PediatriaNefrologia Pediátrica

Ninguém molha a cama de propósito

Enurese noturna e distúrbios miccionais funcionais

Enurese e disfunção vesical e intestinal da criança, da unidade básica ao ambulatório: classificar pela história e pelo diário, pedir pouco exame, tratar o dia e o intestino antes da noite, escolher entre alarme e desmopressina com a família, e reconhecer a bexiga que precisa de urologista.

Fontes deste capítulo

Sociedade Brasileira de Urologia (Departamento de Uropediatria); Sociedade Brasileira de Pediatria (Departamento Científico de Nefrologia). Uropediatria: guia para pediatras. Calado A, Rondon AV, Netto JMB, Bresolin NL, Martins R, Barroso Jr U, organizadores. SBU/SBP; 2020. Capítulo 6, Enurese (Netto JMB, Uhlmann A), p. 113-127; capítulo 7, Disfunção vésico-intestinal (Barroso Jr U, Kaufman A), p. 128-152.

Nevéus T, Fonseca E, Franco I, Kawauchi A, Kovacevic L, Nieuwhof-Leppink A, Raes A, Tekgül S, Yang SS, Rittig S. Management and treatment of nocturnal enuresis — an updated standardization document from the International Children's Continence Society. J Pediatr Urol. 2020;16(1):10-19. doi:10.1016/j.jpurol.2019.12.020.

Radmayr C, Bogaert G, Bujons A, Burgu B, Castagnetti M, 't Hoen LA, O'Kelly F, et al. EAU Guidelines on Paediatric Urology. Limited update March 2026. In: EAU Guidelines. Edn. presented at the EAU Annual Congress London 2026. Arnhem: EAU Guidelines Office; 2026. ISBN 978-94-92671-32-5. Capítulos 13 (daytime lower urinary tract conditions) e 14 (monosymptomatic nocturnal enuresis).

Laboratórios Ferring Ltda. DDAVP (acetato de desmopressina) comprimidos de 0,1 mg e 0,2 mg: bula para o profissional de saúde. Registro MS 1.2876.0015. Texto aprovado pela Anvisa em 29 fev. 2024.

Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Portaria GM/MS nº 6.324/2024. Brasília: Ministério da Saúde; 2024.

01

Responda antes de ler

Menino de 8 anos, 26 kg, é trazido à unidade básica porque molha a cama seis noites por semana desde sempre. De dia urina cinco vezes, sem urgência nem perda; evacua todo dia, fezes formadas; não ronca, não bebe água de madrugada e nunca teve infecção urinária. O exame físico é normal. A mãe o acorda à uma da manhã para urinar, corta a água depois das 17h e tirou o videogame “até ele aprender”. Qual é a conduta mais adequada nesta primeira consulta?

02

O paciente que você vai ver

Quarta-feira, oito e quarenta da manhã, num posto de saúde que atende um bairro grande demais para as suas quatro equipes. Você é o interno do consultório 3; a preceptora atende a demanda espontânea do outro lado do corredor e passa para discutir quando você chamar. A ficha diz, na letra da recepção: “Tito Paes, 8 anos. Xixi na cama.” Entram três pessoas. Lédia Boaventura, a mãe, ainda com o avental de auxiliar de cozinha da creche onde começa às dez. Tito, que se senta na ponta da cadeira e olha para o próprio tênis. E Iberê, o irmão de 4 anos, que vai direto para a caixa de brinquedos do canto.

Lédia fala baixo, como quem não quer que o filho ouça, e o filho ouve tudo. Tito nunca deixou de molhar a cama. Todo mundo disse que com seis anos passava, depois que com sete passava. Hoje são seis noites em cada sete, uma mancha grande, quase sempre antes da meia-noite — ela sabe porque confere quando o marido sai para o turno de vigia. Já tentou de tudo o que lhe ensinaram: corta a água e o suco depois das cinco da tarde, acorda o menino à uma da manhã para ir ao banheiro, deixou de comprar refrigerante. Ele levanta, faz um pouco de xixi dormindo em pé, volta para a cama e amanhece molhado do mesmo jeito. O pai acha que é preguiça e tirou o videogame “até ele aprender”. A avó mandou uma simpatia. O colchão, conta Lédia, já não tem jeito.

Você pergunta pelo dia, e o dia é tranquilo. Tito urina cinco ou seis vezes, não sai correndo para o banheiro, não aparece com a cueca molhada, não fica cruzando as pernas na hora do desenho. Evacua todo dia, fezes formadas, sem dor. Não bebe água de madrugada, não emagreceu, nunca teve infecção urinária. Ronca só quando está gripado. Na caderneta, o peso de 26 quilos e a estatura de 128 centímetros seguem a mesma linha desde o primeiro ano. Lédia hesita e acrescenta, olhando para a porta: o pai também molhou a cama até uns dez anos, mas não gosta que se fale disso.

Há um prazo na história, e é Tito quem o traz, quando você pergunta a ele — e não à mãe — o que mais o incomoda. Daqui a sete semanas a turma dele vai a um sítio da prefeitura, dois dias, com uma noite de alojamento. Ele já disse à professora que não vai. Não disse por quê. Divide o beliche com o irmão, e Iberê contou na escola, na semana passada, que o irmão “faz xixi de bebê”.

Enquanto Lédia fala, a sua mão já foi ao bloco de pedidos: urina tipo I, urocultura, ultrassonografia de rins e vias urinárias, talvez uma glicemia. A vizinha, diz a mãe, deu ao filho um spray de nariz “que secou o menino em uma semana”, e ela quer saber se Tito pode usar. A preceptora passa na porta, ouve o fim da história e faz uma pergunta só: “Qual desses exames muda o que você vai fazer com ele hoje?” E sai.

Tito não tem nenhum sinal de alerta, e três perguntas vão decidir as próximas semanas dele. A primeira é se a noite é o único problema ou se há uma bexiga que também falha de dia — a resposta está na história e num diário, não num exame. A segunda é por que a bexiga transborda dormindo: se ele produz urina demais à noite ou se a bexiga guarda de menos, o que a família mede em casa com uma balança de cozinha. A terceira é o que esta família consegue fazer, com um irmão no mesmo quarto, um pai que chama de preguiça e um passeio marcado. Nenhuma das três se responde com sangue ou imagem. E antes de qualquer receita há duas coisas para parar hoje: a madrugada acordada e o castigo.

03

Quem adoece disso

Enurese é das queixas mais comuns da pediatria geral, e a frequência cai com a idade sem nunca chegar a zero. O guia brasileiro de uropediatria, da Sociedade Brasileira de Urologia com a Sociedade Brasileira de Pediatria (2020), dá cerca de 15% das crianças aos 5 anos, 10% aos 7 e 5% aos 10; a padronização da International Children's Continence Society (ICCS, 2020) e a diretriz europeia de urologia pediátrica (EAU, 2026) situam entre 5% e 10% as crianças de 7 anos. Numa turma de trinta alunos da idade de Tito, duas ou três molham a cama e quase nunca sabem umas das outras. Na adolescência ainda são de 1% a 3%, conforme a série, e a ICCS registra de 0,5% a 1% de adultos. Os meninos são o dobro das meninas — em qualquer idade, pela EAU; abaixo dos 9 anos, pelo guia brasileiro.

A resolução espontânea gira em torno de 15% ao ano, número que os três documentos repetem e que costuma ser lido do jeito errado. Quinze por cento ao ano quer dizer que a maioria das crianças de 7 anos ainda estará molhando a cama dois ou três anos depois; a ICCS acrescenta que a chance de secar sem tratamento é bem menor quando a enurese é frequente, como a de Tito, e a EAU calcula que 7 de cada 100 crianças enuréticas de 7 anos seguirão molhando a cama na vida adulta. O motivo para tratar, diz a ICCS, não é somático: é a autoestima, o acampamento e a noite na casa do amigo evitados, e o estresse dos pais. A diretriz europeia registra que a raiva é a reação parental mais comum e que negligência e abuso aparecem com mais frequência entre as crianças que molham a cama.

A enurese é de família. Pela EAU, a criança sem nenhum parente próximo que tenha molhado a cama tem 15% de chance de também molhar; com um dos pais afetado, 44%; com os dois, 77% — o guia brasileiro dá números da mesma ordem. A EAU chama a genética da enurese de complexa e heterogênea, e a ICCS adverte que, na criança individual, a história familiar informa pouco. O uso clínico da pergunta é outro: saber que o pai de Tito molhou a cama até os dez anos tira da conversa a palavra preguiça, e dá à família um exemplo vivo de que aquilo passa.

A enurese raramente vem sozinha. O quadro de comorbidades do guia brasileiro lista constipação em 33% a 75% das crianças enuréticas, infecção urinária em 18% a 60%, apneia obstrutiva do sono em 10% a 54%, bexiga hiperativa ou micção disfuncional em até 41% e transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) em 12% a 17%; a EAU encontra constipação ou escape fecal em até 20% das crianças com enurese e constipação oculta em 37%. As faixas variam muito de uma série para outra, mas a mensagem é a mesma: quem trata a noite sem perguntar pelo dia, pelo intestino e pelo sono trata metade do problema. Obesidade e TDAH, pela diretriz europeia, aumentam a enurese e diminuem a eficácia do tratamento.

Os sintomas miccionais diurnos são ainda mais comuns. A prevalência de disfunção do trato urinário inferior em crianças varia de 2% a 25% entre os estudos, e o guia brasileiro cita duas amostras nacionais: 22,8% das crianças de 3 a 9 anos em Pelotas e 21,8% das de 6 a 12 anos em Belo Horizonte. A EAU encontra sintomas vesicais em até 64% das crianças com constipação funcional e uma associação forte entre disfunção do trato urinário inferior e TDAH (razão de chances de 2,99). E em «Infecção urinária na criança», nesta apostila, de três a cinco em cada dez crianças já chegam à primeira infecção urinária com disfunção vesical e intestinal, o principal fator modificável de recorrência.

A régua brasileira é curta, e é bom saber disso antes de procurar protocolo. O Ministério da Saúde não tem protocolo clínico sobre enurese nem sobre disfunção miccional da criança: o PCDT da Incontinência Urinária não Neurogênica, de 2020, é escrito para maiores de 18 anos e exclui a criança expressamente. O documento brasileiro em uso é o guia de uropediatria da SBU com a SBP, de 2020, ao lado das duas referências internacionais, a ICCS de 2020 e a EAU de 2026. O que o sistema público garante vem de documentos que não foram escritos para a enurese: a Rename 2024, que tem a desmopressina em comprimido no Componente Especializado, dispensada pelo PCDT do Diabete Insípido (2025) e não para molhar a cama, e não tem oxibutinina nem imipramina; e protocolos estaduais de regulação, como o protocolo gaúcho do TelessaúdeRS-UFRGS, de 2020, que dizem quando e para onde encaminhar. Quando este capítulo prescreve, diz também quem paga.

04

Por que acontece o que acontece

A criança molha a cama quando três coisas coincidem durante o sono: a bexiga enche até o limite, porque chega mais urina do que ela comporta, e a criança não acorda com o aviso. A ICCS resume a enurese como um descompasso entre a produção noturna de urina, a capacidade da bexiga à noite e a capacidade de despertar; o guia brasileiro desenha o mesmo esquema, e o desenho ensina uma coisa que a família raramente sabe. Produzir muita urina à noite, sozinho, não molha ninguém: a criança que acorda com a bexiga cheia levanta e urina, e isso tem outro nome, noctúria. O que transforma bexiga cheia em cama molhada é o despertar que não acontece, e por isso a EAU chama o limiar de despertar alto de fator condicional. Sobre esse fundo comum, cada criança soma a sua parcela de urina demais, de bexiga pequena ou das duas — e é essa parcela que o tratamento mira.

A primeira parcela é a poliúria noturna. Numa criança sem enurese, a produção de urina à noite cai para cerca de metade da diurna, porque o hormônio antidiurético sobe no sono. Pelo guia brasileiro, cerca de um terço das crianças com enurese monossintomática perde esse ritmo e produz, à noite, mais do que a bexiga guarda; nelas a perda costuma vir no primeiro terço da noite, nas duas primeiras horas, que são o sono mais profundo — a mancha antes da meia-noite de Tito. Nem toda poliúria noturna é falta de hormônio: há um subgrupo com diurese de solutos, que não seca com desmopressina, e a ICCS lembra que jantar muito salgado ou muito proteico pode estar por trás de uma resposta ruim ao remédio. A desmopressina, análogo sintético da vasopressina, trabalha exatamente nesta parcela: diminui a urina da noite até um volume que a bexiga consiga segurar.

A segunda parcela é a bexiga que guarda pouco à noite. Não é uma bexiga anatomicamente pequena: é uma redução funcional da capacidade, em geral por contrações involuntárias do detrusor durante o sono. O guia brasileiro dá a pista clínica — várias perdas na mesma noite, com ou sem a criança acordar durante ou depois delas — e a ICCS liga essa parcela à enurese não monossintomática, em que a criança também tem urgência ou perdas de dia. Aqui a desmopressina ajuda menos, e o alarme e, no especialista, o anticolinérgico entram como opções. O modo de ação do alarme continua em debate: o guia brasileiro diz que ele condiciona o despertar com a bexiga cheia, e a EAU, que ele baixa o limiar de despertar à custa de acordar a criança toda vez que ela se molha.

A terceira peça, o sono, explica por que a mãe de Tito jura que o filho “dorme feito pedra”. A criança com enurese tem limiar de despertar elevado em todos os estágios do sono, e ainda assim dorme mal: a ICCS e a EAU registram um sono de pior qualidade, com microestrutura perturbada. A apneia obstrutiva entra por dois caminhos, pela ICCS: o esforço respiratório repetido deixa a criança paradoxalmente mais difícil de acordar, e a pressão intratorácica muito negativa aumenta a secreção do peptídeo natriurético atrial, que aumenta a urina. Por isso ronco alto e pausas respiratórias entram na história de toda criança que molha a cama — sem que isso transforme a adenotonsilectomia em tratamento de enurese, o que se discute adiante.

A capacidade vesical esperada é a régua que separa essas parcelas em números. A ICCS a escreve como idade em anos multiplicada por 30, mais 30 mililitros; o guia brasileiro e a EAU, como idade mais um, vezes 30 — é a mesma conta, e vale até o início da adolescência, quando a bexiga chega aos 400 mL do adulto. Para Tito, 8 × 30 + 30 = 270 mL. Duas medidas do diário se leem contra esse número. A produção noturna de uma noite molhada, estimada pelo peso da fralda somado à primeira urina da manhã, é poliúria quando chega a 130% da capacidade esperada, 351 mL para ele. O maior volume urinado de dia fala da capacidade funcional, e a ICCS o considera reduzido abaixo de 65% a 70% da esperada, entre 176 e 189 mL para Tito. É dessa leitura que sai a escolha do primeiro tratamento na estratégia guiada pelo diário.

