Pediatria › Nefrologia Pediátrica
O que mata aqui não é a creatinina
Glomerulonefrite difusa aguda pós-estreptocócica
Edema, hipertensão e hematúria sugerem síndrome nefrítica. Avalie em conjunto pressão, respiração, diurese e potássio; o cuidado inclui restrição de sódio, manejo do volume e vigilância das complicações.
Sociedade Brasileira de Pediatria. Toporovski J, Bresolin NL. Glomerulonefrite difusa aguda pós-estreptocócica (GNPE). Correios da SBP, Ano 8, out/nov/dez de 2002, p. 5-8.
Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Nefrologia. Hipertensão arterial na infância e adolescência. Manual de Orientação, abril de 2019.
Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hipertensão Arterial Sistêmica. Aprovado pela Portaria SECTICS/MS nº 49, de 23 de julho de 2025.
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Sociedade Brasileira de Cardiologia, Sociedade Brasileira de Hipertensão e Sociedade Brasileira de Nefrologia. Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – 2025. Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250624.
Sociedade Brasileira de Nefrologia. Recomendações sobre distúrbios glomerulares: investigação e tratamento das glomerulopatias em adultos. J Bras Nefrol, suplemento, 2005.
Sociedade Brasileira de Cardiologia, Sociedade Brasileira de Pediatria e Sociedade Brasileira de Reumatologia. Diretrizes Brasileiras para o Diagnóstico, Tratamento e Prevenção da Febre Reumática. Arq Bras Cardiol 2009;93(3 supl.4):1-18.
Cristália Produtos Químicos Farmacêuticos. Nepresol (cloridrato de hidralazina), solução injetável 20 mg/mL. Bula para o profissional de saúde.
Blau Farmacêutica. Furosemida, solução injetável 10 mg/mL. Bula para o profissional de saúde.
CDC. Clinical Guidelines for Post-Streptococcal Glomerulonephritis, 2025. https://www.cdc.gov/group-a-strep/hcp/clinical-guidance/post-streptococcal-glomerulonephritis.html
Responda antes de ler
Criança de 6 anos com edema periorbitário, hematúria macroscópica e hipertensão. A mãe nega dor de garganta nas últimas semanas. Qual pergunta da anamnese tem maior chance de encontrar um antecedente que apoie a hipótese de glomerulonefrite pós-estreptocócica?
O paciente que você vai ver
Sete e quarenta de uma segunda-feira, pronto atendimento de bairro, desses em que o hospital com pediatra de plantão está a três bairros e uma baldeação. A fila verde tem dezenove nomes e a triagem escreveu a mesma coisa em duas fichas: "inchaço no rosto". Você é o interno da manhã. A ficha que a técnica te entrega primeiro diz Kauan Higino, 7 anos, e traz um sinal vital anotado a lápis que ninguém comentou: pressão 138 por 92.
Ele entra andando, de mão dada com a mãe, e a primeira coisa que se vê não é o inchaço: é que ele está bem. Fala, responde, senta sozinho na maca, tira o tênis sem ajuda. A mãe, dona Jamile, começa antes da pergunta. "Ele acordou assim sábado. Achei que era picada, que ele dorme com a janela aberta. Domingo baixou um pouco de tarde e hoje de manhã voltou pior. E a urina dele está escura, doutor, escura de Coca-Cola. Foi por isso que eu vim."
As pálpebras estão cheias, os dois lados iguais, a pele lisa e tensa por cima do osso da órbita. Não há vermelhidão, não há calor, não há dor ao toque. As pernas têm um cacifo raso que some devagar. Ele pesa 22 quilos — três semanas atrás, na pesagem da escola, pesava 20,5.
Há duas maneiras de conduzir esta consulta, e elas divergem no primeiro minuto. Uma trata o inchaço como o problema, procura alergia, procura verme, pede um exame de urina e manda voltar com o resultado. A outra lê os três achados juntos — cara inchada, urina escura, pressão alta — e reconhece que eles têm nome, sequência e um risco que não é o rim. Este capítulo é sobre a segunda.
O nome é síndrome nefrítica, e na criança brasileira a causa mais comum é a glomerulonefrite difusa aguda pós-estreptocócica. A tríade é edema, hipertensão e hematúria. O que engana é a hierarquia: o edema é o que trouxe a família, a urina escura é o que assusta, a creatinina é o que o interno mais olha — e nenhum dos três é o que mata. O que mata, quando mata, é a pressão, por dois caminhos: encefalopatia e congestão.
Isso reorganiza a consulta inteira. Se a pressão é o risco, a pressão é a primeira medida, não a última; é o que decide internação; é o que decide a velocidade da conduta; e é o único achado do quadro que exige uma tabela por idade, sexo e estatura para ser lido, porque 138 por 92 num adulto é um dado de ambulatório e numa criança de sete anos é outra coisa completamente.
Falta ainda a pergunta que fecha o diagnóstico, e ela não está na queixa nem no exame físico: está semanas atrás. Alguma coisa aconteceu com esta criança antes — uma dor de garganta, ou uma ferida de pele — e o intervalo entre aquilo e hoje é o que transforma um edema sem explicação num diagnóstico com nome. Dona Jamile ainda não falou nisso, porque ninguém perguntou, e porque para ela aquilo já acabou.
O plantão de hoje tem, portanto, três tarefas e uma ordem. Reconhecer a síndrome. Medir e classificar a pressão contra a tabela certa. E fazer a pergunta que olha para trás. O tratamento — que é sal, diurético e controle de pressão, e não antibiótico nem corticoide — vem depois, e é a parte mais simples.
Quem adoece disso
A glomerulonefrite difusa aguda pós-estreptocócica é a mais comum das glomerulopatias da infância, e a mais comum das duas sequelas tardias não supurativas da infecção estreptocócica — a outra é a febre reumática, que tem capítulo próprio na apostila de Cardiologia e não se decide pela lógica desta aqui.
A distribuição por idade é estreita e útil. É rara abaixo dos dois anos, mais frequente no pré-escolar e no escolar, com pico em torno dos sete. Isso significa que o edema periorbitário do lactente de oito meses pede outra lista de hipóteses, e que a criança de sete anos com cara inchada e urina escura está exatamente no meio da curva.
A distribuição por sexo diz mais do que parece, porque ela muda conforme a porta de entrada da bactéria. Nos casos que vêm de infecção de vias aéreas superiores, a proporção é de dois meninos para cada menina. Nos casos que vêm de piodermite, os sexos se equivalem. Não é curiosidade estatística: é a primeira pista de que a garganta e a pele não são a mesma história, e é a razão de a anamnese ter de cobrir as duas.
Vale colocar as duas sequelas lado a lado, porque é assim que elas caem na prova e, o que importa mais, é assim que elas se decidem no consultório. A diretriz brasileira de febre reumática abre dizendo que a febre reumática e a cardiopatia reumática crônica são complicações não supurativas da faringoamigdalite pelo estreptococo beta-hemolítico do grupo A, em populações geneticamente predispostas. O texto brasileiro sobre glomerulonefrite abre dizendo que ela é, junto com a febre reumática, sequela tardia não supurativa de estreptococcia — e acrescenta a diferença que muda a anamnese: aqui a infecção pode ter sido de vias aéreas superiores ou de pele.
Dessa assimetria saem três consequências práticas. A primeira é de anamnese: quem investiga febre reumática pergunta por garganta; quem investiga nefrite pergunta por garganta e por pele. A segunda é de prevenção, e é a frase que o capítulo de Faringoamigdalites e critérios de Centor, na apostila de Otorrinolaringologia, enuncia e este recebe: o antibiótico da amigdalite existe para prevenir a febre reumática e não previne a glomerulonefrite. A terceira é de seguimento: a criança que teve febre reumática entra em profilaxia secundária com penicilina G benzatina de 21 em 21 dias, por um tempo que a própria diretriz discrimina caso a caso, e a criança que teve nefrite pós-estreptocócica não entra em profilaxia nenhuma: não há segunda dose programada, não há injeção mensal, não há nada a repetir. A febre reumática em si é do capítulo Febre reumática e cardiopatia reumática crônica, na apostila de Cardiologia; o que fica aqui é o contraste.
A doença ocorre de forma endêmica e também epidêmica. O documento brasileiro registra uma epidemia com mais de uma centena de casos em Divinópolis, em Minas Gerais, por estreptococo do grupo C — e esse detalhe importa por dois motivos. Primeiro, porque surto de nefrite existe, e uma segunda criança do mesmo bairro com o mesmo quadro na mesma semana não é coincidência. Segundo, porque o grupo A não é o único capaz de causá-la, embora seja de longe o mais comum.
O prognóstico é o dado que a família precisa ouvir, e ele é bom: a evolução natural dos casos não complicados é o desaparecimento do edema em sete a quinze dias, o aumento da diurese, a normalização da pressão dois a três dias depois disso, e o restabelecimento clínico geral por volta da terceira ou quarta semana. A criança que você está atendendo hoje, na esmagadora maioria das vezes, vai estar bem em um mês.
Há um contraponto que precisa ser dito no mesmo fôlego, para que a boa notícia não vire descuido. Existem formas subclínicas, em que a criança segue brincando e a doença aparece só como edema discreto, hipertensão e queda do complemento. E existem as complicações, que são três — congestão circulatória, encefalopatia hipertensiva e insuficiência renal aguda — e que se distribuem numa ordem inversa à do medo do interno: a mais frequente é a congestão, e a menos comum de todas é justamente a insuficiência renal.
Falta um número, e a falta é informação. Não há registro nacional de incidência de glomerulonefrite pós-estreptocócica no Brasil, e nenhum documento brasileiro em uso publica taxa por cem mil habitantes, por faixa etária ou por região. O que existe é a descrição clínica de serviços e o relato de epidemias localizadas. Quem quiser dimensionar o problema no seu município não tem de onde tirar o denominador — e essa é uma das razões pelas quais o intervalo entre a infecção e a nefrite continua sendo ensinado por descrição, e não por dado brasileiro medido.
Por que acontece o que acontece
A glomerulonefrite pós-estreptocócica não é uma infecção do rim. Nenhuma bactéria chega ao glomérulo, nenhuma cultura de urina cresce por causa dela, e no dia em que a criança adoece do rim a infecção que a causou já acabou. O que acontece no glomérulo é inflamação de origem imunológica, difusa, atingindo todos os glomérulos dos dois rins — daí o nome, que descreve a distribuição da lesão e não o agente.
O gatilho é uma cepa nefritogênica do estreptococo beta-hemolítico do grupo A. A palavra nefritogênica carrega a assimetria mais importante do assunto: nem toda cepa causa nefrite, nem toda cepa causa febre reumática, e as cepas que fazem uma coisa não são as que fazem a outra. Daí decorre a frase que o capítulo de Faringoamigdalites e critérios de Centor, na apostila de Otorrinolaringologia, enuncia do lado de lá e este aqui recebe do lado de cá: o antibiótico da amigdalite previne febre reumática e não previne glomerulonefrite.
O mecanismo proposto pela literatura que o documento brasileiro resume começa fora do rim. A neuraminidase produzida pela bactéria agiria sobre a imunoglobulina G do próprio paciente, removendo ácido siálico e tornando-a antigênica; essa imunoglobulina modificada se depositaria na região subendotelial da membrana basal glomerular, ativaria o sistema do complemento, liberaria frações com atividade quimiotática e atrairia polimorfonucleares, que por sua vez liberariam proteases e ativariam substâncias oxidantes. Outros antígenos bacterianos foram testados com a mesma capacidade — a estreptoquinase, que se deposita no glomérulo e fixa complemento, e um receptor de plasminogênio associado à nefrite, encontrado em vinte e dois de vinte e dois pacientes em fase inicial da doença num dos estudos citados.
Guarde do parágrafo anterior uma só coisa, porque é a que tem consequência à beira do leito: o complemento é consumido. É por isso que a dosagem de complemento sérico é obrigatória no diagnóstico, é por isso que ele volta ao normal sozinho quando a doença segue seu curso, e é por isso que um complemento que não volta é o sinal de que o diagnóstico estava errado. Toda a lógica do seguimento sai daqui.
Do glomérulo inflamado sai uma consequência mecânica única, e ela explica o quadro inteiro. O coeficiente de ultrafiltração cai, e com ele o ritmo de filtração glomerular. A função tubular, porém, permanece praticamente normal — o túbulo não está doente. Chega ao túbulo menos filtrado do que o habitual, e o túbulo reabsorve sódio com a eficiência de sempre. É o desajuste do balanço glomerulotubular: o rim retém sódio não porque o corpo precise, mas porque as duas metades do néfron deixaram de conversar.
Sódio retido, mais água ingerida, resulta em expansão do volume extracelular. Daí saem, ao mesmo tempo e pela mesma causa, o edema e a hipertensão. Não são dois problemas: são duas leituras do mesmo excesso de volume. A prova disso está na resposta do organismo — o sistema renina-angiotensina-aldosterona fica suprimido, que é o oposto do que acontece na hipertensão da estenose de artéria renal e o oposto do que acontece na criança desidratada. Some-se a isso um vasoespasmo generalizado, descrito no mesmo documento, e a pressão sobe por dois caminhos ao mesmo tempo.
