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A lombalgia que era outra coisa
Compressão medular não traumática: metástase, abscesso epidural e cauda equina
A compressão medular avisa em semanas de dor nas costas e cobra em horas de déficit. E o que ela cobra é caro de devolver: preservar a marcha de quem ainda anda é muito mais confiável do que recuperá-la depois — mais da metade dos pacientes brasileiros já chega sem andar, e mais da metade dos que sobrevivem à internação sai sem andar. Entre uma coisa e outra há um exame de cinco minutos que quase ninguém faz na lombalgia.
Brasil. Ministério da Saúde. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Ortopedia adulto. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. 37 p. (Protocolos de encaminhamento da atenção básica para a atenção especializada, v. 4). ISBN 978-65-5993-223-8.
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NICE NG234 — metástases espinhais e compressão medular
Prefeitura de São Paulo — elenco local, emergência e dispensação
Ministério da Saúde — Rename 2024, financiamento, p. 17 (cópia oficial municipal)
Ministério da Saúde — Portaria 2.616/1998, Anexo II (cópia oficial municipal)
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A equipe prescreveu 16 mg de um medicamento intravenoso, e a farmácia confirmou concentração de 4 mg/mL na mesma convenção da prescrição. Qual volume corresponde à dose?
O paciente que você vai ver
Quinta-feira, quinze e dez. Ambulatório de clínica médica de um hospital de ensino de porte médio, cidade de duzentos mil habitantes, referência para mais oito municípios. Há tomógrafo, com técnico presencial até o começo da noite. A ressonância existe, fica no prédio ao lado, é regulada pelo estado e a fila do eletivo está em oito meses; para a urgência há um número de telefone que o residente de radiologia atende, e ele pergunta sempre a mesma coisa antes de aceitar. A neurocirurgia é de sobreaviso, a duas horas de estrada, e a radioterapia mais próxima fica na capital.
Petronilha Fantoni tem 58 anos, é auxiliar de costura e veio de ônibus com a filha. A ficha da triagem diz dor lombar, e é a quarta ficha dela em cinco semanas: duas na unidade básica do bairro, uma no pronto atendimento num sábado. Nas três recebeu anti-inflamatório e orientação de repouso; na do pronto atendimento saiu com uma injeção e um raio-X de coluna lombar cujo laudo, que ela traz dobrado dentro da bolsa, diz espondiloartrose e redução do espaço intervertebral em L4-L5.
Ela senta devagar e explica que a dor começou nas costas, no meio, não embaixo. Piorou. Agora acorda de madrugada, e não é a dor de virar na cama — é uma dor que a obriga a levantar e ficar de pé no corredor até clarear. Quando tosse, dói. Quando deita, dói mais. Nesta semana começou uma faixa de dormência que dá a volta pelo tórax, do lado esquerdo, na altura do sutiã, e nas últimas duas noites as pernas estão pesadas ao subir os três degraus da entrada de casa.
Nos antecedentes há uma frase que não estava em nenhuma das três fichas anteriores porque ninguém perguntou: câncer de mama à direita, operado há seis anos, com quimioterapia e radioterapia, alta do acompanhamento oncológico há dois anos por conta própria porque as passagens ficaram caras. Ela não considera isso relevante para uma dor nas costas. A filha, sentada ao lado, ouve pela primeira vez que a mãe está urinando diferente: começou a demorar para sair, e ontem molhou a roupa sem sentir.
Você é o interno do ambulatório. O preceptor está com outro paciente na sala ao lado. Você tem trinta minutos de agenda, um martelo de reflexos no bolso, uma maca, uma pia e um consultório com porta que fecha. Não tem ultrassom de bexiga. Tem uma sonda de alívio na sala de procedimentos, e tem telefone.
O que você faz nos próximos trinta minutos decide se Petronilha volta a subir esses três degraus. Não é força de expressão, e os números brasileiros dizem por quê: na única coorte nacional desta doença, mais da metade dos pacientes já não conseguia andar no dia do diagnóstico, e entre os que sobreviveram à internação mais da metade saiu sem andar. Preservar a marcha de quem ainda anda é muito mais confiável do que devolvê-la depois. O relógio não começou hoje — começou há cinco semanas, e já passaram três consultas. Mas o pedaço do relógio que ainda é seu é o das próximas horas.
Quem adoece disso
A dor lombar é a queixa mais comum do aparelho locomotor, e a compressão medular é uma das mais raras entre as suas causas. Essa desproporção é o problema inteiro do capítulo: a doença que precisa ser encontrada em horas está escondida dentro da queixa que aparece dezenas de vezes por semana e que, em quase todos os casos, é benigna e se resolve sozinha. Nenhuma prevalência resolve isso; o que resolve é uma lista fixa de perguntas e um exame que não se pula.
Do lado do câncer, a ordem de grandeza é conhecida: a compressão medular metastática aparece em torno de três a cinco de cada cem pessoas com câncer, e a frequência varia muito com o tumor de origem. A coorte brasileira do Instituto Nacional de Câncer registra os números por tumor citados na literatura que revisa — cerca de 4% no câncer de pulmão e 0,6% no de pâncreas — e a própria composição da sua casuística mostra de onde vêm os pacientes na prática: das 90 pessoas acompanhadas entre janeiro de 2017 e dezembro de 2018, 46,7% tinham câncer de mama, 27,8% tumores geniturinários, 11,1% câncer de pulmão e 14,4% outros. A leitura operacional não é decorar percentuais: é que mama, próstata e pulmão respondem pela maioria, e que qualquer câncer sólido pode fazer isso.
O tempo entre o diagnóstico do câncer e a compressão, na mesma coorte, teve mediana de 20 meses. Vinte meses é tempo suficiente para o paciente ter recebido alta do acompanhamento, ter mudado de cidade, ter parado de se considerar doente e, sobretudo, para o médico que o atende hoje não saber que ele teve câncer. Petronilha, da cena de abertura, está exatamente nesse ponto: seis anos de intervalo, dois anos sem consulta oncológica, e três atendimentos de dor lombar em que a palavra câncer não foi dita por ninguém.
O número mais duro dessa coorte é o de entrada: no momento do diagnóstico da compressão, mais da metade dos pacientes já não conseguia andar. A tabela registra 50 dos 90, e o resumo do artigo diz 55,5%, enquanto a tabela diz 55,6% — a conta correta de 50 sobre 90 é 55,6%, e a diferença é só arredondamento, mas está anotada nas notas de auditoria porque é o número que circula. Também não é um dado de país pobre isolado: uma série alemã de laminectomia descompressiva citada pelos mesmos autores tinha 80% de pacientes sem marcha na admissão. A doença chega tarde em toda parte; aqui ela chega tarde depois de passar por consultas que poderiam tê-la encontrado.
É preciso dizer com precisão o que esses números autorizam afirmar, porque a frase que circula nos corredores — quem chega sem andar não anda mais — é mais forte do que a evidência. Entre os 70 pacientes que receberam alta na coorte brasileira, 36 continuavam sem marcha, o que dá 51,4%; e a mesma série alemã citada no artigo relata que 51% dos pacientes que chegaram sem andar recuperaram a marcha após laminectomia descompressiva. Ou seja: recuperar é possível, sobretudo em quem é operado e bem selecionado, e ninguém deve ser abandonado por já ter perdido a marcha. O que os dados sustentam é uma assimetria, não uma sentença — preservar a função de quem ainda a tem é muito mais confiável do que devolvê-la depois, e é por isso que a pressa vale a pena antes do déficit e não depois dele.
Da segunda ponta do capítulo, a infecciosa, o Brasil tem menos dados e um número que dói mais. Uma série do Serviço de Cirurgia da Coluna do Hospital Getúlio Vargas, em Recife, com 13 pacientes operados por espondilodiscite entre outubro de 2007 e janeiro de 2010, registra tempo médio de 20,25 meses entre o início dos sintomas e a cirurgia, com dor na região acometida como sintoma inicial em 80%. Vinte meses de dor nas costas antes de alguém montar o diagnóstico. A série é pequena e de um único serviço, e não serve para estimar frequência — serve para dizer o que é o atraso brasileiro nessa doença, que é o que este capítulo tenta reduzir.
A sobrevida depois da compressão metastática é curta e desigual, e isso muda a conversa que se tem com a família mais do que muda a conduta da primeira noite. Na coorte do INCA a mediana global foi de 5,2 meses, com 65,5% vivos em três meses, 47,5% em seis e 33,6% em doze. A mediana por origem separa quatro grupos muito distintos: a mama fica em 12,6 meses; os tumores geniturinários caem para 4,1; o pulmão, para 3,1; e os demais tumores sólidos, para 2,6. Já a marcha divide a coorte em dois: mediana de 7,9 meses entre quem andava no dia do diagnóstico e de 3,6 meses entre quem não andava. Na análise ajustada, só o tipo de tumor primário permaneceu como preditor independente — a marcha perdeu significância no modelo múltiplo, o que é uma honestidade do artigo que vale registrar.
Duas frases fecham o quadro e explicam por que este capítulo está numa apostila de neurocirurgia e não de oncologia. Primeira: a maioria dessas pessoas não entra pela porta da oncologia; entra pela porta da atenção básica, do pronto atendimento e da ortopedia, com a palavra lombalgia escrita na ficha. Segunda: das 90 pessoas da coorte brasileira, 80% receberam radioterapia e apenas 8,9% foram operadas — quer dizer que, no Brasil, a decisão que muda o desfecho quase nunca é uma decisão cirúrgica de sala; é a decisão de suspeitar, medir e acionar, que é feita por quem está na frente do paciente.
Por que acontece o que acontece
O canal vertebral é um tubo rígido de diâmetro fixo com um conteúdo que não tolera aperto. Dentro dele a medula ocupa, na coluna torácica, uma fração folgada do espaço — e é justamente aí que a folga é menor em termos absolutos, porque o canal torácico é o mais estreito da coluna e a medula ainda está inteira. Qualquer coisa que cresça no compartimento epidural, entre o osso e a dura-máter, tem para onde ir só até certo ponto; depois disso, empurra. Esta é a razão anatômica de a coluna torácica ser o segmento mais acometido na compressão metastática — 58,8% na coorte brasileira, contra 15,6% lombossacra e 10% cervical.
A metástase quase nunca começa no espaço epidural. Ela começa no corpo vertebral, que é osso esponjoso, ricamente vascularizado e drenado por um plexo venoso sem válvulas que comunica a pelve, o abdome e o tórax com a coluna em ambos os sentidos. Célula tumoral que entra nesse plexo circula e se implanta. Só depois de crescer dentro do corpo vertebral ela faz uma de duas coisas: rompe a cortical posterior e invade o epidural por continuidade, ou enfraquece o osso a ponto de o corpo colapsar e projetar fragmento e tumor para dentro do canal. Isso explica por que a dor vem antes: a dor é do osso e do periósteo distendidos, semanas antes de haver qualquer aperto neural.
É a chave clínica inteira do capítulo. A dor da metástase vertebral não é o pródromo de nada — ela é a doença numa fase em que o tratamento ainda devolve tudo. O déficit neurológico não é o começo do quadro; é o fim de um processo que vinha avisando. Quando a fraqueza aparece, o que se ganha não é mais a função que ainda estava lá: é o que sobrou. A janela terapêutica não abre com o déficit, ela fecha.
O aperto mata a medula por dois caminhos, e os dois têm relógios diferentes. O primeiro é mecânico e edematoso: a compressão obstrui a drenagem venosa epidural, o retorno venoso da medula cai, forma-se edema vasogênico, e o edema por sua vez aumenta a pressão dentro do mesmo tubo que já estava apertado — um círculo que se fecha sozinho. Esse é o componente reversível, e é exatamente nele que o corticoide age: dexametasona reduz o edema vasogênico e estabiliza a membrana dos vasos no local comprimido, o que devolve função em horas sem tocar no tumor. O segundo caminho é isquêmico: a pressão excede a de perfusão das artérias que entram pela raiz, e o tecido infarta. Esse componente não volta, e é ele que explica por que a função já perdida no dia do diagnóstico é a que menos se recupera — e por que a janela útil do corticoide é a do edema, não a do infarto.
A ordem em que as vias caem tem valor de exame. As fibras da via corticoespinhal que vão para os segmentos mais baixos correm na periferia do funículo lateral, e a compressão extradural aperta de fora para dentro — por isso a fraqueza costuma começar distal e proximal-simétrica, nas duas pernas, e não num único território de raiz. As colunas posteriores, dorsais, dão a sensação vibratória e a propriocepção, e sua perda produz aquele andar inseguro que o paciente descreve como pernas pesadas ou como estar pisando em algodão. Um nível sensitivo nítido, com a sensibilidade caindo abruptamente abaixo de uma linha horizontal no tronco, é a assinatura da lesão medular e não existe em radiculopatia nem em lombalgia mecânica: é o achado que mais depressa muda o caso de categoria.
Na cauda equina, raízes sensitivas, motoras e autonômicas podem ser afetadas de modo desigual. Alteração urinária ou em sela pode surgir com força preservada; não há ordem anatômica universal de compressão que permita excluir a síndrome. Sinais de neurônio motor inferior favorecem lesão radicular, mas apresentações combinadas com cone exigem correlação e imagem. Resíduo baixo e toque normal não afastam o diagnóstico.
A bexiga da compressão baixa falha de dentro para fora e em silêncio. O detrusor perde a contração e o paciente perde a sensação de bexiga cheia ao mesmo tempo, então ele não se queixa de retenção: ele se queixa de nada, e depois escapa urina por transbordamento. O que ele chama de incontinência é, na verdade, uma bexiga cheia demais que verte. É por isso que a pergunta você está urinando normal é inútil e a medida do resíduo pós-miccional é decisiva: uma é opinião do paciente sobre uma sensação que ele deixou de ter, e a outra é um número.
Na ponta infecciosa o mecanismo é o mesmo tubo apertado por outro conteúdo, e há um agravante que o oncológico não tem. O abscesso epidural comprime pela massa de pus e, além disso, produz trombose séptica do plexo venoso epidural e arterite — de modo que o infarto medular pode acontecer antes e mais rápido do que o volume da coleção faria prever. Daí a característica clínica que assusta quem já viu: o paciente com abscesso epidural pode passar de dor com febre a paraplegia em horas, sem escala intermediária, e pode fazê-lo enquanto a imagem ainda mostra uma coleção pequena. Aqui o tempo entre o déficit e a descompressão é medido em horas, e o antibiótico sozinho, com déficit instalado, não é tratamento.
