Pediatria › Nefrologia Pediátrica
O corticoide responde o que a biópsia perguntaria
Síndrome nefrótica idiopática (lesões mínimas) na infância
Reconheça a apresentação típica, procure sinais atípicos e acompanhe a resposta. A remissão com corticoide classifica a sensibilidade ao tratamento e ajuda a prever a evolução, sem comprovar a histologia.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos. Portaria Conjunta nº 1, de 10 de janeiro de 2018. Aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Síndrome Nefrótica Primária em Crianças e Adolescentes.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento do Programa Nacional de Imunizações. Nota Técnica nº 52/2026-CGICI/DPNI/SVSA/MS: vacina pneumocócica conjugada 20-valente nas estratégias especiais e transição dos esquemas com VPC10, VPC13 e VPP23. Brasília, 20 de maio de 2026.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais. 6ª ed. Brasília: Ministério da Saúde; 2023.
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde; 2024.
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Trautmann A, Boyer O, Hodson E, Bagga A, Gipson DS, Samuel S, et al.; International Pediatric Nephrology Association. IPNA clinical practice recommendations for the diagnosis and management of children with steroid-sensitive nephrotic syndrome. Pediatr Nephrol. 2023;38(3):877–919. doi:10.1007/s00467-022-05739-3.
Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO) Glomerular Diseases Work Group. KDIGO 2021 Clinical Practice Guideline for the Management of Glomerular Diseases. Kidney Int. 2021;100(4S):S1–S276.
Eurofarma. Ceftriaxona sódica, pó para solução injetável 1 g. Bula para o paciente, conforme bula padrão aprovada pela Anvisa em 25/03/2026.
KDIGO. Guideline for Nephrotic Syndrome in Children, 2025. https://kdigo.org/wp-content/uploads/2025/04/KDIGO-2025-Guideline-for-Nephrotic-Syndrome-in-Children.pdf
Responda antes de ler
Menino de 5 anos, peso seco de 18 kg, está no 28º dia de prednisolona 36 mg em dose única diária pelo primeiro episódio de síndrome nefrótica, com quadro típico ao diagnóstico. O diário mostra fita com 2+ nos últimos cinco dias, a relação proteína/creatinina de hoje é 1,1 mg/mg e a albumina, 3,1 g/dL. Está sem edema, normotenso e sem sinais de toxicidade. Pela régua adotada no capítulo, qual é a leitura e a conduta?
O paciente que você vai ver
Segunda-feira, oito e vinte, unidade básica de um bairro onde a farmácia fica na esquina e o laboratório de apoio passa para buscar as amostras às dez. Você é o interno da manhã. A técnica de enfermagem pesou o terceiro paciente da agenda e deixou a ficha sobre a mesa com um recado a lápis: "mãe diz que é alergia". Amadeu Palmeira, 4 anos e 3 meses, 16,8 kg na balança.
Leocádia Portela entra com o filho no colo e começa pelo fim. Há cinco dias ele acordou com os olhos inchados, "dos dois lados, mais o esquerdo". Na farmácia disseram que era alergia e venderam um antialérgico. O inchaço melhorava de tarde e voltava de manhã. Ontem à noite ela reparou que o elástico da bermuda deixou um vinco fundo na barriga e que o chinelo começou a apertar. Pergunta se pode ser picada de inseto no quarto. E acrescenta, como quem lembra de uma coisa sem importância, que o xixi dele está fazendo espuma no vaso.
Amadeu está ativo, brinca com a tampa da caneta e não tem febre. A caderneta, que a mãe trouxe por hábito, registra 15,0 kg na consulta de puericultura de sete semanas atrás, e a estatura de 103 cm segue a mesma linha de sempre na curva. Há 1,8 kg a mais hoje, e não é gordura: as pálpebras estão fofas, a pressão do polegar na face anterior da perna deixa uma cova que demora a sumir, e o abdome está um pouco distendido, sem dor. A pressão arterial, medida por ausculta com manguito infantil, é 96 por 58 mmHg, abaixo do percentil 90 para idade, sexo e estatura. Frequência cardíaca de 108, mãos quentes, enchimento capilar abaixo de dois segundos.
A técnica fez a fita reagente na urina que ele deixou no copinho: proteína 4+, sangue negativo. Você olha para o resultado e para o menino, e as duas coisas contam a mesma história. Proteína na faixa mais alta da fita, sem sangue, sem pressão alta, num menino de quatro anos com edema que obedece à gravidade: não é alergia, não é picada e não é o rim inflamado da glomerulonefrite. É o desenho da síndrome nefrótica — e, nessa idade e com esse quadro, na maior parte das vezes por lesão mínima.
O que falta decidir não é pouco. Primeiro, se ele está bem por fora e seco por dentro: a criança nefrótica pode ter o corpo cheio de água e o vaso vazio, e o diurético que alguém ofereceria para o inchaço é exatamente o que a derruba. Segundo, se há algum sinal que tire Amadeu do caminho típico e mande pedir biópsia antes de qualquer corticoide. Terceiro, a dose, que se calcula pelo peso de sete semanas atrás, e não pelo da balança de hoje.
Depois vem o que a família precisa levar para casa, e isso pesa tanto quanto a receita. Sete ou oito em cada dez crianças como ele vão ter ao menos uma recidiva, então Leocádia vai sair daqui sabendo ler uma fita de urina. A febre com dor de barriga, que em outra criança seria virose, nele é peritonite até prova em contrário. E o cartão de vacinas, que ninguém costuma abrir numa consulta de inchaço, muda a partir de hoje.
A conduta inteira cabe numa frase, e o resto do capítulo existe para ela não sair errada: confirmar a proteinúria e a albumina, afastar o que não é típico, começar prednisolona em dose única de manhã pelo peso seco, reler a fita na quarta semana — e ensinar a mãe a reconhecer, antes de você, o dia em que o filho piora.
Quem adoece disso
O protocolo federal de 2018 estima de 2 a 7 casos novos por 100.000 crianças por ano e prevalência de 16 por 100.000, com pico de apresentação aos 2 anos e 70 a 80% dos casos abaixo dos 6 anos. As recomendações da associação internacional de nefrologia pediátrica, de 2023, alargam a faixa mundial para 1,15 a 16,9 casos por 100.000 crianças por ano. O protocolo não traz número brasileiro: os que ele cita vêm da Holanda, da Austrália, da Nova Zelândia e do norte da Inglaterra, onde a incidência entre crianças de origem sul-asiática chegou a 7,4 por 100.000, contra 1,6 nas demais.
A conta que interessa ao interno é a da própria unidade. Uma equipe que acompanha 5.000 crianças, na faixa de 2 a 7 casos por 100.000 ao ano, espera um caso novo a cada 3 a 10 anos. É raro demais para o reconhecimento ser automático, e é por isso que o primeiro diagnóstico registrado costuma ser alergia, conjuntivite ou picada de inseto — e a primeira receita, um antialérgico.
Na criança, a síndrome é idiopática em 90% dos casos diagnosticados antes dos 10 anos e em 50% dos que começam depois dessa idade, segundo o protocolo federal. A associação internacional acrescenta que a probabilidade de lesão mínima é maior entre 2 e 7 anos e cai daí em diante. Essa curva é a base da regra de biópsia deste capítulo: quanto mais longe dessa faixa, menos a resposta ao corticoide pode ser presumida. No adulto brasileiro biopsiado, a lesão mínima é apenas a quarta causa, como mostra o capítulo O filtro que vaza e o filtro que inflama, da apostila de Nefrologia.
Entre 85 e 90% das crianças entram em remissão completa em quatro a seis semanas de corticoide. É esse número que autoriza tratar sem biópsia: numa doença em que quase todos respondem, a resposta funciona como exame, e a falta dela é o que manda investigar.
Entre as que respondem, 70 a 80% terão ao menos uma recidiva, até metade se tornará recidivante frequente ou dependente de corticoide, e 10 a 30% seguirão recidivando até o início da vida adulta. Para a família, a tradução é direta: recidiva não é fracasso do tratamento, é o curso esperado. A fita urinária em casa é o instrumento que faz a recidiva ser descoberta pela proteinúria, dias antes do edema, e não pela anasarca.
Até 1940, cerca de 40% das crianças com síndrome nefrótica morriam, sobretudo de infecção, e o protocolo federal atribui a queda ao corticoide e ao antibiótico. A infecção segue como o principal risco de morte: 60% dos óbitos associados à doença são por infecção, 30 a 50% das infecções são pneumocócicas e o restante vem de bactérias Gram-negativas, principalmente Escherichia coli. A peritonite primária é uma das infecções graves mais comuns na criança internada, com incidência relatada de 1,5 a 16% durante as recidivas, e raramente é a primeira manifestação da doença.
Eventos tromboembólicos sintomáticos ocorrem em cerca de 3% das crianças com síndrome nefrótica — 1,5% entre as corticossensíveis —, a maioria nos três primeiros meses depois do início, contra 27% no adulto. É raro o bastante para não justificar anticoagulação de rotina e frequente o bastante para que imobilizar, desidratar ou instalar cateter venoso central sem necessidade seja erro de prescrição.
O corticoide é o tratamento e é também a principal fonte de dano evitável. Numa análise de 14 ensaios sobre o primeiro episódio, com 12 a 24 meses de observação, houve hipertensão em 13% das crianças, alterações psicológicas em 21%, aparência cushingoide em 41% e infecções em 22%, qualquer que fosse a dose total de indução. Quatro ensaios recentes com 775 crianças mostraram que estender o primeiro curso além de 2 ou 3 meses não reduz recidivas. As réguas atuais encurtaram o tratamento por essa razão.
Por que acontece o que acontece
O que é igual no adulto e na criança — a barreira de filtração que deixa passar albumina, a queda da pressão oncótica e a retenção renal de sódio — está no capítulo O filtro que vaza e o filtro que inflama, na apostila de Nefrologia, e não se repete aqui. Este bloco fica com o que muda na criança e com o mecanismo que justifica cada decisão do tratamento.
Na lesão mínima, a microscopia óptica é normal e a eletrônica mostra o apagamento difuso dos pedicelos dos podócitos; a mesma podocitopatia pode aparecer como glomeruloesclerose segmentar e focal, que responde menos ao corticoide. O protocolo federal registra que o prognóstico de longo prazo acompanha mais a resposta ao corticoide que a histologia, e a diretriz da KDIGO de 2025 tira disso a regra prática: resposta ao tratamento inicial e frequência de recidivas no primeiro ano predizem o curso, então a biópsia não é necessária na apresentação e fica para a resistência ou o curso atípico. Na criança típica, a pergunta que a lâmina responderia é respondida pela prednisolona em quatro semanas.
O edema obedece à gravidade. Deitada, a criança acumula água nas pálpebras e no dorso; em pé, nos membros inferiores. Por isso o quadro começa pelos olhos ao acordar e melhora à tarde, e por isso a primeira hipótese da família e do balcão da farmácia é alergia. No início o edema pode ser assimétrico. É mole, indolor e guarda a marca da roupa e do dedo, e pode progredir para anasarca com ascite e derrames pleural e pericárdico.
O edema não informa o volume dentro do vaso. A criança nefrótica pode estar com o espaço intravascular contraído, com o volume mantido ou até expandido. Na lesão mínima, com proteinúria maciça e albumina muito baixa, a contração é a que traz as complicações graves: taquicardia, extremidades frias, enchimento capilar lento, dor abdominal e oligúria são o corpo avisando que falta volume, não que sobra. Diurético nessa criança tira água de um vaso já vazio, e a associação internacional lista o que se colhe: lesão renal aguda, choque hipovolêmico e trombose.
A trombose junta três mecanismos. A hemoconcentração e a perda urinária de antitrombina III, que o protocolo federal descreve; a hipovolemia e a imobilização, que a associação internacional põe entre os fatores de risco; e os fatores iatrogênicos — cateter venoso central, internação com infecção — que dependem de quem prescreve. O risco desaparece quando a criança entra em remissão.
A infecção por bactéria encapsulada tem mecanismo duplo. Durante a recidiva, a criança perde pela urina IgG e opsoninas do complemento, justamente as moléculas de que o pneumococo precisa para ser fagocitado; durante a remissão, quem reduz a defesa é o tratamento imunossupressor. A ascite oferece ao pneumococo um meio onde crescer, e é assim que a peritonite primária surge numa criança sem nenhuma porta de entrada visível.
Infecções virais são gatilho documentado de recidiva. Nos estudos menores, cerca de metade das infecções respiratórias era seguida de recidiva; no ensaio randomizado de maior porte e menor risco de viés, 20%. A dislipidemia e a queda transitória do hormônio tireoidiano, por perda urinária das proteínas carreadoras, pertencem à fase nefrótica e se corrigem com a remissão: nem estatina nem levotiroxina durante a recidiva, a menos que as alterações persistam com a proteinúria já negativa.
