renal. A maioria dos achados não terminará em nada disso, e a família carregará a frase por meses até a consulta com o especialista.
Explicar por que a febre pode durar mais dois dias
“"O antibiótico começou hoje, mas o rim inflamado demora a esfriar. É esperado que ela ainda tenha febre amanhã e talvez depois de amanhã. O que eu quero que vocês olhem não é o número do termômetro: é se ela está bebendo líquido, se está brincando entre uma febre e outra, e se está conseguindo tomar o remédio. Se a febre continuar depois de três dias, ou se ela ficar prostrada, vomitar tudo ou recusar líquido, voltem antes."”
Não diga: Prometer que a febre vai passar em 24 horas. A promessa não se cumpre em boa parte dos casos e faz a família procurar outro serviço, onde o antibiótico será trocado sem necessidade.
A conversa da adesão, em mililitros
“"São 6 mL, quatro vezes por dia, nesta seringa até esta marca — não é colher, porque colher varia muito. Vai precisar de dois frascos e meio para os dez dias, e eu já coloquei três na receita. Guarde na geladeira, agite antes. Se ela vomitar logo depois, repita a dose; se vomitar duas vezes seguidas, tragam de volta. E não parem quando a febre passar: ela vai passar antes de o tratamento terminar."”
Não diga: Entregar a receita sem demonstrar a seringa e sem dizer o número de frascos. É o passo que mais frequentemente separa uma prescrição correta de um tratamento que aconteceu.
A conversa que evita a próxima infecção
“"Tem uma parte disso que não é remédio. Criança que segura o xixi e criança presa do intestino tem infecção urinária de novo, porque a bexiga não esvazia direito. Então: banheiro a cada três horas mesmo sem vontade, sem pressa, com os pés apoiados num banquinho; xixi antes de dormir; água ao longo do dia; e a gente precisa resolver o intestino dela — me conte quantas vezes por semana ela evacua e como é."”
Não diga: Tratar isso como conselho geral de fim de consulta. É intervenção com efeito demonstrado sobre recorrência, e merece o mesmo tempo que a prescrição do antibiótico.
Com a criança maior, que tem vergonha da coleta
“"Eu preciso de um pouco do seu xixi para saber que remédio vai te curar. Você mesma faz: você entra no banheiro sozinha, deixa o primeiro pouquinho cair no vaso, e depois coloca o potinho no meio do xixi. Ninguém vai olhar. Se preferir, sua mãe entra com você e eu fico aqui fora."”
Não diga: Falar com a mãe como se a criança não estivesse ali. A criança em idade escolar entende, colabora e colhe melhor do que qualquer adulto colhe por ela — e o constrangimento não considerado é uma causa frequente de amostra ruim.
O que não prometer
“"Eu não posso prometer que ela não vai ter outra infecção — uma em cada três crianças tem outra no primeiro ano, e isso não quer dizer que alguém fez algo errado. O que eu posso prometer é isto: se acontecer de novo, a gente colhe o exame do jeito certo antes de começar qualquer remédio, e aí a gente vai saber. E se o ultrassom for normal, a chance de isso deixar sequela no rim é muito pequena."”
Não diga: Prometer cura definitiva, ausência de recorrência ou ausência de cicatriz. E, no extremo oposto, não transformar cada episódio em anúncio de doença renal crônica: a maioria das crianças com ultrassonografia normal e boa resposta ao tratamento não terá nada.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Não: a coleta deve ser por cateterismo vesical ou punção suprapúbica
Na criança sem controle esfincteriano, a coleta deve ser feita por cateterismo vesical ou punção suprapúbica; o saco coletor só tem utilidade para descartar diagnóstico quando negativo, pela alta taxa de falso-positivo, e um resultado positivo obriga repetição por método invasivo. Materiais de ensino brasileiros vão além e registram, com nível de evidência A, que o diagnóstico não pode ser feito de modo confiável em amostra de saco coletor.
Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Nefrologia. Documento Científico nº 101, 13 de setembro de 2023; e Documento Científico nº 7, 22 de setembro de 2021.
Sim: a rede definiu o saco coletor como preferencial, por não ser invasivo
A forma preconizada na rede para coleta de urina em crianças sem controle de esfíncter é o saco coletor. Embora alguns autores defendam a coleta por punção ou sondagem vesical, a secretaria definiu a coleta por jato médio ou saco coletor como método preferencial da rede, por não ser invasiva — com técnica descrita: higiene com água e sabão, troca a cada 30 minutos sem micção, troca imediata após defecação e criança de pé no colo. A urocultura por saco coletor tem grande índice de falso-positivo, mas é muito útil quando negativa, praticamente afastando o diagnóstico em qualquer faixa etária.
