Pediatria › Neonatologia
Depois que o coração voltou
Encefalopatia hipóxico-isquêmica e asfixia perinatal
A reanimação termina quando a frequência cardíaca sobe; a lesão do cérebro asfixiado continua por dias. Este capítulo ensina a reconhecer a asfixia pela régua, graduar a encefalopatia à beira do leito, decidir a hipotermia terapêutica dentro de seis horas — inclusive no hospital que não a tem — e cuidar dos órgãos e da família até o seguimento.
Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento Científico de Neonatologia (2019-2021). Hipotermia terapêutica. Documento Científico nº 4. SBP, junho de 2020. Relator: Renato S. Procianoy.
Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento Científico de Neonatologia (2019-2021). Monitoramento do recém-nascido com asfixia perinatal. Manual de Orientação nº 8. SBP, setembro de 2020. Relatores: Gabriel Fernando Todeschi Variane e Maurício Magalhães.
Almeida MFB, Guinsburg R; Coordenadores Estaduais do PRN-SBP; Grupo Executivo do PRN-SBP; Departamento de Neonatologia da SBP. Reanimação do recém-nascido ≥34 semanas em sala de parto: diretrizes 2026 da Sociedade Brasileira de Pediatria. Rio de Janeiro: SBP, 12 de junho de 2026. ISBN 978-65-85299-07-7. https://doi.org/10.25060/PRN-SBP-2026-1
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Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024.
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No início da hipotermia terapêutica, um recém-nascido de 3,4 kg recebe oferta hídrica total de 50 mL/kg/dia e deve manter velocidade de infusão de glicose (VIG) de 5 mg/kg/min. Qual concentração de glicose a solução precisa ter, e por qual via?
O paciente que você vai ver
Segunda-feira, cinco e cinco da manhã, maternidade municipal de uma cidade de noventa mil habitantes, campo de estágio do seu internato. A unidade neonatal tem seis leitos, dois de terapia intensiva, um ventilador, monitores e bombas de infusão. Não tem colchão de resfriamento, termômetro esofágico, eletroencefalograma nem ressonância. A UTI neonatal de referência, com protocolo de hipotermia terapêutica, fica no hospital universitário a 140 quilômetros — o mesmo hospital onde você passa as manhãs desta semana.
Iolanda Canabrava, 29 anos, segunda gestação, 39 semanas e 2 dias, pré-natal de risco habitual sem intercorrências, chegou às 3h40 com dor abdominal súbita, sangramento vaginal e útero endurecido. A frequência cardíaca fetal estava em 70 bpm. A cesárea de emergência tirou o bebê às 4h20, e a obstetra descreveu na folha cirúrgica um coágulo retroplacentário extenso: descolamento prematuro de placenta.
Jonas nasceu com 3.400 g, sem tônus, sem respirar e com frequência cardíaca abaixo de 60 bpm. A equipe fez reanimação avançada — ventilação, intubação, massagem e adrenalina — e a frequência passou de 100 bpm no nono minuto. O boletim de Apgar ampliado registra 1 no primeiro minuto, 3 no quinto, 5 no décimo, 6 no décimo quinto e 7 no vigésimo. A pediatra colheu sangue arterial do cordão ainda na sala: pH 6,86 e excesso de base de −19 mmol/L. Jonas chegou à unidade intubado, às 4h50.
Quando você entra, às 5h05, ele tem 45 minutos de vida. Está sob o berço de calor radiante ligado no modo manual, na potência em que ficou desde a sala de parto, e a temperatura axilar que a técnica de enfermagem acabou de medir é 37,9 °C. Frequência cardíaca de 168 bpm, saturação de 98% com fração inspirada de oxigênio de 0,40, pressão arterial média de 44 mmHg no monitor não invasivo. A glicemia capilar da admissão foi 52 mg/dL. Jonas não abre os olhos quando você o chama, mexe pouco, está com os braços largados ao lado do corpo e os punhos dobrados.
A pediatra plantonista, que tem outros dois recém-nascidos para olhar, pede três coisas: que você faça o exame neurológico completo e anote a hora, que ligue para a central de regulação e que converse com o pai, Belquior Serqueira, que está no corredor desde as quatro horas e ainda não sabe se o filho está vivo. Iolanda está na sala de recuperação da cesárea, perguntando pelo bebê a cada vez que alguém passa.
Antes de qualquer uma dessas tarefas há uma conta, e ela é a primeira decisão do plantão. Jonas nasceu às 4h20. A hipotermia terapêutica, se ele precisar dela, tem de começar antes das 10h20, num hospital que fica a duas horas de estrada. Tudo o que você fizer nas próximas cinco horas e quinze minutos — a temperatura do berço, o exame repetido, a ligação, o fenobarbital, o papel que vai junto com ele na ambulância — acontece dentro dessa janela.
Quem adoece disso
Em 2023 o Brasil registrou 2.537.576 nascimentos e 21.582 óbitos no período neonatal. Dos 15.933 óbitos da primeira semana de vida, 3.109 — 20% — tiveram a causa associada a asfixia perinatal, hipóxia ao nascer ou síndrome de aspiração meconial; entre os bebês com 2.500 g ou mais, essas causas mataram três recém-nascidos por dia no país. São os números que abrem as Diretrizes 2026 de reanimação da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), que também estimam em 24% a participação da asfixia nas mortes neonatais do mundo no mesmo ano, cerca de 600 mil óbitos. Quem sobrevive à sala de parto é o assunto deste capítulo.
A frequência depende do que se conta. O Manual de Orientação nº 8 da SBP (2020) estima a asfixia perinatal em 1 a 6 casos por 1.000 nascidos vivos nos países desenvolvidos, com taxas expressivamente maiores nos países em desenvolvimento, e a coloca como terceira causa de morte neonatal no mundo. O guia federal Atenção à saúde do recém-nascido (2014) conta outra coisa: 2 a 4 bebês com encefalopatia hipóxico-isquêmica (EHI) por 1.000 nascidos vivos a termo. A diferença entre os dois números já ensina a primeira lição do capítulo — nem todo bebê asfixiado desenvolve encefalopatia, e a encefalopatia é o que decide o tratamento.
O mesmo guia dá o peso da doença antes da hipotermia: mortalidade de 15% a 25% entre os asfixiados que desenvolvem encefalopatia, paralisia cerebral em 25% a 30% dos sobreviventes, e, entre as outras sequelas, deficiência intelectual, dificuldade de aprendizagem e epilepsia. Esses números são de antes do resfriamento e servem para entender a doença, não para falar com a família de um bebê resfriado. O Manual nº 8 acrescenta o que se vê no seguimento de quem teve encefalopatia moderada: com frequência, déficits motores significativos, déficit motor fino, comprometimento de memória, disfunção visual, hiperatividade e atraso no desempenho escolar.
O resfriamento mudou a conta. No ensaio do National Institute of Child Health and Human Development (NICHD), morte ou incapacidade moderada ou grave ocorreu em 44% dos bebês tratados com hipotermia de corpo inteiro e em 62% do grupo controle, com risco relativo de 0,72. A diferença absoluta é de 18 pontos percentuais: a cada cinco ou seis bebês resfriados, um escapa da morte ou da incapacidade que teria. O Documento Científico nº 4 da SBP (2020) cita metanálise com redução de 19% no risco de morte ou acometimento neurológico aos dois anos e aumento de 53% na sobrevida sem paralisia cerebral, e a revisão brasileira de 2015 do Jornal de Pediatria descreve a revisão Cochrane de 11 ensaios com 1.505 recém-nascidos, com o mesmo sentido. A frase final do documento da SBP não deixa margem: diante das evidências, pode-se considerar omissão deixar de instituir a hipotermia no recém-nascido asfixiado.
O benefício não é igual para todos. A revisão de 2015 registra que ele é maior na encefalopatia moderada e menor na grave, em que a fase de latência é mais curta, e possivelmente limitado quando há corioamnionite. E registra o dano do lado oposto: a hipertermia depois da encefalopatia se associa a mais mortalidade e a paralisia cerebral moderada a grave até 3,5 vezes mais frequente nos bebês que ficaram mais quentes nos primeiros dias. Para o hospital sem hipotermia, esse é o número que importa na madrugada.
O cérebro não é o único órgão atingido. O Manual nº 8 descreve a asfixia como a principal causa de crise convulsiva no recém-nascido a termo, respondendo por 40% a 60% delas, e estima que cerca de 80% das crises dentro da UTI neonatal sejam completamente subclínicas — só aparecem no traçado. A lesão renal aguda ocorre em até 56% dos asfixiados. Hipotensão, hipertensão pulmonar, coagulopatia, hiponatremia e hipoglicemia completam o quadro de disfunção de múltiplos órgãos que ocupa as primeiras 72 horas.
A relação com a paralisia cerebral precisa ser dita com a proporção certa, porque a família e, às vezes, o próprio prontuário a invertem. As Diretrizes de atenção à pessoa com paralisia cerebral do Ministério da Saúde (2013) atribuem à encefalopatia hipóxico-isquêmica apenas 3% a 13% das paralisias cerebrais; a maioria das crianças com paralisia cerebral não teve asfixia, e a maioria dos bebês asfixiados não desenvolve paralisia cerebral. O capítulo Ele vai andar?, da apostila de Neurologia Pediátrica, é dono do diagnóstico e do cuidado da paralisia cerebral e usa a asfixia só como fator de risco; aqui ela é o ponto de partida.
A régua brasileira da hipotermia é de sociedade, não de norma. O Documento Científico nº 4 (junho de 2020) e o Manual de Orientação nº 8 (setembro de 2020), ambos do Departamento Científico de Neonatologia da SBP, recomendam formalmente o resfriamento; as Diretrizes 2026 do Programa de Reanimação Neonatal fixam o que se faz com a temperatura na sala de parto e no transporte. O texto federal sobre a encefalopatia, o volume 3 do guia Atenção à saúde do recém-nascido (2014), é anterior a essa recomendação e ainda chamava a hipotermia de promessa — a divergência está no bloco próprio, com o lado que esta apostila adota. A 2ª edição do Manual de Cuidados Pós-Reanimação Neonatal da SBP (2025), de acesso restrito, é o documento mais novo do programa sobre o período na unidade neonatal; onde o serviço o adotar, ele se sobrepõe pela data ao que está aqui.
Por que acontece o que acontece
Asfixia é um evento; encefalopatia é uma evolução. O guia federal descreve a encefalopatia hipóxico-isquêmica como uma síndrome cujo exame e cujo desfecho dependem do tempo, da gravidade e da duração da falta de oxigênio e de fluxo no cérebro: se a oxigenação e a circulação voltam depressa, a lesão é reversível e o bebê pode se recuperar por completo; se não voltam, a lesão se torna permanente. Entender por que ela continua depois que a frequência cardíaca subiu é o que justifica cada conduta das próximas horas.
Os primeiros minutos: o corpo escolhe o cérebro
Diante da hipóxia, o feto e o recém-nascido redistribuem o débito cardíaco para preservar cérebro, coração e suprarrenais, à custa da pele, das vísceras abdominais, dos rins e dos pulmões. É uma defesa, e ela cobra depois. Quando a agressão se prolonga, o próprio fluxo cerebral cai, a célula passa à glicólise anaeróbica, produz lactato e a acidemia metabólica se instala — é essa acidose que a gasometria da primeira hora mede e que a régua usa como prova de que a asfixia aconteceu. A glicólise anaeróbica gasta o glicogênio do fígado em pouco tempo, e a produção de glicose deixa de acompanhar o consumo do cérebro; o Manual nº 8 da SBP relaciona glicemias mais baixas a encefalopatia mais grave e a pior prognóstico.
Cada órgão que ficou sem fluxo aparece nas horas seguintes com sua própria conta. O rim responde com oligúria, por secreção inapropriada de hormônio antidiurético ou por necrose tubular aguda, e pode chegar à necrose cortical se a agressão foi longa. O miocárdio lesado sustenta mal a pressão. O pulmão pode manter a resistência vascular alta, e a hipertensão pulmonar é comum na encefalopatia moderada ou grave. O fígado e a medula produzem mal os fatores de coagulação e as plaquetas. O intestino, que ficou sem sangue, é a razão de o leite começar em volume mínimo. A retenção de água pelo hormônio antidiurético, somada à lesão renal, dilui o sódio. O cálcio entra na célula lesada e cai no plasma. Mais tarde, a gordura subcutânea pode endurecer em nódulos — a adiponecrose —, com risco de hipercalcemia.
Seis horas de latência
A lesão cerebral hipóxico-isquêmica acontece em duas fases separadas por um intervalo. Na primeira, durante a hipóxia e a isquemia, há necrose neuronal por falta de oxigênio e de energia. Depois da reanimação e da reperfusão vem um período de latência que, pelo Documento Científico nº 4 da SBP, não dura mais que 6 horas — o guia federal fala em média de 5,5 horas. Em seguida começa a fase tardia, de apoptose neuronal, que dura vários dias e cuja intensidade é a maior responsável pelo neurodesenvolvimento do bebê. A hipotermia iniciada dentro da latência pode inibir os mecanismos dessa fase tardia. É daí que vem o prazo de 6 horas — contado em horas de vida, a partir do nascimento, porque o momento exato da agressão quase nunca é conhecido, dificuldade que o guia federal descreve. Na encefalopatia grave a latência é ainda mais curta e a falha energética maior, o que explica o benefício menor do resfriamento nesse grupo.