Como se apresenta de verdade
Objetivos práticos no internato. Localizar o déficit, reconhecer sinais esfincterianos e diferenciar metástase, infecção epidural e cauda equina; iniciar a resposta de emergência. O interno colhe e apresenta os dados, propõe o plano e executa atividades sob supervisão; prescrições, procedimentos e documentos são validados pelo profissional responsável. Estude o caso acompanhando o que cada achado muda na decisão, não apenas decorando critérios.
Este capítulo começa onde outro termina. A lombalgia comum, a ciática por hérnia, a lista de bandeiras vermelhas e a decisão de não pedir imagem são do capítulo Lombalgia e hérnia de disco, da apostila de Ortopedia do Internato, e a lista dele não se repete aqui. Aqui está o que acontece depois que uma dessas bandeiras sobe: como se confirma, em quanto tempo, com o quê, e o que se prescreve antes do laudo. Da mesma forma, o trauma raquimedular, a imobilização na cena, a retirada da prancha, o ABCDE e o choque neurogênico como diferencial do hemorrágico são inteiramente do capítulo de trauma raquimedular e choque neurogênico e do de atendimento inicial ao politraumatizado — este capítulo é sobre a medula comprimida sem trauma nenhum.
A ordem de leitura das seções seguintes é a ordem em que a informação chega ao consultório: primeiro o caráter da dor, que é o que o paciente conta; depois a altura da lesão, que é o que o exame diz; e só então a causa, que é o que a história e a imagem revelam. Quem começa pela causa acaba perguntando sobre câncer e esquecendo de perguntar sobre urina.
A dor que mudou de caráter — e por que ela conta antes de tudo
A dor da compressão em formação tem um retrato próprio, e o interno o reconhece por contraste com a dor mecânica que viu cem vezes. Ela não alivia deitado; costuma piorar. Ela acorda o paciente na madrugada e não deixa voltar a dormir na mesma posição — a diferença entre a dor que incomoda quando o paciente vira na cama e a dor que o obriga a levantar e ficar de pé é grande e o paciente sabe descrevê-la se a pergunta for feita assim. Ela piora com o esforço que aumenta a pressão dentro do canal: tossir, espirrar, fazer força para evacuar. E ela progride: cada semana é pior que a anterior, sem platô e sem dias bons.
Duas características localizam. A primeira é a dor em faixa, que dá a volta pelo tronco na horizontal, e que o paciente descreve como um cinto, um aperto ou uma queimação seguindo a costela — é dor radicular torácica, e ela aponta a altura da lesão com precisão maior do que qualquer outra queixa. A segunda é a dor à percussão do processo espinhoso: um ponto único, reprodutível, que dói quando o martelo bate ali e não dói dois níveis acima. Esse gesto leva quinze segundos, quase ninguém o faz na lombalgia, e ele é o único achado de exame físico que aponta o nível antes da imagem.
Há um detalhe cronológico que muda tudo e que quase sempre é lido ao contrário. Quando a raiz ou a medula perde função, a dor irradiada pode diminuir. O paciente melhora da dor e piora da doença. Perna que parou de doer e passou a formigar, com fraqueza nova ou urina diferente, não é resposta ao anti-inflamatório — é progressão. Se a única informação que a consulta de retorno colhe é a nota da dor de zero a dez, esse caso é classificado como melhora e vai para casa.
Vale nomear o que é deste capítulo, porque nenhum outro do nível trata o assunto: a caracterização da dor não mecânica da coluna — noturna, em faixa, que piora deitado e que progride — é assunto daqui. O capítulo de lombalgia e hérnia de disco lista essas características entre os sinais de alerta que mandam investigar; o que elas significam anatomicamente e o que se faz com elas está aqui.
Compressão medular verdadeira: o nível que corta o corpo em dois
Acima de L1 a estrutura comprimida é a medula, e o quadro é o de lesão de primeiro neurônio motor. O documento brasileiro que descreve isso achado por achado é o Quadro 1 do protocolo de encaminhamento de ortopedia adulto do Ministério da Saúde, na edição de 2022, e ele é uma lista curta que vale conhecer de cor: paraparesia ou tetraparesia, conforme a altura; presença de nível sensitivo, com hipoestesia ou anestesia abaixo do provável nível da lesão; espasticidade; reflexos tendinosos profundos aumentados abaixo do nível; sinais de liberação piramidal, que o documento nomeia como Hoffmann, Trömner, Babinski e clônus; sinal de Lhermitte; alteração no controle de esfíncter vesical ou anal; e, à parte, a síndrome medular central, com atrofia, perda de força e parestesias predominando nos membros superiores e, mais ainda, na mão.
O achado que decide é o nível sensitivo. Passa-se um objeto pontiagudo ou um algodão do abdome para cima, de baixo para cima, e pergunta-se onde a sensação muda. Quando existe compressão medular, a mudança não é gradual: há uma linha horizontal a partir da qual o paciente diz que sente diferente, e essa linha se repete quando o exame é feito de novo. Nenhuma dor lombar mecânica produz isso. Nenhuma radiculopatia por hérnia produz isso. O nível sensitivo é, sozinho, indicação de ressonância de urgência.
A espasticidade e a hiper-reflexia demoram a aparecer. Nas primeiras horas e dias de uma compressão instalada agudamente, o quadro pode ser de flacidez e reflexos deprimidos, e o interno que procura Babinski e não o encontra conclui erradamente que não há lesão medular. O sinal de liberação piramidal confirma a lesão quando aparece, e a sua falta não exclui coisa alguma. O que não falha é a combinação de fraqueza nova, simétrica ou quase, nas duas pernas, com nível sensitivo e com queixa esfincteriana.
O sinal de Lhermitte — o choque que desce pela coluna quando o paciente flete o pescoço — pertence ao segmento cervical e alto torácico e tem uma vantagem prática: o paciente o descreve espontaneamente se perguntado se sente choque ao abaixar a cabeça. Vale também lembrar o que a compressão cervical faz e a lombar não: mão desajeitada, que derruba objetos, que erra o botão da camisa, com atrofia da musculatura intrínseca. É o quadro que a mesma tabela chama de síndrome medular central e que costuma ser atribuído à idade.
O que decide velocidade não é a gravidade do déficit, é a sua taxa de progressão. Uma paraparesia que apareceu esta manhã e piorou até a tarde é uma emergência de horas, e o quanto ela já é grave importa menos do que a inclinação da curva. A diretriz britânica de metástases vertebrais diz isso com todas as letras ao mandar levar em conta a velocidade de instalação e o ritmo de progressão dos sinais para definir a urgência da intervenção cirúrgica.

Cone medular e cauda equina: a que mais se perde, e por quê
O mesmo Quadro 1 do protocolo brasileiro descreve o pólo baixo em três linhas, e a brevidade é a armadilha: perda de força e alteração da sensibilidade nos membros inferiores, simétrica ou assimétrica; anestesia em sela; alteração no controle de esfíncter vesical ou anal. É pouco e é suficiente, mas só funciona se o exame que procura esses três achados for feito — e ele inclui o toque retal e o teste da sensibilidade perineal, que não são rotina de lombalgia.
Na cauda equina, raízes sensitivas, motoras e autonômicas podem ser afetadas de modo desigual. Alteração urinária ou em sela pode surgir com força preservada; não há ordem anatômica universal de compressão que permita excluir a síndrome. Sinais de neurônio motor inferior favorecem lesão radicular, mas apresentações combinadas com cone exigem correlação e imagem. Resíduo baixo e toque normal não afastam o diagnóstico.
O documento de padrões de cuidado das duas sociedades britânicas de coluna e de neurocirurgia diz o que a experiência confirma: a confiabilidade do diagnóstico clínico de cauda equina, ameaçada ou instalada, é baixa. Não é que os sinais sejam sutis; é que nenhuma combinação deles permite excluir a compressão sem imagem. A consequência operacional é desconfortável e precisa: não existe conjunto de perguntas cuja resposta negativa autorize mandar esse paciente para casa com retorno marcado. Existe um limiar baixo para ressonância de emergência, e existe registro escrito de por que ela não foi feita, se não foi.
A distinção entre síndrome do cone e síndrome da cauda equina é útil e não muda a velocidade. O cone, que é o fim da medula em torno de L1, dá quadro mais simétrico, com sela precoce, hipoestesia bilateral e possibilidade de sinais piramidais nos membros inferiores porque ainda há medula acima. A cauda, abaixo dele, dá quadro assimétrico, arreflexo, com dor radicular mais proeminente. As duas entram na mesma linha do protocolo brasileiro, com a mesma conduta e o mesmo relógio. Diante do paciente, a pergunta correta não é qual das duas é: é se alguma das duas é.
Este capítulo assume a síndrome da cauda equina não traumática — sua identificação, seu relógio e o que se faz com ela — e declara que assume, porque nenhum outro capítulo deste nível a trata como assunto próprio. O capítulo de lombalgia e hérnia de disco a levanta como bandeira e manda para cá; a hérnia discal que a causou é dele. A cauda equina por trauma vertebral pertence ao capítulo de trauma raquimedular e choque neurogênico.
A compressão metastática: quem tem risco, e como ela se apresenta
O gatilho é o antecedente de câncer, e ele precisa ser perguntado com essas palavras: o senhor já teve câncer alguma vez na vida, tratado onde e quando. Não vale perguntar se está em tratamento, porque a mediana entre o câncer e a compressão medida na coorte brasileira foi de 20 meses e boa parte desses pacientes já teve alta. Não vale confiar em não constar no prontuário, porque em três das quatro fichas de Petronilha não constava. Mama, próstata e pulmão respondem pela maioria; rim, tireoide, linfoma e mieloma completam a lista clássica.
A diretriz britânica organiza os gatilhos em duas listas úteis por serem curtas. A primeira é de características da dor que sugerem metástase vertebral: dor intensa que não cede, dor progressiva, dor mecânica agravada por ficar de pé, sentar ou mover-se, dor agravada pelo esforço de tossir, espirrar ou evacuar, dor noturna que atrapalha o sono, dor localizada à palpação e claudicação. A segunda é de sinais que sugerem compressão: disfunção vesical ou intestinal, alteração da marcha ou dificuldade para andar, fraqueza de membro, sinais neurológicos de compressão medular ou de cauda equina, dormência, parestesia ou perda sensitiva, e dor radicular.
A diferença de conduta entre as duas listas é o que o interno precisa levar: com dor da primeira lista num paciente com câncer conhecido, a régua é conselho e avaliação em até 24 horas. Com qualquer sinal da segunda lista no mesmo paciente, a régua é emergência oncológica, contato imediato e ressonância em até 24 horas. Não há grau intermediário e não há observação domiciliar.
Existe uma apresentação que o interno costuma classificar errado: o paciente com câncer conhecido que vem por retenção urinária. Ele é encaminhado para a urologia, sondado, aliviado e liberado — e o alívio, que é real, encerra o atendimento. Retenção urinária nova num paciente com câncer, sobretudo acompanhada de dor nas costas ou de qualquer queixa nas pernas, é compressão medular até prova em contrário. O manejo da retenção em si, a sondagem e as causas urológicas são do capítulo de retenção urinária desta apostila; a retenção como sinal de compressão é bifurcação deste capítulo, e a remissão vale nos dois sentidos.
A metástase óssea dói também sem comprimir nada, e essa dor tem dono declarado: o manejo da dor oncológica e os cuidados paliativos são do capítulo de cuidados paliativos e manejo da dor oncológica. O ponto de contato é a dexametasona, que aparece nos dois lugares por motivos diferentes — lá como adjuvante analgésico na dor óssea, aqui como redutor de edema medular numa emergência. Os tumores primários — mama, próstata, pulmão — são dos capítulos que os tratam, e os tumores sólidos da criança e os sinais de alerta oncológicos pediátricos são da apostila de oncologia pediátrica.
Abscesso epidural espinhal: o paciente que o interno não associa
Este capítulo assume o abscesso epidural espinhal e declara que assume. A artrite séptica e a osteomielite periférica são do capítulo de monoartrite aguda e artrite séptica; a coleção que ocupa o espaço epidural e comprime a medula é daqui, porque a decisão que ela exige é neurocirúrgica e horária.
A tríade clássica é dor nas costas, febre e déficit neurológico, e o problema dela é que estar completa significa que já é tarde. O paciente típico chega com duas fases anteriores: primeiro dor localizada intensa, contínua, que não respeita repouso, com dor exuberante à percussão do processo espinhoso, às vezes com febre baixa e às vezes sem febre nenhuma; depois dor radicular em faixa; e só então o déficit. Entre a segunda e a terceira fase pode haver horas.
O que faz o interno não associar é o contexto. Os fatores que levantam a suspeita não são de coluna: diabetes, uso de droga injetável, cirrose, insuficiência renal em diálise, imunossupressão de qualquer origem, cateter venoso de longa permanência, infecção de pele ou de partes moles recente, endocardite, procedimento recente na coluna incluindo bloqueio e raquianestesia. O paciente com bacteriemia por estafilococo e dor nas costas nova tem abscesso epidural até que se prove o contrário, e o hemograma normal não conta como prova.
Três armadilhas laboratoriais merecem nome. A velocidade de hemossedimentação e a proteína C reativa estão quase sempre altas e são o exame de triagem mais útil aqui — muito mais do que o leucograma, que pode ser normal. As hemoculturas devem sair antes da primeira dose de antibiótico, e são positivas em boa parte dos casos, o que às vezes dispensa a biópsia. E o antibiótico que se começa antes da coleta tira do paciente a chance de um diagnóstico microbiológico que vai guiar semanas de tratamento.
O mal de Pott — a espondilodiscite tuberculosa — é bifurcação deste capítulo e o esquema de tratamento não é. Ele se apresenta mais devagar, em meses, com destruição do corpo vertebral, abscesso paravertebral frio e a deformidade em giba, e entra na lista de diferenciais sempre que a dor da coluna vem com emagrecimento e história epidemiológica. O diagnóstico, o esquema e a duração da tuberculose são do capítulo de tuberculose desta apostila, e o que fica aqui é a decisão neurocirúrgica quando há compressão instalada.
As apresentações que não parecem compressão
O idoso que ficou fraco das pernas. A família diz que ele está mais devagar, que precisa de apoio, que caiu duas vezes. Isso é atribuído à idade, à artrose, à fraqueza do repouso ou ao remédio novo. Se houver dor nas costas junto, se a fraqueza for das duas pernas e se ela progrediu em semanas, o exame de cinco minutos precisa ser feito antes de qualquer explicação geriátrica. A imobilidade e suas consequências — lesão por pressão, tromboembolismo do acamado — são dos capítulos de imobilidade e de profilaxia de tromboembolismo venoso; a fraqueza como sintoma de compressão é daqui.