Belo Horizonte, Secretaria Municipal de Saúde. Protocolo Colaborativo: manejo clínico da infecção urinária na criança, 2020, item 7.1.
As duas posições respondem a perguntas diferentes: a sociedade responde qual amostra é confiável, a rede responde o que é exequível em escala numa atenção primária sem material e sem profissional treinado para cateterizar lactente. Para a criança à sua frente, decida pela reversibilidade do erro. Se um resultado positivo vai desencadear dez dias de antibiótico, contagem de episódio e investigação por imagem, a amostra precisa ser confiável — e aí não é saco coletor. Se a intenção é apenas excluir infecção urinária numa criança pouco sintomática, em que a demora não piora a evolução, o saco coletor negativo resolve e evita um procedimento. A síntese operacional: use o saco para dizer não, nunca para dizer sim, e ofereça o clean catch como caminho do meio quando o cateterismo não for possível.
Acima de 1.000 UFC/mL
A régua brasileira publicada em 2021 fixa o corte em amostra por cateterismo vesical acima de 1.000 UFC/mL, e a revisão brasileira de referência adota a faixa de 1.000 a 50.000 UFC/mL, adaptada de tabela europeia. O argumento é a esterilidade praticamente completa da amostra: contagem baixa em urina de cateter tem significado diferente de contagem baixa em urina de jato.
Sociedade Brasileira de Pediatria, Documento Científico nº 7, 2021; e Simões e Silva AC, Oliveira EA. J Pediatr (Rio J). 2015;91(6 Supl 1):S2-S10, Tabela 1.
Acima de 50.000 UFC/mL
A régua brasileira publicada em 2023 pelo mesmo departamento fixa o corte em amostra por cateterismo acima de 50.000 UFC/mL, alinhando-se à recomendação norte-americana que exige piúria associada a pelo menos 50.000 UFC/mL. O argumento é reduzir o tratamento de crescimentos de pequena monta sem significado clínico.
Sociedade Brasileira de Pediatria, Documento Científico nº 101, 2023.
Igual ou acima de 10.000 UFC/mL
O protocolo público brasileiro adota 10.000 UFC/mL de um único uropatógeno em amostra de cateter vesical, posição intermediária que cabe dentro de todas as faixas propostas. O mesmo documento registra que 20% das crianças com infecção comprovada têm crescimento abaixo do corte de 100.000 UFC/mL no jato médio, o que argumenta contra cortes altos.
Belo Horizonte, Secretaria Municipal de Saúde. Protocolo Colaborativo, 2020, item 7.1.
A divergência é grande — cinquenta vezes entre os extremos, e entre dois documentos do mesmo departamento com dois anos de intervalo. Decida pela combinação de número, clínica e sedimento, que é o que nenhum corte isolado resolve: contagem acima de 50.000 UFC/mL em criança sintomática é infecção para qualquer das fontes; contagem entre 1.000 e 50.000 só é infecção se houver piúria ou sintoma compatível; crescimento polimicrobiano é contaminação em qualquer contagem. Na dúvida com lactente febril de menos de três meses, trate — nesse grupo o custo de não tratar é maior que o de tratar. Na criança maior, bem, com contagem intermediária e sem piúria, repita a coleta antes de rotular.
Só quando a ultrassonografia está alterada ou a infecção é atípica
A comparação das principais diretrizes mostra que a orientação inglesa e a norte-americana restringem a uretrocistografia aos casos com ultrassonografia alterada ou infecção atípica, e a norte-americana é a de menor exposição à radiação entre os protocolos comparados. Protocolos agressivos aumentam a sensibilidade para detectar refluxo e cicatriz, com benefício questionável frente ao custo e à exposição à radiação.
Sociedade Brasileira de Pediatria, Documento Científico nº 7, 2021, Quadro 2 (NICE 2007 e AAP 2011-2016); e Documento Científico nº 101, 2023.
De forma mais ampla, incluindo meninos pequenos e crianças abaixo de dois anos
Outras diretrizes comparadas no mesmo quadro indicam a uretrocistografia mais amplamente: em meninos abaixo de seis meses ou com ultrassonografia alterada, e em crianças abaixo de dois anos quando a ultrassonografia é alterada ou a infecção é recorrente. O argumento é que a ultrassonografia tem baixa sensibilidade para refluxo e não exclui graus elevados.