Compreender que o motor é volume muda a prescrição inteira e a torna quase óbvia. Se o problema é sal e água a mais dentro de um sistema fechado, o tratamento é tirar sal, tirar água e, quando isso não basta, acelerar a saída com diurético de alça. Não há por que dar corticoide, porque não é uma doença que se apague com imunossupressão em dias. Não há por que dar antibiótico esperando encurtar o curso, porque a bactéria que iniciou tudo já não está mais em jogo. E não há por que dar líquido, o que soa evidente escrito assim e deixa de ser evidente às três da manhã, diante de uma criança que vomitou e está com a creatinina alta.
Falta o elo do tempo, e é ele que a anamnese vai buscar. Entre a infecção e a nefrite existe um intervalo silencioso, em que a criança está bem e a resposta imune está sendo montada. O documento brasileiro fixa esse intervalo em dez a vinte dias, com teto de seis semanas, e — este é um ponto a registrar — trata do mesmo modo a infecção de vias aéreas superiores e a de pele, sem separar as duas janelas. A literatura internacional costuma separá-las, com janela mais curta depois da garganta e mais longa depois da pele; como nenhum documento brasileiro em uso adota essa separação, este capítulo não fixa dois números. Fixa o comportamento que a régua brasileira impõe, que é mais seguro de qualquer forma: pergunte por seis semanas para trás, e pergunte por pele, não só por garganta.

Como se apresenta de verdade
O quadro clássico cabe em três palavras e um intervalo: edema, hipertensão e hematúria, dez a vinte dias depois de uma infecção estreptocócica. Na prática do pronto atendimento, porém, quase nunca chegam os três juntos e nomeados. Chega uma criança com a cara inchada, uma mãe que fala em urina escura e uma pressão que alguém anotou sem comentar. As seções abaixo são as formas reais de chegada, na ordem em que aparecem na porta.
Uma advertência antes: na maior parte dos casos o estado geral está pouco comprometido, e as queixas são vagas — indisposição, inapetência, cefaleia. Isso cria a armadilha central do capítulo, que é deixar a criança confortável decidir a urgência. Ela não decide. Quem decide é a pressão.
1. O rosto que amanheceu inchado
O edema é o que traz a família, e ele tem assinatura. É bilateral, simétrico, predominantemente periorbitário, mais evidente ao acordar, e melhora ao longo do dia com a postura — para piorar de novo na manhã seguinte. Não dói, não coça, não esquenta e não tem vermelhidão. A pele por cima está lisa e tensa.
A intensidade costuma decepcionar quem espera uma criança irreconhecível. Numa casuística brasileira, o edema representou em média um acréscimo de 7% no peso. Numa criança de 20 quilos, isso é um quilo e quatrocentos — invisível para quem não pesa, e óbvio para quem pesa. Por isso o peso da consulta de hoje comparado ao peso mais recente que a família tiver, seja da caderneta, seja da pesagem da escola, vale mais que a impressão de quem olha.
Frequentemente o edema é percebido de forma indireta, e a frase da família vale como sinal: a roupa apertou, o sapato não entra mais, a marca do elástico da meia ficou funda. Menos vezes ele é generalizado, e nesse caso a postura o desloca — quem passou a noite deitado amanhece com a cara inchada, quem passou o dia em pé anoitece com as pernas.
O que separa este edema do da síndrome nefrótica não é o local nem o horário, porque os dois começam pelo rosto pela manhã. É o resto do quadro: aqui há hipertensão e hematúria, e a proteinúria raramente alcança faixa nefrótica. A síndrome nefrótica tem capítulo próprio nesta apostila — Síndrome nefrótica idiopática (lesões mínimas) na infância —, e a distinção entre as duas síndromes é responsabilidade deste capítulo — ela aparece inteira no bloco de critérios.
2. A urina que a mãe descreve, e a que o exame confirma
Hematúria acompanha cerca de 95% dos casos, e em dois terços deles é hematúria macroscópica. A descrição familiar é notavelmente constante e vale como dado: cor de Coca-Cola, de chá preto, de água de lavar carne. É uma urina escura e homogênea, não uma urina com fiapos de sangue vermelho vivo — e essa diferença tem valor, porque sangue vermelho, com coágulos, que suja o papel no fim da micção, aponta para o trato urinário baixo e não para o glomérulo.
No terço restante, a hematúria é apenas microscópica, e a criança chega sem queixa urinária nenhuma. É a razão de a fita reagente ou o exame de urina entrar em toda criança com edema periorbitário sem explicação, mesmo quando ninguém falou em urina escura: a hematúria é o achado mais constante da síndrome, e é o único que não falta.
A queda do volume urinário costuma acompanhar. Oligúria é comum na fase aguda, e o retorno da diurese é justamente o primeiro sinal de melhora — em geral sete a quinze dias depois do início, junto com o desaparecimento do edema. Perguntar quantas vezes a criança urinou ontem, e comparar com o habitual dela, é mais útil do que qualquer estimativa de olho.
Fica um aviso de calendário, que reaparece no seguimento: a maioria das alterações urinárias regride entre a quarta e a sexta semana, mas em cerca de 10% dos casos a hematúria microscópica residual persiste por vários meses. Urina ainda com sangue ao microscópio no terceiro mês, numa criança sem sintoma, com pressão normal e complemento já normalizado, não é recaída e não é motivo de nova investigação.
3. A pressão, que é o achado que decide
A hipertensão está presente em cerca de 90% dos casos e é, em geral, moderada. Ela depende da intensidade da hipervolemia, e por isso piora com sal — a criança que comeu embutido no fim de semana chega pior na segunda-feira, e isso não é coincidência nem culpa da família.
Medir é o problema prático. A medida deve ser auscultatória, com manguito adequado ao braço; aparelhos oscilométricos validados para pediatria servem para triagem e para as crianças pequenas que não colaboram, mas um valor alterado no oscilométrico se confirma auscultando. Um número obtido com manguito de adulto num braço de sete anos não é hipertensão: é erro de método, e vai gerar internação ou alta pelo motivo errado.
Ler é o segundo problema, e é onde o interno mais erra. Abaixo dos treze anos não existe número universal: a classificação é por percentil, cruzando idade, sexo e percentil de estatura. A tabela brasileira vigente está na diretriz de hipertensão de 2025, que define quatro faixas — normal abaixo do percentil 90; pré-hipertensão entre o 90 e o 95; estágio 1 do percentil 95 até o percentil 95 mais 12 mmHg; e estágio 2 acima disso.
Convém calcular isso uma única vez e guardar a faixa de cabeça. Para um menino de sete anos com estatura mediana, o percentil 95 é 112 por 73 mmHg, e o limiar de estágio 2 é 124 por 85. A criança da cena, com 138 por 92, está bem acima do estágio 2 — e ainda assim está longe dos 180 por 120 que o protocolo federal usa para definir crise hipertensiva no adulto. Quem levar o número do adulto para a pediatria vai mandar essa criança para casa.
Por fim, o que a pressão pode fazer. A elevação abrupta que supera a autorregulação cerebral produz encefalopatia hipertensiva, que se manifesta com cefaleia, vômitos, alterações visuais — diplopia, amaurose transitória —, irritabilidade, sonolência, convulsão ou coma. Um detalhe do documento brasileiro poupa erro: o fundo de olho habitualmente não mostra as alterações típicas da hipertensão crônica, e às vezes mostra apenas vasoespasmo retiniano. Fundo de olho normal não afasta encefalopatia hipertensiva na criança.
4. As três complicações, na ordem em que aparecem
Congestão circulatória é a complicação mais frequente. Resulta da retenção de água e sódio somada à queda da excreção urinária, é agravada pela hipertensão, e pode chegar a insuficiência cardíaca congestiva e edema agudo de pulmão. O documento brasileiro faz questão de dizer o que ela não é: não há dano miocárdico intrínseco. O coração desta criança é normal e está sobrecarregado — o que muda o tratamento, porque o alvo é o volume e não o músculo.
Os sinais de congestão são os de qualquer sobrecarga de volume, e na criança aparecem em ordem: taquipneia sem febre e sem chiado, tosse seca, intolerância a deitar, estertores em bases, hepatomegalia dolorosa, turgência jugular quando o pescoço permite ver, ritmo de galope. Numa criança com cara inchada e urina escura, taquipneia é sinal de gravidade até prova em contrário — e não é asma.
Encefalopatia hipertensiva é a segunda, e é a que transforma o caso em emergência dentro de minutos. Cefaleia persistente, vômitos repetidos, alteração visual, sonolência ou irritabilidade fora do normal da criança, e convulsão. Em criança previamente hígida, uma primeira convulsão acompanhada de edema e urina escura tem causa até que se prove o contrário, e a causa é a pressão.
Insuficiência renal aguda é a menos comum das três — e este é o ponto em que a intuição do interno mais atrapalha. Quando ocorre, instala-se com oligoanúria intensa, retenção de escórias e distúrbios hidroeletrolíticos graves, com tendência à hipercalemia. Uma elevação transitória de ureia e creatinina, essa sim, é frequente: acontece em cerca de metade dos casos na fase aguda, e normaliza em três a quatro semanas. Creatinina discretamente alta numa criança que urina, sem hipercalemia e sem congestão, é parte da doença — não é a complicação.
5. O antecedente que ninguém conta espontaneamente
A infecção que causou tudo já passou, e por isso não entra na queixa. Cabe ao interno ir buscá-la, e a pergunta precisa ser feita de duas formas, porque as duas portas de entrada são lembradas de modos diferentes.
A porta de cima é a garganta. Pergunte por dor de garganta, febre, dificuldade de engolir, falta à escola, se alguém tomou antibiótico em casa e por quantos dias. A família costuma lembrar bem de amigdalite, porque houve consulta e receita. O manejo daquela consulta — quando testar, quando tratar, por quanto tempo — é do capítulo de Faringoamigdalites e critérios de Centor, na apostila de Otorrinolaringologia; aqui a criança chega depois, e o que interessa é a data.
A porta de baixo é a pele, e é a que se perde. Pergunte por feridinha, brotoeja, ferida que criou casquinha cor de mel, machucado que não sarava, picada que infeccionou, impetigo. Essa infecção quase nunca gerou consulta: foi tratada com pomada da farmácia ou com nada, e ninguém a associa a rim. Se preciso, peça para olhar as pernas e o couro cabeludo da criança agora — a lesão pode ainda estar lá, ou ter deixado marca. O manejo do impetigo em si pertence à apostila de Dermatologia; aqui, ele é data e é pista.
A janela a cobrir é de seis semanas para trás, e a razão é aritmética: se o intervalo vai de dez a vinte dias e pode chegar a seis semanas, perguntar "teve dor de garganta na semana passada?" deixa de fora exatamente os casos de pele, que são os de janela mais longa. Pergunte por mês, não por semana: "desde as férias, desde o começo das aulas, desde o aniversário dele".
Há ainda um antecedente que não é infeccioso e muda a lista de hipóteses: episódios anteriores iguais a este. Hematúria macroscópica que já aconteceu antes, sobretudo se veio junto com uma infecção respiratória em vez de semanas depois dela, aponta para outra doença — e é um dos gatilhos de biópsia listados adiante.
6. O que chega parecido e não é
Glomerulonefrite membranoproliferativa acomete principalmente meninas, em geral acima dos sete anos, e cursa com complemento sérico baixo por meses. No primeiro dia ela é indistinguível; no segundo mês, é o complemento que a denuncia. É a razão de o complemento ser dosado no início e repetido depois — o primeiro valor faz o diagnóstico, e o segundo o confirma ou o derruba.
Púrpura de Henoch-Schönlein tem manifestações articulares, lesões cutâneas purpúricas em membros inferiores e nádegas, cólicas abdominais, e complemento sérico normal. Pode começar de forma abrupta só com hematúria e edema, o que a faz parecer nefrite pós-estreptocócica no primeiro dia — mas a púrpura palpável e o complemento normal separam as duas. Olhar as pernas da criança resolve boa parte dos casos, e é de graça.
Doença de Berger, ou nefropatia por imunoglobulina A, dá hematúria recorrente, tipicamente junto com a infecção respiratória e não semanas depois, sem os demais sinais da síndrome, com complemento normal. O diagnóstico é de biópsia, com imunofluorescência positiva para imunoglobulina A em depósito mesangial. A distinção prática, à beira do leito, é o relógio: aqui a urina escureceu no auge da dor de garganta; na nefrite pós-estreptocócica, escureceu quando a garganta já estava boa.