Resfriar começando depois de 6 horas não é igual a resfriar dentro delas. O Manual nº 8 descreve um ensaio de hipotermia iniciada entre 6 e 24 horas, com resfriamento por 96 horas, que sugeriu possível benefício por análise estatística sofisticada, e conclui que a extensão desse efeito é incerta: a recomendação com maior evidência é começar dentro das 6 primeiras horas e manter por 72 horas. O mesmo manual avisa sobre o excesso: resfriar abaixo de 33,0 °C ou por mais de 72 horas pode aumentar os efeitos adversos e esteve associado a maior mortalidade em ensaios clínicos. A temperatura é um remédio com dose — 33,5 °C por 72 horas — e com toxicidade dos dois lados: acima do normal, a lesão pode piorar; abaixo de 33 °C, o risco passa a ser o do próprio tratamento.
O fluxo cerebral do bebê encefalopata perdeu a autorregulação, e três variáveis que o interno controla passam a mexer direto no cérebro. A primeira é a pressão: o que perfunde o cérebro é a diferença entre a pressão arterial média e a intracraniana, e sem autorregulação essa diferença segue a pressão sistêmica; a cabeça na linha média, com a cabeceira elevada a cerca de 30 graus, evita diferença de fluxo entre os hemisférios. A segunda é o gás carbônico: a hipocapnia, sobretudo a que o ventilador produz, contrai os vasos cerebrais e reduz o fluxo — o guia federal chama de hipocapnia excessiva a PaCO2 abaixo de 25 mmHg. A terceira é o oxigênio: a hiperóxia aumenta o estresse oxidativo e a produção de radicais livres justamente na reperfusão, e o Manual nº 8 associa hiperóxia e hipocapnia a pior desfecho neurológico. Oxigênio demais e ventilação demais são lesão, não segurança.
Onde a lesão cai, e como ela aparece no exame
A mesma agressão lesa estruturas diferentes conforme a idade gestacional. No bebê a termo predomina a lesão neuronal; no pré-termo, a lesão da substância branca periventricular, que é assunto do capítulo Duas idades no mesmo berço, desta apostila, e fica fora daqui. No termo, a ressonância costuma mostrar alteração no tálamo e nos núcleos da base, no trato corticoespinhal, na substância branca e no córtex; quando houve um evento sentinela — como descolamento de placenta, prolapso ou rotura de cordão e rotura uterina —, a lesão de tálamo e núcleos da base é mais comum e pode vir com alteração do braço posterior da cápsula interna.
O exame acompanha essa fisiologia. Logo depois da agressão, o bebê com encefalopatia leve fica hiperexcitável, com tônus simpático aumentado: hiperalerta, pupilas dilatadas, taquicardia. Quando a agressão foi maior, ele fica letárgico e hipotônico, com predomínio parassimpático: pupilas contraídas, bradicardia, respiração periódica. Nos casos extremos, estupor ou coma, flacidez e postura de descerebração. As crises convulsivas se relacionam com o aumento do metabolismo cerebral da encefalopatia e, na maioria, não se veem — o que obriga a procurar pelo traçado o que o olho não mostra. Como a encefalopatia evolui nas primeiras horas, um exame leve na primeira hora não é um exame leve na quarta: é por isso que a régua manda repetir o exame de hora em hora até a sexta.
Como se apresenta de verdade
O recém-nascido asfixiado se apresenta em duas camadas. A primeira é a história, que já está escrita quando você chega à incubadora: a idade gestacional, o que aconteceu no parto, o boletim de Apgar, quanto tempo ele precisou de ventilação, a gasometria. A segunda é o exame, que muda de hora em hora nas primeiras seis horas e decide se a encefalopatia é leve, moderada ou grave. A indicação da hipotermia exige as duas, e exige que ambas estejam no prontuário com a hora anotada.
Este capítulo assume o recém-nascido asfixiado depois da reanimação, que não tinha dono no nível: o diagnóstico da asfixia pela régua, a graduação da encefalopatia, a janela e a indicação da hipotermia, o que se faz no hospital que não a tem, o transporte, as primeiras 72 horas de cuidado com os órgãos, as crises convulsivas do asfixiado, a conversa com a família e o plano de seguimento na alta. Cede o que tem dono, pelo nome. A reanimação em sala de parto é do capítulo Reanimação neonatal em sala de parto, nesta apostila. A vigilância da vitalidade fetal intraparto e a cardiotocografia são de O feto que assusta e o feto que está mal; o descolamento prematuro de placenta é do capítulo de mesmo nome, em Obstetrícia; a rotura uterina, a distócia de ombro e o parto operatório são de A cicatriz cobra duas vezes, Quando a cabeça sai e os ombros não e Cesariana e parto vaginal operatório — aqui eles entram só como história do parto. A paralisia cerebral é de Ele vai andar?, em Neurologia Pediátrica; a triagem auditiva, de As cinco triagens neonatais; a crise febril do lactente maior, de Crise febril na criança; a escolha e a suspensão do antibiótico no recém-nascido, de Começar sem saber, parar sem prova; as infecções congênitas, de A sigla não é um plano; a enterocolite necrosante, de A dieta que estava indo bem; a determinação de morte encefálica, de A morte que ainda respira, em Medicina Legal e Bioética.
Dois vizinhos desta apostila tocam o mesmo bebê. O desconforto respiratório do recém-nascido tem capítulo próprio, O gemido que não é choro, dono do diagnóstico diferencial respiratório e da hipertensão pulmonar persistente — a diferença de saturação pré e pós-ductal, o índice de oxigenação e a indicação de óxido nítrico; aqui fica só o que muda com a encefalopatia: ventilar sem hipocapnia e sem hiperóxia, e saber que a hipertensão pulmonar não contraindica o resfriamento. Enquanto este capítulo não existia, aquele assumiu o recém-nascido asfixiado depois da admissão — normotermia e o prazo da hipotermia terapêutica —; este capítulo assume agora esse bebê inteiro: os critérios, a janela de 6 horas, a temperatura até a decisão, a transferência e o que se faz até ela. A hipoglicemia do recém-nascido é de O cordão foi cortado, a insulina não, também desta apostila, dono do rastreio, dos cortes com e sem sinal clínico e do desmame da infusão; aqui fica só o que muda no asfixiado — a glicemia-alvo de 50 a 90 mg/dL do capítulo de encefalopatia do guia federal, que coincide com o alvo de 50 mg/dL ou mais daquele capítulo para quem está com glicose na veia, e a correção com glicemia abaixo de 45 mg/dL no bebê que convulsiona, régua do capítulo de crises neonatais do mesmo guia que esta apostila adota para a crise, pelo escopo. A lesão hipóxico-isquêmica do prematuro abaixo de 35 semanas, que atinge a substância branca e não entra no resfriamento, é de Duas idades no mesmo berço.
A história que já está escrita
Comece pelo horário do nascimento e pela melhor estimativa da idade gestacional. O documento SBP 2020 incluía recém-nascidos a partir de 35 semanas, mas não se deve apresentar o benefício nessa faixa como equivalente ao do termo. O ensaio randomizado de 2025 em 33–35 semanas não demonstrou benefício. A elegibilidade, especialmente em 35–35 semanas e 6 dias, exige discussão imediata com o centro especializado e a família. A primeira tarefa é reconhecer e encaminhar a tempo, mantendo suporte adequado.
A régua brasileira pede evidência de asfixia perinatal, e ela vem de quatro fontes no prontuário, das quais basta uma: a gasometria arterial do cordão ou da primeira hora de vida com pH abaixo de 7,0 ou excesso de base de −15 ou menos; a história de um evento agudo perinatal; o boletim de Apgar de 5 ou menos no 10º minuto; e a necessidade de ventilação com pressão positiva além do 10º minuto de vida. O Manual nº 8 da SBP chama de evento perinatal agudo o descolamento prematuro de placenta, o prolapso ou a rotura de cordão, as desacelerações tardias, a rotura uterina e outras situações em que o sofrimento fetal agudo fica evidente. Procure esses dados na folha do parto, no partograma, na descrição cirúrgica e no boletim da reanimação, não na memória de quem estava na sala.
O Apgar do 10º minuto só existe se alguém o anotou. As Diretrizes 2026 de reanimação mandam repetir o boletim a cada cinco minutos até os 20 minutos sempre que ele for menor que 7 no quinto, documentado junto com os procedimentos no boletim ampliado — e é esse registro que permite dizer, horas depois, se o bebê preenche o critério. O mesmo vale para a ventilação: o que conta é a necessidade de pressão positiva além do 10º minuto, e a folha de reanimação precisa dizer a que horas ela parou.
Complete a história com o que pode explicar uma depressão ao nascer que não é asfixia, ou que a agrava. As Diretrizes 2026 listam, entre os fatores associados à necessidade de reanimação, a terapia materna com sulfato de magnésio e o uso de opioide nas quatro horas anteriores ao parto. O Manual nº 8 lembra que as infecções intrauterinas contribuem para a hipóxia intraparto e agravam a lesão, e a revisão brasileira de 2015 registra que o benefício da hipotermia pode ser limitado na corioamnionite. Febre materna, bolsa rota prolongada e líquido fétido entram nessa lista pela infecção. Malformação vista no pré-natal e síndrome genética conhecida entram por outro motivo: o Documento Científico nº 4 contraindica a hipotermia no bebê em condição de pré-óbito e no que tem malformação complexa ou anormalidade genética com conduta paliativa já discutida com os pais.
O exame de hora em hora: seis categorias
A régua não pede um diagnóstico de impressão; pede um exame estruturado, repetido de hora em hora até a sexta hora e registrado no prontuário. O Manual nº 8 usa o escore de Sarnat modificado, e o Documento Científico nº 4 usa o mesmo desenho, tirado do ensaio do NICHD. São seis categorias, cada uma graduada como normal, leve, moderada ou grave, e a regra de elegibilidade do Documento Científico nº 4 é ter pelo menos três categorias alteradas no grau moderado ou grave. Quando os sinais se dividem igualmente entre dois graus, o Manual manda desempatar pelo nível de consciência.
A primeira categoria é o nível de consciência: alerta e responsivo no bebê normal, hiperalerta e respondendo a estímulos mínimos na forma leve, letárgico na moderada, em estupor ou coma na grave. A segunda é a atividade espontânea: presente no normal, presente ou diminuída na leve, diminuída na moderada, ausente na grave. A terceira é a postura: na forma leve, uma flexão discreta de punhos e dedos; na moderada, flexão distal acentuada ou extensão completa dos membros; na grave, descerebração. A quarta é o tônus: na forma moderada, hipotonia focal ou generalizada — o Manual aceita também hipertonia —, e na grave, flacidez ou rigidez.
A quinta categoria são os reflexos primitivos. A sucção é forte no normal, fraca na leve, fraca ou em mordida na moderada e ausente na grave; o Moro é completo no normal, normal ou incompleto na leve, incompleto na moderada e ausente na grave. A sexta é o sistema autonômico, lido em três sinais: pupilas fotorreagentes no normal, midríase discreta na leve, miose na moderada e pupilas desviadas, dilatadas ou sem reação à luz na grave; frequência cardíaca entre 100 e 160 bpm no normal, taquicardia na leve, bradicardia na moderada e frequência variável na grave; respiração regular no normal, taquipneia na leve, periódica na moderada e apneia ou ventilação mecânica na grave.
Três cuidados impedem o erro mais comum, que é dar grau leve a um bebê moderado ou deixar de reexaminar. O primeiro: o exame da primeira hora não encerra a questão, porque a encefalopatia pode evoluir rapidamente — o Manual manda repetir de hora em hora até a sexta hora quando o primeiro exame não mostra encefalopatia moderada ou grave. O segundo: no bebê intubado, a sucção não se examina bem e a respiração cai, pelo quadro do Manual, na coluna grave; registre o que não pôde ser avaliado em vez de supor. O terceiro: anote a hora de cada exame e o grau de cada categoria. O que decide o resfriamento é a contagem, e ela precisa estar escrita para quem recebe o bebê no centro de referência.

A convulsão que se vê e a que não se vê
Na encefalopatia hipóxico-isquêmica as crises aparecem cedo, focais ou multifocais, e nem sempre é fácil reconhecê-las. O guia federal classifica as crises neonatais em cinco tipos. As sutis são as mais traiçoeiras: sucção, mastigação, desvio ocular tônico ou nistagmiforme, olhar fixo, piscadelas, contrações do queixo, protrusão de língua, automatismos posturais, movimentos desordenados dos quatro membros, movimentos de nadar ou pedalar, apneia e cianose. As clônicas focais atingem um segmento — dedo, mão, antebraço, face, pé — com contração rápida e relaxamento lento no mesmo ciclo, e é esse ritmo desigual que as separa do tremor, em que contração e relaxamento duram o mesmo; as erráticas mudam de lugar. As tônicas são extensão assimétrica de um membro ou da face, ou extensão dos quatro membros com desvio ocular para cima. As mioclônicas são contrações muito breves, como choques, de um músculo, de vários ou dos dois lados ao mesmo tempo. Os espasmos são contrações em flexão ou extensão, mais longas que a mioclonia.
O que se vê é a minoria. O Manual nº 8 estima que cerca de 80% das crises e mesmo dos estados de mal epiléptico na UTI neonatal sejam completamente subclínicos, e descreve crises frequentes nos bebês resfriados, sobretudo no primeiro dia e no reaquecimento. Por isso ele indica monitoramento com eletroencefalograma ou eletroencefalograma de amplitude integrada (aEEG) do início do resfriamento até 24 horas depois do reaquecimento. O guia federal acrescenta uma regra que vale em qualquer hospital: no bebê em ventilação mecânica sob bloqueio neuromuscular, o eletroencefalograma é obrigatório, porque a clínica desaparece.
A crise conta para a decisão do resfriamento. O Documento Científico nº 4 lista a presença de convulsão entre o que se avalia de hora em hora, mas a regra que ele escreve é a das três categorias de um quadro que não tem linha para convulsão. O ensaio do NICHD, de onde o quadro é tirado, aceitava crise documentada como critério suficiente. Esta apostila adota a leitura do ensaio: bebê com evidência de asfixia que convulsiona nas primeiras 6 horas é tratado como candidato ao resfriamento e discutido com o centro de referência dentro da janela, sem esperar a terceira categoria. A conta desse defeito está nas notas do critério.