Sociedade Brasileira de Pediatria, Documento Científico nº 7, 2021, Quadro 2 (RCH 2006 e CPS 2014).
Nenhuma, sem cintilografia alterada antes
A estratégia Top Down Approach inverte a ordem: faz a cintilografia primeiro e só indica a uretrocistografia se ela estiver alterada. É a que tem os maiores custos e a maior exposição à radiação entre os protocolos comparados.
Sociedade Brasileira de Pediatria, Documento Científico nº 7, 2021, Quadro 2 (Top Down Approach).
Não há evidência científica que sustente um protocolo específico, e é por isso que existem cinco. Decida pelo que você faria com o resultado. Se encontrar refluxo de grau I a III não vai mudar nada — e na maioria dos casos não muda, porque esses graus regridem sozinhos —, o exame só acrescenta sondagem e radiação. Se a criança tem ultrassonografia alterada, dois ou mais episódios febris comprovados, germe diferente de E. coli com febre alta, baixo crescimento ou hipertensão, o achado pode mudar seguimento e profilaxia, e aí o exame se paga. Considere também o que você pode oferecer: numa rede em que a uretrocistografia demora meses, indicá-la sem critério atrasa quem precisa dela.
Dez dias
O tempo de terapia antibiótica na infecção urinária febril é de dez dias, de acordo com as diretrizes inglesa, italiana e australiana, e é o que a régua brasileira adota. Protocolo público brasileiro segue a mesma linha: dez dias na infecção febril ou recorrente, sete dias no primeiro episódio afebril de criança acima de dois anos.
Sociedade Brasileira de Pediatria, Documento Científico nº 101, 2023; Belo Horizonte, Protocolo Colaborativo, 2020, Tabela 6.
Sete a quatorze dias, com a duração exata ainda indefinida
As diretrizes canadense e norte-americana sugerem sete a quatorze dias, e a revisão da Colaboração Cochrane afirma serem necessários novos estudos para definir o tempo de terapia. Documento brasileiro anterior fixava apenas que o tratamento nunca deve ser inferior a sete dias, preferencialmente dez.
Sociedade Brasileira de Pediatria, Documento Científico nº 101, 2023 (citando AAP, CPS e Cochrane); e Documento Científico nº 1, dezembro de 2016.
A faixa em que todos concordam é sete a dez dias, e a divergência real é se sete bastam. Decida por três critérios concretos: a idade — quanto menor o lactente, menos margem para encurtar; a velocidade da resposta — criança que ficou afebril em 24 horas e está bem no quinto dia tolera dez dias sem prejuízo, e não há motivo para experimentar sete; e a adesão — se o tratamento longo vai ser interrompido no sexto dia por falta de frasco ou por cansaço da família, dez dias prescritos e sete cumpridos é pior do que dez planejados com frasco suficiente. Na cistite afebril de criança maior, sete dias é a régua brasileira e não há por que estendê-la.
Sim, em subgrupos selecionados
Estudos bem desenhados mostram benefício em subgrupos: em ensaio australiano controlado por placebo, sulfametoxazol + trimetoprima em dose baixa reduziu os episódios de 55 em 288 crianças para 36 em 288, com razão de risco de 0,61 e intervalo de confiança de 95% entre 0,40 e 0,93; o ensaio RIVUR, com 607 crianças, mostrou redução de 50% no risco de recidiva; e o estudo sueco demonstrou eficácia na prevenção de novas cicatrizes em meninas com refluxo moderado a grave.
Simões e Silva AC, Oliveira EA. J Pediatr (Rio J). 2015;91(6 Supl 1):S2-S10.
Não há consenso, e a seleção do paciente é tudo
A avaliação deve ser individualizada e discutida com a família em riscos e benefícios, levando em conta a resistência bacteriana e a eficácia do tratamento. Em crianças com trato urinário normal, a profilaxia deve ser avaliada com cautela pela possibilidade de selecionar cepas mais resistentes, aumentando o risco de infecção — e a profilaxia não deve ser usada em reinfecção precoce.
Sociedade Brasileira de Pediatria, Documento Científico nº 7, 2021; e Documento Científico nº 1, dezembro de 2016.