O que melhorou. Paciente que veio por dor nas costas intensa, recebeu analgesia e voltou dizendo que a dor está melhor, mas anda pior. A avaliação que só pergunta pela dor conclui melhora e dá alta. A regra é fixa e cabe numa linha: em compressão medular, dor e função são dois termômetros independentes, e o que decide é a função.
A dor abdominal em faixa. A dor radicular torácica dá a volta pelo tronco e chega à parede abdominal, e o paciente é investigado para vesícula, para úlcera, para pancreatite. O que separa é a percussão da coluna e o fato de a dor seguir uma faixa horizontal, respeitar um dermátomo e não ter relação com alimentação.
O que este capítulo não assume, e diz para onde vai: fratura vertebral por fragilidade e osteoporose pertencem aos capítulos Osteoporose pós-menopausa, na apostila de Ginecologia, e Osteoporose e metabolismo ósseo, na apostila de Endocrinologia — mesmo quando a fratura vertebral gera dor intensa, ela só entra aqui se houver retropulsão de fragmento com compressão. A comunicação do diagnóstico oncológico é do capítulo de comunicação de más notícias, e a organização do encaminhamento com prioridade dentro da rede é do capítulo de redes de atenção à saúde da apostila de medicina preventiva. Este capítulo fica com o que fazer nas horas em que o paciente ainda está na sua frente.
Como fechar o diagnóstico
A investigação da compressão medular tem uma particularidade que muda a ordem de tudo: o exame que decide não é de imagem, é de beira de leito, e ele é feito antes de qualquer pedido. A ressonância confirma e localiza; quem decide a velocidade com que ela vai ser feita é o exame neurológico e a medida do resíduo urinário. Um caso em que ninguém mediu a força nem o resíduo entra na fila do eletivo mesmo quando o pedido diz urgente, porque o pedido não carrega o motivo.
O que segue não repete a triagem de dor lombar do capítulo de lombalgia e hérnia de disco — aquele capítulo é o dono das nove perguntas de rastreio e do exame que separa a lombalgia mecânica da radiculopatia, e a lista dele não é reescrita aqui. Este é o exame do degrau seguinte: o que se faz depois que a bandeira subiu, para descobrir a altura da lesão e quanto tempo ainda há.
Na suspeita de cauda equina, investigar retenção, alteração da sensação de enchimento e sensibilidade em sela mesmo com força preservada. Resíduo pós-miccional por ultrassom pode ajudar, mas valor baixo ou toque retal normal não excluem a síndrome. Não atrasar RM e referência para obter cateterização ou exame íntimo; quando necessário, explicar, obter consentimento e respeitar privacidade. No abscesso epidural, ausência de febre não afasta doença. Colher culturas se possível sem atraso e iniciar antibiótico urgente com a equipe quando houver sepse ou déficit progressivo.
As perguntas que localizam, e as que o paciente responde errado
Três perguntas fixam a altura antes de qualquer exame. Onde exatamente dói — pedindo que o paciente aponte com um dedo no dorso, não que descreva. Se a dor dá a volta pelo corpo em faixa, e em que altura — costela, cintura, virilha. E se ela muda quando ele tosse ou faz força. A faixa é o dermátomo, e o dermátomo é a régua: mamilo é T4, apêndice xifoide é T6, cicatriz umbilical é T10, virilha é L1. O paciente que aponta a dor em faixa na altura do sutiã está apontando aproximadamente T5 ou T6, e é isso que vai escrito no pedido.
Duas perguntas fixam a velocidade. Quando começou a fraqueza — não a dor, a fraqueza. E o que ele conseguia fazer há uma semana que não consegue hoje: subir a escada de casa, levantar do vaso sem apoio, carregar a sacola até o portão. A resposta em atividades é mais confiável do que a resposta em adjetivos, e ela permite comparar com a próxima avaliação. Uma perda medida em degraus por semana e uma perda medida em degraus por dia são doenças com relógios diferentes.
As perguntas urinárias são as que o paciente responde errado se forem feitas errado. Você está urinando normal recebe sim de quase todo mundo, inclusive de quem está com o resíduo em meio litro. As perguntas que funcionam são concretas e feitas uma a uma: o senhor sente quando a bexiga está cheia. Demora para começar a sair. O jato está mais fraco. Fica com sensação de que não esvaziou. Escapou urina sem sentir. Sente quando o papel higiênico toca. Percebe a saída de gases. Sente igual dos dois lados quando senta. Cada uma dessas está atrás de um território sacral, e cada resposta vai escrita no prontuário com as palavras do paciente.
Uma pergunta fecha o bloco e quase nunca é feita: o senhor já teve câncer alguma vez na vida. Não em tratamento, não atualmente, não no prontuário — alguma vez na vida, e onde foi tratado. Em três das quatro fichas de Petronilha a pergunta não aparece, e a resposta dela mudaria a classificação de risco de todas as três.
O exame neurológico de cinco minutos que localiza a lesão
O exame que separa dor mecânica de emergência leva cinco minutos e tem seis atos. Aqui é preciso declarar o corte nos dois sentidos, porque há dois exames com esse nome. O capítulo de lombalgia e hérnia de disco é dono do exame que rastreia a dor lombar comum — a marcha na ponta e no calcanhar, os territórios de L4, L5 e S1, a elevação da perna estendida com o ângulo anotado. Este capítulo é dono do exame que, com a bandeira já levantada, procura a altura da lesão e mede quanto sobrou: nível sensitivo, tônus e força espástica, sinais de liberação piramidal, sela, esfíncter e resíduo. Os dois se somam na mesma consulta e nenhum substitui o outro.
Primeiro ato, a marcha, se o paciente ainda anda. Levantar da cadeira sem apoio de mão, andar seis metros, virar e voltar. Isso responde de uma vez força proximal, equilíbrio e propriocepção, e produz o dado prognóstico mais importante da doença: anda ou não anda. Se não anda, perguntar desde quando, e se a última vez que andou foi hoje ou há duas semanas — porque a diretriz britânica separa explicitamente o paciente com tetraplegia ou paraplegia completa há duas semanas ou mais dos demais quando decide sobre radioterapia urgente.
Segundo ato, a força graduada e escrita. O protocolo brasileiro traz no Quadro 2 a escala que se usa: zero é ausência de contração; um é contração visível sem movimento na articulação; dois é movimento na articulação, mas não contra a gravidade; três é movimento contra a gravidade, mas não contra resistência; quatro é movimento contra resistência, ainda não normal; cinco é força normal. Escreve-se o número por grupo muscular e por lado. Adjetivo não se compara com a avaliação de amanhã; número se compara.
Terceiro ato, o nível sensitivo. Com o paciente deitado, passa-se um estímulo do abdome para cima, de baixo para cima, perguntando onde muda. Depois se confirma indo de cima para baixo. Anota-se o dermátomo em que a mudança acontece, dos dois lados. Este é o gesto que a maior parte dos exames de lombalgia não inclui e que, quando positivo, coloca o caso na ressonância de hoje.
Quarto ato, os reflexos e o tônus, comparados lado a lado, incluindo os membros superiores quando a suspeita é cervical. Procura-se hiper-reflexia e clônus abaixo do nível, Babinski, Hoffmann. O sinal presente confirma a lesão; o sinal ausente não a exclui — e essa assimetria precisa estar na cabeça do interno antes de ele examinar, porque a tentação de se tranquilizar com um Babinski ausente é grande.
Quinto ato, a sela e o esfíncter. Sensibilidade das regiões perianal e perineal, comparando os dois lados; tônus do esfíncter anal; contração voluntária ao toque. Faz-se com acompanhante presente, com a explicação do porquê dita antes e com a porta fechada. Não é rotina de lombalgia — é obrigatório diante de qualquer suspeita de compressão de cone ou de cauda equina. Pular esse ato e registrar apenas uma orientação genérica de retorno é o caminho mais curto para a bexiga que não volta.
Sexto ato, o resíduo, que é o único desses seis que produz um número objetivo de função autonômica. Ele tem seção própria a seguir, porque é o que mais frequentemente falta.
O resíduo pós-miccional: o número que ninguém mede
Mede-se assim: pede-se ao paciente que urine, o mais completamente que conseguir, e imediatamente depois se mede o que sobrou dentro da bexiga. Onde existir aparelho de ultrassom de bexiga, é ele quem responde. Onde não existir — e é a situação da maior parte das unidades brasileiras — a sondagem de alívio dá o volume exato em mililitros e ainda esvazia a bexiga no mesmo gesto. O ultrassom convencional do serviço de imagem também responde, se estiver disponível na hora; o que não responde é a impressão do paciente.
O número entra no prontuário e entra no pedido de ressonância. Um resíduo alto num paciente com dor nas costas e queixa sensitiva perineal muda o caso de categoria naquele minuto: deixa de ser dor lombar a investigar e passa a ser suspeita de compressão de cauda equina, que é a única categoria em que a imagem acontece hoje. É o dado que faz o residente de radiologia do outro lado da linha aceitar encaixar o exame, porque ele transforma uma queixa em uma medida.
Há duas armadilhas de interpretação. A primeira é a incontinência por transbordamento: o paciente relata que está escapando urina, o que soa como o oposto de retenção, e a bexiga está cheia. Quem sonda descobre; quem acredita na descrição, não. A segunda é o resíduo baixo em quem já escapou tudo: um paciente que acabou de perder o conteúdo da bexiga pode ter resíduo pequeno, e o valor isolado, sem a história, engana. Por isso o resíduo se lê junto da sela e da história, nunca sozinho.
Este capítulo assume a medida do resíduo como parte do exame da suspeita de compressão e declara que assume. A retenção urinária como problema urológico, sua causa obstrutiva e o manejo do cateter são do capítulo de retenção urinária desta apostila; a injúria renal aguda pós-renal que uma retenção prolongada produz é do capítulo de injúria renal aguda. A remissão vale nos dois sentidos: quem chega por retenção precisa que alguém tenha perguntado pelas costas e pelas pernas.
A imagem: qual, em quanto tempo, e onde o Brasil e o mundo divergem
A ressonância magnética é o exame, e não há segunda opção equivalente. Ela mostra o conteúdo do canal, o grau e o nível da compressão, a medula por dentro, a medula óssea vertebral e as coleções. A diretriz britânica especifica o protocolo mínimo: sequências sagitais em T1 e/ou STIR de toda a coluna, para achar as metástases onde elas estiverem; sagital em T2, para mostrar o nível e o grau da compressão da medula ou da cauda por massa de partes moles e detectar lesão dentro da própria medula; e cortes axiais complementares através de qualquer anormalidade significativa vista no sagital.
A palavra toda importa mais do que parece. Metástase vertebral é frequentemente multinível, e uma ressonância pedida só do segmento lombar porque a dor é lombar pode perder a compressão torácica que está produzindo o quadro. Pedir neuroeixo inteiro é a diferença entre planejar o tratamento certo e descobrir a segunda lesão depois da radioterapia da primeira.
Os prazos da diretriz britânica são explícitos e valem como régua onde não há régua nacional: ressonância o mais cedo possível e sempre dentro de 24 horas quando há suspeita de compressão medular; dentro de uma semana quando há suspeita de metástase vertebral sem sinais de compressão; e ressonância de madrugada apenas quando o diagnóstico urgente for necessário para iniciar tratamento imediatamente. O documento britânico de cauda equina vai um passo além e resolve um problema logístico brasileiro conhecido: a decisão de fazer a ressonância não depende de discutir antes com o serviço de coluna, o exame deve ser feito no hospital que atendeu o paciente e tem precedência sobre os casos de rotina.
Aqui está a divergência que este capítulo não resolve e que precisa ser vista de frente. O protocolo brasileiro de encaminhamento organiza o acesso à imagem em degraus e condiciona a solicitação de ressonância ou tomografia a que o raio-X seja normal ou inconclusivo. A diretriz britânica recomenda expressamente não realizar radiografia simples da coluna para diagnosticar ou excluir metástase vertebral e compressão medular. As duas frases são incompatíveis quando aplicadas ao mesmo paciente, e há razão dos dois lados: a lesão lítica precisa consumir uma fração grande do osso para aparecer no raio-X, e um raio-X normal não tranquiliza — mas a régua brasileira existe dentro de um sistema em que a ressonância é escassa e regulada, e o degrau é o que organiza a fila. O que não é ambíguo é a exceção: no paciente com sinal de compressão, o protocolo brasileiro manda para a emergência e não para a fila de imagem, e nesse caminho o raio-X não é degrau nenhum.
A tomografia entra quando a ressonância é contraindicada — marca-passo incompatível, claustrofobia intratável, corpo estranho metálico — e quando a pergunta é óssea: traço de fratura, estabilidade, planejamento de vertebroplastia ou de cirurgia. A mielografia depois da tomografia é rara e, quando indicada, deve ser feita em centro de neurocirurgia ou de cirurgia de coluna. Nenhuma delas substitui a ressonância para ver medula.
Uma linha sobre o que não pedir: no paciente com metástase vertebral já conhecida e sem sintoma ou sinal de compressão, a diretriz britânica recomenda não fazer ressonância apenas para detectar precocemente a compressão. Rastreamento de imagem não é o que protege esse paciente; o que protege é ele saber, por escrito, quais mudanças de sintoma exigem que ele procure atendimento com urgência.
Laboratório, biópsia, e o efeito colateral do corticoide no diagnóstico
O laboratório não faz o diagnóstico de compressão e responde a perguntas específicas. Hemograma, velocidade de hemossedimentação e proteína C reativa quando a hipótese é infecciosa — e aqui a velocidade e a proteína C reativa valem mais que o leucograma, que pode ser normal no abscesso epidural. Hemoculturas, no mínimo dois pares, antes da primeira dose de antibiótico. Na suspeita de mieloma e de metástase óssea: eletroforese de proteínas séricas, cálcio total e corrigido, fosfatase alcalina e função renal. Antígeno prostático específico no homem com metástase blástica. Função renal também por segurança, porque ela decide dose de contraste e de antibiótico.
A biópsia entra quando o primário não é conhecido, e a diretriz britânica coloca duas condições ao mesmo tempo: identificar o tumor primário precisa poder mudar a decisão terapêutica, e não pode haver necessidade de tratamento imediato. Quer dizer que ninguém adia a descompressão de um paciente que está perdendo força para esperar biópsia.