Os outros órgãos nas primeiras 72 horas
A régua federal de 2014 só chama de asfixia perinatal o quadro que, além da acidose e do Apgar baixo, tem manifestação neurológica e disfunção de outros sistemas — cardiovascular, gastrintestinal, pulmonar, hematológico ou renal. Essa disfunção de múltiplos órgãos é também a lista do que se vigia. O rim avisa primeiro: oligúria, com diurese abaixo de 1 mL/kg por hora, e hematúria na fase inicial, e a lesão renal aguda, que atinge até 56% dos asfixiados, pode se instalar nas primeiras 24 horas. O coração aparece como hipotensão e contratilidade ruim; sob hipotermia, a bradicardia sinusal entre 80 e 100 bpm é esperada e bem tolerada, e o Manual nº 8 aceita até 70 bpm quando não há repercussão hemodinâmica.
O pulmão pode manter a hipertensão pulmonar, comum na encefalopatia moderada ou grave — o diagnóstico e o óxido nítrico são de O gemido que não é choro, e nenhum dos dois contraindica o resfriamento —, e as secreções ficam mais espessas durante o resfriamento. O sangue mostra plaquetopenia e coagulopatia, com tempo de protrombina e tempo de tromboplastina parcial prolongados, porque o fígado e a medula sofreram e porque o frio lentifica as enzimas da coagulação — ainda assim, os ensaios não mostraram mais hemorragia grave nos bebês resfriados. O metabolismo traz hipoglicemia, hipocalcemia e hiponatremia dilucional, esta pela retenção de água, pela lesão renal e pela menor perda insensível sob hipotermia. E o intestino que ficou sem fluxo é a razão de a alimentação começar em volume mínimo.
Um achado aparece mais tarde e costuma surpreender: nódulos endurecidos e indolores nas costas, nos membros e nas nádegas, que deslizam sobre músculo e osso, com a pele por cima de cor normal, alterada ou avermelhada. É a necrose gordurosa subcutânea, complicação rara, transitória e autolimitada da asfixia, que o resfriamento pode tornar mais provável. As lesões somem sozinhas, mas a complicação sistêmica mais grave, a hipercalcemia, pede vigilância do cálcio nesses bebês.
Quando a encefalopatia não é asfixia
O rótulo de asfixia é fácil de pôr e difícil de tirar, e ele encerra a busca por outras causas. O Manual nº 8 dá o sinal de alerta: bebê com encefalopatia clínica e sem acidose metabólica exige a pesquisa de diagnósticos diferenciais, sempre à luz da história materna, da gestação e do parto. O guia federal lembra, entre as causas de crise no recém-nascido, as infecções do sistema nervoso central congênitas ou perinatais, a sepse, os distúrbios hidroeletrolíticos e metabólicos — hipoglicemia, hipocalcemia, hipomagnesemia —, as malformações do sistema nervoso central, o tocotraumatismo e os erros inatos do metabolismo, como a hiperglicinemia não cetótica.
Duas consequências práticas. A primeira: a glicemia é colhida na admissão e antes de qualquer droga, porque hipoglicemia deprime e convulsiona por conta própria. A segunda: a ausência de acidose não tira o bebê da conversa com o centro de referência, se ele preenche outro item da lista de evidência de asfixia e tem encefalopatia — mas obriga a procurar outro diagnóstico ao mesmo tempo, com a investigação de infecção descrita no capítulo de sepse neonatal, líquor quando a causa não se define, glicemia, eletrólitos e a história de infecção e de drogas maternas. A revisão brasileira de 2015 cita um ensaio em que o resfriamento da encefalopatia causada por meningite bacteriana foi ineficaz: chamar de asfixia o que é infecção custa o tratamento certo.
Como a encefalopatia evolui nos dias seguintes
O grau da encefalopatia é o melhor preditor de mortalidade e de sequela neurológica, e ele se lê também pela duração. Na classificação de Sarnat reproduzida pelo guia federal, a forma leve dura menos de 24 horas; a moderada, de 2 a 14 dias, com evolução anormal quando os sinais persistem por mais de 5 a 7 dias; a grave, de horas a semanas. Esses tempos e os desfechos da mesma tabela são de antes da hipotermia e servem para orientar o exame diário, não para prever o futuro de um bebê resfriado.
O Manual nº 8 manda repetir e registrar o exame neurológico todo dia, com acompanhamento do neurologista durante a internação e depois da alta, e dá ao traçado um papel de relógio: no bebê que não foi resfriado, o aEEG anormal tem mais valor preditivo de morte ou atraso quando persiste até 24 a 36 horas de vida; no bebê resfriado, quando persiste até 48 a 72 horas — diferença que o Manual atribui ao provável efeito benéfico do resfriamento. Um exame que melhora dia a dia e um traçado que normaliza cedo são as primeiras boas notícias verdadeiras que se pode dar à família.
Como fechar o diagnóstico
No asfixiado, investigar é medir a tempo o que decide o resfriamento e depois vigiar os órgãos no ritmo em que eles falham. Há exames com prazo — a gasometria da primeira hora, a glicemia da admissão — e exames de calendário, como os de 24, 48 e 72 horas e a ressonância do quarto ou quinto dia. O hospital que não faz os de calendário ainda precisa fazer os de prazo, porque são eles que vão no papel da transferência.
A gasometria da primeira hora
O Manual nº 8 da SBP chama de mandatória a coleta precoce de sangue para gasometria no bebê que precisou de reanimação e é candidato ao resfriamento: pode ser do cordão, na sala de parto, ou arterial, na unidade, mas precisa ser colhida dentro da primeira hora de vida. O Documento Científico nº 4 usa esse resultado como o primeiro item da evidência de asfixia: pH abaixo de 7,0 ou excesso de base de −15 ou menos. A régua federal de 2014, que define asfixia com os critérios da Academia Americana de Pediatria, pede pH abaixo de 7,0 em sangue arterial de cordão. Gasometria colhida depois da primeira hora não preenche o item, porque a acidose vai se corrigindo sozinha com a ventilação e a perfusão: um pH de 7,12 às três horas de vida não diz qual era o pH na primeira.
O mesmo resultado precisa ser lido com duas advertências. A primeira é do guia federal: Apgar baixo e acidemia de cordão não diagnosticam asfixia perinatal quando isolados — eles entram na régua do resfriamento junto com a encefalopatia, e na definição de asfixia junto com a encefalopatia e a disfunção de outros órgãos. A segunda é do Manual nº 8: a gasometria decide primeiro, e, a depender do resultado, os demais dados — Apgar, suporte ventilatório e evento agudo — podem ser necessários para considerar o resfriamento. O bebê sem gasometria da primeira hora não perde a indicação: ele pode preencher a evidência de asfixia pelos outros itens da lista.
Depois da primeira hora, a gasometria muda de papel e passa a guiar a ventilação. O guia federal manda manter a PaO2 entre 55 e 90 mmHg e a PaCO2 entre 35 e 50 mmHg, e o Documento Científico nº 4 manda colher gasometria arterial no início do resfriamento e com 24, 48 e 72 horas. Um detalhe que o interno encontra no primeiro plantão: a acidose metabólica do asfixiado tende a melhorar sozinha à medida que a ventilação e a perfusão se recuperam, e o Manual nº 8 registra que repor bicarbonato não traz benefício e se associa a maior mortalidade.
O laboratório da admissão e dos dias seguintes
A glicemia vem antes de tudo e se repete com frequência nas primeiras horas: o guia federal manda mantê-la entre 50 e 90 mg/dL no bebê com encefalopatia, porque hipoglicemia aumenta a área de lesão e hiperglicemia também faz mal. O Documento Científico nº 4 lista o laboratório do início do resfriamento e das 24, 48 e 72 horas: glicose, ureia, creatinina, cálcio, magnésio, tempo de protrombina, creatinofosfoquinase, transaminases e eletrólitos, com hemograma e plaquetas nos mesmos tempos. Esta apostila usa o mesmo calendário no bebê que não será resfriado, porque a disfunção dos órgãos é a mesma.
O cálcio merece um pedido específico. O guia federal lembra que o cálcio iônico é a única forma biologicamente disponível e define a hipocalcemia do bebê a termo como cálcio total abaixo de 8 mg/dL ou iônico abaixo de 4,4 mg/dL (1,1 mmol/L). No asfixiado, onde a decisão de repor precisa de cautela, peça o cálcio iônico em vez de interpretar o total. Peça também o magnésio: quando a hipocalcemia não responde à reposição, o mesmo guia manda lembrar da hipomagnesemia.
No bebê que convulsiona, o guia federal fixa a coleta que antecede as drogas: glicemia, eletrólitos com magnésio, lactato e gasometria, e punção lombar quando a causa não se define pelos outros exames ou quando há suspeita de infecção. A punção não atrasa o fenobarbital nem a ligação para o centro de referência.
EEG e aEEG: o traçado que acha a crise
O Manual nº 8 põe o monitoramento eletroencefalográfico no centro do cuidado do asfixiado por três razões. A primeira é achar crises: como a maioria é subclínica, o eletroencefalograma contínuo na UTI, que pode ser associado ao aEEG de dois canais, permite reconhecê-las e tratá-las em tempo real, do início do resfriamento até 24 horas depois do reaquecimento. A segunda é ajudar na indicação: três dos seis grandes ensaios de hipotermia usaram alteração do aEEG como critério de inclusão, e o traçado é particularmente útil no bebê cujo exame fica entre leve e moderado — mas aEEG normal nas primeiras 6 horas não exclui lesão quando o exame clínico mostra encefalopatia moderada ou grave. A terceira é o prognóstico, pelo tempo que o traçado leva para normalizar.
A revisão brasileira de 2015 registra que o aEEG não é rotina para selecionar o candidato ao resfriamento, e o Documento Científico nº 4 não o exige. A consequência para o hospital sem eletroencefalograma é direta: a indicação se decide pelo exame clínico estruturado, e a falta do traçado é mais um motivo para transferir o bebê a um centro que o tenha, não um motivo para esperar.
Imagem: ultrassom agora, ressonância depois
O ultrassom de crânio está disponível, é feito à beira do leito, não tem efeito colateral e, na mão de quem sabe, dá informação anatômica e funcional. Pode ser feito cedo e repetido depois do reaquecimento. Com Doppler, mede o índice de resistência das artérias cerebrais, que se correlaciona com lesão, mas perde poder prognóstico no bebê resfriado.
Para ver o cérebro do bebê com encefalopatia, o exame preferido é a ressonância magnética. As duas réguas da SBP falam do momento com números diferentes que não brigam: o Documento Científico nº 4 recomenda o 4º ou o 5º dia de vida, pela dificuldade de fazer o exame durante o resfriamento, e o Manual nº 8 diz que ela tem melhor valor prognóstico entre o 4º e o 14º dia. O 4º ou 5º dia cabe na janela maior, e é nele que se pede. O laudo procura alteração no tálamo e nos núcleos da base, no braço posterior da cápsula interna, no trato corticoespinhal, na substância branca e no córtex; a espectroscopia, quando disponível, acrescenta informação à varredura precoce.
Coração, rim e sangue
Pressão e fluxo se medem, não se adivinham. O Manual nº 8 indica cateterismo umbilical arterial e venoso e pressão arterial invasiva, sobretudo no bebê instável, e usa o ecocardiograma para decidir: contração adequada com sinais de hipovolemia pede expansão; contratilidade ruim ou hipotensão persistente sem hipovolemia pede inotrópico. Na hipotensão que persiste, acrescenta eletrocardiograma, enzimas cardíacas e hematócrito. A espectroscopia de infravermelho próximo, onde existe, funciona como monitor de tendência da oxigenação cerebral e somática; valores cerebrais altos ao fim do primeiro dia, que traduzem baixo consumo de oxigênio por um cérebro muito lesado, associam-se a pior desfecho.
O rim se vigia pela diurese medida e pela creatinina. O Manual nº 8 recomenda sondagem vesical de demora no bebê com oligúria ou lesão renal, alerta que provas com volume e diurético são possíveis mas arriscam a sobrecarga que piora o edema cerebral, e diz que a diálise peritoneal não deve ser adiada na oligoanúria persistente. No sangue, plaquetas e coagulograma no ritmo do Documento Científico nº 4, lembrando que coagulograma alargado sem sangramento, no recém-nascido, não é indicação de plasma pelo guia federal de hemocomponentes.
Infecção: quando investigar e quem decide o antibiótico
O Manual nº 8 é claro em dois pontos que costumam se misturar no plantão. Infecção intrauterina contribui para a hipóxia intraparto e agrava a lesão neuronal; mas a agressão hipóxico-isquêmica, sozinha, não é considerada risco infeccioso, e o antibiótico de rotina não é preconizado. A decisão depende da história materna, das condições da gestação e do parto e da avaliação clínica e laboratorial, conforme o protocolo da unidade. O Documento Científico nº 4 prescreve ampicilina e gentamicina só quando há indicação por infecção precoce.
O esquema empírico, os ajustes por peso e idade e, sobretudo, a decisão de parar o antibiótico quando a hemocultura vem negativa são do capítulo Começar sem saber, parar sem prova, desta apostila, que é dono da sepse neonatal. Um dado de abastecimento vale anotar: ampicilina e gentamicina injetável não constam da Rename 2024 e chegam ao bebê pela padronização do hospital.