Traduza o benefício em número antes de decidir: 19,1% de episódios no placebo contra 12,5% no antibiótico são 6,6 pontos percentuais de diferença absoluta, ou cerca de quinze crianças tratadas por um ano para evitar um episódio. É real e é modesto. Para a criança à sua frente, pese quatro coisas: se há alteração estrutural — com ultrassonografia alterada, refluxo de alto grau ou uropatia obstrutiva, o rim tem o que perder e a profilaxia entra; quantos episódios comprovados houve, e não quantos foram rotulados; qual o padrão de resistência local, porque profilaxia com droga a que o germe da criança já é resistente é só efeito adverso; e se existe disfunção vesical e intestinal, porque nesse caso laxante e micção programada podem render mais que antibiótico. E deixe claro à família que a profilaxia é temporária e reavaliável, não uma sentença.
Não: via oral é a preferencial acima de três meses
A via de administração preferencial nos maiores de três meses de vida é a oral, desde que a concentração da droga no parênquima renal seja suficiente para tratar pielonefrite. A hospitalização fica reservada a idade inferior a dois meses, pacientes criticamente doentes ou com risco de não adesão ao tratamento.
Sociedade Brasileira de Pediatria, Documento Científico nº 101, 2023; e Documento Científico nº 7, 2021.
Parenteral inicial no lactente pequeno e em quem não tolera via oral
O tratamento parenteral deve ser reservado principalmente aos lactentes muito jovens e àqueles com comprometimento do estado geral e vômitos; quando a opção inicial é parenteral, não há obrigatoriedade de mantê-la por dez dias, e a via oral pode completar o tratamento após reavaliação em 48 a 72 horas com melhora. Uma dose parenteral diária em hospital-dia pode evitar internação em criança selecionada.
Sociedade Brasileira de Pediatria, Documento Científico nº 1, dezembro de 2016; e Belo Horizonte, Protocolo Colaborativo, 2020, item 9.2.
A decisão de via integra gravidade, idade, hidratação, tolerância oral e acesso ao seguimento. Criança acima de três meses, estável, que retém a primeira dose e tem cuidador capaz de administrá-la pode receber tratamento oral. Lactente pequeno, sepse ou deterioração exigem avaliação hospitalar. Hospital-dia só é alternativa quando existe estrutura para reavaliação e comparecimento diário; não resolve uma impossibilidade de acompanhamento.
O raciocínio, em voz alta
Sofia, 1 ano e 2 meses, 9,5 kg, terceiro dia de febre. Esteve na unidade na segunda-feira, quando não se achou foco, e colheu urina em casa com saco coletor. Volta hoje com o resultado — Escherichia coli, mais de 100.000 UFC/mL —, no terceiro dia de cefalexina prescrita por telefone, ainda com 39 °C, e com um pedido manuscrito de uretrocistografia miccional. Está no colo, chorosa mas consolável, aceitando líquidos, sem vômitos. Temperatura axilar 38,9 °C, frequência cardíaca 152, enchimento capilar de 2 segundos, saturação 98%.
o que penso antes de tocar nela
Duas coisas estão decididas sem exame nenhum. A primeira: ela não está grave — consolável, aceitando líquido, perfundida, sem toxemia —, e portanto não há urgência de acesso venoso nem de antibiótico parenteral neste minuto. A segunda: o diagnóstico que está escrito no envelope não é um diagnóstico, é uma hipótese, porque a amostra veio de saco coletor. Preciso decidir se acredito nele antes de decidir qualquer outra coisa, porque tudo o que vier depois — trocar antibiótico, internar, pedir imagem — depende dessa resposta.
o que peço primeiro, e não é exame
Peço a história que ninguém colheu. Como foi colhida a urina: em casa, saco colado depois do banho, a mãe diz que demorou 'um tempão' até ela fazer xixi e que o potinho ficou na pia até de tarde, quando o pai levou ao laboratório. Isso responde a pergunta central — a amostra teve tempo, contato e temperatura para multiplicar contaminante. Pergunto também se ela usou antibiótico nos noventa dias anteriores: não usou. E se falaram algo do rim dela no ultrassom da gravidez: a mãe diz que não.