O corticoide em dose suprafisiológica suprime o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, e a retirada abrupta — sobretudo durante febre, cirurgia ou trauma — pode expor uma insuficiência adrenal central transitória. Nos cursos curtos de tratamento da recidiva, a associação internacional considera esse risco muito pequeno, e não recomenda desmame gradual no dia alternado, nem no primeiro episódio nem na recidiva. A exposição prolongada e repetida é outra história: é nela que aparecem desaceleração do crescimento, obesidade, catarata, glaucoma e osteopenia, os efeitos que definem toxicidade e mudam a estratégia para um poupador de corticoide.
Como se apresenta de verdade
A síndrome nefrótica da criança se apresenta em poucos desenhos, e cada um pede uma resposta diferente no mesmo plantão. O típico, que é a maioria, trata-se em casa com prednisolona e uma fita. Os outros cinco — a criança seca por dentro, a febre com dor abdominal, a trombose, a que não é típica e a recidivante que já acumula corticoide — são os que internam, os que mudam o exame pedido e os que matam quando passam despercebidos.
A ordem das seções é a do plantão: primeiro a história que chega disfarçada de alergia, depois o que confirma que a criança é típica, e então as complicações da fase nefrótica, da mais silenciosa à mais barulhenta.
A história que chega como alergia
O edema periorbitário é o sinal que abre o quadro na criança típica, e a associação internacional de nefrologia pediátrica registra o que acontece com ele na vida real: no começo pode ser assimétrico e é frequentemente diagnosticado como alergia. A família conta que os olhos amanhecem inchados e desincham ao longo do dia; depois o inchaço desce para as pernas e para a barriga. A roupa marca a pele, o calçado aperta, e a balança sobe mais rápido do que a criança come.

Duas perguntas encurtam o caminho. A primeira é sobre a urina: espuma que persiste no vaso é o jeito como a família descreve proteinúria, e urina escura ou avermelhada é o que puxa a hipótese para o outro lado, o da síndrome nefrítica. A segunda é sobre o peso: a caderneta costuma trazer o último registro da puericultura, e a diferença entre ele e o peso de hoje é, na ausência de outra explicação, água. Essa diferença serve duas vezes — para dimensionar o edema e para calcular a dose pelo peso seco estimado, como a associação internacional recomenda.
A história de alergia tem custo. O antialérgico não faz mal, mas entrega à família uma explicação que atrasa o retorno; e um corticoide receitado em dose de alergia, por poucos dias, não trata a síndrome e embaralha a contagem das quatro semanas que vão classificar a resposta. Pergunte o que a criança já tomou, em que dose e por quantos dias, e escreva no prontuário.
Uma infecção respiratória nos dias anteriores é comum na história e, sozinha, não muda o diagnóstico. Impetigo ou dor de garganta semanas antes, com urina escura e pressão alta, muda: é o desenho da glomerulonefrite pós-estreptocócica, e a distinção entre as duas síndromes, item por item, está no bloco de critérios do capítulo O que mata aqui não é a creatinina, nesta apostila.
O desenho típico: quem se trata sem biópsia
A criança típica tem entre 1 e 12 anos, edema, proteinúria em faixa nefrótica e albumina baixa, e nada além disso: sem hematúria macroscópica, sem hipertensão sustentada, com complemento C3 normal, sem queda de função renal que não se explique por hipovolemia, sem artrite nem lesão de pele, sem traço sindrômico e sem história familiar de síndrome nefrótica. Para ela, o algoritmo da diretriz da KDIGO de 2025 começa corticoide sem biópsia e sem teste genético, e a associação internacional não recomenda biópsia nem genética de rotina acima de 1 ano com apresentação típica.
Cada item da lista tem motivo. Hematúria macroscópica, C3 baixo, hipertensão sustentada, artrite e lesão de pele apontam para glomerulonefrite, que não responde ao corticoide como a lesão mínima. Insuficiência renal que persiste depois de corrigido o volume sugere lesão estrutural. Traço sindrômico — crescimento comprometido, alteração esquelética, do desenvolvimento ou ocular, surdez, genitália ambígua, dismorfia facial — e história familiar sugerem causa genética, que em geral não responde ao corticoide.
Hematúria microscópica, sozinha, não tira a criança do caminho típico. A associação internacional só sugere biópsia pela hematúria microscópica persistente em populações com alta incidência de nefropatia por IgA, citando o leste da Ásia, e menciona o achado de mais de 30 hemácias por campo em urina fresca como critério usado para evitar biópsias desnecessárias. Pressão elevada numa única medida, em criança agitada ou com dor, pede nova medida: o que conta é a hipertensão sustentada, lida pela tabela de percentis como ensina o capítulo O que mata aqui não é a creatinina.
Por fora cheia de água, por dentro seca
A criança com anasarca pode estar hipovolêmica, e é essa a apresentação que mais engana. A associação internacional lista os indicadores clínicos de contração do volume dentro do vaso: vasoconstrição periférica com enchimento capilar prolongado, taquicardia, hipotensão, oligúria, lesão renal aguda e índice cardiotorácico reduzido na radiografia. Quando fala de quem precisa de albumina, acrescenta o desconforto abdominal. Hipertensão, ao contrário, sugere a criança com volume expandido.
Na sala de emergência, o desenho é este: criança muito inchada, mão fria, perfusão lenta, pulso rápido, dor na barriga e fralda ou penico secos há horas. Hipotensão é sinal tardio na criança, e esperar por ela é esperar o choque. O hematócrito sobe pela hemoconcentração, e a creatinina pode subir sem que o rim esteja doente, só pela queda de perfusão.
O sódio pede leitura cuidadosa. Abaixo de 130 mEq/L, depois de afastada a falsa hiponatremia causada pela hiperlipidemia, a associação internacional indica restrição hídrica no hospital. É uma das poucas situações em que se restringe água na síndrome nefrótica; fora dela, restrição hídrica não é rotina, e a criança bebe o que tem sede.
Febre e dor abdominal: peritonite até prova em contrário
A peritonite primária é uma das infecções graves mais comuns na criança nefrótica internada, raramente é a primeira manifestação da doença e pode, ela mesma, desencadear recidiva. A criança chega com febre, dor e distensão abdominal, às vezes com vômitos, sobre uma ascite que já existia. O pneumococo é o agente mais frequente, seguido das bactérias Gram-negativas.
O risco é confundir. A dor abdominal da hipovolemia e a da peritonite podem coexistir na mesma criança, e nenhum achado do exame é confiável o bastante para adiar o antibiótico. A associação internacional recomenda considerar paracentese diagnóstica na criança com dor abdominal e febre, sobretudo quando não há resposta ao antibiótico inicial, e começar antibiótico intravenoso dirigido ao pneumococo — cefalosporina ou amoxicilina em dose alta — sem esperar o resultado do líquido.
Apendicite também acontece na criança nefrótica, e a decisão cirúrgica é de quem examina o abdome. O que não se faz é mandar para casa como virose a criança nefrótica com febre e dor abdominal. Celulite, pneumonia e sepse completam a lista de infecções graves que a associação internacional põe entre os motivos de internação em recidiva.
Trombose e os outros alarmes da fase nefrótica
A trombose na criança nefrótica é sobretudo venosa. A associação internacional descreve trombose venosa cerebral, trombose venosa profunda, embolia pulmonar e, menos vezes, infarto arterial, com a maioria dos eventos nos três primeiros meses depois do início. Os sinais são os de cada território: cefaleia intensa e persistente, vômitos, convulsão ou déficit focal na trombose cerebral; membro inferior inchado de um lado só, com dor, na trombose profunda; taquipneia, dor torácica e queda de saturação na embolia pulmonar.
O que aumenta o risco é, em boa parte, prescrito: hipovolemia, imobilização, internação com infecção e cateter venoso central, somados à predisposição hereditária de algumas famílias. A criança anasarcada deixada na cama, com pouco líquido, diurético e um cateter central instalado por comodidade reúne quase todos. A suspeita leva a exame de imagem e à equipe especializada. A dose e a duração da anticoagulação na criança são decisão da hematologia pediátrica e não são ensinadas aqui; o capítulo Antes de pedir o painel, da apostila de Hematologia e Hemoterapia, trata trombofilia e tromboembolismo no adulto.
Fecham a lista de alarmes a hipertensão, que se mede em toda consulta; a lesão renal aguda sem hipovolemia, que tira a criança do caminho típico; e a varicela, que na criança em corticoide em dose alta é infecção grave. A exposição ao vírus tem prazo de profilaxia e está no bloco de conduta.
Quem sai do caminho típico, e a criança que já é recidivante
Abaixo de 1 ano, a síndrome nefrótica costuma ser outra doença. A associação internacional estima causa genética em cerca de metade das crianças com início entre 3 e 12 meses, em geral sem resposta ao corticoide, e a KDIGO de 2025 manda toda criança abaixo de 1 ano ao nefrologista pediátrico. A partir dos 12 anos, a mesma diretriz indica biópsia ou teste genético e encaminhamento a centro especializado já no início, e a associação internacional recomenda encaminhar e decidir a biópsia caso a caso. O protocolo federal de 2018 põe o corte em 8 anos e manda biopsiar adolescentes precocemente; a régua desta apostila está em Fluxos e tabelas.
A síndrome secundária também sai do caminho típico. O protocolo federal lista doenças sistêmicas, infecções, neoplasias e medicamentos — anti-inflamatórios não esteroides, ouro, penicilamina e captopril — e pede sorologias para hepatite B, hepatite C, HIV e toxoplasmose, além do fator antinuclear. O adolescente com lesão de pele ou artrite, ou a criança com hepatite B conhecida, não é criança típica.
A criança que já é recidivante traz outro exame. A recidiva deve ser descoberta pela fita antes do edema, e o que se procura muda: estatura contra a curva, peso, pressão, face arredondada, estrias, comportamento e sono, visão. São os sinais de toxicidade que a associação internacional define: ganho de peso, hipertensão sustentada, hiperglicemia, alterações de comportamento e sono, velocidade de crescimento abaixo do percentil 25 ou estatura abaixo do percentil 3 numa criança que crescia normalmente, aspecto cushingoide, estrias, glaucoma, catarata, dor óssea e necrose avascular. Recidivante com esses sinais precisa de poupador de corticoide, e quem escolhe é o nefrologista pediátrico.
Como fechar o diagnóstico
A investigação da criança típica é curta e se faz no mesmo dia: quantificar a proteinúria, dosar albumina e lipídios, olhar função renal e eletrólitos, procurar sangue na urina e colher o que o protocolo federal pede para chamar a síndrome de idiopática. O que alonga a lista é sempre um sinal que tirou a criança do caminho típico — e aí a lista passa a ser do nefrologista pediátrico.
A regra que atravessa o bloco: nenhum exame da criança típica justifica atrasar a primeira dose de corticoide depois que a proteinúria em faixa nefrótica e a albumina baixa estão confirmadas; e nenhum exame da criança com febre e dor abdominal justifica atrasar o antibiótico.
Confirmar a proteinúria em faixa nefrótica
A fita reagente dá a suspeita e a quantificação dá o diagnóstico. A associação internacional recomenda confirmar a proteinúria em faixa nefrótica ao menos uma vez por quantificação antes de tratar o primeiro episódio, de preferência pela relação proteína/creatinina da primeira urina da manhã; a urina de 24 horas é alternativa e raramente é prática na criança pequena. A primeira urina da manhã tem uma razão a mais, anotada pela KDIGO de 2025: afasta a proteinúria ortostática.
Os cortes são estes. Faixa nefrótica é relação proteína/creatinina de 2 mg/mg ou mais — o mesmo que 2 g/g ou 200 mg/mmol —, proteinúria de 1.000 mg/m² por dia ou mais em 24 horas, ou fita com 3+ (300 a 1.000 mg/dL) ou 4+ (1.000 mg/dL ou mais). O protocolo federal escreve o mesmo corte como índice proteína/creatinina acima de 2,0 e acrescenta proteinúria acima de 50 mg/kg por dia ou de 40 mg/m² por hora. No adolescente acima de 16 anos, a associação internacional manda usar os cortes do adulto.
A fita mede concentração, e não quantidade: urina muito concentrada superestima e urina muito diluída subestima. Por isso ela serve para triar e para acompanhar a mesma criança ao longo do tempo, sempre na primeira urina da manhã, e a relação proteína/creatinina fica para confirmar e para decidir quando a fita deixa dúvida.
Albumina, lipídios e a definição que se usa
Albumina abaixo de 3 g/dL fecha a síndrome com a proteinúria em faixa nefrótica, pela definição da KDIGO de 2025 e da associação internacional; se não houver albumina disponível, edema com proteinúria em faixa nefrótica basta. O protocolo federal de 2018 exige mais: albumina abaixo de 2,5 g/dL, colesterol total de 240 mg/dL ou mais ou triglicerídeos de 200 mg/dL ou mais, edema e proteinúria, todos juntos. A criança com edema, relação proteína/creatinina de 5 e albumina de 2,8 g/dL tem síndrome nefrótica por uma régua e não tem pela outra. Esta apostila adota a definição de 2025, e a razão está no bloco de divergências.