Da janela ao seguimento: fluxo, tabelas e contas da encefalopatia hipóxico-isquêmica
O fluxo vai da hora do nascimento à primeira consulta de seguimento. As tabelas reúnem o exame de hora em hora com o que confunde quem examina, as primeiras 72 horas por sistema e as contas de dose e volume para um bebê de 3,4 kg, conferidas contra as apresentações da Rename 2024. O card separa as duas perguntas que a palavra asfixia costuma misturar. Nas notas ficam, com a conta, os defeitos de fonte que alteram a conduta.
- 1ANOTE A HORA DO NASCIMENTO. Suspeita de encefalopatia após evento hipóxico requer avaliação e contato precoce com referência para possível tratamento nas primeiras seis horas. Não confunda triagem de elegibilidade com indicação automática em qualquer bebê reanimado; idade gestacional, exame, critérios de asfixia e contexto precisam ser analisados juntos.
- 2Obtenha gasometria do cordão ou do bebê na primeira hora quando possível, e glicemia na admissão. Coletas não devem atrasar suporte respiratório, circulatório ou correção de hipoglicemia. Registre quando e de onde veio a amostra.
- 3Procure a evidência de asfixia pela lista do Documento Científico nº 4 da SBP, na qual basta um item: pH abaixo de 7,0 ou excesso de base de −15 ou menos na gasometria da primeira hora; evento agudo perinatal; Apgar de 5 ou menos no 10º minuto; ventilação com pressão positiva além do 10º minuto.
- 4Examine e registre as seis categorias do Sarnat modificado, descrevendo achados e condições que dificultam a avaliação, como sedação e ventilação. Crise documentada ou exame moderado/grave após possível asfixia justificam contato imediato para análise de elegibilidade. Exame inicialmente leve ou normal deve ser repetido, sem esperar a sexta hora para pedir orientação.
- 5Integrar exame neurológico, idade gestacional, tempo de vida e evidências perinatais ao protocolo de elegibilidade do centro. Uma crise isolada não prova etiologia hipóxico-isquêmica. Investigar sepse, distúrbios metabólicos, hemorragia, malformações e outras causas quando os dados forem discordantes, sem atrasar suporte ou contato dentro da janela terapêutica.
- 6Afaste as contraindicações: condição de pré-óbito; malformação complexa ou anormalidade genética com conduta paliativa já discutida com os pais.
- 7Ligue para o centro de referência na primeira combinação de evidência de asfixia com encefalopatia, sem esperar a sexta hora. Quem resfria confirma a indicação; a janela é de todos.
- 8Enquanto espera: temperatura de 36,5 a 37,2 °C e nunca acima de 38,0 °C, sem resfriar por conta própria; PaO2 de 55 a 90 e PaCO2 de 35 a 50 mmHg; glicemia de 50 a 90 mg/dL; oferta hídrica de 40 a 60 mL/kg/dia; PAM de 40 a 60 mmHg; nada de bicarbonato.
- 9Crise: glicemia primeiro, e abaixo de 45 mg/dL, 2 mL/kg de SG 10%; fenobarbital 20 mg/kg EV em 20 minutos, mais 10 e 10 mg/kg se persistir, até 40 mg/kg em 24 horas; depois, fenitoína 20 mg/kg; cálcio iônico colhido junto e reposto com cautela se estiver baixo.
- 10Transporte: incubadora de transporte, papel com as horas — nascimento, gasometria, exames, crises e drogas — e resfriamento passivo só se o centro orientar e a equipe tiver temperatura retal contínua.
- 11No centro: temperatura central de 33,5 °C por 72 horas, servo-controlada; EEG ou aEEG até 24 horas depois do reaquecimento; laboratório no início e com 24, 48 e 72 horas; plaquetas acima de 50.000/mm³.
- 12Interrompa antes das 72 horas só como exceção, com o arsenal esgotado: temperatura abaixo de 33 °C que não responde ao aquecimento, hipotensão apesar de inotrópico, hipertensão pulmonar com hipoxemia apesar do tratamento, coagulopatia grave refratária. Reaqueça de 0,2 a 0,5 °C por hora até 36,5 °C, vigiando crises.
- 13Ressonância no 4º ou 5º dia. Na alta: seguimento multidisciplinar até a idade escolar, triagem auditiva com EOAT e PEATE-A, encaminhamento regulado ao ambulatório de seguimento e retorno à puericultura.
Duas perguntas que a palavra asfixia mistura
A primeira pergunta é da madrugada e tem prazo: este bebê entra no resfriamento? Ela usa a régua da SBP de 2020 — evidência de asfixia por um único item, mais encefalopatia moderada ou grave antes de 6 horas de vida — porque precisa ser respondida antes que a disfunção dos outros órgãos apareça. A segunda pergunta é dos dias seguintes e não tem prazo: a encefalopatia foi causada por asfixia? Ela usa a régua federal de 2014, com os critérios da Academia Americana de Pediatria — acidemia profunda no sangue arterial do cordão, Apgar de 0 a 3 por mais de 5 minutos, manifestação neurológica e disfunção de múltiplos órgãos —, que só se completam depois. As duas não brigam: governam momentos diferentes do mesmo bebê. O erro é usar a segunda para negar o resfriamento na madrugada, ou usar a primeira para escrever no prontuário, no dia seguinte, que a causa está provada.
O exame de hora em hora: o que empurra para moderada ou grave e o que confunde
| Categoria | O que empurra para moderada ou grave | O que confunde o exame | Como registrar |
|---|---|---|---|
| Nível de consciência | Letargia (moderada); estupor ou coma (grave) | Opioide materno nas 4 horas antes do parto; sedação e morfina do resfriamento, depois que ele começa | Resposta ao estímulo e droga recebida, com a hora |
| Atividade espontânea | Diminuída (moderada); ausente (grave) | Bloqueio neuromuscular — nesse caso o EEG é obrigatório | Observar antes de manipular |
| Postura | Flexão distal ou extensão completa (moderada); descerebração (grave) | Posição em que a equipe deixou o bebê | Descrever a postura espontânea |
| Tônus | Hipotonia focal ou generalizada, ou hipertonia (moderada); flacidez ou rigidez (grave) | Hipertonia lida como sinal de bebê bem | Segmento examinado e lado |
| Reflexos primitivos | Sucção fraca ou em mordida e Moro incompleto (moderada); ausentes (grave) | Cânula traqueal impede avaliar a sucção | Anotar o que não pôde ser avaliado |
| Sistema autonômico | Miose, bradicardia, respiração periódica (moderada); pupilas sem reação, frequência variável, apneia ou ventilação mecânica (grave) | Bradicardia de 80 a 100 bpm é efeito esperado da hipotermia, não da lesão | Pupilas, frequência cardíaca e padrão respiratório separados |
| Crise (fora das seis categorias) | Crise documentada após possível asfixia exige avaliação imediata de elegibilidade; integrar demais critérios e diagnósticos diferenciais com o centro | Tremor tem contração e relaxamento iguais; cerca de 80% das crises na UTI são subclínicas | Tipo, duração, hora e droga |
As primeiras 72 horas por sistema: alvo, medida e resposta
| Sistema | Alvo | Como e quando medir | Fora do alvo |
|---|---|---|---|
| Temperatura | Sem hipotermia: 36,5 a 37,2 °C, nunca acima de 38,0 °C. No resfriamento: 33,5 °C por 72 horas | Sem hipotermia, axilar frequente e registrada; no resfriamento, central retal ou esofágica contínua, servo-controlada | Acima de 38 °C: reduzir o calor. Abaixo de 33 °C sem resposta: interromper. Reaquecer de 0,2 a 0,5 °C por hora |
| Ventilação | PaO2 de 55 a 90 mmHg; PaCO2 de 35 a 50 mmHg | Gasometria arterial no início e com 24, 48 e 72 horas, e a cada mudança do ventilador | Hipocapnia: reduzir a ventilação. Hiperóxia: reduzir o oxigênio. Hipertensão pulmonar: diagnóstico e óxido nítrico por O gemido que não é choro; nenhum dos dois contraindica o resfriamento |
| Pressão e perfusão | PAM de 40 a 60 mmHg; frequência de 80 a 100 bpm tolerada no resfriamento, até 70 sem repercussão | Pressão invasiva pelo cateter arterial umbilical; ecocardiograma | Hipovolemia com contração boa: SF 10 a 20 mL/kg, sem repetir. Contratilidade ruim ou hipotensão persistente: inotrópico |
| Glicose | 50 a 90 mg/dL; VIG de 5 mg/kg/min no resfriamento | Glicemia na admissão e seriada nas primeiras horas; glicose sérica com 24, 48 e 72 horas | Abaixo de 45 mg/dL com crise: SG 10% 2 mL/kg com velocidade conferida no protocolo neonatal, seguido de infusão contínua e VIG de 6. Hiperglicemia também lesa |
| Água e sódio | Oferta de 40 a 60 mL/kg/dia; sódio no limite superior da referência durante o resfriamento | Balanço hídrico, peso e eletrólitos com 24, 48 e 72 horas | Hiponatremia dilucional: restringir água, sem sódio em dose alta; tende a normalizar em 48 a 72 horas |
| Rim | Diurese de 1 mL/kg por hora ou mais | Diurese medida; sonda vesical na oligúria; ureia e creatinina seriadas | Oligoanúria persistente: diálise peritoneal sem adiar; prova de volume ou diurético sem sobrecarregar |
| Cálcio | Cálcio iônico de 4,4 mg/dL (1,1 mmol/L) ou mais no termo | Cálcio iônico e magnésio no início e com 24, 48 e 72 horas | Crise ou arritmia com hipocalcemia documentada: gluconato 10% 2 mL/kg em 5 a 10 min com monitor. Sem crise: 5 mL/kg/dia na manutenção |
| Sangue | Plaquetas acima de 50.000/mm³ | Hemograma, plaquetas e coagulograma no início e com 24, 48 e 72 horas | Plaquetas abaixo de 50.000: concentrado de plaquetas 5 a 10 mL/kg. Coagulograma alargado sem sangramento: não é indicação de plasma |
| Cérebro | Sem crise clínica nem eletrográfica; exame melhorando dia a dia | EEG ou aEEG do início do resfriamento até 24 horas depois do reaquecimento; exame neurológico diário registrado | Crise: fenobarbital, depois fenitoína, depois midazolam |
| Dor e intestino | Conforto; leite materno em volume mínimo no bebê estável | Avaliação de dor da unidade; tolerância à dieta | Morfina 5 a 10 mcg/kg/h com cautela; nutrição trófica de 10 a 20 mL/kg/dia |
Contas para um bebê de 3,4 kg: dose, apresentação da Rename 2024 e volume
| Droga ou volume | Dose por quilo e teto | Para 3,4 kg | Apresentação (Rename 2024) | Volume e tempo |
|---|---|---|---|---|
| Fenobarbital, ataque | 20 mg/kg EV a 1 mg/kg/min; mais 10 e 10 mg/kg se a crise persistir; teto de 40 mg/kg em 24 horas | 68 mg; mais 34 mg por repetição; teto de 136 mg | 100 mg/mL, solução injetável, Componente Básico | 0,68 mL, diluído, em 20 minutos; o teto corresponde a 1,36 mL |
| Fenobarbital, manutenção | 5 mg/kg/dia de 12/12 horas, EV por uma semana depois da última crise | 17 mg/dia, 8,5 mg por dose | 100 mg/mL injetável; 40 mg/mL solução oral, Básico | 0,85 mL de uma diluição a 10 mg/mL por dose; por via oral, 0,21 mL |
| Fenitoína, ataque | 20 mg/kg EV a 0,5 mg/kg/min, em SF 0,9% a 1 mg/mL, nunca em SG; mais 10 mg/kg se persistir | 68 mg | 50 mg/mL, solução injetável, Básico | 1,36 mL em 68 mL de SF, em 40 minutos — de 33% a 50% da oferta hídrica do dia |
| Fenitoína, manutenção | 5 mg/kg/dia de 12/12 horas, EV; a via oral não atinge nível no recém-nascido | 8,5 mg por dose | 50 mg/mL, injetável | 0,17 mL por dose |
| Midazolam | 0,15 mg/kg de ataque; 0,06 a 0,4 mg/kg/h | 0,51 mg; 0,20 a 1,36 mg/h | Injetável não consta; só solução oral de 2 mg/mL | Preparo da padronização do hospital |
| Glicose 10%, correção | 2 mL/kg com velocidade conferida no protocolo neonatal, seguido de infusão contínua se a glicemia estiver abaixo de 45 mg/dL na crise | 6,8 mL | Glicose 100 mg/mL (10%), Básico | 7 minutos |
| Glicose na manutenção | VIG de 5 mg/kg/min com oferta de 50 mL/kg/dia | 24,5 g/dia em 170 mL | Glicose 10% e 50%, Básico | Solução a 14,4%, acima do teto de 12,5% da veia periférica: pede cateter venoso umbilical |
| Gluconato de cálcio 10% | 2 mL/kg em 5 a 10 min só com crise ou arritmia e hipocalcemia documentada; sem crise, 5 mL/kg/dia na manutenção | 6,8 mL; 17 mL/dia | Não consta da Rename; vem da padronização do hospital | Com frequência cardíaca contínua; nunca no bolus de glicose |
| Morfina | 5 a 10 mcg/kg/h durante o resfriamento | 17 a 34 mcg/h | Sulfato de morfina 10 mg/mL injetável, Componente Especializado | Numa diluição de 20 mcg/mL, 0,85 a 1,7 mL/h — até 41 mL/dia na conta hídrica |
| Dobutamina | 5 a 15 mcg/kg/min | 17 a 51 mcg/min | 12,5 mg/mL, solução injetável, Básico | 1,02 a 3,06 mg/h |
| SF 0,9% | 10 a 20 mL/kg só com hipovolemia e contração adequada, sem expansões repetidas | 34 a 68 mL | Cloreto de sódio 0,9%, Básico | Conta na oferta hídrica do dia |
| Concentrado de plaquetas | 5 a 10 mL/kg com plaquetas abaixo de 50.000/mm³ | 17 a 34 mL | Hemocomponente, fora da Rename | Incremento estimado de 50.000 a 100.000/mm³ |
| Oferta hídrica total | 40 a 60 mL/kg/dia | 136 a 204 mL/dia | Soma de todas as infusões | 5,7 a 8,5 mL/h |
Passagem para a referência: dados que não podem se perder
| Dado | O que informar | Por que importa |
|---|---|---|
| Relógio | Nascimento, primeiro contato e previsão de chegada | Preservar a oportunidade de avaliação nas primeiras seis horas. |
| Contexto perinatal | Idade gestacional, evento agudo, Apgar por minuto e duração/tipo de reanimação | Avaliar plausibilidade de hipóxia e elegibilidade. |
| Gasometria | Hora, origem da amostra, pH e excesso/déficit de base com convenção clara | Evitar trocar sinal ou interpretar amostra tardia como cordão. |
| Neurológico | Achados seriados por categoria, crises e medicamentos recebidos | Distinguir evolução de efeito de sedação e orientar monitorização. |
| Suporte atual | Temperatura e método, ventilação/FiO2, perfusão, glicemia, acessos e infusões | Preparar transporte e receber o bebê sem interrupções. |
| Plano combinado | Centro/profissional contatado, orientação térmica, transporte e comunicação à família | Garantir continuidade e responsabilidade pela próxima ação. |
Na suspeita de encefalopatia, descreva o exame por categorias e documente crises; não reduza a avaliação a uma soma sem contexto. Sedativos, ventilação e idade gestacional podem limitar a interpretação. Envie a evolução seriada e a evidência de possível asfixia ao centro, que aplicará seu protocolo de elegibilidade. Um exame que progride nas primeiras horas deve antecipar a comunicação.