Existe um efeito colateral do corticoide que quase não é ensinado e que a própria diretriz registra: dar corticoide antes da imagem e da biópsia pode reduzir a chance de uma biópsia positiva. Isso importa muito num cenário específico — a suspeita radiológica de linfoma ou mieloma sem sintoma ou sinal neurológico, em que o corticoide pode dissolver o tecido que faria o diagnóstico e deixar o paciente sem doença classificada. Por isso a mesma diretriz manda buscar avaliação hematológica antes de iniciar corticoide nesse cenário, e manda suspender a dexametasona se a imagem afastar metástase e compressão.
A regra que resolve a aparente contradição é de prioridade e não de dose: com sinal neurológico de compressão, o corticoide vai antes da imagem e antes de qualquer discussão, porque o que se perde é função; sem sinal neurológico, na suspeita de doença hematológica, o corticoide espera, porque o que se perde é o diagnóstico.
O que a rede entrega — e como se consegue uma ressonância hoje
O retrato honesto da rede brasileira é este: raio-X e laboratório básico alcançam quase toda unidade com apoio diagnóstico; a tomografia costuma parar no hospital que é referência da microrregião; e a ressonância é o gargalo — regulada, com fila de meses para o eletivo e com uma porta de urgência que se abre por telefone e por argumento. É por isso que a qualidade do pedido é parte da conduta, não burocracia.
O que faz um pedido ser aceito hoje é ele trazer o achado que caracteriza a emergência, não a queixa. Pedido que diz lombalgia a esclarecer entra na fila. Pedido que diz paciente com câncer de mama tratado, dor torácica em faixa em T6 há cinco semanas, paraparesia grau 4 nas duas pernas com nível sensitivo em T6, resíduo pós-miccional de 400 mL medido por sondagem, suspeita de compressão medular metastática é outra conversa — e é literalmente a mesma informação, escrita.
O protocolo brasileiro de encaminhamento define o conteúdo descritivo mínimo do documento de referência, e ele funciona como roteiro do que escrever: características da dor; presença ou não de ciatalgia ou claudicação neurogênica; tempo de início e duração; fatores desencadeantes e de alívio; alterações do exame neurológico, descritas; sinais e sintomas sistêmicos; tratamento já realizado, com o medicamento, a dose, o tempo e a resposta; resultado de exame de imagem com data, se houver; presença de imunossupressão e qual; motivo da suspeita de neoplasia; osteoporose prévia e como foi diagnosticada; associação com atividade laboral; e o número da teleconsultoria, se o caso foi discutido. O item que mais muda a prioridade é o do exame neurológico descrito — sem ele, o regulador não tem como distinguir esse pedido dos outros trinta da mesma manhã.
Sobre prazo legal, é preciso dizer com todas as letras o que existe e o que não existe. A Lei nº 12.732, de 2012, garante o primeiro tratamento da neoplasia maligna no Sistema Único de Saúde em até 60 dias a contar do laudo patológico, ou em prazo menor conforme a necessidade terapêutica registrada em prontuário, e o parágrafo terceiro do artigo 2º, incluído pela Lei nº 13.896, de 2019, dá 30 dias para os exames de elucidação quando a principal hipótese diagnóstica é de neoplasia maligna. Esses são os prazos que o Brasil tem. Nenhum deles é o prazo desta doença. Sessenta dias e trinta dias são medidas de acesso a tratamento oncológico eletivo; a compressão medular se mede em horas, e a própria lei prevê a saída ao dizer em prazo menor conforme a necessidade terapêutica do caso registrada em prontuário — o que devolve a responsabilidade de escrever a urgência para quem atende.
Falta uma régua nacional, e o aluno precisa saber disso: não há protocolo clínico, diretriz terapêutica nem linha de cuidado brasileira de âmbito federal sobre compressão medular metastática ou sobre síndrome da cauda equina. O que há é o protocolo de encaminhamento de 2022, que descreve a síndrome e manda para a emergência sem fixar prazo, dose ou fluxo; o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Câncer de Mama, aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 17, de 25 de novembro de 2024, que menciona a compressão medular duas vezes, como situação em que a ressonância complementa o diagnóstico e como indicação de radioterapia na doença metastática, sem prazo nem dose; e documentos estaduais e institucionais de alcance regional. Prazo em horas e dose em miligramas, hoje, só existem em documento estrangeiro — e é honesto dizer isso em vez de apresentar a régua britânica como se fosse nacional.
Onde está a lesão, quanto tempo resta, e o que se prescreve antes do laudo
Três perguntas decidem o caso, nesta ordem: em que altura está a compressão, quanto tempo ainda há, e o que se faz enquanto a imagem não sai. A primeira se responde pelo exame; a segunda, pela velocidade de progressão e pelo estado da marcha; a terceira é uma prescrição curta que cabe numa linha. O fluxo abaixo é a ordem da decisão, não a ordem em que o diagnóstico fecha — em compressão medular a decisão de acionar acontece antes do laudo, sempre.
- 1O paciente tem dor na coluna com alguma característica não mecânica: não alivia deitado, piora à noite e o obriga a levantar, dá a volta em faixa, piora ao tossir ou fazer força, progride semana a semana, ou dói à percussão de um processo espinhoso.
- 2Pergunte pelo câncer com essas palavras: já teve câncer alguma vez na vida, tratado onde e quando. Pergunte pelos fatores de infecção: diabetes, diálise, droga injetável, imunossupressão, infecção de pele recente, procedimento recente na coluna, febre ou calafrio.
- 3Faça as perguntas urinárias concretas, uma a uma — sensação de bexiga cheia, início da micção, jato, esvaziamento, escape sem sentir, sensibilidade ao papel, saída de gases, simetria ao sentar. Não pergunte se está urinando normal.
- 4Faça o exame de cinco minutos: marcha, força graduada de zero a cinco e escrita por grupo e por lado, nível sensitivo procurado de baixo para cima, reflexos e tônus com sinais de liberação piramidal, sensibilidade em sela e toque com tônus e contração voluntária.
- 5Meça o resíduo pós-miccional — com aparelho de ultrassom de bexiga onde ele existir, e por sondagem de alívio onde não existir — e escreva o volume em mililitros no prontuário e no pedido.
- 6Se houver qualquer sinal de compressão (nível sensitivo, paraparesia ou tetraparesia, sela alterada, esfíncter alterado, resíduo alto, marcha que piorou), o caso é emergência hoje: ressonância de neuroeixo em até 24 horas, e a referência acionada antes do laudo.
- 7Com sinal neurológico e suspeita de causa neoplásica, comece a dexametasona imediatamente, antes da imagem. Com suspeita radiológica de linfoma ou mieloma e sem sinal neurológico, não comece: peça avaliação hematológica antes, porque o corticoide pode apagar o diagnóstico.
- 8Na suspeita infecciosa, colher ao menos dois pares de hemoculturas prontamente, preferencialmente antes do antimicrobiano, sem atrasar imagem, tratamento urgente ou abordagem de déficit neurológico progressivo. Em sepse, instabilidade ou deterioração, organizar coleta e terapia em paralelo com a equipe.
- 9Escreva o pedido com o achado, não com a queixa: idade, antecedente oncológico ou fator de imunossupressão, altura da dor em faixa, grau de força por grupo, nível sensitivo, estado da sela, resíduo em mililitros e a hipótese nomeada.
- 10Se não há sinal de compressão mas há características de dor sugestivas de metástase num paciente com câncer conhecido, o prazo é de 24 horas para avaliação especializada, não de semanas — e o paciente sai com a lista escrita do que o faz voltar antes.
- 11Reavalie a força e o resíduo no intervalo combinado com quem vai tratar, e reavalie a decisão, não só a dor: o paciente cuja dor melhorou e cuja força caiu é um paciente que piorou.
- 12Se a imagem afastar metástase e compressão, suspenda a dexametasona que foi dada antes do exame.
As três alturas: o que o exame acha em cada uma, e o que muda na conduta
| Altura da compressão | O que o exame acha | O que a bexiga e a sela fazem | O que decide a velocidade |
|---|---|---|---|
| Medular cervical | Tetraparesia; nível sensitivo alto; espasticidade e reflexos aumentados abaixo do nível; Hoffmann, Trömner, Babinski, clônus; sinal de Lhermitte à flexão do pescoço; mão desajeitada com atrofia intrínseca na forma medular central | Alteração de esfíncter vesical ou anal, geralmente tardia em relação à fraqueza | Qualquer déficit é emergência hoje. Acima de C5 há risco respiratório, e a queda da capacidade vital vem antes da dispneia |
| Medular torácica | Paraparesia simétrica ou quase; nível sensitivo nítido no tronco, com linha horizontal reprodutível; espasticidade e hiper-reflexia abaixo do nível — que podem faltar nas primeiras horas; dor em faixa no dermátomo da lesão | Alteração de esfíncter geralmente depois da fraqueza; retenção com transbordamento | É o segmento mais acometido pela metástase (58,8% na coorte brasileira). A taxa de piora vale mais que o grau do déficit |
| Cone medular (em torno de L1) | Fraqueza simétrica nas pernas, muitas vezes discreta; hipoestesia bilateral; pode haver sinais piramidais nos membros inferiores porque ainda há medula acima | Sela alterada precocemente, de forma simétrica; retenção e perda da sensação de bexiga cheia no mesmo tempo | Emergência hoje. A sela entra antes da fraqueza, então força preservada não tranquiliza |
| Cauda equina (abaixo de L1) | Quadro assimétrico e flácido; reflexos abolidos; dor radicular intensa, com frequência nas duas pernas; força pode estar grau 5, e isso não afasta nada | Sela alterada, muitas vezes assimétrica; tônus e contração voluntária do esfíncter reduzidos; resíduo alto | Emergência hoje, com limiar baixo para ressonância. Nenhuma combinação de sintomas exclui o diagnóstico sem imagem |
| Radicular pura, sem compressão do saco | Déficit num único território de raiz; sem nível sensitivo; sem sinal piramidal; sela e esfíncter normais; elevação da perna estendida positiva | Normais | Não é deste capítulo. É lombalgia e hérnia de disco, com tratamento conservador enquanto não houver déficit progressivo |
Os três relógios, e o que se aciona em cada um
| Cenário | Prazo da imagem | O que se prescreve antes do laudo | Quem se aciona, e quando |
|---|---|---|---|
| Câncer conhecido ou suspeito, com qualquer sinal de compressão (bexiga, intestino, marcha, fraqueza, dormência, dor radicular, sinal neurológico) | Ressonância de neuroeixo o mais cedo possível e sempre em até 24 horas, no hospital que atendeu | Dexametasona 16 mg de ataque, via oral se ele deglute, parenteral se não; depois 16 mg ao dia até o tratamento definitivo; inibidor de bomba de prótons e glicemia capilar | Neurocirurgia ou cirurgia de coluna e oncologia clínica, por telefone, antes do laudo — não depois |
| Câncer conhecido, com dor de característica metastática e sem sinal de compressão | Ressonância em até uma semana; avaliação especializada em até 24 horas | Analgesia adequada e nenhum corticoide de rotina, exceto se dor intensa ou neoplasia hematológica | Referência oncológica em 24 horas, com a lista escrita do que faz o paciente voltar antes |
| Suspeita de cauda equina, com ou sem câncer | Ressonância de emergência, no hospital que atendeu, com precedência sobre a rotina; a decisão de fazer não depende de discutir antes com o serviço de coluna | Nada que adie: analgesia e a medida do resíduo. Corticoide não é conduta padrão na cauda equina por hérnia | Neurocirurgia ou cirurgia de coluna assim que a imagem confirmar; nada se ganha adiando a cirurgia |
| Suspeita de abscesso epidural ou espondilodiscite | Ressonância de emergência, com contraste se houver função renal que permita | Dois pares de hemocultura antes do antibiótico; antibiótico empírico logo após a coleta se houver sepse ou déficit; sem corticoide de rotina | Neurocirurgia e infectologia no mesmo telefonema; déficit instalado é indicação de descompressão, e antibiótico sozinho não é tratamento |
| Suspeita radiológica de linfoma ou mieloma, sem sintoma nem sinal neurológico | Ressonância conforme o grau de suspeita; a imagem precede o corticoide | Não iniciar corticoide antes de avaliação hematológica — ele reduz a chance de biópsia positiva e pode deixar o paciente sem diagnóstico | Hematologia antes de qualquer corticoide |
Conferência de dexametasona: usar a mesma convenção de dose e concentração
| Passo | Verificação |
|---|---|
| 1. Indicação | Sinais neurológicos em suspeita de compressão metastática: discutir 16 mg e tratamento definitivo. |
| 2. Produto | Conferir apresentação, concentração, via e equivalência com a farmácia. |
| 3. Cálculo | Se a prescrição é 16 mg e a concentração confirmada é 4 mg/mL nas mesmas unidades, o volume é 4 mL. |
| 4. Administração | Diluição, velocidade e estabilidade seguem o produto e protocolo; não arredondar por conveniência para ampola inteira. |
| 5. Redução | Dose e duração do desmame dependem de tratamento definitivo, resposta, tempo de exposição e orientação da equipe. |
Apresentações na Rename 2024: confirmar padronização e estoque local
| Medicamento | Apresentação no elenco | Componente | O que isso muda na conduta |
|---|---|---|---|
| Dexametasona | Comprimido de 4 mg e solução injetável de 4 mg/mL | Básico | Consta, e no componente mais capilarizado — o corticoide que a diretriz recomenda é o que a unidade tem. É o achado positivo mais importante desta tabela |
| Succinato sódico de metilprednisolona | Pó para solução injetável de 500 mg, apenas | Especializado | Consta, mas amarrado a protocolos de Crohn, transplantes e uveítes — nenhum deles é compressão medular. Não é o corticoide desta indicação no Brasil |
| Sulfato de morfina | Solução injetável e oral de 10 mg/mL; comprimidos de 10 e 30 mg; cápsulas de liberação prolongada de 30, 60 e 100 mg | Especializado | Consta, mas não no Componente Básico — a analgesia da dor óssea depende de acesso ao componente especializado, e o manejo é do capítulo de cuidados paliativos e dor oncológica |
| Oxacilina | Não consta | Ausente do elenco | O antibiótico antiestafilocócico clássico do abscesso epidural não está na Rename 2024 — a cobertura empírica depende do que a farmácia hospitalar padronizou, e isso se confere antes de prescrever |
| Vancomicina | Não consta | Ausente do elenco | A cobertura empírica de estafilococo resistente à meticilina também está fora do elenco nacional. Confirmar disponibilidade local antes de contar com ela no esquema |
| Ceftriaxona | Pó para solução injetável de 250 mg, 500 mg e 1 g | Básico | Consta, e cobre a metade Gram-negativa do esquema empírico |
| Rifampicina e isoniazida | Isoladas e em combinações fixas, inclusive com pirazinamida e etambutol | Estratégico | O esquema do mal de Pott existe no elenco e é fornecido pelo Componente Estratégico; a indicação e a duração são do capítulo de tuberculose |
Conferência que passou, e vale registrar porque valida o resto: na coorte brasileira do INCA, a Tabela 1 diz que 36 pacientes deambulavam e 50 não, com 4 sem informação, somando 90. A Tabela 2, que classifica a função motora em quatro faixas, diz 10 sem déficit, 26 com déficit e marcha preservada, 31 com déficit severo sem marcha e 19 com perda total, mais 4 sem informação — também 90. Somando as duas primeiras faixas dá 36, exatamente os que deambulavam; somando as duas últimas dá 50, exatamente os que não deambulavam. As duas tabelas foram construídas de forma independente e batem. É o tipo de conferência que dá confiança para usar os demais números do artigo.