De dia, a mesma bexiga pode falhar de outros jeitos, e o guia brasileiro e a EAU os separam pela fase. Na fase de enchimento, a bexiga hiperativa: contrações involuntárias que dão urgência, aumentam a frequência e, às vezes, fazem perder urina; a criança aprende a apertar o esfíncter e o assoalho pélvico para não se molhar — cruza as pernas, fica na ponta dos pés, agacha sentando no calcanhar. O guia brasileiro descreve o que isso produz: esfíncter contraído contra um detrusor que contrai, uma obstrução funcional com pressão vesical alta. Quem adia a micção por hábito, brincando até o último minuto, chega ao mesmo lugar por outro caminho. Na fase de esvaziamento, a micção disfuncional, em que o assoalho pélvico contrai durante a própria micção e o jato sai em staccato ou interrompido, e a bexiga hipoativa, que esvazia mal, com esforço e resíduo.

Pressão alta e resíduo são o elo com a infecção. A EAU registra que a disfunção do trato urinário inferior pesa mais na ocorrência de infecção urinária do que o próprio refluxo vesicoureteral, que as infecções de repetição costumam desaparecer quando a micção disfuncional é tratada e que o refluxo pode regredir junto. O intestino fecha o circuito. O reto cheio comprime a bexiga, a constipação se associa a capacidade vesical menor e a hiperatividade do detrusor, e o guia brasileiro afirma que tratar a constipação reduz de forma significativa a infecção urinária recorrente, melhora a hiperatividade e a incontinência e diminui o resíduo. É esse conjunto — bexiga que falha de dia, intestino preso e, com frequência, infecção — que se chama disfunção vesical e intestinal, e é por ele que a EAU manda tratar primeiro o intestino.

A enurese secundária, a da criança que ficou seca por pelo menos seis meses e voltou a se molhar, tem as mesmas peças e alguns motores próprios. A poliúria osmótica do diabetes tipo 1 enche a bexiga de glicose e água; a do diabetes insípido, só de água; a infecção urinária irrita a bexiga; a constipação que se instalou, a apneia que piorou e alguns medicamentos — o guia brasileiro cita o início de anticonvulsivante, o ácido valproico, a clozapina e os inibidores seletivos da recaptação de serotonina — mudam o equilíbrio. Eventos estressantes, como separação dos pais, nascimento de um irmão, mudança de escola ou bullying, podem precipitar a volta em quem é predisposto, e a enurese de reinstalação é um dos sinais indiretos de violência sexual. O que a evidência não sustenta é o inverso: problema psicológico não é causa de enurese primária. A seta, na maior parte das vezes, aponta para o outro lado — é a cama molhada que machuca a autoestima.

05

Como se apresenta de verdade

Este capítulo é dono da enurese da criança e do adolescente pelas definições da ICCS — primária e secundária, monossintomática e não monossintomática —, da avaliação que classifica sem exagerar, do tratamento com orientação, alarme e desmopressina, e do manejo detalhado da disfunção vesical e intestinal: as condições diurnas do trato urinário inferior, a uroterapia e o encaminhamento da bexiga que não responde. Com isso cumpre a remissão de «Infecção urinária na criança», nesta apostila, que fica com o diagnóstico e o tratamento da infecção, a investigação das malformações e do refluxo e a bexiga neurogênica. Assume também a enurese como queixa própria, com a investigação da criança que nunca deixou de molhar a cama, que «A virose que respirava rápido», de Endocrinologia Pediátrica, deixou para cá; lá permanece a regra de que a enurese que volta depois de meses seca, com sede ou emagrecimento, pede glicemia capilar no mesmo dia. De «A cueca manchada e a dor das segundas-feiras», de Gastroenterologia Pediátrica, este capítulo recebe a metade urinária da disfunção vesical e intestinal e deixa lá a metade intestinal: os critérios de Roma IV, a desimpactação e os laxantes com suas doses. Cede o reconhecimento e o encaminhamento da apneia obstrutiva do sono da criança a «A noite que ninguém examina», de Pneumologia; a violência sexual e o castigo físico, com a notificação e a comunicação ao Conselho Tutelar, a «Violência e maus-tratos infantis», de Emergências Pediátricas; e o diabetes insípido, a poliúria que não é enurese, a «O cortisol vem antes», de Endocrinologia.

A cama molhada e nada de dia: a enurese monossintomática

Pela ICCS, toda criança de 5 anos ou mais que perde urina dormindo tem enurese, qualquer que seja a causa e sem frequência mínima; o protocolo gaúcho de regulação usa a mesma idade. Antes dos 5 anos a cama molhada é desenvolvimento, e a EAU manda não tratar: informar a família de que a perda é involuntária, de que a resolução espontânea é alta e de que castigo não ajuda. Pelo TelessaúdeRS, o controle vesical chega a 70% das crianças aos 3 anos e a 90% aos 4, e a continência de dia e de noite costuma se completar entre 5 e 7. A enurese é primária quando a criança nunca teve um período seco de pelo menos seis meses, como Tito. A criança que acorda à noite para urinar e vai ao banheiro não tem enurese: tem noctúria, que é outra conversa.

O retrato da enurese monossintomática é o de Tito: uma criança que molha a cama e mais nada. Urina de quatro a sete vezes por dia, não tem urgência, não perde urina de dia, não faz manobra para segurar, tem jato contínuo e intestino regular. A mãe descreve um sono pesado — “pode cair a casa” —, uma mancha grande e, com frequência, a hora: a perda no começo da noite sugere produção noturna alta; várias perdas na mesma noite sugerem bexiga que guarda pouco. Muitas vezes há um pai, uma mãe ou um tio que também molhou a cama. O exame é normal, e a curva da caderneta segue a sua linha.

A dificuldade é que monossintomática é um diagnóstico de exclusão feito com a família, e a família conta mal o dia. O guia brasileiro descreve a cena: os pais não relatam os sintomas diurnos porque não os conhecem ou os acham normais, e atribuem a urgência à preguiça da criança que brinca até o último minuto, que não vai ao banheiro antes de sair de casa, que sempre pede para parar no caminho. A pergunta aberta — “ele tem algum problema de xixi de dia?” — recebe um não. As perguntas fechadas, uma a uma, e o diário de dois dias mudam a classificação de uma parte dessas crianças, e mudam o tratamento com ela.

Quando tratar é decisão que se toma com a criança. A ICCS situa aos 6 anos a idade em que a criança costuma precisar de orientação e tratamento ativo, e avisa que o limite não é absoluto: há crianças muito incomodadas aos 5 e outras que convivem sem sofrimento aos 7. O guia brasileiro diz que abaixo dos 6 anos o tratamento raramente é necessário e que acima dos 10 ele é urgente, pela qualidade de vida e pela ansiedade. As duas regras cabem na mesma consulta: dos 5 aos 6, explica-se e trata-se quem sofre; a partir dos 6, oferece-se tratamento a todos; depois dos 10, não se espera mais.

Quando o dia também falha: a enurese não monossintomática

A enurese é não monossintomática quando, além da noite, a criança tem algum sintoma diurno do trato urinário inferior. A ICCS lista quatro: incontinência de dia, urgência — a vontade súbita, inesperada e imperiosa de urinar —, dificuldade para urinar, com jato fraco, hesitação ou esforço, e frequência anormal, menos de quatro ou mais de sete micções por dia. O guia brasileiro acrescenta os que a criança mais velha consegue contar e os que a família vê: manobras de contenção, sensação de esvaziamento incompleto, gotejamento depois de urinar e dor genital ou no baixo ventre. Urgência e manobras de contenção só têm esse peso a partir dos 5 anos.

Modelos articulados demonstram agachamento sobre o calcanhar e pernas cruzadas.
Modelos ilustram posturas de contenção urinária. A postura isolada não confirma um distúrbio. Quando urgência ou outros sintomas urinários diurnos acompanham a enurese, investigar a forma não monossintomática.

A separação importa porque muda a doença de base e muda a ordem do tratamento. Na não monossintomática, a ICCS supõe contrações involuntárias do detrusor como mecanismo provável, e comorbidade somática ou psiquiátrica é mais frequente: constipação, que deve ser tratada à menor suspeita, e problemas de comportamento que às vezes pedem psicólogo para que a criança consiga seguir as orientações. O consenso, reconhecido pela ICCS como de evidência fraca, é tratar os sintomas diurnos incômodos antes da enurese — e o guia brasileiro inclui o intestino nessa frente. Mas a ICCS também diz que não há razão, apoiada em evidência, para adiar o tratamento da noite na criança cujos sintomas diurnos são leves e não preocupam a família: alguma urgência, perdas mínimas, frequência um pouco fora da faixa.

Os sintomas diurnos se perguntam um a um e, sempre que possível, à criança. Quantas vezes você faz xixi na escola? Você chega a correr para o banheiro? Já aconteceu de molhar a calcinha ou a cueca antes de chegar? Você sente que ficou xixi dentro depois que terminou? Precisa fazer força para sair? E se observa: a criança que cruza as pernas na sala de espera, que pula de um pé para o outro enquanto a mãe conta a história, que agacha no chão sentando no calcanhar, está mostrando a urgência que a família chama de mania. O guia brasileiro chama esta última de manobra de Vincent e pede que o pediatra não a interprete como normal.

As condições diurnas, uma a uma

A bexiga hiperativa é a condição diurna mais comum da criança, com pico entre 5 e 7 anos pela EAU: urgência, frequência aumentada e, às vezes, perda antes de chegar ao banheiro, com as manobras de contenção como assinatura. O guia brasileiro chama a atenção para um disfarce frequente: a criança passa a beber pouco para perder menos, e a família não conta a urgência espontaneamente. Obesidade, infecção urinária prévia, enurese, história familiar e sintomas intestinais são fatores de risco listados pela EAU. O adiamento da micção é o da criança que segura por hábito ou por não querer interromper o que está fazendo: urina poucas vezes, chega ao banheiro com a bexiga cheia e urgente, e costuma ter comorbidade psicológica ou de comportamento.

A bexiga hipoativa, que o guia brasileiro lembra que já foi chamada de preguiçosa, é a da criança que urina pouquíssimas vezes, às vezes fica até doze horas sem urinar, não sente vontade e precisa de força abdominal para começar, manter ou terminar o jato; a bexiga é grande e sobra resíduo, e infecção, constipação e perda por transbordamento são comuns. A micção disfuncional é a da fase de esvaziamento: o assoalho pélvico contrai durante a própria micção, o jato sai em staccato ou em frações, a pressão vesical sobe e sobra urina. Pelo guia brasileiro, a confirmação pede urofluxometria e medida do resíduo, a bexiga pode aparecer trabeculada, e lesão do trato urinário superior e refluxo estão presentes em até metade dos casos — e o tratamento padrão, pelo mesmo guia, é o biofeedback, que é de serviço especializado.

Três condições têm cara própria e tratamento próprio. A incontinência do riso é a perda súbita e involuntária de urina desencadeada pela risada, de causa não esclarecida e, pelo guia brasileiro, difícil de tratar. O refluxo vaginal é o da menina pré-púbere que perde uma quantidade moderada de urina nos minutos seguintes à micção, sem outro sintoma, porque urina com as coxas fechadas e a urina fica retida no intróito; pode vir com sinéquia de pequenos lábios, e o tratamento é mudar a postura — afastar as pernas e inclinar o tronco para a frente. A frequência urinária diurna extraordinária é a do pré-escolar saudável que passa a urinar a cada 10 a 20 minutos, sem perda e sem infecção, em geral depois de um evento estressante; some durante o sono e costuma resolver sozinha — se persistir por meses, trata-se como bexiga hiperativa, e o guia brasileiro recomenda triagem com psicólogo.

Quando qualquer dessas condições convive com constipação ou escape fecal, o nome é disfunção vesical e intestinal — o termo que a ICCS e a EAU usam para as alterações simultâneas da bexiga e do intestino. Pelo guia brasileiro, na ausência de sintoma intestinal basta falar em disfunção do trato urinário inferior; mas toda criança com disfunção do trato urinário inferior deve ser investigada para constipação, e toda criança constipada deve ser perguntada pela urina. É essa pergunta cruzada que «A cueca manchada e a dor das segundas-feiras» faz do lado do intestino e que este capítulo faz do lado da bexiga.

A criança que voltou a molhar: a enurese secundária

A enurese é secundária quando a criança ficou seca por pelo menos seis meses e voltou a se molhar. A ICCS considera essa divisão clinicamente menos importante do que a separação entre mono e não monossintomática, e o tratamento que ela descreve não muda por ela; mas ela é decisiva para o que se pergunta e se colhe no primeiro dia. A enurese secundária de início recente é um dos sinais de alerta da ICCS, com glicose na urina e exame físico, e é a situação em que a fita urinária deixa de ser opcional.

A primeira pergunta é pela sede. Criança que passou a beber água de madrugada, a pedir para sair da sala, a esvaziar a garrafinha, que emagreceu ou cujo uniforme ficou largo, e que voltou a molhar a cama, tem poliúria até prova em contrário, e a conduta é a de «A virose que respirava rápido»: glicemia capilar no mesmo dia, no posto, antes de a família ir embora. Com glicemia normal e poliúria real de dia e de noite, a pergunta seguinte é o diabetes insípido, cuja investigação está em «O cortisol vem antes»; o PCDT do Diabete Insípido, de 2025, chama de poliúria, acima dos 2 anos, a diurese acima de 50 mL/kg/dia — 1.300 mL por dia para uma criança de 26 kg.

As outras perguntas do mesmo dia são curtas. Disúria, febre, dor no baixo ventre e urgência nova apontam infecção, cujo diagnóstico está em «Infecção urinária na criança». Intestino que prendeu, escape fecal que apareceu: constipação. Ronco que piorou, pausas na respiração, sonolência de dia: apneia. Remédio novo: o guia brasileiro cita o início de anticonvulsivante, o ácido valproico, a clozapina e os inibidores seletivos da recaptação de serotonina. E a vida: separação dos pais, nascimento de irmão, mudança de casa ou de escola, morte de alguém próximo, bullying — o guia brasileiro e o protocolo gaúcho listam esses eventos, e o protocolo põe a identificação e o manejo deles entre as intervenções de primeira escolha.