Duas outras coisas chegam parecidas e vêm de outros capítulos. Infecção urinária febril na criança pode dar hematúria e mal-estar, e é tema próprio desta mesma apostila, no capítulo de Infecção urinária na criança — a diferença é febre com sintoma urinário e urocultura positiva, contra afebril com hipertensão e complemento baixo. E injúria renal aguda de qualquer causa entra no diferencial quando a creatinina sobe, mas a abordagem geral da injúria renal e a da doença renal crônica são dos capítulos de Injúria renal aguda e de O rim que não volta, na apostila de Nefrologia; aqui, o que se assume é a nefrite.
Como fechar o diagnóstico
A investigação desta doença é barata, cabe numa unidade básica e não depende de imagem. Isso é uma boa notícia e uma armadilha: quando os exames são fáceis, a tentação é pedir todos, e há pelo menos três que só produzem dano. As seções abaixo separam o que muda conduta hoje, o que muda conduta em dois meses e o que não muda conduta nunca.
Peso e pressão medidos corretamente, exame neurológico, avaliação respiratória e diurese são indispensáveis antes dos resultados. O laboratório acrescenta riscos que esses dados não excluem, como hipercalemia e deterioração renal. Integrar clínica e exames, sem esperar um para agir sobre uma emergência já reconhecida.
1. O exame de urina, que é onde o diagnóstico começa
O exame de urina de rotina é o primeiro e o mais informativo. Espera-se: hematúria macroscópica ou microscópica; cilindros — hemáticos, hialinos, granulosos e leucocitários, sendo os hemáticos os que apontam origem glomerular; proteinúria, em geral fora da faixa nefrótica; e densidade urinária conservada, em torno de 1015 a 1020.
A densidade conservada merece um parágrafo próprio porque é o achado mais subestimado do exame. Ela está preservada porque o túbulo está íntegro — a capacidade de concentrar urina não se perdeu. É a tradução laboratorial daquele desajuste entre glomérulo doente e túbulo são que explica a retenção de sódio, e é o que ajuda a separar esta criança da criança com necrose tubular, em que a densidade se aproxima da do plasma.
O dismorfismo eritrocitário, quando o laboratório o reporta, confirma origem glomerular do sangramento e afasta a hipótese de sangramento do trato urinário baixo. Não é obrigatório para o diagnóstico e não deve atrasá-lo: muitos laboratórios de rede pública não descrevem morfologia de hemácia na urina de rotina, e a ausência do dado não muda a conduta de hoje.
A fita reagente merece uma ressalva, porque é o que a maioria das unidades tem à mão. Ela detecta o grupo heme, e não a hemácia: hemoglobinúria e mioglobinúria dão fita positiva com sedimento sem hemácias, e esse é o cenário em que a fita engana para mais. No sentido oposto, urina escura com fita negativa para sangue não é hematúria e pede outra explicação — bilirrubina, urato concentrado numa criança que bebeu pouco, corante alimentar, ou medicamento. Fita positiva numa criança com edema periorbitário e pressão em estágio 2 é suficiente para tratar hoje; o exame de urina completo confirma depois.
Se houver proteinúria, quantifique. A proteinúria da nefrite raramente alcança nível nefrótico, e na fase aguda o seu valor não guarda correlação com a gravidade do quadro renal — não adianta usar a proteinúria como termômetro. Proteinúria nefrótica associada, sim, muda a história, porque entra na lista de gatilhos de biópsia quando dura mais de quatro semanas.
2. O complemento, e por que ele é obrigatório
A dosagem do complemento sérico é obrigatória para o diagnóstico. Os valores estão diminuídos em 95% a 98% dos casos, e a normalização ocorre dentro de quatro a seis semanas. Na prática brasileira o exame pedido é a fração C3, com ou sem CH50, e a leitura de interesse é binária no primeiro momento: está baixo, ou não está.
Um complemento normal numa criança com síndrome nefrítica clássica não encerra o caso, mas desloca a hipótese com força. Complemento normal aponta para púrpura de Henoch-Schönlein — a nefrite dela é de Púrpura de Henoch-Schönlein (vasculite por IgA), na apostila de Hematologia Pediátrica —, para nefropatia por imunoglobulina A e para outras causas, todas com investigação e prognóstico diferentes. É o exame que mais muda o raciocínio por unidade de custo neste capítulo.
Repita C3 no seguimento para documentar recuperação. O texto brasileiro descreve normalização em quatro a seis semanas e persistência além de oito como sinal para considerar biópsia. Interprete esses marcos com a evolução: criança estável pode ter repetição programada, mas deterioração renal ou outros achados atípicos justificam contato especializado antes disso.
Escreva a data do reteste na receita, não no prontuário apenas. Um complemento colhido hoje e nunca repetido é um exame desperdiçado: ele fez metade do trabalho — o diagnóstico — e deixou a outra metade, que é excluir a doença que não some, sem fazer.
3. Função renal, eletrólitos e o que eles decidem hoje
Ureia e creatinina séricas entram no primeiro pedido, mas com expectativa calibrada: elevação transitória ocorre em cerca de metade dos casos na fase aguda e normaliza em três a quatro semanas. O número isolado não interna ninguém e não muda a conduta, porque o tratamento é o mesmo. O que muda a conduta é a tendência — creatinina que sobe de novo em exames seriados, essa sim, é sinal de outra coisa.
Há uma armadilha de leitura da creatinina na criança que vale isolar. O valor de referência do laboratório costuma ser de adulto, e a creatinina cresce com a massa muscular: um valor que seria normal num homem de 70 kg pode ser francamente alto numa criança de 22 kg, e o laboratório não vai sinalizar. Nenhum dos documentos brasileiros usados neste capítulo publica faixas de creatinina por idade, e por isso ele não fixa números. A conduta segura é comparativa: pergunte se existe creatinina anterior desta criança, e trate a tendência entre duas medidas como mais informativa do que o valor isolado — que, de qualquer modo, não decide internação aqui.
Potássio é o eletrólito que decide alguma coisa hoje. A tendência descrita na insuficiência renal aguda deste contexto é a hipercalemia, e ela vem junto com oligúria intensa. Numa criança com oligoanúria, o potássio não é exame de rotina: é exame de urgência, e o eletrocardiograma vai junto quando o valor volta alto.
Gasometria ou bicarbonato entram no mesmo pedido quando há oligúria, porque acidose metabólica pode acompanhar. Numa criança que está urinando, sem vômito e sem sinais de gravidade, esses exames podem esperar o resultado dos primeiros.
Hemograma tem um papel modesto e honesto: ajuda a ver anemia e a afastar outras causas, e não faz nem desfaz o diagnóstico. Radiografia de tórax entra quando há taquipneia, estertores ou suspeita de congestão — não como rotina. E a ultrassonografia renal não faz parte da investigação da nefrite aguda típica; ela entra quando o diagnóstico está em dúvida, quando há suspeita de obstrução, ou como pré-requisito da biópsia, que exige rins de dimensões normais ou aumentadas.
4. A prova da infecção anterior, e os seus limites
Duas provas existem, e nenhuma das duas é o diagnóstico. A cultura de orofaringe ou da lesão de pele pode isolar o estreptococo, mas na maioria das vezes a infecção já passou e a cultura vem negativa — resultado negativo não afasta a doença. A dosagem de anticorpos antiestreptolisina O documenta contato recente com o estreptococo, e sobe justamente por causa da infecção que já ocorreu.
Os limites da antiestreptolisina precisam ser ditos, porque ela é o exame mais pedido e mais mal interpretado desta doença. Um título elevado prova contato, não prova nefrite: crianças em idade escolar têm contato repetido com estreptococo, e o título fica alto por meses depois de qualquer infecção de garganta. Um título normal não afasta: a resposta é menos consistente depois de infecção de pele que depois de infecção de garganta, e é justamente o caso de pele que este capítulo insiste em não perder.
Há um agravante logístico. Em boa parte da rede pública, o resultado sai depois da alta, e a interpretação exige comparação de duas dosagens, o que ninguém faz por causa de uma nefrite. A conduta de hoje — restrição de sal, diurético, controle de pressão, decidir internação — está inteiramente tomada antes de o exame chegar. Peça se quiser documentar o caso, mas não espere por ele para nada.
O diagnóstico, portanto, se fecha com clínica mais complemento baixo mais intervalo compatível. Essa é a régua deste capítulo, e ela é a mesma regra que o documento brasileiro sustenta ao chamar a dosagem de complemento de obrigatória e ao não exigir nenhum outro exame para firmar o caso.
5. Os exames que só produzem dano
Urocultura de rotina, na criança com síndrome nefrítica clássica e sem febre nem sintoma urinário, encontra bacteriúria assintomática em uma parcela das crianças e desencadeia antibiótico que não era para existir. O tema de quando colher urina para cultura e por qual método pertence ao capítulo de Infecção urinária na criança, nesta mesma apostila; a régua de lá é clara e vale aqui: cultura em criança sem indicação clínica produz tratamento errado.
Painel imunológico amplo — anticorpo antinúcleo, anticorpo anticitoplasma de neutrófilo, sorologias virais — na primeira consulta de uma criança com quadro clássico. Esses exames pertencem à investigação da glomerulonefrite rapidamente progressiva e das glomerulopatias secundárias, e existem para a criança cujo caso não fechou. Pedidos na primeira consulta, vêm com positividades fracas e inespecíficas que geram encaminhamento e ansiedade sem mudar nada.
Biópsia não é exame de rotina da apresentação típica em recuperação. Ela pode ser necessária quando o diagnóstico é incerto, há curso rapidamente progressivo, manifestações sistêmicas ou alterações persistentes. Essa decisão é discutida com nefrologia; os prazos do seguimento não excluem indicação precoce num quadro atípico.
Fica uma exceção que não é exame e sim postura: repetir a medida da pressão arterial não é excesso. Nesta doença, remedir a pressão é o exame de maior rendimento que existe, custa zero e pode ser feito quantas vezes for necessário.
6. O que pedir, na ordem, numa unidade sem laboratório de plantão
Boa parte das crianças com esta doença chega em unidade sem laboratório aberto, e a pergunta prática é o que dá para decidir sem exame nenhum. A resposta é: quase tudo. Peso, pressão comparada à tabela, ausculta pulmonar, nível de consciência e história de diurese decidem se a criança fica, vai para casa ou é transferida — e essa é a decisão que não pode esperar.
Se houver fita reagente de urina na unidade, ela resolve a confirmação imediata da hematúria à beira do leito e não custa nada. Sangue positivo na fita, numa criança com edema periorbitário e pressão em estágio 2, é suficiente para tratar como nefrite hoje e confirmar depois.
O pedido do dia seguinte, para a criança que vai para casa, cabe em uma linha: exame de urina de rotina, complemento C3, ureia, creatinina e potássio. Se houver acesso, acrescente a antiestreptolisina para documentar o antecedente — sabendo que ela não decide nada hoje.
E marque o retorno com dia e hora, não com "volte se piorar". Na nefrite aguda, o intervalo entre a alta e a reavaliação é a única coisa que separa uma criança que melhorou em casa de uma criança que convulsionou em casa. Quarenta e oito horas é a régua deste capítulo, e ela encurta para vinte e quatro se a família mora longe ou se a pressão de hoje já estava em estágio 2.
Da porta à alta: quem fica, quem vai para casa, quem faz biópsia
O fluxo abaixo cobre a criança com síndrome nefrítica da chegada até a alta do seguimento, e segue a ordem em que cada decisão chega às mãos do plantonista. Ele parte de uma régua declarada: para quando internar e para quando biopsiar nesta doença, o documento brasileiro mais recente é um texto de educação continuada da Sociedade Brasileira de Pediatria de 2002, e nada o substituiu — nem a lista de documentos científicos do departamento de nefrologia pediátrica, que vai até 2026, nem a lista de diretrizes da Sociedade Brasileira de Nefrologia, que inclui o que está em elaboração. Para a leitura da pressão, a régua é outra e é atual: a diretriz brasileira de hipertensão de 2025 e o protocolo clínico federal aprovado em julho de 2025. As notas ao fim trazem as contas que foram refeitas nesses documentos, com o que fechou e o que não fechou.
- 11. Criança com edema periorbitário matinal, urina escura ou hematúria na fita: meça o peso na balança e a pressão arterial com manguito adequado, por ausculta.
- 22. Medir e repetir a pressão com técnica adequada. Classificar por idade, sexo e estatura e pelos limites absolutos da diretriz pediátrica adotada. Sintomas neurológicos ou cardiorrespiratórios com elevação importante exigem avaliação de emergência; não usar os cortes do adulto.
- 33. Procure agora, antes de qualquer exame, os três sinais que transformam o caso em emergência: rebaixamento de consciência, convulsão ou cefaleia com vômitos (encefalopatia); taquipneia, estertores ou intolerância a deitar (congestão); oligoanúria.
- 44. Havendo qualquer um dos três: a criança fica. Acesso, monitorização, potássio e eletrocardiograma se oligoanúrica, radiografia de tórax se houver taquipneia, e transferência para serviço com pediatra se a unidade não tiver retaguarda.
- 55. Não havendo nenhum dos três, faça a pergunta do antecedente cobrindo seis semanas para trás, por garganta e por pele, e olhe as pernas e o couro cabeludo da criança.