O método da dosagem importa perto do corte. A associação internacional reproduz a advertência da KDIGO: a albumina deve ser medida por púrpura de bromocresol, eletroforese capilar ou imunonefelometria, porque o verde de bromocresol pode dar resultados falsamente altos. Saber qual método o laboratório de apoio usa evita discutir um décimo de grama em cima de um número inflado.
Colesterol e triglicerídeos altos confirmam a fase nefrótica e não pedem tratamento. A dislipidemia se resolve com a remissão, e a associação internacional não recomenda hipolipemiante de rotina na recidiva nem levotiroxina pela queda transitória do hormônio tireoidiano. Se as alterações persistirem com a proteinúria já negativa, o assunto volta.
Função renal, eletrólitos e hemograma
Creatinina e ureia na chegada separam três situações: normais, que é o esperado; elevadas com sinais de hipovolemia, que se corrigem com o volume; e elevadas sem hipovolemia, que tiram a criança do caminho típico e a levam ao nefrologista pediátrico. A filtração se estima pela fórmula de Schwartz à beira do leito, que a associação internacional reproduz: 0,413 multiplicado pela estatura em centímetros e dividido pela creatinina em mg/dL. Para Amadeu, com 103 cm e creatinina de 0,3 mg/dL, são 142 mL/min/1,73 m².
O hemograma mostra hemoconcentração quando há contração de volume e leucocitose quando há infecção — mas o corticoide também eleva os leucócitos, e o número isolado não decide nada na criança já tratada. Sódio abaixo de 130 mEq/L, afastada a falsa hiponatremia da hiperlipidemia, pede restrição hídrica no hospital na criança sem hipovolemia. Potássio alto com oligúria é sinal de lesão renal e muda a urgência.
O capítulo Hiponatremia na enfermaria, da apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado, ensina o distúrbio do sódio no adulto internado, e a correção da hiponatremia grave e sintomática na criança não tem capítulo neste nível e não é ensinada aqui. O que a síndrome nefrótica acrescenta está neste bloco: a hiponatremia dilucional da fase nefrótica, na criança sem sinais de hipovolemia, se trata com restrição de água, e não com soro.
Separar da nefrítica e da secundária
O exame de urina completo procura hemácias e cilindros. Hematúria macroscópica muda o caminho: a associação internacional recomenda dosar C3, C4, fator antinuclear, anticorpos antiestreptocócicos e ANCA nessa criança, e recomenda biópsia se houver hematúria macroscópica, C3 baixo, hipertensão sustentada, lesão renal não explicada por hipovolemia, artrite ou lesão de pele. A comparação completa entre as duas síndromes é do capítulo O que mata aqui não é a creatinina, dono da distinção entre as duas síndromes.
O protocolo federal pede sorologias para hepatite B, hepatite C, HIV e toxoplasmose e fator antinuclear negativos para caracterizar a síndrome como idiopática. Esta apostila manda colher esses exames antes da primeira dose de corticoide e não esperar o resultado para começar na criança típica, sem hematúria macroscópica e sem hipertensão sustentada: a coleta cumpre o protocolo, e a espera não traria benefício a uma criança em que a causa secundária é improvável. É leitura desta apostila, e não de fonte.
Dois exames que a associação internacional sugere considerar antes do corticoide. IgG contra varicela e contra sarampo, caxumba e rubéola, na criança não vacinada, porque define quem é suscetível numa exposição futura. E ultrassonografia renal, a considerar em toda criança com síndrome nefrótica idiopática para afastar malformação e trombose venosa, e sempre que houver queda de filtração, hematúria ou dor abdominal. Radiografia de tórax só entra na suspeita de linfoma.
Febre e barriga: o que colher sem atrasar o antibiótico
Na criança nefrótica com febre e dor abdominal, colha hemograma, hemocultura, creatinina, eletrólitos e albumina, e chame a avaliação cirúrgica se o exame sugerir abdome cirúrgico. A associação internacional recomenda considerar paracentese diagnóstica, com análise microbiológica e bioquímica do líquido, e insiste que o antibiótico intravenoso dirigido ao pneumococo não espera esse resultado. A ultrassonografia confirma a ascite e ajuda a escolher o ponto da punção.
O capítulo Paracentese, da apostila de Procedimentos e Vias de Acesso, ensina a punção no adulto cirrótico. Na criança, a punção fica com a equipe que tem experiência com ela, e os cortes de leitura do líquido ensinados para a peritonite bacteriana espontânea do cirrótico pertencem a outra doença, com o mesmo nome e outra conduta: aqui, Gram e cultura do líquido e hemocultura ajustam o antibiótico, e a decisão de tratar é clínica.
Na criança que chega em choque, a coleta não atrasa nada. Acesso, volume e antibiótico vêm antes de qualquer imagem, e a hemocultura sai da mesma punção do acesso.
Seguimento: a fita, a curva e os olhos
A fita em casa é o exame mais importante do seguimento. A associação internacional recomenda ensinar a família a testar a urina em casa: todos os dias até a remissão, depois pelo menos duas vezes por semana no primeiro ano, e de novo todos os dias se aparecer 1+ ou mais, febre, infecção ou edema. Onde não houver fita, sugere o teste de coagulação pelo calor ou com ácido sulfossalicílico.
Recidiva, pela associação internacional, é fita com 3+ ou mais — ou relação proteína/creatinina de 2 mg/mg ou mais — por três dias seguidos numa criança que estava em remissão completa, com ou sem edema. Remissão completa é relação de 0,2 mg/mg ou menos, ou fita negativa ou traço, por três dias seguidos. O diário da fita, com data, resultado, febre e dose do dia, é o que permite classificar a criança como recidivante infrequente, frequente ou dependente de corticoide.
No consultório, a associação internacional sugere consulta a cada três meses no primeiro ano; o protocolo federal fala em quatro avaliações por ano na criança em remissão completa, com creatinina, albumina, colesterol, triglicerídeos, hemograma, glicose, exame de urina e relação proteína/creatinina. Em toda consulta, pressão pela tabela de percentis, peso e estatura na curva, como ensina o capítulo A linha, não o ponto, da apostila de Puericultura e Desenvolvimento. Na criança em corticoide prolongado, exame oftalmológico anual; na recidivante frequente ou dependente, vitamina D uma vez por ano, com alvo acima de 20 ng/mL.
Da primeira fita à quarta semana: quem trata em casa, quem interna e quem vai ao nefrologista
O fluxo abaixo cobre a criança com síndrome nefrótica idiopática da primeira consulta ao fim do primeiro curso de corticoide e às recidivas, na ordem em que as decisões chegam ao interno. A régua vem declarada. O único documento brasileiro sobre a doença é o protocolo clínico federal de 2018, aprovado pela Portaria Conjunta nº 1, de 10 de janeiro de 2018, que o Ministério da Saúde ainda publicava como vigente em setembro de 2026 e que governa o fornecimento dos imunossupressores no SUS. Para as definições, o esquema de corticoide e a regra de biópsia, esta apostila adota a diretriz da KDIGO de 2025, harmonizada com as recomendações da associação internacional de nefrologia pediátrica de 2023: mesmo escopo, data mais nova, e o protocolo federal fica registrado como o lado que perdeu, nas divergências. Para o que nem o protocolo nem a KDIGO descrevem — volume, albumina, peritonite, trombose —, não há documento brasileiro, e a régua é a associação internacional. Para vacinas, a régua é brasileira: a Nota Técnica nº 52/2026 e o Manual dos CRIE.
- 11. Criança com edema palpebral ao acordar ou edema generalizado: peso na balança, pressão arterial por ausculta com manguito adequado, frequência cardíaca, enchimento capilar, temperatura e palpação do abdome. Fita reagente na urina.
- 22. Edema com proteinúria intensa sugere síndrome nefrótica; confirme a quantificação e a albumina. Hematúria microscópica pode coexistir. Hematúria macroscópica, hipertensão sustentada, complemento baixo ou disfunção renal não explicada exigem avaliação de apresentação atípica.
- 33. Antes de pedir exames, procure os sinais que mandam para o hospital com pediatria: hipovolemia (mão fria, enchimento capilar prolongado, taquicardia, oligúria, dor abdominal), febre com dor abdominal, sinal de trombose, edema grave com desconforto respiratório ou derrame, varicela declarada. Qualquer um deles: hospital hoje.
- 44. Sem nenhum deles: confirmar a síndrome — relação proteína/creatinina de 2 mg/mg ou mais, de preferência na primeira urina da manhã; albumina abaixo de 3 g/dL; creatinina, ureia, sódio, potássio, hemograma, colesterol e triglicerídeos; exame de urina completo. Colher na mesma punção as sorologias do protocolo federal (hepatite B, hepatite C, HIV, toxoplasmose) e fator antinuclear, e IgG para varicela e sarampo se não houver vacina registrada.
- 55. Confirmada a síndrome, procure o que tira a criança do caminho típico: início antes de 1 ano ou com 12 anos completos ou mais, hematúria macroscópica, C3 baixo, hipertensão sustentada, lesão renal sem hipovolemia, artrite ou lesão de pele, traço sindrômico, história familiar, causa secundária. Qualquer um deles: nefrologista pediátrico antes do corticoide.
- 66. Criança típica: defina o peso seco estimado, que é o último peso da caderneta antes do edema, e escreva-o na receita.
- 77. Prednisolona ou prednisona 2 mg/kg/dia do peso seco, teto de 60 mg, em dose única de manhã, por 4 semanas. Na criança pequena, solução oral de fosfato sódico de prednisolona de 3 mg/mL. A alternativa por superfície, 60 mg/m²/dia, vale igualmente pelas três réguas.
- 88. No mesmo dia: fita diária em casa com diário escrito; sódio de 2 a 3 mEq/kg/dia enquanto houver edema; sem restrição de água; sem diurético; sinais de retorno imediato explicados; encaminhamento ao nefrologista pediátrico pela regulação.
- 99. Cartão de vacinas no mesmo dia: inativadas sem atraso, influenza anual, pedido de VPC20 à rede especial. Vacina de vírus vivo espera o fim da dose imunossupressora — 20 mg/dia ou mais, ou 2 mg/kg/dia ou mais até 10 kg, por 14 dias ou mais — e mais um mês.
- 1010. Quarta semana com remissão completa (fita negativa ou traço, ou relação de 0,2 mg/mg ou menos, por três dias seguidos): 1,5 mg/kg em dias alternados, teto de 40 mg, por 4 semanas, e parar, sem desmame. O curso de 6 mais 6 semanas é igualmente aceito e se decide no primeiro dia, não na quarta semana.
- 1111. Sem remissão completa após quatro semanas de dose padrão, confirmar dose, adesão e quantificação da proteinúria e encaminhar prontamente à nefrologia. Na remissão parcial, o período de confirmação até a sexta semana é conduzido pelo especialista; ausência de resposta ou sinais atípicos não devem ficar apenas em espera.
- 1212. Recidiva (fita com 3+ ou mais por três dias seguidos, ou relação de 2 mg/mg ou mais): 2 mg/kg/dia, teto de 60 mg, até três dias de remissão completa; depois 1,5 mg/kg em dias alternados, teto de 40 mg, por 4 semanas.
- 1313. Infecção respiratória na criança recidivante: não dar corticoide diário de rotina; fita diária enquanto durar a infecção; tratar se virar recidiva. A exceção — três doses extras de 0,5 mg/kg/dia para quem já usa dose baixa em dias alternados e recai a cada infecção — é decisão do nefrologista.
- 1414. Duas ou mais recidivas nos seis meses após remissão inicial ou três ou mais em doze meses caracterizam recidiva frequente. Duas recidivas consecutivas durante o tratamento com corticoide, inclusive redução da dose, ou até 14 dias após sua suspensão caracterizam dependência. Discutir estratégia de manutenção com nefrologia.
- 1515. Febre com dor abdominal na criança nefrótica: hemocultura e ceftriaxona intravenosa de 50 a 75 mg/kg sem esperar o líquido; paracentese diagnóstica quando a equipe puder fazê-la; internação.
- 1616. Hipovolemia: suspender diurético e inibidor do sistema renina-angiotensina; albumina a 20% de 0,5 a 1 g/kg em 4 a 6 horas; furosemida de 1 a 2 mg/kg intravenosa no meio ou no fim da infusão só se o volume estiver restaurado e a diurese seguir insuficiente. Choque ou hipotensão: albumina a 4% ou 5%, sem furosemida.
- 1717. Contato significativo com varicela em criança suscetível sob corticoide: imunoglobulina antivaricela-zóster em até 96 horas, 125 UI por 10 kg (mínimo 125, máximo 625 UI). Sem a imunoglobulina nesse prazo: aciclovir oral de 10 mg/kg quatro vezes ao dia por 7 dias, iniciado em até 7 a 10 dias do contato.