A última pergunta é a mais difícil de fazer e não pode faltar. «Violência e maus-tratos infantis» põe a enurese e a encoprese que reaparecem na lista dos sinais indiretos de violência sexual, e o peso delas cresce quando chegam com mudança brusca de comportamento, dor ou sangramento genital ou anal, infecção urinária de repetição, comportamento sexualizado incompatível com a idade ou recusa súbita de ficar com determinada pessoa. A condução do caso, a notificação e a proteção pertencem àquele capítulo; a este cabem duas obrigações. A primeira é não fechar o diagnóstico de enurese secundária sem ter pensado nisso. A segunda, que «A cueca manchada e a dor das segundas-feiras» também registra, é não fazer toque retal na consulta de uma criança com suspeita de violência sexual: a avaliação é multiprofissional.

Afastadas as causas, a enurese secundária sem explicação é tratada como a primária, pela mesma classificação entre mono e não monossintomática. O protocolo de regulação do Rio Grande do Sul tem uma regra própria para ela: depois de três meses de tratamento conservador na atenção primária sem melhora, encaminha-se à psiquiatria pediátrica. É uma regra de regulação daquele estado e vale onde ela vale; o que ela ensina a qualquer interno é que a criança que voltou a se molhar e não melhora merece que alguém olhe para o que está acontecendo na vida dela.

O que parece enurese e não é funcional

Algumas perdas de urina não são funcionais, e o erro é mandá-las para a uroterapia. A incontinência contínua — urina que goteja o tempo todo, de dia e de noite, com micções normais no meio — vem de causa anatômica ou neurológica: ureter ectópico, extrofia de bexiga, lesão do esfíncter, mielomeningocele. A criança que “vive úmida” desde sempre, entre micções que parecem normais, tem de ser pensada como incontinência contínua, e o destino é a urologia pediátrica, não o diário. O jato fraco e a necessidade de fazer força para urinar são sinais de alerta da ICCS: pedem exame, urofluxo e medida de resíduo, e curva patológica ou resíduo em medidas repetidas mandam afastar obstrução anatômica e bexiga neurogênica; o encaminhamento pelo jato fraco também está nos critérios de «Infecção urinária na criança».

A coluna fala. Fosseta ou tufo de pelos na região lombossacra, mancha, hemangioma, assimetria das pregas glúteas ou do sulco interglúteo, pernas ou pés assimétricos, alteração da força, da sensibilidade ou dos reflexos nas pernas, marcha diferente: são pistas de disrafismo oculto e de bexiga neurogênica, que a ICCS manda procurar no exame da criança com dúvida. A bexiga neurogênica é assunto de «Infecção urinária na criança»; aqui fica o reconhecimento na criança que chegou pela queixa de enurese, e o encaminhamento: a EAU situa a ressonância da coluna lombossacra na suspeita de doença neurológica, e a urodinâmica na falha do tratamento.

O crescimento também fala. Perda de peso, curva que parou de subir e náusea, numa criança que molha a cama, são sinais de alerta da ICCS: pedem creatinina e glicose na urina, porque a ICCS lembra que a insuficiência renal pode chegar como poliúria. A curva se lê pela caderneta, como ensina «A linha, não o ponto», de Puericultura e Desenvolvimento. E a criança com atraso do desenvolvimento neuropsicomotor que perde urina é encaminhada, pelo protocolo gaúcho, à neurologia pediátrica.

Por fim, a criança com uropatia conhecida — refluxo de alto grau, válvula de uretra posterior, hidronefrose, bexiga neurogênica — que molha a cama não está no quadro funcional deste capítulo. Ela já tem seguimento, e a perda de urina entra na conversa com quem a acompanha, pelo caminho de «Infecção urinária na criança».

O que a cama molhada faz com a criança e com a casa

A ICCS é explícita: enurese não é condição trivial. Sem tratamento, pode resultar em autoestima baixa, em evitar acampamento e dormir fora de casa e em estresse dos pais; há dados que ligam a enurese a sono cronicamente perturbado, e o tratamento, ao melhorar o sono, pode melhorar o comportamento e a função executiva de dia. A EAU acrescenta o que a criança sente — vergonha, ansiedade de separação e medo de abandono foram descritos já aos 6 anos, e a atitude dos pais contribui para esses problemas — e o que acontece em casa: estresse parental maior do que o de pais de crianças sem enurese e raiva como a reação mais comum. É nesse terreno que nascem o castigo e a humilhação, e é por isso que a primeira frase de qualquer consulta de enurese é que a criança não tem culpa.

O castigo tem uma fronteira clara. Tirar o videogame, como fez o pai de Tito, é um erro de estratégia que esta consulta tem de desfazer; castigo físico é outra coisa. O art. 13 do Estatuto da Criança e do Adolescente torna obrigatória a comunicação ao Conselho Tutelar dos casos de suspeita ou confirmação de castigo físico, e o como se faz está em «Violência e maus-tratos infantis». A EAU recomenda encaminhar a criança e a família a apoio psicológico, com seguimento, quando há punição, sofrimento parental importante, TDAH, dificuldade de aprendizagem ou problemas familiares.

Na escola, a enurese aparece como o passeio evitado, a festa do pijama recusada e o apelido. A incontinência diurna aparece antes: a criança que não usa o banheiro da escola porque é sujo, porque não pode sair da sala ou porque tem vergonha, e que chega em casa com a roupa molhada ou segura até doer. A orientação, então, é também para a escola, com a autorização da família: liberar o banheiro, deixar a garrafinha na carteira, não expor a criança.

O adolescente com enurese é a exceção que mais sofre e o que menos conta. Entre 1% e 3% dos adolescentes ainda molham a cama; o guia brasileiro manda tratar com urgência depois dos 10 anos, e a EAU registra que a perda de urina diurna na adolescência se associou a mais problemas de saúde mental aos 18 anos. Com ele, a consulta tem um momento sem os pais, a conversa é sobre o que ele quer — dormir fora, viajar, namorar — e o tratamento é negociado com ele, não imposto por cima.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação da criança que molha a cama é quase toda feita de conversa, de exame e de um diário preenchido em casa. A ICCS diz que a história é a parte mais importante da avaliação e, às vezes, a única necessária; o guia brasileiro diz que o diário miccional é o único exame que deve ser pedido de rotina. O resto — urina, imagem, fluxo, sangue — tem indicação precisa, e fora dela não só custa como atrapalha: a urocultura colhida sem motivo acha bacteriúria assintomática, e a bacteriúria tratada vira antibiótico sem doença.

A história que classifica

A ICCS dá dois objetivos à história: descobrir se a criança precisa de avaliação a mais e reunir o necessário para escolher o primeiro tratamento com ela e a família. E dá uma regra de forma que muda a consulta: fale com a criança, não só com os pais, porque o problema é dela e ela precisa participar do tratamento. Tito respondeu à pergunta que a mãe não sabia responder — o passeio — só porque a pergunta foi feita a ele.

O roteiro da ICCS tem sete partes. Saúde geral: crescimento e desenvolvimento normais, perda de peso, náusea, sede excessiva com necessidade de beber à noite. A enurese: todas as noites ou menos, períodos secos longos no passado. O dia: incontinência, com que frequência e em que momento, urgência, jato fraco ou esforço, manobras de contenção, infecções urinárias prévias. O intestino. O sono: ronco alto e persistente, pausas respiratórias, sonolência de dia. O comportamento: problemas de concentração ou de convívio em casa e na escola, com instrumento de triagem se houver, e o quanto a cama molhada incomoda a criança, e por quê. E os tratamentos já tentados: quais, e por que não funcionaram.

O intestino se pergunta pelos critérios de Roma IV, que a ICCS reproduz e cuja aplicação completa está em «A cueca manchada e a dor das segundas-feiras»: poucas evacuações por semana, retenção, evacuação dolorosa ou endurecida, fezes grossas que entopem o vaso, escape fecal. Cinco dos seis critérios saem só da história; o sexto, a massa fecal no reto, a ICCS manda avaliar apenas quando há dúvida, pelo toque ou pela ultrassonografia. Na criança que molha a cama, a pergunta pelo intestino não é cortesia: a constipação que passou despercebida é das primeiras explicações que a ICCS e o guia brasileiro mandam procurar quando o tratamento não funciona.

O guia brasileiro acrescenta a história social, e ela é parte do diagnóstico. Como os pais lidam com as noites molhadas; se há castigo, e de que tipo; se há suspeita de abuso sexual; que acontecimentos recentes pesaram — separação, mudança de escola ou de cidade, morte de alguém próximo, bullying. Na enurese secundária, essas perguntas se somam às da sede, da infecção, dos remédios e da violência descritas na apresentação. E vale perguntar à família o que ela já faz: acordar a criança de madrugada, cortar a água à tarde, fralda ou forro, castigo, promessa de presente, simpatia. Cada um desses hábitos tem uma resposta na conduta.

O diário, que é o exame

O diário miccional é o exame da enurese, e a família o faz em casa. A ICCS o recomenda para toda criança com enurese e o torna obrigatório quando há qualquer sintoma diurno; o guia brasileiro o chama de único exame de rotina. O formato padrão tem três partes. Nas noites, anota-se por pelo menos uma semana se a criança acordou seca ou molhada. Em dois dias, que não precisam ser seguidos — um sábado e um domingo resolvem para quem estuda —, anota-se cada micção com a hora e o volume medido num copo graduado, cada bebida com a hora, o tipo e a quantidade, cada urgência e cada perda. E, nas mesmas noites, mede-se a produção noturna.

A produção noturna se mede com uma balança de cozinha. Nas noites do diário a criança dorme de fralda ou com um forro descartável; a família pesa a fralda seca à noite e a molhada de manhã, e a diferença em gramas é, na prática, o volume de urina em mililitros. Somam-se a esse número a urina de qualquer micção feita durante a noite e a primeira urina da manhã. A ICCS pede essa medida preferencialmente por uma semana, nas noites molhadas, e a EAU também; é ela que separa a criança com poliúria noturna da criança com bexiga que guarda pouco. Criança em idade escolar costuma não querer fralda, e a ICCS manda que ela tenha voz na escolha entre fralda e forro.

O diário se lê com duas contas. A capacidade vesical esperada é (idade + 1) × 30 mL até o início da adolescência. A produção noturna de uma noite molhada igual ou maior que 130% dela é poliúria noturna. O maior volume urinado de dia, excluída a primeira urina da manhã que vem depois de uma noite molhada, fala da capacidade funcional, e abaixo de 65% a 70% da esperada está reduzido. A ICCS faz uma ressalva que evita um erro comum: o maior volume do dia costuma ser a primeira urina da manhã, e ela só vale como medida de capacidade se a noite anterior foi seca e sem noctúria. Frequência abaixo de quatro ou acima de sete micções por dia, urgência e perdas reclassificam a criança como não monossintomática, qualquer que tenha sido a história.

O diário de Tito voltou assim. Nas sete noites, seis molhadas. Nas quatro noites em que a mãe pesou a fralda, a produção noturna foi de 380, 380, 360 e 400 mL. Nos dois dias, seis micções por dia contando a da manhã, sem urgência e sem perda; o maior volume, às quatro da tarde, foi de 230 mL; o total de urina do dia, sem a noite, ficou perto de 600 mL, e a ingestão perto de 1.050 mL, 400 deles depois das seis da tarde, entre o suco do jantar e a água antes de deitar. As contas: capacidade esperada de 270 mL; poliúria a partir de 351 mL; volume máximo reduzido abaixo de 176 a 189 mL. Tito tem poliúria noturna em todas as noites medidas e capacidade diurna normal, 85% da esperada. A urina de 24 horas, cerca de 980 mL, dá 38 mL/kg/dia para 26 kg — abaixo dos 50 mL/kg/dia que o PCDT do Diabete Insípido chama de poliúria acima dos 2 anos.

O diário faz mais que medir, e a ICCS enumera: mostra a função do rim e da bexiga e as contraindicações ao tratamento, faz a criança prestar atenção na própria bexiga, informa sobre a capacidade da família de seguir orientações e, na criança com sintoma diurno, já é parte do tratamento. A família que não consegue devolver um diário de dois dias está avisando que manter um alarme toda noite, por semanas, vai ser difícil, e é melhor saber disso antes de escolher. Para o seguimento, o guia brasileiro usa um diário mais simples, o calendário de noites secas de 14 noites, repetido a cada retorno.

O exame que procura o que não é funcional

O exame da criança com enurese costuma ser normal, e é justamente por isso que ele se faz inteiro. A ICCS admite conduzir inicialmente sem exame médico a criança sem nenhum sinal de alerta na história; a EAU, de 2026, e o guia brasileiro mandam examinar. Esta apostila adota o exame em toda criança na primeira consulta: a divergência se decide pela data, e o exame leva cinco minutos e é a única forma de ver a coluna que a família nunca olhou.

O roteiro vem dos três documentos. Peso e estatura na caderneta, contra a curva; pressão arterial, que o guia brasileiro inclui. Abdome: fezes palpáveis no trajeto do cólon, bexiga palpável depois de a criança ter urinado. Coluna lombossacra com a criança de pé e deitada de bruços: fosseta, tufo de pelos, mancha, hemangioma, desvio ou assimetria do sulco interglúteo, assimetria das pregas glúteas e das pernas. Membros inferiores: força, sensibilidade, reflexos, e a marcha e a postura, que o guia brasileiro pede. Genitais e pele ao redor, com a família presente e explicando à criança o que se vai olhar: meato, fimose com balanopostite, sinéquia de pequenos lábios, vulvite de roupa sempre úmida. E a roupa íntima, que a EAU manda olhar: molhada ou suja de fezes.

O toque retal não entra no exame de rotina. O guia brasileiro de 2020 inclui exame retal para identificar constipação; a EAU de 2026 não o inclui, e a ICCS diz que a massa fecal no reto só precisa ser avaliada quando há dúvida diagnóstica, pelo toque ou pela ultrassonografia. Esta apostila adota a regra mais nova, que também é a de «A cueca manchada e a dor das segundas-feiras», onde estão a indicação e a contraindicação do toque na criança. Com suspeita de violência sexual, ele não se faz na consulta.

O exame de Tito foi o esperado: 26 kg e 128 cm na mesma linha da caderneta, pressão normal para a idade, abdome sem massa e sem bexiga palpável, coluna sem estigma, pregas simétricas, força e reflexos normais, marcha normal, genitais masculinos típicos sem fimose apertada, cueca seca. Exame normal numa criança com história monossintomática é o que autoriza não pedir nada.

A urina: quando, qual e o que fazer com o resultado

A regra desta apostila é a da ICCS: a urina tipo I, ou a fita reagente, é parte necessária da primeira avaliação quando a enurese é secundária, quando há qualquer sintoma diurno do trato urinário inferior ou quando a história traz um sinal de alerta — sede excessiva, perda de peso, parada do crescimento, náusea, jato fraco. O texto da EAU de 2026 aponta na mesma direção, pedindo exame de urina no início súbito, na suspeita ou história de infecção urinária e na polidipsia inexplicada, e o guia brasileiro diz que a urina e a urocultura podem ser úteis em alguns casos. A recomendação resumida da própria EAU manda fazer exame de urina sem condição nenhuma, e a incoerência com o texto dela está registrada nas notas do critério. Na criança monossintomática primária, sem nenhum desses gatilhos e com exame normal, como Tito, a urina não muda a conduta.