- 66. Peça exame de urina, complemento C3, ureia, creatinina e potássio. Antiestreptolisina apenas para documentar; ela não decide nada hoje.
- 77. Decida a internação pelos critérios de gravidade, não pelo valor da creatinina: internam a encefalopatia, a congestão, a oligoanúria intensa, a hipercalemia, o vômito que impede a via oral e a família sem como retornar.
- 88. Prescreva o que trata a doença: restrição de sódio e de água enquanto houver edema, oligúria e hipertensão, e diurético de alça quando houver hipertensão ou congestão.
- 99. Prescreva a erradicação do estreptococo com penicilina G benzatina em dose única, sabendo o que ela faz e o que não faz: erradica as cepas virulentas e não muda o curso da nefrite já instalada.
- 1010. Na apresentação típica sem complicação, não iniciar corticoide, não usar nifedipina sublingual e não pedir biópsia de rotina. Evolução atípica ou rapidamente progressiva exige discussão precoce com nefrologia e pode indicar biópsia desde o início.
- 1111. Para a criança que vai para casa: dieta sem sal de adição, orientação escrita de sinais de alarme, e retorno marcado em 48 horas — 24 horas se a pressão estava em estágio 2 ou se a família mora longe.
- 1212. No retorno, refaça o peso, a pressão e a diurese. Espera-se diurese aumentando e edema recuando entre o sétimo e o décimo quinto dia, e pressão normalizando dois a três dias depois disso.
- 1313. Entre a terceira e a quarta semana, a criança deve estar clinicamente restabelecida; entre a quarta e a sexta, as alterações urinárias devem estar regredindo.
- 1414. Repita o complemento C3. Ele deve ter normalizado dentro de quatro a seis semanas.
- 1515. C3 persistentemente baixo além de oito semanas exige reavaliar o diagnóstico com nefrologia e considerar biópsia. Esse prazo é um sinal de evolução atípica, não uma proibição de investigação anterior quando há outros sinais preocupantes.
- 1616. Hematúria macroscópica persistente, proteinúria importante, hipertensão ou disfunção renal que não melhoram requerem discussão especializada. Deterioração rápida, síndrome sistêmica ou quadro nefrótico associado podem antecipar a investigação; não é necessário esperar quatro semanas em todos os casos.
- 1717. A melhora clínica e a normalização do complemento sustentam recuperação, mas o seguimento também documenta pressão, função renal e proteinúria. Hematúria microscópica isolada pode persistir e não indica, por si só, biópsia ou novo tratamento; mantenha acompanhamento até resolução ou plano especializado definido.
A escada da pressão nesta criança, e onde o número do adulto engana
Menino de 7 anos, estatura mediana. Percentil 50: 97 por 58 mmHg. Percentil 90, onde começa a pré-hipertensão: 109 por 70. Percentil 95, onde começa o estágio 1: 112 por 73. Percentil 95 mais 12, onde começa o estágio 2: 124 por 85. A criança da cena está em 138 por 92 — bem dentro do estágio 2. O corte de crise hipertensiva do protocolo federal, 180 por 120 mmHg, é de adulto e está 1,45 vez acima do limiar de estágio 2 desta criança: quem levar aquele número para a pediatria manda esta criança para casa.
| O que se compara | Síndrome nefrítica (o caso deste capítulo) | Síndrome nefrótica (capítulo próprio nesta apostila) |
|---|---|---|
| O que expande o volume | Queda da filtração glomerular com túbulo íntegro: o rim retém sódio e o volume extracelular cresce | Perda de albumina pela urina com queda da pressão oncótica; o edema se forma por outro mecanismo |
| Pressão arterial | Alta em cerca de 90% dos casos, e é o achado que decide internação | Habitualmente normal; hipertensão não é o que caracteriza a síndrome |
| Hematúria | Presente em cerca de 95%, macroscópica em dois terços; é o achado que nunca falta | Não é elemento da definição |
| Proteinúria | Presente, em geral abaixo da faixa nefrótica; na fase aguda o seu valor não acompanha a gravidade | É o eixo da definição, acima de 3 g em 24 horas no adulto, com hipoalbuminemia |
| Albumina sérica | Habitualmente preservada | Baixa por definição, em geral abaixo de 3 g/dL |
| Complemento C3 | Baixo em 95% a 98% dos casos, com normalização em quatro a seis semanas | Normal nas formas mais comuns da infância |
| Edema, como a família descreve | Rosto de manhã, roupa apertada, ganho de peso em torno de 7% | Rosto de manhã também, e com frequência progride para ascite e anasarca |
| O tratamento que a doença pede | Restrição de sódio, diurético de alça e controle de pressão; sem corticoide | Corticoterapia é o tratamento de escolha na lesão mínima, que responde por mais de 90% dos casos da criança pequena |
| O erro que a confusão produz | Dar corticoide a quem ia melhorar sozinho, e não medir a pressão de quem podia convulsionar | Retardar o corticoide de quem precisava dele, tratando a criança como se fosse nefrítica |
Do miligrama ao que existe na farmácia: menino de 22 kg, apresentações da Rename 2024 e de bula, contas refeitas
| Medicamento e apresentação real | Dose escrita na fonte | Quanto isso dá em 22 kg | O que se retira da caixa | Onde a conta aperta |
|---|---|---|---|---|
| Furosemida, solução injetável 10 mg/mL, ampola de 2 mL (20 mg por ampola) | 1 a 5 mg/kg/dia na congestão circulatória (SBP 2002) | 22 a 110 mg/dia | 2,2 mL, ou 1,1 ampola, para cada 1 mg/kg | A ampola inteira dá 20 mg e a dose de 1 mg/kg pede 22: sobra fracionar duas ampolas ou aceitar 0,91 mg/kg com uma só |
| Furosemida, comprimido 40 mg (não há solução oral na Rename 2024) | 1 a 2 mg/kg/dia por via oral | 22 a 44 mg/dia | 0,55 a 1,1 comprimido de 40 mg | Meio comprimido entrega 20 mg, ou 0,91 mg/kg. Abaixo dos 20 kg não há como acertar a dose com o que o SUS fornece |
| Captopril, comprimido 25 mg (única apresentação na Rename 2024) | 0,3 a 0,5 mg/kg/dose, três vezes ao dia (PCDT federal 2025) | 6,6 a 11 mg por dose | 1/4 de comprimido dá 6,25 mg; 1/2 dá 12,5 mg | Um quarto fica logo abaixo do piso e a metade logo acima do teto da faixa inicial: a apresentação não tem degrau para essa criança |
| Nifedipino, cápsula ou comprimido de 10 mg (a forma de liberação prolongada não consta da Rename 2024) | Inicial 0,04 a 0,25 mg/kg/dia (PCDT federal 2025) | 0,88 a 5,5 mg/dia | Menos de uma unidade inteira em toda a faixa inicial | A menor unidade que o SUS fornece excede a dose inicial diária; o comprimido partido ao meio dá 5 mg, ou 0,23 mg/kg/dia, e a cápsula não se parte |
| Hidralazina, solução injetável 20 mg/mL, ampola de 1 mL (não consta da Rename 2024; a Rename traz apenas comprimidos de 25 e 50 mg) | 0,1 a 0,2 mg/kg/dose por via intravenosa ou intramuscular na emergência hipertensiva (SBP 2019) | 2,2 a 4,4 mg por dose | 0,11 a 0,22 mL da ampola pura — indosável sem diluir. Diluída conforme a própria bula, uma ampola em 9 mL de cloreto de sódio a 0,9%, são 1,1 a 2,2 mL | A bula do produto brasileiro marca uso adulto e diz que não é recomendada para uso pediátrico; o veículo é propilenoglicol, com advertência de toxicidade abaixo dos cinco anos |
| Penicilina G benzatina, pó para suspensão injetável 600.000 UI e 1.200.000 UI | Dose única: 600.000 UI abaixo de 25 kg e 1.200.000 UI acima (SBP 2002) | 600.000 UI | Um frasco de 600.000 UI | Três documentos brasileiros usam três cortes de peso para a mesma injeção: 20 kg, 25 kg e 27 kg. Nesta criança, dois deles dão 600.000 UI e um dá o dobro |
| Amoxicilina, suspensão oral 50 mg/mL | Alternativa oral de erradicação, 30 a 50 mg/kg/dia em três tomadas | 660 a 1.100 mg/dia | 4,4 a 7,3 mL de 8 em 8 horas | É a única apresentação da tabela em que a dose por peso e o que existe na farmácia se encontram sem sobra |
| Hidroclorotiazida, comprimido 12,5 mg e 25 mg | Inicial 1 mg/kg/dia (PCDT federal 2025) | 22 mg/dia | 0,88 comprimido de 25 mg, ou 1,76 comprimido de 12,5 mg | Não é o diurético desta doença — entra só se a hipertensão persistir como problema crônico, e aí já é outro capítulo |
| Nitroprussiato de sódio | 0 a 3 mcg/kg/min, máximo 10 mcg/kg/min (SBP 2019) | Até 0,22 mg/min, ou 13,2 mg/hora | Uma ampola de 50 mg dura cerca de 3,8 horas no teto | Não consta da Rename 2024: numa unidade que só dispõe do elenco nacional, este medicamento não está lá |
As sete decisões do capítulo e quem as sustenta — com a data de cada régua
| Decisão | Régua brasileira que a sustenta | Data | O que ela deixa em aberto |
|---|---|---|---|
| Como classificar a pressão da criança | Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial, Tabelas 9.1 e 9.2, com percentis por idade, sexo e estatura; e o protocolo clínico federal, que fixa o percentil 90 como rastreio positivo | 2025 | Nenhum dos dois define limiar de crise hipertensiva pediátrica: o corte de 180 por 120 mmHg do protocolo federal é de adulto |
| Quando internar | Sociedade Brasileira de Pediatria, texto de educação continuada sobre a doença — oligúria intensa, insuficiência cardíaca ou encefalopatia hipertensiva | 2002 | Não há critério brasileiro posterior, e o texto de 2002 não gradua a oligúria nem fixa corte de pressão para internar |
| Quando biopsiar | O mesmo texto de 2002, com cinco gatilhos, quatro deles de quatro semanas e um de oito | 2002 | As recomendações da Sociedade Brasileira de Nefrologia, de 2005, são declaradamente de adultos e não listam a síndrome nefrítica entre as indicações formais de biópsia |
| Restrição de sódio, de água e de potássio | O mesmo texto de 2002, com volume de necessidade basal acrescido do volume da diurese e restrição de potássio abaixo de 240 mL/m² de diurese por dia | 2002 | Nenhum documento federal fixa restrição hídrica para a criança nefrítica |
| Qual diurético e em que dose | O mesmo texto de 2002: furosemida, 1 a 5 mg/kg/dia na congestão circulatória | 2002 | O quadro pediátrico do protocolo federal de 2025 não traz furosemida — o diurético de alça aparece apenas na tabela de adultos |
| Qual anti-hipertensivo oral e em que dose | Protocolo clínico federal, Quadro 19, com doses pediátricas de captopril, enalapril, losartana, anlodipino, nifedipino, hidroclorotiazida, atenolol, metoprolol e propranolol | 2025 | O quadro trata de hipertensão crônica; nada nele é escrito para a hipertensão aguda e transitória da criança nefrítica |
| Qual antibiótico, e para quê | O texto de 2002: penicilina G benzatina em dose única como tratamento de escolha, com eritromicina como alternativa | 2002 | O documento não diz explicitamente que o antibiótico não muda o curso da nefrite — diz apenas que a erradicação é requerida; a frase de que ele não encurta a doença é leitura deste capítulo |
Gravidade: avaliar os quatro eixos em paralelo
| Eixo | Achados preocupantes | Ação inicial |
|---|---|---|
| Neurológico e pressão | Cefaleia intensa, vômitos, alteração visual, confusão ou convulsão com hipertensão | Suporte, monitorização e controle pressórico gradual em ambiente de emergência. |
| Pulmonar e volume | Taquipneia, hipoxemia, estertores ou desconforto ao deitar | Avaliar congestão e necessidade de oxigênio, diurético e suporte hospitalar. |
| Potássio | Hipercalemia importante ou alteração eletrocardiográfica | Monitor cardíaco e tratamento imediato conforme protocolo; não esperar sintomas. |
| Rim e diurese | Oligoanúria, creatinina em elevação rápida, acidose ou sobrecarga refratária | Balanço rigoroso e discussão urgente com nefrologia, inclusive suporte dialítico quando indicado. |
O texto brasileiro de 2002 ajuda a contextualizar a apresentação e a evolução, mas sua antiguidade exige cuidado. A ausência de um substituto nacional localizado não comprova vigência de todas as condutas. Combine-o com recomendações atuais para hipertensão, lesão renal e avaliação especializada, especialmente quando o curso é atípico.