Definições que decidem a conduta: a régua adotada e a do protocolo federal
| Termo | KDIGO 2025 e associação internacional 2023 (adotadas) | Protocolo federal de 2018 | O que muda para a criança |
|---|---|---|---|
| Síndrome nefrótica | Relação proteína/creatinina de 2 mg/mg ou mais, ou fita com 3+ ou 4+, com albumina abaixo de 3 g/dL — ou com edema, se não houver albumina | Edema, índice proteína/creatinina acima de 2,0, albumina abaixo de 2,5 g/dL e colesterol de 240 mg/dL ou mais ou triglicerídeos de 200 mg/dL ou mais, todos juntos, com sorologias negativas | A criança com albumina entre 2,5 e 2,9 g/dL, ou sem dislipidemia, tem a doença e é tratada |
| Remissão completa | Relação de 0,2 mg/mg ou menos, ou fita negativa ou traço, por três dias seguidos ou mais | Exame de urina sem proteína por mais de 3 dias ou índice 'igual ou acima de 0,3' — defeito com a conta nas notas | É a condição para passar a dias alternados; relação de 1,2 não é remissão |
| Remissão parcial | Relação proteína/creatinina >0,2 e <2 mg/mg; albumina ≥3 g/dL quando disponível | Índice acima de 0,3 e abaixo de 2,0, proteinúria de 0,3 a 3,5 g/1,73 m² por dia, ou 'redução da proteinúria abaixo de 50% do valor basal' | Na quarta semana, remissão parcial é caminho de corticorresistência, e não de dia alternado |
| Corticossensível | Remissão completa em até 4 semanas de dose padrão | Sem prazo próprio: a sensibilidade se infere da ausência de resistência em 8 semanas | A resposta se lê na quarta semana |
| Corticorresistente | Sem remissão completa em 4 semanas; período de confirmação entre a quarta e a sexta semana | Sem remissão completa com 8 semanas de prednisona, ou com 4 semanas e 3 a 6 pulsos de metilprednisolona | Especialista, biópsia e genética quatro semanas antes |
| Recidiva | Fita com 3+ ou mais, ou relação de 2 mg/mg ou mais, por três dias seguidos, depois de remissão completa | Proteinúria acima de 50 mg/kg/dia ou de 3,5 g/1,73 m² por dia, ou índice acima de 2,0, depois de remissão completa | A fita em casa decide, com três dias seguidos |
| Recidivante frequente | Duas ou mais recidivas nos 6 meses após a remissão inicial, ou três ou mais em qualquer período de 12 meses (a KDIGO 2025 define o infrequente como menos de três em 12 meses) | Duas ou mais recidivas em até 6 meses, ou quatro no período de 1 ano | A terceira recidiva do ano já leva ao nefrologista |
| Dependente de corticoide | Duas recidivas seguidas durante o corticoide do primeiro episódio ou da recidiva, ou até 14 dias depois de suspendê-lo; recidiva em dose baixa de manutenção não conta | Duas ou mais recidivas em uso de corticoide ou até 14 dias depois do término | Indica poupador de corticoide pela KDIGO 2025 |
Quem não é criança típica: sinais que mudam o caminho antes do corticoide
| Sinal | O que sugere | O que fazer | Régua |
|---|---|---|---|
| Início antes de 1 ano | Causa genética em cerca de metade das crianças com início entre 3 e 12 meses; forma congênita abaixo de 3 meses | Nefrologista pediátrico antes de qualquer corticoide; genética ou biópsia | KDIGO 2025; associação internacional 2023 |
| Início com 12 anos completos ou mais | Lesão mínima menos provável | Biópsia ou teste genético e centro especializado já no início. A Figura 2 da KDIGO escreve 'acima de 12 anos' e a Figura 5, '12 anos ou mais'; esta apostila usa 12 completos | KDIGO 2025 (adotada por data); o protocolo federal fala em 8 anos e em biopsiar adolescentes precocemente |
| Hematúria macroscópica | Glomerulonefrite | C3, C4, fator antinuclear, anticorpos antiestreptocócicos e ANCA; biópsia | Associação internacional 2023; protocolo federal |
| C3 baixo | Glomerulonefrite pós-infecciosa, membranoproliferativa ou lúpica | Biópsia; a distinção com a nefrítica está em O que mata aqui não é a creatinina | Associação internacional 2023; protocolo federal |
| Hipertensão sustentada | Glomerulonefrite ou lesão estrutural | Confirmar pela tabela de percentis; biópsia se persistir | Associação internacional 2023; protocolo federal |
| Lesão renal que não se explica por hipovolemia | Lesão estrutural | Corrigir o volume e reavaliar; persistindo, biópsia | KDIGO 2025; associação internacional 2023 |
| Artrite, lesão de pele, sinais de vasculite | Doença sistêmica | Nefrologista pediátrico; biópsia | KDIGO 2025; associação internacional 2023 |
| Traço sindrômico ou história familiar de síndrome nefrótica | Causa genética, em geral sem resposta ao corticoide | Teste genético e nefrologista pediátrico | KDIGO 2025 |
| Sorologia positiva, fator antinuclear positivo ou medicamento associado (anti-inflamatório não esteroide, ouro, penicilamina, captopril) | Síndrome nefrótica secundária | Tratar a causa com o especialista | Protocolo federal |
| Sem remissão completa na quarta semana | Corticorresistência | Nefrologista pediátrico na mesma semana; confirmação até a sexta; biópsia e genética | KDIGO 2025 (adotada por data); o protocolo federal espera 8 semanas |
Conversão de doses para Amadeu: 4 anos, 103 cm, peso seco estimado de 15,0 kg (16,8 kg com edema)
| Situação | Dose e teto | Conta para 15,0 kg | Apresentação da rede e volume |
|---|---|---|---|
| Primeiro episódio, dose diária por 4 semanas | 2 mg/kg/dia, teto de 60 mg | 30 mg/dia. Por superfície (0,655 m² pela fórmula de Mosteller), 60 mg/m² dariam 39 mg, 31% a mais | Fosfato sódico de prednisolona 3 mg/mL: 10 mL uma vez de manhã. Ou prednisona 20 mg + dois comprimidos de 5 mg. Ambos no Componente Básico da Rename 2024 |
| Dias alternados por 4 semanas | 1,5 mg/kg, teto de 40 mg | 22,5 mg a cada 48 horas | 7,5 mL da solução de 3 mg/mL; ou prednisona 20 mg + meio comprimido de 5 mg |
| Recidiva | 2 mg/kg/dia até três dias de remissão completa; depois 1,5 mg/kg em dias alternados por 4 semanas | 30 mg/dia; depois 22,5 mg a cada 48 horas | 10 mL; depois 7,5 mL da solução de 3 mg/mL |
| Manutenção em dose baixa, se o nefrologista indicar | 0,5 mg/kg ou menos em dias alternados | 7,5 mg ou menos a cada 48 horas | 2,5 mL ou menos da solução de 3 mg/mL |
| Erro frequente: dose pelo peso com edema | 2 mg/kg × 16,8 kg | 33,6 mg/dia, 12% acima da dose pelo peso seco | Escreva o peso seco na receita |
| Quando o teto entra | 60 mg/dia; 40 mg em dias alternados | Teto diário a partir de 30 kg; teto do dia alternado a partir de 26,7 kg | Criança de 32 kg: 60 mg/dia e 40 mg em dias alternados, e não 64 e 48 mg |
| Albumina a 20% na hipovolemia ou no edema grave | 0,5 a 1 g/kg em 4 a 6 horas | 7,5 a 15 g | 37,5 a 75 mL (a 20% há 0,2 g por mL). Não consta da Rename 2024: produto hospitalar |
| Furosemida no meio ou no fim da albumina | 1 a 2 mg/kg intravenosa | 15 a 30 mg | 1,5 a 3,0 mL da solução injetável de 10 mg/mL, Componente Básico |
| Ceftriaxona na peritonite | 50 a 75 mg/kg uma vez ao dia; a bula dá 20 a 80 mg/kg de 15 dias a 12 anos | 750 a 1.125 mg | 1 g reconstituído com 9,4 mL de água dá 100 mg/mL: 7,5 a 11,3 mL, infundidos em 30 minutos ou mais |
| Imunoglobulina antivaricela-zóster | 125 UI por 10 kg, mínimo 125 e máximo 625 UI, em até 96 horas | 187,5 UI | Apresentação de 125 UI em 2,5 mL, Componente Estratégico: 3,75 mL |
| Aciclovir oral, sem imunoglobulina a tempo | 10 mg/kg quatro vezes ao dia por 7 dias | 150 mg por dose; 600 mg/dia | Só comprimido de 200 mg na Rename 2024: três quartos de comprimido por dose. Suspensão oral não consta |
| Sódio da dieta enquanto houver edema | 2 a 3 mEq/kg/dia | 30 a 45 mEq, ou 690 a 1.035 mg de sódio | 1,75 a 2,6 g de sal por dia, contando o sal que já vem nos alimentos |
Vacinas e exposição à varicela na criança com síndrome nefrótica
| Situação | Regra | Fonte | Para Amadeu |
|---|---|---|---|
| Quando o corticoide passa a imunossuprimir | 2 mg/kg/dia ou mais até 10 kg, ou 20 mg/dia ou mais por 14 dias ou mais | Manual dos CRIE, item 4.6.1 | Com 30 mg/dia desde o primeiro dia, está em dose imunossupressora a partir do 14º dia |
| Vacinas de vírus vivo: tríplice viral, tetraviral, varicela, febre amarela | Não aplicar em dose imunossupressora; aplicar um mês depois da interrupção do corticoide. A varicela é permitida em dose baixa, abaixo de 2 mg/kg/dia e de 20 mg/dia | Manual dos CRIE; associação internacional 2023 | Esta apostila espera um mês depois da última dose do curso inteiro, e não só da fase diária, para a família ter uma única data |
| Influenza inativada | Anual; a síndrome nefrótica está nas indicações da rede especial; vacinar também quem mora com a criança | Manual dos CRIE; associação internacional 2023 | Aplicar sem esperar a remissão |
| Pneumocócica | VPC20 pela rede especial: de 12 a 59 meses com VPC10 completa, duas doses com 8 semanas de intervalo; a partir de 5 anos, dose única. Enquanto houver estoque de VPC13 e VPP23, a rede segue o esquema antigo do manual | Nota Técnica nº 52/2026 (contradição interna com a conta nas notas) | Duas doses de VPC20, a primeira já, pois a última conjugada foi aos 12 meses |
| Demais vacinas inativadas do calendário | Sem atraso, mesmo em corticoide em dose alta; o protocolo federal de 2018 prefere a remissão e sem corticoide para pneumococo e varicela | Associação internacional 2023 (adotada por data); protocolo federal | Conferir o cartão hoje e completar o que faltar |
| Contato significativo com varicela em suscetível | Imunoglobulina antivaricela-zóster em até 96 horas, de preferência em 24 a 48; contato significativo é convívio domiciliar contínuo de uma hora ou mais em ambiente fechado, ou o mesmo quarto de hospital. Sem a imunoglobulina a tempo: aciclovir oral por 7 dias, iniciado em até 7 a 10 dias do contato | Manual dos CRIE (imunoglobulina); associação internacional 2023 (aciclovir) | Perguntar hoje por irmãos, primos e creche, e registrar se ele já teve varicela ou vacina |
| Varicela declarada | Aciclovir intravenoso de 1.500 mg/m²/dia em três doses, ou oral, por 7 a 10 dias; reduzir a imunossupressão sem suspender o corticoide de forma abrupta | Associação internacional 2023 | Internar |
| Conviventes | Influenza anual e vacinas de vírus vivo em dia nos suscetíveis da casa | Manual dos CRIE; associação internacional 2023 | Conferir o cartão da irmã e dos adultos da casa |
Três percursos desde a primeira consulta
| Percurso | O que verificar | O que acompanhar |
|---|---|---|
| Apresentação típica e estável | Proteinúria, albumina, função renal, pressão e perfusão; decisão terapêutica supervisionada | Peso, edema, pressão, fita urinária, efeitos adversos e remissão na quarta semana. |
| Apresentação atípica ou complicação | Idade, história familiar/sistêmica, hematúria macroscópica, complemento, função renal; infecção, trombose ou hipovolemia | Avaliação especializada precoce; hospital quando houver gravidade. Não aplicar automaticamente o percurso ambulatorial. |
| Recidiva em criança previamente sensível | Confirmar retorno da proteinúria; procurar complicação e conferir o diário e tratamento anterior | Duração até remissão, frequência de recidivas e toxicidade acumulada; discutir manutenção se frequente ou dependente. |
Monitorização que muda a prescrição
| Dado | Pergunta clínica | Consequência |
|---|---|---|
| Peso, edema e perfusão | A criança está congestionada, hipovolêmica ou estável? | Não prescrever albumina ou diurético apenas pelo edema. |
| Pressão e crescimento | Há hipertensão ou toxicidade acumulada? | Rever exposição a corticoide e plano com a equipe. |
| Fita e proteinúria quantitativa | Há remissão completa, resposta incompleta ou recidiva? | Conferir técnica, dose e adesão antes de classificar resposta. |
| Febre, dor abdominal, dispneia ou edema unilateral | Há infecção ou trombose? | Avaliação no mesmo dia; sintomas graves exigem emergência. |
A remissão deve ser definida por critérios coerentes de proteinúria, não por um sinal de desigualdade isolado no protocolo antigo. Nesta apostila, remissão completa corresponde a relação proteína/creatinina ≤0,2 mg/mg ou fita negativa/traço por três dias. A definição KDIGO de remissão parcial exige relação >0,2 e <2 mg/mg e, se a albumina estiver disponível, valor ≥3 g/dL. Não passar para dias alternados apenas porque a fita melhorou.