O que se procura na urina são duas coisas. Glicosúria significa, pela ICCS, que o diabetes precisa ser excluído imediatamente — na unidade, é a glicemia capilar no mesmo dia de «A virose que respirava rápido». Leucocitúria ou nitrito positivo levam à urocultura só quando há suspeita clínica de infecção apoiada em sintoma: disúria, febre sem outra explicação, urgência ou incontinência de início recente. A ICCS gradua a probabilidade de uma cistite que precise de tratamento: muito improvável na enurese primária monossintomática, bem possível na enurese secundária não monossintomática recente com disúria.

A bacteriúria assintomática é a armadilha do exame pedido sem motivo. A ICCS lembra que ela é comum em todas as idades, mais comum na criança com disfunção vesical, benigna e sem indicação de antibiótico, e que deve ser suspeitada em toda urocultura positiva de criança sem febre inexplicada e sem sintoma diurno de começo recente. A criança com disfunção vesical e intestinal que coleciona uroculturas positivas colhidas por rotina e ciclos de antibiótico sem febre está sendo tratada pelo exame, não pela doença; o diagnóstico e o tratamento da infecção de verdade estão em «Infecção urinária na criança».

Na criança com sede excessiva e necessidade de beber à noite, a ICCS pede glicose na urina, uma lista de ingestão, e considera a creatinina e a osmolalidade da primeira urina da manhã. A densidade da fita não substitui a osmolalidade, mas a urina da manhã sempre diluída numa criança que bebe muito é mais um motivo para medir o volume de 24 horas no diário e, com poliúria confirmada e glicemia normal, seguir para a investigação do diabetes insípido em «O cortisol vem antes». Quando a criança for encaminhada pela regulação do Rio Grande do Sul, o protocolo pede que a guia traga urina tipo I, urocultura, glicemia e creatinina com data, e diz que esses exames não são obrigatórios onde não há o recurso nem impedem o encaminhamento.

Imagem, fluxo e resíduo: para quem

Na enurese monossintomática sem sinal de alerta não se pede imagem. A ICCS diz que a única imagem que pode ter indicação na avaliação inicial é a ultrassonografia de bexiga e reto, para confirmar uma constipação que a família não reconheceu — diâmetro transverso do reto atrás da bexiga acima de 30 mm sugere impactação —, e a EAU reserva urofluxometria e ultrassonografia para a criança com sintoma diurno e cirurgia prévia de uretra ou bexiga.

Na criança com sintoma diurno, a régua brasileira pede mais. O guia de 2020 manda solicitar ultrassonografia e urofluxometria na enurese não monossintomática e, feito o diagnóstico de disfunção do trato urinário inferior, ultrassonografia de rins e vias urinárias com resíduo pós-miccional. O laudo responde três perguntas: se há dilatação do trato urinário, se a parede vesical está espessada — idealmente abaixo de 3 mm — e quanto sobra na bexiga depois de a criança urinar. O resíduo é considerado anormal acima de 10% da capacidade esperada, e o guia manda encaminhar imediatamente ao especialista a criança com resíduo acima de 10% da capacidade esperada ou acima de 20 mL; abaixo disso, as orientações começam na atenção primária. Para uma criança de 7 anos, 10% de 240 mL são 24 mL, e o limite que vale na prática é o de 20 mL, que chega antes.

A urofluxometria mede o jato numa cadeira sanitária ligada a um sensor e exige equipamento de serviço especializado. A forma da curva orienta: em sino é normal; em torre, com pico rápido, sugere bexiga hiperativa; em staccato, micção disfuncional; interrompida, micção disfuncional pela EAU e bexiga hipoativa pelo guia brasileiro; achatada, obstrução anatômica ou incoordenação. O guia brasileiro exige volume urinado mínimo de 50 mL para interpretar, e a EAU, pelo menos metade da capacidade esperada, com a criança com vontade de urinar e mais de uma medida, porque um exame isolado pode enganar. Na enurese que não respondeu ao alarme nem à desmopressina, a ICCS também manda fazer urofluxometria com medida de resíduo, porque curva patológica ou resíduo repetido obrigam a afastar obstrução e bexiga neurogênica e contraindicam o anticolinérgico.

A urodinâmica invasiva e a ressonância da coluna são decisões de especialista. O guia brasileiro reserva a urodinâmica para a falha terapêutica, porque ela é invasiva e desnecessária na maioria dos casos; a EAU a considera na disfunção que não responde e usa a ressonância lombossacra quando há suspeita de doença neurológica. A uretrocistografia miccional não é exame de enurese: a EAU a coloca na criança com infecção urinária de repetição e micção disfuncional, para avaliar o trato superior, e as indicações dela estão em «Infecção urinária na criança».

O que não se pede, e o que a rede tem

A lista do que não se pede na enurese monossintomática é longa, e cada item tem uma frase de fonte. Sangue: pela ICCS, só com glicosúria ou com sinal de alerta de insuficiência renal poliúrica. Urodinâmica: não é necessária sem dificuldade para urinar, e a resistência ao tratamento, por si só, não indica sangue, radiologia nem urodinâmica invasiva. Ultrassonografia: só nas situações da seção anterior. Ressonância funcional do cérebro, que aparece em pesquisas sobre enurese: a EAU diz que ela não tem indicação clínica. Urocultura sem sintoma: acha bacteriúria assintomática.

Dois exames que a família às vezes traz pedidos por outra porta pertencem a outros capítulos. A polissonografia é da criança com suspeita de apneia obstrutiva, e o reconhecimento e o encaminhamento estão em «A noite que ninguém examina»; a EAU manda considerar o otorrinolaringologista diante de ronco habitual, apneias, sudorese noturna excessiva e respiração oral. A dosagem de hormônios e o teste de restrição hídrica são da investigação do diabetes insípido, em «O cortisol vem antes».

O que a rede tem, e o que isso permite prometer à família: a fita reagente e a urocultura estão em toda a rede, e a ultrassonografia de rins e vias urinárias costuma sair em semanas, como descreve «Infecção urinária na criança». A urofluxometria e a urodinâmica são exames de serviço especializado. A glicemia capilar se faz no posto, na hora. Para Tito, nada disso foi necessário: a história, o exame e o diário responderam às três perguntas da cena, e a primeira receita saiu sem um único exame.

Diário miccional com pesos de fraldas, soma da primeira urina e capacidade esperada.
Exemplo fictício: 275 g menos 35 g corresponde aproximadamente a 240 mL; com 140 mL da primeira micção, totalizam 380 mL. Aos 8 anos, a capacidade esperada usada é 270 mL e 130% equivale a 351 mL. Interpretar vários registros com a história e sem restringir líquidos para alterar o diário.
07

Da cama molhada ao plano: classificar, pedir pouco, escolher o primeiro tratamento e saber quando encaminhar

Os passos abaixo estão na sequência em que cada decisão chega à mesa: primeira consulta, diário, retornos. As tabelas dão a classificação que muda a conduta, os achados que tiram a criança do caminho funcional, os cortes do diário e da ultrassonografia por idade, e as doses com a apresentação que existe e quem a fornece. Nas notas ficam os defeitos de fonte capazes de mudar a conduta de quem os lê.

  1. 11. Criança de 5 anos ou mais que perde urina dormindo tem enurese, sem frequência mínima. Abaixo dos 5, explique que é involuntário e comum, desfaça o castigo e não trate.
  2. 22. Pergunte pelo dia, um sintoma de cada vez e à criança: incontinência, urgência, jato fraco ou esforço, manobras de contenção, menos de 4 ou mais de 7 micções por dia. Qualquer um faz a enurese não monossintomática.
  3. 33. Pergunte se ela já ficou seca por 6 meses. Se ficou, é secundária: no mesmo dia, sede e emagrecimento (glicemia capilar), disúria e febre, intestino, ronco, remédio novo, acontecimentos da vida e sinais de violência.
  4. 44. Pergunte pelo intestino pelos critérios de Roma IV, pelo sono, pelo comportamento, pelo que a família já faz — acordar de madrugada, cortar água, castigo — e pelo que a criança quer.
  5. 55. Examine toda criança: curva da caderneta, pressão, abdome, coluna lombossacra, pernas e marcha, genitais, roupa íntima. Sem toque retal de rotina. Qualquer achado da tabela de sinais muda o caminho no mesmo dia.
  6. 66. Urina tipo I ou fita só com gatilho: secundária, sintoma diurno ou sinal de alerta. Glicosúria leva à glicemia capilar na hora; leucocitúria ou nitrito, à urocultura só com sintoma de infecção. Bacteriúria sem sintoma não se trata.
  7. 77. Peça o diário: noites secas e molhadas por uma semana; dois dias de micções medidas, bebidas e perdas; produção noturna pela fralda pesada mais a primeira urina da manhã. Leia pela capacidade esperada, (idade + 1) × 30 mL.
  8. 88. Não monossintomática: trate o intestino primeiro, pelo capítulo da constipação, e comece a uroterapia no mesmo dia. Peça ultrassonografia de rins e vias urinárias com resíduo; resíduo acima de 10% da capacidade esperada ou de 20 mL vai ao especialista já.
  9. 99. Reavalie a não monossintomática em 1 a 2 meses. Dia resolvido: trate a noite como a monossintomática. Dia que persiste com intestino tratado: urologia pediátrica. Sintomas diurnos leves que não incomodam não precisam adiar o tratamento da noite.
  10. 1010. Monossintomática a partir de 6 anos, ou antes se a criança sofre: alarme ou desmopressina. Pelo diário, poliúria noturna com capacidade normal favorece desmopressina e capacidade reduzida sem poliúria favorece alarme; ou a família escolhe, informada.
  11. 1111. Desmopressina: 0,2 mg uma hora antes de deitar, uma hora depois do jantar; líquidos mínimos, no máximo 200 mL no total desde uma hora antes da dose até pelo menos oito horas depois. Julgue em 2 semanas: seca, mantenha; resposta parcial ou nenhuma, 0,4 mg por mais 2 semanas; sem efeito com 0,4 mg, suspenda. Pausa de pelo menos uma semana a cada 3 meses. Suspenda na febre, no vômito e na diarreia.
  12. 1212. Alarme: só com família motivada, aparelho demonstrado, uso toda noite e um adulto que acorda a criança. Contato em 1 a 3 semanas. Sem nenhum sinal de progresso em 6 semanas, troque; com progresso, mantenha até 14 noites secas seguidas.
  13. 1313. Falhou o primeiro tratamento bem feito, ofereça o outro; falharam os dois, considere combiná-los e encaminhe à urologia ou à nefrologia pediátrica, onde se medem fluxo e resíduo e se decidem anticolinérgico e imipramina. O protocolo gaúcho de regulação encaminha a enurese sem sintoma diurno que não melhorou em 3 meses de tratamento na atenção primária.
  14. 1414. Castigo físico, sinais de violência, ronco com pausas e atraso do desenvolvimento têm destino próprio: «Violência e maus-tratos infantis», «A noite que ninguém examina» e neurologia pediátrica. A criança não tem culpa, e isso se diz em toda consulta.

Classificar em uma consulta: o que define e o que muda na conduta

TipoComo se reconheceO que muda na conduta
Primária monossintomáticaNunca ficou seca por 6 meses; só a noite; dia normal na história e no diárioSem urina nem imagem se não há sinal de alerta; orientação; alarme ou desmopressina pelo diário e pela escolha da família
Primária não monossintomáticaNunca ficou seca e tem incontinência de dia, urgência, jato fraco ou esforço, manobras, menos de 4 ou mais de 7 micções por diaUrina tipo I; diário obrigatório; intestino primeiro; uroterapia; ultrassonografia com resíduo; a noite depois do dia
Secundária monossintomáticaSeca por 6 meses ou mais, voltou a molhar; dia normalPerguntas e fita no mesmo dia: sede, peso, infecção, intestino, sono, remédios, acontecimentos, violência; afastadas as causas, segue como a primária
Secundária não monossintomáticaVoltou a molhar e tem sintoma diurnoAs perguntas da secundária somadas às da não monossintomática; é onde a cistite recente é mais provável
Incontinência contínuaGotejamento constante, de dia e de noite, entre micçõesNão é funcional: urologia pediátrica, sem uroterapia antes

Achados que tiram a criança do caminho funcional

AchadoO que pode serO que fazer no mesmo diaPara onde
Sede com necessidade de beber à noite, emagrecimento, urina demais de dia e de noiteDiabetes tipo 1; diabetes insípidoGlicemia capilar e fita urinária; lista de ingestão e volume de 24 horas no diário«A virose que respirava rápido»; com glicemia normal e poliúria, «O cortisol vem antes»
Perda de peso, curva que parou de subir, náuseaInsuficiência renal com poliúria; doença sistêmicaCreatinina e glicose na urina; pressão arterialNefrologia pediátrica
Jato fraco, esforço para urinarObstrução, bexiga neurogênica, micção disfuncionalExame; ultrassonografia com resíduoUrologia pediátrica, para urofluxo e resíduo
Gotejamento contínuo entre micções normaisMalformação, como ureter ectópico, ou lesão do esfíncterExame dos genitaisUrologia pediátrica
Estigma lombossacro, assimetria de pernas, alteração de força, reflexo ou marchaDisrafismo oculto; bexiga neurogênicaExame neurológico dos membros inferiores; ultrassonografia com resíduoUrologia pediátrica; bexiga neurogênica em «Infecção urinária na criança»
Enurese que começou há dias, com disúria ou febreInfecção urináriaUrina tipo I e urocultura«Infecção urinária na criança»
Ronco alto, pausas respiratórias, sonolência de diaApneia obstrutiva do sonoRegistrar o que a família viu e o exame da orofaringe«A noite que ninguém examina», que encaminha à otorrinolaringologia
Enurese ou encoprese de reinstalação com mudança de comportamento, dor ou sangramento genital ou analViolência sexualAcolher, sem toque retal, avaliação multiprofissional«Violência e maus-tratos infantis»
Castigo físico contado pela famíliaViolênciaComunicação ao Conselho Tutelar, obrigatória pelo art. 13 do ECA«Violência e maus-tratos infantis»
Atraso do desenvolvimento neuropsicomotorIncontinência de causa neurológicaRegistrar os marcos na cadernetaNeurologia pediátrica