Erro de denominador na mesma coorte, e ele muda a leitura do resultado principal. A Tabela 2 traz uma coluna rotulada função motora na alta hospitalar (n=70), com 7, 24, 24, 12 e 3 pacientes, que somam corretamente 70. Mas os percentuais impressos ao lado são 7,8%, 26,7%, 26,7%, 13,3% e 3,3%, e eles somam 77,8%, não 100%. A conta explica: 7 dividido por 90 é 7,8%; 24 por 90 é 26,7%; 12 por 90 é 13,3%; 3 por 90 é 3,3%. Quer dizer que a coluna rotulada n=70 usa denominador 90. Sobre 70, os mesmos números seriam 10,0%, 34,3%, 34,3%, 17,1% e 4,3%.
A consequência do erro acima está na frase mais citável do artigo. A discussão diz que, no momento da alta da internação, 40% permaneceram sem efetuar marcha. Sem marcha na alta são 24 mais 12, igual a 36 pacientes. Trinta e seis sobre 90 dá exatamente os 40% publicados — mas 90 inclui os 15 que morreram durante a internação, que estão no denominador e não no numerador. Entre os 70 que receberam alta, 36 sem marcha são 51,4%; excluindo os 3 sem informação, 36 sobre 67 são 53,7%. Ou seja: a leitura de que a proporção de quem não anda caiu de 55,6% no diagnóstico para 40% na alta é artefato de denominador. Entre quem sobreviveu à internação, mais da metade continuou sem andar. Este capítulo usa a segunda conta, e por isso a diz por extenso.
O mesmo artigo faz certo em outro lugar, o que confirma que o problema é local e não sistemático: ao relatar a internação, ele diz 85 internados (94,4% de 90), 15 óbitos durante a internação (17,6% — que é 15 sobre 85, não sobre 90) e 70 altas (82,4% — 70 sobre 85). Aí o denominador muda corretamente para o subgrupo. Na Tabela 2 não muda.
Divergência entre a tabela e a discussão do mesmo artigo, por fator dois. A Tabela 2 registra 10 pacientes com acometimento cervical, imprimindo 10,0% ao lado — sendo que 10 sobre 90 é 11,1%. A discussão, três páginas depois, afirma que apenas 20% dos pacientes apresentavam acometimento cervical. Vinte por cento de 90 seriam 18 pacientes, e a tabela registra 10. Na mesma frase, a discussão diz que 21% tinham lesão completa, e esse número bate com a tabela (19 sobre 90 é 21,1%). Um dos dois números da mesma frase confere e o outro não.
Arredondamentos que não mudam conduta, mas que estão registrados porque são os números que circulam. O resumo do artigo diz que 55,5% dos pacientes não conseguiam realizar marcha, e a Tabela 1 diz 55,6%: 50 sobre 90 é 55,56%, de modo que 55,6% é o arredondamento correto e 55,5% é truncamento. No texto corrido dos resultados, brancos são 34,4% e na Tabela 1 são 34,5%: 31 sobre 90 é 34,44%, então o texto acerta e a tabela erra. A soma dos segmentos acometidos passa de 90 porque o próprio artigo avisa que mais de um segmento pode ter sido afetado ao mesmo tempo — essa não é divergência.
Conferência segura de dose: prescreva a dose e a via na convenção adotada pelo produto e confirme a concentração com a farmácia. Volume em mL = dose em mg / concentração em mg/mL, com unidades equivalentes. Não deduza equivalências de sal e base para improvisar número de ampolas; o volume deve corresponder à dose efetivamente prescrita.
Conferência segura de dose: prescreva a dose e a via na convenção adotada pelo produto e confirme a concentração com a farmácia. Volume em mL = dose em mg / concentração em mg/mL, com unidades equivalentes. Não deduza equivalências de sal e base para improvisar número de ampolas; o volume deve corresponder à dose efetivamente prescrita.
A Rename 2024 reproduz a ambiguidade sem resolvê-la: a linha do elenco diz dexametasona, solução injetável, 4 mg/mL, sem dizer se o 4 mg é de sal, de fosfato ou de base. Quem confere o elenco pela Rename e prescreve pela bula tem que fazer a conta acima por conta própria. Confirmado por busca exata sobre o texto normalizado da Rename: dexametasona consta em seis apresentações, entre elas comprimido de 4 mg e solução injetável de 4 mg/mL, ambas no Componente Básico.
Norma superada citada como vigente, encontrada na comparação entre duas edições do mesmo protocolo brasileiro. O Protocolo de Encaminhamento — Ortopedia Adulto do TelessaúdeRS-UFRGS, elaborado em 23 de agosto de 2016, lista entre as condições de emergência o diagnóstico de neoplasia acometendo a coluna vertebral, sem qualquer condição. A edição de 2022 do Ministério da Saúde, que é a que vigora, mudou a linha para dor lombar aguda e/ou alterações neurológicas em paciente com diagnóstico de neoplasia acometendo a coluna vertebral — quer dizer, a metástase vertebral conhecida e estável deixou de ser, sozinha, critério de emergência. É uma mudança de conduta, não de redação, e ela alinha o documento brasileiro com a recomendação britânica de não repetir ressonância só para detecção precoce de compressão em quem já tem metástase conhecida e está assintomático.
Na mesma comparação, o critério de dor inflamatória mudou de tamanho e ninguém avisou. O quadro auxiliar da edição de 2016 pede pelo menos 4 entre 5 critérios e inclui primeiros sintomas iniciaram antes dos 40 anos na lista. O quadro correspondente da edição de 2022 pede pelo menos 3 entre 4 e não traz mais a idade entre os critérios contados. Quem decorou a régua antiga aplica um corte mais exigente do que o documento vigente pede. Isso não é assunto deste capítulo — dor inflamatória é da reumatologia — mas está registrado aqui porque a fonte é a mesma que governa a linha de compressão medular, e quem cita uma edição precisa saber qual está citando.
Conferência de prazos que não fecham entre si, e nenhuma das duas normas está errada. A Lei nº 12.732, de 2012, dá 60 dias para o primeiro tratamento oncológico e, pelo parágrafo terceiro do artigo 2º incluído pela Lei nº 13.896, de 2019, 30 dias para os exames de elucidação diagnóstica quando a principal hipótese é neoplasia maligna. A diretriz britânica de metástases vertebrais pede ressonância em 24 horas e radioterapia em 24 horas da decisão de tratar. Os prazos brasileiros são de acesso e os britânicos são de emergência, e por isso não se comparam diretamente — mas o resultado prático é que o único prazo legal que o paciente brasileiro com compressão medular tem à mão é de 30 e 60 dias, e a saída que a própria lei oferece é a expressão em prazo menor conforme a necessidade terapêutica do caso registrada em prontuário. Registrar por escrito a urgência não é formalidade: é o que aciona o prazo menor.
Ausência de régua nacional, medida e declarada. Não há, no âmbito federal brasileiro, protocolo clínico e diretrizes terapêuticas, diretriz de linha de cuidado, protocolo de regulação ou diretriz de sociedade que fixe prazo, dose de corticoide ou fluxo de atendimento para compressão medular metastática ou para síndrome da cauda equina. O que existe: o protocolo de encaminhamento de 2022, que descreve os quadros e manda para a emergência sem prazo; o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Câncer de Mama, de 25 de novembro de 2024, que cita a compressão medular apenas como situação em que a ressonância complementa o diagnóstico e como indicação de radioterapia paliativa; e documentos estaduais e institucionais. A ausência é o achado, e ela explica por que os prazos em horas deste capítulo vêm de documento britânico: não há equivalente brasileiro a citar.
Conferência segura de dose: prescreva a dose e a via na convenção adotada pelo produto e confirme a concentração com a farmácia. Volume em mL = dose em mg / concentração em mg/mL, com unidades equivalentes. Não deduza equivalências de sal e base para improvisar número de ampolas; o volume deve corresponder à dose efetivamente prescrita.
A conduta, hora a hora
A linha do tempo abaixo é a de Petronilha, a paciente da cena de abertura, do minuto em que ela senta na cadeira do consultório até a manhã seguinte. Os marcos estão em horas porque essa é a unidade desta doença, e cada um traz o que se faz e o que se escreve — porque em compressão medular o que não está escrito não aciona ninguém.
Duas advertências antes de começar. A primeira: nenhum destes marcos depende de a ressonância ter saído. A ordem é examinar, medir, prescrever, acionar e só então esperar o exame. A segunda: a dose de dexametasona deste capítulo não é por peso, e não se divide pelo peso do paciente — é dose fixa, e a conversão para mililitros está na tabela do bloco anterior.
As doses e vias abaixo estão escritas porque o nível é internato e o interno precisa saber o que vai na prescrição que o preceptor vai assinar. Quem prescreve é o médico responsável pelo paciente.
Minuto 0 a 10 — a conversa que muda a classificação
Antes de examinar, três blocos de pergunta. O antecedente oncológico com as palavras certas: já teve câncer alguma vez na vida, tratado onde e quando. O caráter da dor: alivia deitado, acorda e obriga a levantar, dá a volta em faixa e em que altura, piora ao tossir. E o bloco urinário concreto, uma pergunta de cada vez, nunca a pergunta genérica. Petronilha responde câncer de mama há seis anos, dor em faixa na altura do sutiã, dor que piora deitado e acorda de madrugada, e a filha completa que a mãe molhou a roupa sem sentir. Nesse ponto o caso já saiu da categoria lombalgia, antes de qualquer exame.
Prescrição- Registrar no prontuário, com as palavras do paciente: antecedente oncológico, tipo, ano do tratamento e serviço.
- Registrar a altura da faixa de dor apontada pelo paciente, em dermátomo aproximado.
- Registrar cada resposta urinária separadamente — sensação de bexiga cheia, jato, esvaziamento, escape sem sentir, sensibilidade perineal.
- Registrar desde quando existe a fraqueza e o que ela impede que era possível há uma semana.
Minuto 10 a 20 — o exame de cinco minutos, feito inteiro
Marcha, força graduada e escrita por grupo e por lado, nível sensitivo procurado de baixo para cima e confirmado de cima para baixo, reflexos e tônus com procura de sinais de liberação piramidal, sensibilidade em sela e toque retal com tônus e contração voluntária. Em Petronilha: marcha possível com apoio, força grau 4 em ambos os quadríceps e nos dorsiflexores, nível sensitivo em T6 confirmado dos dois lados, reflexos patelares vivos, Babinski indiferente, sensibilidade perineal reduzida e tônus esfincteriano diminuído. Nenhum desses achados exige equipamento.
Prescrição- Graduar a força de 0 a 5 por grupo muscular e por lado, e escrever o número — adjetivo não se compara com a avaliação de amanhã.
- Anotar o dermátomo do nível sensitivo, dos dois lados, e a hora em que foi medido.
- Fazer o toque retal com acompanhante presente e a explicação dita antes; anotar tônus e contração voluntária.
- Anotar a hora do exame por extenso — é ela que permite medir a velocidade de progressão amanhã.
Minuto 20 a 30 — o resíduo, medido, e a dexametasona, iniciada
Na suspeita de compressão medular metastática com sinais neurológicos, acione o médico supervisor e a equipe especializada imediatamente, ofereça dexametasona 16 mg por via oral ou dose parenteral equivalente assim que possível e solicite RM de toda a coluna o mais cedo possível, sempre dentro de 24 horas. Esse é um prazo máximo de acesso, não uma autorização para esperar diante de piora. Mantenha 16 mg/dia enquanto aguarda cirurgia ou radioterapia e individualize redução depois do tratamento definitivo. Suspeita de linfoma ou mieloma sem déficit neurológico exige discutir com hematologia antes do corticoide; abscesso epidural e cauda equina discal têm condutas próprias. Exame vesical, cateter e documentação não podem atrasar tratamento e transferência.
Prescrição- Sondagem de alívio para medida do resíduo pós-miccional; anotar o volume em mililitros e o horário.
- Dexametasona 16 mg por via oral, se deglutição segura, ou dose parenteral equivalente definida com a equipe e a farmácia. Conferir dose e concentração na mesma convenção antes de calcular o volume; não usar automaticamente duas ampolas de 2,5 mL.
- Omeprazol 20 mg por via oral ao dia, ou equivalente parenteral, como proteção gástrica enquanto durar o corticoide.
- Glicemia capilar de controle, e reavaliação da glicemia enquanto o corticoide estiver em curso.
- Avaliar estabilidade antes de mobilizar. Suspeita de compressão com sinais neurológicos que sugiram instabilidade exige imobilização sem demora; dor importante ao movimento também justifica precaução até avaliação especializada. Evitar impor marcha para completar exame.
Minuto 30 a 45 — os dois telefonemas, antes do laudo
Aciona-se a referência antes do exame, não depois. O primeiro telefonema é para a neurocirurgia ou cirurgia de coluna de referência, para informar o caso e combinar o destino. O segundo é para a radiologia, para a ressonância de urgência. O argumento que faz o exame ser encaixado não é a palavra urgente: é o achado. Diz-se o antecedente, o nível sensitivo, o grau de força por grupo, o estado da sela e o resíduo em mililitros. Se o serviço tiver teleconsultoria disponível, o número do atendimento entra no documento de referência.
Prescrição- Solicitar RM de toda a coluna com protocolo para compressão medular; realizar o mais cedo possível e dentro de 24 horas, sem esperar esse limite se houver progressão.
- Escrever no pedido: sequências sagitais em T1 e/ou STIR de toda a coluna, sagital em T2 e axiais complementares na alteração encontrada.
- Escrever a hipótese nomeada — suspeita de compressão medular metastática em T6 — e não a queixa da triagem.