Erro de unidade por fator 1.000, encontrado no tratamento da encefalopatia hipertensiva. O texto brasileiro de 2002 prescreve nitroprussiato de sódio 'na dose de 0,5 a 8 mg/Kg/min'. A conta: numa criança de 22 kg, 8 mg/kg/min são 176 mg por minuto, ou 10,56 gramas por hora — uma ampola de 50 mg duraria 17 segundos. O documento da mesma sociedade de 2019 traz o mesmo fármaco em microgramas por quilo por minuto, com teto de 10 mcg/kg/min: nessa leitura, 0,22 mg por minuto, 13,2 mg por hora, e a mesma ampola dura 3,8 horas. A unidade difere por fator 1.000 e os tetos impressos, por 800 vezes. A leitura correta é a de microgramas.
Erro de unidade por fator 1.000, dentro do documento de 2019, e provado pelo próprio documento. O Quadro 10, de urgência hipertensiva, traz clonidina '2 a 5 mg/kg/dose até 10 mg/dose cada 6-8h'. Em 22 kg isso seria de 44 a 110 mg por dose, repetível de 6 em 6 horas. O Quadro 9 do mesmo documento fixa o teto da clonidina em 2,4 mg por dia: a dose única máxima do Quadro 10 é 46 vezes o teto diário que o próprio documento estabelece duas páginas antes. Lendo em microgramas, 2 a 5 mcg/kg dão 0,044 a 0,110 mg por dose, e quatro tomadas somam 0,44 mg — dentro dos 2,4 mg diários. A troca de mg por mcg não é artefato de extração: no mesmo quadro, esmolol, nicardipino e nitroprussiato aparecem corretamente em microgramas.
Terceiro erro de unidade no mesmo quadro. Fenoldopam aparece como '0,2 a 0,5 mg/kg/min, máx. 0,8 mg/kg/min'. Em 22 kg, 0,5 mg/kg/min são 11 mg por minuto, ou 0,66 grama por hora. Em microgramas, seriam 11 mcg por minuto, ou 0,66 mg por hora. O fármaco está marcado como indisponível no Brasil, o que reduz o dano, mas os três erros ocorrem na mesma tabela — e é a tabela de crise hipertensiva de uma doença em que a crise hipertensiva é o que mata.
Conferência que fechou, e vale registrar. Os percentis de pressão da Tabela 9.2 da diretriz de 2025 são internamente consistentes na linha usada por este capítulo: para o menino de 7 anos na estatura mediana, o percentil 95 é 112 por 73 mmHg e a linha do percentil 95 mais 12 traz 124 por 85 — que é exatamente 112 mais 12 e 73 mais 12. As duas somas conferem.
Conferência que não fechou, na mesma tabela. A linha de estatura dos meninos de 3 anos aparece duas vezes, uma na metade sistólica e outra na diastólica, e as duas cópias divergem: a primeira traz 92,5 / 93,9 / 96,3 / 89 / 101,6 / 104,3 / 105,8 e a segunda traz 92,5 / 93,9 / 96,3 / 99 / 101,8 / 104,3 / 105,8. Uma sequência de percentis de estatura tem de ser crescente, e a primeira não é: cai de 96,3 para 89 e volta a subir. A cópia consistente é a segunda. Não muda a conduta de ninguém, e serve de lembrete de que ler percentil exige conferir a linha antes de confiar nela.
O 'ou' dos tetos do Quadro 19 do protocolo federal de 2025. Todas as linhas escrevem o máximo na forma 'X mg/kg/dia ou Y mg/dia', sem dizer que vale o menor dos dois. Nesta criança de 22 kg, a leitura literal permite ultrapassar o limite por peso: propranolol, 4 mg/kg/dia dão 88 mg e o teto absoluto escrito é 640 mg, ou 7,3 vezes mais; losartana, 1,4 mg/kg/dia dão 30,8 mg contra 100 mg, 3,2 vezes; enalapril, 13,2 mg contra 40 mg, 3 vezes. Em duas linhas o efeito se inverte, porque o teto absoluto é o menor: anlodipino, 0,6 mg/kg/dia dão 13,2 mg contra 10 mg escritos, e hidroclorotiazida, 3 mg/kg/dia dão 66 mg contra 50 mg. Ou seja, a ambiguidade aponta para os dois lados, e a regra segura é a que o quadro não escreve: vale sempre o menor dos dois.
Divergência entre dois documentos brasileiros em vigor sobre a dose inicial de captopril na criança. O protocolo federal de 2025 escreve 0,3 a 0,5 mg/kg por dose, três vezes ao dia — de 0,9 a 1,5 mg/kg por dia, portanto. O documento da Sociedade Brasileira de Pediatria de 2019 escreve, para maiores de 1 mês, dose inicial de 0,05 mg/kg por dia, com intervalo de 8 em 8 horas — e os dois concordam no teto de 6 mg/kg por dia. A razão entre as duas doses iniciais é de 18 a 30 vezes. Em 22 kg, o protocolo federal manda 6,6 a 11 mg por tomada, que cabe entre um quarto e meio comprimido de 25 mg; o documento de 2019 manda 1,1 mg por dia, que é um vigésimo terceiro de um comprimido — fisicamente não fracionável com o que o SUS fornece. Esta apostila adota a dose do protocolo federal, e decide pela data: os dois documentos são escritos para a criança hipertensa em geral, e o de 2025 é o mais novo; a natureza aponta para o mesmo lado. A dose de 2019 fica no bloco de divergências, datada — e a conta acima mostra por que ela não se executa: é a mesma dose inicial que o manual dá ao neonato, repetida na linha dos maiores de um mês.
Contradição dentro do mesmo parágrafo do texto de 2002. Ele recomenda, para a encefalopatia hipertensiva, 'nifedipina, na dose de 0,25 a 0,50 mg/kg sublingual, repetida, se necessário, em 4 a 6 horas' e, três linhas adiante, que 'a redução dos níveis pressóricos deve ser progressiva, e não brusca, evitando-se hipofluxo cerebral'. A via sublingual é exatamente a que produz queda brusca e não titulável. A diretriz brasileira de hipertensão de 2025 fecha o ponto com a frase oposta: há advertência para não usar nifedipina sublingual em nenhuma situação de elevação aguda da pressão. Este capítulo segue a régua de 2025 e não prescreve nifedipina sublingual.
O que o SUS fornece, conferido item a item na Rename 2024 por busca exata sobre texto com espaço e hífen normalizados. Constam: furosemida em comprimido de 40 mg e solução injetável de 10 mg/mL; benzilpenicilina benzatina em 600.000 e 1.200.000 UI; amoxicilina em suspensão oral de 50 mg/mL; estolato de eritromicina em suspensão de 25 e 50 mg/mL; captopril em comprimido de 25 mg; hidroclorotiazida em 12,5 e 25 mg; nifedipino em cápsula e comprimido de 10 mg. Não constam: nitroprussiato de sódio, clonidina, poliestirenossulfonato de cálcio — a resina de troca que o texto de 2002 indica para a hipercalemia — e hidralazina em apresentação injetável, presente apenas como comprimido de 25 e 50 mg. Também não consta o nifedipino de liberação prolongada, que é a forma recomendada pelo documento de 2019 para uso crônico: o elenco nacional oferece a forma de liberação imediata, que é justamente a que não deve ser usada por via sublingual.
C3 costuma recuperar-se nas primeiras semanas. Persistência além de oito semanas aumenta a suspeita de outra glomerulopatia e pede avaliação nefrológica; a decisão de biópsia integra o conjunto clínico. Não tratar a diferença entre os prazos como uma espera obrigatória de duas semanas.
Divergência de dose da eritromicina entre dois documentos brasileiros, para a mesma bactéria e a mesma finalidade. O texto de 2002 sobre a nefrite indica eritromicina 30 mg/kg/dia por dez dias; a Tabela 5 da diretriz brasileira de febre reumática indica estearato de eritromicina 40 mg/kg/dia por dez dias, com dose máxima de 1 g por dia. A conta em 22 kg: 660 mg por dia contra 880 mg por dia, ou seja, 26,4 mL contra 35,2 mL por dia da suspensão de 25 mg/mL — uma diferença de 33%. Nenhum dos dois documentos declara o outro, e o teto de 1 g por dia só aparece no de 2009. Na prática, a diferença muda pouco o desfecho de erradicação e muda muito o volume que a criança precisa engolir por dez dias, o que importa para a adesão.
Conferência de aritmética clínica que fechou. O documento de 2002 descreve o edema desta doença como um acréscimo médio de 7% no peso. A criança da cena pesava 20,5 kg na pesagem da escola e pesa 22 kg hoje: 1,5 kg de diferença, ou 7,3% sobre o peso anterior. O número descrito e o número da cena batem, e isso é mais do que coincidência narrativa — é a demonstração de que a balança substitui a impressão visual. Um acréscimo dessa ordem passa despercebido a olho nu numa criança de sete anos, e é justamente ele que está empurrando a pressão.
As duas fórmulas de necessidade hídrica basal do texto de 2002 não dão o mesmo volume, e ele apresenta as duas como equivalentes: '20 mL/Kg ou 400 mL/m² da superfície corpórea'. Em 22 kg, a primeira dá 440 mL por dia. A superfície corporal estimada dessa criança é de cerca de 0,85 m², e a segunda dá cerca de 339 mL — 101 mL a menos, ou 23% de diferença. Não é erro de nenhuma das duas: é que peso e superfície escalam de modo diferente, e a divergência cresce conforme a criança se afasta do ponto em que as fórmulas coincidem. A conduta segura é escolher uma, escrever qual foi usada na prescrição e somar a ela o volume da diurese, como o próprio documento manda.
Ambiguidade de redação no antibiótico, registrada porque inverte a indicação se lida ao pé da letra. O texto de 2002 oferece eritromicina 'na dose de 30 mg/Kg/dia durante dez dias, nos casos sensíveis à penicilina'. Sensível à penicilina, em bacteriologia, descreve a bactéria que responde ao antibiótico — e nesses casos a conduta seria usar a penicilina, não substituí-la. O sentido pretendido é o oposto: a alternativa existe para quem é alérgico. Escreva 'alérgico' na sua prescrição e na sua prova de residência, não 'sensível'.
A conduta, hora a hora
O primeiro atendimento procura simultaneamente encefalopatia hipertensiva, congestão pulmonar, lesão renal com oligúria e hipercalemia. A pressão é indispensável, mas não substitui exame neurológico, avaliação respiratória, diurese, função renal e eletrólitos. Trate a complicação presente enquanto organiza investigação e destino; não espere a creatinina para iniciar suporte, nem despreze uma creatinina em rápida elevação.
Duas coisas ficam decididas antes de qualquer prescrição, e convém dizê-las em voz alta na frente da equipe. A primeira é que o alvo do tratamento é volume: sal e água a mais dentro de um sistema fechado. A segunda é que nada do que se prescreve aqui muda a duração da doença — um estudo brasileiro comparou furosemida com placebo em crianças com a forma não complicada e o tempo de edema e de hipertensão foi o mesmo. O diurético existe para tratar a complicação, não para encurtar o curso.
O peso desta criança é o número que sustenta todas as doses adiante, e ele é aferido em balança, nunca estimado. Neste capítulo, a criança de referência tem 22 quilos e sete anos; todas as contas do bloco de critérios foram refeitas para ela.
Minuto 0 — antes de prescrever qualquer coisa: onde está o risco
A primeira triagem não é sobre o rim, é sobre a pressão e sobre o pulmão. Três perguntas resolvem: a criança está acordada e orientada como sempre? Ela respira confortável, deitada? Ela urinou nas últimas horas? Uma resposta negativa a qualquer das três transforma um caso ambulatorial em caso de sala. E a pressão se mede agora, não depois do exame de urina, porque é ela que decide o resto.
Prescrição- Peso aferido na balança, sem estimativa — todas as doses seguintes dependem dele.
- Pressão arterial por ausculta, com manguito cuja largura cubra cerca de 40% da circunferência do braço; repetir se o primeiro valor vier alterado.
- Classificar imediatamente contra a tabela por idade, sexo e percentil de estatura — não contra números de adulto.
- Frequência respiratória contada por um minuto inteiro, saturação, ausculta pulmonar e cardíaca, palpação de fígado.
- Nível de consciência descrito com palavras, não com rótulo: o que a criança faz, o que ela responde, e o que a mãe diz que mudou.
Minuto 5 — a criança com encefalopatia hipertensiva: o que muda tudo
Cefaleia com vômitos, alteração visual, sonolência fora do normal, irritabilidade que a mãe não reconhece, ou convulsão: isto é emergência hipertensiva, e a criança não sai da sala. A meta não é normalizar a pressão. A meta é reduzi-la de forma controlada, e o documento brasileiro é explícito no limite: a pressão não deve cair mais de 25% nas primeiras oito horas. Queda rápida produz hipofluxo cerebral — o dano que se estava tentando evitar.
Prescrição- Acesso venoso, monitorização contínua, cabeceira elevada, glicemia capilar e coleta de potássio.