Os números do diário e da ultrassonografia por idade

IdadeCapacidade vesical esperada, (idade + 1) × 30Poliúria noturna: produção de uma noite molhada a partir de 130%Maior volume diurno reduzido: abaixo de 65% a 70%Resíduo que manda ao especialista já: acima de 10% da capacidade ou de 20 mL
5 anos180 mL234 mL117 a 126 mLacima de 18 mL
6 anos210 mL273 mL137 a 147 mLacima de 20 mL
7 anos240 mL312 mL156 a 168 mLacima de 20 mL
8 anos270 mL351 mL176 a 189 mLacima de 20 mL
9 anos300 mL390 mL195 a 210 mLacima de 20 mL
10 anos330 mL429 mL215 a 231 mLacima de 20 mL
11 anos360 mL468 mL234 a 252 mLacima de 20 mL
12 anos390 mL507 mL254 a 273 mLacima de 20 mL

Doses, apresentação que existe e quem fornece

Fármaco e momentoDose (fixa, não por quilo)Como dar com a apresentação registradaUm frasco de 30 comprimidos duraDe onde vem
Desmopressina, início, a partir de 5 anos0,2 mg uma hora antes de deitar1 comprimido de 0,2 mg, ou 2 de 0,1 mg30 noites com o de 0,2 mg; 15 com o de 0,1 mgRename 2024: Componente Especializado, dispensado pelo PCDT do Diabete Insípido; para enurese, a família compra
Desmopressina, teto na enurese0,4 mg uma hora antes de deitar2 comprimidos de 0,2 mg, ou 4 de 0,1 mg; não há comprimido de 0,4 mg registrado15 noites com o de 0,2 mg; 7 a 8 com o de 0,1 mgIdem
Desmopressina spray nasalNão se usa na enureseA EAU deixou de recomendá-lo pelo risco de superdoseRename 2024 lista 0,1 mg/mL no Especializado, para o diabetes insípido
Oxibutinina, segunda linha, só pelo especialista, com resíduo normal e intestino tratado2,5 a 5 mg uma hora antes de deitar (ICCS)Meio comprimido de 5 mg ou 2,5 mL da solução de 1 mg/mL; 1 comprimido ou 5 mLNão consta da Rename 2024: a família compra
Imipramina, terceira linha, só pelo especialista25 a 50 mg uma hora antes de deitar; a maior acima de 9 anos (ICCS)Guardada trancada; avaliação eletrocardiográfica prolongada antes se houver síncope, palpitação ou morte súbita na famíliaNão consta da Rename 2024

Diário preenchido — exemplo didático de Tito, 8 anos

RegistroVolume/achadoLeitura
Sábado: micções às 8h, 11h, 14h, 17h e 20h30Primeira urina: 120 mL; demais: 160, 230, 180 e 190 mL; sem urgência/perdasCinco micções; maior volume diurno, excluindo a primeira da manhã: 230 mL.
Sábado: bebidas registradas junto do horário8h: 200 mL; 10h: 200 mL; 12h: 250 mL; 15h: 200 mL; 18h: 250 mL; 20h: 150 mLExemplo de registro, não prescrição de ingestão. Colher o diário antes de mudar artificialmente os hábitos.
Noite de sábado para domingoFralda seca: 35 g; molhada: 275 g; diferença: 240 g; primeira urina de domingo: 140 mLProdução noturna estimada: 240 + 140 = 380 mL; somar eventuais micções noturnas medidas.
Capacidade esperada aos 8 anos(8 + 1) × 30 = 270 mL; 130% = 351 mL380 mL ultrapassa o limiar de poliúria noturna. Volume diurno de 230 mL é 85% do esperado.
Calendário de sete noitesSeg molhada; ter molhada; qua seca; qui molhada; sex molhada; sáb molhada; dom molhadaSeis noites molhadas. Repetir medidas em mais noites e discutir impacto para a criança.

Escolher com a criança e a família

OpçãoQuando pode se ajustar à rotinaCombinar antes de começar
AlarmeFamília disponível para ajudar a despertar e disposta a um treino por semanasDemonstrar montagem, testar sensor, definir adulto responsável, apoiar a criança sem culpa; contato nas primeiras semanas.
Desmopressina oralNecessidade de controle em ocasiões específicas ou preferência por medicamento; diário pode mostrar poliúria noturnaConferir apresentação e dose, janela de líquidos e noites sem medicação; explicar recaída após suspensão.
Adiar tratamento ativoCriança pouco incomodada e família prefere observar, sem sinais de alertaEducação, intestino e hábitos saudáveis; oferecer nova conversa se impacto ou preferência mudar.

Desmopressina acima do teto e comprimido que não existe. O guia Uropediatria da SBU com a SBP (2020, capítulo 6, p. 124) diz que a via disponível no Brasil é oral, com comprimidos de 0,1, 0,2 e 0,4 mg, e manda aumentar a dose até 0,6 mg se não houver melhora, com tratamento inicial de até seis semanas. A bula do DDAVP aprovada pela Anvisa em 29/02/2024 registra só comprimidos de 0,1 e 0,2 mg — é também o que a Rename 2024 lista — e fixa, na enurese, 0,2 mg com aumento possível até 0,4 mg, suspendendo o remédio se não houver efeito em quatro semanas com o ajuste; a ICCS (2020) e a EAU (2026) dão 0,2 a 0,4 mg. Conta: 0,6 mg são três comprimidos de 0,2 mg, 150% do teto da bula; e “1 comprimido de 0,4 mg” é prescrição de uma apresentação sem registro, que a família não encontra na farmácia. Esta apostila usa 0,2 mg com teto de 0,4 mg, dados como dois comprimidos de 0,2 mg.

Teto da oxibutinina que se desfaz na mesma frase. O mesmo guia (capítulo 7, p. 146) dá a oxibutinina de ação curta a 0,2 a 0,6 mg/kg/dia, com dose máxima de 15 mg/dia, e na continuação da frase diz que a dose pode ser estendida até o efeito colateral. Conta: 0,6 mg/kg/dia passa dos 15 mg/dia acima de 25 kg — 26 kg × 0,6 = 15,6 mg; 30 kg × 0,6 = 18 mg —, e a oração seguinte retira o teto que a anterior pôs. A oxibutinina não consta da Rename 2024 e, neste capítulo, é decisão do especialista; na enurese, a dose da ICCS é 2,5 a 5 mg à noite.

Definição que exclui parte da própria escala. O mesmo guia define enurese como perda intermitente de urina durante o sono “pelo menos 2 vezes por semana” (capítulo 6, p. 114) e, no mesmo parágrafo, chama de infrequente a enurese de 1 a 2 vezes por semana. Conta: a criança que molha a cama uma noite por semana tem enurese infrequente pela escala e não tem enurese pela definição. A ICCS (2020) e o protocolo do TelessaúdeRS (2020) definem sem frequência mínima; esta apostila usa essa definição, e a frequência entra na escolha do tratamento, não no diagnóstico.

Exame de urina: o texto de um lado, a recomendação do outro. A diretriz da EAU (2026, item 14.2) indica exame de urina quando a enurese começou de repente, quando há suspeita ou história de infecção urinária e na polidipsia inexplicada; a recomendação forte do resumo do mesmo capítulo (14.4) manda fazer exame de urina para excluir infecção ou causas como o diabetes insípido, sem condição. Conta: a criança de 7 anos com enurese primária monossintomática, sem infecção e sem sede, não colhe urina pelo texto e colhe pela recomendação. Esta apostila segue o texto, que coincide com a ICCS (2020) e com o guia brasileiro.

Duração do alarme atribuída a quem não a escreveu. A EAU (2026, item 14.3.2) diz que a duração recomendada do alarme segue incerta e varia de 8 a 12 semanas, atribuindo esse intervalo à ICCS, até 16 a 20 semanas. A padronização da ICCS de 2020, que a própria EAU cita como referência, não fixa 8 a 12 semanas: manda suspender com seis semanas sem nenhum sinal de progresso e, havendo progresso, manter até 14 noites secas seguidas. Conta: lida pela EAU, a criança sem nenhum progresso fica de duas a seis semanas a mais com um aparelho que não está funcionando. A decisão está nas divergências.

08

A conduta, hora a hora

Cada receita deste bloco leva o que a família precisa para cumpri-la em casa: o horário, a apresentação que existe na farmácia, quantas noites dura o frasco, quem paga e a regra da água. A desmopressina na enurese não se calcula por quilo: pela bula brasileira, é dose fixa a partir dos 5 anos, 0,2 mg com teto de 0,4 mg, e a Rename 2024 a tem em comprimidos de 0,1 e 0,2 mg no Componente Especializado, dispensados pelo PCDT do Diabete Insípido — para molhar a cama, a família compra. O alarme é equipamento, não medicamento, e não está na Rename: antes de indicá-lo, pergunte se a família consegue obtê-lo.

A linha do tempo cobre seis meses porque a enurese se trata em meses, e mostra, na mesma criança, as duas primeiras linhas em sequência: a desmopressina escolhida pelo diário e pelo passeio, e o alarme escolhido quando a família passou a querer que Tito secasse sem remédio. Não são tratamentos rivais. A ICCS aceita começar por qualquer um dos dois — pela leitura do diário ou pela escolha informada da família — e manda oferecer o outro quando o primeiro não resolve; a EAU registra eficácia semelhante para reduzir as noites molhadas, com resposta ao tratamento superior e recaída menor com o alarme.

Se Tito tivesse sintoma diurno, a ordem seria outra, e o caso resolvido deste capítulo mostra qual: intestino e dia antes da noite, com ultrassonografia e resíduo, e a desmopressina ou o alarme só depois. E se ele tivesse ronco com pausas, sede, perda de peso ou um estigma na coluna, esta linha do tempo nem começaria: os achados da tabela de sinais têm destino no mesmo dia.

  1. Dia 0, 8h50 — consultório: o nome da coisa e o que para hoje

    Tito tem enurese primária monossintomática: nunca ficou seco, o dia é normal, não há sinal de alerta e o exame é normal. Você não pede exame nenhum e diz isso à mãe como uma boa notícia, não como descaso. Explica, olhando para Tito, que ele não molha a cama de propósito, que a bexiga dele enche mais do que aguenta enquanto ele dorme um sono muito pesado, que numa turma como a dele há outras duas ou três crianças na mesma situação e que o pai passou pelo mesmo e secou. Depois desfaz o que a família vinha fazendo. Acordar o menino à uma da manhã não ensina a bexiga, e a ICCS diz que, quando ajuda, ajuda só aquela noite. A regra de não beber depois das cinco da tarde sai, e durante o diário ele bebe como beberia sem ela, para o diário medir a vida real. O videogame volta: castigo não melhora a enurese, como a EAU manda dizer às famílias, e a ICCS manda tirar da casa a ideia de que alguém tem culpa. O spray da vizinha não entra — a EAU deixou de recomendar a desmopressina nasal pelo risco de superdose. Por fim, você ensina o diário com a mãe e com Tito, que escolhe dormir de fralda só nas noites de pesar, sem ninguém da escola saber.

    Prescrição
    • Nenhum exame de sangue, urina ou imagem
    • Suspender o despertar da madrugada e a regra de não beber depois das 17h
    • Suspender o castigo: o videogame volta hoje
    • Não usar desmopressina em spray nasal
    • Diário: 7 noites (seco ou molhado); sábado e domingo com cada xixi medido no copo, cada bebida e cada perda; fralda pesada seca e molhada nas noites de sábado e domingo e em mais duas noites, somando a primeira urina da manhã
    • Retorno em 14 dias, com o diário
  2. Dia 14 — o diário decide: poliúria noturna e bexiga de tamanho normal

    O diário mostra seis noites molhadas em sete, produção noturna entre 360 e 400 mL — acima dos 351 mL que marcam poliúria para 8 anos —, maior volume diurno de 230 mL, 85% da capacidade esperada, frequência normal e nenhum sintoma diurno. Pela estratégia guiada pelo diário da ICCS, poliúria noturna com capacidade normal indica a desmopressina primeiro, e a vida da família aponta para o mesmo lado: o passeio é daqui a cinco semanas e o efeito da desmopressina, pela ICCS, aparece de imediato; Tito divide o beliche com Iberê e o pai trabalha de noite, o que torna o alarme difícil agora — o guia brasileiro desaconselha o alarme para quem dorme com outras pessoas no quarto. Você explica o remédio a Lédia e a Tito. Ele diminui a urina da noite, não cura, e só é seguro com a regra da água: pela ICCS, líquidos mínimos, no máximo 200 mL no total desde uma hora antes da dose até pelo menos oito horas depois; pela bula, o mínimo possível de uma hora antes da tomada até a manhã seguinte. Tomado uma hora depois do jantar, porque a comida reduz a absorção. E há dois avisos que a família precisa repetir de volta: em dia de febre, vômito ou diarreia não se dá o comprimido; e dor de cabeça, enjoo, vômito ou ganho de peso rápido com o remédio são motivo para suspender e vir à unidade, porque podem ser retenção de água com falta de sódio no sangue. A bula também lista a loperamida e os anti-inflamatórios entre os remédios que aumentam o risco de reter água.

    Prescrição
    • Acetato de desmopressina 0,2 mg: 1 comprimido por via oral às 21h, uma hora depois do jantar e uma hora antes de deitar, todas as noites
    • Se a dose for às 21h: reduzir líquidos ao mínimo desde 20h até pelo menos 5h da manhã, seguindo a orientação até acordar; máximo de 200 mL no total nessa janela, não um copo por horário. Não usar a dose se houver necessidade de reidratação noturna.
    • De dia, beber normalmente no café, na escola e no almoço; menos refrigerante de cola e chá à noite
    • Não dar o comprimido em dia de febre, vômito ou diarreia; suspender e procurar a unidade se houver dor de cabeça, enjoo, vômito ou ganho de peso rápido
    • Farmácia: frasco com 30 comprimidos de 0,2 mg, que dura 30 noites (a rede fornece o comprimido só pelo protocolo do diabete insípido)
    • Calendário de noites secas; retorno em 14 dias
    • Conferir necessidade de reidratação após atividade física noturna, outros medicamentos e possibilidade real de cumprir a janela de líquidos. Se não for possível, omitir a dose e conversar sobre outra estratégia.
  3. Dia 28 — duas semanas de desmopressina: seco em quatro noites de sete

    O calendário mostra quatro noites secas em sete. Antes de mexer na dose, você confere o que costuma explicar a resposta parcial: se o comprimido foi dado todas as noites e no horário, se o jantar não virou lanche de meia-noite, se a regra da água foi cumprida — em duas noites Tito tomou um copo grande de suco às 21h30, e as duas foram molhadas. Não houve dor de cabeça nem vômito. A ICCS lembra que o efeito da desmopressina aparece de imediato, e a bula permite subir de 0,2 para 0,4 mg quando a dose inicial não basta. Você sobe para o teto e combina a data em que se decide: se em mais duas semanas, com 0,4 mg e a regra cumprida, não houver melhora, o remédio sai, porque a bula manda descontinuar sem efeito em quatro semanas e a ICCS diz que não se justifica manter um remédio que não funciona.