- Registrar no prontuário a hora de cada telefonema, com quem falou e o que ficou combinado.
- Se a ressonância for indisponível ou contraindicada, solicitar tomografia e discutir com o centro de referência; não substituir por radiografia simples.
Hora 1 a 6 — enquanto o exame não sai
O paciente fica no serviço, monitorado, e não vai para casa aguardar. O que se faz nesse intervalo é analgesia adequada, controle da bexiga e reavaliação neurológica seriada — porque a informação mais útil para quem vai decidir a cirurgia é a taxa de progressão, e ela só existe se alguém repetir o exame. Se a dor for intensa, a analgesia sobe de degrau; a dor oncológica tem manejo próprio no capítulo de cuidados paliativos e dor oncológica desta apostila, e a Lei nº 12.732 prevê acesso privilegiado a analgésico opiáceo para quem tem dor consequente de neoplasia maligna.
Prescrição- Registrar força, sensibilidade e função esfincteriana em série, com frequência definida pela gravidade; encurtar intervalos em déficit ativo e reavaliar imediatamente qualquer mudança, sem esperar o horário agendado.
- Manter cateter vesical de alívio ou de demora conforme o resíduo e a evolução; anotar débito.
- Analgesia escalonada, com resgate prescrito e horário fixo — dor não controlada atrapalha o exame neurológico e a permanência do paciente.
- Manter dexametasona 16 mg ao dia enquanto se aguarda o tratamento definitivo.
- Avaliar diariamente risco trombótico e hemorrágico e planejar profilaxia com a equipe, considerando imobilidade e eventual intervenção espinhal. Para o contexto perioperatório, consultar Duas contas que não se somam, em Pré e Pós-operatório; para imobilismo, O repouso que ninguém prescreveu, em Síndromes do Paciente Internado, ambos do Internato.
Hora 6 a 24 — a imagem sai e a decisão se divide em duas
Confirmada a compressão, a decisão seguinte não é do interno, mas ele precisa entendê-la para explicar ao paciente e para não atrasar nenhuma das duas vias. A cirurgia de descompressão com estabilização entra quando há instabilidade da coluna, quando há déficit progressivo apesar do corticoide, quando o tumor é radiorresistente, quando é necessário diagnóstico tecidual, ou quando o prognóstico global permite. A radioterapia entra quando a cirurgia não é adequada, e a régua britânica pede que ela seja dada o mais cedo possível e dentro de 24 horas da decisão de tratar. Nas duas vias, o corticoide continua até o tratamento começar.
Prescrição- Discutir o caso com oncologia clínica e com cirurgia de coluna na mesma janela; não sequenciar as duas discussões.
- Se houver indicação cirúrgica, encaminhar com a imagem, o exame neurológico seriado e a hora do último exame documentada.
- Se a via for radioterápica, acionar o serviço com o pedido escrito de urgência — na coorte brasileira, 80% dos pacientes foram tratados assim e só 8,9% foram operados.
- Manter dexametasona 16 mg ao dia até a cirurgia ou o início da radioterapia; a redução começa depois disso.
- Se a imagem afastar metástase e compressão, suspender a dexametasona iniciada antes do exame.
Dia 1 a 3 — mobilizar, e reduzir o corticoide
Depois do tratamento definitivo, dois movimentos começam. O primeiro é a mobilização progressiva: se a avaliação de estabilidade indicar que a coluna é provavelmente estável, testa-se sentando de forma graduada e depois com carga, monitorando dor e sintomas neurológicos continuamente; se a dor aumentar de forma significativa ou os sintomas piorarem, volta-se à posição em que isso reverte e reavalia-se a estabilidade. O segundo é a redução do corticoide, que se faz gradualmente e não de uma vez, porque a retirada abrupta produz queda de pressão e desregula a glicemia.
Prescrição- Iniciar sentada graduada e depois carga, com monitorização contínua de dor e de sintomas neurológicos.
- Definir redução da dexametasona com a equipe após cirurgia ou início da radioterapia, considerando resposta, duração do uso e risco de rebote ou supressão adrenal; não impor sequência fixa a todos.
- Manter a proteção gástrica enquanto durar o corticoide e suspendê-la junto.
- Manter fisioterapia motora; na coorte brasileira, 46,7% dos pacientes fizeram fisioterapia ambulatorial e o ganho funcional depende dela.
- Prevenir lesão por pressão e rever diariamente a profilaxia de tromboembolismo com a equipe. O cuidado do imobilismo está em O repouso que ninguém prescreveu, na apostila Síndromes do Paciente Internado; a decisão perioperatória de profilaxia está em Duas contas que não se somam, em Pré e Pós-operatório, ambos do Internato.
Antes da alta — o que precisa estar escrito para o paciente e para a rede
A alta desse paciente é uma transição de cuidado, não um encerramento. Na coorte brasileira, 57,8% dos pacientes foram encaminhados para rede hospitalar especializada em cuidados paliativos, o que quer dizer que essa conversa acontece para a maioria e precisa ser feita bem. A organização do encaminhamento com prioridade e a lógica da rede são do capítulo de redes de atenção à saúde da apostila de medicina preventiva; a comunicação do prognóstico é do capítulo de comunicação de más notícias. O que fica aqui é a lista escrita.
Prescrição- Entregar por escrito, em linguagem do paciente, o que o faz voltar imediatamente: fraqueza nova ou que piora, dificuldade nova para urinar, escape sem sentir, dormência na região de sentar, dor que muda de caráter.
- Registrar no sumário de alta o estado funcional na saída, com a força graduada e a capacidade de andar — é o dado que a próxima equipe vai comparar.
- Registrar o esquema de corticoide em curso, com a dose atual e o plano de redução, e a proteção gástrica.
- Encaminhar formalmente para oncologia clínica e, quando indicado, para cuidados paliativos, com a data do primeiro tratamento registrada — o prazo legal de 60 dias conta a partir do laudo patológico.
- Registrar por escrito, no encaminhamento, a necessidade terapêutica que justifica prazo menor que o legal, com a data e o achado que a fundamenta.
Como saber se está funcionando
Nesta doença a reavaliação não é conferir se o paciente melhorou — é medir a inclinação da curva. O dado que decide a urgência da cirurgia é a velocidade com que o déficit está progredindo, e velocidade só existe quando há duas medidas com hora anotada. Um exame perfeito feito uma vez vale menos que dois exames simples feitos com seis horas de intervalo.
Os parâmetros abaixo são os que se repetem, com o intervalo em que se repetem. Todos produzem número ou categoria comparável; nenhum é adjetivo. Se o serviço tiver folha de sinais vitais, a força e a marcha entram nela — porque o que não está na folha não é reavaliado no plantão seguinte.
Uma regra atravessa a tabela inteira e vale escrever antes dela: dor e função são termômetros independentes. Melhora da dor com piora da função é piora, e é a apresentação que mais frequentemente produz alta indevida.
Esperado: Manutenção ou recuperação da marcha. É o desfecho que mais importa, e ele separa a coorte brasileira em dois grupos com prognósticos distintos: a mediana de sobrevida foi de 7,9 meses no grupo que andava no dia do diagnóstico e de 3,6 meses no grupo que não andava
Se não melhora: Perda da marcha em vigência de corticoide é falha do tratamento clínico e indicação de rediscutir a via cirúrgica imediatamente. Registre a hora exata em que o paciente andou pela última vez — essa hora entra na decisão de operar
Esperado: Estabilidade ou recuperação funcional, comparada ao exame basal; melhora da dor não substitui avaliação motora e ausência de ganho precoce não permite atrasar tratamento definitivo.
Se não melhora: Queda de um grau entre duas avaliações é progressão e aciona o telefonema, não o próximo horário da prescrição. A diretriz britânica manda considerar a velocidade de instalação e o ritmo de progressão para definir a urgência cirúrgica — e é este parâmetro que a mede
Esperado: Nível estável ou descendo — um nível que desce significa que a medula está recuperando função nos segmentos que estavam apenas edemaciados
Se não melhora: Nível que sobe é progressão de compressão e emergência imediata, mesmo com a força inalterada. Nível novo em outro segmento levanta a hipótese de segunda lesão e justifica ressonância de neuroeixo se ela ainda não tiver sido feita inteira
Esperado: Queda progressiva do volume residual e retorno da sensação de bexiga cheia
Se não melhora: Resíduo que sobe indica progressão sacral e é tão urgente quanto perda de força, mesmo em paciente que continua andando. Se o paciente estiver com cateter de demora, o parâmetro que substitui é a sensação de bexiga e o controle voluntário quando o cateter sai
Esperado: Estabilidade ou recuperação da sensibilidade perianal e do tônus
Se não melhora: Perda nova de sensibilidade em sela em paciente já internado é evento que se comunica imediatamente ao serviço de coluna, com hora. Esta é a função que menos se recupera quando é perdida, e é a que mais pesa na vida do paciente depois
Esperado: Redução da intensidade em 24 a 48 horas com o corticoide e a analgesia adequada
Se não melhora: Dor refratária a esquema otimizado é, ela mesma, critério de emergência no protocolo brasileiro de encaminhamento. E o inverso também alerta: melhora rápida da dor com piora da marcha ou da bexiga é progressão disfarçada, e nunca autoriza alta
Esperado: Glicemia controlada e ausência de epigastralgia, com o inibidor de bomba de prótons em curso
Se não melhora: Hiperglicemia não é motivo para suspender o corticoide na fase aguda — é motivo para tratar a hiperglicemia. A retirada, quando chegar a hora, é gradual: a suspensão abrupta pode produzir queda importante da pressão e desregular a glicemia
Onde o erro machuca
O dano: É o erro que produz a maioria dos casos perdidos, e ele não parece erro: o paciente veio por dor, recebeu analgesia e melhorou. Petronilha passou por três atendimentos assim em cinco semanas. Em nenhum deles a força foi graduada, o nível sensitivo foi procurado ou a bexiga foi perguntada — e em todos os três o diagnóstico ainda era recuperável. Quando o exame finalmente foi feito, já havia sela alterada e 380 mL de resíduo.
Como pegar a tempo: Toda dor de coluna com qualquer característica não mecânica ganha exame neurológico dirigido na mesma consulta, mesmo quando a agenda está cheia. Cinco minutos: marcha, força graduada e escrita, nível sensitivo, reflexos, sela quando houver suspeita, resíduo quando houver queixa urinária. E o antecedente oncológico perguntado com as palavras já teve câncer alguma vez na vida.
O dano: A pergunta genérica recebe sim de quase todo paciente, inclusive de quem está com meio litro dentro da bexiga — porque a compressão sacral tira ao mesmo tempo a função e a sensação que denunciaria a falta dela. O que o paciente chama de incontinência costuma ser transbordamento de uma bexiga cheia. Uma resposta afirmativa a essa pergunta genérica é registrada no prontuário como função urinária preservada e fecha a porta da investigação.
Como pegar a tempo: Substituir por perguntas concretas, uma de cada vez, e medir. Sente quando a bexiga está cheia. Demora para começar. O jato está fraco. Fica sensação de que não esvaziou. Escapou sem sentir. Sente o papel higiênico. Percebe gases. E então medir o resíduo — com aparelho de bexiga onde houver, com sondagem de alívio onde não houver — e escrever o número.
O dano: É a sequência que consome a noite inteira. O interno pede o exame, aguarda o laudo, e só então liga para a neurocirurgia — que pede o exame de novo com outro protocolo, ou informa que o transporte só sai de manhã. Nesse intervalo o paciente perde a marcha que tinha ao chegar — e devolver a marcha depois é bem menos confiável do que tê-la preservado, porque a parte isquêmica da lesão não responde a corticoide. O documento britânico de cauda equina é explícito ao dizer que a decisão de fazer a ressonância não depende de discutir antes com o serviço de coluna — e o inverso vale igual: acionar não depende do laudo.
Como pegar a tempo: Telefonar antes do exame, com o achado na mão: antecedente, nível sensitivo, força por grupo, sela, resíduo em mililitros. Registrar a hora do telefonema, com quem falou e o que ficou combinado. O laudo chega depois e confirma ou desfaz; o acionamento não é reversível para trás.
O dano: Metástase vertebral é frequentemente multinível — 15,6% dos pacientes da coorte brasileira tinham acometimento em mais de um segmento. Um pedido restrito à coluna lombar porque a dor é lombar pode encontrar uma metástase lombar irrelevante e não ver a compressão torácica que está produzindo a paraparesia. Pior: o achado lombar vira o diagnóstico, e o tratamento é planejado para o lugar errado.
Como pegar a tempo: Pedir ressonância de neuroeixo — cervical, torácica e lombossacra — sempre que a suspeita for de metástase, escrevendo no pedido as sequências sagitais em T1 e/ou STIR de toda a coluna, sagital em T2 e axiais complementares. Se o serviço só autorizar um segmento, discutir com o radiologista pelo telefone e registrar a limitação no prontuário.
O dano: A recomendação antiga de manter em decúbito horizontal todo paciente com suspeita de compressão foi substituída: a diretriz britânica de 2023 restringe a imobilização a quem tem sinais de instabilidade da coluna, e recomenda posicionar em supino, deitado plano ou com elevação parcial, apenas quem está imobilizado por essa razão. Imobilizar quem não precisa custa caro e o custo é invisível — lesão por pressão, tromboembolismo, desmineralização, perda de massa muscular e uma dependência que o paciente não tinha ao chegar.
Como pegar a tempo: Imobilizar sem demora quem tem suspeita ou confirmação de compressão com sinais neurológicos de instabilidade da coluna, e considerar imobilização em quem tem dor moderada a intensa ao movimento. Para os demais, mobilizar de forma graduada, monitorando dor e sintomas neurológicos continuamente, e retornar à posição anterior se algo piorar. A imobilidade e suas complicações têm capítulos próprios nesta apostila e não se produzem por precaução.
O dano: No paciente com suspeita radiológica de linfoma ou de mieloma e sem sintoma nem sinal neurológico, o corticoide pode reduzir a chance de a biópsia ser positiva — e o paciente fica com uma lesão vertebral tratada às cegas e sem classificação, o que compromete todo o tratamento subsequente. A própria diretriz britânica registra esse risco e manda buscar avaliação hematológica antes de iniciar corticoide nesse cenário.
Como pegar a tempo: Separar os dois cenários com uma pergunta só: há sinal neurológico de compressão. Se há, o corticoide vai antes da imagem, porque o que está em jogo é função. Se não há e a suspeita é hematológica, o corticoide espera avaliação especializada, porque o que está em jogo é o diagnóstico. E se a imagem afastar metástase e compressão, a dexametasona já iniciada se suspende.