o exame físico, feito para achar foco e não para confirmar o que já foi dito
Otoscopia bilateral normal, orofaringe sem alteração, ausculta limpa, sem exantema, sem petéquias, fontanela normotensa, nuca livre. Abdome sem massa, bexiga não distendida, Giordano não avaliável na idade mas sem dor à percussão lombar. Genitália sem sinéquia, sem hiperemia, sem secreção. Região lombossacra sem estigma cutâneo. Peso 9,5 kg, seguindo o canal na curva. Pressão arterial dentro do percentil. Ou seja: continuo sem foco, e o rótulo urinário continua sendo a hipótese mais provável — mas segue sendo hipótese.
a decisão que decide o caso
Preciso de urina colhida por método confiável. Sofia não controla esfíncter, então as opções são cateterismo, punção suprapúbica ou clean catch. E há um problema que eu não posso desfazer: ela está no terceiro dia de antibiótico, o que significa que a urina está provavelmente estéril pela droga e uma cultura negativa agora não vai excluir infecção. Colho mesmo assim, por cateterismo, e escrevo no pedido que a coleta se dá sob antibiótico — porque uma cultura positiva sob antibiótico, se vier, prova infecção com germe resistente, e isso mudaria tudo.
o que peço junto, e sai antes da cultura
Urina de rotina e Gram de gota de urina não centrifugada da mesma amostra. O Gram é o melhor exame imediato disponível — sensibilidade de 93%, especificidade de 95% — e ele vem em minutos: se houver bacilo gram-negativo em quantidade, a infecção é provável apesar do antibiótico; se vier limpo, a probabilidade cai muito. A urina de rotina volta com 3 leucócitos por campo, nitrito negativo, esterase negativa; o Gram vem sem bactérias visíveis.
como a resposta muda o que eu penso
Um exame de urina limpo no terceiro dia de antibiótico tem duas leituras possíveis: o antibiótico funcionou e limpou a urina, ou nunca houve infecção urinária. A primeira leitura é incompatível com a clínica — se o antibiótico tivesse funcionado, a febre teria cedido, e ela está no terceiro dia com 38,9 °C. Isso desloca minha hipótese principal: provavelmente a cultura do saco coletor era falso-positiva, e a febre de Sofia tem outra causa que ninguém procurou desde segunda-feira, porque o caso já tinha nome.
reabro o caso do começo
Terceiro dia de febre em lactente, agora com exame físico repetido com calma. Reexamino a orofaringe com abaixador e boa luz: hiperemia importante de pilares, sem exsudato. Palpo cadeias cervicais: linfonodos submandibulares aumentados e dolorosos. Olho as mãos e os pés, olho a conjuntiva, procuro descamação, procuro exantema — não porque espero achar, mas porque febre de três dias em lactente com faringite e adenomegalia me obriga a pensar em doença de Kawasaki antes que ela complete cinco dias. Nada disso está presente. O quadro se organiza como faringoamigdalite, provavelmente viral nessa idade.
o que faço com o antibiótico que já está em curso
Não troco por 'resistência' — a lógica de escalonar seria construída sobre um diagnóstico que eu já concluí ser provavelmente falso. Suspendo a cefalexina, explico à família por que, e trato o desconforto e a febre com antitérmico, hidratação e retorno definido. Registro no prontuário, com estas palavras: urocultura prévia colhida por saco coletor, resultado não confirmado por método confiável; episódio NÃO deve ser contado como infecção urinária comprovada. Essa linha é o que impede Sofia de carregar um episódio fantasma no histórico de recorrência.
o que faço com o pedido de uretrocistografia
Não encaminho. A indicação de uretrocistografia exige dois ou mais episódios febris comprovados, ou um primeiro episódio febril com ultrassonografia alterada, ou com temperatura igual ou acima de 39 °C e germe diferente de E. coli, ou com baixo crescimento ou hipertensão. Sofia não tem nenhum desses — e o episódio que sustentaria o pedido é justamente o que eu acabo de concluir não estar comprovado. Explico à família, e explico o que se ganharia e o que se pagaria com o exame, para que a recusa não pareça economia.
o que eu deixo combinado, porque ainda pode ser eu que esteja errado
Deixo retorno em 48 horas, e retorno imediato se houver prostração, recusa de líquidos, vômitos ou piora. Digo à família que a cultura colhida hoje volta em dois dias e que, se vier positiva apesar do antibiótico, eu ligo — porque isso mudaria a conduta inteira. E oriento que, num próximo episódio de febre sem foco, a urina seja colhida na unidade, por método confiável, antes de qualquer antibiótico.
o desfecho e o que ele ensina
A febre cede no dia seguinte, com aceitação recuperada; a cultura colhida por cateterismo volta negativa. Sofia nunca teve infecção urinária. O que ela teve foi um saco coletor, três dias de antibiótico desnecessário, um encaminhamento para um exame com radiação e sondagem, e uma família que passou uma semana achando que o rim da filha estava comprometido. Nenhum desses danos veio de desconhecimento da doença: todos vieram de um resultado lido sem que ninguém perguntasse como ele tinha sido colhido.