    Prescrição
    • Acetato de desmopressina 0,4 mg: 2 comprimidos de 0,2 mg às 21h — o teto na enurese
    • O frasco de 30 comprimidos passa a durar 15 noites
    • Mesma regra de líquido; o suco do jantar vai para o jantar
    • Retorno no dia 42
  4. Dia 42 a 50 — quatro semanas de tratamento, e o passeio da escola

    Seis noites secas em sete, sem efeito adverso. Tito mantém 0,4 mg, e a consulta passa a ser sobre o passeio, que é o que ele quer. A ICCS prevê exatamente esse uso: a família e a criança podem decidir usar o remédio todas as noites ou só nas noites importantes, e esta é uma delas. O plano é discreto e combinado com Tito: a professora, e só ela, sabe que ele toma um remédio às nove da noite e leva os comprimidos; a regra da água vale no alojamento, o saco de dormir leva um forro descartável e um pijama reserva vai num saco fechado no fundo da mochila. Tito vai ao passeio no dia 50 e volta seco.

    Prescrição
    • Manter desmopressina 0,4 mg às 21h
    • No passeio: 2 comprimidos entregues pela professora às 21h, sem plateia; mesma regra de líquido
    • Forro descartável no saco de dormir e pijama reserva em saco fechado
    • Retorno no dia 104, com o calendário
  5. Dia 104 — três meses: a semana sem remédio que responde se ainda precisa

    A bula recomenda a desmopressina na enurese por até três meses e manda reavaliar a necessidade depois de pelo menos uma semana sem ela; a ICCS chama isso de pausas periódicas. Na semana sem comprimido, Tito molha cinco noites de sete: ele ainda precisa de tratamento, e o remédio controlou sem curar, que é o comportamento esperado. Há três caminhos, e a ICCS os descreve: voltar à desmopressina todas as noites, com pausas a cada três meses; usá-la só nas noites importantes; ou tentar o alarme, que dá a chance de secar sem remédio. Tito quer dormir na casa do primo sem levar comprimido, e a casa mudou: o pai passou para o turno do dia, e Iberê pode dormir no quarto dos pais durante o tratamento. A família escolhe o alarme. A desmopressina fica para as noites importantes e não entra junto com o alarme nas noites comuns — tomada toda noite, ela manteria Tito seco e tiraria do alarme a noite molhada de que ele precisa para funcionar.

    Prescrição
    • Semana sem desmopressina, com calendário: 5 noites molhadas em 7
    • Suspender o uso diário; desmopressina 0,4 mg reservada para noites importantes, com a regra de líquido
    • Alarme de enurese adquirido pela família; Iberê dorme no quarto dos pais durante o tratamento
    • Retorno no dia 112 com o aparelho, para a demonstração
  6. Dia 112 a 126 — o alarme demonstrado, e o telefonema da segunda semana

    A ICCS dá as regras práticas, e você as cumpre uma a uma com Tito e com os pais na sala. O aparelho é demonstrado aos três: o sensor de umidade na cueca, ligado ao alarme. Ele é usado todas as noites, sem folga de fim de semana. Quando toca, um adulto acorda Tito na hora, porque nas primeiras semanas quase nenhuma criança acorda sozinha com o som; Tito desliga o alarme, termina de urinar no banheiro, troca a roupa e o forro e recoloca o sensor — o guia brasileiro descreve essa sequência como o objetivo do método. O calendário passa a anotar três coisas: seco ou molhado, o tamanho da mancha e se ele acordou sozinho. A ICCS pede que a equipe entre em contato entre uma e três semanas depois do início para encorajar e resolver problemas técnicos, porque é o período em que as famílias desistem — o guia brasileiro calcula que 30% a 50% abandonam. No telefonema do dia 126, Lédia conta que o sensor soltou duas noites e que numa delas ela não ouviu o alarme; você combina prender melhor o sensor, deixar o aparelho no volume máximo e a porta do quarto aberta.

    Prescrição
    • Alarme toda noite, sem interrupção
    • Ao som: um adulto acorda Tito na hora; ele desliga, termina o xixi no banheiro, troca a roupa e recoloca o sensor
    • Calendário: seco ou molhado, tamanho da mancha, se acordou sozinho
    • Telefonema da equipe no dia 126
    • Sem desmopressina nas noites comuns
  7. Dia 154 — seis semanas de alarme: há progresso, então continua

    O calendário mostra o que a ICCS chama de sinal de progresso — as manchas diminuíram e vieram duas noites secas na última semana —, e Tito acordou sozinho com o som em três noites. Pela ICCS, com progresso o alarme continua até 14 noites secas seguidas; sem nenhum sinal de progresso em seis semanas, com o aparelho bem usado, ele seria suspenso e o outro tratamento oferecido — a regra que esta apostila adota diante das outras durações que circulam, discutida nas divergências. Você reforça a família, que é quem carrega esse tratamento, e marca o próximo contato.

    Prescrição
    • Manter o alarme toda noite até 14 noites secas seguidas
    • Calendário mantido; telefonema em 3 semanas e retorno em 6
  8. Dia 200 — catorze noites secas seguidas: parar, e o plano da recaída

    Tito completa 14 noites secas seguidas, e o alarme é suspenso. A conversa agora é sobre a recaída, porque ela é frequente — o guia brasileiro dá de 15% a 30% depois do sucesso inicial — e porque a família que sabe o que fazer não volta ao castigo. Se ele recair, o alarme volta do mesmo jeito que funcionou. Se recair de novo, a ICCS descreve a sobreaprendizagem: depois de reconquistadas as 14 noites secas, a criança passa a beber um ou dois copos de água a mais à noite, com o alarme, até conseguir outras 14 noites secas apesar do líquido extra, e a desmopressina fica proibida nesse período. A EAU acrescenta que, na recaída depois de um sucesso, deve-se procurar ativamente a bexiga hiperativa, e isso se faz com um novo diário. Se um dia os dois tratamentos de primeira linha, bem feitos, falharem, o destino é a urologia ou a nefrologia pediátrica, e a ICCS recomenda nova tentativa de alarme a cada dois anos, mais ou menos, porque o peso de cada mecanismo muda com a idade.

    Prescrição
    • Suspender o alarme e guardar o aparelho
    • Recaída: retomar o alarme como foi feito
    • Segunda recaída: sobreaprendizagem com 1 a 2 copos de água a mais à noite, com alarme e sem desmopressina, até novas 14 noites secas
    • Desmopressina 0,4 mg só em noite importante, com a regra de líquido
    • Consulta de controle em 3 meses; novo diário se houver recaída
09

Como saber se está funcionando

A reavaliação da criança com enurese não pede exame: pede o calendário, o diário e a conversa. O que se mede é o que a família consegue medir em casa, e a decisão de mudar sai de pôr o calendário ao lado do prazo escrito na receita — duas semanas para julgar cada dose de desmopressina, de uma a três semanas para o primeiro contato e seis para julgar o alarme, um a dois meses para a uroterapia, três meses para a pausa da desmopressina e para o encaminhamento da enurese que não melhora na atenção primária. Antes de trocar qualquer tratamento que falhou, confira se ele foi feito: a resposta ruim à desmopressina costuma ser água fora de hora, e o alarme que falha costuma ser o alarme que ninguém acordou para ouvir.

O alvo não é só a cama seca. É a criança que dorme fora sem medo, a casa sem castigo e, na disfunção vesical e intestinal, o dia sem perda e o intestino funcionando. E há uma pergunta que se repete em todo retorno, porque a classificação pode mudar no caminho: apareceu algum sintoma de dia, o intestino prendeu, a criança passou a roncar, a beber água de madrugada, a emagrecer? Qualquer sim devolve a criança à tabela de sinais.

Noites molhadas por semana, pelo calendário de noites secasEm todo retorno e telefonema; calendário mantido durante todo o tratamento

Esperado: Com desmopressina, queda já nas duas primeiras semanas; com alarme, noites secas surgindo nas primeiras semanas até completar 14 seguidas

Se não melhora: Conferir adesão e técnica antes de mudar. Desmopressina sem efeito com 0,4 mg ao fim de 4 semanas: suspender e oferecer o alarme. Alarme sem nenhum progresso em 6 semanas de uso correto: suspender e oferecer a desmopressina. Os dois falharam bem feitos: considerar a combinação e encaminhar à urologia ou à nefrologia pediátrica

Sinais de progresso do alarme: tamanho da mancha, noites secas, despertar com o somTelefonema entre 1 e 3 semanas; consulta em 6 semanas

Esperado: Mancha menor e noites secas ocasionais, que a ICCS chama de progresso; a criança passando a acordar com o som

Se não melhora: Perguntar se um adulto acordou a criança na hora, se o aparelho foi usado toda noite e se o sensor funcionou; corrigido o uso, contar as seis semanas a partir daí. Sem progresso com uso correto: trocar de tratamento

Desmopressina: regra da água, horário e pausa trimestralA cada retorno, perguntando à criança; pausa de pelo menos 1 semana a cada 3 meses de uso

Esperado: Líquidos mínimos, no máximo 200 mL no total desde uma hora antes da dose até pelo menos oito horas depois; comprimido uma hora depois do jantar; na pausa, noites secas mantidas

Se não melhora: Resposta parcial com a regra quebrada não é falha: corrigir e julgar de novo em 2 semanas. Jantar muito salgado ou proteico pode reduzir a resposta (ICCS). Voltou a molhar na pausa: retomar com nova pausa em 3 meses, usar só em noites importantes ou oferecer o alarme

Sinais de retenção de água e hiponatremia com a desmopressinaOrientação na primeira receita e pergunta em todo contato

Esperado: Nenhum: sem cefaleia, enjoo, vômito ou ganho de peso rápido

Se não melhora: Suspender o remédio até a recuperação completa e reforçar a restrição de líquido ao retomar, como manda a bula; convulsão ou confusão mental, urgência. Em dia de febre, vômito ou diarreia, o comprimido não é dado

O dia na criança com sintoma diurno: frequência, urgência, perdas e manobras, pelo diário; resíduo pela ultrassonografiaDiário de 2 dias antes da consulta de 1 a 2 meses de uroterapia; resíduo no início e quando o dia não melhora

Esperado: Quatro a sete micções por dia, sem urgência nem perda, sem manobras; resíduo até 10% da capacidade esperada e até 20 mL

Se não melhora: Resíduo acima de 10% da capacidade ou de 20 mL, jato fraco ou esforço: urologia pediátrica já. Dia que persiste depois de 1 a 2 meses de uroterapia com o intestino tratado: urologia pediátrica. Recaída da noite depois de sucesso: procurar bexiga hiperativa com novo diário (EAU)

Intestino: frequência, consistência e dor para evacuar, escape fecalEm todo retorno, com a escala de fezes do diário

Esperado: Fezes macias, sem dor, sem escape

Se não melhora: Constipação nova ou mantida: tratar pelo plano de «A cueca manchada e a dor das segundas-feiras» antes de concluir que o tratamento da bexiga falhou; a ICCS manda suspeitar dela quando a boa resposta inicial se perde

A criança e a casa: castigo, vergonha, escola, dormir foraEm todo retorno, com um momento a sós com a criança mais velha e com o adolescente

Esperado: Sem castigo; criança que participa das decisões e volta a passeios e festas do pijama

Se não melhora: Punição persistente, sofrimento importante, TDAH ou problema familiar: apoio psicológico com seguimento (EAU). Castigo físico: comunicação ao Conselho Tutelar, obrigatória pelo art. 13 do ECA, pelo caminho de «Violência e maus-tratos infantis»

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Onde o erro machuca

Acordar a criança de madrugada e cortar a água a partir da tarde como tratamento

O dano: Não cura — pela ICCS, quando ajuda, ajuda só aquela noite —, interrompe o sono da criança e dos pais, mantém a criança com sede de dia e distorce o diário, que passa a medir a regra e não a bexiga. A família chega à consulta dizendo que já tentou de tudo.

Como pegar a tempo: Suspender os dois na primeira consulta. Beber normalmente de dia, sobretudo de manhã e no almoço, e menos nas horas antes de dormir; a restrição estrita da noite só vira regra junto com a desmopressina, na última hora antes de deitar.

Pedir sangue, ultrassonografia, urocultura ou urodinâmica para a criança com enurese monossintomática sem sinal de alerta

O dano: Atrasa o tratamento pela fila do exame, acha bacteriúria assintomática que vira antibiótico sem doença e confirma para a família a ideia de que há algo escondido. A ICCS diz que nem a resistência ao tratamento, por si só, indica sangue, radiologia ou urodinâmica invasiva.

Como pegar a tempo: História, exame e diário. Urina só com gatilho — secundária, sintoma diurno, sinal de alerta —; urocultura só com sintoma de infecção; ultrassonografia com resíduo só com sintoma diurno ou achado da tabela de sinais.

Tratar a noite sem perguntar pelo dia e pelo intestino

O dano: A criança com bexiga hiperativa, adiamento da micção ou constipação recebe desmopressina ou alarme, responde pior e ganha o rótulo de refratária; a constipação, pela EAU, piora o resultado do tratamento, e a disfunção vesical sem tratamento mantém as infecções urinárias.

Como pegar a tempo: Perguntar um sintoma diurno de cada vez, de preferência à criança; pedir o diário de dois dias e os critérios de Roma IV. Na não monossintomática, intestino e dia primeiro, salvo sintomas diurnos leves que não incomodam a família.

Desmopressina sem a regra da água, em spray nasal, acima de 0,4 mg ou mantida em dia de vômito e diarreia

O dano: Retenção de água com hiponatremia — cefaleia, enjoo, vômito, ganho de peso e, nos casos graves, convulsão —, risco que a bula diz ser maior na criança. O spray deixou de ser recomendado pela EAU pelo risco de superdose, e os 0,6 mg de uma das fontes são 150% do teto da bula.

Como pegar a tempo: Comprimido, 0,2 mg com teto de 0,4 mg, uma hora depois do jantar; líquidos reduzidos ao mínimo, no máximo 200 mL no total desde uma hora antes da dose até pelo menos oito horas depois; não dar em dia de febre, vômito ou diarreia; ensinar os sinais de alerta à família e à criança e pedir que repitam.

Entregar o alarme sem ensinar que um adulto precisa acordar a criança, ou julgá-lo antes do prazo, ou mantê-lo meses sem nenhum progresso

O dano: Nas primeiras semanas a criança quase nunca acorda sozinha com o som: sem um adulto que a acorde, o aparelho toca sem ensinar nada e a família desiste — o guia brasileiro calcula abandono de 30% a 50%. No outro extremo, meses de alarme sem progresso adiam o tratamento que funcionaria.