Resfriamento é tratamento com alvo central, monitorização e equipe preparada. Na unidade sem esses recursos, evite hipertermia e não use gelo ou resfriamento improvisado. Medidas passivas durante transporte só devem ocorrer por orientação explícita da referência, com equipe capaz de medir continuamente a temperatura central e corrigir desvios.
Guia federal Atenção à saúde do recém-nascido (2014), volume 3. O capítulo 28 manda manter o cálcio plasmático do bebê com encefalopatia entre 7 e 11 mg/dL; o capítulo 26 define hipocalcemia no recém-nascido a termo ou no pré-termo com 1.500 g ou mais como cálcio total abaixo de 8 mg/dL e dá 7 a 8 mg/dL como valor do termo com 24 a 48 horas. Conta: a faixa de 7,0 a 7,9 mg/dL é, no mesmo volume, alvo, doença e valor esperado. O limite de 7 mg/dL é o da hipocalcemia do prematuro abaixo de 1.500 g, e quase todo candidato ao resfriamento tem 35 semanas ou mais. Esta apostila decide pelo cálcio iônico — abaixo de 4,4 mg/dL (1,1 mmol/L) é hipocalcemia no termo, pelo capítulo 26 — e repõe com a cautela do Manual nº 8.
Guia federal de 2014, capítulo 29. O Quadro 8 lista a fenitoína oral de 100 mg/5 mL, 5 a 7 mg/kg/dia de 12/12 horas, como manutenção no neonato; o texto da página seguinte diz que neonatos e lactentes não devem receber fenitoína por via oral porque não atingem nível plasmático terapêutico. Conta para 3,4 kg: o quadro levaria a 8,5 a 11,9 mg por dose, 0,43 a 0,60 mL da suspensão de 20 mg/mL da Rename, sem efeito anticonvulsivante esperado. A manutenção de fenitoína no recém-nascido é endovenosa, 5 mg/kg/dia; a manutenção oral preferencial é o fenobarbital.
Guia federal de 2014, capítulos 28 e 29. O Quadro 9 manda diluir a fenitoína de ataque a 1 mg por mL de SF 0,9%; o capítulo 28 restringe a oferta hídrica inicial a 60 mL/kg/dia, e o Manual nº 8 da SBP aceita de 40 a 60 mL/kg/dia. Conta: 20 mg/kg a 1 mg/mL são 20 mL/kg — para 3,4 kg, 68 mL, que são 33% de 204 mL (60 mL/kg/dia), 40% de 170 mL (50 mL/kg/dia) e 50% de 136 mL (40 mL/kg/dia). O ataque não cabe na restrição sem ser contado: o volume da fenitoína entra no balanço hídrico, e a concentração de preparo segue a padronização da farmácia do hospital.
Prognóstico depende da evolução clínica, monitorização neurológica, imagem e seguimento, e não de um percentual isolado de uma tabela antiga. Explique à família o que já se sabe, o que ainda está em avaliação e quando haverá nova conversa. Não transforme o grau inicial em sentença individual.
A conduta, hora a hora
A conduta do recém-nascido asfixiado tem duas frentes que correm juntas desde a primeira hora: impedir que a lesão piore enquanto se decide, e decidir a tempo. No hospital que não tem hipotermia, a primeira frente é inteira do plantão — temperatura, glicemia, ventilação, pressão, crise, papel — e a segunda termina numa ligação e numa ambulância. No centro de referência, a segunda frente vira 72 horas de temperatura controlada e a primeira continua, órgão por órgão.
Os marcos seguem Jonas do berço aquecido da maternidade municipal até o reaquecimento na UTI do hospital universitário. As doses são para 3,4 kg e estão refeitas na tabela de contas do critério. Onde as fontes brasileiras discordam — a pressão arterial média mínima, o cálcio no bebê que convulsiona, a própria hipotermia —, a conduta segue o lado declarado no bloco de divergências.
Registre as horas que permitem decidir: nascimento, gasometria, reanimação, exames neurológicos, crises e intervenções. Telefone à referência enquanto organiza os dados, sem esperar completar toda a documentação. O interno apresenta o caso e acompanha suporte e resposta sob supervisão; a equipe do centro confirma a elegibilidade e o modo seguro de resfriamento.
Segunda-feira, 5h05 — 45 minutos de vida, maternidade municipal
Você começa pelo que está piorando o cérebro agora. O berço está no modo manual, na potência da sala de parto, e Jonas está com 37,9 °C: você reduz a potência e passa ao controle pela temperatura da pele, porque as Diretrizes 2026 proíbem deixar o asfixiado passar de 38,0 °C e o capítulo de encefalopatia do guia federal manda mantê-lo entre 36,5 e 37,2 °C — teto mais baixo que o da normotermia de 36,5 a 37,5 °C que as Diretrizes dão a todo recém-nascido; para o bebê com encefalopatia, esta apostila adota o de 37,2 °C, pelo escopo. Não desliga o berço: resfriar sem temperatura central contínua não é tratamento, e a indicação nem foi decidida. Depois, a janela, escrita no alto da folha: nascimento às 4h20, prazo às 10h20. A evidência de asfixia já está no prontuário por três itens, quando bastaria um: pH 6,86 e excesso de base de −19 no sangue arterial do cordão, descolamento de placenta e ventilação além do 10º minuto. Então o exame, categoria por categoria, às 5h10: letárgico, com atividade espontânea diminuída, flexão só distal com os membros largados, hipotonia generalizada, Moro incompleto, pupilas mióticas; sucção não avaliável pela cânula; respiração em ventilação mecânica. São seis categorias no grau moderado ou grave. Jonas tem encefalopatia moderada e preenche os critérios. A glicemia de 52 mg/dL está no alvo, mas no limite de baixo.
Prescrição- Berço de calor radiante em servo-controle de pele, com alvo axilar de 36,5 a 37,2 °C; nunca acima de 38,0 °C
- Temperatura e sinais vitais a cada 15 minutos nas primeiras 4 horas, depois de hora em hora, com registro
- Monitor cardíaco, oximetria de pulso e pressão arterial não invasiva contínuos
- Cabeça na linha média e cabeceira elevada a 30 graus; jejum
- Cateter venoso umbilical; soro com oferta de 60 mL/kg/dia (8,5 mL/h) e glicose a 12%, para VIG de 5 mg/kg/min
- Glicemia capilar de hora em hora, junto com o exame
- Exame pelas seis categorias do Sarnat modificado de hora em hora, com hora e grau de cada categoria
- Gasometria arterial, glicose, sódio, potássio, cálcio iônico, magnésio, ureia, creatinina, hemograma com plaquetas, coagulograma e transaminases
5h25 — 1 hora e 5 minutos de vida: a ligação
Você liga para a central de regulação com os dados na mão e na ordem em que o centro precisa deles para decidir: idade gestacional e peso; hora do nascimento; o evento agudo; a gasometria arterial do cordão com a hora da coleta; o Apgar do 1º, 5º, 10º, 15º e 20º minutos; até quando ele precisou de ventilação; o exame das 5h10, com o grau de cada categoria; o que já foi feito. A neonatologista do hospital universitário aceita Jonas às 5h50 e pergunta duas coisas que o papel já responde: se ele convulsionou e se alguém desligou o berço. A central aciona a ambulância de suporte avançado do SAMU regional, com incubadora de transporte e equipe treinada, e a previsão é que ela chegue às 7h05. A viagem de volta leva duas horas. A conta fecha com folga pequena, e ela é a razão de nada ser deixado para depois. Antes das seis, você conversa com Belquior no corredor e pede à enfermeira que avise Iolanda, na recuperação, que um médico vai até ela.
Prescrição- Contato com a central de regulação às 5h25; aceite do centro de referência registrado às 5h50
- Folha de transferência com hora do nascimento, gasometria do cordão com a hora da coleta, boletim de Apgar ampliado, duração da ventilação, horas e graus de cada exame, glicemias, temperaturas e drogas
- Cópias da folha de reanimação, do boletim de Apgar ampliado e da descrição cirúrgica do parto
- Conversa com o pai registrada no prontuário, com o que foi dito sobre a transferência e o tratamento
6h05 — 1 hora e 45 minutos de vida: a crise
A técnica de enfermagem chama: o braço direito de Jonas bate em abalos ritmados, rápidos na contração e lentos no relaxamento, e o olhar desvia para a direita. É crise clônica focal — no tremor, contração e relaxamento durariam o mesmo. Você segue a ordem do guia federal: via aérea garantida pela cânula, monitor, glicemia capilar na hora e coleta de eletrólitos com cálcio iônico e magnésio, lactato e gasometria. A glicemia é 44 mg/dL, e abaixo de 45 a correção vem antes da droga: 2 mL/kg de SG 10% a 1 mL por minuto, e a velocidade de infusão de glicose sobe para 6 mg/kg/min. A crise continua. Você não empurra o gluconato de cálcio às cegas, como o capítulo de crises do mesmo guia manda fazer no recém-nascido em geral, porque a régua escrita para o asfixiado pede cautela na reposição de cálcio e o cálcio iônico já está colhido. Entra o fenobarbital: 20 mg/kg, que para Jonas são 68 mg, 0,68 mL da ampola de 100 mg/mL, diluídos e infundidos a 1 mg/kg por minuto, em 20 minutos. A crise cede no décimo segundo minuto da infusão. O cálcio iônico chega às 6h50: 4,6 mg/dL, normal para o termo. Nenhum cálcio foi dado, e nenhum era necessário.
Prescrição- SG 10% 6,8 mL (2 mL/kg) EV com velocidade conferida no protocolo neonatal, seguido de infusão contínua
- VIG de 6 mg/kg/min: com 60 mL/kg/dia, glicose a 14,4% pelo cateter venoso umbilical
- Fenobarbital 68 mg (20 mg/kg) = 0,68 mL da solução de 100 mg/mL, diluído, EV a 1 mg/kg/min, em 20 minutos
- Crise que persista ao fim da infusão: fenobarbital 34 mg (10 mg/kg), repetido uma vez se preciso, sem passar de 136 mg (40 mg/kg) em 24 horas; depois, fenitoína 68 mg (20 mg/kg) em 68 mL de SF 0,9% a 0,5 mg/kg/min, contando o volume no balanço
- Gluconato de cálcio 10% só com hipocalcemia documentada e crise ou arritmia: 6,8 mL (2 mL/kg) em 5 a 10 minutos com monitor
- Manutenção de fenobarbital 5 mg/kg/dia EV em duas doses (8,5 mg de 12/12 horas)
- Registro da crise: hora, tipo, duração, glicemia e drogas
6h50 — 2 horas e 30 minutos de vida: ventilação, pressão e temperatura
A gasometria arterial das 6h20 mostra pH 7,24, PaCO2 de 28 mmHg e PaO2 de 138 mmHg, com fração inspirada de oxigênio de 0,40. Dois números estão fazendo mal. A PaCO2 de 28 é hipocapnia produzida pelo ventilador, e a hipocapnia contrai os vasos do cérebro; a PaO2 de 138 é hiperóxia, e a hiperóxia multiplica os radicais livres na reperfusão. Você reduz a frequência do ventilador e a fração de oxigênio, e a gasometria das 7h25 vem com PaCO2 de 38 e PaO2 de 74 mmHg — dentro dos alvos do guia federal, de 35 a 50 e de 55 a 90. O pH melhorou sem bicarbonato, como o Manual nº 8 descreve. A pressão arterial média está em 43 mmHg, com enchimento capilar de 2 segundos e diurese de 1,6 mL/kg por hora pela pesagem das fraldas. Pelo guia federal de 2014, que pede no mínimo 45 a 50 mmHg, seria hora de agir; pelo Manual nº 8 da SBP, de 2020, a faixa é de 40 a 60 mmHg. Esta apostila adota a régua mais nova: com perfusão e diurese preservadas, Jonas não recebe volume nem dobutamina por causa de um número. A temperatura axilar está entre 36,8 e 37,0 °C desde as 5h40.