- Meta explícita escrita na prescrição: reduzir no máximo 25% da pressão nas primeiras 8 horas, com aferições a cada 15 minutos no início.
- Anti-hipertensivo intravenoso titulável, sob monitorização — a escolha depende do que a unidade tem, e o serviço precisa saber disso antes da criança chegar.
- Nunca nifedipina por via sublingual: a diretriz brasileira de hipertensão de 2025 adverte contra o uso sublingual em qualquer elevação aguda da pressão.
- Furosemida intravenosa quando houver hipervolemia associada, que é a regra nesta doença: 1 mg/kg equivale a 22 mg, ou 2,2 mL da solução de 10 mg/mL.
- Convulsão: tratar a crise como qualquer crise, e tratar a pressão como a causa — não é epilepsia, e a criança não sai daqui com anticonvulsivante de manutenção.
- Transferência acionada no mesmo minuto se a unidade não tem pediatra, monitor e bomba de infusão.
Minuto 5 — a criança com congestão circulatória
Taquipneia sem febre e sem chiado, estertores em bases, intolerância a deitar, fígado palpável e doloroso: é sobrecarga de volume, e é a complicação mais frequente desta doença. O documento brasileiro faz uma ressalva que muda o tratamento: não há dano miocárdico intrínseco. O coração é normal e está cheio demais — por isso o alvo é retirar volume, e por isso digitálico não está indicado.
Prescrição- Oxigênio suplementar guiado por saturação; posição sentada; jejum se houver desconforto respiratório importante.
- Furosemida intravenosa, 1 a 5 mg/kg/dia conforme a gravidade — em 22 kg, de 22 a 110 mg por dia, fracionados; cada 20 mg é uma ampola de 2 mL.
- Restrição hídrica escrita em mililitros por dia, não como 'restringir líquidos'.
- Radiografia de tórax para documentar, sem que ela atrase a primeira dose de diurético.
- Digitálico não está indicado. Amina simpatomimética é recurso eventual e de serviço com retaguarda.
- Refratariedade a essas medidas, em criança oligoanúrica, é indicação de diálise — e portanto de transferência para serviço que a tenha.
Minuto 10 — a decisão de internar, tomada em voz alta
A preferência é pelo tratamento ambulatorial: na maior parte das vezes, a internação não é necessária. Internam a oligúria intensa, os sinais de insuficiência cardíaca e a encefalopatia hipertensiva. A este núcleo, a prática acrescenta o que impede o tratamento em casa: hipercalemia, vômitos que impedem a via oral, família sem transporte para retornar, e pressão em estágio 2 numa unidade que não consegue reavaliar em 24 horas. Diga a decisão em voz alta, com o motivo — porque o motivo é o que a próxima equipe vai precisar.
Prescrição- Escreva no prontuário qual critério de internação foi preenchido, ou que nenhum foi.
- Creatinina isoladamente elevada, em criança que urina, sem hipercalemia e sem congestão, não é critério de internação — ela sobe em cerca de metade dos casos e normaliza em três a quatro semanas.
- Unidade sem pediatra: estabilizar e transferir a criança que preencheu critério, sem esperar exames.
- Criança que fica: peso diário, diurese anotada em volume, pressão de 4 em 4 horas nas primeiras 24 horas.
Minuto 15 — restrição de sódio, ajuste de líquidos e diurético quando indicado
Aqui está o tratamento propriamente dito, e ele é dietético antes de ser farmacológico. A restrição de sódio se limita à fase de oligúria, edema e hipertensão — não é dieta para o resto da vida, e dizer isso à família aumenta a adesão nas duas semanas em que ela importa. A restrição hídrica vale na fase de hipervolemia e oligúria, e tem uma fórmula: as necessidades mínimas basais mais um volume igual ao da diurese.
Prescrição- Dieta sem sal de adição e sem alimentos industrializados salgados enquanto houver edema, oligúria ou hipertensão; retorno gradual ao normal depois.
- Restrição hídrica na fase de oligúria: necessidades basais — 20 mL/kg, ou 400 mL/m² de superfície corporal — acrescidas de volume igual ao da diurese. Em 22 kg, as duas fórmulas dão 440 e cerca de 339 mL, e a diferença de 23% entre elas é um bom motivo para escrever qual foi usada.
- Furosemida quando houver hipertensão ou congestão. Na criança sem complicação, ela não encurta a doença — a comparação com placebo mostrou tempo igual de edema e de hipertensão.
- Restrição de potássio apenas na oligúria importante, definida no documento brasileiro como diurese abaixo de 240 mL/m² por dia — em 22 kg, cerca de 204 mL em 24 horas.
- Restrição proteica apenas se houver redução intensa da filtração glomerular; não é medida de rotina e não se prescreve para criança que está comendo mal.
- Repouso limitado pelo próprio paciente, enquanto houver edema e hipertensão. Repouso prolongado não muda a evolução e tira a criança da escola sem benefício.
Minuto 20 — o antibiótico, e a conversa que ele exige
A erradicação do estreptococo faz parte do tratamento, e a escolha brasileira é a penicilina G benzatina em dose única. O que ela faz: erradica as cepas virulentas do germe, mesmo sem eliminar o estado de portador. O que ela não faz: encurtar a nefrite já instalada, prevenir a próxima, ou mudar o prognóstico desta criança. Prescreva, e diga por que — porque a família vai achar que o remédio é o tratamento, e vai cobrar melhora dele.
Prescrição- Penicilina G benzatina, dose única intramuscular profunda: 600.000 UI abaixo de 25 kg e 1.200.000 UI acima, pelo corte do documento brasileiro desta doença.
- Registre o peso ao lado da dose na prescrição: três documentos brasileiros usam três cortes diferentes para a mesma injeção — 20, 25 e 27 kg — e quem aplica precisa poder conferir.
- Alternativa para quem tem alergia à penicilina: estolato de eritromicina, 30 mg/kg/dia por dez dias, disponível em suspensão de 25 e de 50 mg/mL no elenco nacional.
- Não prescreva antibiótico prolongado nem repetido esperando mudar o curso da nefrite.
- Não prescreva corticoide. Imunossupressão nesta doença fica reservada aos casos raros com oligúria prolongada, proteinúria nefrótica com hipoalbuminemia ou insuficiência renal rapidamente progressiva com crescentes na biópsia — e mesmo aí a indicação não é formal.
Minuto 25 — o potássio da criança oligoanúrica
Quando a insuficiência renal aguda se instala, a tendência descrita é a hipercalemia, e ela é a única coisa deste capítulo capaz de matar em minutos por um caminho que não é a pressão. A conduta é a de qualquer hipercalemia, com uma ressalva local que muda a prática: a resina de troca que o documento brasileiro indica não consta do elenco nacional de medicamentos.
Prescrição- Potássio sérico e eletrocardiograma de imediato em toda criança oligoanúrica.
- Suspender toda oferta de potássio — soro, dieta, suplemento.
- Corrigir a acidose metabólica se presente; nebulização com beta-2 adrenérgico.
- Resina de troca por via oral ou retal, 1 g/kg a cada 4 ou 6 horas conforme o documento brasileiro — sabendo que o poliestirenossulfonato de cálcio não consta da Rename 2024, o que obriga a conferir a disponibilidade local antes de contar com ele.
- Oligúria com hipercalemia e congestão refratárias às medidas acima: indicar diálise precocemente, e portanto transferir cedo.
Minuto 30 — a alta, o papel na mão e a data do reteste
A maior parte destas crianças vai para casa hoje, e o que separa uma alta segura de uma alta arriscada não é o exame que ficou pendente: é o que está escrito no papel que a família leva. São quatro coisas — a dieta, os sinais que obrigam a voltar antes, a data do retorno e a data do complemento. Escreva as quatro, e peça para a mãe repetir os sinais de alarme com as palavras dela antes de sair.
Prescrição- Retorno marcado com dia e hora: 48 horas, ou 24 horas se a pressão estava em estágio 2 ou se a família mora longe.
- Lista escrita de sinais de alarme: dor de cabeça que não passa, vômitos repetidos, criança sonolenta ou estranha, enxergar embaçado, falta de ar ou cansaço para deitar, e parar de urinar.
- Data do complemento C3 de controle escrita na receita, para quatro a seis semanas — não apenas anotada no prontuário.
- Orientação de dieta sem sal de adição com prazo declarado: enquanto houver inchaço e pressão alta, não para sempre.
- Frase final dita à família, e ela é verdadeira: o prognóstico é bom, e a maioria destas crianças está clinicamente restabelecida entre a terceira e a quarta semana.
Como saber se está funcionando
Esta doença tem um cronograma, e o cronograma é o que permite dizer se ela está seguindo o roteiro ou saindo dele. Cada parâmetro abaixo vem com o prazo esperado e com o que fazer quando o prazo passa — porque, aqui, o que muda a conduta quase nunca é um valor isolado, e quase sempre é um valor que não mudou quando devia.
Os prazos descrevem uma evolução esperada, não autorizam espera diante de piora. Pressão crescente, dispneia, queda da diurese, hipercalemia ou função renal em deterioração antecipam o retorno e a discussão especializada. C3 que permanece baixo precisa de nova avaliação mesmo que a criança pareça bem.
Esperado: Normalização em geral dois a três dias depois do aumento da diurese e do desaparecimento do edema, ou seja, entre o nono e o décimo oitavo dia da doença. Comparar sempre contra a tabela por idade, sexo e percentil de estatura, e não contra o valor da consulta anterior isoladamente.
Se não melhora: Pressão que sobe ou que permanece em estágio 2 apesar da restrição de sódio e do diurético: reavaliar adesão à dieta, reavaliar a dose do diurético e reavaliar se ainda há hipervolemia. Hipertensão que persiste por mais de quatro semanas entra na lista de gatilhos de biópsia.
Esperado: Queda progressiva a partir do aumento da diurese, devolvendo o acréscimo de cerca de 7% que o edema produziu. É o parâmetro mais objetivo do bloco e o mais barato: mede volume sem exame nenhum.
Se não melhora: Peso que não cai ou que sobe, com diurese baixa, indica que a restrição não está sendo cumprida ou que a resposta ao diurético é insuficiente. Antes de aumentar a dose, confira se a criança está de fato recebendo o que foi prescrito e se alguém em casa está oferecendo líquido livremente.
Esperado: Aumento a partir do sétimo ao décimo quinto dia, junto com o desaparecimento do edema. É o primeiro sinal de virada, e costuma preceder a queda da pressão.
Se não melhora: Oligúria que se aprofunda, sobretudo abaixo de 240 mL/m² por dia — cerca de 204 mL em 24 horas numa criança de 22 kg —, pede restrição de potássio, dosagem de potássio, eletrocardiograma e reavaliação da necessidade de diálise. Oligoanúria mantida é critério de transferência.
Esperado: Desaparecimento em média entre o sétimo e o décimo quinto dia do início da doença. O edema que responde à postura ao longo do dia está seguindo o roteiro.
Se não melhora: Edema que progride para anasarca, ou que se acompanha de proteinúria em faixa nefrótica e albumina baixa, desloca a hipótese para síndrome nefrótica associada — e, se durar mais de quatro semanas nessa forma, entra como gatilho de biópsia.
Esperado: Clareamento progressivo, com a maioria das alterações urinárias regredindo entre a quarta e a sexta semana. A urina volta a ser clara antes de o sedimento normalizar.
Se não melhora: Hematúria macroscópica que persiste por mais de quatro semanas é gatilho de biópsia renal. Episódios recorrentes de hematúria macroscópica, sobretudo se coincidentes com infecções respiratórias, deslocam a hipótese para nefropatia por imunoglobulina A.
Esperado: Pode persistir por vários meses em cerca de 10% das crianças, sem significar mau prognóstico e sem exigir conduta. É a alteração que mais gera reinvestigação desnecessária neste capítulo.
Se não melhora: Sangue no sedimento, isoladamente, em criança assintomática, com pressão normal e complemento já normalizado, não reabre a investigação. O que reabre é a companhia: proteinúria crescente, pressão que voltou a subir, ou creatinina em elevação.
Esperado: Tendência à normalização nas primeiras semanas. Documentar o resultado junto de pressão, função renal e proteinúria; C3 normal isoladamente não encerra todo o seguimento.
Se não melhora: Complemento persistentemente baixo por mais de oito semanas é indicação de biópsia renal, e a hipótese que ele levanta é glomerulonefrite membranoproliferativa, que na infância cursa com complemento baixo por meses. Entre a sexta e a oitava semana, repita o exame em vez de indicar o procedimento.
Onde o erro machuca
O dano: É o erro que mata nesta doença, e ele é silencioso porque a criança está bem. O edema periorbitário chama a atenção para alergia, para verminose, para picada — e a consulta segue por aí. A pressão fica sem ser aferida, ou é aferida e anotada sem ser lida contra a tabela certa. A criança vai para casa em estágio 2 e volta convulsionando, ou não volta.