Sal ou sódio, no protocolo federal e na associação internacional. O protocolo recomenda "restrição de sal em torno de 500-700 mg/dia para crianças de aproximadamente 10 kg de peso e em até 2 g/dia para crianças maiores". A cifra é de sódio. Conta: a associação internacional recomenda 2 a 3 mEq/kg/dia; em 10 kg são 20 a 30 mEq, que, a 23 mg de sódio por mEq, dão 460 a 690 mg de sódio — o número do protocolo —, ou 1,17 a 1,75 g de sal. Lidos como sal, 500 a 700 mg contêm só 197 a 276 mg de sódio, 0,86 a 1,2 mEq/kg/dia, cerca de 2,5 vezes menos: uma dieta que a família não sustenta e a criança não come. Um defeito da mesma família está na associação internacional: a recomendação diz 2 a 3 mEq por quilo por dia, e a legenda da Figura 4 escreve "2 a 3 mEq por dia", sem o por quilo — 46 a 69 mg de sódio, quinze vezes menos que os 690 a 1.035 mg da recomendação numa criança de 15 kg. Esta apostila usa 2 a 3 mEq/kg/dia de sódio.
Indução da recidiva no protocolo federal. Para recidivas frequentes e dependência, o item 7.2 começa com prednisona diária de 60 mg/m² até a remissão completa por 3 dias e, na "outra conduta" — a que o item 6 recomenda —, escreve "prednisona (60 mg/m2/48h) até o desaparecimento da proteinúria por 3 dias", seguida de redução até 15 a 20 mg/m² a cada 48 horas por 12 a 18 meses. O próprio texto justifica a escolha pela duração da manutenção, e não pelo intervalo da indução, e a primeira recidiva, no mesmo item, é induzida com dose diária. Conta: 60 mg/m² a cada 48 horas equivalem, em média, a 30 mg/m² por dia — metade da intensidade justamente na fase de induzir remissão. A KDIGO de 2025 e a associação internacional induzem toda recidiva com dose diária, e esta apostila também.
Ciclofosfamida no protocolo federal. O item 7.2 escreve que "a dose é 2 mg/kg/dia durante 12 semanas até uma dose cumulativa máxima de 168 mg". O teto é por quilo. Conta: 2 mg/kg por dia durante 84 dias somam 168 mg/kg, e a associação internacional escreve o teto cumulativo como 168 mg/kg. Numa criança de 18 kg, a dose diária de 36 mg esgotaria os 168 mg no quinto dia de um curso que soma 3.024 mg. A ciclofosfamida é prescrição do nefrologista pediátrico; o erro fica registrado porque o protocolo é a régua do fornecimento dela no SUS e porque a unidade básica acompanha o hemograma dessa criança.
Anticoagulação no protocolo federal. Ao descrever quem alguns autores consideram de alto risco trombótico, o protocolo escreve "albumina sérica abaixo de 2 mg/dL". A unidade é g/dL: 2 mg/dL é mil vezes menos que 2 g/dL e não ocorre em ninguém vivo. O protocolo não recomenda anticoagulação profilática, e a associação internacional também não a recomenda de rotina — mas o corte errado tira do texto o marcador que pesa quando a equipe especializada discute prevenção numa criança com outros fatores de risco. Leia 2 g/dL.
Vacina pneumocócica 20-valente de 1 a 4 anos, na Nota Técnica nº 52/2026. O item 5.1.2 e o Quadro 2 — este escrito para as indicações de 12 a 21, que incluem nefropatia crônica e síndrome nefrótica — mandam duas doses de VPC20, com 8 semanas de intervalo, à criança de 12 meses a 4 anos com esquema completo de VPC10. O item 5.3.2 manda a "crianças e adultos" com esquema completo de VPC10 ou VPC13, sem VPP23, uma dose de VPC20, "sem necessidade de doses adicionais". Conta: Amadeu, com 4 anos e VPC10 completa, recebe duas doses por um item e uma pelo outro. Esta apostila adota as duas doses pelo degrau de escopo: o Quadro 2 é o escrito para a faixa etária e o grupo de indicação dele. A partir dos 5 anos os dois itens concordam na dose única.
Corte do corticoide na criança de até 10 kg, no Manual dos CRIE. O item 4.6.1 considera imunossupressora a prednisona de 2 mg/kg/dia ou mais nas crianças de até 10 kg, e o capítulo da varicela só vacina com dose "menor que 2 mg/kg de peso/dia"; o Quadro 2 põe no alto grau de imunodepressão só a dose maior que 2 mg/kg/dia em menores de 10 kg. Conta: uma criança de 9 kg em 18 mg/dia recebe exatamente 2 mg/kg/dia — a dose padrão da síndrome nefrótica — e é imunossuprimida pelo item 4.6.1 sem ser de alto grau pelo Quadro 2. Esta apostila trata 2 mg/kg/dia como dose imunossupressora, que é a leitura do item 4.6.1 e do capítulo da varicela.
A diretriz pediátrica da KDIGO de 2021 foi substituída. O capítulo 4 da diretriz de doenças glomerulares de 2021 dava teto de 50 mg no dia alternado e recomendava corticoide diário de 0,5 mg/kg por 5 a 7 dias nas infecções respiratórias da criança recidivante. A diretriz da KDIGO de 2025, publicada em maio de 2025 para substituir aquele capítulo, baixou o teto para 40 mg e passou a recomendar que o corticoide diário não seja dado de rotina nas infecções. Conta do teto: com 1,5 mg/kg em dias alternados, o teto de 40 mg entra aos 26,7 kg, e o de 50 mg entraria aos 33,3 kg; uma criança de 32 kg receberia 48 mg pela régua velha e 40 mg pela nova. Material que ainda cita a KDIGO de 2021 como régua pediátrica está desatualizado.
Albumina humana fora da Rename. A associação internacional usa albumina a 20% ou 25% na criança hipovolêmica e no edema grave, e a 4% ou 5% no choque; albumina humana não consta da Rename 2024, e o protocolo federal da criança não a menciona. O produto é hospitalar, e o serviço que recebe a criança nefrótica grave precisa saber antes se tem albumina e em que concentração, porque a dose se conta em gramas e o volume muda quatro vezes entre as concentrações: 7,5 g são 37,5 mL a 20% e 150 mL a 5%.
A conduta, hora a hora
A linha do tempo abaixo acompanha Amadeu, a criança típica, da primeira consulta à recidiva, e abre dois desvios que podem acontecer com qualquer criança nefrótica em qualquer semana: a hipovolemia e a febre com dor abdominal. As doses estão calculadas para o peso seco de 15,0 kg e conferidas em Fluxos e tabelas.
Onde a conduta depende de régua, a régua vem dita no marco: esquema e definições pela KDIGO de 2025 e pela associação internacional de nefrologia pediátrica; vacinas pela Nota Técnica nº 52/2026 e pelo Manual dos CRIE; albumina, peritonite e trombose pela associação internacional, porque nenhum documento brasileiro as descreve.
Minuto 0 — antes de qualquer receita: volume, febre e trombose
A primeira decisão não é o corticoide, é onde a criança vai ser tratada. A criança típica, com boa perfusão, sem febre, sem dor abdominal e com uma família capaz de voltar, trata-se em casa com seguimento próximo. Hipovolemia, febre com dor abdominal, sinal de trombose, edema com desconforto respiratório ou varicela declarada mandam para o hospital no mesmo dia — são as situações que a associação internacional chama de recidiva complicada quando acontecem numa criança já diagnosticada. Amadeu tem mãos quentes, enchimento capilar abaixo de dois segundos, frequência cardíaca de 108, abdome sem dor e está afebril: fica na unidade básica.
Prescrição- Peso na balança e peso da caderneta anotados lado a lado: 16,8 kg hoje, 15,0 kg há sete semanas — peso seco estimado de 15,0 kg.
- Pressão arterial por ausculta, com manguito adequado, lida pela tabela de percentis para idade, sexo e estatura.
- Frequência cardíaca, enchimento capilar, temperatura das extremidades, diurese nas últimas horas e palpação do abdome.
- Pergunta direta sobre dor de cabeça, vômitos, dor ou inchaço numa perna só e falta de ar.
- Para Amadeu, estável e bem perfundido: não indicar diurético ou restrição de água de rotina. Reavaliar a estratégia se surgirem hipovolemia, hiponatremia ou edema grave; não aplicar a mesma prescrição a toda criança edemaciada.
Hora 1 — confirmar e colher, sem esperar pelo que não muda a primeira dose
A fita já disse proteína 4+. A associação internacional pede a proteinúria confirmada por quantificação ao menos uma vez antes do primeiro curso, e o protocolo federal pede sorologias e fator antinuclear para chamar a síndrome de idiopática. Tudo sai numa coleta. A primeira urina da manhã é a melhor amostra para a relação proteína/creatinina; se a urina de hoje já não foi a primeira, colha assim mesmo e peça à mãe a primeira urina de amanhã num frasco limpo. A primeira dose de prednisolona espera a relação proteína/creatinina e a albumina, que o laboratório de apoio devolve no mesmo dia. Não espera as sorologias.
Prescrição- Relação proteína/creatinina em amostra isolada de urina, de preferência a primeira da manhã.
- Albumina sérica, com o método registrado no laudo; creatinina, ureia, sódio, potássio, hemograma, colesterol total e triglicerídeos.
- Exame de urina completo, procurando hematúria e cilindros.
- Sorologias para hepatite B, hepatite C, HIV e toxoplasmose, e fator antinuclear, pelo protocolo federal.
- IgG para varicela e para sarampo se a vacina não estiver registrada no cartão.
- Ultrassonografia renal a considerar, sobretudo se houver queda de filtração, hematúria ou dor abdominal.
Dia 1, de manhã — a primeira dose, pelo peso seco
Relação proteína/creatinina de 6,8 mg/mg, albumina de 1,9 g/dL, colesterol total de 312 mg/dL, creatinina de 0,3 mg/dL, sódio de 136 mEq/L e urina sem hematúria: síndrome nefrótica pela régua adotada e também pela do protocolo federal, numa criança típica. A dose é 2 mg/kg do peso seco, com teto de 60 mg, uma vez de manhã, na apresentação que a criança engole. A associação internacional considera prednisona e prednisolona intercambiáveis na mesma dose e prefere prednisolona na criança pequena, pelo sabor. Esta apostila calcula por peso, e não por superfície: as três réguas aceitam as duas formas, dois ensaios pequenos não mostraram diferença de eficácia nem de toxicidade, e a dose por peso chega à menor dose acumulada — nesta criança, a superfície daria 31% a mais. A escolha é desta apostila.
Prescrição- Fosfato sódico de prednisolona, solução oral de 3 mg/mL: 10 mL (30 mg) por via oral, uma vez ao dia, pela manhã, do 1º ao 28º dia. Peso seco de 15,0 kg escrito na receita.
- Se faltar a solução: prednisona 20 mg, 1 comprimido, mais prednisona 5 mg, 2 comprimidos, pela manhã.
- Dieta com sódio de 2 a 3 mEq/kg/dia enquanto houver edema — 690 a 1.035 mg de sódio, ou 1,75 a 2,6 g de sal no dia inteiro —, sem embutidos, salgadinhos e temperos prontos; água à vontade.
- Nenhum inibidor da enzima conversora nem bloqueador do receptor da angiotensina para o edema ou para a pressão durante a recidiva, como recomenda a associação internacional.
- Cálcio da dieta garantido, como recomenda a associação internacional; suplemento de cálcio só se a ingestão for insuficiente.
- Retorno em uma semana, e antes diante de qualquer sinal de alarme.