O que dizer ao paciente e à família
Três conversas difíceis se sobrepõem nesta doença e costumam acontecer no mesmo turno: explicar que a dor de cinco semanas não era o que disseram que era, pedir um exame íntimo a quem veio por dor nas costas, e dizer que existe uma janela que pode já ter fechado. Nenhuma delas fica melhor com pressa, e todas ficam piores com eufemismo.
A regra que atravessa as sete falas: diga o que você sabe, diga o que não sabe, e diga em quanto tempo vai saber. O que gera desconfiança não é a má notícia — é a notícia vaga. E há um cuidado específico deste capítulo: nunca prometa recuperação da função perdida, e nunca deixe de dizer que a função que ainda existe é o que se está tentando salvar agora.
A comunicação do diagnóstico oncológico em si, com protocolo de abertura e manejo da reação, é do capítulo de comunicação de más notícias desta apostila. O que está aqui é o que é próprio desta doença: o tempo, o exame íntimo e a diferença entre dor e função.
Explicar por que a dor que já foi vista três vezes precisa de exame hoje, sem culpar quem atendeu antes
“Dona Petronilha, eu vou explicar o que mudou. Dor nas costas é uma queixa muito comum, e na maior parte das vezes ela é muscular e passa — foi isso que foi tratado nas outras vezes, e faz sentido. O que apareceu agora é diferente: a senhora tem uma faixa de dormência dando a volta no peito, as pernas estão mais fracas para subir a escada e a urina mudou. Esses três juntos, numa pessoa que teve câncer de mama, me obrigam a pensar que pode haver alguma coisa apertando a medula nas costas. Não é certeza, e é por isso que eu preciso do exame hoje, não semana que vem.”
Não diga: Evitar dizer que foi erro dos colegas anteriores, e evitar o oposto — dizer que estava tudo certo. As duas coisas afastam a paciente do que importa agora. Evitar também a palavra tumor antes de haver imagem: o que se diz é alguma coisa apertando, porque é exatamente o que se sabe.
Pedir o toque retal e o exame da região perineal a quem veio por dor nas costas
“Preciso examinar uma região que a senhora não esperava, e vou explicar por quê antes de fazer. Os nervos que controlam a urina, o intestino e a sensibilidade da região de sentar saem da parte mais baixa da coluna. Se houver algo comprimindo ali, esses nervos são os primeiros a falhar, e a única forma de saber é examinando. Vou verificar a sensibilidade dessa região e fazer um toque para avaliar a força do músculo do esfíncter. Leva menos de um minuto. Se preferir, sua filha fica na sala, e a porta permanece fechada. Basta dizer e eu interrompo na hora.”
Não diga: Evitar fazer sem explicar, evitar explicar depois, e evitar tratar como opcional quando há suspeita de compressão de cone ou de cauda equina — nesse cenário, pular o exame e registrar apenas uma orientação genérica de retorno é o caminho mais curto para a bexiga que não volta. Se a paciente recusar, registre a recusa e a explicação dada, e discuta com quem vai avaliá-la.
Explicar a urgência sem produzir pânico, quando a pessoa está andando e se sente relativamente bem
“A senhora está andando, e isso é a melhor notícia do dia — eu falo sério. Nessa doença é muito mais fácil manter o que a pessoa ainda consegue fazer do que recuperar o que ela já perdeu — e a senhora ainda consegue andar. Então a senhora não vai esperar esse exame em casa, e o remédio que desincha a região já começou, antes mesmo de a imagem ficar pronta. Não é exagero meu: é que a janela é agora.”
Não diga: Evitar dizer que é grave sem dizer o que se ganha agindo — o susto sem saída faz a pessoa querer ir embora. Evitar o oposto, minimizar porque ela está andando: andar é justamente a função que se está tentando preservar, não um sinal de que dá para esperar. E evitar a versão de corredor dessa frase, quem chega sem andar não anda mais, que é mais forte do que os dados e que, dita na frente de quem já perdeu a marcha, fecha uma porta que continua aberta.
Responder à pergunta se eu tivesse vindo antes, teria sido diferente
“Provavelmente sim, e eu não vou dizer que não. Nessa doença o tempo conta, e cinco semanas são muito tempo. Isso não é culpa sua: a senhora procurou atendimento quatro vezes, o que é o certo a fazer. O que importa agora é que a senhora ainda anda, e é isso que a gente vai tentar preservar. Eu não sei ainda o quanto vai voltar do que já foi perdido — vou saber melhor depois do exame e das primeiras 24 horas de tratamento. Assim que eu souber, a senhora vai saber junto.”
Não diga: Evitar mentir para consolar. Dizer não faria diferença nenhuma quando faria é uma perda de confiança que se paga na primeira consulta seguinte. Evitar igualmente atribuir culpa à paciente por ter demorado, o que é falso e cruel neste caso, e evitar promessas sobre o que vai voltar.
Explicar por que ele continua internado se a dor melhorou
“A dor melhorou porque o remédio que eu dei desincha a região comprimida, e isso funciona rápido. Mas melhora da dor e melhora da força são coisas diferentes aqui, e é a força que conta. Hoje de manhã o senhor levantava a perna contra a minha mão com mais firmeza do que agora. Enquanto essa medida estiver mudando para pior, o senhor fica, porque é dessa medida que depende a decisão de operar ou não. Vou repetir esse exame a cada poucas horas e vou anotar cada vez.”
Não diga: Evitar a frase é só para observação, que soa como espera passiva. Evitar também usar a nota de dor como termômetro de melhora diante do paciente — se ele aprender que a nota da dor é o que decide a alta, ele vai reportar a nota que consegue a alta.
Falar com a família sobre o que a compressão já custou, sem fechar a porta e sem prometer
“Vou ser direto sobre onde estamos. A imagem mostrou a compressão, e o tratamento começou. O que estava inchado tende a melhorar nos próximos dias; o que já sofreu falta de circulação pode não voltar. Ainda não dá para separar as duas coisas — quem separa é o tempo, e a gente vai saber mais nas próximas 48 horas e nas próximas semanas. O que eu posso garantir é que nada está sendo adiado, e que vocês vão saber de cada mudança no mesmo dia em que ela acontecer.”
Não diga: Evitar números de prognóstico de sobrevida nesta conversa, salvo se a família perguntar diretamente — e, se perguntar, dizer que a variação é grande e depende do tumor de origem. Evitar a expressão vamos ver, que é a única frase que a família vai lembrar, e evitar prometer recuperação de função perdida.
Entregar a lista escrita do que faz voltar imediatamente, na alta ou no encaminhamento
“Vou escrever aqui numa folha, e quero que a senhora guarde na carteira. Volte na hora, sem marcar consulta, se acontecer qualquer uma destas cinco coisas: fraqueza nova nas pernas ou piora da que já existe; dificuldade nova para urinar ou para começar a urinar; escapar urina ou fezes sem sentir; dormência na região de sentar, aquela que encosta na cadeira; ou dor que muda de jeito, principalmente se passar a acordá-la à noite. Não espere melhorar sozinho, não espere a consulta marcada e não tome mais anti-inflamatório para tentar aguentar.”
Não diga: Evitar entregar a orientação só de forma verbal — o paciente que acabou de receber uma notícia difícil não retém lista falada. Evitar a fórmula volte se piorar, que não diz o que é piorar. E evitar entregar a lista sem dizer para onde ir e em que horário, porque a lista sem endereço vira mais uma espera.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
O protocolo brasileiro em vigor a mantém como degrau
O Protocolo de Encaminhamento — Ortopedia Adulto do Ministério da Saúde, na edição de 2022, condiciona a solicitação de ressonância ou de tomografia a que o raio-X seja normal ou inconclusivo, tanto no protocolo de dor lombar quanto no de dor cervical. A lógica é de organização de acesso num sistema em que a ressonância é escassa, regulada e com fila de meses: o degrau tria quem entra na fila e produz um documento objetivo para a regulação. O raio-X está disponível em praticamente qualquer unidade com apoio diagnóstico e responde bem a três perguntas ósseas — fratura, colapso de corpo vertebral e alteração grosseira de alinhamento.
Brasil. Ministério da Saúde; UFRGS. Ortopedia adulto. Protocolos de encaminhamento da atenção básica para a atenção especializada, v. 4. Brasília, 2022
A diretriz britânica de 2023 proíbe usá-la com essa finalidade
A recomendação 1.5.9 da NG234 é direta: não realizar radiografia simples da coluna para diagnosticar ou excluir metástase vertebral e compressão medular. O fundamento é de acurácia: a lesão lítica precisa consumir uma fração substancial do osso trabecular antes de aparecer numa radiografia, de modo que um exame normal não afasta a doença e um exame com artrose desvia a atenção para um achado que não é a causa. Um degrau que não exclui não filtra nada — apenas adiciona tempo entre o paciente e o exame que responde.
NICE. Spinal metastases and metastatic spinal cord compression. NG234, 6 de setembro de 2023, rec. 1.5.9
Diante do paciente à sua frente, a divergência quase sempre se dissolve, e é preciso ver por quê. Ela só existe no cenário sem sinal de compressão — dor de característica suspeita, exame neurológico normal, sela e bexiga preservadas. Nesse cenário, o degrau do raio-X é o caminho que a regulação brasileira reconhece, e recusá-lo pode custar semanas de fila; então peça o raio-X e peça junto os exames que respondem outras perguntas (hemograma, velocidade de hemossedimentação, cálcio, fosfatase alcalina, eletroforese de proteínas), escrevendo no pedido que o raio-X normal não exclui metástase. Onde a divergência não existe é no cenário com qualquer sinal de compressão: aí o próprio protocolo brasileiro tira o paciente da via de imagem eletiva e o manda para a emergência, e nenhum dos dois documentos coloca o raio-X entre você e a ressonância. A pergunta operacional, portanto, não é qual dos dois está certo — é se este paciente tem sinal de compressão, porque é isso que decide em qual dos dois cenários ele está.
Restringir a quem tem sintoma ou sinal neurológico
A NG234 recomenda dexametasona de 16 mg para quem tem sintomas ou sinais neurológicos de compressão medular (rec. 1.8.1) e recomenda expressamente não oferecer corticoide de rotina no manejo inicial de quem tem metástase vertebral ou compressão sem sintoma ou sinal neurológico, salvo quando isso faz parte de um esquema de radioterapia (rec. 1.8.7). O comitê registra que as recomendações da edição anterior, de 2008, que davam corticoide a todos os pacientes com compressão independentemente dos sintomas, já não refletem a prática atual, e aponta dois motivos: a toxicidade acumulada e o fato de o corticoide antes da imagem e da biópsia poder reduzir a chance de uma biópsia positiva.
NICE NG234, 2023, recs. 1.8.1, 1.8.3, 1.8.6 e 1.8.7, e a seção de fundamentação da terapia com corticoide
Usar corticoide como adjuvante em faixa ampla, inclusive por dor
O Manual de Cuidados Paliativos do Ministério da Saúde com o Hospital Sírio-Libanês, na 2ª edição de 2023, trata a dexametasona como adjuvante analgésico com ação principalmente na dor óssea, na síndrome de compressão medular e no acometimento do sistema nervoso central, numa faixa de 4 a 20 mg ao dia por via oral ou endovenosa, recomendando não ultrapassar 20 mg ao dia no contexto de analgesia e administrar preferencialmente pela manhã pela ação euforizante central. A leitura por dor, e não por déficit, é a que a maior parte dos serviços brasileiros pratica, e a NG234 admite considerá-la quando há dor intensa (rec. 1.8.3).
Manual de Cuidados Paliativos, 2. ed., Hospital Sírio-Libanês e Ministério da Saúde, 2023, seção de dor
Faça duas perguntas ao paciente à sua frente, nesta ordem. Primeira: há sintoma ou sinal neurológico de compressão — fraqueza, alteração de marcha, nível sensitivo, sela, esfíncter? Se há, as duas posições convergem e o corticoide entra imediatamente, antes da imagem, na dose de ataque; a divergência é irrelevante aqui. Segunda, se não há sinal neurológico: qual é o problema deste paciente hoje — dor ou diagnóstico? Se o problema é dor intensa por metástase óssea já documentada, com primário conhecido, a faixa do manual brasileiro resolve e o corticoide é analgésico. Se o problema é uma lesão vertebral ainda sem diagnóstico, sobretudo com suspeita radiológica de linfoma ou mieloma, o corticoide pode custar a biópsia, e a conduta é buscar avaliação hematológica antes de iniciá-lo. As duas posições não se contradizem sobre a mesma pergunta: uma responde o que fazer pela função e a outra o que fazer pela dor. Escreva no prontuário qual das duas perguntas você estava respondendo.
Não há nada a ganhar com o adiamento
O documento de padrões de cuidado da Society of British Neurological Surgeons com a British Association of Spine Surgeons afirma que nada se ganha adiando a cirurgia e que ela deve ser realizada na primeira oportunidade, e acrescenta que não considera existir nada na literatura que justifique contrariar esse princípio. Manda ainda documentar claramente qualquer razão para atraso. A base fisiopatológica é a mesma do resto do capítulo: a compressão que já produziu perda de função sacral está no ponto em que o componente isquêmico começa a substituir o edematoso, e esse componente não volta.
SBNS e BASS. Standards of Care for Investigation and Management of Cauda Equina Syndrome, dezembro de 2018
A morbidade de operar de madrugada entra na conta
O mesmo documento, na mesma frase, manda considerar a duração e o curso clínico dos sintomas e sinais e o potencial de morbidade aumentada ao operar durante a noite. Quem sustenta esta leitura observa que a cirurgia da cauda equina de madrugada é feita com equipe reduzida, sem o cirurgião de coluna titular, sem a instrumentação completa e com anestesia de plantão — e que um paciente cujos sintomas têm quatro dias de evolução não muda de categoria por seis horas, enquanto uma reoperação por lesão dural ou por descompressão insuficiente muda. A NG234, ao tratar de cirurgia, também manda levar em conta a velocidade de instalação e o ritmo de progressão para definir a urgência.
SBNS e BASS, dezembro de 2018, seção Surgery; NICE NG234, 2023, recs. 1.11.3 e 1.11.4
A decisão é do cirurgião que vai operar, e não do interno — mas o interno determina a qualidade da informação com que ela é tomada, e isso muda o resultado. Documente três coisas com hora: quando começou o déficit sacral, qual era o exame há seis horas e qual é agora. Um paciente cujo déficit apareceu nas últimas horas e está piorando entre dois exames é um caso em que a inclinação da curva empurra para operar agora; um paciente com déficit estável há dias, com o mesmo exame às 22h e às 4h, é um caso em que a conta da morbidade noturna pesa mais. Note que a divergência não é sobre esperar ou não — é sobre o que a espera está esperando: se é a equipe completa da manhã, ela é uma decisão clínica que se escreve e se justifica; se é o horário administrativo do centro cirúrgico ou a espera pelo laudo formal do exame já visto, ela é um atraso que a norma manda documentar como tal. Registre no prontuário qual das duas está acontecendo.