Como pegar a tempo: Toda criança com edema periorbitário matinal tem a pressão medida por ausculta, com manguito adequado, e o valor comparado à tabela por idade, sexo e percentil de estatura antes de qualquer hipótese. Se a unidade não tem a tabela impressa na parede da sala, imprima: é a diferença entre 138 por 92 ser 'um pouco alta' e ser estágio 2 numa criança de sete anos.
O dano: O protocolo clínico federal define crise hipertensiva em 180 por 120 mmHg, e esse número é de adulto. Numa criança de sete anos com estatura mediana, o limiar de estágio 2 é 124 por 85 — o corte do adulto está 1,45 vez acima. Quem espera 180 para se preocupar deixa passar toda criança nefrítica hipertensa que existe, porque praticamente nenhuma chega àquele número.
Como pegar a tempo: Na pediatria abaixo dos treze anos não existe número universal: a classificação é por percentil. Guarde a ordem de grandeza da criança escolar — percentil 95 em torno de 112 por 73 e estágio 2 a partir de 124 por 85 aos sete anos — e consulte a tabela para o resto.
O dano: Metade das histórias desta doença entra pela pele, e a família nunca associa impetigo a rim: aquilo foi tratado com pomada da farmácia, ou com nada, e já sarou. Sem antecedente encontrado, o interno abandona a hipótese e parte para uma investigação de edema sem causa — exames caros, encaminhamentos, semanas perdidas — enquanto a criança segue hipertensa.
Como pegar a tempo: Pergunte por seis semanas para trás, e pergunte por pele com as palavras da família: feridinha, brotoeja, casquinha, machucado que não sarava, picada que infeccionou. Depois olhe as pernas e o couro cabeludo da criança agora, porque a lesão ou a marca podem estar lá.
O dano: O exame demora, e a conduta de hoje não depende dele. Pior: ele engana nos dois sentidos. Título alto prova apenas contato recente com o estreptococo, que é comum em escolares e persiste por meses; título normal não afasta, porque a resposta é menos consistente depois de infecção de pele — que é exatamente o caso que este capítulo insiste em não perder. Enquanto se espera, ninguém restringiu sal e ninguém tratou a pressão.
Como pegar a tempo: O diagnóstico se fecha com clínica, complemento baixo e intervalo compatível. Peça a antiestreptolisina se quiser documentar o caso, e trate hoje. Cultura negativa também não afasta, pela mesma razão: a infecção já passou.
O dano: Nenhum dos dois muda o curso. O corticoide expõe a criança a efeitos adversos numa doença de evolução favorável e, quando dado a quem na verdade tinha síndrome nefrótica mal classificada, atrasa o diagnóstico correto. O antibiótico repetido seleciona resistência e ensina a família que a nefrite é uma infecção que voltou — do que decorre a próxima consulta pedindo mais antibiótico.
Como pegar a tempo: A erradicação é dose única de penicilina G benzatina, e serve para erradicar as cepas virulentas, não para tratar o rim. Imunossupressão fica para os casos raros com oligúria prolongada, proteinúria nefrótica com hipoalbuminemia ou insuficiência renal rapidamente progressiva com crescentes na biópsia — e mesmo aí, por indicação que o documento brasileiro descreve como não formal.
O dano: Em cerca de 10% das crianças a hematúria microscópica dura vários meses depois da cura, sem significar mau prognóstico. Um exame de urina de controle pedido no terceiro mês, lido isoladamente, gera nova rodada de exames, encaminhamento à nefrologia, ansiedade familiar e, no limite, indicação de biópsia numa criança que já sarou.
Como pegar a tempo: Sangue no sedimento, sozinho, em criança assintomática com pressão normal e complemento já normalizado, não reabre nada. O que reabre é a companhia: proteinúria crescente, pressão que voltou a subir ou creatinina em elevação. E avise a família no dia da alta que isso pode acontecer, para que o achado não a assuste no consultório seguinte.
O que dizer ao paciente e à família
Esta é uma doença em que a conversa faz metade do trabalho, por dois motivos opostos. De um lado, o susto: urina cor de Coca-Cola e cara inchada são imagens que a família não esquece, e o prognóstico bom precisa ser dito com a mesma clareza com que o susto foi vivido. De outro, a falsa segurança: a criança está bem, e é preciso explicar por que uma criança que brinca precisa voltar em 48 horas.
As falas abaixo são para a família e, uma delas, para a equipe. O que elas têm em comum é o hábito de dizer o motivo junto com a instrução — porque instrução sem motivo não sobrevive ao fim de semana.
Explicar o que a criança tem, sem usar a palavra infecção
“"O rim dele não está infectado. O que aconteceu foi outra coisa: semanas atrás ele teve uma infecção — na garganta ou na pele — e o corpo montou uma defesa contra aquela bactéria. Aquela defesa fez o trabalho dela, a bactéria foi embora, e sobrou uma reação que acabou inflamando o filtro do rim. Por isso ele está inchado, por isso a urina está escura e por isso a pressão está alta. Não é uma infecção agora, e por isso o antibiótico não vai fazer o inchaço passar."”
Não diga: "Ele está com uma infecção no rim." É falso, e cria a expectativa de que o antibiótico resolva — do que decorre a família achar que o tratamento falhou quando o inchaço continuar no segundo dia.
Dar a notícia boa sem apagar a instrução
“"Eu vou te dizer duas coisas, e as duas são verdade. A primeira é que isso costuma melhorar sozinho: em uma a duas semanas ele volta a urinar mais, o inchaço some, e em três ou quatro semanas ele está bem de novo. A segunda é que, nessas duas semanas, a pressão alta é a parte perigosa, e é por isso que eu preciso ver ele de novo depois de amanhã. A doença é boa e o caminho tem um trecho ruim — é esse trecho que a gente vai vigiar juntos."”
Não diga: Escolher uma das duas metades. Dizer só que é benigno faz a família não voltar; dizer só que é grave faz a família chegar apavorada e desconfiar de você quando a criança melhorar sozinha.
Explicar por que tirar o sal, e por quanto tempo
“"O rim dele está segurando sal, e onde o sal fica a água fica junto. É essa água a mais que está no rosto dele e é ela que está empurrando a pressão para cima. Então, enquanto ele estiver inchado, nada de sal a mais: sem salgadinho, sem macarrão instantâneo, sem embutido, sem caldo de tablete, e sem o saleiro na mesa. Não é para sempre — é para essas duas semanas. Quando ele desinchar e a pressão baixar, a comida volta ao normal aos poucos."”
Não diga: "Faça uma dieta sem sal." Sem exemplos e sem prazo, a orientação vira comida sem gosto por tempo indeterminado, a criança para de comer e a família abandona a recomendação no terceiro dia.
Entregar os sinais de alarme de um jeito que a família use
“"Eu vou escrever aqui seis coisas, e quero que você me repita elas antes de sair. Dor de cabeça que não passa. Vomitar várias vezes. Ele ficar mole, sonolento ou estranho, diferente dele. Reclamar que está enxergando embaçado. Ficar cansado, respirando rápido, ou não conseguir deitar. E parar de fazer xixi. Qualquer uma dessas, você não espera a consulta de depois de amanhã: você vem na hora, de madrugada se for de madrugada."”
Não diga: "Qualquer coisa, volte." É uma instrução que não instrui: a família não sabe o que é qualquer coisa, e por medo de incomodar espera até que a coisa seja grande demais.
Explicar por que a urina escura pode demorar a clarear, e por que isso não é piora
“"A urina vai clarear antes de o exame ficar normal. Pode ser que, daqui a um ou dois meses, ainda apareça um pouco de sangue no exame, mesmo com ele completamente bem, e isso acontece em cerca de uma em cada dez crianças. Não é recaída e não é problema — desde que ele esteja sem inchaço, com a pressão normal e o outro exame de sangue já tenha voltado ao normal. Estou te avisando agora para você não se assustar depois."”
Não diga: Não avisar. A família descobre sozinha num exame de rotina meses depois, entra em pânico e recomeça a investigação com outro médico, sem contexto.
Explicar por que é preciso repetir um exame de sangue daqui a um mês
““O complemento é um exame que ajuda a entender essa inflamação e costuma melhorar nas primeiras semanas. Vamos repetir com data marcada, mas também acompanhar pressão, urina e funcionamento dos rins. Se ele continuar baixo ou aparecer outra alteração, discutiremos com o nefrologista. A melhora de um exame é boa notícia, mas o acompanhamento termina quando o conjunto permitir.””
Não diga: Pedir o exame sem explicar para que serve. Exame sem propósito declarado é o exame que não se faz — e ele é o único que fecha ou reabre este caso.
Passar o caso para o plantão seguinte ou para a equipe da enfermaria
“"Menino de sete anos, 22 quilos, síndrome nefrítica no décimo segundo dia de uma infecção de pele. Chegou em estágio 2 de pressão para a idade, sem sinal de encefalopatia e sem congestão. Está com restrição de sódio, restrição hídrica calculada e furosemida. O que eu quero que vocês vigiem, nesta ordem: consciência, respiração e diurese. O que não quero que decida nada isoladamente: a creatinina. E ele tem complemento colhido, com reteste marcado para daqui a cinco semanas."”
Não diga: Passar o caso pelo diagnóstico e pela creatinina. Quem receber a criança precisa saber onde está o risco, e o risco não está no número que mais chama atenção na folha de exames.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
0,3 a 0,5 mg/kg por dose, três vezes ao dia — ou seja, 0,9 a 1,5 mg/kg por dia
O quadro de esquemas de administração para crianças e adolescentes do protocolo clínico federal traz captopril com dose inicial de 0,3 a 0,5 mg/kg por dose, três vezes ao dia, e máximo de 6 mg/kg por dia, com a nota de que o medicamento é aprovado para uso adulto e tem relatos de uso pediátrico. Numa criança de 22 kg isso dá 6,6 a 11 mg por tomada, algo entre um quarto e meio comprimido de 25 mg — a única apresentação que o elenco nacional fornece. É uma dose que existe fisicamente.
Brasil, Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hipertensão Arterial Sistêmica, Quadro 19. Portaria SECTICS/MS nº 49, de 23 de julho de 2025.
0,05 mg/kg por dia como dose inicial, com intervalo de 8 em 8 horas
O quadro de medicamentos para hipertensão arterial crônica do documento da sociedade de pediatria traz captopril, para maiores de um mês, com dose inicial de 0,05 mg/kg por dia, intervalo de 8 em 8 horas e dose máxima de 6 mg/kg por dia, na apresentação de comprimidos de 12,5, 25 e 50 mg. Os dois documentos concordam no teto e divergem no piso por 18 a 30 vezes. Numa criança de 22 kg, essa dose inicial é 1,1 mg por dia — um vigésimo terceiro de um comprimido de 25 mg, que não se fraciona.
Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Nefrologia. Hipertensão arterial na infância e adolescência, Quadro 8. Manual de Orientação, abril de 2019.
Esta apostila adota a dose inicial do protocolo federal de 2025 — 0,3 a 0,5 mg/kg por dose, três vezes ao dia. Decide a data: os dois documentos são escritos para a criança hipertensa em geral, nenhum para a nefrite, e o mais novo vence; a natureza aponta para o mesmo lado, porque um é portaria e o outro é manual de sociedade. A dose de 2019 fica registrada como a do manual, que repete para maiores de um mês a dose do neonato e que não se consegue tirar do comprimido de 25 mg. Para a criança à sua frente, três coisas completam a decisão. Primeira: o teto é o mesmo nos dois documentos, 6 mg/kg por dia, e é ele que protege — nenhuma titulação deve passar disso. Segunda: começar baixo e subir é sempre defensável em anti-hipertensivo, e a apresentação decide o degrau possível: com comprimido de 25 mg, o menor degrau confiável é um quarto, ou 6,25 mg, o que coloca uma criança de 22 kg em 0,28 mg/kg por dose. Terceira, e a mais importante neste capítulo: a hipertensão da nefrite aguda é transitória e movida a volume, e o primeiro tratamento dela é tirar sal, tirar água e dar diurético de alça — o anti-hipertensivo oral é complemento, não a base. Se a decisão sobre a dose inicial estiver difícil, provavelmente a pergunta anterior, a do volume, ainda não foi respondida.
Corte em 25 kg — é o do documento brasileiro sobre esta doença
O texto brasileiro sobre glomerulonefrite pós-estreptocócica prescreve penicilina benzatina em dose única de 600.000 UI para crianças com menos de 25 kg e 1.200.000 UI para as com mais de 25 kg. É o corte que vem junto com a indicação específica desta doença, e portanto o que este capítulo cita.
Sociedade Brasileira de Pediatria. Toporovski J, Bresolin NL. Glomerulonefrite difusa aguda pós-estreptocócica. Correios da SBP, Ano 8, out/nov/dez de 2002.