Dia 1 — o que a família leva para casa
A família sai com três instrumentos e uma lista. O frasco de fitas, com o diário. O cartão de vacinas revisado. A receita com o peso seco escrito. A lista é a dos sinais que trazem a criança de volta no mesmo dia, e ela vem antes da explicação sobre a doença, porque é ela que salva. O encaminhamento ao nefrologista pediátrico sai hoje: a associação internacional considera que, idealmente, toda criança com síndrome nefrótica corticossensível deve ser acompanhada por um nefrologista pediátrico, ou em conjunto com ele, desde o início, e reconhece que, onde ele falta ou fica longe, o pediatra geral assume a responsabilidade principal.
Prescrição- Fita reagente na primeira urina da manhã, todos os dias, anotada no diário com data, resultado, febre e dose do dia.
- Voltar no mesmo dia se houver febre, dor de barriga, vômitos, prostração, urina muito escassa, dor de cabeça forte, dor ou inchaço numa perna só, ou falta de ar.
- Corticoide nunca suspenso por conta própria; se a criança vomitar a dose, avisar a unidade no mesmo dia.
- Cartão de vacinas: inativadas do calendário completadas sem atraso; influenza na campanha; pedido de VPC20 à rede de imunobiológicos especiais com a indicação síndrome nefrótica — duas doses com 8 semanas de intervalo, pela idade de 4 anos.
- Nenhuma vacina de vírus vivo até um mês depois da última dose do curso; irmã e adultos da casa com influenza e vacinas de vírus vivo em dia.
- Registrar se houve contato recente com varicela e se a criança já teve a doença ou recebeu a vacina.
- Encaminhamento ao ambulatório de nefrologia pediátrica pela regulação.
Qualquer dia — a criança muito inchada que ficou seca por dentro
Se a criança volta com mãos frias, enchimento capilar lento, taquicardia, dor abdominal e pouca urina, o problema é falta de volume dentro do vaso, e a conduta é a oposta do instinto. A associação internacional manda suspender diurético e inibidor do sistema renina-angiotensina, dar albumina a 20% ou 25% e acrescentar furosemida intravenosa no meio ou no fim da infusão só se o volume tiver sido restaurado e a diurese continuar insuficiente. Na criança em choque ou hipotensa, albumina a 4% ou 5%, sem furosemida. Em toda infusão de albumina, vigiar pressão, frequência respiratória e ausculta durante e depois: edema pulmonar e hipertensão são as complicações, sobretudo na criança que já era hipertensa ou urina pouco. Albumina humana não consta da Rename 2024 — é produto hospitalar, e quem transfere precisa saber se o destino tem. Esta mesma criança é a de maior risco de trombose: nada de imobilização desnecessária, nada de cateter venoso central por comodidade.
Prescrição- Internação com monitorização de frequência cardíaca, pressão, saturação e diurese.
- Suspender furosemida, espironolactona, inibidor da enzima conversora e bloqueador do receptor da angiotensina, se estiverem em uso.
- Albumina humana a 20%: 0,5 a 1 g/kg em 4 a 6 horas — 7,5 a 15 g, que são 37,5 a 75 mL para 15 kg.
- Furosemida intravenosa 1 a 2 mg/kg — 15 a 30 mg, ou 1,5 a 3,0 mL da solução de 10 mg/mL — no meio ou no fim da infusão, só com a perfusão recuperada e a diurese ainda insuficiente.
- Choque ou hipotensão: albumina a 4% ou 5%, sem furosemida, com a equipe de emergência pediátrica.
- Sódio abaixo de 130 mEq/L numa criança sem hipovolemia, afastada a falsa hiponatremia da hiperlipidemia: restrição hídrica.
- Deambulação assim que possível; acesso venoso periférico em vez de central; sinal de trombose leva a exame de imagem e à hematologia pediátrica.
- Prednisolona mantida na dose do dia.
Qualquer dia — febre com dor abdominal: peritonite até prova em contrário
A criança nefrótica com febre e dor abdominal recebe antibiótico intravenoso dirigido ao pneumococo sem esperar o líquido ascítico, como recomenda a associação internacional, que cita cefalosporina ou amoxicilina em dose alta. A bula da ceftriaxona dá 20 a 80 mg/kg uma vez ao dia de 15 dias a 12 anos e registra precipitação de ceftriaxona nas vias urinárias sobretudo com 80 mg/kg/dia ou mais em criança desidratada ou acamada — exatamente a criança nefrótica hipovolêmica internada. Esta apostila prescreve 50 a 75 mg/kg: dentro da faixa da bula, alta para infecção grave e abaixo do limiar do alerta. É leitura desta apostila, porque nenhuma das fontes fixa a dose para a peritonite da criança nefrótica. A paracentese diagnóstica, com Gram e cultura, entra quando a equipe pode fazê-la sem atrasar o antibiótico, sobretudo se a febre não ceder. O corticoide não se suspende de forma abrupta, e a criança em curso prolongado que entra em choque sem explicação pode ter insuficiência adrenal: a dose de hidrocortisona da crise na criança está em O choque que pede cortisol, da apostila de Endocrinologia.
Prescrição- Hemocultura antes da primeira dose, sem atrasá-la.
- Ceftriaxona intravenosa 50 a 75 mg/kg uma vez ao dia — para 15 kg, 750 a 1.125 mg, ou 7,5 a 11,3 mL da solução de 100 mg/mL (1 g em 9,4 mL de água) —, infundida em 30 minutos ou mais.
- Paracentese diagnóstica com citologia, bioquímica, Gram e cultura quando a equipe puder fazê-la; sobretudo se a febre não ceder com o antibiótico.
- Avaliação cirúrgica se o abdome sugerir apendicite ou perfuração.
- Correção do volume antes, e não depois, se houver sinais de hipovolemia, pelo marco anterior.
- Prednisolona mantida, nunca suspensa de forma abrupta.
- Antibiótico ajustado pela cultura, com a duração decidida pela evolução.
Semana 4 — a fita que classifica a doença
Amadeu negativou a fita no 9º dia e manteve fita negativa ou traço desde então. Na consulta da quarta semana, isso é remissão completa dentro do prazo, e ele é corticossensível. A partir do 29º dia, a dose passa a 1,5 mg/kg em dias alternados, com teto de 40 mg, por mais 4 semanas, e para no fim, sem desmame: a KDIGO de 2025 e a associação internacional não recomendam redução gradual no dia alternado. O protocolo federal de 2018 manda reduzir rapidamente depois das 4 semanas em dias alternados, e é o lado que perdeu na primeira divergência. Se a fita não tivesse negativado até a quarta semana, a leitura seria outra: suspeita de corticorresistência, nefrologista pediátrico na mesma semana, investigação conduzida por ele; na remissão parcial, pode haver período de confirmação até a sexta semana, com planejamento de biópsia e genética conforme o caso. Manter a dose plena até a oitava semana sem chamar ninguém, como permite o protocolo federal, gasta quatro semanas de corticoide e de espera.
Prescrição- Fosfato sódico de prednisolona 3 mg/mL: 7,5 mL (22,5 mg) por via oral, pela manhã, em dias alternados, do 29º ao 56º dia; depois, parar.
- Fita diária até o fim do curso; depois, pelo menos duas vezes por semana no primeiro ano, e diária se aparecer 1+ ou mais, febre ou edema.
- Pressão, peso e estatura na curva a cada consulta; consulta a cada três meses no primeiro ano.
- Sem remissão completa na 4ª semana: nefrologista pediátrico na mesma semana, sem esperar a 8ª.
- Vacinas de vírus vivo que ficaram para trás marcadas para um mês depois da última dose.
Meses depois — a primeira recidiva, a gripe e a varicela da irmã
Cinco meses depois, Leocádia liga: há três dias a fita marca 3+ na primeira urina da manhã, e as pálpebras voltaram a inchar. É recidiva pela definição adotada, 3+ por três dias seguidos. O tratamento é o da KDIGO de 2025: dose diária até três dias de remissão completa e, depois, dias alternados por 4 semanas. Uma recidiva, sozinha, não faz dele recidivante frequente; duas nos 6 meses depois da remissão inicial, ou três em 12 meses, fariam de Amadeu um recidivante frequente, e duas seguidas durante o corticoide ou até 14 dias depois o fariam dependente de corticoide — nos dois casos, o nefrologista escolhe entre dose baixa de manutenção e poupador de corticoide. Numa gripe sem proteinúria, não se começa corticoide diário de rotina; a fita passa a ser diária. E, se a irmã aparecer com varicela, o relógio começa na hora do contato: imunoglobulina antivaricela-zóster em até 96 horas, se Amadeu nunca teve varicela nem vacina.
Prescrição- Recidiva: fosfato sódico de prednisolona 3 mg/mL, 10 mL (30 mg) pela manhã, todos os dias, até três dias seguidos de fita negativa ou traço; depois 7,5 mL (22,5 mg) em dias alternados por 4 semanas, e parar.
- Infecção respiratória sem proteinúria: nenhum corticoide diário de rotina; fita diária até a infecção passar.
- Recidivas contadas no diário: duas nos 6 meses após a remissão inicial, três em 12 meses, ou duas seguidas durante o corticoide ou até 14 dias depois — nefrologista pediátrico.
- Contato significativo com varicela em suscetível: imunoglobulina antivaricela-zóster 125 UI por 10 kg — 187,5 UI, ou 3,75 mL da apresentação de 125 UI em 2,5 mL — em até 96 horas.
- Sem a imunoglobulina nesse prazo: aciclovir oral 10 mg/kg quatro vezes ao dia por 7 dias — 150 mg por dose, três quartos do comprimido de 200 mg —, iniciado em até 7 a 10 dias do contato.
- Varicela declarada: internação e aciclovir intravenoso; redução da imunossupressão pelo especialista, sem suspensão abrupta do corticoide.
Como saber se está funcionando
Na criança nefrótica, a melhora se mede em casa antes de se medir no consultório: a fita da manhã responde antes do edema, e o edema responde antes da albumina. No hospital, o que se acompanha é outra coisa — perfusão, diurese e o pulmão durante a albumina.
Os parâmetros valem para o primeiro episódio e para as recidivas. Os prazos são os das réguas adotadas, e o que fazer quando o esperado não chega está em cada linha.
Esperado: Negativa ou traço por três dias seguidos dentro das 4 primeiras semanas; 85 a 90% das crianças remitem em quatro a seis semanas.
Se não melhora: Sem remissão completa na quarta semana: suspeita de corticorresistência e nefrologista pediátrico na mesma semana. Depois da remissão, 3+ ou mais por três dias seguidos é recidiva e se trata no dia.
Esperado: Queda progressiva em direção ao peso seco à medida que a proteinúria negativa e a diurese aumenta.
Se não melhora: Peso que sobe com a fita já negativa pede revisão do sal e do líquido prescrito; peso que cai depressa com mãos frias e pouca urina é perda de volume, e não melhora.
Esperado: Enchimento capilar abaixo de dois segundos, frequência cardíaca normal para a idade, diurese mantida.
Se não melhora: Hipovolemia: suspender diurético, albumina a 20% pelo marco de conduta e nova avaliação a cada infusão; choque, albumina a 4% ou 5% sem furosemida.
Esperado: Abaixo do percentil 90 para idade, sexo e estatura.
Se não melhora: Hipertensão sustentada tira a criança do caminho típico e a leva ao nefrologista; pressão que sobe durante a albumina, com taquipneia ou estertores, é sobrecarga — interromper a infusão e reavaliar.
Esperado: Afebril, abdome sem dor.
Se não melhora: Febre com dor abdominal: hemocultura, ceftriaxona intravenosa sem esperar o líquido, paracentese quando possível e internação.
Esperado: Crescimento na mesma linha da curva; apetite e humor alterados durante o curso, que voltam ao normal depois dele.
Se não melhora: Velocidade de crescimento abaixo do percentil 25, estatura abaixo do percentil 3, obesidade, hipertensão sustentada, catarata ou glaucoma: toxicidade, e o nefrologista discute poupador de corticoide.
Esperado: Inativadas em dia, influenza anual, VPC20 aplicada; nenhuma vacina de vírus vivo durante a dose imunossupressora nem no mês seguinte; contato com varicela perguntado.
Se não melhora: Contato com varicela em suscetível: imunoglobulina antivaricela-zóster em até 96 horas. Vacina de vírus vivo pendente: remarcada para um mês depois da última dose do corticoide.
Onde o erro machuca
O dano: O edema palpebral da síndrome nefrótica é frequentemente diagnosticado como alergia, e a semana perdida é a semana em que a criança pode ficar hipovolêmica, fazer peritonite ou trombose sem ninguém saber que é nefrótica. Um corticoide em dose de alergia, por poucos dias, ainda embaralha a contagem das quatro semanas que classificam a resposta.
Como pegar a tempo: Edema palpebral ao acordar, ou edema que desce para as pernas, leva à fita reagente na mesma consulta. Proteína 3+ ou 4+ muda a consulta: peso, pressão, perfusão e exames no mesmo dia.
O dano: A criança com anasarca pode estar com o vaso vazio. Diurético nela precipita lesão renal aguda, choque hipovolêmico e trombose, e a família vê a criança desinchar enquanto ela piora.