O raciocínio, em voz alta
Terça-feira, uma e quarenta da madrugada, pronto-socorro de hospital geral de 130 leitos, cidade de cento e sessenta mil habitantes. Gualter Lavras tem 54 anos, é pedreiro, diabético em uso irregular de metformina, e chegou trazido pela esposa por dor nas costas. A ficha da triagem diz lombalgia e a pulseira é verde. Ele está sentado na cadeira do corredor há duas horas, curvado para a frente, e não consegue ficar deitado na maca — quando deita, a dor piora. A dor começou há nove dias, na região torácica baixa, e é contínua: não melhora com posição nenhuma, não melhora com o diclofenaco que ele tomou por conta, e acorda ele de madrugada. Há três semanas ele teve um furúnculo grande na coxa que drenou sozinho em casa. Nas últimas doze horas passou a sentir uma faixa de queimação dando a volta na altura da cintura, dos dois lados. A temperatura aferida na triagem foi de 37,8 graus, e ficou anotada como sem febre. O interno de plantão é você. O hospital tem tomógrafo com técnico presencial, laboratório com resultado em duas horas, e a ressonância fica na capital, a cento e vinte quilômetros. A neurocirurgia é de sobreaviso.
1. Ler a triagem contra a história, e não a partir dela
A ficha diz lombalgia e a pulseira é verde, e é preciso desfazer essa classificação antes de qualquer coisa. Três informações da própria história já a contradizem: a dor é torácica e não lombar, é contínua e não mecânica, e piora deitado. Além disso, há uma temperatura de 37,8 graus registrada e interpretada como sem febre — num diabético com dor de coluna, 37,8 é febre até prova em contrário. A reclassificação de risco acontece na sua cabeça e depois no papel: este paciente sai do corredor.
2. Perguntar o que a triagem não pergunta
Já teve câncer alguma vez na vida — ele diz que não. Diabetes, e como está o controle — irregular, sem glicemia recente. Alguma infecção nas últimas semanas — e aqui aparece o furúnculo da coxa, que drenou sozinho há três semanas e que ele não considerou relevante. Usa droga injetável, faz diálise, tomou alguma injeção na coluna — não. Está urinando: começou a demorar ontem, e ele achou que era da dor. Nesse ponto o quadro tem nome provável: dor de coluna contínua, febrícula, porta de entrada cutânea recente, diabetes e queixa urinária nova.
3. Fazer o exame de cinco minutos inteiro, incluindo a percussão
Percussão dos processos espinhosos: dor exuberante e reprodutível em T11, indolor dois níveis acima e abaixo. Marcha: consegue andar, com passos curtos e apoio. Força: grau 4 nos dorsiflexores e nos extensores do hálux dos dois lados, grau 5 nos quadríceps. Nível sensitivo: hipoestesia abaixo de T11, confirmada nos dois sentidos. Reflexos patelares vivos, aquileus vivos, Babinski indiferente. Sensibilidade em sela discretamente reduzida, tônus esfincteriano preservado. Sondagem de alívio: 420 mL de resíduo. A percussão levou quinze segundos e é o achado que aponta o nível.
4. Nomear a hipótese antes de pedir qualquer coisa
Abscesso epidural espinhal ou espondilodiscite em T11, com compressão medular em instalação. O que sustenta: dor contínua não mecânica com ponto único de percussão, febrícula, diabetes, porta de entrada cutânea há três semanas — tempo compatível com bacteriemia estafilocócica —, nível sensitivo, paraparesia inicial e retenção. O que não sustenta lombalgia mecânica: nenhum dos achados acima. Nomear importa porque é o nome que vai no pedido e no telefonema, e é o nome que faz o exame ser encaixado.
5. Colher hemoculturas antes do antibiótico — e não adiar a imagem por isso
Dois pares de hemocultura, de sítios diferentes, colhidos agora. Hemograma, velocidade de hemossedimentação, proteína C reativa, glicemia, função renal e gasometria se houver sinal de sepse. O antibiótico começa logo depois da coleta, não antes. A coleta leva minutos e a diferença que ela faz dura semanas: com hemocultura positiva, o esquema é dirigido; sem ela, o paciente é tratado às cegas por seis a doze semanas ou precisa de biópsia. O que não se faz é esperar o resultado do laboratório para pedir a imagem.
6. Resolver o problema da ressonância que fica a cento e vinte quilômetros
A ressonância é o exame, e ela não está aqui. Duas coisas acontecem em paralelo. A tomografia de coluna torácica com contraste é solicitada agora, no próprio serviço, porque ela pode mostrar destruição óssea, coleção paravertebral e realce, e porque ela existe. E o telefonema para a neurocirurgia de sobreaviso acontece no mesmo minuto, com o quadro descrito, para combinar a transferência e a ressonância no destino. O que não se faz é pedir a tomografia, esperar o laudo e só então ligar — a tomografia não afasta abscesso epidural, e o telefonema não depende dela.
7. Escrever o pedido e o telefonema com achado, não com queixa
Homem de 54 anos, diabético, com furúnculo drenado há três semanas, dor torácica contínua há nove dias com dor à percussão de T11, temperatura de 37,8, nível sensitivo em T11, força grau 4 em dorsiflexores bilateralmente e resíduo pós-miccional de 420 mL. Hipótese de abscesso epidural espinhal com compressão medular. Solicito ressonância de neuroeixo com contraste em caráter de emergência e avaliação de neurocirurgia. Essa é literalmente a mesma informação da anamnese, escrita — e é a diferença entre o encaixe e a fila.
8. Decidir sobre o corticoide, e por que aqui ele não é reflexo
A dexametasona da compressão metastática não se transporta automaticamente para a compressão infecciosa. Aqui a coleção é pus, não tumor, e o corticoide não é conduta padrão — o que muda o desfecho é a descompressão e o antibiótico dirigido. A decisão de usá-lo, quando é tomada, é do neurocirurgião e do infectologista diante do caso, e ela se discute no mesmo telefonema. Este é um ponto em que copiar a conduta do capítulo errado causa dano, e por isso ele está escrito com todas as letras.
9. Começar o antibiótico empírico — e conferir o que a farmácia tem
A cobertura empírica precisa alcançar estafilococo, incluindo resistente à meticilina em paciente com porta de entrada cutânea, mais bacilos Gram-negativos. E aqui há uma conferência que muda a prescrição: nem oxacilina nem vancomicina constam da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024. Ceftriaxona consta, no Componente Básico. Quer dizer que o esquema depende do que a farmácia do hospital padronizou, e isso se confere antes de escrever a receita, não depois de ela voltar.
10. Repetir o exame antes do transporte, e anotar a hora
Antes de o paciente entrar na ambulância, o exame se repete: marcha, força por grupo, nível sensitivo, resíduo. Às 04h10 a força dos dorsiflexores caiu para grau 3 à esquerda e o nível sensitivo subiu para T10. Isso é progressão em duas horas e meia, e é a informação mais valiosa que se pode entregar a quem vai receber esse paciente — muda a urgência da cirurgia. A hora anotada é o que transforma dois exames em uma velocidade.
11. Transportar com a informação junto, e não só com o paciente
O resumo que vai com Gualter tem os dois exames com hora, a hipótese nomeada, o horário exato da primeira dose de antibiótico, o registro de que as hemoculturas foram colhidas antes dela, a glicemia e a última medida de resíduo. Vai também o telefone de quem transferiu. Um paciente que chega ao destino sem esses dados é reexaminado do zero e perde as horas que a documentação teria poupado.
12. O que esta madrugada mudou, e o que ela não mudou
Gualter chegou andando e saiu andando. A ressonância confirmou uma coleção epidural posterior de T10 a T12 com espondilodiscite, ele foi descomprimido no mesmo dia e a hemocultura cresceu estafilococo. O que esta madrugada mudou foi a categoria em que ele estava: entrou como pulseira verde e saiu como emergência neurocirúrgica em quatro horas, e a coisa que fez essa mudança foi a percussão dos processos espinhosos somada à pergunta sobre a urina. O que ela não mudou é o resto: nove dias já haviam passado, e o quanto vai voltar da sensibilidade e da bexiga só o tempo vai dizer.
Faça você
Sexta-feira, 18h20, unidade de pronto atendimento de porte II num município de noventa mil habitantes. Macária Japiassu tem 41 anos, é diarista, e voltou. Esteve aqui anteontem por dor lombar que descia pela perna direita, recebeu diclofenaco intramuscular e dipirona, e saiu com orientação de repouso e retorno se piorar. Piorou. Hoje a dor desce pelas duas pernas, e desde o meio da tarde a perna esquerda ficou dormente. Ela conta que está com dificuldade para começar a urinar desde ontem e que agora, sentada na cadeira da sala de espera, não sente direito o assento. Está afebril. Nunca teve câncer, não usa corticoide, não é diabética, não perdeu peso. Ao exame: consegue andar, com dor; força grau 4 na dorsiflexão à esquerda e grau 5 à direita; reflexo aquileu abolido à esquerda e presente à direita; elevação da perna estendida positiva a 30 graus dos dois lados. A unidade tem raio-X, laboratório básico e uma sonda de alívio. Não tem tomógrafo. A ressonância é regulada e a fila do eletivo está em nove meses. O hospital de referência com neurocirurgia fica a oitenta quilômetros. São 18h20 de uma sexta-feira.
1. Diga qual é a hipótese principal, e qual achado a levanta
Some os achados que estão na vinheta e nomeie o quadro. Qual estrutura está comprometida — medula, cone ou cauda equina — e o que na descrição decide entre elas? Note especificamente o que a ausência de nível sensitivo e a presença de reflexo abolido dizem sobre a altura.
2. Liste as perguntas que ainda faltam, com as palavras exatas
A vinheta traz dificuldade para começar a urinar e não sente direito o assento. Escreva as perguntas concretas que ainda precisam ser feitas antes de qualquer conduta, uma por linha, e diga o que cada uma está testando.
3. Diga o que falta no exame físico, e faça-o mentalmente
O exame descrito na vinheta é o de uma lombociatalgia. Diga quais atos do exame de cinco minutos ainda não foram feitos, na ordem em que você os faria, e o que você espera encontrar em cada um se a sua hipótese estiver certa.
4. Diga o número que você vai medir, e como, sem ultrassom
A medida de resíduo pós-miccional pode ajudar, preferencialmente por ultrassom quando disponível. Nesta unidade, cateterização pode ser necessária se houver retenção e indicação assistencial, mas não é requisito para reconhecer a emergência ou transferir. Explique por que um resultado baixo não exclui a síndrome.
5. Decida sobre o corticoide, e justifique
Você já sabe que na compressão metastática o corticoide vai antes da imagem. Diga se aqui ele entra, e por quê — ou por que não. Cite o que na história de Macária muda a resposta em relação à de Petronilha.
6. Resolva o problema da ressonância às 18h20 de uma sexta-feira
A fila do eletivo está em nove meses, o hospital de referência fica a oitenta quilômetros e o fim de semana começou. Diga o que você faz — na ordem, com quem fala e o que diz — e diga explicitamente o que você não faz. Inclua se pede raio-X, e por quê.
7. Escreva o pedido e o encaminhamento como eles devem sair
Redija o texto do pedido de imagem e do documento de referência, com os achados e os números, do jeito que eles precisam estar escritos para serem regulados com prioridade correta.
Ver como fecharíamos
Macária tem suspeita de síndrome da cauda equina: dor agora bilateral, alteração urinária recente, sensação anormal ao sentar e déficit distal assimétrico. Acione imediatamente o supervisor, a referência e a regulação de urgência para RM e avaliação cirúrgica; a fila eletiva de nove meses não se aplica. Investigue sensação de enchimento, início do jato, esvaziamento, escapes e sensibilidade perineal. Complete exame motor, sensitivo e reflexos sem atrasar transferência. Na cauda equina, raízes sensitivas, motoras e autonômicas podem ser afetadas de modo desigual. Alteração urinária ou em sela pode surgir com força preservada; não há ordem anatômica universal de compressão que permita excluir a síndrome. Sinais de neurônio motor inferior favorecem lesão radicular, mas apresentações combinadas com cone exigem correlação e imagem. Resíduo baixo e toque normal não afastam o diagnóstico. Se houver retenção, providencie cuidado vesical; a falta de ultrassom ou de um número de resíduo não justifica espera. Corticoide para compressão metastática não é tratamento padrão de provável cauda equina discal. Ofereça analgesia e proteção conforme avaliação. Na passagem, informe força 4 na dorsiflexão esquerda e 5 à direita, aquileu abolido à esquerda, sintomas urinários e evolução em 48 horas. Não invente tônus retal diminuído nem volume residual: esses achados só entram se realmente avaliados. Documente horário e destino pactuado; capacidade de andar não autoriza alta.
A conta é 16/4 = 4 mL. A equivalência entre dose e concentração foi explicitamente confirmada; quando o rótulo é ambíguo, discutir com a farmácia antes de calcular e administrar.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Sem consultar o texto, apresente o caso principal em um minuto. Explique: Localizar o déficit, reconhecer sinais esfincterianos e diferenciar metástase, infecção epidural e cauda equina; iniciar a resposta de emergência. Justifique a primeira conduta e indique um achado que mudaria o destino do paciente.
Em 30 dias
Resolva novamente o caso para completar. Compare hipótese, diferenciais, gravidade, plano e seguimento com o gabarito. Acrescente uma mudança de contexto — comorbidade, piora, gestação, barreira de acesso ou baixa adesão — e explique como adaptaria a decisão com o supervisor.
Agora atenda
Agora atenda: homem de 68 anos, aposentado, vem à unidade básica por dor nas costas há sete semanas. Ele traz um raio-X de coluna lombar com laudo de artrose e diz que já tomou três tipos de anti-inflamatório. A dor é na região dorsal, não alivia deitado e o acorda de madrugada. Ele menciona de passagem que anda mais devagar e que a esposa reclama que ele está demorando no banheiro. Colha a história que os três atendimentos anteriores não colheram, faça o exame que decide, diga qual número você vai medir e como, e diga o que você pede e para quem liga — e em que ordem.