Corte em 20 kg — é o da diretriz brasileira de febre reumática
A Tabela 5 da diretriz brasileira de febre reumática, na profilaxia primária, fixa 600.000 UI por via intramuscular para peso abaixo de 20 kg e 1.200.000 UI para peso igual ou acima de 20 kg, em dose única; a Tabela 6, da profilaxia secundária, usa o mesmo corte de 20 kg a cada 21 dias. Uma criança de 22 kg, portanto, recebe 600.000 UI por um documento e o dobro pelo outro. Há ainda um terceiro corte em circulação no país, de 27 kg, usado no capítulo de faringoamigdalite da apostila de Otorrinolaringologia.
Diretrizes Brasileiras para o Diagnóstico, Tratamento e Prevenção da Febre Reumática, Tabelas 5 e 6. Arq Bras Cardiol 2009;93(3 supl.4):1-18.
A faixa de discordância é estreita e conhecida: entre 20 e 27 kg. Fora dela, os três documentos concordam. Para a criança dentro da faixa, o que resolve na prática é pesar em vez de estimar, escrever o peso ao lado da dose na prescrição para que quem aplica possa conferir, e lembrar que os dois objetivos não são o mesmo: na nefrite já instalada, a injeção erradica cepa virulenta e não muda o curso da doença, enquanto na profilaxia da febre reumática ela é o que previne a lesão valvar. Quando a mesma criança tiver as duas indicações — e isso acontece —, a indicação mais exigente é a que governa.
Sim, com cinco gatilhos, todos definidos por tempo
O documento brasileiro sobre a doença lista indicações explícitas de biópsia: hematúria macroscópica com duração superior a quatro semanas; função renal persistentemente alterada por mais de quatro semanas; hipertensão arterial prolongada por mais de quatro semanas; complemento sérico persistentemente baixo por mais de oito semanas; e associação com síndrome nefrótica de duração superior a quatro semanas. O princípio declarado é que, sendo nefropatia de evolução favorável, a biópsia só se justifica quando há suspeita de que o padrão anatomopatológico não seja o esperado.
Sociedade Brasileira de Pediatria. Toporovski J, Bresolin NL. Glomerulonefrite difusa aguda pós-estreptocócica. Correios da SBP, Ano 8, out/nov/dez de 2002.
Não consta entre as indicações formais; o que consta é outra coisa
As recomendações da Sociedade Brasileira de Nefrologia listam como indicações de biópsia renal em glomerulopatias a síndrome nefrótica em pacientes adultos, a insuficiência renal de causa não esclarecida e a glomerulonefrite rapidamente progressiva; e classificam como situações sem consenso, porém defensáveis, a hematúria isolada de origem glomerular, a hematúria associada a proteinúria de pequena monta e a proteinúria isolada de pequena monta. A síndrome nefrítica não aparece em nenhuma das duas listas, e o documento afirma que o protótipo dessa síndrome é justamente a glomerulonefrite pós-estreptocócica, cujo tratamento descreve como dieta hipossódica, repouso e sintomáticos. O escopo declarado do documento é de adultos.
Sociedade Brasileira de Nefrologia. Recomendações sobre distúrbios glomerulares: investigação e tratamento das glomerulopatias em adultos. J Bras Nefrol, suplemento, 2005.
Cada lista foi escrita para responder uma coisa distinta, e reconhecer isso já encerra o impasse. A da sociedade de nefrologia responde 'quando a biópsia faz o diagnóstico de uma glomerulopatia no adulto'; a da sociedade de pediatria responde 'quando esta criança deixou de se comportar como nefrite pós-estreptocócica'. Para a criança à sua frente, a segunda pergunta é a útil, e ela tem uma vantagem operacional: todos os gatilhos dependem de tempo, o que significa que nenhum deles pode ser preenchido hoje. A conduta prática, portanto, não é escolher entre as duas listas — é marcar o retorno e o reteste de complemento, porque é o relógio, e não o exame de hoje, que vai indicar ou afastar a biópsia. Quando algum gatilho se preencher, a decisão sobre biopsiar deixa de ser do interno e passa a ser do nefrologista pediátrico, com ultrassonografia mostrando rins de dimensões normais ou aumentadas como pré-requisito.
O raciocínio, em voz alta
Kauan Higino, 7 anos, 22 kg, chega às 7h40 de uma segunda-feira à unidade de pronto atendimento com edema periorbitário desde sábado e urina escura desde domingo. Está ativo, corado, sem febre, andando. A triagem anotou pressão de 138 por 92 mmHg com manguito infantil e não comentou o valor. A mãe, dona Jamile, atribui o inchaço a uma picada de inseto. Não há laboratório na unidade antes das dez, e o hospital com pediatra fica a três bairros e uma baldeação.
o que decido antes de tocar nele
Duas coisas se decidem só de olhar e ler a ficha. A primeira: ele não está grave neste minuto — anda, fala, responde, está corado e não tem esforço respiratório visível. A segunda: o número que está na ficha não foi lido. Cento e trinta e oito por noventa e dois numa criança de sete anos não é 'um pouco alta': preciso saber em que faixa isso cai antes de decidir qualquer outra coisa, porque é essa faixa que vai dizer se ele fica ou se ele vai para casa.
leio a pressão contra a tabela certa
Menino, sete anos, estatura mediana. Percentil 95 em 112 por 73; limiar de estágio 2 em 124 por 85. Ele está em 138 por 92 — acima dos dois. Isso é hipertensão em estágio 2, não é 'pressão limítrofe', e não é o corte de 180 por 120 do adulto que vale aqui. Repito a medida por ausculta, com ele sentado e quieto por alguns minutos, e o valor se confirma.
junto os três achados e dou nome a eles
Edema periorbitário matinal, bilateral, indolor. Urina escura descrita como cor de refrigerante. Hipertensão em estágio 2. Os três juntos são síndrome nefrítica, e na criança brasileira a causa mais comum é a glomerulonefrite pós-estreptocócica. O peso confirma: 22 kg hoje contra 20,5 na pesagem da escola três semanas atrás, um acréscimo de 7,3% — exatamente a ordem de grandeza descrita para o edema desta doença.
faço a pergunta que olha para trás
Pergunto por dor de garganta nas últimas seis semanas: nada. Pergunto por ferida, brotoeja, casquinha, machucado que não sarava. Dona Jamile lembra: há umas três semanas ele teve umas feridinhas na perna, com casquinha amarelada, que ela passou pomada da farmácia e sararam. Peço para ver: há duas marcas hipocrômicas na face anterior da perna direita. Doze a vinte e um dias, portanto, entre a piodermite e hoje — dentro da janela de dez a vinte dias e muito dentro do teto de seis semanas.
procuro as três complicações antes de qualquer exame
Encefalopatia: sem cefaleia, sem vômitos, sem alteração visual, acordado e orientado, mãe diz que ele está ele mesmo. Congestão: frequência respiratória de 22 por minuto, sem esforço, ausculta limpa, aceita deitar, fígado não palpável. Diurese: urinou três vezes ontem, o que a mãe diz ser menos que o habitual, mas urinou. Nenhuma das três complicações está presente — e é isso, e não a creatinina que eu ainda não tenho, que decide que ele não precisa ficar.
prescrevo o que trata a doença
Dieta sem sal de adição enquanto houver inchaço e pressão alta, com exemplos escritos: sem salgadinho, sem embutido, sem macarrão instantâneo, sem caldo de tablete, sem saleiro na mesa. Furosemida por via oral, porque ele tem hipertensão: 22 mg por dia seriam 0,55 de um comprimido de 40 mg, e como não existe solução oral no elenco nacional, prescrevo meio comprimido, que entrega 20 mg, ou 0,91 mg/kg — e escrevo o peso ao lado da dose. Penicilina G benzatina 600.000 UI intramuscular em dose única, pelo corte de 25 kg do documento brasileiro desta doença, com o peso registrado na prescrição.
escrevo o que não faço, e por quê
Não prescrevo corticoide: a doença tem evolução favorável e a imunossupressão fica para casos raros que ele não preenche. Não prescrevo antibiótico por dez dias esperando encurtar a nefrite: a injeção erradica cepa virulenta e não muda o curso do que já começou. Não uso nifedipina sublingual, apesar de o texto de 2002 recomendá-la para encefalopatia: a diretriz brasileira de hipertensão de 2025 adverte contra a via sublingual em qualquer elevação aguda, e ele nem tem encefalopatia. Não peço biópsia de rotina neste caso típico em avaliação. Uma apresentação atípica ou deterioração rápida poderia justificar investigação especializada já no início.
deixo o papel na mão e marco o relógio
Retorno marcado para daqui a 24 horas, e não 48, porque ele está em estágio 2 e a família depende de duas conduções para chegar ao hospital. Lista escrita de seis sinais de alarme, com dona Jamile repetindo os seis com as palavras dela antes de sair. Pedido de exame de urina, complemento C3, ureia, creatinina e potássio para amanhã de manhã. E a data do complemento de controle escrita na receita, para cinco semanas — com a frase que ela precisa ouvir dita em voz alta: isso costuma melhorar sozinho, e em três ou quatro semanas ele deve estar bem.
Faça você
Lavínia Jacinto, 9 anos, 28 kg, chega às 23h10 de um sábado ao mesmo pronto atendimento, trazida pelo pai. Há cinco dias a família notou o rosto inchado pela manhã e não procurou serviço porque ela continuou brincando. Hoje à tarde começou com dor de cabeça, vomitou duas vezes e, há uma hora, disse que estava enxergando 'tudo embaçado'. Está sonolenta, mas acorda ao chamado e responde. Pressão de 152 por 104 mmHg, aferida por ausculta com manguito adequado. Frequência respiratória de 20, ausculta pulmonar limpa. O pai conta que ela teve amigdalite tratada com antibiótico há cerca de duas semanas e que urinou pouco hoje, e escuro.
o que a pressão dela já decidiu
Menina de nove anos: nessa idade, na estatura mediana, o percentil 95 fica em torno de 115 por 74 e o limiar de estágio 2, em torno de 127 por 86. Ela está em 152 por 104, muito acima. Some-se cefaleia, vômitos, alteração visual e sonolência — e o que se tem não é hipertensão em estágio 2: é emergência hipertensiva com encefalopatia. A decisão de que ela não sai da sala está tomada antes de qualquer exame.
o que o antecedente confirma, e o que ele não desculpa
Amigdalite tratada com antibiótico há duas semanas: intervalo compatível, e a confirmação de que o antibiótico da garganta não previne a nefrite. Este é o ponto de contato com o capítulo de Faringoamigdalites e critérios de Centor, da apostila de Otorrinolaringologia: a mesma bactéria produz dois desfechos tardios, e a injeção que previne a febre reumática — tema do capítulo de Febre reumática e cardiopatia reumática crônica, na apostila de Cardiologia — não previne o que está acontecendo com ela.
o que o exame físico afastou até agora
Frequência respiratória normal, ausculta limpa e ausência de intolerância ao decúbito afastam, por ora, a congestão circulatória — que é a complicação mais frequente e teria mudado a prescrição inicial. A oligúria referida, porém, mantém aberta a hipótese de insuficiência renal aguda, e com ela a de hipercalemia, que é a única coisa neste quadro capaz de matar por um caminho que não é a pressão.
agora é com você
Responda na sequência abaixo, dizendo o que faria de verdade nessa noite: (1) qual é a meta pressórica das próximas oito horas e por que ela não é normalizar a pressão; (2) quais dois exames você pede nos primeiros dez minutos e o que cada um decide; (3) o que você prescreve agora, e por que nifedipina sublingual não entra apesar de o texto brasileiro sobre esta doença recomendá-la; (4) o que você diz ao pai, em duas frases, sobre prognóstico e sobre por que ela vai ser transferida.
Glomerulonefrite pós-estreptocócica pode seguir infecção de garganta ou pele. Perguntar sobre lesões compatíveis com impetigo nas semanas anteriores e examinar a pele pode revelar o antecedente, frequentemente não relacionado pela família ao quadro renal. O intervalo costuma ser de aproximadamente dez dias após faringite e cerca de três semanas ou mais após infecção cutânea. A história aumenta a suspeita, mas não confirma sozinha: avaliar urina, função renal, complemento e evidência de infecção estreptocócica recente. O enunciado não informa C3; outras causas de síndrome nefrítica permanecem no diferencial.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Avalie uma criança com hematúria e edema usando quatro eixos: pressão e estado neurológico, respiração, diurese e potássio. Classifique a pressão com a tabela adequada e explique ao preceptor o que exige hospital, o que pode ser acompanhado e quais dados ainda faltam para decidir com segurança.
Em 30 dias
Revise o seguimento de um caso real ou simulado: peso, edema, pressão, diurese, creatinina, proteinúria e C3. Explique à família por que antibiótico para erradicação não cura a inflamação renal e por que a restrição é de sódio. Compare hematúria microscópica isolada em recuperação com hematúria acompanhada de piora renal; escreva o próximo retorno e os sinais para antecipá-lo.
Agora atenda
Você é o interno da manhã numa unidade de pronto atendimento e recebe um menino de sete anos que acordou com o rosto inchado e urina escura. Ele está bem, e a mãe acha que foi picada de inseto. A pressão foi anotada na triagem e ninguém a leu.