Prescrição- Ventilação ajustada para PaCO2 de 35 a 50 mmHg e PaO2 de 55 a 90 mmHg; gasometria arterial depois de cada ajuste
- Oxigênio titulado pela saturação e pela gasometria, evitando hiperóxia
- Sem bicarbonato de sódio
- PAM-alvo de 40 a 60 mmHg; abaixo de 40 ou com má perfusão: SF 0,9% 34 a 68 mL (10 a 20 mL/kg) só se houver hipovolemia; dobutamina 17 a 51 mcg/min (5 a 15 mcg/kg/min) na hipotensão persistente
- Diurese medida de hora em hora
7h05 — 2 horas e 45 minutos de vida: o transporte
A equipe do SAMU chega com incubadora de transporte, ventilador e um monitor com sensor de temperatura retal de leitura contínua. A neonatologista do hospital universitário, por telefone, repassa com você o exame das 7h — ainda moderado, seis categorias — e decide começar o resfriamento na estrada, de modo passivo, porque a equipe tem medida central contínua: o Documento Científico nº 4 admite a hipotermia passiva no transporte e avisa que ela é difícil de controlar. A fonte de calor da incubadora é desligada às 7h35, com a instrução escrita de religá-la se a temperatura retal chegar a 33,5 °C e de nunca deixá-la cair abaixo de 33 °C. Se o sensor retal não existisse, a instrução seria a oposta: incubadora ligada, normotermia, e o resfriamento começaria no destino. Você entrega a folha de transferência, as cópias do boletim de reanimação e da descrição cirúrgica, relata à equipe o que aconteceu desde as 4h20 e, antes de a incubadora sair, leva Belquior até ela. Jonas chega ao hospital universitário às 9h30, com 5 horas e 10 minutos de vida e temperatura retal de 34,4 °C.
Prescrição- Transporte em incubadora com ventilador, monitor cardíaco, oximetria e temperatura retal contínua
- Resfriamento passivo só por decisão do centro de referência e só com temperatura central contínua: fonte de calor desligada, alvo de 33,5 °C, nunca abaixo de 33 °C
- Sem temperatura central contínua: incubadora ligada, temperatura de 36,5 a 37,2 °C, sem passar de 38,0 °C
- Relato verbal à equipe de transporte e registro no prontuário da hora de saída, da temperatura, dos parâmetros do ventilador e das infusões em curso
9h45 — 5 horas e 25 minutos de vida, UTI neonatal do hospital universitário
Você chega ao hospital universitário para a manhã de estágio e encontra Jonas no leito 4, sobre o colchão de resfriamento servo-controlado, com sensor esofágico. A equipe repete o exame — moderado, seis categorias — e registra a hora exata em que a temperatura central chega a 33,5 °C: 10h02, com 5 horas e 42 minutos de vida, dentro da janela. O aEEG é instalado e mostra atividade de base alterada, sem crise. A glicemia é de 96 mg/dL, e a velocidade de infusão de glicose volta de 6 para 5 mg/kg/min, no passo de 1 mg/kg/min que o guia federal manda dar com intervalo de pelo menos uma hora. A primeira conta que o residente pede a você é a da glicose: com a oferta hídrica total reduzida a 50 mL/kg/dia, 170 mL, e VIG de 5 mg/kg/min, 24,5 g de glicose por dia, a solução passa de 14% — acima dos 12,5% que o guia federal admite em veia periférica. É por isso que o bebê resfriado tem cateter venoso umbilical, além do arterial para a pressão. A morfina começa na dose baixa do Documento Científico nº 4, com a cautela que o Manual nº 8 pede porque o resfriamento suprime vias de metabolização de drogas, como a do citocromo P450.
Prescrição- Hipotermia de corpo inteiro servo-controlada: temperatura esofágica de 33,5 °C por 72 horas, contadas das 10h02
- Temperatura central, frequência cardíaca, saturação e PAM invasiva contínuas; sinais vitais registrados a cada 15 minutos por 4 horas, de hora em hora por 8 horas e de 2 em 2 horas até o fim do resfriamento
- Cateteres arterial e venoso umbilicais
- Oferta hídrica total de 50 mL/kg/dia (170 mL/dia); VIG de 5 mg/kg/min; aminoácidos 3,4 g (1 g/kg) no primeiro dia
- Morfina 17 mcg/h (5 mcg/kg/h), com avaliação de dor
- Fenobarbital 8,5 mg EV de 12/12 horas
- aEEG contínuo até 24 horas depois do reaquecimento
- Glicose, ureia, creatinina, cálcio iônico, magnésio, sódio, potássio, tempo de protrombina, CPK, transaminases, hemograma com plaquetas e gasometria arterial no início e com 24, 48 e 72 horas
- Lençol entre o colchão e a pele; mudança de decúbito a cada 2 horas
- Colostro e leite materno de 34 a 68 mL/dia (10 a 20 mL/kg/dia) quando estável; antibiótico só com indicação de infecção
Terça, 16h — 36 horas de vida: o rim, o sódio, as plaquetas e uma crise que ninguém viu
No segundo dia a disfunção dos órgãos aparece como o mecanismo prevê. A diurese caiu para 0,7 mL/kg por hora nas últimas seis horas, a creatinina subiu e o sódio das 24 horas veio 129 mEq/L, com ganho de peso. É hiponatremia dilucional, e o Manual nº 8 é claro: reduz-se a oferta de água e controla-se o balanço, sem repor sódio em dose alta, e os níveis tendem a normalizar em 48 a 72 horas. A oferta cai para 40 mL/kg/dia, o que leva a concentração de glicose a 18% para manter a VIG de 5. As plaquetas vieram 41.000/mm³ e o tempo de protrombina está prolongado, sem sangramento: Jonas recebe concentrado de plaquetas, porque o Documento Científico nº 4 manda mantê-las acima de 50.000 durante o resfriamento, e não recebe plasma, porque coagulograma alargado sem sangramento não é indicação no recém-nascido. A frequência cardíaca está em 88 bpm e a PAM em 42 mmHg, com boa perfusão: é a bradicardia esperada do frio, e ninguém a trata. Às 3h da madrugada o aEEG tinha mostrado duas crises sem nenhum movimento — ninguém as teria visto. Ele recebeu mais 10 mg/kg de fenobarbital e não teve outras.
Prescrição- Oferta hídrica total de 40 mL/kg/dia (136 mL/dia), com balanço hídrico rigoroso e peso diário
- Glicose ajustada para manter VIG de 5 mg/kg/min (18% pelo cateter venoso umbilical)
- Sem sódio em dose alta; eletrólitos e creatinina com 48 horas, antecipados se a diurese continuar caindo
- Sonda vesical de demora, com diurese horária
- Concentrado de plaquetas 17 mL (5 mL/kg), incluído no balanço
- Sem plasma enquanto não houver sangramento
- Fenobarbital 34 mg (10 mg/kg) EV pelas crises eletrográficas das 3h — somadas às doses de ataque desde as 6h05 da véspera, 30 mg/kg, abaixo do teto de 40 mg/kg em 24 horas do guia federal
- Frequência de 80 a 100 bpm sem repercussão: observar
Quinta, 10h02 — fim das 72 horas; sábado, quinto dia
O reaquecimento é a outra metade do tratamento e pede a mesma disciplina, no sentido contrário: devagar. A temperatura sobe de 0,2 a 0,5 °C por hora até 36,5 °C — a equipe escolhe 0,5, e a conta dá seis horas —, com sinais vitais no mínimo a cada 30 minutos e o aEEG ligado, porque as crises são mais comuns justamente agora. Jonas não convulsiona. Às 16h02, com 36,5 °C, o colchão sai e ele volta para a incubadora; o aEEG segue até sexta às 16h, 24 horas depois. No sábado, quinto dia, a ressonância mostra alteração discreta de sinal na substância branca, sem lesão no tálamo, nos núcleos da base ou no braço posterior da cápsula interna. O exame melhora dia a dia: no quinto dia ele abre os olhos ao ser chamado, tem tônus quase normal e suga o dedo enluvado. A dieta avança com o leite de Iolanda, o fenobarbital endovenoso segue por uma semana depois da última crise, e o plano da alta — ouvido, desenvolvimento, ambulatório de seguimento — começa a ser escrito agora, não no dia da saída.
Prescrição- Reaquecimento de 0,5 °C por hora, de 33,5 a 36,5 °C, em 6 horas
- Sinais vitais contínuos ou, no mínimo, a cada 30 minutos durante o reaquecimento
- aEEG até 24 horas depois de atingir 36,5 °C
- Retirada do colchão ao chegar a 36,5 °C e passagem à incubadora
- Ressonância magnética de crânio no 5º dia
- Fenobarbital EV por uma semana depois da última crise; manutenção oral só por decisão do neurologista
- Avanço da dieta com leite materno, conforme a tolerância
- Antes da alta: EOAT e PEATE-A, avaliação oftalmológica, consulta com o neurologista e encaminhamento regulado ao ambulatório de seguimento de egressos da unidade neonatal
Como saber se está funcionando
Reavaliar o asfixiado é ler dois relógios. O primeiro é o da janela: existe só nas primeiras 6 horas e se lê pelo exame repetido de hora em hora e pela glicemia. O segundo é o dos órgãos: ocupa as 72 horas do resfriamento e os dias do reaquecimento e se lê pelo laboratório que o Documento Científico nº 4 manda colher no início e com 24, 48 e 72 horas, pelo traçado contínuo e pelo balanço. O bebê que não pôde ser transferido a tempo é reavaliado com o mesmo calendário, porque a disfunção dos órgãos não depende do resfriamento.
Durante o resfriamento, os sinais vitais seguem o ritmo do documento da SBP: a cada 15 minutos nas primeiras 4 horas, de hora em hora nas 8 seguintes e de 2 em 2 horas até o fim; no reaquecimento, no mínimo a cada 30 minutos. O erro mais frequente não é deixar de medir, é reagir a número isolado: a bradicardia de 88 bpm do bebê a 33,5 °C, a PAM de 42 mmHg com boa perfusão e a acidose que melhora sozinha não pedem droga.
O que não melhora também se lê no tempo certo. Sinais de encefalopatia que persistem além de 5 a 7 dias, aEEG anormal além de 48 a 72 horas no bebê resfriado e ressonância com lesão de tálamo e núcleos da base mudam a conversa com a família — e nenhum desses dados existe no primeiro dia.
Esperado: 33,5 °C estáveis por 72 horas no resfriamento; 36,5 a 37,2 °C no bebê que não está sendo resfriado; nunca acima de 38,0 °C
Se não melhora: Abaixo de 33 °C: corrigir o servo-controle e aquecer; se não responder, interromper o resfriamento. Acima de 37,2 °C sem hipotermia: reduzir a fonte de calor. Oscilação no transporte passivo: religar a fonte e manter normotermia até o destino.
Esperado: Na encefalopatia moderada, melhora progressiva, com sinais que desaparecem em até 5 a 7 dias
Se não melhora: Exame que piora nas primeiras 6 horas muda a indicação: ligue de novo para o centro. Sinais que persistem além de 5 a 7 dias pesam contra o prognóstico e pedem o neurologista na internação e no seguimento.
Esperado: Sem crises; atividade de base que normaliza até 48 a 72 horas no bebê resfriado
Se não melhora: Crise eletrográfica trata-se como a clínica: fenobarbital, depois fenitoína, depois midazolam. Traçado anormal além de 48 a 72 horas no resfriado tem maior valor preditivo de morte ou atraso e entra na conversa com a família.
Esperado: 50 a 90 mg/dL, com VIG de 5 mg/kg/min no resfriamento
Se não melhora: Abaixo de 45 mg/dL com crise: SG 10% 2 mL/kg com velocidade conferida no protocolo neonatal, seguido de infusão contínua e VIG de 6. Abaixo de 50 sem crise: subir a VIG. Glicemia estável no alvo: reduzir a VIG 1 mg/kg/min por vez, com pelo menos 1 hora entre os passos; hiperglicemia também lesa e pede redução.
Esperado: PAM de 40 a 60 mmHg; frequência de 80 a 100 bpm tolerada no resfriamento, até 70 sem repercussão; enchimento capilar até 3 segundos; diurese de 1 mL/kg por hora ou mais
Se não melhora: Hipovolemia com contração adequada: SF 0,9% 10 a 20 mL/kg, sem repetir. Contratilidade ruim ou hipotensão persistente: dobutamina 5 a 15 mcg/kg/min e, pela sequência do guia federal, dopamina 5 a 10 e epinefrina 0,1 a 0,3 mcg/kg/min. Hipotensão apesar de inotrópico é critério de interrupção do resfriamento.
Esperado: Diurese de 1 mL/kg por hora ou mais; sódio no limite superior da referência; creatinina estável
Se não melhora: Oligúria: sonda vesical e restrição a 40 mL/kg/dia, sem sobrecarga com volume ou diurético. Hiponatremia dilucional: restringir água, sem sódio em dose alta. Oligoanúria persistente: diálise peritoneal sem adiar.
Esperado: Plaquetas acima de 50.000/mm³; nenhum sangramento
Se não melhora: Plaquetas abaixo de 50.000: concentrado de plaquetas 5 a 10 mL/kg. Sangramento: vitamina K e hemoderivados. Coagulograma alargado sem sangramento: observar, sem plasma. Coagulopatia grave refratária é critério de interrupção do resfriamento.
Onde o erro machuca
O dano: O bebê asfixiado esquenta sem febre nenhuma, só pelo aparelho, e a temperatura acima do normal agrava a lesão. A revisão brasileira de 2015 descreve paralisia cerebral moderada a grave até 3,5 vezes mais frequente nos bebês que ficaram mais quentes nos primeiros dias, e as Diretrizes 2026 proíbem deixar o asfixiado passar de 38,0 °C.