Faça você
Heitor, 3 meses e 2 semanas, 6 kg, chega ao pronto-socorro pediátrico com febre aferida em casa de 39,3 °C há cerca de 18 horas. Não circuncidado. Está ativo, corado, mamando bem no peito, sem vômitos, sem diarreia, sem tosse, sem coriza. Ao exame: temperatura axilar 39,1 °C, frequência cardíaca 168 no pico febril, frequência respiratória 44, saturação 98%, enchimento capilar de 2 segundos, fontanela normotensa, nuca livre, otoscopia normal, orofaringe sem alteração, ausculta limpa, abdome sem massas, sem exantema, sem petéquias. Genitália sem hiperemia e sem secreção; prepúcio não retrátil, sem sinal inflamatório. Caderneta em dia. Sem uso de antibiótico nos últimos noventa dias. A mãe relata que, no ultrassom da gestação, disseram que estava tudo bem. A técnica pergunta se pode colar o saco coletor.
o que a idade e a ausência de foco decidem
Lactente de pouco mais de três meses com febre sem foco há menos de 24 horas: a hipótese de infecção urinária está aberta e a urina precisa ser colhida. Ele tem três fatores que empurram a probabilidade para cima ao mesmo tempo — idade abaixo de doze meses, temperatura máxima acima de 39 °C e sexo masculino não circuncidado. A estratificação geral da criança febril sem sinais localizatórios é tema próprio e sai remetida; a régua urinária, não: aqui se colhe.
o que o exame físico já excluiu, e o que ele não exclui
Não há foco respiratório, otológico, cutâneo ou meníngeo. Não há balanopostite que explicaria sintoma urinário e contaminaria a amostra. Não há sinal de gravidade: ele está ativo, corado, mamando, perfundido. Isso afasta a necessidade de acesso venoso imediato e de antibiótico parenteral emergencial, e afasta, por ora, a criança gravemente doente com foco infeccioso — cujo manejo é tema próprio. O que o exame não exclui é infecção urinária, porque nessa idade ela não tem sinal físico próprio.
o que já se pode decidir sobre internação
Ele tem mais de dois meses, não está toxemiado, não é imunocomprometido, não vomita, mama bem e a família tem como retornar. Não há critério de internação. A decisão de internar ou não, portanto, já está tomada antes de qualquer exame — e não vai mudar por causa do valor da febre.
agora é com você
Responda, nesta ordem, com o que faria de fato no plantão: (1) o que você diz à técnica sobre o saco coletor, e por qual método a urina de Heitor deve ser colhida; (2) quais exames saem no mesmo pedido; (3) em que momento entra a primeira dose de antibiótico em relação à coleta; (4) qual droga, em qual apresentação, em qual dose e em quantos mililitros para os 6 kg dele, e por quanto tempo; (5) quando você o reavalia e o que espera encontrar; e (6) qual exame de imagem você indica, para quando, e qual você NÃO indica.