Como pegar a tempo: Diurético não entra no edema não complicado. Antes de qualquer diurético, perfusão, frequência cardíaca e diurese; na hipovolemia, albumina a 20% primeiro, e furosemida só com o volume restaurado e a diurese insuficiente.
O dano: O peso com edema superestima a dose — 12% a mais em Amadeu —, a falta de teto dá 64 mg por dia a uma criança de 32 kg, e a dose dividida não traz eficácia a mais, só mais toxicidade.
Como pegar a tempo: Peso seco estimado escrito na receita, teto de 60 mg na dose diária e de 40 mg no dia alternado, dose única pela manhã.
O dano: Pela régua adotada, a criança sem remissão completa na quarta semana é suspeita de corticorresistência. Manter dose plena até a oitava sem investigar soma quatro semanas de corticoide sem efeito e adia biópsia, teste genético e o tratamento que funciona.
Como pegar a tempo: Consulta marcada no 28º dia, com o diário da fita na mão. Sem remissão completa, nefrologista pediátrico na mesma semana.
O dano: A infecção é a principal causa de morte associada à doença, e a peritonite pneumocócica é uma das infecções graves mais comuns na criança internada. O atraso do antibiótico é o que mata, e esperar o líquido ascítico ou a imagem é atraso.
Como pegar a tempo: Febre com dor abdominal na criança nefrótica é internação, hemocultura e ceftriaxona intravenosa sem demora, com paracentese quando a equipe puder fazê-la.
O dano: Vacina de vírus vivo aplicada durante a dose imunossupressora expõe a criança à doença causada pelo próprio vírus vacinal; adiar todas as vacinas até o fim do tratamento deixa sem proteção contra pneumococo e influenza justamente quem mais morre dessas infecções.
Como pegar a tempo: Inativadas sem atraso, influenza anual e VPC20 pela rede especial desde o diagnóstico; vírus vivo só um mês depois de terminar o corticoide em dose alta; conviventes vacinados.
O que dizer ao paciente e à família
A conversa é com Leocádia, mãe de Amadeu, e ela chegou convencida de que era alergia. Vai ouvir a palavra rim e pensar em hemodiálise, vai ouvir corticoide e pensar em engordar, e vai sair com um frasco de fitas que nunca viu. Cada fala abaixo resolve uma dessas três coisas, na ordem em que a dúvida aparece.
Sete falas cabem numa consulta se a lista de sinais de alarme vier por escrito. O resto se repete no retorno da primeira semana, com o diário da fita na mão.
Explicar o que ele tem, sem assustar e sem minimizar
“"Não é alergia. O rim do Amadeu está deixando passar proteína para a urina — é por isso que ela faz espuma. Sem essa proteína no sangue, a água sai dos vasos e vai para as pálpebras, para as pernas e para a barriga. Na idade dele, isso quase sempre responde a um remédio que ele vai tomar de manhã, e as crianças que respondem raramente ficam com o rim doente."”
Não diga: "É uma doença renal crônica." Não descreve a criança típica corticossensível, e a mãe sai da consulta ouvindo diálise.
Responder por que não vai fazer biópsia
“"A biópsia serviria para descobrir o tipo de lesão. Nas crianças da idade dele, com esse quadro, o próprio remédio responde essa pergunta: se a urina limpar em até quatro semanas, a gente sabe o tipo e sabe que a resposta é boa. Se não limpar, ele vai para o especialista, e aí a biópsia entra."”
Não diga: "Biópsia não precisa, isso é exagero." Tira da família a razão da regra e deixa sem explicação a biópsia que pode vir na quarta semana.
Prescrever corticoide para quem tem medo de corticoide
“"É prednisolona, uma vez por dia, de manhã: 10 mL na seringa, calculados pelo peso que ele tinha antes de inchar. Ele vai ter mais fome, a bochecha pode arredondar e o humor pode mudar; isso passa depois que o remédio acaba. O que não pode é parar por conta própria, nem diminuir porque ele desinchou: a senhora me liga antes."”
Não diga: "Se ele engordar muito, pode parar." A suspensão por conta própria interrompe o curso que classifica a doença e, depois de semanas de dose alta, pode deixar a criança sem cortisol numa febre.
Ensinar a fita e o que é recidiva
“"Toda manhã, molhe a fita no primeiro xixi e compare a cor com o frasco. Anote no caderno o dia, a cor, se teve febre e se ele tomou o remédio. Quando a fita ficar negativa ou só traço por três dias seguidos, ele entrou em remissão. Se depois disso ela marcar três cruzes por três dias seguidos, a doença voltou — e isso acontece com a maioria das crianças, não é culpa de ninguém. A senhora liga, e a gente começa o remédio de novo."”
Não diga: "Se voltar, é porque vocês erraram alguma coisa." Recidiva é o curso esperado em sete ou oito de cada dez crianças, e a culpa faz a família esconder a fita.
Falar de sal e de água
“"Enquanto ele estiver inchado, comida de casa com pouco sal: nada de salgadinho, embutido, macarrão instantâneo e tempero pronto. Água ele bebe quando tiver sede, não precisa cortar. E nenhum chá ou remédio para fazer urinar: nele, isso pode fazer mal."”
Não diga: "Corta o sal e a água até desinchar." Restrição de água não é rotina e, somada a um diurético caseiro, empurra a criança para a hipovolemia.
Os sinais que não esperam o retorno
“"Tem coisas que não esperam a consulta da semana que vem: febre; dor de barriga; vômito; ele muito mole ou sonolento; urina muito pouca; dor de cabeça forte; uma perna só inchada, ou dor no peito e falta de ar. Com qualquer uma delas, a senhora vem direto, mesmo que a fita esteja boa. Vou escrever aqui atrás da receita."”
Não diga: "Qualquer coisa, a senhora volta." Sem a lista, febre com dor de barriga vira virose em casa, e é assim que a peritonite chega tarde.
Vacinas, catapora e a irmã
“"As vacinas que não são de vírus vivo ele toma normalmente, inclusive a da gripe e a do pneumococo, que vou pedir no centro de vacinas especiais. As de vírus vivo — tríplice, catapora, febre amarela — esperam um mês depois de acabar o remédio. E uma coisa importante: se a irmã, alguém da creche ou da família pegar catapora, a senhora me avisa no mesmo dia. Existe uma injeção que diminui a chance de a catapora ser grave, mas ela tem prazo de quatro dias depois do contato."”
Não diga: "Vacina nenhuma enquanto ele estiver tratando." Deixa sem vacina de pneumococo e de gripe a criança que mais morre dessas infecções.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Protocolo federal de 2018: dose plena até 8 semanas sem remissão; redução depois do dia alternado
O item 7.2 do protocolo clínico federal manda prednisona 60 mg/m²/dia ou 2 mg/kg/dia, teto de 60 mg, por 4 semanas; sem remissão completa, a mesma dose até 8 semanas. Com remissão, 40 mg/m² ou 1,5 mg/kg a cada 48 horas por mais 4 semanas, sem teto escrito, "e depois reduzida rapidamente", num total de 2 a 3 meses. Corticorresistência é a falta de remissão completa com 8 semanas de prednisona, ou com 4 semanas mais 3 a 6 pulsos de metilprednisolona.
Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Síndrome Nefrótica Primária em Crianças e Adolescentes. Portaria Conjunta nº 1, de 10/01/2018, itens 7 e 7.2.
KDIGO 2025 e associação internacional 2023: 4 semanas definem a resposta; dia alternado com teto de 40 mg, sem desmame
A diretriz da KDIGO de 2025 recomenda 8 semanas (4 diárias e 4 em dias alternados) ou 12 semanas (6 e 6), com 60 mg/m²/dia ou 2 mg/kg/dia, teto de 60 mg, e 40 mg/m² ou 1,5 mg/kg em dias alternados, teto de 40 mg. Define corticossensível como remissão completa em 4 semanas e corticorresistente como a falta dela em 4 semanas, com período de confirmação entre a quarta e a sexta semana. A associação internacional, em 2023, diz o mesmo e acrescenta, com recomendação forte, que não se faz desmame no dia alternado. A KDIGO de 2021, que dava teto de 50 mg, foi substituída pela de 2025.
KDIGO 2025 Clinical Practice Guideline for the Management of Nephrotic Syndrome in Children. Kidney Int 2025;107(5S):S241–S289 (Rec 1.3.1.1, PP 1.3.1.1, Figura 1). Trautmann A et al. IPNA clinical practice recommendations for children with steroid-sensitive nephrotic syndrome. Pediatr Nephrol 2023;38:877–919.
Os dois lados governam a mesma criança no mesmo momento, então não é cronologia. O escopo empata: os três documentos foram escritos para a criança com síndrome nefrótica idiopática. Decide o degrau da data: a diretriz de 2025 e as recomendações de 2023 são mais novas que o protocolo de 2018 e trazem o que ele não tem — uma resposta lida com prazo de 4 semanas, um período de confirmação conduzido pelo especialista e um teto para o dia alternado. Esta apostila adota 4 semanas diárias mais 4 em dias alternados, teto de 40 mg no dia alternado, sem desmame, e trata a falta de remissão completa na quarta semana como suspeita de corticorresistência, com nefrologista pediátrico na mesma semana. Para a criança à sua frente: se o serviço que a acompanha segue o protocolo federal e mantém a dose até a oitava semana, a dose diária é a mesma nos dois lados; o que não pode é a quarta semana passar sem que alguém leia a fita e acione o especialista.
Protocolo federal de 2018: edema, proteinúria, albumina abaixo de 2,5 e hiperlipidemia, todos; remissão com índice abaixo de 0,3
O item 3 do protocolo exige, para o diagnóstico, edema, proteinúria nefrótica, albumina abaixo de 2,5 g/dL e colesterol total de 240 mg/dL ou mais ou triglicerídeos de 200 mg/dL ou mais, além de sorologias e fator antinuclear negativos. O item 7 define remissão completa por exame de urina sem proteína por mais de 3 dias ou por um índice proteína/creatinina que o texto escreve "igual ou acima de 0,3", em contradição com o item 6, que usa "menor que 0,3".
Brasil. Ministério da Saúde. PCDT da Síndrome Nefrótica Primária em Crianças e Adolescentes. Portaria Conjunta nº 1/2018, itens 3, 6 e 7.
KDIGO 2025 e associação internacional 2023: albumina abaixo de 3 g/dL, ou edema; remissão com relação de 0,2 ou fita negativa
A KDIGO de 2025 define síndrome nefrótica como proteinúria em faixa nefrótica — relação proteína/creatinina de 2 g/g ou mais, ou fita com 3+ ou 4+ — com albumina abaixo de 3 g/dL, ou com edema quando a albumina não estiver disponível, sem exigir dislipidemia. Remissão completa é relação de 0,2 g/g ou menos, ou fita negativa ou traço, por três dias seguidos. As definições foram harmonizadas com as da associação internacional de 2023.
KDIGO 2025 Clinical Practice Guideline for the Management of Nephrotic Syndrome in Children, Figura 1. Trautmann A et al. Pediatr Nephrol 2023;38:877–919, Tabela 1.
O escopo empata, e a data decide pela definição de 2025. O quarto degrau reforça no ponto da remissão: o protocolo federal escreve o corte de duas maneiras incompatíveis, e um índice de 1,2 seria remissão completa e parcial ao mesmo tempo. Esta apostila adota albumina abaixo de 3 g/dL, ou edema quando não houver albumina, e remissão completa com relação de 0,2 mg/mg ou menos ou fita negativa ou traço por três dias. Para a criança à sua frente, a diferença aparece em dois lugares: a criança com albumina de 2,5 a 2,9 g/dL, ou sem colesterol alto, recebe o diagnóstico e o tratamento; e a criança com relação de 0,5 na quarta semana não está em remissão e não passa para dias alternados. Quando a liberação de um imunossupressor pelo protocolo federal exigir os critérios dele, eles valem para a liberação — é regra de acesso, e não de diagnóstico.
KDIGO 2021: 0,5 mg/kg/dia por 5 a 7 dias em cada infecção
A recomendação 4.3.2.1 do capítulo pediátrico da diretriz de doenças glomerulares de 2021 mandava dar corticoide diário de 0,5 mg/kg/dia por 5 a 7 dias, durante infecções respiratórias e outras, à criança recidivante frequente ou dependente de corticoide que estivesse em dias alternados ou sem corticoide, para reduzir o risco de recidiva. O protocolo federal de 2018 descreve estudos em que aumentar a dose de manutenção durante infecções virais reduziu recidivas, sem transformar isso em esquema.
KDIGO 2021 Clinical Practice Guideline for the Management of Glomerular Diseases. Kidney Int 2021;100(4S):S1–S276, Rec 4.3.2.1. Brasil. Ministério da Saúde. PCDT da Síndrome Nefrótica Primária em Crianças e Adolescentes, 2018, item 6.