Como pegar a tempo: Na admissão, trocar o modo manual pelo servo-controle de pele, medir e registrar a temperatura a cada 15 minutos nas primeiras 4 horas e manter 36,5 a 37,2 °C até a decisão do resfriamento.
O dano: O exame da primeira hora pode ser leve e o da quarta, moderado. Quem espera a sexta hora para ligar descobre que a ambulância, a estrada e a admissão não cabem no que sobrou da janela, e o Manual nº 8 descreve como incerto o benefício da hipotermia iniciada depois de 6 horas.
Como pegar a tempo: Ligar na primeira combinação de evidência de asfixia com sinal de encefalopatia, com o exame repetido de hora em hora e registrado. A confirmação da indicação cabe a quem resfria, e a transferência pode ser desmarcada; a janela perdida não volta.
O dano: Sem medida contínua não se vê a queda abaixo de 33 °C, que o Manual nº 8 associa a mais efeitos adversos e a maior mortalidade; o próprio Documento Científico nº 4 avisa que a hipotermia passiva é difícil de controlar. O bebê pode chegar ao centro frio demais, com bradicardia e coagulopatia piores, sem o benefício do tratamento.
Como pegar a tempo: Resfriamento passivo só por decisão do centro de referência e só com temperatura retal ou esofágica contínua. Sem ela, normotermia até o destino: o prazo de 6 horas é para começar lá, com o equipamento certo.
O dano: A PaCO2 baixa contrai os vasos cerebrais e reduz o fluxo num cérebro que perdeu a autorregulação; a PaO2 alta aumenta os radicais livres justamente na reperfusão. O Manual nº 8 associa hiperóxia e hipocapnia a pior desfecho neurológico.
Como pegar a tempo: Gasometria arterial logo depois da admissão e depois de cada ajuste do ventilador; PaCO2 de 35 a 50 e PaO2 de 55 a 90 mmHg; oxigênio titulado pela saturação.
O dano: O bicarbonato não trouxe benefício e se associou a maior mortalidade, com hipernatremia, hiperosmolaridade, excesso de gás carbônico e piora do edema cerebral, pelo Manual nº 8; as Diretrizes 2026 não o recomendam na reanimação. Expansões repetidas sobrecarregam um bebê que já retém água e também pioram o edema cerebral.
Como pegar a tempo: Deixar a acidose metabólica melhorar com ventilação e perfusão; expansão de 10 a 20 mL/kg só com hipovolemia e contração adequada, sem repetir; inotrópico na contratilidade ruim; PAM de 40 a 60 mmHg como faixa, sem perseguir número isolado.
O dano: O fenobarbital precoce em dose alta aparece no guia federal de 2014 só como promessa, com novos estudos aguardados antes de virar rotina, e o Documento Científico nº 4 o reserva para a crise; dado antes, ele seda um bebê cujo exame decide o resfriamento. O cálcio empírico, que o capítulo de crises do mesmo guia usa no recém-nascido em geral, pode piorar a lesão neuronal no asfixiado, pelo Manual nº 8.
Como pegar a tempo: Fenobarbital 20 mg/kg só para crise clínica ou eletrográfica. Cálcio iônico colhido na admissão e em cada crise; gluconato de cálcio só com hipocalcemia documentada e crise ou arritmia.
O que dizer ao paciente e à família
A asfixia chega sem aviso a uma família que esperava um parto comum. O Manual nº 8 da SBP descreve o nascimento de um bebê que de repente sofre lesão neurológica e de vários órgãos, com risco alto de morte ou de deficiência permanente, como uma das experiências mais traumáticas possíveis para os pais, e lembra que a maneira como os médicos falam pode aliviar ou agravar esse trauma, no curto e no longo prazo. Daí as regras que ele dá: um profissional sênior, conversas regulares nos primeiros dias, ambiente calmo e silencioso, de preferência longe do leito, explicação completa e sem jargão, a enfermagem reforçando o que foi dito, psicólogo com experiência em neonatologia e, sempre que possível, toque e colo.
No hospital sem hipotermia, a primeira conversa costuma caber à pediatra do plantão e ao interno, no corredor, antes de a ambulância chegar. Ela precisa dizer três coisas verdadeiras: o que aconteceu, o que vai ser feito agora e que ninguém sabe ainda como o bebê vai ficar. As falas abaixo seguem a família de Jonas da madrugada à alta.
Às 5h40, no corredor da maternidade, contar ao pai o que aconteceu e por que o filho vai ser transferido
““Belquior, o Jonas está vivo e está sendo cuidado agora. A placenta descolou antes do parto, e ele ficou um tempo sem oxigênio suficiente. Precisou ser reanimado, está respirando com a ajuda de um aparelho e está sonolento e molinho, o que mostra que o cérebro sofreu. Existe um tratamento para isso, que é resfriar o corpo dele por três dias, e ele precisa começar nas primeiras seis horas de vida. Esse tratamento é feito no hospital universitário, e a ambulância já está vindo. Eu ainda não sei como ele vai ficar, e não vou dizer uma coisa que eu não sei. O que eu sei é que cada hora agora conta, e a gente está usando todas.””
Não diga: “Ele teve um sofrimento, mas vai ficar tudo bem.” Ninguém sabe se vai, e a frase que promete na madrugada é a que a família cobra na semana seguinte.
Na sala de recuperação da cesárea, responder à mãe que pergunta se vão deixar o filho gelado
““Iolanda, é um frio controlado, não é deixar ele passando frio. Ele vai ficar num colchão que mantém a temperatura do corpo em 33 graus e meio, medida o tempo todo por um sensor, durante 72 horas, e depois é aquecido devagar. Isso protege o cérebro nas horas em que a lesão ainda está acontecendo. Ele recebe remédio para não sentir dor nem desconforto. Num estudo grande, de cada cinco ou seis bebês tratados assim, um escapou da morte ou de uma sequela grave. É o tratamento que a Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda para o que ele tem.””
Não diga: “É um tratamento experimental, mas vale a pena tentar.” Não é experimental pela régua brasileira desde 2020, e a mãe que ouve essa palavra passa a ter medo do tratamento, não da doença.
O pai pergunta, com raiva, se foi culpa da demora para fazer a cesárea
““Eu entendo a pergunta, e ela é justa. Eu não estava no parto e não vou dar uma resposta pela metade. O que aconteceu está escrito: a hora em que a Iolanda chegou, os batimentos do bebê, a hora da cirurgia, o que a equipe fez na sala de parto. A obstetra que operou vai conversar com vocês sobre o parto. A minha parte agora é o Jonas: cuidar do que ele precisa nas próximas horas e contar a vocês tudo o que for acontecendo.””
Não diga: “Se tivessem operado antes, ele estaria bem” ou “ninguém errou em nada”. As duas frases afirmam uma causa que o interno não tem como conhecer, e a segunda soa como defesa.
No segundo dia, na UTI do hospital universitário, a mãe pergunta se o filho vai ter paralisia cerebral
““Iolanda, hoje ninguém consegue responder isso com segurança, e quem responder está chutando. O que a gente sabe é que a maioria dos bebês que passam por asfixia não fica com paralisia cerebral, e que o resfriamento diminui a chance de sequela. O que vai nos dizer mais é como o exame dele muda nos próximos dias, o traçado do cérebro que está sendo registrado agora e uma ressonância no quinto dia. Eu prometo sentar com vocês de novo a cada resultado.””
Não diga: “A lesão foi grave, ele vai ter sequela” ou “ele já está ótimo”. O prognóstico do primeiro dia é o menos confiável que existe, e a família guarda a primeira frase.
No terceiro dia, durante o resfriamento, a mãe pergunta se pode tocar no filho e se adianta tirar leite
““Pode tocar, sim, e é bom que toque: a mão na cabeça, no pé, com a enfermagem ajudando por causa dos fios. O colo a equipe combina com você assim que for possível. E adianta muito tirar o leite: o colostro é o primeiro alimento que ele vai receber, em quantidade pequena, quando estiver estável. Cada seringa sua vai para ele.””
Não diga: “Melhor não mexer, para não atrapalhar o tratamento.” O Manual nº 8 manda estimular o vínculo precoce e permitir toque e colo sempre que possível; afastar a mãe não protege o bebê.
No quinto dia, depois da ressonância, explicar o resultado aos dois
““A ressonância mostrou uma alteração pequena na parte branca do cérebro e não mostrou lesão nas regiões profundas, que são as que mais preocupam depois de uma asfixia como a dele. Junto com o exame, que melhora todo dia, e com o traçado, que não mostrou crise desde terça, é uma notícia boa. Não é garantia: o desenvolvimento dele vai ser acompanhado de perto até a idade escolar, porque algumas dificuldades só aparecem quando a criança cresce.””
Não diga: “O exame veio normal, ele não vai ter nada.” Nem o laudo é normal nem o seguimento é opcional — e a família que ouve isso falta às consultas.
Na alta, combinar o seguimento e o que vigiar em casa
““O Jonas vai para casa com consulta marcada no ambulatório de seguimento dos bebês que passaram pela UTI, com o neurologista, e com um exame de audição mais completo que o teste da orelhinha comum, porque bebês que passaram pelo que ele passou precisam dele. A pediatra do posto continua sendo a pediatra dele. Em casa, observem três coisas: movimentos repetidos e ritmados, olhar parado ou desviado, ou pausas na respiração; dificuldade para mamar; e se ele fica mais molinho ou sonolento que o normal. Se aparecer qualquer uma, voltem na hora. E tragam a caderneta em todas as consultas: o peso, o tamanho da cabeça e o que ele vai aprendendo a fazer contam a história que a gente precisa acompanhar.””
Não diga: “Agora é vida normal.” O seguimento é o que transforma o resfriamento em desenvolvimento acompanhado; sem a consulta marcada na mão, ele se perde entre a UTI e o posto.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Promessa, ainda sem recomendação formal — Ministério da Saúde, Atenção à saúde do recém-nascido, volume 3, 2ª edição atualizada, 2014
O capítulo de encefalopatia hipóxico-isquêmica descreve a hipotermia corporal total, iniciada antes de 6 horas e mantida por 72 horas, como efetiva em reduzir sequelas e melhorar a sobrevida, mas conclui que, antes de sua recomendação formal, mais estudos são necessários, e põe a hipotermia ao lado do fenobarbital precoce entre as estratégias que aguardam novos estudos para virar rotina. Como medida de suporte, manda manter a temperatura corporal entre 36,5 e 37,2 °C.
Brasil. Ministério da Saúde. Atenção à saúde do recém-nascido: guia para os profissionais de saúde. 2. ed. atual. Brasília: Ministério da Saúde, 2014. v. 3, cap. 28.
Tratamento recomendado, com critérios e prazo — SBP, Documento Científico nº 4 (junho de 2020) e Manual de Orientação nº 8 (setembro de 2020); Diretrizes 2026 de reanimação
O Documento Científico nº 4 registra a recomendação formal de hipotermia terapêutica precoce no bebê com 35 semanas ou mais e encefalopatia hipóxico-isquêmica, fixa critérios, técnica e prazo e conclui que se pode considerar omissão deixar de instituí-la no asfixiado. O Manual nº 8 fala em recomendação formal em guias nacionais e internacionais para a encefalopatia moderada ou grave. As Diretrizes 2026 mandam decidir a hipotermia nas primeiras 6 horas depois do nascimento, na unidade neonatal.
Sociedade Brasileira de Pediatria. Hipotermia terapêutica. Documento Científico nº 4, junho de 2020; Monitoramento do recém-nascido com asfixia perinatal. Manual de Orientação nº 8, setembro de 2020; Almeida MFB, Guinsburg R et al. Reanimação do recém-nascido ≥34 semanas em sala de parto: diretrizes 2026 da SBP.
Decide o segundo degrau. O escopo empata: o capítulo federal e os documentos da SBP tratam do mesmo recém-nascido com encefalopatia hipóxico-isquêmica. Na data, os documentos da SBP de 2020 e as Diretrizes de 2026 são mais novos que o guia de 2014 — que, aliás, já descrevia o tratamento como efetivo. Esta apostila adota a hipotermia como tratamento indicado. O guia de 2014 continua valendo onde não conflita: a temperatura de 36,5 a 37,2 °C é a regra até a decisão e para o bebê que não entra no resfriamento. Para o paciente à frente: bebê com critérios vai para o centro que resfria, dentro da janela; a falta de equipamento no hospital muda o endereço do tratamento, não a indicação.
Bolus empírico se a crise persiste depois da glicose — Ministério da Saúde, guia de 2014, volume 3, capítulo 29, escrito para a crise neonatal de qualquer causa
Na abordagem imediata da crise neonatal, depois de corrigir a glicemia, o guia manda suspeitar de hipocalcemia e tratá-la no bebê que mantém a crise, porque o resultado do laboratório demora: 2 mL/kg de gluconato de cálcio a 10% em 5 a 10 minutos, com acompanhamento contínuo da frequência cardíaca.
Brasil. Ministério da Saúde. Atenção à saúde do recém-nascido: guia para os profissionais de saúde. 2. ed. atual., 2014. v. 3, cap. 29, item 29.2.
Avaliar e repor com cautela — SBP, Manual de Orientação nº 8 (2020), e o capítulo 28 do mesmo guia federal, escrito para a encefalopatia
O Manual nº 8 registra que a hipocalcemia é comum no asfixiado e está ligada ao influxo de cálcio para dentro do neurônio, um mecanismo importante da lesão, e preconiza avaliação e cautela na reposição, porque a sobrecarga poderia piorar a lesão neuronal. O capítulo 28 do guia federal manda verificar a presença de hipoglicemia e de hipocalcemia no bebê com encefalopatia que convulsiona e tratá-las quando presentes.