Ver como fecharíamos
(1) O saco coletor não serve aqui. Heitor não tem controle esfincteriano, e um resultado positivo desencadearia dez dias de antibiótico, contagem de episódio e investigação por imagem — decisões que exigem amostra confiável. A coleta é por cateterismo vesical, com técnica estéril e sonda de calibre adequado, retirada logo após a coleta. Se a família recusar, ofereça o clean catch: líquido a 25 mL/kg, ou seja, cerca de 150 mL, espera de 25 minutos, criança segura pelas axilas com estímulo sacral e suprapúbico, recolhendo o jato intermediário. Punção suprapúbica fica para a impossibilidade de cateterizar — no caso dele, o prepúcio não retrátil pode ser o motivo. (2) Urina de rotina, Gram de gota de urina não centrifugada e urocultura com antibiograma, na mesma requisição, com o método de coleta anotado no pedido. Proteína C reativa, hemograma e creatinina não são rotina; hemocultura, só se houver toxemia. (3) A urocultura vem ANTES da primeira dose. Depois da primeira dose a cultura perde valor e a janela não reabre. Colhida a urina, se o exame de urina ou o Gram forem sugestivos, o antibiótico começa imediatamente, sem esperar a cultura. (4) Ele tem mais de três meses, está mamando e não vomita: via oral. Cefalexina suspensão oral 50 mg/mL, 50 a 100 mg/kg/dia de 6 em 6 horas — para 6 kg, 300 a 600 mg/dia, ou seja, 1,5 a 3 mL por dose. A primeira dose se administra no próprio serviço, para testar aceitação. Duração: 10 dias, porque é infecção urinária febril. Prescreva o número de frascos e entregue seringa dosadora. Não use nitrofurantoína nem ácido nalidíxico, porque há febre; sulfametoxazol + trimetoprima só é opção empírica quando o protocolo e a sensibilidade locais o sustentarem. Ceftriaxona 50 a 100 mg/kg/dia — 300 a 600 mg/dia, 3 a 6 mL/dia da solução a 100 mg/mL — fica reservada a quem não tolera via oral ou está toxemiado. (5) Reavaliação em 48 a 72 horas, com o antibiograma. Espera-se queda progressiva da febre a partir de 24 a 48 horas, com desaparecimento em até 72, e melhora do estado geral e da aceitação antes da febre. Se o germe for sensível e ele estiver bem, mantém-se a droga, completam-se os 10 dias e NÃO se colhe urocultura de controle. Se a febre persistir além de 72 horas, reexamine procurando outro foco, reveja a cultura, indique ultrassonografia na evolução atípica e ajuste via e cobertura conforme gravidade e resultados. (6) Indique ultrassonografia de rins e vias urinárias, a ser realizada após a fase aguda: ele tem menos de 2 anos e este é o primeiro episódio febril. Escreva no pedido o que precisa ser medido, incluindo resíduo pós-miccional e diâmetro da ampola retal. NÃO indique uretrocistografia miccional: ele não tem dois episódios febris, não tem ultrassonografia alterada ainda, não tem baixo crescimento nem hipertensão, e o critério de febre alta só vale combinado a germe diferente de E. coli. NÃO indique cintilografia com DMSA — ela é para casos complexos, com especialista, 4 a 6 meses depois. Se a ultrassonografia vier normal, a investigação por imagem se encerra aí.
Para crianças de 6 meses a menos de 3 anos com primeira ITU por E. coli, boa resposta em até 48 horas e sem características atípicas, a NICE NG224 não indica DMSA ou uretrocistografia de rotina. Nesta criança, a ultrassonografia já realizada é normal e não há indicação de acrescentar exames agora. Isso não prova ausência de refluxo nem permite presumir que eventual refluxo seria de baixo grau. Recorrência, resposta inadequada, alterações ultrassonográficas ou outros sinais de alarme exigem reavaliação. Não se deve restringir o retorno apenas a episódios febris. Lesões renais podem ser congênitas ou adquiridas, e essa distinção não é estabelecida pelo caso apresentado.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Discuta duas amostras de urina com o preceptor: uma por saco coletor e outra por método confiável. Relacione clínica, piúria, espécie isolada, contagem e antibiótico prévio. Explique por que a cultura positiva de saco não confirma ITU e por que nenhum número de colônias deve ser interpretado sozinho. Pratique como colher antes da primeira dose sem atrasar o cuidado da criança instável.
Em 30 dias
Acompanhe um episódio do início ao retorno: documente método de coleta, escolha baseada no protocolo local, dose em mg e volume da apresentação disponível. Revise a cultura e a resposta com o preceptor, justificando manutenção, ajuste ou suspensão. Ao final, diferencie primeira cistite, primeira ITU febril e recorrência; escreva a indicação de imagem, se existir, e uma orientação concreta sobre intestino e micção.
Agora atenda
Você é o interno de plantão numa unidade de pronto atendimento e recebe um lactente febril há dois dias, sem foco ao exame, cuja família traz um resultado de urocultura positiva colhida em casa. Descubra como aquela amostra foi obtida antes de aceitar o diagnóstico, decida o método de coleta pela idade e pelo controle esfincteriano, garanta que a urina saia antes da primeira dose, escolha a droga e a via pelo que a criança consegue receber, calcule a dose em mililitros para o peso dela — e, no fim, decida com critério qual exame de imagem entra no encaminhamento e qual não entra, explicando à família os dois.