Como pegar a tempo: Demonstrar o aparelho à criança e aos pais; uso toda noite; adulto que acorda a criança na hora; contato em 1 a 3 semanas; julgamento em 6 semanas; com progresso, manter até 14 noites secas seguidas.

Tratar a enurese secundária como fase, sem as perguntas do mesmo dia

O dano: Deixa passar o diabetes tipo 1, que pode chegar depois como cetoacidose, a infecção urinária, a constipação que se instalou e a violência sexual, da qual a enurese de reinstalação é sinal indireto.

Como pegar a tempo: Sede e emagrecimento com glicemia capilar no mesmo dia; fita urinária; disúria e febre; intestino; ronco; remédio novo; acontecimentos da vida; sinais de violência, sem toque retal e pelo caminho de «Violência e maus-tratos infantis».

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O que dizer ao paciente e à família

A conversa desta consulta tem dois ouvintes, e o mais importante tem 8 anos. A ICCS manda falar com a criança e não só com os pais, porque o problema é dela e o tratamento depende dela; e Tito ouve tudo o que se diz dele, inclusive a palavra preguiça. As falas abaixo foram escritas para ele e para Lédia, mas a estrutura serve a qualquer família: primeiro tirar a culpa, depois desfazer o que a casa vinha fazendo, e só então receitar.

Cinco conversas mudam o que acontece em casa — a que tira a culpa, a que desfaz a madrugada e o castigo, a que ensina o diário, a que põe a regra da água e os sinais de perigo da desmopressina e a que prepara a família para o alarme. Duas são com Tito, com a concordância da mãe: a da escola e a do passeio. Com o adolescente, a conversa ganha um momento sem os pais e o tratamento é negociado com ele.

Lédia diz, na frente do filho, que ele faz de preguiça e que já está grande para isso

“Dona Lédia, o Tito não faz de propósito, e dormindo ninguém consegue evitar. A bexiga dele enche mais do que aguenta durante a noite, e o sono dele é tão pesado que o aviso não chega a acordá-lo. Isso é muito comum: numa turma de trinta crianças da idade dele, duas ou três passam pela mesma coisa, e muitas vezes alguém da família também passou — a senhora me contou do pai dele, que secou. A primeira coisa que eu queria que vocês levassem daqui é que ninguém tem culpa: nem ele, nem a senhora.”

Não diga: Concordar com a palavra preguiça, dizer que é fase e que passa sozinho sem oferecer nada, ou conduzir a conversa só com a mãe, como se Tito não estivesse na sala.

Explicar por que a família deve parar de acordá-lo de madrugada e de cortar a água, e devolver o videogame

“Acordar o Tito à uma da manhã não ensina a bexiga dele a segurar; no máximo salva aquela noite e deixa todo mundo cansado no dia seguinte. Cortar a água desde a tarde deixa ele com sede e atrapalha as contas que a gente vai fazer com o diário. E o castigo não ajuda: ele não controla isso dormindo, e castigar por uma coisa que ele não controla só ensina a esconder. Eu sei que foi o pai que decidiu o do videogame. Se a senhora quiser, eu escrevo para ele o que conversamos, ou ele vem no retorno.”

Não diga: Acusar os pais de terem errado, ou tirar a madrugada, a regra da água e o castigo sem pôr nada no lugar, o que faz a família voltar a eles na primeira noite molhada.

Falar com Tito, com a mãe de acordo, sobre a escola e o irmão

“Tito, posso te contar uma coisa? Na sua escola tem outras crianças que molham a cama, e ninguém sabe porque ninguém conta. Não tem nada a ver com ser bebê: é o jeito que a sua bexiga e o seu sono funcionam agora, e tem tratamento. Você vai ajudar a escolher qual. E sobre o seu irmão: a gente vai conversar com a sua mãe para ele entender que isso não é assunto para contar na escola.”

Não diga: Prometer que seca em poucos dias, falar da criança na terceira pessoa enquanto ela está na sala ou transformar o irmão em culpado.

Ensinar o diário e a pesagem da fralda

“Durante uma semana, a senhora marca toda manhã se ele acordou seco ou molhado. No sábado e no domingo dá mais trabalho: todo xixi dele vai primeiro num copo de medir, e vocês anotam a hora e quanto deu; tudo o que ele beber também, com a hora. Nessas noites ele dorme de fralda, que o Tito topou usar só em casa. A senhora pesa a fralda seca na balança da cozinha antes de ele deitar, pesa de novo de manhã e soma o primeiro xixi do dia. Com isso eu sei se ele faz muito xixi à noite ou se a bexiga guarda pouco, e o tratamento certo depende disso.”

Não diga: Pedir o diário sem explicar para que serve, ou impor fralda sem perguntar à criança, que em idade escolar costuma recusar.

Receitar a desmopressina com a regra da água e os sinais de perigo

“O remédio reduz o xixi da noite. Se a dose for às nove, a regra dos líquidos começa às oito: beber o mínimo necessário e não ultrapassar 200 mL no total até a manhã, respeitando pelo menos oito horas depois da dose. Não é para passar o dia com sede. Se houver febre, vômitos, diarreia ou exercício que exija reidratação à noite, não dê o comprimido; ofereça a hidratação necessária. Dor de cabeça, enjoo, vômitos ou ganho rápido de peso depois do remédio pedem suspensão e avaliação; confusão ou convulsão exigem emergência. Vamos repetir juntos a dose, os horários e quando suspender?”

Não diga: Receitar sem a regra da água e sem os sinais de alerta, trocar pelo spray nasal, ou deixar a família descobrir no balcão que o remédio não é gratuito.

Planejar o passeio com Tito

“Vamos combinar o passeio só com a sua professora, se você deixar. Ela guarda os seus comprimidos e te entrega às nove da noite, sem ninguém ver. No saco de dormir vai um forro que ninguém enxerga e, no fundo da mochila, um pijama reserva num saco fechado. A água da noite é igual à de casa. E se mesmo assim acontecer, você troca o pijama com calma e guarda no saco — ninguém precisa saber.”

Não diga: Aconselhar a criança a não ir, contar o problema à turma ou a outros pais, ou fazer o plano só entre adultos, sem a criança decidir o que pode ser dito.

Preparar a família para o alarme, no terceiro mês

“O alarme é o tratamento que pode fazer o Tito secar sem remédio, mas nas primeiras semanas quem trabalha são vocês. Quando ele tocar, alguém da casa acorda o Tito na hora, porque no começo ele não vai ouvir. Ele desliga, termina o xixi no banheiro, troca a roupa e põe o sensor de novo. Toda noite, inclusive no fim de semana. Na segunda semana a equipe liga para saber como está; com seis semanas a gente olha o calendário junto. Se estiver melhorando, continua até ele ficar catorze noites seguidas seco.”

Não diga: Entregar o aparelho sem demonstração, sem dizer que um adulto acorda a criança e sem data para julgar se ele está funcionando.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Desmopressina na enurese: até que dose subir, e quanto tempo esperar pela resposta?

Até 0,6 mg, com tratamento inicial de até seis semanas — guia Uropediatria, SBU e SBP (2020)

O capítulo de enurese manda começar com doses menores e aumentar até 0,6 mg se não houver melhora, com tratamento inicial de até seis semanas; sem resultado mesmo com 0,6 mg, suspende-se ou associa-se outro tratamento. Pede duração mínima de três meses e retirada gradual, e cita comprimidos de 0,1, 0,2 e 0,4 mg.

Sociedade Brasileira de Urologia; Sociedade Brasileira de Pediatria. Uropediatria: guia para pediatras, 2020, capítulo 6, p. 123-124

0,2 mg com teto de 0,4 mg, e suspender se não houver efeito em quatro semanas — bula brasileira do DDAVP comprimido (Anvisa, 29/02/2024)

Dose inicial de 0,2 mg ao deitar, que pode ser aumentada para 0,4 mg; restrição de líquido de uma hora antes da tomada até a manhã seguinte; se o efeito esperado não vier em quatro semanas mesmo com o ajuste de dose, descontinuar; uso recomendado por até três meses, com a necessidade reavaliada depois de pelo menos uma semana sem o remédio. Registra comprimidos de 0,1 e 0,2 mg.

Laboratórios Ferring. DDAVP (acetato de desmopressina) comprimidos: bula para o profissional de saúde, aprovada pela Anvisa em 29/02/2024

0,2 a 0,4 mg, com a resposta julgada em uma a duas semanas — ICCS (2020) e EAU (2026)

A ICCS dá 0,2 a 0,4 mg em comprimido, uma hora antes de deitar, e diz que a eficácia, ou a falta dela, aparece de imediato: não se justifica manter por mais de uma a duas semanas o remédio que não traz benefício. A diretriz europeia de 2026 repete a faixa de 200 a 400 microgramas para o comprimido.

Nevéus T et al. J Pediatr Urol. 2020;16(1):10-19; EAU Guidelines on Paediatric Urology, limited update March 2026, item 14.3.3

Como decidir

Esta apostila adota o teto de 0,4 mg. No primeiro degrau não há vencedor, porque bula, guia e diretrizes tratam do mesmo paciente; decide o segundo, a data: a bula de 2024 e a diretriz europeia de 2026 são mais novas que o guia de 2020. A coerência reforça, porque o guia cita um comprimido de 0,4 mg que não existe no registro brasileiro nem na Rename 2024, e os seus 0,6 mg são 150% do teto aprovado, com a conta nas notas do critério. O prazo, por sua vez, não é disputa: é cronologia que atende à ICCS e à bula ao mesmo tempo — 0,2 mg por duas semanas; resposta parcial ou nenhuma, 0,4 mg, dados como dois comprimidos de 0,2 mg, por mais duas semanas; sem efeito, suspender. As seis semanas do guia brasileiro ficam de fora. Para a criança à sua frente: se ela seca com 0,2 mg, não suba; se não seca com 0,4 mg e a regra da água foi cumprida, não insista — ofereça o alarme.

Alarme sem nenhum sinal de progresso: parar em seis semanas ou insistir por três meses?

No mínimo três meses — guia Uropediatria, SBU e SBP (2020)

O alarme deve ser usado por no mínimo três meses; com explicação apropriada e adesão, o sucesso inicial chega a 75%, com recaída de 15% a 30%, e de 30% a 50% das crianças abandonam o tratamento.

Sociedade Brasileira de Urologia; Sociedade Brasileira de Pediatria. Uropediatria: guia para pediatras, 2020, capítulo 6, p. 123

Sem nenhum sinal de progresso em seis semanas, parar; com progresso, até 14 noites secas seguidas — ICCS (2020)

A família é contatada entre uma e três semanas depois do início; se não houver nenhum sinal de progresso em seis semanas, o alarme é suspenso; se houver progresso — mancha menor, noites secas ocasionais —, continua até 14 noites secas consecutivas.

Nevéus T et al. J Pediatr Urol. 2020;16(1):10-19

Duração incerta, de 8 a 12 até 16 a 20 semanas — EAU (2026)

A diretriz europeia diz que a duração recomendada do alarme segue incerta, variando de 8 a 12 semanas, intervalo que atribui à ICCS, a 16 a 20 semanas, e que o acompanhamento regular melhora o sucesso.

EAU Guidelines on Paediatric Urology, limited update March 2026, item 14.3.2

Como decidir

Esta apostila adota a regra da ICCS para a criança sem nenhum progresso, e a decide no primeiro degrau, o escopo: dos três documentos, é o único escrito para essa criança — a que usou o alarme corretamente por seis semanas sem mancha menor e sem nenhuma noite seca. O mínimo de três meses do guia brasileiro e a faixa de 8 a 20 semanas da EAU falam do tratamento em geral e valem para quem está respondendo: com progresso, o alarme continua até 14 noites secas seguidas, pelo tempo que for preciso. A EAU, mais nova, não toma posição — declara a duração incerta — e atribui à ICCS um intervalo que a ICCS de 2020 não escreve, como registram as notas do critério. Para a criança à sua frente, antes de contar as seis semanas, confira o uso: alarme toda noite e um adulto que acorda a criança na hora. Se isso não aconteceu, as seis semanas começam quando o uso for corrigido; se aconteceu e nada mudou, troque pela desmopressina e deixe o alarme para outra tentativa.

Adenotonsilectomia na criança que ronca e molha a cama: a cirurgia trata a enurese?

Cerca de metade das crianças seca com a cirurgia — ICCS (2020)

A ICCS afirma que aproximadamente 50% das crianças enuréticas com distúrbio respiratório do sono ficam secas depois da adenotonsilectomia e, entre as crianças resistentes ao tratamento, aponta um subgrupo que pode precisar de tratamento cirúrgico do distúrbio respiratório.

Nevéus T et al. J Pediatr Urol. 2020;16(1):10-19

Melhora baixa; não indicar a cirurgia para tratar a enurese — EAU (2026)

A diretriz europeia cita metanálise de estudos sobre adenoidectomia e amigdalectomia em crianças com enurese e apneia obstrutiva: a melhora da enurese depois da cirurgia é baixa, provavelmente menor do que se esperava, e as cirurgias não devem ser recomendadas nem realizadas para tratar a enurese. Diante de ronco habitual, apneias, sudorese noturna e respiração oral, pode-se considerar o otorrinolaringologista.

EAU Guidelines on Paediatric Urology, limited update March 2026, item 14.1

Como decidir

Esta apostila adota a posição da EAU, decidida no segundo degrau: com o escopo empatado, a diretriz de 2026 é mais nova e se apoia em metanálise publicada depois do documento da ICCS. Na prática, a posição cabe sem atrito no caminho da criança, porque a indicação da cirurgia não pertence à enurese: pertence à apneia, reconhecida e encaminhada por «A noite que ninguém examina», com a decisão do otorrinolaringologista. Para a criança à sua frente, que ronca e molha a cama: encaminhe pela apneia se ela tiver os sinais; trate a enurese pelo caminho deste capítulo sem esperar a cirurgia; e diga à família, antes que ela peça a operação para acabar com o xixi, que a cirurgia pode ajudar o sono e a respiração e não é tratamento de enurese — se a criança secar depois dela, ótimo, mas isso não se promete.