KDIGO 2025 e associação internacional 2023: não dar de rotina; considerar só em quem recai a cada infecção já em dose baixa
A KDIGO de 2025 reescreveu a própria recomendação: corticoide diário não deve ser dado de rotina durante infecções respiratórias para reduzir recidivas, e um curso curto — três doses extras de 0,5 mg/kg/dia — pode ser considerado na criança que já usa dose baixa em dias alternados e tem recidivas repetidas associadas a infecção ou morbidade importante do corticoide. A associação internacional chegou à mesma posição em 2023 a partir de um ensaio randomizado com 271 crianças, adequado em poder e de baixo risco de viés, que não mostrou benefício de cinco dias de dose baixa no início da infecção; os quatro ensaios menores que mostravam benefício tinham alto risco de viés.
KDIGO 2025, Rec 1.3.2.1 e PP 1.3.2.1. Trautmann A et al. Pediatr Nephrol 2023;38:877–919.
Não é cronologia, é revisão: a mesma organização mudou de lado. O escopo empata, e a data decide pela diretriz de 2025, apoiada pelo ensaio de maior porte. Esta apostila adota não dar corticoide diário de rotina na infecção respiratória. Para a criança à sua frente, com coriza e fita negativa: fita diária enquanto durar a infecção, e o esquema de recidiva só se aparecer 3+ por três dias seguidos. Se ela já usa dose baixa em dias alternados e o diário mostra recidiva a cada resfriado, a exceção existe — três doses extras de 0,5 mg/kg/dia —, mas é decisão do nefrologista que a acompanha, combinada antes da próxima infecção.
O raciocínio, em voz alta
Amadeu Palmeira, 4 anos e 3 meses, 103 cm, chega à unidade básica às 8h20 de uma segunda-feira com edema palpebral há cinco dias, atribuído a alergia, e edema de membros inferiores e abdome desde a véspera. Pesa 16,8 kg; a caderneta registra 15,0 kg há sete semanas. Está ativo, afebril, com mãos quentes, enchimento capilar abaixo de dois segundos, frequência cardíaca de 108 e pressão de 96 por 58 mmHg, abaixo do percentil 90. A fita mostra proteína 4+ e sangue negativo. A mãe, Leocádia, conta que a urina faz espuma. O laboratório de apoio recolhe amostras às dez e devolve a bioquímica no fim da tarde.
onde ele vai ser tratado
Antes do diagnóstico, a pergunta é se há motivo para hospital hoje. Não há: perfusão boa, frequência cardíaca normal para a idade, sem dor abdominal, sem febre, sem sinal de trombose, sem desconforto respiratório. Amadeu fica na unidade básica, com a família orientada a voltar no mesmo dia diante de qualquer sinal de alarme. Diurético e restrição de água ficam fora, porque o edema dele não é complicado e o risco maior da criança nefrótica é ficar seca por dentro.
o que a fita e a pressão já dizem
Proteína 4+ sem sangue, pressão abaixo do percentil 90 e edema que obedece à gravidade num menino de 4 anos: síndrome nefrótica, e não nefrítica. Não há hematúria macroscópica, hipertensão sustentada nem história de impetigo ou dor de garganta. Idade entre 1 e 12 anos, sem traço sindrômico e sem história familiar: se os exames confirmarem, ele é criança típica.
o que colho, e o que não espero
Relação proteína/creatinina na urina de agora — e a mãe traz a primeira urina de amanhã —, albumina, creatinina, ureia, sódio, potássio, hemograma, colesterol, triglicerídeos e exame de urina completo. Na mesma punção, as sorologias do protocolo federal e o fator antinuclear. O cartão registra vacinas contra varicela e contra sarampo, caxumba e rubéola, então IgG não é necessária. A prednisolona espera a relação proteína/creatinina e a albumina; não espera as sorologias.
o resultado da tarde
Relação proteína/creatinina de 6,8 mg/mg, albumina de 1,9 g/dL, colesterol de 312 mg/dL, creatinina de 0,3 mg/dL, sódio de 136 mEq/L, hemograma sem hemoconcentração e urina sem hematúria. É síndrome nefrótica pela definição adotada — relação acima de 2 e albumina abaixo de 3 — e também pela do protocolo federal, que exige albumina abaixo de 2,5 e colesterol alto. Filtração estimada pela fórmula de Schwartz de 142 mL/min/1,73 m². Criança típica, sem indicação de biópsia.
a dose, escrita com o peso seco
Peso seco estimado de 15,0 kg, o da caderneta. Prednisolona 2 mg/kg/dia = 30 mg, abaixo do teto de 60 mg, uma vez pela manhã: 10 mL da solução de 3 mg/mL, do 1º ao 28º dia. Pelo peso da balança seriam 33,6 mg, 12% a mais; por superfície, 39 mg. O peso seco vai escrito na receita para que a dose não seja recalculada pelo peso com edema em outro atendimento.
o que vai para casa
Fita diária na primeira urina, com diário. Sódio de 2 a 3 mEq/kg/dia enquanto houver edema, água à vontade, nenhum diurético. A lista de sinais para voltar no mesmo dia, por escrito. Pedido de VPC20 à rede especial — duas doses com 8 semanas de intervalo, pela idade — e influenza na campanha; nenhuma vacina de vírus vivo até um mês depois do fim do curso. Encaminhamento ao nefrologista pediátrico pela regulação. Retorno em uma semana.
a quarta semana
No 28º dia, o diário mostra fita negativa desde o 9º dia. Remissão completa dentro de 4 semanas: Amadeu é corticossensível. Do 29º ao 56º dia, 22,5 mg (7,5 mL) em dias alternados, abaixo do teto de 40 mg, e o curso termina no 56º dia sem desmame. Se a fita não tivesse negativado, o passo seria o nefrologista pediátrico na mesma semana, e não a oitava semana de dose plena.
o que fica marcado
Peso voltando aos 15 kg na curva, pressão normal, fita duas vezes por semana no primeiro ano, consulta a cada três meses. Vacinas de vírus vivo que estiverem pendentes, marcadas para um mês depois do 56º dia. A família sabe que sete ou oito em cada dez crianças recaem, que a recidiva se descobre pela fita — três dias seguidos de 3+ —, que se trata no mesmo dia e que não é fracasso.
Faça você
Aldair Medina, 6 anos, com síndrome nefrótica corticossensível desde os 4, chega ao pronto atendimento às 23h10 de uma sexta-feira trazido pelo pai, Celedônio. Está no 16º dia de prednisolona 40 mg por dia, iniciada para a terceira recidiva em dez meses, e a fita ainda marca 3+. Há seis horas tem febre de 38,9 °C, dor abdominal difusa e dois vômitos. A caderneta registra 20,0 kg antes da recidiva; hoje pesa 22,4 kg. Frequência cardíaca de 132, pressão de 98 por 62 mmHg, extremidades frias, enchimento capilar de 3 segundos, abdome distendido e doloroso à palpação difusa, com macicez móvel. Urinou pouco desde a tarde. A irmã mais nova apareceu com lesões de varicela há dois dias, e Aldair dorme no mesmo quarto que ela. O pai não sabe se ele teve catapora, e o cartão não tem vacina de varicela registrada.
o que está acontecendo
Dois problemas se sobrepõem e um terceiro tem prazo. Taquicardia, extremidades frias, enchimento capilar de 3 segundos e pouca urina, numa criança 2,4 kg acima do peso seco: hipovolemia com edema. Febre, vômitos e abdome doloroso sobre ascite, em recidiva e em corticoide: peritonite até prova em contrário. E contato domiciliar contínuo com varicela há dois dias, numa criança sem registro de vacina nem de doença, em dose imunossupressora há 16 dias.
o que vem primeiro
Volume e antibiótico antes de qualquer imagem, e hemocultura na punção do acesso. Diurético está fora. A imunoglobulina antivaricela-zóster tem prazo de 96 horas desde o contato; passaram-se cerca de 48, então há tempo, mas o pedido sai nesta noite.
as contas para o peso seco de 20 kg
Complete: albumina a 20% de 0,5 a 1 g/kg em 4 a 6 horas — quantos gramas e quantos mililitros? Furosemida de 1 a 2 mg/kg — em que momento, sob que condição e quantos mililitros da solução de 10 mg/mL? Ceftriaxona de 50 a 75 mg/kg — quantos miligramas e quantos mililitros da solução de 100 mg/mL? Imunoglobulina antivaricela-zóster de 125 UI por 10 kg — quantas unidades e quantos mililitros da apresentação de 125 UI em 2,5 mL?
o corticoide desta noite
Ele vomitou duas vezes e está no 16º dia de dose alta. O corticoide não se suspende. Se a dose do dia foi perdida e ele não tolera a via oral, a equipe decide a via; se a perfusão não responder ao volume e ao antibiótico, insuficiência adrenal entra na hipótese, e a dose de hidrocortisona da crise na criança está em O choque que pede cortisol, da apostila de Endocrinologia.
o que a terceira recidiva em dez meses já disse
Três recidivas em dez meses fazem de Aldair um recidivante frequente pela definição adotada. Ele precisa do nefrologista pediátrico para manutenção em dose baixa ou poupador de corticoide, e o encaminhamento sai na alta desta internação, e não na quarta recidiva.
Ver como fecharíamos
Aldair é internado, e diurético e inibidor do sistema renina-angiotensina ficam suspensos. Pelo peso seco de 20,0 kg: albumina a 20%, 0,5 a 1 g/kg, são 10 a 20 g, ou 50 a 100 mL, em 4 a 6 horas, com pressão, frequência respiratória e ausculta vigiadas; furosemida intravenosa de 1 a 2 mg/kg, 20 a 40 mg, ou 2 a 4 mL da solução de 10 mg/mL, no meio ou no fim da infusão, só se a perfusão tiver voltado e a diurese continuar insuficiente. A pressão de 98 por 62 ainda não é hipotensão para 6 anos, então a albumina é a de 20%; se ele ficar hipotenso ou evoluir para choque, albumina a 4% ou 5%, sem furosemida. Hemocultura e ceftriaxona intravenosa de 50 a 75 mg/kg, 1.000 a 1.500 mg, ou 10 a 15 mL da solução de 100 mg/mL, infundida em 30 minutos ou mais, sem esperar o líquido; paracentese diagnóstica com Gram e cultura quando a equipe puder fazê-la, e avaliação cirúrgica. Imunoglobulina antivaricela-zóster de 125 UI por 10 kg, 250 UI, ou 5 mL da apresentação de 125 UI em 2,5 mL, pedida nesta noite para ser aplicada dentro das 96 horas do contato; se não chegar a tempo, aciclovir oral de 10 mg/kg quatro vezes ao dia por 7 dias — 200 mg por dose, um comprimido —, iniciado em até 7 a 10 dias do contato. Prednisolona mantida, sem suspensão abrupta. Na alta, encaminhamento ao nefrologista pediátrico como recidivante frequente e cartão de vacinas revisto: influenza, VPC20 em dose única pela idade de 6 anos, e vacina de varicela, se ele continuar suscetível, um mês depois de terminar o corticoide em dose alta.
Pela KDIGO de 2025 e pela associação internacional, remissão completa é relação proteína/creatinina de 0,2 mg/mg ou menos, ou fita negativa ou traço, por três dias; 1,1 mg/mg com albumina de 3,1 g/dL é remissão parcial. Sem remissão completa em 4 semanas de dose padrão, a criança é suspeita de corticorresistência, e o período de confirmação, entre a quarta e a sexta semana, é conduzido pelo nefrologista pediátrico, com investigação de corticorresistência e planejamento de biópsia e genética conforme a avaliação. O protocolo federal de 2018 espera oito semanas e define remissão completa com um índice "igual ou acima de 0,3", defeito que contradiz o próprio texto e que, lido ao pé da letra, mandaria esta criança para dias alternados. Dobrar a dose ultrapassa o teto de 60 mg e não é conduta de nenhuma régua; suspender o corticoide antes da avaliação especializada também não.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Construa o plano para uma criança típica de quatro anos: confirme os critérios, estime peso seco com dados recentes e exame, calcule uma prescrição e confira-a com o preceptor. Explique à família como registrar a fita e quais sintomas exigem retorno imediato. Diferencie remissão completa, parcial e ausência de resposta usando proteinúria e albumina.
Em 30 dias
Revise um diário de tratamento, anotando resposta, pressão, peso, crescimento e efeitos adversos. Compare apresentação típica, recidiva e quadro atípico. Num caso de edema com hipoperfusão, justifique a indicação de reposição antes de calcular o volume; explique por que furosemida depende da reavaliação. Encerre com calendário de consultas e prevenção de infecções.
Agora atenda
Você é o interno da manhã numa unidade básica e recebe um menino de quatro anos que acordou com os olhos inchados há cinco dias. A farmácia disse que era alergia. Hoje a bermuda marca a barriga, e a mãe comenta que o xixi está fazendo espuma.