Sociedade Brasileira de Pediatria. Monitoramento do recém-nascido com asfixia perinatal. Manual de Orientação nº 8, 2020; Brasil. Ministério da Saúde. Atenção à saúde do recém-nascido. 2. ed. atual., 2014. v. 3, cap. 28.
Decide o primeiro degrau, o escopo. O capítulo 29 foi escrito para a crise neonatal de qualquer causa, em que a hipocalcemia pode ser a própria causa da crise; o Manual nº 8 e o capítulo 28 foram escritos para o bebê asfixiado, em que o cálcio faz parte do mecanismo da lesão. No asfixiado vale a régua do asfixiado: glicemia corrigida, fenobarbital para a crise, cálcio iônico colhido junto e gluconato de cálcio só com hipocalcemia documentada — cálcio iônico abaixo de 4,4 mg/dL no termo — e crise ou arritmia. O bolus empírico continua sendo a conduta do capítulo 29 para o recém-nascido que convulsiona sem causa conhecida.
No mínimo 45 a 50 mmHg — Ministério da Saúde, guia de 2014, volume 3, capítulo 28
O guia lembra que, sem autorregulação, a pressão de perfusão cerebral acompanha a pressão arterial média sistêmica, e escreve que manter a perfusão cerebral requer pressão arterial média no mínimo entre 45 e 50 mmHg; admite expansão com soro fisiológico para sustentá-la, apesar da restrição hídrica.
Brasil. Ministério da Saúde. Atenção à saúde do recém-nascido: guia para os profissionais de saúde. 2. ed. atual., 2014. v. 3, cap. 28, item 28.3.2.
Faixa de 40 a 60 mmHg, salvo instabilidade — SBP, Manual de Orientação nº 8 (setembro de 2020)
O Manual registra que a pressão ideal para o bebê com encefalopatia não foi estabelecida e que especialistas recomendam manter a pressão arterial média na faixa de 40 a 60 mmHg, a menos que a instabilidade hemodinâmica sugira pressão mais otimizada. Pede pressão invasiva e ecocardiograma para decidir entre volume e inotrópico, evitando expansões múltiplas, e lembra que a bradicardia de 80 a 100 bpm do resfriamento é bem tolerada.
Sociedade Brasileira de Pediatria. Monitoramento do recém-nascido com asfixia perinatal. Manual de Orientação nº 8, setembro de 2020.
Decide o segundo degrau. O escopo empata: os dois textos tratam do bebê com encefalopatia hipóxico-isquêmica. Na data, o Manual de 2020 é mais novo e já foi escrito para a era do resfriamento. Esta apostila adota a faixa de 40 a 60 mmHg. Para o paciente à frente: PAM entre 40 e 45 mmHg com enchimento capilar normal e diurese de 1 mL/kg por hora ou mais não recebe volume nem inotrópico; abaixo de 40, ou com má perfusão, oligúria ou acidose que piora, trata-se — volume só com hipovolemia e contração adequada, inotrópico na contratilidade ruim ou na hipotensão persistente.
O raciocínio, em voz alta
Sexta-feira, 21h10, hospital de pequeno porte de um município de 30 mil habitantes, sem UTI neonatal e sem gasômetro. Cassemira Bocaina, 34 anos, terceira gestação, 40 semanas e 3 dias, teve período expulsivo prolongado e distócia de ombro. O bebê nasceu com 3.650 g, hipotônico e em apneia; recebeu ventilação com máscara por 12 minutos, com frequência cardíaca acima de 100 bpm desde o segundo minuto de ventilação, e o Apgar foi 2, 4 e 6 no 1º, 5º e 10º minutos. Não houve gasometria. Às 22h30, com 1 hora e 20 minutos de vida, ele está em incubadora, respirando sozinho com cateter de oxigênio, saturação de 95%, temperatura axilar de 36,9 °C e glicemia de 61 mg/dL. Está letárgico, mexe pouco, tem hipotonia generalizada, sucção fraca e Moro incompleto. Às 22h50 a central de regulação informa que não há leito de UTI neonatal com hipotermia disponível antes das 9h do dia seguinte, quando ele terá 11 horas e 50 minutos de vida.
a janela e a evidência de asfixia
O relógio conta das 21h10, e o prazo termina às 3h10. Sem gasometria, a evidência de asfixia precisa vir de outro item da lista do Documento Científico nº 4, e um basta: a ventilação com pressão positiva durou 12 minutos, portanto passou do 10º minuto. O Apgar do 10º minuto foi 6, acima do corte de 5, e a distócia de ombro não está entre os eventos agudos que o Manual nº 8 enumera — descolamento de placenta, prolapso ou rotura de cordão, desacelerações tardias, rotura uterina —, embora o manual admita outras situações de sofrimento fetal agudo evidente. A decisão não depende dessa discussão: a ventilação prolongada já sustenta a evidência.
a encefalopatia
Letargia, atividade espontânea diminuída, hipotonia generalizada e reflexos primitivos alterados — sucção fraca e Moro incompleto — são quatro categorias no grau moderado. Com 1 hora e 20 minutos de vida, o bebê tem encefalopatia moderada e preenche os critérios do resfriamento. A ligação das 22h50 foi feita com esses dados, e esse é o momento certo dela: não havia o que esperar.
o que a falta de leito muda e o que não muda
Muda o endereço do tratamento, não a indicação. O Manual nº 8 descreve o benefício da hipotermia iniciada entre 6 e 24 horas como incerto e mantém a recomendação de começar nas 6 primeiras horas; a decisão de resfriar tarde, quando o leito sair, é do centro que vai receber o bebê. O que o hospital de origem não faz é tentar resfriar sem temperatura central contínua: o risco de passar abaixo de 33 °C é real e o benefício, nenhum. A hora de cada solicitação e de cada resposta da central vai para o prontuário.
as horas sem resfriamento
O cuidado é o das 72 horas, com os recursos que existem. Temperatura axilar de 36,5 a 37,2 °C, medida a cada 15 minutos nas primeiras 4 horas e depois de hora em hora, nunca acima de 38,0 °C. Oferta hídrica de 60 mL/kg/dia — para 3,65 kg, 219 mL/dia, cerca de 9,1 mL/h — com glicose a 12%, que dá VIG de 5 mg/kg/min e cabe em veia periférica, abaixo do teto de 12,5%. Glicemia de 50 a 90 mg/dL, controlada de hora em hora nas primeiras horas. Oxigênio titulado pela saturação, sem hiperóxia. Diurese medida pela pesagem das fraldas. Exame pelas seis categorias de hora em hora até a sexta hora e depois a cada turno, sempre registrado. Nada de bicarbonato.
a crise da madrugada
À 0h40 o bebê faz movimentos de pedalar, com olhar fixo e uma pausa respiratória: é crise sutil, e crise sutil é crise. A sequência é a do guia federal: glicemia na hora, que vem 58 mg/dL, e coleta de eletrólitos com cálcio e magnésio; como a glicemia está acima de 45, não há correção antes da droga. Fenobarbital 20 mg/kg, que para 3,65 kg são 73 mg, 0,73 mL da ampola de 100 mg/mL, diluído e infundido a 1 mg/kg por minuto, em 20 minutos. Sem gluconato de cálcio empírico, porque a régua do asfixiado pede cautela. Sem eletroencefalograma no hospital, as crises subclínicas não serão vistas — mais uma razão para a transferência continuar indicada mesmo fora da janela.
a família
A conversa com Cassemira e com o companheiro precisa dizer o que existe e o que falta: que o bebê teve uma lesão do cérebro por falta de oxigênio; que há um tratamento, o resfriamento, que funciona melhor quando começa nas primeiras 6 horas; que não há vaga agora no hospital que o faz; que o bebê está recebendo, enquanto isso, o cuidado que protege o cérebro; e que a transferência continua necessária para o traçado, a ressonância e o acompanhamento. Sem culpar a regulação diante da família e sem prometer que a espera não fez diferença.
o papel
A folha de transferência leva as horas que decidem: nascimento às 21h10, ventilação por 12 minutos, Apgar 2, 4 e 6, exame das 22h30 com as quatro categorias, crise da 0h40 com a dose de fenobarbital, as temperaturas e as glicemias, e a hora de cada pedido de vaga e de cada resposta. Se o bebê morrer antes de sair, esse mesmo registro é a base da investigação do óbito neonatal, obrigatória.
o desfecho
A vaga sai às 7h40. O bebê chega ao centro com 12 horas e 30 minutos de vida, em normotermia e sem nova crise; a equipe de lá, diante da incerteza que o Manual nº 8 descreve, decide não iniciar o resfriamento tardio, instala o aEEG e mantém o suporte das 72 horas. A decisão da origem foi a certa: proteger o cérebro com o que havia, sem improvisar o tratamento que não havia, e registrar tudo.
Faça você
Quarta-feira, 14h, UTI neonatal de um hospital com protocolo de hipotermia terapêutica. O filho de Efigênia Cotrim nasceu às 11h05, com 38 semanas e 1 dia e 3.080 g, de parto vaginal logo depois de um prolapso de cordão identificado no toque. Precisou de ventilação com máscara por 4 minutos; o Apgar foi 3, 6 e 8 no 1º, 5º e 10º minutos. A gasometria arterial do cordão, colhida na sala, mostrou pH 7,04 e excesso de base de −13 mmol/L. Na primeira hora ele estava hiperalerta, com tremores e sucção vigorosa, e os exames das 12h05 e das 13h05 foram registrados como encefalopatia leve. Às 14h a enfermeira acha que ele está mais quieto: você o examina e o encontra letárgico, com atividade espontânea diminuída, hipotonia generalizada, sucção fraca e Moro incompleto, pupilas mióticas e frequência cardíaca de 104 bpm. Glicemia de 68 mg/dL, temperatura axilar de 37,0 °C.
a evidência de asfixia
Decida se este bebê tem evidência de asfixia pela lista do Documento Científico nº 4, item por item, e diga qual item sustenta a decisão.
o exame das 14h
Conte as categorias no grau moderado ou grave e diga se o bebê preenche o critério de encefalopatia. Explique por que os exames leves das 12h05 e das 13h05 não encerravam a questão.
a janela e a decisão
Calcule quanto tempo resta da janela e diga o que você faz agora, incluindo o que registra e como fica a temperatura.
se não houvesse acidose
Diga o que mudaria na sua conduta se a gasometria do cordão tivesse vindo com pH 7,28 e excesso de base de −4, com o mesmo exame às 14h.
Ver como fecharíamos
O item que sustenta a evidência de asfixia é o evento agudo perinatal: o prolapso de cordão está na lista do Manual nº 8, e o Documento Científico nº 4 aceita a história de evento agudo como item isolado. Os outros não fecham: pH 7,04 não é menor que 7,0, excesso de base de −13 não chega a −15, o Apgar do 10º minuto foi 8 e a ventilação durou 4 minutos. Pela régua brasileira, basta o evento. Às 14h há cinco categorias no grau moderado — consciência, atividade espontânea, tônus, reflexos primitivos e sistema autonômico, pela miose —, e o bebê preenche o critério de encefalopatia moderada. Os exames leves da primeira e da segunda hora não encerravam nada: a encefalopatia evolui nas primeiras horas, e por isso a régua manda repetir o exame de hora em hora até a sexta. Ele tem 2 horas e 55 minutos de vida, e o prazo termina às 17h05. A conduta é iniciar o resfriamento servo-controlado a 33,5 °C, com temperatura central contínua, depois de afastar as contraindicações, registrando a hora e as categorias de cada exame; até o colchão estar pronto, normotermia, sem passar de 37,2 °C. Vale registrar com honestidade que este bebê entra pela lista da SBP e ficaria fora do ensaio do NICHD, que, com pH entre 7,01 e 7,15, exigia o evento agudo mais Apgar de 5 ou menos no 10º minuto ou ventilação por pelo menos 10 minutos: a decisão é da equipe que resfria, pela régua brasileira, e fica escrita no prontuário. Se a gasometria viesse com pH 7,28 e excesso de base de −4, a encefalopatia sem acidose metabólica mandaria procurar outro diagnóstico ao mesmo tempo — infecção, distúrbio metabólico, malformação, droga materna —, com a investigação de infecção, eletrólitos, glicemias seriadas e líquor quando a causa não se definisse, sem abandonar a discussão do resfriamento, porque o evento agudo continua preenchendo a lista.
A conta: VIG de 5 mg/kg/min para 3,4 kg são 17 mg por minuto, ou 24,5 g de glicose por dia, que precisam caber em 170 mL (50 mL/kg/dia). A concentração é 24,5 g em 170 mL, 14,4% — o mesmo que VIG × 144 ÷ oferta em mL/kg/dia. Acima dos 12,5% que o guia federal admite em veia periférica, a solução exige cateter venoso umbilical, que o Documento Científico nº 4 já inclui na prescrição do resfriamento.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Simule a primeira hora do caso: calcule o limite de seis horas, descreva um exame neurológico por categorias e apresente à referência a evolução e o suporte atual. Confira uma prescrição supervisionada para hipoglicemia ou crise, incluindo concentração e velocidade. O exercício termina com o plano de temperatura e transporte, sem resfriamento improvisado.
Em 30 dias
Acompanhe uma passagem de cuidado neonatal ou simule-a com o serviço. Verifique se nascimento, gasometria, exame neurológico seriado, crises, temperatura e tratamentos permitem reconstruir o caso. Mostre onde se aciona a referência e como o seguimento neurológico, auditivo, alimentar e do desenvolvimento será mantido após a alta.
Agora atenda
Agora atenda: o filho de Gustavina Pacoti, 38 semanas, 55 minutos de vida, trazido da sala de parto de um hospital sem hipotermia terapêutica depois de reanimação com ventilação por 11 minutos. Examine, conte a janela, decida para quem ligar e o que prescrever até a ambulância chegar.