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O raciocínio, em voz alta

Nina Palhares, 7 anos, 22 kg e 121 cm, chega à mesma unidade numa quinta-feira à tarde com a avó paterna, Cirila Palhares, que cuida dela depois da escola. A professora mandou um bilhete: Nina volta do recreio com a calcinha molhada duas ou três vezes por semana e pede para sair da sala de repente. Em casa, conta a avó, ela passa a tarde inteira sem ir ao banheiro e só corre quando já está apertada, às vezes agachada no chão da sala, sentada sobre o calcanhar. Nunca ficou seca à noite e molha a cama em quatro noites por semana. Evacua duas vezes por semana, fezes duras, com dor — “ela sempre foi presa”, diz a avó, como quem fala de um traço de família. No último ano teve duas “infecções de urina” tratadas no pronto-atendimento: a primeira com febre e urocultura positiva; a segunda por urina de cheiro forte, sem febre e sem exame. Não bebe água na escola porque o banheiro é longe e sujo. A mãe trabalha em outra cidade durante a semana. Na caderneta, peso e estatura seguem a linha de sempre.

  1. Dê nome ao quadro

    A interna começa pela classificação, porque ela decide a ordem de tudo. Nina tem enurese primária — nunca ficou seca à noite — e não monossintomática: tem incontinência de dia, urgência, manobra de contenção e, pela história, frequência baixa. Somada à constipação e às infecções urinárias, é disfunção vesical e intestinal. O retrato diurno é o do adiamento da micção com urgência, a criança que segura a tarde inteira e chega ao banheiro apertada, e a agachada sobre o calcanhar é a manobra que o guia brasileiro pede para não tomar como normal. A enurese de Nina não será tratada hoje: pela ICCS e pelo guia brasileiro, na não monossintomática com sintoma diurno que incomoda, o intestino e o dia vêm primeiro.

  2. Complete as perguntas que decidem o caminho

    Antes do exame, faltam as perguntas que tirariam Nina do caminho funcional. Não há perda contínua entre as micções: ela fica seca por horas e perde quando está apertada. O jato é contínuo, sem esforço. Não há sede exagerada, emagrecimento, ronco com pausas nem remédio de uso contínuo. A enurese não é de reinstalação, e a avó não notou mudança de comportamento, dor ou sangramento genital. Perguntada diretamente, Nina fala do banheiro da escola e dos colegas que a chamaram de fedida. A interna registra também o que a casa faz: a avó briga quando a calcinha volta molhada.

  3. Examine e colha só a urina que o caso pede

    Peso e estatura na curva; pressão normal para a idade; fezes palpáveis no flanco e na fossa ilíaca esquerdos; bexiga não palpável depois de urinar; coluna lombossacra sem fosseta, tufo ou mancha, pregas simétricas; força, reflexos e marcha normais; vulva com hiperemia leve de pele sempre úmida, sem sinéquia; calcinha úmida. Sem toque retal: a massa palpável no abdome já responde à pergunta. Nina tem gatilho para exame de urina — sintoma diurno e infecção urinária prévia —, e a urina tipo I vem sem glicose, sem nitrito e sem leucocitúria. Sem leucocitúria e sem sintoma novo de infecção, não se colhe urocultura: uma cultura positiva nessa situação seria lida como bacteriúria assintomática, que a ICCS manda não tratar.

  4. Peça o diário e a ultrassonografia, e leia os dois

    O diário de dois dias volta com três micções por dia, a maior de 140 mL, perdas à tarde nos dois dias e cerca de 500 mL de líquido por dia, quase todo no jantar; Nina evacuou uma vez nos dois dias. As contas: capacidade esperada de 240 mL; o maior volume é 58% dela, abaixo dos 65% a 70% que marcam capacidade funcional reduzida; frequência abaixo de quatro micções. A ultrassonografia de rins e vias urinárias com resíduo, que o guia brasileiro pede para a criança com disfunção do trato urinário inferior, mostra rins sem dilatação, parede vesical de 2 mm e resíduo de 12 mL — abaixo dos 20 mL e dos 24 mL que correspondem a 10% da capacidade esperada. Nina fica na atenção primária.

  5. Trate o intestino primeiro e comece o dia junto

    A constipação de Nina preenche os critérios de Roma IV e tem massa palpável, e o plano de desimpactação e de manutenção, com as doses, é o de «A cueca manchada e a dor das segundas-feiras»: este capítulo não repete a receita, só a ordem. A EAU manda tratar primeiro o intestino na disfunção vesical e intestinal, porque os sintomas da bexiga podem desaparecer com ele, e o guia brasileiro registra que tratar a constipação reduz a infecção urinária recorrente e melhora a hiperatividade. A uroterapia começa no mesmo dia, porque não compete com o laxante: urinar em horários combinados, cerca de seis vezes por dia e sem passar de três horas — ao acordar, antes de sair, no recreio, ao chegar, antes do jantar e antes de dormir —; ir ao banheiro quando sentir vontade ou quando se pegar agachando; sentar com as coxas apoiadas, os pés num banquinho e sem empurrar; beber de manhã e na escola, com a garrafinha na carteira; menos refrigerante de cola e chá. A escola recebe um bilhete, com a autorização da avó, pedindo que Nina possa sair para o banheiro quando precisar.

  6. Deixe a noite para depois, com data

    A enurese de Nina entra no plano com data, não com remédio. A ICCS manda tratar antes da noite os sintomas diurnos que incomodam e só dispensa essa espera quando eles são leves — não é o caso de uma criança que perde urina na escola. O diário já adianta o que vem depois: capacidade funcional reduzida, que, se persistir com o dia tratado, favorece o alarme na estratégia guiada pelo diário, com a produção noturna medida antes da escolha. Nina sai sem desmopressina, sem oxibutinina — que não consta da Rename 2024 e, na criança, é decisão do especialista com resíduo medido — e sem castigo: a avó sai sabendo que a calcinha molhada é urgência que Nina não controla, e não teimosia.

  7. Marque a reavaliação e o destino se o dia não melhorar

    Retorno em quatro semanas, com novo diário de dois dias, e contato no meio do caminho. Pelo guia brasileiro, a uroterapia padrão se mantém por um a dois meses antes de medidas específicas. Se o intestino estiver funcionando e o dia seco, a noite passa a ser tratada como a de Tito, pelo diário. Se o dia persistir com o intestino tratado, Nina vai à urologia pediátrica — o protocolo gaúcho de regulação lista a enurese com sintoma diurno entre as condições para esse encaminhamento —, levando a urina tipo I e a ultrassonografia com data. Uma nova febre com sintoma urinário, antes disso, é conduzida por «Infecção urinária na criança», onde está também a investigação por imagem depois da infecção febril. E fica anotado o que mudaria o caminho no meio: jato fraco, esforço, perda contínua, resíduo que suba ou qualquer sinal de violência.

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Faça você

Sancho Rosarinho, 10 anos, 34 kg e 140 cm, vem à unidade com o pai, Heleodoro Poconé, que marcou a consulta “para encaminhar para operar a garganta, que é o que faz ele fazer xixi na cama”. Sancho molha a cama todas as noites desde sempre, às vezes duas vezes na mesma noite. Ronca alto, e a mãe já o viu parar de respirar e voltar com um engasgo; dorme de boca aberta e cochila na aula. Tem TDAH diagnosticado aos 8 anos, em uso de metilfenidato pela manhã. De dia urina cinco vezes, sem urgência, sem perda e sem esforço, e evacua todo dia, fezes macias. No ano passado a família comprou um alarme pela internet: Sancho não acordava com o som, dormia no quarto com dois primos, ninguém levantava para acordá-lo, e desistiram em três semanas. O pai conta, meio rindo, que já deu “umas palmadas” e que agora tira o celular a cada noite molhada. Sancho quer ir ao acampamento da igreja daqui a dois meses. No exame, amígdalas palatinas grandes; curva, pressão, coluna, pernas, marcha e genitais normais. O diário da última semana, feito a pedido do agente comunitário: sete noites molhadas, produção noturna média de 450 mL nas quatro noites pesadas e maior volume diurno de 250 mL.

  1. Classifique e leia o diário

    Dê o nome da enurese de Sancho, calcule a capacidade vesical esperada, diga se há poliúria noturna e se a capacidade funcional é normal, e o que as duas perdas numa mesma noite sugerem.

  2. O ronco e o pedido de cirurgia

    Diga para onde vai o ronco com pausas, quem decide a cirurgia, e o que você responde ao pai sobre a cirurgia curar a enurese — com a posição que esta apostila adota e por quê.

  3. Por que o alarme falhou, e qual o primeiro tratamento agora

    Explique se o alarme falhou como tratamento ou como uso, o que o TDAH e o quarto compartilhado mudam, e escolha o tratamento de primeira linha para os próximos dois meses.

  4. A receita que a família consegue cumprir

    Escreva a prescrição com dose, horário, apresentação, a conta em comprimidos e em noites de frasco, a regra da água, os sinais de perigo, as datas de reavaliação e quem paga.

  5. As palmadas e o celular

    Diga o que a equipe faz diante das palmadas contadas pelo pai, por qual capítulo, e como a conversa com ele e com Sancho muda o castigo.

  6. O acampamento, e o destino se tudo falhar

    Planeje o acampamento e diga para onde Sancho vai se os tratamentos de primeira linha, bem feitos, não funcionarem, e o que se decide lá.

Ver como fecharíamos

Classificação: enurese primária monossintomática — nunca ficou seco, sem sintoma diurno, intestino normal. Capacidade esperada de (10 + 1) × 30 = 330 mL; poliúria noturna a partir de 130%, 429 mL, e a média de 450 mL é poliúria. O maior volume diurno, 250 mL, é 76% da esperada, acima dos 65% a 70% que marcam redução: capacidade funcional normal. As duas perdas na mesma noite lembram capacidade noturna reduzida, que o dia não confirma e que volta a ser pergunta se a desmopressina falhar. O ronco: alto, com pausas presenciadas, respiração oral, sonolência na aula e amígdalas grandes são suspeita de apneia obstrutiva, reconhecida e encaminhada à otorrinolaringologia pelo caminho de «A noite que ninguém examina»; a ICCS também põe ronco alto e apneias entre os sinais de alerta da enurese, com contato com o otorrinolaringologista. A indicação da cirurgia é do especialista e é pela apneia. Ao pai: a EAU de 2026, apoiada em metanálise, diz que a melhora da enurese depois da cirurgia é baixa e que a operação não se indica para tratar a enurese; a ICCS de 2020 falava em cerca de metade das crianças secando. Esta apostila adota a EAU, pela data, e a enurese se trata agora, sem esperar a fila da cirurgia. O alarme: não falhou como tratamento, falhou no uso — sem um adulto que acordasse Sancho na hora, sem contato da equipe nas primeiras semanas e num quarto dividido com outras crianças, situação em que o guia brasileiro não o indica. O TDAH diminui o sucesso do alarme, pela ICCS, e deixa a resposta mais lenta e a recaída mais frequente, pela EAU, o que a família precisa ouvir antes. Com poliúria noturna, capacidade normal, TDAH, quarto compartilhado e acampamento em dois meses, a primeira escolha agora é a desmopressina; o alarme pode voltar depois, bem feito. A receita: acetato de desmopressina 0,2 mg, 1 comprimido por via oral às 21h, uma hora depois do jantar e uma hora antes de deitar; dose fixa, não por quilo. Líquidos mínimos, no máximo 200 mL no total desde uma hora antes da dose até pelo menos oito horas depois; omitir a dose quando a criança precisar de reidratação. Não dar em dia de febre, vômito ou diarreia; suspender e procurar a unidade se houver dor de cabeça, enjoo, vômito ou ganho de peso rápido. Julgar em 2 semanas; resposta parcial ou nenhuma, 0,4 mg — 2 comprimidos de 0,2 mg — por mais 2 semanas; sem efeito com 0,4 mg, suspender e oferecer o alarme bem feito. Frasco de 30 comprimidos de 0,2 mg: 30 noites com 0,2 mg, 15 noites com 0,4 mg. Pausa de pelo menos uma semana aos três meses. A rede fornece o comprimido pelo Componente Especializado só pelo PCDT do Diabete Insípido: para enurese, a família compra. Spray nasal, não. As palmadas: são castigo físico, e o art. 13 do ECA torna obrigatória a comunicação ao Conselho Tutelar da suspeita ou confirmação de castigo físico; como fazê-la está em «Violência e maus-tratos infantis». A conversa com o pai tira a culpa — é involuntário, é comum, costuma ser de família — e desfaz também o castigo do celular, que não melhora a enurese; a EAU recomenda apoio psicológico com seguimento quando há punição, e Sancho tem TDAH. Com Sancho, que tem 10 anos, há um momento a sós: o que ele quer é o acampamento, e o plano é dele também. O acampamento: combinado só com o responsável da igreja, com o comprimido entregue às 21h sem plateia, a mesma regra da água, forro no saco de dormir e pijama reserva em saco fechado. Se a desmopressina e depois o alarme, os dois bem feitos, falharem, Sancho vai à urologia ou à nefrologia pediátrica, onde se medem fluxo e resíduo e se decide o anticolinérgico — oxibutinina 2,5 a 5 mg à noite, pela ICCS, fora da Rename 2024 — e, só como terceira linha, a imipramina. Aos 10 anos, Sancho está no limite a partir do qual o guia brasileiro chama o tratamento de urgente: não se espera a cirurgia nem a idade.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

É enurese primária monossintomática, sem sinal de alerta e com exame normal: a avaliação é a história, o exame e o diário, e nenhum exame muda a conduta. A primeira consulta desfaz o que a família fazia — acordar de madrugada não é curativo pela ICCS, a restrição do dia inteiro distorce o diário e o castigo não melhora a enurese — e pede o diário com a produção noturna, que orienta a escolha entre desmopressina e alarme.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Preencha e interprete o diário de uma criança com enurese, distinguindo primeira urina da manhã, volume diurno máximo e produção noturna. Mostre a conta à família e escolha alarme ou desmopressina com ela. Peça que demonstre o uso do alarme ou repita dose, regra dos líquidos e situações para omitir o medicamento. Compare com enurese secundária acompanhada de sede e emagrecimento, que exige investigar diabetes no mesmo dia.

Em 30 dias

Em consultas em que o tema seja pertinente, pergunte com privacidade e sem constranger a criança sobre perdas diurnas, enurese e intestino. Acompanhe ao menos um retorno real ou simulado: impacto, adesão, diário, resposta e efeitos adversos. Ajuste o plano com a família; não transforme investigação de continência numa obrigação de exposição durante toda consulta aguda.

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Agora atenda

Agora atenda: Lis Garcez, 9 anos, trazida pela tia, Dirce Valadão, porque voltou a molhar a cama há um mês, depois de três anos seca. A tia conta que a menina anda mais quieta desde que a família mudou de cidade. Conduza a consulta: faça as perguntas do mesmo dia, decida o que colher antes de ela ir embora, examine sem toque retal, converse com Lis e diga à tia o que acontece a seguir.

Enurese noturna e distúrbios miccionais funcionais – Ninguém molha a cama de propósito — Internato | OsceLabs